august

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Sinopse: Foi em 2019, no quente mês de agosto, que você se envolveu com uma pessoa que marcará para sempre sua vida.
Gênero: romance
Classificação: 12 anos
Restrição: nenhuma
Beta: Olivia W.Z.

 

Whispers of “are you sure?”
“Never have I ever before”

O som agudo do sininho pendurado na entrada da sorveteria em que trabalho preenche o ambiente assim que empurro a porta. Escuto uma movimentação na cozinha e em poucos segundos , meu colega de trabalho, irrompe pela porta branca atrás do balcão enquanto arruma na cabeça o chapéu que faz parte do uniforme.
— Olá, seja bem-vind… — ele para de falar assim que percebe que sou eu e um sorriso brincalhão surge em seu rosto. — Ah, é só você.
— Sou só eu. — respondo com uma risada. O sorriso dele faz com que eu me sinta quente por dentro.
olha as horas no relógio prateado que ele usa.
— Eu saio em 20 minutos e tenho um compromisso urgente não muito perto daqui… — ele inicia com um tom incerto. — Será que você pode quebrar o galho e fingir que não fui embora antes?
Sinto meu sorriso falhar e uma certa onda de tristeza me atinge. Não acredito que vou trabalhar um turno sem . Logo ele, que faz com que esse inferno na terra em forma de sorveteria não pareça tão ruim assim.
— Claro, sem problemas. — digo com um tom desanimado.
— Você é a melhor! — diz ao dar um beijo em minha cabeça. — Eu fico te devendo uma! — ele sai correndo pela porta da frente antes que eu tenha sequer a chance de mudar de ideia.

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Quinta-feira, 3 de agosto de 2019.
Querido diário,
Hoje faz oficialmente dois meses desde que comecei a trabalhar na sorveteria. No começo eu odiava bastante e xingava meus pais mentalmente por me obrigarem a arrumar esse emprego. Quero dizer, é praticamente impossível não odiar o uniforme brega e é definitivamente um porre ter que sorrir animada o tempo todo, mesmo quando você está morrendo por dentro. Não é nada divertido ter que lidar com clientes indecisos que experimentam praticamente todos os sabores de sorvete antes de fazerem a escolha deles. E a pior parte são as crianças insuportáveis que ficam te chamando enquanto você conversa com os pais delas.
Toda vez que chego para trabalhar, eu solto um suspiro desolado antes de sair do carro. Apesar de tudo, tenho certeza de que seria mil vezes pior se não fosse ele lá comigo durante as cinco horas que passo dentro daquele estabelecimento. E é por isso que hoje tive o pior dia de trabalho, porque ele não estava lá.

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Por alguma benção do destino, meu chefe resolveu fechar a sorveteria por três dias. Algo a ver com dedetização, mas confesso que não prestei atenção no que ele falava após as palavras “três dias de folga”. Minha felicidade de poder ir para a viagem da praia que minhas amigas tinham me convidado foi tão grande que só concordei com tudo que Paul falava ao telefone e desliguei o mais rápido possível.
A brisa marítima atinge meu rosto com tudo assim que vejo a orla da praia. “She Loves Control” da Camila Cabello toca alto no som do carro e eu pela primeira eu sinto que estou aproveitando o verão.
A casa de praia que vamos ficar hospedados aparece imponente à minha frente, as grandes janelas abertas deixando que o ar entre e agite as cortinas brancas por todos os lados. O suave tom amarelo das paredes de madeira e o canteiro de flores diversas dão um toque leve e alegre para a residência.
Uma das vagas da garagem está preenchida com um carro que deve ser de , namorado de Inez. Ela contou que ele viria mais cedo com uns amigos, que não faço a menor de quem são. Grace estaciona o carro e sinto uma onda de animação correr pelo meu corpo, a felicidade de ter uns dias de folga com pessoas que eu gosto me deixa quase eufórica.
— Os meninos já devem estar na praia! — escuto Inez gritar assim que passo pelo portal da enorme sala de estar.
Assim como eu, Grace está embasbacada, admirando o ambiente. As paredes são extremamente brancas e a decoração segue o tema praia, com muitos itens em tons de azul um sofá enorme na cor creme. Nos aproximamos das portas de vidro gigantescas que dão vista para o mar e a paisagem é de perder o fôlego. A areia quase branca reflete os raios de sol intensos, mil pontinhos brilhantes reluzindo por todo caminho até a água. Reparo na pequena calçada de madeira clara que se estende até a praia. O caminho é ladeado por plantinhas verdes que só vemos a beira mar.
Ao longe, vejo alguns pontinhos pretos na água, que assumo serem os rapazes.
— Ei! Vocês ainda estão paradas aí? — Inez reclama ao descer as escadas, já vestida com um minúsculo biquíni vermelho. — Andem logo, o sol não vai ficar no céu o dia todo!
Subo com minha mochila até o quarto que vou dividir com Grace, que não deixa de surpreender com a decoração elegante e camas de casal. Troco os shorts jeans e regata pela roupa de banho e desço ansiosa para colocar os pés na areia fofinha e sentir a brisa marítima bagunçando meus cabelos.
Escolho uma cadeira sob a proteção do guarda-sol enquanto Grace se junta à Inez sob o sol escaldante. Abro meu livro e começo a ler tranquilamente, o som das ondas se quebrando é a trilha sonora perfeita para o momento.
Após alguns minutos, escuto vozes masculinas se aproximando e levanto o olhar para ver quem se aproxima. Para minha surpresa, é um dos amigos do namorado de Inez.
? — o tom de voz grave dele exprime certo espanto quando ele nota a minha presença. — O que faz aqui?
— Eu que te pergunto… era esse o seu compromisso urgente? — minhas palavras saem um pouco venenosas, mas o sorriso divertido no meu rosto deixa claro que é apenas uma brincadeira.
Mesmo por trás dos meus óculos escuros, vejo o rosto de corar levemente por ter sigo pego no flagra. Desde que nos conhecemos, ele sempre fez algumas brincadeirinhas que nunca entendi muito bem se estava zoando com a minha cara ou flertando comigo. Talvez fosse um pouco dos dois, então decidi devolver um pouco do próprio veneno para ele.
— Acho que nem tenho como me defender. — ele fala rindo e dirige a mim um sorriso brilhante.
! — o chama ao se aproximar. — Precisamos da sua ajuda para trazer os troncos e montar a fogueira. — o moreno assente e começa a se afastar. — Oi, ! Tudo bem?
— E aí, . Tudo ótimo, e você?
— Tô ótimo também! — o garoto sorri abertamente e seus olhos brilham em minha direção. — Não sabia que vocês se conheciam.
— Nós trabalhamos juntos. — responde no meu lugar.
— Que azar, hein . — nós rimos e o mais velho dá um soco no braço de , o sorriso nunca saindo de seus lábios.
— Ele é até ok.
— Assim eu fico ofendido, coração. — fala ao dramaticamente colocar a mão direito sobre o coração. — Achei que nosso relacionamento significasse mais para você.
Meu coração erra as batidas com as palavras dele. É apenas uma brincadeira, mas não posso evitar sentir as borboletas no meu estômago.
— Vai sonhando, .

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Encosto no parapeito da varanda e fico apenas observando a movimentação ao redor da fogueira. Uma corrente gelada vinda do mar me envolve por completo, fazendo com que eu me arrepie. A blusa de manga longa que vesti após o banho não é quente o suficiente para me esquentar.
— Cerveja? — viro-me para o dono da voz e vejo sair de dentro de casa com duas garrafas em mãos.
Pego a que ele estende em minha direção e giro a tampa para abrir. Dou um gole comedido e sorrio ao sentir o líquido gelado descer por minha garganta.
— Nada como uma cervejinha gelada. — digo e concorda, dando um segundo gole na dele.
— Considere isso como a retribuição do favor. — ele sorri esperto.
— De maneira alguma! Uma cerveja é o mínimo. — balanço a cabeça. — E você está me devendo duas, ou tá achando que esqueci que te peguei no flagra?
O jeito que os olhos dele se fecham enquanto ele sorri fazem com que as palmas das minhas mãos comecem a suar. Ainda sorrindo, ele joga a cabeça levemente para a direita e cobre parte do rosto com mão.
— Droga, achei que conseguiria te convencer a ficar quieta com uma cerveja gelada.
— Tá achando que sou fácil e barata? — pergunto com um falso tom ofendido e ele abre um sorriso sacana. — Não responde!
Nós caímos na risada e ele encosta no parapeito ao meu lado. Ficamos em um silêncio confortável e volto minha atenção para o mar. solta um suspiro e olho para ele com a sobrancelha esquerda levantada em um mudo questionamento.
— Você já quis fazer algo que não devia, mas não pôde deixar de fazer simplesmente porque você quer muito aquilo? — a voz dele sai baixa e meio rouca, o que faz com que meu corpo inteiro se arrepie.
O olhar dele desvia da paisagem diretamente para minha boca e mordo meus lábios involuntariamente.
— O tempo todo.
Minha voz não passa de um sussurro e meus pulmões reclamam da falta de ar. Por alguns instantes, eu me esqueci como se respira. fecha os olhos com força e sacode a cabeça. Ele desencosta do parapeito e anda em direção ao passeio que leva à praia. Assim que chega ao final da varanda, ele se vira e fala:
— É a exata situação em que me encontro agora.
Ele volta a andar, me deixando para trás um pouco trêmula e muito confusa.

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Segunda-feira, 7 de agosto de 2019.
Querido diário,
O final de semana foi intenso, para dizer o mínimo. Nunca na vida esperava encontrar com o na casa de praia. Foi uma surpresa enorme, só não maior do que a resposta para a dúvida que eu tinha.
Sim, ele estava flertando comigo o tempo todo.
Quando acordei sábado pela manhã, ele não estava mais lá. falou que ele precisou ir embora, mas não deu grandes explicações. Tenho certeza de que tem a ver comigo, o que me faz sentir vontade de chorar.
Passei os últimos dois dias pensando no que fiz de errado e não cheguei à conclusão alguma além de: ter um crush é uma droga.

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Giro a chave na ignição para desligar o motor do carro. Solto um suspiro derrotado antes de sair do veiculo e atravesso o estacionamento do shopping. A cada passo que dou em direção à sorveteria eu sinto na boca do meu estômago um princípio de ansiedade.
Por favor, esteja aqui — o pensamento se revira no meu cérebro. Nunca antes quis tanto que viesse trabalhar. Ando os poucos metros da entrada até a loja com passos rápidos. Assim que viro a esquina que dá para a sorveteria, minhas mãos começam a tremer.
A porta de entrada está aberta e vejo que o local está vazio. Dou a volta no balcão e sigo para a sala de funcionários, que também está vazia. Ainda com as mãos tremendo, guardo minha mochila no armário e escuto a porta do banheiro sendo aberta.
O ar preso em meus pulmões – que não percebi que prendia até esse momento – escapa pela minha boca e desvia sua atenção de sua camisa meio aberta até mim. Diferentemente do dia na praia, eu reparo que ele tem o peitoral definido e algumas tatuagens pelo torso, mas desvio o olhar tão rápido que nem tenho tempo de analisar o que são.
— Por Deus, ! Você não pode sair sem roupa por aí! — exclamo com a voz meio aguda.
— Já estou decente. — solta uma risada e devagar volto meu olhar para ele, que já acabou de fechar os botões da camisa. — E não é nada que você já não tenha visto, de qualquer maneira.
— Mesmo assim, não é algo que eu queira ver.
Os lábios dele se abrem em um sorriso debochado. Tenho plena consciência de que meu rosto deve estar vermelho como um pimentão, o que só denuncia que estou falando uma grande mentira. sem camisa é sim uma visão que me interessa.
Tem certeza, ?
Confirmo com a cabeça de forma incerta e o sorriso dele se abre ainda mais. Ele sabe que me tem na palma da mão. tira de dentro do armário o avental e passa por mim, surrando:
— Eu não teria tanta certeza.

Wanting was enough
For me, it was enough

Sexta-feira, 18 de agosto de 2019.
Querido diário,
Eu sei, já faz um tempo desde que escrevi algo pela última vez. Bom, várias coisas aconteceram e muito mudou. Mas não se preocupe, vou te deixar a par de tudo agora mesmo.
Enquanto estou escrevendo isso, ouço o suave ranger da porta que dá para a varanda e consigo sentir o cheiro salgado da água do mar que é carregado pela brisa. Estou na casa de praia da família de com ele. Pode parecer esquisito o que vou falar, mas sinto que nunca precisei de mais nada além disso.
Não tenho certeza de como as coisas se desenrolaram exatamente. Após a outra viagem da praia e aquele momento na varanda, nós passamos de “flertar amigavelmente” para “flertar intensamente”. Há pouco mais de uma semana, antes de irmos embora depois do expediente, ele se ofereceu para me acompanhar até meu carro e conversar um pouco.
Eu deveria ter entendido o que ele realmente queria. Estava bem na minha cara.
Sentamos no banco de trás e falamos sobre aleatoriedades. “Sugar, We’re Goin Down” do Fall Out Boy começou a tocar no rádio e nossa empolgação pela música foi a mesma.
Então, dirigiu a mim um olhar que eu nunca tinha recebido antes. O mais puro desejo brilhava nos olhos castanhos dele. Ele esticou o braço, repousou a mão esquerda na minha bochecha e acariciou de leve meu rosto. Seu polegar se arrastou por meus lábios. Fechei os olhos com o carinho.
Senti a respiração dele bater no meu rosto e sua mão se entranhou em meus cabelos. Com a boca quase colada à minha ele falou: “me desculpa, mas eu realmente preciso fazer isso”.
No instante seguinte, nossos lábios estavam colados e iniciamos um beijo suave. Como palha pegando fogo, a calma foi deixada de lado e o beijo que trocamos ficou cada vez mais faminto, ardente e até levemente agressivo. Eu senti toda a sede de e não hesitei em devolver toda a intensidade.
Quando finalmente nos separamos, após vários minutos, estávamos ofegantes. me falou que queria fazer isso há algum tempo e eu disse que eu também. Ele me puxou para outro beijo voraz e eu apenas me deixei levar no momento.
Desde então, nós tivemos vários momentos roubados dentro do carro. O estacionamento atrás do shopping virou nosso local favorito. Nós conversamos, ouvimos música e ele fuma um cigarro ou outro.
Alguns dias, foi até minha casa quando meus pais não estavam. Eu fui várias e várias vezes até a casa dele. Passamos muito tempo juntos nos conhecendo melhor. E quando não estamos juntos, trocamos centenas de mensagens. Desde as mais idiotas, como a vez que reclamei de um pedaço de bolo meio seco, até mensagens que fizeram minhas bochechas esquentarem pelo conteúdo um tanto explícito.
E agora, depois de tudo isso, estou vendo-o deitado na cama, dormindo profundamente. Seu cabelo castanho está levemente bagunçado de uma maneira adorável e seu rosto está completamente relaxado. A luz suave que entra pela janela reflete na pele dele, o deixando com um ar angelical que sem dúvida não pertence a ele. Não depois de tudo que fizemos ontem.
Nunca gostei de ninguém como gosto dele. Eu pensei falar isso para ele, mas ele foi mais rápido. Estávamos abraçados, quase dormindo, e ele perguntou se eu estava acordada. Assenti suavemente e mudei de posição para olhá-lo nos olhos.
Sem nenhum tipo de aviso, falou “Eu gosto de você, . Mais do que você pensa”. Desviei o olhar, envergonhada e sem conseguir falar para ele que eu sinto o mesmo. Ele segurou meu queixo e puxou meu olhar de volta para o dele. Sem dizer uma palavra, selou nossos lábios. Depois disso, nos aconchegamos de novo e dormimos.
Fico pensando que talvez eu tenha me precipitado ao aceitar o convite, mas ele me quer tanto quanto eu o quero. E, para mim, isso é o suficiente. Além disso, gosto da sensação de fazer as coisas sem pensar mil vezes antes.
Existe grande liberdade em ser um pouco inconsequente.

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Se antes eu não gostava da sorveteria, nem me lembro. Cada vez mais, a perspectiva de ver me impulsiona a ir trabalhar. Sempre que estou a caminho do shopping, um pequeno nó se forma em meu estômago e só se desfaz depois que eu o vejo, se transformando em pequenas borboletas.
Mal estou prestando atenção no filme que passa na TV. Olho meu celular de um em um minuto, ansiosamente esperando que dê sinal de vida. O aparelho vibra, mas é apenas Grace mandando um emoji chorando em resposta a uma mensagem em que disse que não poderia ir ao cinema.
Falei que teria que ajudar minha mãe a fazer os doces para vender na igreja, mas é uma grande mentira. Cancelei meus planos apenas para o caso de me ligar e pedir para que eu o encontre atrás do shopping, como ele tinha prometido que faríamos ontem. Eu estou basicamente vivendo pela esperança de receber uma ligação dele.
Tem aproximadamente vinte dias que estamos ficando, mas eu sinto como se fizesse uma eternidade. Agosto é conhecido por ser um mês que demora a passar. Dessa vez, ao mesmo tempo que os dias escaparam em um instante no tempo, eles também se arrastaram vagarosamente.
Resolvo dar uma volta de carro para passar me distrair e pego as chaves do meu Ford Bronco no aparador ao lado da porta. Aumento o volume do rádio e uma música desconhecida por mim preenche o ambiente. Viro a esquina de casa e sigo em direção ao shopping.
Assim que entro no pequeno estacionamento, dou uma freada brusca ao ver que está encostado em uma pilastra com o celular na mão esquerda. Seu braço direito se move e ele leva um cigarro aos lábios, dando uma leve tragada antes de soltar a fumaça. Ele olha para a direita e abre um sorriso. Meu coração se aperta no peito ao ver uma garota se aproximar. Acho que ela trabalha na loja de maquiagem do outro lado do corredor.
a abraça e, assim que se soltam, eles dão um beijo caloroso. Sinto algumas lágrimas escorrerem pelo meu rosto e solto um soluço. Sem enxergar um palmo à minha frente, acelero o carro e saio dali o mais rápido que posso.

☆☆☆☆☆

Acabo de sair do banho quando meu telefone toca. Pelo visor, consigo ver que é quem me liga. Penso em apenas ignorar, mas a curiosidade fala mais alto e atendo a ligação.
— Alô. — tenho plena consciência de que eu soo extremamente irritada.
? Tá tudo bem? — o tom preocupado dele quase me desarma. — Eu estou aqui na frente da sua casa, poderia descer por um minuto?
Sinto minha pressão baixar e minhas pernas fraquejam. Me apoio na escrivaninha para evitar uma queda. Eu tenho plena consciência que mais cedo ou mais tarde iria enfrentá-lo. E, sinceramente, eu preferia que fosse mais tarde. Mas ele está aqui, então reúno toda coragem que posso para respondê-lo:
— Claro, me dê cinco minutos.
Sem nem esperar por uma resposta, desligo a chamada. Corro para vestir uma calça jeans e minha camiseta preta do AC/DC, calço um par de chinelos e penteio o cabelo. Meus olhos estão meio inchados, mas não tem nada que eu possa fazer. Ainda tremendo, cuidadosamente saio pela porta da frente e vejo sentado na moto vermelha dele, me esperando.
Assim que me vê, ele dá um sorriso fraco. Paro de frente para ele e espero que ele diga o motivo para ter vindo.
— Eu sei que você me viu no shopping hoje. — ele dispara e eu apenas o encaro, esperando que ele continue. — Eu posso explicar…
— Explique. — replico com um tom duro. — Eu não consigo dizer o que passa pela sua cabeça. Então, por favor, me diga.
— É complicado…
Dou uma risada debochada.
— Você veio até minha casa para isso? — balanço a cabeça descrente e fecha os olhos, se preparando para o que tenho a dizer. — Nós estamos indo bem. Desde que nos beijamos pela primeira vez, ficamos juntos todos os dias. — meu tom de voz sai frustrado. — Eu estou me jogando de cabeça nesse relacionamento, estou realmente gostando de você. E você me disse que gosta de mim, mas agora está aqui me encarando com dúvida no olhar. — cruzo meus braços antes de prosseguir. — Se você está mudando de ideia em relação ao que estamos construindo, pelo menos seja homem o suficiente e me diga.
passa as mãos no rosto, frustrado. Eu praticamente posso ver as engrenagens funcionando na cabeça dele.
— Eu acho que gosto de você, . E também gosto da Betty. — ele fala ao desviar o olhar. — Eu não tenho certeza do que quero.
— Você acha? Por que você deixou aquelas palavras saírem da sua boca se você não tem certeza? — digo com raiva. — Não me faça andar em círculos, . Isso não é justo comigo.
— Você me deixa confuso! Tem ideia de como me senti ao admitir que gosto de você e você não ter respondido? Achei que não gostasse de mim.
— Nem tente me colocar de vilã. — falo incisivamente. — Eu deixei claro, diversas vezes, que gosto de você. Só nos últimos cinco minutos, falei duas vezes. E de qualquer maneira, você achar algo não te dá o direito de sair com outra pessoa quando nós estamos juntos.
— Não estamos juntos, . — a crueza das palavras dele são como um soco no meu estômago. — Nós não somos namorados.
Sinto meu corpo todo ser tomado por uma grande carga de raiva.
— Então você é um belo de um filho da puta por agir como se fossemos.
Exausta de conversar, viro para caminhar de volta para dentro de casa. Ando até metade do caminho antes de decidir que ainda preciso falar mais algumas coisas. está colocando o capacete na cabeça, mas para ao perceber que caminho de volta até ele.
— A outra garota, ela sabe que você estava saindo comigo?
O silêncio dele fala por si só.

You weren’t mine to lose

Quarta-feira, 7 de setembro de 2019.
Querido diário,
Parando para analisar melhor tudo que passei com o , eu acho que eu sempre soube. Eu sempre soube que tinha algo de errado, mas me fingi de desentendida. Os momentos roubados pareciam suficientes para alimentar nosso desejo, até que se mostraram não ser. E talvez seja isso que destruiu tudo.
Após nossa discussão na frente da minha casa, fiz questão de contar para Grace tudo que aconteceu. Eu tinha certeza que ela falaria para Inez, que descobri pelo Instagram ser amiga da tal Betty. Apesar de não podermos acreditar sempre no que Inez fala, dessa vez será verdade. E eu espero que a Betty acredite e mande o para o inferno.
Lembra quando eu disse que existe liberdade em ser inconsequente? Pois bem, eu só esqueci de pensar que, mesmo com a liberdade, as consequências um dia cobram a conta. E o preço sempre é alto. Eu terei que lidar com minha consciência e encontrar uma maneira de me perdoar. Já ele, vai perder tudo que tem.
Para mim, fica também a lição. Relendo algumas coisas que escrevi em junho, me deparei com uma pergunta que a Sra. Hanover fez no último dia de aula: “quem é a pessoa que teve maior impacto na sua vida?”.
Bom, segundo o antropólogo Robin Dunbar, nós conhecemos aproximadamente três pessoas por dia. Isso dá um total de 1.095 pessoas por ano. Eu tenho 22 anos, então devo ter conhecido cerca de 24.090 pessoas.
Como escolher a pessoa que teve o maior impacto na minha vida?
Você deve estar pensando: “ , a maioria dessas pessoas são apenas desconhecidos!” e eu te dou total razão. Mas todo relacionamento começa com dois estranhos, certo?
Minha relação com o começou assim. Nós éramos dois estranhos com o mesmo emprego. E passamos por tudo que você já sabe. De todas as memórias que tenho de nós dois, resolvi guardar o exato momento em que percebi que ele é um enorme babaca. Não com o intuito de remoer esse fato para o resto de minha vida e guardar rancor, mas sim porque, apesar de tudo, sou grata pela coisa mais importante que ele me ensinou: o tipo de pessoa que não quero ser.
As coisas na sorveteria tiveram um declínio rápido. foi demitido sei lá por qual motivo, mas agradeço ao universo por ter me dado essa colher de chá. Tenho certeza de que a nossa convivência teria sido um inferno. Além disso, toda vez que penso no assunto eu sinto meus olhos começarem a lacrimejar e meu coração se aperta no peito.
Ainda estou machucada, mas tenho certeza de que ficarei bem. Foi tudo muito complicado para um amor de verão e agora eu sei que ele nunca foi meu para perder. Nossa história foi intensa e rápida e tenho certeza de que, por um tempo, o mês de agosto não será mais o mesmo.

FIM.

Nota da autora: Olá! Se você chegou até aqui, eu quero deixar um grande MUITO OBRIGADA!
Escrever essa fanfic foi um desafio enorme. Eu tinha uma ideia para essa música incrível, mas nada muito definido. Assim que fiquei sabendo do especial, decidi que era a minha oportunidade de desenvolver essa história. Acho que nunca reescrevi tanto uma fanfic igual eu fiz com essa. Esse estilo de diário foi, de longe, o estilo mais difícil em que já escrevi. Queria agradecer a todas as minhas amigas que ficaram aguentando meus surtos e receberam partes dessa fic. Obrigada pela paciência, amo vocês!
Mais uma vez, muito obrigada a você leitora. Espero que tenha gostado de viver esse relacionamento intenso e complicado. É claro que não posso deixar de dizer: PARABÉNS, FOFIC! Esse site é só amor e sou grata pelo acolhimento. Que venham muitos anos de vida <3