Beautiful Ghost

Beautiful Ghost

Sinopse: A mulher jovem, com cabelos claros e olhos azuis que muitos poderiam considerar belíssimos, sai do restaurante em que trabalhava, observando a escuridão. Olhando a paisagem vazia era como se ela não se preocupasse com nada, enquanto vagava pelas ruas de Londres, pois a mesma já se considerava sozinha e assombrada, como as ruas que caminhava, porém lá no fundo de sua alma esperava que alguma coisa ou alguém aparecesse para que sua vida pudesse começar de verdade.
Gênero: Romance
Classificação: Livre
Restrição: Nenhuma

A mulher jovem, com cabelos claros e olhos azuis, que muitos poderiam considerar belíssimos, fecha a porta do restaurante que trabalhava e em seguida começa a percorrer as ruas vazias da capital londrina por mais uma noite.
Safira Willians nasceu em uma pequena cidade no meio do país e assim que completou 18 anos, viajou até Londres para tentar realizar seus sonhos e conseguir uma chance de vida melhor, para que no futuro trouxesse sua mãe e juntas terem um conforto e deixar para trás a vida de interior.
Uma das histórias que mais queria abandonar era o fatídico acidente que havia vivenciado quando pequena, com apenas 10 anos de idade. Ela havia ido com seu pai para conhecer os campos da cidade vizinha e na volta, quando estavam passando sobre uma ponte, um carro tentou ultrapassar um caminhão que estava na outra mão. Seu pai ao tentar evitar bater, desviou e passou a proteção da ponte, levando-os diretamente para o rio que passava abaixo. Com o impacto, ambos acabaram desmaiando, não conseguindo terem reação com a água entrando continuamente conforme o veículo ia afundando cada vez mais. Alguém que vinha na rodovia viu o acidente e parou para ajudar, chamou uma ambulância imediatamente e mergulhou no rio para tentar salvar quem estava no veículo, mas somente Safira foi salva. O corpo de seu progenitor juntamente com sua vida, afundaram nas águas escuras.
Com o impacto que a pequena Safira havia sofrido, o choque da água gélida em seu corpo, a mesma ficou por meses em coma e quando acordou no hospital, percebeu que o mundo nunca mais seria o mesmo, pois além de ter perdido seu querido pai, sentia em certos momentos que ficava sem ar, como se a sensação de estar afundando e a água entrando em seus pulmões voltasse à tona. Ela precisava focar em seu presente para tentar superar tudo e seguir em frente, mesmo que fosse imensamente difícil.
A noite estrelada na capital da Inglaterra, onde Safira Willians caminhava ao ser a última a sair de seu trabalho, se estendia por todo seu trajeto até a pequena quitinete em que morava, que ficava a alguns quarteirões de distância. O trabalho dela, como garçonete e, quando o estabelecimento fechava, de limpar o local inteiro, era tão superficial para a mesma, que sua vida se passava em tons de cinza. Era como se em suas memórias, não houvesse nenhuma beleza para ser apreciada, por tudo o que havia vivido. Muitas das coisas que haviam se passado, eram como se fossem fantasmas em sua vida, porque as lembranças e memórias haviam se perdido ao longo do tempo.
Ela sai do restaurante, observando a escuridão e no fundo espera que alguma coisa aparecesse para que sua vida pudesse começar de verdade. Era como se ela não se preocupasse com nada, enquanto vagava pelas ruas de Londres, pois ela já se auto considerava sozinha e assombrada, como as ruas que caminhava.


No dia seguinte seguiu sua rotina de sempre, já que a única coisa que fazia era trabalhar e seu turno começava somente às 18 horas. Não tinha alguém que poderia considerar uma amizade, já que quando estava no restaurante tentava se concentrar em atender os clientes da melhor maneira para conseguir uma gorjeta, trazer os pedidos corretos às mesas, e após o restaurante fechar, limpava todas as mesas, banheiros e o salão inteiro. A mulher alta e magra não conversava muito, somente o necessário para o trabalho e não sabia desenvolver uma conversa por muito tempo, já que era muito tímida e poucos eram os que conseguiam tirar mais do que algumas frases dela em conversas pessoais. A pessoa teria que conseguir a confiança dela, pois em suas concepções, era muito fácil as pessoas irem embora de sua vida, porém o que ela mais se perguntava era quem poderia ficar e realmente construir algum tipo de relacionamento com ela.
Quando o relógio dá meia-noite, as portas são fechadas e começava o turno da limpeza. Enquanto Safira preparava os materiais de limpeza para começar, via a movimentação na cozinha e percebia que aqueles que ficavam por lá, já estavam quase terminando de lavar as panelas, o fogão e logo começariam a varrer e passar o pano no piso cerâmico e em alguns minutos ela seria a única no lugar. Mesmo não falando muito sobre ela, havia conseguido a confiança do dono do lugar, independentemente de estar a poucos meses trabalhando no local. Quem a conhecia, com pouco tempo em sua presença, como por exemplo os clientes que ela atendia, tinha a certeza de uma coisa: Safira Willians era uma mulher simpática, mesmo que seus olhos transmitissem que havia muitas coisas escondidas.
Os minutos iam se passando e os outros que trabalhavam por lá iam se despedindo e indo para o conforto de seus lares, até que restava apenas Safira. Ou pelo menos era o que ela achava. Enquanto terminava de passar o pano molhado no chão, ouviu um barulho na cozinha. Estranhou, já que pensava que era a única lá.
Merda.
Ela escuta uma voz masculina e vai se aproximando cautelosamente. Abre a porta dupla que dividia o salão da grande cozinha, que era o centro do restaurante, e estranha ao ver a figura de um homem alto, com os cabelos escuros e a pele morena. Nunca o havia visto antes.
— Quem é você? — Ela pergunta com a voz fraca.
O homem vira para ela, com os olhos arregalados pelo susto da presença repentina e silenciosa de Safira, e passa as mãos pelo cabelo.
— Desculpa pelo barulho. Eu estava arrumando as panelas aqui da bancada de baixo, o pessoal deixou a maior bagunça para ir embora o quanto antes. — Ele tentava se explicar de um jeito atrapalhado e piscava os olhos rapidamente.
Quem é você? — Pergunta novamente agora com a voz mais firme, achando-o estranho.
— Ben. Ben Quentin. Sou novo aqui, acho que nunca nos vimos de verdade, fico mais aqui na cozinha escondido. Desculpa novamente por te assustar, já estou saindo.
— Não me assustei.
— Qual seu nome? Ainda não peguei o nome de todos. — Ele se encosta na bancada central da cozinha e dá um sorriso pequeno, tentando mudar sua imagem para uma mais gentil. Safira ainda estranhava a presença do antes desconhecido Ben. Tentava acreditar nele, mas ainda tinha suas desconfianças.
— Safira. — Diz somente.
Safira… — Ele fala demoradamente, apreciando cada sílaba do nome dela. — Que nome lindo. — Ele a encara. — E seus olhos são iguaizinhos a cor da pedra. Bonitos.
Ela fica parada próxima a porta de entrada da cozinha, com o coração em disparada, pois não estava confortável com a situação que se encontrava. Ben era alguém diferente. Possuía algo de diferente em si, que ela não sabia como explicar, já que o momento era completamente novo para ela. Sempre havia estado sozinha e de repente aparece alguém, que estava ainda conversando com ela normalmente, sem se importar com nada.
Ele era até que atraente, com os fios de cabelo escuros, chegando muito perto de um preto azulado, a pele morena como se tivesse morado na praia e que todos os dias ia pegando um pouco mais de cor. Seus olhos eram um castanho brilhante, que se os encarasse por um tempo, seria capaz de nunca mais conseguir desviar de seu olhar. Era um rapaz alto, com ombros largos e possuía uma postura impecável. Safira se perguntava o porquê de estar ali, sendo que era alguém digno de ser famoso e rico.


A semana ia passando lentamente, onde Safira ia se soltando cada dia mais ao conversar com Ben. Estranhamente, ela só o via quando todos iam embora, porém, ela não tinha tempo para ficar procurando o par de olhos castanhos que tanto chamavam sua atenção. Quando restava apenas os dois, ele ficava esperando ela terminar de limpar o chão e pouco antes de Safira sair, ele se despedia e ia embora. A companhia de Ben era algo confortável para ela, já que nunca havia tido ninguém e passava alguns minutos em um breu de pensamentos solitários, com ele, era uma realidade totalmente diferente que ela aproveitava cada vez mais e gostaria de aproveitar o máximo essa sensação de que poderia ter uma amizade legal, com alguém que a fazia se sentir como alguém importante. Era difícil Safira desenvolver amizades, já havia passado por tantas infelicidades, por tantas pessoas que a derrubaram para conseguir aquilo que ela tanto tentava alcançar, portanto, por causa de tantas histórias e momentos vividos, ela sentia medo de chamar alguém de amigo e acabar por se decepcionar novamente. Mas dessa vez ela tinha esperanças de que algo poderia dar certo.
— Hein, Safira. Você trouxe guarda chuva? — Ela escuta enquanto guarda os materiais de limpeza na despensa do restaurante. Era quase 1 hora da manhã e estava exausta. Geralmente nas sextas-feiras o movimento era grande e a correria de um lado ao outro do salão a deixava, no final de todo o expediente, com uma vontade imensa de chegar em sua quitinete, deitar-se na cama e acordar apenas no meio da tarde do dia seguinte.
— Felizmente hoje eu trouxe. — Safira responde se virando para o dono da voz que estava com um guarda-chuva em mãos. Ela o encara por alguns segundos, o admirando de longe. Ele estava com um sobretudo azul escuro que realçava a cor de sua pele.
Mesmo tendo se passado poucos dias desde que se conheceram, o tempo que passaram juntos conversando rendiam conversas interessantes sobre tudo o que é ou não impossível.
— Está caindo um pé d’água lá fora. Faz um tempinho que não cai um temporal desses aqui, geralmente fica apenas aquelas garoas chatas. — Ele comenta enquanto Safira ia até o armário dos empregados nos fundos da cozinha para pegar seu sobretudo vermelho junto com seus pertences, para fechar o restaurante e finalmente ir embora.
— Pois é… Você não deveria já ter ido embora? — Ela pergunta enquanto vai em direção à saída.
— Como está chovendo muito, resolvi esperar aqui dentro e fiquei um pouco preocupado com você indo embora sozinha no meio desse fim de mundo. — Ben fala e Safira consegue ver a verdade de sua fala através de seu olhar. Ele se preocupava com ela de verdade e a sensação que ela sentiu naquele momento foi algo que ela nunca havia sentido antes. Tentando ignorar, ela sai e ele em seguida passa pela porta também, a esperando fora da cobertura com seu guarda-chuva aberto sendo molhado pela chuva forte que caía do céu completamente coberto por nuvens. Ela fecha a porta, travando todos os cadeados e ativando o alarme de segurança e logo abre seu guarda-chuva e desce a rua sem olhar para trás e se despedir. — Não vai querer companhia? — Safira escuta a alguns metros atrás dela. Ele vinha em sua direção, caminhando devagar já que ela havia parado, o olhando e dando uma risada fraca já que ele parecia que não iria aceitar um não como resposta.
— Pode me seguir, se você se atreve. — Ela fala e continua a caminhar em direção à sua residência, o escutando dar uma risada e vindo atrás dela.
Foi uma caminhada estranha, pois de segundos em segundos ela olhava para trás para verificar se Ben estava ou não ainda a seguindo e em todos os momentos ele estava lá. Apesar de não sentir mesmo sua presença, por ele estar alguns metros longe dela, ela conseguia se sentir segura também e de certa forma, completa, já que não estava literalmente sozinha. Em alguns momentos do percurso, eles conversavam, mesmo longe, para não ficar no completo silêncio de vozes, com o som da chuva ao fundo e os passos molhados. Estavam aproveitando o momento, mesmo em meio a uma tempestade.


A cada dia que se passava, eles repetiam o mesmo trajeto, já que pelo o que Ben falou, ele morava umas ruas abaixo de onde Safira morava. Terminavam todo o trabalho, Ben esperava Safira fechar tudo e começar a andar para então começar a segui-la. Nunca iam um ao lado do outro, pois ele brincava que era muito atrevido e gostava de literalmente a seguir de longe, e assim iam caminhando e conversando. Era como se a noite fosse feita para os dois, já que não viam ninguém durante o caminho e aproveitavam todos os minutos juntos. Safira havia se transformado em outra pessoa com ele e falava sobre todos seus sonhos e desejos que gostaria de realizar.
— Adoro sonhar e imaginar até o impossível. Penso em mim dançando no maior teatro de Londres, até mesmo com a presença da rainha, olhando a plateia lotada e toda a arquitetura fenomenal do lugar. Vivendo e conhecendo lugares deslumbrantes, participando de bailes da realeza com um vestido belíssimo, dançando com um príncipe e sendo o centro das atenções… Vi tudo apenas pesquisando na internet e só de olhar já dá uma falta de ar, apenas imaginando o dia em que tudo se tornará realidade. — Ela falava enquanto caminhava e saltitava pela calçada. Estavam falando sobre os sonhos que haviam tido ultimamente e coisas que poderiam fazer no futuro. Safira se soltava cada vez mais, falando e falando sobre sua vida e o quanto gostaria de fazer muito mais. Havia vindo para Londres para tentar conseguir algo que gostava muito, que era dançar, mas infelizmente nunca teve condições para entrar em alguma academia ou conseguir algo relacionado. No fim de tudo havia parado em um restaurante, mas nunca havia deixado de sonhar.
— Pelo menos você tem algo, algo a que se apegar. É maravilhoso isso e fico feliz por persistir em seus sonhos. — Ben fala com um brilho em seus olhos, observando a mulher à sua frente dando volta em um poste de luz. Ele adorava o jeito que ela se comportava com sua presença, vindo de uma mulher com medo de sua presença para uma aspirante a artista dançando em meio às ruas da noite de Londres. Olhava-a com admiração e beleza.
— É algo que eu preciso me apegar. — Ela para no meio da calçada, abaixando seu olhar e ele também para um pouco afastado dela. — É o que me mantém persistente a não desistir de tudo. Preciso continuar…
— Sim, você precisa. É algo que te faz feliz, não importa como chegue até lá, um dia você vai e vai estar completamente feliz.
Após Ben falar, Safira o olha e ao encará-lo, sente seus olhos arderem e algumas lágrimas caem por sua face. Era algo inexplicável a sensação de apoio que alguém que ela mal conhecia passava, como alguém seria tão legal assim com ela? Nunca havia tido aquilo em sua vida inteira e ficava agradecida por ter alguém assim, como Ben, ao seu lado agora e dando um apoio incrível. A cada dia, o adorar por Ben Quentin aumentava cada vez mais e era algo fácil, mesmo nunca tendo sentido seu toque. O momento que ansiava todos os dias era de quando fechava a porta do restaurante e caminhava, pois, sabia que logo atrás dela havia àquele quem gostava tanto, mas apesar de tudo, Safira tinha as incertezas que a amedrontavam.


Era mais um dia de trabalho e o fim de expediente estava quase ao fim. Estava indo em direção aos banheiros para realizar a limpeza deles, um serviço rápido, e escuta a voz de seu chefe a chamando.
— Já tem um tempo que você está responsável por fechar tudo e só queria verificar com você se está tudo certo, se precisa que alguém mais fique com você por aqui ou fique no teu lugar. As ruas daqui podem ser perigosas de vez em quando.
— Não precisa se preocupar, senhor Reginald. Eu estou bem mesmo, moro perto daqui então nem me preocupo de fechar o restaurante para o senhor, sei que você mora longe, sua mulher deve ficar um pouco preocupada e dirigir a noite também não é a coisa mais segura. — Ela dá uma risadinha e o chefe a acompanha.
— Fico tranquilo em ouvir isso, se precisar de qualquer coisa pode me falar. Você andando sozinha por aí, mesmo morando perto é preocupante. — Ele fala, virando para ir até os fundos do restaurante onde ficava seu escritório.
— Nem se preocupe, o Ben me acompanha até em casa. — Logo após Safira falar, Reginald, seu chefe, para por um momento a olhando por alguns segundos estranhando algo, balançando a cabeça e dando um sorriso estranho para ela, continuando seu trajeto.
Ela ignora a última reação de seu chefe no momento e continua seu trabalho. Tentava trabalhar com a mente limpa, mas sentimentos a consumiam e a incomodavam, querendo ir embora o mais rápido para poder desabafar ao homem que era dono de tudo o que vinha em sua mente ultimamente. Ben em todos os dias que iam andando e ele a acompanhando, nunca havia falado muito sobre ele e isso a incomodava de certo jeito, onde ela pensava que estava sendo chata demais ou até mesmo egoísta por falar somente dela, mas como poderia saber dele se nem ele mesmo falava ou comentava algo de seu dia a dia? Ela apenas queria um pouco mais dele e sentir, verdadeiramente, sua presença, coisa que nem isso sentia, não importando a distância ou a duração das conversas.


Assim que Ben passa pela porta dos fundos rapidamente para então começarem a caminharem, Safira logo vai atrás, fecha a porta, se vira e para sobre o beiral que cobria todo o redor do restaurante para proteger da chuva fraca que caia. O homem que achava ter um turbilhão de sentimentos estava parado observando o céu escuro com poucas estrelas no alto para se admirar. A noite estava muito silenciosa, mais do que tantas outras que já haviam se passado. Muitos pensamentos passavam nas mentes presentes naquela rua e mil e outros questionamentos também.
Safira estava um tanto inquieta no atual momento, queria um pouco mais de Ben, portanto, silenciosamente, ela avança tentando acabar com a distância que os separava.
Um passo.
Dois passos.
Três passos.
Os poucos metros que os separavam pareciam maiores do que a escala aparentava. O homem quieto a sua frente parecia tão tocável, que apenas um esticar de mãos os separava.
— O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? — Num instante Safira esticava o braço e no outro Ben se esquivava correndo, se afastando dela.
O susto foi tão grande com o repentino ato que fez um grito fino escapar dos lábios da mulher. O coração batia rapidamente, pois além da inquietação que já habitava seu corpo, agora a curiosidade era maior ainda. Por que ele tinha se esquivado? Por que tinha se afastado? Quem era ele?
— Safira… — Em um tom de voz mais calmo agora, passando as mãos pelos cabelos escuros, Ben tentava acalmar de longe a mulher em sua frente. — Não tente chegar de supetão atrás de mim. — Ele dá uma risada fraca para tentar disfarçar.
— O que… o que foi isso? Está tudo bem com você? — Sua respiração estava um pouco ofegante com o pequeno susto. Apesar de tudo, estava também preocupada com ele. Não sabia sobre ele, então qualquer coisa poderia estar acontecendo.
— Desculpa, mas eu… Não gosto disso. Vamos? — Tentando desconversar, ele começa a caminhar. Atônica ela o segue.
— Ben… Me explique o que houve, por favor. Por que você saiu correndo? Como soube que eu estava prestes a te tocar?
— Não tem o porquê de explicar isso, Safira. Você não precisa se preocupar com isso, só ignora. É coisa minha. — Ele aumenta o ritmo das passadas, tentando fazer com que ela esqueça ou apenas o ignore não focando no que havia ocorrido. — Você não precisa saber disso. Por favor.


Dias se passam e Safira nunca havia esquecido. O silêncio entre os dois era enorme e o clima que pairava no ar trazia o desconforto em peso. A rotina da noite era sempre a mesma.
Fechar;
Limpar;
Trancar;
Caminhar;
E em todas Ben estava lá, independentemente de como estava a situação entre os dois.
Logo depois que começa a caminhar em silêncio, após repetir sua típica rotina após o serviço, com apenas os sons dos passos e dos pingos de chuva que caiam do céu, Safira sente um nó em sua garganta já que a vontade de questionar Ben era grande. Os pensamentos que passavam por sua cabeça eram dos mais variados, querendo perguntar de tudo para ele, mas também não querendo ser invasiva demais, ao ponto de nunca mais ter sua presença ao seu lado. Ela queria mais dele, queria poder ter a liberdade de o tocar, de estar ao seu lado de verdade e passar um dia com ele, e quem sabe num futuro incerto, estar literalmente com ele. Eram sentimentos e desejos que dominavam o coração. As noites e caminhadas que passavam o tempo juntos, eram momentos alegres que haviam trazido cor para a vida de Safira e que a transformaram para alguém com múltiplas cores. Mas mesmo com as noites, as incertezas eram maiores do que tudo, pois Ben não se abria ou confessava algo de verdade, deixando Safira com agonias.
— Está tudo bem, Safira? — Ela escuta em meio aos pensamentos barulhentos em sua mente. O tom da voz de Ben estava repleto de preocupações, já que a mulher que estava em sua frente possuía um passo calmo, cauteloso e lento que ele acompanhava no mesmo ritmo.
— Sim. — Ela responde simplesmente, com a voz fraca, que quase não pode ser escutada já que a chuva ia aumentando a intensidade a cada poucos minutos que se passavam. — Na verdade… — Ela para de repente no meio do caminho e ele faz a mesma coisa. — …não.
— O que houve, linda? — Quando ele fala, ela vira e levanta os olhos que antes olhavam diretamente para o chão. Se alguém pudesse presenciar a cena, conseguiria ver nos olhos azuis profundos de Safira o quão cheio de sentimentos esses passavam, e todos em direção ao homem moreno à frente dela.
— Por que você nunca se abre para mim? Nunca chega perto de mim, sempre nega um abraço ou coisa do tipo? — Ela consegue perguntar as coisas que incomodavam sua mente durante os últimos dias.
— Não entendo o porquê disso. — Ele responde, coçando a nuca com uma das mãos, já que a outra segurava o guarda-chuva.
— Não se faça de bobo, Ben. Sempre sou eu que conto mais sobre minha vida, o meu dia a dia e você se fala algo é supérfluo. Não se aprofunda, não continua… Eu quero mesmo saber mais sobre sua vida, seu cotidiano, o que você faz durante o dia quando não estamos trabalhando.
— Não tem nada de interessante na minha vida, não faço nada da vida. Eu gosto de ouvir suas histórias, são bem mais interessantes que a minha, não precisa se preocupar com isso.
— Mas deve ter alguma coisa, eu fico pensando que estou sendo muito egoísta ao ficar falando e falando. Ben… Eu quero conversar mais com você, passar mais tempo, eu mudei muito desde que você chegou e gosto de passar meu pouco tempo com você.
— Safira, não tem o porquê disso e minha vida é complicada para ter que dividir muito com você… — Ele iria continuar a falar, mas ela o interrompe.
— Eu gosto de você… gosto muito mesmo, mas é impossível te conhecer de verdade. Parece que nem te conheço direito. — Ela começa a falar com intensidade e conforme fala, sua voz vai se perdendo, ficando fraca e cheia de dor.
— Safira…
— PARA DE FALAR MEU NOME, CARALHO! — Ela fala com tanta intensidade e a chuva ao mesmo tempo começa a incorporar e ganhar força. Parecia que as emoções e todos os sentimentos que Safira havia exposto, estavam vindo em forma de gotas de chuva de tão intensas que eram.
— Só me escuta, por favor. — Ben falava calmamente, tentando expor o que queria. — Eu não posso. — Sua feição mostrava a dor que sentia ao não poder deixar Safira entrar sua vida, como se um segredo intenso o cercava e impedia tudo o que queria de se tornar realidade.
— Por quê? — Ela perguntou com a voz chorosa. Necessitava de respostas plausíveis e verdadeiras, mas tudo o que ganhava eram incertezas e possíveis mentiras. — Tudo o que eu queria era ser desejada, mesmo que fosse um pouquinho, por você. Seria esta minha esperança apenas um sonho místico e que no final vai ser apenas mais um dos meus sonhos a serem perdidos no meio do tempo?
— Não fale isso, é apenas algo complicado. — Ele fala e os dois ficam por alguns segundos em completo silêncio. A chuva ia aumentando a força e os guarda-chuvas de cada um tentava ao máximo se manter intacto, já que estavam sendo forçado para baixo com a força que as gotas caindo do céu escuro. — Acho melhor nos afastar. — Ele fala baixo, mas Safira consegue o escutar e o olha indignada.
— O-o quê? — Fala gaguejando. — Não… Por quê? Você n-não pode. — O desespero a contamina e ela dá um passo à frente para ir até ele, porém o mesmo vai para trás, fazendo com que o coração de Safira se quebrasse em milhares de pedaços, já que ele mostrava que não queria tê-la por perto mesmo.
— É o melhor, Safira. Acho que…
— NÃO. Você não acha nada, está sendo um completo idiota por isso. Muito idiota. Se quer que eu fique longe de você, okay, só saia da minha vida e não volte nunca mais enquanto eu estiver viva. — Ela fala com força, o céu vibrava a cada palavra dita e as gotas d’água caiam com mais força e o vento presente aumentava de velocidade, fazendo com que o guarda-chuva de Safira se solte de sua mão e voe para longe dela.
Contaminada de ódio e tristeza, e agora totalmente molhada por conta da chuva, ela se vira para continuar o percurso para sua casa, querendo nunca mais ver Ben em sua frente. Seu coração agora estava completamente partido, já que no início de tudo isso pensava que finalmente teria algo concreto para se agarrar e apoiá-la de verdade, e que pudesse contar sempre. Infelizmente estava enganada e as lágrimas que escorriam por suas bochechas vinham aos montes, bloqueando sua visão. Quando começa a caminhar, o céu se ilumina com o resultado de um relâmpago e o som do trovão vem junto e a última coisa que ela escuta é a voz de Ben, o ignorando completamente:
— SAFIRA!


No dia seguinte, Safira acorda em sua cama sem se lembrar muito bem do que aconteceu na noite anterior, após escutar seu nome na voz daquele que não queria se aproximar mais. Havia sido muitas coisas para poucos minutos e sua cabeça estava confusa. Passou o dia inteiro praticamente em sua cama, já que não sentiu fome e não estava disposta a fazer nada. Hoje, era sua única folga na semana, mas apesar de não ter aproveitado da maneira que costumava fazer, como ir dar uma volta no parque que era perto de onde morava, comprar um sorvete de morango na sorveteria que ficava 2 quadras de distância, Safira não se sentia na vontade de fazer nada, como se houvesse um branco em sua mente.
A noite chega e para não ficar em meio a turbilhão de coisas que haviam se passado em sua mente no dia todo, ela se levanta e sai à rua para dar uma volta no quarteirão em que se localizava a quitinete em que ela morava. Tantas coisas que havia tido nas últimas semanas, a vida cinza que ela estava havia tido cores, mas que no atual momento haviam desaparecido completamente.
Os olhos ardiam conforme as lágrimas iam se criando, com as memórias que vinham à tona, das caminhadas até sua moradia com aquele que ela pensava que poderia ser uma esperança à uma vida melhor e mais alegre. Como pude ser tão boba? Ela pensava em tudo o que poderiam ter sido. Havia se entregue a ele, contado seus medos, seus sonhos, suas esperanças e confessado seus sentimentos. Tanta coisa poderia ter saído daquela discussão, mas infelizmente parecia ter sido um adeus. Ela, no momento, em desespero por não querer que aquilo tivesse sido o fim, queria mais do que nunca que ele aparecesse e pudesse se desculpar, para que ela também se desculpasse por agir de tal forma e eles voltassem a ser como eram antes, pois não importava como estavam, tudo o que ela mais queria era ouvir sua voz e vê-lo mais uma vez.
Safira caminhava calmamente pela calçada iluminada pelos postes de luz, sem pressa para ir a lugar nenhum ou para alguém, mesmo com a sensação de que seu coração estivesse batendo rápido, mesmo a velocidade sendo nula. Ia se aproximando da esquina da rua de onde morava e tudo o que queria era que ao virar, estivesse por lá alguma luz de esperança. Seu olhar se direcionava à calçada, não querendo ver o nada a sua frente pelo momento, mas ao se aproximar de onde morava, levanta sua cabeça para observar o entorno e se depara com uma figura masculina parada em frente à sua residência.
— Ben…
— Oi. — Ele a cumprimenta dando um sorriso pequeno, nervoso. Seus olhos mostravam uma preocupação de certa forma e ansiavam por algo desconhecido por ela.
— O que você está fazendo aqui? Pensei que depois de ontem era para nunca mais nos vermos. — Ela fala, mas desejando que no fundo tudo o que haviam vivenciado no dia anterior fosse apenas uma mentira.
— Eu vim me desculpar. Não sei o porquê disse aquelas coisas e fiquei querendo te tirar da minha vida, pois eu também gosto de você, Safira. Sua companhia é incrível e nossas conversas também. Só fiquei relutante, pois eu não tenho muito a te contar de verdade do que eu realmente faço, e que você ficasse com medo do que poderia encontrar. — Ele fala abobalhado, tentando se explicar.
— Não precisa ficar se explicando, eu vou te entender se não quiser falar nada. Eu só precisava te ver mais uma vez, pelo menos. Você foi e é alguém importante para mim, não queria que a última vez fosse de um jeito tão catastrófico como foi. — Safira fala e dá uma risadinha para tentar quebrar o clima, mas a expressão de Ben fica intacta em uma que representava alguma tristeza em seu olhar.
— É… Catastrófico. – Eles ficam em silêncio por alguns segundos. — Safira… Eu preciso que você me diga que não vai deixar de sonhar. — Ele fala e se aproxima de Safira. Isso faz com que ela arregale os olhos, pois ele nunca havia dado iniciativa de aproximação antes. — Eu não quero te perder. Não mesmo, não depois de tudo o que aconteceu. — A cada passo que ele dava, a sensação de estar prestes a explodir abrandava seu corpo. Uma sensação de presença que nunca havia sentido antes. — Eu quero você do meu lado.
Em um minuto, Safira e Ben estavam a alguns metros de distância, no outro Ben estica seu braço e pega a mão de Safira, ato que nunca havia sido feito em todo este tempo e o toque de suas peles, faz com que ambos sintam como se um choque havia ocorrido. Ela finalmente consegue sentir seu toque. Os sentimentos que sentia se inundam por completo e Safira abre um sorriso, por querer que isto nunca se acabe. Ela o abraça e o aperta fortemente, sentindo seu cheiro amadeirado e seu toque ao redor de seu corpo. Era como se tudo o que queria, se resumisse a isto. Havia compartilhado tudo o que queria com ele e sentia que, finalmente, agora tudo iria se concretizar.
Como se estivessem em um mundo só deles, Ben começa a balançar Safira de um lado para o outro em uma dança lenta sem música. Não se importando em estarem na calçada, iluminados pelo poste de luz, eles estavam numa bolha onde tudo o que importava era apenas os dois, a dança e a música que ninguém ouvia.
O tempo se passa com Safira de olhos fechados, pensando na estranheza que deveria ser a cena em meio à cidade, mas quando abre seus olhos, ela se vê em um salão grande cheio de pessoas, como se aquilo que havia comentado com Ben dias atrás havia se tornado realidade. Era como se fosse um sonho, mas estranhamente, ela não se sentia estranha ou confusa. Estando naquele lugar, naquele momento, na presença de quem ela queria, parecia que tudo estava tão certo, como se tivesse vivido para aquilo. Os lugares que havia estado antes, até mesmo sua própria casa, a qual chamava de lar em algumas vezes, agora, pareciam completamente desconhecidos e de certa forma, vendo distantemente, nem perto do que ela pensava de como seria ou queria, já que não era o que ela queria de verdade.
No entanto, no momento em que estava, dançando no salão de um castelo qualquer da Inglaterra, repleto de ouro, e com um design estilo rococó, repleto de detalhes e ornamentos, com um vestido de tecido azul e fundo bege, com o tronco preenchido de folhas prateadas, seu cabelo magicamente preso em um coque, Safira se sentia completa. Ela se sentia viva, mesmo estando em meio a tantos fantasmas da noite, ou como agora se passava em sua mente, ao se lembrar de momentos de sua vida que observava lugares grandes cheios de pessoas completamente desconhecidas, mesmo morando antigamente em uma cidade no meio do nada, em que conhecia quase toda a população: seus fantasmas. Ao pensar em tudo o que havia vivido, tendo caminhado diversas vezes sozinha em meio a vida, sabendo que poderia não estar segura, percebia que não poderia desejar ter vivido nenhuma outra, já que foi algo mais do que selvagem e muito mais do que livre, pois ela foi independente e tentou ao máximo seguir seus instintos.
Todos seus sonhos, em um piscar de olhos, haviam se tornado realidade para ela, de certa forma. Estava onde queria estar e tinha muito mais a ver. Se apegou tanto a eles naquele momento em que estava, que no mundo em que estava agora, não desejava sair nunca mais, pois havia finalmente tido a chance de se apaixonar e amar aquilo que estava em sua volta. Todas as lembranças que tinha antes daquele relâmpago que havia sido sua vida, mesmo sendo tão pouca, poderiam ser ditas que haviam se perdido há muito tempo, pois Safira dançava a mais tempo que imaginava e não se cansava, pois o tempo se passava de uma forma diferente agora, então tudo o que ela fazia e queria fazer era dançar com estes belos fantasmas.