Breathe

Breathe

Sinopse: Tessa Yang foi, durante muitos anos, proprietária de um acampamento de férias para crianças e adolescentes. É a realização de um sonho, que, no entanto, está fadado a acabar com a descoberta de um tumor inoperável em sua espinha. Tessa tem apenas mais alguns meses de vida e opta por usá-los para se despedir de algumas das pessoas que mais amou em toda sua vida: Suas crianças favoritas, agora adultos crescidos. A mentora não está realmente pronta para essa despedida, e honestamente nem eles estão, mas é chegada a hora. E ela tem uma série de conselhos para cada um deles.
Gênero: Romance
Classificação: 14 anos.
Restrição: Os nomes Tessa, Maya, Joana e Han estão em uso. Essa história é um complemento de Mirrorball, desse mesmo especial. Uma não depende da outra, mas elas se completam. Cronologicamente, Breathe vem primeiro.
Beta: Alex Russo

Capítulos:

I.

Tão logo estacionou, apertou brevemente a mão livre da namorada, que encarou suas mãos juntas e então sorriu para ele. Se bem conhecia , podia afirmar que apesar de tentar dar a ela algum apoio, ele buscava também um pouco para si.
— Está tudo bem – garantiu. O garoto assentiu, sorrindo pequenininho para ela. Era um sorriso nervoso, nem de longe tão competente na missão de apaziguar os sentimentos ruins quanto toda a postura da garota, mas não dava para evitar. Era Tessa, afinal. Tessa praticamente os criou, agora estavam ali para se despedir dela, de uma vez por todas.
Por um instante, o casal apenas se encarou. Os olhos sempre expressivos de carregavam uma insegurança que preocupava . Sabia que ele faria seu melhor, mas e se ele não estivesse pronto para aquilo? Esperou, portanto, que ele respirasse fundo e se armasse de alguma firmeza, o encarando com incentivo todo o tempo.
— Estou pronto – ele murmurou no fim. respirou fundo e concordou com a cabeça, então saíram juntos do carro.
Ao que as portas eram fechadas, erguiam o olhar para o chalé principal. Estava exatamente igual. Imaginaram, inevitavelmente, se ao entrar ali seriam transportados a outra realidade. Onde fossem crianças novamente, talvez. Onde Tessa estivesse segura, saudável.
Era, na verdade, um desejo. Um que sabiam, nunca teriam e, por isso, apenas afastaram os pensamentos.

Tessa Yang conhecia e como a palma de sua mão, cada traço e olhar, cada tom de voz. Ficaria decepcionada, ainda assim, se não notasse novos trejeitos, novas percepções naquele dia.
Eles não eram mais crianças, afinal.
A mulher costumava coordenar seu próprio acampamento de férias para crianças e adolescentes dos seis aos dezesseis anos, foram os melhores anos de sua vida. Ela moldava suas crianças, ensinava o que era importante, coisas que as escolas muitas vezes não incluíam em seu currículo. Era boa naquilo, e mesmo que houvesse descoberto sua vocação relativamente tarde – com quarenta e três anos, quando fundou o acampamento – aproveitou bem os anos que teve praticando-a antes de chegar ali, aos setenta e dois, inundada com uma porção agressiva de Osteorssacoma, que se alojou primeiro em sua espinha e agora se espalhava de maneira tão inteligente por seus órgãos. Ela ainda era capaz de andar, com a ajuda de uma muleta, mas sabia que aquilo logo acabaria também. Olhava com ressentimento de tempos em tempos em direção a cadeira de rodas que lhe esperava num canto do quarto, pronta para assumir precariamente a função de deslocá-la de um lugar a outro quando não pudesse mais fazê-lo sozinho. Quando isso acontecesse, também teria que passar a viver apenas no andar debaixo do chalé.
Câncer era uma droga.
Mas Tessa ainda era capaz de sorrir, quando colocava música para tocar, quando recebia visitas e, havia decidido também, morreria sorrindo. Não queria sentir como se houvesse perdido algo, como se o fim de sua vida representasse algo pelo qual se entristecer. Viveu bem, realizou sonhos, encontrou sua vocação e a praticou enquanto foi capaz: Viveu bem de verdade. Tessa morreria sorrindo. Como sorriu quando viu pela janela e saírem de um carro azul escuro, comprido e sofisticado exatamente como imaginou que seria o carro que teria. Sorriu também por pensar nisso, sentindo o coração inundar de saudades e acelerar um pouco. É claro, quando isso aconteceu, acabou tossindo um pouco também, a respiração falhando momentaneamente.
Não podia mais se dar ao luxo de ter seu coração acelerando simplesmente por ver pessoas que gostava, mesmo que gostasse tanto daquelas pessoas.
— Tessa! – praticamente correu em sua direção quando passou pela porta do chalé. Aquilo ainda era tão adorável quanto na época em que ele passava seus verões ali e não tinha nem metade do peso atual. Tessa acabou sorrindo, segurando mais firme na muleta enquanto erguia a outra mão para retribuir o abraço forte do garoto. Nem se importou que o ar houvesse escapado um pouco de seus pulmões, já escasso de maneira um tanto desprezível. Ressentia a falta de ar também, e a tosse que a seguiu. Mas nada lhe doeu tanto quanto o olhar culpado de quando lhe encarou ao se afastar, como se houvesse causado aquilo.
— Finalmente! Estava me perguntando se vocês haviam esquecido o caminho, demoraram… – a mulher riu, como se não houvesse notado coisa alguma. se aproximou de maneira mais contida, e não ousou tocá-la enquanto a ajudava a se sentar no sofá, mas Tessa não deixou de observá-la bem mesmo assim. Sua . Tessa adorava quão boa era em acolher e ensinar. E adorava mais ainda que ela gostasse daquilo.
— Como se isso fosse possível – riu, chamando a atenção da mais velha de volta para si. Tessa riu também, olhando de carinho um para o outro e então fazendo sinal para que se sentassem e acomodassem, alegando que a doença já lhe rebaixava o suficiente, não precisava ficá-los olhando de baixo o tempo todo, embora na verdade até gostasse. Fazia com que Tessa se lembrasse de quando eles eram menores, e eram eles que precisavam olhá-la de baixo. E como era bonito aquilo, vê-los tão crescidos, e ainda notar tão nitidamente que as pessoas que costumavam ser, que ela ajudou a torná-los, a alguns bons anos, ainda estavam ali.
— Como você tem se sentido? – perguntou cuidadosa ao se sentar ao seu lado. Tessa sorriu, fazendo que não.
— Como você tem se sentido, querida? – quis saber. Era comum que precisasse lembrar de sua própria importância perante a quem se importava com ela. A garota não era boa em dividir o peso de seus problemas e dores, era uma das poucas coisas nas quais não era boa. Mas Tessa sempre foi paciente, sempre fez seu melhor para que ela se sentisse confortável o suficiente para chorar em seus braços. Não pararia agora.
sorriu pequenininho, triste, e fez que não com a cabeça, se negando a responder aquilo, então Tessa riu, não esperando realmente algo diferente. Pelo menos, não tão logo.
, querido, você pode colocar um disco na vitrola pra mim? Por favor? – Tessa lançou um olhar cúmplice para o garoto, que concordou e se levantou rapidamente, mordendo um sorrisinho esperto. revirou os olhos, segurando a risada.
— Não tenho mais doze anos, Tessa. Sei o que está fazendo – murmurou. Ela acabou, porém, balançando a cabeça e escondendo o rosto nas mãos assim que ouviu a música que colocou. Hey Jude.
— Não quer dizer que não funcione – foi quem respondeu, se aproximando da namorada e parando atrás dela, fazendo um carinho em suas costas. Tessa olhou de um para o outro e sorriu, gostando daquilo, do encaixe entre os dois. Sequer imaginou algo assim quando eram mais novos e, toda vez que brincavam juntos, ficava meio atrapalhado, mas gostou. Piscou para , aprovando sue feito. Claro, ele não tinha como saber se ela aprovava o fato de ele ter conquistado ou simplesmente pela música, mas Tessa não se importava. Sempre gostou de deixá-los pensando um pouco.
— Eu tenho estado bem, querida – ela começou, enfim e, com os olhos avermelhados pelo choro, ergueu a cabeça para lhe encarar. – Encontrei uma boa posição para dormir, de forma que as costas não me incomodam tanto a noite se tomo o sedativo certo. Tenho comido muitos grãos e raízes, pouca coisa de origem animal e tem sido bom para o meu espírito. Vou deixar esse plano bem limpinha – sorriu para a mais nova. Sorriu exatamente como estava acostumada a fazer quando ela era mais nova e precisava de uma garantia que estava tudo bem, era seguro. Ela podia se derramar agora.
fungou fortemente.
“And anytime you feel the pain
Hey Jude, refrain”
, se concentrou no que a música dizia e respirou fundo, como se pudesse de fato frear a dor.
— Você sempre foi bem limpinha – sorriu. Tessa riu, deliciada como se ela houvesse dito algo tão bom. escutava muito aquela risada, era forçada sim, mas fazia muito bem ao ego das crianças de Tessa. Era gostoso de ouvir, mesmo depois de todo aquele tempo. – Estou terminando o mestrado, faltam poucos meses. Eu e estamos planejando uma viagem para comemorar depois, ele diz que tem uma surpresa… – se obrigou a contar, rindo ao compartilhar o que o namorado dissera uma vez antes de dormirem, enquanto planejavam a viagem, sobre surpreendê-la com algo lá.
Tessa sorriu para suas palavras, desviando novamente o olhar para . Muito bem, seus olhos diziam, e sorria orgulhoso. Quando era mais novo, chegava até mesmo a estufar o peito quando ela o olhava daquele jeito, mas achou que não seria apropriado naquele momento. Tessa, porém, sorriu mesmo assim com a lembrança bem fresca na mente. Parecia ter sido no dia anterior…
Ela nunca precisou se preocupar muito com , que sempre foi um garoto muito doce. Ele tinha, inclusive, aquela característica que Tessa amava tanto nele, quanto em : Sabia como ninguém cuidar dos outros. Tessa os viu crescer cuidando de seus amigos, dos mais novos e, no caso de , de alguns dos mais velhos também. E a mulher adorou vê-los encontrar um repouso um no outro. Podiam se cuidar agora.
— Bom, garotos – começou, olhando de um para outro com muito, muito carinho, mas inegável tristeza também. Aquilo era uma despedida, afinal. – Se quiserem me revelar alguma coisa, essa é a hora – avisou, arrancando risadinhas dos dois pelo tom de brincadeira. Risadas, no entanto, que não se sustentavam por mais que a fração que segundo em que saíam de suas bocas. Não havia como, não com aquele tipo de brincadeira vindo de uma de suas pessoas favorita no mundo. Sua mentora.
— Você provavelmente já sabe de tudo – riu, buscando manter aquela atmosfera leve, como sabia que Tessa queria. A mais velha riu também, concordando com a cabeça.
— É diferente quando vocês falam, mesmo assim – insistiu.
— Eu beijei uma vez – revelou, finalmente, ainda que nem mesmo houvesse pensado antes de despejar a confissão. Tanto Tessa quando o encararam surpresas e o garoto soltou uma risadinha sem jeito. – Foi meu primeiro beijo. E o dela também, eu acho. – Fez uma careta confusa ao pensar a respeito. – Lá no Problema, no meu último ano aqui. Eu estava chateado porque não poderia voltar no próximo ano e ela simplesmente me beijou – riu, parecendo voltar na memória. Aquilo bem que parecia com mesmo.
não pode saber – e Tessa disseram juntas, e riram por isso logo depois. riu também, acenando com a cabeça e Tessa piscou, encarando os dois com atenção renovada. – Como eles estão? E ?
— Eles virão em breve, Tessa – garantiu com um sorriso. sorriu também, concordando. – Mas eu garanto, estão bem. Você ficaria orgulhosa. – diante de suas palavras, Tessa não pôde conter um sorriso maior.
— Eu já estou, querida. – Havia certo tom de promessa na voz de Tessa, que fez o coração de se apertar tanto quanto o modo como ela pegou suas mãos e as apertou em seu colo. Tessa não podia prometer nada, não estaria ali para cumprir e foi aquilo que fez desejar não ter ido ali naquele dia. – Prometo a você, , e a você, meu amor… – Tessa ergueu uma das mãos para , apertando seus dedos na palma enquanto olhava de um para o outro. – Que estou orgulhosa de vocês.
e tinham os olhos ligeiramente avermelhados quando assentiram e ambos apertaram a mão de Tessa, tocados por suas palavras.
— Bom, isso é tudo que eu podia querer – comentou, meio tímido sob o olhar atento de sua namorada, que ele considerava tão sábia, mas seguiu em frente mesmo assim. Por Tessa. – Que você saiba que fez bem. Que fez bem com a gente.
Tessa fungou e assentiu, sorrindo pequenininho para ele.
— Eu sei – confirmou, fungando quando a voz soou um pouco embargada. Não era hora para aquilo. – Mas isso não quer dizer que os conselhos acabaram, ok?! – seu tom era tão de brincadeira quanto de bronca e fez o casal sorrir saudoso, se lembrando inevitavelmente de todas as vezes que ouviram antes. pausou por um instante na lembrança de quando Tessa tentou ensinar a ela e as garotas a fazer bolo e falou daquele jeito com elas algumas vezes, especialmente quando jogaram farinha umas nas outras, e por todo lado. Já, para , a lembrança era de quando ele e riscaram a parede em seu primeiro verão ali. Tessa lhes estendera vários papeis de oficio enquanto usava aquele tom para lhes dar uma bronca, dissera que: Vocês podem ser artistas, quem sabe? Mas artistas só pintam paredes depois de muito, muito ricos. Por enquanto, trabalhem nos papeis.
pousou uma das mãos sob o ombro de e ela ergueu o olhar para ele, sorrindo um pouco. Buscavam forças, porque as lembranças começavam a assumir um aspecto um tanto sufocante, como se Tessa não estivesse mais lá. O simples pensamento fez seus peitos apertarem um pouco.
— Bom, isso seria ótimo – finalmente falou, após balançar a cabeça, como se ordenasse toda aquela tristeza a esperar. Ainda não, dizia silenciosamente para si mesma. – Acho que posso usar um conselho ou outro – riu, fazendo Tessa rir também.
Sem que ela visse, a encarou com tanto amor, algo próximo a adoração até. Tinha certeza que era a mulher mais incrível do mundo e ali estava a prova, sua força imensurável, o amor que estava disposta a dar… Deus, como ele a amava.
, sente aqui – Tessa chamou, batendo no espaço ao seu lado no sofá. Ele foi rapidamente, quase se encolhendo como se precisasse parecer menor perto de Tessa, que costumava ser tão grandes aos seus olhos de criança. Tessa fez que não. – Você cresceu garoto. Isso é bom. Não tente disfarçar. – o tom sério fez com que ele se endireitasse rapidamente, e a mulher assentiu. Muito bem. – Quero que me escute com atenção, ok? – pediu e ele assentiu, então ela assentiu também. Seu peito doía um pouco mais que o normal, uma dor psíquica, por saber que daria seus conselhos, se despediriam, e então nunca mais veria aqueles dois. E tomou um minuto para se despedir das feições tão mudadas, mas tão parecidas com quem eles costumavam ser. – Você pode ser respeitoso com os outros sem desrespeitar a si mesmo. Respeite seus limites e lembre que a primeira pessoa que deve importar, para você, é você mesmo. Não se diminua por ninguém, nunca – pediu e soube que aquele era seu conselho, o último. Engoliu em seco e assentiu, apertando a mão de Tessa na sua assim que ela buscou a sua para si. Não ousou chorar, no entanto. Ainda não, ele também dizia para si.
— Eu te amo, Tessa – disse mesmo assim. Ela sorriu, assentindo.
— Eu sei, meu bem – tocou a bochecha do garoto, acariciando brevemente. – E eu prometo que vou te amar para sempre também.
O garoto desviou o olhar, engolindo o choro, e Tessa apertou sua mão brevemente antes de se voltar para . Os olhos da garota estavam vermelhos outra vez.
— Sabe o que vou dizer, não é? – riu, fazendo-a rir também.
— Preciso que diga – respondeu de qualquer forma. Tessa assentiu, olhando-a com carinho.
— Sei que precisa – murmurou. – Você é muito, muito amada, meu bem. E sabe que não estou falando só de mim – olhou brevemente para , que assentiu e estendeu a mão para . Ela não hesitou em apertar seus dedos e Tessa sorriu para os dois. – Você pode dividir, . As dores, os medos, os problemas… Pode dividir – anunciou. – Eu garanto que todos aqueles que te amam não vão se importar em visitar suas feridas junto com você, em ajudar com elas. Você vale tal coisa – prometeu.
se odiou por deixar uma lágrima teimosa escapar e levou rapidamente a mão ao rosto, mas parou sob o olhar de Tessa. Ela podia dividir.
— Vou sentir sua falta – experimentou dizer. Céus, ia sentir tanto a falta dela. – Devia ter vindo aqui mais vezes.
Tessa fez que não, com um lindo sorriso no rosto.
— Você veio o suficiente – garantiu, olhando dela para em seguida. – Vocês dois.
— Espero que não diga isso para o murmurou, ciumento. – Ele nunca vem.
Tessa riu diante de suas palavras. Algumas coisas nunca mudavam mesmo e ela sentiu o coração transbordar por quase poder ver, bem em sua frente, com dezesseis anos novamente, implicando com o irmão mais novo.
— Tenho coisas diferentes para dizer a ele – riu e os outros dois riram também, então Tessa respirou fundo. Os amava demais para permitir que fossem embora tão logo, depois daqueles conselhos que, ela apostava, já sabiam que receberiam. Claro, isso nunca a impediria de dizer de qualquer forma. – Vocês estão com fome? Eu tenho torta de banana.
— Oh, céus! – salivou e Tessa riu, aceitando a ajuda de para se levantar e, assim, seguiram até a cozinha.
Se acomodaram na mesa da cozinha, acompanhados do bolo de banana e de um delicioso suco de manga, provavelmente colhida ali mesmo no chalé. Ambos se lembravam de subir em arvores para pegar mangas quando as achavam bonitas.
Enquanto comiam, conversaram sobre seus planos futuros, o que já haviam feito e Tessa chegou a fechar os olhos vez ou outra, como que para visualizar o que lhe era contado. E ficou tão feliz de sempre visualizá-los sorrindo, acompanhados dos outros amigos do acampamento, de novos amigos… Aquilo era perfeito.
Tessa ficou feliz que eles tivessem exatamente o que ela sempre quis para eles: Tudo que podia ser bom.

 

II.

Tessa estava tendo um dia bom, e estava muito satisfeita por isso. Andar doía mais, mas ainda conseguia. Não queria estar na cadeira de rodas quando aqueles quatro chegassem. Sabia como podiam ser ativos.
Fazia apenas uma semana que e estiveram ali e, ontem mesmo, enviara uma mensagem, perguntando se podia ir. Disse ainda que levaria , e . Tessa sentiu como se houvesse ganhado um presente, feliz de recebê-los todos juntos. Sentia falta de quando se aconchegavam todos juntos no chalé e de como sempre parecia barulhento quando estavam lá. Sentia falta do barulho, afinal, as vozes deles não era algo que simples músicas pudesse substituir.
Acordou cedo naquela manhã, ansiosa sem que pudesse evitar, e até encontrou animo para se alimentar direito, mesmo que seu apetite andasse tão ruim. Recebeu brevemente sua irmã, que morava ali perto e passava todos os dias para ver como ela estava, e então se acomodou no Problema, decidindo aproveitar o clima fresco daquele dia. Além do mais, receber e no Problema parecia tão certo quanto o sorriso que dava simplesmente por pensar naquele apelido bobo que deram ao seu balanço de madeira.
Logo, então, Tessa viu um carro esportivo branco estacionar sob a grama na entrada de seu chalé. Esperou, com o coração pulando ansioso, só para sorrir de orelha a orelha vendo os quatro saindo do carro rindo entre si, naquele clima tão adoravelmente leve que parecia segui-los aonde fosse. Tessa amava aquilo sobre eles.
— Tessa! – lhe notou primeiro, quase pulando no lugar enquanto erguia a mão bem alto para acenar para ela, fazendo sinal para que os outros andassem logo. A mulher precisou conter a vontade de chorar os assistindo se aproximar. Deus, que saudades. – O está encrencado? – riu, com pulando em suas costas apenas para estapear sua cabeça. O garoto reclamou e ela gargalhou, correndo para se esconder atrás de , que a abraçou.
— Isso ou a , claro – foi quem respondeu, saindo em defesa do namorado. Aquilo, Tessa sempre imaginou. Sempre teve certeza que e terminariam juntos e, ainda que fosse incerta a fagulha que lhe crescia a respeito de e , estava feliz agora que aquilo também estivesse certo.
— Nenhum de vocês está, por enquanto – Tessa riu. Sua voz soou um pouco arranhada, não era mais a mesma em nenhum aspecto aquela altura, mas os quatro esconderam bem qualquer afeto a respeito de como a doença estava acabando pouco a pouco com ela. – Mas logo estarão se não vierem se sentar comigo, venham, venham.
— E esse banco nos aguenta? – perguntou, observando os amigos correrem para se apertar com Tessa no balanço.
— Ih, o fortão! – zombou, arrancando uma risada dos outros enquanto balançava a cabeça, finalmente se aproximando e sentando cuidadosamente apenas na pontinha do balanço.
Tessa riu, olhando dele para os outros. Estava mesmo apertado ali, mas honestamente, era perfeito. Era perfeito exatamente daquele jeito, apertada entre e , com o sorriso alegre de ao alcance de seus olhos e o olhar desconfiado, mas adorável mesmo assim de . Ela se sentia presenteada.
— Então, quer dizer que todos vocês estão namorando entre si agora? Se eu soubesse, teria me tornado casamenteira… – Tessa comentou, rindo e os outros riram também. Tantas risadas. Ela adorava aquilo.
e ainda estão enrolando, e , então… – contou ligeiramente impaciente. Tessa sorriu, se lembrando das denúncias que recebera da mais velha a respeito dos outros quando eram mais novos apenas pelo prazer de implicar. – Mas, sim, você teria se dado bem como casamenteira.
— É uma pena – Tessa riu, se arrependendo quando pararam de olhar para ela, todos ao mesmo tempo. Provavelmente culpados, pensando em quão péssimos se sentiam por saber que ela não tinha mais tempo para aquilo. Como se de fato Tessa levasse aquela ideia a sério.
— Como você está? – finalmente perguntou. – Digo… Apesar de tudo.
Tessa sorriu com aquele acréscimo, olhando bem atenta para o rosto da menina de voz doce. sempre foi uma de suas favoritas. Bom, aquilo era obvio. Teve, durante todo o funcionamento do acampamento, muitas crianças de quem cuidar, mas seus favoritos eram aqueles. Aqueles que vinham lhe visitar em seu leito de morte. , porém, talvez fosse a favorita entre os favoritos. Ela gostava de tudo a respeito da menina, de sua voz doce e como contrastava de maneira tão adorável com sua personalidade ligeiramente feroz, de sua fé e de seu jeito cuidadoso… De absolutamente tudo. É, talvez fosse mesmo sua favorita.
— Nunca comi tão bem – ela confessou, arrancando uma risada dos outros. – É sério! Não estou falando de comer besteiras e entregar os pontos porque estou morrendo, estou saudável. Tenho comido melhor que vocês todos, aposto – desafiou.
ergueu rapidamente as mãos ao alto, como quem se rendia.
— Nem quero entrar nessa disputa. – Tessa gargalhou assim que o ouviu. era o espertinho, sempre fazendo graça e tornando o clima o melhor possível. Era como uma pílula da alegria ambulante, assim como . Era difícil não rir perto deles. Tessa estava precisando rir.
Os quatro não se importaram de ficar ali mesmo no quintal de sua antiga mentora, conversando um pouco sobre nada e um pouco sobre tudo. Em algum momento, cedeu a seu medo e se sentou aos pés do balanço, no chão, pertinho de , que riu por isso e lhe afagou os cabelos escuros. Tessa sorriu olhando de um para o outro, depois para e , que discutiam que se confundira sim no meio da história que contava para Tessa pouco antes. Ele tinha certeza que não, que sim.
— E então, como isso tudo começou? – a mais velha chamou a atenção de volta para si, apontando entre eles.
— Você quer dizer, os namoros? – fez uma pequena careta. – Isso é estranho, Tessa. Você foi quase uma mãe pra gente.
A mentora riu outra vez, lhe dando um tapinha na perna coberta pelos jeans.
— Só é estranho se pularam na cama no primeiro encontro – retrucou com simplicidade. Depois, Tessa olhou de maneira só um tantinho acusatória, mas terminantemente brincalhona, dela para . – Pularam na cama no primeiro encontro?
— Não! – as duas gritaram juntas, rindo. – Que horror, Tessa! – acrescentou, a voz normalmente tão doce alcançando um tom mais agudo pela incredulidade e, é claro, fazendo Tessa sorrir. Tessa adorava ouvi-la falar naquele tom, simplesmente porque gostava de como sua voz soava e, também, porque revelava o lado feroz de quem ela era. Um lado que Tessa admirava, inegavelmente.
— Ora, como eu vou saber…
— Eu chamei num encontro – começou a contar, fazendo a mais velha se calar rapidamente e abaixar o olhar para ele, atenta. Aquilo acontecia muito quando falava. Especialmente quando estava envolvida, Tessa notava agora que parava para pensar. sempre dava um jeito de chamar a atenção para si e resolver logo o problema. Ainda que fosse bonito, aquele tom mais ferino de , não era o favorito dele. Provavelmente era algo acompanhado de um sorriso. Aquilo não surpreenderia Tessa. – Eu já gostava dela há muito tempo, na verdade. Notei no nosso último verão juntos aqui, mas acho que foi desde muito antes. De qualquer forma, eu a chamei pra sair alguns anos depois. Quando nos reencontramos na faculdade, ela tinha um namorado e… – ele parou, olhando para de soslaio. Aquela parte da história não pertencia a ele, e ele não sabia como contar. Tessa o conhecia o suficiente para saber. apenas assentiu, mordendo um sorriso feito do mais morno dos amores. – Ele não era um cara muito legal, não durou muito, mas ele a machucou bastante. Tive que esperar, de qualquer forma. Que acreditasse toda vez que todo mundo dizia que ela merecia mais, eu tive que esperar – rolou os olhos, como se fizesse graça com a teimosia da garota. – Então, chamei ela para sair. Fomos num restaurante com música ao vivo, comemos e bebemos um pouco de vinho. Ela não quis dançar, mas eu já esperava por isso, então só conversamos. Muito, sobre tudo. Foi legal. No fim da noite, eu a beijei.
— Se disser que “foi legal” – fez aspas ao imitar o jeito dele de falar, lhe apontando em seguida o dedo em riste. – Te dou uma surra.
Tessa riu, sem que pudesse se conter. Gostava do instinto protetor da mais velha em relação as amigas, mas ela era menor que todo mundo, então sempre acabava sendo engraçado. O que, aliás, devia mesmo ser a intenção. era como , gostava do clima leve, e fazia o melhor que podia por isso.
— Não foi – riu, agora um pouco ruborizado e riu abertamente também olhando para ele. Secretamente, quis mordê-lo inteiro. – Eu esperei por muito tempo por aquilo. Foi bem mais que legal – garantiu. assentiu, como se aprovasse as palavras.
Tessa olhou com atenção dele para , absorvendo toda a história, visualizando os fatos que lhe foram entregues, e então parando com os olhos atentos na garota.
— Você acredita? – quis saber, não precisando explicar muito. sabia o que ela queria dizer.
A garota pigarreou e coçou a nuca, desviando o olhar.
— Eu acho que… – fez uma careta, olhando brevemente para , que estendeu a mão para ela e apertou seus dedos na palma. – Sim? Não sei bem, na verdade. Tem dia que é fácil, mas nem sempre – deu de ombros, querendo parar de falar daquilo. , como qualquer outro mortal, não gostava de falar de suas feridas, de reabri-las e desvendá-las. Era um processo difícil, ainda que necessário.
— Leva tempo – Tessa concordou, enfim. assentiu, muda. A mentora decidiu, portanto, desviar a atenção um pouco, encarando com cara de bronca, mesmo que ele houvesse passado o tempo todo durante a história quieto.
O garoto abriu um pouco a boca.
— O quê?!
— O que você aprontou?!
riu abertamente em resposta, fazendo que não.
— Nada tão dramático, não se preocupe – falou. Tessa riu, olhando dele para de maneira terna.
— Aposto.
riu também, abraçando-a de lado e deitando a cabeça em seu ombro.
— Estamos felizes, Tessa – garantiu, cheia de alegria na voz. O coração de Tessa transbordou. – Era isso que você queria, não era?
Quando a mais velha ergueu o olhar para encará-la, Tessa tinha lágrimas brotando no canto dos olhos e quis mais do que tudo não ter, porque sabia que agora, assim que vissem aquilo, os jovens fariam um verdadeiro estardalhaço. Mas não era nada demais. Ela só estava tocada, como devia estar. Estava morrendo com a certeza de que deixava algo bom, bom de verdade, no mundo. Não podia querer mais que aquilo.
— Era tudo que eu mais queria – concordou, a voz vergonhosamente embargada arrancando um sorriso triste de antes que a garota voltasse a lhe abraçar. Rapidamente, lhe abraçou também. e trocaram olhares incertos e então se jogaram sobre as três, arrancando risadas delas e, assim, melhorando um pouco a atmosfera.
— Por que a gente não entra um pouco? – Tessa sugeriu um instante depois, desfazendo o abraço para encará-los. – Tem suco de manga.
O bolo de banana já havia acabado, mas Tessa pedira que sua irmã comprasse um de chocolate para os garotos que iriam lhe visitar naquele dia. Não ousou contar, no entanto. Queria ver a surpresa e a alegria no rosto deles quando chegassem a cozinha.
E viu.
Foi tão, tão bonito. Os olhos sempre tão sorridentes de brilharam, e riram alto e olhou desacreditada para ela. Tudo que Tessa queria.
— Tessa! – gritou, rindo enquanto lhe abraçava de lado. A mulher riu também.
— Vamos comer – murmurou com simplicidade, satisfeita com a reação tão genuína que já tivera deles só com a visão do bolo. Não fazia questão de prolongar muito mais aquilo. Além do mais, queria ouvir mais da vida deles, de tudo que pudessem e quisessem contar. Queria gravar bem suas risadas para que pudesse pensar naquilo, naquele momento, quando fosse embora.
Dessa forma, se sentaram a mesa em meio a conversas e tantas, tantas risadas. Se divertiram com a doçura da certeza que aquilo aconteceria de novo, mas não aconteceria e sabiam bem. Por isso, quando terminaram de comer, as risadas já não eram tão altas e os olhos brilhavam muito menos. Quanto mais tempo passavam ali, mais perto chegava a hora de ir embora e, com isso, a despedida final.
— Tessa? – chamou, cuidadoso. A mulher o encarou, esperando que ele falasse e o garoto coçou sem jeito a nuca. – Posso perguntar uma coisa? Sobre… – ele não terminou, mas Tessa sabia. Sobre o câncer. Sobre sua doença. Sobre sua morte iminente.
— Sim, meu bem – ela concordou, acenando com a cabeça para que ele fosse em frente. respirou fundo.
— Você… Você está com medo? – quis saber, os olhos tão atentos quanto preocupados. A mentora sorriu abertamente, fazendo sinceramente que não. Pensou tanto sobre aquilo. Tanto. Estava com medo de morrer? Do que aconteceria em seguir? Ou só de deixar para trás aquela vida que viveu tão bem? Aquelas crianças que nunca foram suas, mas que amou tanto?
— Eu tive medo de me despedir. – Tessa olhou dele para os outros, vendo os olhares inevitavelmente tristes nos rostos que ainda carregavam os traços que sempre amou notar. – Tive medo de dizer adeus a vocês e aos outros, a minha família, a esse chalé. Tive medo de não ter outro amor como o de vocês quando deixasse esse plano – assumiu não muito orgulhosa. Nenhum pai, mentor ou responsável, gostava de assumir para suas crianças que tinha medo, mesmo que aquilo fosse, na verdade, muito importante. O medo não precisava ser tratado como algo maior do que era, não era certo dar a ele mais poder do que já tinha. – De morrer em si, não. De sentir dor, não. Já estou sentindo dor a meses, acho que me conformei – riu, mas a risada soou triste e apertou no peito dos outros quatro. Tessa se forçou a continuar. – Tudo vai mudar. E isso pode ser ruim, mas pode ser muito bom também.
Aquelas foram as palavras exatas que Tessa disse a cada um deles em seus últimos verões ali, com um sorriso mais firme e esperançoso do que o que tinha no rosto agora, mas mesmo assim, sorria. Era importante sorrir.
alcançou sua mão na mesa e apertou os dedos na palma.
— Você vai ficar bem – prometeu, segurando o choro. – Vai ter um céu só para você. Bonito como você merece, com muita música e crianças para cuidar. Crianças que sofreram na terra, mas terão seu amor. Tenho certeza – garantiu e Tessa chorou baixinho, limpando as lágrimas em vão antes que a garota lhe abraçasse. É claro que, em seus braços, chorou ainda mais.
Os outros três sorriram um pouco e rapidamente deram a volta na mesa, indo abraçá-la também. Tessa riu quando soltou um gritinho, recebendo um empurrão de e, assim, as risadas voltaram a encher o ambiente. Tessa os amou ainda mais por isso, os afastando para olhar bem para o rosto de todos. Deus. Como ia sentir falta deles…
— Preciso que se sentem – apontou as cadeiras, o tom mais sério arrancando uma arqueada de sobrancelhas de .
— No Problema? – riu, fazendo Tessa rir também.
— Garoto! – reclamou, ainda rindo. – Não quero que peguem a estrada muito tarde, é perigoso. Vão ter que ir embora antes do anoitecer.
— Mas Tessa…
— Shh – a mulher interrompeu , estendendo a mão sob a mesa para apertar a dele. – Vão ter que ir embora logo, e eu quero me despedir direito. Quero dizer algumas coisas. – Foi o que bastou para que os olhos de enchessem de lágrimas e ela o olhou com tristeza. – Eu sei, querido. Dói em mim também.
— Tessa…
Você precisa aprender a ser forte ou essas lágrimas vão te devorar, garoto – a mulher repetiu o que dizia a ele quando era criança. Uma criança chorona, especialmente quando se machucava em meio a alguma brincadeira maluca que ele mesmo inventava. Ou . Que saudades de … – Na verdade, , eu quero que seja exatamente quem é. E não quero que tenha medo disso. A vida vai ser cruel ás vezes, e você vai achar que não aguenta mais, mas eu prometo, você aguenta. Não tenha medo de nada, ok? – lançou um sorriso secreto para o garoto, que fungou fortemente tentando inutilmente conter o choro. Tessa sorriu. – Nem de chorar – acrescentou, rindo um pouco quando um ruído alto e doído saiu da garanta de ao passo que ele se entregou as lágrimas, sendo amparado por com um afago nas costas.
Tessa virou para encarar ao seu lado, balançando a cabeça.
— Você, meu bem… – sorriu, tão doce quanto a voz da menina que tanto amava. A voz e a menina. – Acredite, ok? – pediu simplesmente. sabia o que significava e sorriu triste ao assentir.
— Prometo tentar.
— Isso é tudo que posso pedir – Tessa concordou. – Você é incrível, meu amor. Você é boa. É merecedora. É doce. É boa. Boa de verdade.
— Obrigada, Tessa – tinha lágrimas nos olhos ao concordar, mas não ousou deixá-las lhe devorar. Não ali, não ainda. Queria que Tessa se lembrasse dela sorrindo, agradecida. Agradecida por tudo.
Tessa desviou o olhar para , não mais chorando acalentado nos braços de , e sorriu.
— Estou orgulhosa de você – disse a ele, encarando em seguida. – E de você também. Espero que se sinta segura entre seus amigos, em sua casa, para ser qualquer versão de você mesma. Espero que ninguém te diminua, e se diminuírem, espero que consiga cortá-los de seu caminho – recitou. sorriu pequeno ao assentir, os olhos repletos de gratidão. Tessa sorriu da mesma forma. – Toda vez que pensar, ou sentir, que é menos do que é, que merece menos do que tem ou do que quer, lembre-se de mim te dizendo que: não. Você sempre merece mais.
estendeu a mão na mesa e alcançou a sua, sorrindo. Não ousou deixar o pensamento de que Tessa também merecia mais passar mais que uma fração de segundo em sua cabeça. Não ousou ficar triste, apenas agradecida.
, meu bem – Tessa sorriu ao virar para o garoto, que engoliu em seco. Ela sorriu. Aquilo era a cara dele. – Como você está?
— Preocupado – ele admitiu e ela riu, desejando poder dar a volta na mesa com simplicidade e se ajoelhar em sua frente enquanto tocava seu rosto. Mas não era mais a mesma. Certas coisas se tornaram luxo, e se contentou em levar a mão que não segurava para a dele.
— Você tem ido muito bem – elogiou, sorrindo. Ele sorriu também, assentindo.
— Tenho feitou meu melhor.
— Sei disso – Tessa confirmou. – Quero que continue fazendo seu melhor, querido. Você tem um dom, . Pode fazer as pessoas se sentirem melhor sobre qualquer coisa sem muito esforço. A também – parou para olhar de um para o outro. – Gosto de saber que vocês estão juntos. Sinto que vão conseguir alcançar e fazer muita coisa boa. Não me importo que talvez não veja, contanto que façam. Façam o melhor que puderem – pediu e assentiu. Ele não sorria, mas a encarava de maneira solene. No tom de uma promessa. Tessa sorriu. – Vou sentir a falta de vocês.
— Vamos sentir a sua também – disse baixinho.
Tessa assentiu, indicando que sabia. Sabia com todo seu coração que nenhum deles voltava lá por obrigação, que a amavam tanto quanto ela os amava e aquilo lhe aquecia o coração como nada era capaz. Significava que ela também fora bem, bem de verdade.
— Bom, meus queridos – Tessa abriu um último e solene sorriso, olhando bem para o rosto de cada um. – Tudo vai mudar agora. Isso pode ser muito, mas pode ser muito bom também – ao falar, o fez como se contasse um segredo e seus olhos partilharam do tom, enquanto os outros formavam em silêncio as palavras com os lábios, acompanhando-a.

 

III.

Demorou mais um mês para que Tessa recebesse novas visitas, além de sua irmã. Ela ainda andava, mas as dores haviam aumentado, de modo que sua usual posição para dormir não funcionava mais e, por consequência, suas olheiras estavam mais fundas. O apetite havia diminuído também, mas desde que recebera a mensagem de no inicio da semana perguntando se ele, e , podiam ir vê-la no final de semana, seu espírito havia melhorado um pouco. Ela fez questão de ganhar alguns quilos para não parecer tão mal quando chegassem.
Não os esperou no Problema simplesmente porque foi pega completamente de surpresa por sua chegada. Estava terminando de almoçar quando, de repente, a porta dos fundos, bem dali, da cozinha onde ela estava sentada, foi escancarada. E a mulher mal teve tempo de gritar o nome de antes que e aparecessem de trás dele também e os três corressem na direção da mulher, abraçando-a fortemente. O ar chegou a faltar e a mulher tossiu, sentindo o peito doer, mas sorria mesmo assim quando os três se afastaram preocupados para olhá-la.
Não aguentava mais aquilo, a falta de ar e a dor no peito, mas não ousou ligar naquele momento. Três de suas crianças, que tanto amava, estavam lá. E, céus, não eram mais crianças.
— Meu Deus – a mulher levou a mão à boca ao falar, olhando chocada de um para o outro. – Como vocês estão grandes! … – ela riu ao olhar para ele, lembrando do garoto desengonçado que ele costumava ser, fazendo sempre combinações duvidosas com roupas e acessórios de estampas distintas. Meu Deus, ele estava tão bonito e elegante agora… – Meu Deus! – ela riu, se pondo de pé tão rápido que ficou tonta, mas a apanhou rápido, passando um braço por trás de seu corpo.
— Fica calma, mulher – ele reclamou, mas ria. – Você sabia que viríamos.
— Visitas não entram pela porta dos fundos – a mulher retrucou, sorrindo mesmo com o tom de bronca e a combinação engraçada arrancou um sorriso dos três, ao passo que apontava para .
— Foi ideia da – denunciou. Tessa riu, desviando o olhar para a mais nova. O rosto da garota era exatamente o mesmo, os mesmos traços, o mesmo sorriso. Os mesmos olhos. O peito de Tessa transbordou, apertado.
— Venha aqui – ela estendeu a mão para , que pegou rapidamente. Ela nem estava assim tão longe, mas deixou que a mulher lhe puxasse para mais perto e a abraçasse forte outra vez. Na verdade, Tessa nem tinha mais forças para abraçá-la com a força que gostaria, mas tentou não pensar naquilo. Fingiu que tinha.
— Achei que o susto ia me render uma bronca, não um abraço – a garota riu, mas seu peito apertou quando viu os olhos de Tessa marejarem lhe encarando. Honestamente, nem Tessa esperava chorar tão rápido, mas o que aconteceu ao olhar nos olhos de foi um golpe inesperado. Ela esquecera como eles sempre pareciam carregar um mundo de coisas boas. Esqueceu também de como estava precisando de um mondo de coisas boas.
— Senti sua falta – confessou enfim. sorriu, se obrigando a engolir o bolo que apertava em sua garganta.
— Eu também – garantiu.
Tessa sorriu, acariciando levemente seu ombro, e então virou para encarar e , sorrindo os observando conversar baixinho perto, mas não muito perto. dissera algo sobre os dois, a mentora se esforçou para lembrar… Deviam estar juntos, mas não estavam? Estava sendo um problema? Eles vinham brigando, desgastando seu laço tão bonito? O que podia estar acontecendo?
Tessa gostaria de saber, olhando de modo investigador de um para o outro, e depois para , que riu como se soubesse no que ela estava pensando. E Tessa não duvidava que soubesse. sempre foi boa em ler os outros, incluindo a própria Tessa.
teve uns meses difíceis depois que o pai morreu, se afastou de todo mundo, foi um idiota… – rolou os olhos ao lembrar e Tessa mordeu o lábio.
— Se afastou até de você?
— Como se ele conseguisse – a mais nova riu com escárnio e Tessa acabou rindo também. causava aquilo muito fácil, mas de modo muito diferente de e . Mais ingênuo, talvez. – Estive por perto o tempo todo, mas … Bom, eles estavam quase se entendendo quando aconteceu e, depois disso, ele falou umas coisas bem cruéis para ela. Acho que precisava descontar sua raiva de algum jeito.
— Mas não foi justo – Tessa observou e assentiu.
— Não foi.
Tessa lhe deu um sorriso pequenininho, desviando o olhar para os outros dois bem a tempo de ver gargalhar de algo que dissera.
— Qual a graça? – ela perguntou, sorrindo humorada para os dois. sorriu também, só um tantinho sem jeito quando respondeu:
é um idiota. – Apesar das palavras, ela sorria. Tessa olhou pelo canto do olho para , que retribuiu o olhar espertinho e as duas riram de sua piada particular.
— Bom, eu acabei de comer, mas posso oferecer algo se estiverem com fome…
— Ah, não se preocupe com isso – a dispensou com um gesto de mão, dando de ombros. – A gente imaginou, na verdade, que fossemos chegar na hora do almoço, então nos esbaldamos no carro.
— De besteiras, aposto.
— As mais deliciosas besteiras – concordou numa simplicidade travessa, lhe abraçando pelos ombros. Tessa sorriu para a doçura da menina, olhando bem em seu rosto, admirando a serenidade adorável que ela carregava consigo.
— Eu soube que você virou médica – sorriu e quis chorar. Sim, estava fazendo sua residência no programa cirúrgico, mas aquilo nos últimos meses, desde que soube do diagnostico de Tessa, havia perdido boa parte da magia. Porque se deu conta que podia ser a melhor cirurgiã do mundo e, ainda assim, não poderia salvar Tessa.
— Sim – murmurou, fungando sem que pudesse se conter.
Tessa sorriu e passou a mão por seu rosto, num consolo mudo. Gostaria também, que pudesse salvá-la, mas já estava conformada. Não cobraria aquilo dela.
— Acho que podemos ir para sala, então – sugeriu. – Ouvir um pouco de música?
Os três mais jovens sorriram para a sugestão e concordaram de pronto, acompanhando a mentora até a sala de estar do chalé principal. Foi impossível, porém, não notar uma lembrança em cada canto da casa. E não sentir cada uma delas doer e arder como brasa. Os riscos na parede perto da escada indicando a altura deles em todos os verões que se passavam, o sofá que por vezes fingiram ser um navio num mar de larvas, entre tantas, tantas outras lembranças de uma infância tão boa quanto podia ser. Mesmo com os problemas que podiam surgir no resto do ano, o verão era sempre seguro. Era seguro e era bom.
— Sabe do que eu gostava? – perguntou, observando os outros se sentando no sofá, mas sem querer se distanciar das lembranças ainda. Em suas lembranças, Tessa era pura vida, saudável. Em suas lembranças, estava segura.
— O que? – Tessa virou para encará-la, sorrindo pequenininho como se não visse a pontinha de dor em seus olhos.
— Quando eu não me sentia bem e, enquanto os outros brincavam, ficava aqui no chalé principal vendo TV. Gostava do desenho do Jack – ela riu com a lembrança. – Era a única parte boa de ter dor de cabeça forte o suficiente para me afastar dos meus amigos.
— Imagino que era – Tessa concordou. – E como tem estado sua saúde nos últimos tempos?
— Boa – deu de ombros. Não estou morrendo, as palavras quase escaparam, mas se segurou. Nem sabia, até aquele momento, que ressentia Tessa de alguma forma por ficar doente e notar aquilo fez com que seu estômago se revirasse de maneira horrorosa. – As dores de cabeça melhoraram há muito tempo, quando descobri as maravilhas da lente de contato – se obrigou a acrescentar, culpada.
Tessa sorriu pequeno e bateu no espaço ao seu lado no sofá.
— Vem – chamou.
No fim das contas, optaram por assistir desenhos no lugar de ouvir música, já que pareceu mais propicio depois da fala de . ficou sentado no chão mesmo, aos pés das outras três, enquanto terminou deitada, com a cabeça no colo de Tessa, e com a sua encostada ao ombro da mentora. Riram um pouco com Bob Esponja e depois com Jack Chan também, seus corações transbordando numa nostalgia melancólica.
Tessa ficou tão, tão agradecida de ainda ter todos aqueles desenhos gravados em sua velha TV.
Quando acabaram os desenhos, mais ou menos duas horas depois, Tessa observou os rostos meio risonhos, meio sonolentos dos três. Exatamente como quando eram crianças. Ela sorriu sozinha e se ocupou de gravar os traços de cada um dos três, entalhá-los bem em sua mente, se distraindo apenas quando puxou o celular do bolso, rindo para o aparelho por um momento.
— O que foi? – a mentor acabou por perguntar, curiosa. desviou o olhar para ela, sorrindo.
— São minhas amigas – explicou, aproximando-se novamente para lhe mostrar o aparelho. – Maya e Joana. São meu mundo todinho – contou. Tinha tanto amor em sua voz quanto na foto que lhe mostrava: A mais nova estava no meio, sorrindo de olhos fechados enquanto duas garotas que Tessa não conhecia beijavam sua bochecha, uma de cada lado. Era uma foto realmente adorável. – Deu um trabalhão convencê-las a tirar essa foto… – comentou, rindo, sob o olhar atento de Tessa. – Você ia gostar delas.
— Imagino – Tessa concordou, mas não queria que ela parasse de falar, então emendou: – Como elas são?
suspirou, trocando uma olhar com e . Tessa ficou ainda mais feliz de saber que todos se conheciam, que seu ciclo estava maior e, aparentemente, ainda mais unido. Gente precisava de gente, ela vinha aprendendo.
— Joana é feroz, forte e decidida. Ela tem sua própria cabeça, seus princípios, e ninguém pode influenciá-la. É carinhosa e ser sua amiga é como ter outro coração ajudando o seu a bater – contou enfim, com lhe abraçando de lado e encostando o queixo em seu ombro. – Maya é… – parou, não conseguindo encontrar palavras para descrever o que Maya lhe fazia sentir. – Quando você está com Maya, você sente como se estivesse na presença de tudo que há de melhor no mundo. Ela é boa, Tessa – a garota soou emotiva ao falar, não pôde evitar. Aquelas duas eram mesmo seu mundo todinho. – Maya é feroz também, mas é bondosa, acima de tudo. Ela tem uma luz, sabe?
— E é engraçada – acrescentou, fazendo as outras três rirem.
— É, ela é – concordou.
Tessa abriu um sorriso grato olhando para os três. Teria que se lembrar de agradecer a quem quer que colocou as duas garotas no destino de . Elas pareciam ter um laço muito forte e conhecia o suficiente para saber que aquele não era o tipo de laço que ela construía com tanta facilidade.
— Bom, me contem mais – a mentora pediu. – Quem mais vocês conheceram?
— Hm, tem Han, o namorado de Joana… – parou para pensar, virando para encarar como se pedisse ajuda. – Quem mais?
— Os amigos idiotas do fez uma careta, apontando com o rosto na direção do garoto no chão. a encarou indignado.
— Ei!
— Eles são mesmo meio idiotas – concordou, rindo travessa ao abraçar as próprias pernas para fugir do tapa que ameaçou dar. Tessa olhou com certa preocupação para o garoto no chão.
— Você não está fazendo besteiras, está?
— Não, senhora – ele negou rapidamente com a cabeça. – Elas são malucas.
– Tessa avisou, o olhando séria. – Não pode fazer besteiras, entendeu bem? Não mais. Tem que cuidar dos seus amigos e, principalmente, deixá-los cuidar de você – seu tom não deixava espaço para retruques e apenas assentiu, mudo. Tessa assentiu também logo depois. – Esses amigos idiotas… Fale deles. Prove que não são idiotas.
conteve o ímpeto de rolar os olhos, se sentindo novamente uma criança levando bronca e, honestamente, era ainda pior agora. Ele não era mais criança, aquilo era um tanto humilhante.
— Não quero – resmungou enfim, baixinho. Tessa mordeu um sorrisinho, vendo nele exatamente o garoto que ele costumava ser muitos verões atrás.
— Então são idiotas – desafiou. O garoto acabou revirando mesmo os olhos dessa vez.
— Acho que você já escolheu no que acreditar.
— Parece que eu escolhi? – ela retrucou e bufou, erguendo o olhar para ela.
— São só alguns garotos do trabalho. Não somos tão próximos.
— Que trabalho? – ela continuou a questionar.
— Estou trabalhando de garçom num bar perto de casa nos dias que não tenho aula na faculdade. E a noite ás vezes. Preciso do dinheiro – deu de ombros. Antes de seu pai morrer, ainda tinha alguém a quem recorrer, mas agora estava sozinho e, ainda que já fosse adulto, era sempre bom ter outros adultos a quem recorrer. Tessa odiou ainda mais que seus dias também estivessem contados.
— Onde está morando?
— No dormitório – respondeu. Não era de graça.
— Quem tem espaço para dividir o apartamento ou algo assim? – dessa vez, Tessa não se dirigia a ele.
respondeu antes que pudesse reclamar e o garoto fez uma careta.
— Eu não acho que…
— Ele mora sozinho, e não precisaria que você ajudasse com as contas logo de cara – a garota o interrompeu e bufou, olhando dela para Tessa.
tem sua própria vida, tem um monte de gatos e…
— Um gato. E é seu amigo – foi quem corrigiu, o encarando de maneira insistente: Aquilo era bom. Por favor, que ele deixasse aquilo ser bom.
— Deixe seus amigos cuidarem de você, – Tessa lembrou. O garoto suspirou pesadamente e concordou com a cabeça, cedendo.
— Tudo bem, eu vou falar com ele quando voltarmos – disse, em tom de resmungo. Tessa lançou um olhar para , que assentiu.
— Eu e vamos garantir que ele fale – prometeu. Tessa assentiu.
— Ótimo.
rolou os olhos, jogando o corpo preguiçosamente para trás, de modo a se deitar no chão.
— Já acabaram? – quis saber, mas não se moveu do lugar e Tessa riu.
— Eu quero que tenha juízo, querido. Por favor. Se permita confiar na capacidade e na vontade de seus amigos de ajudar e se concentre no que precisa fazer para, em breve, não precisar de ajuda – aconselhou, e o garoto virou a cabeça para olhá-la. Seus olhos arderam pelo tom de despedida no conselho, mas não ousou falar nada ainda assim, assentindo devagar. – Amo você, meu bem.
— Amo você também – respondeu, desviando o olhar outra vez. Tessa assentiu, satisfeita, e desviou o olhar para as duas garotas, ainda abraçadas. Gostava tanto da ternura que sempre permeou a amizade delas, acabou sorrindo.
— Eu amo vocês duas também – sorriu. Elas sorriram junto. – Bru… – ela sentiu o peito apertar por pensar em tudo que queria dizer a . Meu Deus. era tão especial, havia tanto, tanto para lhe dizer… – Seja corajosa, ok? – fungou junto com a garota. – Coisas boas podem te acontecer se você permitir que aconteçam. Eu prometo.
Com o peito apertado, de modo que sequer era capaz de encontrar sua voz, concordou com a cabeça. Tessa apertou sua mão e virou para encarar . Gostava de sua doçura, de seu senso de justiça e veia artística tanto quanto gostava do fato de ela ser médica. parecia não saber que já salvava tantas vidas apenas por estar nelas, mas tinha tanta afeição pela ideia de, realmente, salvar vidas. Tessa achava aquilo lindo.
— Você é grandiosa, menina – ela falou. riu e fungou, se sentindo ridícula por já querer se debulhar em lágrimas com tão pouco, mas não podia evitar. Era Tessa ali, afinal. – Quero que se lembre sempre que, mesmo quando achar que seu coração está te pregando uma peça, que está fazendo tudo errado porque é isso que acha que ele faz, ele sabe mais do que você. Ele sabe o que você aguenta e sabe o que você precisa. Sabe exatamente para quais armadilhas precisou te guiar para que você se tornasse quem é hoje. Confie mais nele, ok? – sorriu para a menina que, com lágrimas grossas nos olhos, concordou.
a abraçou mais forte e ficou agradecida por isso, duvidando que, de outra forma, não terminasse despedaçada ali mesmo.
Tessa, então, olhou para os três com bastante carinho e desejou, já que não podia desejar por sua própria vida, pela deles. Desejou que a vida eles fosse repleta de coisas boas, de coisas incríveis, como mereciam.
Agora, só faltava um. E Tessa sentiu como se morresse um pouco só com aquele pensamento.

 

IV.

Quando a neve era tudo que se via pelas janelas do chalé, Tessa já não andava mais. Estava mais magra também, sem forças para comer e, honestamente, sem vontade também. Seu tumor estava lhe tirando toda sua essência, e fazia aquilo com maestria cruel.
Fazia meses desde que os últimos três estiveram ali, e ela passou um mês inteiro ansiosa, inquieta, esperando por alguma noticia de . Dois meses depois, nada. E então, foi perdendo peso. Perdendo seu espírito. Não se sentia mais limpa, só se sentia doente. E quase desejava que não aparecesse mesmo, porque não queria que ele a visse daquele jeito, mas, por outro lado, não suportaria não se despedir do garoto. E sabia que ele também não se perdoaria se não aparecesse.
Esperou, torceu, que alguém o lembrasse daquilo. Ele precisava aparecer. Deus, ela precisava que ele aparecesse.
E, então, sentada em sua cadeira rodas próxima a janela, ela finalmente o viu. O carro preto estacionando em meio a toda aquela claridade gelada que podia muito bem cegá-la de tanto que olhava. Mas saiu dali, os cabelos tão pretos contrastando com o rosto pálido que, mesmo em meio a tanta palidez, pareceu se destacar. Era pura esperança.
Finalmente, Tessa sorriu ao pensar.
Quando entrou no chalé, porém, ela estava séria outra vez. O olhou bem, da cabeça aos pés, analisando cada mudança no garoto. Ia muito além do estirão obvio, da fisionomia de adulto, mas nem tão longe também. Ele ainda tinha olhos de menino.
—Você demorou – o tom de bronca, que já conhecia bem, o fez se sentir ainda pior naquele momento. Os seus próprios problemas e medos não tinham espaço ali, ele finalmente entendia, vendo sua mentora parecendo tão pequena e debilitada. Se despedir dela seria doloroso, e ele achou por muito tempo que não aguentaria, se recusou a fazê-lo, mas aquilo não mudava o fato de que, de qualquer forma, ela ia morrer.
Aquilo, portanto, não era nenhum pouco sobre ele. Era só sobre ela.
— Me desculpe. – O garoto baixou a cabeça, revelando certa branquidão da neve espalhada pelos fios escuros. Tessa sorriu pequeno por isso. Um garoto, de fato.
— Venha aqui, – chamou, mais delicadamente. se aproximou, baixando de modo a ficar de joelhos aos seus pés quando a mulher fez menção de mexer em seu cabelo. O garoto manteve a cabeça baixa todo o tempo enquanto ela retirava os pequenos resquícios de neve de seu cabelo escuro, sorrindo pequeno junto com ela quando seus olhares se encontraram. – Não faça mais isso, ouviu bem?
— Sim senhora. – Ele não teria mais como fazer, não com ela, mas sabia que o conselho não se aplicava só a ela. Estava ordenando que ela tivesse mais consideração pelos outros, por quem julgava importante e, mais ainda, que soubesse a hora de priorizar tal consideração em detrimento do que poderia querer. Já devia ter estado ali há meses, afinal de contas, e a prova disso era o fato de Tessa já estar na cadeira de rodas. Nenhum de seus amigos a encontrou na cadeira de rodas. – Você está confortável aí? – perguntou, porque o silêncio o estava matando e até o ar entre eles parece pesado. Precisava começar a desfazer aquele clima ruim de algum jeito.
Tessa deu de ombros.
— Dou meu jeito – se mexeu no lugar, de modo a mostrar para ele a almofada que apoia sua coluna e a manta colorida embaixo de si.
sorriu pequeno.
— Bom – comentou.
Por vários minutos, nenhum dos dois disse nada. Tessa o encarou fixamente, observando o modo como, apesar de sustentar seu olhar, permanecia impassível. Ele não queria dar a ela nenhuma ideia de si, de quem se tornara, mas deixaria que ela o analisasse e chegasse a conclusão que preferisse. E aquilo nem era típico dele.
Tessa sorriu pequeno.
— Puxe uma cadeira e sente aqui do meu lado – a mulher meio pediu, meio ordenou. a obedeceu, puxando uma cadeira. – Como você tem estado?
O garoto estala a língua, pensando no que contar. O que poderia acalentá-la numa cadeira de rodas, a poucos dias de sua morte. Gostaria de ter feito algo grandioso aquele ponto, mas a verdade era que continuava naquele ciclo vicioso de erros, medos e traumas. Nunca crescia, nunca aprendia. Não queria ter que dizer aquilo a Tessa.
— Tenho estudado, principalmente – optou por dizer. Ser vago é a única coisa que pareceu fazer sentido, mas acabou notando pelo modo que a mentora o fitou que aquilo não tinha como bastar. Droga. – Eu adotei uma gatinha. Branca é, basicamente, com quem durmo e com quem acordo todos os dias. Ela gosta quando toco música, se acalma e isso… – ele parou incerto. – Isso me lembra você – contou finalmente.
Tessa lhe abriu um sorriso pequeno assim que ouviu as palavras, estendendo as mãos de maneira quase urgente para as dele, apertando seus dedos na palma.
— Você sempre teve uma voz muito bonita.
coçou a nuca diante de suas palavras, sem jeito. Ele podia ser bom com elogios, se agisse como se tudo fosse uma grande piada podia até ser charmoso, mas não era como se aquilo fosse apropriado ali. Acabou fazendo a única coisa que lhe pareceu ligeiramente adequada e coçando a garganta só para deixar as palavras escaparem cantadas de sua boca:
Come up to meet you… Tell you I’m sorry… You don’t know how lovely you are…
Tessa sorriu largamente tão logo o ouviu soar tão melodioso, torcendo para conseguir gravar cada nuance da voz do garoto e ter aquilo embrulhado em cada canto de sua mente quando sua hora, tão iminente, enfim chegasse.
I had to find you, tell you i need you… Tell you i set you apart – ela cantou também, buscando apenas não deixá-lo parar. sorriu do exato mesmo modo que fizera quando a ouvira cantar pela primeira vez: numa deliciosa surpresa, e Tessa apertou suas mãos juntas, o encarando pedinte. Sem conseguir pensar em negá-la coisa alguma, o garoto cantou junto com ela os próximos versos: – Tell me your secrets, and ask me your questions… Oh, lets go back to the start… Running in circles, coming up tails, heads on science apart…
Era, sem dúvidas, propicia, a escolha de música do garoto, mas ambos precisavam admitir que era terminantemente dolorosa. Como tudo naquele momento. Acabou por parecer adequado. Exceto quando Tessa se encolheu, abaixando a cabeça de modo que fosse capaz apenas de registrar o movimento doloroso de seu corpo e o ruído engasgado que escapou de sua garganta quando a mulher se entregou as lágrimas, fazendo com que o garoto imediatamente pulasse da cadeira. ficou de joelhos em sua frente, abraçando-a como conseguiu e pedindo desculpas de novo e de novo, o coração apertado em culpa.
Tessa levou um instante, e, ainda assim, quando finalmente ergueu a cabeça para encarar o garoto, seus olhos estavam vermelhos e carregados de uma tristeza quase sufocante. quis mais do que tudo poder salvá-la e odiou a tudo e todos por não poder, e por não haver nada que pudesse também.
— Quanto tempo? – ele ousou perguntar, embora honestamente, não soubesse se devia. Ou se queria saber. Mas não sabia mais coisa alguma aquela altura.
— Eu… Acho que não muito mais – Tessa respondeu. – Talvez aconteça hoje.
— E é aqui que você quer que aconteça? – ele olhou de sua cadeira de rodas para a branquidão de neve estampada pela janela ao lado dela. – Parece frio demais. E sem graça.
— Que opção eu tenho, querido? – Tessa lhe deu um sorriso triste, dolorosamente conformado.
— Sua cama, Tessa. É confortável e quentinho. É como a maioria das pessoas gostaria de ir – retrucou. – Podemos colocar uma música. Você pode tomar um vinho…
— Você ficaria aqui? – não era um pedido, nada além de uma constatação surpresa e sorriu pequenininho.
— Eu não vou a lugar nenhum, Tessa – prometeu.

realmente ficou. Ajudou Tessa a se deitar na cama e se sentou numa poltrona ali ao lado, segurando sua mão e conversando com ela sobre tudo. Deixou que ela falasse de suas lembranças favoritas do acampamento, cuidando deles e, honestamente, algumas histórias soaram completamente novas para ele, como se houvessem acontecido com outras pessoas. Mas, de outras ele lembrava tão claramente que seu peito doía.
– Tessa chamou depois de algum tempo em silêncio, distraídos ouvindo um disco do Elvis. – Você e … – ela parou, tossindo um pouco. Suas costas doíam tanto, era sufocante. – Quando… Quando…
— Eu não sei quando – o garoto respondeu, notando a dificuldade da mulher em formular a pergunta que nem era novidade para ele. Aquela coisa com … Acontecia a tempo demais. Gostava dela há tempo demais e, muitas vezes, achava que ela gostava dele também, mas… Eram dois covardes.
, escute – a mentora chamou urgente. Ele apertou seus dedos na palma, olhando-a com toda atenção do mundo. Podia dizer o que quisesse, ele estava ali, estava ouvindo. – teve aqui. Seus amigos estiveram aqui. Eu falei tudo que precisava falar para todos eles – o olhou, esperando que o garoto entendesse o que ela precisava dizer.
assentiu.
— Estou ouvindo.
— Disse para ser corajosa. Disse a ela que coisas boas aconteceriam para ela – a mulher revelou sob o olhar atento do mais novo. – Agora, estou dizendo o mesmo para você. Você é muito mais do que imagina, . Você é esperança, em sua forma mais pura. Não se esqueça disso e, por favor, seja quem é. Seja essa esperança e seja destemido. Por vocês dois – ela pediu. – Tenho certeza que vão ser incríveis juntos.
— É melhor você descansar – desconversou, porque ela parecia sentir dor toda vez que falava e simplesmente abrir os olhos parecia um esforço para a mulher, mas também porque ele não achava que estava pronto a falar daquilo. Nem sabia por onde começar, na verdade. – Eu vou estar aqui quando acordar.
Se eu acordar – Tessa corrigiu, lhe lançando um sorriso tão brincalhão quanto mórbido. revirou os olhos, mas riu fraco, fazendo um gesto com a mão para que ela andasse logo e fosse dormir.
O sorriso de Tessa era pura ternura quando ela fechou os olhos e, com os olhos ardendo pelas lágrimas que já escapavam livremente, observou o peito de Tessa subir e descer num movimento cada vez mais fraco, cansado. Não conseguiu, no entanto, olhar por muito tempo. Desviou logo os olhos para o rosto sereno e se lembrou de todos os sorrisos, risadas, e simples tons, nuances de voz, que já recebera dela. Ia sentir falta daquela mulher. Tanta, tanta falta….
Tessa não morreu naquela noite. Acordou horas depois e os dois comeram alguns biscoitos juntos, e riram por horas vendo um filme bobo. foi embora na manhã seguinte, depois de dormir na cadeira ao lado da cama de Tessa.
E, enquanto dirigia de volta para casa, tudo em sua cabeça era o rosto de Tessa. Seus olhos fechados enquanto dormia e o movimento minimo de seu peito enquanto respirava, como se estivesse pronta para parar a qualquer momento. Era doloroso como o inferno, pensar em respirar sem ela. Desde que ele fora capaz de começar a aprender, Tessa o estava ensinando. E, agora, não estaria mais. Nunca mais. E ele teria que aprender sozinho a viver daquele jeito.

FIM

 

Nota da Autora:
Olá!
Quando peguei Breathe no especial, planejava outra coisa completamente diferente, mas por isso essencialmente, usei muito pouco a letra da música em si, mesmo a amando demais, mas acredito que a essência da música, que fala de uma despedida dolorosa, porém necessária, está aí. Escrever essa história uma verdadeira viagem, carregada de uma série de descobertas, um processo que quero guardar com muito carinho. Espero que tenham gostado também!
Um PS importante: Essa fanfic está interligada com Mirrorball, fanfic do mesmo especial. Não há uma ordem certa de leitura, muito embora cronologicamente Breathe aconteça primeiro. As histórias não necessariamente dependem uma da outra, mas se completam.
Outro PS importante: Para as doidas das playlists – como eu –: é só clicar aqui e se deixar embalar pela despedida de Tessa e de suas amadas crianças.
Xx.