Cornelia Street

Cornelia Street

Sinopse: Quando um fenômeno tão raro como a conexão perfeita entre duas pessoas ocorre, a cidade de Nova York decide dançar com o tempo para que um amor tão forte quanto a vida continue a existir.
Gênero: Romance, Fantasia, Drama
Classificação: 12 anos
Restrição: Escrita com Louis Tomlinson, mas pode ser lida com qualquer pessoa.
Beta: Sharpay Evans

3.

Era outono em Nova York e a noite estava fria, bem como se lembrava. As folhas secas formavam um tapete sobre a grama verde recém-cortada e as luzes que decoravam o jardim criavam uma atmosfera verdadeiramente mágica no lugar. Os convidados já ocupavam seus lugares no espaço, o jantar seria servido em breve e isso significava que havia chegado bem a tempo.
— Aí está você! — A voz doce fez com que seu coração parasse por um instante. — Achei que você ia me deixar passar por essa tortura sozinha.
O rapaz se virou rapidamente, incerto se aquela visão era produto de um sonho qualquer. Dawson estava bem ali em seu longo vestido azul, tão linda quanto ele se lembrava. Seu olhar era cheio de expectativa, aguardando uma explicação pelo sumiço. Era possível que toda aquela loucura havia realmente funcionado?
— E perder a chance de pegar o buquê antes de você? Sem chance, babe. — Sorriu sapeca, sabendo que ela odiava o apelido.
— Já falei pra você não me chamar assim, as pessoas vão achar que somos namorados. — Revirou os olhos, agarrando o braço do amigo. — Vem, preciso beber alguma coisa pra aguentar essa festa.
Um pouco aturdido pela mudança de cenário repentina, acompanhou a mulher, acabando com uma taça semelhante à dela em suas mãos. Talvez estivesse louco ou talvez a sorte estivesse ao seu lado uma última vez, a única coisa que de fato sabia é que não desperdiçaria aquela oportunidade. Absorvendo todo o cenário a sua volta, o reconheceu completamente. As árvores envolvidas por luzes amarelas, o balanço repleto de flores brancas, as mesas de madeira dispostas pelo local com as iniciais dos noivos bordadas nos guardanapos. Estava mais uma vez no casamento de Jules e Wesley Dawson.
— Uma foto do casal? — O fotógrafo se colocou no caminho da dupla, já com a câmera em mãos.
— Nós não so… — iniciou de maneira automática. Já havia perdido as contas de quantas vezes tivera de recitar aquela mesma frase para parentes inconvenientes ou pessoas desavisadas.
— Claro, nós adoraríamos. — interrompeu, piscando para a amiga e envolvendo sua cintura em um dos braços logo em seguida. riu levemente antes de posar para foto, ela e realmente eram inseparáveis e as pessoas ao redor sempre especulavam sobre a natureza do relacionamento. Por um lado, a morena até entendia as suposições, afinal ela e se complementavam de uma forma única e isso sempre foi óbvio para qualquer um.
— Se a mamãe ficar sabendo disso, ela não descansará enquanto o próximo casamento não for o nosso. — Virou-se para o rapaz assim que o fotógrafo terminou o seu trabalho.
— Tia Lucy sempre foi a minha favorita. — riu divertido.
O par ocupou uma mesa mais afastada de onde os noivos estavam, buscando um pouco de privacidade para poderem comentar livremente sobre as roupas exageradas e os discursos aos noivos que eram sempre carregados de emoção. estava em sua segunda taça e , distraída pela companhia do amigo, não havia finalizado nem mesmo a primeira. Era sempre assim quando os dois se juntavam, engatavam uma conversa sobre um assunto qualquer e quando percebiam, horas haviam se passado desde que mergulharam na presença um do outro. se sentia eufórico, não pelo efeito daqueles poucos drinks, mas pela embriaguez que a atmosfera elétrica de lhe provocava. Se almas gêmeas de fato existem, o encontro de duas personalidades como a de e definitivamente era um fenômeno digno daquele nome. O universo certamente se sentia daquela forma, afinal, por qual outro motivo estaria ali? O rapaz não sabia dizer, mas havia se convencido de que gastar aquele tempo questionando as razões para as coisas acontecerem do jeito que acontecem não lhe renderia nenhum benefício. De fato, se ocupava mais em não lutar contra a vontade de observar a mulher a todo o tempo. Se estava mesmo sendo sincero, estava grato por cada segundo que podia gastar naquilo.
— Por que você tá me olhando desse jeito estranho? — riu como se estivesse perdendo alguma piada.
— Não é nada. — sorriu enigmático daquele jeito tão característico que fazia seus olhos ficarem pequenos. A mulher deu de ombros, deixando para lá o que provavelmente devia ser só mais uma das gracinhas que não compreendia.
O diálogo foi encerrado quando o som agudo do tilintar da colher contra a taça anunciou, para o total descontentamento de , que os discursos se iniciariam. A mulher conhecia muito bem o esquema daquelas homenagens e, especialmente em sua família, as pessoas tinham o costume de se prolongarem mais do que o necessário quando alcançavam o bendito microfone.
— Cinquenta pratas que a Tia Rose vai contar a história do próprio casamento de novo. — murmurou para a parceira abafando uma risadinha.
— Por favor, me mate agora pra eu não ter que aguentar isso de novo. — Revirou os olhos exprimindo todo o seu tédio naquela frase.
Trocando um olhar rápido com , parou por um instante pensando na sequência exata dos acontecimentos. É verdade que com os anos ele se tornou um pouco esquecido, todavia seu cérebro nunca foi capaz de se livrar daquela lembrança, mesmo quando o homem implorou aos céus que qualquer vestígio de fosse apagado de sua mente.
— O que acha de darmos o fora? — Sugeriu, promessas faiscavam daquele convite.
— O último a chegar no carro paga a pizza. — Foi o que Dawson respondeu, se apressando em sair do local para ganhar uma vantagem sobre o homem.
Sendo os mais discretos que podiam em meio à fuga, os jovens deixaram a aglomeração da celebração para trás enquanto se aproximavam da saída. O céu estava coberto por uma grossa camada de nuvens, quase como se as estrelas estivessem tímidas em competir com aquele brilho voraz que se apoderava dos olhos de diante de uma pequena competição. O sorriso largo nas feições de enquanto alcançava a morena indicava que ele se divertia tanto quanto ela.
— Você já foi melhor, babe. — Provocou ao ultrapassar a mulher que se atrapalhava na tarefa de segurar o longo vestido nas mãos e ser ágil sobre seus saltos de 10 centímetros.
— Isso é totalmente injusto, para início de conversa eu nem sei onde você estacionou esse inferno de carro. — Parou por um instante, arrancando os sapatos que reduziam a sua performance olímpica. — E segundo, é muito fácil sair correndo por aí quando seus pés não estão sendo esmagados nessas coisinhas aqui.
— Mas foi você quem me desafiou. — Achou graça da justificativa furada voltando um pouco para auxiliá-la.
— Eu não pensei direito. — Rendeu-se, entregando os calçados nas mãos do amigo. — A gente divide a conta.
— Vai nessa. — Zombou, recebendo uma pancada no braço que logo em seguida foi entrelaçado com o da morena.
Um ruído crescente indicou que os céus começavam a cair nas ruas nova iorquinas e aquela foi a deixa para que a dupla iniciasse mais uma vez uma correria desajeitada em busca do veículo. Gargalhavam da situação inusitada e, como duas crianças, brincavam na chuva, driblando alguns escorregões. Para aquilo era tão familiar que chegava a doer, doía saber que em algum lugar teria de reaprender a viver sem aqueles momentos tão característicos dos dois.
— Se eu pegar um resfriado a culpa vai ser totalmente sua. — Foi o que declarou quando se aconchegaram no banco traseiro do carro.
— Deixa de ser dramática. — revirou os olhos, ainda ofegava um pouco por conta do esforço físico recente. — Você sabe o quão difícil é arrumar uma vaga em dia de casamento?
riu sacudindo a cabeça e um sorriso travesso apareceu nos lábios do homem. estava completamente encharcada, alguns fios de cabelo estavam pregados em seu rosto e a maquiagem estava borrada no cantinho dos olhos. Aquela imagem, se comparada à figura estonteante da mulher há alguns minutos atrás, era um completo caos. De alguma forma, para , ela parecia ainda mais avassaladora daquele jeito. Ela, por outro lado, observava o amigo e se sentia estranha. Algo estava diferente aquela noite, parecia prestar atenção em cada mínimo movimento seu. Ainda mais estranho do que aquilo, era a sensação desconhecida que queimava em seu íntimo toda vez que flagrava aqueles olhares. Aquilo definitivamente era o clima de casamento a afetando ou provavelmente a insistência de sua família na ideia de que ela e formavam um lindo casal. Só pode ser isso, ela pensou.
— Alguma vez você já pensou em mim de uma forma diferente? — Um pouco incerta, quis saber. Se confirmasse que aquilo era só mais uma loucura de sua cabeça, poderia enterrar aquela ideia maluca em algum lugar de sua mente e voltar à normalidade.
— Diferente como? — Arqueou as sobrancelhas em confusão, secretamente achando a releitura daquele momento extremamente engraçada.
— Sei lá, como mais do que uma amiga? — Evitou encará-lo por um instante. Embora fosse o seu melhor amigo e ela se sentisse totalmente confortável com ele, aquele assunto era uma área inexplorada por eles e por isso ainda lhe causava algum desconforto tocar naquilo tão casualmente.
, isso é tudo o que eu tenho pensado por um bom tempo. — Foi franco.
Do lado de fora do veículo, a chuva caía impiedosa, mas naquele pequeno espaço que os abrigavam o temporal nada mais era do que um aconchegante pano de fundo. , que sempre tinha algo a dizer, se via pela primeira vez em algum tempo sem palavras. A verdade é que talvez ela não tivesse certeza sobre como se sentia em relação à descoberta. era sua outra metade e provavelmente não valia a pena comprometer uma dinâmica tão perfeita por conta de uma ideia boba, todavia se eram mesmo tão incríveis juntos como aquilo poderia não funcionar? Ali, naquele carro abafado e diante daqueles olhos calorosos que tanto conhecia, colocar aquela vontade impensada em prática parecia deliciosamente inevitável.
— Isso não significa que as coisas precisam ser diferentes entre nós. — Apressou-se em dizer, temeroso que alguma atitude impensada pudesse arruinar aquela história. — Eu posso lidar com isso sozinho.
Mais uma vez, Dawson se calou avaliando mentalmente o que fazer a partir dali. Embora tudo aquilo fosse um pouco confuso, em nada lhe agradava fingir que aquela conversa nunca acontecera ou que não havia uma evidente, e talvez nem tão nova assim, tensão entre os dois. Além disso, ela é quem havia tido a brilhante ideia de trazer aquele tópico à tona, poderia seguir em frente, mas certamente não podia ignorar todas as vontades que estar tão próxima de lhe provocava. Uma coisa era certa, se aquela coisa entre os dois não fosse para lugar nenhum, pelo menos ela devia a si mesma a sensação dos lábios de nos seus.
, está tudo bem. — Disse em um breve sussurro, sorrindo timidamente.
lhe devolveu um sorriso nervoso, um pouco retraído por não saber se aquilo significava que deveria esquecer aquela história ou não. Decidida a sanar todos os seus questionamentos, se aproximou pousando uma de suas mãos delicadamente no pescoço do homem. Quando a respiração pesada de bateu contra seu rosto, uma sensação gélida dançou levemente por seu estômago se intensificando ao sentir as mãos dele circundarem sua cintura. A mulher deixou que seus olhos se fechassem ao mesmo passo que vencia qualquer distância que a separava de , finalmente encontrando sua boca com a dele.
No início o beijo era suave, um pouco tímido e até curioso. Naquele momento se conheciam com calma sobre novas perspectivas. Como fogo pareado à gasolina, a faísca inicial não tardou em evoluir para um incêndio, no entanto. O casal era envolvido por uma atração quase magnética e, ainda que não houvesse espaço para maior proximidade, pressionava o seu corpo urgentemente contra , sedenta por mais. Para , poucas coisas podiam superar a sincronia perfeita que o beijo de tinha com o seu, mas quando ela se atrevia a subir em seu colo daquela maneira, ele era capaz de listar grande parte delas.
… — ronronou baixo quando os beijos do homem escaparam para a pele sensível de seu pescoço.
apertou o quadril da mulher mais intensamente, completamente rendido aos estímulos de Dawson. Tê-la ali tão entregue em seus braços despertava uma paixão tórrida em seu peito que ele não se esforçava em domar. Sabia bem o que aquele momento implicava e, de alguma forma, sabia que as suas próximas palavras tinham o poder de salvá-lo, mas não podia fugir daquela constatação agridoce: perderia quantas vezes fosse necessário se aquilo significava que poderia amá-la também. E por isso, quando a frase saltou de seus lábios, ela não foi nem um pouco menos dolorosa do que ele antecipara.
— Eu aluguei um apartamento na Cornelia Street. — Disse casualmente enquanto distribuía carícias pelo corpo da mulher. — O que acha de irmos para lá?

 

2.

se revirou confortavelmente nos lençóis brancos a medida em o quarto era inundado pela luz do amanhecer. mal se mexia, temeroso de que seu mínimo movimento pudesse estourar aquela bolha de felicidade em que se encontrava nas últimas horas. Estava incrivelmente feliz, mas não sabia bem como se comportar diante dos últimos acontecimentos, talvez a escolha mais sensata fosse esperar a reação de .
— Bom dia. — Disse sonolenta, seus olhos permaneciam fechados e um sorriso brincava em seus lábios.
— Bom dia, dorminhoca. — Sorriu passando a mão pelos cabelos bagunçados da mulher. — Como está se sentindo?
se ajeitou sobre a cama e apoiou a cabeça em uma das mãos, a fim de observar . Ela não precisava de muito para notar que ele estava nervoso e embora entendesse perfeitamente os motivos, achava aquela cena um tanto adorável. Era quase como se aquele não fosse o mesmo homem que a tomara em seus braços tão ferozmente na noite passada.
— Muito bem e você? — Respondeu bem humorada, não poupando nenhum sorriso. Queria que soubesse que ela não se arrependia do que havia acontecido e que estava, de fato, muito satisfeita com o rumo que as coisas tomaram.
— Bem. — Disse risonho. — O que estamos achando do apartamento novo?
— É bem maior que o antigo. — Pontuou, dando uma olhada no quarto. — Mas não deu pra prestar muita atenção ontem à noite.
riu e balançou a cabeça levemente, nunca imaginou que aquele momento existiria fora de sua imaginação e nem que poderia ser tão natural. Eram os mesmos e de uma semana atrás ou de um mês atrás, quase como se a última noite não houvesse acontecido para aquela amizade.
— Eu posso te mostrar os outros cômodos. — sorriu de uma forma nova, uma que nunca havia sido direcionada para e que lhe provocou um delicioso frio na barriga.
— Então é assim que conquista as garotinhas da faculdade? — gargalhou não querendo demonstrar que um simples olhar daquele homem, especialmente com as memórias da noite passada, a estremecia por completo.
— Não, eu não preciso de truques com você. — Murmurou, agora tão próximo de que podia notar sua respiração descompassada. — Eu te conheço bem o suficiente.
não pôde evitar o som de aprovação que escapou de si quando sentiu os lábios quentes e macios de sobre o seu colo. O moreno percorria seu pescoço e ombros como se estivesse em um território conhecido e quando ele puxou suavemente seus cabelos próximos a nuca, ela teve certeza que ele a conhecia bem até demais.
— Vamos, está na hora do café, babe. — Foi o que disse após interromper repentinamente o que estava fazendo, recebendo uma careta frustrada da mais nova.

*

Três meses haviam se passado desde o dia em que e decidiram tentar experiências novas. Os resultados foram tão promissores que desde então os amigos estiveram desfrutando essas descobertas em segredo, seguros nas paredes do apartamento de . As coisas estavam indo muito bem e não sabia ao certo como ou quando decidiram que seria melhor manterem tudo entre eles privado, entretanto, sabia a dor de cabeça que seria aquela revelação aos familiares; eles nunca acreditariam que em algum momento ela e realmente foram apenas amigos. Sendo assim, toda aquela discrição era até útil.
A mulher, largada desajeitadamente sobre o sofá escuro de , estava tentada a ligar a tv e dar uma espiada no próximo episódio da série que assistia todas as noites com o amigo. ainda levaria meia hora para estar em casa e não haviam tantas coisas que ela podia fazer no apartamento antes que o tédio a tomasse por completo. Estava certa de que ele não se importaria muito e que no fim das contas entenderia que ela não teve outra escolha. Quase certa de que faria aquilo, foi interrompida pelo toque do telefone na mesa de apoio próxima à poltrona. Impaciente, sentou-se aguardando que a mensagem fosse direto para a secretária eletrônica, não se incomodando em atender à chamada.
— Oi querido, é a Bree. Que saudade! — Uma voz feminina iniciou. Dawson arqueou uma sobrancelha, estranhando a intimidade do tratamento. — Quando ouvir essa mensagem me ligue, estou louca para repetirmos aquela noite. Estou livre nesse sábado, tenho certeza que podemos combinar alguma coisa.
reproduziu a mensagem algumas vezes, incerta do que aquilo poderia significar. estava se divertindo com outras garotas enquanto estava com ela? Não haviam conversado sobre exclusividade, mas ela passava tanto tempo naquele apartamento que parecia meio <em<óbvio que aquilo era sério. Aparentemente não era tão óbvio para e isso incomodava grandemente.
Completamente enfurecida por ter sido feita de boba, a mulher juntou suas roupas que acabaram ficando pelo apartamento e bateu a porta atrás de si, decidida a deixar aquela história no passado. Talvez ela e fossem feitos para serem nada mais do que amigos. Depois daquilo, ela não estava certa nem de que aquilo seria possível.
— Babe! — A voz animada de a fez congelar onde estava. — Você não vai acreditar, consegui resolver o problema com o Toby bem mais rápido do que o esperado e… Onde você está indo?
sustentava uma perfeita e inocente expressão confusa em seu rosto fazendo com que respirasse fundo, a última coisa que queria era bancar a namorada ciumenta.
— Estou indo embora, . — Disse séria. — Eu não quero mais fazer isso.
— O que aconteceu? — Franziu o cenho sem entender. — Não vá embora assim, entre. Vamos conversar.
Cedendo ao olhar suplicante de , fez seu caminho de volta a sala de estar. Embora ainda não houvesse admitido para si mesma, estava sedenta por uma explicação que pudesse classificar aquilo como apenas um mal entendido. As coisas estavam tão boas entre eles, não era possível que apenas ela sentia aquilo.
— Eu ouvi uma mensagem na secretária eletrônica de uma das suas…amigas. — Retorceu suas feições desgostosamente. — E o que eu tenho a dizer é que se você queria sair com outras garotas, deveria ter terminado isso que está acontecendo entre nós.
— Do que você está falando? — Se aproximou, ainda mais confuso. — Eu não estou saindo com ninguém.
, por favor. — Revirou os olhos se encaminhando até o aparelho e pressionando o botão para que as gravações fossem reproduzidas. assistiu um muito confuso dar um tapa em sua própria testa, balançando a cabeça negativamente.
— Eu não vejo Bree desde antes do casamento, . — Se explicou. — Eu nunca faria isso com você.
— E por que depois de meses ela te deixaria uma mensagem assim? — Abaixou um pouco a guarda, querendo acreditar em . Naquele instante era nítido o quanto ela se importava com aquele pseudo-romance.
— Eu não faço a menor ideia, babe. — Sua voz era macia e repleta de súplicas silenciosas quando acariciou levemente o braço de . — Acredite em mim, eu tenho tudo o que eu sempre quis quando estou com você. Eu jamais seria tão estúpido a ponto de arriscar isso.
Dawson mirou brevemente os olhos de sendo atingida pela sinceridade que ele demonstrava naquele momento. Não restavam dúvidas de que ele dizia a verdade, contudo a breve hipótese de apenas ela ter vivido tão intensamente aquelas últimas semanas ainda a preocupava.
— O que estamos fazendo, ? — Suspirou, cansada de dançar no escuro sem saber para que lado ir.
— Nós estamos juntos, . — Sorriu de forma doce, se aproximando um pouco mais. — Eu sinto muito que as coisas não estiveram claras o suficiente, mas eu quero consertar isso.
— Está dizendo que somos uma coisa pública agora? — Riu bem humorada, esquecendo o ocorrido de alguns minutos atrás.
— Estou dizendo que eu quero que seja minha namorada da maneira mais oficial possível. — Respondeu com um sorriso brincalhão e balançou a cabeça já imaginando o que viria a seguir. se abaixou com um dos joelhos apoiado sobre o chão e este produziu um audível ranger, arrancando risadas do casal.
— Estou começando a achar que você não fez um bom negócio com esse apartamento, babe.

*

O sol se deitava em uma ensolarada Nova York e naquele dia o sorriso alegre de era como um reflexo do clima iluminado na cidade. O rapaz tinha grandes planos para aquela noite e a ansiedade em executá-los já quase o consumia por dentro. Naquele dia, e completavam três anos de namoro e não era surpresa nenhuma que o rapaz tivesse algo especial planejado, ele sempre tinha.
A cozinha de paredes brancas tinha pétalas espalhadas por todo o chão e mantinha na cabeça a ideia de que precisava acender algumas velas mais tarde. Quando o aparelho em seu bolso vibrou alertando sobre uma nova mensagem, uma pontada gélida de nervosismo o atingiu em cheio, contudo, a ansiedade de ter um pouco mais perto era ainda maior.
— Que demora, achei que eu ia ficar a noite toda esperando. — Riu lançando seus braços ao redor de e depositando um beijo carinhoso em seus lábios.
— E quando é que eu já te deixei plantada do lado de fora? — Sorriu enchendo seus pulmões com aquele perfume que tanto adorava.
— Você quer mesmo que eu diga? —Arqueou uma sobrancelha recebendo uma piscadela do parceiro.
capturou a mão de na sua e a guiou até a cozinha. As velas não eram tão importantes quanto o que tinha a comunicá-la. Estava nervoso, mas o anseio de declarar tudo o que estava em seu coração era mais forte do que todo o resto.
, o que é tudo isso? — Sorriu olhando a sua volta.
— Achei que gostaria de uma coisa mais íntima. — Ajoelhou-se mais uma vez, repetindo um gesto que fizera naquele mesmo dia há algum tempo atrás. — Da maneira mais oficial possível.

*

O abraço firme de ao redor de de alguma forma a acalentava e com ele uma certeza de que nunca estaria sozinha pulsava em seu peito. Ainda sim, não era o suficiente para afastar o oco que a assombrava por dentro.
segurava um guarda-chuva sobre suas cabeças e a preocupação pela esposa era quase palpável, mas ele entendia que ela precisava daquele silêncio. Se pudesse, colaria cada pedacinho de que havia sido quebrado nos últimos 3 meses, contudo sabia que aquela era uma tarefa que ele não poderia realizar. O diagnóstico indesejado da volta do câncer lentamente esmagava os planos que tinham para a comemoração do iminente aniversário de casamento; no próximo mês completariam 30 anos juntos.
sabia que adorava aquelas datas comemorativas e se esforçava ao máximo para estar forte o suficiente para que conseguisse celebrar com o marido. A luta se tornava cada vez mais difícil e para , uma breve caminhada até a esquina de sua casa já lhe custava tudo o que o seu físico podia dar.
— Sabe um lugar que eu adoraria ir no nosso aniversário de casamento, querido? — Sorriu fracamente enquanto faziam o caminho de volta para casa.
— Qual, babe? — A olhou com devoção, pronto para realizar qualquer um de seus desejos.
— No nosso primeiro apartamento na Cornelia Street. Fizemos tantas memórias naquele lugar, você se lembra? — Perguntou fazendo um suave carinho na mão de seu amado.
— É claro! Como eu poderia esquecer o lugar onde tudo começou?

*

Chovia mais uma vez na cidade que nunca dormia e para era como se ela estivesse completamente adormecida. Não podia enxergar nem mesmo o céu cinzento ou o amarelo vivo dos veículos que cortavam as ruas levando seus passageiros. Tudo estava meio sem vida, meio sem cor.
A fachada roxa do familiar apartamento estava apenas a alguns passos de distância e na curta caminhada até o local era como se cada esquina pudesse imprimir uma nítida imagem de vivendo sua juventude nos pontos característicos do bairro. O barulho que as chaves fizeram em sua mão soava como um tempo distante onde tudo o que ele precisava para ser feliz era girar a maçaneta daquela conhecida porta.
Aquele dia marcava o aniversário de 30 anos de casamento de e . O homem havia alugado o apartamento por um mês para que naquele dia pudesse revisitá-lo com sua esposa. havia partido há apenas três dias.
Ao adentrar a sala de estar, que já não era tanto como costumava ser, pôde ouvir o ranger daquela tábua teimosa que um dia participou de sua história com . As lágrimas quentes e incessantes já não eram mais desesperadas, mas estavam ali cúmplices às lembranças irrefreáveis que viviam naquele apartamento. Talvez o luto o estivesse enlouquecendo ou quem sabe era apenas a idade realizando seus efeitos, todavia quase podia ouvir o nome de sua amada em todo novo cômodo que adentrava. Se não ter em sua vida significava viver com aquele buraco em seu peito, se sentia culpado por desejar uma vida onde nunca a tivesse conhecido. Derrotado, se sentou no chão frio e recostado à parede fez um último desejo antes de adormecer; pediu que aquilo fosse apenas um sonho ou que pudesse viajar no tempo para fazer as coisas diferentes. Se e eram almas gêmeas, uma realidade onde precisavam existir separadamente era cruel demais.

 

1.

Uma brisa fria bateu contra a pele quente de lhe arrepiando todos os pelos do braço. A noite estava fresca, mas o vento cortante trazia consigo uma pista do quão frio Nova York podia ficar em alguns dias. Assim como o vento, estava inquieta e alisou a saia de seu vestido pela décima vez antes de dar mais uma volta pelo jardim. Já havia cumprimentado todos os parentes e até alguns convidados dos quais não fazia a mínima ideia de quem eram. Todos estavam ali, todos menos uma pessoa bem específica.
— Me procurando, babe? — A voz de soou baixa perto de seus ouvidos.
— Você está atrasado, . — Disse após um leve sobressalto, suas bochechas um pouco mais avermelhadas do que de costume.
— Você sabe que eu gosto de fazer uma entrada. — Riu deixando um beijo em sua bochecha. — Onde estão os noivos?
— Para lá. — Indicou com a cabeça. — E por isso nós ficaremos aqui. — Riu indicando uma mesa mais afastada do centro.
— Você é quem manda. — disse caminhando ao lado da amiga.
buscava por uma força interior que a pudesse auxiliar no que tinha a dizer, contudo o nervosismo parecia estar conseguindo o melhor dela. , por sua vez, continuava o caminho sem nem perceber a batalha que era travada bem ao seu lado, ou talvez quem sabe era quem não percebia aquele lento colapso de duas realidades parecidas.
— Uma foto do casal? — A dupla foi interrompida pelo fotógrafo que os encarava em expectativa. olhou rapidamente para sendo rodeada por seu braço firme quando o flash disparou. Não eram um casal, entretanto estavam acostumados com todos aqueles pequenos e corriqueiros enganos.
— Daqui a pouco vão te chamar de senhora . — Zombou esbarrando o ombro em .
— Nos seus sonhos, talvez. — Retrucou divertida.
O par se acomodou nos assentos confortavelmente e aguardavam pelas homenagens prestadas pelas madrinhas e padrinhos. Como sempre, apostavam em quem pagaria o primeiro mico da noite e se divertiam por compartilharem tantas coisas que só eles poderiam entender e achar graça. estava hipnotizado pelo grande sorriso que carregava em seus lábios, mas tinha medo que ela o pegasse a admirando tão constantemente.
— Acha que se sairmos de fininho eles vão sentir nossa falta? — Murmurou.
— Eu espero que não, pois é exatamente o que vamos fazer. — Disse trocando um olhar cúmplice com a outra.

*

— Eu não acredito que você me fez sair correndo no meio dessa chuva. — Foi o que disse quando se acomodaram no carro.
— Você precisa viver um pouco, . — Gargalhou retirando os cabelos molhados que tapavam a visão da amiga.
— Se eu ficar doente a culpa vai ser totalmente sua. — Disse empurrando o amigo de leve.
— Vai valer a pena. — Piscou esboçando seu tão característico sorriso arteiro.
Dawson não disse nada, mas sorriu de volta não conseguindo se manter imune aos encantos do rapaz. Se soubesse que frequentemente passeava em sua mente, poderia ele tratá-la da mesma maneira de sempre? tinha tanto medo de arruinar tudo aquilo com seus novos sentimentos que por muito deixava que a aflição a calasse.
— Eu preciso te perguntar uma coisa.
— O quê? — Questionou um pouco trêmula.
— Você já pensou sobre todas essas coisas que falam sobre nós? — Virou-se para encará-la. — Digo, sua família que insiste na ideia de que somos um casal.
— Ah… Sim. — Disse um pouco tímida. — Você não?
— Sinceramente? Acho inevitável não pensar. — Riu sem graça. — Você acha que daria certo?
— Eu não sei. — Suspirou nervosa, sabendo que tinha a oportunidade perfeita para confessar seus sentimentos. — Mas eu gostaria de saber.
Surpreso, voltou seus olhos para ela mais uma vez se perguntando internamente se sonhava aquele momento. não conseguia olhá-lo por muito tempo e suas bochechas cada vez mais escarlates denunciavam toda a estranheza que era se apaixonar por seu melhor amigo.
Um pouco sem jeito, se aproximou, certo de que gostaria de ser muito mais do que havia sido para ela por tantos anos. Diante daquela nova possibilidade, ele não era mais o homem confiante e corajoso que sempre fora. A chance de poder agir sobre o que sentia por o transformava novamente em uma criança medrosa e assustada frente a novas experiências. De alguma forma, em seu interior sabia que aquele seria o começo de algo grande.
Quando, de forma acanhada, seus lábios se tocaram pela primeira vez, a nova sensação que experimentavam apenas cresceu para algo que não sabiam exatamente como explicar. Parecia certo demais para terem esperado tanto tempo por aquilo e parecia forte demais para algo que apenas se iniciava ali. Era como se o mundo houvesse parado para que e ficassem juntos e era como se a história não pudesse ter outro rumo.
— Eu aluguei um apartamento na Cornelia Street. — Disse casualmente quando se separaram brevemente em busca de ar. — O que acha de irmos para lá?

Nota da Autora:Primeiramente, gostaria de enaltecer o talento de Taylor Swift em contar histórias tão profundas em suas letras. Essa foi só uma das infinitas possibilidades para qual a minha mente viajou escutando essa música e apesar da correria e dos bloqueios constantes, estou orgulhosa de ter finalizado (mesmo que tenha sido atrasada haha). Espero que tenha gostado dessa história e estou ansiosa para saber o que achou nos comentários.
Obrigada por ler Cornelia Street!