Everything Has Changed

Everything Has Changed

Sinopse: Anos atrás, eles iriam ter um encontro e acabou não acontecendo. Agora, eles se reencontraram e terão a chance de realizar o que ficou para trás. Será que tudo mudou mesmo?
Gênero: Romance.
Classificação: Livre.
Restrição: Nenhuma.
Beta: Rosie Dunne.

EVERYTHING HAS CHANGED

CAPÍTULO ÚNICO

Fugir tinha sido a melhor opção.

Era o que acreditava no dia anterior, assim que pisou os pés pela primeira vez depois de cinco anos sem aparecer em sua cidade natal. O coração acelerado demonstrava o nervosismo por estar de volta em definitivo.

Agora, sentada no sofá dos avós, 18h depois, ela não acreditava que havia dito um sonoro não para um pedido de casamento de seu namorado americano de anos, apenas para sentir os mesmos sentimentos de quinze anos atrás, de quando ainda era uma garotinha que se iludia com histórias sobre o Rei Arthur e o misticismo de Glastonbury.

O maior problema é que desde a hora que fora dormir, até o momento que acordara naquela manhã chuvosa, típica do clima inglês, ela se recordava dos famosos olhos verdes, as sardas pequenas e um sorriso matador, que um certo colega de sala tinha, mas que agora ela não sabia quase nada sobre a vida do mesmo, apenas que ele despertava coisas que há tempos estavam escondidas no seu coração.

No dia anterior

As malas que tentava tirar do banco traseiro a estavam fazendo suar, apesar do clima londrino que estava particularmente frio naquela manhã, podia dizer que o peso e a falta de cavalheirismo do motorista do táxi a estavam fazendo derreter por baixo do grande sobretudo que usava.

Ninguém poderia dizer que não havia feito uma viagem longa e trazia uma bagagem de 15 anos nas costas, enquanto carregava mais três para dentro da estação St. Pancras.

Desde que engatou um namoro há cinco anos, ela não tinha pisado nas terras da rainha e se arrependia por cada segundo, não somente pelo namoro em si, mas por ter gastado tanto tempo tentando ser uma advogada conceituada em Nova York. Que Harvey Specter a perdoasse, mas não tinha mais paciência para passar horas dentro de um escritório, lendo processos e mais processos.

Do que havia adiantado tanto tempo perdido? Tinha jogado tudo para o alto mesmo, o trabalho e o namoro. Tá certo que a história não termina por aí, entretanto ela desejava no seu interior, lá no fundo, que não fosse tão simples assim. Mas simplesmente era.

O trem já estava exatamente onde deveria estar, na hora que estava no bilhete, já que a pontualidade inglesa nunca saía de moda, mas aparentemente ela tinha esquecido os velhos hábitos. Apesar da sua luta anterior com as bagagens, havia saído relativamente atrasada do hotel onde passara apenas um dia e agora estava a cinco minutos de perder o único trem disponível para a sua cidade natal.

Correu como pôde para chegar até o seu vagão e assim que se sentou em sua poltrona, tinha a certeza de que os outros passageiros pensavam que ela tinha corrido uma maratona. Ledo engano, queridos, ela não sabia mais nem o que era praticar exercícios físicos e acreditava que apenas havia se mantido no corpo que estava antes, somente pela loucura de ser uma workaholic*.

Como alguém gostaria de casar-se com alguém que só pensa em trabalho? A resposta é: somente sendo outro viciado em trabalho. Oliver era um desses CEOs que havia herdado o cargo do aposentado pai, não sem muito esforço, afinal o ex-namorado era muito estudioso e passava horas dentro da empresa. Tinha até a convidado para se tornar a advogada principal, proposta que ela recusou, óbvio. E esta era apenas a primeira.

, como era chamada pelos mais íntimos, ainda não acreditava no que a noite do dia 19 de outubro do mês passado havia se tornado. Um conglomerado de surtos e de “o que eu tô fazendo da minha vida?” a atormentavam desde então. Crise dos 30? Poderia ser.

Entretanto, quando Oliver se ajoelhou na frente de todos, no restaurante preferido deles, ela só soube chorar, não de alegria, como ele pensava. Ela apenas disse um sonoro “me desculpe, não posso fazer isso” e saiu. Assim mesmo, foi embora, arrependendo-se logo no instante seguinte, não da negativa ao pedido de casamento, mas pelo companheirismo que haviam construído durantes todos aqueles anos, por isso, no dia seguinte bateu no apartamento de Oliver.

Apenas pediu desculpas pelo que havia feito e pela vergonha que o tinha feito passar, porém, realmente ela não estava preparada para dar esse passo importante.

E foi assim que havia abandonado um grande homem.

Entretanto, os pensamentos ainda rondavam a sua cabeça, ligou para mãe e havia contado tudo e disse que estava sentindo saudade de casa e não era a casa que os pais tinham na Philadelphia, onde morou por 2 anos assim que se mudaram de país, mas sim de onde havia nascido. Da casa dos avós e dos amigos que havia deixado para trás, onde mantinha contato regularmente com alguns.

Com o incentivo da mãe, ela largou o emprego no dia seguinte e apenas esperou o finalizar das tratativas para poder comprar o voo de volta para casa.

E agora ela estava ali, com a testa encostada no vidro do trem, vendo as paisagens bucólicas da Inglaterra passarem diante seus olhos. Sentira saudade de tudo aquilo, definitivamente.

O sono a atingiu com força e ela apenas pode se entregar a um breve cochilo. A distância entre Londres e Glastonbury não era muito longa, apenas algumas paradas no meio do caminho a deixavam um pouco maior. Quando o trem parou na sua cidade, ela ainda se encontrava com o rosto um pouco sonolento, mas não demorou muito para vestir o sobretudo que havia tirado anteriormente e pendurado no cabide solitário perto da janela. Retirou as malas com a mesma dificuldade com que as tinha colocado no vagão, caminhou por alguns minutos, quando ouviu o seu nome ser chamado:

! — Exclamou uma voz empoeirada e mesmo sem acreditar que era a ela que estavam se referindo, virou-se apenas para conferir.

Seu avô estava parado no meio da estação Castle Cary, segurando um pequeno buquê de diversas flores que pareciam que haviam sido colhidas do quintal de casa. Ela abriu um sorriso enorme ao ver a imagem do senhor a sua frente, um pouco mais envelhecido desde a última vez que o vira.

Caminhou apressadamente e desengonçadamente, diga-se de passagem, e logo que se aproximou, largou tudo apenas para abraçá-lo.

— Não sabia que o senhor viria. — Os olhos cheios de lágrimas demonstravam a emoção dos dois.

— Jamais deixaria de receber a minha única neta, logo depois desses anos todos — disse com a voz embargada —, tinha medo de não a ver nunca mais, querida — Desabafou, secando rapidamente os caminhos de água que haviam sido feitos em suas bochechas e entregou o buquê.

— Agora estou aqui e podemos deixar esse medo para trás, não é mesmo? —
Beijou o rosto do mais velho e começaram a caminhar para a saída do local.

Até de estar em casa as coisas pareciam mais fáceis, mais reconhecíveis.

No caminho para casa dos avós, observava a paisagem que tanto amava. As ruínas davam um charme mais do que especial e lembrava-se de quando era criança.

Quantas peças havia encenado na escola onde representava o papel de Guinevere. Sonhava em encontrar o seu Rei Arthur ou quem sabe o seu Lancelot e construir um castelo no meio daquelas ruínas, mas a Avalon que todos diziam ser só existia na sua imaginação. Não que Glastonbury não fosse conhecida pelo local onde a lenda se propagou, era. Mas não era mais assim que via a vida.

Entretanto, estar de volta dava sim a sensação de que a vida poderia ser boa. Ainda mais quando adentraram a casa que ela conhecia tanto e encontrara sua avó segurando um bolo com a frase “Welcome Back*” e as duas melhores amigas segurando balões de “I missed you*”.

— Não acredito! — Sorriu e correu para abraçar as amigas, largando rapidamente o buquê em cima da mesa.

— Bem-vinda de volta ao clã, — rolou os olhos com a menção do apelido que, particularmente, ela odiava. Era assim que todos os professores da época de escola a chamavam.

— Tá vendo, Richard, assim que são as coisas, troquei as fraldas dessa menina e ela volta de viagem e não quer nem saber da velha aqui — lamentou a senhora, encostada no ombro do marido, entretanto não escondia o sorriso que estava de orelha a orelha.

— Sem drama, Dona Edith, tem para todos! — Sorriu abertamente e abraçou a avó — Senti muito a sua falta.

— Eu também querida, por isso preparei o seu prato favorito… — Puxou a mulher pelo braço, a conduzindo para a velha cozinha.

Tinha lembranças lindas dali, onde se deliciava comendo Bangers and Mash*, seu prato favorito da vida e que ninguém fazia igual a sua avó e encerrava com um Summer Pudding*. Em meio a risadas da família e amigos próximos. Sentira muita falta disso quando se mudara.

Comeram entre risadas e lembranças.

Após tomar um delicioso banho e tirar um cochilo revigorante, encontrava-se arrumada para a noite de “boas-vindas de volta” que as amigas tinham preparado para ela. Basicamente seria encontrá-las em um bar novo que tinha aberto há pouco mais de um ano. Ela havia pesquisado no Instagram.

Não poderia achar mais clichê que o local chamasse Round Table*, mas parecia que o lugar era o novo point* mais badalado de Glastonburry, e se as amigas gostavam tanto de lá, era pra lá que ela iria. Não tinha muita escolha, afinal.

Saiu de casa, depois de despedir-se dos avós, falando que achava que não demoraria muito para voltar, entrou no carro, e estranhou a mão inglesa.

Dirigiu com cuidado, acostumando-se novamente com essa novidade, já que pouquíssimas vezes dirigira um carro com o volante na direita. Afinal, havia tirado a carteira nos Estados Unidos. Atrapalhou-se algumas vezes e quase causou um acidente enquanto lia as mensagens desesperadas das amigas, que perguntavam onde ela estava. Não podia evitar sentir-se irritada por toda a situação.

Bateu a porta do carro com força e bufou, jogando o cabelo para trás, distraída demais, olhando para o celular e tentando mandar uma mensagem para o grupo que tinham em conjunto, perguntando em que área elas estavam, por isso não reparou que vinha alguém em alta velocidade na direção que estava indo.

E foi assim que ela esbarrou nele. Deixando o celular escapulir pela sua mão.

— Ai, me desculpa, eu estava distraída olhando para o celular — abaixou-se apressada e quando levantou o olhar, deparou-se com aqueles olhos verdes que a encaravam curioso.

As sardas ainda se faziam presentes no rosto branco e o sorriso que estampava a fazia tremer um pouco naquele momento. Mas que diabos, pensou.

— Oi — falou, estreitando os olhos, como se tentasse reconhecer quem era aquela mulher parada ali na sua frente.

— Você não mudou nada, sabia, ? — Os olhos dele arregalaram-se, ela meio que sabia que poucas pessoas o chamavam daquela forma e ela era uma delas porque amava como o nome e o sobrenome dele soavam. Era tão bonito, assim como o dono.

— Nossa, ! É você mesmo — piscou atordoado —, faz quanto tempo? Uns 15 anos? Meu Deus, você tá mais bonita do que quando foi embora — observou as bochechas do homem corarem, mas tinha a leve impressão que fora pelo vento gelado que tinha acabado de passar por eles.

— Acho que obrigada. — Ela apenas sorriu de lado e sentiu o celular vibrando em suas mãos — Ainda bem que estava de capinha — mostrou o aparelho para ele, intacto — Tenho que entrar.

— Ah, é verdade. Desculpe — abriu a porta para que ela pudesse passar — Você está com alguém aqui?

— Sim, com a Alexa e Emy, na verdade vou começar a saga de procurá-las agora. É minha primeira vez aqui, voltei hoje — confidenciou ao homem que ainda estava parado na sua frente.

— Pra ficar? — Perguntou mais interessado do que queria demonstrar.

— Pra ficar — sorriu satisfeita com a súbita curiosidade dele.

— Talvez a gente possa se encontrar qualquer dia desses, sei lá, pra lembrarmos dos velhos tempos. — Ela bem sabia dos velhos tempos que ele estava falando, talvez a frase não significasse nada demais, talvez significasse tudo.

Haviam deixado sentimentos para trás.

Sentimentos estes que não chegaram a ser vividos por conta da partida inesperada dela, mas com certeza, não tinha noção de que voltaria anos atrás e sentiria as mesmas coisas do passado. A ansiedade que sentira de repente denunciava tudo isso para si mesma.

— Eu iria adorar. Você sabe onde eu moro — respondeu por fim, sorrindo abertamente para ele, antes de encaminhar-se para a mesa de suas fiéis escudeiras, que havia acabado de encontrar no meio de tanta gente.

As mesas redondas davam um ar histórico para o local, ela pôde até avistar a Excalibur enterrada em um rochedo, onde algumas pessoas divertiam-se tirando fotos. O dono do local realmente havia pensado em tudo, nos mínimos detalhes.

— A magia de Melin para a senhorita. — Um garçom a interrompeu assim que estava prestes a chegar à mesa das amigas — Cortesia da casa. — Ela franziu o cenho, mas aceitou a bebida.

— Obrigada — deu um sorriso educado e encaminhou-se ao seu destino.

— Finalmente! — Alexa disse sorrindo — Já vemos que você recebeu a cortesia da casa. Esse shot é uma delícia!

— Sim — fez uma pausa dramática, antes de virar o líquido garganta abaixo. O sabor cítrico a princípio a fez dar uma careta, mas o doce no final estabeleceu um veredito: era bom — Vocês nem sabem quem acabei de encontrar na porta.

— Quem? — Emy a mais curiosa de todas e que estava sentada a sua direita, inclinou-se na direção da amiga para ouvir melhor.

. — falou como se fosse a coisa mais legal do mundo, mas os rostos das amigas diziam o contrário.

— Ah, ele é o dono do estabelecimento. — Alexa soltou — Nada mais normal do que encontrarmos ele aqui, esquecemos de comentar esse detalhe com você.

— Hm — mordeu o lábio em sinal de nervosismo — E ele tá assim solteiro? — Até mesmo ela se surpreendeu com a curiosidade no status de relacionamento do antigo amigo de sala.

— Não acredito que viemos falar sobre o pé na bunda que você deu no seu noivo almofadinha e você já tá interessada em outro homem, não faz nem dois meses que você tá solteira, mulher.

— Nossa, respira Emy…, Mas eu tô solteira, então nada me impede.

— Pera, pera, pera — foi atrapalhada por Alexa que abanava as mãos desesperadamente, fazendo com que o garçom quase derrubasse as canecas de chopp que chegavam — Você não lembra, Emy? Nossa amiga, , tinha um lance com o antes de ir embora.

sentiu as bochechas esquentaram. Quão patética era ela?

— Meu Deus, é verdade! Não acredito que esse crush nunca passou. — Comentou Emy, extasiada.

— Bom… Vocês já viram como ele tá? Como ele pôde ficar ainda mais bonito com o passar dos tempos? — Desabafou — Eu super toparia finalizar o que começamos há 15 anos.
— Que ele se tornou um gato, isso é bem verdade, mas dizem por aí que desde que se separou da mulher e voltou de Londres pra cá, ele só tem se dedicado a este restaurante. Sem tempo para mulheres — Alexa relatou o que sabia do antigo colega de escola.
é um outro workaholic? — Não queria admitir, mas aquilo havia jogado um balde de água fria em seus pensamentos.
— O mesmo motivo pelo qual você largou o outro lá? Como era mesmo o nome dele? Olivier? — Tentou disfarçar, mas Alexa deixou bem claro que ela não gostava do antigo namorado de .
Isso se deve ao fato de que quando ela esteve em Nova York o namorado não deu nenhuma importância para a amiga inglesa, desdenhando da vida que a artista levava com suas pinturas contemporâneas que não davam muito retorno financeiro, mas que davam muita satisfação pessoal. Desde então, o ranço fora instaurado em Alexa, ela simplesmente não suportava Oliver e uma vez chegou a dizer que se a amiga se casasse com ele, a amizade das duas provavelmente não resistiria porque ela não iria mais visitá-la.
— Recusei o pedido de casamento porque não o amava suficiente para isto. — virou o copo de chopp e pediu mais uma rodada ao garçom.
— Hey, vamos com calma aí, garota. — Ela rolou os olhos — E só pra constar, não cheguei a conhecê-lo, mas ele era realmente um babaca, de acordo com Alexa.
— Garotas, não quero falar mais nesse assunto — pegou a caneca e levantou, sinalizando ao garçom para trazer mais um rodada — Passado é passado, Oliver ficou nos Estados Unidos e não tem volta, pois estou aqui com minhas melhores amigas e não vou a lugar nenhum.
— Acho bom mesmo. — Alexa abraçou a amiga de lado — E sim, é um workaholic, mas acho que ele só tá tentando esquecer a vida que não deu certo em Londres.
— Talvez você seja a pílula do esquecimento, a poção mágica de Merlin que vai fazê-lo superar a ex. — Emy complementou.
— Cala a boca! — Riu alto, mas não achou a ideia totalmente absurda.
Nem mesmo entendia como havia passado de alguém que não queria nada com ninguém, a alguém que deseja beijar os lábios que ficou para beijar no passado, em menos de 24h. Aquilo era insano demais.

Presente

Estava ainda distraída, passando de um canal para outro na televisão, quando escutou duas batidas na porta. Os avós haviam saído para fazer compras no mercado da esquina de casa e, por isso, pensou que fossem eles, carregando várias coisas que o impossibilitariam de entrar em casa. Pensando nessa possibilidade, levantou-se esbaforida e correu até a porta, quase tropeçando no pequeno degrau que havia no meio do caminho. Surpreendeu-se então quando encontrou parado do outro lado.
— Parece que não esqueci onde a senhorita morava. — Ele falou e piscou para ela, que no mínimo estava com a cara aturdida.
Nunca imaginou que ele faria mesmo aquilo e se cogitou uma remota possibilidade, em seus desejos mais íntimos, não pensou que fosse logo no dia seguinte ao reencontro dos dois.
Não sabia o que ele queria, mas estava ansiosa para descobrir.

***

não sabia que teria a coragem de ir até a porta da casa dela, onde antigamente ele passara as tardes fazendo trabalhos escolares ou apenas passando o tempo.
Ele lembrava da situação difícil que acometera a família de na época, eles foram obrigados a morar com os pais da mãe dela, até que um dia um dos dois conseguiu um bom trabalho nos Estados Unidos e foram embora.
Desde então, tinha tido poucas notícias, só na época da escola por conta das amigas, depois disso nunca mais tinha escutado citarem ela.
Para ele, era uma lembrança quase perdida em sua memória. Depois de tantos acontecimentos, ele nem imaginava que a veria novamente. No entanto, desde que a vira não poderia deixar de pensar em como ela estava linda e a curiosidade aumentou dentro dele. Ele precisava conhecê-la melhor, conhecer a versão adulta da sua querida .
— O que você tá fazendo aqui? — perguntou meio confusa.
— Vim chamar você pra gente dar uma volta, topa? — ele estava um pouco apreensivo, nervoso e tinha a certeza de que estava deixando transparecer todo esse sentimento.
— Tá. Eu só vou trocar de roupa rapidinho, certo? — deu abertura para que ele adentrasse a casa — Fica à vontade.
— Obrigado.
Ele analisou o local que levou a ele, imediatamente, lembranças boas. Tudo continuava igual. Foi ali, em uma tarde qualquer, quando os dois estavam estudando juntos que ele viu algo diferente nela. Um brilho no olhar. Ela fora a sua primeira paixão e estar ali era como se estivesse vendo os dois sentados no chão, perto da mesa de centro da sala, conversando e tentando resolver os problemas de matemática, eles odiavam, mas passaram a curtir as tardes que passavam estudando juntos.
— Foram muitas tardes que passamos aqui, né? — ela parou ao lado dele, olhando exatamente para onde ele direcionava a atenção e colocando em palavras tudo o que estava sentindo.
— Sim. Momentos muito bons, bateu até uma nostalgia aqui. — Massageou o lado esquerdo do peito, onde fica o coração — Vamos?
— E para onde iremos? — questionou curiosa.
— Você vai ver. — respondeu com um sorrisinho no rosto.
Ele, como um bom cavalheiro, abriu a porta para que ela entrasse do lado do passageiro e o caminho foi guiado por um leve constrangimento, foram tantos anos que nem sabiam o que dizer. O barulho som quebrava o silêncio e as paisagens do lado de fora eram muito mais interessantes, mas não demorou muito para chegarem no local escolhido por ele.
— Eu não acredito! — exclamou surpresa ao perceber onde estavam — Isso é… Meu Deus, . — Desceu do carro perplexa, enquanto ele abria a porta traseira, retirando uma cesta do local.
— Depois de 15 anos, nós vamos ter o nosso piquenique. — Ele sorriu e pegou na mão dela, caminhando lado a lado — Provavelmente o daquela época não teria coragem de fazer isso. — Apertou suavemente a mão dela.
— A iria adorar se ele tivesse. — Ela riu e o empurrou de lado —Lembro até hoje o quanto chorei porque não pude comparecer ao meu primeiro encontro, Alexa me contou que conseguiu entregar o recado pra você depois. — Meio melancólica, ela se lembrou daquele momento.
Eles pararam embaixo de uma árvore, estendeu a toalha quadriculada na grama e distribuiu tudo o que havia comprado mais cedo. Só produtos de primeira qualidade. No fundo queria impressioná-la de alguma forma, então que fosse pela barriga primeiro.
— Sim, devo confessar que chorei — gargalhou alto —, passei noites sem dormir só pra te chamar pra sair, aí você vai embora pra sempre. Nossa, não sei como consegui me recuperar desse baque. — Retirou da cesta um bolo, frutas, salgados, chocolate e um vasinho de flor que colocou em dos cantos para segurar a toalha.
O Abbey Park é um dos locais mais famosos de Glastonbury e costuma lotar no verão, no entanto, no outono poucas pessoas frequentam por conta do leve frio que começava a fazer na cidade. No momento, ele podia observar alguns turistas tirando fotos e o sol que ainda brilhava, tímido, por trás das nuvens.
— Vinho? — ofereceu e ela aceitou.
Ele serviu as duas taças que também havia retirado da cesta, entregou uma a ela e levantou a outra, esperando que ela fizesse o mesmo. Assim que as duas taças se tocaram, os olhos dele se prenderam aos dela.
jurava que seria incapaz de sentir todos aqueles sentimentos de novo, não depois de tudo que passou, mas lá estavam as características borboletas adormecidas em seu estômago.
— Um brinde ao nosso primeiro encontro. — Ele falou e ela sorriu imediatamente.
— Com 15 anos de atraso, mas que bom que ele está acontecendo.
Tomaram goles tímidos e se encararam novamente.
— Então, me conta o que te trouxe de volta para as terras da rainha. Como foi esse tempo todos nos Estados Unidos? — perguntou realmente interessado.
contou tudo pra ele. Falou que a adaptação tinha sido um pouco difícil no começo e que sentia muita falta dos avós, da família e dele. Mas o tempo foi passando e tratou de fazer a sua parte, logo que terminou a escola, estudou direito na Columbia, se tornando uma das melhores da turma. A sua especialidade era direito empresarial e ganhou muita fama por resolver casos difíceis na cidade. Contou, também, que havia namorado duas vezes antes de conhecer o seu ex-namorado e que eles passaram 5 anos juntos, mas que ele havia a pedido em casamento.
— E aí, eu não quis me casar e refleti que aquela vida não era pra mim, sou uma advogada bem sucedida e poderia voltar pra casa. Pretendo montar meu escritório aqui, então se um dia o Round Table precisar, conte comigo! — Finalizou o resumo da sua história.
— Pode ter certeza de que sim, você será a primeira que irei procurar. — Piscou galanteador — Eu olho pra você e vejo o mesmo brilho no olhar, . Da primeira vez que você me disse que queria ser advogada porque tinha assistido Legalmente Loira e queria ser a Elle Woods. Nunca duvidei de que você poderia tudo, assim como ela. Agora está aí, podendo tomar decisões e ser dona da própria vida. — falou com sinceridade — Admiro você.
— Obrigada. — Viu que ela tomou mais um gole do vinho para disfarçar o que as palavras dele haviam causado nela — Agora me conta a sua história.
— Bom… — ele coçou a cabeça, seria a primeira vez que estaria falando o que tinha acontecido para alguém fora os seus pais — Terminei a escola aqui, mas no último ano já estava aplicando para a Universidade de Londres, me mudei para lá e estudei administração. Foram anos muito bons, sabe? Conheci muitas pessoas, namorei, fiquei… Enfim… — ele suspirou alto e abaixou a cabeça.
— Se você não quiser me contar, tudo bem. — colocou a mão no ombro dele, tentando confortá-lo.
— Tá tudo bem, eu preciso falar. — Ele insistiu, precisava colocar tudo pra fora.
Suspirou fundo mais uma vez. Ele precisava derrubar as paredes que havia construído em volta de si, aquele era o momento certo.
— Eu conheci a minha ex-esposa na faculdade. No início, tudo foi lindo, sabe? Daquelas paixões que te arrebatam e foi por isso que decidi me casar. Ela era a mulher da minha vida, eu tinha certeza disso. O primeiro ano de casados foi incrível, já no segundo, comecei a perceber uma proximidade muito grande com o meu melhor amigo, mas achei que era só pela proximidade e sociedade que a gente tinha. Nós queríamos ter um filho e ela engravidou, foi incrível ter a nossa pequena Alice nos braços, mas então, reparei em um comportamento estranho quando o Max ia lá em casa. — Mais uma vez ele pausou, aquilo parecia ainda doer muito nele.
Tomou forças e continuou a contar a história, relatou que percebeu alguns cochichos, ela não queria que ele pegasse Alice no colo e tudo aquilo começou a incomodar demais, até que começou a achar algumas semelhanças de Alice com Max.
— Foi aí que a desconfiança veio mais forte ainda, tratei de fazer um teste de DNA sem que ninguém soubesse e o exame constatou que eu não era o pai dela. 1 ano e meio depois de já ter me acostumado a ser uma figura paterna. — deixou uma lágrima escapar, mas a enxugou rapidamente, não queria cair no choro ali — Confesso que não é a traição dos dois que me dói e, sim, saber que aquele serzinho que eu amava tanto não tinha o meu sangue. Deixá-la foi o mais difícil, foi então que pedi o divórcio e voltei para cá.
— Nossa, . Nunca pensei… — não sabia o que dizer, por isso apenas pegou na mão dele e a apertou, demonstrando força.
Ele retribuiu o aperto.
— Eu abri o Round Table, porque foi a única coisa que conseguiu me trazer de volta à vida. Toda essa situação foi como se ela tivesse morrido em vida pra mim, uma hora ela existia, na outra, Max passou a cuidar dela e eu fui totalmente excluído. — Ela deitou a cabeça no ombro dele — Ainda me sinto pai sem ser.
— Sinto muito. — sussurrou.
— Não precisa sentir. Hoje, foi a primeira vez que me permiti sair, sabe? Eu não sei o porquê, mas desde que te vi ontem me bateu um sentimento de saudade, como se tivesse sentido a sua falta todos esses anos, mesmo sem saber. — Confessou, colocando pra fora o que tinha sentido nas últimas horas. — Por isso, fui até a sua casa, porque acho que você sentiu o mesmo.
— Eu senti. — Ela também confessou — Tudo se encaixa e é como se a mística de Glastonbury nos trouxesse realmente pra cá, para o nosso lugar, de onde nunca deveríamos ter saído. — Tentou explicar o que se passava pela sua cabeça — Era pra esse encontro ter acontecido anos atrás ou só agora que estamos preparados para ele? — se questionou.
Ele olhou para ela e os seus olhos brilhantes disseram a resposta, eles estavam no momento certo de suas vidas e era como se estivessem esperado por isso todos aqueles anos.
aproximou o rosto do dela, encostando os lábios dos dois, em um selinho delicado. Era o que o adolescente teria feito e o que o momento pedia.
— Ah, , estou doido para te conhecer melhor. — Falou assim que desencostou a boca da dela, depositando um beijo em sua testa.
— Eu também. — Confessou tímida e deitou novamente a cabeça no ombro dele.
E ficaram ali, falando algumas amenidades, comendo e bebendo. Se redescobrindo. O pôr do sol findava o dia, mas a noite parecia ser pequena para tanta saudade que nem eles sabiam que sentiam.
Tudo tinha mudado é verdade, mas tudo também parecia tão igual, ainda eram os mesmos, e , no primeiro encontro que era pra acontecido anos atrás.
O que estava reservado para os dois? Só o futuro dirá.

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*Workaholic – Viciado em trabalho.
*Welcome back – Bem-vinda de volta.
*I missed you – Eu senti sua falta.
*Bangers and Mash – Salsichas com purê de batata, prato típico inglês.
*Summer pudding – Pudim de frutas do verão.
*Round Table – Távola redonda.
*Point – Ponto.
Nota da Autora:
Se você chegou até aqui, muito obrigada. Estou escrevendo na madrugada do dia 29 já depois do prazo extrapolado, por isso, se você gostou eu agradeço muito porque não sei muito o que dizer haha Não sei se saiu do jeito que queria desde o início, mas a vida é assim mesmo, não consegui terminar antes. Enfim, é isto, até a próxima.