09. Everywhere

09. Everywhere

Sinopse: Após o desentendimento entre Jimmy e John na noite do Baile de Inverno, John sente-se contrariado pela indiferença do amigo sobre si e acaba se distanciando de todo o grupo como consequência, achando que talvez, desta forma, conseguisse lidar com tudo o que estava acontecendo dentro de sua cabeça. As coisas saem do controle durante uma festa e John percebe que talvez a resposta esteja em toda a parte. Isso até decidir ir embora para a América e viver seu sonho de músico.
Gênero: Romance.
Classificação: +18.
Restrição: Todos os personagens são fixos; uso de drogas.
Parte 2/3.
Beta: Thalia Grace.

Aviso: Essa é a segunda de três partes dessa história. As outras, assim como essa, também fazem parte do Especial Heartbreak Weather, sendo respectivamente Bend The Rules e New Angel.

II

John sentia-se como se seus olhos estivessem sendo atraídos como imãs para Jimmy — que andava de um lado para o outro no quarto, completamente alheio a carranca do amigo —, e lá no fundo se sentindo um pouco indignado pela falta de atenção do menor para si. Quer dizer, ele conversava animadamente com Vincent e Jin, até mesmo provocava Young com a mesma energia de sempre, mas quando se virava para John seu sorriso se apagava e dirigia sua atenção para qualquer outro canto que não fosse o em que ele estava.

— Então, quando você pretende contar o que houve entre vocês dois?

John se virou para o amigo, Hope, e o encarou franzindo as sobrancelhas em impugnação. Os lábios formaram um bico de birra e derrubou o olhar para as mãos em punhos no colo.

— Eu não sei do que você está falando — disse, ouvindo um risinho soar vindo do outro —, é sério.

Hope balançou a cabeça negativamente: — Então por que você não para de encará-lo?

— Eu não estou encarando! — defendeu-se, mas o tom estridente de sua voz denunciava que não estava sendo sincero. — É que ele é tão… petulante.

— John usando uma palavra difícil? Uau!

Young se meteu na conversa, jogando um braço por cima dos ombros do namorado, e cerrou os olhos, desconfiado. Um sorrisinho começando a brotar nos lábios do garoto oriental.

— Você sabe que, seja lá o que for, nós vamos ficar sabendo, certo? — o garoto apontou de si mesmo para Hope — Nossa fonte é muito confiável.

John mostrou a língua infantilmente para os dois mais velhos e voltou seu olhar para Jimmy, que conversava com a fonte confiável do casal, conhecido também como Vincent. Os dois eram o tipo de amigos perfeitos, se completavam. Jimmy tinha aquela aura extrovertida que tornava impossível que alguém o odiasse e Vincent era um aspirante a artista com ar misterioso. Eram uma dupla extremamente agradável e irritante aos olhos de John, a forma com que se davam bem e se abraçavam como se aquilo não incomodasse ninguém o deixava louco. Ok, talvez o único incomodado fosse mesmo John.

— Vocês são duas cobras. Na verdade você é, Youn, e está transformando o Hope no seu reflexo perfeito. — disse com manha, fazendo os outros dois rirem de sua cara.

John queria contar, mesmo, afinal Hope era como um irmão mais velho para si e nunca escondeu sequer uma coisinha dele, por mais vergonhosa que fosse. Mas esse era um caso diferente, afinal todas as outras vezes estava resolvido com seus problemas, enquanto o problema atual desfilava despreocupado em sua frente, distribuindo sorrisos a todos menos a ele. Ah, como isso o irritava e o fazia se sentir impotente.

Apesar de tudo, não podia culpá-lo. Jimmy era o mais afetado dos dois, por mais que odiasse ter que admitir isso para si mesmo, e a culpa era toda sua e de sua curiosidade. Talvez se soubesse antes dos sentimentos do outro, ou sobre si mesmo… Mas isso não importa agora.

— John…?! — ouviu seu nome ser chamado em meio a seu devaneio. — Garoto? Em que planeta você está?

— Na Terra do Nunca, oras! Você sabe que quando ele cola, é porque está no próprio mundinho.

Todos riram, fazendo-o avermelhar as bochechas e uma irritaçãozinha crescente lhe subir até a cabeça. Isso era muito comum, querendo ou não. Era o peso a se pagar por ser o mais novo dos amigos.

— O que é? — perguntou, passando os dedos pelo cabelo preto e jogando os fios para trás. Jimmy o olhou e cerrou os olhos pequenos, tornando-os fendinhas. O estava analisando.

— Desce lá embaixo e pede para a mamãe deixar-nos subir com a televisão para podermos jogar no Atari*. — respondeu ele com sua voz doce como mel, sabia exatamente como convencer John.

— Por que você não pede para a sua mãe? — cruzou os braços com dificuldade, sentindo a jaqueta de couro fazer pressão nas costas.

— Porque se você pedir ela deixa, se eu pedir ela não deixa. — Jimmy respondeu indiferente, cruzando as pernas e encostando a cabeça no ombro de Noah a seu lado.

— Se você pedir com jeitinho… — provocou. Era a primeira vez que Jimmy falava com ele desde que havia chego há horas atrás. Suspeitava nem mesmo ter sido convidado para essa reuniãozinha, apesar das palavras de Jin.

— Você abusa da minha paciência, seu moleque. — Jimmy disse, impaciente, quase num rosnado.

— Jimmie, seja bonzinho, sim? — Jin se pronunciou pela primeira vez desde que havia aparecido no quarto minutos atrás. Havia acabado de chegar do trabalho de meio período. — Preciso dar uma surra no Noah no Galaxian.

Jimmy nunca negava um pedido de Jin, por isso revirou os olhos e abriu um sorrisinho forçado.

— Johnny, você pode pedir para a minha mãe emprestar a televisão para a gente ver o Jin dando uma surra no Noah, por favorzinho?

John sentiu um sorrisinho vitorioso crescer nos lábios e não demorou até que ficasse em pé e pulasse entre os seis amigos para alcançar a porta e sair do quarto, para assim descer as escadas e chegar até a sala de estar dos Parker’s, onde a senhora P se encontrava sentada em uma poltrona ao lado de uma grande janela enquanto lia um livro qualquer e bebericava uma xícara do que provavelmente era chá.

A senhora P tinha muito de Jimmy e vice e versa. O mesmo rosto redondo com as maçãs do rosto altas, quando sorria e os olhos se fechavam em fendinhas tornava-se a perfeita versão feminina do amigo, além da pele escura achocolatada exatamente no mesmo tom da do amigo. Talvez por isso e por ser tão agradavelmente aconchegante e familiar como uma mãe que John gostava tanto da mulher, assim como ela dele. Era quase impossível não sorrir ao vê-la.

— Oi, senhora P! Desculpa te incomodar… — disse ele, ficando sem graça e expressando isso na forma em que coçou a nuca e sorri constrangido.

— Nada disso, querido. Mas o que foi? Alguma coisa está errada? — levantou-se e pousou o livro sobre o estofado da poltrona.

— Não, é que eu trouxe um jogo novo e queria saber se nós podemos pegar a televisão emprestada, só um pouquinho!

— Tudo bem, ela passa mais tempo no quarto do Jimmy do que aqui na sala mesmo desde que ele quebrou a dele… Pode pegar, você precisa de ajuda? Quer que eu o chame?

— Ah, não precisa! Estou fazendo academia, sabe? — flexionou os braços, orgulhoso da massa muscular que estava se desenvolvendo. — Essa televisão vai ser fichinha.

— Claro, claro. Você sabe onde está.

John tirou a jaqueta e a amarrou na cintura, passando as mangas pelas presilhas do jeans preto, para então arregaçar as mangas do suéter da mesma cor antes de agarrar aquela tv de tubo enorme e levantá-la. Sentiu os músculos queimarem e quase chorou de tristeza de pensar que teria que subir o lance de escadas com aquilo nos braços, mas sorriu como se dissesse “Eu disse que não era nada demais, senhora P! e colocou-se a andar com dificuldade.

Quando estava ao pé do primeiro degrau sentiu a mão da senhora Parker apertar levemente seu ombro: — Obrigada por vir vê-lo, John. Jimmy andou cabisbaixo a semana toda e não contou nem para mim e nem para o pai o que houve. Fico feliz que ele possa contar com vocês, pessoas tão incríveis que conseguem animá-lo. Você é tão bondoso, apesar de tudo. Sempre mimando-o e fazendo suas vontades. — o garoto sorriu e sentiu as bochechas esquentarem. — Ah, diga a Jimmy que na próxima, se ele quiser jogar vídeo game, que ele busque a televisão.

John sentiu suas bochechas corarem mais. Sabia que a mulher gostava muito de si e dos amigos, mas jamais esperará ouvir palavras tão doces sobre os seis.

— Claro, senhora P. — disse, voltando-se para a escada.

Sentiu-se mal imediatamente ao que se virou por saber que Jimmy não estava bem durante toda a semana. Ver a preocupação nos olhos da tia então, nossa! Era terrível, principalmente por saber que era o motivo para todas as preocupações.

De fato a pior parte fora subir a escada, até pensou em gritar por Hope, mas, orgulhoso como era, continuou firme e forte até alcançar o corredor que levava ao quarto de Jimmy. Parou um segundo para se recompor ao lado da porta e surpreendeu-se ao ouvir seu nome ser citado durante uma conversa, ao que estava ausente:

— … E então você o ignora e ele fica te encarando esperando alguma coisa. O que houve entre John e você? Vocês brigaram? — Era Noah quem falava. John arqueou uma sobrancelha, surpreso, pois o amigo não era assim muito observador, então, para o mesmo ter percebido o péssimo clima entre eles, significava que era uma tensão quase palpável.

— Não é nada disso, nós só… Eu apenas… — Jimmy se perdeu no meio da explicação. Ninguém disse mais nada, aliás o silêncio era tão grande que John ficou com medo de respirar muito alto e descobrirem que estava bisbilhotando atrás da porta. Estava tão distraído que esqueceu o enorme peso nos braços.

— Jimmie, não me diga que John descobriu sobre o que você anda sentindo…. — Foi a vez de Young se pronunciar. Soava preocupado e John podia apostar que estava com as sobrancelhas franzidas.

— Olha, eu não quero falar sobre isso agora, certo? Ele pode entrar aqui a qualquer momento e eu não estou afim de ter que debater nada-

John adentrou o quarto com a enorme televisão nos braços. Todos os seis pares de olhos se voltaram para si e então fingiu normalidade com um sorriso. Vincent foi o primeiro a ter alguma reação e se levantou para ajudá-lo a colocar a enorme televisão no chão entre eles.

— Sobre o que estavam conversando? — perguntou inocentemente, olhando diretamente para Hope. Este imediatamente percebeu que John sabia sobre o que estavam falando, o que fez morder o lábio.

John sentia-se ligeiramente enganado ao descobrir que, aparentemente, Jin, Hope, Young, Noah e Vincent sabiam sobre o que Jimmy sentia em relação a si e nenhum deles lhe contou. Deixou-o no escuro sobre algo importante como aquilo. Talvez pudesse ter evitado esse mal-estar que tomava conta de tudo a cada minuto que passavam confinados no mesmo lugar. A partir dali tudo o que queria era ir embora, mas contentou-se em voltar para seu lugar e assistir as rodadas que se seguiram de Noah vencendo todas as partidas contra Jin e os olhares nada discretos de Hope e You em sua direção.

Muito pior que o desconforto de saber que os seis provavelmente já haviam adivinhado o que havia acontecido era estar sozinho com Jimmy após terem todos ido embora. Sentados no gramado em frente a casa dos Parker o silêncio era tanto que John conseguiu montar uma melodia nova em sua cabeça. Quando já estava cansado de passar acordes das músicas novas da banda, olhou de canto de olho para Jimmy, que abraçava os joelhos e apoiava o queixo nos mesmos, o olhar nunca deixando a rua pouco movimentada do bairro familiar.

— Você vai continuar me ignorando até quando? — John finalmente quebrou o silêncio, mas não adiantou nada visto que Jimmy continuava quieto.

Respirou fundo antes de se deixar cair na grama com cheiro de recém cortada e desejou com todas as forças que a mãe chegasse logo para buscá-lo. O menor nunca fora silencioso, então isso o assustava, de certa forma.

— Sua indiferença me machuca.

Tudo o que John pode fazer foi soltar um “Oh surpreso. Sentou-se devagar e olhou-o, recebendo as orbes do outro nas suas.

— Perdão?

— Você espera que eu aja como se estivesse tudo bem, mas não está tudo bem. Eu não sou alguém que você pode usar para matar a curiosidade e depois fingir costume, John.

Este franziu a sobrancelha pelo o que pareceu ser a centésima vez só naquele dia.

— Eu não te obriguei a nada, Jimmy.

— Realmente, mas aposto que você sabia exatamente onde estava se metendo assim que fez aquela pergunta idiota de “Como é beijar um homem, Jimmie?”. Você não é bobo, John. Aposto que sabia muito bem sobre meus sentimentos.

— Você me pinta como mau. — foi a única coisa capaz de dizer, pois de fato sabia sim sobre Jimmy nutrir algum sentimento, e foi exatamente isso que despertou a curiosidade dentro de si. Andava beijando frequentemente Lisa e sabia que gostava. Seus dois melhores amigos namoravam, será que gostaria de beijar um homem?

Não fora sua intenção se aproveitar do menor, mesmo que tudo apontasse que foi sim, e havia chegado a uma conclusão também. Era isso o assustador, que o fazia hesitar. Só fizera a proposta por ter pensado que não fosse sentir nada dentro de si, e os comichões perto da virilha definitivamente eram alguma coisa. Suspirou e passou os dedos pelos fios negros.

— Eu sinto muito. — as palavras saíram com certa dificuldade, não estava acostumado – e nem gostava – de se desculpar. — Eu sinto muito, Jimmy. Eu não queria te magoar.

Jimmy riu, mas não havia diversão nenhuma ali, apenas ironia e sarcasmo.

— Tarde demais.

John encarou-o de canto de olho, observando como a iluminação da rua dava a pele de Jimmy um glow dourado, deixando-o quase etéreo. A beleza do garoto sempre fora assim, de tirar o fôlego?

— Nós não estamos bem então? — foi a única coisa que conseguiu dizer, se sentia desconcertado. Nunca havia brigado com nenhum dos amigos, muito menos com o menor sentado a seu lado.

— Por enquanto acho melhor deixarmos isso de lado. Esquece tudo, John, eu vou superar cedo ou tarde e as coisas vão voltar ao normal.

O moreno duvidava veemente daquilo, mas não teriam tempo para debater sobre visto que o carro de sua mão acabava de parar ao lado da calçada. A senhora Jones abriu a porta e conversou rapidamente com Jimmy antes do filho entrar e fechar a porta. O caminho até em casa fora longo e silencioso, e a mulher percebera, assim que pousou os olhos no filho, que talvez fosse melhor não perguntar nada.

Parado em frente ao colégio e escondido pelo tronco grosso de uma árvore, John encarava o grupo de seis rapazes conversando, em roda, e se perguntava se seria uma boa ideia se juntar a eles. Desde a última sexta-feira em que fizeram a reunião na casa de Jimmy, havia ignorado todas as ligações e tentativas de conversa de Jin, Young, Noah e até Hope, e ignorado o fato de que assim que a semana começasse teria que vê-los ali e enfrentar horas de aulas com todos eles.

— O que você está olhando?

John sobressaltou-se ao ouvir a voz de Lisa atrás de si de repente. Virou-se e encarou-a de olhos arregalados, vendo-a sorrir simpaticamente para si.

— A-ah, não é nada! — abanou as mãos na frente do corpo, desconversando, enquanto a garota inclinava-se para ver o que John espiava anteriormente.

— Os garotos estão ali! — comemorou com palminhas animadas. Enlaçou o braço no de John antes de puxá-lo para fora do esconderijo e encaminhar-se na direção dos amigos. — Vamos, vamos. Por que está se escondendo? É algum tipo de brincadeira de vocês agora?

O primeiro a notá-los, para seu azar, fora Jimmy. Ele os encarou e imediatamente seu sorriso se desfez. Os outros acompanharam o olhar do menor e abriram espaço para os dois que chegavam. Lisa, como sempre, se dirigira a Jimmy e o abraçou, sendo retribuída em seguida. O carinho de ambos era nítido e a garota o adorava, sequer suspeitava que algo acontecera entre o “namorado” e o melhor amigo.

— Achei que fosse se atrasar, como sempre. Estou surpreso de verdade. — Hope disse, batendo com o ombro no de John, fazendo o garoto olha-lo.

— Pois é, acordei mais cedo hoje.

Hope olhou-o fundo nos olhos, vendo a esclera avermelhada e a pupila levemente dilatada. Arqueou uma das sobrancelhas acusadoramente e cutucou o namorado, Young, chamando atenção para John.

— Nosso amiguinho está chapando antes de vir para a escola. — sussurrou para não chamar a atenção dos outros.

— Tisc, tisc. Você já foi melhor, seu prego. O que está acontecendo, em? Nunca foi disso, John Jones! — Young deu um tapa leve na cabeça de John, fazendo-o reclamar.

— Não é nada, eu apenas precisava relaxar! — resmungou, afastando-se um passo.

— O que os bonitinhos estão cochichando aí? — Vincent disse, chamando a atenção de todos para os três.

— Não é nada. Vou para a aula. — respondeu rapidamente.

— Vou com você. — Noah deu um passo para acompanhar John.

— Não! — respondeu tão rapidamente que surpreendeu a todos.

— Mas nós vamos pra mesma sala. — Noah contestou.

— É, mas eu e Lisa vamos passar por um lugar primeiro. — alcançou o braço da garota e a puxou levemente.

— Nós vamos? — ela disse baixinho.

— Sim, por favor. — cochichou.

Lisa o encarou durante alguns segundos e John sabia que a loira o conhecia bem o suficiente para saber que estava escondendo algo, mas também sabia que não seria invasiva e perguntaria. A garota mordeu a boca e se virou para os outros rapazes para se despedir com um aceno.

A semana seguiu da forma mais estranha possível, com John fugindo dos seis amigos como o diabo da cruz, sempre embrenhado no meio dos amigos de Lisa e mal respondendo as ligações que recebia. Estavam todos preocupados, até mesmo Jimmy sentia que as coisas estavam piores do que sequer poderia imaginar, afinal quem imaginaria que John iria dar um sumiço desses?

— Você está pronto? — Lisa perguntou animadamente olhando John dos pés da cabeça. Fez um bico. — Nem dá para diferenciar, como sempre se vestiu todo de preto.

— Auch? — reclamou, fechando a porta atrás de si.

John não queria se arrumar, não queria sequer ir na maldita festa que Lisa arrumara para irem na casa de Jackson, porém era a última festa do ano apenas para os formandos, então, de acordo com Lisa, “era um dever moral que comparecessem”. O garoto, que não aguentava mais ficar apenas em casa, acabou topando, no fim das contas.

Saíram juntos — após a senhora Jones tirar dezenas de fotos do casal. — e entraram no sedã prateado da mãe. A viagem toda fora com a loira gritando todas as músicas que tocavam no rádio e fazendo John rir. As semanas desde o encontro no pátio da escola foram horríveis. Nem mesmo os ensaios com a banda estavam animando-o. Apenas Lisa conseguia fazê-lo sorrir e se divertir, mas isso não estava saindo de graça para ela: como agora estava sempre ao lado de John, acabava evitando Jimmy e os outros por consequência, o que a deixava chateada. Não sabia o que havia acontecido para o afastamento repentino, mas estava odiando e era terrível estar envolvida naquilo sem querer.

A festa ocorreria na casa de Jackson, em um dos bairros próximos ao centro da cidade, e demorou muito para que encontrassem uma vaga na rua abarrotada de carros, por isso tiveram que voltar dois quarteirões andando, com Lisa reclamando de dor nos pés devido aos saltos que usava aquela noite, igualando a altura de ambos.

Chegaram a porta e não demorou para que copos fossem colocados em suas mãos cheias de um líquido colorido e desconhecido, como sempre, mas que não demorou para descer feito água por suas gargantas. A resistência de John ao álcool sempre fora péssima, por isso assim que esvaziou o copo já sentiu a visão levemente mais desequilibrada.

— Uaaau! — a garota disse, apertando seu braço levemente para chamar sua atenção. — Isso é muito bom! O que acha que é?

— Acho que é gummy. — respondeu, encarando o fundo do copo vazio. — e está bem forte.

Lisa riu e puxou-o pela gola da camiseta do Kiss e selou os lábios do garoto rapidamente, com carinho. John correspondeu da mesma forma, acariciando a nuca da garota que estava exposta devido o rabo de cavalo alto.

— Vou pegar mais bebida para a gente. Vê se você encontra os garotos, que tal?

John não sabia bem de que garotos ela estava falando, mas em seu estado quase alcoolizado decidiu que o primeiro grupo que aparecesse estava de bom tamanho. Assentiu e começou a andar entre os estranhos, recebendo cumprimentos vez ou outra de pessoas que ele sequer fazia questão de conhecer, e procurar com os olhos por qualquer conhecido.

O primeiro rosto que avistou foi o de Jin. Quase passou despercebido, pois como Noah estava grudado em sua boca foi mais difícil de identificar. John parou no meio do caminho e encarou-os, surpreso. Desde quando esse casal existe, por Deus? Seu queixo quase tocava o chão naquele momento.

— É, cara, você está por fora.

Virou-se para Hope que lhe sorria, com uma mãe em seu ombro. Hope estava com o cabelo pintado de vermelho, já havia visto isso na escola, mas agora de perto constatou como aquele cor combinou com Hope. Sorriu levemente e se virou para poderem conversar melhor.

— Desde quando isso está rolando? — apontou para o casal que ainda se beijava fervorosamente.

— Desde a muito tempo atrás — John sorriu confuso. —, pois é, esses pregos esconderam o romance de nós esse tempo todo.

Olharam novamente para o casal e John pensou consigo mesmo que formavam um par bonito. Estava feliz.

— Onde está o Youn? — perguntou por fim, finalmente dando falta do garoto oriental com o namorado.

Hope sorriu faceiro e deu de ombros: — Está lá em cima.

— Sozinho? — o mais novo arrependeu-se da pergunta assim que o amigo umedeceu os lábios com a língua, claramente satisfeito com algo que havia lembrado.

— Com Vincent. Eu vim pegar uma bebida, por sorte encontrei com você.

Fizeram silêncio por alguns segundos. John não queria fazer a pergunta que martelava em sua cabeça, mas a língua bêbada logo deixou as palavras deslizarem para fora da boca:

— Estamos todos aqui? — essa foi a melhor saída, melhor do que dizer “O Jimmy também está aqui?”.

— Sim, estamos. Você veio sozinho ou… ?

— Com Lisa. Ela foi encher nossos copos. — deu de ombros.

— Ah, sentimos falta dela. — Hope disse, sorrindo. Olhou fundo nos olhos de John e decidiu puxá-lo do meio da bagunça na sala de estar para um canto em que pudessem conversar melhor sem a música alta. — John, o que deu em você? Faz cerca de um mês que não fala com a gente. Somos seus melhores amigos, seu idiota, no que está pensando?

Hope parecia realmente irritado, com o cenho franzido e nenhum indício de seu sorriso caloroso.

— Desculpa, cara, eu só não queria causar climão… — desviou o olhar para Jackson, que rebolava e pulava em cima de um dos sofás da sala e gritava para o melhor amigo, Mark, pegá-lo se fosse capaz.

— Climão? Por que? — Hope se fez de desentendido, o que fez John rosnar.

— Eu sei que você sabe que eu sei que você sabe. — cerrou os olhos, apontando para o amigo que fez cara de confusão.

— Desculpa, tem muito alcool no meu sangue e isso pareceu uma charada para mim. — Hope se rendeu e apenas jogou os braços sobre os ombros de John, abraçando-o desajeitadamente e esfregando o alto de sua cabeça. — Garoto, nós sentimos muita falta de você, nem acredito que está conversando comigo!

— Desculpe, eu só… não sei lidar bem com algumas coisas que estão acontecendo.

John se apagou conforme falava.

— Nada disso! Sem problemas por hoje, vamos nos divertir! Qualquer coisa além disso pode ser resolvido amanhã de manhã, se não estivermos de ressaca. — Hope sorriu, iluminando John, como sempre, e juntos se encaminharam para o centro da sala.

My bitchs! — Jackson gritou, levantando os braços e pulando do sofá de qualquer jeito. Por sorte Mark o agarrou antes que caísse de cara no chão. — Estou tão feliz que estão aqui! — os olhos do anfitrião se encheram de lágrimas. — Esses são os últimos dias dos dias de nossas vidas. Eu me sinto tão nostálgico…! — disse, se jogando dramaticamente nos braços do amigo que apenas revirou os olhos.

Hope engatou em uma conversa com os outros dois, enquanto John se distraiu procurando por Lisa pela casa. Logo a encontrou do lado de fora, a beira da piscina, conversando animadamente com as melhores amigas, Jennie e Rose. Com certeza havia se distraído no caminho e até se esquecido de John. Este decidiu ir atrás da própria bebida, andando com dificuldade até a cozinha, onde encontrou diversos engradados de cerveja e outras bebidas por toda parte. Era uma das vantagens de Jackson, já que o pai era dono de uma adega.

Buscou entre os montes de latas vazias por uma cheia, mas acabou desistindo e optando por uma nova rodada de um gummy roxo. Como não achou nenhum copo, decidiu usar a própria garrafa para beber, e foi assim que voltou para a multidão. A essa altura a música já estava mais alta, com Like A Virgin ecoando pelo cérebro do garoto.

No meio do caminho, quando ia de encontro novamente de Hope, foi interceptado pelos garotos da banda. Estavam todos muito bêbados, andando com um funil ligado a uma mangueira. O convenceram a se ajoelhar e encaixar aquilo nos lábios, logo engolindo o whisky quente que Ethan carregava sob o braço.

Colocou a língua para fora, sentindo o álcool queimar a boca, e riu abraçando os garotos.

— Jackson nos pediu para apresentarmos uma música mais tarde, que tal? — Michael disse animadamente, o que contagiou John.

— Claro, por Deus! — respondeu, fazendo um toque de mãos que tinham criado há anos atrás.

Logo John voltou a seu caminho anterior, encontrando Hope com Young sentado em uma perna e Vincent na outra. Riu e decidiu procurar por Lisa por aquele momento. Continuou se embrenhando na multidão até conseguir alcançar a porta que dava para a área de lazer e atravessou-a, chegando ao deck da piscina. Olhou ao redor, sentindo os efeitos do whisky o pegarem de jeito, e não a encontrou ali.

Muito pior.

Encontrou Jimmy. E este estava abraçado ao pescoço do Thomas da mesma forma de quando o vira beijando um homem pela primeira vez. Sentiu uma ansiedade crescer em seu estômago e o rosto se contorceu em descontentamento. Conhecia bem esse sentimento e amaldiçoou o monstrinho do ciúme que o fez cruzar os braços e dar as costas para a cena.

— John? O que foi? Que cara é essa? — virou o rosto para Lisa por cima do ombro, um biquinho manhoso nos lábios.

— Onde você estava? — perguntou.

— Lá em cima, a Jean está passando mal e fui dar uma olhada. — ela disse, estendendo um copo para John. Este mostrou-lhe a garrafa de gummy e deu de ombros.

Lisa se colocou na ponta dos pés e deu um beijo casto nos lábios de John. Entrelaçaram os dedos e andaram para a entrada da sala novamente. John olhou uma última vez para Jimmy e descobriu que o mesmo o olhava sobre os ombros de Thomas. A ligação durou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para tornar tudo dentro de John inquieto.

O casal se encaminhou para o centro da sala. Lisa girou, ainda segurando a mão de John, e começou a dançar ao som de I Want To Break Free tentando fazê-lo acompanhá-la. John estava desconcertado, o raciocínio nem era o mesmo de quando estava sóbrio. Jimmy o havia superado quando tudo em que conseguia pensar era em como não sabia o que fazer além de se lamentar por aí.

— Olha, eu preciso ir ao banheiro, tá bem? — disse próximo ao ouvido da garota, que assentiu e gritou na direção de María que entrava na casa.

O garoto se dirigiu para as escadas e subiu rapidamente, degrau atrás do outro, e foi até o fim do corredor. Abriu a porta do banheiro e entrou, não se preocupando em fechar pois iria apenas lavar o rosto. Odiava não entender a si mesmo, com essa sensação de que estava deixando algo passar, e estar bêbado não ajudava a lidar com os sentimentos.

— John! — olhou no reflexo do espelho vendo Victor entrar. Ele sim fechou a porta atrás de si.

Victor era um cara envolvido com distribuição de… ilicitudes na escola. Era ele quem repassava a verdinha para John semanalmente e sua relação era estritamente de cliente e vendedor.

— Oi, cara. — se preparou para sair, mas foi barrado assim que teve a intenção de tocar a maçaneta. — Algum problema?

— Nenhum, só notei que você está meio desanimado. Que tal uma coisinha para animar, em? — o rapaz disse.

— Valeu, mas eu trouxe meu baseado. — John bateu no bolso da jaqueta onde um de seus cigarros especiais esperava até que fosse queimado.

— Ah, é uma parada bem mais interessante que essa… — Victor quase cochichou. Enfiou a mão no bolso da calça e tirou um frasquinho pequeno que parecia conter sal. — Recebi essa semana, é fresquinha.

John não era do tipo que se aventurava em coisas químicas, mas poderia ser interessante. Sabia que a maconha não lhe daria a brisa de animação, mas sim a fome que iria fazê-lo ir embora, e Lisa estava tão animada… Além de que havia acabado de voltar a falar com Hope e queria aproveitar. Mordeu o lábio. Precisaria de algo mais forte para esquecer a cena que vira a beira da piscina há poucos.

— Como é que usa isso? — perguntou, se aproximando. Victor destampou o frasquinho e pegou a mão de John, depositando um pouco do pó na pele entre o dedão e o anelar.

— É só inalar. Você vai sentir o efeito em pouco tempo e, cara, é a brisa mais louca do mundo!

Victor fez o mesmo em sua mão e cheirou o pó, apertando o nariz em seguida. John o imitou e sentiu o nariz queimar incomodamente. Apertou os olhos com força e quando os abriu tudo parecia girar e brilhar. Apoiou-se na parede e ouviu Victor rir ao longe e dizer que era ”por conta da casa”.

John deixou-se escorregar pela parede até sentar no chão, onde esfregou o rosto com força sentindo todos os sentidos estranhos, embaralhados. Precisava sair dali. Cambaleou para sair do banheiro e andou da melhor forma possível pelo corredor.

— Cara, você está bem?

Virou o rosto num ímpeto e seus olhos demoraram para focar a pessoa a sua frente. Os traços do rosto se embaralharam até formar a feição que conhecia bem.

— Jimmy? — chamou, o nome embolando na língua.

— O que? Não, eu sou o Flyn. Você deve estar muito louco! — o rapaz riu.

John fechou os olhos com força e o abriu tentando focar a visão. Jimmy, aos poucos, se transformou em uma pessoa que o garoto nunca viu na vida. Deu as costas e decidiu descer a escada.

— Ei, você quer que eu chame o Hope? Ou o Ethan? — o tal Flyn disse, segurando-o pelo braço antes que rolasse escada a baixo.

— Não, tô legal. Valeu. Tchau. — disse, e acenou.

Descer a escada foi um trabalho quase impossível, pois não sentia bem as pernas mais. Quando chegou ao térreo foi que levantou a cabeça. Se arrependeu assim que viu em todos aqueles rostos o rosto de Jimmy. Apertou a camiseta sobre o peito, sentindo o coração acelerado, e ficou irritado. Sua mente estava lhe pregando uma peça.

Via Jimmy em toda parte.

Chacoalhou a cabeça, tentando colocar os pensamentos no lugar, mas tudo parecia intensificado demais. Doía os olhos e a música parecia a ponto de explodir sua cabeça.

— John, o que houve? — reconheceu a voz de Noah, mas o rosto era de Jimmy. Seu lábio tremelicou e os olhos encheram de lágrimas.

— Jimmy? — chamou, caindo na armadilha que sua cabeça havia criado.

— O que? Está maluco? — o amigo respondeu.

Mais um Jimmy se aproximou ajoelhando-se ao lado de John, e pegou-o pelo queixo, olhando-o fundo nos olhos.

— A pupila dele está muito dilatada. Ele usou alguma coisa. — mesmo que o rosto fosse de Jimmy, a voz era de Jin.

John se desfez das mãos dos amigos que o ajudaram a se endireitar e cambaleou para longe, encontrando a porta de entrada em meio o caleidoscópio que sua vista se tornou. Trombou com mais Jimmy’s em seu caminho.

— John! — tropeçou na calçada e caiu de quatro na rua — Por Deus, John! Você está bem?

Agora sim as coisas ficaram estranhas, pois um Jimmy de mini saia e botas de salto alto se aproximou correndo. Apertou os olhos de novo, sentindo a cabeça latejar, e os abriu para encontrar Lisa se dobrando numa espiral.

— Eu vou embora. Preciso ir embora, desculpa. — disse, tentando se levantar.

— Está doido? Não tem como você dirigir, John!

Tateou os bolsos e agarrou a chave do carro, entregando para Lisa.

— Pede pro Hope levar pra minha casa. Eu preciso mesmo ir.

E correu. Pelo menos tentou correr da melhor forma possível. A cada esquina, cada rua em que se metia haviam mais e mais Jimmy’s, por toda parte.

— Jimmy! — chamava desesperado, mas em seguida recebia um olhar enojado de todas as pessoas com quem cruzava.

Aquela foi uma longa madrugada. Conforme os efeitos foram passando, as ideias foram voltando ao lugar. O que sentia por Jimmy? Por que se afetara tanto pelo rapaz a ponto de delirar? Seu coração quase saltava o peito em batidas doloridas, o mundo todo girava sob seus pés, num looping infinito. As coisas só foram se acalmar quando o carro de sua mãe parou a sua frente e os amigos desceram para ajudá-lo a entrar no automóvel.

Decidira matar as duas últimas semanas de aula para evitar o constrangimento de encontrar com todas as pessoas que não conhecia, mas que sabiam muito bem sobre seus gritos por Jimmy pela casa. Aparentemente as coisas aconteceram muito pior do que se lembrava. Lisa o visitou algumas vezes após a aula e conversaram longamente sobre o que aconteceu na noite da festa, inclusive sobre o futuro.

Então a noite do baile de formatura chegou e foi horrível dizer aos caras da banda que não se apresentaria com eles. Recebeu horas de xingamento e até uma quase expulsão, mas no fim pode ficar enterrado sob as cobertas no escuro. Ou foi o que esperou.

— Johnny boy! — a voz de Hope soou estridente ao que a porta abriu violentamente. John se levantou, assustado, e viu os seis amigos entrarem em seu quarto bagunçado.

— O que estão fazendo aqui? — perguntou, sentando-se na cama.

— Por que está deitado aí? É a noite do baile, cara! — Noah puxou as cobertas e expôs as pernas nuas do mais novo.

— Eu não vou ao baile. — reclamou, puxando as cobertas de volta. — E o que vocês estão fazendo aqui?

— Vai, sim! E tira essa bunda da cama e vamos!

John se aprontou, a contra gosto, e logo estavam a caminho… de algum lugar. John não sabiam para onde estavam indo, mas sabia que não era a escola. Pararam quando chegaram a um descampado alto, tinha vista direta a pequena cidade em que viviam. Era uma das vistas mais bonitas que já vira na vida.

— Uau! Como encontraram esse lugar? — disse, aproximando-se da beirada.

— Vincent achou por um acaso. — Hope disse.

Assentiu e voltou para se sentar na canga que haviam esticado.

— Esse é o baile de formatura? — perguntou, rindo.

— Imaginamos que você não iria querer aparecer em público depois do escândalo do “Jimmy! Jimmy! Alguém viu o Jimmy?” — todos riram, até mesmo Jimmy. John havia notado os olhares do menor sobre si.

— Não me lembra, por favor. — pediu em rendição. — Eu não sei que merda foi aquela que usei na festa, mas nunca me senti tão mal na minha vida. Nunca mais quero aparecer em público.

— Se eu fosse você eu superaria essa fase logo, afinal a cidade é pequena e vão lembrar disso durante uns dez anos. — Youn disse, abrindo uma garrafa de champagne que John sequer viu de onde saiu.

— Ah, sobre isso… — John divagou por alguns segundos. — Eu não vou precisar me preocupar por muito tempo.

— O que você quis dizer como isso? — Jimmy se pronunciou pela primeira vez.

John o olhou fundo nos olhos, engolindo em seco.

— Bom, eu ia contar para vocês mais tarde, mas já que estamos aqui… Eu e Lisa… Nós vamos… Eu, é… — respirou fundo. — Vou para a América, o pai de Lisa é produtor musical e ele disse que pode me transformar em um astro lá.

O silêncio que tomou conta do grupo foi tanto que os grilos que cantavam por ali nunca soaram tão altos. John abaixou a cabeça e não viu a troca de olhares entre Young e Hope, nem Vincent arregalar os olhos. Jin e Noah apertaram as mãos, nervosos, e Jimmy… Bom, Jimmy se levantou e saiu andando para a beirada do monte.

— John — Hope chamou. —, é melhor você ir atrás dele.

Foi o que fez. Se aproximou do garoto e se sentou.

— O que houve?

— O que houve? Você para de falar conosco, tem um surto alucinógeno no meio de uma festa e agora diz que vai para os Estados Unidos? Eu achei que você tivesse mais consideração pelos seus amigos?

— Não fale assim, eu não quis magoar vocês.

— Mas magoou. Você não pode dar uma notícia dessas e querer que nós aceitemos numa boa, John.

John riu. Finalmente tendo uma conversa decente com Jimmy em semanas.

— Eu senti sua falta. — Jimmy disse, encarando a paisagem a frente.

Em meio a aquele silêncio, nenhum dos dois conseguiam sequer se olhar. Doía mais do que acreditavam que poderia doer, principalmente pelo desenrolar dos acontecimentos. Sabiam que por mais distante que pudessem estar, separados pelo pacífico, ainda assim sentiriam-se conectados. Era inevitável, mas isso não tornava as coisas mais simples.

Talvez fosse a situação em que estavam, o sentimento de que logo se distanciariam, não sabiam explicar, mas ainda assim deixaram seus dedos se entrelaçarem tão delicadamente que mal perceberam a ação até John apertar as mãos unidas, num gesto reconfortante que imediatamente acalmou Jimmy. Talvez não fosse tão ruim, o mundo era pequeno afinal e talvez um dia voltassem a se encontrar. John, olhando o céu noturno daquela cidadezinha, concluiu que nada os separaria de verdade, pois sempre que estivesse olhando as estrelas, Jimmy estaria olhando as mesmas que ele, como num segredo que só os dois podiam manter um do outro.