12. Fine Line

12. Fine Line

Sinopse: Ela nunca imaginou que sentiria tanto medo de realizar um sonho, mas nada é fácil quando um sonho depende do fim de outro.
Gênero: Romance
Classificação: +16
Restrição:
Beta: Alex Russo

Capítulos:

Prólogo

Um mês antes

“You got that James Dean daydream look in your eye
And I got that red lip, classic thing that you like
And when we go crashing down, we come back every time
‘Cause we never go out of style, we never go out of style”

A voz de soava preguiçosa enquanto ela acompanhava a música no rádio, a versão intimista que escapava de seus lábios agradando muito mais a do que aquela no rádio. Ele tinha a cabeça no colo da namorada, aproveitando o carinho terno que os dedos dela faziam em seus cabelos, indo e vindo no amontoado escuro e lhe presenteando com uma calmaria gostosa. sempre fora um cara de intensidade especifica, precisara alcançar certa maturidade para aprender a lidar com embates e abraçar com alguma positividade tais situações e ficava realmente feliz que o destino houvesse sido bom o suficiente com ele para só então colocar em sua vida.
Os dois, afinal, nem sempre estavam completamente alinhados, em seus pensamentos e opiniões. Ele não sabia se seu encaixe realmente duraria tanto quanto estava durando se fosse o de alguns anos atrás, e era um encaixe tão bom. Estavam sempre fazendo concessões, sim, e o meio termo era necessário, mas não era um esforço. Cada parte do relacionamento dos dois fluía com uma naturalidade realmente gostosa.
Aquele momento, por exemplo. Estavam na sala de estar do apartamento que dividia com suas melhores amigas, sozinhos. Ouviam música, uma das tantas playlists sem espaço para qualquer colaborador além dos dois, bebiam uma garrafa de vinho que comprara e aquilo era tudo. A garota não tinha realmente o costume de fazer aquilo, de ouvir música sem que a atividade fosse um complemento para alguma outra, mas fazia muito aquilo e inevitável, como era em qualquer relacionamento, um estava sempre pegando pra si manias do outro. De certa forma, sim, se tratava de uma concessão. Ou se tratou, da primeira vez que o fizeram. Da segunda em diante, era muito mais como algo que um aprendeu com o outro, um tesouro que compartilhavam com alegria morna.
Ao fim do single de sucesso da cantora norte-americana, compatriota de , I LIKE U, da NIKI, começou a tocar e soltou um risinho diante do quão, de maneira quase caricata, como corações no lugar das irís em seus olhos, como nos desenhos animados, apaixonada aquela playlist era.
E o pior? Ele gostava. Gostava tanto quanto jamais imaginou.
Quão vergonhoso. Logo ele, que sempre se gabou de seu espírito livre e suas prioridades, tão distantes daquela vida que , sem falar coisa alguma, o convidou a viver consigo desde o primeiro momento… Logo ele. Céus.
— Você é um doce, murmurou divertida enfim, como se soubesse o que ele estava pensando. Provavelmente sabia, já que ainda que ele não houvesse falado nada, se o houvesse feito, não seria a primeira vez. estava deliciosamente habituada aos comentários cada vez menos ácidos e mais genuínos de a respeito das transformações que aquele relacionamento lhe fazia passar. Deliciosamente, para ambas as partes. Para , havia algo estimulante num nível pouco descritivo em como as reclamações de soavam cada vez menos como reclamações naquele relacionamento. E, bem, para , era simplesmente tudo o que podia querer. Que a namorada concebesse o amor dele, ainda que beirasse o disfuncional.
Tinham aquilo em comum, no fim das contas. Fora o combustível daquilo que precisaram opor no inicio do relacionamento e era, ainda que não soubessem inicialmente, o ponto de partida de sua despedida. Ou… Despedida por ora. Mas não saberiam daquilo tão cedo, também.
Toda a informação que teriam, por ora, chegava com o toque estridente do telefone fixo, disposto próximo ao sofá onde estavam, interrompendo a resposta esperta que repousava na ponta da língua de , pronta para dançar com as palavras anteriores da garota, naquele costume tão deles. Ele se ocupou, invés disso, de pescar o telefone de seu encosto no móvel próximo ao sofá, esticando a parte superior do corpo brevemente para, enfim, atendê-lo.
— Residência de ? — unicamente pelos propósitos cômicos da coisa toda, forçou um péssimo sotaque francês e mordeu uma risada, diminuindo o volume do rádio enquanto o assistia franzir o cenho, novamente deitado em seu colo. — Oh. Sim, sim. Ela está aqui, sim, só um minuto. — escondeu ambas as saídas de som do aparelho telefone contra o peito e ergueu o olhar para . — Respira fundo — praticamente ordenou e a garota, publicamente numa relação odiosa com ordens, arqueou as sobrancelhas em sua direção, com aquele olhar típico de: “quem você pensa que é”. revirou os olhos. — É Julie Taymor no telefone. Ela quer falar com você.
Ok, então não era quem ele pensava que era, mas quem ele tinha no telefone. Puta que pariu. Puta que… Pariu. Puta. Que. Pariu.
Julie Taymor era apenas a diretora favorita de , dona dos trabalhos artísticos mais magníficos na humilde opinião de alguém com meia década de graduação como ela. fizera inúmeros trabalhos, produtos e teses, tendo como base a arte de Taymor. Céus, o que ela queria com ela?! Será que algum trabalho de lhe ofendera?! Será que… Ah, Deus.
Não podia falar com Julie Taymor. Não podia, meu Deus, não podia mesmo.
— Respira fundo — repetiu o que dissera pouco antes, acompanhando a cadeia de seus pensamentos quase como se viesse com legenda. — Ela ‘tá esperando. Precisa falar com ela. — acrescentou quando não reagiu a suas palavras, saindo de seu colo para olhar melhor para ela, lhe estendendo o telefone em seguida, quando ela finalmente o obedeceu e respirou fundo. — Pode fazer isso.
assentiu, nem de longe tão certa quanto ele, e levou o telefone para perto da orelha, sua saudação soando muito mais como um chiado inteligível quando finalmente conseguiu emitir qualquer som e se amaldiçoou por isso, chutando pelo sorrisinho que ele não conseguiu conter no processo. Um instante depois, se punha de pé, nervosa demais para continuar presa ao sofá.
E, então, tudo aconteceu muito rápido. A primeira coisa que Julie pediu foi que, caso não se importasse, transferissem aquela ligação para o celular e fizessem assim uma chamada de vídeo. E conversaram por horas.
se ocupou de pausar a música e lhes observar em silêncio, sorrindo, no entanto. O sorriso não deixou seu rosto em nenhum momento enquanto assistia, principalmente porque ele mal deixava o rosto de sua namorada também, que, se ele conhecia bem, fazia um esforço tremendo para não chorar também. Ela era adorável.
vinha fazendo um esforço notável para que Taymor notasse seu trabalho, e contava com alguma ajuda na internet, mas já faziam meses desde que a mobilização começara e, aquela altura, não achava realmente que ia acontecer. Nenhuma parte dela estava preparada para aquela surpresa. Ou para o que veio depois, já após, pelo menos, uma hora de conversa.
Quando Taymor finalmente contou o real motivo – que sequer imaginava existir – daquela ligação: uma analise contemporânea dos aspectos políticos na obra de Taymor, e como tais obras dialogavam com o cenário político atual no Brasil, onde nascera e crescera, e costumava morar antes de ir parar ali, dividindo um apartamento na capital sul-coreana com suas melhores amigas.
Era um trabalho ácido, que exigira, principalmente, lágrimas, sangue e suor da garota, mas ela tinha tanto orgulho. Aprendera tanto com ele e, bem… Olha onde lhe levara. Estava numa porra de ligação com Julie Taymor, caramba.
Taymor explicou que estava trabalhando na pré-produção de seu primeiro seriado, e o formato exigia que tivesse mais ajuda do que normalmente contava em seus filmes. Explicou o plot de seu novo trabalho e, por fim, disse que o trabalho de lhe mostrou que era ela que a diretora mais velha procurava. Ela tinha a visão parecida com a dela, porém trazia o insight da modernidade que Taymor precisava para trazer seu trabalho aos moldes de cinema e TV da atualidade. Acreditava firmemente que podiam ter uma parceria proveitosa e bem, estava sem palavras.
Aquela era a proposta de trabalho que descreveria como seu trabalho dos sonhos, se realmente houvesse parado para pensar naquilo até então. Não o fizera, mal se formara, vinha surfando na onda da notoriedade que seu trabalho vinha ganhando na Coréia do Sul e, honestamente, vinha sendo bom. Bom o suficiente para ela não perder tempo imaginando ter mais, ou ter algo diferente. Sabia, no entanto, que, se o houvesse feito, aquilo seria exatamente o que teria surgido em sua mente.
Trabalhar com Julie Taymor. Num seriado de TV.
Taymor ainda mencionou algo sobre mudança, gastos e tudo o mais, mas visto que não estava exatamente em condições de raciocinar direito sobre aquilo, logo concluíram que passar informações como aquelas seria melhor por email, e trocaram os endereços eletrônicos também. Pediu que lhe desse uma resposta em até três semanas para que pudesse procurar outra pessoa caso fosse precisar, mas confessou torcer que não e agradeceu efusivamente, inúmeras vezes, antes de, enfim, desligarem.
Quando seus olhos encontraram os de novamente, sequer parecia a mesma noite na qual se encontravam algumas horas atrás, apenas ouvindo música e bebendo vinho como qualquer outro fim de semana. sorriu primeiro, se pondo de pé e quebrando a distância entre eles, os braços envolvendo a namorada, que caiu no choro em seus braços, lhe fazendo sorrir mais, tão feliz por ela. merecia aquilo, merecia muito mais e, honestamente, sempre acreditou que coisas grandes iam chegar pra ela. Era simplesmente incrível ver tudo isso finalmente acontecer.
E nem passou pela sua cabeça o que aquilo podia vir a significar para eles, para seu relacionamento. Enquanto chorava em seus braços, o apertou mais forte em dado momento, porque passou pela sua cabeça o que aquilo podia vir a significar. Fora um esforço tremendo se permitir ser alguém para e permitir que ele fosse alguém para ela e pensar que, céus, as chances eram grandes, perderiam aquilo… Deus. Ela não estava pronta. Tinha toda uma vida ali, suas melhores amigas, o cara que amava, tudo, e quanto mais pensava naquilo, mais a sensação mortificante do medo tomava o lugar da alegria e da incredulidade de pouco antes.
Ela não estava mesmo pronta.
A garota avisou que precisava ir ao banheiro e deu as costas tão rápido quanto foi capaz, tentando parar de chorar. Chegou a rir ao entrar no banheiro, pensando no quão inusitado estava sendo cada parte daquela noite, e então, quase voltou a chorar, mas se conteve, se ocupando de fazer xixi e respirar fundo, saindo do banheiro alguns instantes depois. havia dado play no rádio outra vez. I LIKE U ainda tocava.


“Can we just reset, restart and then replay?
Take me back to when all
You wanted was to love on me everyday, yeah
I like you, I like you, I like you”

não conseguia acreditar que teria que se despedir dele.

Capítulo 1

Noite atual

Exatamente um mês havia se passado desde que falara com Julie Taymor pela primeira vez. Tanta coisa mudara, porém, que podia jurar que fora mais tempo.
Era, no entanto, sua última noite na Coréia. Tinha aquilo também.
pegaria um vôo para Arizona, nos Estados Unidos da America, na manhã seguinte, as dez e pouquinha. Se instalaria num hotel nos dois primeiros dias, e então a própria Julie Taymor iria lhe buscar e levar para a locação das gravações do seriado, onde terminaria por viver também, ao menos nos primeiros dias. Até se estabilizar e encontrar um lugar pra si. E, mesmo faltando tão pouco para tudo aquilo acontecer, ainda não acreditava que estava de fato fazendo todas aquelas coisas. Mudanças. Ela achou, de verdade, que morar na Coréia do Sul, do outro lado do mundo do lugar onde nascera, fosse a maior mudança que fosse enfrentar em sua vida, e sentia muito orgulho de si pela vitória, mas… Tinha que fazer tudo de novo. E sozinha dessa vez. Por mais que quisesse, afinal, não podia levar e com ela. Ou .
Pensar nele ainda fazia seu coração choramingar, mimado demais para entender que escolhas precisavam ser feitas. E que, por mais que doesse como o inferno, aquela era a certa. precisava deixar o cara que amava. Só não queria fazê-lo daquele jeito, deixar as coisas como deixaram… Não parecia certo. Bom, não era. Ia contra absolutamente cada parte da história dos dois.
O pensamento fez a garota suspirar, pescando o celular em meio as tantas caixas, malas e bagagens de todo tipo espalhadas pelo quarto. Nenhuma mensagem.
Não era possível que ele não fosse se despedir. Ainda precisavam se ver… Conversar…
— Ele vai aparecer — murmurou, chamando sua atenção para si e a serenidade em sua expressão não deixou espaço para que rebatesse. Ela apenas assentiu e tocou seu ombro como consolo. As duas estavam ajudando com as últimas bagagens, mas não poderiam ficar a noite toda. Iam levá-la ao aeroporto na manha seguinte, então não era como se fossem se despedir agora, mas visto que, depois disso, não sabiam quando se veriam outra vez, estavam fazendo o esperado e passando todo tempo possível juntas. Era o que deveria estar fazendo também.
Céus, ela o amava, mas podia odiá-lo às vezes.
O caso era que e comemoravam um ano de namoro naquela noite. Sairiam juntos e ela não dormiria em casa. tinha um encontro também, o quinto encontro, na verdade, com , o amigo de que apresentara a amiga. Também não era esperada em casa pelo resto da noite, depois que saísse. torcia tanto por elas, que seus relacionamentos dessem certo, que… Que tudo fosse bom, sempre, em suas vidas.
Sabia que saberia, afinal se falavam todos os dias, vivendo ou não sob o mesmo teto. Sempre foi assim. No entanto… Viver sob o mesmo teto que elas sempre foi um de seus sonhos também. Era injusto e odioso precisar abrir mão desse para realizar outro.
Sua arte, porém, era sua vida, acima de todo. Seu propósito. E precisava respeitar seu propósito.
— Onde você está guardando as roupas de cama? — perguntou alguns instantes depois, de pé com um edredom bem dobrado em mãos, e indicou a caixa com a mão. Ela estava saudosa por antecedência, e presa numa montanha russa de emoções tão intensa desde que falara com Julie pela primeira vez, que naquele momento, naquela noite, a algumas horas de deixar a Coréia, se sentia, acima de tudo, cansada. Um tanto quanto apática. E lhe aterrorizava se despedir da vida tão bonita que tinha ali daquele jeito. Ela precisava sentir mais. Precisava que seu coração acelerasse outra vez, precisava rir… Se sentir viva. Precisava de uma última noite realmente boa. Em honra a todas as outras noites que tivera naquele lugar. — chegou, . Você fica bem? — voltou a se pronunciar, com o celular em mãos e sorriu para ela ao assentir, se levantando para abraçá-la.
— Feliz aniversário. — murmurou e sorriu em agradecimento, deixando um beijo em sua bochecha antes de se afastar e deixar o quarto, mesmo que aquele carinho fosse tão atípico dela. A garota conhecia o suficiente para saber o que ela precisava e quando precisava, no entanto. Sabia que, naquela noite, ela precisava de afeto.
Quando, enfim, ficou sozinha com , suspirou de maneira desgostosa e a amiga deu um sorriso triste pra ela.
— Devo abrir o vinho agora? — questionou e acabou rindo, assentindo logo em seguida.
— Boa ideia. — concordou e a outra sorriu outra vez, se pondo de pé a fim de ir até a cozinha buscar a bebida, deixando sozinha com toda uma vida empacotada, pronta para uma nova vida. Riu melancólica com o pensamento e, tristemente, conseguiu apenas pensar que não seria tão boa quanto aquela. E se odiou por isso.
Estava indo realizar um de seus maiores sonhos, o trabalho que lhe fazia sentir viva, e devia estar se sentindo melhor que aquilo. Merecia estar se sentindo melhor que aquilo. Céus, esperava se sentir melhor que aquilo em algum momento.
Com um resmungo, a garota jogou o corpo pra trás, apoiando a cabeça numa almofada no chão e fechando os olhos, tentando silenciar a mente. Sabia muito bem que a sensação de frustração e cansaço, entre outras coisas, era principalmente pelas pontas desatadas daquela vida, da qual se despedia. , por exemplo. Tanto quanto sabia, no entanto, a garota se sentia fadada a sentir tudo aquilo, de um jeito ou de outro. Porque saber o porque sentia certas coisas não significava que sabia como lidar com elas, no fim das contas.
? — a voz de fez com que a garota erguesse o olhar, dando de cara com a amiga na porta do quarto, acompanhada de seu namorado… ex? Ela não sabia ao certo. Seu coração deu um solavanco e ela se sentou de imediato, apertando os lábios juntos, sem saber o que deixaria escapar entre eles se tivesse a chance. — chegou — a voz de soou muito como se pedisse desculpas, já que não tivera a chance de prepará-la antes que aparecesse bem ali, em sua porta. sorriu pequenininho, acenando como a cabeça como quem dizia que não tinha problema. então assentiu e deu as costas, empurrando de uma vez para dentro ao se afastar.
O homem cambaleou para dentro, soltando um riso entrecortado que, tão logo veio, cessou, ao encontro de seus olhos com os de . Caramba. Devia ter falado com ela antes.
Tudo ficara tão… Inacabado, da última vez que se viram.
— Oi. — murmurou, e embora sua voz soasse tão diferente, levou Bruna inevitavelmente ao último oi que ouvira dele. A noite em que seu relacionamento pareceu, enfim, dar a guinada contraria. Aquela em direção ao fim.

Duas semanas antes

— Oi. — murmurou, sorrindo para a namorada quando ela abriu a porta de seu apartamento, já pronta para saírem. Ela estava linda naquela noite, com um vestido entre prata e azul adornando seu corpo como se o abraçasse sem qualquer intenção de soltar, perfeitamente moldado a cada uma das curvas que amava amar. O cabelo estava preso num penteado que cumpria bem a missão de evidenciar a maquiagem bem feita que iluminava o rosto dela. De tirar o fôlego, ela estava de tirar o fôlego.
Não era típico de falar, mas aquela era uma característica que tinha em comum com ele e, honestamente, a garota até se divertia em pescar seu deslumbramento porcamente disfarçado num sorriso mordido ou algo do tipo.
— Oi. — ela respondeu, num tom que deixava claro ter pegado pra si o elogio que ele não ousou pronunciar e riu por isso, certo que aquela era a única mulher possível e, balançando a cabeça, lhe puxou para si pela mão, fazendo com que ela passasse para fora do apartamento, o corpo tombando ao seu. Se abraçaram pela cintura e colocou o cabelo da namorada para trás, admirando o rosto maquiado da garota por mais um instante.
— A gente tem que ir. — murmurou, o tom ligeiramente preguiçoso, no entanto, contrastando de maneira no minimo gostosa com o fato de estarem atrasados para o jantar de aniversário de seu amigo. sorriu.
— Eu ‘tô pronta. — respondeu com simplicidade, a voz soando um tanto quanto cantada e fazendo sorrir um pouco mais.
— Eu não. — rebateu, inclinando o rosto para o de e cobrindo seus lábios com os dele. A garota sorriu contra sua boca antes de permitir que o namorado aprofundasse o beijo, enlaçando agora seu pescoço e não mais sua cintura enquanto aproveitava cada parte da sensação tão gostosa que sempre fora aquela; de beijar . Era como os fins de tardes de verão, especificamente entre a passagem do dia quente para a noite fresca, e a brisa, tudo embrulhado numa coisa só.
Era delicioso.
Tão logo fez menção de cessar o beijo, no entanto, o puxou de volta pra si. Detestava a sensação de que seus beijos estavam contados agora, mas desde que conversara com Julie Taymor por telefone e recebera a proposta de trabalho de seus sonhos era exatamente como se sentia. E nem era como se já houvesse respondido Julie, afinal. Não encontrara coragem.
— Vamos. — enfim mordeu o lábio inferior do namorado, sorrindo para ele, que sorriu de volta antes de lhe abraçar de lado para seguirem em direção ao elevador. Não falaram nada nos primeiros instantes dentro da caixa de metal, mas sabia que era uma questão de tempo até ouvir a pergunta. E sentia as mãos suarem e o coração martelar mais forte simplesmente por pensar naquilo.
— Você mandou o email? — perguntou, exatamente o que , ainda que esperasse, temia, e ela sorriu fraco, deslizando as mãos entre as lantejoulas de seu vestido tão caro e tão justo. Esperava que aquela roupa e o quão estonteante ficara nela fosse lhe render algumas horas sem aquela pergunta. Ou, pelo menos, torcia.
— Ainda não. — murmurou enfim, a voz soando inevitavelmente mais distante. Como se uma barreira, uma camada pesada e escura, se colocasse entre eles.
olhou pelo canto do olho em sua direção, e sentindo seu olhar queimando em sua pele, encarou com insistência os próprios pés e ele suspirou.
— Você só tem até amanhã.
— Sei disso. — a voz de soou apenas uma nota mais agressiva, e foi o suficiente para que não fizesse mais perguntas. Por ora.
Nem aquele vestido, tão caro, tão justo e tão bonito, seria o suficiente para impedir o que os dois sabiam que viria. O que, afinal de contas, era o motivo de estar tão constantemente sentindo como se os beijos, toques e abraços que ainda tinha disponível do namorado estavam contados. E lá estava o momento, sentado bem no meio dos dois como uma bomba relógio, impondo uma distância no minimo dolorosa entre os dois.

Capítulo 2

Noite atual

enviou para uma mensagem avisando que chegara para buscá-la não muito depois de entrar no quarto, mas prometeu que bastava a mais nova pedir e ela estaria em casa novamente. jamais pediria, sabia quão ansiosa estava por aquele encontro, mas sorriu para a mensagem da amiga mesmo assim, sentindo-se acolhida pelo carinho e cuidado da outra, ainda que já fosse um costume ali, entre elas. estava especialmente sensível naquela noite.
De qualquer forma, já fazia um tempo desde que lhe enviara aquela mensagem. Céus, devia fazer pelo menos uma hora que estava ali, sozinha com em meio a um silêncio tão ensurdecedor que nem pareciam eles. O silêncio entre eles nunca fora pesado daquela forma, nem mesmo no primeiro dia.
Se fosse ser justa, precisava admitir, estava tentando. Perguntou aonde ela ficaria, se estava ansiosa, entre outras coisas. foi monossilábica, no entanto. Não conseguia manter uma conversa em nível superficial com alguém com quem nunca tivera uma relação superficial. Aquilo era desconcertante de todo jeito possível e ela queria gritar, queria gritar com ele, ou pelo menos contra um travesseiro, só… Precisava derramar suas frustrações de algum jeito.
Inferno, como chegaram ali, afinal?
— Vai ser bom — murmurou depois de vários instantes em silêncio, falando tão baixo que não teve certeza se era com ela, o encarando pelo canto do olho. Sentiu o coração pular uma batida quando seus olhares enfim se encontraram, no instante seguinte, e odiou sentir. Tudo sobre aquela noite, aquela despedida, já estava sendo difícil o suficiente sem que seu coração idiota sapateasse no meio daquela bagunça, como se aquilo fosse ajudar em alguma coisa. Argh. — Vai ser bom pra você. — enfim acrescentou e assentiu num reflexo apático, desviando o olhar logo em seguida. Se sentiu sufocada e voltou a desejar poder gritar, limpando a garganta e coçando a nuca enquanto encarava cada canto do quarto praticamente vazio. Seria mais fácil se não tivesse lembranças do que parecia uma vida inteira com ele em cada canto daquele cômodo.
— Eu espero que sim — acabou murmurando, e nem ligou pro quão vulnerável soou. Talvez houvesse ligado se visse o olhar dolorido que lhe lançou diante das palavras, mas como sabia que aquilo era exatamente o que aconteceria, não ousou erguer o olhar para ele. Não até ouvi-lo rir fraco, sem muito humor.
— Pelo menos você vai ter mais chances de ir a shows do Arctic Monkeys lá. — tentou brincar, mas o efeito foi contrário. Foi como se um soco letal atingisse em cheio o estômago da garota, que praticamente se encolheu no lugar com os olhos lacrimejando presos aos dele. E se odiou profundamente com aquele olhar sob si, desejando mais do que tudo poder voltar atrás e retirar as próprias palavras, levando-as novamente para a segurança de seus pensamentos. O último show do Arctic Monkeys em que estiveram fora a pouco mais de cinco anos, um mês depois de se formar na faculdade, fora a primeira, e até então a última, vez que a banda estivera na Coréia e quando a vida dos dois se encostou pela primeira vez.
Não era o melhor momento para lembrar daquilo, mas agora, era tudo na cabeça de ambos. Cinco anos atrás. O primeiro beijo. O melhor primeiro beijo de todos.

Cinco anos antes

A banda abriu o show com i bet you look good on the dancefloor e foi insano, para se dizer o minimo. Corpos se contorcendo e pulando, pessoas gritando e comemorando. Uma euforia deliciosa, mas nem de longe tão agressiva quanto o modo que o estômago de revirou quando lhe tocou pela primeira vez, algumas músicas depois. Primeiro, nadaram nas águas rasas de uma troca ou outra de olhar e a expectativa e curiosidade crescentes a respeito do outro, exatamente como mandava o figurino. Yu, ex-colega de faculdade de , os apresentara naquela noite, depois de esbarrarem por acaso na fila para pegar bebida.
sabia a letra de todas as músicas e se divertiu com o fascínio que levou ao rosto de por isso, lhe dedicando uma letra ou outra apenas pela graça de poder. Descobriu com muito pouco que havia algo muito estimulante sobre encará-lo enquanto o espetáculo pelo qual todos vieram acontecia bem atrás deles, sobre poder. E não se arrepender. Era gostoso. E novo.
E, ela não sabia ainda, mas duraria até seu último instante juntos.
Em meio a letra, tão familiar quanto o abraço de um velho amigo, de 505, riscaram o fósforo pela primeira vez na noite. E seus corpos dançaram efervescentes em meio as chamas crescentes, com acompanhando Alex Turner e seu vocal tão singular com um sorriso brincando arrastado em seus lábios:
When you look at me like that, my darling, what did you expect?! — ainda que a música não tratasse a submissão no relacionamento de maneira tão divertida, tratou, e achou revigorante, sustentando seu olhar como se aquilo fosse resposta o suficiente. E, levando em conta o que seu olhar vinha fazendo com ela a noite toda, meio que era mesmo. Mas apenas continuou a cantar — I’d probably still adore you with your hands around my neck… — precisou morder a boca com mais força quando seu sorriso ameaçou aumentar vergonhosamente ao passo que lhe puxou, com uma das mãos cobrindo seu pescoço. Ele não colocou qualquer força no aperto, mas sequer precisou. já estava pingando, e se perguntou se ainda ia demorar muito para ele lhe beijar. — Or i did last time i checked.
riu, de maneira alguma deixando passar qualquer parte de cada insinuação em absolutamente toda linguagem corporal da garota, além da música em si, antes de enfim trazer o rosto dela para si e moldar seus lábios.
Não precisavam esperar por i wanna be yours, seria simplesmente fácil demais

Capítulo 3

Cinco anos antes

Duas semanas depois do primeiro beijo

Sentada em posição de índio na cama de , o observava mexer na vitrola pela qual já criara tanto afeto mesmo não tendo estado ali tantas vezes. Estava fazendo tudo errado, aliás. Criando afeto por suas coisas, suas músicas e manias, por ele… Absolutamente tudo que não devia e não podia fazer. Era o segundo fim de semana que passava ali, afinal de contas, em sua cama. Ela nem ao menos fazia aquilo, visitar a cama do mesmo cara mais de uma vez. E lá estava… Fingindo demência.
Mas balançou a cabeça, afastando os pensamentos, decidida a continuar fingindo demência. Era mais fácil daquele jeito, e tão, tão mais gostoso. Quando call it fate, call it karma começou a tocar, a garota fechou os olhos, sorrindo enquanto um resmungo em aprovação escapava de sua garganta. Gostava tanto daquela música. Era delicioso descobrir tudo que tinham em comum ainda na ilusão da segurança da casualidade. Era realmente gostoso, ainda que pudesse ser ligeiramente falho também, caminhar sempre com a guarda levantada, especialmente quando era tão fácil baixar a guarda com ele.
Um instante depois, a mão quente de alcançou sua nuca e sorriu mais, os lábios dele alcançando sua mandíbula e deslizando por ali num carinho gostoso até, enfim, alcançar seus lábios. A língua de encontrou a sua num carinho morno, e manteve as duas mãos no alto, próximo dele, mas sem tocá-lo mesmo quando terminou por cair no colchão, com indo por cima dela, os lábios descendo para seu pescoço pouco depois e continuando os carinhos quentes por ali.
— A gente tem feito muito isso, não é? — murmurou um instante depois, a voz soando ligeiramente mais rouca quando a testa encostou a sua e mordeu sua boca, finalmente deixando que as mãos encontrassem seu ombro, apoiando-as ali num carinho preguiçoso.
— ‘Tá me expulsando? — riu, se esforçando para ignorar cada sinal vermelho que surgia em sua mente em meio a tudo a respeito daquele momento. Aquela música, o jeito que se beijavam…
— Gosto de ter você aqui — retrucou, e ela riu outra vez, soando ligeiramente mais nervosa do que antes, puxando seu lábio inferior entre os dentes um instante depois. — Não é uma declaração. — murmurou como se a tranquilizasse um instante depois, retribuindo a mordida que recebera.
— Você é mais esperto do que isso. — concordou com simplicidade e ele riu, nem de longe tão certo daquilo.
— Por que não fazemos uma promessa? — ele sugeriu, fazendo arquear uma das sobrancelhas. — Eu, , prometo não me apaixonar por você.
— Ah, tão romântico… — a garota ironizou, rindo junto com ele em seguida. — Eu, , prometo não me apaixonar por você. — enfim devolveu a promessa, estendendo o dedo mindinho para selarem, enfim, o juramento. enlaçou o dele no seu.
— Não importa quantas vezes a gente transar. — acrescentou e concordou com a cabeça, como se aquilo fosse perfeitamente razoável. Como se não sorrissem feito idiotas durante a coisa toda e suas pernas não se entrelaçassem muito mais preguiçosas do que qualquer coisa.
— Não importa quantas vezes a gente transar.
Assentindo, soltou o encaixe de seus dedos e voltou a morder sua boca, lhe beijando um instante depois, as duas mãos segurando seu rosto.
É claro que aquilo não daria certo e, em algumas semanas, estariam se declarando ao som de outra de suas músicas favoritas. Naquele momento, no entanto, The Strokes e o espírito tão livre quanto realista de call it fate, call it karma bastava. Bastava, por ora, acreditarem que tudo bem serem uma brisa tão passageira quanto deliciosa na vida do outro.
O problema é que, quando aquilo, de fato, precisasse bastar, não seria assim tão fácil.

Noite atual

tinha muitos pôsteres no quarto, todos eles relacionados a cinema. A seus filmes e séries favoritos. Alguns, de fato, pôsteres de divulgação, outros simples referencias que apenas verdadeiros fãs de tal produto entenderiam. Todos, exceto um.
O pôster do Arctic Monkeys.
Ela já havia, inclusive, tirado a maioria de lá, exceto aquele. Naquele momento, estava lado a lado com na cama, ambos perfeitamente cientes o pôster atrás deles, na lateral da cama como se os encarassem. Como se julgasse o fim que davam a história que começaram a cinco anos, naquele show. E que construíram com tanta leveza, mesmo propensos ao contrário.
— Não acredito que a gente realmente fez promessas — riu, um tanto saudoso e acabou rindo também, concordando com a cabeça.
— A gente sempre foi meio estúpido, não é? — retrucou, virando o rosto para o seu. olhou nos seus olhos e, por um instante, o ar travou em sua garganta.
A garota que ele sempre julgou ser o único molde possível para ele estava indo embora. Não havia se permitido pensar no quanto sentiria sua falta, não até aquele momento. Vinha evitando sequer se incluir na equação, porque sabia que aquilo não era sobre ele e que era o melhor para ela, e sabia que aquele também era o motivo de as coisas estarem do jeito que estavam. Que achava que ele não se importava tanto assim, ou não sentiria sua falta tanto assim, mas… Caramba, isso estava tão longe da verdade.
— Você não — ele murmurou e ela sorriu pequenininho, sentindo o coração pular uma batida, como sempre acontecia quando ele deixava escapar o quanto a achava fascinante. Ela ia sentir falta daquilo. De tudo a respeito dos dois. — Aquela briga, foi… Eu achei que você precisava daquilo. Que eu ficasse longe. — ele acrescentou, cuidadoso como se não soubesse se era realmente seguro mencionar a briga, a última vez que se viram. A garota, que encarava fixamente os próprios joelhos, mordeu o lábio e ergueu o olhar para o namorado, balançando a cabeça, indicando que entendia. Não foi o suficiente para . — Naquela noite, você falou que estava abrindo mão de um sonho por outro, e por isso era tão difícil, e eu estava tão empenhado em impedir que perdesse a chance de ter o trabalho dos seus sonhos que não reagi a isso. Mas essas palavras nunca saíram da minha cabeça, .
— Era verdade — ela deu de ombros, como se não fosse nada demais, e então coçou a nuca, se dando conta do que tinha dito. — É verdade. — corrigiu — Eu sempre tive muito medo pra assumir até pra mim mesma, por isso não sabia. Não sabia até, de fato, acontecer. Eu não tinha ideia do quanto queria o que a gente tinha.
— Nem eu. — não levou um minuto para responder, e se encararam de maneira dolorida por isso. Tinha, ambos disseram. Já estavam falando do que eram no passado. Era aquilo, aquele exato momento sentados na cama dela, onde se amaram tantas e tantas vezes; estavam se despedido. — Eu vou sentir sua falta. — ele falou, com o olhar dolorido ainda preso ao olhar dolorido dela, e assim ficaram até que suas pálpebras pesaram demais, quando suas respirações estavam tão próximas quanto seus lábios entreabertos, roçando devagar até que, enfim, segurou o rosto da garota e juntou de uma vez suas bocas, trazendo-a simultaneamente para seu colo.
segurou em seus cabelos em meio ao beijo quente, o coração martelando tão forte que, se não fosse ali, se aquilo não acontecesse o tempo todo quando era ali, ela ficaria preocupada que ele atravessasse seu peito ou algo do tipo. Mas era ali. E conhecia aquela sensação, céus, desejou tanto sentir aquilo algumas horas mais cedo, quando ainda não sabia se ele apareceria e se sentia tão apática.
Era exatamente daquilo que ela precisava. Uma última dose dele, de tudo que sempre foram juntos, e quando rompeu o contato de seus lábios, buscando livrá-la da blusa, seus olhares congelaram um no outro por um instante. Em silêncio, retiravam tudo que já disseram ou pensaram sobre o outro que não representasse o quão fascinante, magnífico, um achava o outro. E deixavam apenas as coisas boas. Queriam que ficassem apenas com o bom, porque não sabiam se teriam novamente a chance de lembrar ao outro quanto achavam que era, de fato, fascinante, magnífico.

Capítulo 4

Duas semanas antes

Depois do jantar

detestava quando fazia aquilo. Ele a amava, mas céus, podia odiá-la às vezes. Sabia que havia algo errado, ela deixara claro que havia, mas simplesmente não falava. Inferno, aquilo o tirava do sério.
— Pronto. — praticamente resmungou, resignado, ao estacionar no lugar de sempre, em frente ao prédio da garota, que rolou os olhos.
— Qual é o problema?! — perguntou, e o tom impaciente fez rir, é claro, sem nenhum humor. Ele a encarou desacreditado.
— O meu problema?! Sério?! — soltou e revirou os olhos novamente, saindo de uma vez de dentro do carro. revirou os olhos também e foi atrás dela, entrando junto com a garota no prédio e seguindo para o elevador com ela também. Nenhum dos dois falou coisa alguma em todo o percurso até o andar dela, mas quando chegaram, não aguentou mais. Nem mesmo queria passar a noite lá se fosse para ficar daquele jeito. — ?!
— Eu não te chamei pra entrar. — ela murmurou, como se soubesse no que ele estava pensando e o garoto arqueou uma das sobrancelhas, incrédulo. Não era possível que ela fosse ficar de birra sem que ele sequer soubesse o motivo. Nunca foram assim, pelo amor de Deus. — O que você quer que eu faça?! Só faltou você dizer que tanto faz se eu for daqui a duas semanas ou amanhã! — ela enfim jogou em sua cara o que ele fizera de errado. bufou, passando a mão pelo rosto num gesto que explanava tanta impaciência que apenas inflamou , que revirou os olhos e entrou em casa. Deixou a porta aberta, no entanto, e logo foi atrás dela.
— Você sabe que não me sinto assim — ele reclamou, num esforço patético para amenizar a situação, visto que ainda parecia julgar a coisa toda ridícula e nada daquilo tornava a situação mais suportável para . É claro que ela ia aceitar aquela droga de emprego, era seu sonho e ela sabia que resignaria pelo resto da vida se não o fizesse por causa dele, mas, porra, agir daquele jeito?! Como se ela não tivesse direito de sentir nada ou ao menos ponderar enquanto fosse possível, porque estava abrindo mão da porra de uma vida inteira?!
— Honestamente, não. Eu não sei. Não sei porra nenhuma, — ela lhe respondeu, o encarando tão magoada que não pôde evitar a pontada de desgosto consigo mesmo que lhe invadiu — Você sempre age como se tudo fosse muito simples e se sentir inseguro fosse uma grande besteira, mas não é assim com todo mundo.
, é o seu sonho… — tentou intervir, se explicar. Ela entendera tudo errado. Não pensar no quanto sentiria sua falta estava sendo o maior esforço de sua vida, se adequara tão bem ao encaixe dos dois que não podia sequer imaginar uma vida sem aquilo, então estava evitando a todo custo não pensar naquilo. Ele sabia, ainda assim, que ia. Sabia que ia sentir falta dela e que ia doer como um inferno. E achou que ela também soubesse, achou que… Céus. Estava mesmo sendo frio demais sobre aquilo tudo, frio demais com ela.
— Não é o meu único sonho! — apesar de sua intenção ter sido gritar, ela não o fez. era péssima com gritos, e a voz falhou no meio do caminho. Ela respirou fundo e soube que ela ia chorar, quis correr e lhe abraçar e o matou um pouco saber que não podia. — É insuportável, . É insuportável e injusto ter que abrir mão de um sonho pra realizar outro e é exatamente isso que estou tendo que fazer aqui. Eu não sei de que outra forma explicar, porra, eu não sou você! Eu não sei fazer as coisas desse jeito, como se as pessoas fossem descartáveis e eu nunca fosse me apegar, eu não…
— Isso não tem nada a ver comigo — se defendeu, aumentando o tom de voz também, mesmo que não fosse uma acusação. Ou talvez fosse. Ele nem sabia mais o que pensar, o gosto amargo em sua boca e o coração apertado indicavam que aquela noite não terminaria bem tanto quanto todo o resto e ele não estava mais pensando com tanta clareza assim. — É sobre você, sobre o que você ‘tá com medo de fazer e…
— E é minha escolha! — esbravejou, o interrompendo — Sou eu quem tem que fazer isso!
— Você não ‘tá fazendo! — ele devolveu no mesmo tom — A sua escolha é obvia, você sabe que é, e não ‘tá fazendo…
— Meu Deus, você nem ‘tá me ouvindo. — balançou a cabeça, desacreditada e se calou, a encarando como se esperasse algo. — Eu tenho uma coisa ou outra pra refletir antes de simplesmente aceitar um trabalho do outro lado do mundo, . Eu tenho uma vida aqui.
, caralho… — foi a vez de balançar a cabeça, soando tão desacreditado quanto ela um instante antes. Ou um pouco mais. — A sua vida não depende de ninguém, só de você. Você pode ser grande, pode ser tudo que sempre quis e…
— É melhor você ir embora, . — o cortou, dando as costas quando seu namorado lhe encarou desacreditado e abrindo a porta para que ele saísse. respirou fundo.

— Você não ‘tá entendendo nada e eu ‘tô cansada. — ela o interrompeu, fazendo que não com a cabeça. — Preciso que vá. Pra que eu possa responder aquele email. — a frase atingiu como um tapa na cara e ele desviou o olhar do seu, passando pela porta sem falar mais nada. fez um esforço penoso para não lhe encarar enquanto fechava a porta, só então, com a porta fechada e trancada entre eles, se permitindo chorar, tão cansada e tão frustrada. Foi ao chão e nem ligou pro quão clichê e ridícula era a cena, chorando sentada contra a porta de entrada de casa.

Noite atual

O sol começava a surgir preguiçoso no horizonte, mas a vista era belíssima mesmo assim. Lado a lado com na varanda de seu apartamento, podia ouvir até mesmo o som do vento. Ia sentir falta daquilo.
— Me desculpa. — murmurou, fazendo com que ela olhasse pelo canto do olho pra ele. Ele coçou a nuca, desconfortável. — Eu não cheguei a pedir. E sei que te magoei. Me desculpa.
— Me desculpa também. — respondeu, sustentando seu olhar quando ele a encarou com certa confusão. sorriu e balançou a cabeça.
— Águas passadas.
— Águas passadas. — ela concordou. Eles estavam cada um coberto por uma manta, novamente vestidos, envolvidos pelo momento que, muito lentamente, mas ainda assim iminente, escapava entre seus dedos. A última noite. — Vai ser bom. É o meu sonho, vai…
— Vai ser bom. — concordou, pousando uma mão em seu ombro e suspirou, puxando sua mão e ajustando-a sob seus ombros enquanto se aninhava nos braços dele. sorriu um pouco, beijando o topo de sua cabeça. — Você vai ficar bem, . — prometeu e ficou agradecida, ainda que ele não pudesse, de fato, garantir aquilo. Ele ter tanta certeza daquilo, no entanto, já significava muito.
— Vamos — ela corrigiu, sorrindo sob o olhar que lhe lançou em seguida. — Vamos ficar bem.
Eles iam, ainda que, no fim das contas, viessem a ser apenas aquela brisa deliciosa e passageira que, a cinco anos atrás, imaginaram ser. Ficariam bem.

FIM

Nota da Autora:
Uau… Uau! Gente, que desafio. Quem me conhece sabe que embora eu ame escrever e seja, tipo, minha coisa favorita da vida, eu corro de drama igual o diabo corre da cruz e, meu Deus, o desafio que eu me enfiei com essa música, puft! Juro que achei que não ia sair, pensei em desistir várias vezes, esperneei, gritei e chorei, mas AAAAAAAAAAAAAAAAA Nasceu!!!!!!!!!! Hahahaha
Muito feliz de ter feito parte desse especial e de fine line ter nascido assim, do jeitinho que nasceu. Ela tem playlist também, então, quem quiser ouvir, é só clicar.
Por favor, me digam o que acharam, tá? Beijo!!!!!!