Getaway Car

Getaway Car

Sinopse: Dois jovens, uma mala de dinheiro e um destino incerto. Parece um sonho, não? Até poderia ser, se não fosse pelo fato de que nada de bom começa num carro de fuga.
Gênero: Drama/Romance
Classificação: livre
Restrição: O nome de seus pais é fixo.
Beta: Sharpay Evans

Capítulos:

Prólogo

Com lágrimas nos olhos, separou alguns maços de dinheiro antes de fechar a mala mais uma vez.
Depois de tudo que o fizera passar, achava que lhe deixar alguns milhares de dólares seria o mínimo que poderia fazer. Daria para ele pegar um ônibus de volta para casa, além de sobrar o suficiente para compensá-lo pelas loucuras que o convencera a cometer nas últimas vinte e quatro horas, como um bônus.
A garota bufou uma risada sarcástica e sem humor ao se dar conta do que estava fazendo.
Quanta consideração de sua parte…
Mas ela não tinha tempo para se lamentar por sua sequência de péssimas decisões — que pareciam se tratar da definição perfeita da própria vida —, estava prestes a cometer mais uma e precisava partir logo, antes que mudasse de ideia.
Assim, sem pensar muito, revirou o quarto de motel, procurando desesperadamente por um pedaço de papel para que pudesse escrever um recado.
Sem sucesso.
Aquele lugar era tão decadente, que sequer cedia aos hóspedes a cortesia de um rolo de papel higiênico no banheiro. Estava mais que claro que as cinco estrelas acesas no letreiro logo abaixo do nome do estabelecimento, não passavam de uma bela de uma propaganda enganosa. Então, num impulso, ela arrancou de um dos gigantescos maços uma nota de cem dólares e logo tratou de despejar ali algumas palavras.
Certamente não faria falta, aquele valor era insignificante perto do montante de dinheiro que carregava naquela grande e pesada mala preta.
usou o dorso da mão para limpar as lágrimas que começavam a ofuscar sua visão. Nem sequer sentou-se na cadeira rasgada de couro para escrever o recado, não tinha tempo para isso.
Peguei o dinheiro e as chaves. Mas não se preocupe, deixei o suficiente para que você possa pagar pelo quarto, voltar para casa e viver confortável por um tempo. Eu sinto muito, mas não posso fazer isso. Não com você. Acho que no final das contas eles estavam certos, não é mesmo? Uma vez traidora, sempre traidora.”
Se amaldiçoou baixinho quando uma lágrima fujona acabou escapando de seus olhos, caindo sobre a nota e borrando a tinta azul que antes formava caprichosamente as palavras “sinto muito”. Embora não fosse exatamente fã de nenhum tipo de drama, achou que o borrão adicionara um certo charme para o bilhete; como se o fato de ter sido escrito numa nota de cem dólares não fosse o suficiente…
Então ela deixou a nota estrategicamente esticada sobre a cama do motel, apanhou as chaves de seu carro e partiu. Ou melhor: fugiu, pela segunda vez em menos de vinte e quatro horas.
Os intermináveis quilômetros de estrada diante de si, além da mala de dinheiro no banco de trás do carro e o vento batendo violentamente em seu rosto… tudo aquilo era como uma deliciosa metáfora para a sensação de liberdade que tomava conta de seu peito. E a medida que o ponteiro do velocímetro indicava um número cada vez mais alto e ela ia mais rapidamente em direção a um futuro incerto, chegou a mais triste e irreversível conclusão: na história de sua vida, cuja primeira parte acabava de ficar para trás, além do papel de protagonista, ela também representara, com uma maestria ímpar, o papel de maior vilã.

Parte 1: A festa

Nova York é a cidade com o maior número de milionários no mundo. E não há nada que milionários gostem de fazer mais — além de gastarem sua fortuna em coisas que iriam para o lixo em menos de um ano — do que eventos beneficentes, como se dessem a mínima para a sociedade e para os problemas de alguém que não fossem os próprios.
Eles não davam.
E aprendeu isso da pior forma possível: sentindo na própria pele.
O barulho que seus saltos caríssimos faziam ao ir de encontro com o chão do maior salão de festas de Manhattan soava como poder e dinheiro. Tudo nela remetia ao dinheiro. Desde a essência suave e marcante de seu perfume importado, até a forma de falar, própria de quem nasceu em berço de ouro e recebera a melhor educação que alguém podia pagar.
No entanto, apesar da imponência de sua presença, os olhares lançados em sua direção não eram muito respeitosos, tampouco acolhedores. Os olhares que ela recebia eram de puro desprezo, exatamente como merecia ser encarada uma garotinha mimada, filha de papai, que gosta de bancar a rebelde de vez em quando. Era isso que a alta sociedade de Manhattan pensava da filha do renomado casal ; e faziam questão de deixar isso muito claro à medida que passava por eles naquela festa, organizada anualmente pela própria mãe para arrecadar fundos para uma ONG que, se a perguntassem, Felicity sequer saberia responder qual.
A garota estava parada no meio do salão, segurando sua taça de champanhe, certamente parecendo tão deslocada quanto se sentia. Mas ela não podia se importar menos com aquilo, já estava acostumada com os olhares julgadores sobre si cem por cento do tempo. Na verdade, chegava até a pensar que isso tornava as coisas mais divertidas, afinal, apenas significava que mais pessoas ficariam sabendo quando ela fizesse sua próxima cena, com o único intuito de constranger seus genitores. O que, no caso, aconteceria naquele momento.
não conteve um sorriso quando viu a coisa mais interessante daquele baile descer as escadas do salão, a passos desajeitados porém muitíssimo tensos, como se soubesse que aquele não era o seu lugar. A coisa em questão era, na verdade, uma pessoa, um garoto, que, além de ter uma beleza de tirar o fôlego, também era um dos maiores motivos do constante estresse do casal . E, aos olhos da jovem e insubordinada , aquilo só tornava-o ainda mais fascinante.
Ao descer o último degrau, ajeitou sua gravata borboleta num movimento nervoso. Não importa quantas vezes acompanhasse em eventos como aquele, ele jamais se sentiria alguma coisa além de inadequado e extremamente desconfortável. Qualquer um com o olhar mais atento poderia constatar que ele não pertencia ali; a camisa levemente amassada, fora das calças era apenas um dos indicadores disso.
. — Disse para o segurança corpulento que segurava uma prancheta, guardando a entrada.
O homem tomou alguns segundos para procurar o nome do garoto na extensa lista de convidados, apenas para constatar:
— Não tem nenhum aqui.
O semblante dele se endureceu. Se antes já estava tenso, agora aquele sentimento havia se potencializado enésimas vezes.
— Deve ser um engano… — Começou, tentando argumentar.
Mas não havia nada que ele pudesse dizer, sabia perfeitamente que se seu nome não estava na lista, era porque não fora convidado. Não se tratava de um engano.
E quando o segurança estava prestes a enxotá-lo dali, e se dar por vencido, apareceu.
Sua salvadora, enviada para solucionar seus problemas… Ou para criar mais centenas deles.
— O que está acontecendo aqui?
— O nome dele não está na lista. — O homem respondeu, com os ombros levemente mais baixos que segundos antes. Parecia intimidado pela presença da garota, que arqueou as sobrancelhas e abriu um semi-sorriso.
— Você sabe quem eu sou?
Ao contrário dos outros de sua espécie, a garota odiava ser obrigada a dar a famosa “carteirada”, mas isso não significava, no entanto, que ela não o faria caso se visse sem outra alternativa.
, querida, pensei que tivesse deixado claro que não era para você convidar mais nenhum amigo. — Para o desespero de , Frank surgiu logo atrás dela, com uma expressão dura, mas nem um pouco surpresa.
Conhecia bem sua filha.
— Papai, quantas vezes tenho que te dizer que ele é meu namorado? — Bateu com o salto no chão, como a perfeita garota mimada que era; virando-se logo em seguida, passando pelo segurança. — Vem, . — E, finalmente, puxou o garoto para dentro da festa.
Em sinal de respeito, ele cumprimentou o pai de sua dita namorada com um breve aceno de cabeça. Não precisava ser nenhum Einstein para perceber que Frank não era exatamente seu fã, mas nem por isso, no entanto, deixava de tentar agradar o bilionário — mesmo suspeitando que isso apenas aconteceria caso ficasse longe de , coisa que ele não aceitaria fazer nem se o empresário lhe oferecesse todo dinheiro que havia em sua conta bancária.
A garota guiou-o pela mão até o bar mais próximo. Com apenas dezoito anos, estavam três anos de distância da idade permitida para o consumo de álcool, mas isso certamente não era um problema para os jovens da alta sociedade de Nova York. Ela pediu para o barman uma garrafa de cerveja e logo entregou a ele.
— Você está linda. — começou e, embora suas palavras fossem carinhosas, o tom que usou não era nada além de impassível.
Percebendo isso, soltou um suspiro.
— O que foi?
— Então nós somos namorados agora? — Ele perguntou levando a garrafa gelada aos lábios, dando o primeiro gole.
— Algum problema com isso? — A garota arqueou as sobrancelhas. — Pensei que você gostasse de mim…
deixou escapar uma risada sem humor.
— Você se acha muito esperta, não é, ? — Com raiva, ele bateu a garrafa no balcão do bar, produzindo um baque surdo que fez com que a garota pulasse de susto. — Você acha que eu não sei que você só está fazendo isso para provocar seus pais?
A garota engoliu em seco, repentinamente amedrontada por aquele confronto. Não sabia o que dizer, não queria mentir…
estava certo, mesmo que isso não significasse, no entanto, que ela não sentisse um carinho enorme por ele.
— Você está errado, . — Antes mesmo que pudesse se dar conta, as mentiras já haviam escapado de seus lábios. — Meus pais não tem absolutamente nada a ver com o que eu sinto por você.
O garoto assentiu, mesmo que de contragosto.
era famosa por sua volatilidade, além de suas mentiras. E percebendo que não fora muito convincente, ela deixou de lado sua taça de champanhe já vazia e pegou-o pelos ombros.
— Isso é só a sua insegurança falando. — Começou o encarando nos olhos e fez uma pausa para morder o lábio inferior. — E, honestamente, me entristece saber que você pensa isso de mim.
Aquelas palavras, embora muitíssimo manipuladoras, não surtiram efeito algum no garoto, que estava ocupado demais se perdendo nas íris dos olhos dela.
Havia algo naquele olhar, uma espécie de fogo, um brilho voraz de quem não pode ser domado.
E sabe perfeitamente disso.
— Com o desprezo deles eu consigo lidar, não poderia ligar menos para o que essa gente pensa de mim… Mas com você é diferente.
A verdade é que sabia muito bem que estava sendo usado. poderia até gostar dele, mas estava longe de sentir-se da forma como dizia se sentir, estava manipulando-o. Ele tinha a mais plena consciência disso, mas, céus, estava apaixonado demais para dar a mínima.
A garota tinha-o na palma das mãos, e, como o tolo que era, estava perfeitamente confortável com isso. O problema seria quando ela resolvesse que não precisava mais dele e, assim, fechasse as mãos, esmagando-o, juntamente de seu ego e qualquer pingo de auto respeito que lhe restara.
Ele soltou um suspiro, ainda encarando-a nos olhos.
— Eu não te desprezo, , você sabe que eu nunca seria capaz disso.
O sorriso que a garota abriu fez com que ele se esquecesse por um segundo de coisas fundamentais, como o próprio nome e até de como se respira.
Então, querendo adiar o máximo possível o confronto com a verdade que pairava diante de si, mudou de assunto e eles engataram em uma conversa trivial sobre a decoração da festa; mas tiveram que se interromper ao não poder deixar de escutar os cochichos vindo de um grupo de jovens não muito longe dali.
— Fiquei sabendo que ele é pobre… — Uma garota alta, de cabelos loiros chanel, falou, encarando-os com desprezo.
— Ai, será? — Outra torceu seu narizinho perfeitamente empinado por cirurgia plástica, certamente um presente do papai.
— Claro que sim, dá só uma olhada nesse smoking de segunda mão… Ela é muito desesperada por atenção mesmo!
— Quanto tempo será que vai durar esse casinho, hein? — Uma delas perguntou, sem sequer fazer questão de disfarçar seu olhar em direção do casal que, àquela altura, apenas ficaram em silêncio, tentando escutar a conversa.
— Provavelmente não muito tempo, já que ela traiu o último namorado com ele. — A loira voltou a dizer. — E vocês sabem o que dizem: uma vez traidora sempre traidora.
encarou cada centímetro do rosto de , analisando suas reações diante daquele infortúnio. Já estava acostumada com aquela gente comentando cada passo que dava, mas odiava o fato de que, por conta dela, ele também tinha que lidar com essa merda.
O garoto tentou fingir não se abalar, mas os ombros ligeiramente mais baixos acabaram o traindo. Não sabia o que o incomodava mais, o preconceito com sua situação financeira, ou os comentários baixíssimos que fizeram de . Ele sabia que a reputação da garota estava longe de ser invejável e até mesmo entendia que, de certo modo, ela fizera por merecer… Mas era infinitamente melhor do que aquela gente poderia sequer imaginar, e ele só queria que as pessoas se dessem conta disso.
Quanta ingenuidade de sua parte.
— Eu sinto muito. — Foi tudo que ela conseguira dizer.
Às vezes, queria ser o tipo de garota determinada, durona e que não leva desaforo; como queria ir até lá e colocar aqueles projetos de Regina George em seu devido lugar… mas não era, estava longe de ser.
se acostumara tanto com as pessoas falando merda de sua vida pela suas costas, como se fosse apenas uma garota mimada e sem sentimentos, que também acabara se conformando. E hoje, após tudo que lhe acontecera, alguém poderia muito bem jogar-lhe uma pedra na cabeça, que ela apenas sairia andando, em silêncio, mesmo que jamais de cabeça baixa.
Acabara se convencendo — até demais — de que algumas coisas não valiam seu tempo e, assim, adquiriu o péssimo hábito de não se defender.
Antes de dizer qualquer coisa, levou as mãos trêmulas até o colarinho, e tentou, desesperadamente, afrouxar a gravata que de repente parecia querer enforcá-lo.
Geralmente, ele costumava ser um cara bem confiante, no entanto, aquilo se esvaia no momento em que entrava no que costumava chamar de “mundo de ”. Era extremamente difícil manter-se seguro de si quando todos na festa tinham a mais plena convicção de sua inferioridade. Ele era apenas um garoto pobre e insignificante perto daquela gente, ou melhor, não era ninguém.
— Você está bem? — perguntou, parecendo genuinamente preocupada.
Se não estivesse tendo uma crise de ansiedade naquele mesmo momento, provavelmente pararia para admirar como a garota ficava uma gracinha com aquela ruga de preocupação formada na testa.
— Eu só… — Fez uma pausa para respirar fundo. — preciso ir ao banheiro.
Dito isso, saiu dali a passos pesados, andando apressadamente em direção ao lado oposto do salão.
E assim, lá estava , mais uma vez abandonada, sozinha na festa beneficente dada pela própria família.
No entanto, aquele momento de solidão não durou por muito tempo. Se passaram pouquíssimos minutos até que sua mãe brotou diante dela, parecendo aborrecida até demais para o bom funcionamento de seu tratamento rejuvenescedor para a pele.
— Você não consegue, não é? Ficar um dia sequer sem querer estragar tudo que eu batalhei para conquistar!
inclinou levemente a cabeça e arqueou as sobrancelhas, como se não fizesse ideia do que aquela mulher histérica a sua frente falava.
— Perdão?
— Não se faça de desentendida, sua garota insolente!
Ela foi obrigada a morder o canto da boca, contendo o riso que queria escapar de sua garganta. Sentia um prazer inexplicável em ver a mãe daquela forma.
— Seja lá o que você pensa que eu fiz, não fui eu.
A pele artificialmente bronzeada de Felicity assumiu todos os tons possíveis de vermelho em uma fração de segundo.
chegava a achar engraçado como seus genitores se aborreciam tão facilmente com coisas tão insignificantes.
Qual é o problema de ela ter trazido ali, afinal?
Certamente a última coisa que o casal queria era que seus amigos ricos e pomposos vissem que sua filha saia com um garoto cuja renda familiar anual não chegava nem perto do que faziam em apenas um mês.
— Você tem sorte que estamos no meio de todas essas pessoas, senão você ia ver só!
— Qual é o problema, mamãe? — inclinou a cabeça e forçou a voz, num falso tom inocente. — Não quer que seus amigos vejam o quão disfuncional é a nossa família?
— Ora, sua…
Mas antes que Felicity pudesse ter mais um de seus acessos silenciosos de raiva, Frank apareceu ali, acompanhado de um outro homem que não reconheceu.
— Aqui está minha bela família! — Havia um certo tom de repreensão em sua voz, como se percebesse o clima pesado entre as duas e quisesse interromper seja lá o que acontecia ali.
já escutara aquele tom mais vezes do que podia contar, era o preferido do empresário ao se dirigir à esposa e filha, usando-o sempre que achava que tivessem extrapolado nas palavras.
Afinal, para ele, nada de bom jamais acontecia quando mulheres falam demais.
Felicity logo engoliu em seco, ajeitou a postura e forçou um sorriso muitíssimo convincente, era especialista nisso.
A garota fez o mesmo, sendo muito menos bem sucedida do que sua mãe. Sorriu forçado para o desconhecido, mas não conseguiu, no entanto, disfarçar a os olhos ansiosos. Sentia-se sempre tão mal quando Felicity agia daquela forma, como se fosse um enfeite para o mundo, tendo sempre que estar ali, impecável e bela. Tudo que ela queria é que sua mãe entendesse que ela podia sim ser ouvida além de apenas vista, que também podia e devia ter opinião sobre coisas que não fossem roupas e enfeites de festa.
Mas, felizmente, aquilo passou despercebido pelo desconhecido.
, querida, eu gostaria de te apresentar Richard Shaw, — Seu pai começou e arqueou as sobrancelhas ao se dar conta de que de fato não fazia ideia de quem aquele homem era. Felicity, ao seu lado, pareceu ficar muitíssimo radiante ao escutar aquele nome. — ele é o reitor de admissões do curso de direito de Stanford.
Oh.
O sorriso morreu no rosto da garota assim que as palavras deixaram a boca de Frank.
O homem estendeu sua mão em um cumprimento, mas o aperto de foi trêmulo e incerto.
— Eu o mostrei seu currículo, e ele ficou muito impressionado com as atividades extra curriculares.
— Sim, é verdade senhorita . Devo dizer que foi muitíssimo admirável o que você fez por aqueles idosos, meus parabéns!
A garota sorriu forçado mais uma vez, como se aquele fosse o único que os músculos de seu rosto fossem capaz de formar.
Não queria que ninguém a parabenizasse por aquilo. O trabalho voluntário que fizera numa casa de repouso, ajudando entreter e preparar refeições para os idosos, era algo que ela sequer queria que entrasse em seu currículo. Ao contrário da opinião pública, fizera aquilo com o tanto de genuinidade que lhe era possível. Era uma das únicas coisas em sua vida que havia feito por prazer, por si mesma e, principalmente, pelo próximo. Não era para ganhar créditos com faculdade alguma, muito menos para impressionar seus pais…
Ela tinha um amor inexplicável por gente de idade e fazia aquilo genuinamente para ajudar.
— Seu pai estava me contando como sempre foi seu sonho em estudar direito e que você gostaria de ir para Stanford. — O homem começou a dizer e não conseguiu evitar que suas sobrancelhas se arqueassem em surpresa.
— Ele estava, é? — Ela respondeu e conteve uma careta ao sentir o beliscão de sua mãe na base de suas costas, a repreendendo pelo atrevimento.
Frank era um homem muitíssimo influente e tinha contatos em toda a América — além de em vários outros lugares ao redor do mundo também —, aquilo não era surpresa alguma.
O problema é que que nunca quisera estudar direito, muito menos em Stanford. Para ser sincera, ela não fazia ideia do que queria para seu futuro… mas sabia perfeitamente o que não queria: isso.
Stanford, California… aquela era a forma que seus pais encontraram de mandá-la para longe, o máximo possível deles, de Nova York e, principalmente, de .
— Se você aplicar ainda esse ano, me certificarei da sua admissão; será uma honra ter uma aluna como você em nossa instituição.
Felicity bateu uma palma animada e riu, como se aquela fosse a melhor notícia que já recebera na vida.
— Muito obrigada, senhor Shaw. Isso é incrível, não é, ? — Ela se virou para a filha, que hesitou por um segundo.
Não, era o que a garota queria falar, ou melhor, gritar; em plenos pulmões e depois sair correndo, deixando para trás aquela merda de lugar e a merda daquelas pessoas.
Estava tão farta de tudo aquilo, de seus pais decidindo seu futuro por ela, querendo aprisioná-la numa caixa, obrigando-a a todo custo a ser alguém que não era…
entendia o porquê seus genitores faziam isso, entendia porque eles não a entendiam. Mas ela simplesmente não podia ser alguém que não era.
Não podia mais fazer isso.
E, de repente, a tristeza lhe atingiu como um tiro no peito. Sentia-se como se tivesse simplesmente perdido a capacidade de respirar. Estava afogando por dentro.
Com lágrima nos olhos e angústia dentro de si, apenas assentiu, forçando mais um de seus sorrisos nada convincentes.
Em questão de segundos, ela tomara uma decisão.
— É de fato muito incrível mesmo. Vai ser uma honra poder estudar na sua universidade, senhor Shaw. — apertou novamente a mão do homem, dessa vez com muito mais firmeza que a primeira. — Agora, se me dão licença, eu preciso usar o toalete.
Se despediu com um aceno de cabeça e girou nos calcanhares, saindo dali a passos apressados.
O sorriso morreu em seu rosto no momento em que ela virara as costas.
tentou desleixadamente enfiar a camisa de botões nas calças, ao sair do banheiro. Depois de se encarar por alguns segundos no espelho, ele apenas mudou de ideia e desfez aquilo, deixando o tecido todo amassado no processo.
Não importa o quão duro ele tentasse, jamais pareceria como se pertencesse àquele lugar…
Já infinitamente mais calmo do que minutos antes, ele deixou o banheiro, disposto a encontrar . Mas, invés disso, foi ela quem o encontrou, com os cabelos desgrenhados e parecendo muitíssimo fora de si.
— O que aconteceu? — perguntou, segurando-a pelos ombros.
No primeiro instante, a garota não respondeu. Apenas fungou e engoliu em seco, tentando levar o choro junto da saliva que descia pela sua garganta.
? — Ele voltou a chamar.
— Você lembra daquela conversa que tivemos semana passada?
— Você pode ser mais específica? — Perguntou sem fazer ideia aonde ela queria chegar.
bufou, sem paciência para passar por aquilo naquele momento.
Aquela conversa. Sobre sair daqui.
a soltou em um movimento brusco, em claro sinal de surpresa.
Aquela conversa… Ah, sim, ele se lembrava muito bem.
Não apenas se lembrava, como também era a única coisa na qual conseguia pensar naqueles últimos dias.
Flashback on
Era um fim de tarde sábado, e ambos estavam jogados na cama cama king size de , envoltos pelo cashmere de suas cobertas importadas.
, como de costume, havia invadido o quarto da garota pela janela de seu quarto, escalando uma das árvores do majestoso quintal da família . Não podia ser visto ali, seria expulso da maneira mais humilhante possível caso os genitores de descobrissem o que eles costumavam a fazer em tardes como aquela.
Ela, deitada com os pés para cima, apoiados na cabeceira da cama, ergueu a cabeça para poder encarar , que encontrava-se do lado oposto do colchão.
— Você não sente que às vezes essa cidade te sufoca?
O garoto se ajeitou na cama, com as sobrancelhas franzidas diante da espontaneidade daquela pergunta.
— Do que está falando? Pensei que achasse Nova York a melhor cidade do mundo…
suspirou, sentando-se com os ombros baixos, parecia desanimada.
— Mas eu acho, quer dizer, às vezes…
não respondeu, apenas continuou a encarar a garota, enquanto ela parecia juntar as palavras certas em sua cabeça.
— É só que… — Suspirou. — parece que eu vivo em uma bolha e, merda, eu já tenho dezoito anos! Às vezes sinto que se eu não estourar essa bolha agora, eu nunca mais vou conseguir fazer isso; estarei fadada a viver a vidinha perfeita que meus pais planejaram para mim, ir para uma faculdade da Ivy League, conhecer um cara rico e sem graça, me casar, ter filhos… — Uma súbita onda de realização pareceu atravessar o rosto dela. — Meu Deus, eu vou ser como a minha mãe!
, apesar de entender aquelas palavras, não podia dizer que entendia o sentimento. Nunca se sentira assim, nunca tivera alguém planejando seu futuro, sufocando-o, esperando que ele seguisse meticulosamente cada passo previamente pensado.
Sua mãe, uma mulher solteira e trabalhadora, dava duríssimo para sustentar a casa e ainda poder pagar para o filho uma educação da melhor qualidade em Nova York, não tinha tempo para se preocupar com o que o garoto deveria ser. Nem queria. Tinha fé o suficiente para saber que, seja lá o que escolhesse, seria grande.
Ele, por sua vez, era grato pela mulher e tudo que ela fazia, embora temesse muitíssimo não ter metade da genialidade que sua genitora esperava. Quer dizer, não se sentia grande e muito menos brilhante… Afinal, como poderia? Estava rendido, de quatro por uma garota que era boa demais, tendo a plena consciência de que estava apenas sendo manipulado.
Por mais que odiasse o sentimento, tentasse suprir, esmagar de todas as maneiras possíveis, não conseguia se livrar da sensação de que seria sua ruína.
— E o que exatamente você pretende fazer para escapar dessa bolha? — questionou com um tom divertido.
Mas, embora tivesse seu típico sorriso travesso estampado nos lábios, não estava brincando, estava falando terrivelmente sério.
— Fugir…
esperou por uma risada no final da frase, um tom brincalhão, ou qualquer outro indício de que aquilo não passava de mais uma das brincadeiras da garota…
Mas esse indício não veio.
— Eu estou falando sério. — continuou como se, de repente, pudesse ler a mente do garoto, que bufou uma risada nervosa.

— Qual é, ? Vai me falar que você nunca teve vontade de dar o fora daqui?
Sua resposta naturalmente seria não, contudo, o brilho selvagem nos olhos dela fez com que ele repensasse se aquilo de fato era verdade.
— Você está ficando maluca. — riu, embora, no fundo, realmente temesse pela saúde mental da garota. — Para onde nós iríamos? E com que dinheiro? Nós não podemos simplesmente pegar o dinheiro de seus pais e fugir!
— E por que não?
! — Naquele momento, já não encarava mais aquilo como uma brincadeira e sim como o grande absurdo que era.
— Meu pai tem aqui em casa um cofre cheio de dinheiro que ele ganha com os negócios ilícitos dele e não pode colocar no banco. — continuou falando como se tudo em não indicasse o quão contra ele era àquela ideia. — Ele não sabe que eu sei disso, mas…
, você não pode roubar dinheiro dos seus pais! — Naquele momento, falava clara e pausadamente, como se explicasse para uma garotinha de cinco anos o porquê não se pode pegar o brinquedo de outra criança no parquinho.
— É dinheiro sujo, , que ele ganhou passando outras pessoas para trás; não pertence a ele.
— E pertence a nós?
— Não, mas pelo menos nós faríamos bom uso dele e ainda estaríamos fazendo meu pai pagar por tudo que fez…
pensou por um instante.
Aquela ideia era tão absurda que ele chegava a sentir-se mal apenas por cogitá-la. Mas parecia tão empolgada com a possibilidade de fugir e tão cheia de raiva, com desejo de fazer seus pais pagarem por seus pecados, que ele não conseguia evitar sentir um bolo formando-se em seu estômago, como se ansiasse pela realização daquele plano.
— E você lá sabe como acessar esse tal cofre? — perguntou, mais por curiosidade do que qualquer outra coisa.
— Não, ainda… — Ela respondeu e, por algum motivo, a negativa trouxe um certo alívio para o garoto.
Enquanto não pudesse acessar o cofre, eles não iriam a lugar algum…
Flashback off
, nós já conversamos sobre isso! — começou, tentando não soar tão exaltado. — Nós não vamos roubar dinheiro dos seus pais e, além do mais, você nem tem acesso ao cofre.
Shiiiu, dá para falar mais baixo? Inferno! — A garota o puxou pelo braço até um canto onde pudessem conversar em paz, sem ter as centenas de amiguinhos de seus pais lhe bisbilhotando.
Visivelmente nervoso, ajeitou seu terno de segunda mão no corpo, enquanto olhava para os lados, tentando ver se alguém os observava.
— E se eu te disser que eu descobri como acessar o cofre? — mordeu o lábio inferior, encarando-o com um olhar de pura expectativa.
— Como? — Apenas pelo tom, podia-se perceber que não estava muito contente com aquela notícia.
— Uma semana inteira observando as câmeras de segurança e descobri onde meu pai guarda a combinação que muda a cada dois dias…
explicava o que tinha descoberto nos últimos dias, mas o garoto estava longe de escutar, absorto demais nos próprios pensamentos para prestar atenção em uma palavra sequer.
?
, nós não podemos roubar seus pais só porque você acredita que eles não são boas pessoas! — Ele explodiu assim que voltou a si.
deu um passo para trás, assustada. Não estava acostumada a ver o garoto reagir daquela maneira.
— Eles me tratam como lixo; tratam você como lixo! Como você pode defender eles?
suspirou mais pesado dessa vez, aquelas palavras entrando em sua mente e lhe confundindo os pensamentos. Embora fosse um absurdo pensar daquela forma, não deixava de ser verdade.
— Isso não é um bom motivo para roubar as pessoas, .
Roubar…
Está aí uma palavra muito forte, ou, pelo menos, forte demais para definir o que ela pretendia fazer.
tinha duas formas de enxergar aquilo, ambas, é claro, sendo versões onde ela não era uma vilã egoísta e sim a mocinha; e mocinhas, obviamente, não roubam a fortuna de seus genitores.
A primeira das versões era a que dizia que aquele dinheiro era de ninguém menos que seus pais, fato. E se o dinheiro pertencia a seus pais, consequentemente pertencia a ela também, certo?
Certo.
— Dá para você parar com isso? Eu não estou roubando ninguém, esse dinheiro também é meu.
soltou uma risada debochada.
— Ah, sério? E o que exatamente você fez para ganhar ele?
abriu um sorriso presunçoso, como se o garoto estivesse acabado de dizer exatamente o que ela esperava que dissesse.
— Certamente eu não roubei ninguém.
Aí está a segunda, e na opinião da garota, melhor versão da história.
A fortuna era ilícita, conquistada através de meios tão sujos que ela nem sequer podia começar a imaginar. Pessoas se feriram para que aquele dinheiro acabasse nas mãos de Frank , e, assim, nada mais justo que alguém tomar isso dele, assim como fora tomado de outros que certamente não possuíam nove dígitos na conta bancária.
Tal ponto de vista transformava numa espécie de justiceira, uma Robin Hood com interesses próprios e, por isso, era o favorito dela.
Mas, mesmo explicando tudo isso para , o garoto não parecia cem por cento convencido.
— Você acha que é errado, tudo bem, já entendi… — Ergueu as mãos na altura do peito, como quem se rende, e ele soltou um suspiro aliviado, acreditando, por um segundo, que conseguira fazê-la mudar de ideia.
Claramente não a conhecia tão bem quanto pensava.
E tal realização atingiu-lhe em cheio o peito no momento em que girou nos calcanhares e ensaiou deixá-lo ali, sozinho no meio de todos aqueles lobos, uma verdadeira alcateia de ricos miseráveis.
Mas é claro que ela não iria simplesmente sair andando, a garota era espetaculosa demais para isso. Então simplesmente parou e encarou por cima do ombro.
Mais uma vez ele encontrou-se embasbacado pela beleza e elegância de . Ela era uma obra de arte, angelical como uma pintura renascentista.
Ao encará-la assim, por alguns segundos, o garoto até chegou a esquecer-se de quem a garota realmente era e, acima de tudo, o que estava propondo.
A selvageria de sua alma e a graça de sua beleza não eram apenas contrastantes, mas uma completa antítese, o que tornava o paradoxo ambulante e delicioso que realmente era e, infelizmente, pouquíssimos reconheciam.
— Se você quiser se juntar a mim, ótimo. Mas se não, é realmente uma pena, porque eu vou fazer isso com ou sem você. — esperou um sorrisinho, um tom divertido, ou qualquer outra coisa que mostrasse que a ela não estava falando cem por cento sério.
Mas nada aconteceu. O único sinal que pode captar falava exatamente o contrário do que ele esperava ouvir, o brilho selvagem nos olhos dela apenas deixaram ainda mais claro a determinação da garota.
E então, sem deixar transparecer seu afobamento, apenas deu o fora.
Cada baque que seu salto fazia ao ir de encontro ao chão, apesar de abafado pela música clássica que repercutia alta pelo lugar, soava quase como um desabafo. Os passos pesados eram literalmente a externação do cansaço e amargura que ela sentia apenas ao olhar para aquelas pessoas de gravata preta e mentiras brancas.
Não podia ficar mais um segundo sequer naquele lugar.
Assim, segurando as lágrimas pela segunda vez naquela noite, saiu do salão de festas e, ao ter a brisa gelada da noite nova iorquina indo de encontro ao seu corpo, ela sentiu como se finalmente pudesse respirar.
E então era isso… Ela iria fugir e seu plano estava prestes a começar.
Por um lado, estava aliviada por estar fazendo isso sozinha. Queria recomeçar, ir para algum lugar onde ninguém sabia seu nome, onde a persona não passava de uma memória de dias menos felizes. Mas por outro, sentia-se mais só do que nunca.
Ignorando esse pensamento, não demorou muito para que ela avistasse o motorista de sua família parado há poucos metros dali, apenas esperando o momento em que pudesse se fazer útil. Então sinalizou de longe para ele, que prontamente entendeu o comando, e logo entrou no carro.
Contudo, antes que pudesse sequer fechar a porta, escutou uma voz conhecida chamá-la de longe.
! — Era .
Ele, já tendo desistido de tentar parecer apresentável, corria em direção da garota, completamente esbaforido, com a gravata frouxa demais para os bons costumes e a camisa disposta amassada e desleixadamente fora da calça.
teve que apertar os olhos para enxergar direito e ter certeza de que aquilo não passava de uma miragem.
Quando o garoto finalmente se aproximou, ela sorriu. Parte de si estando genuinamente feliz por ele ter mudado de ideia, embora outra parte, provavelmente a mais racional, explodiu em receio e hesitação.
— O que te fez mudar de ideia? — Foi a única coisa que ela conseguiu pensar em dizer.
balançou a cabeça como se quisesse espantar um pensamento inoportuno e então abriu um sorriso capaz de rasgar suas bochechas.
— Você, é sempre você.
Foi a vez dela de sorrir — apesar de muito mais discreto e receoso do que o dele —, antes de se arrastar pelo banco de trás da limusine, para que pudesse entrar.
O caminho do salão até a rua da mansão no Upper East Side foi mortalmente silencioso. não disse uma palavra sequer, determinada a apenas compartilhar com o garoto o seu plano quando estivesse longe dos ouvidos atentos do motorista, que, para o desespero da garota, era um fiel “servo” de sua mãe.
Ela perdera as contas de quantas vezes se metera em confusão por compartilhar demais no carro da família. Seja lá o que fosse dito ali, Felicity sempre ficava sabendo.

Parte 2: A fuga

deveria saber que nada de bom começa num carro de fuga.
Após trocar de roupas e apanhar uma grande mala preta que guardava no fundo de seu armário — para sempre que precisava sair em uma missão ninja, ou até mesmo fugir de seus pais —, ela driblou o segurança que guardava o porão da mansão e, consequentemente o cofre.
Ele provavelmente sequer tinha consciência da magnitude daquilo que deveria proteger; era um homem grande, embora tivesse obviamente alguns neurônios a menos do que a média da população.
Por sua vez, estava parado do lado de fora da mansão, no banco do motorista de um dos carros de Frank . Porque não bastava apenas roubar seu dinheiro, eles também tinham que pegar a Mercedes.
Ele batucava o dedo no volante, ansiando pelo momento em que atravessaria o portão de ferro da casa, carregando uma mala de dinheiro e eles poderiam finalmente acabar com aquilo e dar o fora dali.
No entanto, parecia que as leis da física referentes ao tempo e espaço tinham sido abolidas naquele instante. Quanto mais esperava, mais distante parecia estar do segundo em que finalmente arrancaria com o carro e fugiria daquela cidade com no banco do passageiro.
O motor já estava ligado e a marcha engatada e, naqueles instantes dolorosos de espera, o garoto não pode deixar de pensar que talvez ela tivesse lhe dado a função de piloto de fuga apenas para torturá-lo.
Acontece que, observar seu pai por dias abrindo e fechando o cofre não lhe deu todas as informações necessárias para realizar aquele procedimento na surdina.
abriu o cofre usando o código que encontrara escondido dentro da moldura de uma das obras de arte caríssimas que ficava ali no porão e, até então, tudo parecia funcionar como o esperado.
A merda aconteceu quando, ao abaixar-se para apanhar a maior quantidade de maços de dinheiro que suas mãos pequenas conseguiam, uma sirene começou a soar de forma ensurdecedora.
, desesperada e sem saber da onde vinha aquele barulho e nem o que tinha o ativado, apenas continuou apanhando o dinheiro, mais rapidamente que podia.
Foi quando a mala estava quase cheia que o tal do segurança entrou na sala. Ele tomou alguns segundos para encarar a garota, como se tentasse decifrar o que ela fazia.
E ela, por sua vez, o encarou de volta por poucos instantes, completamente congelada.
— Senhorita , o que você está fazendo? — O brutamontes falou desconfiada e pausadamente, quase como se estivesse em câmera lenta. — Tenho ordens diretas do seu pai para não deixar ninguém tocar nesse cofre.
abriu a boca, seu cérebro tentando processar uma desculpa convincente o suficiente para estar pegando todo o dinheiro de seu pai daquela forma tão suspeita, mas nada lhe ocorreu.
A ausência de palavras pareceu ativar o instinto de sobrevivência que parecia dormir em sua mente e, então, ela fechou a mala com rapidez e saiu correndo.
Invés de usar a escada — a mesma pela qual o segurança acessara o porão instantes antes —, saiu pela porta que dava diretamente para o lado de fora da mansão; e correu como nunca havia corrido antes.
Foi quando ela tropeçou numa pedra no meio do caminho que percebeu que o homem ainda a seguia; e não demorou muito para que ela se desse conta de que ele havia chamado reforços.
se recuperou rapidamente, levantou do chão, jogou mais uma vez a mala por cima de seus ombros e voltou a correr.
Seus pulmões queimavam e os joelhos ardiam por conta da queda; mas ela não podia parar.
— Abre o portão, abre a merda do portão! — Gritou assim que sentado ansiosamente na Mercedes de seu pai entrou no seu campo de visão.
O garoto obedeceu o comando prontamente e logo em seguida ajeitou a postura no banco do motorista, repentinamente nervoso ao ver que a garota estava sendo seguida por três seguranças.
Merda.
O plano não era esse!
O fato do carro ser do modelo conversível ajudou grandemente a pular nada casualmente no banco do passageiro.
Ela jogou a mala no banco de trás e colocou o cinto, enquanto gritava repetidamente:
Vai, vai, vai!
E assim, arrancou com o carro. De zero a cem quilómetros em questão de segundos.
A sensação de liberdade que o vento na cara proporcionou à , foi indescritível. Seus fios batiam violentamente contra seu rosto e, de repente, tudo que ela queria era gritar, gritar em plenos pulmões que finalmente, pela primeira vez em sua vida, ela se sentia livre, se sentia bem.
Com os braços erguidos ao céu, a garota apenas queria deixar aquela sensação maravilhosa tomar conta de si, no entanto, parecia estar ansioso demais para permitir que aquilo acontecesse.
— O que foi que aconteceu? Por que o alarme disparou? — Ele parecia em dúvida se deveria encarar a estrada, ou a garota ao seu lado. — Pensei que você tinha dito que sabia como acessar o cofre!
se limitou a revirar os olhos.
— Eu peguei o dinheiro, não peguei? Agora relaxa, sério.
Mas não parecia estar muito disposto a “relaxar”.
— Você acha que seus pais vão chamar a polícia?
— Para mim? — Ela bufou uma risada debochada. — Jamais. Eles não seriam capazes de aguentar o escândalo.
Silêncio foi a única coisa que sucedeu àquela fala por alguns instantes. O garoto parecia absorto demais em milhares de preocupações.
— E para mim?
engoliu em seco.
Ah sim, o casal seria mais do que capaz de denunciar o garoto pobre, colocando a culpa toda nele. Provavelmente até mesmo o acusariam de ter sequestrado sua meiga e inocente garotinha.
Rá, só podia ser piada.
A falta de palavras da parte da garota pareceu servir o suficiente como resposta para a mente paranoica de . Assim, ele soltou uma risada desacreditada.
— Eles já devem estar agora mesmo atrás da gente. — Tal fala serviu quase como uma premonição, já que naquele mesmo instante o telefone de explodiu em centenas de mensagens e ligações de seus genitores.
Sem querer se preocupar com isso, a garota apenas atirou o aparelho para fora do carro, se livrando dele. Era uma forma de evitar ser rastreada, além de poupar o estresse.
— Se eu for parar na cadeia…
soltou um suspiro pesado, sem se preocupar em parecer rude.
Ela tinha acabado de cometer a maior loucura de sua vida, estava fugindo, finalmente se libertando da bolha que lhe aprisionara por dezoito anos… a última coisa que precisava naquele momento era de um bebê chorão enchendo sua mente de aborrecimentos.
De repente, começou a questionar-se se ter chamado para aquela aventura realmente fora a coisa certa a se fazer.
— Dá para parar? — Ela explodiu, soando alguns tons mais alto do que o habitual. — Eu estou me esforçando muito aqui para não pensar no que pode dar errado e focar no fato de que eu finalmente estou livre. Será que você pode me ajudar com isso? — Disse a última parte como alguém que pede algo a uma criança.
se limitou em crispar os lábios e assentir, mesmo que relutante. Não queria ser um fardo para garota, despejando nela todas as suas preocupações, mesmo que fosse ela a responsável por oitenta por cento de tudo que se passava em sua cabeça.
— E então… — Ele começou, numa tentativa de trocar de assunto. — Para onde vamos?
Foi só então, após vários minutos na estrada, que se deu conta de que não fazia ideia para onde ia, ou queria ir. Mas aquilo não afetou o ânimo da garota nem por um segundo.
— Para onde você quiser, meu amor.

*****

As primeiras horas de viagem foram extasiantes. A sensação de liberdade era cada vez mais crescente no peito de e começava a querer aparecer no de também, que, por sua vez, tirara um tempo para parar de se preocupar.
Naquele momento, a química entre eles estava mais intensa do que nunca e, pela primeira vez, sentiu-se grata por ter o garoto ali com ela.
Estava sendo divertido, principalmente quando eles paravam no acostamento para fazer coisas que certamente não deveriam ser feitas na beira de uma estrada, muito menos num carro conversível.
Mas eles não davam a mínima; não ali, não naquele dia. Eram como a versão moderna de Bonnie e Clyde; sentiam-se bem, sentiam-se livres.
No entanto, aquele momento mágico e excitante não durou para sempre, ou melhor, não durou mais do que algumas horas.
Conforme o tempo passava e a manhã chegava, os detalhes iam, gradativamente, perdendo seus encantos.
O vento batendo em seus rostos não trazia mais uma sensação indescritível de liberdade; os cabelos todos bagunçados de estavam começando, na verdade, a se tornarem irritantes. O tempo ia ficando cada vez mais gélido e, conforme os níveis de serotonina iam caindo, também ia a excitação.
Quando o silêncio reinava entre eles, não conseguia evitar deixar seus pensamentos tomarem conta mais uma vez. Apenas não conseguia deixar de pensar que aquela situação toda acabaria mal demais para apenas uma pessoa: ele mesmo.
O que, é claro, não passou despercebido por , que ficava cada vez mais incomodada com o pessimismo do garoto.
Ela entendia que requeria um nível de foda-se gigantesco para estar bem naquela situação — e o dela estava perigosamente perto do “eu poderia morrer aqui e agora e não daria a mínima —, mas não precisava ser tão negativo.
Após duas horas inteiras em completo silêncio, ambos decidiram que precisavam fazer uma pausa. Pararam no primeiro motel de beira de estrada que encontraram e, após fazerem o check-in e deixarem seus pertences — lê-se mala com dinheiro — no quarto, eles partiram para o bar, afim de comer alguma coisa.
Mal se passavam das seis da manhã e pediu uma bela dose de vodka, acompanhada de panquecas de mirtilo, é claro. Só assim seria capaz de suportar todo aquele drama vindo de .
Quando será que ele aproveitaria o momento e pararia de se comportar feito um bebê chorão? Seja como fosse, ela esperava que fosse logo, porque ela não fazia ideia do quanto mais disso seria capaz de aguentar.
— Você acha que eles estão atrás da gente agora mesmo?
virou sua primeira dose e logo tratou de pedir a segunda, se esforçando muitíssimo ignorar as marcas de sujeira impregnadas no vidro do copo.
, eu juro por Deus que se você…
Mas antes mesmo que ela pudesse terminar de responder, o garoto bateu com o punho fechado na mesa, assustando e fazendo com que todos os objetos ali em cima pulassem.
— Será que dá para parar de agir assim? Você não está vendo que eu estou surtando aqui?
A garota encarou-o impassível, os lábios pressionados em uma linha fina antes que ela finalizasse sua segunda dose.
— Claramente… — Foi a única coisa que conseguiu responder.
O dono do motel, também disfarçado de garçom, deixou diante deles os pratos com o que supostamente deveriam ser seu café da manhã.
, tendo sido acostumada sua vida inteira com comidas sofisticadas preparadas pelas mãos de talentosos chefs de cozinha, não conseguiu evitar torcer o nariz diante daquilo. Ela usou o garfo para analisar melhor as panquecas e não se surpreendeu nem um pouco ao constatar que elas estavam quase tão duras quanto a madeira da mesa onde se sentavam.
A garota não saberia dizer se foram as doses exageradas de vodka às seis da manhã, ou o cheiro intragável que vinha de seu café, mas sentiu tudo que comera naquela noite voltar-lhe a boca. A presença de tampouco estava tornando tudo aquilo menos desagradável.
Ela tomou alguns segundos para encará-lo do outro lado da mesa, o olhar perdido e ansioso que carregava, juntamente do fato de que ele devorava sem pudor aquilo que supostamente deveria ser ovos mexidos, influenciaram grandemente na realização que ela teria a seguir.
respirou fundo e não conseguiu evitar dirigir ao garoto um último olhar de pesar.
Não havia outra escolha, ela tinha que fazer isso.
— Eu perdi o apetite, com licença. — E, dito isso, se colocou de pé e simplesmente saiu dali.
Não era culpa dela, quer dizer, até era, mas fora ele quem havia envenenado o poço com toda aquela negatividade e pensamento excessivo, coisas que certamente não precisava na nova fase de sua vida.
Ela havia tomado uma decisão e agora era cada um por si…
finalizou sem pressa alguma seu café da manhã.
Sinceramente, estava longe de ansiar pelo momento em que voltaria para o quarto e teria que encarar a feição desapontada da garota que tanto amava.
Sabia que estava estragando tudo com toda a sua preocupação excessiva, mas simplesmente era algo que não conseguia evitar.
Ele até queria ser como , selvagem e destemida; mas não era, estava longe de ser e, por isso, agia daquela forma.
Após terminar seus ovos mexidos — que, por sinal, achara maravilhoso — voltou a passos lentos para o quarto. Ele abriu a porta e não encontrou ninguém.
? — Chamou pensando que a garota poderia estar no banheiro.
Sem resposta.
E assim, foi naquela manhã em que finalmente entendeu por que as pessoas temem o silêncio. Quando tudo fica quieto, é difícil de evitar algumas coisas, tudo fica evidente e você não consegue se livrar da realidade.
E aquela era a sua: havia o abandonado.
Peguei o dinheiro e as chaves. Mas não se preocupe, deixei o suficiente para que você possa pagar pelo quarto, voltar para casa e viver confortável por um tempo. Eu sinto muito, mas não posso fazer isso. Não com você. Acho que no final das contas eles estavam certos, não é mesmo? Uma vez traidora, sempre traidora.” — Era o que estava escrito na nota de cem reais estrategicamente disposta em cima da coberta surrada do motel.
sentiu os joelhos vacilarem e os olhos encherem de lágrima quase instantaneamente. Era inútil tentar lutar contra. Se jogou sentado no colchão duro do quarto e permitiu que as lágrimas corressem pelas suas bochechas.
No final das contas, sua intuição sempre estivera certa. realmente fora sua ruína e ali, largado no quarto de um motel decadente, se deu conta disso.
Ele deveria saber que ela seria a primeira a partir, afinal, não era nenhum grande mistério, levando em conta todo o histórico da garota.
Já há quilômetros dali, sentiu o vento bater contra seu rosto mais uma vez, sentindo-se feliz porque a sensação voltara a ser agradável.
Ela estava indo embora e pensando: Às vezes você até pode até mentir para si mesmo, fingir que não tem culpa e que não é uma má pessoa…, mas no fundo você sempre sabe. Bom, pelo menos sabia.
Ela era a grande vilã de sua própria história; não seus pais ou a alta sociedade de Manhattan, muito menos o comportamento irritante de
Era ela, sempre fora ela, mesmo apesar de nunca ter desejado que tudo terminasse de tal maneira.
É claro que parte dela queria e mudar as coisas. Se pudesse, jamais teria arrastado naquela confusão e muito menos teria abandonado-o no bar de um motel. Mas aprendeu que, infelizmente, não é assim que a vida funciona. Não se pode voltar atrás. Escolhas foram feitas, e coisas aconteceram por causa disso, tais como uma família destroçada, além de um garoto legal humilhado e perdido.
Se é que se pode chamar os de família… de qualquer forma, se pudesse escolher, a garota nunca teria optado por aquela forma de fazer as coisas. E quanto ao , bom… eles nunca tiveram uma chance mesmo; não quando tudo que fazia era mentir para si mesma, se levando a acreditar que gostava do pobre garoto enquanto, na verdade, apenas estava com ele para provocar seus pais.
Mas a verdade é que tudo aquilo não era um grande mistério, ela deveria saber… afinal, nada de bom começa num carro de fuga.