Look What You Made Me Do

Look What You Made Me Do

Sinopse: O reinado de sua família sempre fora considerado um dos mais promissores da época, ninguém se atrevia a contestar esse poder, pois não era comum que um opositor mantivesse a cabeça grudada ao pescoço quando algo do tipo acontecia. Então imagine a surpresa quando a rainha titânia foi subjugada pelo cuidador de cavalos que tomou por marido e rei? Ah, mas não se engane. Ninguém que tentou infringir qualquer opressão sobre um O’Doherty continuou vivo por muito tempo para contar a história. A honra de seu sangue é muito maior do que qualquer rei tirano  — e burro — possa imaginar.
Gênero: Drama
Classificação: +12
Restrições: Violência/Sensível. Pode conter gatilhos.
Beta:
Thalia Grace

 

Adra se esforçava para manter o sorriso no rosto enquanto Garbh cuspia a comida da boca por toda a mesa, bradando em alto som alguma bobagem masculina, sendo acompanhado das risadas escandalosas dos mais imbecis homens do reino. Assim como ela, as nobres senhoras que acompanhavam os maridos fingiam qualquer interesse naquelas conversas idiotas e tentavam não permitir que as gotículas nojentas do rei acertassem seus pratos, salvando daquele terrível jantar pelo menos os alimentos que haviam tirado para si.

Cada vez que os olhos cor de safira da rainha analisavam seu… marido — Ah, como se tornara intragável conformar-se com essa condição nos últimos anos! — se amaldiçoava por ter desafiado seu noivo escolhido por seus pais para poder ter o poder de escolher o próprio marido. Sua mente sempre muito racional e clara só podia estar enevoada pela terrível bruma do amor para não perceber que estava se casando com o ser mais idiota do reino. O pior fora quando constatou que Garbh sempre fora exatamente daquele jeito, mas o poder de rei havia lhe subido à cabeça mais rápido que contar de um à dois… O pior é que gostava de vê-lo se vangloriar quando se casaram, achava meiga a forma que o título e deixava orgulhoso de si mesmo.

Isso até perceber que na verdade esse tal orgulho não passava de uma arrogância repugnante.

A característica mais forte dos O’Doherty era que, quem sentava-se ao trono e tinha a verdadeira governança do reino era quem possuía o sangue da família, fosse homem ou mulher. A pureza da linhagem real era o importante. Em que momento ela, conhecida como a rainha de titânio por sua mão de ferro, havia sido colocada de lado e um idiota governava em seu lugar, sujando seu nome?

— Adra! — Garbh chamou alto, batendo a mão na mesa e causando um estrondo exagerado, que fez as damas saltarem e a rainha apenas revirar os olhos. As aulas de etiqueta não surtiram qualquer efeito em Garbh. — Conte-nos como estive bem na noite passada! — riu alto, sendo seguido dos amigos.

Esteve bem? Só podia ser piada. Garbh não aguentava sequer cinco minutos, além de que mais parecia um castigo para Adra ter de se deitar com Garbh. O homem por quem se apaixonou, um altivo e humilde cuidador de cavalos de corpo torneado, pele bronzeada e longos cabelos queimados pelo sol num loiro palha, agora mais se parecia com um porco. Quando não estava sentado no trono cobrando impostos abusivos, estava na cadeira da mesa de jantar. Em ambos os momentos, comendo sem parar. Quando em nenhuma das duas cadeiras, estava roncando na cama. Quando estava na cama, mas não dormindo, estava incomodando Adra com seus diálogos sobre como a rainha estava “acabada” — o que a fazia revirar os olhos e simplesmente ignorar. — ou tentando convencê-la a transar.

— Não é educado falar sobre intimidades, muito menos à mesa, querido. — disse simplista, sorrindo pequeno apenas para soar minimamente doce.

Os homens riram enquanto Garbh fez uma careta, contrariado, e bradava sobre eça não ter direito de respondê-lo e contrariar sua vontade por ele ser o rei. Ah, um verdadeiro idiota.

— Neste caso, meu rei, prefiro abster-me de responder para que não o ofenda. — disse e o encarou profundamente, fria como gelo.

A sala de jantar foi tomada por gargalhadas mais estridentes que antes. Era visível a vermelhidão crescente subir pelo pescoço do rei e logo atingir todo seu rosto e orelhas em pura irritação. Estava, em frente aos amigos, tendo sua virilidade contestada. A careta de raiva feita pelo rei fez os outros se calarem imediatamente. Este se levantou e agarrou o pulso fino da rainha, puxando-a para que se levantasse e quase arrastando para fora da sala de jantar.

As portas foram abertas pelos guardas e logo fechadas. O rei dispensou os que estavam pelo corredor antes de voltar-se para Adra e acertar-lhe um tapa na face esquerda. Esta não esboçou qualquer reação além de virar o rosto com a pancada, logo voltando os olhos frios para o homem.

— Você é fria e sem emoção até quando está apanhando. Não basta ser frígida na cama, vadia? — cuspiu em seu rosto. Adra respirou fundo controlando o ódio que começava a incendiá-la. — Fale daquela forma sobre mim novamente e vai levar mais do que um tapa. — ameaçou.

Arqueou uma sobrancelha ao que a rainha abriu um sorriso.

— Toque em mim novamente e será a última coisa que fará em vida, porco. — respondeu.

Adra sabia que Garbh queria avançar em sua direção e grudá-la na garganta como costumava fazer quando estavam sozinhos. Porém, no corredor, onde os guardas estavam espalhados por toda parte do castelo, sabia que bastava um grito da rainha para que fosse preso. O único motivo pelo qual não havia sofrido as consequências de ser um imbecil foi por Adra, a verdadeira soberana, não ter dado comando para tal. Nem mesmo os capangas que infiltrará no exército teriam força para sobrepô-lo a lei de violência contra mulheres.

— Não volte ao jantar. Vá para o quarto e me espere sem roupas. Quando voltar, vou te dar uma lição. — deu as costas para a mulher. Olhou por sobre o ombro quando já estava para abrir a porta: — Vamos ver se ainda vai ter qualquer coisa a dizer sobre meu dever como marido além de que sou o melhor.

Ele jurava que seu desempenho na cama era bom! Que piada.
A rainha não se deu o trabalho de responder, apenas chamou os guardas de volta a seus postos e começou a dirigir-se a torre sul, lado oposto ao aposento do rei. Adra se amaldiçoava vezes por dia por ter deixado as coisas chegarem onde chegaram. Havia se apaixonado por Garbh quando tinha seus dezesseis anos, e ele, vinte e quatro. Ela era a princesa “valente”, famosa por seus feitos. Mais impressionante que todos os irmãos, a favorita do pai. Conheceu seu marido quando decidiu ir buscar a própria montaria aquele dia. Apesar de tudo, ainda era uma garota que sonhava com amor verdadeiro e tinha pesadelos com o casamento arranjado que o pai andava negociando.

Devia ter percebido que Garbh não prestava só pelo nome, afinal garbh significava “sujeira”, “repugnante”. Havia ignorado esse sinalzinho, pois em algumas famílias tradicionais e antigas tinham costume de colocar esse tipo de nome nos filhos para que parecessem mais destemidos nas batalhas, o que era uma idiotice, pois o reino estava em paz a séculos. Enfim, entregou-se a aquele homem e, quando percebeu, estava competindo com seu noivo arranjado pela própria mão. Para seu azar, venceu. Alguns anos depois estava se casando com o tratador de cavalos de seu castelo. Suspeitava, cada novo dia como esposa, que Garbh havia planejado tudo aquilo, seduzido a ingênua princesa para subir ao trono, afinal não era possível alguém se tornar tão desagradável de uma hora para a outra.
A influência de seu marido em sua vida e seu reinado se espalhou como uma praga. Certo dia, após retornar de uma viagem que havia feito para o reino vizinho, descobriu que Garbh havia desmanchado a corte e colocado seus homens de confiança (vulgo, seus amigos tão ruins quanto o próprio) na nobreza, destituindo os antigos nobres de seus títulos. Além disso, havia mudado todos os cargos de confiança da família real dentro do exército para homens que declararam fidelidade ao rei e apenas a ele. Ele a tratava como uma tola.

Lembrava-se com clareza de em um festival em que estava discursando para seu povo quando Garbh a interrompeu e tomou o cetro real de sua mão, e dizendo absurdos sobre seu título, que não lhe fazia jus Humilhou-a na frente de centenas de pessoas.

Ele era um filho da puta. Adra lhe dera um lugar para dormir, uma coroa sobre a cabeça e a majestade nas mãos, e o desgraçado a trancara para fora do próprio reino.

Mas não ficaria assim. Não ficaria mesmo. Talvez tivesse recebido exatamente o que merecia por ter deixado-o entrar, mas o que era dele estava guardado.

O que Garbh se esquecera é que havia se casado com uma O’Doherty e ninguém passava por cima de si e não sofria as consequências, principalmente quando era um insignificante rei, que brincava de ser governar. As coisas já caminhavam para a reviravolta, e esta aconteceria magistralmente, como se alguém com seu sangue poderia fazer.

Recolheu-se a seus aposentos aquela noite, retirando o vestido magenta e substituindo-o pela chemise. Soltou os cabelos alaranjados da trança e deixou que caísse sobre as costas em ondulações perfeitas. Deu duas batidas na porta do quarto e vira seu querido Tore adentrar o aposento. Este logo se colocou de joelhos numa reverência perfeitamente submissa. Seu cão mais fiel.

— Não permita que o rei sequer respire o ar da torre sul. — ordenou e Tore assentiu sem olhá-la nos olhos. Não era como os homens que o marido colocara em sua corte, que olhavam-na como se fosse uma tola.

Como se não fosse a rainha de todos eles.

Só pensar nisso fazia seu sangue ferver nas veias. Respirou fundo e voltou a se sentar na beira do colchão para pentear os fios com os dedos, antes de fazer uma trança simples apenas para dormir.

— Você enviou os mensageiros para levar minhas cartas aos lordes e condes?

— Sim, majestade. Acredito que na semana anterior a festa todos já tenham dado suas respostas. — Tore respondeu.

— Ótimo.

Tore reverenciou-a novamente antes de se retirar. Adra trancou a porta antes de se deitar. Aquela noite sonhou com sangue e vingança. E o sabor era doce.

🗡
Suas respostas chegaram mais rápido do que imaginara e logo estava planejando seu próximo passo, o maior show que sua família jamais sonhara. A noite do banquete, que seria dado em comemoração ao aniversário de dez anos de casamento dos reis, era aguardado ansiosamente pela rainha.

Mandara confeccionar um vestido verde-grama, verde-floresta e dourado — as cores dos O’Doherty — com o corpete trançado com fita de cetim, além de mandar lustrar e substituir todas as jóias de sua coroa favorita, especialmente para aquela ocasião. Serviria o maior e mais farto banquete que qualquer um já teria visto. Mandou que convidasse todos os nobres e burgueses da cidade, sorteando ainda alguns súditos para a ocasião. Queria que todos apreciasse o que sua rainha estava disposta a servir ao reino.

Então, quando a noite finalmente chegou, encontrou o marido na ante-sala ao salão do trono, onde todos aguardavam para saudar aos soberanos antes do jantar. A porta fechou atrás de si assim que a atravessou. Sentou-se na poltrona exatamente a frente do marido e cruzou as pernas, encarando-o. Este, que estava distraído com seu cálice de vinho, arqueou uma sobrancelha ao percebê-la ali.

— O que quer me olhando desta forma? — perguntou indiferente, arrotando em seguida sem o menor decoro. Como um porco, pensou ela.

Adra umedeceu os lábios antes de começar a falar:

— Quero que você renuncie a coroa. — respondeu despreocupada, como se houvesse feito um comentário sobre o tempo.

Garbh gargalhou alto, mas logo a expressão foi substituída por uma raivosa. Atirou o cálice na direção de Adra, fazendo o resto do líquido respingar em seu corpete perfeitamente bordado e objetivo bater no chão com um som agudo.

— Você só pode ter ficado maluca! Como se atreve a querer alguma coisa de seu rei?

Adra levantou-se calmamente e deu a volta na poltrona, apoiando-se no encosto da mesma.

— Você não é meu rei. É, no máximo, um rei qualquer. Você não exerce qualquer tipo de poder sobre a rainha da linhagem real, esqueceu-se? — sorru em desdém.— O único motivo para não ter sido enxotado direto para a masmorra até agora foi porque eu não ordenei.

Foi a vez de Garbh rir. Levantou-se e num ímpeto já estava a frente de Adra. Sempre fora bem mais alto que a esposa, com quase dois metros de altura. Com seu tamanho — extremamente corpulento. — era capaz de botar medo em qualquer um. Mas claro, Adra era uma O’Dohery e não temia nem a morte. Quem dirá um homem.

— Você perdeu esse poder quando perdeu seus nobres e seus cargos de confiança no exército. Toda a influência de seu nome sumiu assim que eu me tornou seu rei. Passaram-se dez anos, mas você insiste em se comportar como se seu pai estivesse vivo e alguém os temesse. Exércitos temem meu nome agora, você não passa da cadela que tenho como esposa. Sem prestígio, sem relevância. A sombra do rei. Eu sou o seu pior pesadelo, Adra.

— Ah, o crime perfeito de Garbh! — debochou, inclinando-se levemente ao começar a rir. — Eu amo quando você ri enquanto mente para si mesmo. Você me entrega a arma e diz que é minha culpa.

Garbh agarra-lhe o pescoço. Com mais força do que qualquer outra vez, Adra podia apostar que deixaria marcas. Conforme o homem apertava com mais força e gritava em seu rosto, baba respingando por toda parte, Adra sentia a pressão em seus ouvidos e sua traqueia se fechar. A conversa acabaria mais rápido do que planejara.

Com certa dificuldade, agarrou o cabo do punhal escondido um um bolsinho discreto do vestido, bem na base da coluna. Garbh só teve tempo de ver o brilho das velas reluzindo na lâmina antes de sentir o ardor o flanco esquerdo. Soltou-a imediatamente para apertar o lugar em que fora acertado enquanto urrava de dor e os joelhos sediam sob o peso.

Assim que recuperou o fôlego, a primeira coisa que fez foi acertar um chute no peito do marido fazendo-o cair de costas. Olhou para si mesma: o vestido novinho arruinado. Voltou-se para o homem, cuspindo ao lado de sua cabeça.

— Eu sempre soube de seus joguinhos, Garbh. Tentei me cegar, mas sempre foi claro demais para mim. — Garbh se contorcia e xingava com todo o ódio que tinha dentro de si, mas Adra estava tão tomada pela ira que sequer ouvia. — Deuses, eu nem gosto de você! E o papel de tola que me fez interpretar nesse showzinho que você armou… — Adra puxou a barra do vestido e começou a limpar a lâmina de sua adaga. — Mas eu fiquei mais inteligente, fiquei mais forte na hora certa.

A esta altura, Garbh já havia desistido de urrar e pela primeira vez desde que se tornara rei parecia ouvir atentamente, com os dentes cerrado e quase espumando de raiva, o que a esposa tinha a dizer.

— Querido, eu me levantei dos mortos. Faço isso o tempo todo, desde que sou uma mulher e tenho que lidar com idiotas como você. Por sua culpa aprenderam a me subestimar, eu não confio em ninguém e ninguém confia em mim. Mas agora eu serei a atriz principal de seu pesadelo Não se preocupe, só vai durar em segundo.

Garbh, que já via pontinhos pretos aparecendo em sua visão devido ao golpe que acertara em cheio seu pulmão, tentou se arrastar para longe de Adra conforme a mesma ia se aproximando como um animal pronto para dar o golpe final em sua presa. O porco pronto para o abate.

A rainha titânia sentou-se sobre o estômago de Garbh e sorriu diante do semblante horrorizado do marido. Mostrou-lhe novamente a adaga e o homem mal teve tempo de assimilar antes de sentir o metal afundar em seu peito. O sangue respingou até em seu rosto desta vez.

— Eu te disse para não tocar-me novamente ou seria a última, Garbh. Oh, olhe o que me fez fazer!

Mas ele já não poderia, não pertencia mais a este mundo e Adra desejou que o diabo o carregasse para bem longe. Tirou-lhe a coroa da cabeça — o maldito ainda havia conseguido morrer com a porcaia no lugar! — e a lançou para o outro canto da sala, bateu contra a parede e rolou para detrás de um móvel.

Levantou-se, colocou a arma ensanguentada sobre uma mesinha ao lado do corpo e abriu as portas. Do outro lado logo encontrará seus soldados ajoelhados, os corpos dos homens de Garbh espalhados pelo corredor. Pôs se a andar, um rastro de sangue sendo deixado para trás em forma de pegadas.

— Majestade. — Tore se aproximou rapidamente.

— Hasteie todos os brasões O’Doherty. Quero que todos do reino saibam quem está no controle novamente.

Tore logo voltou-se aos guardas e passaram adianta a ordem da rainha. Uma criada estendeu para si um pano e limpou o rosto do sangue nojento do ex-marido. Caminhou direto para a sala do trono. As portas foram abertas e assim que pisou no salão, seu anúncio nenhum, ouviu o coro surpreso e horrorizado de seus súditos antes de se ajoelharem. Subiu os degraus até seu trono e sentou-se no maior, de estofado verde e com a serpente que se enrolava numa coroa entalhada no alto do encosto.

— Majestade! — reconheceu um dos amigos nojentos de Garbh chamando-a. Olhou para o homem e esperou para que prosseguisse. Mesmo à distância podia perceber os olhos do mesmo encarando seu vestido manchado de sangue assim como todo o salão. — Onde está o rei?

— Sinto muito— deu de ombros, desinteressada. —, mas o rei não poderá comparecer ao banquete de hoje.

— Por que? — o homem gritou de volta. Adra fitou-o assim como todos os outros presentes, afinal quem ele achava que era para questionar a rainha?

— Por quê? — sorriu largamente. — Oh, porque ele está morto.

Estalou os dedos e num piscar de olhos toda a nova corte estabelecida por Garbh tivera o mesmo destino do recèm falecido rei. Apesar do pavor e da confusão na mente de todos, ninguém ousou dizer sequer uma palavra sobre aquilo. No fundo todos esperavam por esse dia desde que o rei se tornara um idiota. A família real era chamada de víbora e não era atoa, afinal esperavam o melhor momento para picar seus inimigos.

— Vida longa e próspera a Rainha Titânia, Adra da casa O’Deherty! — a voz de Tore ribombou pelo salão. O coro de vozes fez seus pelos se arrepiarem. Os bandeirões com o brasão da cobra se enroscando na coroa se desenrolaram e abriram-se, ondulando com uma brisa leve ao que Adra sorriu aos súditos e com um aceno de mãos uma música começou a ser tocada.

A rainha estava de volta.