Mean

Mean

Sinopse: Viver em um relacionamento nem sempre é fácil, principalmente se a outra parte só te coloca para baixo e te afasta de seus sonhos. Seria possível dar a volta por cima e recuperar aquilo que você acha que perdeu ou pelo menos deixou de lado?
Gênero: Romance, Drama
Classificação: 16 anos
Restrição: Somente você e o principal são interativos.
Beta: Natasha Romanoff

All you are is
Mean

olhava para o palco, parecia ter nascido para estar lá em cima. De certa maneira, tinha inveja do cunhado por estar seguindo aquilo que ele gostava. Gostava e sentia falta do tempo em que os dois faziam aquilo juntos. Era gostoso, era reconfortante estar em cima de um palco, fazendo o que gostava. O olhar do público em cima de si lhe trazia um conforto na maioria das vezes. Sabia que não tinha como agradar todo mundo, mas de certa forma não estava ali para tal coisa. Do mesmo modo que existiam N cantores que ela não gostava, fosse pela voz, pelo gênero musical, por ser quem a pessoa era, então ela também tinha o direito de receber olhares tortos e não ligava, sabia lidar muito bem com aquele tipo de coisa.
Sabia mesmo, no verbo do passado, já não conseguia mais lidar com aquele tipo de julgamento vindo do namorado e isso foi um basta bem grande para ela largar dos palcos. No começo, achou que era por pura implicância. “Você deveria procurar outra coisa para fazer, música não vai te trazer dinheiro“, “se você trocasse de estilo, quem sabe…“, “para ser conhecida, você precisa se arriscar, gata. Sabe o que eu quero dizer, não?“. E a cada dia esses pequenos detalhes foram se tornando mais ofensivos. Scott passou a não gostar do modo que ela começou a ser tratada, os olhares dos caras começaram a lhe enfurecer, a troca de estilo a levou a parecer uma puta, chegou a lhe dizer que a sua voz não era nada e que ela nunca iria para frente.
Lidar com era muito mais fácil, ele tentava fazer de tudo para que ela ficasse o mais confortável possível, desde os arranjos, as notas que se encaixavam melhor em sua voz, os ambientes em que eles iriam tocar, as roupas que deveriam usar, sempre levando em consideração ao seu gosto e não o que os outros iam pensar. No começo, eles eram aquelas duplas cafonas que se vestiam parecidos para chamar a atenção. Os dois sabiam que aquela jogada era ridícula, mas por um bom tempo funcionou. Tocaram no baile da escola por alguns anos, em alguns eventos beneficentes, até do coral da igreja eles chegaram a fazer parte.
Mas isso também mudou quando começou a namorar Scott. Pequenas coisas foram sendo cortadas de seu dia-a-dia, amizades foram se perdendo, palavras passaram a não serem mais ditas, ensaios foram ficando cada vez mais de lado, já que Scott ocupava quase 100% de seu tempo e no resto que sobrava ela precisava estudar ou se não não iria conseguir manter suas notas boas para entrar em uma faculdade decente.

cantou a última estrofe da música e seus olhos encontraram os olhos da amiga, ela sorriu fazendo com que ele sorrisse também, mas aquele contato não durou muito. Scott falou alguma coisa, a fazendo virar e bufar.
sentia falta da amiga. Apesar de estar com ela quase todos os dias, não era mais a mesma coisa. Desde que virou namorada de seu irmão, ela começou a sumir aos poucos e não era só presencialmente, mas principalmente como ela mesma. No começo, parecia tudo às mil maravilhas, eles continuaram com a rotina normal, mas como ela precisou dividir seu tempo entre os dois e mais as coisas que ela precisava fazer, isso foi mudando aos poucos. Ela começou a passar mais tempo dentro do quarto do irmão, já não respondia mais suas mensagens como antes, era apenas um bom dia boa tarde ou boa noite, quando estavam na mesma casa ela parecia o evitar, ficando desconfortável em sua presença. No início, achou que era coisa de sua cabeça, estava com ciúmes de ter que dividir a amiga com o irmão e ok, ele iria aprender a fazer aquilo, afinal, eles estavam namorando e ele queria ver a felicidade dos dois.
Pôde-se dizer que ele passou um ano tentando de tudo para que amizade não acabasse e por um lado conseguiu. Ela o cumprimentava quando estavam em casa, mas Scott sempre aparecia antes do cumprimento virar uma conversa e ele conseguia ver nos olhos dela que ela não estava bem, porém, se ela não falasse nada, ele não tinha como a ajudar.
Quando acabou de cantar, esperou que os aplausos acabassem e desceu do palco pela escada lateral, cumprimentou Noah, que tinha um sorriso no rosto. Ele iria anunciar a próxima atração da noite. Passou por uma mesa, onde uma menina fez questão de colocar um papel em sua mão e sorrir. Ele retribuiu o sorriso e guardou o papel no bolso. Deveria ser mais um número, guardava todos dentro de uma caixa, aquilo fazia bem para o seu ego e não negava.
Seu grupo de amigos estava em uma mesa perto de onde estava, ele a encarava e assim que passou pela mesa recebeu alguns comentários dos homens que estavam sentados ali, inclusive do irmão, mas ela apenas ficou quieta, era a única mulher na mesa e, conforme foi caminhando, conseguia sentir seu olhar sob ele.

— Mais uma rodada? — Scott perguntou e todos concordaram, menos , que já estava cansada de ficar sentada ali. Havia tomado umas duas cervejas quando chegou, mas não estava mais no clima, a última estava quente em sua frente enquanto ela balançava a garrafa de um lado para o outro. — Qual é, gata. — Scott passou o braço por cima do encosto da cadeira, trazendo para mais perto dele. — Você está calada hoje, mal tocou na sua cerveja.
— Só estou cansada — respondeu sem tirar os olhos da cerveja e então sentiu um aperto em seu ombro.
— Desde que entrou na faculdade, essa vem sendo sua desculpa para tudo — Scott bufou e o encarou abismada.
— Como assim?
— Qual é. — Ele riu sem humor. — Se eu te chamo para sair de noite, você diz que está cansada. Se a gente vem pro bar, coisa que você sempre fez questão, você fica aí com essa cara de cu e quando eu te pergunto novamente você está cansada. — pensou em colocar a culpa na bebida, mas sabia que ele estava sóbrio.
Naquele momento, todos os encaravam, não só os amigos, que tentavam não olhar, mas todos que estavam à sua volta. Scott estava vermelho e seus olhos estavam mais verdes do que o normal, a raiva estava ali também.
— Você só tem tempo para estudar, estudar, estudar e estudar. Você é a porra de uma vadia mesquinha. — Ele cuspiu aquilo e ela empurrou a cadeira para trás, sem se importar se ele estava ou não apoiado nela. Isso fez com que ele fosse empurrado para frente e quase caísse antes de tirar o braço dali.
— Você só pode estar brincando, . — Dessa vez ela quem riu sem humor. — Você está me chamando de vadia só pelo fato de eu estar correndo atrás do meu futuro? — Ela negou com a cabeça, se colocando de pé.
— Eu fiz de tudo sempre para você ter uma vida boa sem precisar fazer absolutamente nada e é assim que você me retribui? Jogando dois anos no lixo?
— Quem está jogando alguma coisa no lixo é você, Scott.
— Em casa a gente conversa. Senta aí enquanto eu peço outra rodada. — Ele olhou para ela e depois para a cadeira.
— Você já bebeu demais, cara — disse, se colocando atrás do irmão, que riu.
— Vejam só se não é o príncipe encantado vindo salvar a donzela — disse, passando a língua por seus lábios. — Achei que tinha cansado de correr atrás dela como um cachorrinho corre atrás de uma bolinha, irmãozinho.
— Chega, Scott! — disse, olhando para o namorado. — Chega de uma vez por todas. — Não era a primeira vez que ele criava caso dentro do bar. Ele parecia fazer aquilo por pura diversão, já que ninguém nunca fazia absolutamente nada. — Estou indo embora. Depois a gente conversa.
, espera. — Ele levantou, colocando a mão no braço da namorada. — Você sabe que eu te amo, não sabe? Não quis falar essas coisas. Senta aqui. — Ele tentou fazer com que ela sentasse, mas ela não mudou de ideia.
— Como eu disse, estou indo embora, depois conversamos. — Pegou a bolsa que estava na cadeira e saiu sem olhar para trás.
— Isso, corre atrás dessa vadia mesmo. — Escutou Scott dizendo assim que passou pela porta do bar.

O clima estava ameno, um leve vento se fazia presente e desejou que fosse algo mais forte. Gostava do frio para pensar, fazia com que sua cabeça doesse menos.
se fez presente ao seu lado e nenhum dos dois disse nada, ele conhecia bem a amiga para saber que se fosse falar alguma coisa ela diria que estava bem.
— Eu juro que não entendo seu irmão — ela disse tão baixo que quase ele não escutou. — É como se ele quisesse provar alguma coisa para alguém. — Ela o encarou pela primeira vez desde o palco.
— Desde pequeno, ele tem essa vontade de aprovação dos que estão à sua volta — disse, dando de ombros.
— É aí que está! — Seu tom foi mais alto, estava cansada de guardar as coisas para ela. — Ele não tem o que provar. — Passou a mão no cabelo, ajeitando uma mecha que havia caído. — O problema não é a aprovação, todos nós buscamos a aprovação de alguém. Por menor que seja aquilo que estamos fazendo, somos criados para agir deste modo. Mas Scott passou por todos os limites. — a encarava esperando que ela continuasse.
— Você sabe que pode falar comigo sobre qualquer coisa, não sabe? — Ela concordou.
— É que é no mínimo estranho. Scott é seu irmão e, bom, eu não fui uma amiga muito presente desde que começamos a namorar. Não sei nem por que você está aqui. — negou com a cabeça, sem graça. Sabia que não deveria ter se afastado de , eles eram amigos desde sempre, sempre soube que não deveria trocar uma amizade por namoro, mas Scott colocou tantas barreiras e palavras que ela já não sabia mais como agir ou pensar.
— Scott é meu irmão, mas você é minha melhor amiga. Eu estou aqui porque é isso que melhores amigos fazem, na alegria e na tristeza. — Ela soltou uma risada.
— Na verdade, isso é coisa de gente casada.
— Mas nós somos casados. — Ele rolou os olhos e ela lembrou do dia em que eles prepararam o jardim para uma enorme festa de casamento, a festa de casamento deles. Scott havia sido o padre, os empregados estavam todos sentados nas cadeiras como se fossem os convidados, Margaret havia feito várias comidas com a ajuda das crianças para o cardápio da festa. — Na alegria e na tristeza, na saúde e na pobreza, até que a morte nos separe — ele disse a famosa frase que tinha em todos os casamentos e os olhos dela se encheram de lágrimas.
— Eu não mereço a sua amizade, eu fui uma péssima amiga durante esses dois anos, . Isso não é justo.
— Está tudo bem, ok? — Ele a puxou para um abraço. — Independente do que tenha acontecido durante esses dois anos, meu sentimento por você não mudou, , eu continuo sendo seu melhor amigo. Isso, é claro, se você quiser.
Em nenhum lugar do mundo ela iria encontrar alguém tão especial como . Na verdade, ela duvidava que merecesse alguém como ele depois do que ela fez. Sabia todos os dias que o que estava fazendo era errado, mas se deixou levar pela lábia do namorado, uma vez que em tese ele conhecia muito bem o irmão. Ela deveria ter se escutado muito mais do que se escutou durante aqueles anos. Deixou Scott lhe ditar uma nova vida, o que ela tinha que fazer ou não, com quem ela deveria falar ou deixar de falar.
estava na lista dos que ela deveria deixar um pouco de lado. Scott dizia que estava afim dela e por isso a deixava tão perto, e isso acabou a deixando desconfortável, pois havia se apegado a Scott e não queria o machucar. Ela acreditou naquilo, pois tinha seus motivos para acreditar. Eles faziam tudo juntos, inclusive eles tinham se dado o primeiro beijo, com medo do que pudesse acontecer caso aquilo acontecesse com algum desconhecido e por algumas semanas eles treinaram para não fazer feio.
sentia uma coisa engraçada em seu estômago, mas sempre culpou a situação, uma vez que beijar seu melhor amigo para treinar antes de beijar outra pessoa não estava em seus planos. A primeira vez dela foi com ele também, com a mesma desculpa para ambos: aprender para não fazer feio depois.
Do mesmo modo do beijo, transar com foi algo fácil, gostoso e engraçado, já que pesquisaram várias posições antes mesmo de tentarem alguma coisa. Foram algumas noites assistindo alguns vídeos, muitas risadas e muitas caras feias por parte dela com algumas posições.

— É, essa com toda certeza eu não quero tentar — disse, negando com a cabeça enquanto assistia a uma mulher com as pernas abertas uma de cada lado do rosto e com um homem lhe penetrando. — Imagina se me dá uma cãibra? Não, sem chances. — Ele caiu na gargalhada. — E estou falando sério. Papai e mamãe, ok; cavalgar, ok; “69” também. Mas essas coisas de ser enforcada, levar cuspe, xixi e afins, tô fora. Não, muita coisa pra minha cabeça.
estava se divertindo olhando as caras e bocas que fazia olhando para a tela do computador.
— Ah! — ela disse mais alto e ele tampou a boca dela. — Desculpa — disse assim que ele tirou a mão. Já passava das duas e todos em tese deveriam estar dormindo, incluindo os dois, mas com toda certeza assistir aqueles vídeos estava muito mais divertido do que dormir. — O cu é tipo outra área que eu não iria me arriscar. É sei lá. — Ela fez uma careta e ele segurou uma gargalhada alta. — Sei que para homens é uma zona que dá prazer, mas sei lá. Eu não sou homem. — Aquilo saiu de uma forma tão simples que dessa vez quem teve que tapar a boca foi ela, pois não se aguentou. — Shiu. — Ela apertou as duas mãos na boca dele, mas nem ela se aguentava.
— Ok, vou anotar no meu caderno, nada de cu.

Passaram assim mais algumas horas, já tinham perdido a noção de quantos vídeos haviam visto, até que ela, em um ato de coragem, puxou o rosto do amigo e o beijou. Diferente dos outros beijos, naquele tinha vontade, tinha desejo.
Já tinham passado da fase das preliminares. Ambos sabiam como o corpo funcionava. Eles literalmente estavam agindo como professores, estavam se descobrindo e se enganando achando que tudo não passava de algo para um bem maior.
virou o corpinho de lado, segurando a cabeça da menina com certa força enquanto sua outra mão estava em sua cintura.
E, num movimento rápido, já estava sentada em cima dele. Sem se desgrudarem, estavam tateando outras partes do corpo, mas dessa vez sem o medo de alguém os escutarem, a vontade estava falando mais alto que qualquer coisa.
rebolava em cima de , que deixou um gemido escapar entre os lábios assim que as duas bocas se desgrudaram. Ela se apoiou em seus ombros para continuar o que estava fazendo ali, eles se olhavam nos olhos e tinha um sorriso no rosto, um sorriso sacana que ela já tinha visto em outras ocasiões, mas saber que aquele sorriso foi para ela tinha tornado tudo mais intenso.
— Você tem certeza? — ele perguntou, apertando a cintura dela e ela concordou. Então ele passou as mãos pela barra da camiseta que ela estava usando e em um movimento rápido ele já estava jogando ela em algum canto do quarto. Ficou observando por alguns longos minutos o corpo dela, os bicos dos seios estavam arrebitados e ela estava toda arrepiada. Ele sorriu, passando os dedos desde o pescoço dela até a barra de seu shorts, deixando que o corpo dela se arrepiasse ainda mais. Em segundos, eles já estavam se beijando novamente, ambos se sentiam naqueles vídeos que estavam vendo antes.
A intimidade ajudou para que aquele momento se tornasse o que eles queriam. Não tinha vergonha, não tinha pudor, eles sabiam seus limites, inclusive já haviam tentado cruzar um deles em outra ocasião, mas pediu para que ele parasse, não se sentia tão preparada. Porém ali, naquele momento, ela parecia estar tão entregue ao que estava fazendo que ela se sentia realmente preparada.

Ela negou com a cabeça, espantando aquelas lembranças. Queria que aqueles dois anos tivessem sido tão fáceis como quando andava com .
— Antes de mais nada, eu preciso te pedir desculpas. — Ela se soltou do abraço. Ele ia falar alguma coisa, mas ela fez com que ele ficasse quieto. — Não posso escutar que você nutre todos esses sentimentos como se estivesse tudo bem. Eu preciso de um tempo, ok. Eu sei que você quer saber, mas Scott é seu irmão e eu não consigo pensar em nada neste momento a não ser que eu preciso ir para casa pensar no que aconteceu. Parece que eu estou fazendo um drama só porque meu namorado mais uma vez deu um show, mas é muito maior que isso. E eu não quero que vocês briguem, então eu peço que deixe isso quieto. Eu prometo não te deixar mais, porém eu preciso de um tempo, ok? — ela falava tentando segurar as lágrimas, mas tudo foi em vão. No final, ela já estava chorando. concordou com a cabeça e então ela saiu andando.
Mais uma vez, ele viu ela escapando de seus braços e não podia fazer absolutamente nada.

**
acordou com alguém socando sua porta. Levantou no reflexo e saiu em direção às escadas, gritando que já estava descendo. Coçou os olhos assim que abriu a porta e bufou em seguida.
— Qual é, gata, é assim que vai me receber? Estava preocupado. — Scott estava parado na porta, encostado no batente. — Posso entrar? — perguntou e ela deu espaço para que ele entrasse.
— Queria dizer que o que eu fiz ontem foi errado — ele começou assim que ela virou para ele. — Não deveria ter feito aquele show no bar ontem. Eu tinha bebido demais e, bom, o jeito que você olhou para o meu irmão no palco me deixou com ciúmes — disse sem graça e ela o encarou sem entender.
— Como assim o jeito que eu olhei para o seu irmão?
— Qual é, gata, todo mundo viu.
— Viu o quê? Eu não fiz absolutamente nada.
— Você olha para o com desejo. Todos viram ontem, inclusive depois que você saiu fui motivo de chacota na mesa.
— Eu olho com desejo para o ? Desde quando? — Sentiu um aperto em seu peito, seu coração batia tão forte que era capaz dele poder escutar.
— Não seja ingênua. Vocês sempre fizeram absolutamente tudo juntos, desde ir para a escola e até dar o primeiro beijo. Ou vai me dizer que você realmente achou que isso é um segredo para alguém? — Ele riu. — Qualquer um dentro daquela casa sabe o que vocês faziam pelos cantos, no silêncio. Você seduziu meu irmão e depois fez a mesma coisa comigo, Donnell. — Ele riu sem humor. — É isso o que você faz, não é mesmo? Quantas vezes você já não conseguiu as coisas por causa desse seu rostinho ou do modo calmo que você fala? O sorriso que você dá? A pose de boa moça. Com quantos caras você já não fodeu para conseguir 15 minutos de fama? — seu tom era ríspido.
— Você realmente está perguntando isso para mim? — Ela não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
— Você acha que o pessoal não fala? Eu fiquei todo esse tempo com você pra provar para todos e para o querido do meu irmão que você não é nada do que o povo fala. Mas você não aprende, não é mesmo? — Ele chegou mais perto e ela deu alguns passos para atrás.
— Eu nunca dei motivo nenhum para ninguém falar absolutamente nada — disse com raiva. — Sempre fiz TUDO o que você me pediu. — Apontou o dedo para ele por alguns segundos e então abaixou as mãos. Odiava apontar o dedo para os outros, sabia que era errado, bem como odiava quando alguém apontava para si. — Larguei mão das minhas amizades porque você dizia que eles não me ajudavam a crescer. Escutei quando você disse que o seu irmão estava se aproveitando da situação, que me queria ao seu lado porque eu era bonita e isso iria trazer visibilidade para ele. Que ele estava misturando o profissional com o pessoal. Que ele gostava de mim. — Aquilo soava patético agora. Havia pensado a madrugada toda em como havia sido patética durante aqueles anos. Ela entendia que tinha alguma coisa errada, mas não tinha noção de como estava quase no fundo do poço.
Compreendia que havia pessoas que levavam anos para entender a situação que se encontravam, na verdade, ela nunca deixou de saber, ela só queria acreditar que alguém lhe amava e queria seu bem tanto como queria, mas que não fosse seu melhor amigo, alguém que não lhe olhasse como uma irmã.
Mal sabia ela que ele nunca havia olhado assim para ela.
No primeiro ano, achou que Scott iria fazer aquele papel, ele fez e fez bem. Todo cheio dos sorrisos, lhe colocou no meio de seus amigos, era sempre elogios, conseguiam conversar ao invés de brigar, ele a entendia, era quase como se fosse , mas sem ser o . E sem toda aquela ligação que os dois tinham. Até que tudo começou a desandar. As implicâncias começaram, o mau humor, a falta de paciência, nada nunca estava bom, os amigos dela não gostavam dele e por isso ela deveria afastá-los, já que eles não acrescentavam em nada. estava ficando famoso nos bares e então ele não precisava mais dela, afinal, quem tinha a voz na dupla era ele, ela não passava de um rosto bonito para chamar a atenção. Scott dizia também que ele a mantinha próximo para fazer ciúmes, afinal, o que mais faria ciúmes nele se não a namorada passar mais tempo com o irmão?
Mas nada disso parecia errado, ele tinha um jeito próprio de fazer com que as coisas virassem ao seu favor. Ele brigava, mas logo em seguida vinha com a fala mansa, fazendo coisas para se redimir, mas nunca um pedido de desculpas. Poderia dizer que havia feito algo que não precisava, que estava alterado, era a bebida, era o ciúmes, mas pedir desculpas nunca foi seu forte.
— Enquanto eu calava a boca de todos, dizendo que você não era nada do que eles falavam, você fazia o quê? Me respondia na frente de todos. Gritava, ia embora, me deixava com cara de bosta para quem quisesse ver. — Passou a mão no queixo, em um sinal de nervosismo. — Para você ser boa, no mínimo, você teria que nascer de novo, Donnell. — Ele jogou aquilo em sua cara. Ele não precisava dizer com todas as palavras, ela entendeu muito bem. O problema desde sempre foi cantar. Como se estar em cima de um palco fosse a coisa mais errada do mundo. — Você nunca se deu o devido valor e acha que algum dia alguém vai te dar? — Ele negou com a cabeça. — Nem os seus pais te quiseram, e olha que eles tecnicamente são obrigados a te querer. — Aquelas palavras a cortaram mais do que uma faca, era uma espada que ele havia cravado em seu coração.
Poucas pessoas sabiam que ela era adotada, seus pais a abandonaram ainda quando era pequena e a empregada dos ‘s havia a criado como se fosse dela. nunca viu problema nenhum naquilo, na verdade, nunca chegou a falar para os outros que era adotada. Não por vergonha, mas porque não se sentia daquela forma. Denise sempre a amou desde o começo, nenhuma das duas conseguia explicar aquele sentimento. Denise foi a mãe que pediu e foi a filha que Denise perdeu. O destino de ambas era para ser aquele. Denise era sua mãe de verdade, indiferente do que os exames alegassem.
— Você se mostra uma mulher forte, mas eu sei que você chora de noite. Você ama Denise, mas você sabe que ela não é sua mãe. Que ela te colocou em um lugar que não era seu. Mais uma vez, você foi usada para tapar um buraco que já existia. Foi colocada em um lugar que não era seu.
Seus olhos ardiam, a cada palavra ficava mais difícil de segurar as lágrimas e de controlar a respiração. Mas não daria aquele gostinho a Scott. Ele estava acostumado a tratá-la como um nada, mas aquele ciclo havia terminado na noite anterior, quando ela levantou da cadeira e foi embora. Não iria mais aguentar aquela vida que estava levando. Não queria mais ter que se esconder na sombra de alguém sem saber o motivo de estar ali. Queria estar nos palcos, queria poder cantar, mostrar ao mundo que ela valia alguma coisa, valia muito mais do que aquele papel que estava se prestando.

Depois de jogar tudo o que tinha para jogar na cara de , Scott saiu da casa com um sorriso no rosto. Como se tivesse ganhado uma guerra. Enquanto ela estava ali, parada na porta, observando o ex namorado entrar no carro, dar uma arrancada e sair cantando os pneus. Coisa que sempre odiou.
Seu corpo estava pesando mais do que o normal e então se permitiu desabar. Ali mesmo, na porta da frente, para quem quisesse olhar. Não havia muito movimento na rua, mas sabia que de alguma forma alguém estava observando tudo o que estava acontecendo ali e que no mais tardar a vizinhança já estaria sabendo do que aconteceu, bem como sua mãe quando chegasse do trabalho.
Sua mãe. Se sentia envergonhada pelas coisas que ouviu de Scott. Sabia que Denise havia perdido a filha, antes mesmo dela aparecer em sua vida. Já tinham tido aquela conversa e a mulher deixou bem claro que cada filha era uma filha. A filha que ela perdeu sempre seria a sua filha que Deus precisou de volta, a filha que lhe ensinou como era o amor de mãe, que plantou aquela sementinha que colheu no momento em que Denise a adotou. Denise alegava que Linda tinha vindo para ela lhe mostrar como seria cuidar de uma criança, mostrar como ela seria uma boa mãe e que amaria a filha como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. E foi isso que ela vinha tentando fazer ao longo daqueles anos em que elas estavam juntas. Sempre criou da melhor maneira possível, tentando sempre dar os melhores exemplos, até aquele presente momento.
Quando achou que já tinha chorado o suficiente, tomou fôlego e levantou do lugar. Olhou no relógio e ele marcava quase meio dia. Estava sem um pingo de fome, na verdade, estava sem um pingo de vontade para fazer qualquer coisa que fosse. Limpou a calça antes de entrar e fechou a porta atrás de si. Só tinha uma pessoa que poderia lhe ajudar naquele momento e por pior que estivesse se sentindo, ela precisava dele.

**
entrou na casa sem bater na porta, tinha um sorriso de orelha a orelha. Fazia mais de seis meses que ele e haviam se acertado. Ela contou tudo o que tinha acontecido, desde o começo do namoro com Scott, até a última vez que ele esteve ali naquela casa. Escutar todas aquelas coisas não foi fácil, sabia bem como o irmão podia ser ruim, mas nunca imaginou que ele seria ruim ao chegar àquele ponto. Lembrava que ele já tinha sido chutado por algumas namoradas, mas não ao ponto de agir daquela forma, principalmente com , que nunca lhe fez nada.
O que nenhum dos dois sabia é que Scott sempre fez aquilo por questão de ciúmes, sempre achou que tinha as melhores coisas, os melhores amigos, as melhores chances, as melhores namoradas. Diferente de Scott, sempre teve um estilo próprio, era seguro de si justamente por ter ao seu lado, sempre lhe dando apoio, e era justamente isso que o irmão não tinha. Se sentiu abandonado pelos pais quando chegaram da maternidade com o mais novo, o amor foi todo para ele, fazendo com que Scott se revoltasse desde pequeno. Até um colégio interno os pais chegaram a cogitar para colocar o mais velho se o comportamento dele não mudasse. Com o passar dos anos, Scott foi vendo que não era de todo mal, ele gostava do irmão, ele era alguém para brincar, aprontar o dia todo, às vezes até mesmo para levar as broncas, já que quando era ele que aprontava os pais não falavam nada; se fosse Scott, a coisa ficava feia.
— Denise! — disse, assim que viu a senhora de costas na cozinha.
— Céus, . — Ela colocou a mão no peito. — Estava tão concentrada que não te escutei chegando. — Ele a abraçou e depositou um beijo no rosto dela. — está no quarto. Não sei se já levantou. — Ambos olharam o relógio, passava das 10 da manhã e ela não costumava acordar muito tarde. A mesa do café estava posta e foi então que ele sentiu o cheiro que vinha do fogão. — Sente-se, vamos tomar café todos juntos. Aproveitar meu dia de folga — disse sorrindo e não demorou muito para que se juntasse a eles.
! — Por um instante, ela pareceu surpresa. — Ao que devemos a honra? — ela zoou e ele riu.
— Senta aqui, anda. — Puxou a cadeira ao seu lado. — Denise, você também. — As duas trocaram um olhar e fizeram o que ele pediu. — Semana passada eu recebi um convite de um concurso, na verdade, não é exatamente um concurso, é um show de talentos e, bom, eu tenho direito a levar um acompanhante de palco e um acompanhante de plateia. — As duas olhavam para ele sorrindo. Qualquer pessoa naquela cidade sabia bem que o sonho dele era ser músico. — E eu queria muito que vocês fossem comigo! — Ele abriu o sorriso novamente.
— Isso é maravilhoso! — abraçou o amigo e ele a abraçou de volta.
— Eu desejo toda a sorte do mundo, meu filho, mas você sabe como é a minha rotina. Não sei se teríamos como pagar viagem e hospedagem para duas pessoas. vai com toda certeza. — Ela deu vários tapinhas na mão do menino.
— Eu sabia que a senhora iria dizer isso. As passagens são por minha conta e, bom, a hospedagem nós ganhamos. — Ele deu de ombros. — Óbvio que não é um hotel 5 estrelas, mas eu já procurei e é um lugar bem localizado. Vocês não precisam se preocupar com nada a não ser em passar um mês de “férias” — disse, fazendo aspas na última palavra. Sabia que era uma tentativa arriscada, mas não custava nada.
— Meu filho, não. — Denise ficou sem graça. — Não posso aceitar que gaste comigo desta forma. Além do mais, isso teria de ser tirado do meu salário.
— Nada disso de tirar do seu salário. Eu estou oferecendo, é com o meu dinheiro que iremos viajar. Não se preocupe com o seu salário ou com o seu emprego. Dorotéia e Amélia conseguem fazer o serviço para você. Conversei com elas e expliquei o meu plano. Elas conhecem as outras famílias, não vai ser problema nenhum. Além do mais, elas só vão precisar ir o quê? Umas duas vezes cada uma e olha lá em outra casa. — já tinha pensado em tudo.
olhava para aquela cena sem acreditar. Estava feliz por estar seguindo o caminho da música e tinha certeza de que ele seria muito bem sucedido no que estava fazendo, ele havia nascido para aquilo.
— Posso pensar? Talvez uns dias, mas um mês é muito meu filho — Denise disse e concordou.
— Mas você não me escapa. Não posso passar um mês sem a minha companheira de palco.
— E o que essa companheira de palco faz? — perguntou inocente e riu.
— Ela canta junto comigo. — E então ele pode ver a ficha da menina caindo. Ela não tinha entendido até aquele momento o que estava acontecendo, na verdade, ela achava que ele estava feliz por ele ter conseguido uma chance daquelas e convidou as duas porque, bom, 1. ela era sua melhor amiga, e 2. Denise nunca viajava, então na companhia da filha ficaria menos provável de negar.
, isso é sério? — perguntou, sentindo seu corpo todo entrar em combustão e ele concordou com a cabeça. — Você não está brincando nem um tiquinho? — Ele negou e então tirou o telefone do bolso, desbloqueando e mostrando o email que havia recebido. Nele estavam todas as instruções de como funcionava o show de talentos, o prêmio, onde eles iriam ficar e por quanto tempo eles iriam permanecer.
A manhã foi de comemoração, eles teriam mais ou menos duas semanas para ensaiar até sair de Pyramid Hill, indo para Melbourne e depois para Brisbane, onde aconteceria o show de talentos. Denise estava feliz pelos dois estarem juntos novamente. Sentia falta daquela amizade, sentia falta de como a filha agia quando estava com ele. era outra pessoa, na verdade, aquela era a verdadeira . Ela ria, brincava, fazia suas besteiras como uma garota normal.
No começo do namoro com Scott, ela estava aprovando, mas com o passar dos dias foi vendo como a filha estava mudando. Chegava em casa cansada, quando não estava chorando, alegando não ser nada. Quando perguntava de , desconversava ou falava que ele estava bem, coisa que as duas sabiam que em tese não era verdade. A mais nova nunca foi de mentir ou esconder as coisas, mas desde que aquele namoro começou ela conheceu uma nova versão de sua filha, uma versão que ela não gostou muito.
Mas ali, naquele momento, vendo ela rindo junto a , ela sentiu seu coração transbordar novamente pela felicidade não só da filha, como de também.

**
estava nervosa, o parque estava cheio e a fila em que eles estavam era simplesmente enorme. O tempo que tinham para ensaiar havia passado como num piscar de mágicas. Chegava todos os dias da faculdade e já estava lhe esperando para treinar. Em cada dia da semana eles treinaram 3 músicas diferentes, primeiro para poderem escolher qual a melhor para o primeiro dia, e segundo, se eles passassem de fase, já teriam alguma em mente. Estavam ali para pegar a placa com a numeração e assinar os papéis, mostrando que eles realmente estavam ali. tirou o telefone do bolso e começou a fazer uma gravação de si mesmo e logo em seguida apontou o telefone para , que não tinha visto o que ele estava fazendo ainda.
— E esta é minha dupla — disse, a puxando para perto de si e a assustando. Ela fez uma careta para ele e depois sorriu para o telefone.
— Imagina ficar famosa e ter esse vídeo na internet. — Ela rolou os olhos, mas estava brincando. — Oi, futura e famosa eu. Espero que esteja se orgulhando de onde você está. — E então ela recebeu uma careta do menino. — E olá, futuro , espero que ambos estejam orgulhosos de onde conseguiram chegar. Seja o que Deus quiser. — Ela se encolheu toda e tinha um sorriso fofo nos lábios quando ele pausou o vídeo.
, eu nem acredito. — Ela suspirou. — Isso é tudo surreal, sabe. Você e eu estarmos aqui, em um show de talentos. — Ela apertou a mão dele entre as dela. — Obrigada por me colocar no meio de tudo isso.
— Obrigado você por aceitar fazer parte de tudo isso. — Ele a encarou e sentiu seu coração palpitar. Seus rostos estavam perto o bastante para sentirem a respiração um do outro, mas nenhum dos dois se moveu.
Só voltaram a prestar atenção quando alguém pigarreou atrás deles e então perceberam que a fila andou.
— Desculpa — disseram em uníssono e andaram. Passaram a maior parte do tempo falando besteira ou analisando as pessoas que passavam por ali. O parque estava cheio e a cada metro que a fila andava o coração de cada um parecia que iria sair do peito.
Denise estava passeando pelo parque enquanto eles tinham que esperar na fila. Na verdade, ela havia dito para que eles não se preocupassem com ela, mas que ligassem quando eles estivessem prontos para ir para almoçar.

A manhã passou rápido. Almoçaram um lanche ali no próprio parque, estavam nervosos demais para comer alguma coisa mais pesada e tinham medo de ir para muito longe e não conseguirem voltar a tempo. estava acostumado a sair de Pyramid Hill, mas não, ainda era tudo muito novo para ela. Era como estar em um filme. Em menos de 1 hora, eles deveriam entrar para a outra parte do palco, na área exclusiva dos participantes.
tinha um sorvete em mãos que metade já estava derretido enquanto ela o encarava.
— O que houve? — perguntou e Denise a encarou.
— Não, nada. — Ela negou com a cabeça e limpou com a língua mesmo onde haviam alguns pingos do sorvete derretido. — É que esse sorvete me fez pensar em como minha vida estava até este momento. — Voltou a falar. — Ele foi feito por alguém, depois colocado dentro de um pacote e vendido para alguma pessoa. De duas uma, ou alguém vai fazer bom proveito dele, ou ele pode muito bem cair no chão ou derreter, fazendo com que a sua vinda até aqui seja frustrante para quem o compre. — A mais velha sorriu. tinha umas comparações que só ela fazia e aquilo era um dos milhões de motivos que a tornavam especial. — Eu estava me sentindo o sorvete derretendo, parada no mesmo lugar enquanto a vida estava passando. Pingando uma vez aqui, outra ali. A vida estava passando enquanto eu não estava aproveitando nada, minha vida amorosa estava indo de mal a pior, minha relação com meus amigos era quase inexistente, a única pessoa que eu tinha era a minha mãe.
— Você sabe que isso não é cem por cento verdade, não sabe? — segurou sua mão e ela concordou.
— Sim, é só que eu me afastei de todo mundo, então era como se eu só tivesse ela. Não estou fazendo pouco caso, você sabe disso, não sabe? — disse olhando para a mãe, que tinha um sorriso nos lábios enquanto concordava. — Óbvio que Scott não colocou uma arma em minha cabeça, eu abri mão das coisas porque eu quis, mas a coisa que mais me doeu abrir mão foi de mim mesma. Então eu só tenho a agradecer a vocês por nunca me deixarem derreter completamente. — Ela fez um bico, tentando não chorar. lhe puxou para um abraço e logo em seguida a mais velha fez a mesma coisa.
— Nós nunca iremos deixar você derreter — disse, dando um beijo na testa da filha.

Por mais que dissesse que não estava nervosa, seu coração parecia querer sair pela boca. Invejava o homem ao seu lado, que transpirava uma calma que ela julgava não ser desse mundo.
— Você já fez isso outra vezes, Donnell. — apertou sua mão em um sinal para ela ter calma. — Você sabe muito bem o que está fazendo, é quase seu habitat natural. — Ela abriu um sorriso e ele a abraçou. respirou fundo, sentindo o seu corpo tentar relaxar, aquele perfume que ele usava fazia com que seu coração se acalmasse. Por ela, ele usaria aquele perfume sempre.
— Certo. Vai dar tudo certo, e se não der, já deu. — Ela sorriu e ele a apertou mais em seus braços.
— Isso. O que importa é tentar coisas novas. Não temos nada a perder, apenas a ganhar. Ok? — Ela concordou e sorriu. Ele voltou a segurar a sua mão e depositou um beijo no dorso dela. fez a mesma coisa com a dele e então seus números foram chamados ao palco.
pegou o violão que já estava fora da capa e subiram os dois de mão dadas. As mãos dela estavam geladas e ela balançava de um lado para o outro, tentando inutilmente liberar toda aquela energia acumulada. Quando pararam no meio do palco, aplausos foram escutados e até o nome do rapaz eles foram capazes de escutar. Ele olhou para frente e um grupo de meninas acenavam para ele. Ele não reconheceu nenhuma, mas acenou de volta, fazendo elas rirem. olhava aquela cena rindo, não seria um caminho nada difícil para até o sucesso.
— Sejam bem vindos! — um homem disse, segurando o microfone. — Vocês são…?
— Eu sou o , ela é a . — tomou as rédeas.
— E vocês são de onde? — dessa vez uma mulher perguntou.
— Pyramid Hill — respondeu sorrindo.
Foi perceptível que ela estava nervosa. Algumas pessoas riram, fazendo com que ela risse também. queria apertar sua mão, mas em uma estava o violão e na outra o microfone que lhe foi entregue. Ele apenas a encarou e sorriu, indicando que estava tudo bem.
— E vocês vão cantar o quê? — o homem voltou a perguntar.
— Toxic, da Britney Spears — ela respondeu, mordendo o lábio inferior e ninguém entendeu nada. Por alguns segundos, ela achou que tinha dado o nome da música errado, todos pareciam estar julgando aquela escolha.
— Ok, boa sorte — falaram os dois juntos.
arrumou o microfone no pedestal, ajeitou o violão e então olhou para , que o olhava.
— Finge que estamos só nós dois, bem estilo Troy e Gabriela — disse, piscando com um olho só e ela gargalhou. — Pronta? — Ela concordou e então ele começou a tocar os primeiros acordes.
Ela olhava para o chão, movimentando o corpo conforme a música ia surgindo, mas ainda sem olhar para o público. a encarava como costumava fazer sempre que estavam os dois em cima do palco.

Baby, can’t you see?
I’m callin’

Ela começou a cantar e o silêncio permaneceu.

A guy like you should wear a warning
It’s dangerous, I’m fallin’

Então o público demonstrou mais interesse no momento em que ela começou a se soltar um pouco. tocava ainda a encarando, ela enfim o olhou e deu alguns passos para perto dele, como se fizesse parte da dança agora e não por estar com tanta vergonha.

There’s no escape, I can’t wait
I need a hit, baby gimme it

Dessa vez ambos cantaram juntos e todos aplaudiram. A voz dos dois combinava perfeitamente, passava uma calma que agora conseguia sentir. Por um momento, ela fechou os olhos, lembrando de todas as vezes que esteve em cima de um palco e que se sentia bem com aquilo. Lembrou das vezes que já havia cantado para uma plateia e não tinha medo nenhum. Aos poucos foi trazendo aquela velha que estava ali adormecida.
Arriscou até alguns passos de dança enquanto cantava. Sabia como era importante uma presença de palco, mas ainda sem perder o contato com a outra pessoa que estava cantando consigo. Na verdade, não sabia se algum dia já tinha perdido a química com em cima dos palcos.
A versão deles era completamente diferente da original, muito mais calma e com duas vozes, ora sendo a dele ora sendo a dela. Haviam ensaiado durante alguns dias, sabiam bem que não seria a melhor apresentação que eles iriam fazer, mas também não seria a pior.
Terminaram de cantar e então todos aplaudiram. sorria, não tinha errado a letra, tinha se soltado e se sentia bem consigo mesma independente de qual fosse o resultado daquele dia. Estava se sentindo muito mais viva do que se sentiu durante aqueles dois anos. Olhou para , lhe agradecendo mesmo sem dizer nada, ela sabia que ele iria entender.
— Parabéns aos dois — a mulher disse, aplaudindo.
— A presença de palco fez toda a diferença — o homem completou rindo. Sabia que de certa forma aquilo havia sido uma crítica construtiva, na verdade, não chegou a ser uma crítica, mas um toque de que se não fosse pela presença de palco, talvez o resultado fosse diferente.
— De quem foi a escolha da música? — Cameron, lembrou do nome dos jurados, perguntou.
— Dele. — apontou para e todos riram, não estavam esperando por aquilo.
— Ela costuma cantar no banho e um dia, enquanto eu esperava ela para sair, ela tomava banho com a música no último volume e cantava como se o mundo dependesse daquilo, talvez eu tenha lembrado e, bom… aqui estamos. — Ele deu de ombros, meio envergonhado de ter falado aquilo na frente da mãe dela.
— Prometo que ele não me viu sem roupa, mãe — falou logo em seguida, olhando para o lugar que a mãe disse que estaria.
— Sua mãe está aí? — Louis perguntou e ela concordou com a cabeça. — Uou, isso é no mínimo desconfortável de se falar. — Ela deu de ombros, rindo.
Todo aquele nervosismo havia passado, os jurados haviam falado o que eles gostaram ou deixaram de gostar na apresentação enquanto esperavam a votação ser concluída.
Não demorou muito para que eles agradecessem e descessem do palco.
— Isso foi tão surreal — comentou quando já estavam fora do caminho e então abraçou . — Obrigada por me trazer até aqui e lembrar dos velhos tempos. Mesmo eu não merecendo. — E então ela começou a chorar.
— Qual é, Donnell. Não é para chorar — disse, afagando as costas dela e ela riu. — E não precisa me agradecer, quando eu ganhei os convites, a única pessoa que veio na minha cabeça foi você. — Ele deu de ombros. — Qualquer outra pessoa que viesse comigo iria parecer a errada. Esse sonho não é só meu, é nosso.

De todos os participantes, apenas 100 pessoas iriam se classificar para a próxima fase. estava nervosa, se culpando caso o resultado não fosse aquele que esperava. Queria ter feito a coisa certa, mas foi pega de surpresa. Sabia que cantava bem, porém havia tantas pessoas que cantaram muito melhor do que ela, as apresentações todas bem montadas, com figurinos, backing vocals, dançarinos. Não tinha ideia de que aquilo era grande. Ela e estavam ali apenas com a voz e o violão, as roupas simples também, não era algo para chamar a atenção. Preferiram não usar as roupas que a produção disponibilizou, queriam mostrar quem eles eram de fato, mas se passassem para a próxima fase, com certeza ela iria considerar um novo figurino.
— Você precisa aproveitar o momento. — apareceu atrás dela, massageando seus ombros. — Tudo o que acontecer aqui para mim já valeu a pena, e pode tirar dessa sua cabecinha que se a gente não passar é sua culpa. — Ela olhou para cima, encontrando os olhos dele. Ele tinha um sorriso no rosto. Não precisava de muita coisa para saber o que ela estava pensando.
— É que teve tanta apresentação maravilhosa que eu fico pensando que de certa forma eu te prejudiquei com meu nervosismo. Você merece mais do que eu fui capaz de oferecer.
— Ei, não. — negou e se colocou em sua frente. — Pode parar com isso. Essa não é a que eu conheço. Não é porque você teve problemas no meio do caminho que passou a cantar mal.
Aquele seria um fardo que ela levaria até o momento do voto final dos jurados e da plateia. E antes que ela pudesse falar alguma coisa, seu celular vibrou e ela pegou do bolso, abrindo o grupo onde estava ela, e sua mãe. Era uma foto da mais velha com algumas mulheres. Logo o celular apitou, indicando mais uma mensagem e dessa vez era um áudio. Denise dizia que eram algumas de suas amigas de longa data e que estavam ali para ver o show de talentos, que eles não precisavam se preocupar com ela, que estava muito bem acompanhada. mandou um áudio dizendo onde estavam e que se ela precisasse era só chamar.
— Vem, vamos pegar algo para tomar. — Ele a puxou pela mão em direção a uma enorme mesa que estava posta à direita do palco. Pegaram cada um uma latinha e saíram em direção à parte aberta do parque. Estavam sentados naquelas cadeiras já fazia algumas horas, tanto para esperar a vez de subir no palco, como para observar os outros participantes.
— Senti sua falta — disse, quando eles pararam para observar um cachorro brincando de correr atrás da bolinha. — Senti falta de passar um tempo com você como nos velhos tempos. Ter um momento de não fazer nada ou fazer tudo.
— Eu sei, eu também. E me desculpe. — Ela suspirou e tomou um gole do refri. — Mas aqui estamos nós, prontos para começar algo muito maior do que tínhamos antes.
— Olha só, parece que aquela com o pensamento negativo se foi?
— Não totalmente, mas você mais do que ninguém sabe como é viver o momento. Eu perdi muita coisa nesses dois anos, sei que foram de aprendizados, mas hoje, estar em cima daquele palco me fez lembrar o porquê nós fazíamos isso. Eu te prometo que, independente do que acontecer depois, nós vamos seguir com isto, ok? — E então ela levantou o dedinho e ele gargalhou. fez a mesma coisa que ela e então fizeram uma promessa de dedinho.
— Independente do que acontecer, um dia seremos nós dois em uma cidade grande, mostrando o nosso talento para quem quiser ver — ele disse o que ela queria que ele dissesse. Na verdade, ela sempre achou que ele conseguia ler seus pensamentos, pois sempre sabia o que falar.
Passaram um tempo daquele jeito, apenas os dois, olhando para o cachorro de um lado para o outro, desejando que aquele momento durasse muito mais do que ele estava durando. O silêncio nunca foi um problema para eles, não era desconfortável. Claro que havia vezes em que conversas tornavam o momento melhor, mas o silêncio também trazia muita coisa para ambos.
Voltaram andando despretensiosamente para o show enquanto riam de alguma coisa que mostrava no telefone. Haviam encontrado algumas pessoas conhecidas, incluindo a filha da amiga de Denise, que inclusive havia mandado várias fotos dela em diversos lugares fazendo várias poses. estava feliz de ver a mãe se divertindo, parte sua queria ser famosa justamente para ter dinheiro para tirar a mãe daquela vida. Não que a mãe não pudesse trabalhar, mas ela não iria precisar trabalhar para bancar as duas, seria a forma dela retribuir todos aqueles anos que a mãe teve que batalhar para lhe dar uma vida boa.
Brisbane estava fazendo aquele show de talentos para arrecadar fundos não só para a cidade, mas para todas as pessoas que eles conseguissem ajudar, fosse com comida ou com produtos para a casa. Aquele tipo de evento era super comum e às vezes ela se pegava pensando em como seria participar, estar cantando na frente de milhões de pessoas, mesmo que essas milhões não estivessem ali presentes, era possível ver as apresentações no YouTube depois ou nos Instagrans da vida. E agora ali estava ela, participando de um show de talentos que parecia ser um sonho muito distante.
Naquela primeira fase, os números não iriam classificar do melhor para o pior, eles iriam escolher os 100 melhores cantores para uma próxima fase, que iria acontecer na semana seguinte. A cada semana, os competidores iam diminuindo, passando de 100 para 50, então 25, chegando nos 5 melhores, até que no final do mês teriam o ou os grandes campeões.
Números e mais números foram chamados, e a cada número que não fosse os deles o coração parecia sair pela boca. Estavam nervosos e confiantes ao mesmo tempo, apesar de não estarem mostrando aquilo, já que tudo poderia acontecer.
Então eles escutaram o que queriam, ambos os números foram chamados. pulou de emoção e a abraçou por alguns segundos e saíram em direção ao palco.

**
O palco estava escuro, uma melodia começou a ser tocada e a plateia foi à loucura. e haviam conseguido lotar um estádio completo e aquilo era a maior loucura que eles conseguiam pensar que já tinham feito. Denise estava no camarim, bem como os pais de , que por alguns anos acharam que o filho ia continuar com aquela ideia até ver que aquilo não teria valor nenhum financeiramente, mas os dois conseguiram fazer aquilo valer a pena. Começando por cinco anos atrás, quando ganharam o concurso de Brisbane e fecharam contrato com uma gravadora de alto poder aquisitivo. Eles se tornaram a dupla mais querida da Austrália logo de cara, o amor que eles passavam fazia qualquer um suspirar, fosse por eles como dupla ou como pessoas.
Isso era uma questão que eles sempre deixaram bem aberta. Amor era amor, independente da pessoa com quem você estivesse. Fosse homem com homem, mulher com mulher, homem com mulher, no final de tudo, o que restava era o amor.
Os acordes eram um pouco diferentes do que eles estavam acostumados a tocar. A luz do palco começou a se intensificar e os dois estavam ali, sentados em banquinhos no meio do palco, apenas os dois, o resto da banda não estava ali.
tocava o violão olhando para , que tinha os olhos nos seus também, ambos estavam sorrindo. De certa forma, ele a encorajava a fazer o que ela precisava.
— Antes de começar, queria dizer que essa música significa muito para mim. Na verdade, para nós — disse com um meio sorriso no rosto. Aquela música era uma das mais pessoais que já havia escrito. Por mais que todas as músicas passassem alguma coisa da vida deles, cantar e expor todas aquelas coisas era quase como ficar nua na frente de milhões de pessoas.

You, with your words like knives, and swords and weapons that you use against me
You, have knocked me off my feed again
Got me feeling like I’m nothing
You, with your voice like nails
On a chalkboard, calling me out when I’m wounded
You, picking on the weaker man
Não era fácil se desligar de um relacionamento abusivo, ela tinha seus demônios mesmo depois de todos aqueles anos longe dele. Scott tinha um poder incrível enquanto ele falava com os outros, a lábia na ponta da língua, assim como as facas prontas para lhe atacar. Ele era definitivamente a personificação da mesma mão que te bate é a que te afaga. O modo de falar, de fazer com que ela acreditasse que não era digna de receber um amor que valesse a pena, do modo com que conseguia afastar todos à sua volta. Sempre voltava à conversa de como seus pais a deixaram de amar tão rápido. Óbvio que deveriam ter algum tipo de problema com ela, eles não tinham o porquê de deixar de amar uma criança de uma hora para a outra.
Agora, estando fora daquela relação, ela conseguia ver com mais clareza, entender o que havia acontecido consigo mesma antes de Denise a adotar. Seus pais tiveram os motivos deles para fazer o que tinham feito, ela não tinha como mudar aquilo tão pequena e talvez a missão dela naquele mundo fosse realmente ser filha de Denise e não daqueles que lhe abandonaram.

Well, you can take me down
With just one single blow
But you don’t know what you don’t know
Sabia que as palavras dele ainda a machucavam, mas tinha ao seu lado, bem como tinha sua mãe. Tinha seus demônios, mas não deixaria nunca que Scott soubesse daquilo, ele não precisava mais de armas para lhe atacar. Tinha duas pessoas maravilhosas ao seu lado, pessoas que queriam seu bem assim como ela queria o bem delas, e assim que tinha que ser, algo livre, leve e que os dois tivessem comunicação. Scott sempre disse que ela nunca seria amada de verdade, mas mal ele sabia que o amor estava bem ao lado dela, desde sempre. a amava, amava muito mais do que como sua melhor amiga e ele sabia que o sentimento era recíproco. Por mais que tivessem ficado separados por algum tempo, nada havia mudado. Ainda eram os mesmos e, de certa forma, com mais sentimento que antes. Sentimentos antes não explorados.

Someday I’ll be living in a big ole city
And all you’re ever gonna be is mean
Someday I’ll be big enough so you can’t hit me
And all you’re ever gonna be is mean
Why you gotta be so mean?
Cantando aquilo, um filme passou na cabeça de ambos. De quando eram pequenos, cantando no jardim fingindo que estavam em um grande estádio cantando para milhões de pessoas, como naquele em que estavam naquele momento. Vivendo um sonho de levar a música para milhões de pessoas com a mesma paixão deles, passando tudo o que eles queriam passar e deixando o passado de lado por um momento, provando que nada do que foi dito passava de mentiras ou planos para que eles deixassem de fazer o que queriam. Viver em uma cidade grande significava se libertarem de todas aquelas amarras que os seguiam pela cidade pequena, esbarrar nas mesmas pessoas todos os dias, sentir as mesmas coisas todos os dias, fossem elas boas ou ruins.

You, with your switching sides
And your wildfire lies and your humiliation
You, have pointed out my flaws again
As if I don’t already see them
I walk with my head down
Trying to block you out ‘cause I’ll never impress you
I just want to feel okay again
Ela continuou cantando com os olhos fechados, sentindo todo aquele sentimento e deixando que ele escapasse por entre suas palavras. Precisava deixar tudo aquilo para trás e aquele era seu momento. Depois de ganhar o show de talentos, eles voltaram para a cidade natal por um tempo, até se organizarem de fato com a nova vida deles.
Denise continuava trabalhando, porém com uma carga horária muito mais reduzida. Trabalhava porque aquela era sua vida, era o que ela sabia fazer e gostava. Muitos diziam que aquela profissão não era nada, mas para ela, depois de sua filha, era tudo. Foi com seu trabalho que conseguiu a vida que tinha e o que fez com que a filha tivesse toda aquela determinação para chegar até ali.
No começo, foi estranho. Por mais que todos da cidade já soubessem quem eles eram, estar ali como uma dupla de verdade, agora sendo conhecidos por muita gente, com os seguidores aumentando em suas redes sociais, fez com que o pessoal os olhassem com outros olhos.
sentia um certo receio de como as meninas passaram a olhar para o amigo, não as que já gostavam dele, mas aquelas que de um dia para o outro descobriram uma paixão enorme por seu melhor amigo. Ela sabia bem que era apenas pela fama, pela vontade de sair daquela pequena cidade e fazer a vida em outro lugar.
Para , não foi muito diferente em relação à amiga. Saber que os homens lhe olhavam com cobiça era no mínimo estranho. Ela não era dele, mas ainda assim não gostava.
Não tinham como evitar ao sair na rua e encontrar alguém pedindo para tirar uma foto ou para que eles cantassem em algum evento. Eles gostavam daquela bajulação, pois eles estavam sendo reconhecidos por aquilo que eles mais amavam fazer, mas a cada vez que encontrava com Scott, seu coração parava por algumas frações de segundos e ela abaixava a cabeça ou desviava a atenção para qualquer outra coisa, fazendo com que ele não tivesse um porquê de falar com ela. Não estava pronta para aquele contato ainda.

sabia que o irmão estaria vendo aquela apresentação e saberia que aquela música era para ele. Na verdade, a cidade inteira iria especular aquilo e por um momento ele não ligou. Desde que havia aparecido com aquela composição ele sabia que não ligava para o que irmão iria pensar, estava contente pela amiga conseguir tirar tudo aquilo de dentro de si e colocar em uma música. Nunca havia passado por algo parecido e esperava não passar, não desejava aquilo para ninguém, pois tinha visto de perto como a amiga sofreu com aqueles dois anos. Na verdade, só viu depois que parou para ver o que estava acontecendo. A princípio, ele entendeu como um afastamento normal, era normal você se afastar enquanto estava namorando, principalmente ali em que ela estava com seu irmão. Era óbvio que ela não iria compartilhar detalhes bem como ele queria não saber dos detalhes da vida sexual de seu irmão.
começou uma nova estrofe, dessa vez falando sobre jogos de futebol e como o eu lírico da música seria amargurado, com a mesma opinião de sempre, sendo ele sempre o melhor e o mais sábio. Típico do irmão. Não conseguiu não esboçar um sorriso. Scott deveria estar puto da cara, e com toda razão, estava sendo humilhado para toda uma cidade, só não seria por um estádio de futebol, pois ninguém conhecia a história dos dois, mas se conhecessem, com toda certeza seria melhor ainda.
Ela terminou de cantar e ele tocou mais algumas notas antes de finalizarem a música. Todos começaram a gritar e a tela atrás deles se acendeu com milhões de tweets, elas estavam twittando ali direto do show em tempo real. Em menos de minutos, #Mean estava em primeiro no Twitter e tudo graças aos fãs.
contou sobre como as mulheres precisavam de coragem para se desligarem daqueles tipos de relacionamentos, em como ser humano precisa de coragem, afinal, um relacionamento abusivo não se diz respeito apenas a um relacionamento amoroso, qualquer tipo de relação pode ser abusiva, homem pode abusar bem como uma mulher pode abusar também.
— Apesar de as mulheres serem classificadas como sexo frágil, nós sabemos bem que não é bem desse jeito na prática. Podemos não ser tão fortes como os homens em muitos casos, mas conheço mulheres tão fortes, se não mais que muito homem. — disse, olhando para a parte VIP. — É é por isso que eu queria agradecer à minha mãe, que está aqui essa noite conosco, uma das mulheres mais fortes que eu já conheci na minha vida. Minha mãe perdeu sua filha ainda quando ela era bebê, mas em nenhum momento ela pensou em desistir. Ela não passou por uma relação abusiva, mas ela me ajudou a passar por uma. — E então ela chamou Denise para que fosse até o meio do palco. — Se não fosse por essa mulher que me criou, eu com toda certeza teria desistido. Não porque eu sou fraca, mas porque alguém me fez acreditar que eu era assim. Se você conhece alguém ou se você é essa pessoa que sofre qualquer tipo de relacionamento abusivo, denuncie, procure ajuda, você é e pode muito mais do que essa pessoa está fazendo você acreditar. Por mais que o abuso psicológico ainda não seja considerado um tipo de violência, ele é sim, um dos piores tipos de violência.
— Devemos parar de romantizar as relações abusivas, é diferente você escrever uma música sobre acontecimentos reais e falar sobre esse tipo de situação como se fosse algo normal — foi a vez de falar. — Temos que parar de colocar a famosa frase para as crianças e principalmente para as meninas de que se ele te bate ele gosta de você. Sabemos que há uma grande diferença entre educação, brincadeira de menino e agressão física pelo simples fato de estar com vontade de bater em alguém.
— Precisamos aprender a conversar uns com os outros, aprender a expressar nossos sentimentos sem machucar o outro.
— Seja verbalmente ou fisicamente. Homens podem sim mostrar seus sentimentos sem problema nenhum, se fosse para nós não mostrarmos, nós nem teríamos.
— Então não vamos nos calar, seja homem ou mulher, mãe ou pai, amigos próximos ou não. Abuso é abuso, precisamos parar de colocar esse comportamento como algo normal. Denuncie. Peçam ajuda, mas não fiquem nesta situação.

Epílogo

e montaram um projeto para ajudar as vítimas dos abusos, com o auxílio de profissionais multidisciplinares para ajudar às pessoas a lidar com as situações das melhores formas possíveis para cada um.
A agenda de shows estava cada vez mais disputada e eles não esqueceram por onde começaram. Sempre que podiam voltavam para Pyramid Hill para algum evento ou para que pudesse ver a família, já que a rotina deles era muito mais complicada de achar uma brecha para conseguir viajar sem ser nas férias da família. Denise conseguia ir visitar a filha com muito mais frequência e era muito agradecida por isso.
Por algum tempo, ambos tentaram manter os sentimentos de lado, alegando que aquela ligação entre eles era justamente por estarem sempre juntos todos os dias desde que eram pequenos, por gostarem das mesmas coisas e por terem uma intimidade tão gostosa de estarem juntos um do outro. nunca pensou em gostar do melhor amigo de uma forma que não fosse de amizade, então quando se declarou para ela em uma passagem de som, seu coração batia tão forte que ela não sabia se aguentaria terminar aquela noite viva. Foi uma das coisas mais intensas que ela já tinha sentido depois das primeiras vezes com ele.
Novamente, tinha sido o primeiro a fazer seu coração palpitar daquela maneira, as pernas mal aguentavam com os pesos delas, afinal, ela estava sentada, já que era a última música que eles cantavam.
Ela aceitou, não tinha como não aceitar, as palavras saíram tão normalmente de sua boca que ela tinha certeza de que era o amor da sua vida em todos os sentidos. Mesmo que ela não acreditasse em amor para toda a vida, talvez aquilo fosse mais uma coisa que ele iria lhe apresentar da melhor maneira possível. Na maneira de ser.

FIM