Noite Estrelada

Noite Estrelada

Sinopse: Um final de semana na pousada ecológica Noite Estrelada era tudo o que aquele grupo de seis amigos precisava daquele último verão antes da vida adulta bater em suas portas e lhes encher de responsabilidades. E para eles, aquela era a última chance de finalmente aceitarem seus sentimentos. A última oportunidade de viver um amor e fazer valer o final de semana.
Gênero: Romance
Classificação: 14 anos
Restrições: Nenhuma
Beta: Regina George
Shortfic

 

Capítulo Único

Janeiro. Era o pior mês para qualquer pessoa que odiasse acordar às seis da manhã suando. Os dias eram abafados e as noites eram sufocantes. Para os desafortunados que não dispunham de ambientes climatizados, as coisas ficavam duas vezes piores. E por conta de todos esses motivos, era um alívio enorme para o sexteto de amigos finalmente estar se preparando para viajar. Seria apenas um final de semana, mas haviam passado os últimos dois meses do ano planejando aquela viagem com muito cuidado e estavam ansiosos para ter dois dias inteiros longe dos pais e da realidade que os havia atormentado durante aquele último ano do ensino médio. A vida adulta havia dado o ultimato após a formatura e os seis sabiam que as coisas seriam completamente diferentes do que haviam sido durante toda a sua vida. Amigos de infância, ainda não sabiam como iriam lidar com a distância e as responsabilidades. Não fariam faculdade juntos, alguns sequer continuariam morando na mesma cidade. Aquela viagem era a última chance que teriam de ser os adolescentes idiotas que haviam sido nos últimos anos e de passar um tempo juntos.
chegou em casa mais tarde do que o usual. Trabalhava como caixa no mercadinho da família e naquele dia, seu pai a havia liberado mais cedo para que pudesse se organizar e esperar pelos amigos para que caíssem na estrada. Correu por duas quadras em direção a sua casa, seus pés estavam doendo e só puxou o celular do bolso quando fechou o portão de casa. A casa estava vazia e largou a bolsa no sofá, seguindo para o banheiro enquanto mandava uma mensagem para avisando que estava indo para o banho. Seu irmão, , já estava com o Fiat Freemont 2012 de sete lugares dos pais e havia ido buscar , namorada dele e melhor amiga de , em casa. Comeriam alguma coisa antes de irem buscar os amigos em suas casas, para enfim seguirem para a pousada ecológica Noite Estrelada, onde passariam os próximos dois dias. Não seriam os únicos, já que aquele era o passeio mais legal que qualquer jovem que morava naquela cidade poderia fazer. Acabariam encontrando grande parte dos ex colegas de classe, mas aquilo não lhes era um problema. Seu grupo sempre havia sido unido, mesmo quando outras pessoas estavam por perto.
Saiu do banheiro e correu para seu quarto, vestindo uma jardineira jeans e um cropped preto sem alças. O calor estava terrível e manteve os cabelos presos em um rabo de cavalo. Hidratou a pele e então passou protetor labial, calçando os tênis e passando a terminar de organizar sua mochila para a viagem. O barulho no primeiro andar lhe chamou a atenção e ela se moveu até a porta, para tentar identificar quem havia chegado.
– Bê? – Gritou.
– Somos nós. – Seu irmão respondeu e a garota voltou para o quarto enquanto os passos na escada soavam pela casa. foi a primeira a entrar no quarto, sorrindo para a amiga antes de ocupar a poltrona perto da porta.
– Ansiosa? – Questionou, mesmo que soubesse a resposta. riu.
– Sim. – Suspirou. – Estou louca para tomar banho de cachoeira.
– Água gelada para fugir desse calor infernal. – concordou. Estava sentado no braço da poltrona, o braço envolta dos ombros de .
– Preciso achar meu protetor solar. – murmurou, saindo do quarto em seguida.
pegou o celular para checar pelo aplicativo do iFood o trajeto que o entregador de comida estava fazendo. Esperava que não se atrasasse, já que estava faminto e eles tinham pouco tempo em casa antes de precisar ir buscar os amigos em suas casas.
– Como ela está reagindo? – Questionou em um tom de voz mais baixo, indicando o banheiro e o barulho que fazia ao procurar os produtos que precisava. Ela era bagunceira e esquecida e vivia perdendo as coisas pela casa.
– Como se nada estivesse acontecendo. – Suspirou . – Ela sabe que vai embora e tem medo de fazer qualquer coisa agora, porque parece tarde.
está… Ansioso. – suspirou. – Ele sabe que perdeu tempo. Os dois enrolaram demais. Todo mundo sempre soube o que eles sentiam um pelo outro e eles passaram todos esses anos fingindo que nada acontecia.
– Ela está se protegendo. – retrucou. – Ela não sabe se vai realmente ficar aqui e não pode se encher de esperanças. Talvez ela entre na segunda ou terceira chamada, mas não quer pensar nisso. já entrou e vai embora. Essa é a única certeza de .
– Eu sei. – suspirou. – Me sinto responsável por eles.
– Porque somos. – Deu de ombros. – Fomos nós que juntamos a fome com a vontade de comer. – Retrucou, arrancando uma risada do namorado. Eles haviam passado os últimos dois meses no pé de e , tentando os convencer a finalmente admitirem que gostavam um do outro. Mesmo que estivesse de malas prontas para mudar de cidade por causa da faculdade e ainda não tivesse sido chamada para o curso que queria.
– E foi uma boa ideia? – Questionou.
– Não sei mais. – Foi sincera e eles trocaram um olhar pesaroso, antes de voltar ao quarto com um sorriso largo e o protetor solar em mãos.
– Eu não sei como você consegue perder as coisas dentro de casa.- revirou os olhos e a garota lhe estirou a língua, voltando a atenção para a mochila.

estava concentrada no livro de fantasia que estava lendo durante aquela semana. Faltavam cerca de 300 páginas para a obra terminar e ela já sentia o peito apertado de saudades daquele enredo. Havia lido os dois primeiros livros da trilogia de forma voraz e aquele encerramento estava acabando com ela. Não estava pronta para dizer adeus aos personagens e o suspiro resignado que soltou durante uma cena em específico apenas deixou aquilo mais evidente. Dez páginas. Fora o que lera do caminho de sua casa, até a casa de , a última residência onde iriam parar antes de seguir viagem até a pousada.
já estava na porta os esperando e aquilo não era nenhum problema para . O problema estava parado o lado do amigo, com aquele olhar encantador e os cabelos que batiam na altura de seu ombro e deixavam ainda mais bonito, lhe dando um ar rebelde naquela cara de bom moço que o representava tão bem. Porque ele era realmente uma boa pessoa. Decente, empática e solidária. E aquele fora um dos maiores motivos pelos quais se havia se apaixonado por ele. Seu melhor amigo. Para quem nunca havia confessado sua paixão, mas ela sabia que ele tinha conhecimento de seus sentimentos. Assim como ela tinha sobre os dele.
Aquele grupo de amigos não era usual. Se conheciam desde a infância e sua amizade apenas se fortalecia conforme os anos passavam. Estudaram juntos durante todo o ensino fundamental, e foram colegas de turma durante os três anos do ensino médio. Mas seus laços iam além daqueles de amizade, já que e eram primos assim como e . e eram adotados, já que seu país nunca acharam necessário gerar filhos para fazer a família crescer. E dentro daquelas relações, haviam mais relações. e eram um casal desde os 15 anos e seus planos em conjunto eram os mais sólidos de todo o grupo. Haviam sido aprovados na mesma universidade e iriam dividir uma kitnet pelos próximos quatro anos. e namoravam há dois anos, mas sempre fora apaixonado por , que não sabia sobre sua bissexualidade até se declarar para ele e perceber que também sentia algo pelo amigo. E e
Sempre foram melhores amigos, mas nunca haviam se envolvido, mesmo que soubessem que eram apaixonados um pelo outro há muitos anos. tinha medo de estragar a amizade e não sentia-se seguro para abrir seu coração para . Conhecia a garota como a palma de sua mão e sempre achou que ela merecia muito mais do que ele poderia oferecer. Eles nunca haviam conversado sobre seus sentimentos, sempre haviam fingido que não existia. Mantiveram a amizade por anos, sem nunca precisar tocar naquele assunto. Até os obrigar a falar a respeito e então os deixar completamente desconfortáveis um com o outro. iria embora e ainda não havia recebido uma resposta da universidade e aquele não era o melhor momento para abrir o coração e confessar que amava desde sempre. Faziam 10 dias desde o ocorrido e aquela seria a primeira vez que se encarariam após os obrigar a confessar o que sentiam. Nenhum deles sabia o que esperar e os corações batiam tão rápido no peito, que sentiam que todos podiam ouvir seus batimentos cardíacos.
Quando seus olhares se encontraram através do vidro, ela soube que nada havia mudado na amizade deles. Mas também soube que algo havia mudado na outra relação que eles sempre havia ignorado, mas que aquilo não lhe deixava temerosa. E o sorriso que ele abriu deixou claro que ele sentia-se da mesma forma. E nenhum deles sabia o que esperar daquele final de semana.

A primeira coisa que identificou quando acordou e seus sentidos voltaram a funcionar foi The Maine soando pelo carro. Acabou sorrindo quando a voz de se juntou a de John no último refrão de Growing Up, abrindo os olhos e tentando se situar no carro iluminado pela luz da lua. Estava sozinha nos últimos dois bancos, já que havia trabalhado durante o dia todo e os amigos haviam lhe cedido aquele espaço para que ela tirasse um cochilo.
– Growing up, won’t bring us down. – murmurou, completamente animada, mesmo que já tivesse passado das 11 horas noite e eles estivessem na estrada.
– Were in this together, yeah, well make it somehow, nothings gonna stop us now… – cantou junto, arrancando um gritinho animado da amiga, que pulou no banco e ficou de joelhos para encarar do outro lado do carro. Ela ocupava o banco do carona enquanto dirigia. , e estavam nos bancos do meio.
– Growing up won’t bring us down. – Acabaram rindo como duas idiotas, antes de voltar a se sentar corretamente quando uma reclamação foi resmungada por , afirmando que cantava terrivelmente mal. Era verdade, mas ele não precisava comentar.
– Me deixe em paz. – Retrucou a garota, dando de língua para o primo.
– Vou afogar você na cachoeira. – avisou.
– Gostaria de vê-lo tentar. – retrucou, estirando o dedo do meio para o garoto, que devolveu o gesto em seguida.
acordou, pule para o banco de trás e me dê espaço. – reclamou para .
prendeu a respiração, mas não evitou que seu olhar procurasse por . Ele não a encarava, já que tinha os olhos presos em e os lábios retorcidos em descontentamento.
– Você não precisa de mais espaço. – Retrucou.
– Preciso sim. – E com isso, empurrou , não dando nenhuma alternativa para ele fora lançar um olhar culpado para , que deu de ombros e então se ajeitou no banco, deixando o assento livre para que ele ocupasse. Um peteleco foi deixado na testa de antes do rapaz pular para o banco de trás e todo o carro se ocupar em conversas paralelas, em uma tentativa de dar privacidade aos dois, mesmo que todos soubessem que eles não iam falar sobre a paixão recíproca entre eles. e falavam sobre as aulas de dança que estavam fazendo, enquanto falava e falava sobre muitas coisas, muitas delas sem sentido, e apenas resmungava em concordância, sem desviar a atenção do trânsito.
– Oi. – disse por fim, em um tom de voz muito baixo. E o perfume dele já estava no sistema de , fazendo o trabalho de deixá-la fraca e incapaz de devolver o cumprimento de forma enérgica. Seu suspiro saiu fraco e entrecortado.
– Oi . – O encarou. – Como você está?
– Bem. – Ele assentiu. – E você? Terminou aquele livro? – Questionou, deixando claro que lera todas as mensagens que havia mandado no grupo naqueles últimos dias onde não haviam se falado direito.
– Falta a última página. – Sorriu fraco. – Você sabe como eu odeio terminar uma história que amei.
– Quer que eu leia ela para você? – questionou, trazendo algo que costumava ser parte de suas rotinas. odiava ler últimas páginas e sempre as lia para ela, para que ela soubesse o final mas não sentisse o impacto do mesmo de forma tão direta.
– Amanhã. – Falou e ele assentiu em concordância. – As malas já estão prontas?
– Nem perto. – riu. – Pelo menos eu ainda tenho dois meses para organizar tudo.
– Posso ajudar. – Se ofereceu. – Sou ótima dobrando camisetas, você sabe. – Piscou para ele.
– Vou ser eternamente grato. – Ele sorriu. Encarou a garota por alguns segundos, tomando fôlego antes de murmurar: – Sinto saudade. – abaixou ainda mais o tom de voz e desviou o olhar. Se virou para frente, prendendo a atenção nos amigos que ainda discutiam nos bancos da frente. Mordeu o lábio inferior antes de procurar a mão de e entrelaçar na sua, deitando a cabeça no ombro dele em seguida.
– Eu também senti saudade. – Confessou. – Mas as coisas estão…
– Estranhas. – concordou. – Mas você sabe que precisamos falar sobre isso, . Não posso ir embora e deixar as coisas em aberto. Não com você. Principalmente com você. – Concluiu.
– Eles não deveriam ter se envolvido. – A garota suspirou.
– Eu concordo. – O garoto falou, sem desviar o olhar do perfil dela. – Mas se eles não tivessem nos obrigado a falar, você teria me contado? – Questionou, mesmo que já soubesse a resposta. não falaria sobre seus sentimentos por ele. – Porque eu sei que não teria. Quatro anos, . E eu nunca cogitei a ideia de contar para você.
– Eu não sei. – A garota confessou. – Nunca tive a intenção, porque sabia que as coisas iriam ficar estranhas. E eu nunca quis perder você, . Mesmo se precisasse esconder isso pelo resto da minha vida. – O encarou com apreensão. sorriu de forma singela, a beijando no topo da cabeça em seguida.
– Você nunca vai me perder. – Garantiu e sentiu seu coração dar uma cambalhota.

Ainda era noite quando finalmente chegaram à pousada. Decidiram que iriam descansar um pouco antes de encarar o primeiro dia na cachoeira e os quartos logo foram distribuídos. não sabia se os amigos haviam feito de propósito, mas não reclamou quando lhe disse que iria dividir um quarto com . E não havia problema naquilo, porque eles já haviam dividido um quarto por muitas vezes ao longo da vida. E nos últimos três anos, mesmo estando apaixonada por , aquilo nunca fora um empecilho e não se tornaria naquele momento. Haviam duas camas de qualquer forma e assim que abriu a porta do quarto, escolheu a cama perto da janela e se jogou no objeto, chutando os tênis para longe e cobrindo o corpo com a manta.
franziu o cenho em confusão, mas não disse nada enquanto se organizava para dormir. Com ao seu lado no carro, havia sido impossível pegar no sono, mesmo que por alguns minutos. E quando passou para o banco de trás, dormir ao lado de era uma tarefa ainda mais difícil. Ele queria aproveitar cada segundo da presença da garota, porque havia sentido falta dela nas últimas semanas, e dormir seria um desperdício de oportunidade. Se cobriu com a manta após ligar o ar condicionado e desligar a luz, fechando os olhos em seguida. Haviam se passado apenas dois minutos quando ouviu o resmungo de e se virou em direção a cama dela.
– O que foi? – Questionou.
– E se eu tivesse contado para você antes, – Começou a falar, seu tom de voz baixo e temeroso. – Estaríamos juntos hoje? Ou teríamos estragado tudo?
– Eu nunca estragaria nada com você. – garantiu. – Me arrependo por nunca ter falado. Mas eu realmente não sabia o que você sentia e sempre pareceu ser apenas amizade. – Abriu um sorriso triste.
– É pior sabermos. – murmurou, mais para si mesma do que para o garoto. – Se eu não soubesse, seria mais fácil lidar com a realidade. Você iria para a faculdade e eu esperaria que me chamassem. E iriamos nos encontrar lá, em um ou dois anos. E tudo voltaria ao normal. Mas agora…
– É estranho. – repetiu. – Não consegui tirar isso da cabeça, desde aquele dia. e abordaram o assunto de forma terrível, – Falou, a lembrança de o arrastando até a casa de e o obrigando a dizer como se sentia, ao mesmo tempo em que pressionava para confessar seus sentimentos, fez estremecer. Os amigos haviam tomado uma medida drástica após semanas e semanas de diálogo tentando convencer aos dois que abrissem os corações e sendo completamente ignorados. sabia que eles queriam apenas o bem deles e sabiam que estavam certos. Não poderia continuar escondendo aquilo de , principalmente porque iria embora da cidade e deixar pontas soltas era sempre uma porta para dores futuras. – Mas eu sei que eles fizeram isso pelo nosso bem.
– Sempre soubemos que nossos amigos são estranhos. – deu de ombros. – E eles tinham razão. Escondemos isso por muito tempo. E muito bem. – Torceu os lábios. – Eu nunca percebi. – Comentou.
– Nem eu. – sorriu triste.
– O que vamos fazer agora?
– Não sei. – Foi sincero. – Mas você é a minha melhor amiga e eu amo você, . E também estou apaixonado por você e por quatro anos, esse sentimento nunca diminuiu. E eu não posso ir embora sem que você saiba que eu gostaria que tivéssemos tempo fazer fazer isso dar certo.
– Porque teria dado certo. – respirou fundo. – Eu amo você e também estou apaixonada por você, . E gostaria que tivéssemos esse tempo. – Suspirou.

– Você não vai entrar? – questionou para a irmã, apontando para a cachoeira com o queixo. Como desconfiaram, todos seus colegas de turma tinham decidido comemorar a formatura da mesma forma que eles, e a pousada Noite Estrelada estava lotada de adolescentes. Não teriam dois dias de tranquilidade, mas aquilo também não era ruim. Tinham dois meses de verão e de férias antes da vida adulta bater em suas portas e os obrigar a se afastar a irresponsabilidade e a curtição estava começando naquele final de semana. A pousada dispunha de uma área ecológica enorme, com três cachoeiras e um lago onde poderiam se banhar. A cachoeira maior – e mais disputada – havia sido deixada de lado para o grupo, que seguiu para a área com menor movimentação na cachoeira menor.
e estavam na água, enquanto estava tomando sol em uma das pedras e lhe fazia companhia durante a ausência de , que estava do outro lado da cachoeira em uma tentativa de convencer a irmã de entrar na água. estava com uma nova leitura, mesmo que não tivesse lido o final do outro livro.
– Eu vou. – Sorriu. – Daqui a pouco. Faltam poucas páginas para finalizar esse capítulo.
– Venha logo. – murmurou. – não vai entrar na água sem você. – Revirou os olhos e a garota assentiu.
– Já vou. – Garantiu e observou o irmão se afastar, passando rapidamente o olhar por e então voltando a atenção para o livro. Dez páginas mais tarde e a garota já tinha guardado o livro na bolsa, junto da camiseta e do shorts que estava usando até então. Sentiu o olhar de sobre ela durante toda a caminhada até a beirada mais baixa da cachoeira e precisou respirar fundo para não seguir até o amigo e finalmente acabar com a vontade que sentia de beijá-lo pela primeira vez. – Cheguei! – Avisou.
– Finalmente. – bufou impaciente. Levantou e após jogar a toalha para longe das pedras, se jogou na água, sendo seguida por . suspirou, já que odiava a parte de jogar-se na água. Sempre acabava de boca aberta e engolindo água. sorriu para ela, antes de pular na água e submergir e estender os braços para .
– Eu pego você. – Falou e após um olhar desconfiado, se inclinou na pedra e se jogou nos braços do amigo. Os dois afundaram juntos, mas a garota teve amparo e aquilo lhe salvou de engolir mais água do que o necessário.
– Obrigada. – Sorriu para o garoto, o beijando no rosto e então se afastando, nadando para perto dos amigos com a seguindo de perto.
– Eu quero brincar de briga de galo! – murmurou e revirou os olhos para a prima.
– Finja que nem estamos aqui. – O garoto murmurou, voltando a conversar com e obrigando a encarar e com um olhar pidão. A garota suspirou, sacudindo a cabeça para os lados em negação e logo estava segurando seu braço e murmurando “por favor, por favorzinho!”.
– Você sabe que ela não vai parar de encher o saco até aceitarmos. – murmurou para .
– Odeio você. – Estirou a língua para e então se virou para , que apenas sorriu para ela e então se agachou na água, para que a garota pudesse subir em seus ombros. – Não me deixa cair, por favor. – Implorou assim que se ergueu. Segurou as pernas dela com firmeza e então os virou em direção a e , que já estavam prontos para a brincadeira.
– Nós vamos avaliar a conduta de vocês. – murmurou. – Não pode puxar o cabelo ! – Ralhou antes que a garota pudesse dizer qualquer coisa, arrancando risos dos outros e uma careta da garota.
– Eu só puxei uma vez! – Se defendeu.
– Mentira! – retrucou. – Você sempre puxa o cabelo! – Deu de língua para a amiga, que revirou os olhos e não contestou. estava certa, de qualquer forma.
– Comecem! – gritou.
No mesmo instante e seguraram as mãos uma das outra, empurrando e tentando derrubar uma a outra. Elas gritavam e riam, enquanto e se concentravam em não deixá-las cair. Cada empurrão causava desequilíbrio e eles precisavam de todo esforço para continuar em pé. não teve muita sorte e após alguns minutos, acabou sendo empurrada e ela e caíram na água, enquanto comemorava e se jogava na água junto de .
– Dessa vez ela não trapaceou. – declarou quando todos voltaram a submergir. voltou a comemorar e e apenas deram de ombros, já que vencer não era o objetivo deles. Só queriam que os deixasse em paz.

– Vamos fazer hambúrguer? – questionou assim que se aproximaram da calçada que os levaria de volta a pousada. Haviam passado todo o dia na cachoeira, almoçaram sanduíches sentados à sombra das árvores e voltaram a curtir a água e o sol durante o resto da tarde. Estava anoitecendo quando finalmente tomaram o caminho de volta para a pousada, enquanto discutiam o que preparar para o jantar na cozinha conjunta. Muitos de seus colegas faziam o mesmo caminho que o sexteto e cumprimentos eram distribuídos a todo instante.
– Pode ser. – assentiu em concordância. – Não é algo que vai demorar se cada um assumir uma tarefa.
– Vamos tomar banho e então descemos. – falou. – Podemos jantar na varanda. Tem uma área enorme com redes e poltronas. – Comentou.
– Meia hora gente. – disse por fim, assim que entraram na pousada. assentiu e ela e seguiram para o quarto que dividiam. Ela ocupou o banheiro primeiro e tomou um rápido banho, vestindo um macaquinho leve e liberando o local para . Exatos 30 minutos depois eles chegavam a cozinha, encontrando os amigos já delegando as tarefas.
– E para vocês, – sorriu para os amigos. – Vão montar os hambúrgueres. – Apontou para a mesa onde estava cortando os pães e os ingredientes estavam dispostos. assentiu e ela e seguiram para perto do amigo, que murmurava uma música qualquer e sorriu para eles.
– Eu estou com tanta dor nas costas. – suspirou por fim. Sentou-se na cadeira, já que precisava esperar os amigos terminarem a parte deles para poder iniciar a montagem dos hambúrgueres.
– Quer uma massagem? – sugeriu de forma espontânea. e , que estava cortando os tomates em rodelas, trocaram um olhar malicioso que não foi percebido por e .
– Por favor. – A garota sorriu para ele e se postou as suas costas, estalando os dedos antes de mover o toque para os ombros tensos de e causar um arrepio na garota. Ele tinha realmente um dom para aquilo e em cinco minutos já sentia-se relaxada e soltava suspiros de satisfação a cada carícia que fazia em seus ombros tensos. Esqueceu completamente que eles estavam em uma cozinha compartilhada, que e estavam fritando os hambúrgueres no fogão, que e estavam na mesma mesa que eles e que haviam outras pessoas no cômodo.
Eram apenas e , envolvidos naquela bolha impenetrável onde existia apenas ele e aquele sentimento gigante.
A garota suspirou, jogando a cabeça para o lado direito e soltando um grunhido ado que causou uma risadinha em , finalmente despertando e para o que acontecia à sua volta. corou imediatamente e interrompeu a passagem, passando a mão pelos cabelos em um sinal claro de desconforto.
– Isso foi como porno. – comentou, deixando os amigos ainda mais envergonhados enquanto gargalhava e murmurava:
– Arrumem um quarto!

Após o jantar, o sexteto continuou na varanda da pousada. havia escolhido uma playlist que fosse agradável a todos e enquanto jogavam conversa fora, e dividiam uma rede, em uma disputa infantil de brincadeira do dedinho.
– Para de roubar, . – A garota reclamou, empurrando o amigo pelo ombro e causando um riso nele.
– Não estou fazendo nada! – Contestou. – Não tenho culpa do seu dedo ser menor que o meu. – Disse o óbvio e torceu os lábios. , que até então estava focada na disputa de Stop contra e , já que estava jogando Candy Crush no celular, pediu um segundo de pausa e então encarou os amigos com um sorriso perverso.
– Homens com dedos grandes são uma coisa ótima, . – Estalou os lábios. – Você deveria parar de reclamar.
– E ela não para. – revirou os olhos, estirando o dedo do meio para a amiga.
– E longos. – Acrescentou. gargalhou enquanto fazia uma careta.
– O tipo de coisa que eu não gostaria de ouvir. – Murmurou para si mesmo e o beliscou na cintura, lhe lançando um olhar feio em seguida.
– Será que vocês nunca vão nos deixar em paz? – revirou os olhos.
– Estamos esperando pelo beijo. – retrucou, dando de ombros e voltando a atenção para o jogo. esperou que todos voltassem para seus afazeres e então se virou para , deitando a cabeça contra o peito do amigo e fechando os olhos quando ele passou a acariciar seus cabelos com carinho.
– Não dê ouvidos para eles. – Recomendou em um tom de voz mais baixo.
– Dê sim. – retrucou e outro gesto feio foi direcionado ao quarteto, que apenas riu.
– Talvez eles estejam certos. – Deu de ombros. – E nós precisamos colocar um ponto final nesse impasse.
– Você quer? – questionou com cuidado. As risadas e discussões dos amigos sobre estar roubando no Stop facilitaram aquela conversa sussurrada.
– Eu quero. – confessou. – Mas tenho medo do que vai acontecer quando você ir embora.
– Você ainda não sabe se eu vou embora sozinho ou se você vai comigo. – lembrou. – Eu tenho certeza que você vai ser chamada, . E se não entrar agora, tem o vestibular de inverno. Você vai para a faculdade, sabe disso.
– Estou com medo. Você sabe que não sou um exemplo de confiança.
– Eu sei. Mas acredito em você, mesmo que você não o faça. E eu já estou há quatro anos esperando por você. Posso esperar mais um pouco. – Sorriu para ela, beijando sua testa enquanto se aninhava mais em seus braços.

– Vamos para o lago? – indagou. Estavam na cozinha, terminando de limpar a sujeira que fizeram durante o café da manhã. Todos já usavam roupas de banho e estavam cheirando a protetor solar. – Podemos passar a manhã por lá e voltar ao meio-dia para almoçar. E então seguimos para a cachoeira maior e passamos a tarde. – Sugeriu.
– Vamos voltar de noite, então podemos fazer isso. – assentiu em concordância.
– Vou separar algumas coisas para levarmos. – murmurou, já seguindo para os armários e juntando alguns pacotes de salgadinhos e de biscoitos que pertenciam ao grupo.
Pouco tempo depois e eles já ocupavam um lugar na beira do lago, que para a sua sorte, era rodeado por árvores que proviam sombra. Havia também um pier de onde vários adolescentes pulavam animados para o lago e assim que ajeitaram suas coisas, , e correram para o pier, em uma disputa idiota de quem daria o salto mais alto.
estendeu a canga na grama e se deitou, pegando o livro de dentro da bolsa e voltando a leitura onde havia parado no dia anterior. havia colocado música na caixa de som e ela e se moveram suas cangas para o sol e também se deitaram, enquanto conversavam sobre música e séries, como adoravam fazer para trocar opiniões. Havia lido seis capítulos quando ouviu a chamando e virou o rosto em direção a amiga, com o cenho franzido e uma expressão confusa no rosto. A amiga apontou com a cabeça na direção do pier e se colocou sentada, semicerrando os olhos para enxergar o quer que achasse importante.
– Paloma está de papo com o seu homem. – comentou de forma desnecessária, já que havia visto a garota mais popular de sua cidade sentada na beirada do pier, conversando e rindo com , que permanecia dentro do lago.
– Que bom para ela. – Resmungou, voltando a se deitar e apenas escutando a movimentação dos amigos. Logo tinha um de cada lado e foi obrigada a deixar o livro de lado quando pigarreou e exigiu atenção. – O que foi? não é meu namorado. E mesmo se fosse, ele não seria propriedade minha e eu não iria proibir ele de nada. Relacionamentos saudáveis não são assim.
– Completamente cheia de razão. – concordou. – Mas… acho que você deveria tomar uma posição. Agora que sabe como se sente e que você sabe como ele se sente, não tem um único motivo para vocês fingirem que isso não existe.
– Não estamos fingindo. – retrucou. – Só… tem outras coisas envolvidas. Ele vai ficar apenas mais dois meses na cidade e esse não é o melhor momento para tentarmos algo.
– Por quê? – franziu o cenho. – Vocês vão estar há uma hora de distância um do outro. Ele vai para casa há cada 15 dias. Qual o verdadeiro empecilho que você enxerga?
suspirou. Voltou o olhar para e o encontrou olhando para ela. Espelhou o sorriso dele e então encarou .
– Não quero estragar tudo com ele.
– Já está estragando. – disse por fim e se levantou, seguindo junto de para o pier para que eles pudessem curtir o lago.
E após alguns minutos sentindo-se a pior pessoa do mundo, porque sabia que os amigos tinham razão, ela tirou os shorts e os seguiu. Pulou na água enquanto os amigos gritavam incentivo para ela e minutos depois, estava ao seu lado, com um largo sorriso orgulhoso e finalmente decidiu que estava na hora de se deixar levar. Passou mais algum tempo na água com os amigos, antes de se aproximar de e sugerir que eles sentassem no pier. Ele assentiu e a seguiu, sentando ao seu lado e oferecendo o ombro para deitar a cabeça. Observaram os amigos por um tempo, antes da garota finalmente tomar coragem. Eles tinham mais algumas horas na pousada e mais dois meses na cidade. Talvez ela fosse para a faculdade e as coisas entre ela e ficassem mais fáceis. Mas se não fosse, eles poderiam dar um jeito. E pensando nisso, se virou para e o encarou com intensidade, sentindo as mãos dele em sua cintura e a respiração acelerada contra seu rosto.
– Desculpe. – Murmurou. – Estou sendo uma idiota medrosa.
– Não seria você se não fosse, . – Ele sorriu brincalhão e a garota assentiu, porque era verdade.
– Podemos tentar não estragar tudo. – Sugeriu. – Porque eu não quero perder você, .
– Já disse que você não vai me perder. – Garantiu e beijou a ponta de seu nariz. – Nunca, .
O encarou por mais um segundo, assentindo brevemente e então colando sua boca na dele, iniciando um beijo cheio de carinho e de paixão. E enquanto os amigos aplaudiam e gritavam, eles se beijaram e só findaram o contato porque o ar lhes faltou. encostou a testa contra a de , com um sorriso feliz nos lábios que ela espelhava.
– Pensei e imaginei o gosto do seu beijo por quatro anos. – Suspirou. – Precisamos compensar esse tempo. – A encarou com diversão.
– Temos o resto do verão. – Falou. – Depois disso, algumas incertezas. Mas vamos dar um jeito.
– Tenho certeza que sim. – disse por fim, voltando a beijar a garota com a certeza de que eles fariam aquilo dar certo e valer a pena.

Fim.