Safe & Sound

Safe & Sound

Sinopse: Perder aqueles que amamos nunca é fácil, perder duas vezes acaba se tornando bem mais difícil de acreditar. Tudo nesta vida tem um propósito, já escutou aquela coisa de que é preciso alguém morrer para outra nascer? As vezes faz sentido, outras não, é preciso viver os dias como se eles fossem os últimos, porque vai chegar um momento, que realmente vai ser.
Gênero: Romance, Drama
Classificação: livre
Restrição: Somente você e o principal são interativos.
Beta: Olívia W.Z.

, você precisa respirar. – Alice disse enquanto ela fechava a mão no lençol abaixo de si sem prestar atenção no que lhe diziam a sua volta.
– O bebê não está vindo. – Isso ela foi capaz de escutar e internalizar. Ela olhava para a porta na esperança de viesse correndo por ela e a ajudasse naquele momento. Sabia que era um pensamento tolo, que talvez nem estivesse mais ali entre eles, mas queria evitar ao máximo a pensar sobre aquilo naquele exato momento. Era coisa demais para suportar.
– Preciso que pare de fazer força por um momento . – Kiara a encarou fazendo com que ela olhasse em seus olhos. concordou e suspirou no momento em que parou de fazer força. Não tinha ideia do que estava acontecendo e o porquê daquilo estar acontecendo com ela. Sempre foi uma pessoa boa, não tinha o porquê dos deuses estarem a castigando.
– O bebê esta virado, por isso não vem. – Alice disse colocando a mão dentro de . – Preciso vira-lo, se não ele vai sufocar. – conseguiu focar seu olhar na mulher em sua frente. Ela ainda tinha a voz calma, mas sabia que ela não estava nada calma, e conseguia ver aquilo por suas mãos que estavam tremendo. Ela sentia vontade de fazer força, queria gritar, pedir por ajuda, pedir aos deuses que lhe ajudassem naquele momento difícil, mas sabia que de nada adiantaria.
Foi uma dor insuportável quando viraram o bebe, ela gritou e ao mesmo tempo fez força, por mais que ninguém tivesse lhe dito para fazer aquilo, era mais forte que ela.
No ultimo instante, antes de fechar os olhos viu entrar no quarto correndo. Por uma fração de segundos tudo ficou silencioso e então ela abriu os olhos novamente.
– Você não pode me deixar aqui sozinho. – disse se abaixando ao seu lado e ela viu algumas lágrimas passeando em seu rosto. E depois ficou tudo preto e silencioso novamente. Nenhum som de bebê chorando, nenhuma voz dizendo o que ela deveria ou não fazer, nenhum grito vindo do lado de fora da casa, apenas o mais tranquilo dos silêncios.

***

O dia estava quente, estava deitada no meio das folhas como costumava fazer quando era pequena e queria ficar sozinha.
, você está aqui? – Escutou uma voz conhecida e seu coração bateu tão rápido que ela sentiu doendo em seu peito. – ? Por favor, me responda.
– Papai? – Ela levantou fazendo varias folhas saírem voando.
– Até que enfim. – Ele abriu um sorriso. Ele tinha os braços aberto e ela correu para um abraço. As lágrimas caíam de seus olhos sem pudor nenhum. nunca deixava ninguém vê-la chorando, tentava sempre ser forte por todos, mas naquele momento era diferente. Estar nos braços de seu pai a fez desmoronar.
– Isso… Isso não é real. – Ela negou com a cabeça e não teve coragem de se soltar.
– Não. – Disse ele rindo como costumava fazer. – Em partes. Nós não temos muito tempo . Preciso que me escute. – Rae fez com que a filha olhasse para ele. – Desde que você nasceu eu soube que você tinha uma missão nessa vida, e bom, essa missão ainda não foi cumprida. Eu preciso que você continue lutando.
– Mais dói tanto. – As palavras saíram de sua boca sem esforço nenhum. Ela se sentia uma criancinha novamente.
– Eu sei que dói, mas eu sei que vale a pena no final. Você ainda tem muito o que viver minha filha.
– Você também, e olha onde estamos. Não é justo viver em um mundo onde você não está.
– Nem tudo o que vivemos é justo , você sabe muito bem disso. Além do mais, sua mãe precisa de você, bem como sua irmã e agora esse bebê.
– E eu preciso de você. Todas nós precisamos.
– Eu estarei todos os dias com vocês. Mesmo não sendo mais neste corpo, todos os dias vocês carregaram um pedaço meu com vocês.
Ela voltou a se apertar mais nos braços dopai, faziam duas guerras que ele havia falecido e em nenhum dia ela deixou de pensar nele. Era estranho chegar na casa da mãe e ele não estar lá para lhe receber. Mas ela sabia que aquele era o preço de ser um soldado, e que era a única verdade da vida. Que todos iriam morrer.
– Eu preciso que você volte e lute com todas as suas forças para essa criança nascer, ela vai ser a nossa salvação. Eu dou a minha benção para que ela cresça no caminho certo e leve vitória para casa. E eu sei que os deuses estão comigo nessa.
não conseguia falar nada, seu pai apenas apertou os braços em seu redor e abriu um sorriso. fechou os olhos, sentindo o calor do corpo do pai se desfazer aos poucos, uma brisa bateu nos dois fazendo com que não só as folhas voassem, mas a cena como um todo.

***

Quando abriu os olhos estava sendo chacoalhada por que falava alguma coisa muito rápido que ela não conseguia decifrar. Na verdade fora ele ainda não conseguia ver mais nada, sua audição estava zerada. Era muita coisa para tentar assimilar. Não estava com seu pai, não de verdade, mas havia sido real, conseguia senti-lo ali com ela.
Não sabia quanto tempo depois de recobrar a consciência havia ficado em trabalho de parto. estava sentado atrás dela lhe dando apoio e deixando que seu corpo formasse uma barreira para ajuda-la a empurrar o bebê para fora. Conseguia sentir as lágrimas quentes do homem caindo em seu busto e se fosse em qualquer outro momento iria rir.
Tudo o que ela não conseguia chorar, não tinha esse problema. Era um dos homens que mais demonstrava sentimentos que ela conhecia.
– Mais um empurrão e ele estará aqui. – Kiara disse e tomou folego. apertou a sua mão em um conforto mudo e ela olhou para cima. Ele a olhava com um sorriso no rosto, as lágrimas ainda estavam caindo, ele depositou um beijo em sua testa e então ela empurrou com o que ainda lhe restava de forças.
– Você conseguiu , você conseguiu. – disse olhando para a pequena criança chorando. sorriu e deixou que as lágrimas caíssem. Estava cansada, sentia seu corpo pesando, mas a sensação de dever cumprido era maior do que qualquer coisa. Na verdade era menor do que uma coisa. Quando seus olhos encontraram os da criança seu peito transbordou de um sentimento que nunca achou que iria sentir. Era seu filho, seu mundo todo que havia acabado de ser colocado sobre seu peito.
– Ele tem os seus pulmões. – Ela disse olhando para a criança, mas falava com . Ele gargalhou e apertou ela em seus braços.
– Você fez um ótimo trabalho. – Ele depositou um beijo na testa dela e passou a mão nas costas do filho.
não viu o tempo passar, não viu ninguém indo embora, assim como não deixou que ninguém levasse seu filho dali, queria ficar com ele o quanto pudesse. Ele resmungava enquanto pegava o peito e ela olhava admirada para aquela cena. Sua vida estava completa, bem do jeito em que ela sempre pensou desde pequena. Daria o luxo de ficar feliz naquele momento, por mais que soubesse que fora daquela pequena casa o mundo estava virando de ponta cabeça, nada mais importava se não aquele pequeno bebê.
Ela embalava o bebê enquanto cantarolava a melodia de uma música. sabia que música era aquela, era triste mas era uma das mais bonitas que ele já tinha escutado, pelo menos na voz dela. Era algo entre os dois, havia cantado para ele depois da morte de seu pai. Onde ele passou alguns dias chorando sem vontade de fazer absolutamente nada, era apenas ele e sua dor. Mas foi insistente o suficiente para ele deixar que ela ficasse.
Quando começou com a letra da música, o pequeno Era parou de chorar e a encarou, pelo menos era aquilo que parecia.
– Just close your eyes, the sun is going down. – Ela começou num tom calmo ainda dando leves batidinhas nas costas do bebê. –
You’ll be alright, no one can hurt you now. – E apertou mais ele em seus braços. – Come morning light, you and I’ll be safe and sound.
– Don’t you dare look out your window
darling, everything’s on fire. – Foi a vez de começar a cantar. Ela o encarou sorrindo e ele continuou. – The war outside our door keeps raging on.
– Hold on to this lullaby, even when the music’s gone – Os dois cantaram juntos.- Gone.
E então eles cantaram mais uma vez e no final da música, ao invés de fazer um comentário como em todas as outras vezes, ela apenas sorriu e fechou os olhos, bem como o pequeno Rae em seu colo.
olhou aquela cena com um sorriso no rosto, até o momento em que percebeu que não respirava mais. Seu colo não subia e descia como antes. Rae estava parado quietinho, mas era como se ele tivesse entendido o que estava acontecendo e então abriu os olhos procurando o deu sua mãe. gritou em busca de ajuda, gritou tentando fazer acordar.
O pequeno Rae começou a chorar com todo aquele barulho, não demorou para que Kiara entrasse no quarto junto com Alice e em seguida a mãe de e a de .
não sabia quem é que havia pego o filho dali, estava tentando a todo custo fazer com que reagisse.
– Ela estava bem, estava bem até agora. Ela estava cantando. Eu não entendo. – Ele dizia olhando para Alice que estava parada ao seu lado.
– Ela teve uma hemorragia. Me desculpe. – Alice disse em um tom baixo e triste.
A cama estava ensanguentada. Era comum saber que a mulher havia morrido no parto por conta daquilo. Ela mesma havia perdido a irmã daquela maneira.
– Não. Não, isso é impossível. – caiu ao lado da cama segurando a mão da mulher. – Não era para isso terminar dessa maneira, não era para você fechar os olhos e nunca mais abrir . – Ele chorava copiosamente ali. Katerine estava atrás do filho com uma das mãos em seu ombro.
. Por favor.
– Não. Não tem por favor. Isso está errado. Alguém chame um médico, um curandeiro, qualquer coisa. Se os deuses estão vendo tudo isso porque ninguém faz nada? – Seu tom era ríspido.
– Você sabe que não funciona desta forma.
. Por favor, você não pode me deixar sozinho. Sempre foi eu e você, contra tudo e todos, eu preciso de você. Não foi assim que a gente planejou. Não foi isso que você quis dizer com essa música.
não deixou que ninguém tirasse da cama daquela noite, ele ainda tinha esperanças que de alguma forma aquilo fosse normal, e que ela fosse acordar. Ele sabia que de nada adiantaria toda aquela cena, havia perdido muitos conhecidos nas lutas por perderem sangue. Mas nada do que ele pensasse fazia aquela dor sumir, nada fazia com que ficasse mais fácil de lidar com aquilo.
Ele tinha visto desmaiar e acordar depois de um tempo, porque naquele momento tinha que ser diferente? Não entendia o porque dos deuses precisarem dela para tirarem sua vida desta forma. Ela disse que seu pai disse que a missão dela ainda não estava cumprida e que ela precisava voltar, mas se ela voltou porque precisava ir tão rápido?
Como ele ficaria ali sozinho cuidando de uma criança? Por mais que se desse bem com as crianças, todo o carisma vinha dela, toda a paciência para lidar com eles era ela que tinha, ele estava mais para um ajudante que gostava de músicas e cavalos, do que para um guardião.
– Eu não entendo qual o propósito de tudo isso, se é que existe um proposito para tal coisa, mas eu só tenho o que teve agradecer , por todas as coisas boas que você trouxe para a minha vida, e agora pela família que nós montamos. Espero que de onde você esteja olhando pela gente, veja que o pequeno Rae Thomas vai cumprir sua missão e trazer sucesso para casa, por mais que ele tenha me tirado aquilo que eu mais amei na vida, eu farei de tudo para que ele cresça sendo o melhor possível, e que ele saiba que teve uma mãe que lhe amou muito.
Quando o sol começou a nascer levantou do chão, havia passado a noite toda sentado ao lado da cama sem pregar os olhos na esperança de alguma coisa mudar, queria se agarrar a essa possibilidade apesar de parecer bem distante. Quando saiu do quarto, foi Era que seus olhos procuraram, ele estava no colo de sua irmã chorando. Não tinha ideia se ele chorou de noite, não havia escutado absolutamente nada.
Quando Becca viu o irmão ofereceu Era para que ele pegasse. não se mexeu de imediato, piscou algumas vezes antes de pegar apequena criança nos braços. Como se soubesse quem ele era, Rae parou de chorar e ficou resmungando.
– A mamãe se foi, mas você tem a mim. Eu não vou te culpar pelo que aconteceu, eu sei que ontem eu disse que você tinha tirado ela de mim, mas não é verdade. Não foi você. – Ele apertou a criança em seu peito. – A sua mãe te amava muito, mesmo em pouco tempo, todos conseguiram ver a mudança nela. Você ia ter amado ter passado mais tempo com ela, mas eu prometo que todos os dias eu te farei lembrar da mulher maravilhosa que ela era. – Ele balançava o pequeno bebê como se fizesse aquilo há muito tempo. – Ele então olhou para o bebê e sentiu seu coração disparar. Ele era parecido com , e então ele sorriu. Sabendo que tudo ficaria bem. Enquanto pudesse cuidar do filho, nada lhe faria mal, e ele tinha alguém para confiar e ficar sã e salvo.