Starlight

Starlight

Sinopse: O ano era 1968 e o Rio de Janeiro vivia sua melhor e pior década. Mas essa história não é sobre o Rio. Ou sobre a ditadura militar no Brasil e seus inúmeros males. Essa é uma história sobre sonhos, e a capacidade de continuar a sonhar quando os sonhos parecem mais distantes.
Gênero: Romance
Classificação: 12 anos.
Restrição: Os nomes Carlos, Bonifácio, Maria Luíza, Alberto e Penélope/Penny estão em uso.
Beta: Alex Russo

Capítulos:

 

UM.

 

O ano era 1968 e o Rio de Janeiro vivia sua melhor e pior década. Mas essa história não é sobre o Rio. Ou sobre a ditadura militar no Brasil e seus inúmeros males.
Essa é uma história sobre sonhos, e a capacidade de continuar a sonhar quando os sonhos parecem mais distantes. Mais especificamente, é a história de como lembra ao amor de sua vida a importância de sonhar.
Já era tarde quando desceu de sua motocicleta em frente ao Coisa Bonita, o bar e restaurante em que sua namorada trabalhava, adentrando silenciosamente o lugar depois de cumprimentar seu Carlos, o dono do estabelecimento que, como de costume, estava sentado em uma das mesas externas do bar, finalizando seu dia com uma latinha de cerveja.
já havia quase terminado, erguia naquele momento as cadeiras da última mesa, na outra ponta do estabelecimento, e não notou de imediato. Ele acabou sorrindo, sempre apreciando uma oportunidade de observar a namorada distraída, e recostou o corpo ao batente da porta de entrada, vendo-a terminar de erguer a última cadeira sob a mesa.
Para , sempre seria a mais bonita das criaturas, havia poesia em tudo que ela fazia e, mesmo que estivesse só respirando – ou limpando cadeiras –, o deixava fascinado, mas ele não pôde deixar de notar algo diferente naquele quadro. Algo que o incomodou.
— Normalmente você faz isso com música – ele comentou, finalmente chamando atenção da garota, que ergueu surpresa o olhar em sua direção, abrindo no instante seguinte um sorriso pequenininho para suas palavras.
— ‘Tô com um pouco de dor de cabeça – ela se explicou, mas sua expressão abatida não lhe deixava mentir, muito menos para , que a conhecia melhor do que ninguém. Havia mais ali.
O garoto deu uma espiada em seu Carlos por sob o ombro, checando se fazer o que queria não renderia uma reclamação a namorada, e então finalmente entrou no estabelecimento, seguindo em direção a . Quando chegou perto o suficiente, lhe abraçou pela cintura, trazendo seu corpo para perto.
— Já tomou remédio? – ele perguntou, afastando seu cabelo e fazendo um carinho em seu rosto como desculpa para analisar seu rosto um instante a mais, mas parecia querer evitar justamente aquilo, enroscando de leve a cabeça em sua mão como um gato pedindo por carinho.
— Não, faz tempo que comi, então achei melhor esperar chegar em casa e comer alguma coisa – explicou. O garoto acenou com a cabeça, porque concordava: era melhor mesmo.
— Tudo bem. É tudo preparação, hm? – sorriu ao falar, esperando trazer de volta, um pouco que fosse, o brilho que amava tanto ver nos olhos da namorada. Aquela era uma piada velha entre eles, e que sempre a confortava. Diziam que tudo que passavam agora, seus esforços para pagar suas contas com aqueles empregos tão… Mundanos, eram apenas preparo. Para quando fosse uma cantora muito famosa, conquistando palcos por todo mundo, e ator de novela. Eram sonhos joviais, muitos diriam até que impossíveis, especialmente para eles, mas eles tinham corações tão joviais quanto. E aquilo era bom, lhes dava força de espírito.
Ou, costumava dar.
sorriu fraquinho, sim, para as palavras de , mas não como de costume. Seus olhos não sorriram junto e ela sequer deu tempo para que o namorado analisasse melhor sua expressão, apertando sua mão e saindo de seu abraço rapidamente.
— Vou me trocar para irmos, ‘tá? – murmurou, e o mais velho assentiu, observando-a se afastar em direção ao espaço desconhecido por ele, para onde dava a porta detrás do balcão. Enquanto lhe esperava, trocou o peso do corpo de um pé para o outro, olhando desconfortável em volta. Aquele lugar ficava realmente esquisito tão silencioso.
— Eu também estranhei quando ela não ligou o rádio hoje – seu Carlos murmurou no batente da porta, olhando de para o estabelecimento, tão silencioso que podiam ouvir o zunido discreto do vento. – ‘Tá tudo bem com ela, garoto?
olhou da porta por onde entrara e então na direção do mais velho, concordando sem jeito com a cabeça. Sabia que não gostaria se ele compartilhasse suas preocupações com seu chefe e, aquela altura, nem mesmo sabia se tais preocupações eram válidas, de qualquer forma. Talvez ela só estivesse mesmo com dor de cabeça.
— Ela disse que é só dor de cabeça – repetiu as palavras da namorada para o senhor de barriga robusta e pele enrugada pela idade. – Tenho certeza que amanhã vai estar melhor.
Não estaria, mas não tinha como saber daquilo. Torceria, no entanto, torceria tanto… Não havia no mundo, aliás, alguém que torcesse por tanto quanto ele.
— Espero que sim. Sinto falta de ouvi-la cantar baixinho junto com o rádio quando acha que ‘tá sozinha – o mais velho confessou, com carinho na voz e sorriu, compartilhando do sentimento. Ele fazia a mesma coisa. – Sua garota tem uma voz muito bonita, meu filho.
assentiu logo que ouviu, orgulhoso como se o elogio fosse para ele, mas aquela era apenas outra coisa sobre eles: compartilhavam vitórias, além de suas vidas.
— Tem sim – murmurou, com um sorriso que nunca seria capaz de conter. O talento de sua namorada só não era o que ele mais amava nela porque havia seu coração, cada uma de suas manias e o sorriso que combinava tanto com o seu.
voltou pela mesma porta de onde saíra um segundo depois, segurando a bolsa num dos ombros e sorrindo pequenininho para seu Carlos ao se aproximar de .
— Tudo pronto aqui, seu Carlos – avisou. O mais velho assentiu.
— ‘Tá ótimo, minha filha. Vá descansar – ordenou, o tom paternal fazendo tanto quanto sorrirem enquanto o garoto a abraçava de lado.
— Vamos – sussurrou para ela, beijando seus cabelos e concordou em silêncio, permitindo que o namorado a arrastasse para fora, cansada o suficiente para querer apenas se enroscar nele até dormir. Duvidava, ainda assim, que fosse conseguir. Tinha tanta coisa na cabeça…
subiu na moto primeiro e esperou que passasse os braços ao redor de sua cintura, encostando a bochecha em suas costas como sempre fazia, para enfim, dar a partida. O vento frio lhes atingiu os rostos de maneiras diferentes, mas igualmente bem vindas. Para , era revigorante depois de um dia dentro da oficina quente onde trabalhava. Ele sempre fora bom em ser grato pelas coisas pequenas. Para , porém, era só um bom artifício para secar as lágrimas teimosas que brotavam no canto de seus olhos. Ela não era tão boa quanto ele.

A casinha onde e moravam não era muito grande e tinha inúmeros defeitos, mas era deles. Aquilo tornava o lugar o mais aconchegante no qual já tiveram o prazer de estar. E tudo lá tinha sua essência, a essência deliciosa de sua mistura.
Quando o pai de morrera, deixou apenas aquela casinha para o filho, com o acabamento por completar. O garoto cuidou daquela parte quando saiu de casa, desolada pelo pai, usuário de drogas, tê-la espancado. se lembrava daquele dia, mas não pelas marcas roxas pelo rosto e corpo da garota, ou pelo choro, mas pelo modo que ela sorriu quando, deitado com ela na caminha pequena de solteiro que era tudo que ele podia pagar na época, prometeu ficar ali com ela para sempre. Foi quando ele descobriu o tamanho da força dela.
O modo como suas vidas se misturara numa coisa só a partir daquela noite fora natural, tão natural que chegava a ser engraçado. Eram jovens, mas nunca tiveram qualquer tipo de atrito ou briga que casais de sua idade costumavam ter. Talvez fosse suas histórias, tudo que passaram antes um do outro. Tudo que sofreu presa a um pai que não sabia amar e tudo que aprendeu ao perder seu pai, que o amava muito, mas se foi cedo demais. Talvez a dor deles carregasse parte da responsabilidade pela maturidade com que levavam suas vidas, talvez fosse simplesmente quem eles eram juntos… O brilho que compartilhavam, em seus olhos e em seus corações.
De qualquer jeito, o que fosse, estava em tudo naquela casinha, na casinha deles. Estava no cheiro que impregnava o sofá em especial, onde se amavam mais do que na cama, o cheiro que era a mistura tão gostosa dos dois. Estava na vitrola que cuidavam como de um filho em seu pequeno altar no canto da sala, nos vários discos espalhados perto dela e em como havia sempre uma música vinda dali. Gostavam tanto de música. Estava, também, na cozinha quase nunca abastecida, mas berço de algumas de suas memórias favoritas: puxando para dançar consigo enquanto lavavam a louça, todas as vezes que se amaram na mesa velha de madeira dali, e todas as vezes que passaram horas limpando o cômodo e trocando olhares como se partilhassem um segredo, ainda que não houvesse mais ninguém ali com eles.
Estava, enfim, em seu quarto. Na mistura aconchegante de amarelo e vermelho que tomava o ambiente quando a luz do sol refletia nas cortinas finas, e no modo como, toda noite, enquanto dormia, o corpo de buscava pelo de na cama deles, trazendo-a sempre para perto de si. E em como ele sempre acordava quando não a encontrava ao alcance de seus braços.
Como naquela noite.
coçou os olhos de maneira ainda sonolenta tão logo notou a ausência de na cama deles, se pondo de pé para ir a sua procura. Terminou por encontrá-la na cozinha, sentada numa cadeira de frente a velha mesa de madeira deles, cercada de papeis e uma calculadora, iluminada pela luz amarelada da lâmpada acima de sua cabeça. O garoto coçou os olhos novamente e se aproximou, procurando entender o que ela fazia.
? – chamou com um bocejo, parando atrás dela, as mãos rapidamente encontrando os ombros tensos da namorada. Seus corpos pareciam sempre tão conectados que, ás vezes, suas mãos pareciam saber antes dele o que fazer para tê-la se sentindo melhor.
A garota ergueu o olhar para ele, lhe dando um sorriso pequenininho. Seu bocejo e o cabelo apontando para direções diferentes eram visões que sempre arrancavam suspiros de amor da garota, mas não naquela noite. Ela estava tão cansada.
— Não queria te acordar, amor. Pode voltar pra cama – murmurou, puxando uma das mãos sob seus ombros e beijando os dedos longos e sempre tão quentes dele.
— O que você ‘tá fazendo? – ele perguntou, ignorando suas palavras. sabia tanto quanto ele, afinal, que não havia chances do garoto voltar para cama sem ela.
A garota suspirou.
— Só algumas contas – confessou, contrariada. Não queria preocupá-lo com aquilo como sabia que faria se falasse. continuou apenas lhe encarando, como se esperasse por algo mais e a garota suspirou. – Seu Carlos me ofereceu uma promoção, – contou, a voz neutra como ele jamais saberia soar. – Meu salário aumentaria um pouco, então pensei que poderíamos pintar a casa, talvez comprar uma geladeira nova, mas… – ela se interrompeu e não precisou de muito mais para entender o que ela não estava dizendo. Mas teria que abrir mão da música.
O maior sonho de era cantar, e ela era boa naquilo, talvez melhor que muitos dos artistas nos discos que tanto amavam, mas nada era fácil para uma mulher pobre no Rio de Janeiro em regime militar, não importava quão talentosa ela fosse. Era aquilo, então. A falta do brilho nos seus olhos mais cedo residia ali, bem ali: estava pensando em desistir.
O simples pensamento fez o coração de parecer dilacerar em seu peito.
— Nossa casa não é tão feia. E a geladeira ainda funciona – ele pontuou. suspirou desgostosa, olhando em seus olhos por um instante, e então para todos os papeis e números ao seu redor.
— Eu estou cansada – ela confessou e apertou um pouco os dedos em sua pele, como se seguisse um comando. Se ela estava cansada, cuidaria dela. Sempre e sempre. – Tem sido tão difícil, . E seria… Seria fácil, sabe? – o encarou, demonstrando culpa por simplesmente pensar naquilo. – Seria tão fácil simplesmente me acomodar. O seu Carlos me trata bem, eu sei fazer tudo que preciso lá no Coisa Bonita, é fácil e seguro…
— Você não nasceu pro fácil. Ou pro seguro – lhe interrompeu, beijando sua bochecha com carinho quase liquido. – Você nasceu pra amar o que faz, . Pra fazer algo que ame tanto que faz seu coração pulsar. – o tom de sua voz era simples, e só um tantinho condescendente. Apenas o tanto que ela permitiria sem se magoar, o necessário para que ela parasse de pensar besteiras e só se enroscasse nele e buscasse dentro dele as forças que precisava pra continuar a lutar.
— Ugh… – choramingou exausta e triste enquanto jogava o corpo para frente, descansando a cabeça na mesa. sorriu um pouquinho, afastando seus cabelos das costas para beijar a região parcialmente exposta pela camisola, arrancando um gemidinho da garota, tanto pelo prazer que o carinho sempre lhe injetava quanto porque, céus, como podia alguém merecê-lo?
O garoto apenas sorriu contra sua pele, subindo os beijos por sua nuca até sua orelha, beijando atrás dela e então afundando o queixo em seu ombro.
— Vamos pra cama, amor – pediu, puxando-a lentamente para seus braços, de modo a passar ele mesmo os braços dela por seus ombros e a garota abriu um sorrisinho com os olhos ainda fechados, permitindo que ele a carregasse para a cama enquanto escondia o rosto em seu pescoço, se enroscando nele como amava fazer assim que os deitou juntos na cama. — Eu prometo que as coisas vão melhorar – ele falou quando pousou a testa sobre a dela, lhe beijando carinhosamente em seguida.
não podia, de fato, prometer aquilo, mas prometera. E ele nunca quebrava uma promessa.

DOIS

 

A oficina onde trabalhava não ficava muito longe do Coisa Bonita, de forma que vez ou outra pedia ao seu Bonifácio, dono do estabelecimento, que lhe liberasse por alguns minutos para ver . Normalmente, era no horário de almoço. Seu Bonifácio gostava de , então sempre liberava, e quase nunca pedia também. Mesmo naquela semana, se esforçando para ajudar com a crise de confiança pela qual a garota passava, era a primeira vez que ele pedia. Chatear seu Bonifácio e correr o risco de perder o emprego não ajudaria em nada e sabia bem daquilo, assim como também sabia que ir atrás de sem nenhum pretexto convincente só lhe faria sentir vigiada e ela não gostava daquilo.
Por sorte, naquele dia, tinha o melhor dos pretextos.
Era 28 de Dezembro e o Rio de Janeiro estava um verdadeiro alvoroço. Era inicio de verão e fim de ano, havia, portanto, uma poesia crescente no encontro do inicio e do fim que sempre acontecia no Brasil naqueles últimos dias do ano e gostava de observar. Era bom em se distrair observando as pessoas ao seu redor e a atmosfera que constantemente ajudavam a criar, assim, tomou um instante compenetrado á vista da praia de Ipanema, que ficava a apenas alguns passos do Coisa Bonita.
Honestamente, não sabia como conseguia se concentrar no trabalho. podia muito bem passar o dia inteiro observando as pessoas na praia e as pessoas na Coisa Bonita, que compartilhavam um lirismo único. Sorrisos no rosto, risadas fáceis… Era Bonito.
“São assim porque não têm nossas preocupações, era o que diria se soubesse o que ele pensava, mas não pensava assim. Acreditava que todo mundo tinha problemas, desafios e medos e comparar não era de qualquer utilidade. Mas, talvez só pensasse assim porque a vida lhe maltratara menos do que fizera com . Vai saber.
— Seu Carlos – cumprimentou com um aceno ao entrar no estabelecimento.
O mais velho lhe deu um pequeno sorriso.
está almoçando, meu filho. Você sabe o caminho – apontou, vendo o mais novo menear com a cabeça antes de seguir em direção a mesa solitária que ficava na cozinha. Era onde os funcionários, em horários diferentes, costumavam almoçar. Seu Carlos não tinha tanta ajuda assim, ele administrava o lugar e cuidava do caixa, tinha uma cozinheira e mais duas garçonetes, além de . A equipe era pequena, mas tinha um entrosamento muito bom e aquilo devia ser essencial para o trabalho que faziam ali, especialmente naquela época do ano, em que o Coisa Bonita estava sempre tão cheio.
! Que bom te ver, querido! – Maria Luíza, a cozinheira, sorriu assim que o viu adentrar a cozinha e sorriu também, mais discretamente, já que tinha a boca cheia naquele momento, sentada sozinha na mesa de plástico no canto da cozinha.
— Dona Maria Luíza – cumprimentou a mulher, sorrindo educado enquanto curvava a cabeça em sua direção, mas a verdade era que seu coração parecia pronto para a maior das travessuras, se aquecendo com pulos exagerados em seu peito. Não pela cozinheira, é claro. Mas podia ouvir baixinho a vitrola soar em algum canto da cozinha e sabia que aquilo era coisa de .
Queria sorrir, queria sorrir tão largo. Ela estava ouvindo música outra vez, deixando aquela que costumava ser sua melhor amiga voltar a fazer parte de seu cotidiano. teve um bom pressentimento.
— Eu vou ver se as meninas lá fora precisam de ajuda… – Maria Luíza riu, lançando um olhar esperto para depois de passar pelos dois e acabou deixando escapar uma risadinha também por isso, se aproximando da namorada e puxando outra cadeira de plástico para o lado dela, sentando-se ali.
— Você já comeu? – perguntou, o encarando com um meio sorriso nos lábios cheios que ele amava. Não mostrava os dentes, mas não se importava. Era um sorriso. Ele estava com tantas saudades de seu sorriso.
— Não, eu pedi ao seu Bonifácio que me liberasse pra te ver – confessou. Ela deu uma risadinha, lhe estendendo o garfo com arroz temperado e peito de frango grelhado. O garoto abriu a boca e deixou que ela colocasse a comida lá dentro em seguida, olhando em seus olhos e sentindo o peito quente de maneira terna em notar, feliz da vida, como brilhavam. Meu Deus, como a amava. – Está ouvindo Roberto Carlos – zombou quando engoliu a comida e a garota riu, sabendo o que viria. Era , afinal, quem sempre zombava por apreciar as letras melosas de Roberto Carlos. Ela gostava de se sentir superior por gostar das letras complicadas de Chico Buarque, o que achava engraçado, já que ninguém cantava sobre amor melhor do que .
— Me lembra você – ela o desarmou de qualquer que fosse a piadinha que planejava fazer, lhe lançando um sorrisinho esperto ao tocar seu nariz e apertar a pontinha. – Tudo que é seu, meu bem, também pertence a mim… – cantarolou, acompanhando a música que acabava de começar na vitrola e apoiou o rosto numas das mãos, feliz de assistir. Para ele, era sempre uma benção quando cantava para ele, mesmo que zombando de seu apreço por certo tipo de música ou o que fosse. riu, pigarreando antes de continuar, lhe apontando o garfo com um sorriso divertido no rosto. – Vou dizer agora tudo, do principio ao fim. Da sua cabeça até a ponta do dedão do pé, tudo que é seu, meu bem, é meu, é meu, é meu… acabou rindo pelo modo como ela tocou sua cabeça ao cantar sobre ela, o tom doce e normalmente arrastado de sua voz soando ainda mais bonito quando tentava apenas entretê-lo. – A começar pelo cabelo, que coisa mais linda! Boca e sorriso, não encontrei igual… riu quando lhe interrompeu segurando seu rosto nas mãos e lhe roubando um beijo apaixonado. – ! – ela bronqueou, estapeando seu peito, mas ainda ria e ele apenas roçou seus narizes por um instante, estupidamente embebido de amor.
— Eu amo você – falou simplesmente, sorrindo ao se afastar e puxar do bolso o panfleto que estava ansioso para mostrar a ela. Seu pretexto. – E tenho algo pra você.
— Uhhh – se endireitou no lugar, alinhando-se muito rapidamente ao ar de expectativa que vinha dele. – O que é isso? – perguntou, desdobrando o panfleto assim que ele lhe entregou, os olhos atentos correndo pelas informações contidas nele.
As coisas não aconteceram como esperava depois disso. O sorriso de murchou ao passo que ela apertava os lábios, balançando contrariada a cabeça e respirando fundo enquanto devolvia o papel a , o encarando como se pedisse desculpas.
— O que foi? – perguntou sem entender coisa alguma.
— Eu vou trabalhar nesse dia, não posso – ela murmurou de maneira simples, mas já se levantava, pronta para fugir da discussão que sabia que viria. olhou por sob o ombro, acompanhando com o olhar enquanto a garota seguia em direção a vitrola, tirando o vinil dali e guardando em sua capa.
, a gente pode falar com o seu Carlos, tenho certeza que…
— Não, – a garota o interrompeu rápido, virando para encará-lo bem a tempo de vê-lo já de pé, indo em sua direção. Se sentia tão pequena diante das expectativas que não parecia se dar conta que colocava sobre ela, odiando pensar em como o estava decepcionando. Mas não seria pior ainda depois? Se tudo desse errado e precisasse voltar pro Coisa Bonita? Quer dizer, não era melhor continuar ali e poupá-los de todo o desgaste? – Eu não quero mais fazer isso, amor. Esses testes nunca dão certo. – A garota empurrou muito delicadamente o panfleto a respeito de uma audição para uma peça musical em direção ao peito do namorado quando ele se aproximou, já pronto para estendê-lo em sua direção e argumentar que ela precisava tentar, que o que nascera para fazer e… Bem, conhecia o discurso. Só não parecia mais surtir o mesmo efeito.
fez que não com a cabeça, sentindo o peito doer simplesmente por pensar naquilo. Que ela ousava deixar de acreditar em si, em seu sonho, que sabia ser seu destino. – Não fala assim, amor. As coisas vão acontecer pra você, tudo vai mudar…
— Certo. Tudo bem, que aconteçam. Eu vou esperar, mas estou cansada de criar expectativas e as coisas só darem errado, então não vou mais criar. Eu vou continuar vivendo minha vida e fazendo o que é seguro, vou aceitar a promoção que o seu Carlos me ofereceu e…
— Não! – arregalou um pouco os olhos quando lhe interrompeu, arqueando as sobrancelhas diante do sobressalto do namorado, que balançou a cabeça. – Não fala com ele ainda, por favor.

— Por favor – ele insistiu. – Só me promete que vai esperar um pouco.
— Esperar o que? , ele pode oferecer a promoção a uma das outras meninas e…
— Ele não vai, não até ter uma resposta sua – garantiu, lhe interrompendo outra vez. – Sabe que é verdade, . Você é a mais dedicada, a mais confiável e…
— Certo – foi a vez da garota interrompê-lo, suspirando pesado porque lhe doía mais do que podia ou devia admitir ouvir citando todo os motivos pelos quais era uma ótima garçonete. Deus… O que estava fazendo?! — Tudo bem. Eu prometo – falou ao namorado, tentando parar de pensar naquilo tudo. Estava tendo um dia bom, afinal.
— Ótimo. – lhe deu um sorriso com tanto amor quanto sempre. Ele sempre parecia ter todo amor do mundo para , e beijou sua testa antes de se afastar. – Preciso ir. Te vejo a noite? – perguntou e a garota assentiu, então ele roubou um beijo rápido em uma de suas bochechas e se afastou, correndo pra fora dali e se despedindo de seu Carlos e dona Maria Luíza brevemente e então indo de encontro a sua moto, a caminho novamente da oficina de seu Bonifácio.
Não sabia ainda, na verdade, o que faria para convencer a não desistir, porém sabia, sem sombra de dúvidas, que faria algo. Não aceitaria não fazer.

 

TRÊS

Era dia 31 de Dezembro.
Normalmente, trabalhava na última noite do ano. As gorjetas nunca eram tão boas quanto no dia 31 de dezembro, porém insistira que ela conversasse com seu Carlos e pedisse a folga.
não tinha ideia do que ele planejara, mas estava tentando evitar pensar muito sobre aquilo. a conhecia como a palma de sua mão, não se preocupava que ele pudesse fazer qualquer coisa que lhe degradasse, mas havia uma parte dela preocupada que ela terminasse o desagradando. Sabia que tinha esperanças para seu futuro, sonhos, grandes sonhos. Ela também costumava ter, costumavam fantasiar juntos deitados em sua cama apertado, com as pernas entrelaçadas e os olhos sonhadores presos um no outro como se nada mais importasse. E nada mais importava mesmo, mas… Tudo parecia diferente agora.
Mais um ano estava terminando e vinha se acostumando a ouvir que ‘não era o que procuravam’ depois de uma audiência para qualquer trabalho como cantora. Não devia ser de se espantar realmente que ela começasse a acreditar naquilo, que nunca seria nada do que procuravam. Que, no fim das contas, não era uma cantora. Não importava o quanto amasse cantar, não havia nascido para aquilo, no final das contas.
Só queria que visse aquilo de uma vez, que pudessem seguir em frente e esquecer o que era, claramente, apenas um sonho. E, céus, queria mais do que tudo que ele não deixasse de amá-la por isso.
— Amor? – a voz do garoto fez com que erguesse o olhar, vendo recostar o corpo ao batente da porta do banheiro, onde até então ela encarava o próprio reflexo no espelho velho e pequeno que era o único que tinham. Como eram só os dois, raramente fechavam aquela porta, ou a de qualquer cômodo. Onde um estava, o outro era sempre bem vindo. – Já está terminando?
— Uhum. – ela sorriu, jogando um pouco de água fria no rosto e saindo do banheiro, o abraçando pela cintura e sorrindo quando ele segurou seu rosto entre as mãos e juntou seus lábios num beijo tão carinhoso quanto qualquer outro que trocavam. – O que foi?
— Quero te mostrar uma coisa – sorriu, estendendo a mão para a garota, que ignorou a pontada de preocupação que fez seu peito apertar diante das palavras do namorado e aceitou sua mão, deixando que ele a guiasse até o quarto. Na última semana em especial, não vinha sendo capaz de evitar aquilo, aquela preocupação irracional sempre que sorria daquela forma, com expectativa. Tinha tanto medo de frustrá-las por completo e perdê-lo…
— O que é isso, ? – perguntou quando enfim entraram no quarto e se deparou com um vestido tão bonito que sequer parecia com qualquer coisa que ela já houvesse visto ao vivo.
— É pra você. – ela pôde ouvir o sorriso na voz de quando ele falou, mas não virou para encará-lo, se aproximando boquiaberta da peça de roupa. O vestido era vermelho, justo em toda a região do abdômen, com um decote enfeitado com jóias cintilantes e uma saia inflada, rodada. Era o tipo de roupa que a realeza usava, princesas e rainhas. – Bom, é emprestado, na verdade. Mas não pode me perguntar mais sobre isso por enquanto, por favor. – ele fez bico, ligeiramente culpado, tão logo os olhos desconfiados da garota encontraram os seus e acabou soltando uma risadinha por isso, balançando a cabeça e erguendo o vestido da cama para olhá-lo melhor, sentir o tecido tão vivo nas mãos.
Meu Deus… Ela nunca vira uma roupa tão bonita, que brilhasse aos olhos como aquele vestido.
— E pra que isso? – perguntou enfim, virando novamente para encarar o namorado. – Eu não tenho onde usar uma roupa assim, .
— Essa é a outra parte da surpresa – ele sorriu, aquele sorriso de quem guardava um segredo que, na exata mesma proporção, fazia querer agarrar seu rosto e enchê-lo de beijos, mas também grunhir e querer enforcá-lo por não lhe contar de uma vez o que quer que escondia dela. A garota o encarou contrariada e deixou seu sorriso aumentar, aproximando-se dela e segurando seu rosto novamente nas mãos. – Eu vou sair e… – ele parou para rir tão logo resmungou, inconformada, para suas palavras. – E eu volto logo. Prometo. Volto logo pra revelar a outra parte da surpresa. Se arrume, ok? – o tom do garoto era tão brincalhão quanto calmo, aquele mesmo tom que nunca falhava em relaxar instantaneamente cada célula do corpo de , que revirou os olhos, o odiando por sempre conseguir o que queria dela.
Exceto que, bem, mesmo quando o odiava, o amava. O amava tanto.
— Tudo bem. – cedeu enfim, puxando-o pelo braço quando fez menção de se afastar. – Você não demora, não é? – perguntou e ele sorriu, fazendo que não e beijando sua testa enquanto afastava delicadamente as mãos dela de si.
— Eu prometo que não.
E se afastou, correndo pra fora do quarto – e da casa – antes que o fizesse ficar mais e arrancasse dele o que estava lhe escondendo. Ele era péssimo naquilo, aliás, em guardar qualquer segredo dela e sabia daquilo tanto quanto ele, motivo pelo qual nem mesmo tentava estragar as raras tentativas de surpresa do namorado. Elas eram sempre boas, afinal.

Quando voltou, já era noite e já estava tão impaciente quanto agoniada. Estava pronta pra xingar e bater nele por demorar e deixá-la preocupada, quando dissera que estaria de volta logo, quando prometera, mas… Quando abriu a porta, tudo sumiu.
se esqueceu que estava brava, e de qualquer outra coisa, qualquer coisa que não fosse , tão absurdamente lindo de terno e gravata bem na sua frente. Seu cabelo castanho claro penteado para trás com laquê e tão, tão bonito. Meu Deus.
! – exclamou, tampando a boca que por nada era capaz de fechar e arrancando uma risadinha do namorado, que puxou sua mão.
— Estamos atrasados, vem – chamou e teve tempo apenas de puxar a porta de casa antes de ser arrastada por ele para fora dali.
— Atrasados pra que? – ela perguntou enquanto continuava a lhe arrastar, agora em direção a um automóvel preto e lustroso, abrindo a porta para ela e fazendo sinal para que a garota entrasse.
— Você vai saber logo. Vai, entra – ele ordenou, com um sorriso largo e cheio de promessas no rosto. não pôde não se deixar contaminar pela alegria crescente que ele emanava, sorrindo pequenininho ao entrar no carro, o encarando ainda desconfiada. apenas sorriu mais por isso e entrou logo depois, fechando a porta atrás de si. – Pode acelerar, seu Bonifácio!
— É pra já, garoto! – o chefe de , dono da oficina onde ele trabalhava, lhes mandou um sinal de “legal” e então, realmente, acelerou, fazendo com que precisasse se segurar banco da frente, arrancando um risinho de .
Ela o olhou tão confusa quanto desconfiada.
— O que ‘tá acontecendo? Seu Bonifácio agora é seu motorista? E que carro é esse? – desandou a perguntar, mesmo que normalmente fosse mais fácil se deixar levar pelas surpresas de . Aquela estava miraculosa demais, até para ele.
Rindo, beijou entre as sobrancelhas da garota, buscando desfazer a ruga que se plantava bem ali.
— Você vai saber logo – prometeu novamente, virando para olhar pela janela e dando assim aquela conversa por encerrada. bufou, virando contrariada para olhar pela janela ao seu lado, mesmo que apenas para ter sua carranca aumentando ainda mais quando seu Bonifácio rio dos dois.
Pelos céus, o que estava aprontando?!

Quando seu Bonifácio estacionou, estavam no Porto do Rio de Janeiro e agradeceu ao mais velho pela carona, correndo para abrir a porta de antes que ela o fizesse e arrancando outra risadinha de seu Bonifácio por isso. Aquele … Valia ouro, era isso.
— Foi só uma carona. – murmurou diante do olhar inquisitivo de quando ele a ajudou a sair do carro, rindo quando a expressão dela permaneceu a mesma e roubando um beijinho em sua bochecha. – Você está linda. – elogiou, só então tomando um momento para admirá-la naquele vestido e, céus, sob a luz das estrelas ela parecia exultante. podia passar a vida olhando.
— É uma pena que ainda não sei para que, não é mesmo? – ela resmungou, arrancando mais uma risadinha dele e precisou morder o próprio sorriso diante do som que gostava tanto. Droga de garoto abusado com a risada perfeita.
— Pra comemorar o ano novo, . – respondeu com ar de obviedade que fez rolar os olhos. – Aqui, nós só podemos falar em português um com o outro, ok? E não muito alto. – ele avisou enquanto arrastava para uma pequena fila de pessoas, uma fila que dava para um iate muito branco e bonito. Nele, estava gravado: Mother Mary. – Seu nome é Penélope, mas prefere ser chamada de Penny, e você é a duquesa de Mônaco. Eu sou o príncipe Alberto. – continuou a falar aos sussurros e franziu ainda mais o cenho.
— Que maluquice é essa, ?!
— Shiu! – bronqueou – Príncipe Alberto. – repetiu entredentes e rolou os olhos, fazendo sinal para que ele se explicasse de uma vez. O garoto suspirou. – É a surpresa, . Por algumas horas, vamos ser pessoas diferentes, com vidas diferentes. – ele explicou e, mesmo ainda não completamente convencida, não perguntou mais nada. Havia um limite para a quantidade de informações que podia absorver num período tão curto de tempo, afinal.
E, de qualquer forma, nem que quisesse tinha tempo de perguntar qualquer outra coisa. se comunicou em inglês com a mulher na entrada tão logo chegou a vez deles de passar pela segurança e, assim, num piscar de olhos, estavam dentro do iate Mother Mary. Como se realmente fossem o Príncipe Alberto e a Duquesa Penélope.
O mais absurdo? Daí em diante, a noite só pareceu melhorar.
Beberam e dançaram, riram, trocaram beijos e carinhos e, meu Deus, nem se lembrava da última vez que se sentiu tão relaxada. Tão viva e tão… Bonita, foi a palavra que veio em sua cabeça quando ergueu seu corpo do chão e a fez girar no ar enquanto dançavam e, de relance, viu o próprio reflexo girando vermelho e cheio de vida e brilho. Quando a pôs no chão e seus olhares se encontraram, quando ela se viu pelos olhos dele, sentiu o coração acelerar e martelar forte no peito.
— Você vê agora? – ele perguntou, envolto junto com ela num daqueles momentos que era tão deles, onde não precisavam de muito para que seus pensamentos se alinhassem. Como se fossem uma coisa só. – Você é capaz de tudo.
podia muito bem cair no choro bem ali, naquele belo vestido vermelho que não era dela, com o peito prestes a explodir de amor e gratidão. Não caiu, no entanto, pois logo ouviu chamarem por Princesa Penélope, pedindo que, por favor, lhes agraciassem com seu espetáculo. Ela teve tempo apenas de olhar por sob o ombro antes que mãos a puxassem em direção ao palco, e arregalando os olhos enquanto era arrastada para longe de , sentiu o coração acelerar novamente.
Queriam que ela cantasse?!
lhe encarou com um sorriso assim que a garota chegou ao palco e lhe estenderam um microfone, lhe dando a força e coragem que precisava mesmo de longe. Imediatamente, como costumava acontecer sempre que ele sorria pra ela, se sentiu relaxar.
— Duquesa? O que vai cantar? – o maestro atrás dela perguntou em inglês, chamando sua atenção e levou um instante para traduzir suas palavras e entender o que ele queria saber, olhando novamente para e então sendo agraciada com a resposta perfeita para aquela pergunta.
Cant take my eyes off you – pediu, vendo o maestro assentir e avisar ao resto da banda de sua escolha.
Antes mesmo que ela começasse a cantar, as pessoas lhe assistindo já sorriam, embaladas pela melodia conhecida, que levou os casais a formarem pares e se juntarem para dançar coladinhos. , porém, não se moveu, encarando no palco como se ela fosse a única coisa que importava. Para ele, era mesmo.

You’re just too good to be true [Você é bom demais pra ser verdade]
Can’t take my eyes off you [Não posso tirar meus olhos de você]
You’d be like heaven to touch [Tocar você seria como tocar o céu]
I wanna hold you so much [Eu quero tanto abraçar você]
At long last love has arrived [O amor enfim chegou]
And I thank God I’m alive [E eu agradeço a Deus por estar viva]
You’re just too good to be true [Você é bom demais pra ser verdade]
Can’t take my eyes off you [Não posso tirar meus olhos de você]

Exclamações satisfeitas se fizeram ouvir tão logo a voz doce da garota soou arrastada, amplificada pelo microfone que ela segurava, e sentiu o peito vibrar mais uma vez. Era tão surreal, céus. Estava cantando. Estava cantando para uma platéia, uma platéia de verdade. E estava indo bem.
Desviou o olhar para e, caramba, se sentiu exatamente como nas palavras de amor que cantava. Ele era bom demais para ser verdade. Não podia tirar os olhos dele. Não queria tirar os olhos dele, ou sair de seus braços. E agradecia a Deus, no fim das contas. Mesmo com tudo de ruim que lhe acontecera, com todos os traumas, agradecia porque, naquele momento, estava ali com . E o amava tanto.

Pardon the way that I stare [Desculpe pelo modo como eu olho]
There’s nothing else to compare [Não tem com o que mais comparar]
The sight of you leaves me weak [Sua vista me deixa fraca]
There are no words left to speak [Não tem mais o que dizer]
But if you feel like I feel [Mas se você sente o que eu sinto]
Please let me know that it’s real [Por favor, me deixe saber que é real]

E foi quando ela entendeu. Não era exatamente aquilo que estava tentando fazer? Provar que era real? Que se era capaz de sentir tanto amor quanto sentia por ele, e de cantar sobre aquele amor, e se entregar tão completamente a tudo que sentia por ele daquele modo tão, tão bonito, então… Então era capaz de tudo. E, lá estava ela, sendo capaz. Cantando como se fosse uma duquesa, e agradando a todos como se fosse uma cantora.
A batida da música acelerou um pouco e pediu ajuda a um rapaz ali perto para descer do palco, continuando a cantar enquanto costurava entre as pessoas, indo em direção a , que não ousou tirar os olhos dos seus enquanto a assistia se aproximar.

I need you, baby [Eu preciso de você, baby]
And if it’s quite alright [E se tudo bem]
I need you, baby [Eu preciso de você, baby]
To warm a lonely night [Para aquecer uma noite solitária]
I love you, baby [Eu te amo, baby]
Trust in me when I say it’s okay [Confie em mim quando digo que tudo bem]
Oh, pretty baby [Oh, meu lindo amor]
Don’t let me down, I pray [Não me decepcione, eu oro]
Oh, pretty baby, now that I found you, stay [Oh, lindo amor, agora que te encontrei, fique]
And let me love you, oh baby [E me deixa te amar, oh baby]
Let me love you, oh baby [Me deixe te amar, oh baby]

Era quase 00h. Quase 1969.
Os dois haviam saído às pressas do iate porque, mesmo que a festa estivesse incrível, que lhes houvesse feito tão bem, não era onde queriam virar o ano. Queriam virar o ano com o pé na areia, acompanhados das estrelas que cintilavam tão bonitas no céu.
O mundo, afinal, o lado de fora, era o lugar deles. Sempre fora assim. E ria só de pensar em si mesma sugerindo que pintassem a casa e comprassem uma nova geladeira, como se aquilo fosse importante. Não era. A coisa mais importante do mundo para eles era seus sonhos, ela se lembrava agora. lhe lembrara.
tirou o paletó e o pôs sob a areia para que sentasse, já que não podia estragar o vestido que não era dela e, quando ela se ajeitou, foi comprar duas latinhas de cerveja para eles. Voltou pouco tempo depois, se apertando com a namorada em cima do paletó e abrindo uma latinha para si e uma para ela, lhe estendendo a bebida com um sorriso no rosto. Ela sorria também, tão bonita e viva… Tão genuinamente feliz que, céus, se sentia tão grato que tudo dera certo. Era só o que queria que acontecesse, afinal. Só aquilo, só sua felicidade.
— Eu conversei com o seu Carlos – admitiu, fazendo olhar surpresa em sua direção. Não chateada, só surpresa. – Não tomei nenhuma decisão por você, eu só… Sugeri algo diferente. E falei que eu mesmo conversaria com você, se ele concordasse. – explicou, com o olhar ligeiramente curioso de sob si. – Ele concordou, . Depende de você.
— O que… O que depende de mim? – a garota perguntou baixinho, não encontrando coragem para falar muito mais alto. Era aquilo, afinal. O momento decisivo. O final do filme. A grande decisão.
— Seu Carlos está disposto a tê-la como gerente e como cantora. Você faria alguns shows, duas, talvez três vezes por semana, no Coisa Bonita, decidiria seu repertorio, tudo. Não teria mais que servir mesas e o ajudaria com os negócios, como ele queria… – se calou diante do silêncio – e do olhar indecifrável – da namorada, um tanto preocupado. – ?
. – a garota reclamou com a voz embargada, fungando quando o encarou e a visão dos olhos vermelhos arrebatou de uma só vez. – Eu não acredito em você! – o estapeou, meio rindo, meio chorando, e o garoto riu, a puxando pra si e abraçando de lado.
— Eu entendo que queira sentir que nossa vida está melhorando, . E entendo que queira pintar nossa casa e trocar nossa geladeira, que queira ter comida em casa o tempo todo. – riu – Não é pedir demais, mas eu não quero que pense que tem que abrir mão do seu sonho para ter essas coisas. Eu vou estar aqui o tempo todo e prometo te ajudar, podemos ter os dois.
balançou a cabeça, fungando para parar de chorar diante do quão perfeito era o homem que amava. Meu Deus… Por , ela teria tudo. Era inacreditável.
Olharam juntos para o céu com a gritaria que anunciou a virada do ano, sorrindo para a queima colorida de fogos que enfeitava o céu da maneira mais bonita possível.
1 de Janeiro de 1969. Tudo ia mudar. Aquele ano seria bom, eles sabiam.
— Eu te amo. – finalmente falou para , sorrindo para ele em meio a queima de fogos. Seu próprio espetáculo estava bem ali, bem ao seu lado, afinal de contas. Não precisava olhar para o céu.
sorriu e beliscou brevemente seus lábios com os dele.
— Eu também te amo. – declarou, acariciando sua bochecha com o polegar. – Você estava linda lá, cantando naquele palco. – ele comentou e sorriu em agradecimento, então o sorriso dele se alargou, com um brilho de divertimento surgindo em seus olhos e fazendo ansiar para ouvir o que ele diria em seguida, mesmo sabendo que devia ser uma grande besteira. – Mas prefiro quando canta em português.
Aquilo não era besteira nenhuma. Era tudo, e sorriu ainda mais largo, encostando a cabeça em seu ombro e encarando as ondas quebrarem em seu próprio, e tão místico, ritmo.
Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer… Como é grande o meu amor por você – começou a cantar, primeiro sem encará-lo, mas então sorrindo entre as palavras e erguendo o olhar para o namorado, que tinha para ela o mais apaixonado dos olhares. Tão bonito, céus. – E não há nada para comparar, para poder lhe explicar… Como é grande o meu amor por você.
não parava de sorrir, como sempre acontecia quando ela cantava para ele, mesmo sendo diferente daquela vez. Seus olhos cuidavam daquela parte, de captar tão intensamente o que era diferente daquela vez, o que mudara. Eles brilhavam tanto quanto a luz das estrelas naquela noite, encarando cada detalhe do rosto perfeito da namorada.
Nem mesmo o céu nem as estrelas, nem mesmo o mar e o infinito… Nada é maior que o meu amor se virou um pouco no lugar, de modo a aproximar o rosto ao de , tão perto que não resistiu em deixar seus lábios roçarem um pouco, não permitindo, no entanto, que ele iniciasse o beijo. Aproximou-se de sua orelha, no entanto, e lá sussurrou: – Nem mais bonito.
Nada era mais bonito que seu amor, que eles.

FIM

Nota da Autora:
Oi! Tudo bom? Haha
Starlight sempre foi uma das minhas músicas favoritas da Taylor, mas confesso que nunca tinha delineado perfeitamente uma história para ela. Sabia, porém, que teria que ser algo sobre sonhos, e amor. E quem sabe dança e música também. E… Bem, saiu isso HAHAHA Essa história ganhou mais vida do que eu esperava e me fez um bem escrever ela, vocês nem imaginam. Espero do fundo do coração que tenham gostado também. Me digam o que acharam, tá?
Foi um desafio escrever algo no cenário do Brasil nos anos 60, porém meu Deus, deu tão certo que eu fiquei boba HAHA E confesso que escrever ouvindo algumas das músicas dessa época me deixou muito nostálgica também. Vovó sempre cantava Banho de Lua pra mim e pros priminhos quando a gente pedia pra tomar banho de bacia no quintal, e vovô cantava Roberto Carlos tocando violão quase todos os dias até pouco tempo. Foi muito gostoso senti-los comigo enquanto escrevia, de verdade.
Inclusive! Criei uma playlist pra essa história, e vou deixar aqui caso queiram escutar e se sentir mais próximos desse casal que eu já amo tanto. É só clicar, tá?
Beijão e até a próxima <3