Teardrops On My Guitar

Teardrops On My Guitar

Sinopse: Presa moralmente entre o desejo de contar a seu amigo tudo que sente por ele ou continuar mantendo seus sentimentos só para si, ela começa a refletir sobre a amizade dos dois.
Algumas vezes é necessário abrir mão do que se deseja, pois é a opção menos dolorosa.
Gênero: Drama.
Classificação: Livre
Restrição: não possui.

Capítulo Único
Caminhei pelo corredor da universidade, esperando que não tivesse mais aborrecimentos pelo resto do dia. Já havia tido estresse suficiente para o dia todo e tudo que queria no momento era um banho relaxante e uma grande xícara de café para que a cafeína me deixasse desperta por tempo o suficiente para acabar o projeto que deveria ser entregue no outro dia.
No pátio havia algumas barracas onde podiam ser comprados salgados, doces ou até mesmo bebidas de todos os tipos imagináveis. Eu tinha a certeza de que conseguiria um mísero bombom em alguma delas. Era a única coisa capaz de me deixar feliz nem que por míseros segundos, o que já seria o bastante.
Olhei em volta, já avistando a barraca de Lalie, que era uma das minhas favoritas, e me dirigi até ela. Logo que cheguei perto o bastante para que ela pudesse me ver, lancei-lhe um sorriso sincero que foi prontamente retribuído, junto a um aceno de alegria.
. Quanto tempo! – Seu sorriso era sincero.
– Pois é. As coisas estão meio conturbadas na faculdade e não estou com muito tempo livre, na verdade. – Fiz uma careta, expressando minha infelicidade com tudo aquilo. – Mas acabei arrumando um tempinho pra vir comprar um doce. Só Deus sabe o quanto estou necessitada disso.
– Ah. Achei que fosse querer, mesmo. – Lançou uma piscadela em minha direção, recebendo um sorriso sem graça de volta. – Aqui! Não precisa nem me pagar. Considere isso como um agrado.
– Lalie, você simplesmente não existe! – Peguei o doce embrulhado que ela me estendeu e abracei-a, genuinamente feliz por seu gesto de bondade.
– Claro que existo. Estou bem na sua frente, oras! – Sorriu, separando nosso abraço após alguns longos segundos. – Agora, vai aproveitar seus poucos segundos de descanso. – Piscou para mim e voltou a atenção para umas meninas que se aproximavam, provavelmente para comprar algo.
Deixei-a trabalhar, uma vez que era o mínimo a se fazer depois de receber seu agrado, e segui em direção ao bosque. Definitivamente era um dos meus locais preferidos no campus porque, além de ser praticamente isolado já que ninguém ia até lá, ainda era um daqueles lugares tão lindos que são capazes de tirar o fôlego apenas em contemplá-lo. Quando possuía alguma horinha livre, adorava aproveitar para compor e muitas das coisas que já escrevi foram por conta da aura de inspiração que aquele bosque emanava. Eu sei. É tudo um pouco clichê, mas no fim das contas é a realidade.
Aproximei-me da macieira e me abaixei, sentando na grama mesmo, sem me importar se poderia sujar a roupa ou algo do tipo. Só queria aproveitar uns poucos minutos de paz e silêncio, então apoiei as costas no tronco da árvore.
Mas não vivia em um conto de fadas, então não me surpreendi quando escutei um o som de passos se tornando cada vez mais alto pelo espaço à céu aberto. Nem precisava procurar sua origem, pois sabia a quem pertencia.
– Você foi rápida dessa vez, heim! – Sorriu quando parou em pé à minha frente, com ambas as mãos na cintura.
Céus! Ele nunca deixava de ser lindo nem mesmo por um instante?
– O que posso fazer se você está ficando cada instante mais lerdo? – Dei de ombros, começando a desembrulhar o bombom que havia recebido de Lalie.
Sua risada ecoou, chegando até mim como estacas que se fincavam direto em meu coração. Era impressionante como ele me afetava tanto apenas ao emitir um mísero som tão comum. Rapidamente tirou sua mochila, que carregava nas costas, e caminhou até chegar ao meu lado, sentando-se da mesma forma que eu.
– Um presente de um admirador secreto, heim? – Me olhou com um sorriso malicioso no rosto.
Não da forma que eu queria que fosse, infelizmente.
– Só se a Lalie passou a gostar de meninas. – Dei de ombros, dando uma mordida no chocolate, que logo ficou pela metade. Novamente o som de sua risada ecoou até mim de forma intensa, mas ele estava próximo demais e eu precisei fingir, com todo o autocontrole existente em mim, que nada havia acontecido.
– Vi a Kristen hoje. – Comentou como se não fosse nada, me lançando um de seus olhares de canto de olhos.
– E como ela está? – Retribuí seu olhar.
– Ah… linda como sempre, né? – Foi como se seu sorriso duplicasse de tamanho. – Sabe, pode ser que seja muito cedo e que eu esteja me precipitando, mas ela é simplesmente perfeita, sabe?
Ah. Imagino que ela seja incrível mesmo, já que conseguiu te deixar todo bobo desse jeito.
– Nós conversamos um pouco mais esse fim de semana quando ela veio cuidar do meu irmão. Só posso dizer que nós temos tantas coisas em comum que nada tira da minha cabeça que fomos feitos um para o outro.
Dito isso, ele se desencostou do tronco, deitando para trás na grama verde com um braço em baixo da cabeça como uma espécie de apoio. Apenas continuei olhando-o. Mordi a parte interna da minha bochecha, controlando uma série de monólogos que lutavam para que eu os soltasse em direção a ele.
E nós conversamos há mais de quinze anos.
Você sabe quantas coisas temos em comum e eu poderia até me arriscar a dizer que são mais do que tem com ela.
Nós somos feitos um para o outro. Por que nunca notou isso, ? Por que continua não percebendo?
O que ela pode ter que eu não tenha, além do seu amor?
– Eu acho que estou apaixonado, ! – Sua cabeça virou para o lado, me olhando.
Por uma fração de segundos meu coração parou de bater no peito, imaginando que ele finalmente havia notado os tantos sinais, avisos e indiretas que eu soltava. Só que havia uma pequena, minúscula parte dentro de mim que sabia que ele não se referia a mim. E eu definitivamente odiava essa parte por estar tão certa.
– Estou apaixonado pela Kristen. – Sua voz soou como um sussurro.
Não pude conter as lágrimas que começavam a se formar em meus olhos, mas rapidamente sequei-as sem que ele notasse. No fundo não era nada novo, que eu não soubesse, mas, mesmo assim, doía e muito. Apesar de tudo, não podia deixá-lo perceber o que sentia. Por essas e outras foi que coloquei meu melhor sorriso falso no rosto, como se estivesse genuinamente feliz, pois assim ele não perceberia a verdade.
– Que bom ouvir isso, . Quando vai contar para ela o que sente?
– Não sei se seria a melhor ideia. Sabe quando você tem medo de contar algo por achar que vai estragar o que têm entre si?
Ah, como eu sei!
Assenti com a cabeça, demonstrando que o entendia.
– Pois é exatamente isso que eu sinto. Não quero contar, mas ao mesmo tempo sinto como se fosse explodir se continuar guardando isso apenas para mim. Não faço ideia do que fazer.
– Eu acho que devia ouvir seu coração. Ele pode ter muito o que dizer, sabe? – Não sabia se aquele recado era mais para ele ou para mim.
– Sabe… você pode ter razão. – Sorriu, ainda me olhando – É por isso que eu te amo tanto, . Você é a melhor amiga que eu poderia ter, sabe?
Melhor amiga.
Um tiro à queima roupa definitivamente teria doído menos. Forcei-lhe um sorriso sem graça e coloquei todo o restante do bombom na boca, rezando para que o mesmo se entalasse em minha garganta e fosse a causa da minha morte. Sim, eu era dramática. Só que isso não poderia ser julgado por ninguém e era a única forma com a qual conseguia lidar com as coisas.
Como devem imaginar, até mesmo o chocolate me traiu.

🎸🎼🎤
Cheguei em casa automaticamente subindo as escadas em direção ao meu quarto. Estava tão rápida que nem sei como não acabei caindo e quebrando uma perna, braço ou até o pescoço. Não que eu estivesse desejando isso, óbvio. Aquele era o único refúgio que possuía no meio de tanta merda que acontecia na minha vida. Entrei no cômodo e mal fechei a porta já pude sentir minha visão embaçando por conta das lágrimas grossas que insistiam em se formar.
Sim, eu era idiota o bastante para chorar por , um cara que nem mesmo sabia de meus sentimentos e do quanto me machucava toda vez que começava a falar de Kristen. Não que a culpa fosse dele, porque até onde eu sabia, ele não fazia a menor ideia e eu mesma não havia dito nada.
Caminhei praticamente me arrastando em direção à cama e joguei a mochila em cima da mesma, de qualquer jeito. Havia sido acompanhada pela tristeza até em casa e a vagabunda não iria embora tão cedo. Quando tinha esses momentos, apenas uma coisa era capaz de me animar. Música.
Tirando meu curso, tocar era a coisa que eu mais amava fazer no mundo e era quase como uma terapia solitária e individual, o que tornava a sensação mil vezes melhor. Desde pequena havia sido ensinada pelos meus pais a tocar e nunca agradeceria o suficiente por terem feito isso.
Estendi a mão na direção do criado-mudo que ficava ao lado da minha cama, pegando o violão de aparência simples que deixava quieto ali. Precisava realmente daquele momento, desabafar em forma de melodia. O apoiei na minha coxa e, com os olhos fechados, nem me dei conta de que meus dedos já estavam com vida própria, dançando por entre as cordas ao mesmo tempo em que uma melodia enchia todo o cômodo.

Para uma melhor experiência, ouça a música até o final da história.

Minha mente automaticamente viajou para o momento em que e eu havíamos nos conhecidos. Estudávamos na mesma escola e sempre sentávamos um ao lado do outro no ônibus escolar por sermos excluídos pelas crianças mais populares.

Flashback On – 15 anos atrás
– Oi. Me chamo ! – O pequeno estendeu a mão em minha direção com um sorriso lindo brincando em seus lábios.
Simplesmente não consegui controlar meu próprio rosto, que espelhou o seu.
. – Avidamente também estendi minha mão, pegando a dele em um cumprimento – Vamos ser grandes amigos. – Sorri.
– Os melhores! – Ele sorriu de volta.
Flashback Off

Não havia sido mentira. Nós realmente fomos nos aproximando a cada dia que se passou e, desde aquele dia, não havíamos desgrudado. Automaticamente sorri com a lembrança. Eu não tinha como saber na época, mas definitivamente já gostava dele desde então. Não da mesma forma e intensidade, mas o sentimento existia e o tempo só fez intensificá-lo.

Flashback On – 11 anos atrás
– Por que não, ? – Ele me olhava com olhos pidões, insistindo que eu concordasse com a loucura que estava propondo.
– Não posso, . Eu vejo meus pais fazendo isso e não é coisa de criança. – Cruzei os braços na frente do corpo.
– Mas a gente não é criança. Somos quase adultos e todo mundo na escola já fez. – Ele dizia as coisas com tanta convicção para sua idade que não me surpreendia o fato de que eu havia aceitado com facilidade seu pedido.
– Tudo bem, mas não pode contar para nossos pais. – Olhei-o com uma preocupação no rosto. Ele apenas assentiu com a cabeça e juntamos nossos dedos mindinhos como uma promessa de crianças.
Consegui ver quando seu rosto começou a se aproximar demais do meu ao ponto de sentir um ar quente tocar em meu rosto. Era sua respiração. Juntei meus lábios em um bico, assim como vi que ele havia feito, e logo seus lábios já estavam em contato com os meus. Tão rápido quanto havia começado, logo nos afastamos, ambos passando a manga das blusas na boca, com nojo do que havíamos feito.
– Nunca mais vou beijar ninguém! – Ele fazia caretas.
Flashback Off

Uma risada escapava de meus lábios. Era bonita a inocência que apenas as crianças possuíam e, parando para analisar os momentos, desejei repetir aquele acontecimento de anos atrás em que ambos não sabíamos sequer o que estávamos fazendo. Parecia quase uma piada de mal que agora aquele mesmo menino beijava todas as outras bocas, exceto a minha.
Relembrei de tudo que ele me contou sobre Kristen, a babá de seu irmão e a pessoa pela qual ele vinha suspirando por todos os lugares. Não duvidava que ele realmente estivesse apaixonado, mas também não mentiria dizendo que não me importava. Diversas coisas rondavam pela minha cabeça. Ela com certeza era mais bonita do que eu, talvez até mais inteligente. Não me surpreenderia se fosse morena, também.
Perguntei-me se ela também pensava nele a noite toda, vendo-o em seus melhores sonhos. Ela abraçava-o como se fosse a coisa mais preciosa que possuía? Demonstrava que o amava de verdade? Será que seus olhos azuis também estavam gravados em sua mente, assim como na minha? Ela sabia o quanto era sortuda por poder tê-lo para si?
Abri os olhos, encarando nossa foto no porta-retrato em cima do criado-mudo. Havia sido a última que tiramos e eu a amava simplesmente porque estamos felizes, apenas os dois e uma cachoeira ao fundo.
Céus! Eu definitivamente estava obcecada e não era bom. Ele estava apaixonado e eu jamais poderia dizer tudo que sentia durante nossos quinze anos de amizade. Não iria estragar sua felicidade por egoísmo meu. Preferiria mil vezes sofrer em silêncio, com muitas noites em claro, do que estragar tudo que tínhamos construído.
E foi pensando exatamente nisso que peguei o porta-retrato, virando-o com a foto para baixo, a fim de não a ver mais. Sem sua imagem fixa ao lado da minha cama, quem sabe eu não conseguiria dormir um pouco? Definitivamente ele era o único cara de quem eu havia gostado o bastante ao ponto de ter quebrado meu coração, mas a culpa não era dele. Nunca foi.
Passei os dedos pela corda uma última vez, deixando que o som melancólico morresse pouco a pouco, sendo levado pelo vento para longe. Um sorriso se formou em meus lábios. Mais acima, lágrimas solitárias e grossas escapavam de meus olhos, escorrendo em linha reta por toda a pele do meu rosto, deixando um rastro úmido e salgado por onde passavam. Rapidamente chegaram até meu queixo e, não havendo mais pele para onde seguir, caíram diretamente na madeira de meu violão.

FIM!

Nota da autora: Oi à todas! Espero que tenham chegado ao final da minha pequena, porém linda história. Confesso que essa música não foi difícil de pensar em um plot porque ela já estava praticamente pronta. Tive a ideia de adicionar mais detalhes, então espero que não tenham odiado hahaha. Quem nunca se apaixonou por um amigo e ficou com medo de falar sobre seus sentimentos que atire a primeira pedra hahaha! Ao contrário do comum, essa fanfic não terminou com um final feliz, mas deixo a interpretação para que cada um tenha a sua ideia. Enfim, foi muito divertido escrever essa história que é a minha primeira (aqui no site) e espero que a leitura tenha sido tão divertida quanto. Nos vemos em breve. Beijinhos! 😉