The Curve Of A Dream

The Curve Of A Dream

Sinopse: Existem pessoas tão boas no mundo, que até quando já não estão mais entre nós conseguem nos ensinar belas lições. Mesmo depois da morte, Tony Render se mostra ainda mais presente na vida de quem amava, e com a ajuda e o incentivo trazidos por sua memória que Michael, Jack e Louise tentam salvar da falência o sonho de Tony, enquanto lidam com seus próprios fantasmas e inseguranças.
Gênero: Romance; drama
Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos
Restrição: Pode conter linguagem sexual, violências.
Beta: Thomasin

Capítulos:

PRÓLOGO

As pessoas sempre estão em busca de algo que os faça sentir vivos. Para algumas o amor, sexo, filhos, voar, saltar de paraquedas, andar por uma corda a mais de cem metros do chão por mais insano que pareça, os faz sentir cada célula de seus corpos de um jeito especial. Por muito tempo tentei descobrir o que me fazia sentir vivo, o que me fazia sentir vontade de sair da cama todas as manhãs para um novo dia. Nunca encontrei. Pensei por muito tempo que minha namorada, Brenda, poderia ser esse motivo, mas considerando que namoramos desde o colegial e que eu ainda me sentia assim, percebi que por mais que a adore, ela não era o que me fazia sentir vivo. Pensei que talvez depois do casamento, e dos filhos, algo mudaria, mas não estava e nem estou disposto a fazer todas essas coisas para me certificar.
Estava em uma viagem por Mônaco. Há mais ou menos três anos, quando o barulho dos motores enchera meus ouvidos e eu não consegui prestar atenção em mais nada. Quando os carros de fórmula um, faziam um treino na pista, alguns turistas, inclusive eu, é claro, olhavam as gloriosas máquinas embasbacados. O barulho dos motores tomou cada célula do meu corpo, era como se cada uma delas tivesse tomado um energético potente e ficassem quicando de um lado para o outro. O cheiro da borracha no asfalto, o som dos motores, as manobras. Naquele momento, eu percebia que queria passar o resto dos meus dias ali. Descobri nesse fatídico dia que o que me faria sentir vivo estava ali, bem na minha frente. Sempre assisti aos prêmios e GPs pela TV, mas nunca dei a devida atenção, a partir daquele momento aquelas coisas se tornaram minha vida. O que me mostrou que as vezes tudo que você precisa está ali do seu lado, só esperando que você de uma boa olhada para se mostrar.
Quando voltei para casa, cheio de planos e expectativas fiz o possível e impossível para entrar nesse mundo. Coisas essas que nunca considerei fazer nem pela minha própria família. Consegui chegar a algum lugar, claro que ainda tenho muitas ambições. Alguns milhões para ganhar, alguns famosos para conhecer e coisas do gênero. Foi uma caminhada árdua, mas hoje eu vejo que estou perto, mas perto do que imaginei estar um dia. Hoje, eu sou Madden, piloto de teste da François- , na Formula Um.

Capítulo 01

Mademoiselle

O dia estava quente, o sol alto, era quase hora da pausa para comer, estava fazendo alguns testes com o carro novo da François-. A minha equipe. , um dos mecânicos chefes estava comigo falando de mulheres e mexendo nos pneus. Alguns metros de distância de nós estava o atual presidente da François-, também conhecido como dono das nossas almas. François, costumava frequentar o pequeno autódromo da montadora, gostava de ver os testes, acompanhar tudo que era feito bem de perto, coisa que não era comum para alguém da patente dele. Hoje, François estava sentado em uma mesa, do lado de fora do refeitório. Com a roupa mais cara que devia ter no armário, o que também não era comum no dia a dia. Geralmente todas refeições eram servidas no refeitório, nunca tinha muita gente, então o salão pequeno e tenebroso servia. Nos dias quentes mesas eram postas na grama, perto da curva mais angulada, e comíamos ao ar livre. Algumas vezes, François comia com a gente, mas sempre em mesas com pilotos ou engenheiros, e sempre muito rápido. Não era um dia muito quente, até ameno demais para a época, mas as mesas estavam postas do lado de fora, principalmente uma bem grande, e cheia de comidas diferentes.
O relógio marcou 16:00 e depois de limparmos as mãos em uma flanela, o que era comum nesses tempos, pois eu estava mais para auxiliar de mecânico do que para piloto de teste, fomos nos sentar, para o tão esperado café.
– Está sentindo esse cheiro? – perguntou ao se aproximar de uma das mesas.
-De chá? Ou você fala dos croissants? – Respondi distraído com as muitas opções do cardápio.
-Não, morto de fome. Última vez que vi alguém comer aqui fora, sem alguém precisar desmaiar no refeitório…tem alguma coisa errada.
, meu querido amigo. Não deixe a paranoia atrapalhar esse momento. Última vez que vi uma mesa tão bonita foi no casamento da minha irmã, isso tem sete anos, e ainda faltam três anos para ela terminar de pagar a conta do buffet. – riu e, passou a também encarar a mesa.
-Não vejo a hora de comer aqueles pãezinhos ali. Nossa, sente o cheiro! – Agora ele parecia ter se dado conta da grandiosidade do momento com o novo cardápio.
– Sanduíche ou brioche com geleia? – Uma copeira perguntou ao se aproximar.
– A gente vai querer os bolinhos ali, querida. – disse, apontando para a mesa.
– Desculpe, mas aqueles não são para vocês. Sanduíche ou brioche? – A garota disse um pouco impaciente.
– Como assim? Tem isso agora? Isso é sério? – perguntou inconformado. Eu poderia ter a mesma reação, mas François estava ali, na mesa do lado, tinha que parecer equilibrado. Caso o contrário, eu já teria gritado e feito greve pelo meu direito de comer bolinhos.
– Sanduíche. – Eu disse.
– Sanduíche e brioche, então. – disse, inconformado. – Brincadeira, é isso que a gente ganha! Aposto que são para o François ou algum patrocinador, ou algum piloto que ele esteja de olho. – Percebi naquele momento que ele podia estar certo.
Os sanduíches chegaram, e estávamos comendo, com um grande refrigerante quando eu percebi uma movimentação diferente. Uma mulher. Mulheres não eram comuns ali naquela época, nem naquele horário.
Uma mulher de cabelos castanhos, pele bem branca e alta. Talvez a famosa mulher de François, mas não. A mulher dele era velha, e aquela devia ter uns trinta e poucos anos, no máximo. Ela usava um vestido azul marinho, e grandes óculos escuros, batom vermelho e o cabelo estava perfeitamente em ordem. Não tinha vindo de metrô ou ônibus até ali, com certeza.
– Mademoiselle . – François disse e se levantou, cumprimentando a mulher com um aperto de mãos bem caloroso. Ah, uma francesa. Isso explica tudo. Como eu sei? François nunca fala com alguém em francês, a não ser que essa pessoa seja francesa.
-François, como vai? – A mulher sorriu timidamente. Era algo importante, François não receberia uma mulher como ela ali se não fosse algo importante. Resolvi me aproximar, arrastando um pouco a cadeira e ficar atento ao que acontecia na mesa ao lado.
-Você está ainda mais linda do que da última vez que a vi. Onde foi? Genebra? – François perguntou cortês.
– GP do Brasil, eu acho. Obrigada pelo elogio, François. Você também, está ótimo. – tinha uma bela voz francesa, mas quase sem sotaque.
-Claro, William ganhou aquele GP. Como esquecer? – Uma pergunta retórica. Javier, nosso piloto que tinha mais chances havia batido em uma curva na primeira volta. Claro que ele nunca esqueceria que outro tinha ganho a corrida.
– Sim, ele ganhou. – Foram servidos então os croissants, biscoitos, geleias e chá. Naquele momento eu entendi, François queria alguma coisa. A mulher aparentemente percebeu também, depois de tomar um pouco de chá, voltou seu olhar para o nosso presidente. – Estou curiosa para descobrir o motivo deste convite, além de um chá na sua excelente companhia, é claro. – Ela foi mais direta do que eu achei que mulheres poderiam ser, extremamente educada.
– Claro. – François riu sem humor. – , sempre direta e espirituosa. As mulheres deveriam ser mais como você. Bem, não farei rodeios.- Ela sorriu, colocando um biscoito com geleia na boca.
-Bom, como um dos primeiros entusiastas da sua carreira, eu fiquei muito feliz com sua premiação, aquela reportagem sobre os garotos na China foi realmente tocante, algo que adoraria. – François fez uma pausa dramática, que eu não compreendi. – É interessante ver o papel da mídia, do jornalismo no esporte, hoje em dia. Nós sabemos bem o quanto uma opinião bem dada pode mudar o rumo das coisas. – François e riram um pouco, diminuindo a atmosfera tensa que havia se instaurado segundos atrás. – Suas matérias, colunas, opiniões e coberturas sobre a Fórmula Um e todo meio que rodeia nosso esporte, tem feito com que o público adore cada vez mais nossos pilotos e equipes. Garotos não querem mais ser jogadores de futebol, querem ser pilotos, e as meninas querem se casar com pilotos e tudo isso graças a você. – François disse sorrindo. Não entendi porque ele puxava tanto o saco da mulher, nunca havia visto ele falando assim de alguém, não que eu visse ele falando muito.
– François, se o que diz está certo. Se garotas querem abrir mão de suas profissões e carreiras porque o grande sonho e meta é se casar com um piloto, então não estou fazendo meu trabalho do jeito certo. – François ficou sem resposta, engoliu seco e ficou em silêncio por alguns segundos, então a mulher riu e continuou. – De qualquer modo, agradeço o reconhecimento pelo meu trabalho. É difícil para uma mulher, ainda nos dias de hoje, conseguir reconhecimento em um meio dominado por homens. Seu reconhecimento, principalmente, significa muito para mim, desde o início até os dias de hoje. E eu acredito que isso se deve ao fato de eu conseguir falar de coisas que eu amo. – Uma mulher que ama corridas? Isso pode ser interessante.
– São méritos seus, . – François disse sorrindo um pouco sem jeito.
– Bem, continue o que estava dizendo. – disse sorrindo, uma pessoa intrigante.
-Claro. Eu me lembro de quando você começou, foi depois que . Vocês tinham isso em comum no início, jovens, querendo dominar o mundo e mostrar o seu valor. O irônico é que ambos foram domados pelo meio em que estavam.
-Ser uma repórter jovem, mulher e cobrindo corridas e os bastidores não foi fácil. Tive muita ajuda, você sabe o quanto sou grata. – disse serena.
-Sim, eu sei. Foi bonito ver as maravilhas que você fazia e faz quando fala bem de alguma equipe. É quase marketing. Sabe as coisas boas que chegam para essas equipes quando seu nome esta envolvido. – François disse deixando algo subentendido.
– Essas coisas boas, essa visibilidade, só chegam se eu falo bem. E também, pelo prestigio do meu nome nesse meio, que construí com tanto esforço. E exatamente pelo cuidado que eu sempre tive em pensar bem cada palavra que uso.- concluiu.
-Talvez seja hora de você pensar bem em como pode nos ajudar. – François disse e nem eu esperava esse desfecho, por mais escancarado que estivesse. François não era o do tipo que pedia ajuda.
-Seja claro, por favor.
-Você entendeu, . Sabe melhor que ninguém como andam as coisas aqui. Sabe dos nossos déficits, você controla isso de perto, eu sei. E agora, está na hora de agir.
-Não sei se o que você me pede é possível. Você era amigo do meu pai, e tio do , somos família. Mas eu não posso fazer muita coisa, vocês estão a muito tempo sem ganhar nada. Desde que morreu, parece que levou a François- com ele. Eu não posso me comprometer muito vinculando meu nome a vocês, principalmente quando tudo parece ser só questão de tempo. Eu realmente espero que você entenda o meu lado. Eu amo isso tudo também, sou uma das maiores interessadas na recuperação da escuderia, mas vocês precisam de mais que uma nota, uma entrevista, uma matéria. – Desta vez quem fez a pausa dramática foi . Eu estava atônito demais com tantas informações para esboçar alguma reação. – François, depois que morreu, vocês nunca mais foram os mesmos, não ganharam nenhum GP, corrida, nem nada do tipo. Até o faturamento da montadora vem diminuindo. Vocês não são vistos no pódio a uns dois anos. Eu amava o , sabe disso. Eu sempre disse coisas boas sobre vocês, sobre os carros, sobre ele. Mas agora pelo que eu soube vocês não têm pilotos, o carro está ultrapassado, ninguém a frente dos projetos. Eu lamento não poder ajudar mais nisso, não posso salvar esse navio. Não me peça para afundar minha carreira junto com a sua equipe. Eu lamento muito. Talvez possa ajudar com outras coisas, tenho muitos contatos, mas não posso vincular meu nome a François- . Não mais. Talvez seja a hora de voltáramos apenas a fazer carros. Eu sinto muito. – A mulher olhou com pena para François, e então começou a se levantar.
. – François disse num tom mais alto e mais sério. – Eu sei o número de pilotos e escuderias que você tirou do poço e o tanto que você os ergueu. Você pode se esforçar mais, eu sei que pode. Sabemos. – François disse olhando para baixo.
-François, eu sinto muito, mas não vejo como.
-Você sabe o que eu fiz, pela sua família, seu pai e por você. Não gosto de fazer esse tipo de coisa, . Você me conhece. Mas que diabos, eu odeio ter que fazer isso com você. Mas não tenho outra opção. – Percebi ali que François estava muito desesperado. Nesse momento senti medo.
– Eu sei o que você fez, sei exatamente cada ligação, cada ação, cada indicação sua. Mas é exatamente por isso que você tem que entender que eu não posso fazer muito, eu sou uma jornalista, não dirijo, não projeto, nem nada disso. Droga, François, eu não quero ver o que o construiu com você desmoronando assim. É uma parte dele isso aqui, mas eu não posso fazer nada! – A voz da mulher mudou, agora era uma discussão suave, com ânimos estavam exaltados, e a voz dois timbres mais alta.
– Quando você se empenhou em tirar William do fundo do poço, você não se preocupou com sua carreira. Quando não se preocupou em esperar o corpo do esfriar por pelo menos um ano, você não ligou para sua carreira. – François disse num tom cortante e se levantou. A mulher ficou sentada de cabeça baixa, mas quando ela falou, seu timbre era extremamente calmo.
-Não fale do que não sabe, François. Só Deus sabe o que eu passei quando morreu. Eu ajudei William, e quase afundei por isso. Aprendi minha lição. – A garota olhava fixamente para François, e mantinha a coluna ereta.
– Lembre-se de . Você disse que não gostaria de ver o que ele construiu se esvaindo. Se não fará por mim, faça pela memória dele. Você ajudou William Reed uma vez, e hoje ele é um dos melhores pilotos que temos na ativa. Há chances do mesmo milagre acontecer. – François disse sem emoção, ainda de pé.
-Eu preciso pensar. – se levantou. – E preciso de tempo. Mas não garanto nada.
sequer cumprimentou François, se levantou e saiu pelo mesmo lugar que entrou. Com a saída dela, nenhum outro som poderia ser ouvido, todos presentes estavam em um silencio terrível, até mesmo estava calado. François se levantou de repente e foi embora.
E então todos seres vivos ali, que antes estavam calados, agora estavam comentando toda a cena. Parece que não foi só eu que a ouvi.
– Quem é ela? O que tem a ver com William Reed? – Perguntei de uma vez para , ele trabalhava ali há cerca de dez anos. Mais que o dobro que eu, que estava ali a um ano e meio, porque o piloto de teste teve uma doença tropical e morreu.
. – respondeu sem humor e deu de ombros.
– Eu ouvi que o nome dela é , mas quero saber o que ela é do François. Percebeu a tensão? – Eu estava muito curioso com aquela cena, esse tipo de situação não era comum ali.
– Você não estava aqui na época. Sabe de onde vem o de François- ? – Ele perguntou e arqueou uma sobrancelha.
– François, do François. E de outro sócio, Howard . Eles tinham algum grau de parentesco, não tinham? – Eu havia lido aquilo várias vezes quando comecei na François- .
– Pois é, isso é antigo. A escuderia foi fundada pela família do François, Família Fontaine, e de um amigo Howard , muitos e muitos anos atrás. Mas nesse meio tempo mudou muito, começou com carros, passou a categorias pequenas de automobilismo até chegar na formula um, mudou de nome, faliu, se reergueu. Estava quase falida quando outro Howard da família assumiu a direção da montadora. E aí, junto com François que na época era cunhado dele, resolveram dar uma repaginada. E funcionou, aí estamos aqui. Mas aí o Howard ficou doente, e voltou para sua terra com a esposa e o filho, mas um tempo depois, mandou o menino para cá, esse menino, , sobrinho do François, que na época era piloto, aprendeu muita coisa com ele. E o velho criou o garoto como filho. Depois de adulto, ele virou um piloto maior do que o François jamais ousou ser. E mudou muita coisa aqui, o era engenheiro, mecânico, piloto, conseguiu fazer mais coisas boas que o pai. A François- é nova, perto das grandes por aí, mas ganhou muita coisa nesses anos, isso por causa do , principalmente. Sabe, dizem que esse William é o piloto da década, mas tenho certeza que se ele tivesse corrido uma vez contra o , ninguém mais se lembraria dele. era o melhor piloto que eu já vi, ele ganhou quase todas corridas que disputou no ano que morreu, aproveitamento de 60% por temporada. É um ótimo aproveitamento. – fez uma pausa e sorriu, depois de pensar sobre o que havia dito. – parece que eu o venerava? Sim, eu venerava. Eu trabalhei com ele, sabia o que fazia, ele ajudava desde o projeto do carro até os testes, ele respirava correr. E então, um belo dia, sem explicação, sofreu um acidente terrível, e morreu. – disse com pesar.
– Eu me lembro. Li sobre a morte dele nos jornais. Morreu em uma curva. Mônaco. – Eu me lembrava da notícia, só não me lembrava bem que o tal era o de François-.
– Se quer saber dessa daí, pesquise na internet, não vou falar dela. tinha adoração por ela, e depois da morte dele, meses depois ela já estava se esfregando com William Reed. é assunto proibido na François-. Pelo menos era, até agora.
disse isso e se levantou, já era hora de ir para casa. Eu estava louco para chegar em casa e pesquisar todas informações que poderia encontrar sobre . Se ela era esse tipo de pessoa, assunto proibido na escuderia e mesmo assim François tinha suplicado tanto sua ajuda, era porque as coisas realmente não estavam nada boas. Qualquer informação era suficiente. Quem era ? O que ela fazia? O que aconteceu entre ela e ? O que acontecia com ela e William Reed? Perguntas que, suas respostas podiam custar o emprego, chances e sonhos que eu tinha no momento.
Quando cheguei em casa naquela noite, comi um resto de pizza que tinha na geladeira, do dia anterior. Estava morando sozinho, por causa do trabalho, pizza era minha primeira e última opção sempre. A primeira coisa que fiz aquele dia quando vi o computador foi colocar o nome no navegador. Muitas coisas apareceram. Fotos com alguém que eu reconheci como William Reed, e outras com . Links de artigos escritos por ela e entrevistas. Depois de zapear por eles percebi que o que François disse mais cedo era verdade. A mulher tinha o dom. Ela tinha lábia, como comentarista esportiva era mais que maravilhosa, e como mulher era linda também, não podia negar. A pesquisa passou a ser então “ e ”. Muita coisa surgiu nesse ponto. Muitas manchetes em sites esportivos e de fofoca.

seria o piloto do século se amadurecesse agora. – L.
“Estressado ou mimado? recebe punição de três posições no grid para a primeira corrida da temporada, no Grande Prêmio da Austrália. Largando mais atrás, graças a uma violação de bandeira vermelha no segundo treino livre. ’’
“Entre punições e pódios: O novo queridinho das pistas e a fama de nervosinho’’
Por trás do volante: Quem é ? – L.
“As dez apostas para a nova temporada da F1: François-…por L.
: de repórter a primeira mulher comentarista de corridas de F1”
“A François- tem o essencial para dar certo no novo século da F1 – L.
com nova namorada. ”
“Comentarista de F1 fisga piloto”
“Casal F1: como anda a vida do casal mais bem-sucedido do esporte. ”
“Noivos: Jornalista e Piloto anunciam noivado na vitória em Dubai. ”
“François- é a aposta do século –
“F1: Casamento de piloto com comentarista leva peixes grandes até Paris”
“Casal : Nasce o primeiro fruto da relação Comentarista-Piloto”
“Dia a Dia de : Comentarista, mãe e esposa de um dos melhores pilotos do século”
“Pai do ano: Como anda a vida de . ”
“Tragédia: Acidente inesperado acaba com o sonho. ”
“Fim da era : O que será da François- agora? ”
“Viúva de : tem tarde animada com William Reed. ”
Mas os sites de fofoca me direcionaram também para e William Reed.
“William Reed: De aposta ao fundo do poço. – L.
“William é jovem, é normal que a pressão o atrapalhe agora, mas isso não muda quem ele é nas pistas. – A.
e William: Magia da F1 toma novos corações. ”

Eu vi ali o motivo de nunca ter escutado falar sobre a tal mulher do . Não que soubesse de algo sobre a vida pessoal dele e de François, mas aquela situação, o aparecimento inesperado daquela mulher ali, era o sinal de que as coisas na escuderia não estavam indo bem. Era uma mulher linda, bem-sucedida, rica e com grande prestigio no meio esportivo. Viúva de um piloto quase invencível e agora namorada da grande aposta do século. O que mais me preocupava naquele momento era a situação do meu ganha pão. Era verdade que estávamos sem pilotos e equipe, mas para mim e para todo o resto, estava na hora de uma renovação, pilotos novos e badalados chegariam em breve. Mas ao que pareceu estávamos a ponto de falir, sem dinheiro e moral. Eu não consegui dormir aquela noite, a ideia de ver que tudo que eu havia tido tanto trabalho para construir, se esvair das minhas mãos como água me deixou preocupado.
Na manhã seguinte, tudo correu normalmente. Mas ninguém disse sequer uma palavra sobre os últimos acontecimentos. O clima estava pesado, como se todos estivessem esperando o pior.
-Agradeço que ninguém simplesmente não veio ao trabalho hoje, depois de ontem. – François disse aparecendo de surpresa ao meu lado, fazendo meu coração parar. –Devem todos estar se perguntando, desde os últimos acontecimentos, se a nossa situação está tão ruim quanto se ouve falar. – Ele disse mais para si, do que para qualquer outra pessoa que estivesse ali. No caso, e eu.
-E está? – perguntou sem nem levantar os olhos para olha-lo.
François respirou pesadamente:
– Sim, a situação é tão ruim quanto. A maioria dos engenheiros e mecânicos tiveram outras oportunidades e nos deixaram. Nossos pilotos foram para o mesmo caminho. Não vencemos nada a mais de dois anos. Nossa última chance está há cerca de seis meses de distância. Se ganharmos essa, temos direito a mais um suspiro, se perdermos, estamos acabados. – François apoiou as mãos na mesa enquanto pronunciava a última frase, e respirou fundo. – Vamos ter que abandonar a temporada na terceira corrida.
-Porque precisamos da ajuda daquela mulher? – perguntou, eu nunca o tinha visto falando com François, estava chocado com aquela interação.
-Aquela mulher é a única que pode nos ajudar. A François- é dela também, dela e do garoto. Ela não quer que a herança do fique para as traças. Ela tem muito dinheiro, pode ter certeza. Mas não se trata do dinheiro, se trata do valor sentimental que isso aqui tinha para o , e tem para ela. Se alguém pode nos tirar do fundo do poço, é . Eu não gosto de ter que pedir ajuda a ela, mas é necessário. – Pelas palavras, era perceptível que ele considerava muita humilhação pedir ajuda a .
– De qualquer modo, não é hora de se desesperar ainda, precisamos…- François foi interrompido quando em um rompante, entrou. Ela estava tão bonita quanto no dia anterior, hoje usava um grande casaco vermelho e jeans. – Mademoiselle . – François disse sem emoção.
– Monsieur François. Lamento ter interrompido. Há algo que precisamos conversar. A sós. – Ela disse com uma educação até desnecessária, levando em conta a situação.
– Não se preocupe. Estamos falando disso, se quer conversar sobre o que falamos ontem, pode falar aqui mesmo. – François se sentou e encarou a mulher, que parecia extremamente incomodada.
– Não acho prudente tratar deste assunto assim, com tanto descaso com a segurança das informações, François. – não cederia. François bufou e a conduziu a um pequeno escritório perto dos boxes, onde pela graça de Deus, era possível ouvir tudo que se falava.
-E então? – François questionou. –Eu achei que demoraria mais para tomar uma decisão.
– Eu pensei sobre o que falamos ontem. não gostaria que eu cruzasse os braços e deixasse a escuderia afundar. Além dos meus próprios interesses, a François- pertence ao , e não quero que a principal coisa que o pai o deixou se esvaia, não dessa forma. E tem todas pessoas que dependem disso. E a alguns anos eu disse que vocês eram a aposta do século, se eu deixar que vá tudo para o buraco, eu vou ser conhecida como a pessoa dos palpites errados. E isso não será bom para mim de qualquer modo. – A mulher disse rápido, e se sentou bruscamente.
-Bom. Você está certa. – François pensou alto. – Significa que vai ajudar, suponho eu. Gostaria de ouvir suas ideias. Tenho certeza que pensou em mil coisas. -A mulher ficou em silêncio alguns segundos.
-Quero ver o que vocês têm. Toda tecnologia, tudo que pode ser usado para desafundar isso aqui. Quero ver também um balanço das contas. Tenho alguns amigos que podem ajudar, já entrei em contato. Desde engenheiros até mecânicos. – Ela era boa naquilo, não dava para negar.
, não quero ser indiscreto, mas o que te fez mudar de ideia assim tão rápido? – François perguntou desconfiado.
-Fora o fato de isso ser parte do meu filho, e ter pertencido ao meu marido. Bem, quando fui colocar o para dormir noite passada, encontrei um projeto do , estava guardado com nosso filho a muito tempo. Foi o último que ele fez antes de morrer. Depois, eu tentei pensar no que o faria. -François a interrompeu.
-E o que ele faria? – O homem ficou um pouco mais interessado na conversa, e eu também.
-Ele teria dito, “Não sei porque você esperou tanto tempo para fazer alguma coisa. ” E teria agido, transformado vinho em água se preciso fosse para levantar a escuderia novamente e devolve-la os tempos de glória. Ele não gostaria que eu ficasse alheia ao seu fracasso também, pois o seu fracasso aqui, também seria o dele. – François sorriu, e do lado de fora, demonstrando também ouvir a conversa, sorriu do mesmo modo, o que foi no mínimo estranho.
-Desde quando consegue se comunicar com espíritos? -François perguntou num tom mais leve.
-Eu só o conhecia bem. – sorriu também.

Capítulo 02

Transição

Aquele tinha sido um mês atípico. Desde meu primeiro dia na François- era a primeira vez que eu conseguia ter o gostinho do que é trabalhar numa escuderia de verdade. Depois da conversa com , muita coisa havia mudado, começando pelas reformas, haviam pessoas cuidando da pista, das cabines, dos boxes, das salas de reunião, refeitório e até do gramado. Gente passando para todo lado, pessoas instalando equipamentos, entregando suprimentos, pneus e tudo que você pode imaginar ligado a carros. A equipe tinha aumentado, mas ainda nem sinal de pilotos novos ou carros. Havia um boato que François queria muito William Reed, que por sinal estava próximo de trocar de equipe, e assim nós teríamos um só carro no próximo GP. Mas queria três carros com três bons pilotos, mas jovens, das categorias de base. Acho que queria garantir pelo menos uma boa largada, começar debaixo, subindo aos poucos de posição.
-Eu estava com saudade desse movimento. – disse enquanto mexia com algumas bombas.
-Era assim antes, não era? – Eu perguntei, cheio de vontade de ver tudo aquilo em pleno vapor.
-Sim, era até melhor. – sorriu e eu me lembrei dos últimos acontecimentos.
-E quando estava aqui? – Perguntei incerto se ele responderia, mas ele sorriu.
-Quando estava aqui… sabe, se ele estivesse aqui, ele estaria ali. – apontou com o queixo para onde alguns funcionários checavam os pneus recém-chegados. – Conferindo se eram os certos, ou aqui com a gente falando uma besteira qualquer. Mas eu tenho certeza, que se ele estivesse aqui, nada disso teria acontecido.
-Não teríamos falido. – Completei.
-Não, com certeza. – Percebi que talvez estivesse um pouco ressentido, só não entendi o porquê.
-Ele era tão bom assim? Todos falam dele como se fosse, o cara. – Fiz aspas com os dedos ao pronunciar a última palavra.
-Ele era o cara.- repetiu meu gesto. – Era demais, tudo que ele podia fazer por alguém ele fazia. O cara era demais, quando se casou, todo mundo queria ser convidado, e ele convidou a equipe toda, do pessoal da limpeza até os pilotos, e ela nem ligou, achou fofo como ele se importava com os outros. Ele amava a família, o filho. Sempre trazia o moleque para cá, ensinou bastante coisa para ele, e olha que quando ele morreu o garoto só tinha sete anos.
-Boa pessoa. – Concordei.
-É, era homem, mas não queria fingir não ter sentimentos. Sabe, quando o menino nasceu, o . Ele me ligou chorando para contar.

* * *
, são lindas!! – disse segurando as rosas que o marido havia lhe dado.
-Eu estava pensando em você. Aí vi essas flores e pensei, não tenho como retribuir o presente. -Ele disse tocando a barriga de nove meses da mulher. – Mas posso tentar. – Ele sorriu daquele jeito que deixava ela sempre de pernas bambas.
-Você tem que parar de ser tão maravilhoso, Monsieur . – A mulher passou os braços nos ombros do marido.
– Sabia que eu amo quando você deixa seu sotaque francês aparecer?
-É mesmo? – Ela disse forçando o sotaque novamente.
-Me dá uma espécie de orgasmo, só de te ouvir. Parece que ainda é a primeira vez que eu te vejo, as mãos suando, pernas bambas. – disse.
-Eu me sinto da mesma forma. Eu te amo, . – Ela disse, deu um selinho no marido e sorriu, ainda com as testas grudadas e sem abrir os olhos.
-Je t’aime. – sussurrou, fazendo a mulher sorriu ainda mais.
-Je T’aime, ! – Eles ficaram ali por algum tempo abraçados, mesmo com a barriga impedindo que estivessem totalmente juntos.
-Ai! – e disseram juntos.
-Eu senti o chute. – disse rindo, mas parou quando percebeu os olhos arregalados da mulher.
-Eu senti um pouco mais. – Ela disse rápido.
-O que foi, eu te machuquei? – Ele disse preocupado.
-Não. – Ela disse e arregalou mais os olhos, no momento que percebeu um barulho estranho. – Acho que é a hora.
Ela disse e arregalou os olhos dessa vez. Ficaram alguns segundos sem saber o que fazer, e então disse.
-Minha bolsa. – Ela parecia sentir dor, e isso deixava angustiado.
-Tá bem! Tá bem!
Depois de pegarem tudo, acelerou o carro mais do que acelerava nas pistas. Parecia um piloto de fuga, enquanto isso, tentava não desesperar o marido, segurava a dor, o medo e os gritos para si mesma.
-Está tudo bem? – perguntou.
-Sim. – Ela respirou fundo, e disse com uma voz fraca. – Só vamos logo.
Quando chegou no hospital, foi para algum lugar que não soube e nem conseguiu prestar atenção. Depois de alguns minutos e de umas cem voltas na sala de espera e de algumas ligações. Um enfermeiro o convidou a assistir o parto, sem nem pensar duas vezes disse sim.
Depois de vestido, ao entrar na sala de parto, ele encontrou uma com respiração ofegante, então ficou ao seu lado e segurou sua mão.
-Eu estou aqui. – Ele disse tentando disfarçar seu próprio medo.
-Eu sei. Eu te amo. – Ele sabia que ela estava sentindo muita dor, e então tentou amenizar.
-Sabe o que me fez apaixonar por você? -Ele disse enquanto ela fazia força, talvez escutar a voz dele a acalmasse ali também, já que ela sempre dizia que a acalmava em todas as situações. Ela olhou para ele. – Quando eu vi você, eu pensei, “Uau, quem é essa mulher? ” Sabe, você estava ali, falando de corridas, era tão linda, e nem olhou para mim. Eu fiquei estarrecido. – Ela fazia ainda mais força, e agora lágrimas escorriam de seus olhos. – E então eu pensei, “Meu Deus, nem que leve cem anos, eu vou conquistar essa mulher, e ter vários filhos. ”
-Cem anos? – Ela sorriu enquanto ainda fazia força, e ambos ouviram o médico dizer, “Está quase lá! ”.
-O tempo que leve, porque a partir daquele momento, eu não existiria sem você, eu precisava estar perto de você para os meus pulmões funcionarem e meu coração batesse. Você está desde aquele dia, comigo. E desde aquele dia, quando eu estou perto de você é como se meu sangue fosse fogo. Se eu passar a eternidade com você, não seria o suficiente. -E nesse momento ouviram o choro do bebê.
Quando o médico entregou o bebê aos pais, os dois estava tão extasiado que não conseguiram dizer nenhuma palavra. Era um bebê grande e gorduchinho, mas o mais lindo que já haviam visto.
-Quer segura-lo? – perguntou a , o homem olhou incerto, mas aceitou.
Quando segurou o filho nos braços pela primeira vez, foi como se não existisse mais nada a sua volta. Era apenas ele e o menino ali. Ele nem conseguia entender o que sentia, suas veias queimavam, sua pele formigava, ele sentia seu coração acelerado e os olhos arderem. O menino estava ali, o seu , o seu filho, com a mulher da sua vida. Era tão frágil, parecia que a qualquer momento poderia quebrar. Quando ele levou a mão até a do recém-nascido, o pequeno segurou seu dedo indicador com a pequena mãozinha, e então, a corrente que passou por seus corpos poderia acender a França inteira por anos, e nesse momento, ele se sentiu pai, e não conteve as lágrimas.
Quando levaram o bebê e estava descansando no quarto. Ele precisava falar com alguém, ainda estava chorando, mas precisava contar ao mundo a felicidade que sentia.
?! – Disse quando o amigo atendeu o telefone.
? Algum problema? Está chorando? – perguntou preocupado.
-Meu filho. – disse em meio a lágrimas. – Ele nasceu!
-Que notícia ótima, ! – Os dois riram juntos.
-Ele é tão lindo! Tem o nariz da , e ele segurou meu dedo. Nossa, eu nem sei explicar o quanto eu estou feliz. – chorava e ria ao mesmo tempo.
-Que bom que ele puxou a ela então. Eu estou muito feliz por você, meu amigo! – Os dois riram mais ainda.
-Obrigada por sempre estar aí. – disse.
-Eu sempre vou estar aqui para você, . Da maneira que quiser.

* * *

? – O cutuquei, ele estava em outro planeta.
-Sim?
-Você viajou, olhando para o nada, estava em transe, sei lá. – Ele havia me assustado um pouco.
-Eu só me lembrei de umas coisas. – Ele disse saudoso.
-Se ele estivesse aqui, com a gente, na nossa posição. Sem ser dono de nada, o que ele faria? – Eu disse encostando em uma pilastra.
-Ah, fácil. Ele estaria aqui falando da , de como ela era séria, e de como ele gostava de mulheres sérias. Falando que se ela não tirasse a gente da lama, ninguém tiraria. Acho que em todas as posições, em todas as vidas ele ia ficar caído por aquela mulher. Parecia feitiço. – balançou a cabeça como um claro sinal de desaprovação. – Ou estaria ali ajudando em alguma coisa, parando as vezes para limpar o suor e sorrir pra gente e fazer algum comentário gay. – riu.
-Você realmente conhecia bem ele, né? – acenou ainda rindo. – Eu gostaria de tê-lo conhecido.
Antes de responder ouvimos um pigarro, não posso explicar com palavras a nossa cara de susto quando notamos bem atrás de nós, possivelmente ouvindo tudo que havíamos falado.
. – Ela disse com o nariz em pé, mas a voz denunciava sua incerteza.
. – disse sem animação, olhando mais para o horizonte que para ela.
-Você sabe que pode me chamar de . Como vão? – Ela disse tentando parecer simpática. E aparentemente se referindo a mim também.
-Só chamo os meus amigos por nome. Não é o caso. – disse virando as costas e caminhando para outra bomba.
-Ei, . Não precisa ser assim. – Ela caminhou até ele. Surpreendente.
-Deixamos de ser amigos quando você resolveu esquentar a cama com aquele bêbado do Reed. – Ele disse cuspindo as palavras, melhor, vomitando.
! Você sabe que não foi assim. François, a mídia e todo mundo dizer isso tudo bem. Você não, você sabe! – Ela estava irritada, e exaltado.
-Você ainda usa a desculpa de que prometeu ao ajudar o Reed? Sério, ? Quando ele disse ajudar foi com uma matéria legal, não com sexo legal. – estreitou os olhos de um jeito bem demoníaco. – se envergonharia de você, espero que ele não possa te ver de onde ele está, porque…- Antes de terminar, deu um belo soco em seu queixo, se desequilibrou e quase caiu de joelhos.
estava com o olhar carregado de “ eu não acredito que você disse isso. Você é um grande idiota’’. E eu até entendia, o que não entendia era toda aquela tensão entre os dois. Um dia, demonstrava total indiferença, no outro puro rancor.
-Você não cansa de ser um idiota? De fazer coisas estúpidas? Sério, . Você ao menos sabe mais do que os jornais dizem para me julgar desse jeito? – se mantinha estático, e então se levantou e saiu, sem dizer uma palavra. A e a mim restou encarar suas costas enquanto ele sumia.
-Ele não me odiava assim da última vez que nos falamos. Um ano atrás. – Ela disse surpresa, disse para mim, e eu que nunca tinha recebido nem um bom dia daquela mulher, agora era notado duas vezes em menos de vinte e quatro horas.
– Ele anda meio inconstante. Nem eu sei explicar. – Eu disse ainda mais confuso.
. – Ela estendeu a mão em um cumprimento e sorriu.
. – Eu correspondi o gesto e sorri.
-Bom, eu estava aqui para ver o carro de vocês, mas acho que o não vai me mostrar, então será que você poderia? – Claro que eu poderia. Obviamente.
O carro que ela se referia era um dos que não costumávamos usar nas corridas, por isso ele ficava no autódromo. Ele nunca foi completamente terminado, sempre faltava alguma coisa, e ninguém queria investir nele. Ficou esquecido. Com o aval de François, as vezes e eu mexíamos nele, mas nunca conseguimos mudar muita coisa.
– Seu desejo é uma ordem. – Disse sorrindo e ela riu. – O que foi?
-Essa frase. Me soa familiar. – Ela sorriu olhando para baixo enquanto caminhávamos.

* * *
-Por que você não consegue colocar as roupas que usa no lugar? – questionou irritada, com uma camisa vermelha e uma meia suja nas mãos.
-Eu ia dessa vez, eu juro. – gritou de outro cômodo, se explicando.
-Eu vou te expulsar da minha casa. – esbravejou indo até onde estava.
-Eu não pude. Regras da casa. – estava sentado no sofá, TV desligada, completamente imóvel enquanto Aladim, gato de dormia em seu colo.
-Eu achei que você não gostasse dele. Da sensação. – disse, rindo.
-Não gosto, parece que eu estou com um grande…, você sabe o que dormindo em cima de mim. – disse fazendo careta. – Mas você disse que não devo incomodar os gatos, seu desejo é uma ordem.
-Sabe, se me dissessem que eu estaria vendo essa cena, eu não teria acreditado. – gargalhou. – Mas você ainda precisa parar de espalhar suas roupas por aí. Dá próxima vez, vou jogar pela janela.
-Seu desejo é uma ordem. Mas assim que o gato acordar.
-Assim que o gato acordar. – concordou.

* * *

-Como é voltar aqui, depois de tudo? – Perguntei e me arrependi assim que as últimas palavras saíram da minha boca. Invasivo ele.
-Horrível. – Ela disse depois de um tempo relativamente grande. – Parece que a qualquer momento eu irei vê-lo. Mas eu não vou. – Ela sorriu triste. – É ainda pior porque se ele pudesse dizer alguma coisa, eu sei que brigaria comigo por deixar que todos aqui me odeiem. Mas é mais fácil. E eu não sou tão forte assim.
-Não entendo como deixar que todos te odeiem seja mais fácil.
-É ainda mais difícil superar a morte de alguém quando se convive vinte e quatro horas com uma lembrança. Claro que minha casa ainda é a casa dele. Depois de quase dois anos, se ele aparecesse veria que nada mudou de lugar. – Ela sorriu saudosa. – Mas aqui, é diferente. É mais fácil não ser bem-vinda em um lugar que não se quer frequentar.
tinha direito de crescer aqui. Era o que teria feito se estivesse vivo. – A voz de saiu das profundezas do abismo e fez com que e eu nos virássemos para vê-lo.
-Você está certo. Mas o que eu posso fazer? Ele não está vivo. Sabe quanto tempo demorei para criar coragem e vir aqui para aquela conversa com François? Depois do convite dele, dois meses. – Certo, ela realmente não tinha superado a morte do marido.
-Você continua insuportavelmente dramática. – disse seco.
-Continuo. Estou ainda pior. – Ela disse séria.
-Vamos logo ver essa droga de carro, François disse que só vou poder ir embora depois que te mostrar. – disse pouco amistoso, e nós o seguimos.
Depois de descobrir o carro, levantou as mangas da blusa e começou a analisar de perto. Eu não entendia como aquela mulher que eu vi, havia se tornado essa. Claro que ela ainda estava impecavelmente linda, mas agora parecia além de mulher normal, uma mecânica.
-Vamos ter que fazer muita coisa, mas o motor está bem feito. Esse sistema de combustível deu muito trabalho para ser pensado, não vamos desperdiçar. Se der tudo certo, para a próxima corrida, esse aqui deve servir. Mas com essa equipe, e com você, , nós vamos conseguir. Você conhece esse carro tanto quanto ele. – Eu estava embasbacado, e olhava melhor o interior do carro. Tínhamos mais dois carros, que eram dirigidos pelos pilotos, mas esse nunca foi dirigido por ninguém, ainda não estava pronto, ninguém corria com ele há anos.
começou a tirar coisas estranhas do interior o carro. Embalagens de balas, chocolates, uma meia e até um brinco. e eu olhávamos a cena totalmente confusos. Até notar algo, que eu, obviamente não percebi.
. – Ele disse com um sorriso leve de surpresa.
-Ele sempre espalha embalagens de doces por aí. – disse sorrindo.

* * *

-Lewis, eu vi o jogo do seu time ontem. Achei que você nem apareceria por aqui hoje. – disse rindo.
-Você não tem nada melhor para fazer, não? Tipo terminar esse carro?
-E aí meninas! Como está menina loira? – disse se referindo a , que o respondeu com o dedo do meio.
-Oi. Quero fazer uns testes no carro. – disse sério. – Te chamaria se tivesse um banco de trás para testarmos, mas não tem. – riu e dessa vez ele respondeu com o dedo do meio.
-Não sabia que homens casados ainda sabiam para que é usado o banco de trás. – Lewis disse rindo.
-Quando o assunto virou meu casamento? – fingiu estar afetado.
– Ele é uma mocinha. – zombou novamente, enquanto entrava no carro, já vestido.
-Quando se casa, a gente não precisa do banco de trás. Tem muito mais espaço em casa. – disse arrumando os últimos detalhes antes de arrancar.
-Como está Paris? – perguntou se referindo a , enquanto comia um chocolate. – Você vai acabar morrendo de diabetes.
– Eu não vou deixar vocês tão cedo, . E ela está bem, quando eu chegar em casa vai estar me esperando com um vestido bem bonito. Vamos sair para jantar. – disse se encostando no banco.
-Você está caidinho por ela mesmo, não está? – perguntou.
-Dá para perceber? – Ele riu maroto. – Ela é perfeita, a mulher da minha vida. Nosso aniversário está chegando, então eu chamei ela para ir num concerto da sinfônica, mas ela não quis. Ia ter um jogo de futebol no dia, e ela queria ver. Então nós compramos entradas para o jogo.
-Ela me surpreende. – disse observando o amigo sorrir.
-Ela é demais. Até hoje, quando ela chega perto de mim, parece que vou vomitar de nervoso.
-Vocês se merecem. – sorriu.
– É, e eu não vejo a hora de termos mais filhos. Quero uma menina. Já estou pensando no nome. – disse animado, comendo outro doce.
-E você já contou isso a ela?
-Sim. Não a parte do nome. Ela é muito ansiosa. Eu pensei em algo do tipo, Genevieve, ou Sarah, ela gosta de Emily, mas eu não acho que ela vá gostar quando descobrir que minha ex-namorada se chamava Emily. – gargalhou. – Mas a Lou pode colocar o nome que ela quiser, no final eu sempre faço o que ela quer. – fez uma careta engraçada e colocou o capacete, arrancando e saindo do boxe com velocidade.

* * *

– E a meia e o brinco? – Eu perguntei, aparentemente mais surpreso que os dois em encontrar lixo de uma pessoa que morreu a dois anos dentro de um carro.
-Eu me lembro quando ele chegou em casa sem uma meia. Ele nem sabia onde havia perdido. E o brinco, é meu. Eu perdi o par, e pedi para que ele guardasse esse para mim, enquanto eu procurava. Ele o perdeu também. –Ela e gargalharam juntos.
-Ele sempre foi uma formiga atrapalhada. Lembra quando ele trouxe o para cá e aí você veio e buscou o garoto, e o se esqueceu. Ele ficou como louco procurando ele aqui. Duas horas depois ele tomou coragem para te ligar e contar o que aconteceu, e aí você disse que ele estava com você. – Eles riram ainda mais alto.
-Ele não esquecia do por mal. Na verdade, ele nunca o esqueceu de verdade. Eu sim, duas vezes. – ria alto escorada no carro.
Eu nunca havia me dado ao trabalho de pesquisar ou nunca havia dado atenção a assuntos que envolviam . Mas ali, ouvindo e falando dele, eu comecei a desejar que ele não tivesse morrido. parecia alguém tão especial e bom, que mesmo sabendo que ele já estava morto há quase dois anos, tudo que eu queria era ser seu amigo.
-Ele nunca terminou esse carro. Sempre dizia que era um trabalho dele, e que seria seu legado. Não deixava ninguém ficar por perto quando estava trabalhando nele. – disse tocando delicadamente o aerofólio do carro. – Estava quebrando a cabeça com o sistema de amortecedores. Lembra de como as vezes ele parava, estático, do nada e começava a ter ideias? – disse saudoso.
-Quando estávamos saindo, no início de tudo, eu estava perguntando sobre a família dele, e ele ficou assim, no meio da rua. Eu fiquei desesperada porque achei que ele estava se sentindo mal. E então, ele se virou para mim, depois de uns dez minutos, sorriu e disse pneus ultra macios. E continuou a conversa como se nada tivesse acontecido. – riu alto acompanhada por . – Depois eu me acostumei com isso.
…- disse sorrindo. – Ele deve estar feliz por você ter aceitado, por estar aqui. – Nesse momento eu estava como uma criança, olhando de para , e de para .
-Ele não queria que eu me afastasse daqui. Você estava certo quando disse que devia ter crescido aqui. – A mulher suspirou. – Mas as coisas são mais difíceis do que parecem. Depois daquele dia, eu não consegui entrar em casa por um mês. E mesmo assim, mesmo hoje, as vezes eu chego em casa e acho que ele vai estar lá. Dormindo no sofá, ou cozinhando. É mais fácil lidar com isso de longe. Mais covarde também. Eu só finjo que ele está viajando, e que logo deve voltar. – não respondeu. Poucas pessoas conseguiam dizer algo perante aquele tipo de desabafo, e eu estava bem longe de participar desse seleto grupo, assim como , aparentemente.
continuou:
-Semana passada, eu cheguei mais tarde do trabalho. Fui direto para cozinha, e tinha um post-it novo na geladeira. Estava escrito, acho que nunca dei tanta atenção a algo tão simples. – riu. – Estava escrito: Liv vem aqui amanhã, por favor, não deixe ela mexer no meu projeto. Tem pizza na geladeira. Por favor, não coma tudo. Eu li, sorri e continuei a vida. Por quinze minutos, eu esqueci que ele morreu, parecia que eu iria entrar no meu quatro e encontrar ele lá, deitado, dormindo. Parecia que tudo estava no lugar. E então eu fui até o quarto do , o cobri melhor, e fui para o meu. Só quando acendi as luzes que me dei conta de que nada havia mudado. Eu voltei à geladeira, encarei o bilhete. – a olhava com pena, minha expressão não devia ser diferente. – A letra do e do são praticamente as mesmas. E normalmente reclamava quando a nossa sobrinha, Liv nos visitava. Principalmente porque eu sempre deixei que ela fizesse tudo lá em casa. Mas dessa vez não era o preocupado com um projeto de algum carro. Era o preocupado com um projeto de escola. Mas por um momento, pareceu tão real. Mas tão real. – terminou encarando o chão.

Capítulo 03

O que os novos ventos trazem

* * *

Era domingo de manhã, Grande Prêmio de Mônaco. sabia exatamente o que fazer, mas não sabia como fazer.
-É só colocar o microfone na cara deles. Eles vão falar. – René, seu companheiro de externas e cinegrafista aconselhou.- O que as pessoas mais querem aqui é aparecer.
-Eu não posso fazer isso. Não sou uma grosseirona. – Disse se sentando de qualquer jeito numa cadeira. – O que François diria? Eu tenho que me comportar, é o meu primeiro dia e o nome dele está em jogo.
-Isie, entenda. Ele apenas fez uns telefonemas. Você está aqui por mérito. E ele não está te vigiando. – René disse, enquanto organizava o equipamento distraído.
-Meu pai me ensinou uma coisa. – Explicou, se levantando e ficando frente ao amigo. – Mais importante que nunca esquecer quem lhe fez mal, é nunca esquecer quem lhe fez bem. E eu sou recém-formada, sabe o que as outras garotas da minha turma estão fazendo?
-Estagiando na Vogue? – René zombou.
-Isso, tripudia. – respondeu ranzinza.
Já que nada ajudava a melhorar o nervosismo, resolveu observar os arredores. As maravilhas de cobrir os bastidores de um esporte tão rico e importante, eram os shows à parte fora das pistas. Mas ela já conhecia, sendo filha de um dos mecânicos da François-, havia perambulado muito por ali, não nas corridas, claro. Mas era um espaço familiar.
Tudo fluía normalmente, até que algo a tirou completamente da orbita. Um homem, ele tinha alguma coisa. Um brilho diferente. Usava um macacão azul e cinza de piloto e tinha um capacete nas mãos, ele sorria e acenava para alguém. Parecia um sorriso tão verdadeiro, contagiou tudo ao redor, como se nunca mais ninguém ali pudesse se sentir triste de novo. o acompanhou paralisada, girando em seu próprio eixo, como um planeta desengonçado e perdido.
-Ah não. Você também não.- René disse, mas não conseguia olhar para outra coisa além daquele anjo. – Para de secar o , sua safada.
-O que? – perguntou confusa.
-Para! – René zangou-se.
-Eu não…estava… – desviou o olhar para René, e de volta para o homem, até ele sumir na confusão dos boxes.
-A última repórter saiu por isso, sabia? – Questionou o cinegrafista.
-O que? Eu não fiz nada. – Defendeu-se . – Nem sei quem é ele. Quem é ele?
-Você é mesmo uma péssima repórter. – René balançou a cabeça, incrédulo. -Aquele era Problema . Ele é filho do diretor da François-, riquíssimo. O empresário dele é o tio, Fabien François, o ex-piloto.
-Eu li alguma coisa sobre. Estão questionando se ele tem talento mesmo ou se é só o dinheiro e a influência da família que fazem ele correr e ganhar. Mas nunca tinha o visto. Ele parece simpático. – Concluiu .
-Ele tem que ser, todo mundo aqui acha que ele tem privilégios. Na última corrida, interromperam bem na hora que ele ia ser ultrapassado, e aí ele ganhou. Bem duvidoso. –René explicou. – Mas tem gente que acha que isso é um esporte caro demais, e competitivo demais, para deixarem o filho de alguém ganhar. E a François- não é a mais rica daqui. Sabemos.
-Ele não corre pela François, eu sei. Conheço os pilotos deles. – Concluiu, .
-Não, ele começou uns quatro anos atrás na formula um, na François-. Mas aí, saiu. Dizem que foi porque não aceitou o salário, queria mais. Outros que ele não queria se vincular ao pai, para que ninguém pensasse isso dele não ter talento. Mas na verdade ninguém sabe. Ele corre pela McLaren agora.
-Ah, talvez no fundo, ele seja só alguém querendo provar seu valor para o mundo. – Suspirou.
-Não se compare. São coisas diferentes. Ele é como qualquer um outro piloto, jovem, cego pela fama, dinheiro, mulheres, drogas. – René disse.
-Que horror, René. – não acreditava, ele parecia tão resplandecente, devia ser uma ótima pessoa.
-Oi. Estou procurando o . – Uma mulher que surgiu com o vento disse, os assustando.
-Essa área é só para quem tem credenciais, moça. – René respondeu.
-Eu estou com ele. Posso ir onde quiser. Onde ele está? – Ela insistiu.
René e se entreolharam incertos.
-Acho que ele foi por ali. – indicou o caminho que tempos antes, tinha tomado.
-Obrigada. – A mulher disse e então voltou seu olhar para o equipamento. – Vocês são jornalistas? Querem tirar uma foto minha? Eu permito. Andem logo. – e René estavam estáticos observando a cena em terceira pessoa.- Andem. Podem colocar, exclusivo. Uma foto da namorada de . – A mulher disse esnobe e sorriu.
René, de forma robótica, levantou uma das câmeras e fotografou a mulher, que saiu sorrindo em direção aos boxes. Talvez René estivesse certo…
-Olha, não é aquela atriz? A ruiva, do filme do DiCaprio? – questionou.
-Nossa. Sim, Sarah. A Sarah. Eu estou tendo uma visão. – riu do parceiro. – Ela está vindo para cá. O que eu faço?
-Sei lá, ela não está vindo te pedir um autografo. Tire fotos, filme. Vou tentar perguntar alguma coisa. – ajeitou um pouco o cabelo e se preparou para abordar a atriz.
-Sarah, como vai? – a recebeu sorrindo.
-Muito bem, obrigada. Desculpe, mas você saberia onde é o boxe da McLaren? Do ? – Perguntou.
-Acho que é o último. Se importa de responder algumas perguntas sobre hoje? – tentou ser o mais cordial que podia, mas sentia que falhava terrivelmente.
-Claro. – Sarah ajeitou os cabelos, e olhou para a câmera.
-Bom. – engasgou. – Você gosta de fórmula um?
-Sim, eu adoro os carros. Acho muito legal. Mas as vezes é meio cansativo, são tantas voltas, não é? – Sarah riu e tinha uma tela branca no lugar de ideias.
-E qual é o seu palpite para hoje?
-Estou torcendo para o , ele corre muito bem. Não perde uma. Acho que ele tem tudo para ganhar, meu coração é dele. – sorriu, agradeceu.
-Eu acho que não permitem mais a entrada de visitantes nos boxes agora, a corrida já vai começar. É só para família. – avisou.
-Tudo bem, eu sou a namorada. – Sarah disse e sorriu. -Se quiser, pode dar o furo. – Dizendo isso, a atriz seguiu seu caminho.
-Eu sou uma fraude. Não consegui fazer duas perguntas que prestassem. – Lamentou .
-Não foi tão ruim. Não mais que o homem que marcou encontro com duas mulheres diferentes ao mesmo tempo e no mesmo lugar. – Zombou René.

* * *

As mudanças na François- estavam realmente profundas. Depois de anos trabalhando na escuderia, eu estava saindo do autódromo. Aparentemente tudo que fiz na minha vida, desde que decidi trilhar esse caminho, estava me levando até ali. Mas não era como eu esperava. O de anos atrás achou que seria piloto, teria fama e sucesso fazendo uma coisa incrível e que amava, correr. Mas quando a realidade bate à porta, não adianta fugir pela janela.
O complexo de fábricas da François- ficava a uma hora de Mônaco. Era do tamanho do meu antigo bairro, tinha suas próprias ruas, era gigantesco. Estava ali com , porque queria mostrar o carro três aos engenheiros, e ninguém iria trabalhar no autódromo. estava com um vestido cinza, e um casaco pesado, amarelo. Linda como sempre. Eu estava com a minha melhor roupa, o que não significava muito. Um tricô cinza e calça jeans. Eu me sentia um adolescente do interior num tour pela cidade grande.
-Que bom que chegaram. Eles estavam apenas nos esperando, o carro já chegou. – sorriu animada, eu a cumprimentei, só acenou com a cabeça.
-Isso não é o que ele queria. não queria que engenheiros terminassem o carro dele, não esse. – bufou.
Achei que não responderia, achei que nem tivesse escutado. Ela passou sorridente pelo saguão, sorrindo e acenando para algumas pessoas. Mas quando entrou no elevador, a fera mostrou suas garras.
-Sim, . Eu adoraria que pudesse terminar o carro. Mas a não ser que você saiba como ressuscitar alguém, ou como se comunicar com os mortos. Me deixe resolver. – Ela disse calma e pausadamente, encarando . – Se outras pessoas não intervirem, não vamos usar esse carro. Por isso você está aqui. Para garantir que o que fez e pensou seja respeitado. Que droga, toda vez é isso.
O silêncio no elevador se tornou sepulcral. E então, as portas se abriram e vestiu o sorriso grande de novo. Fantástico. Ela parecia outra pessoa na fábrica, alguém conhecido, simpática, sociável. nos deixou em uma sala, sentados diante a uma grande e bem limpa janela. Eu estava tão perdido na experiência de conhecer a fábrica que demorei perceber que alguém falava alguma coisa perto de mim.
-Hein?
-Você não ouviu nada do que eu disse, não é? – perguntou, chateado.
-Não, foi mal. – Me virei para encara-lo.- Você viu ela? Parecia outra pessoa.
-Ah, está mostrando as garras, companheiro. – riu.- Ela frequentava muito aqui, na verdade. Depois que eles se casaram, ela virou meio que a representante do no conselho, tem uma cadeira até hoje. Ela só não ia no autódromo depois que ele morreu, aqui ela sempre veio. Dá para ela usar as roupas chiques. – completou, com ironia.
-Eu nunca estive num lugar tão grande e tão incrível antes. – Contei, um pouco inseguro, e riu.
-Você ainda não conhecia? Já eu, odeio esse lugar. – Antes que eu pudesse perguntar o motivo, entrou na sala, e nos levou para outra. Com computadores, painéis e pessoas.
-Eu não acredito que resolveram reciclar você, . – Um homem baixo e de cabelos ruivos disse, chamando nossa atenção.
-Lewis, o motivo pelo qual eu nunca mais posso pisar em Liechtenstein. – disse sério, e depois abraçou o homem e beijou sua cabeça em vários lugares.
-Quando Paris me disse que você viria eu não acreditei. O que pode ter tirado você do seu covil? – Lewis brincou.
-A vossa digníssima irmã. – disse e riu alto, por incrível que pareça, acompanhado de Lewis.
-É porque disseram que estavam dando energéticos. – completou. Eu fiquei confuso. Pela expressão, parecia que tinham xingado a mãe de . Lewis gargalhou.
-Ele não sabe, não é? – Lewis se referiu a mim, e começou a rir alto. tinha uma péssima expressão. – acompanhava nos eventos, e sempre voltava com volumes estranhos na roupa. Ninguém nunca teve coragem de perguntar o que era. Então um dia, resolveu acabar com o mistério. achava que os energéticos que tinham na geladeira do patrocinador eram para levar para casa. – Lewis riu. – Ele levou energéticos para casa por uns seis meses.
-Depois disso, todo ano no aniversário dele, é tradição darmos energético. – disse rindo, e eu a acompanhei. – Agora tem alguém que serve as bebidas, também.
-Eu devia denunciar vocês por abuso psicológico. – disse irritado, e encarou . – Você está falando igual a ele. – riu e abaixou a cabeça.
-Eu sempre digo isso a ela. – Lewis bateu duas palmas. – Vamos lá, esse carro não vai se fazer sozinho.

 

Capítulo 04

 

E ele está sempre aqui

 

– Nenhuma escuderia corre com três, . – François repetiu pela oitava vez. estava tão empenhada em ganhar que queria até mesmo mudar regras.
– Então, se Reed não aceitar, dois das categorias de base ou pilotos de teste. – insistiu.
– Reed tem que aceitar, não podemos trabalhar com a ideia de que ele negue. Aliás, ele está atrasado, não está? – François perguntou, encarando pela quinta vez o relógio dourado no pulso.
Estávamos na sede da François- pela segunda semana seguida. Os projetistas foram rápidos e agora tudo estava sendo feito, era bonito ver como todos se empenhavam para terminar os carros a tempo, para que ficassem minimamente dirigíveis. Estávamos focados em finalizar o carro que havia projetado antes de morrer, para tentar conseguir permissão e usar a tecnologia de distribuição de combustível que ele criara. Com isso, inicialmente teríamos dois carros diferentes correndo na temporada, o carro que trabalhava e o que estava sendo repaginado por Lewis e sua equipe, a equipe da François-, a minha equipe.
Depois que começou a dar cara a escuderia, as coisas mudaram quase completamente. Não íamos mais ao autódromo, na verdade só íamos a sede e a frequência de visitas era bem pequena. Eu estava em êxtase, agora parecia mesmo estar no mundo da Fórmula Um. Entrar de cabeça numa escuderia problemática em queda livre não foi uma escolha muito sábia, mas quando escolhi, com o coração, sabia que geraria bons frutos. No fundo, não sabia, mas era grato por estar errado.
Estávamos todos ali, numa bonita e iluminada sala de reunião. Além de e François, estavam dois advogados, um conselheiro e o chefe de equipe. Demonstrando ter um ótimo coração, me permitiu ficar e observar, desde que completamente mudo e que ajudasse a conter se preciso fosse. quis assistir a reunião para ter argumentos contra , segundo ele, e eu para conhecer Reed. Eu era piloto de testes no papel, mas quase não viajava com o resto do pessoal, era o piloto de testes dos pilotos de testes. Conhecer Reed era um sonho, algo fantástico, para seria a chance de bater no homem que estava com a esposa do melhor amigo morto.
Mesmo sendo um mero piloto de testes e alguém da garagem, nos permitiam participar de certas coisas. era um amigo íntimo de e , eu aproveitava as deixas e ficava perto. Geralmente, pessoas como nós não participavam de momentos como aquele, mas por alguma razão nos incluía.
A secretária anunciou a chegada de Reed e seu empresário, todos se ajeitaram, endireitaram a coluna, ou no caso de , estralou o pescoço.
– É uma conversa informal, uma sondagem. Só estamos todos aqui para facilitar nosso trabalho. – Orientou . – Portanto, para todos, mas principalmente para François e vocês dois. – suspirou e apontou para mim e , que fingiu não ter ideia do que ela falava. – Não interfiram.
Reed entrou na sala e anjos cantaram sua presença. Era um inglês com sorriso grande e bonito, alinhado. A corrente e o relógio que usava, comprariam tranquilamente o quarteirão em que fui criado. Ele era incrível, tinha postura, mas não era tão alto quanto eu imaginava e o nariz era maior também. William Reed, do alto dos seus um metro e setenta, entrou na sala e acenou para François, deu um abraço desengonçado em e se sentou de maneira mais relaxada do que o aconselhado. sorriu sem mostrar os dentes e se sentou também, sendo seguida pelos outros e me puxou quando percebeu que eu não me sentaria.
– Quanto tempo, . – Reed cumprimentou e eu me perguntei que espécie de relacionamento deveria ser aquele. – O que estamos todos fazendo aqui?
– Eu soube que está na pista, não pude deixar de te colocar na minha lista de desejos. – brincou e sorriu provocativa.
– Não sei, não. – Reed sondou os ocupantes da mesa, gastando um bom tempo com François, enquanto exibia um sorriso presunçoso. Ele estava jogando? – Não sei se você pode pagar meu preço. Sabe como é, eu custo muito caro.
– Eu sei, quem colocou o preço foi eu. – Nunca, na minha vida, sonhei presenciar essa cena. – Por isso estamos aqui.
– Não sei, tenho outros convites mais interessantes. – Reed pousou o tornozelo direito sobre o joelho esquerdo. – Me mostraram a proposta, não sei se vale a pena. Mas é bom poder usar isso para ver você.
– Provavelmente, em nenhuma dessas escuderias você teria total evidência ou teria chance de competir de igual para igual com os melhores pilotos da temporada. E a Toro Rosso já se decidiu entre você e Pierre Gasly? – indagou, e Reed ficou sério. – Sabe, tem um garoto novo que também tem tudo para fazer um ótimo dois mil e dezenove. Sabe como são essas coisas, tudo muda rápido.
– Eu brigo com os pilotos nas pistas, não preciso provar nada para ninguém fora delas. – Reed falou, recostando a cabeça na cadeira e olhando para o teto.
– Claro que sim. Mas no fundo uma boa equipe faz falta, não é? Um carro bem projetado, tecnologia… – relaxou na cadeira, elegante como uma pluma. – Mas você sabe disso melhor que eu.
– É assim que você quer me convencer? – William riu alto, balançou a cabeça e apoiou o corpo na mesa, olhando fixamente para . – Eu soube que vocês estão quase falidos, por que eu faria uma coisa dessas comigo?
– Porque você quer ganhar, não só um troféu aqui e ali, quer ganhar tudo. E de quebra, também quer mais fama, mais dinheiro, e não existe problema nisso. – se endireitou. – Nós podemos te oferecer isso, um carro bom, tecnologia de ponta, dinheiro, destaque. E você, em troca, vence. O que você tem a perder? – estava falando da mesma escuderia que eu conhecia? François estava branco, com o cenho franzido e eu com a boca aberta e perto demais da mesa.
– Que garantias eu tenho de que isso é verdade, tudo que você promete? – Reed questionou.
– Por favor, William. – disse incrédula com a dúvida de Reed. – Você me conhece a tempo suficiente para saber que eu não blefo. Não me subestime. – Reed arqueou uma sobrancelha e soltou um riso nasalado. – Eu posso acrescentar um zero no que as outras escuderias te ofereceram e você pode ser ouvido quanto ao carro. Contrato de uma temporada, podendo ser prorrogado caso as duas partes sejam favoráveis. – propôs. Eu acharia estranho que ela estivesse negociando, sendo só conselheira, se ela não tivesse explicado antes que ela faria as negociações porque Reed a respeitava, e ele só ouvia quem respeitava.
– Me ofereceram três zeros. – Reed contou.
– Até onde eu sei, foram um e meio. Mas em nome do tempo que nos conhecemos, em reconhecimento ao seu potencial, te ofereço dois zeros a mais para ficar com a gente.
François tossiu e engasgou quando tentou tomar um pouco de água, e eu estávamos confusos, extremamente calma e confortável, e os outros expectadores tendo um dia comum.
– Nessa temporada, qual o principal patrocinador? E de quem será o motor? – Reed quis saber, depois de ponderar um pouco e trocar olhares com o empresário.
– O motor é nosso, ainda fazemos ótimos motores na François-. O patrocinador principal é o Grupo . Podemos te enviar um relatório detalhado, várias estatísticas, tabelas, tudo que quiser. – explicou. – Desde que seja nosso piloto.
– Eu preciso analisar a proposta. – Reed finalizou e acenou para o empresário.
– Estaremos aguardando sua resposta. – falou e sorriu educada.
William arqueou as sobrancelhas, curvou o canto da boca e se levantou, não cumprimentou ninguém e deixou a sala em silêncio.
– Como assim? Ele já vai? Eu nem falei com ele. – Me levantei para tentar ver por onde Reed ia para tentar alcança-lo.
– Dá para você se conter? O assunto aqui é sério. – sussurrou e me puxou de volta para a cadeira.
Os advogados tiravam dúvidas com , François estava mudo, encarando a mesa como se não estivesse ali. Ele devia estar pensando em como pagaria o que prometera a Reed.
Pouco a pouco, as pessoas deixaram a sala. Eu estava curioso demais para sair e parecia estar alarmado, pronto para agir caso algo acontecesse. Quando se levantou para deixar a sala, François quebrou o silêncio com um grito assustador. Parecia uma das cenas do filme “A queda! As últimas horas de Hitler”. Na verdade, era como se estivéssemos no meio da cena, um Hitler francês, gritando com seu homem de confiança, espalhando saliva por toda mesa. Alguns oficiais, , sem reação, e as mulheres, eu, chorando.
– Quando eu te chamei, eu queria que ajudasse a nos recuperar, mas você destruiu tudo o que sobrou. William nunca vai aceitar a proposta, você prometeu coisas que não pode cumprir. – François babava um pouco enquanto gritava, alguns dos poucos cabelos restantes em sua cabeça tremiam junto com suas mãos. – Eu devia saber que não poderia contar com você. Você adiantou o nosso final, somente isso. Uma burra. Como eu vou sair disso agora? Você não levou mais de quinze minutos para estragar tudo.
– François, você não devia falar assim com ela. – defendeu, de repente e François direcionou a ele um olhar furioso.
– Não banque o aqui, . – Repreendeu. – Você acha que temos tanto dinheiro assim, para pagar tanto ao Reed? Você devia usar sua influência, a relação de vocês para convence-lo, não dinheiro. Nós não temos nem metade disso!
– Eu vou fingir que não ouvi nada disso. – falou quando François se cansou de gritar. – Que você me perguntou de forma educada o que eu tenho em mente. Vou ignorar sua postura mais uma vez, em nome do , do mesmo jeito que fiz nos últimos treze anos. Mas essa é última vez, se agir assim comigo de novo, não vai ter nem sobre o que se lamentar. – tinha a voz calma e olhava François nos olhos ao falar. – Agora, se me permite. Estou em contato com o Grupo , Dino quis ajudar, o conselho ficou interessado em patrocinar principalmente se tivermos Reed no time. Ele me deu carta branca, desde que eu trouxesse o William para a equipe. – explicava olhando de François para . – Não precisa se preocupar em pagar Reed, ou outro piloto, nem os pilotos de teste. Já temos outros patrocinadores, que estão interessados na mídia que podem levantar por contas das polêmicas que nos envolvem.
Consegui perceber um leve tremor no lábio superior de François, e então ele se fechou numa careta e saiu da sala sem dirigir a palavra a ninguém. nos desejou um ótimo dia e seguiu pelo mesmo caminho.
O que eu mais achava excêntrico na François-, eram que tudo parecia sempre muito pessoal. Uma negociação de pilotos que devia ser somente uma sondagem, se transformava numa reunião para cobrir possíveis propostas, e de uma reunião, se tornava uma gritaria digna da minha antiga vizinhança. Tudo era pessoal, acho que tinha alguma coisa a ver com o fato de serem todos da mesma família.
Grupo ? Dino? Eu estava confuso, nunca soube desse patrocinador na Fórmula Um, muito menos na François-. Quem era Dino? tinha tantos contatos assim? Não estávamos falidos mais? Quando ela disse sobre não se preocupar em pagar os pilotos de teste, será que eu teria um aumento?
Eu adoraria pensar sobre tudo isso e questionar quanto a suas ações na reunião. Defender de François? Ele também devia saber quem era Dino. Mas eu sequer conseguia falar, precisava correr para acompanhar que andava a passos mais que largos para fora do complexo.
– Por que é que você não pode andar mais devagar? – era mais alto que eu, era difícil acompanha-lo as vezes.
– Eu preciso ir num lugar. – Ele disse ansioso.
– Você precisa é me explicar o que está acontecendo. Todo mundo está meio maluco. – Eu estava perdido no meio de tantas novidades e tantas cargas emocionais.
– Você pode ficar quieto, ? – perguntou sério, enquanto abria a porta do carro.
– Para onde nós vamos? – Eu quis saber.
– Resolver uma coisa importante. – estava sério, apressado. Tinha algo em seu olhar que era diferente, que não estava ali antes da reunião.

Quinze minutos depois, estávamos entrando numa rua que eu não conhecia ainda e que estava completamente vazia. estacionou num bar, o único que devia estar aberto no meio da tarde.
– Eu posso pelo menos perguntar por que estamos num bar?
– Não, não pode não. – Ele respondeu mal-humorado.

parou no meio do bar, como se procurasse alguém. O bar estava vazio, contando com nós dois e o barman, dez pessoas. No fundo do bar, de costas, estava o motivo de estarmos ali. Ou pelo menos o que eu supus ser o motivo, já que em condições normais, não gosto de pensar que aquele seja um bar que frequentasse.
– Como sabia que ela estava aqui? – Perguntei confuso e me ignorou completamente e se dirigiu a mesa.
– Por que vocês não estão em casa? – perguntou sem nos encarar, quando nos sentamos em sua mesa.
– Por que você e sempre escolhiam esse lugar para chorar? – quis saber e o encarou. – Eu não aguento mais ter que vir aqui buscar vocês.
– Acho que o cheiro de poeira e cerveja velha se tornou afrodisíaco para a gente. – Explicou balançando o copo.
– Eu achei que ele tivesse mudado, depois de ter pedido sua ajuda. – disse. – Achei que ele tinha melhorado depois que morreu.
– François é o tipo de cara que nunca muda. – balançou a cabeça. – Como você sabia que eu viria para cá e não para minha banheira de hidromassagem?
me contava que quando você se desentendia com François, magicamente aparecia aqui. Eu mesmo já estive aqui com ele, te procurando, um milhão de vezes. – explicou e eu percebi que esse detalhe eu não sabia.
– É, tem razão. – tirou o casaco e o jogou no banco, prendeu os cabelos e bebeu mais um pouco. – Ele é esperto, tinha tudo planejado, mas eu fiz ele sair do roteiro, isso o deixou louco.
– Do que você está falando? – perguntou.
– O motivo de François ter me chamado, foi para que eu usasse o que ele acha que aconteceu entre eu e Reed, para obriga-lo a ficar conosco. Ele achou que eu fosse usar isso, cobrar um favor. – explicou, eu estava pasmo. – Mas não é o meu jeito de fazer as coisas.
– Você falou sério sobre o Dino? – questionou. Eu estava certo, bem sabia quem era Dino.
– Quem é Dino? – Perguntei num impulso nervoso.
– Irmão do . A família do foi e é sócia da François-, mas o Howard achava que precisavam de mais, que a escuderia não conseguiria se manter se uma crise acontecesse. – gesticulava muito enquanto falava, quase derrubou o copo duas vezes em uma única frase. – Na terra natal deles, eles produzem carros, peças, eletrônicos, eletrodomésticos, equipamento para pesca, comida industrializada, chocolates. – riu. – São várias coisas que fazem parte do Grupo , que não tem ligação nenhuma com a François-. O Dino, meu querido cunhado, ficou preocupado quando soube da situação, ele sabia o quanto amava isso tudo e quis ajudar. Por isso François ficou tão irritado.
– Ele ainda tem essa briga ridícula com a família do ? – perguntou se espreguiçando.
– É, desde que o meu sogro e o Dino saíram em defesa do , quando ele quis voltar a correr pra François-. – Aquilo era incrível, e estavam praticando meu esporte favorito nos últimos dias: fofoca.
– Você acha que se o François tivesse falado com Dino antes, teríamos chegado a uma situação tão crítica? – e eu quisemos saber.
– François é muito orgulhoso, não aceita que pode precisar de ajudar com a escuderia. Ele tem uma equipe e sendo presidente, quer controlar tudo. Quer ele mesmo conversar com os pilotos, patrocinadores, mídia, quer ser empresário. É uma postura idiota. Se ele tivesse feito o que se espera de um presidente e deixado os outros trabalharem, com certeza não estaríamos aqui.
– Você não tinha noção mesmo? Antes de ele te contar tudo? – Eu perguntei curioso, e me encolhi quando percebi que fui notado.
– Não, eu juro. Tudo o que eu sabia, era o que a mídia dizia, que estávamos com dificuldades, que os pilotos e patrocinadores tinham ido embora. E o conselho estava preocupado, vários membros me confidenciaram isso. Mas eu não sabia e se ele não quisesse muito o Reed, também não saberia agora. Ele só me chamou para me usar. Ele jamais aceitaria pedir ajuda a um . – e riram e eu também, achei que tinha permissão.
– O que foi aquilo lá, hein? – perguntou para . – Bancando o ?
– Não precisa nem começar. – respondeu ranzinza.
– Tudo bem, tudo bem. – sorriu e tocou o braço de . – Eu só queria agradecer.
teria virado aquela mesa, se estivesse ali. – contou. – Eu achei que ele poderia resolver me atormentar se eu não fizesse nada. – Ah, então isso era bancar o .
já se meteu em tantas brigas entre François e eu. Ele sempre tomava minhas dores.
– Ele me contava, desde sempre François interferiu muito na vida dele, ele esperava que fosse interferir no namoro também. – estava mais leve, mais solto com , sem tentar ataca-la, só batendo papo. Não parecia nem a sombra do homem que apareceu para a reunião no começo da tarde.
– Ele te falou isso? Eu não sabia. Ele tentava equilibrar, mas as vezes era difícil. Ele sofria. – suspirou triste.
– Ele não gostava de ver você e o François brigando, obviamente. E na maioria das vezes, para defender ele. – apoiou os cotovelos na mesa, e cruzou os dedos. – Ele precisou de tempo, até entender que tinha que colocar alguns limites e parar de tentar ser perfeito.
… Não é incrível como uns dos maiores erros dele é ter tentado agradar todo mundo?

* * *

Setembro de 2002, Monza – Itália

 

– Eu seria o piloto do século se eu amadurecesse agora, segundo . – leu. – O que isso significa?
– Esquece isso, . Esquece os repórteres, as notícias. Não tem nada a ver. Só faltam duas agora, Estados Unidos e Japão. Pare de se preocupar com isso, se preocupe com o Barrichello ou Schumacher. – François pediu, despreocupado, enquanto acendia um charuto.
– Não. – negou chateado. – Isso não é verdade. Amadurecer. O que mais eu preciso fazer? Eu já não estou correndo pela François-, para evitar pensarem que sou favorecido.
– As pessoas vão dizer o que elas quiserem. – François se aproximou do sobrinho. – Escute a voz da experiência, pelo menos uma vez. Eles podem falar o que eles quiserem, enquanto isso, você ganha. A opinião invejosa deles não faz diferença.
– Falavam mal assim de você também? – perguntou. – Eu não consigo me lembrar.
– Falavam o tempo todo. Falam mal de todo mundo, garoto. – François respondeu, dando dois tapinhas no ombro de .

sorriu sem mostrar os dentes e foi até a varanda. Era um bom lugar para pensar, com vento leve e uma bela vista.

– Achei você! – Dino celebrou. – Estava pensando, pelo calendário, você consegue passar seu aniversário em casa, já vai estar lá pelo grande prêmio dos Estados Unidos.
– É, pode ser. – Respondeu desanimado.
– O que foi? Não está animado para seu aniversário? Não fazemos vinte e três anos todos os dias. – Dino brincou.
– E as outras idades, por acaso eu vou fazer duas vezes? – implicou dando um leve soco no braço do irmão. – Não é nada. – Disse tentando fugir do assunto.
– Eu estou esperando. – Dino insistiu.
– Eu só achei que se me tornasse piloto teria que me preocupar só com isso. E não com todo mundo achando que eu comprei vaga, que eu sou ajudado pela organização ou lidar com todo mundo falando mal de mim. – Desabafou.
– Você vai ter que se provar o dobro de vezes que os pilotos comuns, o pai sempre te falou isso. – Dino lembrou.
– É, eu sei. – concordou, se encostou no parapeito da varanda e cruzou os braços, encarando o chão. – No treino classificatório, o Montoya disse alguma coisa sobre eu ter comprado uma vaga na McLaren. E o Trulli questionou todos os anos que passei apertado num kart e nas categorias de base.
– Que babacas.
– É, e eu fingi que não ouvi nada. Fiquei quieto, na minha, assim como nas outras milhões de vezes que eu ouvi algo parecido, o Kimi estava comigo em algumas dessas situações, ele viu e ouviu. Na Áustria¹, quando interromperam a corrida quando o Barrichello ia me ultrapassar, disseram até que eu poderia ter influenciado nisso, sendo que paralisaram por causa da chuva. Consegue acreditar?
– Às vezes eles só escolheram falar mal de você porque é sobrinho do François. – Dino ponderou.
– Não justifica. – balançou a cabeça. – Eu não fiz nada, nem falei nada com ninguém. E pense comigo, eu iria jogar todo meu esforço de anos, tentando manipular o resultado de alguma corrida? Acho que nem é uma coisa possível de se fazer.
– Não tem sentido nenhum. O que o velho François diz disso tudo? – Dino quis saber.
– Ah, ele diz que é normal, que acontece com todo mundo. Eu acho normal, até certo ponto. – estava tão incomodado com a situação que podia explodir a qualquer momento, coçar a cabeça, morder o interior da boca e bagunçar os cabelos eram as formas que ele encontrava para aliviar o estresse. – Mas não são só os repórteres, a mídia que me detesta. Os pilotos, os próprios pilotos. Acho que eles têm um grupo secreto para falar mal de mim ou coisa assim. Devem organizar um bolão, para quando eu vou desistir.
– E você não vai, não é? – O irmão quis confirmar, preocupado.
– Nem eu sei mais. – bufou. – Eu aguento isso calado sempre, para evitar mais faíscas. E aí, um jornalista resolve acabar comigo também no jornal. – correu até a sala, para ler a matéria para o irmão. – seria o piloto do século se amadurecesse agora, por . Aqui esse cara diz que eu tenho me mostrado arredio e embora tenha futuro no esporte por ter algum talento, devia focar em chamar atenção nas pistas e não fora delas.
– Quem é esse? François não conhece? – Dino questionou irritado.
– E não acabou, ele diz que só o tempo vai dizer se o que eu tenho é realmente talento ou apenas costas quentes. É a minha frase favorita. Daqui uns anos, eu vou escrever para esse cara. – lançou o jornal para o irmão. – Vou dizer, , o tempo veio te dizer, ele tem é talento. Supere, abraços.

* * *

Enfim era a última semana de janeiro, num dia frio com nuvens demais e as vezes uma chuva grossa. Me lembrava , algo na seriedade climática do dia ou por causa do seu sobretudo chumbo.
Os carros novos estavam no autódromo e nosso piloto de teste já estava na terceira volta e contando. Depois de toda situação na reunião com Reed, ficamos algumas semanas sem trabalhar, pelo menos eu fiquei. Não era como se eu tivesse alguma função específica para a equipe, também.
Quando me juntei ao time François-, seria o terceiro piloto de testes. Porque alguém me viu correr e gostou de mim, até hoje não sei quem foi, mas ali estava eu. Para meu azar, cheguei junto com a crise e para cortar gastos, fiquei como peça de apoio, uma peça que não fazia muita coisa. Pensando bem, eu não sei descrever o que fazia antes da guinada que estávamos dando. Um dos nossos pilotos achou que certa escuderia italiana seria mais interessante e nos deixou na véspera da última corrida de dois mil e dezoito. Sorte a minha, que agora era oficialmente um dos pilotos de teste e que poderia dirigir pela primeira vez o carro que seria um dos legados de .
O outro piloto estava esquentando a pista com o carro projetado pelos projetistas da François- junto com Lewis, eu estava colocando a vestimenta da força, alegria, coragem: o macacão.
– Você acha que ele ficaria feliz com o resultado? – , que agora estava unha e carne com , perguntou.
– Eu ouvi aquele homem falar desse projeto por todos os dias do nosso casamento. – riu. – Eu só vou saber depois que testar.
– O que? Como assim? Você quer dirigir? – Perguntei atônito. Era a minha vez, .
– Às vezes eu dirigia, me ensinou. – explicou, depois que ela e conseguiram parar de gargalhar. – Mas não, . Você vai dirigir, nós vamos estar bem aqui te monitorando pelo rádio.
– Tá na hora, . – me deu um tapinha nas costas, como se não tivesse chorado de rir de mim dez segundos atrás.
– Se achar que a chuva pode atrapalhar, é só avisar.
– Está ruim, sem visibilidade. – Jean, o outro piloto de testes contou, enquanto tirava o capacete e se aproximava de nós. – Agora a chuva piorou. – me lançou um olhar curioso e se sentou para comer.
– Eu vou testar. – A parte boa de se morar em um lugar chuvoso e ter aprendido a dirigir num carro sem ar condicionado, era ser treinado de fábrica para cenários como esse.
Estava realmente bem ruim, a chuva se juntou a uma neblina baixa em algumas curvas, me deixando sem visão nenhuma. E o carro era diferente, ele era muito rápido, rápido demais. Às vezes, nas curvas era como se eu nem tocasse o asfalto, só flutuando sobre ele.
– Parece que eu estou aquaplanando desde que sai do boxe. – Disse no rádio.
– Mas não tem água parada na pista. – Lewis disse, pelo rádio.
– Acho que vou trocar os pneus.
Podia ser isso, os pneus. Mas o carro ainda era estranho, diferente. Era como se não fosse para estar ali, como se eu estivesse no lugar errado. , por favor, não é hora de superstições. Pneus trocados, de volta a pista, a chuva piorou.
– Como está a aderência? – Lewis quis saber?
– Parece melhor, mas a chuva piorou.
– Você está indo bem, não saiu de nenhuma curva, está indo bem. – Lewis tentou me motivar, mas eu estava com medo.
– Eu estou inseguro aqui.
– Pare, . Já chega. – pediu.
Talvez aquele carro nunca tivesse sido usado por uma razão. Talvez o espírito de habitasse o carro e estivesse nervoso comigo por estar dirigindo. Devia ter insistido para Jean dirigir ele, não eu. A chuva era grossa, os pneus no asfalto criavam uma nuvem por onde eu passava, piorando tudo.
, o carro é seu, mas me ajude porque está difícil segurar ele aqui. – Rezei.
E oficialmente, se tornou meu anjo da guarda. A chuva começou a reduzir devagar, até se transformar numa garoa fina no fim da terceira volta. Mas a sensação ainda era a mesma, de que estava longe do chão, mesmo nas retas. Numa freada mais brusca, travando os pneus para uma curva mais angulada, o carro respondeu como se lesse meus pensamentos.
– Eu tenho a sensação de não tocar o chão, mas o caro está respondendo. – Relatei.
– Nos testes estava tudo certo. Talvez seja impressão. Esse carro é diferente. – Um outro membro da equipe que eu não lembrava o nome disse.
O carro realmente era diferente. Talvez esse fosse meu erro, deveria ouvir mais, sentir mais o carro. Uma vez li que o segredo de era ouvir o carro, ser amigo dele. Acho que nunca entendi aquilo tanto quanto agora.
– Qual é o meu tempo? – Perguntei.
– Cinquenta e cinco, bom tempo. – disse.
– Vou testar uma coisa.
Reduzi um pouco a velocidade, o carro respondia bem, quanto mais lento mais aderência. Talvez a sensação fosse só falta de costume com algo tão rápido. Vamos juntos, pensei. Acelerando mais devagar, sentindo o atrito dos pneus no asfalto, a vibração, a força. Era como se o carro estivesse vivo, tivesse vida própria, quisesse correr sozinho e eu não significasse nada.
– Como está aí? – O aerodinamicista, Tommy, perguntou para mim.
– Parece bem, muito bem. Esse carro é um animal, parece um cavalo … – Lewis me interrompeu.
– Escuderia errada, . – Riu.

– Esse carro, ele está vivo. E tem pensamento próprio, é como se fosse um animal que quer correr e eu só estivesse em cima, dentro, tanto faz. – Contei empolgado quando encontrei Lewis e os outros.
Ninguém me respondeu, não como eu esperava. Alguns membros da equipe me parabenizaram pelas voltas, Lewis e Tommy me deram tapinhas nas costas. estava séria, falando ao telefone, bebia alguma coisa e encarava a parede vidrado, François me olhava com olhos semicerrados. Eu fiquei com medo.
– Ele me deu carta branca. – anunciou ao desligar o telefone, quando me notou, sorriu.
– Aparentemente, eu não tenho voz nisso. – François disse, contemplativo. – E eu acho que pode ser que você tenha razão, eu particularmente preferia outro. Você fez um Reed, pode fazer outro.
O clima estava confuso e eu tenho uma linha de vida que diz que quando algo está estressante, confuso ou angustiante, eu como. Me sentei junto a e me servi com pãezinhos e chá.
– Reed aceitou. – contou num sussurro. – A mídia acabou de divulgar, está irritada com ele.
– Era ele no telefone? – Reed frequentaria os mesmos lugares que eu, o dia ficaria para a história. Se algum dia alguém escrevesse algo sobre mim, seria que hoje aconteceu.
– Não, era o Dino. – O William Reed correndo pela François-. Eu poderia dar dicas sobre o carro, seriamos amigos e ele me chamaria para suas festas. Ibiza. Modelos. Gente rica. Eu.
, eu quero conversar. – chamou, cortando meu devaneio sobre os milhões de benefícios em ser amigo de William Reed.
Assenti e me guiou até o terceiro andar, uma varanda ampla, que devia servir como sala de reuniões no autódromo. Eu nunca tinha ido lá, nunca tive permissão.
– Eu sempre amei esse lugar, ele tem uma vista completa para pista. – comentou.
– É uma vista bonita, mesmo num dia como esse.
– É verdade. gostava daqui, quando ele se chateava, quando estava com raiva, contrariado. – riu. – Ele era um homem doce e sensível, as vezes precisava disfarçar. – apontou para baixo, onde era possível ver o boxe. – Se você olhasse de lá, ele estaria aqui, com uma ruga enorme no meio da testa, parecendo odiar você. Mas na realidade ele estava se odiando, geralmente.
– É, . – Respondi sem jeito. O que eu devia fazer, perguntar sobre ele? Queria falar de Reed, perguntar de Reed.
– Eu vi o hoje. – Eu sabia que tinha algo de sobrenatural naquele carro, meu Deus.
– Viu? – Perguntei, mas não queria saber a resposta.
– É, vi sim. – Ela sorriu. – Quando você fez aquelas voltas praticamente perfeitas, mesmo numa chuva que faria qualquer piloto com bom senso parar. Você e o tem isso em comum, falta de amor pela vida. – me lançou um olhar sério e balançou a cabeça em negação. – Você devia ter parado, devia ter esperado. Podia ter se matado correndo tanto num carro que não conhecia e numa chuva dessas.
– Agora eu conheço o carro. – Tentei me justificar.
– Não, não conhece. Não subestime o carro, .
– Nunca mais. Não depois de hoje. – Prometi, mais para mim do que para ela
– A inconsequência, desprezo pelas regras, falta de amor pela vida, o jeito de dirigir. Tudo parece com o .
– Eu senti uma coisa quando estava lá. Acho que meu sexto sentido, me dizendo o que fazer, me dizendo para ouvir o carro. – Confidenciei.
– É isso que difere bons pilotos, de pilotos extraordinários. Vocação.
– Eu queria falar com Reed, se puder. disse que ele aceitou, que ele vai correr pela François-. Eu preciso contar a ele, dar umas dicas pelo que eu percebi do carro. Acho que pode ajudar.
. – tocou meu braço e sorriu. – Will Reed não vai dirigir esse carro, você vai. – Era brincadeira?
– Nos testes, eu sei que vou. Mas estou falando de dirigir nas pistas, de verdade. – Talvez tivessem voltado atrás e negado a permissão para uso do nosso carro na temporada.
– Não, Madden. Eu estou dizendo que na temporada de dois mil e dezenove, quem vai dirigir esse carro, vai ser você. Isso se quiser ser nosso piloto.

Era brincadeira, não era? Só poderia ser. Eu, piloto da François-? Eu, ? Eu? Piloto profissional da Fórmula Um? Eu?

– E então? – perguntou, eu não conseguia falar.
– É sério? – O que eu poderia dizer? Nada era suficiente. Era alguma pegadinha ou brincadeira?
– É, nós vimos você correr. Na verdade, quando trouxemos você para a François-, já estávamos de olho no seu potencial. Você só provou isso. Eu só me irritei por não ter me dado conta antes e poder te dar mais tempo para se preparar.
– Eu não sei o que dizer. – Disse gargalhando. – É claro que eu quero. – Me abaixei e cobri o rosto com as mãos, queria gritar.
– Então temos que começar a providenciar tudo. – se abaixou, perto de onde eu estava e me deu um afago. – Parabéns, .
Eu queria sair dali, correr a pista toda a pé, gritando. Ligar para minha mãe, postar em todas minhas redes sociais, escrever na fachada de casa, num outdoor. Eu seria um piloto, piloto profissional. Madden, da François-.
, desculpe, eu quase me esqueci. – disse quando se levantou para deixar a varanda. – Por que disse aquilo, rezando para o ?
– Ah. – Sorri e me levantei. – Achei que já que o carro era dele, só ele poderia me ajudar.
– Você deixou ele orgulhoso hoje. – Ela disse sorrindo.
– Por que diz isso?
– Porque você foi escolha dele, claro. – O que? – que te viu na Fórmula dois, e quis te trazer para cá. Ele falou de você por semanas. Não sabia?
– Não. – Eu não tinha coração para tantas revelações.
– Acho que de alguma forma, ele sabia que precisaria de um sucessor. – sorriu triste e eu quis abraça-la. – Ele nunca foi de fazer isso, procurar talentos. Mas um dia acordou achando que precisava e ninguém foi capaz de fazê-lo mudar de ideia. Ele viu você, viu em você uma versão dele de quando eu o conheci. Impulsivo, corajoso, inteligente, intuitivo. estava certo. – Eu não consegui responder. – De novo, meus parabéns.
me deixou sozinho. Eu ainda queria sair por aí, correr e gritar, mas estava chocado, pasmo. me conheceu, me escolheu. Eu estava ali por causa dele, porque ele viu potencial em mim. E eu correria pela primeira vez dirigindo o carro da vida dele e que ele nunca pode. Durante o teste, quando brinquei sobre ser meu anjo da guarda, não podia imaginar que ele realmente era.

* * *

Março de 2003, Melbourne – Austrália

 

– Felipe, o brasileiro, se lembra dele? – François perguntou enquanto passeava com e Dino pelos boxes.
– Lembro, claro. O que eu ajudei na temporada passada.
– Esse, agora ele é piloto de testes da Ferrari. Ele andou dizendo por aí que você foi como um anjo da guarda para ele, que ele te admira muito. – François contou e sorriu surpreso. – Por causa disso, do que ele disse que a Ferrari está te sondando. Você devia ir, garoto. Eles pagam muito bem.
– Eu não quero sair agora. Nem sair por dinheiro, não preciso. – repetiu pela quinta vez para o tio. – Eu não vou para lugar nenhum, François.
e Dino continuaram o passeio, observando o movimento, enquanto François deu de ombros e foi embora. Conhecendo o tio como conhecia, sabia que ele não daria trégua até conseguir o que ele achava melhor. Por isso, estava passando várias horas de seus dias queimando neurônios, afim de encontrar uma desculpa ou algum argumento para convencer o tio.
– Ali está ela! – Dino alertou. – Perto do Barrichello, acho que ela é repórter.
– Eu nunca saí com uma jornalista. – observou, enquanto tentava disfarçar e se aproximar do grupo de pessoas em volta da repórter.
– Para tudo tem uma primeira vez. – Dino riu.
– Olhe para ela, ela fica linda séria, concentrada. – estava encostado em uma grade de segurança, de costas para o grupo e olhando sobre o ombro, tentando encontrar o olhar da mulher. – Eu já disse que amo mulheres sérias?
– Já. Ela é bonita, só meio alta demais. – Dino observou.
– Isso porque você é baixo, eu não. Ela é perfeita para mim. – falou, cruzando os braços e virando-se totalmente em direção ao grupo.
– Você está tentando disfarçar?
– Não, já passei dessa fase, agora eu quero que ela me note. Você conseguiu descobrir o nome dela? – perguntou.
– Não, só que ela é francesa. – Dino contou, enquanto observava o que acontecia nos boxes, distraído.
– Tem jeito de ser, é elegante. Desde o grande prêmio do Japão, eu não consigo esquecer o olhar dela, o sorriso. Eu acho que poderia correr para sempre, se quando eu chegasse ela estivesse me esperando, do jeito que estava em Suzuka². – observava a mulher e as pessoas a sua volta, tentando pensar em alguma maneira para se aproximar dela.
– Por favor, . – Dino gargalhou. – Ela não é mais bonita que a aquela que você estava semana passada, você tem que se conter. Além disso, ela não estava te esperando no Japão, estava esperando os pilotos em geral.
– Ah, para com isso. Ela tem uma beleza diferente, uma beleza mais normal. Eu não sei explicar, mas eu gosto dela. – riu.
– Você esquece dela até o final do dia, quer apostar?
– Não, eu acho que vou perder. – riu, talvez se apostasse ganharia.
– Vamos, você tem que se concentrar. – Dino chamou e o seguiu.
Era um dia frio, mas amistoso. Parecia ser um ótimo dia para ganhar corridas, com certeza seria. já estava vestido, ouvir músicas sempre o ajudava a relaxar antes de entrar na pista, a escolha variava conforme o humor, a de hoje era Lasgo – Something. Segure-me em seus braços, e nunca me deixe partir, segure-me em seus braços, porque eu preciso muito de você. Seria uma boa música para mostrar a repórter, uma ótima cantada, pensou.
Faltava pouco mais de uma hora para o início da corrida, estava sozinho, se concentrando. Havia um jornal, não era muito fã de leitura, mas no momento era o que tinha a disposição.
– Você só pode estar de brincadeira! – Exclamou e saiu, disposto a resolver a situação.
– Ei, onde você vai? – Dino, que chegava junto com François, perguntou.
– Resolver uma pendência. – Respondeu entredentes.
– Não pode sair, vai se concentrar, garoto. – François advertiu.
– Não, já chega! Eu já estou no limite. – tentou passar entre o irmão e o tio, mas foi impedido por eles.
– Você está chamando atenção, se contenha. – Dino avisou.
– Leia isso, veja se eu posso me conter. – disse, jogando o jornal sobre o irmão. – Eu não aguento mais esse cara. Ele deve ter algum problema comigo, vamos ter que resolver de homem para homem.
– Estressado ou mimado? recebe punição… – Dino parou de ler. – Mas é a verdade, você recebeu a punição.
– Leia a matéria, Dino. – Ordenou . – Eu tive que ouvir todo tipo de coisa na temporada passada, sobre manipular resultados, comprar vagas e tudo mais. Não vou aturar isso de novo, esse ano não.
– O que diz aí, Dino? – François quis saber.
– Está falando da punição, e que mais uma vez mostrou seu desprezo as regras, podendo causar algum acidente ou até mesmo se acidentar.
– Eu não vi a droga da bandeira! Quando vi, eu reduzi. – se justificou.
– Calado, . Continue, Dino. – Ordenou François.
– Ele fala que o tem temperamento impulsivo, que é nervoso e isso pode atrapalhar seu desempenho nessa temporada. Diz também que ele corre bem e aparentemente sabe o que faz, embora tenha certo desapego a vida, se colocando em risco algumas vezes. E que ele talvez tenha esse comportamento por falta de maturidade.
– Está vendo? – estava revoltado, toda sua concentração e bom humor tinham desaparecido sem deixar rastros.
– E não está errado, você se irritou quando Fisichella bateu em você, quase foi punido quando jogou ele para fora da pista, como vingança. – Dino ponderou.
– É, mas é só o início da temporada. Porque ele não fala de outros pilotos também? Eu vou apresentar meu lado nervoso a ele.
– Chega! – François gritou. – Perceba o escândalo que está fazendo. Quem escreveu isso?
. – disse com desprezo.
– Você vai ficar aqui, vai se concentrar, ganhar essa corrida e torcer para que nenhum jornalista tenha visto essa cena patética. – François falou com o dedo no rosto de , mesmo sendo mais baixo que o sobrinho, ele ainda era extremamente ameaçador. – Eu vou cuidar disso, não vai se repetir. Se eu souber que você fez alguma coisa, falou alguma coisa, olhou para alguém…
– Eu vou tomar conta dele. – Dino disse.
– É melhor você parar de dar razão para essa burra. – François disse e os deixou.
– Ele disse, essa burra, no feminino? – Dino questionou confuso.
– Não, é o sotaque francês. – explicou, se jogando num sofá.
– Você ouviu, ele vai resolver. Tenta relaxar. – Pediu o irmão.
– Você sabe, se lembra do que aconteceu ano passado. – jogou a cabeça para trás e fechou os olhos. – Sabe que faltou muito pouco para eu deixar isso para lá e voltar a dirigir karts. Você sabe que eu fiquei mal com isso tudo, com o que falavam de mim, eu aturei calado, apanhei calado. Mas eu me cansei, essa temporada vai ser um divisor de águas na minha vida. Ou eu vou resolver isso do meu jeito ou vou fingir que nunca aconteceu, comprar um lugar em Ibiza e abrir uma boate.

¹ No Grande Prêmio da Áustria – 2002 real, o vencedor foi Schumacher.
² Suzuka: Cidade onde ocorreu o Grande Prêmio do Japão, em 2002.

 

 

Capítulo 05

O destino é tudo

* * *

Abril de 2003, Ímola – Itália

– Leia. – ordenou.
– Quer que eu leia em voz alta para você? – Dino perguntou.
– Não, quero que você leia enquanto eu vou dar uma saída, me diga o que achou.
, o que vai fazer? – Dino questionou seguindo o irmão.
– François disse no início da temporada para eu não fazer nada. Obedeci na Austrália, na Malásia e no Brasil. Minha paciência acabou. – avisou e saiu antes que o irmão pudesse impedir.
Sabia que encontraria alguma informação sobre o tal nas cabines de transmissão, se fosse rápido e tivesse sorte, talvez ainda o encontrasse por lá.
– Onde eu encontro , jornalista? – Perguntou a um homem com credencial de repórter.
– Acho que na cabine de transmissão, setor M. Isso se ainda estiver por aqui. – Disse.

Não seria fácil encontrar, existiam várias cabines. Nada que a força do ódio não fosse capaz de impulsionar, bateu em três portas, todas sem ninguém. Na quarta porta, uma mulher com aspecto cansado abriu.
– Posso ajudar? – Perguntou sorrindo.
– Preciso falar com . – Disse firme.

– Você acha que ele vai retaliar? François? – René perguntou.
– Eu não sei. Mas tem muito mais de onde aquele saiu. Não vou deixar de dar minha opinião porque François quer que eu me cale. – falou, estava revoltada desde que o antigo amigo a havia pressionado a parar de falar mal do sobrinho piloto.
– Você aprendeu muito nesses anos, até me assusta. – René brincou.
, está na porta exigindo falar com você. – O raciocínio de foi interrompido quando Greta, a outra repórter a interrompeu avisando da chegada de um dos seus atuais maiores problemas.
– Quem? – riu e René bateu na mesa três vezes.
– Isso que você ouviu, . E ele não parece nada feliz. Eu chamo a segurança ou o tio dele?
– Ninguém, eu estou curiosa. – Disse se levantando e arrumando o cabelo. – Já está na hora de dizer algumas coisas para a família , talvez eles me deixem em paz.
– Grite se precisar, vou deixar o número da polícia na discagem rápida. – René avisou.

– Posso ajudar? – disse ao abrir a porta que a separava de um irado.

Aparentemente nenhum dos dois previra aquele dia, nem o que aconteceria nele. Quando pisou naquela parte do autódromo, não imaginava que ficaria paralisado, com jeito de bobo, encarando uma mulher. Tampouco pensou que ao encarar alguém irritado com seu trabalho, ficaria estática, presa nos olhos dele. Foram minutos ou horas, parados se dando conta de que já se conheciam, platonicamente, de um jeito ou de outro. Sentiam aquela sensação terrível na barriga, o coração disparar, o rosto aquecer. Poderiam indicar onde estavam cada veia e artéria de seus corpos, sentiam cada uma delas pegando fogo. De repente tudo tinha mais cor, era mais atrativo. Estar vivo parecia ser melhor sabendo que aquela outra pessoa também existia.
– Então. – quebrou o silêncio, desviando o olhar de . – Posso ajudar?
– Pode. – Respondeu distraído. – Quer dizer, não sei. – voltou a si e balançou a cabeça para organizar as ideias. Alguns cachos que seu cabelo despenteado formava balançaram graciosamente quando ele fez isso.
– Posso ou não?
– Eu preciso falar com o , o jornalista. – ainda estava meio tonto. – Pode chama-lo?
– Jornalista, . – sorriu e estendeu a mão. – Sou eu.
– O que? – respondeu confuso. – Não. Quer dizer, é um homem. Não é?
– Até a última vez que verifiquei, a única aqui era eu e tenho certeza de que sou uma mulher. – O encanto talvez tivesse diminuído levemente, para os dois.
– Então é você? A que estava escrevendo aquilo tudo sobre mim? – perguntou incrédulo. Por alguns segundos tinha pensado ter encontrado sua alma gêmea, mas era uma ilusão.
– Se com aquilo tudo, você quer dizer a verdade, então sim. – sorriu. – É um prazer conhece-lo. No que eu posso ajudar?
– Você… – estava atordoado. – Eu acho que você deveria parar de escrever aquilo, de falar sobre o que você não sabe. – Droga, não conseguiria resolver como tinha planejado, tudo foi por água abaixo. Estava desarmado, completamente.
– Eu sinto muito se o que escrevi não foi do agrado de vocês. Mas eu não invento fatos, eu só conto. Tudo que eu faço, é observar, relatar e contar para as pessoas.
– Mas você não está contando o que acontece, está contando mentiras. – disse chateado. Como ela poderia ser tão cínica?
– Do ponto de vista de quem? – se apoiou numa mesa, cruzou os braços e encarou . – A verdade acontece, eu só relato o que acontece. Nunca disse nada que não fosse verdade, ou fiz algum texto sensacionalista, ou cobri alguma festa ou coisa assim que você estivesse. – Explicou.
– Você fala de mim como se me conhecesse, mas não me conhece. Você não conta a verdade, você julga o que vê e escuta, e tudo que vê e escuta não representam nem metade do que eu sou. – falou ressentido e triste. Se fosse um homem talvez conseguiria gritar, mas sendo uma mulher, aquela mulher especificamente, estava paralisado.
– Eu não preciso conhecer você profundamente, . Preciso apenas conhecer você como piloto, saber como você corre, suas características e acredite em mim, eu sei de cor. – continuou. – Eu não posso mudar a verdade, mudar o que eu vejo para que te agrade, porque seria uma mentira. E se eu parasse de falar disso hoje, outros milhões estariam aí para tomar meu lugar. Não se trata de quem conta o fato, mas sim do fato em si. Se não está satisfeito, pode tentar mudar o que acontece, rever seus atos, amadurecer, se olhar com mais crítica. Se a verdade mudar, o assunto muda.
– Eu entendi qual é a sua. – expirou e deu um riso triste, balançou a cabeça e encarou mais de perto. – A verdade que você conta é só uma das verdades, é a sua verdade. É a verdade que você escolheu como única e definitiva. E essa que você escolheu acreditar e contar por aí, não é a verdade sobre mim ou sobre o que acontece. Mas eu tenho uma teoria, quer ouvir? – arqueou uma sobrancelha e levantou mais o rosto, o desafiando. – Vocês escolhem a verdade que é mais rentável, a que vende mais jornais. Mesmo que ela seja injusta, mentirosa e me pinte como alguém completamente diferente do que eu sou. A verdade não interessa a você, não a minha verdade ou a dos outros pilotos. A você só interessa uma, a sua. Toda errada, cheia de furos, mentirosa e mais rentável. – riu sem humor, olhou para o chão e depois para , deu as costas e saiu.

– Eu posso perguntar por que você só ouviu ele te destruir assim e não disse nada? – René perguntou, surgindo atrás da porta.
– Eu…
– Ah, . Ele pisou em você. O que te deu? – René insistiu.
– Talvez ele tenha razão. – Ponderou.
– O que? ? – René perguntou surpreso. – , por favor, ele é um rico metido, que ficou irritado por ser questionado e o tio dele veio te pressionar para calar a boca. Já esqueceu?

Não, e talvez nunca fosse esquecer, mas algo a dizia que tinha que fazer alguma coisa. Talvez o discurso filosófico de tivesse servido para algo, ou talvez só estivesse sensibilizada por sua sucinta paixão platônica pelo piloto, que fora acendida quando se deparou com ele na porta, com aquele olhar de raiva, pronto para brigar.
– Eu preciso fazer uma coisa. – Disse e saiu como vento pela porta.

correu tanto que quase tropeçou nos próprios pés. Quando viu , ele já estava distante, precisou fazer algo que não gostava muito, gritar. O homem paralisou no lugar que estava, ficou ali estático por segundos que pareceram horas e então se voltou para com o cenho franzido e olhos semicerrados. A jornalista começou a andar devagar até ele, tentava manter uma expressão firme e segura, fazia o mesmo.
– Você tem razão. – Assumiu, pegando o piloto desprevenido.
– Tenho?
– Sim. Eu me formei e sempre prezei em dizer a verdade, não manipular a opinião pública, ser apenas a emissora de uma verdade que não é acessível a todos. E aqui… – riu e abriu os braços, mostrando o autódromo. – Aqui, além de fazer isso, eu ainda consigo opinar, analisar, fazer previsões. Acho que como jornalista, se eu ignorasse sua versão dos fatos, eu não estaria sendo a que gosto de pensar que sou.
– O que você quer dizer? – questionou, confuso.
– Uma chance, uma chance para você mostrar que eu estava errada. Uma chance para você dar sua versão dos fatos e revelar quem você é de verdade. – sorriu, tentando parecer simpática e disfarçar o nervosismo.
– Você vai voltar atrás no que disse sobre mim, antes?
– Não, não posso voltar atrás com a verdade. – riu e abriu a boca para protestar. – Eu estou te oferecendo a chance de mostrar quem você é de verdade, só isso.
– E vai parar de escrever todas essas merdas sobre mim, daqui para frente? – perguntou, cruzando os braços.
– Se você parar de faze-las, sim. Caso contrário, não adianta você e François tentarem me censurar de novo. – franziu o cenho confuso com a menção à François.
– E então, , aceita? – quis saber.
– Você vai dizer a verdade, sem manipulação?
– Juro somente compartilhar suas palavras. – Falou e estendeu a mão.
– Confio em você. – disse e apertou a mão da jornalista.

– René e Greta, esse é . – apresentou, e o piloto cumprimentou os outros. – Vamos ficar ali, trabalhando. Não precisam me esperar. – Avisou.
– Você quer mesmo fazer isso agora? – perguntou ao entrar na sala de transmissão e se sentar no lugar indicado por . Já era início de noite, talvez a repórter tivesse outros planos.
– Eu tenho tempo, mas se não der para você, podemos pensar num outro dia.
– Não. – Respondeu depressa. – Tenho todo tempo do mundo. – Sorriu.
– Sim. – respondeu distraída, piscou algumas vezes e retomou o controle sobre si. – Vamos começar, então. – A jornalista se deu conta de que não poderia olhar nos olhos do piloto, perderia o rumo se fizesse.
observava o ambiente ansioso, escrevia algo e ajeitava um gravador. Ela era bonita, os cabelos castanhos caiam sobre o rosto, era muito bonita.
– Vamos começar do início. Me conte sobre você, de onde veio…
– Como isso vai ajudar? – perguntou confuso.
– Eu só vou conseguir escrever sobre você se te conhecer, as pessoas que vão ler precisam te conhecer também. Para acabar com essa primeira impressão, segundo você, e descobrir quem realmente é. – explicou.
– Eu não sei por onde começar. – assumiu, abraçando o próprio corpo e sorrindo nervoso.
– Relaxe, pense que é uma conversa normal. Estamos nos conhecendo, me fale sobre sua família, de onde você veio. – Sugeriu.
– Eu sou de Indiana, sou americano. – sorriu tentando encoraja-lo a prosseguir. – Eu tenho três irmãos, eu sou o do meio. Dino, eu, Cody e Iris. Meus pais ainda são casados, tem mais de vinte anos de casamento.
– É bastante tempo. – observou, concordou e sorriu. – Como foi sua infância? Foi em Indiana?
– Foi, em partes. – explicou. – Eu nasci lá, meu pai veio para a Europa para trabalhar com meu tio na FR³. Depois, ele ficou doente, problema de coração, e voltou para casa quando eu tinha dois anos. – contava com calma, suas mãos estavam cruzadas no colo e o olhar preso no chão, como se assistisse todas as cenas de sua vida. – Eu fiquei lá, cresci em Indiana, comecei a correr de kart com seis anos, não me pergunte como. – Ele riu olhando para a jornalista e ela o acompanhou.
– Realmente um prodígio. – brincou.
– É, é o que disseram. – coçou a cabeça. – Eu comecei aí, depois fui competir, comecei debaixo. Meu pai sempre me ensinou sobre ser justo e honesto. Eu fiz tudo como os outros, a única diferença que eu tinha algum dinheiro para investir. Mas muitos lá também tinham, não era o único. Talvez o único que seguia o regulamento à risca. – voltou a encarar o chão. – Meu irmão nunca gostou muito de correr, mesmo sendo sobrinho do François. Eu amava, amava carros, correr, a velocidade. Meu pai sempre me deixou livre para escolher o que eu quisesse, nas empresas, fora delas, na pista. Quando François foi nos visitar, num feriado qualquer, em noventa e quatro. Ele me viu correr e infernizou meus pais até que eles permitissem que eu fosse com ele para França, seguir seus passos.
– Você não quis ir, na época? – interrompeu.
– Eu queria, mas não queria deixar a família. É confuso, eu sei. – riu. – Eu sempre senti que não deveria ter ido embora.
– Não teríamos a experiência de ver você correr, se não tivesse ido. – disse.
– Quem sabe. – riu. – Eu tinha quinze anos, acho que fiquei com medo.
– Compreensível.
– É, e aí, comecei a ser orientado pelo meu tio. Assim como fiz em casa, aqui também fui subindo aos poucos. Meu pai me orientou a não correr pela François- inicialmente, ele achava que poderiam pensar que eu estava sendo favorecido. – enfatizou a última palavra e encarou , que deu de ombros. – Então eu ficava esperando convites de outras montadoras, as vezes demorava, mas chegavam. – passou a mão nos cabelos e relaxou no sofá. – O ano que me mudei, foi o ano que o Senna morreu. Eu o adorava, me inspirava muito nele. Quando ele morreu eu quis voltar para casa, fiquei com medo de acontecer o mesmo comigo, sabe? Foi assustador e eu era fã, aquilo me tocou fundo. – Contou e teve um rápido impulso de abraça-lo. – Mas François não permitiu, disse que era burrice. Que as pessoas morrem dentro ou fora das pistas, não era desculpa. Mas eu sempre tive um medo de morrer absurdo. – riu, nervoso.
– Eu entendo. E se tratando de um esporte como esse, acredito que se você não tem medo, é um tolo. – falou.
– Você tem razão, eu vou usar essa frase. – avisou, sorrindo. – Bom, eu continuei nas categorias de base, até virar piloto de testes. Fui piloto de testes da Sauber e Willians, enquanto outros conhecidos foram da Fórmula Dois direto para a Um. Eu tentei a vida toda provar que estava fazendo isso por merecimento e não porque meu pai pediu, ou porque eu tinha… como você disse? Costas quentes. – alfinetou e encarou o chão, respirou fundo. – Eu amo essa expressão.
– Por favor, continue. – pediu.
– Com vinte e um anos eu fui para o profissional, dois mil. Corri pela Willians até a temporada de dois mil e dois. Fui para a McLaren, que é onde eu estou agora. – tocou o peito, demonstrando orgulho. – Mas acho que você já sabia disso, não é?
– Sabia, mas eu gostei de ouvir pela sua perspectiva. – contou. – Tem detalhes que dão um sabor diferente a tudo isso, que eu não sabia.
– Eu disse. – falou, vitorioso.
– Você falou muito do desejo de se provar, de mostrar que não estava na pista porque era sobrinho do François e filho do Howard . Quando você sentiu que tinha essa necessidade? – indagou.
– Meu pai sempre me alertou quanto a isso. E de acordo com que eu ia subindo, eu ouvia mais comentários. Que qualquer um venceria se tivesse sido ajudado, que a direção de prova me ajudava, que eu não corria, só estava em alguma escuderia porque meu pai pediu. – balançou a cabeça. – O pior é que a única ajuda que tive dos meus pais foi fora das pistas, uma mesada. Apenas. Mas eu entendo que ainda seja um privilégio, de certa forma. E os conselhos de François, mas ele era empresário de outros pilotos ao mesmo tempo. – parou de falar, parecia pensar bem no que diria. – Eu só queria correr, sem ninguém falando essas coisas. Eu tentei o máximo não ligar para isso, mas é difícil. Eu sabia que era bom, mas tinha que me provar o dobro e mesmo assim, ouvia que os méritos não eram meus.
– Entendo como se sente. Passo por coisas parecidas aqui, por ser mulher. – Contou e a olhou com um pouco mais de empatia.
– Então sabe como é. Tudo que você faz não parece o suficiente, por mais que se esforce, por mais que dê seu sangue. E tudo isso por coisas que minha família fez. Eu não sou eles, eu adoraria ser julgado sozinho, pelos meus erros.
– Imagino que as críticas da mídia tenham te irritado muito. – observou.
– Você quer mesmo que eu fale disso? Porque eu vou falar mal de você, muito mal. – alertou.
– Eu estou disposta a encarar as consequências dos meus atos, .
– Você quem sabe. – deu de ombros. – Eu quis morrer, depois sumir e depois quis bater em alguma coisa. Já estava bem difícil, dois mil e dois foi um ano difícil, a mídia estava no meu pé o tempo todo. Falavam de mim, com quem eu saia, onde ia, o que fazia. E para completar, ninguém gostava de mim, o Montoya uma vez disse que… – empacou de repente. – Não, não posso falar disso. Você poderia, por favor, desconsiderar que eu citei o Montoya? – Pediu apreensivo.
– Vou fazer o possível. – falou, umedecendo os lábios com a língua e arqueando uma sobrancelha.
– Você está flertando comigo? – perguntou confuso e hipnotizado.
– O que? Não, claro que não. – Respondeu na defensiva.
– Ah, é que você… enfim. – disse sem jeito.
– Enfim, continue. – estava vermelha, tanto quanto o piloto.
– Onde eu estava? Ah, claro. – se ajeitou no sofá e desviou o olhar de . – Muitas pessoas, além da mídia questionavam minha carreira, tinha uma certa rivalidade. Acho que no fundo, ninguém é muito meu fã.
– Uma rivalidade além das pistas. – Pontuou a jornalista.
– É, eu diria que sim.
– Eu acompanho as corridas desde dois mil e dois. Não só eu, mas outros comentaristas, repórteres, todos sempre comentam a mesma coisa, o seu temperamento. Nas dezessete corridas da temporada de dois mil e dois, você levou punição em nove delas, perdeu pontos e bateu ou bateram em você em seis corridas.
– Tudo isso? Eu nunca contei. – admitiu. – As coisas parecem ruins, mas não são, vou te explicar. Como é mesmo seu nome? – Perguntou.
.
– Então, . – limpou a garganta e se aproximou mais da jornalista. – Eu tenho um problema de concentração. Não é exatamente um problema, eu diria se tratar de um bônus. Eu sou extremamente concentrado, as vezes não via as bandeiras, por isso. Eu sigo minha intuição, escuto o carro, entendo o que ele quer, e as vezes ele quer ultrapassar quando não pode.
– Você está se ouvindo? – questionou surpresa.
– Sim, parece idiota, mas tem algum sentido. E eu assumo que as vezes eu deixo a emoção falar mais alto, sou extremamente emotivo. Meu terapeuta diz que eu tenho que controlar minhas emoções ou elas me controlarão. – Contou. – Eu me estresso, as vezes sou penalizado sem razão também, pura implicância. Ou um piloto resolve me atrapalhar por implicância também.
– Vou pensar em censurar essa parte, para o seu bem. – falou, franzindo o cenho. talvez estivesse relaxado demais ou tivesse a língua solta por natureza.
– Opa. – riu. – Eu sei que tenho que melhorar nisso, que tenho que parar de ser tão cabeça quente.
– Amadurecer?
– Pode ser.
– O quanto as críticas ao seu comportamento, ao seu desempenho influenciam nisso? Quando está nas pistas é claro. – indagou.
– Dois mil e dois foi muito difícil, já disse umas três vezes. – sorriu, era um sorriso bonito demais para ficar escondido naquela sala. – Eu estava pressionado pela mídia, muita desconfiança no geral, por ser quem eu era, filho de quem eu sou. No final do ano, depois da prova na Itália, uma certa matéria me acertou. – encarou e arqueou uma sobrancelha. – Falava que eu seria um ótimo piloto se amadurecesse. Eu fiquei muito revoltado, estava sendo atacado de todos os lados. Eu queria correr pela FR, mas não podia porque as pessoas iam falar ainda mais. Era obrigado a ouvir calado todos os insultos de jornalistas e equipes, tentando evitar uma confusão maior com meu nome. Era provocado desde o primeiro treino livre até o pódio, em todas as corridas. E mesmo assim, era chamado de imaturo. Eu pensei em desistir, pensei em mudar de profissão, comecei a ficar mal. – respirou fundo e sentiu uma ponta de culpa, por ter causado tantos problemas a ele. – Minha mãe é psiquiatra, ela me obrigou a ir para a terapia, meu pai queria que eu parasse de correr, meu irmão e François insistiram para eu continuar. Mas eu fiquei realmente chateado. Então é claro que isso influenciava no meu desempenho. Eu me comportava bem e apanhava, as vezes me irritavam tanto que resolvia agir em represália. Eu não me orgulho disso, mas acontecia. – encarou o teto e fechou os olhos. – Ainda acontece. – Admitiu.
– Está bem agora? Nessa temporada? – quis saber.
– Teve aquele problema no Brasil, com os pneus, telemetria, o sistema de distribuição e a pane seca⁴, tive que assistir à corrida de fora. Também me irritei muito na Austrália, com certos jornalistas. – Contou. – Quis resolver do meu jeito, queria brigar. Mas François e meu irmão não deixaram.
– Atrasaram nosso encontro. – brincou e sorriu para , que a encarou por alguns segundos. Como o rosto dela era perfeito, pensava.
– Não está tentando flertar comigo agora, não é? – Perguntou. – Só para ter certeza.
– Não, , não estou. – negou firme.
– Você tem um jeito, um olhar. Parece que quer dizer mais do que diz. Ou eu tomei muito sol hoje. – brincou.
– Deve ser o sol. – disse, mas sabia que ele não estava errado. – Vamos continuar.
– O que você quer saber? Posso falar do meu irmão, François, meus planos, posso falar dessa temporada, vida pessoal. Eu estou solteiro. – anunciou e riu.
– Eu vou dar o furo, não se preocupe. – A jornalista riu. – Você falou da pressão nas pistas, das críticas, vamos falar da parte boa. A parte boa em ser um piloto, para você. – Sugeriu.
– É como se eu fosse livre, verdadeiramente. Eu gosto de adrenalina, gosto de me sentir vivo. Quando eu estou num carro é como se o mundo desaparecesse, geralmente é assim. – sorriu envergonhado. – Não nos últimos tempos, mas vai melhorar. Eu tenho uma conexão com o carro, dirigir me faz feliz. Eu até poderia fazer outras coisas, trabalhar com outras coisas, mas o que me faz feliz mesmo é estar dentro de um carro.
– Qual é o seu segredo? Apesar dos apesares, eu sempre disse que você tinha futuro. – brincou.
– Depois de atear fogo em mim, você oferecia o suco que fez com a água para apagar o incêndio. – brincou e fingiu estar ofendida. – Eu aprendi a ouvir. Eu ouço o carro, sou amigo dele. Não apenas uso para chegar do outro lado, eu vou junto com ele, entendo do que ele precisa, vejo suas necessidades. Eu gosto de me meter entre o pessoal da garagem, os projetistas, dar minha opinião sobre o carro. – contou.
– É mesmo?
– Sim, eu sou esse tipo de pessoa. – riu. – Eu acho que sei alguma coisa, eu estudo muito, gosto de opinar. Nem sempre eles me escutam, mas eu não deixo de falar.

– Então, você me envia a foto para a matéria o mais breve possível. – orientou, depois de mais de dezenas de perguntas e várias horas. – Acho que já temos.
– Já? É só isso? – perguntou, a conversa fora agradável, poderiam continuar até o sol nascer.
– É o suficiente. Se quiser falar mais, podemos agendar uma outra entrevista. – Sugeriu, .
– Passou tão rápido. Acho que meu irmão deve estar me procurando em delegacias. – riu.
– Você não é tão assustador assim. – zombou.
– Não, eu não. Não sou nada assustador, na verdade. Eu só tenho pavio curto, mas depende. Se soubesse que você era o que eu tanto detestava, teria aparecido antes. – Falou .
– Você me odeia tanto assim?
– Não muito. – disse, fingindo estar conferindo as unhas. – Da eu gostava, te vi fazendo algumas entrevistas e te achei bonita. – prendeu a respiração e endireitou a coluna. – Mas eu odiava o , tinha certeza que ele me odiava também.
– Ninguém te odeia. É como eu disse, são só os fatos. – se levantou. – E agora, os fatos a partir da perspectiva de . Vamos torcer para que esse não te leve para terapia.
– Desde que eu não vá sozinho. – sorriu e arqueou uma sobrancelha. – Eu posso te dar uma carona, se quiser.
– Eu estou de carro, obrigada. – disse.
– Então. – titubeou um pouco após se levantar, queria ficar, queria dizer algumas coisas. Convidar para uma bebida, saber mais sobre . Mas ela ainda era a pessoa que tinha escrito aquelas coisas. – Boa noite, eu acho.
– Na verdade… – falou, puxando a cortina que cobria uma das janelas, deixando a luz do sol entrar no cômodo. – Bom dia, . – Deus, como ele ficava lindo daquele jeito, com a luz do sol iluminando os cabelos e intensificando a cor dos olhos.
– Nossa. – riu, cobrindo os olhos com a mão, tentando se proteger dos raios de sol. – Bom dia, . – O sol brilhava pouco se comparado a ela, os raios só tornavam uma figura ainda mais radiante e seu sorriso mais iluminado.

Isso era se apaixonar?

* * *

Era fevereiro, faltava exatamente um mês para o Grande prêmio da Austrália, o primeiro da temporada. Agora eu tinha uma equipe só para mim, regalia patrocinada por . Me sentia realmente parte da equipe e as vezes até me sentia especial. A revelação de , a ligação que eu tinha com , tudo mexeu muito com a minha cabeça. Desde que soube, todo meu tempo livre era usado para pesquisar e aprender mais sobre . Assistia vídeos caseiros da equipe mostrando seus treinos, suas técnicas secretas. estava adorando, me contava segredos obscuros de sempre que podia. também estava sempre presente, ainda não tinha me acostumado com a beleza e gentileza dela.
Nos últimos dias, só conseguia pensar nela, em como ela era forte por aturar a perda de alguém tão importante e tão bom quanto , pensava em como ela devia sofrer, se ela precisava de alguma coisa. Ficava remoendo todas nossas conversas e ensaiando as próximas, para tentar ser bom o suficiente.
Nas últimas semanas era obrigado a dividir sua atenção com um William Reed bajulador e irritante. Embora eu ainda fosse um grande fã, fiel bajulador e presidente de fã clube em potencial, não podia ignorar o jeito que ele tratava . Tentando sempre mostrar o quanto era bom, forte, bem preparado. Tentando reacender paixões antigas, enquanto eu tentava enterrar.
Não que eu tivesse muito tempo para dedicar a essa adulação exagerada. Cavendish, meu preparador físico estava me perseguindo. Era como se eu estivesse treinando com o Rocky Balboa, mas no caso, seria um garanhão inglês. Os treinos exigiam muito, eu ficava entregue a Cavendish e seus objetos modernos de tortura cinco dias por semana, de manhã e a tarde. Além disso, ainda precisava praticar horas e horas de ensaios no simulador e reuniões com a equipe, estudar o que poderíamos fazer juntos para tornar o carro mais rápido, equilibrado.
também me forçava a pilotar kart nos fins de semana, segundo ela, era um ótimo exercício para manter os reflexos em dia, algo imprescindível para mim. O preço do sucesso. Musculação, kart, bicicleta, natação, corrida e tudo isso tendo cuidado com o peso, não podia ficar muito maior por causa dos reflexos, velocidade de reflexo. Por mais que os treinos fossem cansativos, muitas horas de trabalho e muito esforço, tudo valia a pena.
Sem uma boa preparação física eu não ia a lugar algum. Além de dar a base para suportar as necessidades penosas da competição, um corpo bem treinado ajudava a dar lucidez para decidir corretamente o que fazer na hora, em milésimos de segundos. Quando você está a trezentos quilômetros por hora, é bom saber o que faz.
Segundo Cavendish e , que me contou a opinião de , eu precisava estar bem técnica e mentalmente para responder com o máximo possível. Os décimos finais de performance de um atleta não vêm da preparação física, mas da preparação técnica e mental. Eu precisava aprender a lidar com as frustrações. No automobilismo o sucesso dependia diretamente da eficiência, confiabilidade do equipamento. Tinha que aprender que no que dependia de mim, era necessário responder sempre com mais de cem por cento e no que não era da minha responsabilidade, saber conviver. me mandou para a terapia, também recomendava, segundo ela.
– Aí está ele! – cumprimentou sorrindo.
– Oi, – Respondi feliz em vê-lo e não Cavendish.
– Você ficou famoso mesmo, nunca mais me ligou. – Disse ressentido.
– Eu não tenho tido tempo nem de ler minhas mensagens. – Expliquei – Vamos sair, assim que eu puder, e tirar o atraso. – Prometi.
– Como está a vida de piloto?
– Cansativa, as vezes eu queria voltar atrás. Sabia que seria difícil, mas me preparar em tão pouco tempo tem sido complicado. – Eu contei.
– Você superar. Sua sorte é que já se preparava muito bem antes. – observou.
– Um homem faz sua fama.
– Sua família já veio te ver? – O velho , sempre desenterrando coisas sobre as quais ninguém queria falar.
– Não. – Não era muito fã de assuntos tão profundos. – Nem sei se virão.
– Por que? Não me diga que eles preferiam que você fosse contador?
– Talvez. – Ri sem humor. – Minha mãe não colocava muita fé nisso, ela achava que seria desperdício de tempo e juventude.
– E o seu pai?
– Eu adoraria saber o que ele pensa, se você o encontrar, por favor pergunte. – Eu ri. – Ele foi embora quando eu era pequeno. Achou que talvez pudesse ser melhor recomeçar sem nós. – Tinha gasto mais tempo que o recomendado pensando na minha família, desde que fui promovido, e isso só rendeu mais um assunto para a terapia.
– Eu sinto muito, não sabia disso. – disse, sem jeito.
– É, eu sei, não falo muito sobre. – Sorri, tentando amenizar o clima de final de campeonato para quem perdeu o jogo. – Mas tudo bem, não é nada demais.
– Não é nada demais? – questionou. – É a sua família.
– Minha mãe é a minha família. – Falei tentando encerrar o assunto.
– Sua mãe vai se orgulhar.
– Para quem saiu de onde eu saí, o que eu fazia antes já estava ótimo. – Eu ri. – Nem acredito que isso está mesmo acontecendo.
– Mas está, agora você tem que aproveitar. – Jacque disse me balançando pelo ombro. Bruto.
– Você sabia? Do lance do ter me escolhido. – Enfim estávamos sozinhos e eu poderia fazer a pergunta que me corroía.
– Sim, achei que você soubesse por isso nunca mencionei. – Se explicou.
– Não, mas obrigada por ser tão bom em guardar uma boa fofoca. – Brinquei.
– Ah, seu metido. – falou, jogando uma toalha suja na minha direção. – Eu lembro do falando de você, ele convenceu François, mesmo não tendo espaço para outro piloto de teste. Disse que você era ótimo, que quando ele se aposentasse precisaria de alguém do mesmo nível aqui. Ele queria para de correr e tirar férias, viajar por países quentes, ir à praia.
– Será que ele sentia que ia morrer? – Quanto mais eu sabia de , mais interessante o conjunto da obra ficava.
– Não sei, nunca foi supersticioso, mas sempre foi sensível. Ele ficava muito abalado quando alguém se feria ou morria nas pistas, pensou em parar várias vezes, nunca deixaram. Se tivessem escutado, se tivessem deixado ele parar, talvez hoje estaria aqui.

A vida sempre é injusta. Aprendi isso quando precisei trabalhar carregando o dobro do meu peso, numa obra, quando era adolescente. Detalhes sórdidos da existência de um filho abandonado pelo pai. Eu sempre me perguntei se algum dia ele pensou em mim, se meu pai se preocupou se eu estava bem, alimentado, aquecido. Quando era mais novo, gostava de imaginar ele chegando de surpresa, explicando a razão do sumiço. Seria uma razão boa, um motivo nobre e eu contaria para todos que meu pai voltou, ele me ensinaria coisas que só pais ensinam. Eu compraria uma caneca ou uma camisa de gosto duvidoso como presente de dia dos pais, ele faria churrasco nos domingos, seriamos uma família. Mas nunca aconteceu.
Enquanto homens como meu pai continuavam por aí, abandonando seus filhos, homens como morriam. Bons pais, bons amigos, bons maridos. Eles morriam o tempo todo, deixando um buraco maior do que era possível cobrir.
não tinha idade para ser meu pai, mas algo na nossa ligação, alguma coisa em como eu fui parar ali, alimentava meu lado órfão. Como se junto com as memórias que eu remontava, as coisas que descobria de , montasse junto um quebra-cabeças do meu pai. Era fácil enxergar em a figura de um pai. Ele me escolheu, meu deu a maior chance da minha vida. Seus conselhos, mesmo que através de outras pessoas, vídeos, entrevistas, me ajudavam a me construir piloto.
A cada dia que passava eu sentia mais a falta dele, e ficava mais triste por pensar que seria mais uma figura paterna a ter me abandonado.

³ F-R: Sigla para François-, jeito que se referia a escuderia.
⁴ No Grande Prêmio do Brasil, quem sofreu pane seca foi Barrichello.

Nota: Oie, pessoal! Quantas revelações nos últimos capítulos, não é? Eu confesso que descubro mais sobre esses personagens junto com vocês e estou me apaixonando por cada um. E esses flashbacks? Eu sou apaixonada por esse casal num grau…Fico pensando em como eles saíram dessa relação de Jornalista X Piloto até formar aquele casalzão. E agora que temos um estreante na F1? Depois de tanto trabalho o nosso fanboy favorito vai estrear nas pistas e junto com um dos ídolos dele. Como será que ele vai lidar com isso e com as descobertas sobre seu anjo da guarda? Sem mencionar sendo amigo da Pp e até defendendo ela do François, que tem se mostrado um homem complexo. Ai, estou animada! Me contem quais são as teorias de vocês? Vamos praticar o esporte do Pp e fofocar muito sobre esse drama de gente rica.

Obs: A história não se passa no nosso presente por motivos de: Pandemia Global do Covid-19.

Todos aplausos do mundo para minha alma gêmea de SP, Lari. Por amar essa história tanto quanto eu. <3

Se cuide, se puder fique em casa e leia fanfic. <3

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Capítulo 06

De volta ao jogo

* * *

Abril de 2003, Londres – Inglaterra

– Te achei. – Dino brincou, beliscando o flanco esquerdo do irmão. – Você não vai sair hoje? Estão te esperando lá. – Avisou.
– Não, não vou. – negou, enquanto massageava a região do abdômen que o irmão havia beliscado. – Eu estou estudando, quero pensar no que dá para fazer para o grande prêmio da Espanha.
– O que há com você? Hoje é seu dia de folga, você não costuma deixar passar um dia como esses, ainda mais aqui em Londres. – Dino tentava convencer o irmão. – Ainda está chateado com aquela situação dos outros pilotos?
– Não, claro que não. – negou depressa. – Nem me lembro mais disso.
– Não? – Dino encarava o irmão com a testa franzida e com aquele olhar que os cães fazem quando tentam entender o que seus donos estão a falar.
– Não. – sorriu e deu de ombros.
– Eu perdi alguma coisa? – Dino quis saber, estava confuso com a mudança repentina do irmão.
– Eles descobriram que eu não sou tão diferente deles, não como pensavam. Agora pelo menos a maioria me respeita, me chamaram até para uma festa em Barcelona, antes da próxima corrida. – contou distraído.
– Nossa, isso é ótimo! – Dino sacudiu o irmão pelos ombros, enquanto sorria. – Como conseguiu isso?
– Tive uma ajuda. – falou e Dino o encarou, encorajando com o olhar a continuar. – Minha arqui-inimiga. – Contou.
– Inimiga, no feminino? Eu estou confuso, da última vez que falei com você sobre isso, você não tinha uma arqui-inimiga. – Falou torcendo a boca numa careta confusa.
– Se lembra do jornalista, ? – perguntou, arqueando uma sobrancelha e encarando o irmão de forma diabolicamente sugestiva.
– Não acredito que você dormiu com a filha dele? – negou e gargalhou. – Então foi com a esposa? ! Você perdeu o juízo? – Dino disse abismado.
– Não, idiota. Claro que não. – negou, ainda gargalhando da expressão atônita do irmão. – não tem idade para ter filhas adultas, nem tem uma esposa, pelo menos que eu saiba. – deu um longo suspiro, jogou a cabeça para trás e fechou os olhos. – Mas se tiver vaga para isso, eu sou o primeiro da fila.
. – Dino estava perplexo, se divertia com a confusão do irmão e com a ideia de se casar com . – Chega de brincadeira, do que você está falando?
– Eu conheci . Ele é uma linda francesa de cabelos castanhos. – Contou e Dino arregalou tanto os olhos que eles poderiam saltar a qualquer momento para fora de suas órbitas. – Ela foi muito…gentil. – hesitou. – Quis escrever sobre mim, contar para as pessoas a minha versão dos fatos e não aquilo que eles contavam por aí.
– Fácil assim? – Dino desconfiou.
– Claro que não, a mulher é obstinada. Eu falei que ela tinha que parar de falar aquelas coisas, ela não concordou. Então, eu só falei a verdade, abri o coração. Acho que ela se sensibilizou, correu atrás de mim até o estacionamento e disse que eu tinha razão. Quase implorou para que eu deixasse ela se retratar, pediu meu autógrafo, disse que eu era o piloto mais lindo que ela já tinha entrevistado e me convidou para a casa dela. – contou.
– Você está mentindo. – Dino julgou, rindo.
– Até a parte do estacionamento é verdade, o resto pode ser que eu tenha confundido com meus desejos do inconsciente, como mamãe diria. – riu e Dino deu-lhe um leve empurrão.
– Você saiu com ela? – Quis saber.
– Não, ela não aceitou nem uma carona. – Lamentou. – Tem outra coisa, se lembra da repórter que eu estou obcecado? – perguntou ao irmão.
– Claro, mas você quis dizer que estava, não é? Pelo visto o motivo da obsessão mudou. – Dino implicou.
– Em partes. Eu descobri mais sobre aquela repórter, ela se chama e de perto tem a boca mais bonita que eu já vi. – confessou.
Dino ficou paralisado, depois balançou a cabeça negativamente, abriu a boca tentando dizer alguma coisa e então gargalhou.
– Não é possível! Como não soubemos disso? – Perguntou.
– Não sei, não sei. – riu, se levantou e foi até a geladeira pegar um pouco de água para o irmão que já estava sem ar de tanto rir. – Eu só sei que ela me ouviu e escreveu tudo o que eu disse, falou bem de mim. E agora, graças a isso, as coisas estão mais calmas, eu estou em paz.
– E doido para cair na cama dela. – Dino observou.
– Eu não vou negar isso, até porque ela é com certeza a mulher mais linda que eu já vi. – sorriu e balançou a cabeça. – Mas eu não sei, ela escreveu tudo aquilo antes. E deixou claro que essa última entrevista não foi um pacto de paz, só foi uma trégua.
– Será que depois de saber de tudo ela ainda escreveria algo ruim sobre você? – Dino indagou.
– Eu tenho certeza, ela não é do tipo que se intimida. E eu não esqueci tudo que os textos dela fizeram comigo ano passado. – revelou. – Talvez eu nunca esqueça e tudo foi por causa dela, principalmente. Tiveram outros jornalistas, outros pilotos, mas quando eu penso nisso só vejo o rosto dela, o olhar dela quando eu pedi para ela parar. – riu sem humor. – Ela nem tremeu, me olhou com indiferença, para mostrar que não ia ceder, sabe?
– É nessa mulher mesmo que você está obcecado? – Dino questionou o irmão, sacudiu a cabeça e expirou.
– Ela me atraiu, é bonita, me chama atenção. Mas quando eu penso em tudo, fico confuso. Ela é meio fria, séria. Mas está na mesma que eu, tendo que se provar o tempo todo para continuar trabalhando com o que gosta. Acho que ela não se importa em quem fica pelo caminho. – disse magoado.
– Isso tudo você concluiu com algumas horas de entrevista? – Dino inquiriu.
– Eu conheço o tipo, só isso. – riu e empurrou o irmão levemente.

* * *
A ficha ainda não tinha caído, eu realmente seria piloto da François-. Fazer a pré-temporada em Barcelona, estando junto com os outros pilotos, estando do lado de William Reed seria impensável para mim até alguns meses atrás. Não que eu nunca tivesse estado em uma pré-temporada antes, minha posição me permitia isso. Mas testar os carros sendo um piloto de teste e testar sendo um piloto oficial eram coisas bem diferentes.
Dessa vez estávamos todos lá, até tínhamos viajado juntos. Eu estava tão ansioso que não conseguia ficar parado, quando não estava andando de um lado para o outro, estava estralando os dedos, balançando a perna, roendo as unhas que eu ainda tinha. Enquanto isso, Reed demonstrava uma calma invejável, ele estava constantemente no humor que eu chamo de sala de espera. Era como se ele estivesse apenas esperando sua vez, calmo, sereno, pacato. Os únicos falantes éramos eu e , que aparentemente estava tão empolgado quanto eu com a minha promoção. também estava conosco, quase sempre no telefone ou falando com a assessoria de imprensa e marketing, as vezes também estava ocupada escrevendo matérias para jornais e discutindo participações em programas de Tv.
Era agradável estar ao lado dela, além de me fazer sentir importante. Felizmente Reed estava muito ocupado em sua sala de espera para nota-la, então eu podia ter mais tempo com ela, conversou comigo e me olhou nos olhos durante todo tempo que tínhamos algum momento a sós desde que chegamos a Barcelona. Isso me dava o total de uma hora e trinta e sete minutos de sua atenção plena, mas já era um começo.
, nervoso? – Reed perguntou sem me encarar, ele estava sentado no sofá, com a cabeça recostada na parede e de olhos fechados.
– Eu? Claro que não, eu estou acostumado com isso. – Ri tentando parecer despreocupado.
– Então você pode parar de andar em círculos? Você está desequilibrando as energias do autódromo. – Reed ralhou e eu abri a boca tentando dizer algo, mas diante a possibilidade de desequilibrar qualquer coisa para William, eu não tinha argumentos.
– Rapazes. – cumprimentou, entrando na sala. – Tudo está acertado? Alguma dúvida? – Ela quis saber, continuava encarando a tela do celular.
– Tudo está claro. – Reed concordou.
– Na verdade, eu tenho uma dúvida. – Endireitei a coluna, tentando parecer mais alto que , inflei o peito e tentei me manter o mais sério possível, o foco era passar uma boa impressão. – Por que eu não posso ser chamado de ? – Perguntei, tentando disfarçar minha chateação.
– Estratégia. – sorriu, voltou seu olhar para mim, como se falasse com uma criança e inclinou a cabeça. – Não queremos que eles pensem que temos dois bons pilotos, eles virão atrás de vocês, como abutres. Não queremos isso. – Ela explicou.
– Mas eu não sairia, por nada no mundo. – Falei, mas a minha intenção era escrever um manifesto sobre como aquela suposição era impossível, mas acho que não tínhamos tempo.
, eu sei que é sua primeira temporada como piloto. Mas fique calmo, o que importa está mais a frente, hoje nós temos que testar o carro e distrair os outros. – tocou meu ombro e sorriu.
– Tudo bem. – Eu disse, revirando os olhos. – Desde que eu possa escolher o apelido. – Sorri e me acompanhou, balançando a cabeça.
A fórmula um é bem mais que carros dando voltas e mais voltas numa pista, querendo descobrir quem chega primeiro, é um campo de batalha, cheio de estratégias. Como nas batalhas medievais, quem tinha mais dinheiro, geralmente vencia a guerra. Eu gostava dessa comparação, batalhas medievais.
Os carros eram os cavalos, os pilotos os cavaleiros, a equipe eram nossos soldados, nossos guerreiros prontos para fazer o impossível para que ganhássemos aquele conflito sangrento. Assim como em uma guerra, quando um exército se dividia, para enganar seus inimigos e atacar em duas frentes, nós também.
Estávamos colocando peso nos carros, deixando-os mais lentos e não revelávamos quem estava dirigindo. Eu me sentia um mágico, jogando meus inimigos numa cortina de fumaça, no caso, a fumaça poderia ser a pintura camuflada, me sentia quase invisível. Por mais que estivesse louco para mostrar todo meu potencial, eu gostava da ideia de surpreender, me sentia uma criança brincando de pique esconde. Melhor sensação da vida!
E estava funcionando. Não tínhamos os melhores tempos, mas estávamos ali, espreitando nas sombras, gerando rumores, misteriosos. Como era boa a sensação de ser ultrapassado pelos grandes pilotos da Ferrari, Mercedes, Willians. Melhor dia da vida!
– Certo, jovem lobo. – Lewis chamou. – Já está no limite dos pneus, venha para o boxe, vamos testar agora como ele reage na capacidade máxima de combustível.
– Pior. Apelido. Da. Vida. – Reed implicou pelo rádio.
– Disse o Albatroz. Há, há, há. – Respondi mal-humorado.
– Devia ter usado Stark⁷ ou melhor, Targaryen. – William argumentou.
– Vou jogar peixe no seu cockpit⁵. – Eu avisei.

Na última semana da pré-temporada, não tínhamos os melhores tempos. A François- estava junto com a Mercedes e outras escuderias que não tinham tido resultados que a mídia esperava, mas como William gostava de enfatizar, quem ri por último ri melhor.
Todos estavam felizes com os resultados, os carros estavam ótimos, perfeitos, respondendo muito bem, apresentando resultados na pista quase melhores do que os da simulação. Não que fosse uma surpresa, os resultados já eram excelentes nos simuladores da fábrica, mas nas pistas, com Reed e eu as coisas estavam ótimas e o carro de se mostrava cada vez mais independente, quase que vivo.
– E aí, vai sair com seu amiguinho novo hoje? – perguntou, levemente rancoroso, enquanto eu tirava o macacão.
– O que? Reed? – Perguntei confuso e ri abafado. – Acho que não. Ele vai viajar hoje, teve uma emergência. – Expliquei dando de ombros. – Quer sair? disse que tem ótimas boates aqui.
– Eu não frequento nada nesse país, a não ser que seja extremamente necessário. – respondeu desviando o olhar, ranzinza como sempre.
– Por que não? – Eu quis saber confuso.
– O que acontece em Barcelona, fica em Barcelona. – François surgiu de repente.
– Odeio esse lugar. – cuspiu, amargurado. – François. – cumprimentou o mais velho.
– Preciso de um favor, está sem carro e o carro dela está aqui. Ela quer que alguém leve até ela. – François disse revirando os olhos. – E eu já dispensei o pessoal.
– Por que eu tenho que fazer isso? Ela não pode pegar um táxi? – quis saber, com certeza não estava em seus planos fazer qualquer favor a .
– Alguém tem que resolver isso e não serei eu. – François deu de ombros. – Se alguém perguntar, pelo menos eu tentei. – Disse e se virou, para sair da sala.
– Eu levo. – Ofereci ansioso. – Levo eu, quer dizer, eu levo. – Sinceramente, . Nervoso a esse ponto? Pensei.
– Aí, não acredito, que traíra. – balançou a cabeça, negando.
– Que cavalheiro. – François ironizou e arremessou as chaves para mim. – Bonsoir⁶, preciso gastar algum dinheiro com coisas idiotas para acompanhar Lawrence Stroll. – Disse, nos deixando a sós.
– Você tinha que abrir essa sua boca, não é? – me reprendeu, me atingindo com uma luva.
– Que foi? – Levantei os ombros, confuso.

O carro de tinha cheiro de perfume e casa limpa. passou a viagem toda de cara emburrada, olhando pela janela. estava em uma rádio, dando entrevista sobre os resultados da pré-temporada e suas apostas para a nova temporada de fórmula um. Nós estávamos no carro, ouvindo o programa.
– Ela também fala espanhol? – Perguntei a , descansando o corpo no banco.
– Exibida. – bufou. – Você quer ouvir ou não? Para de falar, parece uma velha. – Brigou.
– Com certeza, os resultados da Ferrari foram interessantes, Toro Rosso e McLaren também tiveram ótimos tempos. Mas eu prefiro esperar mais para bater o martelo, sabe como é. Muita coisa pode mudar. explicou e riu.
– E a François-, o que podemos esperar dos franceses essa temporada? – Um homem perguntou.
– Acho que todos temos um longo caminho pela frente, os carros são novos, pilotos novos. É esperar para ver, a Ferrari vem com um carro muito bom, um motor incrível e eles tem um dos melhores pilotos do mundo, não é? Acho que todos temos que corrigir muita coisa antes de gerar expectativas. – Ela riu. Todos franceses tinham risadas tão graciosas? Pensei.
– É a sua aposta? Para essa temporada? – Outro quis saber.
– Eu acho que essa temporada vai surpreender em muitos sentidos. Mas eu tenho boas impressões sobre a Mercedes, algo intuitivo. – Ela falou. – Também não deixaria de prestar atenção nos novos pilotos, eu realmente tenho uma intuição boa sobre isso também.
– Falando sobre pilotos, o Stroll se irritou muito nos boxes nessas semanas de pré-temporada, você acha que assim como aconteceu com , anos atrás, pode estar acontecendo agora com Lance Stroll? – Um homem perguntou.
– São situações diferentes, tempos diferentes. Na época, o escolheu não correr pela F-R justamente por isso, para que não gerasse esse tipo de burburinho. E mesmo assim ele ouviu muito. O Lance Stroll já tem uma postura diferente, e além disso ele tem o pai ali, não sei se isso mais ajuda ou atrapalha. riu. – Quando enfim começou a correr pela François-, ele já estava mais maduro, já tinha passado muito tempo em outras escuderias, era um pouco mais simples. Lance também é jovem, não tem tanta experiência em outras escuderias. Mas respondendo a sua pergunta, eu acredito que a pressão, as críticas podem ser parecidas e podem ter efeitos tão negativos quanto tinham para o .
– Tem umas histórias boas sobre o , que o Kimi Räikkönen contou da última vez que esteve aqui. –
Um dos homens disse. – Não é nem sobre ele como piloto, é sobre pai, teve um campeonato de Kart e ele ficou muito estressado com o pai de um outro piloto, como foi isso, ? Você se lembra? – O homem perguntou rindo.
– Sim. riu, mas dessa vez não pareceu um riso feliz, mas um riso apenas educado. – Na verdade, o amava acompanhar o filho nas corridas de kart e ele era realmente bom. Teve uma corrida, que o teve vários problemas no kart, mas conseguiu se recuperar e ainda venceu a corrida. No final, um dos pais de um outro piloto, falou que ele tinha sido favorecido por ser um . Aquilo virou uma confusão gigantesca, quase que foi impedido de frequentar os kartódromos. contou. – Se ele pudesse falar algo agora, acredito que defenderia o Stroll pai, tenho quase certeza. – Ela riu.

Eu queria poder entrar lá e dizer para não falarem daquilo, que ela estava triste. Que não queria falar do , que não eram para falar disso, porque não falam de mim, de Will Reed ou de qualquer outra pessoa?
A insistência dos homens da rádio era irritante, aparentemente, até estava incomodado. Quando entrou no carro, sua expressão era a mesma que eu imaginei durante a entrevista. Estávamos todos em silêncio, me pediu para dirigir já que iriamos ao mesmo lugar.
– E como está o ? – quebrou o silêncio, ele parecia sufocado com a falta de barulho no carro.
– Está bem, revoltado. Ele vai pra Austrália comigo, mas está tão relutante que parece que vai para a forca. – contou sorrindo.
– Por que? Ele não gosta de lá? – perguntou, virando o corpo para encara-la.
– Pela corrida, ele não gosta de ir de jeito nenhum. – suspirou. – Mas é trabalho, eu não vou deixa-lo em casa sozinho.
– Como assim? Ele não gosta de fórmula um? – Perguntei, mais uma vez eu estava sendo intrometido. , , por que você é assim? Pensei e balancei a cabeça.
– Odeia com todas as forças, acredite se quiser. – riu alto e recostou a cabeça no banco.

Talvez eu e estivéssemos pensando a mesma coisa quando nossos olhares se cruzaram. Como o filho de poderia não gostar de fórmula um? Era impensável para mim, talvez ele só não gostasse da François-, o que também me parecia impossível.
O resto da viagem até o hotel foi na companhia de uma das coisas que eu mais detestava, o silêncio. estava visivelmente chateada, o que me irritava muito. Em resumo eu estava irritado por vê-la daquela maneira e irritado por estar irritado por causa dela. Eu precisava parar de ser tão emocionado.
Não tinha nada demais acontecendo, nenhuma razão ou motivo para que eu me importasse tanto com , para que eu tomasse as dores dela. Mas que droga, mas que droga. Eu não me lembrava de quando tinha perdido minha pose de cafajeste, mas precisava encontrar logo. Mulheres, Mônaco, corridas, dinheiro, mulheres diferentes, italianas, inglesas, espanholas, mentalizei.

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Sexta-feira, sexta-feira, sexta-feira. Eu não aguentava mais esperar pelo início do fim de semana e até que enfim ali estava ele. Eu não conseguia parar de falar, quando não estava conversando com alguém, estava digitando algo celular, tuitando alguma coisa.
O dia estava bonito, tudo estava bonito, era minha estreia. Minha mente não parava, parecia que tinham mergulhado meu cérebro em um barril com café e energéticos. Não conseguia parar de pensar em tudo que havia me ajudado a chegar até ali. As dificuldades em casa, as horas a fio estudando, me preparando, sem direito a descanso e a qualquer lazer. O tempo tentando ir contra todas estatísticas para me tornar piloto, mesmo começando um pouco velho demais. Me lembrava em detalhes de todos as negativas, todos os obstáculos, todas as perdas, como se tivessem acontecido a menos de um minuto atrás.
Me lembrava do sufoco com a grana, da dificuldade em ganhar patrocínio, de todos os passos até conseguir, enfim, permissão para dirigir na categoria principal. Me lembrava da chegada na François-, das pessoas que havia conhecido, das que tinham confiado em mim, no meu potencial. , François, , , todos tinham tido alguma influência, alguns mais que outros, mas todos significaram trampolins para que eu conseguisse alcançar os galhos mais altos. Até mesmo Will Reed, que agora seria meu companheiro de equipe. Era tudo inacreditável, um sonho se tornando realidade e eu só conseguia agradecer.
Reed e eu devíamos estudar as condições da pista, usando os treinos livres do dia para checar as suas condições e as do carro, checando componentes para que tudo estivesse afinado para o classificatório e o para domingo.
Também era o dia em que nós poderíamos nos revelar para os outros. Não era nada difícil sorrir parar as fotos, nem para os vídeos. Eu me sentia em casa, com toda a equipe, François, , Lewis, Tommy. Se por acaso o mundo acabasse nesse instante, poderia com toda certeza dizer que fui verdadeiramente feliz.
– Eu fui verificado no Instagram. – Contei para , surpreso.
– Não deixe a fama subir em você, . – aconselhou.
– Só se ela for uma mulher bonita. – Reed completou, rindo alto.
– É, sério. – Eu ri, ainda estava confuso com tudo aquilo. – E eu ainda nem estreei. Quando eu vou começar a receber coisas em casa? – Perguntei para Reed.
– Ele acha que tudo é fácil. – William zombou, balançando a cabeça e rindo entredentes.
– Será que eu deixo meu endereço num post? – Olhei de para Reed, esperando aprovação.
– Filhote, menos, por favor. – Reed pediu, começando a se aprontar.

Desde a pré-temporada, Reed e os outros me chamavam assim, segundo eles, lobos jovens eram filhotes. Ignorando totalmente qualquer referência a Robb Stark⁷ e suas excelentes estratégias de guerra, que eu havia me inspirado.
Estávamos quase prontos para dar início aos trabalhos. Os uniformes bordô com dourado da François- combinavam com os carros das mesmas cores. Nós estávamos ótimos, todo felizes e esperançosos, tínhamos tudo para irmos muito bem na temporada, graças ao empenho da peça mais fundamental, .
– Ela conseguiu. – comentou, olhando distraído toda movimentação no paddock⁸, eu inclinei a cabeça para olha-lo melhor. – E não é que voltamos ao jogo!? – soltou um riso nasalado, encarou o céu e sorriu.

Eu não me cansava de admirar cada detalhe do autódromo, as árvores, o grande lago, a proximidade com os prédios. O autódromo era montado bem no centro da cidade, em Melbourne, Austrália. Alguns anos atrás nunca teria pensado em estar em um lugar como esses, era um dos mais bonitos do mundo.
O sábado seria animado, bem mais do que fora a sexta-feira. Depois dos treinos livres, tivemos uma reunião puxada e cansativa sobre estratégia, checagem dos carros, decidir o cronograma do dia seguinte. Tudo para que ficássemos todos completamente afinados, não queríamos que nada saísse errado ou fora do planejado. Era mais que preciso, por mais cansativas que fosse as reuniões.
Mas o sábado, esse sim seria marcante. Divulgação, último treino livre, treino classificatório, evento da François-, tudo no mesmo dia. Seria a primeira vez que estaria oficialmente em um evento, representando a escuderia.
Eu estava tão empolgado que já havia lotado o grupo da família no whatsapp com fotos do paddock⁸, da garagem, de William Reed, do autódromo e de tudo que eu conseguia fotografar. Não era todo dia que você tem um parente correndo na fórmula um, isso devia ser registrado.
– Você está pronto? Estamos te esperando para começar. – perguntou, se materializando de repente ao meu lado.
– Acho que sim. – Sorri tentando parecer calmo. – Mas é como eu disse, eu nunca fiz isso antes.
– Tudo bem, por isso que o Will também vai participar. Ele já apresentou a garagem, o paddock⁸, agora é só você continuar de onde ele parou, você consegue, eu vi seus Stories, não é muito diferente. – explicou.

Ela tinha a irritante mania de falar enquanto fazia outras coisas, ora checava alguma coisa no celular, ora conferia algum papel, sempre ocupada. Enquanto me instruía sobre o vídeo e me guiava para a motorhome⁹, sequer olhava para mim. Se por acaso eu não estivesse a acompanhando, ela nem perceberia.
– Eu falo em inglês, não é? É só apresentar. – Confirmei com a equipe de filmagem.
– Sim. – Uma mulher confirmou. – Som? Ok? Gravando.
– Vamos de novo? – Pedi envergonhado, depois de encarar mudo a câmera por mais de trinta segundos.
Tentei recomeçar, depois que tudo foi acertado.
– Oi, eu sou François… – Balancei a cabeça, tentando organizar as ideias e retomar o domínio sobre minha língua.
– Corta. – A mulher bufou e William Reed soltou uma risada nasalada.
– Eu consigo, eu consigo. – Repeti, fechei os olhos e tentei me concentrar, mas era impossível quando eu ouvia ao fundo a risada de Reed.
, por favor. Foque. – pediu. – Reed por que não vai dar uma volta? – Sugeriu impaciente.
– Tente relaxar, tente ser você mesmo. Sorria, brinque, tente ficar à vontade. – A outra mulher aconselhou e eu assenti.

Respirei fundo algumas vezes, virei a aba do boné para trás, balancei os braços duas vezes e estava pronto. Ser eu mesmo, isso era fácil. Só precisava falar como um desesperado, fazer piadas sem graça e perder minha dignidade enquanto tentava ser engraçado. Eu consigo, eu consigo. Com o sinal positivo da mulher, comecei a falar:

– E aí? Eu sou Madden, hoje eu vou revelar tudo que ninguém nunca revelou sobre os motorhomes⁹ da fórmula um, querem saber onde William Reed guarda os CDs da Ariana Grande? Vou revelar. Vem comigo e seja bem-vindo ao motorhome⁹ da François-. – Disse e me virei, entrando pela porta do motorhome⁹. – Aqui é a entrada, nós também comemos aqui, tem algumas mesas ali. – Apontei. – Aqui na François- somos muito hospitaleiros, então vou te mostrar a cozinha, afinal o que é mais hospitaleiro que a cozinha. Quando eu era criança, sabia que tínhamos visitas quando todos estavam reunidos na cozinha. – Contei. – Como abro a porta? – Perguntei a um garçom. – Como podem ver, as portas são a prova de pilotos. – Não seria uma porta automatizada que me impediria de encenar o filme da minha vida, pensei.
– Olá, chef! Diga olá para os fãs de fórmula um do mundo todo. – Balancei a mão para a câmera, encorajando o chef a fazer o mesmo. – Agora vamos subir, por que a única coisa baixa que nós gostamos é o William Reed. Aqui é a área privada, os quartos que dormimos. Foque na segunda porta, à direita. – Pedi ao cameraman. – Vocês estão vendo? Se abrirem aquela porta, vão encontrar um pôster gigante da Ariana Grande e outro da Jennifer Lopez, que o Reed leva em todas as corridas. Se abrir a porta do primeiro quarto, vai ver um pôster do William Reed. – Olhei para câmera, sorri. – E aí vai descobrir que chegou ao meu quarto. Vamos para a melhor parte agora. Subindo. – Corri em direção as escadas. – Aqui nossos amigos e família ficam para a corrida. Temos um bar. E agora eu vou apresentar vocês a estrela do dia. – Caminhei até a área do café. – Daqui saem os melhores cafés do universo, podem pesquisar. E aí, podemos ficar aqui tranquilos, tomando café, assistindo a pole position¹¹ do Will Reed e aproveitando o dia. – Fui até uma mesa, com uma cadeira infantil. – Aqui é o lugar do Reed, colocamos ele na mesa com os adultos, porque algumas crianças eram maiores que ele. – Disse, tentando parecer sério. – Temos uma ótima vista, o pôr do sol é perfeito aqui de cima, podemos ver o motorhome⁹ da Pirelli daqui. – Apontei e a diretora sinalizou para que eu terminasse. – Bom, espero que tenham gostado do tour pela nossa motorhome⁹. Nós nos vemos nas próximas corridas. – Acenei dobrando os dedos e sorri.
– Corta. – A mulher pediu. – Temos. Parabéns, você estava ótimo. Tudo em um take só. – Elogiou.
– Parabéns, . – acenou com a cabeça e deu dois tapinhas no meu ombro. – Muito bem.
– É isso aí, bom trabalho. – Eu disse para meu alter ego. – Quem é o meu guerreiro? Quem é o meu guerreiro?

Desde minha chegada a François-, nunca tinha participado de um treino classificatório. Era como se devagar, a ficha fosse caindo e eu estivesse entendendo a magnitude da situação. Não era uma fantasia, uma brincadeira, um sonho, era real eu estava ali, estava vivo. Enfim me sentia vivo.
Estava pronto, dentro do carro que carregava o brasão do leão dourado da François- e meu número, doze. dizia que as cores do carro combinavam comigo e com meus olhos. Talvez por que eu estava tão nervoso e ansioso que meus olhos se igualavam a cor de desespero do bólido¹⁰.
– Então é isso, hora do show. – Reed falou. – Boa sorte, filhote.
– Boa sorte. Boa sorte. – Repeti.

O treino classificatório era dividido em três partes, íamos para a primeira fase, o Q1. Era a hora de começar a mostrar porque eu merecia estar ali, o carro era ótimo, a equipe incrível. Era comigo agora, às vezes o que muda tudo numa corrida é a peça dentro do cockpit⁵.
Eu precisava fazer um ótimo tempo para me garantir pelo menos entre os dez primeiros, era a meta que tínhamos estabelecido nas reuniões. Reed brigaria pela pole position¹¹, enquanto eu tentaria me colocar entre os dez primeiros. Sabíamos que era uma estratégia ousada, ainda mais para uma escuderia que passava por péssimos momentos, mas aquela temporada seria a temporada do tudo ou nada, não tínhamos porque não arriscar. Os dezoito minutos do Q1 seriam preciosos, mais que nunca eu esperava que , onde quer que estivesse, olhasse por mim e me ajudasse a segurar o carro.
No final do tempo, entre os vinte pilotos, Reed tinha o sexto melhor tempo, sem dificuldades e eu o décimo terceiro. É essa é a história de como eu não fui eliminado junto com os cinco do Q1, estava dando certo, minha mãe devia estar rezando em casa. O carro era rápido, mas nem sempre isso significava melhor tempo, controlar aquele monstro não era uma tarefa muito fácil. Principalmente porque ele parecia o Usain Bolt correndo junto com uma lesma, no caso eu era a lesma dirigindo o Bolt. Mas era um bom tempo, pelo menos um já tinha acabado.
De volta a garagem, nos recepcionou com um sorriso que dizia, “eu disse que conseguia”. Ela estava com o uniforme bordô da François- e eu fiquei revoltado em como até com uma camisa daquelas conseguia ficar bem.
– Acho que temos chances de pegar a primeira fila, Petit.¹² – William não tinha autorização para chamar ninguém de Petit¹². Mas que coisa sem graça, pensei.
– Você estava bem, muito bem. Está me deixando confiante. – sorriu e bateu no capacete de Reed duas vezes.
– Eu não fui eliminado, acho que vai dar certo. – Falei empolgado, olhando para .
– Eu vi, ótimo trabalho. Mantenha seus olhos na pista. – orientou e voltou a encarar as várias telas.

Patético, , patético. Dá próxima vez que quiser chamar atenção de uma mulher, tente usar pelo menos algo menos idiota.

– Reed, o consumo está excelente, continue seguindo a mesma estratégia. – Rakin, nosso brilhante e mais importante mente maligna por trás das estratégias de guerra disse.

A segunda parte do treino classificatório, Q2, tinha quinze minutos e seria um sucesso se eu conseguisse passar dela, seguindo para o Q3 junto com Reed. Mas não dependia só de mim, dependia das outras equipes, eu nunca havia torcido tanto por panes, motores desligando e paradas lentas como torcia àquela hora.
– Como estamos? – Perguntei pelo rádio.
– Você precisa acelerar se quiser ir para o Q3, mas sem pressão. – Rakin respondeu pelo rádio.
– Eu vou tentar. – Informei. – , vamos lá. Não vai querer que seu carro comece a corrida lá atrás, não é? – Pensei alto.
O circuito do Grande Prêmio da Austrália era um circuito de rua, quando não eram os carros de fórmula um passando por ali, os carros comuns podiam se divertir. Não era um dos mais rápidos, sem muitas retas, não muito bom para ultrapassagens. Mesmo não sendo muito desafiadora, era uma pista interessante, com suas curvas suaves, grampos e retas longas e meu diferencial teria que ser a persistência mais uma vez. Mas para minha sorte, em matéria de teimosia e insistência cega, eu sempre fui nota dez.

, a Willians está lenta e Ferrari também. Aproveite a deixa e melhore seu tempo. – Rakin orientou.
– Ei pessoal, tem alguma coisa esquentando um pouco aqui embaixo. Minha bunda está quente. – Reed avisou pelo rádio.
– Estamos checando, Reed. – Lewis respondeu. – Não estamos vendo nada, desculpe.
– Como estamos de tempo? – William quis saber.
– Já estamos no final aqui, tudo saindo como planejado. Pode vir para os boxes. – Rakin avisou. – , continue firme.
– Okay, pessoal. – Eu respondi.

– Bom trabalho, filhote! – Reed me parabenizou quando voltei para a garagem.
– Obrigada, Reed. – Eu estava tentando fingir normalidade com aquele resultado.
– Vou mandar fazerem uma medalha com a foto do , santo padroeiro dos pilotos de fórmula um. – Lewis me cumprimentou.
– Em comparação com ano passado, estamos ótimos. – disse, sorrindo. – Meus parabéns, . Parabéns. – Eu sorri em resposta e teria ficado vermelho, mas felizmente já estava por causa do calor.
– Vamos dominar essa galera, mostrar de onde são os verdadeiros pilotos. – Reed brincou. – Você e eu, na frente. O último fica devendo um jantar. Vamos, filhote.
– Vamos lá! – Exclamei animado.

Eu estava dentro da próxima fase, novamente tinha escapado da eliminação, largaria entre os dez primeiros. Nas primeiras reuniões isso nem havia sido considerado e agora estávamos todos ali, juntos entre os dez. Na última etapa, Q3, era a hora de dar o sangue, fazer o possível e impossível para alcançar um lugar bom. Só de estarmos ali, naquelas posições já era ótimo, mas largar na frente seria saboroso demais para desperdiçar.
Tínhamos doze minutos para tentar os melhores tempos. Will Reed estava muito rápido, o carro só amplificava suas qualidades, ele tinha uma intuição incrível, dirigia cirurgicamente, fazia tudo parecer muito fácil. Com cinco minutos do tempo, ele estava disputando segundo a segundo a pole position¹¹. Eu estava brigando com meu carro, talvez um carro daqueles devia ser domesticado antes de ser dirigido. Mas apesar disso, o tempo era bom, estava pulando de sétimo para sexto e de sexto para sétimo, o tempo todo.
Na décima quinta curva, sai um pouco da pista, por abrir demais e por causa da velocidade, o carro ficou no ar por alguns segundos depois de passar por cima das sinalizações, até tocar o asfalto de novo. Final feliz para mim, que consegui voltar sem perder velocidade ou posições, final triste para Lance Stroll que me viu surgir ao seu lado direito e na tentativa de uma ultrapassagem malsucedida pela esquerda, aproveitando a abertura da curva, saiu da pista, perdendo alguns bons segundos.
– Cuidado, . – Rakin pediu. – Olhe as punições por atitude antidesportiva.
– Eu fui punido? – Indaguei confuso. – Mas não fiz nada. – Expliquei.
– Ainda não, olhos na pista. – Rakin ordenou.
– Certo.

Não era como se eu quisesse tirar Lance Stroll da pista, talvez ele quisesse.

O Q3 nos coroou com a pole position¹¹ de William Reed, a primeira pole¹¹ da François- desde a morte de . Quando voltamos para a garagem ela parecia um estádio na final de copa do mundo. As pessoas vibravam, abraçavam Reed, jogavam coisas nele. François ria, ria, ria e os três felizes ao mesmo tempo não era algo muito comum.
O clima era saudosista e otimista, como quando um time que foi rebaixado volta à série A ou quando um piloto das categorias de base ia para a fórmula um. Era quase como se tivéssemos ganhado o grande prêmio, na verdade acho que ninguém entendia porque estavam tão felizes, mas se permitiam gargalhar mesmo assim.
– Nem nos meus mais fantasiosos e ousados sonhos eu esperava uma pole¹¹ logo na primeira corrida da temporada. Obrigada, Reed. – François parabenizou.
– É só o meu trabalho. – Reed disse, com humildade. – Me parabenize amanhã.

Depois de todo o êxtase da equipe, que se parecia com a festa que fizemos quando meu cunhado conseguiu quitar a casa, as pessoas começaram a se preparar para a provável última reunião do dia e para deixar os carros no parc ferme¹³. Ainda teríamos um evento da montadora para divulgação da marca, atrair patrocinadores, tudo que gostavam de chamar de bobagens da .
– Você já completou? Achei que ia levar mais tempo. – Reed conversava com um garoto, devia ter uns onze anos.
– Não é grande coisa, já joguei piores. – Ele respondeu e , que observava tudo, poderia alagar uma cidade inteira só com sua saliva.
, está escorrendo aqui. – Impliquei, coçando o canto da minha boca. – O que nós estamos fazendo aqui? – Perguntei, tentando me enturmar.
– Esse você ainda não conheceu, não é? – Reed perguntou ao garoto e ele balançou a cabeça, negando.
Madden, ele é o cara novo. – Reed explicou, como se eu não estivesse ali e eu inclinei a cabeça para encará-lo. – Ele é o cara que eu te falei.
– É, você anda falando muito de mim por aí. – Impliquei. – Oi, como se chama? – Perguntei ao garoto, já que meus companheiros ainda insistiam em me ignorar.
. – Ele respondeu e acenou com a cabeça. – Padrinho, eu tenho que te mostrar um outro jogo. Ele é muito antigo, mas é legal até. – continuou a falar, ignorando a minha presença e focando em Reed.
– Você não vai ficar só falando de jogos, não é? – bufou impaciente. – Vamos andar por aí, ver umas coisas. Vamos comer, tô cheio de fome. – Brincou, tocando a barriga.
– Ah eu não quero andar, quero voltar para o hotel. Lá tem um restaurante muito bom. – relaxou os ombros e guardou o celular no bolso da calça. Ele me era familiar, algo no nariz, talvez o cabelo bagunçado.
tem razão. Você vai comer, garoto. – Reed disse, enquanto se levantava e se esticava como um gato que acabou de acordar.
– Eu sei de um restaurante. – sugeriu.
– Eu quero hambúrguer ou comida chinesa. – pediu.
– O que foi? não te ensinou a comer direito? Ou você acha que só porque está com a gente vai poder comer porcarias. – Reed repreendeu, tentando parecer sério e respeitável.
– Porque se é isso que você pensa, está mais que certo, meu querido. – riu alto e empurrou pelos ombros, o guiando para fora da garagem.

Então era isso, aquele era . Ele tinha o mesmo nariz que , o mesmo cabelo rebelde que e já era quase do tamanho de Will Reed. E era afilhado dele? Will Reed era padrinho do filho de ? e Reed? ? nunca havia mencionado isso.
Como assim? Eu não conseguia sequer formular uma teoria, de tão chocado que estava.
– Feche a boca, . – Tommy implicou. – E saia da minha garagem.

Mas o que é que está acontecendo aqui?

⁵ Cockpit: Espaço onde se aloja o piloto nos aviões, nos carros de corrida de fórmula um ou em algumas embarcações.
⁶ Bonsoir: Boa noite, em francês.
⁷ Robb Stark: Personagem fictícia da série de livros de fantasia “A Song of Ice and Fire”, de George R. R. Martin, e da série de televisão Game of Thrones.
⁸ Paddock: Edificação encontrada nos circuitos de automobilismo para abrigar o pessoal das equipes, veículos, oficiais de prova e convidados.
⁹ Motorhome: Trailer montado em cima do chassi de um utilitário ou outro. Na fórmula um, são extremamente luxuosos e funcionam como QC das escuderias, com acomodações, bares, restaurantes e etc.
¹⁰ Bólido: Termo utilizado para fazer referência aos carros de fórmula um.
¹¹ Pole Position: Um piloto é considerado o pole position, em automobilismo, quando inicia a corrida na primeira posição do grid de largada.
¹² Petit: Pequena, em francês.
¹³ Parc Ferme: Parque fechado para onde os veículos são encaminhados e recebem vistorias técnicas.

NOTA: Olá, minha galera! Soltei os pilotos!
Vocês estão tão chocadas quanto o com esse final?
Enfim o surgiu, o que será que podemos esperar dele?
E o estreando? Eu me tremo, já tô imaginando ele ganhando corridas ao sol de Hall of Fame. Esse piloto que é gente como a gente, ama uma boa fofoca, rei da curiosidade e que é super entregue e intenso com quem gosta.
Quais são as teorias de vocês? Me contem, tô curiosa.

Espero que gostem, logo logo teremos a continuação desse fim de semana eletrizante.

Se você assim como eu, ama um spoiler, uma treta e quer discutir sobre os capítulos, me xingar por ter matado o ou ficar sabendo sobre as atualização e outras surpresas, entre no nosso grupo no Facebook.

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Capítulo 07

O sol vai voltar amanhã

Como pode escolher Will para ser padrinho de e não ?
Talvez antes eles realmente fossem amigos e depois da morte de , Reed resolveu bancar o Pedro Pettigrew¹⁴ e tentado roubar . Era a única suposição possível, mesmo que a ideia de que não sendo o padrinho já fosse bastante frustrante de qualquer forma.
Mais frustrante que isso, era não saber direito o que estava acontecendo. Nem mesmo tomando as dores de eu conseguia que ele abrisse a boca. sempre gostou de falar tudo, de todo mundo. Mas quando o assunto era , ele parecia um túmulo, uma lealdade dessas a gente não encontra em qualquer esquina.
Eu estava caminhando, distraído com minha descoberta mais recente, desviando do fluxo intenso de pessoas que transitavam entre os motorhomes. Sequer lembrava dos resultados e da corrida, só conseguia pensar em e em como ele devia se sentir por não ter sido escolhido, talvez esse fosse o motivo de todo seu rancor.
Uma voz chamou alguém, estava distante e depois tornou a repetir. Demorei alguns segundo até me dar conta de que era eu quem a voz chamava.
– Ei! – Me virei, tentando encontrar quem poderia ser. – Ei, você! – Lance Stroll surgiu no meu campo de visão, com capacete em mãos e uma carranca nervosa tomava sua face.

Estávamos em frente ao motorhome da Ferrari, algumas pessoas passavam distraídas, algumas olhavam para Lance e desviavam dele. Eu olhei para os lados, só podia ser brincadeira, não é? Pensei e soltei o ar, frustrado.
– Você não me viu? – Lance questionou, falava alto e parecia realmente nervoso.
– Eu vi sim, não bati em você. Essa é a maior prova de que eu te vi. – Tentei explicar, com calma.
– Eu saí da pista, por sua culpa. – Lance esbravejou.
– É sério? Você saiu da pista depois que não conseguiu me ultrapassar. – Ri incrédulo da audácia do garoto. – Desculpe, Lance. Dá próxima, eu te deixo passar. – Sorri irônico e me virei, voltando a caminhar.
– Vocês da François- acham que voltaram as boas só pelo resultado de hoje? – Uma voz desconhecida disse e eu parei onde estava e me virei para vê-lo.
– Pelo menos nós fazemos isso por nossos próprios méritos. – Provoquei, sem pensar muito nas consequências, depois de identificar o uniforme da Racing Point.
– É muita audácia sua. – O homem balançou a cabeça e se aproximou. – Primeiro, tira meu piloto da pista, depois nos insulta.
– Eu não tirei ninguém da pista, a ultrapassagem dele falhou. – Disse apontando para Lance que observava tudo calado. – Eu não respondo por erros de outros pilotos.
– É, ninguém responde… – Ele disse e aquela frase me deu arrepios.
– Algum problema, ? – A voz de surgiu de repente.
– Você. – Lance sorriu debochado ao reconhecer . – É melhor segurar seus pilotos da próxima vez. – O homem aconselhou sinistramente.
– Não preciso segurar meus pilotos, eles só estão fazendo seu trabalho. Isso é Fórmula Um, Lawrence. Esse tipo de coisa se resolve nas pistas. – falou enquanto se colocava entre mim e o homem.
– Resolver na pista, pode apostar. Isso vai ser resolvido lá. – O homem sorriu presunçoso.
– Devo entender isso como uma ameaça, Lawrence? – endireitou a coluna e empinou o nariz.
– Só seguindo seu conselho, . Temos que aproveitar enquanto ainda deixam pessoas como você opinar. – Lawrence Stroll sorriu. – Nos vemos amanhã.

Sinceramente, . Centenas de pessoas, várias equipes e você tinha mesmo que arrumar confusão com Lawrence Stroll. observou Lawrence e Lance se afastarem sem se mover. Ela tinha os ombros tensos e a mandíbula travada, sequer piscava. Lance olhou para trás duas vezes, tinha um olhar diferente do pai, mas eu não gostava da mesma forma.
– Numa escala de zero a dez, sendo zero totalmente seguro e dez, bandeira vermelha e safety car¹⁵. O quanto eu devo me preocupar com a Mercedes Rosa amanhã? – Perguntei a , que ainda tinha os olhos fixos nas costas do Stroll pai.
– Fique atento, eles não são do tipo que brincam. – respirou fundo e me encarou. – Você é realmente igualzinho a ele, meu Deus. – Ela riu.
– Do que está falando? Igual a quem? Stroll? – Questionei, talvez um pouco nervoso.
– Não, . Igual ao . – balançou a cabeça, ainda sorria. – Já está querendo fazer inimigos no primeiro grande prêmio? – começou a andar e eu a segui.
– O pior é que nem foi culpa minha, não dessa vez. – Lamentei e olhei para trás, tentando enxergar os Strolls. – Por que eu sou igual ao nisso?
vivia se metendo nesse tipo de confusão, com outros pilotos, chefes de equipe. Achavam que ele era um piloto perigoso, selvagem demais. – sorriu de novo. – E era mesmo. Ele fez inimigos por isso, por ser herdeiro da François- e fez porque era irritantemente atrevido e irônico.
– Eu juro que foi sem querer, quer dizer, ele se irritou porque eu não o deixei passar. Tem sentido? – Questionei.
– É a estreia do Lance na escuderia do pai, se alguém tem que ser prejudicado, nunca seria o Stroll. – Ela explicou, entrando no motorhome da FR. – Eu vou ficar atenta e ver o que consigo fazer sobre isso, mas , se cuide. Não de mole amanhã, está bem? – Ela disse e eu assenti. – Preciso encontrar uma amiga agora, nos vemos mais tarde.
– Senhora , a senhora Antonella Cornello está no bar a sua espera. – Um garçom avisou e assentiu.
– Eu preciso ir. Fique tranquilo, relaxe e tentei descansar. – piscou e se dirigiu ao bar.

Ao que parece, nem só de corridas se vive um piloto de Fórmula Um. Estávamos todos de terno, até mesmo , ordens de . O evento seria no Gasworks Arts Park, um espaço cultural que poderia ser exposto em qualquer feira de arquitetura e que ficava uns onze minutos de distância do Albert Park, onde aconteceria a corrida.
Eu não me lembrava de usar um terno tão bonito em toda minha vida, aquele deveria ser realmente caro. Era preto e combinava graciosamente com o vestido preto de . Reed usava um terno bordô e estava irritantemente bonito, como sempre.
Pessoas bebiam champanhe e nos cumprimentavam, eram um evento muito mais chique do que imaginei. Parecia um daqueles bailes beneficentes de gente rica, com artistas fazendo suas performances e música clássica de fundo. estava visivelmente entediado, assim como eu, enquanto Reed salvava nossa pele fazendo um discurso demorado sobre a preservação dos coalas e de reservas ambientais australianas.
– Eu só aceitei porque achei que seria na praia. – cochichou.
– Eu tinha certeza de que seria. Será que ainda vai demorar muito? – Cochichei de volta, enquanto tentava sorrir amarelo para alguém que nos cumprimentava.
– Você eu não sei, mas eu vou embora daqui a pouquinho. – sussurrou e pegou outra bebida de um garçom que passava distraído.
– Por que você não está falando nada? – Will indagou, se aproximando de nós.
– Falar? Sobre o que quer que eu fale? Sobre queimadas em coalas? Reed, eu não entendo disso, vou passar vergonha. – Assumi e William balançou a cabeça.
– Não, não. Você precisa ter voz ativa, precisa ser mais que só um piloto, sabe? – Ele disse entusiasmado e apoiou o braço sobre meus ombros.
– Mas e se eu quiser ser só um piloto? – O encarei, um pouco confuso e William franziu a testa.
– Não, você não é só um piloto. Você tem voz, tem que usar isso para coisas úteis. – Reed explicou.
– O quanto você já bebeu? – o questionou.
– O que? Não estou bebendo. – Will negou e balançou a cabeça confuso.
– Por que você é padrinho do e não o ? – Aproveitei a oportunidade para saciar minha pulga interior.
– O que, ? Já vou. Estão me chamando ali. – Reed fingiu descaradamente e se afastou de nós, voltei meu olhar para que continuava imóvel.
– Nem adianta me olhar, a última pessoa que me perguntou isso perdeu dois dentes. – Ele avisou.
– Qual é! É só me contar o porquê. Não é nada demais. – Argumentei.
– Não, não. Não é nem da sua conta. – disse, partindo atrás de outro garçom e eu o segui.
, é sério. Vocês todos se conhecem, todos são amigos… – me interrompeu.
– O que foi que você falou? – Questionou, com um olhar capaz de fazer qualquer um sair correndo de medo.
– Eu disse amigo? Quis dizer outra coisa. – Desconversei. – Enfim, vocês sabem de tudo e eu fico sobrando. Me conta, pelo menos isso. Por favor. – Implorei e quando tentou me ignorar e virar o conteúdo de seu copo, eu o roubei de sua mão. Ele me fuzilou com o olhar, franziu a boca, suspirou e revirou os olhos.
– Os segredos que tem aqui, não valem a pena. Acredite em mim, você vai dormir muito melhor se não souber de tudo que já aconteceu. – disse sombrio e eu me arrepiei de novo. – Eu não pude ser o padrinho.
– Não pode? – Eu estava confuso.
– Não. me chamou, insistiu, mas eu não pude. – Abri a boca, afim de questionar seus motivos, mas antes disso tomou seu copo de minhas mãos. – Não adianta perguntar mais nada, não vou responder. – Ele falou e me abandonou no meio do salão.

Será que por trás das cortinas da Ferrari, Williams ou qualquer outra escuderia teriam as mesmas confusões que a François-? O que é que seria melhor eu não ficar sabendo? Mas que droga, aquilo parecia um episódio interminável de Dark, me confundindo e fazendo minha cabeça explodir com aquele monte de perguntas sem respostas.
As pessoas conversavam e bebiam champanhe graciosamente, como em um filme. tinha duas taças nas mãos, François e outros integrantes da equipe estavam espalhados pelo salão. William estava sentado ao lado de , falando baixo, perto demais de seu rosto. Ela tinha uma expressão confusa, embora mantivesse o olhar vazio e não parecia muito animada. William Reed era bonito, inteligente, sabia falar de tartarugas e todo mundo gostava desse tipo de cara, mas parecia não se importar muito com tantos atributos.
Tentei disfarçar e me sentei na mesa vaga atrás do casal que eu ainda não tinha certeza se foram mesmo um casal ou não. A música fazia cócegas nos meus ouvidos e me impedia de escutar o que quer que eles falassem, mas por um golpe de sorte a música clássica cessou e então um grupo começou uma performance silenciosa e corporal, era a minha chance.
– Só estou dizendo, você não pode ficar nessa para sempre. – William falou.
– É mais complicado do que parece, você sabe. Eu achei que ficaria mais fácil, mas com o tempo, parece piorar. – contou, ela tinha os olhos vidrados na apresentação e Reed os olhos vidrados nela.
– Eu sei o que houve, acredite, eu me culpo tanto quanto. Mas eu acho que ele ia querer que fossemos todos felizes, já faz tanto tempo, você não merece isso. – Will disse e eu só conseguia pensar em que porra ele estava falando.
– O que eu deveria fazer, Will? – perguntou, fitando os olhos de William.
– Vamos comigo, vamos conversar com calma. Só nós dois, precisamos disso. – William piscou, assentiu uma vez, apertou os lábios e segurou as mãos de .
está comigo no hotel. – Ela avisou.
– Vamos comigo, para o meu quarto. – Reed insistiu e pareceu ponderar. Hora de agir.

Me levantei rápido e surgi frente ao casal, surpreendendo-os. Reed suspirou e olhou para o chão, me encarou, esperando que eu dissesse a razão de estar ali.
– Eu preciso tanto falar com você, . – Disse. – Eu queria tirar algumas dúvidas sobre as possíveis entrevistas de amanhã e também sobre aquele problema com Lawrence Stroll. – Completei e fiz um barulho com a boca.
– Problema com Stroll? – Reed indagou.
– É, Lawrence não gostou do que aconteceu no classificatório, acuou o e me mandou segurar vocês. Depois fez ameaças. – explicou.
– Mas que droga. Ele não pode fazer isso! – Reed se zangou.
– Ele fez, acredite se quiser. – Concordei.
– Ele não pode fazer o que quiser só porque tem algum dinheiro. – Reed falou e se recostou na cadeira, deixando as mãos caírem sobre o colo.
– Algum muito dinheiro. – completou e eu apenas balancei a cabeça.
– Escuta bem, não fique perto de nenhum dos dois pilotos amanhã. Não deixe que eles fiquem atrás de você, nem na frente. Perca posição se preciso for, mas não fique perto. – Eu o encarei confuso. – Nós temos carro para brigar pela frente, mas as vezes só o carro não basta.
– William é experiente, confie no que ele diz. – aconselhou, ela tinha no rosto um olhar que dizia que era bom que eu o obedecesse, muito bom.
– Eu vou me cuidar também, esse não é tipo de coisa com que você brinca, não quando se está naquela velocidade. – William completou.
– Certo, agora eu estou realmente com medo. – Confessei.
– E devia mesmo. – Reed disse. – Nesse caso, o medo é o que te afasta de um caixão. – Talvez eu devesse ligar para minha mãe, quem sabe fazer um testamento. – Disse.
– Vai dar tudo certo, . É só ter cuidado e foco, faça sua parte. – falou, tentando me acalmar. – No que mais posso te ajudar?
– Em tudo. – Falei, exagerando um pouco. – Eu queria uma ajuda, para a entrevista, sabe?
– Ninguém da equipe pode te ajudar? Tem um pessoal para lidar com essas questões. – Ela explicou.
– É, mas eu não sei se eles conseguem me ajudar, sabe? Acho que tem que ser você, tem questões que só você mesmo. – Argumentei.
– Eu vou beber alguma coisa. – William revirou os olhos e se afastou, visivelmente frustrado.
– Então, o que precisa? – sorriu paciente e eu me sentei ao seu lado.
– Sabe, antes disso eu queria te dizer uma coisa. – Falei e ela assentiu com a cabeça. – Você é ótima, boa e todo o resto, sabe? Merece mais que o Will. – me encarou confusa. – Eu gosto dele, ele tem sido um parceiro. Mas, bem, com mulheres ele não é muito gentil. Quer dizer, você conhece ele. Não vai querer passar por isso. – Finalizei, apertei os lábios e levantei as sobrancelhas uma vez.
– Passar por isso? – Ela parecia confusa.
– É, bem…ser só mais uma na lista interminável de mulheres do William Reed. – Inclinei minha cabeça um pouco, enruguei o nariz e tentei sorrir sem mostrar os dentes.
. – riu abafado, sem humor e balançou a cabeça. Talvez estivesse incrédula e com vergonha alheia. – Eu não tenho vinte anos e além disso, conheço William Reed há anos. Acho que eu sei bem como lidar com ele.
– Claro. Com certeza, sabe. – Às vezes eu tinha certeza de que se minha vida só dependesse de mim, eu estaria muito fodido. Que merda, .
– Não precisa se preocupar com isso, nem comigo. – me olhava incerta e talvez pensando de onde havia saído aquele animal inconveniente e sem noção.
– Desculpe, eu só… enfim, só fiz besteira. – Me recostei na cadeira, ficando mais longe de .
– Tudo bem, está tudo bem. – Ela riu sem mostrar os dentes. – E sobre as entrevistas?
– Ah… – Eu estava tão envergonhado, queria ser invisível e me mudar de país, de identidade, largar tudo e começar a vida numa fazenda no sul do Brasil, cuidando do gado. – Sobre coisas do passado, sabe? Coisas que podem surgir a qualquer momento. – Tentei inventar qualquer coisa.
– Alguma coisa que devemos nos preocupar? Eu devia saber de algo? – arqueou uma sobrancelha.
– Não, claro que não. Sabe como é, coisa de cidade pequena. Fofocas sobre relacionamentos, família, essas coisas. – Tentei consertar, mas só pensava em como um desmaio seria uma benção.
– Fofoca. – revirou os olhos e sorriu. – Fique tranquilo, a não ser que seja algo realmente sério. Ninguém se atenta a esses sites sensacionalistas que divulgam boatos. Detesto esse tipo de imprensa marrom. – bufou e eu me perguntei o que ela pensaria de mim se soubesse que eu era leitor assíduo de todos aqueles sites.
– É, fofoca, que coisa horrível, não é? Eu também odeio essas pessoas que ficam remexendo nos passados, fazendo perguntas…um horror. – Hollywood estava perdendo um ótimo ator, pensei.
– Pois é, não dê ouvidos aos boatos sobre William também. Ele não é esse conquistador barato e galinha que pintam na internet. – piscou.
– É, claro. Afinal, quem acredita no que dizem na internet, não é? – Às vezes até eu mesmo me surpreendia com meu talento para ser descarado e dissimulado. – Sabe, acho que está me chamando ali. – Me levantei depressa. – Até amanhã, . Até…

Corri, antes que pudesse sequer se despedir. Em situações como essa, eu adoraria me sentar com meu anjo da guarda e perguntar porque ele me permitia esse tipo de situação. Tinha queimado o clima de Reed, mas em compensação agora tinha certeza sobre eu ser um idiota.
O pior era que sequer sabia porque resolvi fazer aquilo. Devia ter calado a boca e ficado na minha, deixar se resolver com Reed. Mas que caralho, mais uma vez a noite foi ferrada por ele, Madden.

* * *

Maio de 2003, Estíria – Áustria

– …O incidente teria deixado , da McLaren, irado a ponto de confrontar Oliver Panis, da BAR, depois do treino livre. Definitivamente não se pode culpá-lo. – René arqueou uma sobrancelha e encarou que sorria. – Graças ao choque com Panis, largará em décimo sétimo lugar, depois de não conseguir completar o treino classificatório devido as avarias no carro da FR. Competindo diretamente pelo campeonato com Schumacher, Montoya e com seu companheiro de equipe, Kimi Räikkönen, o imprevisto na Áustria pode complicar os planos de na temporada e deixá-lo mais longe de suas metas. Esperamos que em meio a tantos obstáculos e problemas pessoais, como a prisão na última semana, tenha a chance de mostrar nas pistas o que realmente sabe fazer. – René levantou os olhos do jornal e encarou .
– E então, o que achou? – A jornalista perguntou ansiosa.
– Eu achei brilhante, como sempre. Você conseguiu alfinetar por causa da prisão e da briga com Panis. E no início ainda comentou sobre aquele boato de que ele está para se tornar piloto de testes. – René elogiou.
– Boatos que são quase verdadeiros. Pelo que eu soube, querem apostar tudo no Kimi. Mas obrigada, querido. – piscou.
– Muito bom, mas você sabe que não vai ficar por isso mesmo, não é?!
– O que? – indagou. – Está falando de François e ? Mon cher⁵, eu não deixaria de publicar isso nem se meu pai me pedisse. – riu. – Além disso, eu estou cheia de François achando que pode me censurar, quero que ele venha até mim, será um prazer escrever uma exclusiva sobre ele e suas falcatruas dentro das garagens da Fórmula Um.
– Você vai mesmo fazer isso? – René indagou, preocupado.
– Não sei, se eu for expor tudo isso, tenho que ter certeza de que estarei protegida. – falou, distraída. – Eu não consigo esquecer aquele dia, François surgindo aqui de repente, gritando. Tudo por causa do , porque ninguém pode ofender a menina de ouro. – desabafou.
– Se lembra de você em Mônaco, ano passado, querendo zelar pelo nome dele, por tudo que ele tinha feito. – René se recordou da primeira vez de cobrindo uma corrida.
– Eu era estúpida. Eu devia saber que nada seria de graça, meu pai sempre me disse para ter cuidado com François, mas eu pensei que era sobre ele tentar algo comigo ou coisa assim. Mas ele é desprezível. – disse amarga.
– Eu não entendo porque você aceitou fazer aquela entrevista com o sobrinho, depois de tudo que eles fizeram. – René confessou.
– Ele tinha razão. – levantou os ombros. – foi sincero quando me confrontou sobre dizer a verdade. Esse tipo de coisa a gente sente, além disso ele não gritou, não foi grosseiro, só expos o ponto dele.
– Você é mesmo inocente em pensar que ele não sabia? – René questionou incrédulo.
– Não, eu acho que ele sabia, talvez até concorde com a atitude de François. E quando veio aqui aquela noite, ele procurava um homem, talvez ele tenha perdido a coragem de gritar e dar seu show por eu ser uma mulher, isso já o faz melhor que François.
– Uma fruta menos podre, numa família podre. – René cuspiu.
– Mas ao mesmo tempo… – ponderou. – Ele tem uma coisa diferente, não é como François ou como os outros pilotos. Ele tem uma transparência, uma inocência quase infantil, o olhar dele…Aquele dia ele estava tão inseguro e desconfortável quanto eu, depois ele foi ficando mais à vontade. O olhar dele não é como o das outras pessoas. – refletiu.
– Você está apaixonada por ele. – René sentenciou.
– O que? Eu? – negou prontamente. – Claro que não. Francamente, René, como pode pensar uma coisa dessas? – Questionou irritada.
, eu soube disso desde aquele primeiro dia, em Mônaco. E eu nunca vi você paralisada, do jeito que ficou quando ele veio aqui. – Continuou. – Escrever uma matéria inteira sobre ele e suas origens e como ele era incompreendido? Depois esse papo de que ele é diferente? Ou você está apaixonada ou é burra e eu não acho que você seja burra. – René falou.
– Eu nunca me apaixonaria por ele, René. é o melhor exemplo de ser humano relapso, inconsequente, desligado e que insiste em pensar que a vida é uma grande festa sem hora para acabar. – disse, firme.
– Não foi isso que você disse da última vez que conversamos sobre ele e nem em todas as vezes que falou dele desde a Itália. – René provocou.
– Ele não é um ser humano ruim, é gentil, quer se provar, sofre com a pressão da mídia e do meio que está, mas tem bom coração. – citou e René riu alto. – Mas, isso não muda o que penso dele. – continuou. – E ele vai vir com tudo depois dessa matéria e da de segunda-feira.
– O que você fez dessa vez? – René quis saber.
– Me pediram para fazer uma análise sobre as personalidades dos pilotos dentro e fora das pistas, por causa da prisão do e de alguns outros boatos. Querem falar das festas extravagantes, da bebedeira, suposto abuso de substâncias e como isso afeta o desempenho nas pistas. Na verdade, é uma reportagem, vai ao ar no horário nobre. – sorriu animada.
– É, eles vão vir com tudo. É melhor que esteja preparada. – Avisou o cinegrafista.
– Eu vou estar, eu aprendi algumas coisas nos últimos tempos. A primeira é que não vou abaixar a cabeça para homem nenhum, a segunda é que eu consigo lidar com todos os François- e fazer o cabelo ao mesmo tempo. – riu.

*
– Esperamos que em meio a tantos obstáculos e problemas pessoais, como a prisão na última semana, tenha a chance de mostrar nas pistas o que realmente sabe fazer. – leu em voz alta, estava recostado na parede, próximo a entrada das cabines de transmissão.
– Olá, passarinho. – cumprimentou, sem se importar em parar de andar.
– Achei que tínhamos uma trégua. – disse, colocando-se à frente da jornalista afim de impedir sua passagem.
– Trégua? Quando acordamos isso? – questionou, arqueando uma sobrancelha.
– Muito engraçada. – fingiu uma gargalhada. – Sabe, para sua infelicidade, você não foi a pior dessa vez. Como se sente quanto a isso? – Quis saber o piloto, dessa vez arqueando sua sobrancelha e inclinou a cabeça enquanto fez beicinho.
– Alguém conseguiu te irritar mais que eu? – fingiu estar chocada, colocando a mão espalmada sobre o peito e depois riu alto. – Nossa, eu realmente preciso cuidar disso.
– Você é péssima. – falou, balançando a cabeça negativamente.
– Obrigada pela gentileza, geralmente me chamam de coisa pior. – piscou e sorriu. – Se me der licença, preciso me preparar para trabalhar de verdade, soube que esse fim de semana é do Schumacher.
– Nem em sonho. – exalou e estufou o peito. – Eu ganho hoje. – Garantiu.
– Largando atrás? Você é otimista, gosto disso em você, meio bobo, mas otimista. – cruzou os braços e inclinou a cabeça.
– Quer apostar? – provocou, se aproximou mais da jornalista e cruzou os braços acima do peito.
– Eu já fiz isso, provavelmente vai ser o dinheiro mais fácil que já ganhei. – zombou sorrindo presunçosa, depois diminuiu a distância entre eles e passou a olhar fixamente para os olhos de .
– Vai ser um prazer tirar esse seu sorriso presunçoso. – Falou o piloto.
– Que gracinha. – sorriu e fez beicinho. – Vou fazer algum comentário legal por isso, todo mundo gosta de histórias de superação. – Zombou franzindo as sobrancelhas e torcendo os lábios num bico.
– Eu vou vencer e você vai ter que me engolir junto com essa sua empáfia. – disse e deu um sorriso torto.
– Engolir você? – perguntou, se aproximando mais alguns centímetros do piloto e lançando a ele um olhar inocente.
– Sim. – respondeu, o ritmo de sua respiração estava completamente descontrolado.
– No final das contas é o que todos querem, não é? – Indagou a repórter, ainda mantendo os olhos presos aos do piloto e baixando o tom de voz.
– Sim, claro, óbvio. – respondeu rápido, a proximidade com a jornalista o deixava anestesiado. O perfume dela, o cheiro do cabelo, os detalhes de sua íris, todo o conjunto o deixava tonto.
– E é o que você quer, ? – perguntou, seu rosto estava há menos de dez centímetros de distância do rosto de , depois inclinou a cabeça e fez beicinho.
– Sim… – Respondeu distraído. – Quer…quer dizer, se você quiser. – respondeu incerto, pousando as mãos no quadril da jornalista.
– Só se eu quiser? – perguntou inocente.
– Uhum. – O piloto arfou.
– Quem perdeu o sorriso presunçosa agora? – falou perto da orelha de e riu. O sopro de sua voz o deixou completamente arrepiado. – Até mais, , tenha uma boa corrida. – Piscou e desapareceu nos corredores, deixando completamente atordoado.

* * *
Sabe quando você se vê prestes a fazer a coisa mais importante da sua vida? O momento que vai definir seu presente e futuro, que pode mudar tudo. Eu estava uma pilha, mesmo dormindo bem, parecia preste a surtar. Não gostava nem de pensar na possibilidade de falhar. Não queria decepcionar , François, , nem ninguém da equipe.
Era a primeira da temporada, a primeira vez de depois da morte de , a primeira do pentacampeão William Reed na François-, a primeira com o novo carro de . E era o novato, o único de fora de todo aquele conjunto, não podia decepcionar.
Tinha chegado a garagem e me escondido entre algumas poltronas da área reservada para a família. Além de toda insegurança da estreia, todo o peso que o nome da escuderia carregava, ainda existia o problema Stroll.
– Você está aí por que está com vergonha ou por que está com medo? – indagou, me assustando ao chegar de repente e silencioso como um gato.
– Você não tem nada para fazer não? – Bufei, sem paciência.
– Eu, hein. – arremessou o boné que usava. – É melhor se acalmar, esquentadinho. Nunca vi ninguém estressado ganhar alguma corrida.
– Desculpe. – Exalei, levemente envergonhado. – Eu estou uma pilha. Muita coisa acontecendo, muita coisa na cabeça. – Confessei.
– Eu achei que seria diferente com você. – balançou a cabeça negativamente e encarou o chão. – Vocês são todos iguais, , Reed e você. Todos, hora ou outra ficam perdidos e confusos por causa dela. É uma maldição, deviam prender aquela mulher. – cuspiu rancoroso.
– O quê? Do que está falando? – Eu o encarei confuso.
– De você apaixonado pela , igualzinho aos outros.
– Eu não estou apaixonado pela . – Franzi o cenho, confuso.
– Ah, não está. – relaxou na poltrona mais próxima. – Então eu que estou. – Ele riu. – Você acha que engana quem?
– Eu realmente não sei do que está falando, . – Disse levantando os ombros e inclinando a cabeça.
compreendeu que eu realmente estava confuso e perdido, ele revirou os olhos, balançou a cabeça, se inclinou em minha direção e disse:
– Então o que foi aquilo na festa ontem? Com ciúmes do Reed. – Ele sussurrou, verificando se não estava sendo ouvido.
– Que ciúmes? Como assim? – Será que bebi tanto assim? Pensei.
– As paredes tem ouvidos, . Aprenda isso. – bateu com o indicador na minha testa. – Ouvi uma fofoca sobre você ter dito a que Reed não era homem para ela. – falou e eu abri a boca, chocado.
– Como assim? Quem te disse isso?
– Isso não importa agora, o que importa é que você não devia se meter nisso. – Ele disse, se recostando na poltrona novamente.
– Mas eu…eu só…- Balancei a cabeça, derrotado. – Eu não estou apaixonado por ninguém, está legal? Eu estou focado na minha carreira, estou focado em ser o melhor piloto que eu posso ser. Não vou estragar tudo por uma mulher, mesmo que seja uma como a . Além do mais, ela nem olha para mim direito, nós nunca nem conversamos o suficiente para isso. Eu não estou apaixonado por ela, não estou. – Falei e passei a encarar o chão. Não estava mesmo apaixonado por , que ideia mais idiota, pensei. – Mas eu admiro ela, ela é incrível, brilhante, linda, elegante, parece uma rainha e ao mesmo tempo é uma das pessoas mais simples que eu já conheci. Eu tenho muito respeito por ela, admiro, gosto dela gratuitamente, mas acho que isso não é paixão. – Finalizei.
– Não ainda. – alfinetou e eu arqueei uma sobrancelha.
– Eu só sei que fui um babaca, eu tento ajudar e acabo atrapalhando, quase sempre. E ontem isso aconteceu de novo, eu falei demais, tentando alertar a . Não foi por mal. – Recostei a cabeça na parede e concordou em silêncio. – Will sabe disso também?
– Sabe, ele que me contou. – falou se levantando.
– Que droga, isso é tudo que eu precisava. – Bati a cabeça na parede duas vezes. – Daqui a pouco a vai ficar sabendo, achar que eu estou apaixonado por ela e vai dar a maior merda.
– Tenta não pensar nisso agora, tenta se concentrar. – aconselhou. – Vou te deixar sozinho. Tenta, sei lá, não ficar estressado.
– Claro, vou apertar o botão contra estresse aqui, rapidão. – Falei e arremessei uma almofada pesada em sua direção.

Não era fácil não se estressar, nunca era. Por que a vida não podia ser mais simples e mais fácil?
Era meu primeiro Grande Prêmio como piloto de Fórmula Um, minha primeira corrida pela François-, estava apavorado e ansioso. Depois de ouvir tanto, tantas pessoas dizendo que meu sonho nunca seria alcançado, era difícil ser otimista. Mas mesmo nos piores dias, tinha insistido e hoje o do presente era mais que grato ao do passado por ele nunca ter desistido.
Encarei o celular mais uma vez, precisava ligar. Tinha pensado desde do momento em que abri os olhos naquele domingo, precisava fazer aquilo, precisava ouvir aquela voz. Me lembrava de todas as vezes que senti inveja das famílias de outras pessoas, famílias bonitas e acolhedoras, cheias de amor. Enquanto eu tinha um pai que preferia estar em qualquer lugar do mundo, menos com ele, uma mãe que precisou se ausentar para alimentar os filhos e irmãos problemáticos.
Era hora, agora ou nunca.
– Mãe? – Falei quando a outra pessoa atendeu a chamada.
, é você? – A mulher perguntou, incerta.
– Sou, mãe. Sou eu mesmo. – Respondi. Não era hora de chorar, mesmo com todas aquelas lembranças e a saudade agarradas na garganta.
– Que bom falar com você, meu filho. Como você está? Tem tanto tempo que eu não escuto a sua voz. – Ela tinha razão.
– Eu estou bem, mãe. Está tudo bem aqui. – Respirei fundo e encarei o chão. – Você recebeu minha mensagem? Sobre eu agora ser piloto?
– Sim, recebi. Deu certo, né?! Eu fiquei tão feliz, rezei muito. Agora você pode voltar para casa? – Ela quis saber e eu senti o nó na garganta apertar, queria tanto um abraço dela.
– Não, ainda não, mas em breve eu vou. Vou comprar a casa. – Disse e a mãe ficou em silêncio. – Hoje é a minha primeira corrida… – a mulher interrompeu.
– Sim, eu sei. Está todo mundo aqui, até os vizinhos. Eles vieram para ver a corrida, desde cedo. – Ela contou e eu sorri surpreso.
– É verdade? Nossa, eu nem imaginava.
– Todo mundo está muito orgulhoso de você, . Todo mundo. – A mãe disse. – Eu errei muito com você, meu filho. Eu sei que eu sempre falei que não era para você fazer isso, que isso não dava futuro. – Mordi a boca, tentando me esquecer da vontade de chorar.
– Não, mãe. Está tudo bem, não errou não. – Tentei confortá-la.
Eu errei, mas mãe é assim mesmo. A gente erra tentando acertar, eu ficava com medo de que você não conseguisse nada, mas você correu atrás e está aí. Vai ficar famoso, rico e eu fico muito feliz. Você desculpa a mamãe? – Ela questionou e algumas lágrimas teimosas transbordaram.
– Uhum. – Funguei alto demais. – Eu só queria dar orgulho para senhora e uma casa grande.
Você já dá, meu filho. Não precisa se preocupar comigo. – Ela disse e eu pude ouvir alguém chamá-la ao fundo. – A corrida começa agora?
– Não, mãe. Só daqui a pouco, mas eu tenho que me concentrar agora e tem alguém te chamando aí. – Eu ri.
É a sua irmã, se ela for na praia, não encontra água. – Ela riu alto. – Então vai lá, meu filho. Que Deus te abençoe e te proteja, que você faça uma boa corrida. Vai dar tudo certo. Mamãe te ama. – Falou.
– Eu também, mãe. Obrigada. – Disse e encerrei a ligação.

Depois de meses, ouvir a voz da minha mãe era realmente reconfortante, principalmente num dia como aqueles. Não era a primeira vez que ela dizia que sentia muito ou a primeira vez que pedia desculpas, mas a primeira que dizia que se orgulhava.
Eu estava estressado com a corrida, nervoso, preocupado e ouvir a voz dela, a ferida da saudade era a gota d’água para eu transbordar em choro.
– Eu achei que fosse me deixar sozinho, . – Falei alto, enxugando as lágrimas com as costas da mão quando alguém bateu na porta.
– Não é o . – falou baixinho ao abrir a porta e sorriu. – Só queria…está tudo bem? Está chorando? – Ela entrou e se abaixou na minha frente, parecia preocupada.
– Eu estou bem… – Tentei secar o resto das lágrimas e se levantou, indo até uma mesa no outro lado da sala, buscar água.
– Estou realmente preocupada, se isso é o que você considera estar bem… – Ela riu e me entregou um copo cheio de água. – O que está incomodando nosso mais novo piloto?
– Não se preocupe, não é nada. Eu sou meio emotivo, chorão, mas já estou bem. – Tomei a água e sorri.
– Você pode contar comigo para o que precisar. Pode falar comigo se tem algo te incomodando ou coisa assim. – Ela sorriu docemente. – Eu sei que as vezes posso ser meio estranha, mas estou disponível para ajudar. – Ela disse e eu sorri.
– Acho que é saudade de casa. – Confessei.
– Muito tempo sem ver seus pais? – perguntou e se sentou no chão, na minha frente e cruzou as pernas.
– É complicado…- Eu ri, até porque nem me lembrava mais de quanto tempo fazia que não via meu pai. – Eu saí de casa tem muito tempo.
– Você é escocês, não é?
– É, sim. Cabelo ruivo, mal humor e cerveja. – Eu ri alto e ela me acompanhou.
– Tem dois anos que não vejo minha mãe. – Confessei depois de algum tempo de silêncio. – Ela não queria que eu fosse piloto…- assentiu. – Eu me cansei de brigar e saí de casa.
– Deve ter sido difícil para você. – Ela fez a constatação mais óbvia.
– Agora acho que ela tem orgulho de mim. – Eu sorri. – Antes eu alimentava uma mágoa muito grande por ela não ter me apoiado, mas hoje eu acho que entendo. De onde eu vim, você não pode se dar ao luxo de falhar, de tentar se encontrar na vida. Se você não se encontra na vida, a vida encontra você. Acho que ela tinha medo de que tudo desse errado, tinha medo de como eu ficaria depois. – assentiu. – Eu entendo ela hoje, entendi e perdoei. O problema é que num dia como esses, eu daria tudo para receber um abraço dela. – Confessei e sorriu triste e empática.
– E seu pai? – perguntou e meu olhar deve ter denunciado meus sentimentos quanto aquele assunto. – Desculpe, mau costume de jornalista. – Ela torceu o canto da boca.
– Meu pai resolveu que seria melhor recomeçar em outro lugar, que teria mais chances, mais grana, eu devia ter uns doze anos. O problema é que ele decidiu isso sozinho e não contou para ninguém, simplesmente arrumou as malas e foi. Desde então eu nunca mais o vi. – Confessei.
– Eu lamento muito.
– Tudo bem, eu nem ligo. Aprendi a viver sem ele, hoje em dia não faz falta nenhuma. – Sorri fraco.
– Eu perdi meu pai há alguns anos. Ele era mecânico da FR, eu aprendi a amar Fórmula Um com ele. – sorriu e eu fiquei chocado. – Meu pai era tudo para mim, tudo que eu tinha.
– Queria conseguir dizer que sei como é, mas não posso. – Ri amargo.
– É, eu sei qual é a sensação. Perdi minha mãe quando tinha sete anos. Eu tinha um irmão, se chamava , mesmo nome do meu pai, ele tinha treze anos. Um dia nós fomos num lago, me lembro dele me pedir para prestar atenção, que ele faria algo engraçado. Eu me concentrei nele, ele pulou no lago e eu me lembro de pensar no porque ele estava demorando tanto. Meu irmão nunca mais voltou e minha mãe nunca mais foi a mesma, ela tentou o máximo, mas era demais para ela. – Que carga emocional bizarra era aquela, eu pensava enquanto desabafava.
– Eu sinto muito, não sabia disso. – Falei e ela assentiu e continuou a dizer, encarando a poltrona ao meu lado.
– Uma noite ela foi até a minha cama, se despediu de mim e disse que eu ficava linda de verde. Depois foi até o banheiro e tomou todos analgésicos que encontrou. Fiquei só com meu pai. – piscou e me encarou, pareceu notar minha presença. – Desculpe, . Minha nossa, te interrompi e comecei a falar sem parar. Eu sinto muito, desculpe. – Ela sorriu fraco e enrubesceu.
– Tudo bem, não tem problema. Eu acho que quando a gente quer falar, só tem que deixar falar. Faz bem. – Falei sorrindo.
– É. – riu e balançou a cabeça. – Às vezes nós nos abrimos mais facilmente com algumas pessoas.
– É mesmo. – Voltei meu olhar para ela. – Você lida bem com isso? Sabe, essas coisas todas.
– Sim. – balançou a cabeça rapidamente. – Bem, talvez eu nunca esteja completamente bem. Mas você se acostuma, o tempo ajuda. Além do mais, eu os trago sempre comigo. – sorriu e eu a acompanhei.
– Meu pai era um ótimo pai. Do tipo que joga futebol, te leva para acampar, faz uma casa na árvore e tudo mais. E então, de repente, sem ninguém saber o porquê, ele se mandou. – Sorri sem mostrar os dentes. – Eu achei que fosse culpa minha, ás vezes ainda me pego pensando nisso, no que eu posso ter feito de errado para que ele resolvesse ir. – Disse.
– Não tem nada a ver com você, tem a ver com ele. Você não tem culpa. – falou.
– Sei lá. – Fechei os olhos e recostei a cabeça na parede de novo. – Minha mãe não trabalhava, eu tinha mais quatro irmãos. Dois homens e duas mulheres. Minha mãe precisou trabalhar, meu avô cuidava da obra de uma grande rodovia e me conseguiu um emprego lá. Meus avós nos ajudavam como podiam, mas não era muito. Minha mãe trabalhava em três empregos, eu trabalhava na obra durante o dia e a noite tentava estudar. Minha outra irmã cuidava da casa e dos mais novos durante o dia, mas não conseguiu estudar a noite por muito tempo, então parou. – prestava atenção em minhas palavras e parecia acolher tudo.
– Eu nem sei o que dizer. – Ela falou.
– Não precisa dizer nada.
– Continue, não quis interromper. – Ela sorriu educadamente.
– Um tempo depois, quando eu já sabia o que queria e disputava alguns campeonatos de kart depois do trabalho, um dos meus irmãos teve a brilhante ideia de se juntar a uma gangue e um ano depois nós o enterramos. Ao mesmo tempo, minha irmã mais nova ficou doente e tudo ficou mais difícil. Eu precisei parar de correr, só voltei quase um ano depois, mas já estava velho demais para a maioria dos patrocinadores. E minha mãe também não apoiava, achava que eu devia deixar isso de lado e focar em trabalhar. – Eu apertei os lábios e suspirei. – Mas eu sabia que conseguia, sabe? Só precisava de uma chance. Então quando um conhecido me conseguiu uma oportunidade nas categorias de base da Fórmula Um, eu não pensei duas vezes e sai de casa. Daí estou aqui agora.
– Essa história daria um livro. – sorriu. – É uma história muito bonita, . Eu consigo entender sua mãe e sinto muito pelo seu irmão. Aliás, sua irmã está bem?
– Sim, está. – Eu ri alto. – Ela trabalha em um consultório e faz faculdade a noite.
– Eles devem estar ansiosos para te ver correr hoje.
– Estão, estão todos reunido em casa, esperando começar. – Contei.
– Sabe, se lembre disso tudo que me contou quando se sentir desanimado. – falou enquanto se levantava. – É um ótimo motivo para sair da cama de manhã e fazer o que é preciso. E acredite em mim, tem dias que só tendo uma razão e se concentrando nela que se é possível se levantar. – estendeu a mão para que eu me levantasse.
– Eu entendi a referência. – Eu ri.
– Eu não sou a sua mãe, mas sou uma mãe. Se meu abraço servir…- disse e sorriu abrindo os braços e eu aceitei a ideia. – Você vai orgulhar sua família, tenho certeza. – Falou enquanto esfregava minhas costas.
– Desculpe ter falado tudo isso assim, não costumo falar muito sobre esses assuntos. – Confessei.
– Tudo bem, eu também falei além da conta. – se dirigiu à porta e eu a segui. – Às vezes tenho impressão de que te conheço desde sempre, acho que por isso que falamos tanto.
– É, eu também tenho essa impressão. – Assumi e me lembrei de toda situação da noite anterior. – .
– Sim. – Ela se virou para me olhar.
– Eu preciso falar uma coisa antes que você ouça os boatos. – Falei e ela arqueou uma sobrancelha. – Sobre ontem, eu não quis ser mal interpretado. Eu só fui idiota, mas eu não estou…sabe…afim de você ou coisa do tipo. – arqueou uma sobrancelha. – É que tem um boato por aí, que eu estaria com ciúmes do Will e isso não passa de uma grande mentira. Quer dizer, ontem eu não falei nada por ciúmes, foi só por …carinho…eu…gosto de você, como chefe é claro, como jornalista. – Me embolei tentando explicar.
– Eu não estou entendo você. – Ela falou.
– Ontem, quando eu falei aquilo do Reed, sobre ele não servir para você e tudo mais, se lembra? – assentiu. – Eu só queria retirar tudo que eu disse, porque tudo que eu penso, tentando consertar só soa pior. Então, por favor, se você puder fingir que aquilo nunca existiu. – Pedi, beirando a humilhação.
– Tudo bem, . Eu não levei a sério, de qualquer modo. Pensei que você estivesse bêbado ou algo assim. – assentiu e voltou a caminhar, saindo da sala.
– Eu só tentei ser um bom amigo, mas eu geralmente só ferro tudo. – Assumi e continuei a acompanhá-la.
– Para ser um bom amigo não é preciso tentar, basta ser. Mas fico feliz que queira ser meu amigo, . – sorriu educadamente.
– Eu posso te fazer uma pergunta? – Falei, acreditando que o sinal verde de fosse verde para minha curiosidade também.
– É sobre William Reed e eu? – Ela indagou.
– Sim.
– Então, não. – sorriu, piscou e me deixou pasmo, ao lado de uma pilha de pneus.
– Meu menino! – Cavendish, o terrível preparador físico, me cumprimentou de repente. – Está tudo bem? Como se sente?
– Estou ansioso. – Confessei.
– Certo, mas e fisicamente? – Ele insistiu.
– Bem, depois dos exercícios de ontem e tudo mais. – Assenti.
– Perfeito. Isso que importa, me avise caso algo mude. Vou ficar aqui. – Cavendish apontou para um canto.
, Reed. – Lewis nos reuniu. – Tudo certo com a estratégia? Eu soube da questão com Lawrence, mas ele não vai se atrever a tocar nos meus pilotos.
– Certo. – William concordou.
– Vocês dois estarão lá fora, juntos. Vai ser como nos velhos tempos, Will. Se ajudem se der e que vença o melhor. – Lewis piscou e nós concordamos. – , o Rakin vai te acompanhar, Reed você está com o Paul, mas já sabem disso. – Lewis explicava, caminhando apressado pelo box.
– Está tudo tranquilo, é só mais uma. Sem pressão. – Tommy falou, tentando ser positivo. – Mesmo depois das duas piores temporadas da vida, mas sem pressão.
– Nossa, você ajuda tanto. – Ironizei mal-humorado.
– Dessa vez é diferente. – Will falou alto, atraindo a atenção de todos. – Hoje nós vamos para a pista com três pilotos, , eu e . – Ela bateu na lateral do seu bólido. – Ele está nesses carros como nunca esteve em nenhum outro. Há dois anos atrás eu saí daqui e muita coisa mudou, mas se eu puder honrar o nome dele hoje e nas próximas, vou ter cumprido meu propósito. – Finalizou e todos aplaudiram e alguns assoviaram.
– Boa sorte. – disse de longe e eu assenti.
– Façam uma boa corrida para que eu possa falar bem de vocês no jornal. – brincou e sorriu.
– Hoje você começa seu caminho, boa sorte. – Reed me cumprimentou, colocando a touca. – Estou feliz que seja você o meu parceiro. – Ele disse tocando meu ombro. – Agora vamos fazer esse pessoal ter pesadelo com nossos nomes.
– Vai ser um prazer. – Falei e coloquei o capacete.

Ali começaria tudo.

– Os carros estão prontos para a largada. Na primeira fila o pentacampeão William Reed, que voltou para a casa e nessa temporada está de volta a François- buscando o sexto título. Na segunda posição o finlandês Bottas, seguido pela Ferrari número cinco, o garoto holandês da Red Bull e atrás dele a Ferrari número dezesseis, Grosjean e Magnussen, seguido pelo garoto da McLaren número oito, Räikkönen e o estreante Madden. – O narrador, Jerry, descreveu.
– Vale ressaltar a coincidência da François-, que hoje traz um piloto na pole e o outro fechando o top dez. – O comentarista, Adrien, completou.
– Inclusive, a escuderia parece tentar dar seus últimos suspiros, uma pena o que aconteceu com a FR. O acidente do afetou bem mais que a parte emocional da escuderia. Na pré-temporada eles não chamaram muita atenção, mas dizem alguns boatos que isso seria apenas estratégia. – Jerry comentou.
– E nós temos o privilégio de ter uma mente brilhante que está trabalhando junto com os chefes da FR, inclusive esse é o motivo dela não participar da transmissão hoje. A , a comentarista mais famosa da Fórmula Um. – Jerry lembrou.
– Vamos à largada. Soltaram os pilotos! – Jerry narrou. – Opa, já tivemos uma questão ali com um dos carros da Renault.
– O carro número três, da Renault, Jerry. – Adrien confirmou. – A ultrapassagem falhou e ele saiu da pista, passou na grama e perdeu a asa dianteira. Vai para o box, Jerry.
– Estamos revendo a largada, Reed tentou continuar em primeiro, mas Bottas foi mais rápido. – Jerry narrou. – Tentando se proteger da Ferrari, ele conseguiu a ponta com facilidade.
– Reed está colocando pressão, bem atrás dele estão as duas Ferraris e o holandês da Red Bull Racing. Será que ele vai conseguir? Está alguns bons segundos atrás. – Jerry continuou.
– Já estamos na quarta volta e eu esperava que eles estivessem mais próximos, talvez a briga fique para o final. – Adrien comentou.
– Olha onde o garoto da FR está. Será que o François está feliz? – Jerry brincou. – Madden largou em décimo e agora está em sétimo. Está fazendo uma ótima corrida, o garoto.
– Mas ele está enfrentando alguns problemas, Jerry. – Adrien interrompeu. – Parece que nesse caso a falta de experiência fala mais alto, ele parece ter dificuldades em controlar o carro.
– Mas está indo bem, para quem está com esses problemas e para uma primeira corrida. – Jerry apontou. – Esse jovem menino tem uma história não muito comum no mundo da Fórmula Um. Entre os pilotos que estão correndo hoje, ele é o que começou no esporte com a idade mais avançada.
– Quer outra curiosidade sobre o , Jerry? – Adrien questionou. – Ele foi descoberto pelo em dois mil e dezessete e desde então ficou como terceiro piloto de testes da François-. Na pré-temporada, usaram apelido para se referir a ele, para manter a surpresa de quem seria o outro piloto ao lado do Reed.
– Diziam até que podia ser o Kimi, que voltaria para a FR, assim como o Reed voltou. – Jerry comentou.
– Falando nele, tem um rádio do aqui. – Adrien traduziu a fala do piloto. – O Madden está mesmo tendo problemas com aderência e a equipe está tentando pensar no que fazer.
– Será que vão levar para ao box? – Jerry indagou.
– Estão levando o Reed para o box agora, Reed está indo para o box. Um pouco cedo demais. A Ferrari onze já foi também, os dois foram muito cedo. – Adrien apontou. – Trocaram para pneus macios.
– Será que eles chegam até o final com uma parada só? – Jerry questionou. – Olha, temos um problema ali. Parece que o espanhol na McLaren dezoito está com problemas.
– Vai abandonar, Jerry. – Adrien comentou. – Está com muita fumaça, vai abandonar.
– Está incandescente a traseira da McLaren agora. – Jerry disse. – Que demora para o apoio chegar e olha que estamos perto dos boxes.
– Pegou fogo, deve ser algum vazamento de óleo ou coisa assim. Achei que a Renault seria a primeira a abandonar, mas foi a McLaren dessa vez. – Adrien falou.
– E olha só, quem deu a volta mais rápida? William Reed. – Jerry anunciou. – Não adianta, onde ele estiver, ele tem estrela. Fazia dobradinha com o , ganhou três vezes pela François-, duas pela Mercedes. Reed é o Reed.
– Quando o Reed saiu, disseram que ele estava prestes a se aposentar. Que a FR provavelmente faria sua última temporada esse ano e ele se aposentaria, olha aí a aposentadoria dele. – Adrien riu.
– Ele está com sangue nos olhos. Está tentando voltar a segunda posição, já que perdeu alguns segundos com aquela parada. – Jerry disse. – Entramos na décima quinta volta e temos uma briga boa ali atrás.
– O Madden está brigando com outro garoto agora, mas o da Ferrari, pelo quinto lugar. – Adrien comentou.
– Uma beleza essa geração nova da Fórmula Um. O monegasco está sentando agora numa Ferrari, a responsabilidade é outra e o Madden está correndo ao lado de ninguém menos do que o atual campeão. – Jerry comentou.
– Acidente, Jerry. – Adrien chamou.
– Uma batida feia agora, vamos ver o que houve. – Jerry narrou apreensivo.
– Parece que o Madden, de quem estávamos falando tão bem, acabou de bater na proteção da pista, Jerry. Bandeira vermelha porque o carro dele está em pedaços no meio na terceira curva. – Adrien contou.
– Momento apreensivo na François-. – Jerry narrou. – Você acompanha imagens do box da FR, todos visivelmente em choque. Você vê aí o chefe de equipe, Lewis Whiting e o presidente e ex-piloto François, todos chocados, toda a equipe.
– Ainda nem sinal do socorro, Jerry. – Adrien comentou.
– Absurdo isso, a Fórmula Um com tanta tecnologia, demorar num atendimento como esse. – Jerry desabafou chateado.
– Teve um rádio do Reed agora, Jerry. Do William Reed assustado, querendo notícias do Madden, mas nem a FR parece conseguir contato com ele. – Adrien contou.
– Parece que agora o socorro chegou. – Jerry anunciou. – Todos na FR consternados, em choque. Esse rádio na tela é da equipe tentando contatar o , Adrien?
– É isso mesmo, Jerry. – Confirmou. – Todos já voltaram para o box, a corrida está paralisada. Estão prestando socorro a ele agora.
– Eu acompanhei e narrei os acidentes de Jules Bianchi, Ayrton Senna, Felipe Massa e , esses momentos sem notícias são os piores. – Jerry falou. – Vamos rever o que aconteceu, enquanto esperamos notícias. Diga lá, Adrien. – Chamou.
– Aparentemente, o Madden bateu no muro de proteção para desviar do Lance Stroll e da Ferrari número dezesseis, Jerry. – Adrien contou. – Nas imagens é possível ver o momento que ele é fechado pelo Stroll e, na curva, para não se chocar pela lateral com a Ferrari, ele escolhe o muro.
– É passível de punição isso, uma conduta dessa não pode ser aceita na Fórmula Um nos dias de hoje. – Jerry respondeu.
– O Lance Stroll tinha recebido uma bandeira azul, para deixar provavelmente o Madden e a Ferrari passarem, mas ele acabou freando e não dando passagem. Já está sob investigação, Jerry. – Adrien contou.
– Você acompanha mais uma vez o box da FR, William Reed bem preocupado, acompanhando tudo pelo rádio, ao lado dele o chefe de equipe. Ali no fundo me parece a , mas não é possível dizer. – Jerry narrou. – Agora sim, parece que está tudo bem.
– O carro está bem destruído, Jerry. – Adrien descreveu.
– É muita emoção para os amantes de Fórmula Um que nos acompanham. – Jerry bradou. – Bem danificado o carro da FR. Ali sentado no chão, apoiando na proteção é o Madden, Adrien? – Jerry chamou.
– É sim, Jerry. Parece que tudo bem com ele, foi só um susto. – Adrien contou.
– Que bom, muito bom! – Jerry comemorou. – Uma pena a corrida dele ser interrompida assim, tinha tudo para fazer uma estreia linda. Agora no box da FR eles estão parecendo meio irritados, hein. Os fiscais de prova terão que ser cirúrgicos nisso, pelas condições do carro o acidente poderia ter sido muito pior.
já está indo para o Box e o carro sendo retirado da pista, Jerry. – Adrien contou. – François está saindo do box, provavelmente indo até a organização da prova.


Tudo ia bem, em perfeita harmonia e sintonia. Como se os céus estivessem cooperando com a equipe. William Reed tentava recuperar o segundo lugar e escalava o grid com valentia.
– Ele é bom, nós te dissemos. – comentou com o presidente da escuderia.
– Bom, muito bom. – Lewis comemorou. – , bandeira azul para o Stroll para vocês passarem. Continue assim. – Disse no rádio.
– Estou dando o máximo, o carro não está respondendo bem. – respondeu e se aproximou dos painéis para acompanhar a telemetria.
– Não sei se vou até o final com esses pneus. – Reed avisou pelo rádio ao mesmo tempo.
– Entendido. – Paul respondeu.

E então o choque, em um segundo estava entrando na terceira curva, lado a lado com a Ferrari e no segundo seguinte, indo em direção ao muro de proteção. Uma decisão de milésimos de segundos. O carro rosa devia ter dado passagem, mas em vez disso, tirou o pé e foi fatal. Ou jogava a Ferrari para fora e saía junto com ela ou encarava o muro e rezava para não morrer. Não teve tempo para respirar, avisar, gritar ou pensar em nada.
E então o choque, um zumbido e tudo escureceu. Não sabia por quanto tempo havia ficado assim, mas não devia ter sido muito, já que ainda estava sozinho e sem sinal do socorro. Tremia, o coração estava acelerado, não conseguia respirar direito, as pernas estavam apertadas pelo resto distorcido do carro. Tentou usar o rádio, mas estava danificado pela batida.
Eu estou vivo? se perguntava. Parecia não acreditar no que acabava de acontecer, a velocidade e a força do choque, parecia um sonho ruim e talvez fosse mesmo.
! ! , responda! – Rakin e Lewis chamavam Madden incessantemente.
– Não, não faz isso comigo, cara. Responde, . – pedia num sussurro.

Não conseguiria lidar com outra perda, nem poderia. não, não era justo. se aproximou, sua expressão era dura como a de uma estátua, mas os olhos denunciavam o medo, o desespero. Ela segurou a mão do mecânico e acompanhavam os esforços para contatar , ansiosos e juntos.
– Bandeira vermelha. Volte para o box, Reed. – Paul avisou.
– O que houve? Estou indo. – Reed respondeu. – O que houve?
– Venha para o box. – Paul insistiu.
– O que aconteceu? É grave? – Reed quis saber, preocupado. – É o ?
– Sim, Reed. Ele bateu. – Lewis avisou.
– O que houve? Ele está bem? Ele responde? – William entrou em desespero.
– Venha para o box, se acalme. – Paul disse.
– Quero notícias. – Pediu.
– Não temos nada, Reed. – Paul assumiu.
– Vamos, garoto. Responda, se mova. Faça alguma coisa. – Lewis pedia. – Por que não tem ninguém lá ainda? – Gritou.

Todos pilotos estavam retornando aos boxes, na medida em que deixavam seus carros, era possível perceber suas expressões consternadas e preocupadas. Todos queriam notícias do jovem estreante, todos se sensibilizavam com a história da FR e torciam para que o acontecimento de dois anos atrás, em Mônaco não se repetisse.
Quando a Ferrari número dezesseis parou, o garoto de Mônaco partiu em direção as telas, sabia que podia ter sido com ele e que graças a , não estava com o carro arrebentado em algum canto daquela curva.
Lance Stroll também parecia assustado, tinha os olhos arregalados e estava praticamente escondido dentro de sua garagem. Reed cruzou com ele ao sair de sua FR-TR79¹⁸, o olhar que o inglês dirigiu ao canadense deixaria qualquer um assustado.
– Eu quero notícias. – Reed anunciou ao entrar correndo no paddock. – O que houve?
– O filha da puta do Lance Stroll. – gritou, revoltado.
, . – entrou em sua frente, tentando acalmar o mecânico. – Estão investigando. – Falou a jornalista.
– Eu não acredito! – Reed bradou.
– Ele reduziu de repente, estava atrás, para não bater na Ferrari ele foi para o muro. – Rakin relatou.
– Eles ameaçaram o ! Ameaçaram! – Reed gritou.
– Pessoal! – Lewis chamou. – Está bem, ele está bem! Se levantou e se sentou do lado de fora. – Anunciou.
Depois de minutos de tensão, a equipe respirou de novo. Que sensação mais horrível. Era impossível não se lembrar de Mônaco, aquilo parecia a exibição do pior filme do mundo, mais uma vez. Mas agora o final era diferente, estava bem e andava sozinho, embora parecesse atordoado.
– Ele vai direto para o atendimento médico. – Lewis anunciou.
– Me deixa ir junto. – pediu.
– Eu preciso de você aqui, . Está tudo bem, ele vai estar acompanhado pelo nosso pessoal. – Lewis falou, tocando o ombro do mecânico.
– Fique tranquilo, eu vou com ele também. Mando notícias assim que tiver alguma. – Cavendish disse e piscou.
– Reed, dez minutos para o retorno da corrida. – Lewis avisou e Reed começou a se preparar.


– Bem amigos, estamos de volta. – Jerry anunciou. – Vamos ter a nova largada agora. Será que só a entrada do safety¹⁵ car não resolvia o problema, Adrien?
– Acho que não, Jerry. Muitas peças da FR do Madden ficaram espalhadas e se você prestar atenção, tem algumas partes lá ainda. – Adrien comentou.
– Perigoso, perigoso. O Madden foi conduzido ao atendimento médico, já temos notícias dele? – Jerry quis saber.
– Ainda não, mas parece que tudo bem. Felizmente tudo bem. – Adrien contou.
– François deve estar respirando aliviado agora, mas quem não deve estar aliviado é o pessoal da Racing Point. – Jerry falou. – Vamos a largada, temos algumas alterações. Além do espanhol da McLaren e Madden, o carro do piloto da casa também não vai voltar para a prova.
– Os danos foram maiores do que deu para ver, na Renault. – Adrien disse.
– E saem eles de novo! – Jerry anunciou. – E olhem só a surpresa. Reed perdeu a primeira posição de novo para o Bottas e foi parar atrás da Ferrari cinco e da Red Bull. – Narrou.
– Se atrapalhou um pouco nessa largada, o Reed. – Adrien apontou.
– Agora, depois do susto que foi o acidente do Madden o garoto sentado na Ferrari vai tem que ficar mais atento. Quase que são dois carros acidentados. – Jerry falou. – Uma atitude corajosa do Madden, a Ferrari vai ter que mandar um presentinho para agradecer a ele depois. – Brincou.
– Olha o Reed ultrapassando a Red Bull. – Adrien falou.
– Quero ver segurar o homem! – Jerry brincou. – Agora está pressionando a Ferrari. Adrien, diga lá.
– Não está sendo a melhor corrida para a Ferrari cinco. Depois de ter parado cedo, ele não conseguiu se recuperar tão bem. E agora que conseguiu a terceira posição, o Reed está atacando forte. – Adrien falou. – Inclusive, Jerry. A FR chamou o Reed para o box para se defender da Ferrari. Um foi para o box e o outro seguiu.
– Deviam os dois terem deixado para depois. – Jerry observou. – Estamos na volta de número vinte e dois e o William Reed acabou de ultrapassar a Ferrari e fechar a volta mais rápida.
– Saiu a resposta da sobre o acidente do Madden, Jerry. – Adrien anunciou. – Lance Stroll, que agora está em sexto, foi punido com alguns segundos.
– Só isso? – Jerry questionou.
– Entenderam que ele não deu passagem quando solicitado, apenas isso. – Adrien respondeu.
– Absurda a resposta da comissão sobre o acidente do Madden. – Jerry desabafou.
– Está tudo bem com ele, Jerry. Inclusive ele está no box, acompanhando a corrida. – Adrien falou.
– Nós chegamos na volta trinta e temos mais alguém encostando. – Jerry narrou. – Magnussen teve problemas. Opa, não é o Magnussen, é o Grosjean.
– Problema na roda dianteira, Jerry. – Adrien sinalizou.
– O mesmo problema do outro Grande Prêmio. Inaceitável para a Haas isso. – Jerry comentou.


– Você está bem? – quis saber, assim que pisou no paddock.
– Estou, vai ser preciso bem mais que uma tentativa de assassinato para me assustar. – disse, sério.
– Tem certeza, cara? Você nem devia estar aqui, devia estar em observação. – disse preocupado.
– Ainda não nasceu a pessoa capaz de me tirar dessa garagem hoje. – estava irado. – Como estamos Lewis?
– Ele está bem, mas o finlandês está difícil de bater. Estamos na volta quarenta e seis e ele quer tentar a volta mais rápida. Se ele parar, vencemos. Se não, vamos ficar em segundo. – Lewis explicou. – Ainda tem essa Red Bull pressionando com pneus novos.
– Posso falar com ele? – quis saber e Lewis assentiu.
– Rápido.
– Will. – chamou.
– Atento. – Reed respondeu. – ?
– É melhor você garantir pelo menos o segundo lugar hoje. Estou te vendo, faça sua mágica. – disse.
– Por você, amigo. – Respondeu Reed.


– Dissemos que seria difícil o Reed se manter em segundo com a pressão da Red Bull mas olha só o que ele fez. Está prestes a terminar a corrida em segundo. – Jerry anunciou. – O Reed deixa a gente acostumado a esperar coisas grandiosas dele, deixa a gente mal-acostumado.
– Bottas vai tentar a volta mais rápida e garantir mais um ponto, Jerry. – Adrien avisou.
– Emocionante o que faz o finlandês no dia de hoje. Com pneus gastos e pressionado, ele protagoniza o melhor momento da corrida. Hoje vai dormir feliz o Bottas. – Jerry narrou. – Com vinte e seis pontos.
– Conseguiu o que queria, o dia é do Bottas hoje. – Adrien concordou.
– E o Reed está se firmando em segundo lugar, seguido pela Red Bull do garoto holandês. E as Ferraris, Adrien? O alemão visivelmente esteve mais lento que a Ferrari dezesseis a prova inteira, mas agora fecha em quarto lugar.
– Talvez o monegasco tenha sentido a pressão do quase acidente, lá atrás. – Adrien lembrou.
– Para mim isso tem mais a ver com o estilo da Ferrari, eu apostaria que o velho hábito deles está influenciando no resultado. – Jerry disse. – Se fosse outra escuderia, tudo bem. Mas a Ferrari tendo o histórico que tem, eu não me espantaria se não teve alguma ordem para tirar o pé e deixar o alemão passar. – Jerry falou.
– Está chegando no final, Jerry. – Adrien sinalizou.
– E termina o Grande Prêmio da Austrália de dois mil e dezenove. Consagrando o finlandês que não vencia desde o fim de dois mil e dezessete. Que corrida que fez o senhor Valtteri, amigos. – Jerry disse.
– Vale ressaltar também o desempenho da François-, Jerry. Que estava se arrastando na última temporada, junto com a Williams. Ambas duas grandes escuderias, com passados gloriosos e que estavam sofrendo tanto. – Adrien apontou.
– A FR fez realmente uma corrida brilhante. Depois que o Lewis Whiting voltou ao cargo de chefe de equipe, repaginaram totalmente os carros e a equipe. A contratação do Reed também foi essencial para esse resultado e eu arrisco dizer que se o Madden não tivesse batido, teria pontuado bem também. – Jerry falou.
– O Reed consegue tirar leite de pedra. – Adrien falou. – Uma coisa que surgiu na mídia e que tem sido assunto nos bastidores é se a FR realmente tem carros bons ou se é apenas o William Reed.
– Sem dúvidas o Reed destaca qualquer escuderia que estiver, mas não sei se é suficiente. Para correr ele precisa de um carro competitivo e parece que a FR trouxe isso. Não é à toa que um está no pódio e o outro, antes de bater, estava disputando a quinta colocação. – Jerry comentou. – Mas vamos ter que acompanhar o resto da temporada para descobrir o final dessa história.

Quando enfim pudemos abraçar Reed, ninguém queria soltá-lo. Depois de tantas tempestades e um deserto percorrido, estávamos ali de novo, no pódio. Eu sentia a boca amarga de ódio pelo acidente, ou melhor, tentativa de assassinato.
Minha primeira corrida, meu primeiro acidente. Felizmente estava bem, mas o carro estava destruído. Mesmo depois de todos terem dito que estava tudo bem, que era algo normal, eu não conseguia não me frustrar. Era o carro de e Lance Stroll tinha acabado com ele.
Reed tentava se desvencilhar da equipe e se preparava para ir ao pódio. tentou disfarçar, mas eu vi algumas lágrimas tímidas encherem seus olhos. François estava gargalhando e até parecia mais feliz. Eu estava feliz, muito. Mas ao mesmo tempo, frustrado, desapontado, com raiva e triste pelo meu resultado. Não era mesmo justo.
Estava encostado na parede, dentro da garagem, olhando a movimentação de longe. Ainda sentia as costas e as pernas um pouco doloridas, meu corpo ainda estava trêmulo e as vezes era como se tudo tivesse sido apenas um sonho. De repente, Lance Stroll se materializou ao meu lado e eu pensei que valeria a pena ser preso por agressão.
– Eu sei que sou a última pessoa que quer ver agora. – Ele se explicou, levantando as mãos em sinal de rendição. – Eu só vim pedir desculpas.
– Pedir desculpas? – Questionei irado, indo em sua direção. – Você podia ter me matado! Pensou nisso? Podia ter matado a mim e o outro cara!
– Eu sinto muito. – Lance disse num suspiro.
– Sente muito? É isso que você diria aos meus amigos? – Questionei batendo com o indicador em seu peito. – É isso que diria a minha mãe? Aos pais do garoto? E tudo isso por que? – Questionei e Lance levantou os ombros, parecia realmente culpado.
– Tudo por causa de uma escapada idiota que foi por culpa absolutamente sua. – Aumentei o tom de voz. – Você quase me machucou feio ou me matou porque perdeu segundos no seu tempo. O que você tem na cabeça? Que tipo de pessoa pode fazer isso?
– Eu realmente sinto muito, . – Lance falou. – Eu não tive a intenção.
– Não teve? Você reduz daquele jeito e esperava que acontecesse o que? – Esbravejei.
– Eu só segui os comandos pelo rádio. – Lance explicou. – Eu ouvi a ordem para reduzir e fiz. Fui desatento, não te vi atrás. Eu juro.
– O quê? Te pedem para parar o carro e você faz? Sem questionar? Quem dirige? Você ou o computador? – Indaguei.
– Eu realmente sinto muito. Não queria que isso tivesse acontecido, eu juro. Não foi minha intenção. – Lance falou e parecia realmente sincero, mas eu ainda estava desconfiado.
– Vocês fizeram ameaças no sábado. – Lembrei.
– Não. Não leve a sério o que meu pai disse. Eu sei bem dos riscos, naquela velocidade eu jamais faria algo assim por querer. Eu não conseguiria conviver com a ideia de ter te machucado. – Lance assumiu.

Algo nele me fazia acreditar na sinceridade das suas palavras. Eu estava com ódio, mas por alguns segundos me coloquei na posição dele, mesmo não acreditando muito na sua versão de que havia sido orientado e desacelerar. Se eu recebesse uma ordem dessas da François-, talvez fizesse o mesmo que ele. Lance era só um garoto e parecia realmente assustado.
– Isso não foi uma atitude de alguém honrado. Foi nojenta, podre. – Falei depois de suspirar.
– Eu sei, eu realmente sinto muito. Se tiver algo que eu possa fazer, é só dizer. – Ele falou com olhar suplicante.
– Não tem nada, só…- Soltei o ar pesadamente. – É melhor você ir. Pode ir, desculpas aceitas. – Disse por fim.
– Eu realmente sinto muito. – Ele repetiu.
– Eu já entendi. Só não tente me assassinar de novo, já fico satisfeito. – Dei de ombros e Lance assentiu. – Stroll. – Chamei e ele se voltou para mim.
– Sim.
– Se tentar alguma coisa contra mim ou minha equipe de novo, eu juro que você só vai se aproximar de um carro de corrida de novo para tirar fotos. – Falei com a voz gelada e Lance apertou os lábios e assentiu.
– Acho que ele entendeu o recado. – falou de repente, surgindo atrás de mim como um fantasma. – Como você está?
– Bravo. – Respondi seco e me dirigi ao interior da garagem.
– É tudo muito imprevisível, essas coisas acontecem. – Ela disse.
– Acontecem? – Me virei para encará-la. – Se eu não entro naquele muro, precisaríamos de duas ambulâncias. – Completei irritado.
– Você tem razão. A propósito, foi uma atitude muito altruísta. – elogiou.
– Eu não sou um pau no cu. – Falei.
– Claro. – Ela respondeu, estava sem graça.
– Desculpe, . – Disse enquanto me sentava e passava as mãos pelo cabelo. – Eu estou com muita raiva. Se puder me deixar sozinho…eu quero me acalmar antes de descontar em alguém. – Pedi.
– Eu sinto muito, mas você precisa falar com alguns repórteres agora. – Ela disse, sabia que era uma péssima ideia, mas não poderia me deixar de fora.
– Tudo bem. – Respirei fundo. – Pelo menos não vou gaguejar. Meu cabelo está bom?
– Você está perfeito. Venha comigo. – Pediu.

me guiou até um aglomerado de repórteres com seus vários microfones e suas várias câmeras e me deixou sozinho com eles.
O que aconteceu no seu acidente, Madden? – Uma mulher perguntou.
– O Lance Stroll freou no meio da curva, eu tive que escolher entre bater na Ferrari ou no muro. – Respondi sério e minha expressão devia estar denunciando a raiva.
Você diria que o Stroll teve culpa no que houve? Você viu a punição que ele sofreu? Achou justa? – Um outro jornalista questionou.
– Esse tipo de postura não pode existir dentro da Fórmula Um, temos várias regras e elas existem para serem seguidas. A FIA¹⁷ devia julgar isso com mais cuidado, eu estou bem, mas poderia não estar aqui agora. – Falei.
O que achou da corrida? – Outra jornalista quis saber.
– Estou feliz pelo Reed, nós trabalhamos duro na pré-temporada e foi mérito dele estar no pódio hoje. Os carros são ótimos e nós estamos felizes. – Contei.
Todos os repórteres decidiram fazer perguntas ao mesmo tempo e eu busquei o olhar de , implorando para que ela me deixasse ir. Reed se aproximou e ela assentiu, me permitindo fugir dali. Acenei para os repórteres e me afastei.
– Tente descansar e fique bem. Não se preocupe com nada. – disse.
– Vai ser difícil. – Assumi e me dirigi a motorhome.
Madden, do céu ao inferno em menos de doze horas, seria o nome do meu filme.

 


Capítulo 08

Renascimento

Estava no quarto, no motorhome. Deveríamos voltar para Mônaco em breve, num voo durante a noite. O próxima Grande Prêmio estava a menos de uma quinzena de distância e tinham muito para faze até lá, segundo a agenda estava mais que lotada.
Havia perdido as contas de quantas horas estava ali, encarando o teto e revisando cada ação do dia, pensando nas possibilidades, pensando no que poderia ter feito para evitar tudo aquilo. Não conseguia evitar a culpa, de um jeito ou de outro ela o invadia. Todos estavam felizes por ele estar bem, sequer se importaram com o carro, mas para mim era como se tivesse quebrado o item mais precioso de alguém, um presente raro que não poderia ser substituído.
– Você não vai ficar nessa fossa por causa daquele idiota. – surgiu de repente, abrindo a porta sem bater.
– É o que eu pretendo fazer. – Falei, me virando para a parede.
– Mas não vai, eu quero sair e você vai comigo. – exigiu.
– Nem em sonho, me deixe mofar aqui. – Pedi e cobri o rosto com um travesseiro. – Eu estou dolorido, cansado. A última coisa que quero no dia de hoje é sair.
– Vamos, pudim de ódio. Vamos logo! – respirou fundo e ficou em silêncio por alguns segundos. – Vamos, eu quero levar a em um lugar, mas ela não vai aceitar se eu chamar.
– Para onde você vai levá-la? – Disse me virando bruscamente para encará-lo.
– Relaxa, não estou pedindo ajuda para ocultar um cadáver. – deu de ombros.
– Eu espero tudo de você. , ela é minha chefe. – Me sentei na cama e o encarei.
– Vamos, ela está no bar. Só preciso de apoio moral. – saiu do quarto, praticamente saltitante e eu fui obrigado a segui-lo.

***

Março de 2004, Melbourne – Austrália

já estava perdendo a paciência e isso não era comum fora das pistas. Estava frustrado, cansado, chateado e bravo com a corrida, o Grande Prêmio da Austrália não havia sido nada agradável, quase fora assassinado por Montoya na décima volta. E como se isso não bastasse, ele sequer havia sido punido, estava prestes a gritar.
e também pareciam dispostos a testar seus limites. queria levá-los para conhecer a noite australiana e se negava a cumprir o planejamento da francesa, o que resultava em uma discussão acalorada que se estendia por no mínimo uma hora.
– Você realmente quer ir nesses lugares, ? – indagou.
– Eu só quero sair para comer, tanto faz onde. – deu de ombros, fechando os olhos e encostando a cabeça na janela.
– Você vai amar esses lugares, só não quer ir porque foi sugestão minha. – provocou.
– Eu não me importo tanto com você assim, querida. Se coloque no seu lugar. – falou, tirando uma mão do volante e balançando para .
, o que você quer fazer? – A francesa se inclinou no banco de trás, para alcança-lo.
– Comer, querida. Quero só comer. – Disse.
– Está vendo? Ele só quer comer, então vamos no lugar que eu escolhi. – cantarolou vitorioso.
– Não, ele não disse onde…- a interrompeu.
– Mas não disse que quer ir no que você…- os interrompeu, bruscamente.
– Já chega! – gritou e os dois se calaram. – , eu gostaria muito de comemorar que sobrevivi hoje, então se você puder, por favor, nos acompanhar nesse bendito dia e seguir esse planejamento bobo que só vai nos cansar e nos fazer ficar em filas até ter vontade de agredir alguém, eu agradeceria. – falou de uma vez e fitou , seu olhar não permitia uma réplica.
– Okay. – concordou e voltou a prestar atenção na rua.
– Será que vocês podem se resolver? Alguém aqui está cansado e quase morreu hoje, se puderem ter um pouco de respeito e pararem de gritar, eu ficaria feliz. – ralhou, olhando de para .
– Tudo bem, desculpe. – falou num sopro de voz, nunca havia visto o namorado gritar antes.
– Eu quase fui assassinado hoje, então é bom que seja um bom restaurante e que eu ganhe massagem depois. – declarou sério e olhou por cima do ombro.

***

estava tomando uísque sentada no bar, contemplando o pôr do sol. Usava uma calça branca chique e uma blusa verde de seda que devia custar todo meu armário. Ela bebia com calma e paciência, como se só tivesse aquilo para fazer pelas próximas duas semanas.
. – a chamou e ela virou-se lentamente para nós. – está chateado, foi um fim de semana chocante. Eu queria reviver velhos hábitos, sabe…hábitos australianos. – tentou, mas ninguém entendeu de verdade o que ele queria dizer.
– Hã? – e eu tínhamos a mesma expressão confusa.
– Você fumou? – perguntou, com as mãos na cintura.
– Sim, mas não é por isso que não te entendo. Hábitos australianos? – disse e bebericou mais um pouco de seu uísque.
– Como antigamente. – falou e engoliu seco, mas eu ainda não tinha entendido.
– Não, desculpe. Mas não. – Ela disse e voltou a encarar o pôr do sol.
, acho que está na hora disso, não acha? – disse e tocou suavemente o braço da mulher, ela o encarou. – Você que tinha esse costume, sempre fazia isso. Não pode parar, mesmo depois de tudo. Além do mais, a vida noturna de Melbourne sente sua falta. – sorriu.
– Eu estou bem, vou terminar meu uísque e voltar para o hotel. Não precisa se preocupar comigo, não estou no clima para festa e nem consigo ficar acordada até tarde mais. Mas leve o , ele vai gostar. – tentou sorrir, mas falhou.
– Eu não vou sair do seu lado até você aceitar. – bateu o pé.
– Eu não vou, desculpe. – deu de ombros, com o mesmo tom de voz polido e elegante.
, por favor. Vai ser bom, como nos velhos tempos. Vamos jantar naquele restaurante alternativo e chique que você ama, depois vamos para o Pawn & Co beber um pouco e depois para aquele bar do circo e finalizamos a noite no Revellers, tomando aquele drink azul horrível que você sempre fez a gente beber. – sorriu, tentando animá-la.
, eu…- titubeou.
– Por favor, vai ser como nos velhos tempos. – Ele insistiu.
– Não, . Não vai nunca mais ser como nos velhos tempos. – disse triste e se levantou, não tinha mais argumentos.
– Ás vezes o melhor é criar novas lembranças. – Eu disse, e me encararam. – Você devia ir, para ver gente, rir um pouco. Não vai ser como quando ele estava aqui, mas não significa que não vá ser bom.
– Ele tem razão. não ia querer que você parasse de fazer tudo, se isolasse. – tentou argumentar.
, eu adoraria ter escutado isso da sua parte há uns dois anos atrás. Agora está um pouco tarde. Eu não quero ir, não estou disposta, por favor, não insista. – disse ríspida como eu nunca a havia visto, deixando sem saber o que dizer de novo.
– Você tem razão, você já passou dessa fase. Então, , por favor, vamos comemorar que eu não morri quando aquela besta do Stroll trapaceou. – Eu disse, arriscando ser ousado e parou onde estava. Ou ela me agrediria ou daria risadas.
– O que disse? – se voltou para mim com uma sobrancelha arqueada.
– Eu disse que gostaria muito de comemorar que sobrevivi hoje, então se você puder, por favor, nos acompanhar nesse bendito dia e seguir esse planejamento bobo que só vai nos cansar e nos fazer ficar em filas até ter vontade de agredir alguém, eu agradeceria. – Falei de uma vez só e pensei em onde meu anjo da guarda estava, que não me impedia de fazer esse tipo de burrada.
– Caramba, você falou igualzinho a ele. Até arrepiei. – levantou o braço, mostrando a ereção de seus pelos.
– Isso foi muito estranho. – disse.
– Será que vocês podem se resolver? Alguém aqui está cansado e quase morreu hoje, se puderem ter um pouco de respeito, eu ficaria feliz. – Falei, impaciente.
– Se não vai por mim, vá por ele. – finalizou apontando para mim e suspirou, rendida.
– Tudo bem, eu vou. Mas a qualquer momento, vou embora. – disse.
– Bom para mim. – concordou e nos despedimos com um aceno.
– Eu quase fui assassinado hoje, então é bom que seja um bom restaurante e você vai pagar a conta. – Falei antes de deixarmos o bar.
– O que deu em você? Falar aquilo com ela e daquele jeito? – quis saber, me olhando curioso.
– A última coisa que eu quero hoje é uma discussão interminável entre vocês. – Rolei os olhos.
– Deu sorte, achei que ela te demitiria. Ela não aceita que ninguém fale com ela nesse tom.
– É, as vezes eu acho que até Deus já desistiu de mim, me deixando abrir a boca para falar certas coisas. – Falei e balançou a cabeça e riu.
– Ás vezes, seu jeito de olhar, as coisas que diz e até o jeito que ri se parecem com o , é muito esquisito. – confidenciou e eu me arrepiei.
– Eu sou eu, não sou o . Tenho que bater na madeira agora…- Disse batendo três vezes na porta do quarto. – . – Chamei depois de alguns segundos em silêncio.
– Sim.
– O que ela quis dizer quando disse que fumou? – Questionei e riu, deu-me as costas e sumiu pelos corredores, assoviando.

Horas depois estávamos todos num camaro preto, indo para um restaurante qualquer que eu não fazia ideia de qual seria. usava um macacão preto e salto alto, ela ficava diferente quando estava arrumada assim, para a noite. Parecia até outra pessoa com aquela maquiagem mais pesada. usava uma camisa florida e calça jeans cáqui e eu estava de jeans preto e camiseta cinza, me sentia um sem teto perto deles.
estava dirigindo e eu estava no banco de trás, mais uma vez todos sabiam de tudo, menos eu. sabia exatamente para onde iríamos, mas eu não fazia ideia dos planos de para aquela noite, nem entendia porque estávamos indo. devia decidir se odiava ou amava , porque essa indecisão me confundia.
– Por que entre todos os carros do mundo, você dirige um camaro simples? – Perguntei tentando quebrar o silêncio.
– Não é um camaro simples, meu carro é um bom carro. – respondeu sorrindo e verificando minha expressão pelo espelho retrovisor.
– É, mas existem vários bem mais rápidos, mais caros, mais econômicos… – Insisti.
– Quando eu era criança, meu pai me trazia para a FR para passear. O François tinha um camaro azul, mil novecentos e setenta. Eu achava a coisa mais linda do mundo, era apaixonada por ele, meu pai também. Eu cismei que meu primeiro carro seria um camaro. – sorriu, enquanto contornava uma rotatória. – Uns anos depois, meu pai comprou o camaro azul e foi o primeiro que eu dirigi. Depois disso, só dirijo camaros, quando não tenho o meu, alugo um, como esse. – Ela explicou.
– O que aconteceu com o camaro azul? – perguntou curioso.
– Eu ainda o tenho, preciso inclusive levar ele ao mecânico. Acho que é um problema no distribuidor. – disse. – sempre dizia que no dia que eu me desfizesse do carro, ele se separaria. – Ela sorriu e xingou baixo um carro qualquer que havia invadido sua faixa sem sinalizar.
– Eu posso dar uma olhada, se quiser. – ofereceu.
– Obrigada, mas eu pensei em um velho amigo mecânico, que ama carros antigos e era amigo do . Eu não o vejo há algum tempo, acho que ele vai gostar de rever o camaro e a dona. – disse.
– Está falando do Dom¹⁹? – perguntou confuso.
– É, esse. – respondeu enquanto tentava encontrar uma vaga para estacionar.
– É, ele é bom. Mande lembranças minhas quando for. – disse e assentiu.

A primeira parada ficava a menos de dez minutos do Albert Park, um lugar chamado Revolver Upstairs. Era um restaurante tailandês misturado com clube noturno meio desconstruído, mas que ficava dentro de um prédio antigo, bonito, grande e cinza.
Acompanhei boquiaberto atravessar a fila com em seu encalço, o segurança sorriu ao reconhece-la e permitiu sua entrada antes mesmo dela se aproximar. Eles se cumprimentaram pelo nome e nós entramos. estava confortável, o que me levava a crer que esse tipo de coisa devia ser normal para eles.
O restaurante era aconchegante e parecia que estava em obras, com certeza devia ser caro. Luminárias cilíndricas pendiam do teto, vermelhas, verdes, azuis e amarelas. As mesas eram de tamanhos variados, redondas ou retangulares e em volta delas, sofás antigos. O piso era de madeira e o teto do mesmo amarelo esquisito que o teto da casa dos meus avós.
– Como vocês descobriram esse lugar? – Perguntei quando nos sentamos em uma mesa atrás de uma espécie de grade.
– Eu conheci quando fiz intercâmbio aqui na Austrália. Desde então, todos os anos que vinha para cá, precisava cumprir esse roteiro. – sorriu.
– Inclusive. – disse, depois de falar com um garçom. – Depois que o começou a sair com ela, todos os anos, depois do grande prêmio nós três fazíamos o roteiro. – Contou.
– É, verdade. – Ela assentiu e tirou os olhos do cardápio para encarar . – Ás vezes outras pessoas também saíam conosco, alguns amigos, outros pilotos. Mas foram uns doze anos fazendo a mesma programação, anos após ano.
– Se alguém perguntar, eu vou negar veementemente, mas eu senti falta. – confessou, rolando os olhos pelo lugar.
suspirou e repetiu o gesto, depois voltou a olhar o cardápio e disse:
– E então, o que vamos comer? Eu estou faminta.

Não havia nada mais gratificante e satisfatório do que o momento em que você enxerga o garçom trazendo seu pedido. Havíamos pedido várias coisas, contra o conselho de e agora os garçons abarrotavam nossa mesa com várias comidas diferentes e esquisitas.
Era minha primeira vez com comida tailandesa, mas eu estava otimista e o cheiro estava ótimo. Pedimos um frango com cinco temperos e molho de pimenta doce, uma cesta de frutos do mar com peixe-agulha, caranguejo de casca mole e batata frita, camarão seco com amendoim, limão e gengibre e charutos de cordeiro ao curry com molho de abacate e coentro.
– Sabe da melhor parte? É tudo orgânico, até as carnes, os frangos são caipiras. – comentou.
– William ama esse lugar porque eles têm comida vegana. – comentou. – Uma pena ele ter tido que ir embora mais cedo, ele adoraria o passeio.
– E o ? – quis saber.
– Ficou assistindo um filme com François, passei o resto da tarde com ele. Achei que ele ficaria mais mal-humorado em ter vindo, mas ele está bem. – falou enquanto se servia. – Vou ficar com a agenda mais apertada em breve, não vou conseguir acompanhar tudo tão de perto. Não gosto de deixá-lo muito tempo sozinho. – Completou.
– Está certa. – Eu concordei. – Vocês tinham razão, a comida é realmente boa. – Confessei e e riram alto.
– Nossa, não devíamos ter pedido camarão. – arregalou os olhos de repente e congelou com o garfo perto da boca. – é alérgico, ele … ah. – Ela abaixou os ombros e a olhou com empatia.
– Eu esqueci que não tem mais . – sorriu sem mostrar os dentes, envergonhada.
– Tem sim, ele está com a gente. – disse, tocando levemente o braço de . – A gente só não vê, mas ele está aqui. Se pudéssemos vê-lo, ele estaria sentado bem aqui, com as mãos cruzadas no colo, praticamente deitado na cadeira e olhando para o chão e ele diria…
– Pesado. – e disseram juntos e sorriram ao mesmo tempo.
– Ele está aqui e quando não pode nos irritar sozinho, encarrega o disso. – implicou, olhando para mim de soslaio.
– Por que tudo sobra para mim? – Indaguei ofendido e riu, suspirou e piscou algumas vezes.
– Posso perguntar como você se conheceram? – Perguntei receoso. Tudo bem que parecia mais relaxada e menos taciturna, mas ainda assim não tinha muita liberdade.
– Tudo bem, . – sorriu e eu relaxei. – Nós nos conhecemos em duas situações. Eu o vi primeiro, ele corria pela McLaren e era meu primeiro ano cobrindo corridas, em dois mil e três. – bebeu um pouco d’água.
– Eu tinha dez anos. – Falei sem pensar e me chutou. Péssimo momento para enfatizar idades, pensei.
. – riu e balançou a cabeça. – Não é muito elegante fazer esse tipo de comentário.
– Desculpe, eu não penso as vezes. – Respondi envergonhado, queria fingir um desmaio. – A cabeça serve só para segurar o capacete, nada mais. – Completei e riu.
– Continue. – pediu e ela suspirou.
– No ano seguinte, por favor se contenha. – implicou. – Ele me viu pelos autódromos e eu escrevi umas matérias que o irritaram um pouco. Ele me detestava, eu detestava ele.
– Quando eu conheci o , eles vivam em pé de guerra, se provocando e tentando se matar. – completou. – Se lembra da vez que ele venceu a corrida e foi até você com o troféu? – sorriu com a recordação.
– Claro! – riu alto. – Eu disse que ele não ganharia e o não só ganhou como foi até a cabine de transmissão com troféu em mãos. Eu abri a porta e ele estava lá, sentado, falando com as pessoas. Dias depois ele enviou uma réplica para minha casa.
– É definitivamente o tipo de coisa que eu faria. – Eu concordei e ri.
– Ele adorava me irritar. Depois desse dia, quando não estava na garagem ou no paddock, ele estava comigo e com o resto do pessoal do jornalismo. – contou.
– As pessoas diziam que era mais fácil encontrar ele nas cabines do que nos carros. quase brigou com um repórter por isso. – lembrou e assentiu.
– Que clichê. – Eu sorri. – Então vocês se odiavam e acabaram se casando. É fofo. – Falei comendo um pedaço de frango.
– Eu ainda não terminei. – sorriu e piscou. – Nós só descobrimos isso depois de casados. Se lembra da história sobre meu pai e o camaro azul? – Ela perguntou.
– Claro, o carro do François que depois se tornou o carro do seu pai. – Confirmei.
– Quando eu era criança, ia sempre para aquele autódromo da François- e tinha um garoto lá. Ele não ia sempre, mas algumas vezes por ano, nós nos encontrávamos lá. Brincávamos juntos, fingíamos estar dirigindo carros, até brincávamos sobre sermos uma família e o filho era um cachorrinho de pelúcia que eu tinha. – sorriu saudosa. – Foram anos assim, mas outras crianças também iam até lá com seus pais que também eram mecânicos ou as vezes os pilotos.
– Era um autódromo ou parque de diversões? – questionou provocativo.
– Era maior do que é hoje, tinha uma área verde gigante, podíamos brincar à vontade. – falou e mordeu um pedaço de camarão. – Eu conhecia o garoto pelo nome que a mãe dele o chamava, Joseph, erámos e Joseph contra o mundo. Quando eu tinha doze anos e ele quatorze demos nosso primeiro beijo e dizíamos que quando fizéssemos dezoito anos, nós nos casaríamos.
– Que fofos. – Comentei e concordou.
– E erámos mesmo. No ano seguinte, Joseph parou de frequentar o autódromo e eu nunca soube o porquê. Perguntei ao meu pai, mas eles não sabiam quem devia ser esse Joseph, então nós nos perdemos. A vida mudou, eu parei de ir até lá. O morava em outro país, mas se mudou para Mônaco com uns quinze anos.
– Não me diga que o era amigo do Joseph? – Questionei curioso e riu alto e graciosamente.
– Depois de casada, muito tempo depois, minha sogra resolveu me mostrar umas fotos de família e para nossa surpresa, lá estávamos. Joseph e , abraçados e sorrindo para ela, décadas atrás. – finalizou e riu, já devia saber daquilo e naquele momento, se eu fosse um filtro de Instagram, seria o que vomita arco-íris.
– Isso é definitivamente a coisa mais romântica do universo. Vocês se conheceram quando eram crianças, meu Deus! – Constatei chocado. – Mas espere. Por que chamavam de Joseph?
– O nome do meio dele é Joseph. Joseph . – respondeu. – Quando saíamos e ele não queria ser reconhecido ele dizia ser o Joseph.
– Vocês agora são a minha meta de relacionamento. – Comentei distraído e riu fraco.
– Só não se espelhe muito, por razões óbvias. – Ela sorriu. – Vamos beber alguma coisa? Temos que nos esquentar para os outros três bares. – Ela arqueou as sobrancelhas de uma vez.
Alguns martínis depois, estávamos indo para outro bar. Eu sentia o estômago revirar por ter comido demais e o gosto do álcool na boca me enjoava. dirigia alegremente e sorria com as besteiras que dizia, já ele cantava e gritava com pessoas na rua.
A segunda parada era em uma loja de penhor misturada com bar. Era um lugar incrível, com vários itens antigos e de colecionador, carros em miniatura, discos, figuras de ação de Star Wars, relógios de bolso e tudo mais que fosse possível.
– Eu entendo porque vocês vêm aqui. Esse lugar é incrível! Podemos voltar amanhã durante o dia para explorar? – Perguntei atônito com tantas coisas para ver.
– Em outra oportunidade, talvez. – sorriu. – Com licença, preciso ir ao banheiro.

havia pedido algumas bebidas e nos sentamos numa mesa perto de um bizarro coelho empalhado.
– Vocês teriam por acaso, algum daqueles colecionáveis raros da McLaren ? – Perguntei ao garçom que chegou com as bebidas.
– Desculpe. – Ele riu. – Eu vendi todos que tinha para o verdadeiro dono anos atrás.
– Você quer a cerveja ou o uísque? – perguntou quando o garçom se foi.
– Nenhum, não quero beber. Vou ficar de babá. – Falei e concordou, em seguida virou um copo de uísque de uma vez. – Antes que você fique mais bêbado do que está. Por que está fazendo isso? – Eu quis saber, olhando fixamente em seus olhos.
– Isso o quê? – desconversou, virando o meu copo com uísque.
– Isso, trazer e ser legal. – arqueou a sobrancelha e inclinou a cabeça. – Não me olhe assim, . Sabemos que você não tenta ser muito agradável com ela. – Disse.
– Eu sonhei com . – Ele disse depois de pensar um pouco. – Umas duas noites atrás. – Confessou.
– Como assim? O que sonhou? – Questionei curioso.
– Estávamos caminhando pelo autódromo daqui e ele estava ao meu lado. estava me falando exatamente como devia ser o dia de hoje, para onde iríamos, o que deveríamos fazer, com detalhes. E eu me lembro de dizer que nem em sonho eu sairia com a . – sorriu saudoso. – E aí ele parou de andar, apertou os lábios e fez aquela cara que sempre fazia quando não concordava com algo ou quando estava de saco cheio e disse que já estava bom de drama. – interrompeu a conversa para tomar um pouco de sua cerveja.
– Ele disse que eu devia, que éramos bons juntos e que eu devia parar com a implicância boba e confiar nele, que a era uma pessoa legal. Depois ele começou a falar várias coisas sobre a corrida e eu acordei. – finalizou.
– Uau. Às vezes eu tenho medo de ver o fantasma do andando por aí. – Brinquei.
– É, eu confesso que nunca senti ele tão vivo quanto esse ano, acho que é a presença dela. Não sei como é isso de céu e tudo mais, mas o não sairia de perto dela, não a deixaria…- falou.
– Do que vocês estão falando? – surgiu de repente.
– Desse lugar. – fingiu.
– É ótimo, não é?! que descobriu, por causa de um cartaz de Star Wars que estava na porta. Eu adoro vir aqui e comprar presentes. – contou, correndo os olhos pelo lugar. – Você pediu meu uísque, que gentil. – Ela sorriu e virou de uma vez.
– Mulher…- Eu a adverti.
– Tudo bem, . Ela está acostumada, você não viu o que essa mulher faz com uma garrafa de uísque. – sorriu.
– Será que eu devia mandar outra mensagem para o ? – quis saber incerta.
– François cuida dele, ele consegue. – disse, tomando mais um pouco de cerveja. – Isso se ele não dormir e deixar o sozinho. – disse e riu alto.
– Na sexta, nós flagramos ele dormindo sentado e com a boca aberta. estava comendo batata frita e jogou algumas na boca dele, para ver se ele acordaria, mas nós desistimos de esperar. – contou e nós rimos.
– Mas o não é nada fácil, também. – Jacque riu e balançou a cabeça.
– Já estou sendo inconveniente e chata, falando de mim e da minha vida o tempo todo. Me desculpem. – disse de repente.
– Tudo bem, não é surpresa para mim você ser uma chata. – provocou.
– Não está sendo chata, . – Falei. – Não se preocupe.
– Acho que fico tempo demais sem falar com pessoas, quando tenho a oportunidade, não sei parar. – riu e tomou um pouco de cerveja.
– Não sabe mesmo, hein. – disse e o empurrou de leve.
– Como nós estamos conseguindo passar batido essa noite? Quer dizer, ninguém pareceu notar a nossa presença. – Comentei.
– Você mal estreou e já quer fotógrafos te seguindo? – implicou.
– Sorte. Por incrível que pareça, em todos esses anos só fomos reconhecidos uma vez ou duas. – disse. – Acho que isso é que faz da Austrália tão mágica. – Ela suspirou.
– Seja como for, nós sempre teremos a Austrália. – Citei Casablanca e arregalou os olhos e sorriu, surpresa, depois levantou um brinde, soltou um gritinho e riu alto.
– Menino , aquelas moças ali estão te olhando. – avisou e eu olhei sobre o ombro.
– São bonitas, as três. – comentou, tentando disfarçar e olhar para as mulheres. – Acho que você falou cedo demais que não foi reconhecido. – Ela disse e eles riram.
– Vá falar com elas. – me empurrou.
– Não. Deixa isso para lá. – Pedi. – Eu não estou interessado.
– Você é comprometido? – perguntou, seus olhos cintilavam de animação.
– Não, não sou não. Eu só não estou interessado. – Disse enquanto verificava algumas notificações no celular.
– Se for por minha causa, se estiver com vergonha, não se preocupe. Eu já estou bêbada, nem vou me lembrar. Vá se divertir. – sorriu e balançou as mãos em minha direção, me encorajando.
– Não. – Eu ri. – Não vou, não é por isso. Eu só quero aproveitar a noite, entre amigos.
– Nós somos todos amigos agora? Que lindo. – riu e colocou os braços sobre meus ombros e os de . – Okay, acho que eu bebi demais. – Nós rimos.
– Eu preciso de mais. – disse e em questão de segundos um garçom tinha nos reabastecido.
– Vamos ver quem vira primeiro? – propôs e eu arregalei os olhos chocados. – Vamos, ?
– No três. – avisou. – Um…dois…três. – Viraram as canecas de cerveja de uma vez e terminou a dela em três grandes goles e pode assistir beber a sua com dificuldade.
– Quem é você e o que fez com a ? – Perguntei, nunca havia visto a mulher daquele jeito, rindo, solta, bêbada.
. Tenho no nome. – Ela corrigiu. – . Eu estou exagerando? Eu não saio há décadas, não sei mais como as pessoas se comportam hoje em dia. – se corrigiu sem graça. – Eu estou ficando desagradável? Acho melhor parar com a bebida.
– Nem brinque com isso, você só fica legal bêbada. – gritou. – Eu estou afim de dançar e temos mais um bar antes disso. – Ele avisou.
– Não podemos dançar aqui? – Perguntei inocente.
– Não, o planejamento é sagrado, temos que ir em todos os bares. – concordou.
– Vocês vão me levar a falência. – Assumi contrariado.
– Me deixe pagar, eu sou rica. Acho que ainda sou. – falou bêbada e confusa.
– Você já pagou o jantar. – Contestei.
– Eu sou a chefe. – beijou o próprio ombro, simbolicamente. – Vamos para outro lugar, eu quero beber gin em outro lugar.

pagou a conta e partimos para o outro lugar. ocupou o banco de trás e o do carona, a essa altura ela estava rindo como uma criança e comentava algo sobre todos os prédios da rua.
O próximo destino era um bar que ficava uns três quarteirões de onde estávamos. Se chamava Circus e com certeza era o lugar mais lindo do universo. Parecia uma mistura entre Moulin Rouge e o clipe de Circus da Britney Spears. Atrás do balcão havia um letreiro enorme, iluminado, com o nome do bar.
O teto era revestido de tecido vermelho, os bancos eram estofados em couro vermelho e tudo parecia ter saído de um filme. As luzes, a música, as bebidas, as pessoas.
– Eu quero morar aqui. – declarou ao se sentar.
– Mas não vai, vamos beber e ir embora. – disse e se dirigiu ao balcão.
– Não vai beber nada? – quis saber, prendendo o cabelo com um nó.
– Vou dirigir, mas vou tomar uma água. Não importa o preço, vai valer a pena. – Falei, sentindo uma dor agonizante no bolso e jogou a cabeça para trás e riu.
– Eu trouxe gin e vodca pura. Vamos descobrir quem vira primeiro? – propôs e se preparou.
– Droga! Você sempre vence todas. – reclamou depois de perder mais uma para a francesa mais bêbada da Austrália.
– Meu Deus, não lembro a última vez que estive tão bêbada. – falou e gargalhou.
– Você tem que beber água. – Aconselhei. – Vocês dois tem.
– Mas a intenção é justamente ficar bêbado a ponto de esquecer quem se é. – argumentou.
– Quando vocês faziam isso antigamente, quem dirigia? – Eu quis saber.
– Variava, quem precisava mais esquecer os problemas. – contou e riu.
você ainda me odeia? – perguntou de repente e segurou o rosto de , olhando fixamente em seus olhos.
– Eu te amo, você é minha irmã. Mas eu não gosto de você. – respondeu, mais que bêbado.
– Mas você me odeia? – A francesa insistiu.
– Eu não gosto de você, mas eu te amo. – enfatizou e assentiu e se abraçaram.
Já havia visto bêbado algumas vezes, mas nunca. Ela parecia alguém diferente, mais leve, alguém normal. Ria de tudo, tropeçava nas próprias pernas, abraçava o tempo todo. Já passava de uma da madrugada, mas eles estavam firmes juntos, bebendo mais que o planeta inteiro em um dia.
– Eu gosto de você, mas você nem me ligou. Você errou. – deu prosseguimento ao seu discurso bêbado depois de finalizar outra garrafa de gin. – Eu errei, mas eu falei que errei, você não. Você só disse que o problema era a . – Ela dizia e a observava com atenção.
– Eu errei, mas por que eu errei? Porque, o que eu ia falar? Daí eu disse, olha eu não sei se ela fez isso, mas eu acho ela uma vadia. – disse e se surpreendeu. – Deixa eu terminar. Mas eu falei, eu não sei, tem que confirmar com ela.
– Eu te considero muito, você é como meu irmão. Eu já te disse isso? – perguntou
– O quê? Não. – quase caiu da cadeira antes de responder.
– Mas você é. Ás vezes o fala, olha o , vamos chamar ele para sair e eu fico preocupada, porque você não gosta de mim. – falou, abraçada a .
– Mas eu gosto de você, eu não gosto é dele. Ele que não gosta de mim na verdade, porque quando eu conheci, ele já estava apaixonado por você. Eu tentei e ele falou que gostava da outra mulher lá. – respondeu, balançando as mãos.

Eu não conseguia entender nada que falavam, mas as vezes conseguia rir de alguma coisa, embora estivesse preocupado em ter que acudir os dois ao mesmo tempo.
– Vamos, já chega. – Chamei os dois.
– Não, um guerreio não vai ainda. – respondeu.
– Vamos pagar, eu quero dançar. – disse se levantando e dando pulinhos para se aquecer.
– Vocês estão bêbados demais para isso. – Falei.
– Não estou. Quer ver. – ficou em um pé só, se desequilibrou e quase caiu no chão. – A culpa é disso. – Falou, retirando os sapatos. – Como se chama isso? Eu esqueci.
– Cuidado, . – Estiquei um braço, para ampará-la caso se desequilibrasse de novo.
– Olha. – Ela chamou, tentando se equilibrar em um pé só. – Eu não estou bêbada. Se eu estivesse, eu falaria. Eu sei o meu limite. Eu sei exatamente o que eu estou fazendo. – disse e eu ri e balancei a cabeça.

Depois de chamar um garçom e pagar a conta, fomos em direção ao último lugar e eu só pensava em como seria bom se estivesse fechado. e começaram a cantar todas as músicas que tocavam no rádio, de John Denver até Calvin Harris. Irritantemente.
O bar ficava perto do bar misturado com loja de penhores, fechando a lista de bares do quarteirão. Se chamava Revellers Bar e a música podia ser ouvida da rua.
– Tem certeza que você dois estão bem? – Insisti na pergunta quando entramos no bar.
– Se isso é estar mal, eu quero estar mal assim todos os dias. – falou e bateu no meu ombro.
Os dois foram para a pista e eu passei a observá-los de longe. O bar não era bonito como o anterior, era só mais um clube noturno com paredes cinzas e sem graça. Só me restava o espetáculo de ver e dançando.
– Oi. – Uma mulher cumprimentou e parou ao meu lado de repente.
– Oi. – Assenti. Eu estava acuado num canto do bar, pelo balcão, a parede e a mulher.
– Eu estava olhando você. Você é piloto de Fórmula Um, não é? Acho que vi seu acidente hoje. – Ela disse tocando meu braço. – Você está bem?
– Sim. Sem nenhum arranhão. – Tentei me afastar.
– Que bom! – Ela disse e se aproximou mais. – Você vem sempre aqui?
– Não, nunca. – Falei na defensiva. Minha intenção não era beijar uma desconhecida e na falta de uma palavra melhor, estava em pânico.
– Quer que eu te mostre o lugar? Conheço uns cantinhos ótimos. – Ela falou, cheia de segundas intenções, a malícia quase pingava do canto da boca.
– Eu…eu…- Meus olhos viram a luz, estava se aproximando e era a desculpa perfeita. – É que eu estou acompanhado. – Falei e a mulher me encarou confusa.
– Como assim? – Ela indagou.
– É, eu estou. – Falei firme.
– Está o que? – quis saber, se aproximando.
– Acompanhado, querida. Estava dizendo para ela que estou acompanhado. – Arqueei a sobrancelha para , que por alguns segundos pareceu confusa e então, de repente me lançou um olhar cúmplice.
– Sim, ele está muito bem acompanhado. – Ela disse, me abraçou e eu levantei os ombros para a mulher, que saiu confusa pela pista.
– Tudo bem, ela já foi. – Avisei.
– Isso foi hilário! – Ela gargalhou, ainda sem se afastar de mim. – Eu não lembro qual foi a última vez em que fingi ser a namorada de alguém.
– Desculpe te colocar nisso, é que eu não sabia o que fazer. – Contei.
– Você também é gay? – indagou.
– O quê? Não. Eu sou hétero. – Respondi rápido. – Só não curto muito ficar por ficar.
– Jura? Você tem quantos anos? – perguntou, rindo perto do meu rosto e seu hálito estava me deixando embriagado.
– Vinte e cinco. Não venha você me sacanear também. – Disse e ela riu mais alto.
– Você é uma boa pessoa, parece. – Ela disse, estava tão perto do meu rosto que eu podia contar os pelos de suas sobrancelhas. – Nós somos amigos agora? Eu te acho engraçado.
– Já erámos amigos, não? – Questionei, cruzando as mãos atrás das costas dela.
– Mas agora vamos ser amigos de verdade. – Ela sussurrou. – Eu gosto de você, Madden. E você devia ir ao banheiro ver o , ele foi vomitar. – disse e sorriu, como uma criança.

não estava no banheiro, em nenhuma das cabines e nem deitado no chão. Voltei ao bar para encontrar , perder dois bêbados em uma noite era demais.
– Ele não está lá. Temos que procurá-lo, vou tentar ligar. – Falei.
– Não, tudo bem. Eu já o vi, ele foi fazer o que você não quis àquela hora, no outro bar. – piscou e eu compreendi. – Vamos dançar, , por favor.
– Eu não sei dançar. – Disse.
– Sabe, eu vejo seus Stories. Vamos, por favor. – pedia enquanto me arrastava mais a pista.
Party Never Ends, do Alok ecoava e fazia meus pulmões tremerem. estava resplandecente, brilhava enquanto dançava. Ela parecia feliz, leve, parecia não se lembrar dos problemas ou coisa parecida. Os cabelos estavam soltos de novo e ela pulava e cantava, agora ao som de The Nights, do Avicii.
Eu só conseguia pensar em como ela não devia nunca tirar aquele sorriso do rosto. surgiu ao nosso lado, dançando junto. Não me lembrava de outro momento tão feliz e intenso quanto aquele. Éramos três amigos, dançando e aproveitando, sem se lembrar da vida do lado de fora.
– Eu vou vomitar. – anunciou pela terceira vez, mas antes de entrar no carro.
– Espera, a noite ainda não pode acabar, falta a melhor parte. – Uma descabelada, descalça e bêbada disse.
– Acho que para ele já acabou. – Falei, me referindo a .
– Cala a boca, eu estou pronto para outra. Talvez só precise dormir um pouquinho. – disse, limpando o rosto com a barra da camisa.
– Falta o pôr do sol. Não podemos ir para casa sem isso. – bateu o pé.
– Eu achei que você não fosse querer ir. – confessou.
– Não, eu quero. Quero tudo que tenho direito. – Ela disse. – .
– Que é? – respondeu, cambaleando até o carro.
– Obrigada. Obrigada por hoje. – disse e assentiu e entrou no carro.
– Para onde você quer ir? – Questionei.
– Para a praia, temos que ver o pôr do sol na praia. – Ela falou e sorriu.

Quando parei no lugar que havia indicado, tivemos que acordar que dormia profundamente depois de ter vomitado mais uma vez.
– Me diga que essa é a última parada e que depois daqui vamos para o hotel. – Pedi, apoiando o corpo de , caminhando pela areia macia e fria.
– É. É o último, eu juro. – respondeu, caminhando na nossa frente. – Esse é meu lugar favorito no mundo.
– É uma praia bonita. – Concordei.
– É mais que isso. – disse e paramos de andar e como uma fruta podre, caiu no chão.
– Eu vou dormir, que se foda. – falou e continuou deitado na areia, imóvel.
– Nossa, ele está péssimo. – Eu ri.
nunca aguentou meu ritmo. – piscou. – Lá vem ele, bem na hora. – anunciou a chegada do sol e esticou os braços.
– Feliz nascer do sol. – Brinquei e ela olhou para mim, por sobre os ombros e sorriu.
Entre as várias coisas que eu carregaria daquela noite, duas delas seriam que precisava manter o sorriso no rosto e que ela nasceu para ser iluminada pelo sol.
– Você é um amigo, . Eu gosto de você. – disse mais uma vez, me abraçando.
– Obrigada, você também é. – Sorri.
– Sabe, eu não saio assim mais, não depois que o …né? Você sabe. – Ela balançou a cabeça. – Eu sonhei com ele. – confessou.
– Com o ? – Indaguei.
– Sim. Eu sonho com ele ás vezes. Ele dizia que eu devia sair da cama e ir fazer alguma coisa, que já estava tarde. Então, eu me levantava e quando abria a porta, estava num autódromo. – disse e se abraçou. – Depois, eu pensei, mas não entendi o sonho. Então, tentaram fazer minha fila andar, me chamaram para conhecer o quarto e outras coisas mais, você sabe quem. – Ela disse sugestiva e estava certa, eu realmente sabia quem.
– Eu pensei, talvez o sonho seja sobre isso. Talvez eu devesse fazer alguma coisa, não é? Mas você apareceu e eu entendi que era um sinal, do , para eu não fazer. – suspirou, passou a mão pelos cabelos e os prendeu em um coque. – Depois o me chamou para fazer isso tudo que fizemos, quando você falou igualzinho a ele, eu pensei que era um sinal, sinal de que eu deveria ir. – Ela piscou.
– Ficamos felizes que veio, foi muito divertido. – Falei, tocando o ombro dela.
– Todos dizem que eu devia fazer isso ou aquilo. Que devia sair, que devia viajar, tudo como se nada tivesse acontecido. Mas eu não esqueci, não consigo fingir que nada aconteceu e seguir a vida. – desabafou. – As pessoas falam que ele ia querer que eu fosse feliz, que eu saísse mais. Mas e se eu não quiser ser feliz, não quiser sair? Ninguém pode saber o que o ia querer, porque ele não está mais aqui para dizer.
– Olha, para você seguir a vida, não precisa fingir que o nunca existiu. Acho que seria mais sobre seguir carregando a ferida. Ela talvez não feche nunca, mas agora faz parte de você. – Falei. – A sua vida não parou e nem vai, então você pode, se quiser, seguir a vida puxando a ferida junto. – Falei enquanto tentava levantar , para irmos embora.
. – chamou e eu me voltei para encará-la. – Obrigada.

parecia o elenco de apoio de alguma série de zumbis, cheirava a vômito e vodca, a camisa florida estava aberta, as mãos sobre o colo e o olhar vazio. Depois de ter vomitado por inteiro a lateral do camaro alugado de , tentava se manter acordado até pelo menos chegarmos ao hotel. As instalações da François- no autódromo estavam sendo desfeitas e nós dois passaríamos a última noite no mesmo hotel que François e .
A jornalista, embora um pouco melhor que , não estava em seus melhores dias. Praticamente deitada no banco traseiro, a francesa tinha os cabelos despenteados, os pés sujos de areia e também cheirava a bebida. Aparentemente o único sobrevivente daquela noite insana seria eu.
Ao chegar no hotel, eram quase seis da manhã e o movimento era tímido no saguão. estava de pé, quase roboticamente e pareceu acordar enquanto eu estacionava.
– Acho que só vamos conseguir dormir no avião, pelo que eu entendi o voo seria durante a manhã. – Comentei enquanto nós entrávamos no saguão.
– Eu não tenho condições para viajar agora, preciso dormir pelo menos três horas. – falou, procurando o celular na bolsa. – E o vai desmontar a qualquer momento.
– Eu tiro uma foto dele assim? – Perguntei, imaginando os memes que poderiam ser criados tendo como base aquela imagem.
– Ele vai te matar. – sorriu. – Mas faça sim. – Piscou. – Eu não tenho mais idade para um porre desses. Estou destruída, também e você continua pleno, com nem um fio de cabelo fora do lugar.
– Mas eu não bebi. – Falei.
– Ah, então não estou tão ruim assim. – riu e entrou no elevador.
– Eu acho que vou vomitar. – avisou.
– Por favor, não faça isso. – Pedi, beirando o desespero.
– Passou. – Ele disse depois de engolir em seco. – Alarme falso.
– François vai nos matar se perdermos o voo. – Comentei.
, querido. Não conte comigo para sair da cama antes das três da tarde, além disso, o jatinho é nosso e ele sai a hora que quisermos.
– Burguesa. – implicou segundo antes de vomitar nos nossos pés.
– Bom dia, Austrália. – Ironizei.

¹⁴ Pedro Pettigrew: Personagem do universo mágico de Harry Potter, conhecido por trair os pais de Harry.
¹⁵ Safety Car: Carro de segurança em uma corrida automobilística diferente dos que estão competindo, que tem a sua entrada em momentos críticos da corrida, como acidentes, chuva extrema, condições de pista inseguras ou qualquer motivo que tire a segurança da prova.
¹⁷ FIA: Sigla para Federação Internacional de Automobilismo.
¹⁸ FR-TR79: Bólido dirigido por William Reed, pela François- na temporada de 2019.
¹⁹Dom: Personagem de Merci Pour Les Voitures Rapides, de L.M.R..

Nota: Oie, minha gente! Como cêis tão depois desses capítulos novos? Muitas revelações, não é? Confesso que para mim, esses dois capítulos são os melhores da fic toda. Eu amei dar um pouco mais de brilho e vida para nossa querida Pp. Forças do além ter intervindo demais na vida desse povo, hein! E o que falar do jovem Stroll que já chegou causando na corrida? Será que nosso Pp e o jovem francês da Ferrari 16 serão amigos depois desse perrengue?
Dizem que comentário chama atualização, então digam aí, o que que cêis acharam desse role louco?

NEWS: Nosso querido Pp agora tem um twitter e fofoqueiro como é, adora se expor por lá. Sigam o neném no @_Mad1

Obs:. Todos lugares e estabelecimentos citados existem de verdade em Melbourne, porém não se encontram em funcionamento normal devido a pandemia de Covid-19.
Obs:. Notaram essas carinhas diferentes passeando por aqui? Se quiserem descobrir mais sobre o mecânico Dom, encontre sua oficina em Merci Pour Les Voitures Rapides e conheça sua família. Lá você também encontra nosso baby Leclerc e nossa jornalista favorita, .