Apex

Apex

Sinopse: Mesmo herdando um sobrenome de peso dentro da Fórmula 1, Gabrielle reconhece que seu maior obstáculo dentro de um monomotor milionário em qualquer circuito do mundo não será o tempo, os outros corredores ou uma penalização que possa sofrer por exceder a velocidade na área do boxe.
A maior problemática de sua carreira é, na verdade, o fato de ser mulher. A primeira, em 20 anos, a participar como piloto de um Grande Prêmio da Fórmula 1.
Com chances de reerguer uma grande escuderia para seu momento de glória, Gabrielle não vai medir esforços para mostrar que é sim capaz, que é melhor que muitos outros pilotos que desdenharam sua contratação.
Nem os textos tendenciosos de um jornalista esportivo pode abalar seu momento na elite do automobilismo.
Gênero: não-ficção, aventura
Classificação: 12 anos
Restrição: linguagem imprópria, drogas lícitas.
Beta: Rosie Dunne

Capítulos:

Capítulo Um

se acomodou dentro do protótipo, o macacão aberto no pescoço. Não fazia calor mas, depois de seis horas seguidas dentro de outro protótipo durante os testes de simulação, sentia que os cabelos em sua nuca grudavam na pele.
A sala estava cheia de pessoas andando de um lado para o outro, mexendo em computadores, nas regulagens do protótipo, em tablets ou então apenas a encarando, aguardando seu aval. Esticou os braços em direção ao volante inexistente e se imaginou segurando-o. Fechou os dedos firmes e moveu os braços. Então fez uma curva imaginária, girando o volante imaginário até quase uma volta completa.
Seu cotovelo esbarrou na lateral do carro e Jin Hwang, designer dos carros da escuderia, levantou uma sobrancelha enquanto olhava-a de cima.
– Apertado? – quis saber, as mãos apoiadas sobre o material da lateral do carro. Hwang tinha notado o desconforto da garota desde antes e sentia também a estranheza que a equipe tinha em relação à ela, a novidade. Era praticamente um sentimento palpável no ar. Deu de ombros internamente, sabendo que eles teriam de se acostumar com ela e vice-versa.
– Eu preciso de mobilidade aqui. – a mulher indicou, traçando uma linha entre os dois lados do protótipo, na altura de seu cotovelo. O homem assentiu e ela se acomodou no carro, prestando atenção aos detalhes. Percebeu o silêncio na sala, enquanto os engenheiros todos aguardavam sua resposta. Fechou os olhos, tentando se concentrar.
Sentindo a musculatura de sua perna, fez um movimento de empurrar com o peito do pé e não encontrou nada. Tentou com o outro, e o resultado foi o mesmo.
– Max é maior que eu. – abriu os olhos e os levantou para o homem ao seu lado – No carro de testes foi a mesma coisa, ele tem pernas mais compridas. Preciso que encurtem esse espaço.
Imediatamente dois engenheiros se abaixaram em frente ao protótipo semi-completo e pediram que ela repetisse o movimento de empurrar os pedais invisíveis, enquanto mediam o espaço necessário a ser removido. Jin, que tinha a pele morena e os cabelos compridos presos em um rabo de cavalo baixo na nuca, piscou pra ela com um sorriso ínfimo.
Depois de uma semana na companhia um do outro, ela notara que ele era tão tranquilo e calado quanto se supunha à primeira vista. Tinha gostado da companhia dele, e ele a tratava como um piloto qualquer, e não com o medo, como a maioria vinha fazendo. sabia que pertencia àquele lugar. Era seu por direito, tinha conquistado seu espaço ali. Não podia deixar que os olhares, comentários ou o que quer que fosse a mantivesse desconcentrada ou desatenta.
– Mais alguma coisa? – um engenheiro com um tablet branco em mãos perguntou, os óculos escorregando na ponte do nariz longo. Seu tom de voz era profissional, mas ela via a maneira com que seus olhos a encaravam, como se fosse um sacrifício trabalhar para uma mulher. Seus instintos gritaram pra que ela respondesse ao olhar, mas sua consciência foi mais rápida.
– Por ser menor que Max, vocês vão precisar alterar a altura.
– O regulamento padroniza altura dos carros. – respondeu outro, automaticamente. Ela assentiu.
– Eu sei. Não quero que altere a altura do carro. Preciso que mexa na altura interna, ou minhas pernas vão dançar aqui dentro. – ela levantou a sobrancelha e pediu que ele se aproximasse com um gesto. Quando ele deu um passo para perto de si, ela dobrou os joelhos, que se aproximaram da abertura do carro. Em uma situação normal, ela não poderia nem mesmo dobrar as pernas, quanto mais levantar os joelhos daquela forma. O engenheiro assentiu a contragosto e se afastou.
– É tudo? – Hwang perguntou, seu tom prático. Ela assentiu e se preparou para sair, então olhou novamente para a equipe de engenheiros.
– Se vocês tiverem alguma dificuldade com as especificações, devem entrar em contato com Gunther, da Prime. A Fórmula 2 fez um carro perfeito pra mim, está em exposição agora. – ela sorriu inocentemente e pulou para fora do carro, ignorando os olhares que recebeu. A arrogância da equipe da Fórmula 1 não permitia pedir ajuda a uma equipe menor, como eles consideravam a categoria 2.
– Em exposição? – questionou Jin, ao acompanhá-la para fora da sala.
– Sim. Não tem pilotos tão curtos quanto eu. – ela sorriu brilhantemente fazendo o designer balançar a cabeça de um lado para o outro, o sorriso pouco maior.
– Vá descansar. Na segunda-feira iremos tentar novamente.
– Tudo bem. Bom fim de semana, Jin.
– Pra você também, . – ele acenou ao entrar na sala ao lado da que estavam, enquanto ela seguia pelo corredor bem iluminado. Desistira de fazer o chinês chamá-la pelo apelido, mas pelo menos ele tinha aceitado a sugestão de usar seu primeiro nome no lugar do último. Aparentemente ele gostava da presença dela, e era tranquilo trabalhar com ele.
Cruzou diversos corredores diferentes e, quando estava achando que se perderia outra vez, ouviu o burburinho de vozes. Como era hora da saída para muitos funcionários, o refeitório geralmente ficava lotado. Isso porque a equipe da cozinha sempre deixava bolos ou tortas prontas ao fim do dia, assim como as grandes e variadas máquinas de café.
Dali ela sabia se direcionar para a área onde os dormitórios ficavam, mais à frente, no prédio ao lado, mas achou que um café não seria de todo ruim. Entrou e recebeu alguns olhares do pessoal que se espalhava pelas mesas ou de pé pelo salão, mas estava há duas semanas fazendo praticamente a mesma rotina e não se incomodava tanto quanto eles ao verem-na passeando de uniforme de piloto.
Foi direto para os fundos, onde as máquinas de expresso estavam dispostas em armários de inox. Colocou um copo de isopor no local indicado e então selecionou seu preferido e aguardou. Logo sentiu alguém se escorar em seu ombro, e pelo peso do braço envolvendo seu pescoço rapidamente deduziu quem era, sem ao menos olhar para o lado.
– Você treinou no meu carro hoje, né? – Max Bakker, o outro piloto principal da escuderia comentou, a voz risonha que o holandês sempre tinha. Ela riu sem levantar os olhos, alcançando o copo cheio.
– Nadei no seu carro, você quer dizer. – sorriu olhando para cima. Max era dois anos mais novo que ela, mas tinha uma estatura de um gigante, com seu 1,87. Apesar de todo o tamanho, parecia apenas um garoto de quinze anos, debochado.
achava que ele seria o primeiro a encará-la de modo diferente, já que não havia uma mulher piloto na Fórmula 1 há mais de vinte anos, mas Max a surpreendera de maneira absurda. A acolhera como um irmão, e ainda fazia de tudo para que ela se sentisse em casa.
– Foi feio assim? – ele riu, pegando o próprio café.
– Lucas precisou colocar um calço nas minhas costas pra eu poder alcançar o pedal. – comentou, provocando gargalhadas no garoto.
– Ah, isso eu queria ter visto! Mas logo, logo o seu fica pronto, e aí vai ser tranquilo. – falou, enquanto saiam do refeitório.
– Você vai penar pra me alcançar. – comentou, displicente.
– Claro que sim. – ironizou, empurrando-a de leve pelo ombro – Vai sonhando, tampinha.
– Tchau, gigante! – ela riu, atravessando o corredor em direção aos dormitórios, enquanto ele pegava o caminho contrário para a saída.
Entrou no quarto e rapidamente trocou de roupa. Mal tinha vestido seus jeans e a camiseta branca simples que usava antes quando Erik Harker empurrou a porta aberta sem ao menos bater. Ele era alto, mais alto que Max, e quase batia a cabeça careca no topo do batente. A pele negra contrastava drasticamente com o sorriso branco que parecia sempre colado em seu rosto.
o encarou, o cenho franzido.
– Ficou maluco?
– Você está atrasada. – falou, pegando a mochila dela por uma alça e puxando o zíper com a outra para fechá-la – Vamos.
– Atrasada para o que, Erik? – quis saber, pegando o casaco do uniforme, o celular em cima da cama e o copo de café pela metade antes de avançar pelo corredor atrás do agente. Fazendo malabarismos para conseguir vestir o casaco e não derramar café em lugar nenhum, observou o homem andar elegantemente à sua frente, o terno de risca e os sapatos brilhantes. Quando conseguiu, enfiou a mão livre no abrigo azul com detalhes em vermelho, as cores oficiais da Ehrenberg Racing Team, e conseguiu ritmar os próprios passos com os do homem, enquanto finalizava sua única refeição em horas.
– Para a sua apresentação.
– O que?
– Meu amor, não tenho tempo para te explicar. A doida da Coordenadora de RP quer te maquiar ainda, então estamos com um tempo bem curto. – falou, andando na frente de novo. franziu ainda mais o cenho, confusa. Então bateu o pé.
– Erik! – ele se virou para olhá-la e parou, ao notar que ela havia parado alguns passos atrás. – O que está acontecendo?
Ele suspirou e acenou para que ela o acompanhasse, então começou a falar.
– Passei as duas últimas horas na companhia extremamente agradável do Diretor-Geral, Christopher Phillips. – disse no tom irônico que preenchia suas palavras em 90% do tempo – Você sabe que eles mantiveram segredo na sua contratação por medo de represália pelo fato de você ser mulher e toda essa baboseira medieval e decadente. – falou, virando um corredor.
– Sim, Markus comentou comigo isso mais cedo. – respondeu, acenando. O Chefe de Equipe achava aquilo ridículo e compartilhou sua opinião com ela quando a levou para a sala de simulação naquela manhã.
– Certo. Von Trapp estava lá mesmo. – gesticulou com as mãos, a mochila da garota presa no ombro do agente – Enfim. Phillips começou a querer enrolar e adiar a apresentação, mas eu e o chefe o pressionamos. É idiota manter isso mais tempo, a Prime quer contratar outro piloto no seu lugar e não pode fazer enquanto não tiver “permissão” para demiti-la oficialmente. – fez aspas com os dedos.
– Você sabe quem vão colocar no meu lugar? – pediu, a curiosidade falando mais alto.
– Parece que é Cavajaras. O garoto é bom, promissor. Não sei se estará à altura da antecessora, e isso são palavras de Gunther. – sorriu para a mais nova – Enfim, voltando. Nessa hora da reunião em que eu queria pular no pescoço daquele engomadinho, Alejandro Gutiérrez fez sua entrada triunfal.
– O Diretor de Marketing? – tentou se lembrar, mas não tinha certeza.
– Ele mesmo. – Erik olhou-a de lado com um sorriso largo – Além de lindo ele é uma pessoa muito efetiva. Chegou com a solução: apresentamos você hoje seguindo exatamente o script que ele montou.
– Hoje? E Phillips? – a francesa sorriu, imaginando o Diretor-Geral, que de cara não tinha gostado dela, sendo conduzido belamente pelo Diretor de Marketing e seu agente barra assessor.
– Adorou cada minuto. – ironizou – Claro que ele odiou, imagina. Mas não tinha o que fazer, se estendesse demais essa situação tinha a possibilidade da Prime desistir do sigilo e abrir a nova contratação, e isso não seria bom pra ERT em termos de marketing e imagem. Então nós o empurramos ao limite, e ele foi obrigado a ceder.
– Espero que ele não resolva ser ainda mais desagradável do que já é. – comentou a garota, seguindo o homem para fora do prédio. Estavam a caminho da ala administrativa, e ela conseguia ver ao longe, no estacionamento à sua direita, a entrada de dois carros de empresas de comunicação diferentes. Erik apertou o passo, aparentemente notando o mesmo.
– Ele é desagradável naturalmente, você sabe, mas seria bom se manter longe do caminho dele por alguns dias. Talvez semanas.
– Anotado. – respondeu, olhando ao redor. O prédio principal era uma atração por si só, e tinha entrado naquela área apenas no primeiro dia, quando foi recebida por Markus, o homem que tinha enfrentado o chefe e o conselho para contratá-la.
O saguão na parte norte era enorme, com uma altura de dois andares livres, e a parede externa toda em vidro, o que tornava a exposição dos carros mais antigos da escuderia uma obra de arte. Os modelos eram banhados de luz solar filtrada pelas janelas, e também pela claraboia no teto, que abrangia parte do saguão. Erik entrara com ela pelos fundos, que ligava o prédio principal ao resto do complexo, mas rapidamente ela percebeu que ele a levava diretamente até a parte frontal.
– A apresentação vai ser no saguão?
– Sim. Vão haver jornalistas de fora, alguns, chamados de última hora. Vieram como varejeiras em carne crua, mas assim que precisávamos. Eles foram selecionados, então fique tranquila.
Ele atravessou um largo e bem iluminado corredor que ela sabia seguir direto ao saguão, mas empurrou uma porta de madeira simples no meio do caminho até o destino final. Ela não conhecia a sala, mas era um espaço com cadeiras escolares e um quadro branco na parede dos fundos. Antes que ela pudesse perguntar, notou que havia uma mulher perto da mesa principal, mais larga, espalhando alguns produtos de maquiagem, enquanto um casal conversava em tom baixo noutro canto. Assim que Erik entrou e deu passagem para ela, o casal os encarou e ambos sorriram.
– Erik, foi rápido.
– Você pediu urgência, Annelise. – ele sorriu e se virou para a piloto. – , essa é Annelise Küllsmann, Relações Públicas da ERT, e Alejandro Gutiérrez, o Diretor de Marketing.
– Oi querida. – Annelise se aproximou e lhe deu dois beijos no rosto. – Tudo bem? É um prazer.
– Oi. – a francesa sorriu – Você não é inglesa, é?
– Não! – as duas riram – Eu sou austríaca, mas fui criada na Austrália. Você reparou meus modos anti-ingleses, né? – piscou, extrovertida. Alejandro sacudiu a cabeça, estendendo a mão para a piloto.
– É um prazer, . E não acredite nessa farsante, ela adora a Inglaterra. – ele piscou – Eu mesmo nasci no Panamá, mas Londres é meu lar.
– Você não mora em Londres, bobão! – eles riram e Erik balançou a cabeça.
– Chega, vocês estão confundindo minha cliente.
– Ai, desculpa. – Annelise riu, pegando-a pela mão. – , essa é Maya, ela vai maquiar você hoje pra apresentação. Maya, essa é sua tela. Aproveite, mas não abuse do tempo, por favor.
– Pode se sentar. – a maquiadora sorriu, indicando uma cadeira estofada de rodinhas. Ela tinha os cabelos presos, mas podia notar as mechas rosadas em meio aos fios escuros. Sentou-se, apoiou a nuca onde ela arrumara e fechou os olhos.
Pelos vinte minutos seguintes ela permaneceu parada, se segurando para não rir das bobagens que ouvia dos três que permaneceram todo o tempo falando sem parar. Quando Maya disse que estava pronta, seu pescoço estava começando a doer, um reflexo da simulação em um carro que não fora feito pra ela durante horas.
– Linda. – Annelise sorriu, os dentes brancos com uma pequena separação charmosa entre os dois da frente. Seus cabelos louros estavam presos eficientemente em um rabo de cavalo longo, que sacudia de um lado para o outro conforme se movia.
Como se tivessem combinado, os homens abriram a porta para as duas e as escoltaram para fora. Conforme caminhavam pelo restante do corredor, Annelise conversava com ela sobre o que a esperava.
– Chamamos cinco empresas de comunicação, e cada uma mandou uma equipe. Além deles, temos nosso fotógrafo oficial e o assessor, Joe Stamos. Eu vou conduzir a apresentação, e prometo que vai ser bem simples. Vamos anunciar sua contratação, e Joe vai incentivar algumas perguntas bem básicas pra introduzir você na escuderia, sobre suas expectativas, os treinos até agora, etc. Então vamos abrir para os repórteres. Você tem alguma dúvida?
– Nenhuma. – ela sorriu e então franziu o cenho – Vão questionar sobre meu pai.
– Óbvio que sim. – Erik comentou, caminhando atrás delas.
– Sim, vão. – concordou Annelise – Isso é um problema?
– Não, se não voltarem com a ladainha da dúvida.
– Mas há tempos não duvidam sobre o fato de você ser filha de Leblanc, . Tenho acompanhado suas entrevistas. – Alejandro respondeu, sucinto.
– Eu sei. Mas vocês devem concordar que eles não vão perder a oportunidade de trazer tudo isso de volta agora que eu entrei na mesma categoria em que meu pai fez história.
O quarteto permaneceu em silêncio até se aproximarem das pesadas portas de vidro fumê que se abriam para o saguão, mas antes de puxar as maçanetas, Annelise se virou para olhá-la.
– Eu assisti e li algumas coisas que achei bem cruel quando começaram a questionar isso, mas tem uma coisa que a gente aprende lidando com a mídia tão intimamente. Você é mais do que qualquer um falar sobre você, e você sabe quem você é. Então responda às perguntas pertinentes, finja que não ouviu as impertinentes e sorria.
– Responda da forma delicada que você geralmente é. – Erik disse em tom debochado. sorriu para o agente e assentiu.
– Ok. Vamos nessa. – Annelise sorriu e puxou as portas. Alguns passos dali, havia um mini estúdio montado. Joe Stamos, um homem magro e pequeno de trejeitos hiperativos, conversava com alguns jornalistas distraídos o suficiente para não ouvi-los entrar.
Enquanto Annelise a levava em direção aos holofotes montados entre dois modelos de carros do ano anterior, Alejandro se Erik se posicionavam no limiar da montagem. ainda não tinha entendido o posicionamento dos carros quando os jornalistas foram alertados pelo barulho dos saltos da coordenadora de relações públicas se aproximando.
Elas mal tiveram tempo de se posicionar antes que os flashes estourassem sobre elas. , acostumada com aquele tipo de abordagem principalmente no paddock, sorriu para os repórteres e então realmente olhou para os carros. Os pneus macios estavam virados para dentro, apontando um para o outro, e compreendeu o motivo. Os pneus slick macios e novos estavam prontos para serem usados como bancos. Apoiou-se em um deles e acenou de leve. Annelise parou ao lado de Joe, mas antes que eles se manifestassem para iniciar a apresentação oficial, outra voz se pronunciou.
– Boa noite, pessoal. Boa noite. – Christopher Phillips se aproximava, o terno bem cortado e ajustado em seu corpo. Ele parou ao lado de e então sorriu para a mulher, virando-se para os repórteres em seguida. – É um prazer receber vocês aqui hoje para apresentá-los ao nosso melhor reforço.
Acomodando-se na roda do carro ao lado da garota, ele abriu um botão do paletó e cruzou a perna sobre o joelho. Annelise e Joe, notando a intenção do presidente, deram passos para fora do círculo de luz, deixando com ele a condução da apresentação da mulher.
– A Ehrenberg Racing Team tem o imenso prazer de anunciar a contratação de Roux Leblanc como piloto principal, junto de Max Bakker. Temos certeza de que o desempenho dela vem sendo mais do que impecável e tem apenas a agregar em nossa equipe.
O brilho dos flashes continuava estourando pelo ambiente, mas a francesa conseguia perceber diversos pontinhos vermelhos entre os cinegrafistas, confirmando as suspeitas de que aquilo estava sendo transmitido ao vivo. Sorriu para o diretor, mesmo que ele tenha sido um dos que se apresentou receoso e contra sua contratação quando Markus propos.
– Senhor Phillips! – um dos repórteres chamou no tempo que o diretor levou para respirar entre as frases. Ele ergueu os olhos, aparentemente tranquilo pela interrupção.
– Sim?
– O que levou a ERT contratar uma mulher como piloto de Fórmula 1?
sorriu à pergunta, se inclinando levemente para frente. Adoraria responder aquele tipo de coisa de uma maneira bem ácida, mas não seria produtivo para ninguém e ela quase podia sentir o olhar de Erik queimando sobre si, alertando-a sobre a necessidade de se acalmar.
– Ótimos resultados e uma trajetória praticamente impecável. Vocês viram o fechamento da temporada que deu a vitória para a Prime na Fórmula 2. – explicou, abrindo os braços e sorrindo um sorriso ofuscante.
. – um jovem acenou quando o diretor ficou em silêncio outra vez, e ela se virou para ele. O rapaz devia ter mais ou menos a mesma idade que ela, os cabelos castanhos enrolados e os olhos claros. Usava uma camiseta preta e havia a inscrição do veículo de comunicação ao qual pertencia bordado sobre o peito, mas a jaqueta que usava não permitia que ela identificasse qual era. Acenou para que ele fizesse a pergunta. – Você acha que a influência do seu pai te ajudou a chegar onde está agora?
A mulher sorriu mais amplamente, mesmo que suas mãos formigassem para lhe mostrar o dedo do meio.
– Eu acho que não. – sorriu inocente, respondendo exatamente o que ele havia perguntado. – Mas se você quiser mesmo insistir nesse assunto, eu fui criada pelos meus avós e andava de kart antes mesmo de conhecer Joseph Leblanc.
Os repórteres permaneceram alguns segundos em silêncio, como se engolindo a resposta educadamente cortante que a mulher dera. O Diretor-Geral a olhou de lado antes de acenar para o próximo repórter.
As perguntas continuaram por algum tempo, abrangendo temas profissionais como a expectativa que a mulher tinha na escuderia e como a ERT pretendia se reerguer depois da temporada ruim que tivera no ano anterior. O problema que a escuderia enfrentava não era novidade pra ninguém, muito menos para , mas a mulher sentia que aquele tipo de abordagem era quase um insulto ao esforço que a equipe sempre tinha em dar o melhor.
Depois de conhecer Christopher Phillips ela entendia a reclamação de algumas pessoas sobre a difícil gestão, mas entendia que os problemas da empresa não eram culpa dele. Alguns anos atrás, a ascensão da escuderia com o piloto Mike Olin parecia boa demais pra ser verdade, e o acidente fatal que marcou a pista de Melbourne quatro anos antes fez com que a escuderia perdesse estabilidade interna, e consequentemente o crédito na praça. O nome de Olin ainda era uma espécie de tabu nesse quesito.
A queda fora rápida, e assim como um castelo de cartas que demora a ser montado, o retorno da ERT ao topo estava em processamento. A contratação do novo queridinho do automobilismo, Max Bakker, na temporada anterior, tinha ajudado, mas parecia ainda não ser o suficiente. Conforme Phillips falava sobre as intenções e o trabalho da equipe para aquela temporada, entendia que eles usariam também da popularidade, fosse ela positiva ou negativa, da contratação dela para ajudar a promoção da empresa.
Ela estava pronta para ajudar no que fosse necessário, desde que não a diminuíssem ou a usassem apenas para imagem. Estava lá para correr, e era isso que iria fazer. Tivera uma chance maravilhosa com a Prime, e usou de tudo ao seu dispor para devolver cada gota de esforço que fora empregado nela durante o tempo que defendeu as cores vermelho e verde. Se a ERT cumprisse o que prometera, faria ainda mais por ela, porque era aquilo que amava.
Continuou com o sorriso no rosto e respondendo as perguntas conforme elas apareciam. Sentia os músculos da face protestarem com o passar do tempo, e a rigidez tomando conta de seu pescoço e ombros, mas sabia muito bem trabalhar sobre pressão e não se abalou.
Leblanc não fora criada para a mídia, mas nascera para o automobilismo, e aprendera a aceitar tudo o que vinha com ele.

Capítulo Dois

morava na cobertura duplex de um edifício de seis andares nos arredores do centro da cidade. Por fora ele parecia mais uma típica construção inglesa com tijolos aparentes e sacada de ferro entalhado, item raro em construções mais novas. Mas por dentro era pura tecnologia e luxuosidade, mesmo que em escala menor se comparado aos prédios de grandes apartamentos no Centro de Milton Keynes. Cada andar era isolado para o apartamento correspondente, e o elevador só se movia mediante inserção de um código. Ela se mudara recentemente e não conhecia nenhum vizinho, mas pelos carros na garagem – duas vagas por apartamento, quase todas preenchidas – ninguém passava fome.
A mulher entrou em casa sentindo o cansaço atingi-la como a música da Miley Cyrus, Wrecking Ball. Seus ombros doíam pela pressão e nervosismo que ela sentira durante toda a apresentação. As mãos e os dedos doíam ainda pelos testes realizados durante a manhã, o pescoço doía pelos músculos que ela mantivera retesados durante a entrevista.
Subiu direto para seu quarto no segundo andar do apartamento, que era tomado por dois cômodos: a suíte principal e uma biblioteca enorme. No momento ela estava vazia, os livros da mulher ainda esperando que ela resolvesse o impasse da mudança na Itália.
nascera em Limoges, na França, e passara os primeiros anos de vida tranquila por lá junto dos avós maternos. Por volta dos quatro anos de idade, eles decidiram se mudar para Asti, uma cidade pequena uma hora de distância de Turim, na Itália. Assim, se considerava uma italiana de coração, já que sempre adorara os costumes do país, mas a França nunca perderia o espaço de amor em sua vida. Quando teve idade o suficiente para iniciar carreira profissional no automobilismo, seu avô não tinha mais pique para acompanhá-la como fizera inicialmente, então a garota resolvera se mudar para dar paz ao casal de idosos. Mesmo assim não fora pra longe. Desde seus 16 anos morava sozinha em um apartamento pequeno no Centro de Turim.
Sentada na cama de casal enorme do quarto principal, observou a parede com janela de teto ao chão diretamente à frente, dando-lhe uma vasta visão da cidade. Muitos anos se passaram desde que estivera tanto tempo longe dos avós daquela forma, e a saudade apertava o peito cada vez mais. Desde que se entendia por gente tinha sido ensinada sobre sua mãe, que morrera no parto de hemorragia, sobre quem era o pai e como a relação dela com o esporte era íntima. Os avós a criaram com tanto amor e carinho que ela sentia abandonando-os ao se mudar para a Inglaterra mesmo com o protesto deles sobre isso.
Milton Keynes ficava situada à noroeste de Londres, cerca de duas horas de distância da capital, e era uma típica cidade inglesa com a única “atração” sendo a sede da escuderia de renome da Fórmula 1, a ERT. Sua mudança pra lá fora discreta, e ela ainda não tivera tempo de terminar de trazer o resto das coisas e devolver o apartamento em Turim. Prestes a completar 25 anos, sentia o peso da responsabilidade como praticamente nunca antes.
Seu celular vibrou e ela tirou o aparelho da mochila, pensando que deveria tomar um banho e procurar algo para comer. Na tela de seis polegadas havia uma notificação de mensagem não lida e ao desbloquear o dispositivo, o aplicativo de mensagens se abriu junto.

Foi espetacular. Quero te dar um abraço, vem jantar? Podemos pedir pizza.
Ela sorriu e rapidamente digitou a resposta antes de ir para o banho.

Quero uma de lombo só pra mim. Chego aí em vinte minutos.
♦♦
– Vamos, vamos. – a garota murmurou, batendo os dedos no volante. Parada no semáforo brilhando vermelho, conseguia ver a movimentação em frente ao hotel, situado no centro do quarteirão seguinte. Suspirou, acionando a seta para entrar à direita. Torcia para que os dois homens com máquinas fotográficas presas pela correia no pescoço que fumavam na esquina do lado de lá da via não prestassem atenção no carro dela. – Por favor.
Assim que o brilho verde cobriu o painel do carro alugado ela pisou no acelerador com calma e girou o volante para a direita, entrando na rua sem levantar suspeitas dos dois fotógrafos. Devia ter pensado que eles rapidamente saberiam que seu pai estava hospedado ali. Revirou os olhos enquanto tentava encontrar a entrada de funcionários. Passou por outras duas pessoas que tinham cara de repórter antes de notar o portão alto de ferro sem identificação nenhuma além de um interfone. Estacionou o carro e vestiu o moletom.
– Por que não marcamos isso no meu apartamento? – perguntou pra si, enquanto puxava o capuz sobre os cabelos, escondendo-os completamente. Abriu a porta e sem olhar para os lados se aproximou do interfone.
Depois que o interlocutor se identificou como chefe da manutenção do hotel ela explicou o problema em voz baixa e, graças ao aviso que seu pai tinha dado, rapidamente foi atendida. Ela voltou para o carro e bateu a porta, voltando a se aquecer. O portão não era eletrônico, e o homem afirmou que alguém estava indo até lá para abrir para ela.
Aguardou em silêncio, com o carro ligado. Estava apreensiva porque notara a movimentação da dupla com cara de jornalista que cruzara no meio da quadra. Ambos tinham acompanhado sua movimentação perto do portão e agora começavam a caminhada lenta e desconfiada em sua direção. Se o funcionário não se apressasse em abrir aquele portão, ela precisaria sair dali e talvez fazer a volta na quadra. Tudo o que não queria era ser abordada na entrada do hotel onde o pai estava hospedado àquela semana.
Eles até que tinham sido rápidos em triangular todas as informações. Menos de uma hora do fim da sua apresentação, após ser liberada da sede da ERT, um fã do automobilismo postou no Twitter que Luísa Ramos Leblanc tinha postado uma foto temporária onde tinha aparecido uma parcial da logo do hotel em um roupão. Rapidamente os meios de comunicação utilizaram daquela informação para comprovar depois de uma ligação que a família Leblanc estava hospedada no melhor cinco estrelas de Milton Keynes.
Suspirando, tinha sido informada sobre o fato tanto por Erik, logo ao sair de casa, e então por seu pai, que ligara pra ela quando estava no carro a caminho do local. Ele fora avisado pela recepção que a frente do edifício estava tomada de jornalistas, e então o ex-piloto alertara os funcionários da chegada da filha mais velha, motivo inicial de toda aquela aglomeração.
estava prestes a tirar o carro dali, vendo que os dois homens estavam mais perto do que o recomendado, quando o portão abriu uma fresta e um jovem de camisa branca sem insígnia apareceu pela fresta. Ele vasculhou a rua com os olhos e a encontrou no carro acenando em seguida. Sem demora ele empurrou o pesado portão de metal para o lado e a francesa não perdeu tempo, acelerando o carro para dentro do pátio dos funcionários. Enquanto o rapaz empurrava o portão fechado novamente, bloqueando o lugar da vista dos dois homens que correram ao notar a intenção da jovem, notava que aquele era o estacionamento interno do hotel, assim como a área de carga e descarga e depósito. Estacionou o carro em uma vaga longe da entrada e desceu. O jovem aguardava perto de uma entrada discreta nos fundos da construção.
– Senhorita Leblanc. Por aqui, por favor.
– Obrigada por abrir. – comentou, recebendo um aceno curto do garoto. Extremamente profissional, ele a conduziu pelos corredores de serviço do hotel de maneira ágil e rápida, levando-a até os elevadores de serviço, que ficavam fora da vista da entrada principal. Depois de lhe confirmar o andar e número do quarto para onde ela fora chamada, se afastou com um meneio de cabeça e um meio sorriso.
A mulher aguardou o elevador chegar levemente impaciente. Estava atrás das paredes de divisória que levava até a cozinha, perto do salão do restaurante e a meio saguão de distância das portas de entrada, mas se sentia observada. Encarou os números acima da porta que diminuíam conforme se aproximavam no térreo e sentiu a espinha formigar. Virou-se levemente para a direita e notou que havia um elevador de serviço idêntico ao que estava esperando do outro lado do salão. Devia servir para agilizar o trabalho dos funcionários, imaginou.
Na mesma posição que ela, em frente ao outro elevador de serviço, havia um homem. Ele estava de lado como ela, uma jaqueta de couro e um moletom por baixo, o capuz jogado sobre a cabeça. Ela podia apenas ver alguns cachos escuros que escapavam da blusa, as mãos guardadas nos bolsos da jaqueta. Suspirou, voltando seus olhos para as portas de aço. Precisava relaxar, estava começando a ficar paranoica.
Quando as portas se abriram, ela lançou um olhar de relance para o rapaz do outro lado. Estava com meio corpo dentro do elevador quando os olhos dele se viraram para ela, alertados pelo barulho que a máquina fizera. Os olhos claros compuseram a imagem dos cachos e ela viu no rapaz o jornalista que lhe fizera uma pergunta capciosa na apresentação mais cedo. Arregalando levemente os olhos, ela apertou o botão para fechar as portas diversas vezes, temendo que o jovem viesse até ali.
Aliviada, assistiu as portas fecharem e piscou longamente, expulsando o ar dos pulmões.
– Deus, estou ficando maluca. – voltou a abri-los e apertou o botão do último andar. Sozinha no elevador, sentindo o movimento ascendente, começou a achar que estava mesmo paranóica. – Não pode ser a mesma pessoa, pode?

♦♦
A mulher não teve cerimônias ao empurrar a porta do apartamento do hotel no décimo quarto andar. Jantara ali nos últimos três dias seguidos, e se sentia em casa o suficiente, acostumada como estava aos hotéis.
– Cheguei! – anunciou ao trancar a porta atrás de si, pendurando a bolsa no gancho perto do aparador. Os passos rápidos precederam a entrada da jovem loira de 15 anos, um sorriso estampado no rosto.
! – a menina se jogou contra a mais velha, empolgada, e foi envolvida em um abraço terno. Luísa Ramos Leblanc era uma cópia perfeita da mãe, não tendo nada além da altura do pai. De meias, se separou do abraço da irmã e a puxou pelo corredor até a sala que dividia os dois quartos do apartamento. A suíte presidencial daquele hotel era um mini apartamento com uma cozinha simples, dois quartos, uma sala e uma sacada com vista para a cidade.
– Chegou na hora das pizzas! – outra voz a recebeu, e antes que pudesse procurar pela dona, as mãos pequenas de Felícia abraçaram sua cintura.
Segurou as mãos da meia-irmã mais nova e a puxou para a sua frente, fazendo-a rir ao deslizar pelo piso. Facilmente ergueu o corpo pequeno da menina de 12 anos e a apertou em um abraço.
– Oi Felix.
– Oi . – ela riu do apelido ao ser colocada no chão. Luísa observava sorrindo.
– Você eu ainda consigo erguer. Você já não posso mais há alguns anos. – falou, apontando para a mais velha, que revirou os olhos rindo. Juntas, as irmãs puxaram a mais velha até a pequena cozinha do apartamento.
Denise estava no meio do cômodo tirando a tampa da caixa de uma das pizzas dispostas em cima do balcão de granito preto. A brasileira era ex-modelo e fotógrafa, e tinha conhecido Joseph Leblanc antes mesmo de nascer. O primeiro encontro aconteceu quando Joe ainda namorava com Janelle, sua primeira esposa. Era o fim de semana do GP de Interlagos, no Brasil, e Denise estava trabalhando como modelo, passeando com as colegas pelo paddock antes da prova. Ela não estava trabalhando com a escuderia dele, então ele a viu apenas de longe, mas se encantou pela beleza da mulher.
Mesmo que adorasse ouvir a história do casal por todo aquele histórico de olhares sem compromisso, sabia que a vida do pai ao conhecer Denise se entrelaçava com a época em que ele também conheceu sua mãe e a engravidou, mesmo sem ter conhecimento desse fato até completar quatro anos.
É claro que não era culpa dele, a própria mãe decidira manter o fato em silêncio, voltando a morar com os pais durante a gestação, em Limoges. A vida amorosa de Joe Leblanc sempre fora conturbada, sempre estivera praticamente exposta em todos os tabloides que venderam muito à suas custas, e Amelie Anne Roux não queria aquilo para si nem para a criança que nasceria fruto daquela aventura.
O caso dos dois acontecera meses depois que ele conhecera Denise. Depois de uma briga fotografada por paparazzis entre ele e Janelle, o namoro estava aparentemente acabado. No curto tempo de férias que os pilotos tinham no meio da temporada, ele fora se refugiar em Montreal, no Canadá, na casa de um amigo. Lá ele conhecera Amelie, que era chef em um restaurante renomado da cidade.
Durante o tempo que passaram juntos, ambos sabiam que era uma aventura curta, rápida e intensa. O que Amelie não esperava era engravidar daquela aventura. Joe tinha ido há muito quando a mulher descobriu que teria um filho, e poucos dias depois os tabloides do mundo todo anunciou não só o namoro reatado, mas como o pedido de noivado de Joseph para Janelle, durante um jantar com as famílias de ambos em Paris.
Reconhecendo sua situação como um acaso, ela decidiu guardar aquilo para si do que arranjar problemas desnecessários. Então se demitiu do restaurante, juntou suas coisas e voltou para a terra natal. Mesmo não concordando com o fato, os pais a aceitaram de braços abertos. A gravidez foi levada adiante e Amelie não poderia estar mais feliz.
cansara de ver fotos que seus avós tiraram da mãe naquela época, a barriga que crescia parecia acompanhar o tamanho da felicidade que Amelie estampava em um sorriso. Ela parecia mesmo radiante, e havia diversos registros de quando ela descobrira que seria uma menina. Sua avó, Helena, sempre contava o quão feliz a mãe estava, planejando todo o futuro da garota sem nem ao menos vê-la ainda.
Os problemas aconteceram uma semana antes da data marcada para o parto. Amelie teve um sangramento após tropeçar dentro de casa e bater a barriga na mesa de madeira da sala de jantar. A criança estava formada, mas o sangramento não fora percebido de primeira. Durante aquela semana a mulher teve vários episódios de náuseas até a mãe bater o pé para levá-la ao hospital.
O parto foi realizado poucas horas depois, numa tentativa de salvar a mãe que estava entrando em colapso com a perda de sangue. Os médicos tentaram de tudo para salvá-la, mas o estágio estava avançado e Amelie faleceu na mesa de cirurgia sem ao menos ter visto a filha.
Helena e Frank ficaram devastados com a perda da única filha de forma precoce, mas depositaram todo o amor do mundo sobre a neta, criada num laço de amor irreparável. Durante esse tempo, descobriram que o casamento entre Joseph e Janelle fora arranjado as pressas após a mulher ter engravidado, e Patrick, filho do casal, nascera dois meses depois de .
Denise também acompanhara aquela novela, e leu pelos tabloides mundo a fora sobre todas as brigas que se sucederam o nascimento do garoto. Não sabendo sobre a existência de , assim como o resto do mundo, ela percebeu que logo a notícia de um divórcio litigioso e longo seria capa das revistas de fofocas.
Mas, mesmo com toda a animosidade dentro de casa, o casal se manteve junto durante os anos seguintes. Patrick cresceu a cara do pai, mas assistia brigas quase diárias. Quando ele – e – estavam prestes a completar três anos, Helena entrou em contato. De primeira Joe achou que fosse trote, uma mentira enorme sobre um caso do passado. Mas então a mulher chorou ao telefone ao dizer que a filha estava morta, e Joe sabia que as lágrimas de uma mãe eram coisas poderosas.
Na semana seguinte comprou uma passagem de avião e discretamente visitou a família em Limoges. Mal colocou os olhos na pequena francesa e teve certeza da paternidade da menina. tinha os cabelos pretos e a delicadeza da mãe, mas desde o temperamento, a cor dos olhos, até os trejeitos eram todos do pai. Não tinha como ele negar. A menina era uma cópia sua, inclusive ostentando a marca com o formato do Texas que ele tinha no pescoço, estampado na parte interna no braço da criança, com o mesmo exato formato.
Mesmo assim, ele sentou-se com o casal e ouviu toda a história. Frank, que tinha sido contra o fato dele não saber de nada durante toda a gestação, tinha recebido o então piloto com aversão, mas a lembrança da filha derreteu seu coração, e ele precisou segurar a neta em seus braços para se acalmar. Joseph ouviu tudo com atenção e em momento algum questionou ou duvidou da história que ouvia.
Depois de colocar os olhos em , era impossível duvidar de qualquer coisa.
Mesmo assim, Helena insistiu para que fosse feito o exame de DNA, assim ninguém poderia questionar. As amostras foram colhidas naquele mesmo dia, e na semana seguinte o resultado confirmando a paternidade estava em mãos. Desse dia em diante descobriu como era ter um pai presente. Joe mantinha a discrição, não querendo expor o casal de idosos e sua própria filha à mídia, sabendo que o burburinho seria enorme pela diferença de dois meses entre ela e Patrick, então suas idas para Limoges eram sempre discretas e, infelizmente, curtas.
Janelle não gostou nada da notícia. Soube de tudo assim que Joe retornou da primeira visita, e a partir dali se tornou outra pessoa. O clima que estava esfriando entre o casal se tornou praticamente insuportável. Meses depois, quando ele sugeriu trazer para passar as férias com eles para iniciar a introdução dela à mídia, que teria de acontecer uma hora ou outra, Jane surtou. Disse ao homem que não admitiria uma criança bastarda em sua casa – e o motivo de praticamente todos os veículos de comunicação adotarem aquele apelido quando a história explodiu para a mídia era culpa dela – e que se ele a trouxesse, ela iria embora com Patrick no mesmo segundo.
Joseph não quis que as coisas acontecessem daquela forma, mas de qualquer forma Jane o deixou alguns meses mais tarde com o divórcio assinado, levando o filho de volta para a casa dos pais em Marselha. Denise contou uma vez que foi horrível ler sobre o divórcio deles nas revistas, já que o caso culminou com a descoberta de vivendo de maneira simples com os avós no interior da França, e além de ser acusado de ser um mau marido, Joe foi chamado de pai irresponsável e de traidor.
Em seguida a família resolver ir para Asti e as visitas ficaram mais esporádicas, mas Joe nunca deixou de ligar para saber da filha e visitava a menina com regularidade entre as corridas e os compromissos de patrocinadores. Foi mais ou menos nessa época que reencontrou Denise na última corrida da temporada, em Abu Dhabi. Ela estava de férias com os amigos e aceitou jantar com ele naquela noite.
O que se seguiu foi uma sucessão de encontros displicentes até surgir o convite para um fim de semana com ele em Le Mans, onde Joe sempre manteve uma casa por adorar a cidade, e onde agora o casal estava oficialmente estabelecido.
Nesse fim de semana foi oficializado o namoro, e o casamento veio quatro anos depois. Com pouco mais de um ano de casados Luísa fora concebida, e então Joe se aposentou. Tinha perdido grande parte da infância de Patrick pela vida agitada, e depois quase que perdido todo o crescimento dele, já que Jane guardava rancor e sempre que podia o impedia de ver o filho. Com o passar dos anos, o próprio Patrick, incentivado pela mãe, pediu que o pai parasse de visitá-lo e de tentar contato, se afastando definitivamente. Joe sofreu demais com tudo aquilo, e Denise assistiu ao desenrolar das coisas de coração partido por ele. Com isso em mente, ele se recusava a deixar que Felícia crescesse sem o pai presente, e jurou que daria tudo o que pudesse para as filhas.
Por conta disso, Denise era presente na vida de como uma verdadeira mãe. Ela a ajudou em todos os aspectos, desde morar sozinha em uma cidade movimentada até dicas de automaquiagem, então a francesa tinha um apreço e um amor enorme pela brasileira de sorriso fácil e abraços acolhedores.
– Pizza de lombo, sua lombriguenta. – Denise sorriu para a mulher, oferecendo um braço. sorriu de volta e se aproximou, sendo envolvida pela madrasta. Recebeu um beijo na bochecha ao se afastar. – Você estava linda hoje.
– Ei. – ela estreitou os olhos. – Eu sou linda.
– Humilde. – a madrasta murmurou, ao mesmo tempo que ouviram a voz do patriarca.
– Linda e talentosa. – Joe riu ao se aproximar pelas costas – Puxou ao pai.
– Nossa, velho, como você é humilde. – se virou sorrindo e encontrou aquele par de olhos de quem herdara o acinzentado, aquele sorriso pequeno que formavam leves rugas ao redor dos olhos. Ele negou com a cabeça e a abraçou, dando um beijo no topo dos cabelos da filha.
– Extremamente humilde. Mas vocês devem admitir que minhas filhas são as mais lindas e talentosas. – sorriu, apertando-a em seus braços, ouvindo o riso das mais novas.
Como uma grande família feliz eles organizaram a mesa na ante sala e levaram as caixas de pizzas abertas para lá, a fim de se sentarem juntos. Felícia, que tinha uma admiração enorme pela irmã mais velha, se sentou ao lado dela, deixando entre a mais nova e o pai. Os braços se cruzaram sobre a mesa enquanto as mulheres se serviam e Joe observava.
Tinha gosto quando reunia a família daquela forma. Sempre que assistia a mesa cheia daquela forma sentia o coração pesado pela falta que Patrick sempre representaria em sua vida. Mas, ao mesmo tempo, parecia extasiado demais com aquilo.
Quando Jane engravidou ele se sentiu chocado sim, não esperava por aquilo principalmente porque estiveram separados por um tempo, mas então a sensação de ser responsável por um ser tão pequeno e acompanhar todos os avanços dele mesmo ainda dentro da barriga era indispensável.
Então, a descoberta de foi um baque enorme, uma descarga elétrica num momento em que se sentia entorpecido pelos problemas que enfrentava no casamento. Era engraçado como se lembrava pouco da mãe da menina antes de conhecê-la, mas acompanhando o amadurecimento da filha mais velha conseguia ver Amelie em cada uma de suas nuances, desde a maturidade e a inteligência até a boca ligeira e o tom debochado.
O fato de conhecer Denise, diferente do que muitos pensavam, foi como um ancoradouro. A mulher tinha apresentado uma maneira diferente de viver, e não era nem um pouco perto da reviravolta e da transformação que a mídia gostava de pregar. Denise era como o mar calmo, depois da tempestade. Era segura, era tranquila, representava o completo oposto de sua vida anterior, e ainda o entendia e entendia sua rotina. A chegada das filhas, uma após a outra, desencadeou os mesmos sentimentos que tivera por Patrick, e seu ser parecia transbordante.
Ele entendeu rapidamente que sua vida era o automobilismo, mas ela só seria uma vida se houvesse aquele amor que transbordava.
Observou ajudar Felix com os cabelos para que não caíssem fios na comida e rir das bobagens que Luísa contava sobre as coisas descobertas na internet.
Sorriu, assistindo às conversas. As três falavam ao mesmo tempo e ele já não sabia se elas próprias estavam se entendendo, mas aprendera rapidamente que as coisas entre as mulheres de sua vida eram assim mesmo, uma loucura completa.
Esticou a mão e se serviu de um pedaço de pizza quando todas estavam comendo, satisfeito com o desenrolar da noite. Assistir entrar pra história daquela forma, em uma ótima postura e num tom absoluto de quem sabia que era boa e sabia que podia estar lá fora um espetáculo. Sentia um orgulho imensurável da mulher que a filha se tornara, e sabia que ela seria grande. Maior do que ela mesma desconfiava. A ouviu gargalhar de algo que Felix dissera, sendo acompanhada por Luísa que incentivava as brincadeiras e de Denise, que apenas dizia que elas não tinham jeito.
Sempre ensinara às mais novas que era irmã, acima de qualquer comentário que elas pudessem ouvir de fora, e assistir à interação amorosa e fraternal entre elas era algo que o fazia sorrir amplamente, e lhe enchia os olhos. Era maravilhoso.

Capítulo Três

– Você foi pra Itália no fim de semana? – Max colocou a bandeja com seu almoço na frente da garota sobre a mesa, assustando-a. ergueu os olhos para o holandês de cenho franzido, confusa. Com o barulho ainda ressoando em sua cabeça, não ouvira a pergunta direito.
– Quê? – Max riu ao notar o detalhe.
– Perguntei se você foi pra Itália no fim de semana. – repetiu, acomodando-se de frente para ela na mesa vazia. Era quase horário da equipe de engenharia saírem para o almoço, e o refeitório não permaneceria calmo e vazio daquela forma por muito tempo.
– Fui buscar minha mudança. – explicou, assentindo com a cabeça – Deixei muita coisa no apartamento em Turim e precisava resolver.
– Você sabe que foi fotografada, né?
– Que dúvida. – a mulher revirou os olhos, voltando a almoçar. Max riu do jeito da garota e começou a comer também.
Minutos depois eles foram interrompidos pelo som de notificação vindo do celular dele, que continuou comendo enquanto lia a mensagem recebida. se distraiu e resolveu acessar suas redes sociais para passar o tempo. Queria relaxar os músculos enquanto podia, já que teria de fazer novos testes no protótipo em montagem durante a tarde e sabia que precisaria de concentração. E nada melhor que se distrair com vídeos fofinhos de gatos.
Estava sorrindo para uma bobagem postada pela irmã do meio quando bateram outra bandeja de almoço ao seu lado, fazendo-a pular em seu assento novamente. Virou-se bruscamente para o recém-chegado e encarou os olhos castanhos de Sérgio Romero, o piloto de testes brasileiro que subira com ela da Fórmula 2 para a 1 na temporada anterior. No mesmo segundo que registrou o sorriso zombeteiro do piloto, Max estourou em uma gargalhada.
Sem que a mulher notasse, ele pediu que Sérgio se aproximasse em silêncio e batesse a bandeja na mesa como ele mesmo fizera, afim de assustar a garota pela segunda vez. Sérgio sorriu e sentou-se ao lado da francesa, jogando os cabelos levemente cacheados e claros para trás.
– Oi . Tudo bem contigo? – pediu, num inglês arrastado. estreitou os olhos na direção do rapaz que piscou inocentemente. Max ainda ria.
– Você fez isso, né? – perguntou, virando-se para o holandês que estava inclinado para trás na cadeira, uma mão na barriga e a outra limpando as lágrimas no canto dos olhos.
– Não sei… do que está falando. – disse Max, parando para recuperar o fôlego das risadas.
– Você sabe que eu nunca faria isso com você, não é ? – Sérgio falou, enfiando uma garfada cheia na boca e continuando de boca cheia – É tudo culpa de Bakker, ele acha que é comediante.
– Bakker, comediante? – perguntou uma terceira voz. se virou e encarou o segundo piloto de testes, o inglês Charles Boyce. Charlie sentou-se ao lado do piloto principal com uma maçã nas mãos, apoiando-se folgadamente sobre a mesa. logo notou que o refeitório enchia, mas não ligou. – Você foi simpático. Ele é o próprio palhaço do circo.
– E você é o mascotinho, não é? – Max provocou, o tom mais afiado. sorriu. – Não ligue para esses ogros, Leblanc, eles não sabem o que dizem.
– Olha quem fala, fica aí enchendo a menina. – Charles riu e estendeu a mão sobre a mesa – Oi , ainda não fomos apresentados. Eu sou Charles.
– Eu sei. – ela riu, apertando a mão do inglês que piscou.
– Ótimo, gosto que me reconheçam.
– Deixa de ser babaca, Charlie, por favor. – Sérgio pediu, novamente de boca cheia.
– Ei! – Charles e Max fizeram caretas idênticas de nojo – Seu idiota, fecha essa boca! Ninguém precisa ver essa nojeira.
– Vocês precisam. – afirmou o brasileiro, sorrindo ao engolir a comida – Assim param de tentar se achar na frente da menina.
riu e empurrou a bandeja vazia, se levantando.
– Se o motivo dessa gracinha sou eu, vou deixá-los tristes.
– Não se vá. – Max dramatizou, estendendo a mão na direção dela. Mesmo que o comprimento de seu braço fosse o suficiente para alcançar a mulher do outro lado da estreita mesa, ele dobrou o cotovelo e deixou os dedos apenas se aproximarem dela, provocando risos nos garotos.
– Deixe-a, meu caro jovem, ela precisa seguir pelo caminho sozinha. – Charles entrou na onda, puxando o braço de Max e segurando em sua roupa com emoção.
– Mas e se ela se perder? – Max o encarou com os grandes olhos claros suplicantes, fazendo negar com a cabeça. A essa altura os rapazes tinham chamado atenção de várias pessoas que estavam se preparando para almoçar, espalhadas pelo salão, e a maioria dos engenheiros e mecânicos ao redor da mesa deles ria do pequeno teatro.
– Sozinha ela deve seguir. Nós sofreremos, mas é para o bem dela! – Charles replicou, esticando o braço na direção dela, como se fosse para pegar sua mão, a maçã esquecida sobre a mesa. Estreitando os olhos, ela colocou a mão na dele, que a apertou. Max rapidamente o imitou, pegando a outra mão da jovem.
– Cuide-se, pequena guerreira. – o holandês disse, a voz num tom profundo de falsa mágoa e retidão. engoliu a risada com um sorriso largo. Ambos mantiveram-se sérios, dentro do personagem.
– Que os santos e as boas energias te guiem pela sua jornada. – completou o outro, olhando-a nos olhos antes de baixar a cabeça numa meia reverência, sendo imitado pelo piloto. Sérgio riu pelo nariz e inclinou a cabeça também. Ela o olhou com graça, e então com assombro ao notar alguns mecânicos e engenheiros imitarem o gesto nas mesas ao lado.
De pé perto da porta, Jin Hwang sorriu um raro sorriso, assistindo a mulher de pé na ponta da mesa, as mãos seguras entre as dos pilotos que mantinham as cabeças inclinadas em respeito, e os vários gestos que os imitaram pelo salão. Respeito era uma coisa importante dentro de uma empresa como aquela, e respeito fora o que a garota acabara de conquistar de algumas pessoas.

♦♦
A Fórmula 1 era considerada a elite do automobilismo mundial.
O calendário da temporada geralmente iniciava em fevereiro ou março e seguia com corridas em fins de semanas intercalados até julho ou agosto, quando tinha uma pausa de duas a quatro semanas. Depois disso as corridas aconteciam em quase todos os fins de semana até a final, realizada entre o fim de novembro e o meio de dezembro.
Antes da temporada regular acontece a pré-temporada, cerca de três semanas antes da data agendada do primeiro Grande Prêmio. As equipes todas não eram obrigadas a comparecer aos testes, mas com tão poucas chances de colocar os carros em uma pista de verdade, o circuito escolhido pela FIA – Federação Internacional de Automobilismo – geralmente ficava cheio.
Na pré-temporada era permitido apenas um carro por escuderia, então geralmente as equipes enviavam os pilotos de testes, já que durante os oito dias divididos em duas etapas o objetivo era observar o trabalho entre o carro e a pista, como funcionamento do motor, água e óleo, temperatura do carro e saídas de ar, entre outros detalhes.
Nesse ano, a ERT estaria presente com os pilotos Sérgio Romero e Charles Boyce para testar, mas tinha sido escolhida para acompanhar a equipe a fim de se familiarizar tanto com o movimento da Fórmula 1, que era mais intenso que as demais categorias, como com os outros pilotos e escuderias.
Então, duas semanas depois da sua apresentação, ela e os pilotos embarcaram no avião fretado pela escuderia junto de praticamente toda a equipe. O destino era a Espanha, mais precisamente a cidade de Montmeló, que abrigava o Circuit de Barcelona-Catalunya.
A distância entre o aeroporto de Londres, onde embarcaram, para o aeroporto de Barcelona era de aproximadamente duas horas e meia. Sentada ao lado do brasileiro, com Charles do outro lado do corredor da aeronave, o tempo passara num piscar de olhos. Ao desembarcar, a francesa sentia dores nas bochechas de tanto rir e estava mais tranquila sobre estar efetivamente na equipe.
Depois do show que Charlie e Max deram no refeitório dias antes, as coisas entraram em um ritmo confortável. Ainda havia alguns momentos estranhos quando as pessoas pareciam se dar conta de que ela era uma mulher e sabia de carros tanto quanto os homens que faziam a engenharia do lugar funcionar, mas situações como a que tivera com um dos funcionários no dia do teste no protótipo se tornaram raras.
sabia que o ambiente predominante masculino teria essas diferenças, não era como se houvesse várias mulheres nas categorias E, 3 e 2 por onde passou. Como piloto principal de uma escuderia, em qualquer uma das categorias de Fórmula, ela era a única. Como piloto de testes havia uma única mulher na elite, e três espalhadas entre as outras três categorias. Todas elas sabiam bem como era ser mulher naquele ambiente machista e sexista. Mesmo assim, a situação estava consideravelmente melhor, num processo pelo qual ela tinha passado diversas vezes desde a primeira vez que pisou no mundo do automobilismo.
Depois que desembarcaram em Barcelona, um ônibus os esperava para levá-los para Montmeló, cerca de 20 quilômetros ao norte da cidade. Novamente sentada entre os pilotos de testes, se divertiu e riu, além de ter conhecido o resto da equipe que viera com eles, entre engenheiros, mecânicos e apoio.
A equipe que os acompanhava para os testes era bastante jovem. Junto deles para controlar a ação, Markus von Trapp também fora escalado. E para finalizar o time de testes, Alejandro Gutiérrez tinha embarcado num avião horas antes junto de Annelise Küllsman para cobrir todo o evento.
– Vamos ficar todos nos trailers no autódromo. Fica melhor, já que a rotina de testes é mais pesada diariamente. – von Trapp explicou quando chegavam ao espaço fechado do circuito. – Protocolo de corrida oficial ativo, pessoal. Foco total nos detalhes, precisamos deixar esse carro perfeito. Me ouviram?
Vários sims foram ouvidos, então o ônibus atravessou os altos portões de ferro, guardados por seguranças. Vários ônibus e trailers estavam estacionados pelo espaço reservado, com as cores e logos das várias escuderias que faziam parte da competição da Fórmula 1 e dos Construtores. foi uma das primeiras a descer, atrás de Markus, ansiosa como estava para absorver tudo aquilo. Amava o clima que parecia uma constante em lugares como aquele.
Charles passou ao seu lado e a rebocou pelo estacionamento, o braço jogado em volta dos seus ombros.
– Vamos lá, pequeno gafanhoto. Você esteve aqui antes? – perguntou, ajustando os óculos de sol sobre os olhos e os cabelos rebeldes para trás.
– Na Fórmula E, uma vez. Depois o circuito foi tirado da programação. E eu vim assistir uma corrida uma vez, mas foi da Fórmula 2, antes de virar piloto da Prime. – explicou, olhando para os lados. Estava se sentindo saudosa.
Charlie assentiu, levando-a em direção ao boxe reservado para a ERT. Os trailers foram posicionados no local horas antes da chegada da equipe, mas eram destinados para os mecânicos e engenheiros que foram com eles. , os pilotos, Markus e os dois integrantes da assessoria estariam hospedados temporariamente nos pequenos quartos que ficavam acima dos boxes. Originalmente eram salas de controle, mas com a redução de pessoal, não haveria problemas em alocá-los lá.
Markus, que tinha descido na frente, já havia acionado as pesadas portas de ferro dos fundos do boxe, então o pessoal pode entrar e se instalar rapidamente. Os testes, oficialmente, começariam no dia seguinte, mas as equipes poderiam iniciar o trabalho nos carros naquela tarde. subiu as escadas e caminhou pelo corredor até a última porta onde colaram um papel com seu nome e o de Annelise, indicando que dividiriam um quarto como as únicas mulheres da equipe presentes.
Colocou a mochila que carregava em uma das camas de ferro e se espreguiçou, sentindo os músculos que ficaram retesados durante a viagem se expandirem.
– Essa sensação é uma das melhores do mundo, não é? – Annelise passou pela porta, os cabelos presos em um coque firme. se virou para encarar a mulher, estranhando a falta do barulho dos saltos que a denunciavam sempre.
– Você não está de saltos! – riu, indicando o par de tênis branco que a outra usava. Annelise sorriu.
– Não estou em horário de trabalho nesse exato momento. – piscou – Vamos lá?
– Como você e Alejandro vão trabalhar durante a pré-temporada? – quis saber, curiosa, enquanto seguiam de volta ao andar de baixo.
– Queremos dar uma cara nova ao site da escuderia, desde o ano passado temos trabalhado nisso. – explicou a loira, movimentando os braços – Aqui vamos colocar em prática uma das ideias que desenvolvemos especificamente para esses eventos, e se der certo, o resto da temporada tende a seguir o mesmo padrão.
– Que seria?
– Interação. – disse, de maneira simples, ao dar de ombros sorrindo. Enquanto Alejandro se foca no pequeno documentário que queremos montar, filmando tudo e todos sempre que possível, eu vou estar fotografando os momentos de descontração, tipo um making of, e também entrevistando algumas pessoas.
– Algumas pessoas? – questionou, a sobrancelha alta enquanto descia os últimos degraus.
– Sim, algumas pessoas. – desconversou a outra, rindo.
– Desculpa me meter, mas eu tenho uma noção básica sobre esse mundo. Você deve saber que Denise, minha madrasta, é modelo, mas também trabalhou nessa área de assessoria. Esse trabalho de fotografar e entrevistar não deveria ser do tal Joe Stamos? – perguntou, cruzando os braços perto das portas dos fundos. Annelise assentiu divertida.
– Com certeza. Mas eu não perderia essa adrenalina por nada, e Joe não é muito um cara de aglomerações. Então, unimos o útil ao agradável. E como os nossos trabalhos na verdade se fundem, fica super tranquilo. – deu de ombros outra vez.
– Entendi.
– Ótimo. Vai interagir com o pessoal que o Alej vem vindo ali todo paramentado. – ela sorriu, indicando com a cabeça o panamense que caminhava do estacionamento em direção ao boxe. Usava um colete cheio de bolsos todos preenchidos com equipamentos que não identificava. Ele ainda usava um aparelho que parecia uma roupa de tiras de metal sobre as roupas normais, que serviam de sustentação para a máquina fotográfica, assim dava estabilidade para a filmagem e ele poderia se movimentar de um lado para o outro, sem o apoio de uma guia ou uma trilha.
riu com a imagem. Achava a ideia de pequenos vídeos a cada corrida sensacional, uma maneira de aproximar o fã do automobilismo com as equipes em si, mostrando por dentro de cada GP. Seria fantástico se funcionasse como eles esperavam. Torceria para que sim.
Se despediu da RP e caminhou em direção à Sérgio, que estava conversando com um dos mecânicos. O caminhão que trouxera um dos carros havia acabado de descarregar o monomotor, que fora empurrado para dentro do boxe com a ajuda dos mecânicos.
– E aí, gente. – ela sorriu para os rapazes – Vamos começar?
– Espera um pouco, . – Sérgio falou num tom mais baixo, virando-se levemente para a garota, se colocando de costas para a porta principal do boxe. Ela o encarou com o cenho franzido, mas ele lançou um olhar que a fez manter uma expressão neutra, antes de explicar. – Eu e o Markus conversamos, precisamos expor o motor para ajustar alguns detalhes, mas temos alguns jornalistas zanzando por aí e a gente não pode dar bandeira. – falou, um sorriso leve. – Só uns minutos, eles cansam da estática e vão bisbilhotar outra equipe.
– Sem problemas. – ela riu. Em seguida se virou para observar por trás do garoto, a faixa do pit por onde os carros, em dia de corrida, entravam em velocidade controlada.
Apesar do sol incidindo sobre essa faixa, a luz que entrava dos fundos não atrapalhava a visão dela por conta da parede falsa a alguns passos de distância. Essa divisória encurtava o espaço do boxe em si, mas comportava todo o ferramentário como num pequeno depósito antes das portas de ferro da parte de trás. Sem a luz direta dos fundos incidindo sobre ela, podia ver claramente várias pessoas de uniforme das equipes conversando e passeando pelo lugar, ainda bem relaxados antes do início da pré-temporada, assim como alguns jornalistas, característicos com suas roupas esportivas, os crachás e as câmeras, blocos de notas ou microfone nas mãos.
Ainda observando o movimento, mal notando a conversa que Sérgio retomou com o mecânico, de repente sentiu um arrepio na espinha. Acabara de assistir o piloto da escuderia alemã, Klaus Ammer, em seu uniforme vermelho e branco, ser entrevistado por um rapaz com uma camisa polo azul, o celular servindo como gravador de voz. ainda não tinha certeza enquanto os assistia de costas, mas quando o jornalista se virou ela confirmou as suspeitas.
Os cabelos cacheados do rapaz eram inconfundíveis, mesmo que da última vez que os vira estavam cobertos pelo capuz do moletom.
A francesa rapidamente ligara os pontos. O jornalista que insinuara que seu pai era o motivo de sua ascensão profissional durante a apresentação oficial no complexo da ERT era o mesmo que passeava em frente ao boxe da escuderia naquele momento, observando as pessoas ao redor, procurando o próximo a ser entrevistado.
Até aí, tudo bem. Mas o rapaz de cabelos castanhos encaracolados e olhos claros, também era o mesmo que estivera parado em frente ao elevador principal do hotel onde o pai estivera hospedado durante aquela semana, e podia ver isso com clareza agora mesmo que naquele dia, naquele momento, os cabelos cheios e característicos estivessem cobertos pelo capuz do moletom.
Ela podia reconhecê-lo agora, sabia que era a mesma pessoa.
O que a estava incomodando era o fato do hotel ter isolado a entrada de jornalistas, para garantir a privacidade de Joseph Leblanc e da família, principalmente porque as meias-irmãs da piloto eram menores de idade. Como ele conseguira entrar?
Lembrou-se de ter pedido a Erik que pesquisasse o perfil dele e o mantivesse longe dela, já que de perguntas espertinhas como as que ele tinha feito já tinham levado a ser chamada de grossa pela mídia por muito menos. E como ele começara daquela forma, podia muito bem ir questionar outras pessoas sobre coisas imbecis. Mas não lembrou-se de ter pedido o nome dele para o assessor, apenas que Erik evitasse, se possível, convidar ele e/ou ao meio de comunicação à qual ele pertencia, para evitar momentos indelicados.
Enquanto assistia o rapaz atravessar a frente do boxe e encontrar Charlie de bermudas e camiseta conversando com outro piloto, parando rapidamente para pedir uma entrevista, sacou o celular do bolso dos jeans e mandou uma mensagem para Erik.
Ele levou segundos para visualizar e pedir que ela esperasse porque iria pesquisar seu pedido. Menos de dois minutos depois a mensagem brilhava na tela de seu celular, enquanto ainda assistia o rapaz entrevistar seu companheiro de equipe.

 

O nome dele é Bouchard. Ele é canadense, e
trabalha pra o CND Sports, do Canadá. É enviado deles
pra acompanhar o automobilismo, mas tem críticas
ótimas sobre a Fórmula 1, especificamente, então ele
basicamente cobre todas as temporadas. Pq?

Capítulo Quatro

, nós vamos colocar Sérgio primeiro. Você pode marcar o tempo, por favor? – Markus pediu, se virando para os monitores montados na lateral interna do boxe.
A francesa, usando o macacão de treino todo branco, diferente do oficial que tinha as laterais em azul com uma faixa vermelha, assentiu uma vez. Pegando o cronômetro, o celular e os fones de ouvido, ela os prendeu na roupa enquanto segurava os cabelos para o alto a fim de ajeitá-los em um coque firme.
Saiu do boxe e olhou para os lados antes de atravessar a pista do pit, cheia de mecânicos e outros carros que saiam e entravam, até entrar na pitlane, uma via de pedestres separada dos boxes por um muro baixo e da reta pelo pit wall. Na pitlane era onde ficava o diretor de prova, dentro de uma cabine, e era dali que partia o acionamento das luzes de largada e das bandeiras que eram mostradas aos pilotos durante a prova.
Ao se posicionar em uma das frestas da grade, virou-se de costas a tempo de assistir os mecânicos liberarem Sérgio para a pista, as grades do aero-rake presas logo atrás das rodas dianteiras para medir a pressão do vento contra o carro. Caminhou pelo pitlane enquanto ele seguia o caminho. Assim que atravessou a linha demarcada no fim dos boxes, sinalizando que ali retornava a pista do circuito, acionou o cronômetro.
Existiam softwares em todo o carro que prediziam exatamente o tempo que o piloto fazia em pista, quantos segundos foram desperdiçados em alguma curva ou manobra errada, em quantos segundos o tempo poderia ser reduzido, e tudo o mais, mas conhecia bem a fama do chefe de equipe, e não contrariaria Markus von Trapp. Atravessou todo o boxe ouvindo mesmo através dos grandes fones o zumbido dos carros e a comunicação interna da equipe com o piloto. Precisava alcançar a marca onde iniciara o cronômetro pra ter mais precisão na hora de bater a volta de Sérgio.
No mesmo momento que chegou ao fim do pitlane, ouviu o barulho na última curva antes da reta, fazendo-a virar. O cheiro de borracha queimada emanava de todos os espaços possíveis daquele lugar, e ela manteve a grade entre si e a pista, os olhos cravados na linha que traçara na mente. Relanceou o olhar para confirmar que era Sérgio que vinha, a velocidade alta estrondando pelo autódromo. Conforme o volume aumentava, sentia seu sangue correr no mesmo compasso, o coração palpitando no peito, a adrenalina preenchendo os poros todos em seu corpo.
Tinha paixão por aquilo, se deliciava com aquela sensação, e toda aquela empolgação se transformava em foco e determinação. No milésimo de segundo que o carro azul e vermelho ultrapassou a faixa da pista que ela observava, a francesa cravou o dedo no cronômetro, marcando a volta.
– Um minuto, vinte e sete segundos, trezentos e doze. – disse alto, sabendo que Markus estaria esperando a informação.
Você já fez melhor, Brasil. – o chefe de equipe falou, a voz rouca soando metálica pelo fone de ouvido – A curva cinco tá com um delay alto, corrige isso aí. Vamos contar a partir da próxima.
Ok. – Sérgio respondeu e a francesa notou pelo tom que ele estava concentrado.
– Sérgio, se você reduzir antes e mantiver a aceleração mais pro fim da cinco, você provavelmente vai ganhar uns três segundos, talvez mais. – comentou, observando o cronômetro. O brasileiro resmungou, mas não respondeu, concentrado na pista. A mulher quase pode assistir, visualizando em sua mente, o momento em que ele contornou a quinta curva, o barulho da aceleração do carro ouvido por toda a equipe. A redução foi gradativa, e enquanto pensava que podia ter reduzido um pouco antes ainda, ouviu o som esperado: o peso do pedal colado no chão da carenagem pedir mais do motor na aceleração enquanto ele saía da curva em alta. sorriu.
Entendi, delay da curva cinco corrigido. – Sérgio disse, batendo marcha.
voltou seu olhar em direção ao boxe da ERT por instinto e, mesmo de longe, pode visualizar o chefe de equipe na porta do boxe, a mão levantada bem acima da cabeça, o polegar para o alto e os outros dedos curvados no sinal internacional do ok. Ela repetiu o gesto e sorriu, voltando a encarar a pista. Conquistava seu espaço aos poucos, mas era seu espaço.

♦♦
– Um minuto, vinte segundos, duzentos e oitenta. Quem bateu o último recorde aqui? – Markus perguntou alto, enquanto reassistia o desempenho de Charlie em sua última volta de minutos antes através das telas de LED suspensas no painel dos fundos e do lado direito do boxe.
– Daniel Rico, ano passado. – Sérgio respondeu, uma garrafa de água nas mãos.
– Um minuto, dezoito segundos e alguma coisa. – completou, assentindo, enquanto ajudava um dos mecânicos a ajustar os detalhes no cockpit.
– Aquele espanhol fajuto? – Markus resmungou, fazendo o pessoal sorrir silenciosamente.
– Tem alguma coisa solta aqui. – Charlie se ajoelhou ao lado da garota, um braço dentro do cockpit e o outro apoiando o corpo no chassi. – Aqui, tá sentindo?
O mecânico balançou a cabeça e arrastou a mão até onde o piloto falava, para entender do que estavam comentando.
– Um lastro? – o rapaz quis saber, encarando os olhos do mecânico.
– É sim, pode tirar. Se precisar pra alcançar o peso a gente coloca em outro lugar.
Charlie assentiu, mas quem puxou o pedaço metálico da base do chassi foi . Ergueu a mão segurando o retângulo de titânio e franziu o cenho.
– Isso aqui não devia nem estar solto.
– Eu senti no meu pé na última volta. Trepidou quando entrei na caixa de brita, àquela hora. – o rapaz resmungou, coçando um dos olhos. A francesa assentiu, compreendendo, e estendeu a peça ao meca, o apelido interno da equipe que fazia aquilo tudo funcionar.
– O suporte em baixo pode estar prejudicado? Pra ter soltado com a trepidação? – perguntou. Antes que o homem pudesse responder, a sombra de Sérgio de pé ao lado deles cobriu metade do cockpit e nublou a visão.
– Pegou pra correr hoje e já conseguiu estourar o carro? – debochou, fazendo o mecânico rir e se afastar com o lastro em mãos.
– Vou conferir. – afirmou para antes de caminhar até outros dois mecas que trabalhavam na asa móvel.
– Cara, cala a boca. – Charlie respondeu ao mesmo tempo, revirando os olhos ao ficar de pé.
– Opa, se acalma aí. – Sérgio falou, colocando a mão espalmada no peito do piloto – Foi só uma piada.
– É só isso que você sabe fazer, né? – Charlie falou, tirando a mão do brasileiro do seu macacão com um gesto bruto. se colocou de pé rapidamente e segurou no braço do brasileiro, que avançava sobre o outro piloto.
– Ei! – falou, em tom baixo, mas em reprimenda – Ficaram malucos?
Enquanto puxava o brasileiro pela manga do macacão para trás, estendeu o braço e impediu Charlie de também avançar.
– Esse babaca gosta de fazer gracinhas. – Charlie falou, a voz tensa e a veia do pescoço proeminente. franziu o cenho, não entendendo o comportamento do rapaz, que parecia bem até aquele momento.
– Se acalma, Charlie.
– Boyce! – a voz de Markus foi cortante, e ao mesmo tempo em que se virava para encará-lo, parado de pé perto deles, notou os mecânicos também observando a discussão.
Charles se afastou da mão estendida da mulher e virou seu olhar para o chefe de equipe que mantinha o rosto vermelho de quando estava agitado.
– Desculpe. – murmurou, antes de dar as costas e sair pelos fundos do boxe. Markus o assistiu ir sem alterar a expressão, e depois que ele desapareceu pelo vão da porta, voltou a encarar os dois restantes. Sérgio puxou o braço, se desvencilhando de .
– Vou me preparar para entrar. – murmurou.
– Não vai, não. – Markus respondeu. Sérgio ergueu os olhos para o homem rapidamente, mas Markus sacudiu a cabeça. – Você não vai correr hoje, Romero. Vá comer alguma coisa, suma da minha vista.
– Mas…
– Vai. – von Trapp indicou a porta dos fundos com um aceno e quando o brasileiro marchou pra fora, imaginou que teria de buscar Charlie e saber o quê estava acontecendo antes de mandá-lo de volta pra pista. O austríaco deu um passo para perto da mulher fazendo-a erguer os olhos para encará-lo. – Se colocarmos o calço, você consegue correr? O carro não é o do Max, mas foi projetado pra alguém maior que você.
Ela o observou por alguns segundos, esperando que ele fosse retirar a oferta. Ela não fora levada até ali para correr ou participar dos testes, apenas para observar a ajudar no que pudesse. Mas ali estava o homem que a chamara para ser parte daquela equipe, que propusera sua contratação para o conselho, perguntando se ela seria capaz de correr em um carro maior que ela. Sorriu.
– Passei três meses na Fórmula E com um carro projetado para um cara mais alto que eu. – respondeu, com um aceno. Markus repetiu o gesto e ergueu os olhos para a equipe de mecânicos logo atrás deles.
– Quero um calço nas costas dela o mais rápido possível. E projetem isso direito, pra encaixar com o hans! – gritou, provocando a movimentação imediata do resto do pessoal. O homem voltou a encará-la. – Se prepare, você deve entrar em poucas horas.
Então se afastou, sem esperar por uma resposta.

♦♦
Acrescentar uma peça em um carro de Fórmula 1 era contra as regras dos Grande Prêmios. Ou seja, não poderia participar de uma corrida oficial promulgada pela FIA em um carro que não fosse perfeitamente ajustado para ela.
Mas como aquilo era uma emergência, dado ao fato dos dois pilotos de teste estarem de picuinha, como dissera Markus ao dirigente daquele teste no dia, uma brecha foi aberta mesmo durante os testes para que ela pudesse ajudar a equipe a preparar o carro.
A francesa estava dentro do carro, paramentada e pronta há um bom tempo, enquanto a equipe finalizava os detalhes para ajustar todo o padrão do monomotor ao seu padrão corporal.
Por sorte, Markus tinha levado algumas ferramentas que possibilitaram aquela manobra, como os calços usados pela garota no protótipo de simulação. Outra arma que o austríaco tirou da manga enquanto a preparação acontecia foi uma vídeo-chamada com Jin Hwang, para ajudá-lo a definir a melhor forma que essa adaptação aconteceria com a opinião do designer do carro da mulher.
, você me ouve? – Jin questionou. Markus se aproximou e apoiou o tablet no suporte atrás do volante do carro, e assentiu, erguendo o polegar até aparecer na imagem. – Perfeito. Mexa os joelhos. Você alcança o pedal?
– Foi a primeira coisa que eu arrumei. – o rapaz que ajustava o calço em suas costas murmurou e sorriu, sabendo que o designer não poderia ver através do capacete.
– Consigo sim. – falou alto, a voz abafada pelo tecido interno do capacete e da bala clava.
E os joelhos?
– Baixos, como devem estar. – respondeu.
Certo. E as costas?
– Estou ajustando na lombar dela. – o mecânico se pronunciou quando o olhou – Vai ficar móvel porque não deveria estar aqui, mas vai dar estabilidade por estar preso ao corpo dela e não ao chassi.
E o hans? – o designer quis saber, indicando as traves do protetor de pescoço e cabeça amarrado em sua nuca – Está firme ao suporte?
– Justo e preciso. – respondeu , enquanto o mecânico assentia.
– Ótimo. – o homem respondeu.
– Mova-se, . Quero saber se continua tendo uma mobilidade boa ou se ficou travada. – Markus pediu, os braços cruzados ao lado do carro.
pediu que ele tirasse o tablet do suporte e segurou o volante. Testou a troca de marchas pela borboleta atrás do aparelho, e o giro dele nas curvas, rotacionando o volante até o fim para os dois lados. Pressionou os pedais em seus pés e os sentiu perfeitamente ajustados. Empurrou o corpo para trás para testar o que o mecânico chamou de móvel, e sentiu um movimento sutil. Entendeu que na pista, com o vento batendo com força contra ela, o movimento seria mais intenso e ajustou o corpo, trazendo o apoio mais para cima na lombar. Testou novamente e não sentiu se mexer. Assentiu, sentindo o hans restringir o movimento de seu pescoço para evitar lesões cervicais com a força que o vento somado à velocidade do carro poderia provocar. Apesar da improvisação, sentiu-se segura o suficiente.
Soltou o volante e ergueu o polegar para a imagem do designer que Markus segurava voltada para ela.
– Parece bom pra mim.
Os dois homens assentiram juntos.
– Verifiquem a asa móvel e retirem o aero-rake. Quero uma volta limpa e quero o sistema de verificação à tinta preparado para a próxima etapa do teste. – falou em voz alta, fazendo os mecânicos correrem cumprir suas ordens novamente. Ele ergueu o tablet para encarar Hwang pela tela. – Obrigado, Jin. Mais tarde conversamos.
Me mantém informado. – o designer assentiu e a chamada foi encerrada.
– Dê uma volta, sinta a pista e o carro. Se estiver tudo bem, quero que dê mais uma para valer o tempo. Vou aproveitar para saber como você se sai com o motor V6. – a mulher assentiu – Depois vou te orientar se deve voltar ou continuar. Está pronta?
– Como nunca. – concordou. Markus assentiu uma vez.
– Quando te liberarem fique à vontade. – indicou a saída e se endireitou, voltando para perto das telas de LED cheia de dados e informações.
olhou pra fora, e estreitou os olhos levemente pelo sol forte que atingia a pista naquele momento. Devia passar das duas horas da tarde, e a Espanha estava sendo castigada por dias de sol constante, mesmo que a previsão apontasse para uma chuva forte para os próximos dias.
Mesmo assim, sem um pingo de água em qualquer parte do circuito naquela tarde, ou sequer uma nuvem escura no céu, a equipe preparou o carro com pneus slick, para pista seca, na cor amarela, indicando que ele era intermediário entre o duro e o macio. Sem o aero-rake para perceber exatamente o impacto do vento contra o carro, sabia que teria de confiar no que sentia do carro para tirar o melhor daquela situação. Tinha percebido durante os testes de Sérgio e Charlie que a asa móvel não era totalmente inútil em um circuito como aquele, então teria de se virar no braço, como seu pai diria. Um pensamento lhe ocorreu, de supetão.
Ergueu a cabeça rapidamente e ao notar que Markus não lhe encarava, virou-se para o mecânico que passava ao lado do carro.
– Pergunte a von Trapp quem está na pista, por favor? – ele sorriu e assentiu, se afastando para conversar com o chefe de equipe. Von Trapp trocou de tela e pediu informações para o rapaz ao seu lado, sentado de frente para outra série de monitores. Ele sacudiu a cabeça e lhe disse algo.
O austríaco então encarou o mecânico de sobrancelha erguida e um meio sorriso antes de caminhar de volta até o carro.
– Temos um sistema integrado de participação dos testes, assim fica mais fácil de não superlotar a pista e todas as equipes sabem quem tá correndo, quem vai entrar ou sair, essa porra toda. – ele abanou as mãos, se abaixando ao lado do carro. – Quando troquei o nome de Charlie pelo seu e sinalizei que estava pra entrar, os pilotos voltaram para os boxes. Klaus entrou agora à pouco, foi o último.
– O quê?
o encarou, estupefata, e Markus balançou a cabeça.
– Eles querem te ver correr. Simples assim. – apertou o ombro dela sorrindo e voltou a ficar de pé – Vai lá e mostra pra eles quem é Leblanc.
A garota sentiu o coração saltar no peito, errando o compasso. Por um momento de desespero, sentiu-se incapaz. Não podia correr na frente de todos aqueles pilotos de elite. Não podia deixar que vissem seu desempenho, não podia deixar que vissem seu fracasso. Teria delay na curva cinco, com toda a certeza, como Sérgio fizera no dia anterior. Não seria capaz de trabalhar sem a asa móvel novamente. Erraria, e seria na frente de todos.
Arregalou os olhos e respirou fundo, sentindo o tecido da bala clava e do capacete lhe sufocar. Precisava de ar. Estendeu a mão e agarrou a presilha debaixo do capacete, em seu pescoço. Por conta da grossa luva que usava, tateou por alguns segundos desesperados antes de sentir a trava e a pressionar, então ouviu o clique, mas não foi capaz de abrir a presilha, que parecia ainda presa de alguma forma.
Quando estava prestes a sacudir os arreios em completo desespero, ouviu o grito de Markus. Paralisada no susto, olhou para o lado, pronta para levar uma bronca do austríaco por estar em pânico, mas ele olhava para os monitores e continuava gritando ordens aos mecânicos. respirou fundo e fechou os olhos.
Tinha se assustado com o homem, mas fora uma benção. Ele a trouxera de volta abruptamente para a situação, e seu consciente rapidamente sobrepujou a emoção, racionalizando que era, sim, completamente capaz daquilo.
Afinal, correr na frente de milhares de pilotos experientes era fichinha, certo? Fizera isso dezenas de vezes. E correra ainda na frente de lendas como seu próprio pai, e também aqueles que haviam feito história com ele. Tinha feito aquilo. Tinha provado que era capaz. Entrara em uma escuderia de grande renome, não era? Abriu os olhos e racionalmente retirou a luva para ajustar a presilha do capacete no pescoço, voltando então a vestir o tecido grosso que protegeria suas mãos e pulsos.
Respirou fundo, expulsando de seu corpo toda tremedeira, impulsividade e emoção negativa que habitava nele, se fortalecendo ao relembrar de todas as vezes que entrara em um monomotor em circuitos muito mais complicados que aquele. Pensou na última corrida que fizera pela Fórmula 2, o fechamento em Abu Dhabi, aquela que garantiu a vitória para a Prime e ainda sua vaga na ERT. Era mais do que capaz.
Mal piscou quando notou o mecânico na porta do boxe sinalizar. Automaticamente todos os outros que rodeavam o carro se afastaram. Respirando fundo outra vez, ela apertou o botão e ouviu o motor roncar sob seu corpo. A adrenalina que o movimento do chassi enviou ao seu corpo era capaz de iluminar uma cidade inteira se fosse transformado em eletricidade. Sorriu, mesmo que ninguém fosse capaz de ver, e habilmente, com a experiência de anos realizando a mesma coisa, manobrou para fora do boxe da ERT.
Enquanto percorria a distância na velocidade controlada até a divisão que a permitiria desempenhar marcha e iniciar o trajeto, percebeu que as outras escuderias mantinham o movimento ao redor dos carros realizando ajustes, mas em sua maioria estava com os olhos voltados para ela, assistindo toda a sua desenvoltura atrás de um volante super tecnológico como aquele. Eles não teriam acesso aos seus dados de corrida como Markus e a equipe no boxe, mas as câmeras espalhadas por todo o autódromo permitiria que eles assistissem tudo como bons telespectadores.
– Vamos lá, então. – murmurou consigo mesma, estalando os dedos na borboleta atrás do volante ao mesmo tempo em que pressionava com força o pedal ao passar da linha de restrição. O motor rugiu sob si, respondendo prontamente ao comando, pronto para alcançar toda a potência dos seis cilindros.
A curva um, para a esquerda, ficava bem perto da saída do boxe. A curva dois era bem mais suave, e a curva três era um balão para a direita, longa e constante. desempenhou marcha atrás de marcha e passou pelo balão à 140 quilômetros por hora, um tanto acima do recomendado para a pista. Markus lhe pediu para testar a primeira e fazer valer a segunda, então se focou em descobrir como tirar o melhor de todas as nuances do circuito. Ao mesmo tempo em que sabia que não precisava provar nada à ninguém, faria extremamente bem para seu ego provar à todos aqueles que a assistiam do boxe que ela era digna de estar ali por seus próprios esforços.
Reduziu a velocidade para contornar o cotovelo da curva cinco, mantendo a aceleração mínima até sentir ter completado metade da curva. Então, como dissera a Sérgio no dia anterior, subiu a rotação do carro ao máximo, ganhando segundos importantes para fazer a leve curva seis e seguir em direção à reta secundária, quase no lado contrário da reta principal.
Ali conquistou segundos preciosos ao bater quase 190 quilômetros por hora, antes de reduzir para contornar o cotovelo e as curvas que seguiram a ele, obrigando-a a manter velocidade controlada. Com calma fez as duas últimas curvas, passando direto pela entrada dos boxes e entrando na reta principal. Ouviu o estalo típico do acionamento do fone de ouvido, sendo seguido pela voz rouca e estática de von Trapp.
Perfeito. Agora faça valer o motivo de termos escolhido você.
– Sim, senhor.
Respondeu, desempenhando marcha. Ao ultrapassar a faixa inicial da corrida, sentiu a adrenalina tomar conta de cada terminação nervosa de seu corpo. Decidiu arriscar tudo de si, dar o melhor atrás daquele pequeno volante. Na primeira curva ela reduziu em cima do espaço recomendado, mas sabia bem como controlar aquele carro, como manter a estabilidade mesmo sem o uso da asa móvel.
Repetiu o gesto nas curvas seguintes, e eliminou o delay que a curva cinco geralmente provocava, por ser um cotovelo mais fechado. Na sequência, forçou o carro ao máximo, passando por cima das zebras entre as curvas seis e nove, e batendo até a quinta marcha na reta secundária, mantendo a redução para o cotovelo mais suave da décima curva e o balão leve que formavam as três últimas. Num piscar de olhos entrava novamente na reta principal.
Ao ultrapassar a linha de chegada, estava em sexta marcha à quase trezentos quilômetros por hora. O sorriso que estampava seu rosto devia ser possível de ver pelo satélite que orbitava a Terra, de tão grande. O estalido antecipou a voz de Markus, e ele também sorria.
Se fizer assim no GP, o recorde é seu, menina. Um minuto, dezenove segundos, zero doze. Parabéns.
riu, e foi agradecimento o suficiente. O nervosismo de antes estaria ali sempre, mas a sensação que percorria seu corpo naquele momento era mais do que o suficiente para fazê-la ter certeza de passar por aquilo todas as vezes que entrasse em um monomotor.

Capítulo Cinco

– Oi pai. – sorriu enquanto olhava para a pista, apertando o celular contra a orelha.
Criança. Como você tá? – Joseph Leblanc sorria.
– Estou… – soltou o ar com força, sacudindo as pernas no ar. Sentada sobre um dos muros de contenção que dividia a área dos boxes e a reta de largada, observava a luz do sol que sumia no horizonte incidir contra os diversos banners de patrocinadores do autódromo aos arredores da pista. – Não sei. Extasiada acho que descreve bem.
Os dois riram levemente.
Você sabia que foi transmitida online?
– Erik me ligou esfuziante de alegria para me contar sobre. Confesso que fiquei surpresa. – riu, dando de ombros. O lugar que horas antes estivera preenchido pelo ronco dos motores e gritos dos fãs que assistiram aos testes, agora permanecia em um silêncio calmo, quebrado eventualmente apenas pelo som distante das equipes no estacionamento.
Os boxes tinham sido esvaziados, e os treinos daquele dia encerrados oficialmente. O calor deixara de estar tão presente, e as brisas leves espanholas se faziam presentes, sacudindo os cabelos soltos e a camiseta com uma caricatura de Docinho, das Meninas Super-Poderosas que a francesa usava por baixo do macacão que pendia em sua cintura.
Por que surpresa, criança? Foi espetacular. Daniel publicou sobre no twitter, você viu?
– O quê? – ela riu – Daniel Rico, detentor do recorde desse circuito publicou no twitter?
Claro que sim, . – ele gargalhou – Espere, vou ler pra você. – afastou o celular do rosto – Felix? Deixe-me ver de novo aquele tweet do Dani, filha.
escutou a irmã mais nova responder alguma coisa, e em seguida Joe pareceu ler algo aos resmungos, como se buscasse no celular da mais nova o tweet mencionado. Em seguida fez um som de riso.
Aqui! Escute, . “Soube que meu recorde quase foi batido no Circuit de Barcelona-Catalunya, mas não fiquei surpreso por ser Leblanc a responsável pelo feito. Gravem o nome dela, ele vai entrar pra história.” Ele mencionou você, inclusive. Não recebeu a notificação?
mordeu a ponta do dedão enquanto o pai recitava a mensagem de Daniel Rico. Sorriu com o fim dela, surpresa. Nunca encontrara o homem na vida, mas acompanhou sua trajetória até ali, e sabia que ele seria um rival de peso nos Grandes Prêmios daquela temporada.
– Não olhei meu celular direito, velho. Depois do teste Markus me fez trabalhar em dobro com a estrutura do carro, e depois me mandou pra fisioterapia porque eu estava com dor nas costas pelo calço que eles colocaram.
Eu imagino que sim. Deu pra ver que tinha algo de diferente, mas ninguém entendeu o que exatamente. A equipe da CND que estava transmitindo, inclusive, ficou debatendo sobre o que utilizaram pra adaptar um carro de um piloto de um metro e oitenta para você, que tem mal um metro e sessenta e cinco. – Joe riu, debochado. o acompanhou, mas algo na fala dele lhe chamara atenção.
– Você disse CND?
Sim, criança. Eles que transmitiram seu teste. Quando o jornalista local informou o portal que você entraria eles decidiram mostrar na íntegra pra todo fã de automobilismo que não pode estar no autódromo hoje. Eu recebi a notificação de Prost, você sabe que aquele velho te adora.
sorriu.
– E eu adoro ele. Foi um puta piloto. – sorriu em expectativa.
Ele foi, né? – debochou o pai – Perdeu pra mim nas corridas mais importantes, você sabe.
– Claro que sei, seu velho ciumento. – balançou a cabeça sorrindo – Deixe de ser bobo. Voltando ao assunto, eu quero saber uma coisa.
Pergunte, criança. – disse o homem bem humorado. Adorava aquele tipo de provocação e a troca de farpas que geralmente tinha com a garota.
– Disseram o nome do jornalista local da CND? – fez uma careta, aguardando se confirmaria suas suspeitas. O velho riu.
Disseram, claro. É aquele moleque novo, ele cobre o automobilismo para eles agora. Boccard, eu acho.
– Bouchard. – a filha corrigiu, fechando os olhos. Então, como nos livros de Harry Potter em que Voldemort se materializava através da pronúncia de seu nome, uma voz divertida e jovial soou atrás da garota.
– Eu mesmo.
Virando-se abruptamente, balançou sobre o muro de cimento, desequilibrada. Se agarrando com a mão livre, rapidamente ajustou sua posição e levantou a cabeça para encarar o recém-chegado.
Com os cabelos cacheados balançando ao vento e cobrindo-lhe os olhos claros, sorria um sorriso limpo e brilhante, parecendo genuinamente interessado. Ela o encarou em silêncio e, sem quebrar o sorriso ou o contato visual, o jornalista passou a mão pelos cabelos, jogando-os para trás, e acenou para ela.
– Você disse meu nome.
– Pai. – ela disse rápido, descendo do muro e se colocando dentro da reta de largada, mantendo distância do rapaz que permanecia na pista dos boxes. – Ligo pra você depois, ok? Preciso ir.
Sem esperar por resposta do velho, a mulher bloqueou o aparelho e o enfiou no bolso interno do macacão caído em sua cintura. Dissera a Markus que entraria para tomar um banho e jantar com a equipe em breve, depois de conversar com o pai, e de repente sentiu certa urgência em cumprir o que prometera.
– Estava falando com Joseph? – perguntou o rapaz, e automaticamente se sentiu em uma entrevista. O tom de voz dele era neutro e ela sentiu como se nada do que ele dissesse, mesmo que o mais trivial possível, a faria acreditar que ele não usaria qualquer uma de suas repostas como parte de uma próxima matéria.
Paranoica, pensou. Respirou fundo.
– Estava. Ele me falou que vocês transmitiram minha participação nos testes de hoje ao vivo. – o rapaz sorriu, colocando uma das mãos no bolso dos jeans, virando-se de lado para ficar a favor do vento, a fim de que seus cabelos parassem de cobrir o rosto.
– Com certeza transmitimos. Era sua primeira participação oficial como membro da Fórmula 1. Foi um feito exclusivo. – comentou, se referindo à transmissão. Parecia quase presunçoso, mas não muito. A mulher não soube identificar.
– Já andei em monomotor. – rebateu ela. – Não faça um alarde do que não é.
– Não fizemos. Você é a primeira mulher a subir para a Fórmula 1 em vinte e poucos anos. É um evento e tanto. – deu de ombros.
– Mesmo que seja por mérito de Joseph Leblanc e não meu, certo? – alfinetou, cruzando os braços – Olha, eu preciso ir.
Agilmente ela subiu no muro, pulando para o outro lado perto do rapaz, com pressa demais para caminhar alguns metros e dar a volta.
– Eu sabia que você iria se lembrar dessa pergunta – ele falou, antes que ela se afastasse – Escuta, você precisa saber que ela não foi minha.
– Ah, não? Porque eu me lembro bem da sua voz perguntando. – disse, virando para ele. Seus cabelos, no mesmo instante, voaram para frente e a brisa fresca arrepiou a pele da nuca e dos braços descobertos.
– Sim, eu a fiz, mas a pergunta não era minha. Minutos antes de entrar no ar com a sua apresentação fizemos uma enquete com o público pela internet. As melhores perguntas foram selecionadas, e eu fiquei encarregado apenas de fazê-las, eventualmente. – explicou, dando de ombros. o encarou em silêncio enquanto processava suas palavras.
– E quanto a sua entrada no hotel em que Joe estava hospedado em Milton Keynes, quando a ordem era de barrar expressamente a passagem de jornalistas? – quis saber. Parte de sua raiva do rapaz tinha se esvaído com a explicação, e seu subconsciente lutava para encontrar uma alternativa a fim de mantê-la.
– Um amigo meu estava hospedado lá, de passagem. Como eu tinha ganhado a noite livre por ter realmente feito aquela pergunta à você mais cedo, resolvi dar um oi. Há anos não conversávamos, e eu fiquei mais bêbado do que devia. – falou, tranquilo. – Quer questionar mais alguma coisa ou se convenceu de que não sou um babaca?
– Disso você nunca vai me convencer. – falou a garota, lhe dando as costas. Enquanto caminhava em direção ao boxe da ERT ouviu a gargalhada dele, mas seguiu seu caminho sem interrupções.

♦♦
Bouchard era um canadense de Quebec. Sua avó era uma francesa excêntrica, e até os doze anos de idade ele não falou outra língua que não o francês. Quando se mudou com os pais para Toronto, onde o inglês perfeito predominava, se sentiu inicialmente um alienígena, e então a compulsão pela língua bateu com força.
Depois que aprendeu na marra o inglês, se interessou pela literatura e se aventurou pelo mundo dos livros, fazendo workshops, visitando bibliotecas, e depois participando de cursos. Tudo pelo amor que tinha pelos livros.
Alguns anos depois entendeu que o amor pelos livros era, na verdade, um amor pela língua em si. Tendo domínio do francês e do inglês, decidiu viajar o mundo enquanto fazia faculdade à distância. Realizava as provas online, e quando necessitava estar presente em algum polo universitário, buscava o ponto mais próximo. Ou seja, cansou de realizar apresentação de trabalho para pessoas aleatórias em pólos universitários que a faculdade tinha em vários países diferentes.
Com isso, se formou em Jornalismo com louvor, dominando francês, inglês, alemão, português e espanhol. Durante o tempo que permaneceu na estrada, visitou diversos lugares, conheceu culturas e religiões diferentes, e teve o prazer de agregar pessoas em seu rol de contatos, pessoas maravilhosas que apenas o transformaram em um ser humano disposto a fazer o necessário para conseguir o que quer.
Ao retornar ao Canadá, percebeu rapidamente que não pertencia mais à casa dos pais, ou mesmo àquela cidade. Passou alguns dias no Quebec para se despedir da avó, e se mudou. Primeiro morou em Londres, onde até hoje mantinha um apartamento pequeno e às vezes malcheiroso, mas que tinha visto suas vitórias mais significativas, como quando a CND Sports, o maior portal de notícias do Canadá, o chamou para ser correspondente.
Dali, como jornalista esportivo, morou alguns meses em Milão e depois na Austrália, acompanhando diversos esportes diferentes e cobrindo desde as ligas de base até os grandes jogos. Nesse ponto descobriu um segundo amor: a adrenalina. Num fim de semana com alguns amigos em Melbourne, ganhou folga dentro da pausa da temporada regular do futebol local, e resolveu comemorar em um bar. Horas depois, bêbado, saiu do local sozinho e encontrou o céu num azul acinzentado, a linha do horizonte marcada com um brilho rosado.
Amanhecia, e o jornalista mal acreditava no tanto de tempo que permanecera de pé e bebendo. Chamou um táxi e tentou passar ao motorista seu endereço, mas o estado de embriaguez confundiu o homem, que o levou para a área residencial próximo de Albert Park.
Foi uma das melhores coisas que fizeram para . Ao descer do carro, mal notou onde estava, mas quando seus olhos se abriram para o espaço ao redor, o motorista há muito havia ido. Caminhou a esmo pelas ruas, ainda confuso pela quantidade de álcool em sua corrente sanguínea, até ser atraído pelo ronco estridente de motor. A área residencial perto de Albert Park era linda e ficava do outro lado da cidade em relação à sua casa, mas ficava ao lado do circuito.
O circuito de Albert Park é citadino, ou seja, utiliza trechos urbanos para completar a pista, e naquele domingo estava sendo utilizada em mais um Grande Prêmio. O que ouvira fora uma das equipes realizando os testes finais ainda dentro do boxe, já que era cedo. , então, não pensou duas vezes. Correu para o posto de gasolina mais próximo e comprou água gelada, um salgado qualquer para forrar o estômago e chocolate para cortar o efeito do álcool. Depois de meia hora, pediu para usar o banheiro, lavou o rosto e tentou ajeitar os cabelos que cultivava compridos.
Pouco tempo depois, o canadense utilizava sua credencial de jornalista para entrar no circuito, e com o celular ele cobriu a corrida. Nunca tinha assistido uma corrida de Fórmula 1 de perto daquele jeito, e depois que entrou em contato com o portal para avisar onde estava e o material que estava para enviar, soube que a equipe CND geralmente não se importava o suficiente para cobrir o esporte.
Ao fim da mesma, com um material ótimo em texto, vídeo e fotos, marcou uma reunião com os chefes, que o tinham contratado. Na segunda-feira, bem apresentado, ele ligou a câmera e conversou com os dois engravatados por vídeo conferência e apresentou seus requisitos: a partir dali até poderia cobrir alguns esportes diferentes, mas trabalharia focado no automobilismo.
A conversa foi longa e exaustiva, já que precisavam acertar diversos detalhes dos quais os chefes não estavam a fim de abrir mão, mas na semana seguinte usava um crachá novinho em folha da CND Sports para cobrir o GP de Mônaco. A empresa custeava seu translado para acompanhar as corridas, e em troca ele trazia cada vez mais conteúdo e usuários para a página. Desde que começara, três anos antes, nunca tinha deixado de fazer até mais do que lhe era exigido.
E a melhor parte para ele era o fato de não parecer um trabalho, e sim pura diversão. Adorava cada instante passado passeando pelo paddock ou correndo na adrenalina para obter os melhores momentos, conversar com as pessoas chave para obter as melhores informações. Era um cara ágil, esperto, e sabia bem lidar com pessoas para obter aquilo que desejava. Se deu bem muito rápido naquele mundo e se mantinha daquela forma já que tinha total consciência de que, para um jornalista, eficiência e contatos abriam portas.
O rapaz de 26 anos fechou o notebook e se inclinou contra a guarda da cadeira, cansado. Era quase meia-noite, e ele terminara agora o material completo sobre a primeira semana da pré-temporada da Fórmula 1 daquele ano. Sua editora tinha pedido que ele fizesse relatórios diários, mas sempre estava um pé a frente, e quando Mônica Suaréz logasse sua conta de e-mail no dia seguinte encontraria um artigo de três páginas com todos os detalhes e ainda mais fotos exclusivas para os leitores de domingo. No artigo, havia ainda entrevistas que não foram divulgadas no decorrer da semana, além de vídeos curtos de trechos importantes do treino, inclusive um do qual o jornalista gostara bastante, e perdera alguns minutos reassistindo-o uma e outra vez após os ajustes da edição.
Nele, estava retornando ao box da escuderia após aquela volta espetacular e a terceira que usara para amaciar o carro e corrigir os possíveis erros que a equipe poderia ter na pista. Ela parara o monomotor em frente ao boxe e fora cercada pelos mecânicos. registrou o momento que ela retirava as luvas e desafivelava o capacete enquanto retiravam o volante para que ela pudesse sair.
Com desenvoltura era saltou do carro e puxou o velcro que prendia o macacão na altura do pescoço, arrancando a balaclava em seguida. O sorriso que ela dirigiu ao chefe de equipe fora enorme, provocando automaticamente um sorriso em , que acompanhava a cena com a câmera. Ele lhe deu dois tapinhas no ombro e disse algo, que a fez responder com o sorriso ainda no rosto. Em seguida fora envolvida pelos dois pilotos de testes, Sérgio Romero e Charles Boyce, que surgiram de dentro do boxe. Depois do abraço em grupo, estava pronto para encerrar o vídeo que apenas serviria para entreter os usuários da página, já que não continha informações relevantes, mas que era bonito e humano. Então, para sua surpresa, Klaus Ammer, da escuderia alemã que tinha entrado pouco antes da garota sair para a pista, caminhou tranquilamente entre os mecânicos até ela.
teve aquele sentimento que aprendera a distinguir como o feeling que tantos professores falavam, aquela coisa que parece te compelir a algo, e que te renderia uma boa matéria ou uma boa foto. Discretamente, caminhando pelo pit lane para que não fosse visto, se aproximou alguns passos leves para não sacudir a imagem, e ajustou o zoom. Enquadrados perfeitamente, o alemão que estava no topo da cadeia da temporada sorriu para a francesa, e após trocarem algumas palavras ele a abraçou rapidamente. sorriu, assentiu e se despediu. Enquanto ele voltava por entre os mecânicos e ela se virava em direção ao boxe, ainda registrou o pulinho que só pode ser descrito como de alegria que ela dera antes de sumir da imagem em meio à massa de mecânicos.
Aquele vídeo era curto, rápido e simples. Mostrava apenas a parte humana daquele mundo de elite e de carros caríssimos, mas adorava aquilo. Fora por essas e outras que seus textos sempre tinham ótimos resultados em questão de acesso e interação. As pessoas amavam sim o automobilismo, mas adoravam assistir a parte humana da coisa, ver que atrás daqueles carros pequenos e rápidos havia pessoas com sonhos e sentimentos reais.
Com uma leve dor na lombar pelo tempo que passara sentado em frente ao computador, o rapaz se levantou e esticou o corpo, fazendo careta ao sentir os músculos protestarem. Caminhando até a sacada minúscula que o quarto do hotel tinha – um pedido insistente que sempre fazia quando podia – ele acendeu um cigarro e se apoiou na grade do parapeito, enquanto observava a cidade.
O vento gelado fustigava o corpo coberto apenas por uma bermuda, deixando a mostra a tatuagem intrínseca nas costas e as entradas nos quadris magros. Tragando o cigarro e soprando a fumaça ao vento, o jornalista assistia um grupo de luzes à sua esquerda, parecendo um conglomerado de estrelas que formavam constelações nunca descobertas.
Estreitou os olhos ao identificar o lugar onde elas estavam acesas. Como o circuito estava com as luzes apagadas, demorou um bocado até ele entender que aquela constelação vinha do estacionamento que mantinha absolutamente todas as luzes acesas. Se havia alguém dormindo naquele lugar, ele queria saber como.
Soprou fumaça novamente ao vento, observando a massa escura se dissolver rapidamente no ar. Amanhã seria um dia de folga, as equipes nos testes também o tinham, e que não teria problemas que ele fosse dormir tarde e acordasse tarde, mas tinha feito alguns planos de passear pela cidade e precisava dormir. Sentia seu corpo cansado pedir pelo sono esperado, mas ao mesmo tempo, percebia a mente alerta como se tivesse acabado de acordar.
Havia abandonado o café horas antes, a fim de fazer o sono se aproximar, e até havia o incentivado com um chá quentinho adoçado com mel, mas nada até agora resolvera. Endireitou-se, e apoiando a cintura na grade, sentindo o metal frio, sacou o celular. Sua mãe havia lhe mandado mensagem mais cedo, e ele não se lembrava de ter respondido.
Abriu o aplicativo de mensagens e equilibrando o aparelho com uma mão rapidamente atualizou as conversas, respondendo se necessário e silenciando quando não precisava dar atenção. Teria tempo de sobra amanhã pra ver tudo aquilo. Avisou Mônica sobre a matéria, sabendo que a editora veria o celular apenas quando chegasse ao trabalho, após um grande copo de chá, e saiu do aplicativo.
Seus dedos o direcionaram rapidamente para o Twitter, que abriu em uma página pré-carregada anteriormente. Era o tweet que Daniel Rico fizera horas antes, sobre o recorde que quase bateu. Milésimos separaram a piloto novata e o cara que tinha feito voltas e mais voltas, testes e mais testes antes de conseguir o feito a ser batido, quase dois anos atrás. Daniel hoje era um dos homens a ser batido, um corredor experiente dividindo o topo da cadeia da temporada com Klaus e alguns outros, incluindo Max Bakker.
A página atualizou quando ele arrastou o dedo de cima para baixo, e o primeiro tweet de resposta, em meio a vários de fãs, era do usuário @rouxleb com vários emojis de coração antes da frase:

Obrigada, Dani. Vindo de você faz parecer ainda maior. Foi demais quase bater seu recorde, um dia eu chego lá.
Com um sorriso ínfimo no rosto, que mal notou ostentar, ele clicou no ícone de retweet de Daniel, abrindo para sua própria mensagem ao texto:

Foi um feito e tanto, devemos admitir. Meus parabéns, @rouxleb, você foi foda!
Clicou em enviar e saiu da página. O sorriso da garota ao dizer a ele que não a convenceria de que ele era um babaca materializou-se em sua mente fazendo-o rir como rira ao ouvi-la. era uma novidade fresca para o automobilismo mundial, mas também era uma novidade para o modo de trabalho de .
Uma novidade bem-vinda.

Capítulo Seis

O fato da Ehrenberg atravessar um momento decisivo em sua trajetória não ajudava na pressão exercida sobre os pilotos.
Sérgio era um piloto excepcional. Tinha irreverência nos bastidores, mas era um sujeito focado quando dentro de um carro de corrida. Charles parecia daqueles tensos o tempo todo, como se estivesse pronto para ser impulsivo e agir de maneira abrupta, mas tinha um controle pleno e absoluto de tudo dentro do carro, conseguia sentir cada problema que se apresentava e corrigir de maneira ágil e eficiente. era quieta, observadora, e parecia enxergar a pista de uma maneira diferente, como se visse a métrica das curvas, a velocidade limite em uma reta e o ponto exato de sair de trás de um carro para ter sucesso na ultrapassagem.
Os três eram espetaculares atrás de um volante, mas parecia que os testes da pré-temporada estavam pressionando-os além do limite. Charles saiu dos testes ainda pela metade ao derrapar dentro da caixa de britas e não conseguir mais sair em uma curva mal feita. Sérgio, que mantinha um foco invejável, tinha errado uma marcha na reta secundária e fizera o carro inteiro fumacear, um problema na caixa do câmbio. ficara marcada com a primeira volta na pista e Markus a tinha deixado de fora, já que o carro não era preparado para ela especificamente, mas mesmo ajudando dentro dos boxes encontrava dificuldades desconcertantes: errava nos diagnósticos simples quando solicitada, se estressava facilmente com os jornalistas na porta dos boxes e mal conversava.
O clima ameno que a equipe tinha encontrado na primeira semana parecia ter se esvaído no dia de folga antes da segunda etapa. Markus, na quarta-feira, parecia pronto para mandar alguém de volta pra casa com uma bela punição interna. Eles tinham apenas mais dois dias inteiros e metade do sábado para deixar aquele carro perfeito para a temporada. Todos os ajustes feitos nele seriam replicados no segundo carro, que estaria na mão da francesa, e o fato de ter uma ínfima chance de um erro passar por todo aquele trabalho minucioso deixava o chefe de equipe com os nervos à flor da pele.
– REUNIÃO EM DOIS MINUTOS. – gritou dentro do boxe. Não eram nem sete horas da manhã, e a voz dele reverberou pelas paredes. Alguns poucos mecânicos que estavam acordados, caminhando pelo local em busca de comida, franziram a testa. – QUERO TODOS AQUI. REPASSEM!
A movimentação que se seguiu a ordem do austríaco era normal: todos se agilizavam rapidamente para cumprir a ordem dele, já que Markus era conhecido pelo pavio curto e ordens diretas.
Enquanto von Trapp caminhava até a porta da frente dos boxes que permaneciam fechadas pelo horário, o pessoal espalhava a informação. Conforme sabiam da reunião, os avisos eram repassados e então após um xis número de pessoas que eram avisadas por um sujeito, esse se encaminhava de volta para a área da reunião, e assim sucessivamente. Dessa forma as notícias de Markus costumavam a se espalhar mais facilmente entre a equipe.
fora uma das últimas a chegar, os cabelos úmidos do banho, vestindo uma calça jeans e a polo do uniforme. Parou ao lado de Charles, mais ao fundo, que ainda mastigava o bolinho que pegara no refeitório. Sérgio estava no boxe mais para dentro, perto de onde von Trapp esperava, os braços cruzados no peito.
– Estamos a dois dias do fim da pré-temporada. Eu não vou tolerar mais erros, vocês entenderam? Não vou. – seus olhos faiscaram, e sentiu a pele arrepiar. Uma coisa era ver o austríaco gritar e ficar vermelho nos momentos de tensão. Outra muito diferente era vê-lo completamente são, a pele clara e pálida, o rosto inexpressivo e com a voz calma.
– Ninguém vai correr hoje. A não ser que resolvam os problemas que esse carro está apresentando, e eu não me refiro apenas à parte mecânica. – ele dançou os olhos entre os três pilotos presentes – Quero compromisso, atenção e foco. E quero agora. Vou abrir essas portas assim que terminarmos aqui, e quero ver isso aqui fervendo de trabalho. Entenderam?
Alguns acenos de cabeça o responderam, e então o austríaco estreitou os olhos.
– ME ENTENDERAM? – gritou e nem chegou a ficar vermelho. respondeu sim junto com todo o resto, sentindo o peso da ordem do chefe. Precisava se recompor.
Von Trapp assentiu, aparentemente satisfeito com as respostas, e então abaixou-se. Agilmente o homem destrancou a porta e a puxou para cima, revelando a pista e o sol incidindo sobre parte da arquibancada que acompanhava a reta principal. Um dos mecânicos rapidamente abriu a outra porta, enquanto o pessoal se movimentava. Alguns voltavam ao refeitório finalizar o café, e a parte da equipe que tinha se alimentado iniciava os preparativos do dia.
No momento que se preparava para subir e colocar o macacão – vestira os jeans na pressa após ser chamada por Annelise, que ouvira o comando ao subir do café da manhã – viu Markus acenando para que ela fosse até lá. Enquanto caminhava entre as pessoas notou que Charlie e Sérgio também foram chamados.
Ótimo, pensou, agora a bronca é particular para uma categoria.
– Vocês três. Eu não quero ouvir um comentário sequer, me entenderam? – ele levantou o dedo e apontou para os pilotos. – Se eu ouvir qualquer coisinha, enfio os três de volta no avião e em casa vocês vão ter uma punição. Eu saio desfalcado aqui, mas é questão de horas pra eu ter Max Bakker, que vai agir de maneira profissional e não me vai causar problemas. Fui claro?
– Sim. – responderam.
– Se recomponham, pelo amor de Deus. – murmurou, se afastando. soltou o ar com força e fechou os olhos. Não sabia o que tinha acontecido, se era a pressão, o nervosismo ou coisa do acaso, mas precisavam se acertar, precisavam ajustar as pontas entre si e com eles próprios.
– Certo, posso propor uma coisa? – Charlie começou, virando-se para os companheiros, os olhos bem abertos. – Vamos nos monitorar?
– Como assim? – Sérgio quis saber, o tom de voz tão diferente sem o toque irreverente.
– Monitorar uns aos outros. Eu estou cansado, recebi algumas notícias de casa nada confortáveis, então parece um sacrifício continuar aqui quando precisam de mim lá. – afirmou, e antes que se manifestasse ele levantou a mão pra ela, sacudindo a cabeça – Não se preocupe, . Estão todos bem, a gente conversa depois.
– Você propõe que a gente avise um ao outro quando estivermos no limite? – Sérgio perguntou, resumindo.
– Sim, isso. Eu não sei se vou conseguir ser menos resmungão hoje, mas não posso ser o responsável por deixar a escuderia em maus lençóis porque não sei dividir trabalho e pessoal. – deu de ombros – O que acham?
– Eu acho perfeito. Minha cabeça tá latejando e eu com dor sou horrível. – a mulher sorriu de leve – Vou adorar se um de vocês puder avisar quando eu for grossa.
Sérgio sorriu, os olhos lampejando naquele brilho sagaz.
– Mas você é grossa quase sempre, docinho. – levou um tapa leve no braço, fazendo os três rir.
– Idiota. – murmurou . Charlie, sorrindo mais calmo, estendeu a mão ao centro do círculo errático que tinham formado.
– Vamos lá, preciso de infantilidade pra me sentir bem com o Sérgio – provocou, fazendo a francesa gargalhar, cobrindo a mão dele com a sua. O brasileiro revirou os olhos, mas fez o mesmo.
– O que querem dizer agora? ERT? Fórmula 1? Sérgio é o melhor do mundo? – incentivou, rindo. A mulher riu dele e sacudiu a mão dos rapazes para baixo e para cima.
– Humilde. – Charlie riu. – HURRA! – gritou em seguida, assustando tanto os pilotos quanto a equipe que estava ao redor. No movimento, ele jogou a mão dos amigos pra cima, gargalhando. abraçou a própria mão, de olhos arregalados, mas começou a rir em seguida.
– Seu idiota!
Sorrindo e saltitando, ele se afastou parecendo visivelmente mais relaxado. sorriu e se encaminhou para o andar de cima para se trocar, pensando em como era fácil suavizar qualquer situação se estivesse no meio daquelas pessoas.

♦♦
– Não se mexe! – franziu o cenho e levantou a cabeça ao ouvir a ordem inusitada às suas costas. Com os braços pra cima apoiando o suporte que Jason, o mecânico, prendia pela parte interna do carro suspenso no elevador, não pode se mover muito além de olhar em direção à voz pela curva interna de seu cotovelo.
O flash brilhou em seus olhos, e a risada de Annelise soou pelo boxe.
– Ai, essa foto ficou linda. – a loira caminhou até a outra, parando ao lado da francesa debaixo do carro e mostrou a pequena tela da câmera fotográfica profissional que tinha presa no pescoço. A imagem estava bonita, com cores fortes devido ao macacão da piloto e dos mecânicos próximos, e o rosto de estava parcialmente escondido no braço estendido, os olhos cinzentos como se estreitando a fotógrafa.
– Só você pra fazer isso, Anne. – riu, sacudindo a cabeça.
– Pronto! – gritou o mecânico, permitindo que baixasse o braço. Em seguida ele apareceu pela escada lateral do elevador, pulando os últimos degraus direto para o chão. – Agora é só recolher. Markus liberou?
– Sim, Jas. Vou chamar os meninos pra te ajudar a empurrar ele pro caminhão.
– Beleza. Obrigado, .
– Disponha. – ela bateu continência pra ele, que riu, antes de se afastar com a coordenadora de RP.
– Me conta, como foram esses oito dias pra você? – quis saber, abraçando o equipamento contra o peito.
– Uma loucura completa. – falou de supetão, provocando riso na outra – Mas eu adoro tudo isso, então é uma loucura gostosa.
– Você é a pessoa mais estranha que eu conheci, sabe disso né?
– Não conheceu muita gente, né? – retrucou, rindo.
– Ei, ei, meninas! – Charles chegou correndo, passando o braço pelos ombros das duas, caminhando alguns passos entre elas – Vamos festinha hoje?
– Hoje, Charles? – Annelise fez careta – Você não cansa, não?
– Não. Vamos lá, sério. Estou contando com vocês. – se separou delas, caminhando na direção contrária de costas – Vou mandar o endereço por mensagem, não quero desculpas!
As duas o observaram caminhar até o boxe para ajudar Jason a recolher o monomotor.
– Ele é hiperativo, não é? – questionou, voltando a caminhar ao lado da RP.
– Com toda a certeza. – riram – Vamos, quero ver se consigo comer alguma coisa antes de irmos.
Enquanto buscavam algo para comer junto de parte da equipe, conversavam sobre a pré-temporada daquele ano.
Os testes terminaram mais cedo naquela manhã, oficialmente, e automaticamente os resultados das duas semanas foram mesclados resultando na lista final de classificação.
A primeira semana, equivalente aos quatro primeiros dias da pré-temporada tinha terminado com Sérgio em quarto e Charlie, depois do tempo enorme perdido na caixa de brita, em nono. , como não estava na lista oficial de participantes dos testes, não tivera o tempo contabilizado de maneira burocrática válida para a pré-temporada. Mas seu nome circulava de maneira extracurricular entre as equipes, isso era fato.
Depois da bronca que os pilotos levaram do chefe de equipe no início da segunda semana, o desempenho geral da equipe melhorou muito. Os três mantiveram fiéis no acordo de monitoramento, e sempre que algum deles apresentava um comportamento não característico ou até mesmo condizente com o momento, levava uma chamada de atenção que com o passar do tempo passou a ser apenas um olhar significativo.
Com essa determinação em classificar a equipe toda em uma boa posição, trabalhou para deixar o carro em perfeitas condições. No último dia Sérgio atingira praticamente o mesmo tempo que a garota, com milésimos de diferença, e Charlie fizera alguns segundos a mais. Assim, a classificação final da pré-temporada, unindo o tempo das duas semanas, deixou o piloto brasileiro em segundo lugar, e Charlie em uma surpreendente quarta posição, já que na primeira semana não tinha obtido bons resultados.
Nesse evento o que contava era o desempenho individual dos pilotos, independente se a escuderia tinha enviado apenas um ou dois como a ERT, mas como a competição dentro da Fórmula 1 era algo realmente acirrado, ao fim de cada etapa sempre percorria uma lista não oficial do ranking entre escuderias, resultado do tempo contado entre os pilotos participantes. Nessa lista, a ERT deixou o Circuit de Barcelona-Catalunya em segundo lugar, atrás apenas da escuderia alemã vencedora da última temporada dos Construtores.
Nem era preciso mencionar o fato de que Markus parecia mais radiante e vermelho que nunca no retorno para casa.

♦♦
– Onde você está? – a voz de Annelise estava alta e franziu o cenho, destravando o carro no estacionamento.
– Me dá uma folga, eu dormi. Estava morrendo de cansaço. – resmungou, jogando a bolsa no banco do passageiro ao embarcar no carro cheirando a novo. Tinha devolvido o carro alugado e criado vergonha na cara de comprar um para substituir o que usava em Turim e deixara na casa dos avós antes de vir para a Inglaterra. Agora podia usufruir do que seu pai chamava de “pé pesado” atrás do volante do Aston Martin Vanquish, seu novo xodó.
– Eu tinha certeza. – gritou, rindo. Então afastou o celular do ouvido e gritou através da sala para o dono da casa – Eu disse, Charlie, ela dormiu!
– Não acredito nisso! – pode ouvir o grito do piloto e franziu o cenho. Girou a chave e ligou o carro, mas teve um pressentimento sobre a festa. Deveria mesmo ir? O pessoal parecia estar bebendo há horas, e amanhã era domingo, folga, mas não estava a fim de perder o dia todo de ressaca.
– Você tem quinze minutos pra chegar aqui, então venha logo. Tchau! – a coordenadora de RP desligou e soltou o celular no console do carro. Com o motor funcionando sob si, batucou os dedos no volante, decidindo.
Após alguns segundos de deliberação, decidiu que valia a pena arriscar, nem que fosse apenas para tirar um pouco do cansaço dos ombros e curtir com os novos amigos. Tinha participado de dezenas de festas como aquela, pequenas e íntimas entre pilotos e mecânicos que preferiam manter as vidas pessoais realmente pessoais. Quando não se saia para curtir a noite, dificilmente apareciam notícias ruins na mídia sobre si, não é mesmo?
Dando ré para sair da vaga e acelerando para fora do estacionamento subsolo do prédio que morava, acionou o GPS do carro com o endereço que Charles lhe passara mais cedo e com tudo ajustado ligou o rádio. Precisava de barulho e cantoria para despertar de vez da soneca que tirara assim que chegara em casa.
Era pouco depois das três da tarde quando aterrissaram ao aeroporto, e quase quatro horas quando o ônibus da escuderia os deixou em frente à sede da ERT, em Milton Keynes. Quase que imediatamente ela juntou suas coisas, jogou dentro do carro e partiu para casa. No caminho mandou mensagem para o agente avisando que estava de volta à Milton, e que era bom que ele não a incomodasse pelas próximas horas porque pretendia dormir.
Depois de um bom banho e de um copo gelado de suco de maracujá de caixinha, guardado na geladeira há mais de uma semana, caiu na cama e dormiu com a toalha enrolada na cabeça e o roupão lhe cobrindo o corpo. Acordou poucas horas depois com uma ligação. Pensou em nem se mexer para alcançar o celular em cima do criado-mudo ao lado da cama, mas também pensou que se fosse importante e ela perdesse geraria uma dor de cabeça muito maior que a que estava sentindo no momento.
Resmungando de sono, ela engatinhou pela cama até alcançar o aparelho. Após relancear os olhos pelo identificador, rapidamente deslizou o ícone verde pela tela e levou o celular à orelha.
– Vó?
Oi ! Ah, que delícia ouvir sua voz, minha menina! – a velha senhora matriarca da família Roux riu, realmente feliz em conversar com a neta. sorriu, ajeitando-se na cama, desperta.
– Ah, vovó! Que saudade que estou de vocês. Tudo bem por aí? Meu avô está bem? – o tom apreensivo que a mulher adotou logo foi refutado pelas palavras da mais velha.
Está ótimo, querida, não se preocupe. Só sabe falar sobre a neta estrela que é piloto de Fórmula 1. – elas riram, e aproveitou a deixa para puxar a toalha e liberar os cabelos, já que sentia uma pressão por ter dormido com eles comprimidos daquela forma. – Liguei por que conversamos por mensagem hoje cedo e você não me avisou se chegou bem ou não.
– Ah, vovó. Desculpe. Chegamos sim, eu estava cansada e acabei dormindo assim que encostei na minha cama. – fez uma careta – Desculpe mesmo se lhe preocupei.
Tudo bem, minha menina, eu entendo. Parece que estou ouvindo você depois do primeiro torneio de kart aos seis anos, se lembra? – riu, perdida em memórias – Você chegou em casa imunda depois de se jogar na lama com as outras crianças, e precisei fazer um esforço extra pra te manter acordada no chuveiro, mas acho que você estava dormindo quando te sequei e coloquei na cama.
– Eu lembro de acordar de manhã e não entender porquê tudo doía. Parecia que eu tinha sofrido um acidente. – riu – Depois vovô explicou que a força que eu fazia dentro do kart era imensa, mas na hora era super normal.
Pra você tudo era sempre normal, criança. – Helena balançou a cabeça sorrindo. Seu marido, Frank Roux, sentado do outro lado da sala em sua poltrona favorita fez sinal para que ela lhe passasse o telefone, assim ele também poderia conversar com a neta, mas Helena fez que não viu com um sorriso. – Você viu os jornais, recente, querida?
Frank fez uma careta.
– Quero falar com ela antes que você lhe dê notícias chatas, Lena. – resmungou consigo mesmo, mas continuou inclinado contra a poltrona folheando o jornal do dia.
– Jornais? Tudo o que eu li, assisti e ouvi nos últimos dias foram sobre tempo, ajustes e melhor volta. – riu, levantando-se da cama e caminhando até a sacada, abrindo as portas de correr.
Perguntei por que vários blogs de fofoca divulgaram que Janelle está na Austrália.
apoiou-se no guarda-corpo da sacada com uma das mãos segurando o celular e franziu o cenho.
– E daí? – questionou, sabendo que a informação estava incompleta.
O site que eu li diz que ela vai ficar por lá com o novo namorado até o primeiro GP desse ano. É claro que começaram a especular sobre a intenção dela de querer falar com você, ou qualquer outra coisa.
A linha permaneceu em silêncio durante alguns segundos, enquanto Helena aguardava e pesava as palavras da avó. Ela entendia a preocupação, mas não via motivo para tanto.
– Eu acho que ela não vai querer nenhuma das opções, vó. Lembra quando encontramos com ela durante o passeio que fizemos em Paris? Janelle nunca quis saber de mim mesmo quando eu era uma criança, duvido que vá querer conversar comigo agora.
Você tem certeza, querida? – a mulher parecia apreensiva, e sorriu.
– Tenho, dona Helena. Não vejo motivo pra ela querer algo comigo, de bom ou de ruim. – afirmou, convicta.
Certo, mas você sabe que Patrick está onde ela está. E você se lembra quando Joseph falou sobre a possibilidade do garoto se ressentir sobre você.
A francesa sacudiu a cabeça, voltando para dentro do quarto e se jogando sobre a cama novamente.
– Eu não sei, vó, parece irracional pra mim que um marmanjo de quase vinte e cinco anos faça picuinha comigo por causa de um problema com meu pai.
Você claramente não conhece os homens, não é querida? – ironizou a avó, fazendo a mais nova rir. – Me prometa que vai tomar cuidado.
– Certo, dona Helena, se te faz dormir melhor à noite eu prometo. Mas fique tranquila, minha passagem por Melbourne vai ser justa, eu mal vou poder curtir. Os jornalistas vão cair em peso sobre mim, você sabe.
Sei sim, querida. Mas você sabe que tudo pode acontecer, não é? Sempre. sentiu um arrepio seguir as palavras da avó e depois riu da bobagem.
– Ótimo, agora me deixe falar com meu avô porque eu sei que ele deve estar aí te perturbando pra conseguir o telefone.
Mesmo pelo fone ela ouviu a gargalhada gostosa do avô.
Passou os minutos seguintes numa conversa interminável com o homem que lhe criara. Adorava aqueles momentos, mesmo que pelo telefone. Quando ainda morava com eles, ou pelo menos ali perto, eles tinham hábitos semelhantes. No fim do dia, sentavam-se juntos na varanda frontal da casa. Ele com uma xícara de chá de hortelã e gengibre, e ela com uma caneca cheia de café. Havia momentos de silêncio, mas geralmente passavam horas conversando sobre o dia, sobre os momentos importantes, ou sobre bobagens em geral, coisas da vida.
Mesmo que não falassem sobre um problema que ela tinha enfrentado na equipe, ou sobre o tempo de determinada prova, ou até sobre o garoto que ela estava gostando na época de escola, amava conversar com ele porque ele sabia o que dizer. Sempre lhe dera os melhores conselhos, sempre dissera exatamente o que ela precisava ouvir, mesmo que não gostasse no momento que ouvia.
Era delicioso estar com eles, ambos seus avós, eram pessoas extraordinárias que tinham lhe dado o mundo. Tinham lhe oferecido tudo mesmo quando mal podiam fazer por eles mesmos. Cuidaram dela quando a idade avançada lhes privavam tantas coisas, e se sentia mais do que grata. Como toda adolescente tivera sim seus momentos de rebeldia, mas sempre se arrependia minutos depois de qualquer chilique pelo simples fato de ter plena consciência de tudo aquilo. Sempre soube. Sempre.
Batucou os dedos no volante no ritmo da música, se lembrando das palavras da avó. A mulher sempre tivera esses momentos. Falava coisas às vezes sem motivo e ou sem nexo, que geralmente faziam sentido um tempo depois. Imaginava que lembraria das palavras dela em algum momento futuro. Sorriu. Sentia falta até mesmo daqueles momentos quase bizarros da avó.
Continuou dirigindo conforme mandava o GPS até receber uma notificação de mensagem de Annelise, dizendo que ela estava atrasada do prazo que ela lhe dera, e depois fez uma piada ridícula e bêbada sobre ela ser uma piloto ótima da Fórmula 1 e não conseguir cumprir um tempo específico.
Revirando os olhos a mulher saiu da rodovia e notou pelo mapa no celular que estava perto. A localização que Charlie mandara era de uma região residencial de alta classe. Quando entrou na rua indicada, a voz no GPS indicou o local alguns metros à frente, repetindo o número que ela inseriu no aparelho ao sair de casa, mas não precisava de nada daquilo.
A rua em frente a casa estava quase totalmente preenchida de modelos sofisticados e caros. Reduziu a velocidade e parou duas casas antes, pra evitar a dificuldade que provavelmente teria pra tirar o carro dali mais tarde se parasse em meio ao conglomerado. Pegou o celular e conferiu se tinha mais alguma notificação, antes de sair do carro, deixando a bolsa no banco.
Trancou o veículo apertando o botão na chave e ouviu o clique do travamento seguido do bipe que anunciou a ativação do alarme. Com seus jeans escuros e jaqueta de couro, ela caminhou displicente pela calçada até a casa do amigo. A entrada de carros ela longa e seguia pela lateral do imóvel até os fundos. A frente era tomada por um jardim bem cuidado e florido, e a casa que ocupava o meio do terreno era toda charmosa, com floreiras, ladrilhos e detalhes em madeiramento antigo. Diferente das festas que frequentou no ensino médio, mal ouvia a música que tocava do lado de dentro, percebendo muito mais claramente as risadas e as conversas variadas. Caminhou pelas pedras da entrada do carro e tomou a trilha de lajotas que seguia até a porta da frente. Mesmo com toda aquela normalidade, tinha um pressentimento, um empuxo que lhe arrepiava de tempo em tempo. Não sabia identificar porque, nem do quê.
Bateu duas vezes, pensando subitamente que não perguntara se devia levar algo, e nem tinha lhe passado pela cabeça passar em uma distribuidora e comprar um vinho ou algo assim.
Então, a porta se abriu e demorou cerca de dois segundos para ter os pensamentos todos varridos de sua mente. Uma única coisa brilhou como aquelas placas de neon anunciando vagas disponíveis em motéis de beira de estrada.
Como uma luz de pisca-pisca, as palavras de sua avó apareceram e soaram como um presságio: você sabe que tudo pode acontecer, não é?
O arrepio que sentira ao ouvir aquilo parecia ter triplicado, somado ainda ao frio que sentiu descendo sua espinha, apenas ao encarar aqueles olhos. Demorara cerca de 10 segundos para reconhecê-lo, mas agora estava parada na porta da casa que achara ser do amigo até meio minuto atrás, sem saber exatamente o que fazer.
Ou o que falar para seu meio irmão, Patrick, que segurava a porta aberta numa expressão neutra que nada revelava.

Capítulo Sete

, olá. – ele sorriu cortês e deu um passo para o lado, permitindo sua entrada. No automático, a mulher passou pelo umbral sem tirar os olhos do rapaz, mas assim que pisou para dentro da sala de estar, com móveis simples e dispostos estrategicamente, foi envolvida pelos braços magros e embriagados de Annelise.
– Finalmente! – gritou em seu ouvido, provocando uma careta na francesa – Achei que você nunca chegaria aqui, nossa.
Sem cerimônias a coordenadora de RP a arrastou pela sala, conversando com todos os presentes e com ao mesmo tempo, apresentando-a para a equipe que preenchia a diminuta sala, pessoas que ela conhecia, mas que aparentemente o estado alterado de Annelise não permitia se lembrar disso.
, ainda sentindo os sentidos entorpecidos e as palavras da avó ressoando alto na mente, tentou se virar para encarar o anfitrião, mas o rapaz tinha desaparecido como num passe de mágica.
Como se nunca estivesse ali.
Eu imaginei isso?, questionou para si mesma, franzindo a testa. Não podia ser possível, podia? Ou fora Annelise mesmo que abriu a porta para mim, e estou sonhando?
Antes que pudesse completar o pensamento, foi colocada sentada no sofá, quase por cima de Sérgio que protestou alto sem tirar os olhos da televisão. Apertava descontroladamente os botões de um controle de videogame, que rapidamente atraiu a atenção de .
– Mortal Kombat? – quis saber, recebendo uma garrafa de cerveja gelada da loira que estava esparramada do seu lado no sofá, a cabeça deitada no encosto, encarando o teto. Parecia mais bêbada do que o recomendado.
– Ah, pronto. – alguém falou do outro sofá – Vai me dizer que além de calar a boca de um autódromo inteiro vai querer dominar minha área?
virou os olhos para o homem ocupando o centro do sofá maior na diagonal em relação à televisão, as imagens de cores fortes refletindo no par de olhos castanhos. A mulher sorriu abertamente para ele.
– Josh, você não sabe que eu sou campeã de Mortal Kombat? – riu, recebendo um revirar de olhos por parte do outro – Você que não me contou que tinha um irmão gêmeo. – indicou o homem ao lado do mecânico, que seria exatamente idêntico à ele se não fosse por uma cicatriz leve na lateral da boca e o cabelo pouco mais comprido.
– Ele não gosta de admitir que eu sou mais bonito que ele. – respondeu o outro, rindo, então estendeu a mão em direção à garota, que o cumprimentou – Sou Jared.
– Me pergunto o que há com a ERT para contratar pessoas com jota. – comentou Annelise, numa voz mais enrolada – Josh, Jason, Jared. Tem também o Jin Hwang, o John na cafeteria. Ah, tem também o Joe. E ainda tem…
franziu o cenho pra mulher, vendo seus lábios continuar se mexendo, mas não emitindo mais som. Então começou a rir, puxando a garrafa de cerveja que ela segurava pela metade e colocando no chão.
– Sem mais bebida pra você.
Rapidamente o pessoal esparramado pela sala e cômodos próximos entrou na conversa, se espalhando pelo chão ou pelas beiradas do sofá. As cervejas continuaram chegando, e o controle do videogame rodou pela mão de todo mundo. Quem perdesse na luta passava para o próximo, e assim seguia.
perdeu rápido a primeira luta, provocando gargalhadas nos gêmeos e na equipe de mecânicos presente, que eram muito mais liberais e falantes fora do ambiente de trabalho. Depois, quando o controle voltou para suas mãos, permaneceu com ele enquanto o segundo fez quase uma volta completa, derrotando todos os outros participantes do rodízio.
Estava de pé no tapete, rindo descontrolada, após ganhar uma partida contra Sérgio que choramingava ter sido enganado quando a voz de Charlie soou perto dela, parecendo totalmente alerta e sem uma gota de álcool no sangue.
– Sabia que tinha reconhecido essa sua voz delicada, . – a cumprimentou com um beijo no rosto. Parecia um sujeito normal e não um piloto usando jeans e descalço, mas ainda assim não combinava com a casa que ela acreditava ser dele. Sorriu.
– Eu não te vi! Parece que faz horas que eu cheguei, mas você não estava em lugar algum.
– Eu estava resolvendo algumas coisas. Se divertindo?
– Sérgio não sabe perder. – comentou, entregando o controle que segurava para Josh, que sorriu – Mas agora estou preocupada com Annelise, que bebeu metade do seu estoque pelo estado que tá.
Os dois olharam para a mulher ainda deitada no sofá, mas que agora dormia ressonando baixinho. Charlie riu baixo.
– Ela disse que queria encher a cara e desestressar, mas não achei que fosse verdade. Vem, vamos levar ela para o quarto.
Cada um pegou a coordenadora de RP por um braço e a levantou. Arrastada entre eles dois, a mulher foi levada pela sala e pelo corredor. dividia o olhar entre o caminho que tomavam e a decoração do recinto.
Desde que chegara parecia estar numa casa usada para gravação de filmes, onde tudo era meticulosamente montado e falso, ao mesmo tempo. Como se as paredes fossem feitas de isopor.
Charlie as levou pelo corredor, passando pela cozinha, por um quarto fechado e pelo banheiro antes de chegarem ao último cômodo do corredor. O homem empurrou a porta e revelou um quarto que fez a francesa estreitar os olhos tanto pela escuridão quanto pela decoração. Era um típico quarto de hotel, com a colcha de cama em tom pastel combinando com a cortina e com a capa do abajur ao lado da cama. Os móveis mantinham o mesmo tom de madeira do resto da casa, e logo que colocaram Annelise sobre os lençóis, se virou para o amigo.
– Você alugou uma casa para a festa? – quis saber, curiosa. Charles levantou os olhos para ela, mas não respondeu. Inclinou-se sobre a cama, puxando a manta leve sobre a outra, então levou para fora do quarto, fechando a porta em seguida.
– Não, eu não aluguei para isso. É uma casa alugada, sim, como você deve ter reparado…
– Não deve ter sido só eu. – ela riu, não entendendo o tom estranho do amigo.
– Você deve ser a única a se importar com isso, pelo fato de ter visto Patrick na porta.
Ela observou Charlie em silêncio, sentindo a estupefação se alastrar por seu corpo. Não conseguia assimilar. Era mesmo Patrick? Quer dizer que não estava ficando louca com excesso de cansaço, ou qualquer coisa parecida? Mas ao mesmo tempo aquela sensação enviava todo o tipo de alerta pelo seu corpo, as palavras pressagiosas da avó ecoando em seu cérebro, lhe deixando mais nervosa do que estaria em uma situação normal.
Deveria se preocupar, ou era o tom e as palavras de efeito de Dona Helena que estavam lhe causando aqueles sentimentos confusos?
O rapaz a assistia pesar suas palavras. Não queria ter jogado o assunto daquela forma em cima dela, aprendera a gostar de rapidamente, com aquele jeito tranquilo de lidar, mas exigente em relação à sua carreira. Charles considerava aquilo, respeitava. Mas ao mesmo tempo, conhecera Patrick muito antes dela, e o tinha em sua vida numa estima mais alta do que a recém-chegada. Quando o homem lhe pediu, ele aceitou.
Estendeu a mão na direção dela, que hesitou antes de pegá-la, e a levou de volta pelo corredor. Antes de entrarem na sala, ao invés, pararam na cozinha. entrou atrás dele, mas seus olhos rapidamente se focaram nas costas largas do homem que lavava a louça, de costas para a porta, e não se abalou ao ouvir a voz de Charles.
, eu sei que a situação é no mínimo bizarra, mas dê uma chance, ok? Por favor.
Se virou, sem chance dela responder, e caminhou até Patrick, que se virava. Esticou-se na ponta dos pés e deu um beijo cálido no namorado, que sorriu em seguida. assistiu enquanto Charlie sorria para ele, antes de sair da cozinha sem olhá-la novamente. Patrick secou as mãos em um pano de prato ao se apoiar na pia, olhando para a jovem.
Sob a luz incandescente a francesa conseguia ver algumas semelhanças com Janelle, pelas diversas fotos que vira da mulher, mas podia ver muito mais das características do pai que ambos compartilhavam. Era engraçado em determinada situação como Joseph conseguia fazer filhos que eram tão parecidos com ele. Apoiou-se no tampo de granito da ilha que dividia a cozinha, sem saber exatamente o que fazer.
– É confuso, eu sei. – Patrick se manifestou, cruzando os braços. Usava um suéter caramelo por cima de uma camiseta branca, pelo que a jovem podia ver no colarinho, e o movimento ressaltava os músculos do peitoral e bíceps.
– Confuso nem começa a descrever. – respondeu, entortando a cabeça. – Você pediu que Charlie me chamasse hoje? – adivinhou.
– Pedi. Tive a ideia na semana passada, e quando sugeri ele ficou bravo, não queria se meter. Brigamos por telefone, enquanto ele estava com vocês.
assentiu, subitamente entendendo a explosão de Charles com Sérgio e tudo o que se passou em seguida. Respirou fundo, notando o contexto da situação, o aprofundamento.
– A casa é sua? – quis saber, pensando na mobília simples e na falta de itens pessoais espalhados pelos cômodos, lembrando rapidamente de uma conversa entre Charles e Max uma tarde, sobre o apartamento do inglês no Centro. Não tinha se recordado disso quando o homem lhe passara o endereço mais cedo.
– É alugada. – deu de ombros – Era temporária, mas acabou que os apartamentos dessa cidade são muito ruins. Você comprou um dos bons.
A mulher o encarou, ouvindo novamente o tom de alarme nas palavras da avó. Ele sabia onde ela morava. Estava em perigo? Não se sentia em perigo. Patrick parecia calmo, tranquilo. Mas o que diabos ela entendia sobre psicopatas, não é mesmo?
– Temporária. Você se mudou pra cá de vez? Achei que ia deixar sua mãe ditar seus passos pelo resto da vida.
Sentiu que era a defesa levantando muros que falava por si. O tom de voz, a postura. Não sabia onde Patrick queria chegar, não sabia nem se queria ir com ele. Apesar do tom satírico, o homem riu, se desencostando da pia e caminhando até a ilha, colocando o granito preto entre ambos.
– Ela sempre quis. E era conveniente deixá-la achar que estava fazendo exatamente isso.
– Onde ela acha que você está, então?
– Estocolmo. Num curso intensivo. – ele sorriu quando ela ergueu as sobrancelhas e deu de ombros – Eu sei mentir muito bem.
– Se esconder também. – respondeu, sem pensar. Patrick sacudiu a cabeça, ainda sorrindo.
– Sim, mas não estou me escondendo. A situação é atenuante. Eu estou aqui a trabalho, um trabalho que está durando mais do que o normal. Só isso.
– Mas… Charlie? – franziu o cenho, indicando vagamente em direção à sala, de onde ainda se ouviam as risadas e conversas, eventualmente seguido de gritos de comemoração por conta do jogo.
– É, eu podia ficar lá com ele, mas seria mais fácil para Janelle descobrir. Apesar do que Joseph acha, ela é ainda meio aficionada por ele e, por consequência, tudo o que se sucede à ele.
– Eu. – a mulher fechou os olhos, soltando o ar com força. Cada vez mais pensava que a avó estava desenvolvendo poderes místicos de saber o futuro. Quando voltou a abrir os olhos, o homem sacudia a cabeça, ao se afastar novamente pela cozinha. Abriu um armário e voltou a falar.
– Você, sim. Mas também as corridas em si. Ela realmente gosta de Fórmula 1, ou aprendeu a gostar, sei lá. Sempre assistiu, mesmo quando estava a trabalho pelo mundo. – retirou dois copos e os colocou sobre a mesa, pegando em seguida uma chaleira elétrica do suporte no canto do balcão. – E também tem a segunda esposa e as crianças.
– Ela acompanha a vida de Denise e das meninas? – levantou as sobrancelhas e sacudiu a cabeça, olhando para o lado – Ela é mais maluca do que eu imaginava.
Patrick a encarou e notou que era um ponto sensível. Levantou os braços num pedido de desculpas silencioso, mas ele a ignorou, voltando a se concentrar em despejar água fervente sobre um filtro de plástico que tinha preenchido com pó de café sobre as xícaras. O cheiro rapidamente se espalhou pela cozinha.
– Escuta, eu tenho plena consciência de quem minha mãe é, e do que ela é capaz, mas ainda é minha mãe.
– Eu não disse que não era. – a garota o encarou por cima da xícara que ele a estendeu. Enquanto ele alcançava o açucareiro, cheirou a borda da caneca antes de beber um gole.
– Sem açúcar? Corajosa. – sorriu de lado, mexendo o conteúdo antes de beber.
Ficaram em silêncio alguns segundos antes de se sentir subitamente cansada daquele jogo.
– Patrick. – ele a olhou, esperando – O que você quer, afinal?
– Acreditaria em mim se eu dissesse que não sei? – retorquiu, fazendo-a suspirar. Sacudiu a cabeça, coçando um dos olhos – Minha mãe me fez crescer ouvindo todo o tipo de coisas sobre você, meu pai e a nova família dele. Tudo o que você puder imaginar. Quem escolheu o internato em Milão fui eu, tudo para me afastar daquela casa e daquele clima de veneno. Depois que terminei os estudos, eu fiquei sem saber o que fazer, e ela tomou conta novamente. Queria que eu fosse engenheiro, ainda sonhava que eu entrasse para o mundo do meu pai. – revirou os olhos, se apoiando no outro balcão, ficando de perfil para . O tom de voz e a postura fazia-a entender que ele estava praticamente revivendo tudo o que falava – Você deve imaginar todo o tipo de impropério que ela falou quando você conseguiu, não é?
– Imagino. – concordou, dando de ombros. Ele soltou um riso sem humor.
– Então eu entrei pra faculdade de direito, queria distância de tudo o que fosse ligado à corridas e automobilismo. Para o total desgosto dela. Mas eu tinha saído de casa, tinha guardado dinheiro e podia muito bem me virar sozinho, então eu a deixei sem meios de interferir diretamente na minha vida durante algum tempo. – suspirou – É claro que ao descobrir que eu prefiro sair com homens ao invés das filhas de suas amigas modelos ela praticamente teve um infarto. Foi levada ao hospital e tudo. E é claro que usou a situação pra me fazer chantagem, e eu cai como um completo idiota.
ouvia tudo em silêncio, sem saber se devia responder, ou como fazê-lo.
– Mas, de qualquer jeito, eu sabia como ela era e quando se tornou demais eu fui embora. De novo. A faculdade foi um divisor de águas, e de Marselha eu fui embora para Paris. Inclusive, foi lá que eu conheci Charles, num golpe do destino. Participamos da mesma festa entre amigos em comum, e eu o amei bem antes de saber que ele era piloto. Acho que é um carma. – deu de ombros – Já aprendi a lidar com isso. Enfim, eu fiz de tudo, tudo mesmo, pra me afastar disso. Não suportava a ideia de ouvir falar sobre Joseph, até encontrar Charles. Era basicamente um tabu, um crime citar o nome dele perto de mim. Graças a Deus ainda existem pessoas que não o conhecem, então eu sempre me apresentei como Patrick Beaufort. Funciona bem pra mim.
– Casos trabalhistas. – a mulher sacudiu a cabeça, reconhecendo o nome de súbito – Ouvi falar de você.
Ele assentiu, ainda parecendo perdido em pensamentos.
– Aposto que sim. Fizeram uma reportagem sobre nosso trabalho aqui, algumas semanas atrás. Vim pra cá temporariamente cuidar de um caso complicado de abuso em local de trabalho, a equipe é grande e a empresa tem nome forte, então estamos basicamente combatendo agentes governamentais e… – suspirou, voltando a olhar para a meia-irmã – Enfim, basta saber que é cansativo, por isso nunca decorei a casa.
assentiu novamente, sem saber direito o que pensar ou falar. Sentia-se boiando em mar aberto, perdida. Tinha ouvido a matéria sobre o projeto durante um dos almoços no complexo, mas não tinha realmente prestado atenção com toda a confusão de pessoas conversando e comendo ao mesmo tempo. Só se lembrava por conta do sobrenome, que lhe dera um estalo. Conhecia-o de algum lugar, mas não tinha certeza de onde. Agora, podia se lembrar com clareza do que a fizera gravar.
Beaufort era o sobrenome da família. Quando os pais de Janelle se casaram, houve um problema no cartório de registros, e o sobrenome foi alterado. De Beaufort, o casal foi registrado como Beaumont. Na época eles tentaram consertar após descobrir o erro, mas alterar a documentação era caro, e levava tempo, então desistiram. Assim, Janelle fora registrada como Beaumont, assim como Patrick anos mais tarde. É claro que usar o sobrenome da ex-esposa de um ex-piloto de Fórmula 1 que bateu recordes e fez história era simplesmente o mesmo que balançar um letreiro neon sobre a sua cabeça e anunciar quem era. Pelo que tinha entendido, Patrick queria discrição. Usar o sobrenome original dos avós era o mesmo que se manter anônimo.
– Janelle não tem ideia de onde você está? Você é um advogado de renome, ela deve ter visto matérias suas sobre seu trabalho aqui.
– Por mais incrível que pareça, minha mãe não assiste jornais. – ele deu de ombros, bebendo mais um gole de café – Eventualmente ela joga meu nome no Google para pesquisar sobre mim, mas ela ainda não me ligou aos berros, então acredito que não descobriu.
– Você… – a mulher parou e respirou fundo, ainda tentando organizar os pensamentos com toda aquela carga de informação que recebera – Você não liga se ela descobrir? – concluiu, num tom quase chocado.
– Na verdade, não. Não tenho nada a esconder dela. Faço o que faço porque quero paz, mas não tenho problemas reais com ela.
Deu de ombros outra vez, parecendo não se importar. O mover de seus olhos de um lado a outro indicaram outra coisa, mas estava transtornada demais para perceber.
– Você veio pra cá por causa do trabalho? – quis saber, direta.
Patrick ficou em silêncio. Não sabia ao certo como responder aquela pergunta. Se dissesse a verdade ela talvez não acreditasse, mas não se perdoaria se mentisse. Nunca tivera problemas em contar histórias fictícias para a família e amigos quando lhe convinha, às vezes para proteger informações sobre o trabalho ou até para não comparecer a algum evento. Geralmente eram coisas bobas, do cotidiano. Mas ali em frente à sua meia-irmã, não conseguia simplesmente mentir. Era como se a energia que emanava de repelisse aquele tipo de comportamento.
– Eu vim pra cá um mês antes do projeto ser colocado em ação. Foram duas semanas de preparação, em sigilo, pra que a gente iniciasse com vantagem sobre a empresa acusada.
– Então você esteve aqui por duas semanas antes de ser chamado para trabalhar. – ela concluiu silenciosa. Ele assentiu, concordando. A mulher respirou fundo. – Posso saber o motivo?
– Olha, eu sei que parece premeditado, que eu vim pra cá por um motivo maior como um vilão de desenho infantil. Mas não é. – ele soltou a xícara e se aproximou novamente da ilha – Eu não vim pra cá te fazer mal ou qualquer coisa parecida. Eu vim pra cá porque eu me apaixonei pelo Charles, mas ele é muito bobo e inconstante pra saber. É um dos motivos de eu ter alugado a casa ao invés de ter batido na porta dele.
o encarou nos olhos por alguns segundos, notando que ele despejara aquele mini discurso como se quisesse se livrar das palavras entaladas na garganta. Notou, então, que era uma confissão própria, algo que o rapaz nunca tinha dito em voz alta e que agora encarava o chão com olhos bem abertos, como se chocado que aquilo tivesse saído de dentro de si. Respirava rapidamente, de maneira rasa, atordoado. A mulher por fim sorriu, assistindo a grande revelação da noite. Se inclinou na bancada fria e levantou o rosto do rapaz com a ponta dos dedos, até que Patrick estivesse olhando-a nos olhos.
– Você devia dizer isso à ele. Tenho certeza que Charlie vai entender.
O soltou e se afastou. Por menos que a conversa tenha esclarecido seus pensamentos, sabia que Patrick estava ali, na mesma cidade que ela, namorando o cara que trabalhava com ela, por mais pura coincidência ou culpa do destino. Qualquer que fosse o motivo, não era o suficiente pra ela se preocupar.
Quando estava pronta pra sair da cozinha e ir embora, preparando mentalmente o corpo para uma quantidade enorme de horas dormindo, Patrick chamou.
.
A mulher se virou, voltando seus olhos para o rapaz. Os cabelos dele eram lisos e estavam despenteados, as pontas caídas sobre a testa. Ele os jogou para trás ao mesmo tempo que esfregava a nuca, soltando o ar pela boca com força. Parecia mais do que nunca com um Joseph nervoso diante de um pódio muito aguardado, como ela já tinha assistido em vídeos espalhados pela internet.
– Você me odeia? – perguntou, sem encará-la.
– Não. – respondeu ela, de imediato. Viu quando os ombros do rapaz relaxaram, e não pode evitar completar – Não te conheço o suficiente pra te odiar, Patrick. Mas se magoar meu amigo, talvez a gente entre no mérito da questão.
Saiu da cozinha sem esperar outra interrupção, que não veio. Passou por Charlie, encostado na entrada do corredor, encarando a televisão sem realmente enxerga-la. Deu-lhe um beijo na bochecha e caminhou em direção à porta, acenando e se despedindo dos presentes de longe. Ouviu gritos de despedida, e quando se virou para acenar com a porta aberta, não enxergou Charles em lugar nenhum. Sorrindo, bateu a porta atrás de si.
No caminho para casa ligou o rádio do carro num volume bem alto e deixou as janelas abertas para que sentisse o ar gelado da Inglaterra. Estava cansada em um nível altíssimo, e depois de todo aquele drama não queria nada mais além de se jogar na cama para dormir. Queria ocupar a mente o máximo possível até lá para que não fosse obrigada a pensar no assunto.
Tentou ao máximo se distrair, queria tirar aquilo tudo da cabeça, mas não conseguiu. Quando chegou em casa, se pegou apoiada no elevador, encarando o vão da porta fixamente enquanto o movimento ascendente e calmo relaxava seu corpo.
Por fim, rendeu-se. Mal notou a ação automática de entrar em casa, trancar o andar de baixo ao subir em direção ao quarto, muito menos soltar a bolsa e tirar a roupa, caminhando em direção ao banheiro. Apenas quando sentiu a água sobre o corpo foi que acordou e revirou os olhos, já que tinha tomado banho mais cedo.
Patrick não era o problema. Até aquele momento ele era apenas uma pessoa em quem pensava raramente, principalmente quando notava o estado taciturno do pai. Sabia que Joe sentia falta da criação do filho, se doía pelo afastamento, e conhecia o velho bem o suficiente pra entender sua dor. Então Patrick não era exatamente o problema, por mais que sempre que pensava sobre ele estava de alguma forma atado ao cerne da questão.
A complicação da história geralmente entrava quando Janelle era mencionada. Ao contrário do que vira no rapaz, sabia muito bem que Janelle sim era capaz de se mudar para a mesma cidade que ela apenas para estar presente na vida dela a fim de interferir na vida de Joseph. Durante o namoro dele com Denise era exatamente assim que ela agia, insinuando na mídia sobre a conduta de Denise, condenando a mulher a amante ou outras baixarias inverídicas.
Certa vez a garota duvidou quando a história foi contada, mas bastou algumas pesquisas rápidas na internet pra resgatar todas aquelas injúrias. É claro que Janelle era uma mulher inteligente, e não se deixava chegar ao ponto de poder ser levada à termos jurídicos conforme aquilo que falava, mas a linha entre os lados era tão tênue que Denise admitiu uma vez que não foram poucas as vezes que cogitou tal medida.
Saiu do banho rapidamente, os cabelos presos em um coque alto, e de roupão desceu até a cozinha. Ao mesmo tempo em que queria acreditar do meio-irmão, sentia receio. Receio de que por trás de uma atitude verdadeira e espontânea havia a semente de intriga plantada pela mãe.
Tudo o que era relacionado com Jane, gostava de manter um pé atrás por precaução.
Munida com uma taça de vinho tinto pela metade, a mulher alcançou um pacote de salgadinhos orgânicos e subiu de volta ao seu quarto. Subitamente perdera o sono, mesmo sendo tarde o suficiente para derrubá-la. Jogando as cobertas para o chão, ajeitou um ninho com as mantas e travesseiros, sentando-se no chão com as costas apoiadas na cama de frente para as janelas abertas. O vento no sexto andar era mais forte, e fazia um barulho contínuo ao atravessar os vãos, mas não ligava.
Alcançou o celular de cima da cama e desbloqueou o aparelho, vendo o ícone de notificação do aplicativo de mensagens.
– Bem você que eu queria. – comentou sozinha, vendo o nome da madrasta em negrito, uma mensagem não lida. Abriu a mensagem e leu o cumprimento. Perguntou se a mulher podia conversar em vídeo, e ao invés de responder, Denise logo iniciou a chamada.
A imagem da brasileira estava escura, a luz do celular iluminando apenas parcialmente o rosto limpo da mulher que sorriu, exibindo os dentes brancos.
Oi querida.
– Perdeu o sono também, Dê? – quis saber, apoiando o aparelho no joelho.
Pois é. Estava editando algumas fotos e acabei perdendo a hora. Agora o sono que me perdeu. – riu baixinho. Pelo jeito a mulher estava na sala de estar da casa em Le Mans, e mesmo que ela gritasse duvidava que o pai acordaria. – E você, festou muito?
– Na verdade não… – franziu o cenho – Espera, como você sabe?
Erik não te avisou? Bouchard te pegou saindo de uma casa no subúrbio. Você e vários outros integrantes da equipe.
– Jura? – a francesa revirou os olhos, minimizando a aba de vídeo e abrindo rapidamente o aplicativo de navegação. Demorou apenas alguns segundos para encontrar a página onde o tal Bouchard publicara algumas fotos da casa que Patrick alugara e servira de ponto de encontro para uma parte da equipe da escuderia naquela noite. Além de uma foto dela própria saindo meio intempestiva, com uma expressão confusa e de olhos arregalados, parecendo um tanto embriagada, havia registro da saída de Josh e Jared, Sérgio e outros, separadamente. O texto que se seguia, curto, dizia apenas que a equipe fora fotografada deixando uma casa onde acontecia uma festa para uma parcela dos funcionários da escuderia, que mal haviam chegado da pré-temporada. Além disso, o jornalista relatou que e Sérgio pareciam alterados, enquanto os gêmeos mecânicos foram taxados como violentos, já que saíram da casa se batendo. Conhecendo os dois como conhecia, mesmo que pouco, tinha certeza que era tudo encenação e brincadeira, mas Bouchard parecia ser um sujeito oportunista.
Viu? – a brasileira quis saber, notando que a enteada estava concentrada lendo algo no celular, os olhos dançando pela tela. Por um momento pensou como aquela imagem era estranha, já que parecia que olhava de um lado para o outro em seu rosto.
– Ele é um cretino. – resmungou, a voz preenchida num misto que pareceu raiva e nojo para Denise. Com mais alguns movimentos com os dedos, a mais nova pareceu enxergar a madrasta novamente, que assentiu, vendo a outra responder.
Ele é jornalista, querida. É disso que eles vivem. Você devia saber.
– Eu sei. Mas esse aí parece empenhado. – revirou os olhos, alcançando a taça de vinho e tomando um gole – Eu mal bebi, Sérgio estava grogue de sono e os gêmeos são naturalmente baderneiros. Agora parecemos um bando de delinquentes.
Denise riu, acostumada como estava quando a enteada se estressava. Geralmente ela surgia com as expressões mais icônicas e hilárias exatamente nesses momentos, e tanto Luísa quando Felícia adoravam ouvi-la, no que Joseph costumava chamar de dar corda.
Afinal de contas, o que era essa festa? Ainda mais nessa casa.
Denise estava observando a enteada atentamente, então notou a mudança nos olhos cinzentos da garota. Ela era um livro fácil de ler, assim como o pai, e Denise estava mais do que acostumada a olhar aquelas páginas. Levantou uma sobrancelha e aguardou. Ela falaria, uma hora ou outra, bastava se organizar pra isso.
– É uma moradia temporária. Patrick a alugou enquanto o trabalho dele aqui estiver em andamento.
Denise ficou sem reação durante alguns segundos, até arregalar os olhos.
Patrick? Como em Patrick Beaumont?
– É.
Espera. A gente está falando do mesmo Patrick?
– Filho de Janelle e de Joseph Adam Leblanc? Patrick que nunca quis ver o pai porque tem uma mãe absurda? – assentiu – É, estamos. E pode acreditar, eu ainda estou tão chocada quanto você.

Capítulo Oito

? Preciso de você aqui em baixo.
A voz do designer da escuderia soou pelo alto-falante do celular quando a garota reproduziu o áudio que recebeu na segunda-feira pela manhã. mal tinha terminado de se trocar, e ansiava por um café.
Enquanto saia do quarto dentro do complexo, digitou uma mensagem à Jin Hwang, avisando que passaria no refeitório buscar um copo de cappuccino antes de descer até a sala dele. Caminhou pelos corredores que tinha aprendido a decorar mexendo no celular, atualizando o feed de notícias dos aplicativos e observando a vida alheia.
Buscou seu copo enorme de cappuccino e iniciou a descida até o andar da engenharia, situado no primeiro subsolo. Max estava alguns passos a frente, entrando em uma sala de simulação. , ao passar por ele, deu-lhe um tapa de leve com as costas dos dedos em sua cintura, fazendo-o se virar para ver quem tinha lhe batido.
– Ei! – falou alto. Ela olhou por cima do ombro ainda caminhando, mas ao vê-lo esperando, parou e voltou.
– E aí.
– Qual é a da festinha que ninguém me convidou?
– Ih, discuta isso com seu melhor amigo. – ela riu – Ele que chamou, ele que organizou. Mas acho que foi meio de última hora. – deu de ombros, colocando o celular no bolso interno no macacão de treino.
– De última hora uma ova – protestou Max, rindo – Ele até arranjou uma casa pra festa, por favor. Só basta me dizer que não queria me convidar, eu entendo.
– Entende? – riu, desviando os pensamentos novamente para o motivo da casa temporária – Eu duvido.
– Tá bem, não entendo. Eu sou tão legal! Por que não me chamar? Eu amo festas. – ele colocou a mão no peito e quase acreditou no teatro afetado.
– De novo, vai ter que discutir com seu melhor amigo. Eu estou atrasada. – acenou um tchauzinho enquanto deixava-o na porta e seguia o corredor até a sala de Hwang. Max ainda protestou às suas costas, mas ela não lhe deu ouvidos. No domingo, quando ele enviou o link da matéria de Bouchard no grupo que tinha acabado de criar e colocar ela e os dois pilotos de testes com vários emojis chocados, sabia que ele estaria invariavelmente irritante sobre isso.
Preferia passar o dia pensando numa maneira de fazer Max sossegar do que no motivo de sua tensão durante o fim de semana. A conversa com Denise tinha ajudado um pouco. Várias vezes durante o dia seguinte ela tinha se pego pensando sobre exagero. Às vezes realmente parecia tudo uma reação muito exagerada, uma situação fora de contexto, mas normal, e então sentia que podia ser normal, mas ainda era um absurdo.
Nunca achou que fosse encontrar Patrick, principalmente sem um motivo aparente. O garoto queria apenas vê-la? Tinha algo mais a falar, mas se perdeu? Queria apenas ver como ela era para passar as informações para a mãe maluca?
Tá, certo, a última alternativa era muito parecida com hollywood para ser verdade, mas não conseguia simplesmente descartar as alternativas malucas. Porque a situação era toda maluca demais pro seu gosto.
Patrick lhe parecera uma pessoa de boa, um sujeito tranquilo com problemas pessoais e de relacionamento como todo mundo, afinal de contas ninguém é invulnerável ao amor. Ainda assim sentia que seu corpo inteiro pressentia um detalhe ruim na história, uma pequena mancha que transformaria tudo em caos quando o verdadeiro motivo daquele encontro fosse revelado.
Percebia que um pouco daquele pânico estressante era fundado nas palavras pressagiosas da avó. O tom da mulher e a conversa horas antes do encontro com o meio-irmão era muita coincidência pra não ser destino, e se sentia confusa entre a emoção e a razão. Devia acreditar em quê? No que seu coração mandava, como a maioria dos ditados pedia, ou em seu cérebro e na razão, como uma pessoa sã faria?
– Terra para . Alô? Tem alguém aí? – Hwang, parado na porta da sala, estalou os dedos na frente da mulher, que passava por ele sem nem olhar para o lado, os olhos vidrados.
E.T. Phone. Home. – a francesa retornou a si, entrando na brincadeira. Sorriu para o designer, que sacudiu a cabeça sorrindo.
– Certo, E.T. O pessoal está te esperando. Tomou seu café? – perguntou, seguindo com a mulher pelo restante do caminho.
– Com toda a certeza. Estava precisando de uma dose de cafeína.
– Tô vendo que a equipe vai ter de cortar um dobrado pra aguentar você com essa energia toda. – eles riram enquanto percorriam os últimos metros antes da sala de engenharia mecânica, onde geralmente avaliavam dados eletrônicos de todos os aspectos dos carros.
– E aí, o que querem de mim hoje? Análise de movimento?
– Não. – ele sorriu enigmático e empurrou a porta com o corpo, dando espaço para a garota entrar.
Na parede contrária à porta ficava pendurado e acoplado a máquinas de última geração uma dezena de monitores. Parecia coisa de filme. Cada um deles exibia uma sequência de dados diferente sobre aceleração, movimento, redução, ou seja, todo o comportamento físico e mecânico do motor e da carenagem de um carro da Fórmula 1. Mas, além disso, no centro de toda aquela parafernália que estava acostumada a ler sem dificuldade havia um monitor aceso com apenas um desenho. Era o render perfeito do modelo do carro daquele ano, o EH20, com pintura nova e motor atualizado de acordo com a montadora.
Ela sorriu ao ver o desenho. O carro era azul escuro, como no ano anterior, mas agora os frisos vermelhos eram acompanhados por uma linha rosa, que simbolizava a presença dela na equipe. Todo o carro tinha desenhos geométricos seguindo essa ideia, utilizando ainda o branco para detalhes. O modelo exibido na tela era o seu próprio, seu nome em forma de assinatura perto da roda dianteira do lado esquerdo, abaixo do número 71, que fora a única solicitação colocada em contrato, que era o mesmo número que seu pai usara ao correr a última temporada na Fórmula 1, aquela que o consagrou campeão pela sexta vez.
– Ficou lindo! Por isso o modelo que levamos na pré-temporada ainda não estava atualizado? – quis saber, se virando para o designer, que assentiu.
– Sim. Tivemos um problema com o silk que atrasou a pintura em alguns dias. Mas está tudo certo.
– Espera, está pronto? – ela arregalou os olhos e Jin sorriu largo.
– Claro.
não conseguia assimilar. Para que o carro passasse pela finalização do designer, com pintura e silk e toda a parte visual ele deveria estar pronto, e isso significava montado de acordo com o piloto. Jin Hwang, sabendo que a mulher estava surpresa, caminhou pela lateral da sala até uma porta que não reparara antes. Empurrando-a aberta, entrou em uma área que ela só tinha ouvido falar até aquele momento.
Seguindo-o de perto, observou o lugar com um misto de sentimentos entre felicidade e êxtase, todo o resto esquecido.
A área de treino dentro do complexo da Ehrenberg Racing Team era circular no exato centro da sede. Iluminado por luz natural vinda de uma abertura também circular, mas de um diâmetro menor no teto, podia ver todo o circuito que era curto, se comparado aos circuitos oficiais, mas de um tamanho ideal para testes rápidos de movimento com os carros.
Ao todo, era composto por cinco curvas e uma reta levemente curvada como no circuito de rua de Monte Carlo, em Mônaco. Estacionado na diagonal no meio da pista, estava o modelo em tamanho real do desenho que ela viu no computador.
Ao vivo, cada número na lateral do carro era do tamanho da palma de sua mão. A assinatura, logo abaixo, parecia mais delicada. Passando pelo gramado sintético e pela zebra na borda da pista, a mulher se esticou para deslizar os dedos pela carenagem, deslumbrada. O sentimento de ver seu carro pronto era transbordante, e ela sentiu as lágrimas preenchendo os olhos. Riu, se sentindo automaticamente uma boba. Era só um carro, diriam, mas ela sabia que era mais.
Era a transformação do sonho em realidade. Ao mesmo tempo que a emoção de ter participado de todas as outras categorias, até mesmo no kart, era algo a ser considerado em sua própria história, aquele momento era com o qual ela sonhara desde criança. Na pirâmide de suas realizações, ser um dos pilotos principais da Fórmula 1 preenchia o topo, aquele espaço que parecia pequeno, mas que guardava uma ambição gigantesca.
Sentir as curvas suaves e desenvolvidas para que o ar passasse com desenvoltura pelo material resistente, capaz de lhe dar alguns preciosos segundos em pista, era sentir que finalmente estava lá. Era como se a ficha caísse, então, quase dois meses depois de ter sido oficialmente apresentada. Mal conseguia acreditar.
Jin permanecia fora dos limites da pista, ainda perto da porta, os braços para trás, enquanto assistia a inspeção da mulher. Ela deu a volta completa analisando todos os detalhes do carro, mas o designer conseguia perceber a satisfação dela mesmo sem ver o sorriso discreto que ela tinha no rosto. Após completar duas voltas ao redor do monomotor, parou de frente para ele, a mão na asa traseira e o sorriso quase maior que o rosto.
– Ele é maravilhoso.
– Você só vai ter certeza disso depois de uma volta. – ele acenou em círculo, indicando a pista. Ele podia jurar que vira uma centelha brilhar nos olhos da francesa, que abriu a boca em surpresa.
– Eu posso? – ele assentiu, rindo baixo – Agora?
– Claro que agora, Leblanc. – cruzou os braços. – Você achou que eu te trouxe aqui pra alisar o carro?
– Engraçadinho. – ela riu, saltitando em seguida até onde ele estava – Vou pegar meu capacete.
– Devia ter trazido! – gritou, mas ela já tinha ido.
Menos de cinco minutos depois ela retornava com o capacete na mão, conversando com Josh. Ele carregava o hans e as luvas da garota.
– E aí Jin. – eles se cumprimentaram enquanto a mulher colocava o capacete no chão e pegava o suporte de proteção do pescoço e cabeça das mãos do rapaz. Colocando-o no lugar, se virou para que Josh o prendesse em seu corpo e macacão.
Com a proteção ajustada no corpo, ela colocou o capacete e prendeu a fivela, caminhando em direção ao carro. O mecânico ajudou a mulher a entrar no monomotor, segurando o volante solto e voltando a prendê-lo no lugar quando ela estava acomodada. Lhe passou as luvas e enquanto ela as vestia ele afivelou seu cinto.
Automaticamente apertou o volante, girando os dedos, sentindo todo o conforto dentro do modelo projetado especificamente para seu corpo. Sorriu, mesmo que a dupla de homens ao lado do carro não pudesse ver, e se agitou como uma criança. Jin, que a observava atentamente, sorriu.
– Ah, ótimo! – ouviram a voz perto da porta e virou o rosto, encarando Max que caminhava a passos lentos agora dentro da pista. – Achei que ia perder isso. Você disse que ia me avisar! – ele deu um soco no ombro de Josh, que riu, negando.
– Você veio assistir? – ela perguntou, a voz saindo abafada. Max riu como se ela tivesse feito uma piada.
– Você tem alguma dúvida disso? Eu e a galera. Até Markus veio. – ele acenou para o alto, e levantou as sobrancelhas surpresa ao olhar na direção indicada.
Por ser um local isolado, mas banhado de luz natural, as paredes subiam por três andares – a altura do prédio ao redor – de cimento maciço e isolamento acústico, pra evitar que o som produzido ali atrapalhasse o trabalho nas salas que dividiam aquela parede.
Observando agora, conseguia notar que em intervalos regulares no segundo andar haviam salas de observação, com grossos vidros separando o espaço confortável e climatizado, com cadeiras e monitores da pista de treino em si. Em pontos específicos do circuito reduzido foram instaladas pequenas câmeras com sensores térmicos e de dados em geral, enviados tanto para a sala de controle, por onde ela e Jin entraram, quanto para os monitores das salas de observação, caso quem tivesse assistindo solicitasse ao servidor central.
Naquele momento, o posto de observação mais próximo estava repleto de rostos ansiosos, aguardando para assistir como ela se desenvolveria em um veículo próprio. Todos eles tinham assistido as corridas anteriores dela, sua desenvoltura em um monomotor nas categorias mais baixas. E era exatamente por aquele motivo que estavam ali para assistir: agora ela estaria de posse de um carro com uma potência muito maior, que custava alguns milhares de dólares a mais, numa categoria de elite. Queriam saber se ela faria jus à toda aquela falação na mídia.
A mulher voltou os olhos para o companheiro de pista, que sorriu pra ela confiante.
– Vai lá, bota pra quebrar. – falou antes de voltar para dentro da sala de controle. Foi seguido rapidamente por Jin e Josh, deixando-a sozinha na pista, e em segundos o clique da porta sucedeu um silêncio nervoso.
olhou para o volante com todos os botões e comando e respirou fundo, preparando todo o seu corpo para aquela experiência. Do outro lado da pista ficava a reta e uma construção pequena que servia como boxe. Ao olhar naquela direção notou que alguém acenava. Apertou o botão e sentiu o carro ganhar vida. Calmamente direcionou o monomotor até lá, sem acelerar e realizando as curvas com calma e estudo.
Parou o carro no início da reta, onde havia uma demarcação à tinta, e percebeu que o mecânico se aproximava. Quando chegou perto dela, reconheceu Jason, que sorria.
– E aí, ! Pronta?
– Pronta. – sorriu em resposta.
– Certo. Você tem pneus slick super macios aqui, então vai fundo. Von Trapp orientou que você faça quantas voltas ache necessário, e então vamos molhar a pista. Ok?
– Ok.
– Ótimo. A pista é sua, fique à vontade.
Ele voltou para a área fora da pista e se trancou em uma saleta que ela não tinha notado. Dali podia ajuda-la quando necessário com troca de pneu, assistência em pista ou algo do gênero, e ainda estava equipado para assistir o teste de maneira segura. Quando o viu trancar a porta, se sentiu livre para subir a rotação do carro ao máximo, segurando-o no lugar, antes de arrancar.
Tentou manter a aceleração no meio-termo na primeira volta, a fim de conhecer a nuance das curvas. No ponto extremo do circuito de testes, do lado direito, uma das curvas era uma barriga suave, rodeado por uma caixa de britas diminuta. Ao trocar de marcha no momento errado da pista sentiu o carro deslizar sem controle, e ela rodou em direção às pedras.
Parou com o carro totalmente fora da pista e riu, sozinha. Levantou os olhos para o ponto de observação em que vira Von Trapp entre vários outros rostos, e o assistiu levantar os braços pra ela, como se perguntasse o que ela estava fazendo. Riu de novo e acionou o motor para sair das pedras de maneira suave, então voltou à pista.
Passou no ponto onde entrara no carro em velocidade controlada, e se focou em estudar os lugares que deveria acelerar e frear. Quando se aproximou da reta novamente, viu Jason sair da cabine e acenar para ela. Parou o carro no mesmo lugar de antes e aguardou, o motor funcionando e cortando o silêncio do espaço.
O mecânico se aproximou e abaixou-se ao lado do carro.
– Max quer contato contigo, vou tirar seu capacete rapidinho pra acoplar o microfone ok?
Ela assentiu e ele habilmente desafivelou o capacete e removeu de sua cabeça. Delicadamente ele inseriu o ponto eletrônico no ouvido da piloto, que permaneceu imóvel enquanto ele trabalhava. Num segundo ele colocou o capacete de volta e afivelou debaixo do pescoço da mulher, baixando-lhe a viseira novamente.
– Pronto. – sorriu e acenou para o outro lado da pista, de onde Max devia estar assistindo. Enquanto se afastava, ouviu a voz do companheiro ressoar em sua cabeça.
E aí, baixinha. Pronta?
– Fala, Max. – riu.
Markus não te contou, mas a curva balão tem um defeito na pista. Você tem que esperar o último segundo para bater marcha, ou vai perder o carro toda a vez. Eu ia te deixar fazer mais uma volta, mas decidi ser legal.
– Sei. – ela riu, assentindo quando Jason trancou a porta da cabine por dentro. – Obrigada.
Disponha. – o ouviu rir antes de o estalo indicar que a ligação fora cortada. Subiu a rotação do monomotor outra vez antes de arrancar.
Com a aceleração no máximo que o circuito diminuto permitia, sentiu que o mundo ao redor daquilo não existia. Como se fosse uma corrida de Grande Prêmio, ela se focou em tirar o máximo daquela situação, sentindo o carro responder a si como se fosse um ser inteligente.
Muito bem acomodada dentro do veículo, sentiu que podia tudo.
Quando chegou à curva que parecia uma barriga, notou na pista um desnivelado que tirava a tração do carro. Sua visão focada para a corrida notou o erro mencionado por Max numa fração de milésimo, e ela pisou mais fundo no acelerador. Quando achou que fosse perder o controle sentiu o carro estabilizar, passando pelo desnível. No fim da curva, ela bateu marcha e acelerou mais ainda, saindo dali com potência duplicada numa curva perfeita.
Terminou o circuito sorrindo.
ainda percorreu à pista por seis voltas, acertando os detalhes que apareciam conforme discutia com Max. Quando estava para iniciar a sétima volta notou a movimentação de Markus na porta da sala de controle e soube que ele iria lhe orientar, então parou o carro perto da cabine de Jason e aguardou.
O chefe de equipe deu a volta por fora do circuito de testes até se aproximar dela. Nesse tempo a francesa tinha se desfeito das luvas, jogadas sobre o suporte de trás do volante, e tirava o capacete. Jason se aproximou a ajudou a sair retirando o volante.
– E então, como se sente? – von Trapp quis saber, os braços cruzados sobre o amplo peito. Estava paramentado com o fone de ouvido que compartilhava da comunicação interna que ela e Max dividiram, além de um tablet preso na mão por uma capa de proteção.
– Ansiosa pra colocar essa maravilha em uma pista de verdade. – ele sorriu e acenou para ela, que pulou pra fora do monomotor se sentindo renovada como só uma dose de adrenalina permitia. – Então, quais os pontos?
– Coisa rápida. – ele respondeu, inclinando para ela o aparelho eletrônico, mostrando-a em uma imagem 3D da pista. Na imagem era reproduzida em loop um vídeo animado da última volta feita por ela. Na lateral direita, no topo, havia ainda a opção de escolher qual das voltas que ela completara o usuário queria reproduzir. Nesse programa era possível programar qual seria a volta perfeita e assim o sistema deduzia quais eram os erros, acertos e itens a serem melhorados de acordo com a pré-programação. Não exibia nenhuma informação de tempo e desenvolvimento do carro na corrida, mas era um auxílio e tanto para correção de mínimos detalhes.
Markus explicou que esse software era novo em folha e exclusivo. Estaria sendo acoplado no sistema de corridas da ERT para a temporada que estava para começar, e por esse motivo havia uma falha na pista na curva mais longa.
– O software trabalha com base em sensores, por isso a reprodução perfeita da sua volta em 3D. Esses sensores são instalados na terceira camada abaixo da pista, pra não ser danificado e ainda assim conseguir reproduzir com perfeição. O asfalto aqui foi todo removido para a instalação dos sensores, e por isso erraram na hora de refazer o curvão.
– E funciona em todos os ambientes? – ela quis saber, curiosa. Achava o máximo toda tecnologia desenvolvida que ajudava a fazê-la trabalhar.
– Com toda a certeza. Mas você vai ser nossa cobaia. Se prepare para ficar molhada.
– Sereno, chuva forte, fraca, tempestade? – Jason perguntou ao chefe, dando-lhe opções.
– Vamos começar com chuva fraca. Se eu achar necessário, alteramos. você conhece o protocolo para chuva, certo?
– Pé em baixo com atenção? – tentou ela, fazendo-o revirar os olhos.
– É, claro. – debochou, virando-se em direção à sala da engenharia. – Max, me envie os mecânicos, vamos trocar os pneus.
Sim, chefe. – o piloto respondeu. Em poucos minutos a equipe principal de mecânicos entrou no circuito e empurraram o carro até o espaço reservado, onde facilitaria a troca e a saída da mulher depois.
foi orientada a voltar para o carro e enquanto se ajustava no monomotor já com outros pneus, percebia que os mecânicos se recolhiam em espaços preparados pra isso, a fim de manter a segurança tão perto da pista. Markus desapareceu para dentro da cabine.
– Pode ir. – a voz dele soou em seus ouvidos. Terminou de ajustar as luvas e em toques sequenciais e memorizados em seu cérebro, ligou o carro e disparou pelo restante da reta.
O chefe de equipe observou pelos monitores da cabine a piloto percorrer a primeira metade do circuito de testes. Todo o sistema tecnológico daquele espaço era tão bem integrado e interessante, que após dar o comando o homem deixou Jason a cargo de controlar a chuva enquanto se movia até a porta para assistir.
Quando ouviu o barulho emitido pelo computador aceitar o comando, notou no teto que várias folhas se moveram em sincronia, revelando ponteiras como pequenos sprinklers de potência maior. Enquanto , sem perceber nada, chegava perto do início da reta novamente, Markus quase não pode ouvir o sistema entrando em funcionamento, bombeando água. Poucos segundos foram necessários para o chefe precisar se esquivar dentro da sala, porque em toda a circunferência da pista cheia de curvas, uma chuva consistente e ininterrupta caiu, limitando em uma pequena porcentagem o campo de visão tanto dele quanto provavelmente da mulher que riu sozinha ao sentir a água gelada em suas costas.
Voltou para dentro da sala e assistiu com a atenção dividida entre os monitores transmitindo em tempo real quanto o programa EHRace funcionar alguns segundos atrasado, compondo volta atrás de volta em transformando-as em imagens 3D para a análise de dados. Notou que dera uma reduzida considerável na velocidade mantida durante as voltas na pista seca, mas mantinha uma aceleração constante nas curvas, ganhando segundos importantes, mesmo quando a visibilidade do lado de fora era baixa.
Confirmou as expectativas quando comprovou através dos dados combinados do sistema no tablet e no computador que a mulher dirigia bem na pista seca, mas era espetacular na pista molhada ou debaixo de condições específicas. Tinha assistido a diversas corridas em condições semelhantes antes de contratá-la, e ainda conversara com Gunther, chefe da equipe da Prime em que ela estivera na temporada anterior, mas era satisfatório poder comprovar ali, em seu território, aquilo que defendeu para o conselho no dia que propôs a contratação da piloto.
Não era necessária nenhuma bola de cristal para saber como Markus se sentia com aquela contratação em específico. Era um sentimento muito semelhante que tivera na época de ouro da ERT, e gostava de pensar nisso como um presságio. Só esperava que não repetisse realmente a história toda.
Muitos mecânicos eram da velha guarda e se lembravam, como ele, da corrida que os fez voltar pra casa direto para o velório de Mike Olin. Von Trapp podia se lembrar de tudo com detalhes, mesmo que fizesse alguns anos que tudo tinha acontecido.
A ERT, na época, era um trunfo. Tinha ascendido de tal modo que mantinha o título de campeã do Campeonato Mundial dos Construtores por três anos seguidos. Mike Olin, que era um piloto sensacional e um ser humano extraordinário, procurou a ERT e pediu para ser contratado. Era uma situação inusitada demais, mas ele se reuniu com o conselho e disse que estava cansado de falar e não ser escutado, e ele queria que acreditassem nele quando falava sobre o carro.
Markus, que já era chefe de equipe na época, fez um trabalho redobrado de pesquisa durante a semana seguinte e comprovou o que o piloto afirmara. A escuderia em que estava era ótima, de renome também, mas a equipe de engenharia e mecânica era arrogante e preconceituosa. Mike Olin era um piloto ótimo e também era engenheiro. Mesmo assim, sendo negro, não era ouvido, nem sequer cogitado para participar de reuniões de preparação do carro.
Isso o deixou frustrado por algum tempo, mas resultou na contratação quase que imediata dele após o pedido de demissão. Na Ehrenberg, sob a tutela de Otto Ehrenberg, o fundador, Mike Olin virou uma estrela. O inglês era um gênio e com ele no apoio da construção dos carros a escuderia se tornou uma das melhores em pouco tempo, e então estava no topo.
O problema que acarretou no acidente dele não foi técnico, e sim humano. Mike fizera a curva perfeita no Circuito Urbano de Baku, no Azerbaijão. A pista era formada por um aglomerado de retas e curvas duras, com pouco com o que trabalhar em relação a ultrapassagens, mas sempre foi um circuito tranquilo, sem grandes incidentes. Pouco antes da reta oposta, havia uma sequência de três curvas minúsculas e seguidas, umas das outras – no mapa ela sempre pareceu uma escada de três degraus – e Markus, que assistia o desenrolar do GP daquele ano pelos monitores viu no exato momento que, ao sair da primeira pequena curva, Mike pareceu ter se esquecido das demais.
Ao se deparar com uma rápida virada em seguida, seu braço foi pesado demais ao girar o volante, e ao invés da curva leve, o carro fez quase um cotovelo para a esquerda. Von Trapp teve a impressão de que Mike se deu conta do que ia acontecer, mas não teve tempo de reverter a situação. A batida contra o muro de contenção em si não foi forte, mas a pancada que o segundo colocado deu ao bater contra a lateral do carro de Olin foi tamanha que a corrida foi paralisada.
Safety Car entrou na pista e coordenou uma volta organizada com o restante dos pilotos enquanto a equipe médica entrava em cena, mas, ao notar a situação, ele foi orientado a parar na reta principal e aguardar novas instruções, com todos os outros veículos logo atrás.
O segundo colocado, David Fisher, – que se aposentou em seguida, após fratura na bacia e nas pernas – foi retirado desacordado do carro, mas estava estável e com ferimentos considerados moderados. O carro dele foi para quase em cima do de Olin, e os paramédicos tiveram um pouco de urgência em retirá-los da área, com a chance de tudo pegar fogo. Mike saiu de lá também inconsciente, mas teve uma parada cardíaca na ambulância saindo do circuito. No hospital ele teve outra parada e não resistiu. Não deu tempo nem do restante da equipe chegar ao hospital. Markus, que teve de permanecer até o final da prova encerrada após umas poucas voltas num clima pesado e agourento, com uma chuva torrencial que caíra dos ceus de repente, nunca mais o viu.
Mais tarde descobriram que Mike tinha uma condição cardíaca que apenas acelerou a evolução do quadro clínico, transformando o tratamento da parada cardíaca em inútil naquele caso.
Assistindo a chuva cair naquele circuito de testes Markus sorriu. Apesar do histórico, o chefe e alguns outros foram fiéis, e permaneceram mesmo quando parecia que tudo estava acabado, falido. Max foi uma contratação sincera: talvez não dure. Mas durou, o garoto além de bom atrás do volante era simpático, e ganhou a atenção do público rapidamente. Erguer a escuderia parecia uma tarefa impossível dois anos atrás, mas se tornou uma chance com os acontecimentos recentes.
O chefe de equipe esperava, de verdade, que fosse uma boa chance. Não sabia se tinha idade ou até saúde pra aguentar outra temporada.

Capítulo Nove

– É muito cedo, Erik. – a mulher murmurou ao deixá-lo entrar no apartamento. Rindo, ele caminhou direto para a cozinha enquanto ela bocejava e se arrastava atrás dele.
– Não é cedo, é a hora certa. Você que devia estar de pé. Vocês partem em menos de 16 horas! Suas coisas estão organizadas?
– Sim. – respondeu, se jogando sobre um dos bancos da ilha central da cozinha. O agente se virou para olhá-la, as sobrancelhas levantadas. Depois voltou a terminar de ligar a máquina para fazer café e então sentou-se de frente para ela.
– Porque é que eu não acredito nisso?
– Porque você é perfeccionista e se ver a minha mala vai me fazer arrumar tudo de volta. – respondeu, deitando a cabeça no granito escuro. O homem revirou os olhos.
– Porque é que eu tenho que fazer tudo nessa casa? – comentou, retórico, saindo da cozinha. cogitou a ideia de deixá-lo sozinho, mas depois pensou na mania de organização que Erik tinha e na situação que deixara o quarto ao terminar de arrumar a mala. Sabendo que o que dissera não era uma mera provocação e sim uma constatação verídica, pulou para fora do banco alto e subiu as escadas atrás do homem, que estava em seu quarto.
– Não mexe na mala, você vai querer colocar um monte de roupa que eu não vou usar. – ela resmungou ao entrar no recinto, pegando-o com as portas do armário enorme abertas.
– Querida, você tem que entender que não está mais no anonimato da Fórmula E ou 2. – Erik se virou para ela, cruzando os braços no peito. Usava calças de alfaiataria mostrando as canelas cobertas por uma meia fina e uma camisa de linho com duas dobras no pulso. nunca entendeu como ele sempre parecia saído diretamente das passarelas mesmo às sete e meia da manhã.
– E isso quer dizer que eu preciso mudar a forma como eu me visto? – questionou, escalando a cama e se esticando até o centro dela, pensando se Erik notaria se ela voltasse a se embolar nas cobertas. Ele estreitou os olhos em sua direção, parecendo ler sua mente.
– Não, só que você pode começar a pensar antes de abrir a porta usando pijamas, ou de aparecer na janela só de sutiã enquanto penteia os cabelos depois do banho. – fez sinal em direção à rua – Você não tem ideia o quanto vale uma foto dessas.
Ela fez uma careta, mas não respondeu. Olhou pra fora, observando o sol fraco iluminar a neblina que cobria a cidade logo cedo. Bocejou outra vez. Notou que se não se movesse acabaria cochilando sentada sobre a cama, então se arrastou até o criado mudo e alcançou o celular.
Erik tinha começado a falar, mas a mulher rolou o feed de notícias ao acaso sem prestar atenção no que o agente dizia. Ele tinha desfeito a mala dela e agora ajeitava as roupas corretamente, percebendo rapidamente que poderia ainda acrescentar mais algumas peças pelo espaço que abria. Não era seu trabalho cuidar do que quer que a mulher vestisse, mas sabia que ela teria de participar de alguns eventos de patrocinadores dela e da escuderia na Austrália antes do GP, e que seria bom ter uma variedade de escolha.
Quando se virou na direção dela para questionar se ela estava lembrada desses compromissos, aguardou pela resposta que não veio. estava com as pernas cruzadas em cima da cama, o cobertor branco cobrindo-lhe uma das pernas, enquanto segurava o celular com uma mão e mordia o dedão da outra, concentrada no que quer que fosse. Revirou os olhos e riu, voltando a arrumar as roupas dobradas dentro da mala.
Estava acostumado àqueles momentos, em que ela parecia divagar num mundo completamente diferente do que ele estava. No início, quando aceitou ser seu agente assim que a menina saíra do kart para correr profissionalmente, se estressou um bocado até perceber que não era intencional, ou pra ser afrontosa. Era só o jeitinho peculiar de . Por mais que o convite formal tinha partido da própria , que conhecia seu trabalho com os rapazes do Moto GP, Erik percebeu que era um bom negócio quando Joe entrou em contato com ele pra combinarem os detalhes.
Era difícil dizer não para um Leblanc, e Erik sempre respeitou o trabalho de Joseph o suficiente pra nem cogitar a ideia, mas com o passar do tempo aprendera que era ainda mais difícil dizer não a dois Leblanc, principalmente.
Passado alguns minutos, terminou de redobrar as roupas da mulher e levantou os olhos para ela, que permanecia na mesma posição. Habilmente ele se inclinou pela cama e tomou o celular de suas mãos, ouvindo-a protestar.
– Está me ouvindo agora? – perguntou, colocando o aparelho no bolso da calça.
– Você falou comigo? – ela perguntou, inocentemente, piscando os olhos claros para ele. Erik quis rir da imagem da mulher, os cabelos presos de qualquer jeito numa tentativa de esconder que não os penteara ao acordar, o rosto ainda demonstrando as marcas de um sono profundo.
– Por horas, querida. – fez um tom de falsa raiva – Quer dizer que não ouviu uma palavra do que disse?
– Erik eu –
– Você é uma desalmada mesmo. Eu estou trabalhando aqui, você sabe! – cruzou os braços outra vez, exagerando um pouquinho no bico. A expressão o entregara. Antes ostentava um olhar culpado, mas agora ela estreitou os olhos para o agente e colocou as mãos na cintura.
– Seu falso! Como ousa? – levantou sobre a cama, pegando um travesseiro no processo e arremessando contra ele. Erik começou a rir descontroladamente e devolveu o arremesso.
A brincadeira dos dois durou mais alguns segundos e parou quando quase caiu da cama tentando desviar de uma travesseirada. Rindo, ele a empurrou para o chuveiro gritando que ela se apressasse.
Uma hora depois Erik estava dirigindo em direção ao complexo da ERT em seu próprio carro. devia permanecer com a equipe antes que se encaminhassem para o aeroporto onde fariam um embarque privativo no Heathrow. Eles seguiam o caminho cantando as músicas do rádio e comentando bobagens. O agente sentia que devia conversar com ela sobre as recentes novidades no caso de Patrick, o qual ela lhe contara no dia seguinte á conversa com Denise. Eles eram amigos acima de qualquer coisa e sempre se sentira confiante o suficiente para conversar abertamente com ele sobre praticamente tudo.
E agora que descobrira que Patrick estaria indo para a Austrália para se encontrar com a mãe, em Melbourne, sentia que a menina devia saber. Mesmo que fosse só uma atualização, nada relativamente importante, mas ao mesmo tempo com alguma importância pra família Leblanc. Pensou em conversar com Denise, mas não sabia até que ponto lhe dissera, mesmo que acreditasse que a francesa não mantinha segredos com a família.
Estava pronto para iniciar o assunto quando se aproximaram dos portões da ERT onde havia uma aglomeração de repórteres e fotógrafos.
– Eu nunca vou entender o que eles ganham acampando na entrada dos lugares. Não é como se fossem pegar alguma coisa emocionante.
– Eles sempre acham que vão. – respondeu Erik, manobrando com cuidado. Apesar de o insulfilm ser bem escuro, os diversos flashes disparados com as objetivas coladas no vidro deixaram cega, e ela teve certeza que algumas fotos pegaram suas caretas. Riu, apesar de tudo, virando-se para o agente enquanto ele passava pelo portão e se via livre da bagunça.
– Uma coisa a gente tem de aceitar: eles são insistentes.
Erik a ajudou a levar as malas pra dentro do complexo, onde deixaram com alguns rapazes que levariam as bagagens para o embarque. Ao entrarem no corredor por onde passaram uma vez, no dia de sua apresentação, Erik a puxou para uma sala, sabendo que deveria lhe contar a novidade antes que a mulher fosse engolfada pelas preparações pré-viagem.
– O que houve? – quis saber, olhando-o estranho.
– Preciso te contar uma coisa. Não quero que você fique preocupada, mas também não queria que soubesse por outra pessoa. – levantou as sobrancelhas e cruzou os braços. Erik reconhecia a posição de defesa.
– O que é?
– Patrick vai estar em Melbourne com Janelle. Ele viajou ontem.
permaneceu em silêncio por alguns segundos e então liberou os braços, coçando os olhos em seguida.
– Descobriu como? – perguntou, olhando-o novamente.
– Você sabe que não funciona assim. – respondeu, sorrindo de lado. Ela assentiu. Conhecia Erik. Sabia que sua formação base como jornalista o impelia a trabalhar com fontes sigilosas. Suspirou.
– Você supõe que ele tenha mentido pra mim.
– Eu não suponho nada, meu amor. Eu só quis te deixar a parte da situação pra que você não seja pega de surpresa caso encontre Patrick no autódromo.
– Meu pai vai estar naquele autódromo. – falou, de repente. Erik aguardou, mas quando ela não continuou resolveu se pronunciar.
– E devo assumir que seu pai não sabe sobre Patrick. Ou sobre o fato dele ter te atraído para uma festa para conversar com você.
– Deve. – respondeu, soltando o ar com força – Eu e Denise conversamos sobre contar pra ele, mas simplesmente não consigo arrumar um jeito. Ela se ofereceu, mas quem deve falar sou eu, foi à mim que Patrick procurou.
Ele assentiu, observando-a.
– Pelo jeito vou ter que arrumar uma forma de fazer isso antes que algo aconteça. – coçou os olhos outra vez e jogou os cabelos pra trás, abrindo um sorriso que qualquer um diria natural, mas Erik a conhecia bem demais pra isso. – Obrigada por me avisar.
– Sempre, querida. – assentiu e abriu a porta pra que eles saíssem.

 

♦♦
 

O embarque para Melbourne, na Austrália, foi tão tumultuado quanto poderia ser colocar um bando de marmanjos baderneiros dentro de um avião. As horas dentro do avião seriam longas e cansativas, então assim que todos estavam sentados, Markus fez um anúncio geral avisando que se pegasse alguma gracinha iria colocar o indivíduo de castigo.
A primeira reação de foi querer rir, mas rapidamente engoliu a risada e colocou os fones de ouvido. Não queria ter que lidar com o estresse de Markus antes mesmo de colocar os pés na pista.
A viagem longa foi tranquila, e a francesa conseguiu dormir durante boa parte dela. Apesar dos recentes problemas se acumulando em sua porta, ela precisava estar focada e bem preparada para a estreia de ouro. Ela e Markus tinham trabalhado forte na última semana com treinos intercalados na pista de teste e na sala de simulação, a fim de deixa-la extremamente pronta pra qualquer situação.
A previsão do tempo estava apontando para uma semana de tempo firme e céu aberto, mas na Austrália eles não podiam tomar aquilo como certeza confirmada, já que eventualmente podia cair uma tempestade ou uma garoa pra umedecer a pista somente.
A equipe completa chegou ao hotel de forma discreta, com um ônibus sem nenhuma insígnia ou lembrança da escuderia, conforme solicitação do conselho. O burburinho em torno da ERT por todas as mudanças ainda era muito e a diretoria queria dar uma folga e um descanso para todos os envolvidos. e os pilotos estavam no mesmo andar, novamente junto da equipe de assessoria da empresa, que dessa vez envolvia Joe Stamos e outro fotógrafo temporário.
mal entrou no quarto e foi direto para o chuveiro. Era estranho sentir sono demais ao olhar pra fora e ver que era noite, mesmo tendo dormido horas no voo, e ter saído de Londres ainda antes do almoço. Saiu do chuveiro e viu que recebera uma mensagem de Max, lhe mandando descer pra jantar junto com a equipe.
– Que porra perder um dia inteiro dormindo. – Max murmurou sentado à mesa, o prato cheio de carne e salada. suprimiu um bocejo antes de sacudir a cabeça.
– E nem parece que foi o suficiente. – comentou.
– Sim, pelo amor de Deus. – Sérgio falou, sacudindo o garfo na direção da mulher – E eu ainda me sinto com uma fome de leão.
– Você tá sempre com fome, Romero. – Charlie respondeu, fazendo sorrir e Sérgio lhe mostrar a língua.
– Meninos. – Markus parou ao lado da mesa que os quatro compartilhavam e encarou – E menina. É o seguinte, amanhã quero vocês todos de pé às seis da matina, o ônibus vai estar aqui na frente pra nos levar ao autódromo. Stamos acabou de me avisar que antes de por as mãos na massa vocês têm um photoshoot.
– Seis da manhã? – Sérgio protestou, fazendo careta.
– É, Brasil, seis da manhã. E é bom que eu não veja nenhuma marca de travesseiro nessa sua cara bonitinha, ok?
– Ok.
– Uniforme principal, mas estejam preparados, porque de tarde o bicho pega.
– Sim senhor.
Eles permaneceram em silêncio durante alguns segundos depois que o austríaco se afastou, até Charlie levantar o dedo.
– Quem mais tá quase dormindo em cima do jantar levanta a mão.
Três pares de braços se ergueram simultaneamente, provocando risos.

 

♦♦
 

A semana de preparação para o primeiro Grande Prêmio da Fórmula 1 daquela temporada passou voando e ao mesmo tempo se arrastou pelas horas segundo . Apesar de estar muito mais confiante, quanto à sua própria situação, os carros e também as pessoas ao redor, o clima de expectativa que inundava a pista toda, o paddock e as garagens deixavam-na mais do que nervosa.
Na quarta-feira a equipe improvisou um estúdio de fotografia no espaço vazio antes dos boxes, perto da entrada na curva 15, e fez os pilotos estarem maquiados e prontos como no dia da corrida antes das seis da manhã, a fim de conseguir aproveitar o ambiente ainda vazio e também a luz natural do amanhecer. Mesmo com o horário reduzido de sono e o fuso horário ainda atordoando em alguns momentos, a sessão foi amplamente aproveitada.
Os quatro pilotos – os dois de testes e os dois principais – tinham criado um laço de irmandade muito grande nos últimos dias. Markus observou que uma raridade entre as escuderias todas era ter aquela interação de respeito e companheirismo envolvendo os pilotos de testes, que geralmente eram vistos como apoio apenas, entrando na categoria de mecânicos na visão hierárquica e antiga das empresas.
Entre eles, a diversão corria solta. As fotos individuais foram um parto para terminarem, por que diversas vezes tiveram de paralisar o fotógrafo a fim de retirar um deles, de intruso, que entrava no cenário do outro pra espezinhar e brincar. O chefe de equipe precisou intervir duas vezes, e na terceira mandou cada um para um canto. As fotos em grupo foram uma baderna total. Apoiados no monomotor, eles fizeram diversas poses e brincadeiras internas, resultando em diversas fotos magníficas. Erik, particularmente, ficou super feliz já que estava começando a ficar escasso de material novo para usar nas redes sociais da menina.
Como seu papel principal de agente, aquele não era sua função, mas como assessor ele sabia muito bem como trabalhar na imagem da francesa.
Os treinos de quarta e quinta eram nada obrigatórios e serviam mais para corrigir possíveis detalhes de última hora e preparar os pilotos emocional e fisicamente. Nas duas noites Max e foram arrastados para eventos dos patrocinadores com direito a fotos até cansar os olhos, e várias entrevistas. Apesar do cansaço, ambos se mantiveram juntos a fim de evitar que os momentos se estendessem demais. Quando um não respondia, o outro entrava na frente e assim seguia, driblando diversas perguntas, momentos constrangedores e situações controversas.
Nos treinos de sexta ela tivera problemas com a asa móvel, que parecia desestabilizar o carro a cada curva. Parou diversas vezes nos boxes a fim de testarem diversos ajustes, até conseguirem algo mais ou menos decente quase no fim do dia. Max, em compensação, era a estrelinha brilhando no dia, tendo ultrapassado inclusive o tempo de Klaus Ammer, campeão da temporada passada.
Por conta dos treinos classificatórios de sábado, nada fora marcado para a noite de sexta e agradeceu mentalmente enquanto caminhava pela pista externa dos boxes, a via rápida.
Era tarde e os trabalhos estavam encerrados. Diferente da pré-temporada, quando os treinos acabavam ali as garagens de cada escuderia eram fechadas e não era permitido alterar qualquer aspecto do carro até o horário de reabertura, que seria no sábado às oito da manhã, horário local. Mesmo assim, a pista em si era aberta e conjunta ao estacionamento onde estavam acomodados os trailers e motor homes da escuderia. Como era um GP de verdade, a diretoria estaria em peso ali no domingo, o que significava que a casa móvel da ERT estava montada e pronta.
A casa móvel era um ambiente totalmente funcional, desmontável e biodegradável, o melhor que a Fórmula 1 já vira. Várias casas móveis eram organizadas em dia de Grande Prêmio, em geral cada escuderia tinha uma, mas a da escuderia inglesa era uma espécie de celebridade por ser feita de material sustentável, ou seja, o que normalmente as escuderias demoram quase um dia todo para montagem e depois desmontagem das estações móveis que abrigam boa parte da equipe que trabalha nos GPs, a casa móvel da ERT, nomeada EHHouse, podia ser rapidamente erguida e estabilizada em surpreendentes sete horas e um efetivo de 60 funcionários por se tratar de materiais leves e de encaixe rápido, como num gigante jogo de quebra-cabeças.
Enquanto os pilotos e a diretoria em si eram hospedados em hotéis pela cidade, pela discrição e conforto, o restante da equipe permanecia no autódromo durante toda a organização do evento de domingo. Durante a corrida, a EHHouse era capaz de abrigar mais de 100 convidados que podiam assistir a corrida no conforto de sofás elegantes e de mais de 50 televisores de grande porte e ótima resolução.
Aquela era uma rotina que estivera acostumada nos últimos anos, mudando poucos detalhes entre as escuderias pelas quais correu e pelas pessoas das quais era próxima. Após deixar o chefe de equipe avisado, deixou a mesa de jantar enquanto a bagunça ainda era grande e se pôs a caminhar. Gostava de sentir o ambiente antes de momentos importantes e reconhecia o tamanho da importância que os testes classificatórios do dia seguinte.
Os problemas que surgiram durante o dia deixaram-na esgotada, e mesmo querendo apenas que a noite se encerrasse para que ela pudesse voltar ao hotel junto da comissão e se esconder debaixo dos edredons, teve um impulso de realizar a caminhada noturna.
Passara por um dos guardas noturnos do autódromo, e depois de uma rápida verificação em seu crachá, teve permissão de caminhar pelos boxes, sem poder, contudo, adentrar na pista em si ou nas garagens.
Tinha trocado de roupa e usava jeans e um moletom, que vestira por insistência de Max que a alertara do vento gelado vindo do sul. Primeiro ela negara – passara o dia todo com calor – mas ao sair em um local desprotegido e notar a brisa fria que lhe bagunçava os cabelos, agradeceu mentalmente ao rapaz também.
Não queria ficar repensando os problemas do carro, mas não conseguia evitar. Era como se a bolha da realidade tivesse estourando em sua cara nas últimas horas. A semana começara maravilhosamente bem e ela não conseguia simplesmente acreditar que teria um problema com o carro aos quarenta e cinco do segundo tempo.
– Referência de futebol? Você é piloto ou o quê?
Virou-se bruscamente ao ouvir o comentário e encarou Klaus Ammer, o alemão que era o preferido da temporada mesmo sem ela ter sequer começado oficialmente. Franziu o cenho para ele.
– Eu disse isso alto? – perguntou, colocando as mãos nos bolsos do moletom.
– Falou. E eu achei que era comigo já que eu não fiz silêncio exatamente ao passar pelo vigia.
Ele acenou em direção às costas onde ela divisou um facho de luz de lanterna balançar de um lado para o outro, se afastando.
– Eu estava falando sozinha, aparentemente. – deu de ombros, sorrindo. Klaus assentiu, cruzando os braços. Usava a camisa polo do uniforme da escuderia e parecia sentir frio nos braços nus. A cabeça raspada também não ajudava muito.
– Quer que a deixe sozinha, então? – ele se mexeu, parecendo desconfortável e ela deu de ombros, sacudindo a cabeça. – Tudo bem. – falou, voltando a caminhar e sentindo-o logo ao lado dela.
– O que aconteceu?
Ela olhou para sua cabeça e depois em seus olhos, ouvindo-o rir em seguida. Ele tinha um sotaque forte e arrastado do inglês, mas a risada era baixa e simples.
– Trote. – falou, misterioso, antes de esfregar a mão na cabeça – Na verdade a culpa é sua.
– Minha? – ela franziu o cenho e ele riu.
– É. E não é. A culpa é toda minha, mas você é o motivo. – quando ela ergueu a sobrancelha pra ele, Klaus revirou os olhos pra si mesmo – Vai ficar brava se eu estava contra você na aposta que fizemos na equipe durante a pré-temporada?
– Não, foi você que apostou no lado errado. – provocou ela, rindo.
– Engraçadinha. Agora eu sei disso. Enfim, o resultado foi esse. – levantou as mãos, apontando pra careca. riu um pouco mais.
– Posso perguntar qual eram os termos da aposta, exatamente?
Klaus ficou alguns minutos em silêncio e então sacudiu a cabeça, um sorriso brincando nos lábios.
– Não sei se devo.
– Ah, qual é Ammer. Fala. – pediu, tirando a mão do bolso e empurrando-o de leve pelo ombro. Ele riu se afastando alguns passos dela, então passando em sua frente, deu um pequeno salto até estar sentado na mureta de contenção, perto do fim dos boxes.
– Não é que eu duvido de você, foi mais pra contrariar do Gunnar. Ele estava me irritando sobre você, e eu queria que ele parasse de me encher o saco.
– Eu devia entender essa relação? – ela questionou, apoiando-se no muro sem subir nele. Naquela posição ela ficava na altura do peito do rapaz, que mantinha os braços soltos entre as pernas. Ele riu.
– Acho que não.
– Certo, continue. – ele revirou os olhos diante da insistência, mantendo um sorriso no rosto.
– Nós soubemos que seu carro estava dando problema na quinta-feira. Aquele sueco safado ficou me perturbando dizendo que se não fosse isso você teria me batido facinho. ergueu uma sobrancelha para o alemão, que permanecia olhando em outra direção – Então eu propus a aposta, e se eu ganhasse, no caso se você não conseguisse completar os testes de sexta, ele iria calar a boca pelo resto do fim de semana.
– E ele apostou que se eu conseguisse você raparia o cabelo? – completou, sorrindo.
– É, mais ou menos isso. Como você pode ver, ele cumpriu super bem a parte dele, tendo ele próprio emprestado uma máquina sei lá de quem e rapado minha cabeça, além de ser possível ouvir a falação dele quilômetros de distância.
não se conteve e explodiu em uma gargalhada, jogando a cabeça para trás e contemplando as nuvens. Mesmo que tecnicamente ele tenha duvidado de sua habilidade em se manter numa corrida com um carro defeituoso, a situação toda era ridícula demais pra não ser engraçada. O ouviu resmungar enquanto ria, e limpando uma lágrima que escapara de seus olhos na emoção, o encarou, o sorriso ainda largo nos lábios.
– Eu preciso ir conversar com Gunnar. Tenho certeza que ele vai ser bem mais detalhista ao me contar isso.
– Claro que vai, aquele debochado. – ele riu também, negando com a cabeça. – Mas de verdade, você não me surpreendeu. – Klaus saltou de volta para o chão e para ao lado da garota, olhando-a de cima de seu metro e noventa. – Não me surpreendeu nem um pouco.
– Como assim? – questionou ao assisti-lo se afastar a passos lentos e leves, sem nem fazer barulho.
– Você correu uma única vez e quase bateu o recorde de Rico em Barcelona. Eu não me surpreenderia se estivesse em destaque na largada de domingo. Ou no resultado.
Dando de ombros como se tivesse comentado do tempo, o alemão deu-lhe as costas e caminhou para longe, voltando para o estacionamento onde as equipes estavam reunidas. A francesa permaneceu no mesmo lugar, imóvel, durante alguns minutos, digerindo toda a inusitada situação.
Seu devaneio acabou abruptamente com o som do toque de seu celular quebrando o silêncio. Na tela, uma foto de seu pai.

Capítulo Dez

– Você tem mais uma chance de classificar. É a última, seu tempo está acabando, então faça valer. – Markus esbravejou, o rosto vermelho como em chamas, os olhos apertados e incisivos. Não é pra menos, pensou a mulher, assentindo ao recolocar o capacete.
estava dispersa. Parecia uma iniciante que pulara as etapas de aprendizagem. Ou que as esqueceu da noite para o dia. Nem parecia ter passado anos estudando a profissão na teoria e na prática, pra ser capaz de estar ali, e agora nem parecia ser capaz de coisa alguma.
Ao contrário dos sentimentos incapacitantes que fora exposta quando precisou correr na pré-temporada, dessa vez a francesa tinha plena consciência do que estava acontecendo, do motivo daquela enxurrada de negatividade e como aquela situação fora desencadeada.
Tinha dado milhares de voltas no circuito de Melbourne, que não estava entre os mais fáceis, mas também não era algo como Mônaco, por exemplo. E ainda assim a mulher sentia como se não conseguisse se focar o suficiente para fazer uma boa corrida. Desaprendera a controlar o carro, errara nas curvas mais tranquilas, desrespeitara o limite de velocidade permitida dentro dos boxes… , definitivamente, não estava tendo um bom dia.
E receava que as coisas não melhorariam se ela não tivesse um téte-a-téte consigo mesma, uma conversa franca para que reaprendesse a dominar os sentimentos, voltasse a ter conciliação entre mente e espírito e separação entre pessoal e profissional. Aquele Grande Prêmio dependia do resultado dessa conversa. Sua carreira dependia daquilo.
Fechou os olhos, mesmo quando viu o pirulito* ser levantado, e apertou o volante com força. Queria poder ter alguns minutos a mais, para que pudesse quem sabe tentar conversar com o pai mais uma vez, ou com Denise. Talvez pudesse –
! – o berro do chefe de equipe dentro da garagem a fez dar um pequeno pulo de susto dentro do monomotor, mesmo com o espaço limitado. Virou a cabeça e o encarou. Markus parecia prestes a esganar alguém, e sabia que ela estava no topo da lista de candidatos a expor o pescoço. Assentiu outra vez e ligou o carro, saindo do circulo humano formado pelos mecânicos que aguardavam.
Notou no painel de LED sobre a faixa de largada que restavam menos de cinco minutos. Espaço suficiente pra duas voltas, desde que perfeitas. Precisava daquelas duas voltas pra garantir seu espaço no grid de amanhã, ou estaria perdida. Precisava. Cinco minutos separavam ela do fim daquele treino classificatório, que lhe ditaria os passos seguintes em seu futuro. Ela não podia ficar parada, ou regredir. Seu único caminho era seguir em frente, os passos corretos sobre a linha que ela traçara anos atrás, ainda junto dos avós. Seguir em frente, cabeça erguida. E de preferência à 300 quilômetros por hora.

♦♦
 

– Ela tinha os motivos dela, Joe.
– Os motivos dela não podem interferir na minha vida, Denise. Não a defenda.
– Se você que é o pai não vai defender, eu vou.
O casal se encarou em silêncio por alguns minutos e Joseph Leblanc esfregou os cabelos grisalhos, subitamente cansado. Não queria sentir a raiva que sentia, mas era como um botão que quebrara ao apertar muito forte, não conseguia mais voltar atrás.
Sentia-se traído. A raiva não era tanta pela situação, mas pela falta de confiança. Ele a tinha em alta estima e nunca deixara de confiar na filha mesmo em casos absolutamente extremos como quando ela passou um ano sem falar com ele na adolescência. Entendia o motivo, entendia o ressentimento tardio, e, acima de tudo, compreendia. Confiava nela. Manteve essa confiança durante todo o tempo em que ela o mantivera afastado de todos os aspectos de sua vida. E a confiança nunca fora abalada.
E agora, quando ele mais queria esse retorno igualitário, sentia-se deixado de lado, indigno da confiança que ele tanto prezava por ela.
não tinha o direito. Ele também é meu filho.
– Ele é seu filho sim, mas ela não tem a obrigação de dizer com quem anda ou deixa de andar. – Denise rebateu, sem hesitar. Estava cansada, discutia com o marido há mais de meia hora, mas ele parecia rodar em círculos, sem nunca achar qualquer argumento válido de sua conferência. Era como discutir com uma parede, mas Denise já vira pior. Sabia que bastava uma palavra, às vezes até repetida, para que Joe de repente sentisse o estalo, a ficha que caía, e compreendesse a magnitude do que ela tentava lhe explicar.
Enquanto ele andava de um lado para o outro dentro da suíte principal do melhor apartamento de luxo do Hotel The Langham Melbourne, Denise sabia que ele estava vendo apenas um detalhe, um mísero acontecimento na cadeia de imagens que formava aquela situação. Como fotógrafa, a brasileira consideraria aquilo um frame dentro de um quadro. Um detalhe. Uma coisinha de nada.
Sentou-se na poltrona de couro branco perto da janela e aguardou. Ele continuou andando de um lado para o outro num compasso que sua avó chamaria de gastar sapato. Mesmo que não concordasse com toda aquela cena que Joe geralmente fazia quando algo não era de seu agrado, Denise realmente compreendia a situação do marido. Entendia ainda melhor que ele que o sentimento que lhe preenchia naquele momento era impotência. Afinal, ele não estava bravo com por não lhe ter contado do encontro com Patrick semanas atrás. E sim que o filho buscou pela irmã sem motivo algum, a pessoa que tecnicamente ele sentiria mais ameaça, e não pelo pai que vinha tentando um reencontro há tempo demais para ser contado.
Joseph se sentia… vazio. Inútil.
E Denise entendia. Melhor do que ninguém. Afinal, vivera toda aquela dor ao lado daquele homem, e sabia como ninguém o que era ter uma pessoa que é tão amada e adorada lhe dar as costas. Suspirou, querendo apenas dar um abraço no marido, mas sabendo que seria rechaçada se tentasse.
Não que ele estivesse bravo com ela, ou coisa parecida. Ele estava bravo consigo mesmo, e nesses momentos Denise sabia que ele se sentia indigno. Precisava apenas deixa-lo remoer todas as questões milhares de vezes antes de tentar qualquer tipo de contato físico. Ele precisava de espaço. E tempo.
Mesmo que Denise não fosse a pessoa que gostava de dar espaço e tempo, aprendera rápido como aquilo funcionava. E como ele a respeitava em seus próprios momentos, cabia a ela apenas respeitar e aguardar.
Olhou pra fora e observou o sol desaparecendo no horizonte. As ruas estavam todas iluminadas, e o movimento de carros parecia copiar o fluxo do sangue nas veias, correndo rápido para vários lugares diferentes. Estava pensando sobre o desempenho de e o treino classificatório quando Felix irrompeu pelo quarto, escorregando ao parar dois passos além da porta.
Pegara uma mania que deixava Denise louca, copiada da irmã mais velha: usava meias praticamente o tempo todo. Se não estava de tênis ou sapatilhas, andava de meias pela casa e escorregava de cinco em cinco minutos. A brasileira estava cansada de reclamar com a mais nova, mas o gênio do pai presente na garota a impedia de obedecê-la.
– O que aconteceu, Felícia? – Joe perguntou e a menina, alheia aos problemas vividos dentro daquele quarto, franziu o cenho para o uso de seu nome inteiro e não pelo apelido recém-adquirido.
– Ela conseguiu. vai largar em nono.
– Nono? – Denise perguntou, estranhando. – Aconteceu alguma coisa?
– Não sei. Estava acompanhando pelo instagram. Ela conseguiu a classificação nos últimos minutos. Tipo, ela foi a última a correr e se não conseguisse nessa ia ficar de fora. – explicou a mais nova, apertando o celular nos dedos. Joe assentiu, dando as costas pra filha e voltando a caminhar de um lado pro outro.
Felix encarou a mãe de cenho franzido, e Denise apenas sacudiu a cabeça uma vez, oferecendo um sorriso conciliatório. A menina assentiu lentamente e refez o caminho pra fora do quarto, fechando a porta em seguida. A brasileira aguardou alguns minutos antes de se pronunciar.
– Você vai ligar pra ela?
Não obteve resposta.

♦♦
 

suspirou, enquanto partia as torradas em farelos. Não estava com fome, mas sabia que se levantasse para sair do refeitório arejado àquela hora Markus a interceptaria na porta e a faria voltar. E provavelmente comer o dobro do que aguentaria.
Precisava apenas de mais alguns minutos sentada na última mesa do ambiente projetado para caber muito mais gente que o necessário. Assim, se aguardasse, pelo menos mais um pouquinho, teria chance de se safar sem um sermão sobre má-alimentação antes de uma corrida tão importante, ou sobre como poderia ter sido melhor.
E poderia, como poderia. E era totalmente consciente do fato de que poderia muito mais do que só o –
– Nono lugar? Caramba, você precisa melhorar. – Annelise se sentou pesadamente em frente à garota, a bandeja da loira se chocando com a da francesa com um estrondo baixo de metal.
levantou os olhos para a outra, a expressão vazia, e falou num tom baixo.
– Você tá sendo engraçadinha de propósito?
– Nem vem descontar seu mau-humor em mim, garota. – respondeu, jogando os cabelos compridos pra trás. – Eu estou expondo os fatos de maneira bem simples. Você poderia ter se saído melhor se tivesse focado.
– Anne, eu –
– Não, sério, você ignorou Alejandro quando ele foi conversar com você depois do treino. Quem faz isso pra aquela cara de cachorro sem dono? – ela questionou, levantando as mãos antes de pegar o garfo e espetar um dos tomates cerejas que ela havia escolhido no buffet.
A francesa ergueu as sobrancelhas enquanto ela distraidamente iniciava o próprio jantar. Mesmo conseguindo conversar pouco com a mulher, sentia que o jeito enérgico e petulante da coordenadora de RP era uma coisa normal. Toda a vez que cruzara com Annelise ela parecia ter tomado muito café ou simplesmente não dormido na noite anterior.
Suspirou pela sexagésima vez e encarou o próprio prato revolvido. Não que o risoto estivesse ruim, mas não conseguia comer nada ou poderia colocar pra fora somente por estresse e nervosismo.
– Alej está chateado comigo?
– Ele vai superar. – ela abanou, apoiando-se em um cotovelo na mesa e balançando o garfo com um camarão espetado – Mas só porque ele entende que você estava pressionada. Eu é que não admito carga extra do seu mau-humor na minha usual carga de trabalho.
Encararam-se nos olhos durante alguns segundos e foi obrigada a desviar. Respirou fundo, expulsando o ar do corpo com força, e cruzou os braços após limpar os dedos no papel toalha.
– Desculpa, ok? Eu estou só… cansada.
– E isso te dá aval pra ser grossa? – Annelise quis saber, olhando-a incisivamente. se sentiu nua por um segundo, despida até a alma. Baixou os olhos.
– Não, não dá. Desculpe. Não tem o que eu diga que possa justificar minha atitude, então desculpe. – resmungou, cruzando os braços de novo. Annelise assentiu.
– Eu não tenho nenhum tipo de formação especialista, mas acho que você precisa conversar com alguém que possa te ajudar.
– Anne, eu – começou de novo, mas a mulher ergueu a mão, com a palma virada para ela, e levantou uma sobrancelha sem sequer olhá-la. Estava concentrada no celular, onde digitava habilmente com uma mão só.
– Nem começa. – revirou os olhos – Você tem problemas pessoais interferindo no seu trabalho, devia saber que precisa de ajuda.
– Eu preciso separar uma coisa da outra, só isso.
– Só isso, diz ela – debochou Annelise, rindo de leve – Só isso é o que o psicólogo faz. E não vai te cair um braço conversar com alguém diplomado sobre o assunto.
– E se cair?
– Quem está sendo engraçadinha agora? – Anne questionou, olhando-a de cima. riu, não pode evitar. Era como se Annelise fosse uma pessoa impossível de ser perturbada pelos humores alheios; tudo ao redor dela ficava bem, momentaneamente.
– Tudo bem, eu me rendo. Pra quem você mandou mensagem?
– Pra psico da equipe, é óbvio. Ela é um amor, você vai gostar. Dhara é guianesa, mas se mudou pra cá há muitos anos então o sotaque se misturou. Ela está… – ela conferiu o celular novamente – disponível agora. Mesmo que não seja um horário adequado, Dhara sempre foi muito flexível.
– Agora? – franziu o cenho.
– É claro. Você tem que estar pronta pra amanhã e uma conversa com ela não vai resolver as grandes questões, mas vai te ajudar bastante. Ela está te esperando na área comum. Vou avisar ao Markus.
A loira levantou e puxou consigo. Empurrou a jovem em direção à porta e foi conversar com o chefe de equipe. preferiu não discutir ou contrariar a energia emanada de Annelise, então caminhou pelos corredores até o saguão principal, dividido em dois ambientes. Um setor de atendimento, localizado logo na entrada da EHHouse e uma enorme sala de estar com diversos sofás, poltronas e aparelhos de televisão espalhados pelo ambiente.
não conhecia Dhara e percebeu que não saberia reconhecê-la em meio às várias pessoas presentes no espaço, dentre eles vários convidados da equipe que não usavam uniformes. Suspirou, olhando em volta, e não notou a jovem que se aproximava.
. – a voz suave chamou, fazendo-a girar um semicírculo em seus próprios calcanhares para encarar a mulher que parecia ainda mais nova que ela. – Dhara Persaud, muito prazer. Ann me avisou que você precisa de uma conversa.
– Oi. – sorriu, apertando a mão da mulher – Não sei nem por onde começar.
– Vamos começar indo pra um lugar mais tranquilo, pode ser? Eu conheço o espaço perfeito. – sorriu, virando-se e caminhando pra fora. não pode fazer outra coisa senão segui-la.
Dhara caminhava na frente com seus cabelos cuidadosamente feitos em diversas tranças que mesclavam fios brancos. Os cabelos negros terminavam pouco antes do meio das costas, e os fios brancos caíam sobre sua bunda, balançando com o movimento e com o vento. sempre achou lindo aquele penteado, e combinava com o rosto de bochechas altas e cheias e de um nariz largo entre os olhos amendoados. A guianesa era uma mulher negra de pouco mais de um metro e sessenta, mas que parecia irradiar uma aura de poder e majestade, fazendo-a parecer mais alta.
A francesa não notou para onde iam até a mulher parar ao lado de um trailer com as cores e símbolos da escuderia. A placa na porta dizia Dhara A. Persaud – Departamento Médico.
– Fica a vontade. – avisou, sumindo dentro do trailer. – Aceita um café?
– Aceito. – a francesa respondeu, sem saber exatamente o que fazer. Seguiu a mulher pra dentro do espaço apertado por instinto.
Geralmente, nos trailers da equipe havia um corredor curto ladeado por armários antes da porta do pequeno banheiro à direita e a do pequeno quarto a frente. Diferentemente, no trailer da psicóloga havia apenas um balcão com um fogareiro de duas bocas em cima, um frigobar vermelho ao lado, com um vaso de flores de mentira sobre ele e prateleiras quase no topo das paredes de metal com diversos utensílios bem organizados. Assim, o espaço das duas poltronas do outro lado, quase de frente para o fogareiro, era bem amplo e tranquilo. Uma estante pequena com livros ficava quase escondida atrás de uma delas, o banheiro e o quarto nos mesmos lugares.
Sentindo um leve choque pela diferença dentro daquele trailer, seguiu o gesto da mulher e se sentou em uma das poltronas. Logo Dhara voltou-se para ela com uma xícara também vermelha quase cheia de um café extremamente cheiroso, que a francesa não resistiu em beber um gole antes mesmo de esfriar um bocado.
– O que é o A do seu nome? – perguntou, curiosa, indicando com a mão livre a placa na porta fechada. Dhara sorriu, um sorriso genuíno e bonito.
– Anne, como você. Eu sou guianesa, mas minha mãe era americana de Califórnia – sorriu – O Anne do seu nome era da sua mãe, acertei?
– Era sim. – Dhara se acomodou na outra poltrona e cruzou as pernas, as mãos apertadas contra a caneca igual – Ela disse aos meus avós durante toda a gestação que queria que eu me chamasse , e depois quando ela faleceu eles quiseram uma homenagem, então ficou Anne.
– Você adotou o Leblanc só depois que conheceu seu pai?
– Ele me registrou quando me conheceu. – ela deu de ombros – Ele pediu permissão e trocou o “pai desconhecido” na certidão pelo nome dele, me dando assim seu sobrenome. Pra mim não fazia nenhuma diferença, é como se eu sempre tivesse o Leblanc.
– Meu pai era professor de uma escola pública na Guiana. Ele era daqueles que todo mundo adorava, pensa no amor que os alunos sentiam por ele. E eu cresci como filha do Terell. Era engraçado, e nada muito grande, mas eu só fiquei conhecida pelo meu próprio nome quando vim morar aqui. – deu de ombros, rindo – Na sua situação eu acredito que seja um pouco mais abrangente.
– E pesado. – concordou, sorrindo – Eu até sou conhecida pelo meu próprio nome, mas parece que esse reconhecimento vem seguido de uma expectativa negativa, sabe? Como se eu fosse tropeçar a qualquer momento e estivesse todo mundo esperando que isso acontecesse – então ela riu, revirando os olhos – E eu acabei de tropeçar, então isso meio que comprova minha teoria.
– Tropeçar como em ficar na nona posição no grid de largada? – Dhara quis saber, bebendo um gole de café. assentiu, mais calma.
– Fui um tropeço enorme. Monumental. Todo mundo na equipe estava esperando que o carro talvez desse problema então estavam preocupados com a parte mecânica, e quem deu problema fui eu.
– Monumental porque menina? – Dhara quis saber, franzindo o cenho, mas mantendo um sorriso. – Klaus precisou refazer o teste duas vezes pra ter um resultado aceitável.
– Mas ele é Klaus Ammer. Se ele largar em nono vão falar que pode ser problema técnico não informado.
A psicóloga, que avaliava a francesa desde que se cumprimentaram no saguão, meneou com a cabeça.
– Talvez sim. Mas o que isso importa, afinal? Eu sei que Markus está bem com isso.
– Markus diz que está bem com isso. – a outra respondeu, dando um grande gole na bebida quente – Mas eu sei que amanhã ele vai estar insuportável. Eu só queria estar focada o suficiente pra fazer uma boa corrida.
– Eu sempre fiquei curiosa com essa rotina. Apesar de trabalhar diretamente com a equipe, não sei como funciona a preparação no dia da corrida. – falou a mulher, incentivando a outra a explicar. assentiu, alheia.
– É bem rígido e simples ao mesmo tempo. Nós precisamos cuidar alimentação, descanso e preparação emocional. Alimentação é baseada em uma refeição leve cinco ou seis horas antes do início da prova, pra não pesar. Descanso é o horário de dormir na noite anterior, no caso hoje. Inclusive, eu preciso estar na cama em quarenta minutos ou Markus vai ter motivo pra ficar vermelho. E a parte emocional é meio difícil de explicar.
Ela fez uma pausa que Dhara não ousou quebrar. Sabia que a mulher tinha iniciado o monólogo quase a contragosto, mas agora as palavras saiam sem que ela notasse, os olhos perdidos nos desenhos internos da xícara de café.
– Cada um tem uma maneira diferente de lidar, não é uma coisa que possa ser ensinada. Você recebe dicas, é o mais perto de uma ajuda decente que vai receber, porque essa preparação vem de dentro. É você focar naquilo que importa, entender a dimensão do que tá vivendo. Eu procuro ficar sozinha, pensar apenas no carro, nos detalhes, repassar o circuito, respirar apenas o GP. – murmurou a última parte, a voz sumindo. Ficou em silêncio por alguns minutos quando Dhara resolveu se pronunciar.
– E no que você pensou hoje?
– No meu pai. – respondeu automaticamente. Então levantou a cabeça e encarou a mulher, notando que tudo o que falaram até agora era sobre ela e aquilo que a estava incomodando. – Você é boa nisso.
Dhara deu de ombros, sorrindo, sem responder. soltou o ar com força e fechou os olhos, bebendo o resto do café em sua xícara antes que esfriasse.
– Meu pai não está falando comigo. Ele nunca foi um cara presente fisicamente, mas eu nunca senti falta de ter um pai porque ele sempre foi um cara muito dinâmico, sempre saciava minhas vontades, mesmo quando elas eram coisas bizarras como o cheiro de grama da casa de Limoges ou quando era só saudade dele mesmo. Ele se desdobrava e fazia porque na cabeça dele ele precisava compensar a falta da minha mãe e o tempo que ele passou desconhecendo minha existência. Então nunca foi um cara difícil de lidar, nunca tivemos problemas além dos normais, as coisas bobas do dia a dia.
– E agora a briga foi por algo mais sério que o normal? – completou a psicóloga quando não o fez.
– É. Algo assim. – suspirou – Eu demorei a contar uma coisa importante à ele, e eu entendo as razões dele, mas acho que a atitude foi meio extrema. Ele se recusa a falar comigo.
– Você tentou falar com ele?
Elas permaneceram em silêncio por alguns segundos, até a francesa dar de ombros.
– Não.
– Então você pode começar por aí. Tente falar com ele. Se não resolver, dê um tempo. Às vezes ele precisa só digerir a situação.
– E eu não preciso?
– Precisa, claro que precisa. Mas você tem uma coisa mais emergente com a qual se preocupar, não acha? Eu, particularmente, não gosto que as pessoas acumulem coisas, mas você foi criada para trabalhar sob pressão, assim como qualquer piloto. O que você precisa fazer é focar em outra coisa.
– E você acha que eu não tentei? – respondeu ácida. Dhara sorriu apesar da grosseria.
– Eu sei que tentou, mas você não conseguiu porque não consegue dar a situação com o seu pai como resolvida. Pra você é algo inacabado que precisa de atenção, mas precisa colocar na sua cabeça que além de tentar conversar com ele, não existe outra coisa que possa fazer, portanto, situação resolvida. Agora você pode mudar de foco.
demorou alguns minutos para digerir o pequeno discurso da psicóloga, que aproveitou para se servir de mais café. Quando se virou para alcançar a xícara da mulher, dois toques na porta a interromperam.
– Está na hora, precisa se recolher. – Markus falou em voz baixa, dois passos distantes do trailer. A mulher assentiu e quando se movia para repassar o recado para a francesa, sentiu o corpo da mais velha passando por ela e descendo as escadas. Ela se afastou sem se despedir. Dhara podia ter se sentido ofendida, mas entendia como a cabeça das pessoas funcionava, e naquele momento precisava de um tempo sozinha pra acertar as contas com ela mesma.

* Pirulito é como é conhecida a haste com uma placa arredondada na ponta que o mecânico segura em frente ao monomotor durante um pit stop. O piloto só é liberado para sair dos boxes quando o mecânico levanta o pirulito.