Drive to Survive – George Russell

Drive to Survive – George Russell

Sinopse: Ela resolveu dar uma ajudinha a um piloto em apuros. Ele apareceu na sua vida de forma rápida igual quando ele entra naquele carro e corre a mais de 300 por hora. Ela aceitou o desafio e vai estar junto com ele sempre, não importa a situação.
Gênero: Drama, Romance.
Classificação: Livre.
Restrição: Fic escrita com o piloto de Fórmula 1 George Russell. Personagens fixos. A fic contém spin-off em Drive to Survive – Lando Norris, na qual a personagem aparece com o nome de Isabella Maria / Bia
Beta: Sharpay Evans

– Tá legal mãe, eu preciso ir trabalhar agora. Você sabe como meu chefe é cruel e eu estou sobrecarregada. Depois a gente conversa. – Falei, me despedindo de minha mãe ao telefone.
Minha vida é uma correria, eu administro uma empresa de metalurgia e também presto assessoria para duas montadoras da Renault no Brasil. A estrada até aqui não foi fácil, e apesar de eu me dedicar a uma empresa no dia-a-dia, tem outras duas em que eu preciso entrar em contato dois dias na semana para fazer relatórios de logística e sempre estar atenta em qualquer detalhe que faça otimizar o processo. Eu sou formada em engenharia mecânica, e, apesar de ser apaixonada por motores, hoje eu trabalho ligada diretamente com gestão de projeto e a parte de engenharia de materiais. Dentro da Renault, fui responsável pelas últimas mudanças nos chassis, que melhoraram o desempenho e aumentaram a relação custo-benefício. Eu fico muito tempo longe da família, e às vezes não consigo dar atenção aos meus pais. Por mais que eles venham me ver, eu fico pouco tempo em casa e quando estou, fico no escritório adiantando tudo o que for possível.
Eu não imaginava que o trabalho fosse mais complicado do que a graduação. Eu estou me sentindo esgotada, e muitas vezes tenho vontade de sair correndo. O problema não é o trabalho, e sim saber como lidar com as pessoas, o que não aprendemos na faculdade. Sorte que daqui alguns dias eu estarei de férias e irei assistir à corrida de Fórmula 1 em Interlagos, a convite da Renault. Vai ser uma experiência incrível, é a segunda vez que recebo o convite, mas na primeira vez não consegui ir.

Já no Paddock, eu andava impressionada no meio de todas aquelas pessoas. Quando eu vi Christian Horner, eu não resisti em dizer um “oi”. Ele sempre foi uma inspiração pra mim no que diz respeito a gestão de pessoas, conseguindo controlar várias situações complicadas dentro da RBR. Fui, então, na direção em que estava o chefe da equipe, vestido com o inconfundível uniforme da RedBull Racing.
– Com licença, Sr. Horner. Tudo bem? Posso falar com você um minuto? – Eu disse.
– Tudo bem. Claro, podemos falar. – Ele respondeu, simpático.
– Me chamo e estou aqui a convite da Renault. Só gostaria de dizer que mesmo a parceria com os motores tendo acabado, eu acompanho seu trabalho. É uma inspiração para mim. – Falei, empolgada.
– Fico muito feliz em saber. O pódio não é a única recompensa, incentivar pessoas e auxiliar jovens profissionais, com certeza também é. Mas então, você disse que veio a convite da Renault, está trabalhando com eles? – Ele disse, com um sorriso no rosto, e demonstrando aquela elegância inglesa, combinadas com aqueles famosos óculos de sol que ele usa em toda corrida.
– Sim, trabalho com duas montadoras da Renault. Presto consultoria para eles na área de desenvolvimento, gestão de projeto e otimização de processos. Mas também sou responsável por uma empresa de metalurgia, a Fordwins, lá eu faço de tudo um pouco. É onde entra a gestão, eu vejo o processo como um todo e vou direcionando mudanças, cuido desde a parte de desenvolvimento, até a parte de logística. – Fui contanto para ele, enquanto ele fez sinal para que ficássemos resguardados do sol, dentro da garagem.
– Que incrível, é tão bom ver jovens seguros e cheios de energia como você. A Fordwins trabalha especificamente com qual parte do setor automobilístico? – Horner questionou.
– Com a parte de chassis. É o nosso forte, somos responsáveis pelos chassis de grandes empresas, como Scania, Volvo e a Marcopolo. – Expliquei.
– Nossa, realmente é um trabalho grandioso. Certamente, uma profissional incomum, espero manter o contato com você. – Ele falou de forma simpática. – Pode passar diretamente para o Rock, acho que você já deve ter ouvido falar dele…- E antes dele terminar de falar eu o cortei.
– Claro, o responsável pelo carro de um tetracampeão não teria como passar despercebido. – Falei, rindo, e após isso Horner me apresentou ao Rock, engenheiro sênior da equipe. Conversamos um pouco sobre o trabalho dele na Redbull, e após eu sair de lá, também consegui falar com um engenheiro da Mercedes. Confesso que fui tietar pra ver se conseguia, pelo menos, dizer “oi” pro Toto Wolff, mas infelizmente ele tinha reunião.
E quando parei para tomar um café, escutei um clima tenso dentro da Williams, que tinha seu motorhome montado próximo de onde eu estava descansando.
– Não, Claire! Assim não dá! Precisamos resolver isso, precisamos de mudanças! Eu não quero ser taxado como um novato comum! – George Russell dizia à diretora da equipe Williams, Claire Williams, filha de Sr. Frank Williams, fundador da equipe.
– Eu entendo, George! Sinto muito não termos atingido os resultados que estávamos esperando, mas vamos providenciar mudanças para a próxima corrida. – Claire falava com um tom de desculpa.
Ao ouvir aquilo minha vontade era de fazer alguma coisa, não sei explicar, mas eu sempre vi muita coisa que poderia ser repensada quanto ao modelo de funcionamento da equipe. Mas, como eu não era ninguém importante ali, só cabia a mim escutar. Para não me sentir desconfortável, eu resolvi levantar do banco e sair dali. No momento em que peguei minha lata de energético, levantei do banco e fui em direção a saída daquela salinha improvisada, George passou, esbarrando em mim.
– Me desculpa… – Disse, envergonhado.
– Sem problemas… Dia difícil? – Perguntei, no impulso.
– Sim… “dias difíceis”, na verdade. – Ele respondeu, desanimado.
– Não desanima não, para tudo tem uma solução. – Tentei acalmá-lo, pois estava visto sua impaciência. Ele estava vermelho, e de tempos em tempos, passava a mão nos cabelos.
– Se você tiver uma… Fique à vontade! A propósito, qual o seu nome? – Falou, cruzando os braços, como se esperasse que eu fosse falar algo que fizesse um milagre.
– Meu nome é . E não, eu não tenho uma solução mágica no momento, mas eu até vejo um conjunto de fatores que poderiam funcionar. – Falei, de forma calma, como se fosse uma coisa simples, mas a minha intenção era acalmá-lo.
– E o que seria? – Perguntou.
– O que eu posso te falar no momento é para parar, manter a calma, entrar naquele carro e tirar o melhor dele. Se tiver erros, não fique decepcionado. Pense que é melhor conseguir vê-los claramente, para poder consertar. – Tentei falar da forma mais tranquila possível para que pudesse ajudar de alguma maneira. – Eu acompanho o teu trabalho desde a Fórmula 2, eu fiquei impressionada com a evolução, estou certa de que você vai conseguir se adaptar a melhor configuração e tirar o melhor rendimento do carro. – Falei, com um sorriso meio envergonhado.
– Eu ainda não estou acostumado quando falam pra mim que me acompanham correndo. Eu me sinto uma pessoa comum e anônima ainda, sabe. – Falou de um jeito tímido, sorrindo levemente e olhando para o chão.
– George, você não precisa se preocupar com isso, as pessoas enxergam o teu talento na pista. Quando eu fui pesquisar algumas corridas da F2 ainda, eu vi você amadurecer e evoluir de forma mais rápida que os outros pilotos do grid de lá. Não é por acaso que você está aqui hoje. Eu gosto de analisar o esporte, as mudanças e os pilotos. Eu não sou a única que vê o teu potencial, e sendo sincera, você sabe que o Toto Wolff já percebeu isso. Então, mantém a calma e tira o melhor que conseguir daquele carro, tenta tirar o máximo de informações que possam ser melhoradas.
– Eu nem sei o que dizer, talvez seja o destino que mandou você aqui hoje … – Ele falou, com um sorriso acuado, transparecendo a timidez. – Eu nunca imaginei estar falando, ou melhor, desabafando, com alguém que nunca tinha falado antes, e eu estou impressionado pela maneira segura que você fala. – Ele completou.
– Não foi o destino, foi a Renault. – Falei rindo e piscando para ele. – Eu espero ter ajudado de alguma forma. – Falei, sorrindo gentilmente.
– A Renault? Jura? E quase que eu conto o nosso segredo pra você poxa… – Disse, entrando na brincadeira. – Você trabalha na Renault? O que você faz lá? – Perguntou.
– Pois é, George, precisa tomar cuidado. – Eu disse, fazendo piada pelo fato dele não poder expor as informações da equipe. – Sou engenheira mecânica e presto consultoria para eles.
– Estou bastante surpreso… – Falou ele arqueando as sobrancelhas e franzindo a testa. – Eu gostaria de poder falar mais com você, mas eu preciso ir agora, espero que ainda possamos nos ver depois. – Ele disse.
– Claro! Vai lá e depois nos falamos. – Eu disse e ele acenou com a cabeça gesticulando um “até mais” com a boca e saindo logo em seguida.

George’s POV on
Eu saí em direção ao meu carro para o treino e confesso que eu estava totalmente fora de órbita, pensando em quem era aquela mulher misteriosa que falou comigo a uns minutos atrás. Eu fiquei impressionado com a postura dela e a calma que conseguiu me passar, pois, realmente, eu estou muito nervoso com toda a situação que minha equipe vem vivendo. Já faz algum tempo que venho pedindo mudanças e não consigo vê-las, e a cada corrida vejo nosso desempenho caindo. Eu não culpo a Claire, eu recebo o maior apoio dela sempre e tento ser o mais compreensivo possível, mas a questão é que se não mudarmos já, corremos o risco de ficar fora do campeonato. Depois das voltas de teste, dos erros que eu percebi, que comprometem a segurança do carro, eu decidi ter uma conversa com a Claire. Então fui em direção a sala dela improvisada no Paddock, porém não a encontrei. Um tempo depois, vi ela conversando com os mecânicos no pitwall na frente da garagem, e me dirigi pra lá.
– Claire, nós precisamos conversar… – Ela me olhou, com ar de que já sabia o teor do assunto.
– Pode ser depois George? – Ela disse meio impaciente.
– Não, eu estou com uma ideia e preciso falar com você. – Eu respondi, e ela pediu para que fossemos para um lugar mais afastado.
– Então, o que você queria falar? – Ela perguntou.
– Claire, precisamos ser realistas com tudo o que está acontecendo. Você sabe da situação delicada em que estamos, e ainda por cima o Peddy resolveu, simplesmente, se ausentar. O carro está com muitos problemas que precisam ser resolvidos e que envolvem segurança. Ele está difícil de controlar, está instável, e o freio não está obedecendo como deveria. Nós precisamos de um engenheiro temporário, que nos auxilie no projeto para a próxima corrida. Até o Peddy voltar e depois a gente vê o que faz, mas isso é prioridade! – Despejei tudo de uma vez.
– George, eu realmente te entendo e concordo com você, mas onde eu vou arranjar um engenheiro, a essa altura do campeonato, que aceite somente pegar esse projeto? – Ela questionou.
– Eu tenho um nome, uma engenheira da Renault que veio ver a corrida. Fiquei sabendo que ela foi rápida em ajudar com o problema da Renault hoje. Eles estavam com problemas no câmbio e estavam achando que iam precisar trocar, que não ia dar tempo de arrumar. Você não viu que o carro do Daniel não saiu da garagem? – Eu expliquei. – Ela está bem ali. – Então, eu fiz sinal em direção a mulher ruiva parada na frente da garagem da Ferrari conversando com o Marco, engenheiro deles.
– Você está brincando? Você a conheceu aqui, ela trabalha pra concorrente, que é maior. Ela deve estar ganhando bem com eles. Você acha mesmo que ela vai querer abrir mão e pegar somente um projeto? – Claire falou impaciente.
– Se ela não quiser apenas o projeto, ofereça um contrato. Tenho certeza que será mais vantajoso que o contrato do Peddy. Essa é a minha condição pra assinar o contrato novamente com a Williams. E ela não é engenheira comum, pra ela ser responsável por unidades da Renault. Eu não posso mais me arriscar dessa maneira, não é só a minha carreira, é a minha segurança também. Eu entendo o seu lado, e todo o apoio que recebi durante esse meu tempo na equipe, mas eu estou todo fim de semana no fim do grid e estamos gastando o dinheiro que seria usado em melhorias, praticamente todo em conserto. – Eu falei, estava impaciente, mas seguro de minhas decisões. Eu já aguentei por muito tempo essa situação, só que quando há riscos eu não posso ignorar. Depois disso, ela falou um “tudo bem”, “vou ver o que posso fazer no momento”, e saiu de meu campo de visão e eu segui para a sala onde eu guardava os meus objetos pessoais dentro da garagem.
George’s POV off

Passei um tempo conversando com o pessoal da Renault, e por “ser parte da empresa”, me senti confortável lá e acabei ajudando com o câmbio deles que estava com problemas, foi um sufoco, mas ainda bem que conseguimos arrumar sem precisar trocar.
, você está depenando meu carro! O que vou dirigir amanhã? Só as rodas? – Dizia, Daniel Ricciardo, preocupado por eu ter aberto todo o carro dele.
– Se acalma, eu preciso abrir pra conseguir ver o que está acontecendo com o fluído do câmbio. Está vazando óleo na coifa, por isso tá dando problema na sincronia entre a terceira e quarta marcha. Mas se você quiser, pode ficar dirigindo somente em primeira e segunda. – Falei, rindo da cara dele.
– Não! – Dizia, ele assustado.
– Então me deixa trocar esse eixo aqui, não estamos trocando a transmissão inteira, então não tem como penalizar. A chapa guia de lubrificação está com defeito, vocês têm alguma aí? – Perguntei e um dos mecânicos assentiu correndo buscar. – Com o problema da lubrificação, estragou o eixo e a luva não estava mais encaixando e, por isso, não estava mais engatando a marcha. Não deve demorar pra trocar. – Expliquei. – Eu troco e vocês montam a parte externa.
– Olha que Cyroll acaba trocando vocês três, hein? – Ele falou tentando assustar os três mecânicos em volta.
Depois da ajudinha para a equipe, estou aqui sentada na praça de alimentação, suja de óleo, a uma meia hora mais ou menos, e decidida a ir embora depois que acabar meu energético. Porém, antes de sair, vi um dos pilotos da Ferrari e mesmo que rapidamente consegui conversar com eles. Sebastian Vettel estava empolgado falando do carro que havia sido ajustado e os resultados, segundo ele, eram visíveis de melhoria.
– Nós conseguimos um bom resultado hoje não acha? – Sebastian questionou.
– Sim, o tempo foi excelente, podem ficar na primeira fila amanhã. – Falei baixo pra ele, piscando em seguida, como se estivesse contando um segredo.
– Acredita que eu apostei? Preciso me manter na frente ou vou ter que pagar pro Kimi uma nota…- Ele foi contanto, de maneira divertida, sobre sua aposta com Kimi Raikkonnen. – Estou ansioso pra classificação. Você vai acompanhar? – Ele perguntou e eu respondi que sim, iria acompanhar e depois seguimos falando sobre estratégias, ultrapassagens, pistas como Monza, por exemplo, ele consegue reconhecer apenas pelo som do rádio onboard. Foi tão divertido passar um tempo ali, e pensar que eu teria ido embora sem essa experiência.
Eu estava em volta do carro, analisando as asas dianteiras e querendo entender o sistema de aproveitamento de energia, quando, vejo Claire Williams vindo em minha direção.
– Mrs. Williams… Tudo bem? – Me apressei em cumprimentá-la.
– Sim, tudo bem. Me chame de Claire, por favor. Posso falar um minuto com você? – Ela perguntou e eu assenti com a cabeça, pedindo licença ao piloto da Ferrari. – Você é a engenheira que trabalha com a Renault, certo? – Ela falou, bem direta.
– Sou eu sim, , prazer em conhecê-la. – Respondi, esperando que ela prosseguisse.
– George falou comigo sobre você. Gostaríamos que fizesse parte de um projeto, na parte dos freios, estamos precisando resolver um problema. – Ela explicou.
– Mrs… desculpa, Claire! Claire, eu realmente não esperava uma proposta. No momento eu estou trabalhando com 3 empresas e eu não vou conseguir atender mais um projeto, me desculpa, mas eu preciso ser realista porque minha prioridade são os resultados e eu não vou conseguir acompanhar mais um projeto. – Fui falando de forma bem direta, assim como ela.
, a situação é complicada, nós não temos muito tempo para resolver isso. O George está impaciente conosco e ele falou em sair da equipe caso você não aceitasse, foi ele quem falou no teu nome. Pelo menos pense até acabar o fim de semana, e estude uma proposta. – Ela falou, dessa vez em tom de súplica.
– Tudo bem Claire, eu irei pensar, eu realmente gosto dessa área, mas eu tenho muito compromisso com meu trabalho e não posso de maneira nenhuma deixar de lado as empresas que eu trabalho. – Respondi, tentando acalmá-la e depois disso, ela disse um “tudo bem” e se retirou e eu continuei tentando processar toda a informação. Do nada, me aparece Claire Williams me oferecendo um projeto e ainda foi ideia do piloto da equipe. Eles estão arriscando alto me colocando na equipe sem analisar antes, mas eu entendo a situação deles, estão jogando todas as cartas que tem.
Então eu fiquei mais algum longo tempo sentada na mesa, pensando e pensando, o que eu faria com as empresas? Eu daria conta de tudo? Eu deixaria meu lugar? Mas para quem? E se eu tiver que falar um não pra Claire? Como eu falaria?
Até que fui tirada de meus pensamentos, dessa vez por George Russell que vinha na minha direção e sentou na cadeira ao meu lado, largando os papéis que tinha na mão em cima da mesa.
– O que você está bebendo? Isso tem álcool? – Ele disse, rindo.
– Não, não tem. – Respondi. – Mas bem que eu precisava. – Falei, rindo e me escorando para trás no banco.
– Deixa pra depois de domingo, pode comemorar conosco. – Ele falou, praticamente fazendo um convite.
– Veremos. O que é isso aí? – Eu questionei, sobre os papéis.
– São pra você, um modelo de contrato. Pra você ler com atenção e pensar na proposta. – Ele explicou.
– Vocês são rápidos. Não imaginei que receberia isso em menos de … 2h? – Eu falei, olhando no relógio e calculando o tempo em que eu falei com ele até o momento.
– Não rápidos como gostaríamos. – Disse ele, desanimado. – Pensa com carinho na proposta, por favor.
– George, eu deixei bem claro para a Claire que eu tenho compromissos, eu não posso abandonar o meu trabalho. Não tenho quem deixar para me substituir, assim, do dia para noite. Não depende somente de mim, mas eu admito que eu gostaria do desafio. – Eu tentei explicar, olhando fixamente em seus olhos azuis.
– Eu entendo, só não me dá uma resposta ainda, sem analisar. – Ele insistiu, fazendo uma carinha fofa e quase impossível de dizer um não.
– Tudo bem. A Claire me deu um prazo até domingo. – Falei, olhando para a pasta em cima da mesa.
– Esse é meu número. – Falou ele, anotando o número do lado de dentro da pasta de papel que envolvia os papéis. – Qualquer coisa você me liga, caso decida antes.
– Está bem. – Falei, rindo da pressão que ele estava me impondo.
Depois disso nos despedimos e fui para o hotel tomar um banho e descansar. Foi um dia quente e eu estava exausta. Comi um lanche e acabei apagando.
Depois de algumas horas de sono, olhei para o relógio e ainda estava cedo para sair da cama. Porém, resolvi levantar arrumar minhas roupas e ir pro banho. Me vesti de forma simples, um macacão jeans, uma camiseta branca e tênis branco, com os cabelos presos. Depois do banho pedi um café com leite bem reforçado, acompanhado de panquecas e ovos mexidos. Enquanto esperava o café, chequei meu email e tinham coisas que dava tempo de responder antes de seguir para o treino classificatório.
O treino não houve nada de diferente com a Williams conseguindo ir para o Q2, mas tendo dificuldade para chegar ao Q3. Eu estava ansiosa pela corrida e torcendo imensamente pra que eles conseguissem pontuar nesse fim de semana. Logo após o treino, eu já me dirigi a saída, pois não queria falar com ninguém. Tinha um dia para decidir o que fazer com a proposta da Claire, que por sinal eu nem tinha começado a ler. Quando ia em direção a saída, escutei George me chamar.
– Hey, já está indo embora? – Ele disse se aproximando.
– Sim, preciso resolver algumas coisas. – Eu respondi. – Inclusive, ler o modelo de contrato.
– Isso quer dizer que você está pensando na possibilidade. Já é um avanço. – Falou ele, cruzando os braços e arqueando a sobrancelha.
– Eu não disse nada, só que vou ler. – Eu respondi, cruzando os braços também, em tom de desafio.
– Tudo bem então. Vou deixar você ir, mas depois que ler você me avisa? – Ele pediu.
-Sim, aviso. A propósito, fez um bom trabalho hoje. – Falei piscando e fazendo sinal de adeus com as mãos e ele fez o mesmo, rindo em seguida.
Cheguei no hotel e preparei um café antes de começar a ler o contrato. Eram quase 50 páginas e as cláusulas eram bem atrativas, incluíam um carro da parceira e fornecedora de motor Mercedes, estadia e viagens pagas pela Williams, bem como dias de folga bem atrativos. Mas a minha preocupação ainda não era essa e, sim, o que seria melhor e como resolver. Depois de pensar algum tempo, resolvi ligar para uma amiga, que tem mestrado na área de materiais e está em andamento com o doutorado. Ariele é séria e competente, poderia confiar nela, se ela aceitasse ficar no meu lugar. Peguei o celular e resolvi ligar, duas tentativas e nada. Quando fui tentar a terceira, ela estava ligando de volta.
– E aí guria?! Quanto tempo? – Ela dizia, toda animada.
– E aí?! Muito tempo né? O que anda fazendo? – Eu perguntei.
– Ai, eu tô um pouco ocupada com minha tese do doutorado. Tive que diminuir a matérias que eu tava dando aula, porque os alunos estavam me matando. Eu não estava dando conta mais. Concordo com você que o bom é pegar uma ou duas matérias só. E tu, o que faz? – Ela perguntou.
– Bom, eu tô cheia de trabalho. Tô precisando da tua ajuda. – Eu disse, rindo e já imaginando a reação dela.
– Sabia! Lá vem, desembucha logo!! – Ela falou.
– Eu sei que você tem a tese e tal… – Eu fui falando, e ela me cortou.
– Fala logo, se tá tentando amaciar é porque lá vem bomba. – Ela falava, como sempre de maneira empolgada.
– Eu preciso que alguém fique no meu lugar, pelo menos por um tempo. Tô precisando urgentemente. Você sabe que eu confio em você e é na tua área. – Falei, quase implorando.
– Guria! Tá louca?! Como eu vou aterrissar de paraquedas, do nada, no teu lugar? – Ela disse, dessa vez em tom preocupado.
– Não é do nada, Ariele! Eu vou dar suporte, mas eu tô precisando urgente de alguém de confiança.
– Mas e o que vai fazer da vida mulher que vai largar tudo? – Ela questionou, mas dessa vez com um tom mais sério na voz.
– Eu tenho que mudar de país por um tempo, pra trabalhar na equipe Williams. Mas eu só vou se conseguir deixar alguém de confiança no meu lugar. Preciso mudar urgentemente, eles precisam ajustar um projeto pra essa temporada ainda. – Eu expliquei.
– Caramba! Que notícia boa! Lembro de você sempre falando sobre esse assunto, do quanto você gosta do esporte… eu quero te ajudar, mas eu não sei se consigo, é complicado né, conseguir dar conta de tudo assim, sem um treinamento antes. O conteúdo eu sei, mas e toda a parte burocrática? E… – Ela ia falando os poréns de aceitar o trabalho e eu a cortei.
– Ariele, eu vou te dar todo o suporte não se preocupa, eu tenho umas folgas relativamente boas e que consigo viajar, então eu vou conseguir vir te ajudar. E quando eu não estiver aqui, tu pode me ligar a qualquer hora. – Tentei acalmá-la.
– Tá bem, vamos ver como vai ser. Eu vou ganhar bem? – Ela disse, gargalhando em seguida.
– Vai! Não se preocupe. – Não consegui prender o riso também. – Eu vou deixar meu advogado e o contador a disposição também. Qualquer coisa resolvemos juntos.
– Certo! Você volta quando? – Ela quis saber.
– Na segunda, já comprei a passagem. Quero começar a comunicar todo mundo hoje, que vou me ausentar. Posso já te colocar no grupo da gerência da Fordwins e no dos CEO’s da Renault? – Eu pedi.
– Pode sim, melhor que aí eu já vou me inteirando do assunto. – Ela respondeu.
– Está bem. Eu tenho só um projeto que não foi concluído ainda e antes de eu pegar o avião, vou passar na Renault daqui pessoalmente pra ver como tudo está e se precisar de algum ajuste na linha de produção, eu já vou ajustando. Até concluir a linha você só precisar analisar os dados da otimização que eles vão te enviar. Eu já deixei montado tudo no MatLab, só é preciso atualizar os dados e apresentar os dados do gráfico num briefing marcado a cada início de mês. O resto é simples, fazer o projeto, ter os resultados do CFD, colocar produzir, analisar os dados e apresentar. Eu costumo ir pessoalmente na Renault a cada dois meses. Na Fordwins é a mesma coisa, porém eu fico direto lá e tenho que fazer as análises de custos, como a linha de produção é sempre a mesma, eu só atualizo os dados a cada 15 dias e coloca numa pasta separada por peça e mês. Tem uma área no computador separada para cada empresa com as pastas todas separadas por mês… – Eu ia explicando e ele me interrompeu.
– Guria! Calma! Tu chega na segunda né, aí a gente conversa com mais calma na terça, eu passo lá na empresa daí. Tu fica até o final da semana pelo menos? – Ela indagou.
– Sim, fico sim. Eu já vou te incluir nos grupos e compartilhar a área do meu computador, anota aí o e-mail e a senha é: [email protected] a senha é Abbey2012. – Eu disse.
– Essa senha… – Ela riu. – Só podia ser você…
– Eu tenho um amor por esse carro. – Respondi. – Conseguiu?
– Sim, consegui. – Ela respondeu.
– Tá, então dá uma olhada nas pastas e na terça eu te mostro a Fordwins e o como funciona. Vou ver se consigo encaixar minhas folgas com as primeiras visitas tuas na Renault, daí vamos juntas.
– Está bem. Vou verificar aqui os arquivos e qualquer coisa eu te chamo. – Ela disse.
– Ok, valeu mesmo, Ariele! Acho que você vai se sair bem e vai gostar. Tchau e qualquer coisa liga. – Eu me despedi.
– Assim eu espero! Tá me devendo essa! Tchau. – Ela finalizou, rindo.
Depois de me despedir da Ariele, coloquei ela no grupo e entrei em contato com meu advogado, enviando para ele a cópia do contrato estabelecido pela equipe e também pedindo para ele cuidar dos tramites da mudança. Como era de urgência, eu poderia viajar como turista, pois já tinha tudo pronto, e ir organizando tudo de lá. Não seria fácil contar para minha mãe, preferi conversar com ela e com meu pai pessoalmente.
Depois de ler o contrato mais umas duas vezes, decidi revisar os e-mails e ver se tinha ficado algo para trás ao mesmo tempo que via as notícias na TV e esperava a janta que havia pedido. Depois de comer dois pedaços de pizza e tomar um vinho, acabei apagando no sofá, com a luz e a TV ligadas. No outro dia, ainda tinha a corrida e eu acordei preocupada, pensando ter perdido o horário. Porém acordei mais cedo do que pensava em acordar.
Tomei um banho, coloquei roupas simples, camiseta preta com jeans claro e tênis branco. Depois preparei um café e comi com o que tinha sobrado da pizza. Chamei o mesmo taxi que já havia chamado nos dias anteriores e fui mais cedo para o autódromo. Dessa vez, eu senti um clima mais nervoso entre as equipes, pois hoje seria a real disputa. Meu ingresso era para o setor M, na entrada da curva, então fui direto pra lá e fiquei quietinha vendo a corrida.
Gostei muito do desempenho do George, mesmo não pontuando, é aparente a instabilidade do carro, e mesmo assim, ele luta incansavelmente pra manter o controle e conseguir extrair o máximo. Um carro instável é um problema que causa medo nos pilotos, fico impressionada com ele segurando o máximo para frear nas curvas e não perder o impulso. A regra é simples, frear o mais tarde e o menos possível para entrar com bastante impulso nas retas, no caso dele o mais seguro seria segurar mais no freio, pela segurança, pra não perder o controle com aquele carro, mas eu o vejo se arriscando e querendo fazer o melhor trabalho. Ele largou com 15° e conseguiu terminar em 12° com dois DNF, da McLaren do Sainz e da Racing Point do Stroll, que acabaram se enroscando com o Max Verstappen, mas esse ainda conseguiu ir para os boxes e retornar a corrida, ainda conseguindo pontuar no 8° lugar.
No final da corrida, fui em direção ao Paddock e esperei as entrevistas acabarem para conseguir conversar com a Claire. Então, fiquei ali no pitwall vendo de perto como era o roteiro do final de semana. Logo após o tumulto começar a dispersar, vi George vindo em minha direção.
– Já está quase uniformizada? – Falou ele, fazendo referências as cores das roupas que eu estava usando, eu apenas ri e desci de lá, perguntando da Claire em seguida.
– Você viu a Claire? – Eu perguntei.
– Não, mas eu acho que ela deve ter ido para o motorhome. O filhinho dela veio junto pra cá, então ela deve ter ido ver ele. – Ele explicou. – Você já se decidiu? – Ele perguntou, cruzando os braços e se aproximando.
– Eu quero que incluam no contrato que se eu terminar o meu trabalho antes, eu posso ir pra casa. Também já aviso que só começo na próxima semana, e fico à disposição da pessoa que vai me substituir para qualquer dúvida que ela precise esclarecer, a qualquer horário. Garanto que isso não vai atrapalhar no meu trabalho. Também preciso ver onde vou me localizar, só depois eu embarco… – Eu ia falando, enquanto abria minha bolsa e tirava os papéis do contrato que estavam lá dentro.
– Mais alguma coisa? – Perguntou ele, arqueando as sobrancelhas e desenhando um sorriso com o canto da boca.
– Por enquanto é só isso. – Eu respondi olhando fixamente na direção de seus olhos ainda que ele estivesse de óculos.
– Certo então, você pode começar se juntando a nós hoje à noite na social que sempre acontece no domingo. – Ele falou, com um tom doce nas palavras, com a intenção de me convencer a ir.
– Eu não sei, George. Eu ainda tenho muita coisa pra resolver. Preciso ir conversar com a Claire, para ver como vai ser quando eu chegar lá, eu preciso ter uma noção da localização pra pensar onde vou morar, eu nunca fui para a Inglaterra, muito menos sei dirigir do lado contrário.
– Isso não é o problema, você pode ficar na minha casa até se acostumar e escolher pessoalmente um lugar para morar. Pode ir comigo para o trabalho, eu participo do desenvolvimento do carro, então vai ter que se acostumar comigo por lá. – Ele terminou de falar rindo.
– Eu tô falando sério George, não é simples assim… – Eu ia continuar e ele interrompeu.
– Eu sei, mas eu quero ajudar. O importante é que você aceitou ir, as outras coisas a gente vai arrumando. Vamos, eu vou com você até a Claire. – Falou, fazendo sinal para que eu o acompanhasse. Quando chegamos em frente do motorhome, ele se apressou e abriu a porta para mim. Ao entrar naquele lugar, eu fiquei impressionada, pois não imaginei que seria tão grande. Atravessamos uma sala de convivência em tons claros e subimos uma escada em um corredor estreito para chegarmos no segundo andar, seguindo reto até uma porta de madeira clara, onde era a sala da Claire. George bateu na porta, e logo após ressoou a voz de Claire dizendo para entrar. Logo que a porta, abriu pude ver uma sala espaçosa para um motorhome, com uma aparência clássica e clean e Claire sentada atrás de uma mesa espaçosa com alguns papéis sobre ela.
– Olá Claire, podemos conversar? – Eu perguntei.
– Olá ! Claro! George feche a porta, por favor. – Ela disse, e eu percebi que ele permanecia ali perto da porta, a qual ele fechou e seguiu em direção a uma das cadeiras à frente da mesa de Claire. – Então, você pensou a respeito? – Perguntou ela se referindo a proposta.
– Sim, eu pensei. Estou aqui para dizer que aceito, mas eu tenho algumas condições… – Eu ia dizendo e George se intrometeu.
– Todas simples, ela acabou me contando antes de virmos pra cá. – Ele falou, colocando sobre a mesa a cópia do contrato que eu entreguei a ele, onde estava escrito o que precisava ser alterado.
– George! Não pressione ela. Tenho certeza de que podemos ajustar, mas eu preciso saber quando você estará disponível para embarcar para a Inglaterra. – Claire o repreendeu.
– Bom, eu preciso de uma semana. Preciso ficar aqui no mínimo até sexta. Eu tenho que dar um treinamento pra pessoa que vai ficar no meu lugar aqui, preciso organizar a documentação que preciso para a estadia lá, e também preciso procurar algo próximo da fábrica para alugar, isso eu já vou vendo daqui mesmo.
– Eu já disse que você pode ver isso lá, com calma. – Ele disse, olhando na direção de Claire na sequência. – Claire, eu disse que ela pode ficar lá em casa até encontrar algo pra alugar. Ela pode ver pessoalmente antes de decidir.
– Você pode ficar na minha casa também. Não tem problema. – Ela ofereceu, com um sorriso carinhoso no rosto. – Tinha uma menina que começou a fazer estágio conosco, na parte do marketing. Ela ficou lá em casa, que pena que já acabou o estágio dela, senão seria uma ótima companhia para você. – Ela terminou de falar e ficou uns segundos em silêncio parecia que estava refletindo. – É a primeira vez que você vai morar fora do país?
– Praticamente, é a primeira vez que eu saio do país. Fora daqui eu só conheço uma pequena cidade na Argentina. – Expliquei.
– Fica tranquila, temos muitos estrangeiros trabalhando conosco, daremos todo o suporte que precisar. Você se organiza para pegar um voo para Londres, me informa o horário de chegada, e eu vou pedir para alguém te buscar no aeroporto e te levar até Groove. Aqui está o número pra você falar diretamente comigo. – Ela falou gentilmente.
– Certo, Claire. Eu entro em contato informando o horário que vou chegar. – Eu disse.
Depois disso me despedi dela e sai da sala com George me acompanhando.
– Você vai na after hoje? – Perguntou George, me seguindo até a saída.
– Acho que não, eu tenho muita coisa pra resolver amanhã, preciso descansar. – Respondi.
– Ah, vamos lá! Você é parte do time agora, assim você pode conhecer o pessoal. – Explicou ele.
– Tá bom, eu dou uma passada lá. Mas agora eu preciso ir. – Respondi e segui caminhando.
– Ok, eu vou esperar você lá mais tarde. – Ele respondeu se despedindo e então eu segui para o hotel, tomei um banho novamente, pedi algo para comer, verifiquei os e-mails, falei com meus pais e acabei pegando no sono por duas horas até acordar e me dar conta de que estava esquecendo de algo.
Era quase 20h e eu precisava me arrumar e ir para a after como tinha falado que iria. Me arrumei de forma rápida, coloquei um vestido tubinho preto e uma sandália preta, com uma maquiagem básica que eu sabia fazer, só uma máscara de cílios e batom vermelho, e os cabelos mantive preso deixando meu colar e os brincos delicados a mostra. Sorte que o endereço era um hotel perto de onde eu estava hospedada. Quando o taxi me deixou na frente do prédio, percebi que havia vários carros no estacionamento ao lado. Eu segui até o hall de entrada e informei a um dos seguranças que estava indo ao evento que estava acontecendo ali, e logo ele abriu a porta para que eu entrasse. O lugar estava meio escuro, mas ainda era possível enxergar as pessoas, tinha uma música num volume agradável e ao contrário do que eu imaginava, estava um lugar calmo e agradável. Fui tirada de meus devaneios por George.
– Estava procurando você, mas achei que não viria. – Ele disse fazendo uma cara de triste. Ele estava vestido de forma elegante, com roupas sociais em tons escuros, assim como seus três amigos ao lado. – Esses são Alex, Lando e Charles. – Ele disse apontando a cada um deles e apresentando. – Pessoal, essa é a , ela é nova na equipe. – George continuou e eles cumprimentaram de forma simpática.
– Olá, prazer em conhecê-los. – Eu respondi sorridente. – E sim, George, falei que vinha e estou aqui.
– Ótimo, então vem com a gente, beber alguma coisa. – Ele sugeriu e então eu os acompanhei e peguei uma bebida, uma não, duas, três. Eu ainda estava consciente, mas estava me sentindo mais confortável agora. Tanto que engatei uma conversa com Lando, como se nos conhecêssemos desde a maternidade. Mas eu ainda tinha um pouco de juízo na minha cabeça e percebi que já deveria ir descansar. Chamei o taxi novamente e só deu tempo de tirar a maquiagem com o tamanho do sono que eu estava.
No outro dia, como eu tinha planejado, na parte da manhã eu visitei a unidade da Renault e por sorte estava tudo tranquilo e eu não precisaria mexer. Sendo assim estava livre para finalmente ir para casa no final da tarde.
Logo que cheguei, tive que dar a notícia aos meus pais, para já começar a organizar minhas malas. Confesso que não foi nada fácil, meu pai é mais tranquilo, mas minha mãe é bem apegada e ficou bem abalada, mesmo sabendo que pode me visitar quando quiser.
A semana foi longa, tive que passar o máximo de informação que conseguia para Ariele, que foi minha colega de faculdade e iria me substituir, também tive que resolver toda a parte burocrática da viagem com meu advogado.
Os primeiros dias na Inglaterra não foram fáceis, nunca havia saído do país dessa maneira, seria um desafio tanto profissional, pelo fato da responsabilidade que eu estava assumindo e também pelo fato da adaptação a um país e cultura diferentes. Como prometido, Claire enviou um motorista para me buscar no aeroporto em Londres e me levar até Groove. Os primeiros dias, eu fiquei na casa dela, até encontrar um lugar para alugar. Eu ia e voltava com ela o trabalho, e nos finais de semana que não tinham corridas o George me buscava para caminharmos no parque e eu conhecer mais o ambiente.
Confesso que fiquei bem apegada ao filho de dois anos de Claire, o Natie. Foi bem difícil na hora da despedida, tanto que o pai dele, o Marc, teve que ir com ele até a casa do avô, Frank, para que eu pudesse sair. Eles são uma família muito acolhedora e especial, tanto que me fizeram sentir segura como se eu tivesse uma família aqui também.
Eu resolvi aproveitar a sexta-feira para organizar a casa, pois durante a semana iria ser muito corrido para tentar fazer isso. Seria uma ótima atividade para eu me distrair também, toda vez que eu pensava na minha família e no filhinho da Claire, eu sentia vontade de chorar, mas antes que eu pudesse deixar mais lágrimas escorrerem pelo rosto, o telefone tocou.
– Oi, como você está? Conseguindo se organizar na casa nova? – Ressoou a voz de George do outro lado da linha.
– Oi, estou tentando me organizar aqui. – Respondi, com a voz engasgada, enquanto caminhava em direção aos armários da cozinha para guardar as compras.
– Você tá chorando? O que houve? – Ele perguntou, assustado.
– Eu estou bem, mas ainda preciso de um tempo pra me acostumar com essas mudanças. Sinto falta da família e agora também do pequeno Natie. – Expliquei.
– Eu vou aí, não vou te deixar sozinha. Não demoro, logo estou ai! – Ele ia dizendo e eu tentei cortá-lo.
– George… – Eu disse.
, eu vou aí e mais tarde saímos jantar. – Ele falou, decidido.
– Tudo bem. – Falei concordando e após isso nos despedimos e eu continuei organizando as compras nos armários. Nem percebi o tempo passar, pois acelerei o que estava fazendo para que pudesse tomar banho. Não deu muito certo, pois quando George chegou eu não tinha acabado de organizar. Eu estava vestida com moletom, short jeans e uma meia nos pés e desse jeito não podia sair jantar.
– Se você quiser a gente pede alguma coisa em casa mesmo e amanhã saímos jantar. Eu te ajudo com os armários. – George sugeriu.
– Tudo bem. – Concordei, entregando uma caixa para ele com algumas louças, enquanto tentava por algumas tigelas no alto do armário, sem sucesso. – Você pode me ajudar aqui? – Perguntei, enquanto ele ria.
– Ok. – disse, pegando as tigelas da minha mão e erguendo no armário sem esforço algum. – Quero ver como você vai conseguir pegar aí depois. – falou ele, olhando direção às tigelas e depois para mim.
– Preciso de uns bancos aqui pra subir. – Respondi, o fazendo rir.
Depois que ele me ajudou, eu pedi a janta e resolvi tomar um banho, enquanto a refeição não chegava. Depois comemos pizza enquanto víamos um filme antigo de ação, o qual eu não lembro o nome e a acabei pegando no sono antes que acabasse. Porém, George acabou me acordando para avisar que ia embora e para que eu fosse dormir na cama.
Os dias que se passaram foram muito corridos, eu tinha muito trabalho e tinha um curto prazo para resolver os problemas com os freios. Peddy acabou voltando do trabalho e não gostou nada que eu estivesse me intrometendo, foi difícil lidar com a desconfiança dele. Porém, George e Claire estavam acompanhando o processo, o que me deixou mais segura no ambiente, como também fiz alguns amigos ali, mas nada muito pessoal.
Alguns meses se passaram e eu posso dizer que estou mais tranquila e, como prometido, George não me deixa sozinha. E eu convenci minha mãe de vir pra cá, finalmente.
George’s Message: , sua mãe já chegou?
‘s Reply: Ainda não. Ela só vem na próxima semana.
George’s Message: Então, o que você achar de sairmos pra um hiking amanhã?
‘s Reply: Sim, vamos.
George’s Message: Certo, te busco amanhã cedo então!
’s Reply: ok!
Eu tinha comprado minha primeira bicicleta tem pouco tempo para ir o parque com a Claire e o Natie. Seria a primeira vez que iria para um hiking.
No outro dia, fui acordada cedo por George ligando pra avisar que estava no portão já. Então eu corri escovar os dentes e desci de pijama mesmo abrir o portão de casa.
– Quando você falou cedo, não imaginei que seria tão cedo. Que hora é agora? 6 am? – Eu disse, tendo dificuldade para abrir completamente os olhos. Ele nem conseguiu me responder de tanto que ria. – O que foi? – Perguntei.
– Você ainda está de pijama e sem calçados. Imagino que não tenha tomado café ainda. – Ele refletia.
– Não! – Eu falei séria, fazendo ele rir mais ainda. – Que carro é esse? Cabe as duas bikes aí? – Perguntei torcendo o pescoço pra conseguir ver melhor, pois não era o carro que estava acostumada a ver ele dirigir.
– Então… Ele é seu, espero que não se importe que eu tomei a liberdade de escolher a cor. É um GLA 2.0 esportivo… – Ele ia continuar falando e eu o interrompi.
– Pra mim é o Victor. – Galei correndo pra perto do carro pra poder ver melhor. – A propósito eu adorei a cor, é um tipo de chumbo. – Foi então que corri de volta pra perto dele para abraçá-lo.
– Aqui. – disse ele, tirando do bolso as chaves, então eu peguei e fui logo abrir para ver cada cantinho do carro, só depois eu parti tomar café e arrumar lanches e bebida para colocar na mochila que íamos levar, enquanto George desmontava minha bicicleta e colocava no porta-malas.
O dia foi tão divertido, apesar do cansaço. Foi recompensador respirar o ar tão puro e refrescante do lugar em que estávamos. Na verdade, eu não sabia onde estava, George foi dirigindo até onde era possível, pois eu não conhecia o caminho. Logo depois, pegamos as bikes e pedalamos 6km, eu já não aguentava mais e ele ainda me disse que faltavam mais quatro… caminhando, pois era impossível continuar de bike pelas pedras.
– George, espera! – Eu disse, depois do primeiro km caminhando.
– Mas já? – Ele falou, zombando da minha cara e parando de caminhar também.
– Eu não sei de onde você tira tanta energia. Eu não estou acostumada a fazer esse tipo de exercício. – Respondi, fazendo cara de poucos amigos e voltando a caminhar.
– Você podia começar a ir na academia comigo. É muito bom pra saúde, fazer atividade física e se alimentar corretamente. Isso regula o meu sono e me dá muita energia. – Ele ia explicando enquanto caminhávamos.
– Vou pensar na possibilidade, mas por enquanto estou pensando em me esforçar aqui e imaginando que ainda tem a volta. – Comentei, aumentando o ritmo e torcendo o pé. – AHHH! – Gritei e parei bruscamente.
– Deixa eu ver. – George falou se abaixando e puxando meu pé para olhar, enquanto eu me apoiava em suas costas.
– Não foi nada grave, dá pra continuar. – Falei.
– Acho melhor pararmos um pouco, podemos descansar e comer alguma coisa. Depois se não melhorar voltamos daqui. – Ele disse.
– Podemos descansar um pouco, mas eu consigo continuar depois. – Respondi. Então paramos um pouco para descansar e comer um lanche. – Como é bonito aqui. – Falei, analisando a paisagem no horizonte. Alguns ciprestes e montanhas do outro lado de um rio.
– Sim, realmente é muito bonito. Eu costumava caminhar ou correr aqui com mais frequência. – Falou ele, olhando o horizonte e refletindo. Depois disso, seguimos o caminho e eu estava cada vez mais admirada com a paisagem. Na volta, engatamos uma conversa com as perguntas dele sobre o Brasil e eu nem percebi o tempo passar, somente na hora de ir pra casa.

Já fazia uns dias que minha mãe tinha chegado, e ela ainda não conhecia o George. Ele virá aqui em casa, pois, nós dois vamos participar de um programa de TV, onde iremos competir com Lando Norris para ver quem faz a melhor pizza. E eu, como não gosto de perder, vou ensinar ao George como fazer pizza, para que não sejamos um desastre em rede nacional.
– Cheguei. – Disse George, ao telefone. Como ele tinha o controle do portão de entrada eu me dirigi somente até a porta para abrir.
– Bom dia! Ansioso? – Eu perguntei e fui em sua direção para abraçá-lo.
– Sim, um pouco. Nosso almoço hoje depende das pizzas, certo? – Disse ele, rindo.
– Sim, isso mesmo. – Respondi, enquanto seguíamos para a cozinha, onde minha mãe já nos esperava.
– Bom dia. – Disse ela, e George respondeu com um “bom dia” em português de forma toda torta.
, eu não vou me intrometer. Mas eu espero ter almoço hoje. – Disse minha mãe, fazendo piada dos meus dotes culinários e eu falei ao George sobre o comentário dela.
– Então você não sabe fazer pizza!? Estamos perdidos!! – Dizia ele, fingindo estar apavorado.
– Não estamos, não! O adversário é o Lando, não esqueça isso. Atrapalhado do jeito que ele é, não vai ser difícil ganharmos. – Falei, fazendo referência aos dotes culinários de Lando Norris na cozinha. – E, fazer pizza não é tão complicado assim. – Completei.
– Veremos, veremos. – Dizia ele, cruzando os braços, enquanto eu pegava os utensílios e ingredientes que íamos ocupar e ele pegava as inalcançáveis tigelas no alto do armário. Até que no final a pizza ficou bonita, mas a massa era igual uma pedra. Então, decidimos pedir algo para o almoço e tentar novamente fazer somente a massa.

Minha mudança de humor tem sido nítida nesses dias com a notícia de que meu pai, finalmente, também virá me ver, pois eu estou precisando de ajuda na indústria e também na oficina que estou pensando em montar em casa. Estava me sentindo completamente feliz, escutando música nos fones e lendo um livro, sentada no sofá da sala. Senti meu celular vibrar e vi a notificação de mensagem do George.
George’s Message: Hey, o que você tá fazendo?
’s Reply: Nada e você?
George’s Message: Absolutamente nada. Meus pais não estão em casa.
’s Reply: Como assim? Onde eles foram?
George’s Message: Foram ver a minha irmã. E não me avisaram. Bom, deixaram uma carta na mesa. Quer ir jantar comigo? Eu não quero jantar sozinho hoje.
’s Reply: Agora?
George’s Message: Sim, você tá ocupada?
’s Reply: Não estou ocupada.
George’s Message: Tudo bem, eu passo aí então que já fica no caminho do restaurante. Estou indo.
’s Reply: Ok, vou esperar aqui.

Eu respondi, indo em direção ao meu quarto buscar minha bolsa e um casaco.
– Mãe, eu vou sair uns minutos tudo bem? George está vindo me buscar. – Dizia para minha mãe, pegando minha bolsa.
– O que houve? – Ela me perguntou.
– Ele não está muito bem, quando chegou em casa, a família dele não estava, viajaram para visitar a irmã dele. E ele me convidou pra jantar e eu não quero deixá-lo sozinho, porque ele não me deixou sozinha quando cheguei aqui. Tudo bem? – Perguntei.
– Sim, sem problemas, vai lá. – Ela concordou.

Após o jantar decidimos ir caminhar um pouco no parque à frente do restaurante. Estava frio, mas aquela sensação de liberdade e tranquilidade que aquele lugar silencioso trazia era indescritível. Dos dias turbulentos e cheio de pessoas em volta, ali naquele momento era só nós dois, e eu sentia que podíamos falar sobre qualquer coisa. Andávamos pelo parque de forma tão lenta, aproveitando cada milímetro daquele lugar.
– George? – O chamei a atenção, já que ele estava perdido olhando para o céu.
– O que foi? – Ele perguntou, olhando agora na minha direção.
– Seus pais… eles disseram quando voltam? – Eu resolvi tocar no assunto.
– Não. Minha irmã está no início da gravidez e está planejando o casamento. Minha mãe resolveu ir passar um tempo lá, pra ela não se agitar muito com os preparativos. Eles podiam ter esperado uma semana só, ela sabe que aqui eu fico perto do trabalho. Não tem como eu estar lá com eles e conseguir ir ver o carro ao mesmo tempo. – Ele falou tudo de uma vez, era visível que estava chateado, afinal, são meses longe de casa.
– Eu entendo. São seus pais e é óbvio que você sente falta deles. Mas a gente saindo pra jantar, não seria correto. E a garota, sua namorada? – Resolvi tomar coragem de perguntar sobre a garota que vi ele beijando, quando estava saindo do trabalho na semana passada, e parei de caminhar, esperando a resposta.
– O quê? Que garota? – Disse ele, um pouco assustado com a pergunta.
– Eu vi você com uma garota. Não quero que você pense que estou me intrometendo. Mas eu acho que você poderia ficar perto dela nesse tempo. – Respondi.
– Não tem garota nenhuma. – Ele respondeu de forma séria, olhando fixamente em meus olhos.
– George, eu vi. Não tem problema em me contar… Eu penso que seria correto você ter convidado ela para sair. – Eu insisti.
– Estou falando a verdade. Ela é alguém que eu conheci quando era criança. Não tem nada entre nós, inclusive ela está mudando para outro país. Se era o que você queria saber, eu estou livre. – Falou em tom de brincadeira, me deixando vermelha, o que me fez apenas ignorar o seu comentário e seguir caminhando.
Depois do parque, George foi me levar em casa, durante o caminho eu vi seu humor mudar de alegre para desanimado novamente. Eu imagino que ele deve estar pensando que vai voltar pra casa e vai estar sozinho novamente. Então procurei uma música um pouco animada para tentar mudar o clima.
– Você escuta isso? – Disse, arqueando as sobrancelhas e rindo.
– Sim, eu gosto bastante de Mcfly. Se a banda voltasse eu iria em um show. – Eu respondi.
– Então, se eles voltarem, vamos no show. – Ele disse, e eu o encarei como uma criança prestes a ganhar um doce.
– Vamos? Sabia que você também curtia. – Sugeri.
– Eu não disse nada. – Resmungou, desviando o olhar.
– Sei. Veremos você cantando com todas as letras na ponta da língua. – Contestei.
Quando chegamos em casa, eu o convidei para descer, para que ficasse menor tempo possível em casa sozinho.
– Você estava lendo isso? – Falou, pegando o livro que estava ao meu lado no encosto do sofá.
– Sim, eu gosto desse livro. É realmente muito bom para a parte de mecânica dos fluidos. – Falei e então começamos a conversar sobre o assunto.
George parecia bem cansado, porém eu resolvi terminar o capítulo que tinha como meta para aquele dia e então ele deixou que eu me concentrasse na leitura.
Alguns minutos passaram até que, então, eu percebi um desconforto no meu ombro esquerdo e me dei em conta de que George tinha adormecido apoiado em mim, e eu comecei uma tentativa de me acomodar melhor sem acordar ele até eu terminar de ler o capítulo.
– Não está bom por hoje? Você também precisa descansar. – Disse minha mãe, levantando do sofá e se aproximando.
– Eu estou quase acabando. Mas admito que não estou aguentando mais. – Falei fechando o livro, o colocando de volta no encosto do sofá e tentando me virar sem acordar o George.
– Ele é bem apegado com você. – Disse minha mãe e eu parei para analisá-lo dormindo, tão sereno. – Você precisa dar mais atenção a ele. É visto que você gosta dele e saiu correndo hoje quando ele chamou, ele precisa de carinho e atenção. – Ela falou de um jeito tão doce que quase me fez chorar e então eu passei a mão nos cabelos dele e dei um beijo em sua testa para acordá-lo.
– Hey, não vou deixar você dormir no sofá. – Falei baixo, perto do seu rosto e ele riu.
– Eu preciso ir. Que hora é agora? – Ele perguntou ainda de olhos fechados.
– De jeito nenhum, você não vai sair com sono desse jeito. – Falei colocando a mão no bolso de seu moletom e pegando a chave do carro dele. – E amanhã você não tem compromisso nenhum, aproveita para descansar mais um pouco. Sobe, eu já vou dormir também.
– Está bem. – Ele disse, se arrastando e indo em direção ao quarto. Quando cheguei lá, ele estava dormindo por cima dos cobertores e com a luz ligada, tamanho sono que estava, só se jogou na cama mesmo. Então eu liguei o ar para aquecer e deixei que dormisse sem se cobrir. No outro dia, eu acordei primeiro e percebi que ele estava dormindo próximo e com o braço por cima de mim. Tão bonitinho que estava com dó de acordar. Depois do café, ele acabou voltando pra casa e eu voltei a ler o livro.

Já fazia bastante tempo dessa minha nova realidade e os dias pareciam demorar a passar mais do que nunca, George estava viajando, dessa vez para a Ásia. E eu contando os dias para o meu pai chegar, como também estava contando os dias para o GP de Silverstone e para o meu aniversário, seriam vários presentes ao mesmo tempo. Enquanto tenho tempo livre, aproveito para por em dia meus treinos no simulador e na academia da empresa. Eu não acompanho a equipe, trabalho unicamente na indústria, mas já fui ver alguns GP’s perto daqui, o que me aproximou de algumas pessoas, especificamente o quarteto do Twitch e suas equipes.
O dia de buscar meu pai no aeroporto finalmente chegou e estou tão feliz que ele vai poder ver a corrida no final de semana. O meu trabalho foi mais intenso pelo fato da equipe estar toda em casa nesses dias, mas teremos uma folga no qual estamos organizando os testes dos carros que, no final, acabam sendo uma diversão. Estávamos a caminho de Silverstone, numa quarta-feira, e eu ia apresentando para minha mãe e meu pai os lugares que eu já conhecia. Inclusive um restaurante que serve comida parecida com a brasileira. Quando chegamos no autódromo, apresentei as pessoas que estavam ali, alguns mecânicos da equipe e alguns pilotos que estavam ali pela diversão. Confesso que mesmo tendo me aproximado do pessoal da Ferrari, fico paralisada toda vez que vejo Mick Schumacher, sempre consegui conversar com ele e com Sebastian Vettel, que faz questão de acompanhar a carreira de Mick na fórmula 2. Eles são duas pessoas super simpáticas e simples. Como todo brasileiro, eu sou muito fã do Ayrton Senna, por tudo que ele representou dentro e fora das pistas e pelo quanto o legado dele ainda ajuda e inspira muitos jovens. Mas, Schumacher também representa um herói pra mim, e ainda que por pouco tempo, eu consegui ver ele nas pistas, e poder estar próxima do filho de uma lenda, ter a possibilidade de conversar com ele, é uma experiência inexplicável.
Fui tirada de meus pensamentos quando o esquadrão do Twitch se aproximou. Vulgo George, Lando, Charles e Alex, que se aproximaram fazendo barulho, gritando “chegou mais um, chegou mais um”, que era Carlos Sainz, também chegando antecipadamente.
Max e Daniel estavam na pista, Sebastian e Mick ao meu lado, os outros pilotos só virão pra corrida mesmo.
– A gente podia fazer uma disputa e finalmente decidir quem será o Roockie do ano. – Falou Lando Norris.
– A novata sou eu aqui. – Respondi, fazendo eles rirem.
– Então beleza, “novata”, mas não vai chorar depois. – Continuou Lando, fazendo os outros rirem quando ele fez aspas no ar ao pronunciar a palavra novata.
– Corajosa… – Completou Charles, olhando na direção de Sebastian que só arqueou a sobrancelha e riu. Enquanto isso, Daniel e Max se aproximavam.
– Não subestimem… – Disse George.
– Não subestimem, quem? Eu? – Disse Max, fazendo piada.
– Como vocês são convencidos… – Falei, ouvindo ressoar “Uouuuu” deles. Fui em direção a garagem da Williams e fui pegar um capacete, que eu ganhei da equipe, com um design de aniversário. Quando fui pro lado do carro do Latifi, minha mãe me chamou.
, o que é que você vai fazer? – Disse ela, preocupada.
– Ver como o carro se comporta. – Expliquei.
… – Ela ia prosseguir e meu pai a cortou.
– Deixa ela, não é mais uma criança. – Ele disse.
– Você sempre protegendo, nunca impôs limites. – Ela retrucou.
– Hey! Vocês dois! Eu sei o que estou fazendo, brinco disso toda semana e essa pista eu conheço bastante. Isso tem me ajudado a entender os problemas do carro. – Terminei de falar, e eles ficaram quietos, vendo eu ir em direção do carro e entrar no cockpit. Com George vindo atrás, falar comigo enquanto os mecânicos aqueciam os pneus.
– Os outros também vão. – Disse ele.
– Não tenho medo deles. – Falei rindo, mas era visto que o nível era outro.
– Não vamos fechar o circuito, tem muita gente, então é só até concluir a volta, sem retorno. – Ele explicou.
– Drift tá valendo? – Perguntei e ele deu um sorriso antes de responder que sim. Então saímos dali e arrumamos os carros na largada. Seria grid invertido, mas mesmo assim, não iria me beneficiar, pois eu ficaria no meio, com a classificação das duas Williams. Então na frente começavam Albon e Leclerc, seguidos por eu e George, depois vinham as duas McLaren, Daniel e Max por último, que segundo ele dava conta sem problemas.
Aquele som dos motores era ensurdecedor, porém era uma sensação muito agradável para quem gosta de automobilismo, parece criar uma energia interna dentro do piloto que não é possível explicar. Por sorte, meu pai nunca seguiu os conselhos da minha mãe e me ensinou a não ter medo e aprender a controlar uma direção, mas obviamente o simulador ajuda a evoluir de maneira significativa. Depois de conseguir uma boa largada, tentei fechar o Max que tinha conseguido passar pelos que estavam atrás de mim, tarefa difícil, visto que tinha que cuidar de George que ainda estava ao lado, então dei espaço para que ele passasse logo e deixei Max sem conseguir passar novamente, com ele tendo que reduzir. Logo depois de George passar e Max querer o lugar dele, então aproveitei a confusão de Max com as McLaren se aproximando novamente para passar Alex Albon, já quase no final do circuito. Então tinha que me arriscar mais um pouco para chegar perto de Charles Leclerc e do George, por sorte, estamos evoluindo e o motor ainda aguenta mais pressão. Resultado de nossa parceria com a Jordan e o cancelamento da utilização dos motores da Mercedes, nos dando liberdade para ajustá-lo. Nos últimos centímetros antes da linha de chegada, consegui me aproximar de Charles e jogar o carro num drift, conseguindo ficar ao lado de George e Max que também fizeram o mesmo, seguidos por Daniel, Sainz e Lando ao lado de Albon.
Quando saí do carro, pude ver a cara da minha mãe brava comigo, mas não falou nada pelos pilotos que vinham do lado.
– Você me trancou no início da volta, eu não tinha chances de passar sem bater. – Dizia Max, inconformado.
– Admite, você é um frouxo. – Falou Daniel, seguido daquela gargalhada inconfundível.
– Temos que admitir, quase todos nós ficamos atrás da novata. – Dizia, Lando.
– Ah, você já decidiu o prêmio então? – Falou Carlos Sainz.
A conversa sobre quem ia levar o prêmio de Roockie do ano foi longa. Mas voltei mais cedo para casa, apesar de meu aniversário ser na segunda, eu farei uma janta para alguns amigos em casa, no domingo, precisava decidir o que servir e fazer as compras do mercado.
No dia da corrida, o resultado saiu como esperado para o avanço que prevíamos. Mais algumas pontuações, um lugar entre os 10 novamente. Era a energia que estávamos precisando para lugar por pódios daqui pra frente. E foi muito bom minha mãe e meu pai conseguirem ver o meu trabalho, que apesar da correria, me faz muito satisfeita.
Depois da corrida, eu fui direto para casa, tomar um banho e colocar roupas “civis”, como eles costumam dizer por aqui. Ajudei minha mãe com os preparativos da janta, quando percebo Claire, chegando bem cedo, para me dar um abraço e pedir desculpas por não poder ficar, devido ao filho dela estar bem inquieto com todo o tumulto que presenciou durante o dia. Os outros chegaram praticamente juntos, e ainda eu não tinha entendido o porquê do Lando e do Charles chegarem com um caminhão.
– Vocês resolveram brincar de TruckSimulator na vida real agora? – Eu disse incrédula, enquanto eles tomavam seus assentos na sala.
– Não , é que a gente tá com umas motos lá atrás. Com a folga dessa semana, a gente quer acompanhar o GP de moto. E aí tem umas coisas pra ajustar, a gente vai usar a oficina tá? – Explicava Lando. Iria adiantar eu dizer não?
– Cadê o George? – Perguntou Charles.
– Ainda não chegou, não sei onde ele tá. – Respondi, tomando um gole da minha bebida e tentando imaginar o que ele estava fazendo.
– Todo mundo sabe que ele demora mais do que uma menina no banho. – Respondeu Alex.
– Todo mundo não! Você que sabe! Ou talvez o Latifi. – Respondeu Norris, fazendo todo mundo cair na gargalhada. Quando ele ia responder ouvimos os gritos do George fora de casa.
– Quem deixou essa **** aqui? – Ele dizia, se referindo ao caminhão que estava no caminho e ele não conseguia passar pelo portão.
– E agora? Quem vai lá tirar? – Eu disse.
– Não olha pra mim! – disse Sainz para Norris.
– Quem vai conseguir fazer a volta naquele espaço ali? – Rebateu Norris. – Alex? – Continuou ele, até que Alex foi lá destrancar a entrada.
O domingo terminou desse jeito, com muita energia e muita palhaçada, ainda resolveram cantar parabéns sem ser meu aniversário. Mas como tudo um dia acaba, eu precisava dormir para trabalhar no outro dia, mas não antes de ter que tirar o caminhão dos meninos que agora estava trancando a minha saída.
– Droga! Eu não acredito!!! – Falei saindo de casa só de pijamas ainda e tentando tirar o caminhão deles que agora trancava metade da garagem.
Quando cheguei na minha sala tinha flores na mesa, com um cartão de George desejando parabéns, me fazendo chorar ao ler. Depois de recuperada, segui meu trabalho até o intervalo, que eu aproveitava para ir para o simulador ou para a academia. Resolvi ir para a academia, e acabei encontrando George lá.
– Heeeey ! Parabéns!!! – Disse Aleix, treinador do George, vindo me abraçar.
– Parabéns!!! – Dessa vez, foi a vez de George. – Você sabe tudo que eu quero dizer né? Quero só o melhor pra você. – Disse ele baixinho.
– Eu sei. – Respondi, apertando ainda mais o abraço. – Agora, vá tomar banho George! – Falei, fazendo cara feia por ele estar suado.
– Eu vou. Depois vamos almoçar, ok? – ele disse e eu concordei.
Depois do meu treino e de um banho, eu e George fomos almoçar.
– O Lando vai mesmo perturbar o teu pai com aquelas motos. – Comentou.
– Não antes de me perturbar. – Eu disse rindo. – Dessa vez eles deixaram o caminhão trancando a garagem. Mudei ele de lugar pra conseguir sair hoje.
– Você vai ver a corrida? – Perguntou.
– Eu não iria, mas meu pai vai querer ir, com certeza. E você, vai? – respondi, ajeitando o prato que havia acabado de chegar.
– Eu vou, mas de carro. Não sou tão ligado em moto. – Ele respondeu.
Depois do almoço, voltamos ao trabalho, que me dei a liberdade de ir para casa um pouco mais cedo, pois nunca tenho horário para sair, quanto mais adiantado o serviço está, melhor. Quando cheguei em casa, meu pai falou que o Lando tinha ido lá de tarde para trocar o escapamento das motos, trocar as luzes e colocar alguns adesivos. Por sorte, meu pai consegue entendê-lo, e mesmo que não conseguisse, ele iria da mesma forma. Mesmo assim, recebi uma ligação dele, pedindo pra deixar o caminhão lá até a corrida e convidando pra ir junto. Eu acabei indo, um pouco sem vontade, mas no final eu gostei, é algo diferente do que eu imaginava, é menor, mas mesmo assim tem a mesma empolgação. Ainda saímos todos de lá com um gorro do Valentino Rossi, mas Lando, Lando montou um kit que devia ter até toalha de banho. O piloto é muito simpático, ganhou a corrida e Lando ficou louco indo entregar o troféu.
Combinamos um jogo de golf para a outra semana. Eles pensam que sabem jogar, se colocar a namorada do Alex junto, apanham feio. Éramos cinco, quando eu vi tinham pego o meu carro.
– Quem deixou colocar todas essas tralhas aí? – Falei me referindo as sacolas com os tacos de golf e caixas térmicas, fazendo cara de brava.
, mas é assim que cabe todos nós e os tacos. – Explicou Alex, de maneira inocente.
Eu não sei porque decidi ir, eu não sabia jogar, então fiquei a tarde toda olhando aquela bolinha voar de um lado para outro. Até gravei um story disso com a legenda “se não pode ganhar deles, junte-se a eles”. A parte que eu gostava era o quão desajeitados eles pareciam, e mesmo assim faziam pose de atleta. Depois do jogo, fomos pra casa de Lando, a mãe dele faria janta.
Alex estava brincando com os gatos, enquanto Lando, Charles e Alex estavam sentados no sofá jogando um jogo esquisito que trouxeram da Ásia. Tentaram me explicar, mas eu desisti, preferia ver eles jogarem pra tentar aprender. Quando o celular de Lando tocou, eles queriam que eu continuasse jogando, e eu o fiz, até perder todos os pontos que ele tinha ganhado.
– Era o Ilott, ele tá vindo pra cá. – falou Lando, e eu percebi que finalmente iria conhecer ele, pois as poucas vezes que vi ele no autódromo, não foi nem de perto. Lando acabou desistindo do jogo, pois estava sem pontos e foi colocar mais bebida para gelar. Até que foi possível ver pelos vidros, um carro preto estacionando na frente da casa e Ilott saindo de dentro.
– E ai, dude?! – Cumprimentou Lando, ao abrir a porta.
– E ai?! – Disse Ilott, respondendo e estendo a mão. Então, ele seguiu na minha direção, que estava mais perto. – Oi, tudo bem? – E me deu um beijo na bochecha.
– Tudo bem. – Eu respondi, ouvindo Norris gritar no fundo “essa é a ”.
– Prazer em conhecê-la. – Disse Ilott, eu respondi com um “também” e logo após ele foi na direção dos outros cumprimentar.
Depois da janta, teve mais rodada de jogo, dessa vez era com um baralho comum mesmo, porém não me arrisquei pois já estava com sono e sem animo pra isso. Ilott que ficou de fora, sentou ao meu lado no sofá e tornou a conversar comigo, perguntando empolgado sobre o Brasil.
– Qual lugar você aconselha a conhecer primeiro? – Perguntava ele.
– Ahh, boa parte das pessoas que vão para lá gostam da praia. Mas eu prefiro a paz do campo, no interior… – Eu ia explicando, quando George apareceu.
– A estava me falando sobre lugares pra visitar no Brasil. – Ilott falou.
– Que legal, tem no maps também! – Respondeu George de maneira seca. – Vamos embora ? – Disse ele, com o semblante sério.
– George! – Eu falei repreendendo sua atitude.
– Eu estou cansado, vamos embora? – Prosseguiu, ele.
– Hey, calma se ela não quer ir, eu posso levar ela depois, sem problemas. – Ilott falou, tentando contornar a situação.
– Ela veio comigo e vai voltar comigo. – Resmungou George.
– Chega, agora eu que quero ir embora. – Eu disse em um tom mais alto fazendo Norris se aproximar.
– O que está acontecendo aqui? – Perguntou ele.
– Nada não, nós já estamos indo embora. – Respondi. – Desculpa, ok? – Falei para Ilott. – Boa noite, pessoal. – Eu me despedi e George ainda continuava em silêncio, até eu ir em direção da porta e ele se despedir, me seguindo logo após.

Lando’s POV on
Ainda sem entender o que estava acontecendo, mas já imaginando. Fechei a porta e me preparei para as perguntas.
– O que deu nele? – Perguntou Alex, o mais alienado com esses assuntos.
– Não sei, do nada ele apareceu dizendo que queria ir embora… – Ilott ia dizendo.
– Você foi mexer com algo errado. A é assunto proibido. – Explicou Norris, rindo.
Lando’s POVoff

– Você pode me explicar o que foi aquilo? – Eu falei, logo que entramos no carro, com um misto de raiva e incredulidade na voz.
– Nada, eu só quero ir pra casa. – Essa foi a resposta que ouvi, e após isso, eu fiquei calada até George me deixar em casa e eu somente dizer um boa noite. Quando entrei dentro de casa, meu pai, que estava vendo um filme, logo perguntou o que havia acontecido e eu somente disse que estava cansada. O que era verdade, eu não queria falar sobre isso, só precisava de um banho e da minha cama.
No outro dia, fiquei o dia todo sem responder as mensagens de desculpa de George. Até que no final do dia, eu resolvi ir na casa dele. Quando cheguei, os pais dele estavam saindo, como sempre, a mãe dele agitada com os preparativos para a chagada do neto e com um casamento para organizar, me cumprimentou rapidamente, disse que George estava no quarto e pediu que eu fechasse a porta da casa. Então, subi as escadas, bati na porta e escutei ele dizer para eu entrar. Ele parecia surpreso ao me ver, pois eu não havia avisado que iria vê-lo. Estava jogado na cama, com o ar-condicionado congelando o ambiente, com um café do lado e um controle de jogo nas mãos.
– A-h, e-eu… – Ele tentou falar gaguejando.
– Não tenho certeza se você merece ser desculpado, a menos que dê alguma justificativa. – Eu logo falei, me aproximando e sentando na cama. Ele pareceu pensar por alguns segundos na resposta. – Estou esperando.
– É tão difícil assim perceber? – Perguntou ele com uma cara desanimada.
– Perceber o que, George? Me explica. – Foi quando eu perguntei e tive a resposta mais inesperada que eu poderia ter, já que ele se aproximou tão rápido e me beijou, de um jeito e eu senti algo que jamais tinha sentido antes, eu estava feliz, mas parecia que lágrimas iriam rolar dos meus olhos ao mesmo tempo.
– Vem cá. – Disse ele, me puxando gentilmente para cima dele. – Precisa de algo mais claro que isso? – E ao ouvir essas palavras, eu senti meu corpo amolecer e ao mesmo tempo intensificar aquele misto de sentimentos guardados em mim. Eu só fechei os olhos e deixei as coisas fluírem. No outro dia, fomos acordados pela mãe de George que entrou no quarto como um furacão.
– Mãe! – Disse George tentando se cobrir.
– Desculpem, eu não imaginava que você ainda estava aqui … – Ela comentou, me deixando ainda mais sem jeito. – George, preciso da tua ajuda para tirar aquelas armações do alto da garagem, o decorador está aqui e vamos testar para ver se conseguimos utilizar. – Ela explicou.
– Tá bem, mãe. Eu já vou. – Ele respondeu, e a mãe dele completou dizendo que ia esperar e deixou o quarto.
– Eu preciso de um banho. – Falou rindo.
– Eu também, mas em casa. Eu já vou, mais tarde a gente conversa. – Falei, me desenrolando das cobertas.
– Como assim, mais tarde? Eu pensei que você ia ficar mais um pouco aqui. Para o almoço, pelo menos. – Ele disse, segurando minha mão.
– Eu fiquei sem jeito, pela maneira como sua mãe soube. Deixa o almoço pra outro dia e você tem coisas pra fazer agora, então precisa ir tomar banho, não enrola! – Falei, puxando os cobertores dele.
– Hey! Calma! – Falou ele de um jeito zombeteiro, me fazendo rir. – E o que especificamente minha mãe sabe? – Falou ele se aproximando e beijando meus lábios rapidamente e depois olhando de maneira fixa nos meus olhos.
– Idiota! Vai tomar banho! – Falei, rindo e depois levantei da cama e comecei a juntar minhas roupas. Logo nos despedimos, ele seguiu para o banho e eu desci as escadas em direção a saída e em direção a cozinha, onde vi a família reunida.
– Bom dia, ! – Falou, Benjy, o irmão de George rindo escandalosamente. Eu deveria parecer um pimentão nesse momento, mas ainda consegui responder bom dia.
– Você almoça conosco? – Gritou a mãe dele.
– Obrigada pelo convite, mas eu preciso ir agora. – Falei, me aproximando.
– Certamente não irá faltar oportunidade para ela almoçar conosco, mamãe. – Benjy continuou alfinetando.
– Benjy! – Tentou repreender, Cara, a irmã dele. Mas antes que ele pudesse retrucar, Alisson, mãe deles, mandou que ele fosse ajudar o pai, Steve, na garagem também. Então, logo me despedi e peguei o caminho de casa.
Durante o caminho, fui me preparando caso tivesse que responder alguma pergunta por não ter dormido em casa. Quando cheguei, estava somente meu pai no sofá, que disse bom dia e não questionou nada, mas com minha mãe eu sabia que iria ser diferente. E antes que eu pudesse concluir o pensamento, ela apareceu vindo da cozinha.
– Eu imaginei que você não voltaria ontem… – Ela disse sem nem falar bom dia primeiro, parecia ansiosa para que eu contasse sobre o que aconteceu na noite anterior.
– Por que você imaginaria isso? – Questionei.
– Porque você gosta desse menino e ele gosta de você. – Ela respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia.
– É, gostamos um do outro, mas não vou dizer que estamos juntos. – Insisti, enquanto ela me olhava fixamente com uma expressão desafiadora, então, fui tomar banho antes de tomar café.
Os dias seguiram como a já habituada rotina: projetos, montagem, mais testes, simulador, academia, almoço, etc. Eu e George estávamos cada vez mais próximos. Mesmo sendo discretos, conseguíamos passar um tempo juntos nos horários de almoço e quando íamos no parque nos dias de folga. Igual hoje, que estou aqui preparando o lanche para fazermos um piquenique. Dessa vez, eu pedi para que fossemos no mesmo lugar em que ele me levou para andar de bicicleta pela primeira vez, mas dessa vez iriamos de carro só até o início da trilha e depois faríamos o piquenique na beira do rio.
– O que você acha de ir comigo pra Spa? – Ele perguntou, tirando a atenção da paisagem e olhando fixamente para mim.
– Eu acho que não estou preparada ainda, porque dessa vez seria diferente. – Expliquei.
– Por que seria diferente? Do que você tem medo? Do que vão falar? – Questionou.
– Exatamente, imagina quantas meninas vão querer me bater depois? – Galei, de forma divertida.
– Ah, é disso que você tem medo. Eu não sei como alguém conseguiria ficar bravo com você. – Disse de forma gentil.
– Eu sou bem irritante às vezes, você ainda não conheceu esse meu lado. – Fiz piada novamente. – Mas agora é sério, eu não quero que o meu trabalho seja distorcido em algum momento.
– Tudo bem, eu sei o que você quer dizer. O tempo que você precisar. – Disse ele, me olhando da forma mais gentil e compreensiva possível.
– Seus olhos são tão lindos! – Falei, mudando de assunto e olhando estagnada aquelas lindas írises azuis que combinavam perfeitamente com o formato dos olhos e dos cílios grandes.
– Você é linda! É a mistura perfeita de tudo que eu imaginei um dia. – E eu sentia vontade de esmagá-lo em meio aos meus braços depois de ouvir isso.
Fomos para casa com o fim da tarde, quando chegamos, minha mãe nos esperava com um banquete feito com receitas brasileiras. Principalmente doce, porque George adora doces. Aquela cena dele devorando brigadeiros me levou a refletir o quão normal aquilo estava parecendo. A sensação é que ele sempre pertenceu a minha vida, a minha família, assim como eu me sentia confortável com a dele. Embora eu tenha essa sensação, eu preciso usar os freios nas curvas por medo de confundirem minha carreira com meu relacionamento com ele.
Trabalhamos a semana toda arduamente para deixar o carro configurado conforme os ajustes necessários a pista de Spa Francochamps da Bélgica. E esse foi realmente um desafio pra mim, mas estamos orgulhosos do resultado, o carro está bem estável e macio de dirigir, fazendo muita diferença pra fazer ultrapassagens seguras nas retas. Já conseguimos levar o carro até a zona de pontuação e eu estou confiante com os avanços para a próxima temporada.
Na sexta e no sábado, eu assisti aos treinos em casa junto com meus pais. E como os resultados estavam como o esperado, o carro estava se comportando dentro do previsto. Pela manhã, ainda consegui falar com George antes dele ir para o Paddock, ele acabou me contando que haveria uma homenagem na abertura em memória de Anthoine Hupert, que foi piloto da F2 e fazia um ano do seu fatal acidente ali naquela pista. Eu senti algo diferente na voz dele ao telefone, aparentemente, ele não queria demonstrar o quanto estava aflito com essa corrida. E ao ver as imagens do início da transmissão na tv, pude perceber que ele não parecia o único dessa forma. A pista estava correspondendo de forma excelente com o espaço para ultrapassagens limpas, mesmo sem a potência que queríamos, podíamos chegar fechando a Eou Rouge e pegar o impulso necessário misturado com a aderência da configuração para ganhar boas posições. O problema seria se pra entrada da reta houvesse trânsito, o que estava acontecendo e me preocupando. Minha mãe percebeu e perguntou o que estava acontecendo e estava explicando a ela, quando de repente vi uma cena que me fez perder totalmente a noção. Meus olhos encheram de lágrimas e eu não conseguia enxergar o replay, estava totalmente sem reação, só senti que minha mãe pegou na minha mão e meu pai pronunciava calma. Quando consegui limpar as vistas e focar no que os comentaristas diziam, eu tive a confirmação de que era o George que havia batido. Os segundos pareciam tão longos, até o rádio onboard dele aparecer dizendo “Estou bem, um pouco tonto, mas estou bem”, mas ele não se mexia dentro do carro, estava demorando para sair de lá. Eu processava mil coisas na cabeça, mas não conseguia falar. Enquanto o safety car não aparecia, eles mostraram a reprise novamente com a Alpha Romeu de Antonio Giovinazzi enroscando o pneu no colega Kimi Raikkonen e batendo na barreira de proteção, logo que ele bateu, voaram pedaços do carro dele, inexplicavelmente, um pneu se desprendeu e veio na direção de George, o fazendo jogar o carro para o lado, assim perdendo o controle e batendo no muro na direção oposta de Giovinazzi. Levantei de súbito naquele momento, em busca do meu celular para falar com a Claire.
– Claire, eu preciso falar com ele, Claire! Por favor!! – Falei aos prantos.
, fica calma, as imagens podem estar atrasadas. Mas ele tá bem, já está vindo pra cá! – Ela tentou me acalmar.
– Depois da entrevista, me deixa falar com ele. Eu preciso ouvi-lo, por favor! – Implorei e ela concordou, dizendo que me ligaria logo que ele saísse da entrevista.
Eu continuei acompanhando aquelas imagens na tv, mas meus ouvidos pareciam tapados. Eu não estava ouvindo nada e só andava de um lado para outro esperando o telefone tocar e assistindo a um vídeo que ele havia publicado, falando sobre o misto de emoções dessa corrida pelo fato do que aconteceu com Anthoine no ano passado. Minha mãe ficou do meu lado, enquanto meu pai foi buscar uma água com açúcar para mim. Assim que o telefone tocou eu atendi numa velocidade estrondosa.
– Eu estou bem. Eu estou bem, não chora, por favor. – Foi a primeira coisa que ele disse e eu só conseguia chorar.
– Eu não sei explicar a sensação de ouvir a tua voz agora. Eu queria poder te abraçar nesse momento. – E o choro só aumentou ao pronunciar essas palavras e pelas próximas que estavam por vir. – Eu te amo!! – E ao pronunciá-las eu senti um turbilhão de emoções, era como se tivesse aberto meu peito e tirasse toda a pressão que estava ali dentro.
– Eu também amo você! Logo, logo eu vou estar perto de você de novo. – Ele disse com uma doçura na voz, parecia que estava prestes a chorar.
– Eu mal posso esperar! Só me fala de novo que tá tudo bem! Você já passou pelos médicos? – Questionei, agora mais calma, eu consegui me sentar no sofá para ouvi-lo.
– Sim, logo que saí de lá, eles me levaram até os médicos. Tenho um arranhão no braço direito das peças que voaram na minha direção e bati o esquerdo, meu pulso dói um pouco. – Explicou e logo terminamos de falar, pois ele ainda teria mais algumas entrevistas antes de deixar o autódromo.
No outro dia, ele pegaria o primeiro avião para voltar para casa e eu estava contando as horas. Fui buscá-lo no aeroporto junto com os pais dele. Logo que o vi, corri para abraçá-lo.
– Desculpa não ter ido com você e ter te deixado sozinho nesse momento. – Falei em meio as lágrimas.
– Aquelas imagens foram feias né? Mas eu estou bem. – Ele disse, e eu comecei a passar a mão pelos braços dele como forma de checar se estava tudo bem mesmo. Ele me abraçou novamente e me deu um rápido beijo em seguida. – Desculpa ter estragado o trabalho que fizemos nessa semana. Eu me assustei e acabei perdendo o controle. – Só consegui beijá-lo após isso e repetir várias vezes que ele não tinha culpa de absolutamente nada. Após o nosso momento, os pais dele também foram abraçá-lo e então seguimos para casa, onde os irmãos o aguardavam.
– É impressão minha ou a tua barriga tá quase duas vezes maior? – Comentou George, analisando a irmã.
– O Grant cresceu, eu tenho sentido ele mais pesadinho. – Falou Cara, com um sorriso de orelha a orelha e alisando a barriga e logo George repetiu a ação da irmã, uma cena emocionante. – Por isso devemos resolver logo o que ainda falta para o casamento. E estou pensando em adiantar o chá de bebê. Será mais intimista, mas faço questão que tenha, não vou deixar essa data passar em branco. Posso contar com você ? – E ao ouvir ela me chamando para participar daquele momento, me deixou mais emocionada ainda.
– Sim, pode contar comigo com certeza! – Respondi empolgada, recebendo um abraço dela.
Enquanto a mãe da casa preparava a janta, os meninos jogavam sinuca no galpão, enquanto eu conversava com Cara. Estávamos próximas a cozinha, caso Alisson precisasse de ajuda. Enquanto isso, Cara me contava que escolheu o nome Grant porque soa como uma combinação do nome dos irmãos dela. Eu fiquei tão emocionada que senti meus olhos enxerem de lágrimas e fiquei mais emocionada ainda por ela dizer que os irmãos são muito importantes pra ela e que ela sendo a mais velha, ajudou a cuidar deles como se fosse mãe e que sentia que eu cuidaria bem do George, deixando-a tranquila para se dedicar ao bebê.
O tempo passou rápido e nem percebemos. Teve o tão esperado chá do Grant e estávamos às vésperas do casamento de Cara com Harry. O casamento seria no nosso final de semana de folga, conseguiríamos aproveitar bem o momento. Seria no gramado de um jardim perto da casa em que eles brincavam quando eram crianças. Cara pediu que eu levasse os meus pais, porém pelo fato deles não conheceram a família e ainda haver uma dificuldade para entender o idioma, eles resolveram não ir. Um dia antes do casamento, faríamos uma janta com as meninas madrinhas de casamento, todas elas eram amigas de infância de Cara, exceto eu, a janta foi divertida e eu ouvi muitas histórias que me fizeram conhecer um pouco mais a família. George já tinha ido dormir e eu decidi ir também, pois iria acabar aparecendo no casamento com o rosto inchado de sono.
Acordamos cedo e eu fui com Cara e a mãe dela até o jardim ver como estavam organizando a decoração e estava tudo lindo. Cara dizia a todo momento que estava mais bonito do que ela sonhou. Quando fomos nos arrumarmos, eu peguei a minha mala e fui para o quarto da Cara, escolhi um vestido rosa claro, em um modelo clássico, acima do joelho, feito com um tecido fluido. Um amigo dela veio para nos ajudar com cabelo e maquiagem. Depois de pronta e de ver ela tão linda com um vestido branco soltinho, que era possível ver a barriguinha, não tinha como não se emocionar.
Quando eu saí do quarto, encontrei George no corredor. Ele vestia um terno preto, com uma gravata azul que combinava perfeitamente com os seus olhos. Eu me aproximei para abraçá-lo e ele pôs as mãos no meu rosto, me olhando tão intensamente como eu jamais havia notado.
– Você está tão linda! – Ele disse, beijando minha testa, descendo as mãos até minha cintura e os beijos ao meu pescoço. Quando de repente, a irmã dele sai do quarto.
– Desculpa atrapalhar aí, mas eu preciso da ajuda da . – Disse ela e eu segui em direção do quarto para ajudá-la a decidir o que fazer no cabelo, pois acabou optando por ele preso.
A cerimônia foi linda demais, me emocionei ao ver a felicidade da Cara ao enxergar o Harry e a família ao lado. Estávamos todos em pé do lado esquerdo do altar. Alisson começou a chorar vendo sua filha entrar na igreja com Steve. Benjy sorria de orelha a orelha e George tentava segurar o choro, apertando minha mão cada vez mais forte. Depois da cerimônia, fomos para a área em que seria servido o banquete, e eu percebia alguns olhares de curiosidade, enquanto George tentava me explicar quem era quem ali.
– São muitas pessoas pra lembrar o nome, mas tem tempo pra você se acostumar. – Disse ele, analisando as pessoas ao redor.
– Como assim, tempo? – Me fiz de desentendida, arqueando uma sobrancelha. Então ele parou por alguns instantes, pensando em quais palavras usar.
– Você sabe que eu te amo. E eu não me imagino sem você do lado. Eu também não sou muito bom com palavras, é a primeira vez que exponho os sentimentos dessa forma e eu quero fazer isso da maneira certa. – Enquanto ele falava, meu cérebro dava várias voltas e eu me senti travada e meus olhos doerem com a certeza de que eu não iria conseguir me segurar e alguma lágrima iria cair. Então ele virou de frente pra mim, pegou a minha mão e começou a olhar fixamente nos meus olhos. E eu estava extasiada com aquelas palavras e aqueles lindos olhos azuis me fitando. – Eu quero saber se você que compartilhar comigo todas essas emoções a partir de agora. Oficialmente, você aceita a ser minha namorada? – Nessa hora eu senti o que eu jamais senti antes, algo que eu me recusava a acreditar que existia, logo eu, estava ali tão fragilizada e sem saber o que dizer. Respirei fundo, mesmo que as lágrimas eu não pudesse conter e dei a resposta mais certa da minha vida.
– Eu nunca diria não pra você! Eu vim pra cá por você, eu estaria em qualquer lugar do teu lado. – E isso simplesmente veio, eu não precisei pensar, foi tão natural que eu me assustei com minhas próprias palavras, fazendo as lágrimas aumentarem a intensidade. Então, senti seus lábios junto aos meus com aquele misto de sentimento que faz a gente chorar e rir ao mesmo tempo. Era o seu toque delicado, o jeito de falar, o tom da voz, o sorriso, os quais eu me via pensando durante o dia, e estava ali, tão próximo, tão meu.
– Hey! Já, já vou jogar o buquê!! Vamos lá, !!– Falou Cara, ao passar por nós.
– Vai lá, é a sua chance de casar comigo. – George falou, fazendo piada.
– Você acabou de me pedir em namoro, não em casamento. – Eu retruquei. Mas acabei entrando na brincadeira e indo participar. E quando aquele buquê caiu nas minhas mãos, eu ri pensando nas peças que o destino vinha pregando. Depois disso, George me apresentou às pessoas da família e terminamos a festa com dança, o que me consumiu bastante energia. No final do dia, eu apaguei completamente.
Depois de mais alguns GPs e os resultados aumentando, começamos a entrar no radar de alguns investidores o que me fez ficar sem acompanhar o último GP, pois eu precisei montar uma apresentação com a nossa estratégia de avanço para a próxima temporada e comparar com o pouco de informação que eu tinha sobre as mudanças das outras equipes. Foi muito convincente e conseguimos fechar a parceria com essa empresa de tecnologia que irá nos fornecer as baterias e as placas que precisamos, como também conseguimos fechar um preço bom para os sensores que precisamos manter em estoque.
Enquanto eu trabalhava em uma estratégia para diminuir o peso do volante de George, sem realocar os botões, ele bateu na porta um pouco nervoso avisando que teria uma reunião com Toto Wolff ainda pela manhã e que acabaria não almoçando junto comigo.

George’s POV On
Eu estava realmente aflito com aquela reunião, ele não costuma me chamar assim e sem expressar o teor do que será tratado. Então, peguei o carro e fui em direção ao escritório combinado. Logo que cheguei, eu vi o carro da Claire estacionado na frente, me deixando um pouco mais nervoso, me fazendo ir mais rápido até o segundo andar, onde ficava o escritório.
– Bom dia, George. – Disse Toto.
– Bom dia, Toto, algum problema? – Eu falei, já deixando claro o meu nervosismo.
– Com você, não. Eu que estou com um problema pra resolver e vim pedir a tua ajuda. – Ele disse de forma engraçada.
– Se eu puder ajudá-lo, ficarei feliz. – Respondi e ele fez sinal para que eu me sentasse na poltrona a sua frente.
– Eu preciso que cuide do W11 para nós esse final de semana. O Lewis não vai poder correr nesse final de semana. Ele está fazendo uso de alguns analgésicos, está com febre e precisamos preservar ele. Ele já cumpriu o trabalho dele, então nada mais justo deixarmos ele se recuperar tranquilamente. Nada mais justo que seja você para cuidar do carro dele. Nesse momento, a Claire está aqui ao lado lendo o contrato e ela concordou em assinar e dar essa oportunidade para ambos os lados. Obviamente isso vai gerar uma bagunça enorme, mas se você estiver disposto a encarar, nós vamos dar todo o suporte. – Quando ele acabou de falar, ainda ficou um vácuo, por eu estar processando o que estava acontecendo. – São as duas últimas corridas, e a próxima é em uma parte alternativa do circuito, vai ser um desafio para todo mundo. Não quero que você se sinta pressionado, o campeonato está definido. Essa experiência seria bom para você e para nós, aproveite para testar os seus limites e o ver no que você precisa trabalhar mais. Nós não esquecemos que você é do time, queremos te incentivar a crescer cada vez mais. Também queremos o desafio para nós, de nos adaptarmos ao seu estilo de pilotagem. Acho que a combinação pode ser interessante. Acho não, tenho certeza por isso apostei em você desde o início. – Ele continuou falando, pois eu permanecia mudo. Aos poucos fui recuperando a consciência e entendendo o que estava acontecendo. O lugar que eu via tão longe de mim, agora está ali a um passo de eu conseguir, como o Toto mencionou, me testar. Ver o quão longe posso chegar e se consigo me adaptar rapidamente a um novo ambiente. É uma grande oportunidade, mas eu preciso conversar com a Claire, eu devo a ela isso.
– Toto, eu estou impressionado com essa oportunidade. Certamente, será um grande desafio para ambos os lados e por mais que eu me sinta extremamente empolgado com isso, eu não consigo te dizer um sim, sem antes falar com a Claire. Ela tem cuidado de mim esse tempo todo e eu não posso sair sem ter a certeza de que vai ficar tudo bem. Alguém vai ter que ficar no meu lugar e eu preciso da comigo. Eu vou, mas vou levar ela junto. – Esclareci o meu ponto de vista.
– A engenheira? – Questionou ele.
– Sim, ela. – Respondi.
– Claro, vamos adorar ver a sincronia de vocês trabalhando. Eu tenho acompanhado os avanços da equipe que sucederam com a chegada dela. Claire acabou me confirmando hoje. Inclusive, já estava preparado para você me falar isso. – Ele disse.
– Ela tem se dedicando absurdamente a todo projeto. Eu a admiro e confio no trabalho dela. Ela passa noites em claro, não descansa enquanto não vê uma solução. – Comentei, orgulhoso do trabalho que tem feito por nós.
– Então, por mim está perfeito. Você conversa com a Claire, e começamos organizar tudo, mas eu preciso que você assine o acordo o quanto antes pra que eu possa apresentar para a FIA e após a liberação, será possível ocupar a tua vaga na Willians. O quanto antes fizer isso, ganhamos mais tempo. – Ele explicou e após isso eu fui direto conversar com a Claire, que no momento, foi mais como uma mãe do que uma chefe. Ela realmente se preocupa com minha carreira e sabe o quanto seria importante para mim ter essa chance com uma equipe da primeira fila do grid. Depois da reunião, eu mal podia esperar pra contar pra família e para a sobre essa novidade. Então após falar com meus pais, eu resolvi chamar a para jantar e irmos caminhar no parque.
George’s POV Off

– Eu preciso conversar com você. – Ele pronunciou aquelas palavras e meu deu um calafrio, pois eu senti que seria algo sério. – Não precisa se assustar. Toto veio conversar comigo, para correr pela Mercedes na próxima corrida e eu queria conversar com você primeiro. Lewis não está se sentindo bem e como ele já cumpriu o trabalho dele, é justo que ele tenha essa folga para se recuperar. – Ao ouvir aquilo, eu não soube o que responder, ou que opinião sobre aquilo eu tinha. Era algo muito atípico e que me deixava bem insegura.
– Eu não sei o que dizer, você é piloto deles também. Seria um desafio que te faria aprender muito. Uma experiência dessas é incomum, então é necessário considerá-la. Você já conversou com a Claire? – Questionei.
– Então, ela estava na reunião também. Eu que pedi para ela para que fosse eu pra te dar a notícia. Eu ainda não decidi, eu queria falar com você primeiro. Lembra que eu disse pra compartilharmos todos os momentos? Eu quero que você venha junto comigo. Eu sei que isso gera uma bagunça danada, mas seria uma experiência muito boa. Claire reconheceu que seria bom para a Williams e concordou em liberar você também. – Não tinha conseguido entender ainda o que estava acontecendo “Lewis afastado? George na Mercedes? Como fica a Williams?”.
– Mas e a Williams como fica? Eu preciso saber que vai ficar tudo bem. – Questionei com a voz um pouco pausada.
– A Williams ficará bem, você mesmo sabe em que pé está o carro. E eu não vou te deixar cuidando do carro pro Aitken. Sem chance. – Ele reproduziu esta última frase de maneira lenta.
– Então ele que vai substituir? Melhor, que ele já conhece o carro e eu posso deixar a configuração ajustada, ele sempre usou a C4RP que diminui a pressão e deixa ele mais leve. E você? Como vai funcionar com a Mercedes?
– Tá no porta-malas uma pilha de papéis com coisas que eu vou ter que memorizar. – Ele falou fazendo cara de sufoco e rindo ao mesmo tempo. – Preciso de ajuda, topa? Em minha defesa você disse que não me diria um não.
– Tá bem. – Concordei e ele me abraçou rapidamente, sussurrando “precisamos viajar amanhã de manhã”. – Eu preciso ir para casa então, arrumar minhas malas.
Depois dali, George me levou para casa, para nos organizarmos e no outro dia precisávamos assinar toda a documentação antes de viajar, só faltava nós. Da parte da Williams estava tudo pronto. Era estranho não colocar as roupas da Williams na mala. Logo que assinamos os documentos, foram entregues os uniformes que deveríamos usar nesse final de semana. Em poucos minutos, a notícia começou a repercutir por todos os lugares, mas ainda não havia sido declarado nada, o anúncio seria feito antes do George chegar ao autódromo. A Mercedes montou, do hotel mesmo, alguns conteúdos e algumas fotos e programou para que fosse lançado após George postar uma foto com macacão da equipe.
Enquanto ainda estavam preparando reels e fotos para as redes sociais, chegou Toto Wolff, no seu melhor estilo chefão gente boa. Finalmente eu estaria perto dele e ainda podendo me contar parte do time por uma semana. Ele é tudo isso que sempre vi na mídia, aquele sorriso e as sábias palavras.
– Quero ver o que vocês podem fazer nesse final de semana. Também vai ser interessante termos você conosco, Rookie. – Disse ele, se dirigindo a mim.
– Será uma experiência incrível, com certeza, irei aproveitar cada segundo. – Respondi.
– Sei que vocês têm muito trabalho pela frente, não quero atrapalhar. Quero que se divirtam conosco. E George, eu te acompanho não é de hoje, eu sei do teu potencial, por isso você está aqui. Sem pressão! Vou deixar vocês com o Bono e com o James que já devem estar chegando aí. – Ele disse e logo após se despediu, deixando-nos estudar aquela pilha de material que iam entre configurações do volante, o DAS, os comandos da equipe e o sistema de estratégia. Logo Bono e James chegaram e pediram que fossemos até a sala de reuniões do hotel.
– Vocês conseguem imaginar a loucura na mídia com essa mudança? – Perguntou James.
– Pois é, quando foi anunciado que Lewis não estava bem, surgiu algumas hipóteses, que só começaram a aumentar, todo mundo pedindo por você. Que moral, hein? Os adms não deixam escapar nada. Sabemos o quanto você é talentoso e estávamos ansiosos pra trabalhar com você desde 2016. – Disse Bono ao George, que não desfazia o sorriso. – E você, é uma grata surpresa. Não tão surpresa assim, pois já ouvimos falar de você. Claire disse ao Toto que está mais do que contente por tê-la com eles. – Dessa vez ele falou se dirigindo a mim e ao ouvir essa análise vindo dele eu me sinto com o meu dever cumprido, sei que estou no caminho certo. Todas as noites de sono perdidas estão mais do que compensadas. Também fico muito orgulhosa por George ser reconhecido por eles, eu sei o quanto ele merece tudo isso. E foram essas as palavras que usei para agradecer, depois começando a absorver a maior quantidade de informações possível, enquanto eles aguardavam ali para esclarecer caso houvesse alguma dúvida.
– Foca no volante e deixa o DAS comigo que eu te envio o sinal para usar. Importante! Mantém a aceleração quando for usar o DAS pra evitar as rodas travarem, essa troca tem que ser suave porque pode te fazer perder o controle. Antecipa na entrada oito, pra evitar derrapar. Você consegue recuperar os segundos na corrida e vai manter a estabilidade. Cuidado no treino, porque o Bottas está acostumado com o carro, eu estudei um pouco sobre o estilo dele, ele vai forçar no treino e se ele for pole fica com o lado limpo da pista.
– Caso isso aconteça eu vou tentar encostar nele pra pegar o vácuo e ultrapassar na reta, no limpo. – George completou.
– Aí você tem a opção do DAS (Dual Axis Steering – Sistema de eixo duplo). – Sugeri, analisando a função do dispositivo criado por eles, que permite ao piloto alterar alinhamento dos eixos dianteiros no sentido positivo e negativo, através do deslocamento do volante. O que faz ter um melhor aproveitamento na curva com a posição negativa e positiva para ganhar velocidade nas retas.
– Preciso encontrar o ponto de referência pra usar, depois quando descermos na pista me ajuda a fazer um mapa de marcações e analisar o comportamento. – Acrescentou ele, ainda sobre o uso do dispositivo.
Depois de lermos e discutirmos algumas horas sobre as informações absorvidas, Bono fez um comentário que recarregou nossas energias “Não podíamos ter escolha melhor, é admirável a sintonia de vocês”. Depois, seguimos para o autódromo, devidamente uniformizados, o que chamou a atenção de alguns jornalistas presentes ali. Enquanto George acenava, eu me mantinha entre Bono e James, sem chamar atenção. Chegando na garagem, George foi conferir o tamanho do carro para ver os ajustes necessários. Aquela entrada no cockpit foi tão emocionante, tão esperada e foi filmada e divulgada poucos minutos depois pelos ADMs. Era visível a empolgação e a emoção dele, aquele sorriso impossível de esconder.
– Esse é o DAS. – Dizia Bono ao George, entregando o volante a ele. Ele pegou aquele volante como se sua vida dependesse daquilo, era algo tão precioso que ele valorizava tanto. E eu acompanhava tudo de perto emocionada. A maior decepção foi perceber que sua mão e seus dedos eram maiores que os de Lewis, fazendo com que eles não encaixassem para conseguir fazer uma troca de marchas eficientes. Porém, ele se manteve firme de que nada disso poderia fazê-lo parar. Enquanto ele movimentava o volante, para entender o mecanismo do dispositivo, eu verificava o acionamento dos eixos.
– Incrível!! Absolutamente incrível!! – Falei toda empolgada, ajoelhada ao lado do carro. – As conexões são perfeitas. Quanto já foi possível atingir em uma reta? – Eu quis saber, curiosa.
– Se eu disser que batemos os 432km/h de 2014, você acredita? – Disse James, rindo.
– Completamente!! É um sistema perfeito! Dá pra ter um melhor aproveitamento dos pneus, reduzir pitstops em circuitos longos, manter um gap de vantagem maior. Incrível, é um sistema completo! – Disse, admirada, analisando aqueles eixos se mexerem, conforme George deslocava o volante.
– Você é bem detalhista, teremos problema. – Disse Bono, fazendo piada.
– Um dia chegamos nesse nível. Por enquanto continuamos focando na suspensão. – Comentei, confiante.
– E então, George, como está se sentindo aí? – Perguntou James.
– Ele serve, só… – Respondeu ele, olhando para os pés.
– Acho que temos um problema. – Disse Bono, se aproximando e colocando as mãos dentro do carro. – Eu já imaginava. Consegue mexer os pés? – Questionou.
– Consigo, mas os freios, não consigo dobrar suficientemente o carro pra usar totalmente o freio.
– Isso é arriscado! – Me intrometi.
– Não se preocupa, . George, se você sentir qualquer coisa estranha, comunica na hora que vamos acionar o botão do break no carro e desligar nós mesmos. – Explicou Bono. – Mas acho que será necessário o uso de um calçado menor, pra evitar que teu pé fique preso. Quanto a direção, vamos ter que ver na pista se você consegue se adaptar. – Enquanto ele analisava o cockpit do carro, George tentava memorizar o volante e eu lia os comandos da equipe e as configurações do volante.
Depois que eles viram todos os pontos de ajustes no carro, George foi pro simulador e eu fui analisar os gráficos com as condições da pista, enquanto os mecânicos trocavam o assento do cockpit. Logo que George voltou, ele disse que queria caminhar na pista e então fomos, eu, ele, Bono e James. Nessa hora, verificamos as condições da pista, das zebras, fizemos as marcações para pensar em uma estratégia para o uso do DAS. Localizamos os pontos de DRS (Drag Reduction System – Sistema de Redução de Arrasto), dispositivo que é acionado no momento apropriado, alterando a angulação da asa traseira, mudando o fluxo de ar e reduzindo a pressão gerada pelo arrasto do ar.
Depois da caminhada na pista, iríamos almoçar com Toto Wolff e aguardar os mecânicos aprontar o carro para, finalmente, George testar na pista. No momento em que ficou pronto, ele foi vestir o macacão e eu fui atrás.
– Você tá bem? Está confortável? – Questionei
– Me sinto um pouco esmagado no cockpit, a roupa aperta um pouco, os calçados também. Mas eu consigo aguentar. Ainda preciso sentir o carro na pista. – Disse ele, confiante.
– Eu confio em você, sei o quanto é perfeccionista. Vamos encontrar as melhores condições. Mas me promete que vai se divertir com isso? Eu só quero ver você feliz, igual quando você entrou no carro pela primeira vez. Esse esporte é imprevisível, mas isso não quer dizer que não reconhecemos a tua marca e que as pessoas também não reconhecem, porque elas reconhecessem. Eu tenho lido algumas coisas nas redes sociais e só me faz sentir mais orgulho de trabalhar com você. – Repeti as últimas palavras com lágrimas nos olhos enquanto ele me apertava forte em um abraço.
– Obrigada por estar do meu lado! – Ele disse, fazendo carinho em meus cabelos.
– Isso é uma tarefa fácil. – Fiz uma piada pra descontrair. – Boa sorte!! Agora vamos lá que o trabalho chama. – E então caminhamos até a garagem novamente, onde o carro já o esperava pronto. E lá foi ele, para aquele momento emocionante de pilotar um dos maiores carros de todos os tempos da Fórmula 1, momento esse que foi todo registrado pelas câmeras e eu mal podia esperar para ver os conteúdos que seriam publicados. Segui para o pitwall para verificar o desempenho dele nessa primeira experiência. Ao ver aqueles gráficos ascendentes a todo momento, minha respiração travava. Russell se mantinha totalmente consistente e estava só em reconhecimento de pista. Mas bastou Valteri Bottas que estava na garagem ao lado, ir pra pista, para que George forçasse as voltas mais rápidas. Claramente ele não estava usando tudo do freio e estava conseguindo usar a embreagem com eficiência apesar da limitação. Foi incrível ver como ele se adaptou ao DAS perfeitamente, por enquanto eu seguia mandando os sinais da demarcação.
– Você deve estar muito orgulhosa. – Comentou Bono.
– Mais do que orgulhosa e chocada ao mesmo tempo. São resultados consistentes em pouco tempo. E conhecendo ele, eu acredito que pode melhorar significativamente. Porém eu pedi pra não se pressionar. – Expliquei e o chamei no rádio onboard. – George, você está indo bem, tá funcionando. Ganho de 8s.
– Bottas está usando as zebras? – questionou George.
– Alguns pontos, mas você está tendo mais aproveitamento, mantém assim e evitamos o risco de escapar. Ele escorregou na entrada oito. – Disse como forma de orientá-lo e acalmá-lo, assim que desliguei o rádio, Bono seguiu a conversa.
– Vocês têm uma ótima comunicação. Estão facilitando o nosso trabalho. – Comentou.
– Eu estou tentando deixá-lo calmo, estamos acostumados a trabalhar juntos. Eu não costumo estar presentes nas corridas, mas acompanho todo o treinamento dele dentro da fábrica. O estilo de pilotagem dele é fácil de administrar. George já vem pronto, algumas coisas ele pergunta. Mas no sábado e no domingo é com vocês o trabalho de cuidar do menino. – Eu disse.
– Claro, claro. Ele tem se mostrado bem calmo e competente, não está deixando transparecer o desconforto com o carro. – Completou Bono. Depois disso eu fiquei totalmente focada na pista e apesar de conhecer o estilo do George, eu estava impressionada com o rendimento. Se manteve firme frente ao novo companheiro de equipe e era visível a sua vontade de extrair ainda mais do carro. Foram testados dois tipos de pneu, o macio e o médio, devido a pista ser rápida e a temperatura ser mais baixa que o normal, iriamos investir em pneus macios de primeira para aumentar o gap e ter folga na corrida, para que caso haja imprevistos não sejam significativos e possa haver recuperação. Quando George voltou para a garagem e saiu do carro, visivelmente ele estava sentindo dor, apesar de falar que é suportável, fico pensando na situação a todo momento.
Já estava tarde quando fomos para o hotel. Eu pedi o jantar e George foi para o banho. Quando ele saiu de lá enrolado em uma toalha, pude ver os roxos pelos braços, nos punhos e nos joelhos. Aquilo doeu em mim, porém eu preferi não comentar nada, apenas apoiar a escolha dele. A janta não demorou a chegar e logo após a janta, eu fui tomar um banho rápido, pois precisávamos dormir para estar com as energias recarregadas logo cedo. Quando deitei na cama, pude analisar George deitado de costas, com aqueles braços roxos, num ato involuntário, acabei passando as mãos no local, ouvindo ele ressoar na sequência “está tudo bem, não está doendo”, então o abracei e acabei adormecendo.
Ainda cedo da manhã, tínhamos café marcado com o Toto para que ele discutisse com George sobre a press conference que teria antes do treino livre. Como era esperado na conferência, as perguntas foram as mesmas que já estávamos preparados “Qual a sua previsão para a corrida?”, “Como está sendo sua preparação?”. E os treinos foram realmente surpreendentes ao comando de Bono e James. Eu acompanhava tudo da garagem, junto com Toto. O desempenho foi tão além, que a repercussão foi gigante, com elogios por toda parte, inclusive de ex-pilotos que já apoiavam a escolha de George para a substituição de Lewis. Os resultados foram sólidos em todos os momentos, liderando os treinos e conseguindo a primeira fila no classificatório, ficando Bottas com a pole, por 0s026 a frente e do lado limpo na pista. Mesmo com o aproveitamento da pista, ficávamos no autódromo até tarde para organizar as estratégias, treinar os comandos e para que George se acostumasse a disposição dos comandos no volante.
Como de costume, pedimos a janta no hotel mesmo, me fazendo passar mal pelo nervosismo que eu estava nessa véspera da corrida.
, tá tudo bem? – Dizia George, vindo em direção a porta do banheiro.
– Sim está. É o nervosismo. Me desculpa, eu não queria te acordar e te preocupar. – Expliquei, enquanto lavava o rosto na pia.
– Você devia ter me chamado. Eu vou ligar pra médica da equipe. – Ele falava, preocupado.
– Não precisa, estou melhor. Já consigo dormir e amanhã eu falo com ela. – Eu disse, colocando a toalha no lugar, desligando a luz do banheiro e seguindo em direção a cama, com ele fazendo o mesmo.
No dia seguinte, fomos cedo para o autódromo e eu nem consegui tomar café, o nervosismo realmente tinha afetado o meu estômago me fazendo ter enjoos. Pelo caminho do autódromo, encontramos Binotto parado no acostamento falando ao celular, um tanto impaciente, foi aí que eu percebi que ele tinha um pneu furado.
– O que você tá fazendo? – Questionou George, me vendo parar o carro.
– Binotto tá com pneu furado. – Respondi.
– Mas ele já deve ter chamado alguém obviamente. – Prosseguiu ele.
– George, olha a hora. Ele vai se atrasar! – Falei saindo do carro e indo em direção ao chefe dos tifosi.
Ele prontamente agradeceu a minha ajuda e não levei 10 minutos para trocar o pneu sem muito recurso ali. Quando chegamos no Paddock, as coisas estavam mais movimentadas do que nunca, haviam muitos espectadores depois do desempenho do George nos treinos. E antes de se preparar para dar uma última volta na pista, ele fez questão de ir desejar boa sorte à sua verdadeira equipe. Foi linda a imagem do time expressando o orgulho de tê-lo como piloto. Momento esse que foi todo registrado pelas câmeras da Williams e por Mark Sutton, fotógrafo oficial da Fórmula 1. Depois da nossa caminhada pela pista, junto com Bono e James, era hora de repassar pela última vez alguns comandos e finalmente entrar naquele carro e dar tudo de si. A cada segundo meu estômago dava mil e uma voltas, estava difícil controlar a ansiedade.
– Pronto? – Perguntou Bono e George confirmou com a cabeça, então eu fui até ele e o abracei o mais forte que consegui e disse “divirta-se”, ouvindo ele dizer “você também”, como resposta. E assim que vi o carro saindo da garagem com ele e tomando seu lugar no grid, meu coração foi a mil por hora. Então, assumi meu lugar de espectadora e a partir daí eu acompanhava tudo pela tela, torcendo cada segundo para que tudo fosse perfeito.
Logo na largada, George se aproveitou do gap deixado por Bottas e tomou a frente ultrapassando de maneira brilhante, seguindo pelo lado limpo da pista. A primeira parte da corrida seguia sólida, com as Mercedes na ponta. George estava administrando bem os pneus, porém seria uma prova longa e a surpresa seria a estratégia nos pitstops. George iria parar primeiro, essa era a estratégia, e na primeira parada ocorreu tudo como o esperado, o tempo foi satisfatório e George acabou voltando pra pista em segundo, mas acabou ultrapassando Bottas novamente. Estava tudo sob controle, até que vi Jack Aitken, nosso piloto que estava substituindo George na Williams, bater o carro, mais um baque ao ver aquilo, por sorte não foi nada grave e eu sabia que a equipe daria conta de ajustar a asa dianteira rapidamente, enquanto o safetycar virtual parou a corrida por poucos minutos, somente para limpar aquele ponto da pista.
A equipe da Mercedes, então, resolveu aproveitar a ocasião e chamar os dois carros novamente para troca de pneus. Seguindo a estratégia com George em primeiro, até que eu vi pelo monitor que chamaram Bottas ao mesmo tempo e fiquei intrigada com aquilo, cuidando o movimento dos mecânicos com os pneus e sentindo alguma coisa estranha. Foi quando eu enxerguei rapidamente que as iniciais dos pneus usadas no carro de George era um VB, de Valtteri Bottas.
– BONO!!!! – Eu disse e sai voando em direção ao pitwall, pegando o rádio e chamando George de volta. – George!! Box! Box! Box! Pneu errado!! – Eu gritava no rádio, enquanto ele fazia o caminho de volta aos boxes, não deixando de demonstrar o seu descontentamento soltando um “AAHHHHHH”. Toto Wolff que estava na garagem também percebeu e fez com que mantivessem os pneus antigos no carro de Bottas, para que o pitstop não fosse um caos maior. Na volta de George a pista, após a troca pelos pneus corretos, voltou em P5, se recuperando rapidamente, ultrapassando Valtteri Bottas novamente, os pilotos da Renault e da Racing Point, assumindo o segundo lugar, a 11 voltas do final da corrida. Quando estava diminuindo o tempo em relação a Sérgio Perez, na briga pelo primeiro lugar, eu vi o chamarem novamente no rádio e voltei os olhos ao painel de controle para verificar o que estava acontecendo, um pneu claramente estava danificado e estava decaindo rapidamente, só podia ter um furo e seria preciso uma nova troca. Podia imaginar o seu sentimento nessa hora, pela previsão ele voltaria bem atrás e devia sentir isso já na hora que recebeu a notícia. Eu torci a cada segundo para que desse tempo de uma recuperação, mas infelizmente não foi como esperávamos. Eu estava mais do que contente com o que vi nas pistas, não errou em nenhum momento, fez ultrapassagens limpas em pilotos do final e do início do grid. Foi admirável, mas não deu tempo de recuperar na última vez, pelo fato de a pista ser curta, os tempos de volta são relativamente próximos, mas diante de todo o exposto foi mais do que um trabalho perfeito. Ao ouvi-lo chorando no rádio e pedindo desculpas pelo nono lugar, falando que estava devastado, meu coração partiu em mil pedaços. Entrei em desespero pensando no que falar, o que eu poderia fazer sobre isso e a reposta era nada, mas não conseguia falar. Vendo-o descer daquele carro com os olhos avermelhados doeu tanto e numa reação a isso, corri em direção a ele, chorando também, para abraçá-lo o mais forte que eu pudesse.
– Você foi perfeito. – Eu disse em voz baixa e ele permaneceu calado por uns instantes e depois se dirigiu para as entrevistas que ocorreriam após a cerimônia do pódio. Enquanto eu me juntava com a equipe para dar explicações a FIA sobre o fato ocorrido, tentando amenizar as coisas para que ele não fosse desclassificado por usar os pneus que eram do companheiro de equipe.
– O erro foi percebido rapidamente e na mesma hora comunicado para a correção. – Explicava Toto Wolff.
– Vocês estão cientes que isso será investigado de acordo com o regulamento? E é muito claro, só estamos fazendo a investigação formalmente. – Dizia o diretor de provas Michael Masi. Me irritei com o tom em que ele falou, fazendo-me ignorá-lo e responder a Ross Brown, diretor da Fórmula 1.
– Desculpa Sr. Brown, mas o que tá claro pra mim é que quem levou a pior foi a equipe. Sendo assim não houve intenção nenhuma de tirar vantagem disso, nem faria sentido, porque esse pitstop nem era pra ter acontecido, os pneus de ambos os carros estavam em boas condições e percebendo a atitude equivocada, gerou todo esse caos. Eu me pergunto o que as pessoas aí fora estão pensando nesse momento, não é difícil de perceber, até pelos resultados que não haveria vantagem alguma! – Esclareci e me retirei, nem dando chance de resposta, tamanho era o meu descontentamento. Fui em direção de onde o George estava sentado no chão, limpando o rosto com uma toalha.
– Você é incrível! – Eu disse, me ajoelhando na frente dele, para que pudesse encará-lo diretamente. Ao segurar as mãos dele, eu pude perceber que os punhos estavam ensanguentados, assim como o macacão que estava visivelmente sujo de sangue nos cotovelos.
– Obrigada por ter entrado junto nessa e ter avisado no rádio, infelizmente não teve muita coisa que eu pudesse fazer. – Ele tentava se explicar, mas quando eu fui responder, Toto Wolff apareceu.
– Acho que funcionou! O Brown resolveu escutar você e o Masi se manteve calado. Isso é um bom sinal. – Explicou Toto Wolff.
– Vai dar tudo certo! – Eu disse, piscando para George, com um sorriso.
– O que você disse? – Questionou George.
– O óbvio, que todo mundo aí fora viu que essa confusão só gerou prejuízo para nós. – Expliquei.
Depois das entrevistas, enfim fomos descansar. Sem ver por algumas horas a repercussão disso tudo, a meta agora era simplesmente descansar e voltar pra casa. Quando chegamos no hotel, eu arrumei as nossas malas enquanto George tomava banho. E mais uma vez eu me assustei com todos os machucados que ele tinha pelo corpo por ficar espremido no cockpit. Assim que terminei de arrumar as malas, eu fui para o banho enquanto esperávamos a janta.
, vem jantar. – Disse George, organizando a mesa.
– Eu ainda não estou me sentindo muito bem. – Respondi.
– Mas agora o nervosismo já passou, seria bom você conversar com um médico da equipe. Amanhã de manhã, enquanto eu vou pra reunião com Toto. – Ele sugeriu, e foi isso que eu fiz. No outro dia enquanto ele estava na reunião, eu fui conversar com um médico. Depois disso, estávamos livres pra pegar um voo pra casa. Quando chegamos, fomos recepcionados por toda a família. Era nítida a felicidade deles com o trabalho que fizemos nesse final de semana. Iriamos nos reunir na casa dos Russell para um jantar em comemoração.
– Que bom que está todo mundo aqui! – Dizia George do centro da sala. – Temos duas notícias para dar pra vocês.

To be continued…

Nota: Eu nunca imaginei o tanto que eu iria admirar esse piloto. Eu sou extremamente apaixonada por Fórmula 1 e ter a chance de participar desse projeto (Drive to Survive), escrevendo sobre o George, não poderia ser mais incrível. Eu espero que gostem, os detalhes foram pensados com muito carinho. Quem sabe não vem uma segunda parte (long) por aí, hein?