Drive to Survive – Kevin Magnussen

Drive to Survive – Kevin Magnussen

Sinopse: Eles são completamente diferentes, mas essas diferenças os completam. Mais completo ainda é quando 1+1 se torna 3. Ele conquistou a sobrinha e o tio (a tarefa mais difícil).
Gênero: Drama, Romance.
Classificação: Livre.
Restrição: Fic escrita com o piloto de Fórmula 1 Kevin Magnussen.
Beta: Sharpay Evans

Quando era pequena, sempre via a imagem do meu tio como durão. Ele sempre foi diferente da minha mãe, que era um doce. Talvez hoje eu entenda o sentimento dele. Minha mãe sofreu muito por meu pai ter nos abandonado e até hoje, 25 anos depois, não tenho notícias. Depois que ela se foi, meu mundo caiu. Eu não tinha mais meus avós e também não tinha pais, mas tinha o meu tio, que me cuidou e me educou, até eu ver que estava pronta para voar. Da infância na Itália, me tornei adulta na França, aprendendo a me virar sozinha. Esse foi um dos meus pedidos, para que eles acreditassem que eu não era vítima e que poderia construir algo por eu mesma. E acho que acabei pegando um pouco do jeito frio do meu tio. Tio Günther é muito calculista profissionalmente, mas em casa, com a família, ele sempre foi mais tolerável. Acho que chegou a hora de visitar o meu tio no trabalho, antes de mudar para Mônaco. Ele é chefe da equipe de Fórmula 1, Haas e por sorte terá uma corrida perto de casa nesse final de semana.
– Tio, vou te ver na próxima corrida. – Eu falava com o tio Günther do outro lado da linha.
– Finalmente! Resolveu aparecer? – Ele falava com seu tom irônico, provavelmente porque já fazia um ano que eu estava longe e sem dar muitas notícias.
– Sim, mesmo que você não acredite, estou com saudades. – Respondi em tom de brincadeira.
– Mesmo que você não acredite, também estou. – Ele respondeu gargalhando.
– Então, quero aproveitar que a próxima corrida é em casa e ficar uns dias por lá. Tudo bem? – Falei, me referendo a próxima corrida ser em Monza e nossa casa ser a apenas 3h dali, em Bolzano.
– Ah não! Eu pensei que iria ter um descanso nesses dias em casa! – Dizia ele, fingindo tédio.
– Sem essa! Já te dei descanso por um ano! Já estou arrumando as malas! Vou pegar um voo até Milão e você me busca lá, ok? – Falei tudo rápido, enquanto arrumava as malas.
– Tenho opção? – Perguntou ele.
– Tem! Você pode arrumar um motorista bem gato para ir me buscar! Não ficarei triste. – Respondi.
– E eu que tenho culpa de você ter dedo podre pra escolher alguém? – Ele respondeu e por um momento veio a minha mente, “deve ser de família”, pensei, lembrando do meu pai. Respirei fundo, na tentativa de limpar os pensamentos e encontrar uma resposta.
– Eu, não! Você quem espanta todos eles, dessa vez vou te deixar escolher para não ter desculpa. – Falei, rindo alto.
– Pensando assim, preciso admitir que você tem razão. Melhor que eu escolha do que você me aparecer em casa na comemoração de natal com algum idiota. – Ele falava, parecendo refletir sobre a cena. Depois disso, ele me disse como estavam a tia Gertraud e a minha prima Greta. Antes que ele me dissesse que tem muita coisa para fazer e me cortasse, o fiz prometer levar as duas para assistirmos juntas à corrida.
Depois da minha mala arrumadinha e bonitinha, peguei uma taça de vinho e fui para a banheira, não há nada melhor para relaxar do que isso, ao som de Édith Piaf. Me sentia como uma criança, tamanha era a felicidade e a nostalgia de voltar para casa. Fui criada por eles, desde muito cedo e o sentimento que carrego é como se fossem os meus pais. Não vejo a hora de chegar e sentir o cheirinho do meu quarto, que ainda está lá, do mesmo jeito que deixei. Os dias aqui em Versalhes têm sido exaustivos, mas gratificantes. Trabalho em um escritório de economia e cuido da conta de muitos ricaços, ou melhor, das contas das empresas que eles possuem. Isso rendeu bons frutos e fui chamada para trabalhar em Mônaco, dentro de um banco, o qual temos parceria aqui no escritório. E a hora do banho, além de relaxar, também me serve para analisar tudo o que venho fazendo e tomar certas decisões. Foi assim que decidi que morar em Mônaco e que trabalhar para o banco seria a melhor escolha, mesmo que seja difícil me afastar dos colegas, que nesses anos aqui, acabaram se tornando a minha família.
Como uma boa italiana, resolvi preparar um macarrão após o banho. Então, coloquei uma música italiana, a nostálgica Imbranato e me dirigi à cozinha para preparar o meu macarrão à carbonara e uma salada para acompanhar. Era quase uma terapia essa minha rotina pós trabalho. Terei uns dias de folga e embarco amanhã de manhã para Milão, então comecei a organizar a cozinha após a janta e deixei a roupa que usaria separada ao lado das malas.
Quando acordei, tomei um banho rápido e não tão quente para dar energia. Ainda de roupão, preparei meu chá matinal e cortei umas frutas, organizando tudo na mesa da sacada para fazer a refeição curtindo aquela vista maravilhosa que eu tinha da cidade. Quando finalmente estava pronta para deixar meu apartamento, pedi um taxi e desci com as minhas “pequenas” malas. Seriam mais ou menos 2h de viagem e chegaria ainda pela manhã. Resolvi ligar para meu tio para avisar que já estava saindo.
– Oi, tio. Liguei para avisar que estou saindo daqui agora. Vou chegar pelas 10h. – Eu disse.
– Está bem, logo estamos saindo te buscar. – Ele respondeu e logo depois já segui para o embarque. Deu até para dormir um pouquinho, mas não muito, até que viessem me acordar trazendo aqueles malditos amendoins. Quando cheguei em Milão, lá estavam os três me esperando: tio Günther, tia Gertraud e minha prima Greta.
– Como você cresceu pirralha! – Falei abraçando Greta primeiro.
– Você que tá diminuindo! – Disse Greta.
– E vocês… que saudade!!!! – Falei, indo em direção a tia Greta e tio Günther e abraçando-os de uma vez só.
– Tá bom, agora vamos. Senão vamos nos atrasar. – Disse meu tio.
– Só precisamos pegar minhas malas … – Falei, olhando para as três malas ali do lado. Meu tio fez cara feia, mas carregou as três sozinho. Depois seguimos em direção a Monza, mais alguns minutos de carro e um tempinho para colocar o papo em dia. Quando chegamos no Paddock, meu tio me entregou o crachá da equipe e resolveu me apresentar a garagem antes que ele tivesse que ir trabalhar. Minha prima saiu correndo ver uma amiga, filha de um patrocinador da McLaren e minha tia a seguiu.
– Te disse que não é nada glamuroso onde trabalho. Deve ser por isso que você demorou a vir. – Dizia tio Günther, enquanto íamos em direção a entrada do motorhome da equipe Haas.
– Não seja dramático. Estou aqui não estou? – Falei, virando meu rosto na direção dele e foi nessa hora que levei um susto. Esbarrei em alguém e senti algo quente na minha pele. – Drogaaaaa!!! – Gritei, ainda não entendendo o que tinha acontecido, até olhar para cima e ver um homem com uma cara de apavorado. – Foi você né? Idiota!! – Falei alto e fui na direção dele, tinha vontade de socá-lo.
!!! Esse é o piloto da minha equipe!! – Disse tio Günther me segurando.
– Tio, você percebeu que ele me virou café? Como é que vou ficar com essa roupa suja agora? – Disse com a voz ainda alterada, enquanto o piloto se mantinha calado.
– Olha moça, desculpa, mas não é pra tanto. Eu pego uma camiseta da equipe para você. – Disse o piloto e eu o ignorei, entrando dentro do motorhome a procura de uma porta que estivesse escrito banheiro.
, para de resmungar. Sobe lá na minha sala, no terceiro andar que logo levamos uma camiseta para você! – Disse tio Günther e me virei para responder, mas percebi que o piloto estava nos seguindo. Então só respirei fundo e segui até o terceiro andar. Chegando lá, sentei na cadeira do meu tio e comecei a analisar as nossas fotos que estavam na estante. Esse era um lado dele que poucos ali fora conheciam. Comecei a refletir sobre cada momento daquelas fotos, até que alguém abriu a porta. O idiota do piloto.
– Cadê o meu tio? O que você tá fazendo aqui? – Perguntei.
– Seu tio está ocupado. Vim trazer isso para você. – Ele disse, estendendo o braço para me alcançar uma camiseta que tinha na mão e peguei, pois não tinha outra opção. Mas não vesti antes de analisar e ver que tinha escrito Magnussen atrás.
– Você só pode estar de brincadeira né? Magnussen é você? Se tá pensando que eu… – E quando ia terminar ele me cortou.
– Olha, não estou pensando nada. Já pedi desculpas e qual é o problema? Você está acostumada a usar roupa de homem. – Ele falou, se referindo a camisa branca masculina da Yves SaintLaurent que eu estava usando. Confesso que fiquei tão surpresa por ele reconhecer a marca que nem tive uma resposta para dar. E ele nem esperou, virou as costas e saiu da sala. E fiquei ali pensando sobre se vestia aquilo ou não. Não é possível que só tenha essa. Até que escuto a porta abrindo de novo e já ia xingar quando vi que era minha tia.
, seu tio disse o que aconteceu. Você ainda não trocou de roupa? Estamos te esperando para irmos pro nosso lugar no Paddock Club. – Ela falou e eu teria mesmo que vestir aquilo.
– Queria outra camiseta… – Falei, virando para ela a parte de trás da camiseta e mostrando o nome escrito.
, anda logo!! – Disse minha prima. E eu suspirei e tirei a minha camisa, me dando por vencida em usar aquilo, quando a porta abre novamente e dei um grito involuntariamente, vendo aquele piloto de volta ali e eu sem roupa.
– O QUE É QUE VOCÊ QUER AQUI? – Falei tentando me cobrir, com a camiseta da equipe e ele riu.
– Estou procurando o seu tio, vi ele subindo pra cá. – Ele respondeu.
– Aqui já viu que não está! Agora dá licença, por favor! – Falei e antes que ele saísse, meu tio entrou na sala.
– O que é que você tá fazendo aqui? Com a minha sobrinha sem roupa. – Meu tio falou, claramente bravo e por um minuto fiquei com pena, pois o tal Magnussen não tinha culpa.
– Vim procurar você. – Respondeu ele.
– Conversamos lá embaixo!! E você , chega de frescura com essa roupa! Vai vestir isso daí e vamos descer logo!!! – Falou meu tio com um tom alto na voz, enquanto Magnussen ria atrás dele.
– Diz pra ele sair daqui então!!! – Falei me referindo ao piloto que ainda estava atrás dele.
– Já estou indo. – Disse ele, percebendo meu tio olhar feio e mesmo assim não parou de rir.
– Acho que ele gostou de você. – Disse Greta, rindo.
– Cala a boca, pirralha! – Falei com um tom de ameaça, finalmente me arrumando para que fossemos para o Paddock Club. – Tio, posso ficar com você na garagem hoje? É só o treino, amanhã na corrida não atrapalho. – Perguntei, ainda no caminho do Paddock Club.
– Tá bem, mas não fica me perguntando nada no momento. Preciso me concentrar no que a esquipe está fazendo para poder ajustar pra amanhã. – Ele disse.
– Tudo bem, fico quietinha. É bom ver como é essa gestão de pessoas. Vai me ajudar agora no novo trabalho. – Eu expliquei.
– Certo, precisamos conversar sobre essa mudança mais tarde. – Ele comentou.
– Então, nós vamos seguir para os nossos lugares. – Disse Greta, dobrando a direita e subindo para o segundo andar, acima das garagens. Enquanto eu e tio Günther seguíamos a diante, até chegarmos à garagem, que era uma das últimas.
– Hey chefe, tudo pronto. Só esperar a hora de ir. – Disse o projetista e estrategista, Rob Taylor, que fez os últimos ajustes nos carros a poucos minutos atrás.
– Okay. Espero um bom trabalho de vocês hoje. – Disse meu tio.
– Hey, parece que temos mais uma integrante no time hoje? Talvez do time do Magnussen… – Dizia o outro piloto chegando, esse eu sei quem é, porque todo mundo na França comenta sobre ele.
– Ahh não, acredite, não estou torcendo por ele. – Falei em tom de brincadeira.
– Você não me diga que não está torcendo pelo meu time. – Disse tio Günther, me repreendendo.
– Desculpa tio, mas estou torcendo pro Grosjean. Podia arrumar uma camiseta dele. – Expliquei.
– De novo essa história? Tenho que trabalhar, depois falamos sobre isso. – Tio Günther disse, impaciente. Depois disso, desejei boa sorte a Grosjean e ele seguiu para a sala dele colocar o macacão. Enquanto o engenheiro chefe de cada um dos pilotos conversava com meu tio sobre as expectativas e os estrategistas explicavam o seu plano de ação para o final de semana, meu tio escutava atento e chamava atenção caso quisesse alguma mudança.
– Kevin preferiu que usássemos a mesma configuração do ano passado, segundo ele conseguiu se adaptar e com os nossos resultados, ele não quis arriscar. – Disse Giuliano Salvi, engenheiro de Kevin Magnussen.
– E você vem me dizer isso agora? Ele não é nenhuma mulherzinha, tem medo de arriscar? Então, esse não é lugar para ele. – Disse meu tio em tom alto e aquilo me irritou muito. “Mulherzinha?” O que ele pensa que está falando? Sei que falei que iria ficar aqui e não me intrometer, mas ele vai ver me escutar quando isso acabar. – Ele que faça bobagem hoje… – concluiu em tom de ameaça, me deixando mais incomodada ainda. Depois disso, Giuliano se dirigiu ao pitwall e eu e meu tio o seguimos.
Era um ambiente totalmente diferente. Depois que meu tio e Gene resolveram criar a equipe, essa era a primeira vez que eu estava ali. Nunca gostei dessa vida agitada, com viagem e muitas pessoas em volta. Sempre gostei da paz que eu tinha na França, com a rotina tranquila, horário pra chegar e para sair do trabalho, mesmo percurso todo dia. Mas, já que estava saindo da minha zona de conforto, mudando para Mônaco e duplicando o número de colegas, é válido ter essa experiência aqui com essa turbulência toda.
O treino parecia tranquilo com o carro que a equipe tem. Porém, um carro da Alfa Romeo com Kimi Raikkonen forçou ultrapassagem em meio ao congestionamento. Kevin para evitar contato, jogou o carro para o lado, perdendo o controle e batendo no muro de contensão. Nesse momento, ouvi meu tio dizer tanto palavrão que fiquei com vergonha por ele. Espero que não estejam filmando isso. Com tamanha raiva que ele estava, nem quis acompanhar o final do treino para ver como Romain Grosjean se sairia. O segui, pois não iria ficar ali sozinha sabendo que não iria ajudar em nada.
– Diga ao Kevin que quero falar com ele, pra ir na minha sala. – Disse ele à mulher que julgo ser alguma assessora da equipe.
– Sim, mas o que fazemos com os repórteres? – Perguntou ela.
– Depois falo com eles, agora não estou com cabeça pra isso. – Ele respondeu ríspido e ela assentiu, saindo de perto. Meu tio subiu em silêncio para a sala dele, mas não deixou de soltar um grito logo que fechei a porta da sala.
– Aquele idiota… sabia que isso ia acontecer, eu avisei. Essa aqui era uma das nossas chances de ir bem esse ano, o carro vai bem nessa pista. Ele jogou tudo fora. – Ele falava, mas parecia um desabafo ao mesmo tempo.
– E o que você queria que ele fizesse? – Perguntei, fazendo-o me olhar curioso. Acho que ele não esperava a pergunta.
– Que ele tivesse usado o setup que estava previsto, o carro teria ficado mais leve e ele teria conseguido segurar. – Ele respondeu, como se fosse óbvio pra eu entender.
– Olha, não entendo nada sobre isso aqui, mas quem é que não quer ganhar? Óbvio que ele tomou uma decisão pensando em ganhar e analisando o que aconteceu, ainda bem que ele foi rápido e não aconteceu nada com ele… – E antes que eu terminasse de falar, Kevin entrou na sala.
– Obrigada por jogar fora a oportunidade de hoje. – Tio Günther começou a falar de maneira irônica.
– Eu joguei fora? O cara joga o carro em cima e devo ficar parado? – Disse Kevin, parado com os braços cruzados na frente da mesa do meu tio.
– Você jogou fora quando teve a brilhante ideia de usar a mesma configuração do ano passado. – Tio Günther respondeu, levantando da cadeira e apontando o dedo na cara de Kevin.
– Tá ruim? Tá! Mas senta lá no meu lugar e faz melhor! – Nesse momento, Kevin também estava com a voz bem alterada e vermelho, era visível o seu estresse. Assim que terminou de falar isso, virou as costas e saiu chutando a porta, fazendo meu tio sair do lugar e me intrometi na frente dele.
– HEY! Isso não vai levar a lugar nenhum! – Falei, também com tom exaltado.
– Eu vou mostrar pra esse moleque quem é que manda aqui! – Ele prosseguiu xingando e socou a mesa. – Não é de hoje que eu penso em mandar ele embora daqui, dessa vez basta!
– Deixa eu falar com ele. Você, nesse estado, não vai resolver nada e ele não deixa de ter razão. Não podia simplesmente ficar parado. – Falei, mas esperando que ele não fosse dar ouvidos ao meu pedido de falar com Kevin.
, isso aqui não é brincadeira! O que é que você vai falar pra ele? – Rle usou um tom irônico dessa vez.
– Vou tentar acalmá-lo pra vocês conversarem. É assim que se resolve as coisas! As pessoas precisam se sentir bem no lugar de trabalho, tem que haver conversa pra expor as ideias. Você nem sabia o que ele planejava fazer. Se era errado ou não, não houve conversa e aí está o problema. Não entendo de automobilismo, mas entendo de gestão e o layout aqui está completamente fora do que deveria ser. Não é porque você comanda tudo aqui que deve se dirigir somente ao engenheiro chefe ou estrategista. Você deve estimular cada um deles e mostrar que cada função é importante. – Fui falando tudo isso, mais do que uma lição, era um desabafo. – Agora, vou lá falar com ele. – Finalizei e ele continuou calado, até que eu deixei a sala. Caminhei pelo corredor até que vi uma porta escrita Romain Grosjean e ao lado outra escrita Kevin Magnussen. Bati na que dizia Magnussen.
– Eu não estou afim de conversar… – Dizia ele gritando do outro lado da porta, mas quando abriu, parecia ter levado um susto ao me ver. – …agora. – Concluiu a frase.
– Se você não quer conversar, pelo menos me escuta. Depois, vou embora. Não precisa discutir. – Falei com a voz calma. Ele deu espaço para que eu passasse e foi aí que comecei a analisar o ambiente. Ele havia derrubado as coisas da mesa, tinha uma cadeira deitada no chão, a qual fui colocar de volta no lugar para me sentar de frente para ele que permanecia em pé, sem camiseta, deixando suas tatuagens à mostra e pude perceber que ele deveria ter uma personalidade explosiva. Eu estava esperando a atenção dele para falar, porém ele se apressou em fazer sinal com a mão para que eu falasse.
– Estou ouvindo, pode falar. – Falou.
– Eu conversei com meu tio. Ele agiu de forma errada, falei pra ele repensar a maneira de como ele está cuidando de tudo isso. Independente se foi certa ou errada a decisão que você tomou, nem entendo disso, mas quanto a você não ficar parado vendo um carro vir na sua direção, concordo com você. Não é assim que as coisas se resolvem, espero que vocês consigam conversar quando estiverem mais calmos… – Falei devagar e com um tom baixo.
– Você sabe o que é colocar a vida em risco todo o final de semana? Não, porque você deve ter um emprego comum, tranquilo e bonitinho. – Quando ouvi aquelas palavras, lágrimas automaticamente embaçaram meus olhos e eu não pude controlar. Não podia acreditar no que tinha acabado de ouvir. Levantei daquela cadeira e fui em direção a porta, sem falar nada. Não tinha o que falar, só estava ali com a intenção de ajudar. Abri a porta, Kevin me puxou de volta, fechando a mesma e se colocando na frente, impedindo que eu saísse. – Me desculpa, por favor! Eu não quis te ofender, não tenho nem como justificar, mas não estou bem, só preciso sair daqui. Sei que você só tá querendo ajudar, mas estou esgotado, estou no meu limite. O que eu quis dizer antes é que se você soubesse como isso daqui funciona, conseguiria imaginar como me sinto. Não quero te ofender, mas sou assim, não sou bom com palavras. – Escutava ele falando e as lágrimas ainda insistiam em cair.
– Então me fala o que tá sentindo. Diz o que tem de errado, o que tá acontecendo, o que tá faltando. Sei lá, mas fala qualquer coisa que te incomoda. – Falei num tom tão baixo que até acreditei que ele não tinha entendido.
– A pressão e a falta de conversa estão me deixando esgotado. Essa cobrança vai enlouquecendo a cada dia. Se vou no que é seguro, estou errado. Se arrisco, estou errado também, porque forçando com o carro arisco e instável do jeito que está, não é surpresa perder o controle e isso dá chance pra caírem em cima julgando. – Ele falou tudo aquilo com uma clara tristeza quanto ao relacionamento no trabalho.
– Calma. Eu entendo você. Pra mudar os resultados tem que começar mudando a maneira de trabalhar. – Falei, puxando-o involuntariamente para um abraço. – Ficar aqui trancado não vai te ajudar. Você ainda tem alguma entrevista? Ou alguma outra coisa para fazer aqui? – Perguntei.
– Não. Os repórteres falaram comigo antes que eu chegasse aqui. – Ele respondeu.
– Então vai descansar, ou sai um pouco pra esfriar a cabeça. Tem o resto da tarde e tem uns lugares turísticos muito interessantes aqui. – Sugeri.
– Vem comigo? Olha, sei que é loucura, a gente nem se conhece, mas não conheço nada aqui e estou precisando respirar ar puro. – Ele falava em tom de súplica.
– Tudo bem, só vou avisar que estou saindo… – Disse, sendo interrompida antes que concluísse.
– Por que você não liga pra ele? Se bem que ele vai surtar de novo. E outra, vão demorar pra terminar o carro, ele só vai embora depois que terminam. Te deixo aqui antes deles terminarem. – Ele sugeriu.
– Tá! Então veste uma camiseta e vamos logo. – Disse, fazendo ele sorrir. Na saída do motorhome, alguns repórteres ainda tentaram fazer perguntas, mas desviamos rápido em direção ao carro de Kevin. Logo que nos acomodamos no carro, ele começou a rir. – O que foi? – Perguntei.
– Você usando essa camiseta e saindo comigo. Espero que você saiba que isso vai virar notícia… – Ele dizia em meio as risadas.
– Olha, pior seria se saísse com você e estivesse com uma camiseta escrita Grosjean. – Falei irônica, fazendo ele rir mais alto.
– Preciso concordar. Bom, pra onde vamos? – Ele perguntou.
– Parco di Monza. – Respondi, explicando no caminho como chegar lá. – Não, pra direita, direita!
– A direita é a outra mão! Como você é ruim nisso, já devíamos ter chegado né? – Ele ironizou.
– Mas chegamos, é bem ali. – Falei apontando para a entrada do parque logo a frente. Era lindo nessa época do ano, cheio de flores. Seria ótimo se pudéssemos aproveitar o pôr do sol ali. Atravessamos uma ponte sobre um lago e nos sentamos em um banco que ficava embaixo de uns ciprestes. Podíamos ver dali umas pessoas ao longe, jogando golf.
– Podíamos vir aqui outra vez pra jogar golf. – Sugeriu ele.
– Não sei jogar golf. – Eu disse.
– Você pode aprender então. – Ele insistiu. Mas antes que eu falasse algo, fui interrompida por minha prima, que estava ligando.
! Onde você tá? Papai está louco atrás de você, caramba! – Dizia ela impaciente do outro lado da linha.
– Calma, Greta! Me deixa falar com ele, porque saí e esqueci de avisar. – Eu disse e ela concordou, passando o celular pra ele.
! Onde é que você tá? Cadê o Kevin? – Perguntou ele, nervoso.
– Resolvemos dar uma volta, não vamos demorar. – Expliquei.
– O QUÊ? Volta? , precisamos conversar! – Ele disse, deixando claro que estava bravo.
– Sim, precisamos. Mas como eu disse, logo estaremos de volta. – Repeti e ele resmungou ao fundo.
– Onde vocês estão? – Ele perguntou.
– No Parco di Monza. – Respondi.
– Caramba, ! Do outro lado da cidade?! – Ele falou novamente voltando a se irritar.
– É, tio, depois nos falamos. Tchau! – e desliguei antes que ele gritasse de volta. Kevin ouvia tudo e ria, sentado do meu lado no banco.
– Você é engraçada. Admito que a primeira imagem que tive de você, foi completamente diferente. – Kevin disse, pensativo.
– Digo o mesmo. Eu não pensei no trabalho que tem por trás do domingo. Mas não estamos aqui pra falar disso. É hora de descansar. – Eu disse, me escorando pra trás no banco.
– Tá certo. Mas por que você nunca… sei lá, apareceu antes? – Ele perguntou, virando para me encarar.
– Porque eu moro na França, ou morava. – falei rindo, sem saber como me expressar. – É que vou mudar pra Mônaco pra trabalhar em outra empresa. Fiz um acordo pra tirar todas as folgas que tinha atrasadas agora pra conseguir me organizar e aproveitei pra vir pra casa antes, já que meu tio estaria por aqui. – Expliquei.
– Você trabalha com o quê? – Quis saber.
– Trabalho em um escritório de economia e vou mudar pra Mônaco pra trabalhar com um banco que temos parceria. Vou assumir o setor de investimentos feitos aqui na Europa. – Respondi. E ali permanecemos, até que tivéssemos que ir antes que meu tio fosse embora do autódromo. Durante o caminho, resolvi mexer no rádio e começou a tocar Carry On Wayward Son, Kansas, e comecei a cantar.
– Jura que você escuta isso? – Perguntou ele, surpreso.
– Qual o problema? – Respondi com outra pergunta.
– Nenhum, só que… – O cortei antes que ele concluísse.
– Só parece coisa de mulherzinha? Olha, já chega o meu tio com esses pensamentos machistas. – O adverti.
– Não é isso. Claro que mulher pode gostar desse tipo de música, mas você parece gostar de algo romântico ou clássico. – Quando ele falou isso, ri da parte do algo romântico.
– Eu gosto também. Sou bem eclética. – Comentei.
– Vai me dizer que você assiste a série também? – Seguiu ele perguntando.
– Sobrenatural? Claro! Imagina que iria perder uma série com aqueles dois bonitões. – Alfinetei.
– Ah, devia ter imaginado o motivo. – Falou ele, ironizando. A conversa fluiu tanto que mudei o meu conceito sobre a primeira experiência com ele, inclusive, me senti mal pela maneira que agi. Logo que chegamos, perguntei pro pessoal da garagem se eles sabiam do meu tio e eles disseram que ele estava conversando com o Gene Haas, dono da equipe. Então, liguei para minha tia, a qual me avisou que ela e minha prima estavam no refeitório da equipe. Fui até lá e pedi um lanche enquanto esperávamos para ir pro hotel, pois pra nossa casa só iríamos no domingo.
– Nem vou discutir com você agora sobre a tua atitude, mas saiba que vamos conversar. – Advertiu tio Günther, logo que me viu ali.
– Precisamos mesmo conversar. – Completei. Depois disso, eu segui comendo meu lanche e ele permaneceu calado, sentado na minha frente. Quando terminei o lanche, ele disse para que o acompanhasse até a sala dele, pedindo para que minha tia e Greta esperassem no primeiro andar, pois depois iríamos para o hotel. Entrei e fui me sentar na cadeira a frente de sua mesa, só esperando ele começar a bronca.
– Você tem noção do que fez? Você está tirando minha autoridade. – Até que ele começou tranquilo.
– Eu tirei autoridade? Tio, só evitei que vocês se matassem, porque do jeito que estavam… E não me venha com esses conceitos machistas sobre os negócios, porque isso aqui não tem relação nenhuma com negócio. E mesmo que tivesse, não é porque sou mais nova e sou mulher que eu não possa falar nada. Você deveria me agradecer por tentar ajudar, claramente sei o problema aqui. Kevin me falou, não estou apenas supondo isso. Primeira coisa que te deixou bravo foi ele não ter feito o que você queria. Mas agora eu te pergunto, como você só descobriu isso na última hora? O erro não é 100% dele, você é a pessoa que comanda todo mundo aqui e deve ter contato com todo mundo e não chegar descascando antes do carro entrar na pista!
– E o que você quer que eu faça? Que fique do lado, de babá, enquanto eles trabalham? Tenho outras coisas pra fazer. – Ele disse impaciente.
– Não, mas você deve criar um clima agradável pra que os funcionários se sintam confortáveis em vir discutir as coisas com você. Você tem que participar das decisões, isso envolve todo mundo, por isso todo mundo aqui é denominado como sendo um time. E comece já nesse final de semana. Estaremos em casa, nada melhor do que fazer um jantar para eles. É preciso mudar esse clima ruim. – Sugeri. Sugeri, não, impus pelo meu tom de voz.
– Você só pode estar brincando… – Falou ele, levantando da sua confortável cadeira andando pela sala, com as mãos na cintura.
– Não estou não! É possível fazer um jantar pra todo mundo lá sim e sei que a tia Gertraud apoiaria isso. – Insisti.
– Depois a gente conversa sobre isso. – Disse ele claramente só para desviar o assunto. Quando a conversa acabou, fomos onde estavam minha tia e minha prima. Seguimos para casa sem passar pela garagem. E eu não ia perder a oportunidade de fazer a minha tia me apoiar quanto a janta para a equipe.
– Tia, o que você acha de uma janta para a equipe lá em casa, amanhã, depois da corrida. – perguntei.
– Acho ótimo, mas tem que ver se dá tempo de organizar isso tudo. – Ela respondeu.
– Dá sim, eu falo com a tia Helga. – Falei, me referindo a senhora dona de um restaurante, que ajudava minha tia quanto tinha recepção lá em casa.
– Vocês já decidiram tudo sem me escutar? – Retrucou meu tio.
– Parece que sim. – disse Greta, rindo.
Durante o caminho, a conversa foi sobre a última vez que estivemos reunidos naquela cidade, já fazia um bom tempo. Não imaginava o quanto sentia falta de tudo aquilo, até estar ali e relembrar como é. Chegamos no hotel e fomos logo descansar, pois o dia começaria muito cedo. E quando eu falo cedo, era realmente cedo, 5h30 am. Às 7am, já deveríamos estar no autódromo. Acordei e fui direto para um rápido banho. Essa era a intenção, mas não foi tão rápido assim, pois me enrolei um pouco com os cabelos. Coloquei um jeans básico, uma camiseta branca, um tênis confortável, sequei meus cabelos, peguei minha bolsa e óculos de sol e sai do quarto. Indo direto para onde meus tios estavam tomando café.
– Bom dia, querida! – Disse minha tia.
– Bom dia! – Respondi. – Me atrasei um pouco, mas só quero um café e uma salada de frutas pra levar.
Depois disso, fui fazer o meu pedido, e assim que ficou pronto saímos. Quando chegamos no autódromo, o fervor estava duas vezes pior do que no treino ontem. Como combinado, eu iria para o Paddock Clube com minha tia e minha prima. Então, meu tio seguiu para a sua sala no motorhome e nós seguimos o nosso caminho para o Paddock Club, mas ao passar em frente dos boxes, eu escuto um “hey”. Era o Kevin falando comigo.
– Você não se despediu ontem e não ia dizer boa sorte hoje? – Perguntou ele.
– Mãe, eu acho melhor deixar eles conversarem sozinhos. – Falou Greta, alfinetando.
– Cala a boca, pirralha – Falei, passando a mão nos cabelos dela e bagunçando.
– Bom, eu e a Greta vamos indo. Te esperamos na nossa mesa. – Tia Gertraud disse e eu assenti com a cabeça, vendo as duas se afastarem.
– Seu tio gritou muito ontem? – Perguntou, Kevin.
– Não tanto. Até falei pra ele fazer um jantar pra equipe, lá em casa. – Respondi e ele fez uma cara de curioso. – É, um jantar. Ele precisa ter mais interação com as pessoas. Você vai né? – Perguntei.
– Não sei, ele ainda deve estar furioso comigo. – Respondeu, com um sorriso fechado.
– É muito importante que você vá. Ele precisa mudar as atitudes dele. E não se preocupe porque ele separa muito bem o trabalho. Quando está em casa, meu tio é outra pessoa. – Expliquei.
– Está bem, vou confiar em você então. A propósito, cadê a camiseta da torcida? – Quando ele falou isso, não resisti em rir alto.
– Você é muito convencido. Já disse que estou torcendo para o Grosjean. – Respondi.
– Mas não está usando a camiseta dele e também não é isso o que os sites dizem. – Falou ele, pegando o celular e me mostrando uma matéria tendenciosa sobre um relacionamento. O que passava por verdade facilmente analisando aquelas fotos. Uma delas era uma montagem de duas fotos minhas onde era possível ver bem a camiseta com o nome dele e a outra era uma montagem de fotos de quando fomos para o carro. – Se você fizer isso de novo, eu vou na janta. – Disse, fazendo chantagem. E eu concordei, resmungando, mas concordei. Fui com ele até a sala dele na garagem, então me deu uma camiseta que tinha ali e saiu para que eu vestisse. Ficou um pouco grande, mas era a que tinha.
– Pronto. Tá satisfeito agora? – Falei ao sair da sala e ver ele ali fora esperando.
– Agora sim. – Respondeu.
– Então, já posso ir agora. Boa sorte! – Disse antes de sair para ir ao Paddock Club, mas não antes de ouvir ele agradecer pelo boa sorte. Quando me acomodei na mesa, Greta começou a fazer piadas sobre eu ter trocado de roupa.
– Ele te virou café de novo? – Disse rindo alto.
– Não e não me faça perguntas sobre isso. – Respondi.
– Mãe, o que você acha? Será que o papai apoia esse casal? – Ela falou, como se eu não estivesse ali. – E lembrando que não estou falando sobre isso com você, nem comece a resmungar aí. – Falou me provocando. Elas continuaram falando sobre isso e de como eu deveria arrumar alguém e deixar de ser ranzinza igual o meu tio, até que a corrida começou, pedi uma champagne e fui até a grade para ver melhor os carros passando ali embaixo na pista. Até que senti minha prima me chamar, me puxando pela roupa.
, tem uma repórter tirando fotos. Ela viu que você está conosco e perguntou se você é namorada do piloto. Eu disse que sim. – Falou gargalhando.
– Se você fez isso, eu te mato! – Falei, franzindo a testa.
– Não falei, mas ela perguntou quem você era e se poderíamos tirar uma foto juntas pra colocar no perfil do Instagram do Paddock Club. – Explicou. – Vamos lá. – Disse me puxando. Então, depois da foto a mulher perguntou mesmo se eu tinha algum relacionamento com o piloto e eu disse que não, mas deve ter soado confuso. Quando voltei a prestar atenção na corrida, vi que as Haas estavam lutando para ir pra zona de pontuação. O que estava gerando muito reboliço ali embaixo no box da equipe, ou garagem como eu costumo dizer. Isso era bom, meu tio estaria de muito bom humor. Romain Grosejan conseguiu o 10° lugar, e a equipe pulava fervorosamente e fazia sinal de positivo para os engenheiros, estrategistas e meu tio que estavam no pitwall em contato direto com os pilotos através do rádio. E a corrida terminou assim, Grosjean conseguiu sustentar o seu 10° lugar e marcar um ponto para a equipe e Kevin logo atrás em 11°. Para uma equipe iniciante, isso é ótimo e eles comemoraram como um pódio.
– Vamos lá dar parabéns? – Perguntei.
– Calma, vamos esperar as entrevistas acabarem. – Disse minha tia.
– Agora precisamos, com certeza, de um jantar de comemoração. Posso falar com a tia Helga? – Perguntei e tia Gertraud concordou, então já fui fazer a ligação e pedi um jantar típico italiano para 100 pessoas. Ela prontamente aceitou o pedido e já disse que iria pedir para levarem uma estrutura com mesas e o buffet para o nosso quintal aberto. Quando as entrevistas acabaram, descemos até onde a equipe estava reunida, uma sala dentro da garagem. Bati na porta e entrei, seguida por tia Gertraud e Greta. Acho que cortei o discurso do meu tio, mas tudo bem.
– Então, como eu ia dizendo. Sei que até agora o caminho está difícil, mas não podemos parar, nós conseguimos e hoje tivemos a prova disso. Eu não sou bom com palavras e é a primeira vez que eu tenho que falar algo assim pra vocês. – Deu uma pausa para rir do próprio comentário. – Mas é isso aí, temos que comemorar e melhorar, sabemos que é possível. – Concluiu ele, seguido por aplausos da equipe.
– Já que estamos falando em comemorar, não é tio? Estamos organizando um jantar lá em casa, hoje. Estão todos convidados. – Eu disse.
– Estamos? – Perguntou meu tio, com expressão confusa.
– Sim, estamos. – Afirmei.
Depois de mais algumas instruções do meu tio, a equipe começou a se organizar para desmontar o que fosse possível para começar a transportar no outro dia. Enquanto eles organizavam as coisas no autódromo, fomos para casa mais cedo para que pudéssemos organizar a recepção.
Quando as pessoas começaram a chegar, os garçons começaram a circular com as bebidas e os petiscos. Meu celular tocou e fui até meu quarto para falar com minha amiga Olívia, que estava do outro lado da linha. Parecíamos ter tanto assunto atrasado em dois dias, já devíamos estar conversando há quase 15 minutos, até que eu disse que precisava desligar. Antes de terminar de pronunciar “até mais”, a porta do meu quarto abriu e Greta entrou com Kevin ao lado.
– O que é isso? Vocês não aprenderam a bater na porta? E o que você tá fazendo aqui? – Fiz a última pergunta olhando na direção do Kevin.
– Foi ela. Ela que disse que me traria aqui. – Disse ele, apontando para a Greta, deixando claro que a culpa era dela, de um jeito engraçado.
– Vai dizer que você não queria vir aqui? – Disse ela revirando os olhos. – Só não deixa o papai ver você aqui. Tchau pra vocês. – Terminou, saindo dali.
– Então, cumpri o trato, estou aqui. – Começou ele, puxando assunto.
– Se não cumprisse, você estava ferrado. – Falei, vendo-o se aproximar, rindo do que eu disse.
– Você faz tanta questão da minha presença assim? – Ele perguntou, mas parecendo fazer uma própria reflexão.
– Quantas vezes preciso te chamar de convencido? – Perguntei, sem imaginar a reação dele, que estava tão próximo e me beijou, e mesmo sendo algo inesperado, correspondi. Era tão intenso, não parecia ser a primeira vez que nos beijávamos. O cheiro do perfume dele estava me deixando enlouquecida e quando as coisas começaram a se intensificar, o afastei.
– Você tá maluco? – Perguntei e ele me olhou confuso.
– Você correspondeu. – Respondeu, arqueando as sobrancelhas.
– Isso não podia ter acontecido. – Eu disse.
– Nós não somos mais crianças. E foi bom, não foi? – Ele perguntou e demorei a processar o que deveria falar.
– Não é isso. – Falei e ele esperou que eu prosseguisse. – Não podemos misturar as coisas, você entende né? – Perguntei.
– Entendo o que você quer dizer com isso, mas não vejo dessa forma. Acho que quando os dois querem e se sentem bem, é o que importa, porque o mundo já está cheio de gente que não sente nada e mesmo assim estão juntos. Pensa nisso. – Explicou e, dessa vez, ele parecia muito sério.
– A gente leva a vida de maneira completamente diferente. Não quero misturar as coisas porque tenho certeza que a gente vai se ver de novo e não quero um clima assim entre a gente. – Falei, me referindo a situação em que estávamos.
– Tudo bem, respeito isso. – Ele falou, me abraçando e beijando a minha testa. Até que falei que precisávamos descer. Então, fomos até o quintal e já estava todo mundo lá, bebendo e comendo petiscos até que as carnes ficassem prontas para servir o jantar.
– Olha só quem nos deu a honra de sua presença. – Falou meu tio ironizando e acho que isso serviu para os dois.
– Toma cuidado, Günther, porque o Kevin tá de olho. – Disse Rick, um dos mecânicos da equipe.
– Você sabe que tá demitido, né? – Disse tio Günther apontando na direção do Kevin, fazendo ele rir e não comentar sobre o assunto. Talvez pelo fato da nossa conversa anterior.
– Demita antes que tenha que aturar ele no natal também. – Disse Oliver, um dos responsáveis pela logística.
– Ahhh acredite, não me agradaria mesmo. – Disse ele rindo e tomando um gole de sua bebida. Depois disso, ele fez mais um pequeno discurso, foi até emocionante, considerando quem estava falando.
– Devíamos filmar esse momento. – Comentei, fazendo Romain e Kevin, que estavam sentados ao lado, rirem.
– Você acha que eu iria perder isso? – Falou Greta com a voz baixa, me assustando, pois não tinha percebido ela em pé atrás, filmando o discurso. Depois do discurso e algumas risadas, o jantar foi servido. Tia Helga sempre acerta.
A noite estava ótima, mas é uma pena que o tempo passa tão rápido quando a gente se diverte. E algumas pessoas, ainda teriam que voltar para Monza. Outros ficariam em hotéis de Bolzano. Kevin foi um dos últimos a sair e o acompanhei até onde seu carro estava estacionado.
– Então é isso, sei que a gente vai se ver de novo. Boa sorte com a mudança. Quando a corrida for lá, espero que você vá ver. – disse ele.
– Claro que eu vou. E saiba que você pode sempre conversar comigo, caso esteja difícil de lidar com meu tio. – Eu disse, tentando fazer uma piada para quebrar o clima de despedida. Então trocamos nossos números de telefone e nos despedimos. Por mais que a vontade fosse de beijá-lo novamente, não poderia deixar que isso acontecesse, só dificultaria pensar que iria cada um para o seu lado. Depois de um abraço apertado, o qual não precisavam palavras, vi ele entrar no carro e ir embora, visivelmente contrariado. Senti um aperto no coração, enquanto lutava com as lágrimas. Se me dissessem que é possível se apegar a uma pessoa fácil assim eu jamais acreditaria, até sentir.

xxxx

Dias se passaram e eu estava desanimada, por mais que Greta tentasse me animar, parecia fora de órbita quando falavam comigo. Meu tio tinha embarcado para Ásia, por motivos de a próxima corrida ser lá. Mas não antes que ele conversasse comigo sobre o Kevin e eu dissesse que não há nada entre nós, para que ele fosse tranquilo e não implicasse.
Quando mudei para Mônaco, a nova rotina e o novo trabalho estavam me deixando tão focada que cheguei a pensar que pareço melhor trabalhando do que de férias. Não imaginei que iria me adaptar tão rápido e me organizar tão rápido. Morava tão perto do trabalho que poderia ir caminhando. E assim fiz por algumas vezes, para aproveitar a vista e conhecer mais um pouco daquele lugar. Tinha pegado o costume de jantar fora frequentemente e aos finais de semana correr na praia.

Meu apartamento era maior e estava preparada caso meu tio quisesse fazer uma visita, já que o GP de Mônaco se aproximava. Porém, ele só chegaria pouco antes do treino, pois iria fazer uma viagem até a unidade dentro da casa da Ferrari em Maranello para revisar um projeto antes da produção. Então, provavelmente só irei acompanhar a corrida mesmo.
Tinha acabado de sair do banho quando o celular tocou. Me enrolei na toalha e fui em direção a cama, onde estava o celular.
– Achei que você não atenderia. – Falou ele, rindo.
– Por que ligou então? – Continuei a piada.
– Tinha que tentar. – Respondeu ele.
– Qual o motivo da ligação? – Questionei.
– Não conversamos mais depois de Bolzano. Como está aí? Já se adaptou ao lugar novo? – Ele quis saber.
– Sim, mais rápido do que eu imaginava. E você? Pronto pra próxima corrida? – Perguntei.
– Acho que sim, saio daqui amanhã. Você irá ver? – Ele parecia procurar cada vez mais perguntas para puxar assunto.
– Vou sim, mas acho que só no domingo. Tio Günther falou que chegará em cima da hora, não quero atrapalhar. – Respondi.
– Mas eu estarei desde a quinta em Mônaco, podíamos sair jantar. – Sugeriu.
– Sabia que tinha algum motivo para você ter ligado. – Falei, rindo alto. – Jantar? Quando? – Perguntei.
– Na quinta mesmo. Vou chegar ainda pela manhã. – Ele disse.
– Está combinado para a quinta então. Tem um restaurante novo aqui perto, já tem uns dias que estou pensando em ir lá. – Sugeri.
– Está bem. Ligo para você antes de ir te buscar. – Ele disse e depois falamos sobre os meus lugares preferidos da cidade nova, até que desligássemos.

Quando chegou a quinta-feira, segui minha rotina normalmente e estava contando os minutos para que pudesse ir para casa. E logo que cheguei, fui direto para o banho e, como de costume, coloquei uma música para relaxar. Estaria eu nervosa e pensando no jantar? Depois de uns longos minutos tomei coragem de sair da banheira. Sai do banheiro e quando comecei a ver a roupa que ia vestir, meu celular tocou.
– Oi, você pode passar o teu endereço? – Perguntou ele.
– Oi, estaciona e olha a localização que vou te mandar. – Eu disse.
– Estou perto, não demoro pra chegar aí. – Foi o que ele disse em um áudio. Enquanto ele não chegava, corri para me arrumar. Acabei escolhendo um vestido branco com barrado preto e estampa de flores de um tecido fluido com as costas de fora e a parte de traz um pouco mais longa que a parte da frente. Prendi o cabelo e escolhi uma sandália com um salto não tão alto numa cor rosê com as tiras fininhas e umas pedras delicadas em cima, escolhi joias delicadas para combinar.
Não demorou muito para que Kevin avisasse que tinha chego e que estava subindo. Quando abri a porta, ficamos nos encarando por alguns segundos, até que ele sorriu e se aproximou colocando a mão direita no meu rosto, fazendo com que eu fechasse os olhos. Nesse momento, senti algo estranho no meu estômago, que me fez sorrir e meus batimentos cardíacos aumentarem. O que só intensificou quando ele fechou a porta, me segurou pela cintura e me puxou para perto.
– Eu senti a tua falta. – Falou no meu ouvido.
– Eu mentiria se falasse que não senti. – Falei sincera, mas tentando manter a razão que me dizia que isso era errado. Porém quando ele me beijou, não consegui afastá-lo e não queria. Quando ele desceu os beijos para o pescoço e colocou as mãos embaixo do meu vestido, precisei me controlar.
– Precisamos ir ou vamos nos atrasar pra nossa reserva. – Comentei e ele concordou. Quando parei para pensar no que estava acontecendo e em suas atitudes, percebi o quanto isso me fazia feliz, vendo-o ali do meu lado, sendo cavalheiro quando abre a porta do carro ou puxa a cadeira para mim sentar.
– Devo dizer que essa é a primeira vez que saio jantar com alguém em muito tempo. – Comentei.
– Espero não a decepcionar então. – Disse ele. E não, não decepcionou em nenhum momento. Tão atencioso e carismático, me fazendo querer que aquele momento não acabasse nunca. E a conversa foi longa, depois do jantar ainda ficamos por algum tempo tomando vinho.
– Acho que temos que ir, você deve ter muito o que fazer amanhã. – Comentei.
– Estou com a manhã livre. Mas costumo acordar cedo de qualquer forma. – Ele disse.
– Bom, a rua onde eu trabalho vai ser fechada, então estarei trabalhando de casa até a próxima semana. – Expliquei.
Depois de mais alguns minutos conversando sobre a preparação das ruas para a corrida, resolvemos ir para casa.
– Não quero que você vá embora. – Simplesmente deixei que essas palavras saíssem livremente.
– Não esperava que você fosse dizer isso. – Comentou, sorrindo.
Estendeu a mão, acionou o alarme do carro e me abraçou de lado, então seguimos em direção ao meu apartamento. Talvez fosse uma atitude impulsiva, mas pensei muito sobre isso e é o que me deixaria feliz.
– Acho que precisamos conversar. – Ele começou.
– Sobre? – Perguntei, sentando ao lado dele no sofá.
– Nós. – Respondeu. Já imaginava, mas perguntei para confirmar. – Durante esse tempo, só conseguia pensar em você e contava os dias pra que a corrida de Mônaco chegasse pra poder te ver. – Ao ouvir ele dizer isso, fiquei feliz com a sinceridade dele, por não enrolar com as palavras.
– Eu senti tua falta, fiquei refletindo sobre o que aconteceu em Bolzano. Ver você indo embora, me fez chorar e levei dias para que pudesse aceitar. Não sei o que fazer, mas o que estou sentindo é algo forte e dói controlar, fingir que não aconteceu nada enquanto os dias vão passando. – Falei, desabafando.
– Você não precisa esconder nada. Como te falei aquela vez, tantas pessoas que estão juntas e não se amam… – Falou, se aproximando e me beijando. – E tá claro o que a gente sente um pelo outro. Se você disser que sim, a gente dá um jeito. – Ele disse e o beijei, como forma de dizer sim, sem me segurar, apenas queria ele.
Antes que as roupas estivessem todas no chão, ele me levou para o quarto. Era como se já conhecesse cada centímetro do corpo dele, cada toque seu provocava sensações diferentes, me paralisava, mas também me deixava enlouquecida. Foi uma das melhores noites que já tive e acordar com ele abraçado em mim, me fez sorrir imediatamente.
– Bom dia. – Eu disse.
– Bom dia. – Ele respondeu, com os olhos ainda fechados, mas com um sorriso no rosto.
– Preciso de um banho. – Comentei, porém me encolhendo embaixo do lençol, fazendo ele apertar mais os braços à minha volta.
– Eu também preciso. – Comentou. Então depois de muita luta contra o sono, seguimos para o banho. Depois, fui fazer o nosso café da manhã. Enquanto ele tentava me ajudar, fazendo ovos poché sem sucesso algum, eu fazia waffles. Arrumei a mesa na sacada, como de costume, gostava de tomar café aproveitando a vista e o clima da manhã. Foi quando a campainha tocou e levei um susto ao abrir a porta e ver o meu tio ali.
– Você disse que chegaria só no sábado. – Falei no susto.
– Eles atrasaram as coisas, não iria adiantar ir lá. Qual o problema com você? Parece surpresa ao me ver. – Comentou.
– Éee… Um pouco, estava esperando você no sábado. – Dei espaço para que ele entrasse. – Estava tomando café… – E antes que eu terminasse, Kevin apareceu.
! É SÉRIO ISSO?! – Tio Günther falou, visivelmente incomodado.
– Pois é. – Falei, apenas sem saber o que fazer.
– Bom dia para você também, chefe! – Falou Kevin.
– Você… Eu te avisei… – Disse meu tio em tom de ameaça.
– Tio, eu não sou mais uma criança. São minhas escolhas e elas não tem que serem misturadas com o seu trabalho. O Kevin me fez pensar sobre um assunto que por anos ignorei. É sobre o que sinto, ou melhor nós sentimos. Você quer ver a sua sobrinha feliz? Pois, me sinto feliz agora. – Tentei explicar da melhor forma, enquanto ele estava paralisado, sentado no sofá.
– O que sinto pela é real. Você mesmo sabe que não sou de me ligar a sentimento. Então se estou aqui é porque realmente o que sinto por ela é muito forte. Eu esperei todos esses meses pra que chegasse a hora de vir pra Mônaco ver ela. – Dessa vez foi Kevin quem tentou explicar as coisas.
– Você… Tinha que ser a minha sobrinha? Como vou conseguir trabalhar agora, pensando que o piloto da equipe tá … Ahhhhhh! Preciso sair um pouco, preciso pensar. Não acredito que isso tá acontecendo. – Disse ele, se levantando rapidamente e batendo a porta. Por dias, fiquei imaginando qual seria a reação do meu tio, caso ele descobrisse o que aconteceu em Bolzano, porém jamais podia imaginar que ele saberia dessa forma que estamos juntos. Conhecendo-o como conheço, estou até surpresa pelo comportamento dele. Temia que fosse pior.
– Coitada da Greta. – Foi a única coisa que consegui pronunciar depois disso, fazendo Kevin rir.
Como imaginei, meu tio não quis ficar no meu apartamento. Disse que não suportaria ver Kevin por lá. No domingo, depois da corrida, convenci ele de irmos jantar para comemorar o 5° lugar do Kevin e o 7° do Romain, sendo os melhores que a equipe já conseguiu até agora. Com muita conversa consegui fazê-lo entender que realmente era verdade o que eu estava sentindo e que não sabia como, mas estava disposta a levar isso pra frente.

No início não foi difícil, pois não estávamos acostumados com a presença constante um do outro, mas com o passar do tempo ficou mais difícil conciliar isso e passei a ir nas corridas que eram próximas. Fiz isso em troca das minhas férias, mas admito que era bem cansativo. Kevin também se dividia entre a família e estar comigo sempre que tinha folga. Já tinham se passado quase dois anos desse jeito.
– Vou chegar amanhã no final do dia. – Kevin falava no outro lado da linha.
– Está bem, te espero com Frikadeller para o jantar. – Faria o prato dinamarquês preferido dele, mas ao falar de comida, senti um mal-estar que estava frequente nos últimos dias. Por sorte, tinha uma consulta agendada para o outro dia cedo. E precisava dormir, então cortei o assunto e fui direto para a cama.

– Querida, faremos os exames só para confirmar. Já vi muito isso acontecer durante todos esses meus anos como médica. Parabéns, você será mamãe. – As palavras da médica ressoavam pela minha mente e precisei estacionar o carro, pois as lágrimas tinham tomado conta da minha visão. Estava em estado de choque, sem saber como agir e o que fazer. Como eu contaria para o Kevin?
Desci do carro e fui caminhar na beira da praia, depois de cansar, sentei na areia e só deixei as lágrimas virem. Precisava liberar essa emoção pra conseguir continuar e pensar no que fazer. E quando vi uma família, com um pequeno menininho ali na minha frente, comecei a assimilar o que estava acontecendo e posso dizer que o sentimento de mãe foi surgindo assim, sem precisar fazer absolutamente nada. Automaticamente, meu cérebro começou a imaginar quando meu filho ou filha estivesse naquela idade e um sorriso brotou em mim. Aquele misto de emoções em pouco tempo significava uma mudança enorme na minha vida. Levantei dali e fui para uma loja de criança, comecei a analisar roupinhas, até que uma atendente veio ajudar e me explicou algumas coisas. Quando vi um body escrito “Papai estou chegando. Suas noites de sono estão acabando”, tive a certeza de que era o que iria levar.

Kevin chegou mais cedo, ainda não tinha terminado o jantar, então ele resolveu ajudar.
– Você não vai tomar vinho hoje? – Perguntou ele.
– Não, hoje não. – Apesar de ter colocado taça, não poderia tomar.
– O que está acontecendo? Está tão calada. – Falou, percebendo minha ansiedade interna, porém só falaria o que estava acontecendo após o jantar.
– Estou? Deve ser o cansaço. – Comentei.
Depois que jantamos, organizei a louça e tomei coragem para contar a surpresa.
– Vem aqui, tenho um presente pra você. – Eu disse.
– Presente? No quarto? – Ele disse, fazendo piada.
– Engraçadinho. – Falei, o puxando para o quarto. – Fecha os olhos. – Pedi.
– Já posso ficar com medo. – Continuou fazendo piada.
– Olha, acho que pode. – Falei, entrando na brincadeira. E colocando a roupinha nas mãos dele que ainda permanecia de olhos fechados. – Pode abrir os olhos agora. E a reação dele foi permanecer paralisado por alguns minutos enquanto lia o que estava escrito, depois se sentou na cama e começou a chorar como uma criança.
– Você consegue imaginar o quanto estou feliz? – Falou em meio ao choro. – É uma sensação que não tem como explicar. Agora eu tenho tudo na vida. Eu amo vocês! – Falou, beijando minha barriga.

Era a segunda temporada que eu acompanhava, a próxima corrida seria em Abu Dhabi e estava ansiosa de poder ir e conhecer um lugar novo. Estávamos tão ansiosos pela última corrida e por poder aproveitar um pouco aquele lugar. Estava preparada no meu lugar para ver a corrida noturna pela primeira vez ao vivo. Era um cenário lindo e a corrida estava mais disputada do que nunca. Era a última chance de pontuar e alguns pressionaram tanto no treino que ficaram fora da corrida, pois não daria tempo de arrumar o carro. Eu acompanhava as posições dos pilotos e o gap entre eles pelo aplicativo, pois diferente do que todo mundo pensa, não é fácil saber a ordem só olhando pra pista. Já ouvi Kevin perguntando no rádio qual é a posição que está. Vi umas luzes do outro lado do autódromo, mas não era possível distinguir o que tinha acontecido, porém podia ver que se tratava de um acidente pelas bandeiras vermelhas e pelos carros reduzindo drasticamente a velocidade. Meu coração parou ao ouvir anunciarem que era uma Haas. Comecei a passar mal e uma moça que estava do meu lado percebeu que eu estava grávida e tentou me ajudar, trazendo água e tentando me acalmar, até que chegou uma enfermeira mandada pelo meu tio e foi aí que percebi o quão grave era.
– O Kevin tá bem? – Era só o que eu perguntava.
– Estão levando ele nesse momento até os médicos. – Ela respondeu.
– Preciso ir lá. – Eu disse.
– Seu tio pediu que viesse te acalmar e que evitasse o tumulto dos repórteres.
– Você não tá entendendo, preciso ver ele. – Falei me levantando.
– Você precisa se acalmar. Estão cuidando dele nesse momento, não vão te deixar entrar lá. – Ela explicou.
– Não importa. Eu espero do lado de fora. – Depois de insistir mais algumas vezes e ela alegar que não poderia me medicar para que ficasse calma e que por isso era melhor que esperasse ali, consegui convencê-la de me levar até onde Kevin estava. Ele estava sedado e isso me deixou apavorada pelo fato de não poder ouvir dele o que estava sentindo. Depois que meu tio deu entrevistas, veio me fazer companhia. Acabei dormindo no sofá do lado de fora do quarto, pois me recusava sair dali, mas não conseguia mais segurar o sono.
Me chamaram no outro dia cedo. Dizendo que poderia entrar, mas que não era pra forçar que ele falasse. Quando entrei no quarto, vi ele com uma perna imobilizada e vários hematomas, o rosto tinha machucados na bochecha e na testa. O que os médicos diziam é que não era nada grave, mas o impacto foi forte e ele sentiria dores pelo corpo durante algum tempo, então ele foi sedado de imediato e depois seguiria tomando remédios para a dor, até se recuperar completamente. Ele não falava, mas estava consciente. Escorreram lágrimas pelos seus olhos enquanto ele colocou a mão na minha barriga. O que era para ser o início das férias, acabou sendo um período de espera no hospital. Após 20 dias, ele disse que precisava conversar com meu tio.
– Eu preciso ser realista. Eu não posso continuar fazendo isso. Meu filho e minha família são a prioridade. – Disse ele.
– Kevin, eu te entendo e você tem o meu apoio dessa vez, sei o quanto é importante um pai estar perto do filho. E te admiro por isso, sei o quanto isso é importante para a minha sobrinha também. Sei o quanto um pai fez falta na vida dela e que ela não quer que o filho dela passe por isso. – Disse meu tio.
– Eu sempre tive você. tio, mas não quero que meu filho sinta falta de um pai. Essa é uma das decisões mais importantes que o Kevin está fazendo, está mudando a vida dele… – E antes que pudesse concluir, ele me cortou.
– Nossa vida. – Ele corrigiu. – Não estamos mais sozinhos. Nós somos três agora e precisamos tomar as decisões que sejam melhores para nós três. – Ele disse, me fazendo ter cada vez mais certeza da minha escolha, antes de sermos três, precisei decidir que era com ele que queria construir uma vida.
Quando ele pôde sair do hospital, fomos para Mônaco, pois eu ainda tinha uns meses de trabalho antes de ganhar a licença no final da gestação. Kurt estava crescendo muito rápido e Kevin queria acompanhar tudo antes de iniciar o seu novo projeto, criando uma nova equipe de Rally.
Meu tio ainda tinha que resolver o problema da falta de um piloto, ou melhor, dois, porque Romain disse que só renovaria por mais um ano, seguindo mesmo exemplo do Kevin, dizendo que já não tinha mais idade para isso e que queria acompanhar o crescimento dos três filhos mais de perto.
Para a revolta do chefe da Alfa Romeo, tio Günther conseguiu apoio da Ferrari para trazer Mick Schumacher, que ganhou a F2 com a Prema, para a equipe Haas. E para o próximo ano traria o vice campeão da F2, Callum Ilott. Eu não conhecia muito do trabalho deles, mas Kevin estava tão feliz com a escolha e pediu para conversar com Mick, assim que soube da notícia.
– A Haas não é o melhor time no campeonato, mas se você cuidar deles, eles trabalharão dia e noite para fazer o melhor pra você. Eles são sua nova família, vão cuidar do novo filho e ajudar no que for preciso. Não se sinta pressionado, isso atrapalha muito. Ninguém além de você e da equipe sabem o que realmente está acontecendo, não se deixe levar pelos comentários, porque quem realmente entende desse mundo, sabe que tem muita coisa por trás do que se vê no fim de semana. – Kevin falou, emocionado.
– Obrigado, Kevin, pode deixar que eu vou cuidar da equipe e do seu carro. Farei o meu melhor sempre, também farei de tudo para evoluir e ajudar o time. – Quando Mick concluiu Kevin o abraçou e esse foi o fim de um ciclo de quatro anos.

xxxx

*Você deve estar aí pensando como foi contar para o meu tio sobre o bebê né? Pois aí vai um spin-off. *
Bolzano, 2020.
– Eu falei sobre você aqui no Natal, não esperava que você viesse antes também. – Meu tio falava sobre Kevin ter ido pra Bolzano comigo.
– Tio… – Repreendi.
– Tudo bem, tudo bem. Mas falando sério agora, qual é a bomba dessa vez? Porque você não está de férias… E você, Kevin, se tá com saudade de mim, tem um monte de trabalho na fábrica esperando. – Disse ele.
– Não estou de férias, mas a viagem tem um motivo. Senta aí. – Comecei ajeitando o território.
– Qual o motivo? – Ele perguntou nervoso, se sentando no sofá ao lado de tia Gertraud que parecia já ter entendido.
– Você será titio-avô. – Falei de uma vez. Por alguns minutos, pensei que ele iria desmaiar. – Tio, tá tudo bem? – Falei me sentando do outro lado dele no sofá e segurando seu pulso.
– Quando é que eu vou ter paz? E você?! Vou ter que te aturar pra vida inteira agora?! – Dizia ele, olhando de cara feia para Kevin.
– Você está chorando, papai? – Perguntou Greta.
– É óbvio né?! Vamos ter um pequeno correndo pela casa. Ver a minha filha mais velha crescida e bem criada, me emociona. Por mais que não seja tudo como eu pensei. – Falou a última frase olhando para o Kevin. – Mas vou te dar uma chance, não faça me arrepender.

 

Nota:

O projeto: Essa fanfic faz parte do projeto Drive to Survive, um projeto no qual 11 autoras apaixonadas por Fórmula 1 se reuniram para escrever uma short para cada piloto do grid, divulgando e homenageando esse esporte incrível.
Nessa segunda etapa os pilotos são: Checo Perez, Pietro Fittipaldi, Carlos SainzRomain Grosjean e Kevin Magnussen.
Mas em breve todos os pilotos da temporada de 2020 terão um história para chamar de sua, todas feitas com muito amor.
Esperamos que curtam nossa propostas e embarquem nesse mundo com a gente.
Não esqueçam de deixar aquele comentário no final e motivar uma autora a sempre continuar.

Nota da autora: Escrever essa fic me fez aceitar a ideia da saída do Kevin da Formula 1. Ele é um dos meus pilotos favoritos e fiquei super empolgada com essa história. Diferente do que a Netflix mostra, Kevin não é aquele monstrinho lá. Eu quis trazer um pouco desse aspecto família e o lado humano que deve ser colocado antes de qualquer julgamento. Espero que gostem, escrevi com tanto tanto amor.