Drive to Survive – Lance Stroll

Drive to Survive – Lance Stroll

Sinopse: Diamantes são feitos sob pressão – se alguém entende essa frase, esse alguém é Lance Stroll. Desde o dia que decidiu pelo automobilismo, a sombra de sua família e diversos infortúnios o tornaram um dos pilotos mais odiados de todos, sem que ele tivesse culpa alguma. Entretanto, no meio de tanto ódio, mídia, dinheiro, riscos e velocidade, uma garota sempre esteve lá. Sempre foi porto seguro. Sempre foi casa.
Gênero: Original.  Romance.
Classificação: 14 anos (Linguagem ofensiva e menção a bebidas alcoólicas.)
Restrição: Lance Stroll fixo como personagem principal.
Beta: Sharpay Evans

O vento um pouco mais frio anunciava uma possível chuva nas terras lusitanas, mas dentro da garagem da Escuderia BWT Racing Point os casacos rosas e azuis mantinham todos aquecidos. Os olhos vidrados nas telas transcendiam o momento, promovendo um silêncio um tanto quanto palpável em contrapartida ao caos que acontecerá há pouco.
Alguns minutos atrás, as cinco luzes vermelhas foram apagadas, dando início ao Grande Prêmio de Portugal de Fórmula 1 do ano de 2020. No autódromo relativamente vazio de Portimão, mas para um público atento enclausurado em casa, a corrida começou freneticamente. Uma primeira volta de rodas travando, ultrapassagens por frações de segundos, conduções brilhantes e, infelizmente, um contato entre Max Verstappen e Sérgio Perez tirou o fôlego de todos os espectadores. Após o alarde de reações, e como bombeiros preparados para o resgate, os mecânicos cor de chiclete se colocaram rapidamente a postos para um pit stop emergencial do mexicano, que havia largado na quinta posição e agora ocupava a última.
Em contrapartida, o outro piloto da escuderia, Lance Stroll, estava voando entre posições. Começara da décima segunda marca, depois de resultados ainda mais negativos nos três treinos livres. Como vinha sendo consistente, a culpa dessas colocações provavelmente recaía sobre a sua recente infecção por COVID-19, detectada há duas semanas num processo carregado de forma extremamente confusa e enviezada por parte do chefe da equipe. Há quase quatro semanas ele não vinha se sentindo bem, testou negativo, seus sintomas pioraram, foi para casa e aí sim testou positivo – o que foi negado pelo dirigente mas confirmado pelo piloto. Em resumo, toda a situação caminhou de forma muito estranha e Lance não parecia estar 100% preparado para continuar provendo os resultados que provia, entretanto não foi substituído. Todavia, naquele dia, ele estava se mostrando o Lance de sempre, correndo sedento por posições e as escalando uma a uma.
Logo na primeira volta, Stroll ultrapassou seu amigo de longa data Esteban Ocon, piloto Renault, e se livrou com sucesso do caos da largada. Entre a volta um e a seis, tudo de estranho que podia acontecer aconteceu, incluindo Kimi Räikkönen ultrapassar 10 carros em duas voltas (Indo de P16 para P6) com uma Alfa Romeo de motor Ferrari (Que está em péssima fase) e Carlos Sainz, piloto McLaren, assumir a pole por algumas voltas. A corrida ia seguindo a 220 volts quando, na décima volta, o alerta de bandeira preta e branca subiu na tela, afirmando que Lance – agora em décimo lugar, já na zona de pontos – havia transpassado os limites da pista por três vezes, e que na próxima seria penalizado. Entretanto, o canadense não deixou essa informação o acuar, seguindo determinado e fazendo uma ultrapassagem linda em Kimi e ganhando o nono lugar.
Nesse momento, um grito de alegria que há muito não era ouvido naquela garagem ressoou entre a comemoração da equipe. Roendo a unha do polegar direito – um péssimo hábito que ela estava quase superando, diga-se de passagem – e nervosamente balançando as pernas, estava quase se tornando um só com o aparelho televisor de tão compenetrada que estava nos frames. Suas roupas não a deixavam esconder para quem sua torcida era direcionada, já que vestia junto ao seu jeans “de guerra” um moletom maior que seu tamanho e com o número 18 enorme estampado nas costas, um boné do garoto, uma máscara e abafadores de ouvido com a logo dele e um par de tênis com cadarços neon pink – até o elástico que segurava seu rabo de cavalo alto estava na paleta de cores. Desde 2014 a equipe de Lance convivia rotineiramente com a inglesa que, por ser a melhor amiga do piloto e claramente sua fã número 1 desde então, estava sempre que podia nos treinos, qualificatórias e principalmente nas corridas. Recentemente, entretanto, devido a toda a situação pandêmica que o mundo se encontrava, não pisava num autódromo desde os treinos de inverno em Barcelona.
era uma das pessoas que se opusera ao retorno do esporte – como estudante de Medicina (Fim do terceiro ano no programa padrão de Oxford) que atuou como voluntária em um hospital atendente de casos de COVID, ela havia visto em primeira mão o poder da doença e não achava concebível a exposição. Contudo, o dinheiro sempre ganha e ela só pôde torcer para que todos ficassem bem. Depois de muita insistência do menino, e até um certo jogo baixo usando o pretexto do aniversário na quinta-feira seguinte, aceitou o convite e voou até a cidade litorânea naquela manhã, sendo o primeiro GP que veria ao vivo em quase um ano. Ao chegar no paddock, um pouco em cima da hora (mesmo indo direto do aeroporto), foi correndo abraçar o amigo, que já estava com o macacão pronto para ir para a garagem. O contato foi tão forte que quase o derrubou no chão, mas, assim que ele se estabilizou em dois pés, a ergueu, para enlaçar as pernas na cintura dele e não só ficar pendurada em seu pescoço devido à diferença de altura. Eles sempre foram muito próximos, inseparáveis talvez, então oito meses sem algo tão rotineiro como um abraço pareceu uma eternidade e era quase impossível para cada um largar o outro.
Ao tocar novamente o chão, eram só sorrisos enquanto conversavam algumas palavras rapidamente. Comparando ao dia anterior, após o contato com Max Verstappen no segundo treino livre, Lance era outra pessoa. Todos sabiam que ele era carinhoso e chegado ao toque, vivia abraçado com a irmã e a mãe pelos corredores, mas sempre tinha um funcionário novo que perguntava se ele e a estudante eram namorados, desde os tempos de fórmula 4. Honestamente, olhos desavisados sempre tenderiam a isso, pois no final das contas era um rapaz segurando pela cintura uma garota que enlaçava seu pescoço enquanto levavam uma conversa animada olho no olho. O papo entre os dois era raso, mas a saudade era tanta que parecia a conversa mais profunda de todas. Ele disse que ela estava linda, e até pediu para ela dar uma voltinha e mostrar o look, rindo ao perguntar para quem seria sua torcida. “Daniel Ricciardo”, brincou, pois sua família tinha origens nas terras australianas do moreno. comentou divertidamente sobre como o amigo seguia um “grande gostoso”, mas precisava de um corte de cabelo, o fazendo rir.
Comentaram sobre como era bom se verem de pertinho depois de tanto tempo, mas que a hora de ir para as pistas se aproximava e ele tinha que – ironicamente – correr. Após um último abraço, seguia para o motorhome quando foi questionada se assistiria a corrida do Paddock Club ou da garagem. Ela respondeu a segunda opção, e era ali onde estava enquanto observava o amigo ultrapassar o carro 3 da Renault na abertura da volta 13. Com esse movimento assegurado, Stroll atingira P8, sendo seu próximo alvo a McLaren de Lando Norris. Seguindo de forma consistente, a partir da 15ª volta se aproximara para uma perseguição mais avizinhada ao carro laranja, dando a entender que na primeira oportunidade o ultrapassaria. Entretanto, essa oportunidade estava demorando, além de que as coisas estavam ficando meio confusas. Antes da volta 17 acabar, Lando estava conduzindo de forma oscilante, se colocando no meio da pista e não dando indícios de como iria efetuar a curva 1 no início da 18ª volta. Em um milésimo de segundo, com a iminência da mudança de trajeto, Lance decidiu ir pela região mais externa, tentando ultrapassar por fora, mas, ao se direcionar para o Apex (Centro da curva), deixou pouco espaço para o colega, acabou sofrendo uma colisão na roda traseira direita e foi jogado para fora da pista.
Nesse momento, prendeu a respiração. Não importava o quão besta ou irrelevante fosse a batida, ela não conseguia ficar 100% tranquila até ouvir a voz dele no rádio. Talvez Monza em 2015 tenha a traumatizado, ou quem sabe foram as aulas de trauma neurológico fechado, mas era fato: odiava choques, principalmente quando acontecem a centenas de quilômetros por hora, e recentemente tudo que acontecia eram choques. O de Mugello foi um que a fez agradecer por ter perdido a transmissão, pois foi um acidente feio: um pneu furado fez o menino perder o controle do carro e atingir com toda velocidade a barreira – algo que não foi sua culpa, diferentemente de hoje e do fatídico dia na Itália.

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Maio de 2015.
Autódromo Nacional de Monza.
Campeonato Europeu de Fórmula 3.
– Oi. Posso entrar? – abriu lentamente a porta da salinha usada como enfermaria no autódromo, vendo o amigo sentado na maca e o médico terminando de fechar um armário.
– Opa, pode sim. Já terminamos aqui, estou só finalizando as burocracias. – O homem de trinta e poucos anos fez um comentário e assinou o prontuário na prancheta metálica.
– Tá tudo bem com ele? – Perguntou em tom baixo, com um pouco de medo da resposta. Agora já dentro da sala, era notável que a garota tinha o rosto avermelhado e um pouco inchado, indícios de que havia chorado. Com um casaco da Prema Racing – escuderia pela qual o canadense corria – e um boné dele virado ao contrário, não era difícil assumir o motivo das lágrimas. Vendo isso, Lance sentiu uma pontada no coração. Logo que foi levado ao posto médico, encontrou sua família, mas a ansiedade e adrenalina da colisão era tanta que ele não percebeu que todos estavam provavelmente do mesmo jeito. Ele havia feito merda, isso era fato.
– De acordo com o exame físico, tudo perfeito, mas vou recomendar alguns exames de imagem e uma ida ao médico da família em sete dias, só para ter certeza que tudo segue certo por dentro. – O médico sorriu. – Vou deixar vocês a sós e entregar esses papéis. Se cuida, cara. Você deu muita sorte. – Falou olhando diretamente nos olhos do piloto, que assentiu um tanto quanto envergonhado. Em menos de cinco segundos, a porta foi fechada e os dois estavam sozinhos. O conflito de sentimentos era enorme, não sabia nem por onde começar.
– Como você está? De verdade? – Perguntou com os braços cruzados e recostada na parede, sem coragem de se aproximar mais. Ela tentava, mas os pés não obedeciam. A imagem do carro capotando diversas vezes não saía da mente dela, nem que ela se esforçasse para isso.
– Minhas costelas doem um pouco, mas no geral eu tô bem. – Virou para ela, sentando lateralmente na maca.
– Fraturou alguma coisa?
– Aparentemente não, só dor muscular mesmo. – Ela conseguiu se aproximar um pouco, ainda apreensiva e com braços em frente ao peito.
– E aqui? – Apontou para a própria cabeça, tomando cuidado com as palavras.
– A adrenalina baixou. Eu vi as imagens, e dentro do carro não pareceu tão assustador quanto…
– Mas foi. – Ela cortou a fala dele. – Foi muito. – Limpou com veemência uma lágrima que nem havia escorrido ainda.
– Me desculpa. – Falou genuinamente, olhando nos olhos dela.
– Lance, o que foi aquilo? De verdade? – Suspirou e soltou os braços. – Eu te amo, garoto, mas se você continuar com esse tipo de merda eu juro que eu me afasto de você, porque eu não aguento passar por isso de novo. Qual foi a lógica daquilo? Você tava dentro da curva, claramente a posição era sua, tinha muito espaço… por que diabos empurrar o Giovinazzi pra fora? – Bufou, enraivecida.
… – Tentou argumentar, mas não tinha argumentos.
– Não tem “”, Lance. Você tem noção que podia ter morrido? E que foi 100% culpa sua? 100%, Stroll. – Ao ouvir seu sobrenome sendo dito, especialmente naquele tom autoritário, ele soube que ela estava irada. E com razão. – Você não tem noção do desespero que a gente ficou quando você capotou. Melhor, quando você GIROU diversas vezes no ar e atingiu a grade. Uma hora eu te via correndo, orgulhosa, na outra eu só via a terra que o carro levantou enquanto batia consecutivamente no chão! – Gesticulava com as mãos, sem o mínimo esforço em conter a insatisfação na face e a pitada de desespero ao recobrar as imagens na mente. – Qual a porra do seu problema? Honestamente, de verdade. Qual a porra do seu problema, garoto? – Agora ela estava claramente descompensada, externando ali todo o desgosto, medo e tristeza que sentira. – Foi infantil e desnecessário, seu pai só faltou infartar, eu fiquei sem ar e… – Então ela atingiu o limite e começou a chorar, ativando os instintos protetores do mais velho. Ele odiava a ver chorar, mas sabendo que a culpa ali era toda dele a dorzinha no peito era maior. – Você tem noção do que a gente passou? A gente ficou esperando você se mexer porque muita gente morreu por muito menos. Se mexer, Lance! Eu achei que você estava inconsciente até ver a porra da sua mão! – Ela soluçava sem a mínima vergonha, de alívio e de aflição ao mesmo tempo. O garoto ficou de pé e deu um passo em direção a ela, que deu dois passos para trás e ergueu a mão em frente ao corpo em um pedido silencioso de distância. – Deixa eu terminar de falar. – Fungou e engoliu o choro para prosseguir. – Todo mundo sabe que você quer ganhar, mas querer ganhar não é o suficiente, e muito menos se jogar na frente dos outros pra ver se eles recuam é. Eles não recuam, Lance. – Suspirou pesadamente. – Você é mais novo, menos experiente na categoria, tem toda uma aura em si por causa do seu pai. Eles vão pra cima de você, sempre vão, e você não pode ser estúpido só porque quer ganhar. Ano passado você ganhou a Fórmula 4 Italiana, o campeonato da Toyota, você pisou na Fórmula 3 como um novato estrela e uma reputação de maturidade. Isso subiu a sua cabeça foi? Você está numa equipe grande, mas o responsável pelas suas ações é você e só você, principalmente quando elas colocam sua vida em risco. – De volta às lágrimas grossas e pesadas, parecia ter terminado seu pequeno discurso, se resumindo a cobrir o rosto inchado e vermelho. O canadense se aproximou para abraçá-la e foi interrompido por duas mãos espalmando seu peito. – Não encosta em mim! Não coloca a mão em mim, seu idiota. Você podia ter morrido e você sabe disso. Morrido, Stroll! – limpava as lágrimas bruscamente, mas o fluxo era perene, fazendo o rapaz tentar se aproximar novamente. De primeira, ela se esquivou, mas, com um pouco de insistência da parte dele, cedeu ao contato, liberando mais uma vez o choro e os soluços.
– Tá tudo bem agora, eu tô aqui. Eu sei que eu fiz besteira, mas eu tô aqui. – Lance falou, sentindo o aperto dela em suas costelas doer um pouco devido às lesões, mas não demonstrando.
– Não faz mais isso, por favor. – A inglesa sussurrou, aninhada no peito dele de forma mais relaxada enquanto recebia um sutil carinho no cabelo. – Eu não posso perder você. Me promete que vai tomar mais cuidado. – O volume da voz foi ficando mais baixo, quase inaudível, expondo uma vulnerabilidade que dilacerou o coração do menino. – Por favor, grandão, me promete. – Em um fio de som, ela pediu. “Grandão” era como ela o chamava praticamente desde o dia que se conheceram, dada a diferença de altura entre os dois. Geralmente era algo brincalhão, mas naquele momento foi um símbolo de fragilidade, uma tentativa de suavizar o clima que saiu pela culatra e deixou ainda mais claro o quão ela estava atingida.
– Eu prometo, . – Lance retirou o boné e beijou o topo da cabeça dela, apertando o abraço um pouco mais. – Me desculpa. – Eles ficaram nessa posição por alguns instantes, sem intenção de largar, até que um pigarro foi audível, advindo da porta. Ambos os jovens desviaram seus olhares para o local, apenas para ver um Lawrence de braços cruzados. se afastou do menino imediatamente e limpou as lágrimas com as mangas do casaco, tentando se recompor, mas era claro que o adulto estava na mesma situação que ela: um misto de raiva, preocupação, aflição, alívio e resquícios de medo. – Pai. – O menino alinhou a postura, sem muitas palavras.
– Eu quero falar com você, mas algo me diz que você já ouviu boa parte do que eu tinha a dizer. – Bateu com os nós dos dedos na parede ao lado da porta, mostrando como eram finas e que, por isso, provavelmente ouvira toda a discussão.
– Boa sorte com esse completo idiota, então, porque eu tenho que estudar. – terminou de enxugar o rosto e andou para a saída, não sem antes virar para trás e fazer uma lembrança. – E o que eu disse é sério: Ou você para com isso, ou eu vou embora. Eu sempre soube que esse esporte tinha riscos, mas eu não consigo mais lidar com essas coisas, principalmente quando evitáveis. – Virou novamente e seguiu sua rota, abraçando o mais velho no caminho de saída. – Tchau, tio.
– Tchau, meu anjo. Bons estudos. – Sorriu para ela e, quando a menina estava longe, fechou a porta. – Agora eu e você vamos conversar sério.

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A daquela época sentia confiança nas próprias palavras, mas o tempo mostrou que ela gostava tanto do menino que nunca o deixou, mesmo com os vacilos seguintes no mesmo ano. Entretanto, de alguma forma ele aprendeu, porque no ano seguinte fez uma campanha brilhante e venceu o campeonato se mantendo fora de encrenca. De volta a Portimão, no fim das contas, o contato foi leve e logo Lance estava na pista de novo e se encaminhava para o Pit Stop, assim como Lando Norris, que reclamava exageradamente no seu rádio (Com razão? Sim, mas definitivamente não estava isento de culpa no que ocorrera). Após a troca dos dois, Lando se esforçava para subir colocações, já os danos do carro de Lance o deixaram preso em último lugar, a mais de 22 segundos do penúltimo. Enquanto ele não conseguia ritmo, Perez, seu colega de equipe que havia atingido P20 no início da corrida, figurava entre o top 7, dando um paralelo de comparação que era negativo para o canadense.
– Por que ele está lá ainda? Isso tá dolorido. – respirou fundo, descendo da caixa enorme na qual estava sentada. – Eu vou comer alguma coisa, vim direto do aeroporto e tô morta de fome, se algo acontecer me liga, por favor. – Piscou para Rob, o preparador físico do amigo, e seguiu caminho.
Enquanto comia seu sanduíche de peito de peru com uma merecida coca-cola gelada, conectou seu celular na Wi-Fi e abriu seus e-mails, começando a responder alguns sobre seu projeto de pesquisa e demais afazeres da faculdade. O som ao fundo era reconfortante, a fazia se sentir em casa, por mais que antes de conhecer o moreno nunca havia pisado num autódromo. Sempre gostou de carros e, como qualquer pessoa no mundo, conhecia Fórmula 1, mas foi a partir dele que ela descobriu essa paixão. Gostava de brincar que conhecia mais de pistas que muitos pilotos medianos por aí, pois de vez em sempre ouvia os treinos do canadense no simulador. Ele era um pouco obcecado com treino, então dizia para si mesmo que correr no simulador enquanto estava numa ligação não se configurava como treino e sim como lazer, então desse jeito ele passava tardes e tardes no telefone com a menina enquanto ela arrumava o apartamento, treinava nós de sutura em canecas ou cozinhava. Dessa forma, o som dos motores reduzindo marchas ou acelerando em retas a fazia saber de cabeça de que circuito se tratava. Quando a sonoridade finalmente cessou, supusera que a corrida findara e que os boxes estavam em caos. Mal sabia ela que o fim da corrida fora um pouco mais eletrizante, até com uma defesa perigosa de Sérgio Perez para cima de Pierre Gasly na volta 64, e que a mesma bandeira preta e branca por exceder limites da pista que Lance recebera tinha feito mais quatro vítimas: Latifi, o próprio Norris, Grosjean e Kvyat (os dois últimos recebendo punições de 5 segundos).
decidiu abrir as redes sociais para se distrair enquanto esperava o clima se normalizar. Desapontada, mas não surpresa, a primeira coisa que viu foram dezenas e dezenas de comentários de ódio dirigidos a Stroll. Embora isso já ocorresse há anos, nunca parou de incomodar a britânica, pois era simplesmente infundado e ridículo quase tudo que falavam do garoto. Mesmo quando ele ia bem, nunca havia uma parabenização em massa como ocorria com os outros meninos: era sempre silêncio, comentários raivosos ou piadas que o desmerecessem.
Lance e sua irmã Chloe, quatro anos mais velha, eram filhos do canadense Lawrence Stroll e da belga Claire-Anne Callens. Chloe seguiu pela carreira do Turismo, se formando pela Babson College, em Massachusetts, e até lançou algumas músicas, mas não emplacou carreira; a mãe, por outro lado, era uma estilista de sucesso e se consagrou com uma marca que leva seu último nome; todavia, a maior questão era seu pai. Lawrence Stroll fazia parte do seleto grupo de 800 pessoas mais ricas do planeta, com um patrimônio que supera (em muito) os dois bilhões de dólares. Empresário do ramo da moda e fundador da Sportswear Holdings Limited, Lawrence construiu sua fortuna através de investimentos certeiros e vendas de ações de empresas como Ralph Lauren, Michael Kors e Tommy Hilfiger, mas o ponto de encontro entre toda essa influência e poder e o garoto de (até então) 21 anos residia na paixão do homem pelo esporte em questão – e pelo filho, claro.
O patriarca é, e sempre foi, louco por corridas. Como um colecionador nato de Ferraris, o empresário chegou até a participar de corridas para amadores que possuíam certos modelos da escuderia, o que é referido como ponto de inspiração para seu filho. Desde os anos 2000, Lawrence também é dono de um circuito, o de Mont-Tremblant (que sediou dois Grandes Prêmios do Canadá de F1.), localizado na cidade na qual criou seus filhos, a pouco mais de 130km de Montreal. Lance, desde os 11 anos – na época, ainda piloto de karts – era piloto da Academia Ferrari, seguindo pelo caminho das pedras até a almejada cadeira vermelha, mas a empresa italiana não tinha pretensões tão iminentes de colocá-lo na Fórmula 1, diferentemente da Williams. Há quem diga que a jogada da escuderia familiar não tinha como foco o piloto, mas sim o dinheiro associado a ele (dada sua péssima fase e necessidade de investidores), mas foi bem sucedida, já que em 2017 o menino iniciou na azul e branca e trouxe consigo seu pai.
A partir daí, a história conhecida se desenrolou: falhas internas na Williams associadas a silêncio sepulcral levaram à culpabilização dos pilotos e, no caso do canadense, à tarja de “piloto comprado” que não merecia a vaga. Nada do que fez no passado era mais relevante, nenhum dos seus títulos impressionantes apesar de ter começado “velho” no esporte, nenhum de seus troféus de Campeão de F3 e F4, nem sua largada na primeira fila e seu pódio no ano de estreia na F1 (Como estreante mais novo a conseguir tal feito e em um carro muito inferior), nenhum de seus esforços e dedicação absurda, nada – Lance agora era o filho mimado de Lawrence. Em 2018, a situação ficaria ainda melhor (e pior, dependendo do ponto de vista) pois no meio do ano a Force India, escuderia chefiada por um magnata um tanto quanto excêntrico, veio a falência, e associado à insatisfação dos Stroll com a insipiente Williams e ao poder de compra deles, a resposta foi simples. O empresário comprou a escuderia, levando seu filho junto consigo para correr. Naquela época, a dupla da verde e laranja era composta por Sérgio Perez, um piloto com renome, dinheiro e muito apoio mexicano, e Esteban Ocon, um jovem dedicado, que não vinha de berço de ouro e merecia a cadeira que sentava. A escolha administrativa não foi difícil para os executivos: Esteban seria aquele a sair para Lance entrar. Para piorar, o francês era um dos amigos mais próximos do canadense, visto que correram juntos antes e se afeiçoaram um ao outro, e esse não conseguiu assento para 2019. Estava, então, escrita a matéria “Bilionário canadense compra escuderia para colocar seu filho, que tem péssimos resultados, e ainda por cima tira do esporte jovem promissor – suposto amigo.”. Se na Williams Lance já tinha visibilidade negativa, agora seu nome tinha uma aura de ódio e descrédito ao seu redor, por causa de coisas que não dependiam dele. Para sua sorte, dentro de casa Lance era muito feliz, pois vinha de uma família muito unida e com uma história muito bonita. Nesse ambiente, se sentia extremamente acolhida há quase sete anos.
Rolando o feed um pouco mais para baixo, viu uma imagem do carro rosa número 18 sendo retirado da pista durante a corrida. Abriu o chat com Rob para ver se alguma notícia chegara e notou que o telefone estava em modo avião o tempo todo. Imediatamente a garota bloqueou o aparelho e limpou o lixo de sua refeição, jogando tudo no local apropriado, colocando a máscara e correndo para o box. Chegando lá, teve chance de congratular Checo (Apelido de Sério) pelo sétimo lugar e pelo pelo prêmio de piloto do dia, mas não encontrou o piloto que realmente a interessava. Perguntou aos mecânicos o que havia acontecido e se tranquilizou quando ouviu que a retirada foi devido a problemas técnicos no carro pós-colisão, sendo informada também que o garoto em questão já havia dado as entrevistas e provavelmente estava no Motorhome. Seguindo em direção à estrutura de hospitalidade espelhada, recebeu a informação sobre a entrevista dada por Lando Norris, que dizia algo na linha de “[Lance] obviamente não aprendeu nada com o acidente de sexta [com o Max], mas ele não parece aprender com nada do que ele faz. Acontece muito com ele. Na próxima só preciso ter certeza que estou longe dele.”. Claramente foi algo dito no calor do momento, mas manipulava informações e com certeza não foi algo esportivo de se dizer, o que associado aos comentários do rádio dele e os de Max do dia anterior, provavelmente balançaram o canadense em questão. Com essa informação em mãos, a inglesa subiu as escadas rapidamente e transpassou a placa de “Privado” sem dar a mínima, indo em direção ao quarto de Lance e o vendo sentado no sofá, usando o macacão amarrado na cintura e o casaco da escuderia, com os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos no queixo e olhos levemente inchados.
– Eu tava te procurando. – Ela fechou a porta atrás das próprias costas, olhando nos olhos do menino. Normalmente, após as corridas, ela esperava um abraço caloroso de um amigo extremamente suado com um sorriso de orelha a orelha, para olhar nos olhos dele e dizer que foi incrível. Contudo, nem sempre era assim. Às vezes, dava tudo errado e não tinham belas ultrapassagens para serem debatidas ou colisões ridículas para rirem juntos. Essa era uma das vezes. Ela andou até ele, que ficou de pé e a abraçou silenciosamente, não com um abraço suado nem cheio de alegria, mas com um abraço apertado, junto a um choro quieto e alguns soluços. O corpo de 1,82m dele, curvado sobre o dela, quase a engolia por completo. Ela não sentia, mas tinha certeza que lágrimas já molhavam o ombro de seu moletom. Seus dedos acariciavam lentamente a nuca do moreno, em uma tentativa de o acalmar e o acolher. – Tá tudo bem, eu tô aqui. – Após alguns minutos de puro contato físico, os soluços dele cessaram. Ela se afastou um pouco, limpando uma lágrima da bochecha esquerda do homem com seu polegar direito, enquanto sua mão esquerda mantinha o cafuné. – Tá tudo bem. – Segurou o rosto dele e fez um carinho na linha da mandíbula, beijando o local em seguida. Com apenas os olhares eles se comunicavam: ela sabia que ele estava triste pelo que fez com o Lando e pelo próprio resultado, mas estava mais triste pela autocobrança absurda que sentia do que pelo acidente em si. Se as pessoas achavam que eram duras com ele, ele tinha certeza que era 10 vezes mais duro consigo mesmo. Também estava triste pelos comentários, pela sequência de corridas com resultados ruins depois do pódio que obtivera em Monza e algo dizia a ela que ele já sabia da entrevista do piloto de número 4. – Eu vou ligar para o piloto do jatinho. Tira essa roupa, toma um banho decente e vamos pra casa. – Ele abriu a boca para falar algo mas foi cortado. – Eu vim por você, eu vou com você. Vou passar essa semana em casa, era minha surpresa de aniversário, mas ficou meio sem clima de anunciar. – Sorriu amarelo e recebeu um abraço com emoção pela metade. – Espero que sua animação melhore, porque vou ter que assistir aulas de EAD no frio suíço por você. – Deixou as mãos descansarem sobre os ombros dele.
– Nem vem com drama que as temperaturas estão parecidas, e você ainda pode acordar uma hora mais tarde. – Ele sorriu, fazendo ela sorrir junto imaginando como ele sabia desse detalhe. – Eu tava planejando te convencer a ir comigo, na verdade, aí pesquisei um pouco.
– É o que eu sempre digo, estou sempre dois passos à frente. – Ela riu, dando de ombros, e ele virou os olhos, com um leve sorriso de canto de boca. – Agora vai tomar banho que se não ninguém sobrevive numa lata de metal com você. – Beijou a região da costeleta do cabelo dele e o deixou ir.

Dentro do avião, o clima era mais ameno. Um CD de natal do Michael Bublé tocava fora de época e o silêncio era tranquilo, deixando um pouco da aura de corrida para trás. O moreno estava deitado nos bancos, com as pernas dobradas para poder caber e com a cabeça no colo da inglesa, recebendo um cafuné. A garota estava com as pernas esticadas em cima do puff de couro caramelo, deixando a vista sua meia com patinhos pretos da Williams, presente de Nicholas Latifi, piloto da escuderia, que se tornara amiga durante esses anos todos – ele fora piloto reserva da escuderia rosa, então por várias vezes os dois ficavam batendo papo nos boxes enquanto as corridas rolavam. O jatinho estava vazio, e na mente da menina essa era a primeira vez que isso acontecia – Lawrence ainda se recuperava da COVID19 que contraíra, Claire fazia companhia ao marido e Chloe estava na América fazendo coisas relativas ao trabalho.
Olhando para baixo, não conseguia segurar o sorriso em ver o amigo depois de tanto tempo, mesmo ele estando quase dormindo. Era impressionante como ele tinha tanto cabelo, ela pensava consigo mesma. Uma notificação apitou no celular com capinha vermelha e a garota parou o carinho para respondê-la, bufando suavemente após ler e digitando um pequeno texto em resposta. Resolvida a questão, logo deixou o telefone no braço da poltrona, mas antes mesmo que pudesse pensar, sentiu uma mão segurando seu pulso e gentilmente o aproximando do cabelo novamente, a fazendo rir e voltar a passar os dedos nos fios.
– Você continua um bebêzão. – Ela brincou.
– Tenho que aproveitar você aqui comigo, já que demorei tanto pra te convencer. – Respondeu, com os olhos fechados. – Que horas são? Por que a gente não voou ainda?
– Cinco e quinze, e estamos esperando o Ocon.
– Você chamou o Esteban? Logo hoje? – Olhou para ela, um pouco descrente.
– Claro, ué. Ele ia de comercial, o avião tá vazio, vamos pra o mesmo lugar e eu tava devendo uma a ele depois que você me esqueceu em Abu Dhabi ano passado e ele me ajudou, então sim. – Mostrou a língua pra ele, o que o fez rir.
– Eu não “esqueci você”, eu entendi errado. – Riu, já com tom de brincadeira.
– Você me esqueceu no hotel! – Socou de leve o ombro do menino.
– Seus pais estavam lá, eu achei que vocês iam voltar juntos depois do jantar, eu não tinha como saber! – Soltou uma gargalhada e a menina o acertou levemente no braço mais algumas vezes.
– Eles pensaram a mesma coisa sobre você, cancelaram o jantar e eu comi um McChicken com o Esteban no chão de um aeroporto DO OUTRO LADO DO MUNDO! – Ela ficou um pouquinho enfurecida com a memória, mas o rapaz não conseguia segurar o riso. Os pais da estavam longe de serem pais atenciosos, mas ele não imaginava que iam deixar a menina sozinha em um país árabe só por assumirem que ela “desenrolaria” uma carona de volta. Lance não entendia como uma garota como essa era filha de duas pessoas como aquelas.
O Sr. e a Sra. eram empresários do ramo da Moda, assim como Lawrence, mas em menor escala – eram “apenas” multimilionários, e focavam seus investimentos apenas em bolsas (não de valores, literalmente bolsas, que carregam chaves, carteiras etc). Entretanto, eram extremamente viciados em trabalho, então nunca estavam em casa, e, quando estavam, eram por poucos dias até precisarem passar outro mês na Itália ou na França. se criou praticamente sozinha desde seus 12 anos, quando sua família se mudou de Londres para a Suíça e os negócios alavancaram, com a companhia apenas de uma babá chamada Vivian (que se tornou sua assessora). Passou a vida toda tentando impressionar os pais – era a primeira da turma, fazia todas as atividades extracurriculares, fazia parte do grupo de teatro musical, era voluntária em creches, tocava seis instrumentos, praticava inúmeros esportes e aprendeu quatro idiomas na tentativa de um dia acompanhar as viagens dos pais. Contudo, por volta de seus 13 anos, percebeu que infelizmente era uma filha troféu. Ia para todos os eventos, com as roupas mais bonitas e joias mais delicadas, onde os pais se gabavam de tudo aquilo que ela representava e haviam ignorado durante o resto do tempo. Ela odiava esses encontros, mas passou a se apegar a eles porque era onde se sentia amada. Apesar de tudo, amava seus pais, e nunca ia desistir de agradá-los e ficar com eles, além de que gostava de pensar que eles a amavam e só os faltava tempo; que, se pudessem, a valorizariam dessa forma todos os dias.
Todavia, não eram apenas esses momentos de apreciação que ela retirava desses jantares e coquetéis. Foi em um desses, nos Estados Unidos, que ela conheceu o Canadense sem medo de morrer (e sem nenhum neurônio, de acordo com ela à época) que ironicamente morava a três ruas de distância da sua casa na Suíça. Lance e se conheceram da forma mais curiosa possível: era janeiro de 2014, o ano mal tinha virado e os empresários do mundo fashion já estavam debatendo as tendências de 2015. Junto com as tendências caminhavam as ações, então o salão da mansão na qual brindavam estava cheio de senhores, os quais não sabiam nem combinar um par de meias mas detinham todo o fluxo do ramo nas mãos. Famílias imensas, opulência e joias brilhantes permeavam o local, mas a mesa de autorama no quintal do anfitrião desconhecido era que atraía os olhares dos jovens. Quando se tem entre dois e dezesseis anos, não há muito o que fazer nessas festas chiques, então praticamente todos nessa faixa etária estavam ao redor do circuito vendo os seis carrinhos correrem em círculos. A regra era simples: Quem ganhasse o pódio, continuava na corrida. Quando o herdeiro Stroll chegou, com seus 15 anos e já um bom histórico de piloto nas costas, percebeu que havia uma pessoa em especial que estava ganhando literalmente todas as corridas de Joystick. Uma garota. Seu espírito competitivo aflorou e ele entrou na fila. Depois de 19 corridas oscilando vitórias com ela, os dois estavam exaustos e hastearam uma bandeira branca. As demais crianças e adolescentes comemoraram, porque das seis cadeiras, só quatro estavam rodando, o que fez ambos rirem.
Ali, quando se apresentaram um ao outro apenas pelo primeiro nome, não imaginavam que se tornariam inseparáveis. Eles passaram a noite toda conversando, sem comentar sobre nada que estavam acostumados a falar normalmente nesses jantares: notas, Kart, violoncelo, Academia Ferrari, fluência em chinês ou Fórmula 4. Eles foram eles mesmos, mal sabendo que isso era o que tinham de mais genuíno e que se manteria por anos a fio. Apenas na hora de se despedir que descobriram de quem eram filhos, onde moravam e trocaram telefones. Como obra do destino, silencioso e articulado, descobriram que a real coincidência era não terem se conhecido antes, pois frequentavam os mesmos clubes, esquiavam nas mesmas estações e até compravam no mesmo supermercado.
– Qual foi o estresse no telefone? – Ele falou, depois um momento de silêncio após as risadas, com os olhos fechados novamente enquanto aproveitava o cafuné.
– Que estresse?
– Eu conheço você há seis anos, não sei se você esquece disso às vezes. Você bufou com a mensagem que recebeu, e agora tá com a cabeça nas nuvens. Conta, o que rolou? – Nem se preocupou em mudar de posição ou a encarar enquanto falava, o que fez ela sorrir.
– É coisa da faculdade. – Deu de ombros, tentando fingir desinteresse, mas claramente ansiosa.
– E desde quando você não quer falar sobre coisa da faculdade? – Abriu um só olho e a encarou. – Eu ouvi você falando três horas no telefone sobre uma cirurgia de apêndice que dura o que? Quinze minutos? Então vai, desembucha.
– Certo. – Suspirou. – Lembra daquele meu professor do projeto sobre biossinalizadores cardíacos? – No último ano da fase pré clínica de Medicina em Oxford, todos os alunos são incentivados a produzir uma pesquisa científica com base em dois entre dez pilares de ciências da saúde. O principal tema escolhido da garota foi Farmacologia e Biologia Cardiovascular, área que ela tinha muita afeição, e ela passou o último ano desenvolvendo um trabalho sobre Peptídeo Natriurético Atrial com um dos maiores especialistas no mundo.
– O do bigode?
– Ele mesmo, Dr. Emmet. Ele me mandou um e-mail quinta-feira convidando a mim e outros quatro estudantes pra um jantar em Londres em duas semanas. A questão é que ele tem o que chamam de dedo de ouro: se ele puxar dois pauzinhos a gente consegue qualquer coisa, então ser apadrinhado por ele significa muito, principalmente agora que as inscrições para as clínicas de campo do próximo ciclo começaram.
– Mas…? – O garoto sabia que quando ela carregava aquele tom sempre havia um “mas” no final.
– Mas eu não sei… quer dizer, pode ser uma ótima oportunidade, eu só não sei se vale a pena ir, nessa situação toda de COVID…
– Que? – Agora ele abriu os olhos e aproximou as sobrancelhas. – Você não vai por causa do COVID? Sem chance, . Você tem que ir. – Levantou com os cabelos assanhados e sentou ao lado dela, colocando um boné sem se incomodar em alinhar os fios. – São seis pessoas, você literalmente foi voluntária em locais com dez vezes mais pessoas, pessoas infectadas de fato! E a gente estava num autódromo cheio de gente que viaja o mundo agorinha.
– Gente que é testada toda semana. E lá cada um leva um acompanhante, então são doze, na verdade.
– Dá no mesmo, , continua sem comparação. E é um jantar acadêmico, vocês não vão se agarrar. – Apontou.
– Lance… – Falou, manhosa.
– Sem “Lance”. Você tem que ir e ponto. É sua chance, . Eu vou com você, qual o dia da semana?
– Sábado, dia sete, mas você tem certeza? Vai ser super chato.
– Claro que tenho. – Respondeu como se fosse óbvio. – Você vai para todos os eventos chatos comigo há cinco anos ou mais, então mesmo que eu fosse morrer de tédio eu iria. O único jeito de eu faltar seria se tivesse corrida, mas como não tem, é óbvio que eu vou. – Segurou a mão dela, ainda inconformado com a postura que a garota tomara. – Me espanta você não querer ir, pra ser sincero. Esse jantar parece muito importante, é seu esforço sendo reconhecido e pode te ajudar no futuro. Tem algo que você não está me contando? – Baixou o rosto pra olhar nos olhos dela, que encarava os dedos, mas fora interrompido por uma voz característica.
– Fala galera! – Um Esteban sorridente atravessou a porta com seu look amarelo e preto da Renault.
– Depois a gente conversa sobre isso, mas você vai sim. – Lance sussurrou e beijou a bochecha da menina, que estava claramente aliviada pelo papo ter terminado. – Fala, Este! – Levantou o punho para o amigo dar um “toca aqui”.
– Oi, Este. – sorriu e levantou para o abraçar. Como todos naquele avião haviam sido testados repetidas vezes para a doença da moda, ela se dava a liberdade de abraçar, até porque onde mais poderia fazer isso? – Por que demorou tanto?
– Fiquei preso num briefing de emergência, desculpa. – Sorriu, colocando sua malinha no compartimento adequado e sentando para afivelar os cintos.
– Não precisa se desculpar, por você eu esperava seis horas. – A garota piscou para ele de forma brincalhona.
– Ainda aquela história de Abu Dhabi? – O francês gargalhou. Seis horas foi o tempo que esperaram no chão do Aeroporto Internacional em questão, que estava lotado com fãs de corrida indo para casa e, por isso, o até então piloto reserva da Mercedes estava um tanto quanto disfarçado.
– Ela ainda não deixou pra lá. – Lance riu junto.
– E não vou tão cedo, Stroll. – Olhou pra ele com os olhos apertados, mas logo os três caíram no riso e seguiram conversando animadamente. Desde a época da Fórmula 3, o canadense e o francês eram grandes amigos então, por tabela, a inglesa também se afeiçoou ao menino.

O sol já havia se posto e eram passadas às sete horas da noite quando o avião pousou em terras suíças. Com o contato ao solo, o piloto francês acordou de seu cochilo e percebeu a cena nas poltronas a sua frente, erguendo uma sobrancelha involuntariamente. Lance estava dormindo, surpreendentemente com boa postura, com a garota abraçada em seu braço direito e deitando a cabeça em seu ombro, também em um cochilo sereno. Quando as luzes se acenderam e a comissária foi abrir as portas, Stroll despertou lentamente e levou a mão livre ao rosto: não lembrava de como tinha dormido, mas com certeza estava precisando de uma soneca como aquela. Ao olhar para a direita, percebeu que a menina não tinha nenhuma intenção de acordar, então, com a mão que estava no joelho dela, fez um carinho sutil enquanto sussurrava, esquecendo totalmente a presença do amigo.
… chegamos. – Ela só se mexeu um pouco, se aninhando ainda mais nele. – … acorda. – Recorreu a um carinho no cabelo, o que a fez choramingar porque surtiu o efeito oposto, dando mais preguiça ainda, e o fez rir.
– Quais as chances de você me carregar até em casa? – Esfregou suavemente um dos olhos, sentando com a postura ereta e se espreguiçando.
– Nenhuma. – Riu novamente, soltando o cinto.
– Tá vendo o que eu sofro, Este? – reconheceu a presença do amigo ali, que apenas sorriu em resposta. – Eu vou indo agora que meu carro tá aí. Tenho que passar na casa dos meus pais e buscar algumas coisas, depois vou pra a sua e a gente janta, pode ser? – Olhou para o canadense, que assentiu. – Não come sem mim.
– Não como. – Balançou a cabeça em afirmação.
– É sério! – Apontou pra ele, enquanto pegava sua bagagem.
– Não como! – Ele levantou as mãos em defesa, ostentando um sorriso brincalhão no rosto.
– Você sabe que ele sempre come. – Ocon deu de ombros, rindo levemente.
– Eu sei. – Rolou os olhos e bufou, curvando o canto dos lábios um pouco. – Quer outra carona, Este?
– Tô esperando um carro, tá tranquilo. – Abraçou ela. – Tava com saudades de você.
– Eu também. Tô meio pegada na faculdade, mas na pausa de inverno talvez os mocinhos tenham tempo e aí a gente pode esquiar.
– Por mim perfeito. – O piloto Renault sorriu. – Cuidado dirigindo.
– Sempre. – Piscou e foi até Lance, dando um beijo na bochecha dele e colocando a máscara logo após. – Não come sem mim, ok? – Sorriu e ele piscou para ela, que se despediu da comissária e do comandante e deixou o avião.
– Finalmente, cara! – Ocon abriu um sorriso largo e gesticulou com as mãos assim que avistou a garota estar distante pela janelinha.
– Finalmente o que? – O piloto mais jovem uniu as sobrancelhas grossas em sinal de confusão.
– Você e a ! Ano passado eu pensei que vocês nunca iam dar esse passo, mas finalmente você criou bolas. – Riu.
– Eu honestamente não tenho a mínima ideia do que você tá falando. – Stroll instintivamente pegou o telefone, desbloqueando sem nenhuma intenção, só pra parecer menos confuso. Sem sucesso.
– Ah não, cara. É sério? – Se fosse possível um ser humano murchar, isso teria acontecido com Esteban agora. – Vocês ainda não estão juntos?
– Você sabe que a gente é só amigo. Se tem alguém que eu sou só amigo esse alguém é a . – Abriu o feed do Instagram e rolou para baixo sem propósito. Ele sempre ficava meio desconfortável em debater a relação dele com a garota: apesar de ser fato que eles eram apenas amigos, todos pareciam ver algo a mais que ele não via.
– Eu te disse isso faz tempo, mas parece que cada vez fica pior. Você já notou o jeito que vocês se olham, cara? Não é o jeito que eu olho para os meus amigos, pelo menos. – Ocon gargalhou. – E esse contato físico todo eu só tenho com a minha namorada. – Apontou para a poltrona vazia em que ela estava sentada, fazendo o canadense levantar e ir em direção ao fundo do corredor pegar suas malas.
– A gente sempre foi assim, você sabe. Faz seis anos que a gente se conhece, se fosse pra a gente ficar junto a gente já tinha ficado. E eu já te disse isso. – Deu de ombros, pegando a bolsa e voltando para o centro da aeronave.
– Talvez vocês são dois bundões que ficam negando isso, ou pior, que nem percebem isso, o que eu acho bem provável também. – Brincou. – Mas não adianta eu falar, vocês que têm que se ligar. Só cuidado pra não demorar e perder a garota.

estacionou a Maserati Quattroporte do pai no pátio da casa do amigo. Se tinha uma coisa que ela amava sobre voltar para Genebra, era poder usar os carros dos pais, principalmente aquele. Ouvir especificamente tal motor V8 arrepiava os pelos do pescoço dela, e sentir o cheiro daqueles bancos cor de caramelo era um capítulo à parte. Ela preferia SUV’s, mas era quase um crime não se apaixonar completamente por um Sedan como aquele. Como um ato saudoso após desligar o veículo, sorriu e deslizou as mãos sobre o volante. O carro era um espetáculo. Afastando os pensamentos mecânicos (e a vontade de acelerar aquela máquina) da mente, a inglesa pegou a mochila no banco de trás e desceu do automóvel, trancando as portas e dando uma última boa olhada – bem que podia pedir um de aniversário.
Já na porta da frente, digitou o código na fechadura eletrônica e colocou a digital sobre o leitor, entrando quieta no hall principal. À primeira vista, estranhou o silêncio total, mas logo lembrou de toda a situação COVID. Em passos quase inaudíveis, subiu as escadas que tanto conhecia e, ao entrar no corredor do quarto em questão, começou a escutar o barulho do chuveiro e uma música ao longe. Quando abriu a porta do cômodo, riu consigo mesma: não lembrava o quão acusticamente isolados eram aqueles ambientes. A música estava, na verdade, muito alta, como se o show dos Rollings Stones estivesse acontecendo no quintal, fato que deixou a menina ainda mais surpresa quando teve sua presença notada. Lance, de alguma forma, a escutou entrar, pausando o som e dizendo que em instantes já sairia.
Nesse meio tempo, a mais nova deu uma boa olhada no quarto, deixando a mochila na escrivaninha perto da enorme janela. Nada ali havia mudado, o que dava uma sensação de conforto, mas ao mesmo tempo sentia que há décadas não pisava ali. As Jerseys de Hockey seguiam emolduradas nas paredes, os tacos de golf seguiam no mesmo cantinho, os troféus mais importantes em prateleiras com focos de luz… ela passou tanto tempo nesse quarto que podia descrevê-lo de olhos fechados, mas algo de fato parecia diferente. Foi então que ela notou: eram com as mesmas pessoas de sempre, mas todas as fotos emolduradas nas paredes agora eram diferentes; mais recentes, no geral. Muitas delas eram do aniversário temático do Lawrence sobre Grande Gatsby, que ela particularmente tinha achado a melhor festa de todos os tempos; algumas eram em pistas de esqui com alguns amigos; uma ou outra eram de aniversários antigos; várias eram com equipes e colegas de fórmula 1, 3 e 4 e duas eram com ela.
Pegando um dos porta-retratos em mãos, a menina sorriu lembrando da cena. Era uma foto do ano em que se conheceram, da véspera de Natal, que, naquele ano, coincidiu com o último dia do Hanukkah. sabia que o menino era judeu, e sabia das comemorações, mas nunca tinha visto, então quando chegou naquela casa para entregar um presente e viu tudo muito parecido com a sua própria casa, estranhou. As mesmas luzinhas, bolas cintilantes, guirlandas e até suéteres feios – o dele dizia “Let’s get lit”, “Vamos acender tudo” em referência à Menorá -, tudo em azul e branco, poderiam passar como decorações de natal se não fossem os candelabros e estrelinhas. Ela lembra de ter instintivamente perguntado “Você não era judeu?” e ele riu, afirmando e perguntando como que ela achava que se comemorava a data. Quando Lance percebeu que não fazia ideia de nada além das oito velas acesas em oito dias, decidiu explicar e fazê-la provar algumas das comidas típicas, pela experiência completa. Com intenção de pregar uma peça na colega, entregou a ela um Sufganiya, que basicamente é uma massa frita recheada de geleia, e disse que era só um tipo de pão. Pediu ao pai para fotografar a cena e o resultado foi o esperado: ela mordeu, o doce explodiu e o mais velho caiu na gargalhada, dando em uma imagem extremamente divertida.
– Eu nem lembrava que esse casaco existia. – Lance saiu do banheiro, com uma calça cinza de moletom enquanto enxugava o cabelo com uma toalhinha branca, e comentou sobre a roupa dela. O ar quente do vapor do chuveiro preencheu o ambiente e o deixou mais ameno, fazendo a garota sentir os músculos relaxarem um pouco. Após o breve momento de conforto, virou o rosto para trás segurando o porta-retrato, vendo-o se aproximar.
– Eu nem lembrava que essa foto existia. – Ergueu as sobrancelhas em um sorriso e entregou o quadrinho a ele, que ficou feliz com a memória. – Isso sempre esteve aqui?
– Eu achei durante a quarentena. Estava renovando as fotos, mas essa, mesmo velha, tinha que estar lá. É sempre uma boa história pra contar. – Riu e jogou a toalha sobre o ombro esquerdo, passando a mão no cabelo em uma tentativa frustrada de o alinhar. – Acho que é a minha foto favorita com você, na verdade. – Brincou.
– A minha favorita é a de Baku, com certeza. – riu com a lembrança. Lance conquistou seu primeiro pódio no seu ano de estreante na Williams, no circuito do Azerbaijão. Foi terceiro lugar, quase segundo, pois Valtteri Bottas o ultrapassou a menos de três segundos da linha de chegada e tomou a posição. Nesse dia, entre as comemorações, o garoto ergueu a menina para a colocar no ombro direito, mas exagerou na força e terminou “passando direto”, fazendo a inglesa ter que agarrar a cintura dele de ponta cabeça para não cair no chão. Enquanto ele segurava o troféu em uma mão e as duas pernas dela em outra, começou a gargalhar da situação, se curvando para frente em uma tentativa de ajudar a reequilibrá-la (sem sucesso). não conseguia subir a cintura para ter um ponto de apoio e conseguir sair dali, então entrou na onda da risada enquanto desesperadamente pedia socorro. Nesse meio tempo, diversas fotos foram tiradas, e uma em que os dois gargalhavam era a favorita da inglesa porque, de acordo com ela, captava exatamente o que eles eram.
– Tem uma cópia dela na sala, numa moldura enorme que minha mãe comprou lá. Tinha ficado na garagem porque ninguém tinha paciência de montar, mas aí veio a quarentena… – Brincou e colocou a foto no lugar. – A propósito, isso também é fruto da quarentena? – Segurou a barra da blusa de frio que ela usava, com um sorriso no rosto. Era inspirada em uma Jersey dos Habs, o time de Hockey pelo qual o canadense sempre torceu. Na verdade, aquele moletom era dele, só que ficou pequeno com o tempo e a garota roubou para si, pois ficava folgadinho e quentinho mas não era imenso como todos os outros que pegava emprestado eventualmente.
– A Vivian achou quando desmontaram a casa na árvore. Era minha blusa favorita, então ela separou. – Olhou para o tecido e sorriu sem humor.
– Desmontaram a casa na árvore? – Stroll perguntou, um tanto quanto surpreso.
– Minha mãe quer transformar a árvore em um bar de drinks perto da piscina e disse que não “ornava visualmente”. – Ergueu um ombro com se tanto fizesse, quando claramente aquilo havia a magoado. – Como ela não pretende ter mais filhos, ela achava inútil. Eu até concordo, mas ninguém me avisou, aí não tive a chance de me despedir. – Deu de ombros.
– Eu sei que eu me despedi. Aquele lugar tem segredos que têm que morrer com ele. – O mais alto esboçou um riso sacana, recebendo um soquinho no ombro e fazendo ela rir com sucesso.
– Depois daquele dia eu nunca mais consegui olhar a Stacey nos olhos! – Gargalhou. – Eu fui buscar a Pizza e quando volto vocês desvirtuaram o castelo de princesa da minha infância. – Ela cobria os olhos instintivamente, ouvindo a risada ser compartilhada.
– A gente só aproveitou a oportunidade. Naquela época tempo e ocasião eram escassos, e a mãe dela só deixava ela ir para sua casa, então… – Piscou, fazendo ela simular um enjoo com a mão sobre a boca.
– Estava óbvio o porquê né? – Gesticulou abruptamente, fazendo ele rir mais. – Eu nem falava com ela direito e a mãe dela jurava que nós éramos melhores amigas. Ela me chamou para a ceia de natal. A ceia! Você não pode dizer que eu nunca fiz nada por você. – Brincou e pegou o celular do bolso. – Antes que eu fique sem apetite, vai querer alguma coisa?
– Na verdade, eu não comi.
– Sério? – Ela levantou os olhos do aparelho, em choque. Ele apenas assentiu com a cabeça. – Então você escolhe o jantar, vai. – Entregou o telefone vermelho ao moreno. Por alguns segundos, ele o encarou sem expressão, até que um sorriso tomou seu rosto e ele buscou um prato específico.
– Pronto. – Devolveu a ela.
– Eu nem lembrava disso. Era minha favorita! – Abriu um sorriso ao ver o pedido da Lasanha de Tomate de um restaurante que sempre colocava Manjericão demais nas receitas. ”Demais” para as pessoas normais, porque para os dois nunca era Manjericão demais. – E só 20 minutos de espera? Hoje é o dia. – Comemorou, abraçando o próprio corpo logo depois, devido ao frio – Vai vestir uma blusa, tá me dando nervoso te ver assim nesse gelo, principalmente com essa toalha molhada pendurada. – Puxou o tecido felpudo e ia levar para o banheiro, mas notou algo que a fez parar antes mesmo do primeiro passo. – Você precisa retocar essa tatuagem, urgentemente. – Desenhou com a ponta dos dedos os símbolos escritos em hebraico na altura da oitava costela dele. Ela nunca lembrava o que significava ao pé da letra por mais que ele explicasse duzentas vezes, mas era algo como “a sorte favorece os corajosos”, e, conhecendo o indivíduo, ela achava muito apropriado, diga-se de passagem.
– Fiquei de retocar em março, mas o mundo teve outros planos. – Deu de ombros. – Acho que você foi a única pessoa que percebeu que clareou. – Riu.
– Eu conheço você, até mais do que eu gostaria… – Deu de ombros e esboçou um sorriso. – Vai colocar uma blusa que eu vou assaltar sua adega e esperar lá embaixo o delivery.
– Traz pra mim aquele francês com o rótulo dourado que a gente tomou no ano novo. A garrafinha gordinha, tá no topo direito da terceira prateleira. – Piscou para ela.
– Eu amo como você sabe que eu não entendo nada de vinho. – Brincou, saindo porta afora.
Descendo as escadas, notou que agora a luz da cozinha estava acesa, andando lentamente até lá. No canto da mesa, um Lawrence concentrado digitava algo em seu computador enquanto analisava uma pilha imensa de papéis, um por um, através dos seus óculos de armação fina. observou a cena por um terço de segundo, tentando recobrar na memória quantas vezes havia visto o próprio pai assim.
– Com licença. – A garota, escorada no batente da porta, decidiu anunciar sua presença com três batidinhas na madeira. – Como vai meu tiozão favorito? – Riu.
– Minha querida! – Tirou os óculos, sorrindo. – Eu vou bem, me recuperando. E você?
– Cansada, como sempre, mas bem. – Andou até o lado oposto da mesa em questão.
– Saudades de ver você por aqui. Eu te daria um abraço, se pudesse. – Apesar de já ter tido a COVID19 e apresentar anticorpos, não era uma boa ideia arriscar um contato com alguém que testou positivo recentemente. Ninguém sabia como essa doença funcionava de fato, e se a reinfecção era possível, então melhor prevenir que remediar.
– Eu digo o mesmo. – Sorriu, compreensiva. – Vim assaltar sua adega, posso? – Ergueu os ombros de forma brincalhona.
– À vontade, a casa é sua. – Apontou com o polegar para a porta que levava ao subsolo. – Como ele está?
– Melhor do que como eu encontrei, com certeza. Ele vai sair dessa, só precisa de um abraço e um pouco de sorte. – Colocou as mãos nos bolsos do moletom. – Quero ver se dou uma animada nele a moda antiga.
– Então leva também o vinho tinto do rótulo laranja com amarelo, fica logo na primeira prateleira. Ele vai gostar. – A garota riu. Era parte da fama dela não entender nada de vinhos, então as referências eram sempre a cor da garrafa ou o desenho do rótulo. Alguns minutos depois, sobe da adega abraçada com quatro garrafas encaixadas praticamente como Tetris dentro do relativamente grande balde de gelo. – Quatro? – O mais velho riu.
– É mais a preguiça de descer de novo se precisar. – Piscou.
– Então leva logo o saca rolha e algo doce. E juízo, se couber nesse balde. – Ambos riram e a campainha soou. A britânica fez menção de ir até a porta mas escutou um “eu vou” à distância do filho do homem em sua frente, seguindo então para o freezer e empilhando um pote de sorvete de chocolate no seu balde.
– Falando em juízo, como vão seus pais?
– Honestamente? Eu nem sei em que país estão. – Riu sem humor. – Ontem eles estavam na Itália em uma reunião da Versace, mas desde lá não respondem minhas mensagens. – Deu de ombros, fingindo que não se importava.
– É um projeto grande. Quando acabar, eles podem se dar um bom recesso. – Lawrence apontou, ambos sabendo que isso era uma mentira inocente para fazê-la sorrir, mas que obteve sucesso. – E a faculdade?
– Me matando, pra variar, mas muito bem. – Sorriu, indo em direção ao faqueiro para recolher talheres para a refeição. – Fui chamada pra um jantar hiper exclusivo por um professor. Pode mudar minha carreira, porque esse pesquisador é um dos que manda e desmanda na universidade toda, mas tô com um pouco de medo de ir.
– E desde quando você tem medo? – Apertou as sobrancelhas. Era impressionante como a genética era forte: era exatamente igual ao jeito que o filho fazia. – Você tem que ir. Se precisar, faço o Lance a ir com você. Essa não é uma oportunidade que se possa perder.
– Ele disse a mesma coisa. – Riu ladina. – Eu acho que eu não tenho muita escolha em faltar, né?
– Nenhuma, na verdade. – O mais velho brincou. – Agora vão se divertir. Com juízo.
– Eu sempre tenho juízo. – Brincou e piscou. – Boa noite, Lawrence.
– Boa noite, querida. – E, com isso, ela se retirou, deixando o senhor com um sorriso leve no rosto e balançando a cabeça. Ele tinha uma aposta corrente há seis anos com a esposa: ele dizia que eventualmente os jovens iam ficar juntos, ela dizia que não. Até o momento, a mulher ganhava, mas ainda restavam quatro anos dos dez combinados até o deadline e o canadense tinha certeza que ganharia.
De volta ao cômodo, o casal de amigos já terminava a primeira garrafa de vinho junto ao sorvete após jantar. estava deitada transversalmente numa poltrona imensa, zapeando entre redes sociais enquanto dava play em playlists aleatórias no celular. Os dois conversavam e brincavam há um bom tempo, fazendo o que faziam de melhor: ignorando literalmente tudo por uma noite.
– Eu gosto dessa, é boa pra dançar. – ria enquanto aumentava o som animado de Boys Like You do Who is Fancy.
– Não dá pra mim, não tô no clima. – Lance sentou na cama e passou a mão no cabelo, rindo um pouco da amiga que já estava de pé e se mexia ao som do primeiro verso. – Fora que eu já tô bebendo. – Apontou para a taça na mesinha em que estava posta a comida.
– Exatamente por isso. Beber e dançar é produtivo, espanta os males, já beber e reclamar é alcoolismo. – Deu de ombros enquanto fazia “mãos de jazz” no ritmo, o fazendo gargalhar alto. – So jump on in with me, let me set you free, I’ll make you feel like you’re dreaming… (Embarque nessa comigo, me deixe te liberar, eu vou te fazer sentir como se estivesse sonhando…) – Ela cantou no ritmo da música, estendendo as mãos para ele, o fazendo rir mais ainda com a precisão do verso para a cena. Enquanto ele não cedia, continuava a dançar, o que nesse momento consistia em balançar os quadris no ritmo e gesticular teatralmente cada linha da música, além de seguir cantando. O moreno prestava atenção nos movimentos, especialmente nos da cintura dela, mas não com segundas intenções, apenas por achar de certa forma hipnotizante. – Try, try, try, to follow the rules, I break every one of them with boys like you… (Eu tento e tento seguir as regras, mas quebro cada uma delas com garotos como você…) – Apontou para o amigo, que bebia mais um gole do vinho e ria da performance. – Vem, grandão, para de ser chato. – Brincou, tomando a bebida de sua mão e o fazendo levantar. Nas pontas dos pés, segurou os dedos do homem e o fez girar em torno do próprio eixo, fazendo ele se soltar mais e pelo menos fingir que estava tentando dançar até o fim do refrão. – It’s getting hot out under that summer sun, I’m not playing games, I’m just a girl having fun… (Está ficando quente aqui, em baixo desse sol de verão, eu não estou brincando, sou apenas uma garota me divertindo…) – Inicialmente Lance riu, pela ironia de falar sobre calor no gelo do outono suíço em que estavam, mas gargalhou quando a moça passou as mãos pelo torso dele e mordeu o lábio inferior, de brincadeira, ao fim do verso. – I need to cool down, ‘cause I know we’re just friends… (Eu preciso me acalmar porque sei que somos só amigos…) se abanava dramaticamente, definitivamente se mantendo no personagem. – But one look from you baby then I’m falling back in… (Mas com um olhar seu eu estou caidinha por você de novo…) – E dito e feito: quando ele olhou para ela, a menina simulou um desmaio exagerado, fazendo ele a segurar por instinto, gargalhando na sequência. Ali ela percebeu que ele tinha cedido à brincadeira, então ambos seguiram dançando – desengonçados ou em sintonia, dependendo do som – por tempo indeterminado, até pararem para beber ou comer e reiniciarem o ciclo até onde aguentassem.
Entre hits dos anos 80 (Os favoritos dela) como “You make my dreams come true”, rocks antigos e alternativos de todas as épocas como ele gostava – com direito a interpretação teatral dos mais de seis minutos de Sympathy For The Devil por parte dele – e diversas músicas sem nexo no meio do caminho, eles só não dançaram juntos o Country que, apesar de ser o ritmo favorito da garota para dançar, envolvia muitos rodopios e altas chances de vomitar. De vez em quando rolava uma música mais lenta no aleatório, a qual fazia os dois se aproximaram, mas nunca conseguiam êxito nas coreografias porque não paravam de conversar, rindo o tempo todo. Quando não estavam conversando e rindo, estavam cantando e rindo, principalmente músicas que os dois não conseguiam tirar da cabeça há meses, como “Fall For Me” do Brett Eldredge, que era uma balada country impossível de ouvir sem sorrir, e “Cocoon” do Milky Chance, digna de ser cantada em plenos pulmões e impossível de não dançar. Por várias vezes, cantaram trechos dessas músicas em ligações durante o isolamento social, então estarem ali juntos, ouvindo aquilo no máximo e já meio desinibidos pelo teor alcoólico era divertidíssimo.
Então, do nada, o relógio discretamente anunciava que já eram passadas as duas horas da manhã, mas o duo seguia conversando animadamente enquanto a playlist seguia ditando ritmos no aleatório. A terceira garrafa de vinho já estava sendo aberta e o assunto agora eram tênis e a diferença que eles têm de esporte para esporte. Sentada numa poltrona com as pernas cruzadas, ria enquanto separava a rolha e dizia que sim, sapatos para esgrima são diferentes e isso altera em muito sua performance.
– Eles são super leves por causa da mobilidade, mas tem regiões bem resistentes por causa dos movimentos. A sola é fininha mas é rígida, tudo isso influencia na hora da luta. – Deu de ombros, girando o cálice com líquido escuro em sua mão direita e entregando outro ao interlocutor, ambos já meio altos e com papos meio sem pé nem cabeça.
– Eu jurava que era um tênis qualquer. Não “qualquer, qualquer”, mas não fazia ideia desses detalhes. – Agradeceu com um movimento de cabeça pela taça preenchida, a segurando e voltando a se deitar de costas na cama, erguendo o corpo por se apoiar nos cotovelos; algo que faria qualquer um ter dor muscular no outro dia, menos ele. Era impressionante como o menino podia oscilar de postura perfeita para um origami de coluna vertebral sem consequências. – Qual é esse?
– Se eu dissesse que sei eu estaria mentindo. – A garota riu enquanto os últimos acordes de Shots do Imagine Dragons ressoavam em baixo volume entre as quatro paredes do local. – Seu pai me deu e disse que você ia gostar. O rótulo é enigmático demais pra eu descobrir qualquer informação, mas tá em italiano, então já temos uma pista. – Brincou. Enquanto o homem levava o vinho à boca, uma música especial se iniciou, fazendo subir um pouco o som. Ao reconhecer o clássico solo de instrumentos de sopro, Lance riu levemente, olhando para a menina e notando que ela tinha o mesmo sorriso sapeca nos lábios. “It’s been a long, long time” do Harry James havia se popularizado em 2019 como a música da emocionante cena final da dança do Capitão América com Peggy, entretanto, para os dois naquele cômodo, ela tinha outro significado.
– Você vai me fazer dançar essa, não vai? – Ele perguntou divertidamente, vendo a garota assentir veementemente enquanto mordia o lábio inferior. O rapaz revirou os olhos e ficou de pé, com a feição de quem não queria mas totalmente denunciado pela curva discreta no cantinho dos lábios. – Vem. – Se aproximou da cadeira e estendeu a mão para a menina, que ficou de pé imediatamente com um sorrisão estampado. Voltando um pouco no tempo, em um casamento de amigos de ambos os pais deles, descobriu que Lance havia tido aulas de dança quando mais novo, como parte das coisas que seu pai achava importante que ele aprendesse (Línguas, esportes, boas maneiras etc) e que, claro, podia prover. Naquela festa, aos 15 ou 16 anos, ela insistiu tanto para que tentassem uma música que ele cedeu e, a partir daí, eles descobriram que tinham uma certa conexão para dançar aquele tipo de música. Não faziam isso muito frequentemente, na verdade não faziam quase nunca, mas aquela música – a mesma da festa de casamento – tinha uma aura especial que praticamente os obrigava.
– Calma. – Ela tomou um pequeno gole e colocou a taça na mesinha. – Agora sim. – Sorriu e segurou a mão esquerda do homem com sua direita, pondo a outra sobre o ombro dele e sentindo sua cintura ser gentilmente puxada mais para perto. A proximidade, tão natural entre os dois, fazia com que toda comunicação ocorresse em silêncio. Vagarosamente, eles iniciaram uma dança lenta, composta apenas por alguns passos de um lado para o outro, praticamente sem sair do lugar, apenas acompanhando o som – o total oposto do que vinham fazendo pelas últimas horas. Quando já haviam se acostumado com o ritmo um do outro, investiram organicamente em outros passos, como pequenos rodopios por parte dela, respeitando o nível de habilidade e de sobriedade de ambos, em meio a eventuais sorrisos e sussurros sem nexo.
Com o desenrolar da música, o tempo parecia estar parado. tinha sua cabeça encostada no ombro de Lance, apenas aproveitando o momento, sentindo o tecido fofo do moletom dele em contato com sua bochecha. Ela sabia que tinha saudades do melhor amigo, mas o sentimento em seu peito parecia novo. Não sabia se era preocupação, aflição pelo emocional dele, o vinho ou se era apenas toda a necessidade de afeto que nutriu durante a quarentena, mas não queria soltá-lo. De um jeito ou de outro, estar ali, nos braços dele, de uma forma tão deles, estava sendo melhor do que esperava quando sugeriu a dança, e essa ficha estava caindo. Em contrapartida, o garoto não pensava em nada, só permitia que aquele momento tomasse conta da sua cabeça e tirasse todas as outras merdas de lá. Ele não admitia, mas adorava dançar, especialmente assim, especialmente com ela e especialmente essa música, então seria estupidez não aproveitar cada segundo.
Ao ponto a música ia chegando ao meio, o mais velho trouxe as mãos dadas ao seu peito, olhando para baixo apenas para perceber uma menina totalmente relaxada e de olhos fechados, seguindo os movimentos que ele ditava como se fossem dela própria. Era uma espécie de abstração, como se mais nada no mundo importasse além daquele abraço e das meias brancas dos dois suavemente deslizando sobre o carpete. A mão esquerda dele soltou os dedos ternos da garota e se dirigiu à sua cintura, a fazendo levar ambas as suas à nuca dele. Se fossem de alturas semelhantes, seus rostos estariam com bochechas coladas, mas como não eram, ele mantinha o toque com a testa dela, em uma cena que, fora de contexto, só poderia ser tida como romântica. Devido a isso, o homem não pôde se privar da vontade e deu um beijo delicado no topo da cabeça da garota, que cheirava ao shampoo de camomila que ele conhecia tão bem e sentia tanta falta. Daquele jeitinho, eles seguiram a cadência até a última nota, prosseguindo com o balanço mesmo após findada a canção.
Não havia motivo para que se separassem, então permaneceram ali até a próxima música começar – sem passos rebuscados, apenas se movendo quase imperceptivelmente no ritmo de suas respirações. Apesar de lenta, “Love is a Bitch” do Two Feet tinha um vibe totalmente diferente da anterior. Uma vibe muito específica, por assim dizer, que associada ao álcool podia levar a coisas não muito bem pensadas por impulso. Esse pensamento cruzou a cabeça de , mas foi rapidamente esquecido quando o homem a puxou para mais perto e a inundou com aquele sentimento estranho. As mãos dela iniciaram um carinho nos cabelos da nuca dele e sua reação imediata foi de fechar os olhos, suspirando curiosamente no pé do ouvido dela – era algo que ela fazia sempre, por que ele reagiu dessa forma agora? Ela não sabia dizer, mas mais uma vez tentou racionalizar: podia ser a saudade, a carência, a música ou até o clima, mas nada explicava com clareza aquilo, e muito menos o porquê da espinha dela ter gelado com aquele mísero som.
Com os olhos fechados e ambos extremamente absortos no contato, Lance ergueu uma das mãos até a mandíbula da menina, acariciando o local e focando na respiração dela. Não havia mais raciocínio crítico ali, só a sensação estranha e completamente nova – não era amizade, amor fraterno ou afeição como sempre, era pura necessidade. A música já parecia distante e as palavras se misturavam quando ele delicadamente levantou o queixo dela, num ato completamente instintivo. As mãos de agora seguravam o tecido do moletom do peito dele, o puxando pra mais perto e sentindo a ponta do nariz dele encostar na raiz do dela, a causando um intenso frio na barriga. A respiração quente do moreno atingia a boca da inglesa, dando um sentimento de conforto perante o frio daquele quarto. Os lábios entreabertos de ambos denunciavam o que estava prestes a acontecer, mesmo sem precedente algum. Ao deitar o rosto um pouco para a esquerda, o homem engoliu em seco: por mais que nada daquilo fosse consciente, algo dentro dele dizia que era um passo grande a se dar, então todo o cuidado era pouco.
Entretanto, o resultado aparentemente inevitável foi atrapalhado por uma voz fina e uma batida techno da música “The Muffin Song”, o que fez os dois gargalharem e se afastarem após um beijo na bochecha, o vinho sendo o principal responsável pelo fato do clima não ter ficado estranho – pelo menos não naquela noite.
– Por que diabos você tem isso na sua playlist? – Ele riu, pegando a taça de novo e fazendo pouco caso do que acabara de acontecer, levando o polegar ao lábio inferior por um segundo, de forma inconsciente.
– Eu não faço a mínima ideia. – Brincou, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha e revelando suas bochechas extremamente ruborizadas (algo que nem ela percebera).

O sol esquentava levemente a pele exposta do moreno, apesar do frio ainda o manter aninhado nas grossas cobertas. Após um bocejo involuntário, Lance se espreguiçou com os olhos fechados, criando forças para levantar e desistindo logo em seguida. Girou o corpo para a esquerda e palpou o lado da cama arrumado, rindo consigo mesmo. O cheiro de camomila no travesseiro foi o último lembrete para que ele recobrasse os eventos da noite anterior, pelo menos parcialmente, o que colocou um sorriso no rosto do garoto. Ele lembrava da lasanha, do vinho do rótulo laranja (Mas não do nome desse), de terem dançado algo, rido até chorar várias vezes e limpado o chão depois de derramar sorvete. Por um breve momento, lembrou da corrida do dia anterior e, antes que isso baixasse sua vibe, passou a mão entre os cabelos e sentou no colchão, observando a menina. estava sentada na escrivaninha dele, entre muitos papéis, cadernos e com o notebook aberto assistindo o que ele supôs ser uma aula. A poltrona na qual estava sentada era muito maior que ela, dando a possibilidade de sentar com as pernas cruzadas entre os descansos de braço, atenta a cada detalhe do que era dito em seus fones de ouvido.
O mais velho olhou o relógio, que marcava dez e quarenta da manhã, e notou o remédio para dor e um copo de água na mesa de cabeceira. Mantendo o sorriso no rosto, levantou e foi até ela.
– Bom dia. – Beijou o topo da cabeça da menina, com a voz ainda rouca pelo sono.
– Bom dia. – sorriu e olhou para cima, tirando o fone para prestar atenção nele. As câmeras estavam todas desligadas, então parecia um intervalo. – Acordou melhor?
– Só com um pouco de dor nas costas que eu não senti ontem, mas de resto melhor.
– Eu imaginei. – Ela apontou para a caixinha de pílulas que ele notara anteriormente.
– Já tomou café? – Bocejou mais uma vez.
– Ainda não, acordei em cima da hora para a aula. Não devia ter dormido tão tarde, tive que dizer que minha conexão estava instável para não precisar abrir minha câmera no estado deplorável que eu levantei. – Riu e ele a acompanhou, assanhando os cabelos dela de forma brincalhona.
– Eu vou lá embaixo comer, aí faço algo pra você. – Repetiu o ato de beijar o cabelo da menina e desceu as escadas em direção à cozinha. Desde que se conheceram, tiveram noção de que as prioridades de vida dos dois eram muito diferentes. Ele sempre soube que o que queria era ser piloto de Fórmula 1, custasse o que custasse. Dedicou a vida toda para isso, perdendo amigos, mudando de país, estudando em casa e, de forma geral, se privando de muita coisa que um adolescente ou jovem normal faria (Ainda mais com o dinheiro que ele tinha). vivia praticamente da mesma forma, mas com outro foco: a vida acadêmica. Não queria ser como os pais e seguir um ramo pelo dinheiro apenas. Dinheiro era importante, mas não via um propósito grande em investir em bolsas, e melhor nem entrar no tópico da crueldade animal. Quando estava decidindo sua carreira, pensou em diversos momentos em seguir pelas ciências exatas, mas nada fazia seus olhos brilharem tanto como o contato um para um que a medicina provia. A delicadeza, a precisão e a adrenalina das cirurgias arrepiavam os cabelos da nuca dela, em paralelo ao cuidado e carinho de uma consulta que acalmava o coração: era aquilo que ela queria. E, desde que descobriu isso, ninguém a apoiou mais do que o moreno também aficionado por emoção.
Quando estava no processo de entrada na Universidade, os próprios pais dela se sentiram decepcionados pela garota não seguir pelos Negócios, então todo o apoio familiar que recebeu veio da família dele. Claire, a mãe do canadense, foi quem a preparou para todas as entrevistas, sobre o que vestir, como falar e o mais importante: erguer o queixo. Essa frase ressoou tanto com a mais nova que, toda vez que se via em uma situação de adversidade, lembrava do indicador de estilista levantando seu rosto e repetindo “Erga o queixo”. Deveria ser uma memória com sua própria mãe, refletia, mas pelo menos tinha alguma. Quando a aprovação foi confirmada, Lance fez questão de dar uma festa e, depois de algumas (muitas) bebidas, parava cada pessoa no local pra dizer que a melhor amiga dele ia ser médica e isso era “foda”. Por várias vezes, ele, mesmo sem entender nada dos assuntos, a ajudava a revisar por FaceTime e escutava ela ensaiar para os seminários e congressos. Fora todo o apoio direto, todos que conheciam ele também sabia quem era, de tanto que ele falava da garota e de como achava ela incrível em tudo que fazia.
Chegando na cozinha, Lance reconheceu a silhueta da sua mãe, tomando um chá e lendo um livro em um dos bancos altos do balcão. Tentou se aproximar sem fazer muito barulho para não a assustar, colocando em seguida uma mão no ombro dela e beijando sua têmpora esquerda.
– Bom dia, mãe.
– Bom dia, meu anjo. – Tomou a mão dele na sua e a beijou rapidamente. – Acordou melhor?
– Ainda não 100%, mas definitivamente melhor que ontem. – Sorriu amarelo, recebendo outro beijinho no dorso da mão.
– Eu fui dormir cedo ontem, estava muito cansada, desculpa não estar aqui para te receber. – Claire lamentou.
– Tá tudo bem, eu cheguei um pouco tarde. – Se encaminhou até a geladeira e pegou leite e ovos.
– Vai cozinhar? Deixa que a mamãe faz… – A mais velha fez menção de se levantar, mas recebeu um aceno de cabeça de volta.
– Obrigado, mas seu chá vai esfriar. – Apontou, com um sorriso. – Deixa que eu faço, fica me fazendo companhia. – Recebeu outro sorriso em retorno e seguiu para buscar a farinha e um recipiente para misturar.
– Vai fazer quantas panquecas? – Perguntou curiosa, vendo o filho morder uma maçã no caminho de volta ao balcão com mais materiais do que o necessário para uma pessoa só.
– A tá lá em cima, não comeu ainda.
– A tá aqui? – Era notável a felicidade da matriarca, ela genuinamente gostava da britânica.
– Ela veio ontem comigo. – Riu da reação, quebrando um dos ovos. – Me deu uma força depois da corrida. Agora tá lá assistindo aula.
– Seu pai me falou que conversou com ela, achei que tinha sido por telefone.
– Ela apareceu tarde, teve que ir em casa buscar algumas coisas.
– Vou lá falar com ela. – Virou o chá e o terminou em um golinho pequeno, deixando a louça na pia.
– E minha companhia? – Ele brincou.
– Fica pra a próxima! – Claire riu e seguiu para subir as escadas. Com o foco de volta a sua receita, Lance percebeu que realmente tinha preparado panquecas demais e riu consigo mesmo. Aprontou na bandeja os dois pratos, a jarrinha de suco, o vidrinho da Nutella e, como bom canadense que era, o tubinho de xarope de bordo e seguiu escada acima. Assim que entrou no quarto, sentiu um pouco de nostalgia: quando mais novo, era comum voltar dos treinos e encontrar as duas conversando bem daquele jeito.
– … e eu até tentei procurar na internet, mas tenho medo de não caber, e não dá tempo de trocar, então eu precisaria ir provar, só que eu sou péssima em entender a peça sem estar no manequim, sabe? – brincava com um cubo mágico e o computador estava na tela inicial: as classes da manhã deveriam ter acabado pois já eram passadas as 11h.
– Eu tenho uma reunião até às 14h mas depois estou livre, podia ir em umas lojas com você. – A matriarca falou e a garota abriu um sorriso de orelha a orelha.
– Seria incrível! – Respondeu. Lance notou que nenhuma das duas tinha percebido sua presença, então limpou a garganta e colocou a bandeja na escrivaninha.
– Mal chegou e já está me trocando pela minha mãe, huh? – O garoto pôs as mãos na cintura e ergueu uma das sobrancelhas.
– Nada disso, você vem com a gente. – Claire deu dois tapinhas no colchão ao seu lado.
– Pra onde? – Sentou no local com o próprio prato em mãos, vendo a menina sussurrar um “obrigada” e a retribuindo com uma piscada. Os olhares permaneceram conectados por alguns instantes, até a garota chacoalhar a cabeça e voltar ao foco da conversa.
– Roupas. – Falou, deixando um pouco do nervosismo transparecer. Por que diabos tinha ficado nervosa? – Eu preciso de uma roupa para o jantar e tô com dificuldade de conseguir sozinha, então sua mãe vai me ajudar. – Sorriu, dando de ombros, agora normalmente.

– Lance… – chamou, em cima do degrau do provador. O garoto estava relaxadamente sentado no sofá de cobre da salinha exclusiva, praticamente deitado, enquanto mexia no celular e esperava a menina trocar de roupa. Era a sexta tentativa e, para ele, todos estavam bons, mas nenhum tinha a agradado. Claire havia voltado para o salão para escolher novas peças para si então ela sabia que não teria muitas críticas construtivas, mas perguntava a ele mesmo assim. – Lance. – Chamou um pouco mais alto, mesmo assim sem receber reação. – Stroll! – Falou o mais alto que podia, sem chegar ao ponto de gritar, e ele finalmente ergueu os olhos. – E aí? – Girou ao redor do próprio eixo, com certa dificuldade, mostrando o vestido com saia lápis.
– É bonito… mas você tá confortável nisso? – A cara dele exprimia um certo desconforto terceirizado.
– Nem um pouco. – Ela riu. – Eu não consigo sentar, na verdade.
– Então não acho que seria uma boa escolha para um jantar, sabe. – Brincou. – Por mim, o azul é o mais bonito, combina mais com você. – Mencionou o segundo vestido que ela provou, azul marinho com mangas estilo bispo, que era lindo mas infelizmente curto demais para a ocasião.
– Então vou para o próximo. – Deu de ombros, tentando não perder a animação, e voltou para a cabine do provador.
– Sabe o que isso me lembra? – Ele começou, bloqueando o telefone.
– O que? – Respondeu, fechando a cortina.
– O baile do colégio. Você provou 300 roupas e terminou usando o da sua mãe. – Riu de canto. A cena do passado era qual igual àquela: ele sentado por horas enquanto ela provava diversos vestidos e fazia comparações esdrúxulas, sem no final escolher nenhum.
– Ah sim, eu lembro bem. Aquele que você passou dez dias me convencendo a ir, porque era sua única oportunidade, com esses olhos de cachorro que caiu da mudança, para no final eu fazer par com o Hugo, certo? – O sarcasmo na voz dela era imenso, fazendo o mais velho gargalhar.
– Em minha defesa, eu queria muito que você fosse comigo, mas poxa, eu estudei em casa até o penúltimo ano, eu precisava da experiência toda para fazer valer. Convidar a garota, buscar ela em casa, tirar aquelas fotos horríveis e, bom, todo o resto… – Um sorriso ladino brotou nos lábios dele. Com certeza aquela noite fez valer todas as outras que não teve no Ensino Médio.
– Pelo menos isso você pode ter certeza que aproveitou até o último segundo. – Ela riu, lembrando do estado que o rapaz tinha ficado no fim da festa. Terminou tendo que dormir no quarto de hóspedes da casa dela, que estava vazia como sempre, porque as chances de levar um esporro se fosse pra a própria casa eram grandes. Antes que pudessem terminar o momento nostalgia, Lance ouviu um estrondo dentro do cubículo e correu até a cortina, preocupado.
? Tá tudo bem?
– Ta sim, eu só quase quebrei minha mão. – Riu, abrindo o tecido e mostrando a mão vermelha nos nós dos dedos.
– Como diabos você fez isso, garota? – Pegou a mão dela nas suas, erguendo para ver melhor. – Isso vai precisar de gelo. O que aconteceu aí?
– O zíper do vestido emperrou, aí fiz força e minha mão escapou direto na parede. – Riu baixo da própria situação, encarando o hematoma que surgiu quase imediatamente.
– Mas você só faz merda, né? – Ele balançou a cabeça, tentando se fazer de sério, mas rindo discretamente. – Vira de costas, deixa eu abrir pra você. – Ela procedeu com a ação, retirando o cabelo das costas e colocando sobre o ombro. Ele inicialmente tentou abrir com força, mas o objeto não se mexia.
– Eu falei. – Debochou, com um ar de brincadeira e quase riso.
– Sobe no degrau, ta baixo demais para mim. – Desconversou e a seguiu até o desnível. De frente para o espelho, ela observou a cena: ele totalmente focado na, agora delicada, tarefa de abrir o zíper do vestido. A quietude permaneceu por um tempo até ela se pronunciar de novo.
– A gente pode chamar alguém. – Falou, baixinho.
– Eu já vi o que rolou aqui, foi uma costura que ficou presa. Eu consigo. – Sussurrou de volta, concentrado no adereço metálico. Alguns momentos de silêncio depois, com a menina tentando evitar pensar sobre o fato para não corar mais do que estava corando, um pequeno “click” foi ouvido. – Me deve essa. – Ele beijou a bochecha dela, falando de forma quase inaudível, e deslizou suavemente o fecho até a base. Nesse momento, podia jurar que seu rosto estava pegando fogo. Ela não fazia ideia do porquê aquilo tinha a afetado tanto, mas não podia mais negar: tinha afetado. Afetado no nível de fazer o coração da garota pular uma batida, no nível de fazê-la praticamente “cuspir” um ‘Obrigada’ e correr de volta pra o box da cortina. Ela pensou que nunca tinha sentido isso antes, até que um flashback inoportuno atingiu sua mente, ainda que meio borrado: o que aconteceu na noite anterior?
No provador, vestiu a única peça que não era um vestido e imediatamente percebeu que aquela era a certa. Rodou em torno do próprio eixo e confirmou a si mesma: é esse. Voltou para suas roupas normais e segurou em mãos o fruto de uma das raras certezas que ela tinha sobre roupas (e também o vestido azul) e abriu a cortina.
– Deixa eu ver ess… ué, desistiu? – Ficou confuso ao ver o look casual dela.
– Já escolhi, na verdade, mas acho que vou fazer a surpresa. – Riu e piscou para ele, indo em direção ao caixa. Ao entregar as roupas no balcão, ouviu Claire se aproximar com um funcionário cheio de caixas, não contendo um sorriso.
– Escolheu?! – A mãe falou, um pouco animada demais, pois já estava pronta para visitar pelo menos mais três lojas.
– O macacão ficou incrível! Na hora que vesti eu sabia que era ele, então simplesmente ignorei todas as outras coisas. – Sorriu e entregou o cartão ao atendente.
– Ele era minha escolha pessoal, junto com o az… – A Sra Callens interrompeu a frase com um riso quando a menina apontou para a sacola, que também continha o vestido azul em questão. – Você claramente não precisa mais de mim. – As duas gargalharam juntas, chamando a atenção do garoto encostado em uma das pilastras e previamente compenetrado no celular. Enquanto Claire efetuava suas compras, Lance se aproximava com um riso de canto de boca que era precursor de uma piadinha.
– Já terminaram? Achei que ia precisar inventar um mal-estar para ir para casa cedo.
– Achou rápido? Se você quiser a gente pode passar em mais algumas lojas e… – brincou e ele negou veementemente.
– São cinco e vinte ainda, que tal um café? Quero saber tudo sobre como esse ano foi pra você, tanto tempo que a gente não se vê! – A matriarca ignorou a brincadeirinha do filho e se dirigiu apenas à menina, de tal forma que fez ambos rirem.
– Eu honestamente estou me sentindo excluído. Sorte que a Chloe não está aqui, porque se não eu seria totalmente ignorado. – Ele fez um biquinho e a garota gargalhou, ficando na ponta dos pés e beijando a bochecha dele.
– Infelizmente a culpa é sua por ter uma mãe incrível. – Deu de ombros. – E deixa de drama porque você sabe que a gente te ama.
– Eu sei. – A abraçou de lado e beijou o topo da cabeça da menina. – Mas eu escolho o café, pode ser?
– Segura essas bolsas e pode escolher até o que eu vou comer. – Claire brincou e o entregou as sacolas. Os três seguiram uma conversa divertida até o carro, planejando sobre o que iriam conversar quando chegassem no local, até que a mais velha tocou em um ponto específico. – Mas antes de qualquer coisa, o mais importante. – olhou para ela com atenção. – Finalmente arrumou algum namorado? – O contraste entre a empolgação da mãe e o olhar sério no rosto do filho era notável. Por instinto, Lance apertou um pouco mais o abraço para trazê-la para perto, de forma totalmente inconsciente.
– Durante a quarentena? Se já estava difícil antes, com isolamento social piorou. – Sorriu genuinamente.
– Mas nem um… como que se diz? Crush? Nem um crush?
– Bom, me mantenho completamente apaixonada pelo Daniel Ricciardo e pelo Carlos Sainz, se isso contar, mas infelizmente ambos seguem comprometidos. – riu e o mais alto assanhou o cabelo dela, em tom de brincadeira. Ela sempre implicava com ele que tinha uma queda, na verdade um abismo, por esses dois outros pilotos, e ele sempre ficava um pouco enciumado. – Não é culpa minha se eles são bonitos, talentosos, altos, divertidos, charmosos, têm sotaques lindos, cabelos lindos… – Falava tentando conter o riso, e recebeu a mão do amigo delicadamente sobre a boca num pedido não tão discreto de “para de falar, por favor” e uma virada de olhos dele.
– Primeiro, eu sou mais alto que os dois. Segundo, eu sei que todo o resto é subjetivo, mas com certeza meu sotaque é melhor. – Deu de ombros, sorrindo e soltando a mão.
– Do que o do Dani? Jamais!
– Com certeza é. Não dá pra entender metade do que ele fala.
– Eu entendo super bem.
– Literalmente só porque tem família na Austrália.
– Eu não vou discutir isso.
– Porque sabe que eu estou certo. – Eles continuaram nessa discussão sem futuro, olhando nos olhos um do outro e rindo, com uma proximidade íntima demais, e foi aí que Claire se assustou com um dos próprios pensamentos: se a qualquer momento os dois se beijassem, não seria surpresa. Era claro que se caísse uma bomba do lado deles, eles não perceberiam de tão compenetrados que estavam naquela conversa sem propósito (e um no outro). A matriarca, então, pegou o telefone em mãos e mandou uma mensagem para o marido:

“Ainda dá tempo de repensar aquela aposta?”
Assim como a segunda-feira, a terça passou voando. seguiu com suas aulas pela manhã, assistindo-as da própria casa, e o mais velho decidiu usar esse tempo para, além de dormir até tarde, fazer academia e ir buscar a irmã e o namorado Scotty (Que haviam voado da América) no aeroporto. Quando a hora do almoço se aproximou, os quatro decidiram comer juntos e jogar Hockey – nenhuma das duas meninas era muito fã (ou muito boa), mas o fariam para agradar o quase aniversariante. A quarta-feira seguiu na mesma linha, só que ao invés de Hockey eles fizeram um campeonato de todos os videogames possíveis que contemplavam quatro jogadores ao mesmo tempo.
Quando acordou no dia 29 de outubro, Lance não se sentiu mais velho ou mais sábio, só um pouco mais cansado. Riu consigo mesmo e seguiu o que tinha planejado: ligar para os avós, olhar as redes sociais, responder as mensagens dos amigos de outros fusos horários e pedir um café da manhã com todo tipo de porcaria, que Rob o mataria se o visse comendo logo cedo. Stroll sabia que não comeria tudo, no máximo um pouco de cada coisa, pois o senso de responsabilidade pesava, mas era incrível saber que, se quisesse, poderia. Ao passo que o meio dia se aproximava, recebeu uma ligação que já estava achando estranho o tanto que havia demorado. , com um vídeo em Holandês ao fundo falando sobre laparotomias, nem disse “oi”, apenas começou a cantar loucamente a música 22 da Taylor Swift, o fazendo gargalhar alto.
– Feliz aniversário, grandão. – Sorriu, vermelha ainda da cantoria. – Eu podia fazer um mega discurso, mas você já sabe tudo que eu ia falar, então deixa eu resumir: Eu te amo, você é incrível, corta o cabelo e faz esse bigode. – Brincou. – Você é minha pessoa favorita no mundo e eu sou muito muito feliz por ter você aqui comigo, mas eu não vou repetir isso porque se não seu ego fica muito grande e não cabe no carro. – Piscou e ele riu.
– Também te amo, e eu vou cortar o cabelo, prometo. O bigode já são outros 500… – Zoou, passando os dedos acima do lábio superior de forma caricata. – Você vem hoje, né?
– Para o almoço? – Ela fez uma cara de desapontamento. Estava marcado um almoço na casa dos Stroll para comemorar o aniversário do garoto, apenas com a família, o namorado da Chloe, Hugo (Um dos melhores amigos de adolescência dele) e ela.
– Não vai me dizer que você também não pode?
– Também? – fingiu surpresa.
– O Hugo cancelou de última hora, disse que estava se sentindo mal.
– Eu tenho uma prova, mas vou tentar chegar a tempo. Eu juro. – Mentiu.
– Eu só perdoo porque é coisa da faculdade. – O rosto dele claramente escondia tristeza e ela sentiu remorso. – Mas obrigatoriamente você vem passar a tarde comigo. Sem desculpas.
– ”Sim, senhor”, senhor! – Bateu continência. – Agora eu preciso ir. Amo você. Beijo!
– Também te amo. – Desligou o aparelho, tentando afastar a pitada de desapontamento que sentira e determinado a aproveitar a família junta ao máximo, já que isso era raro. Do outro lado da call, estava com o dito cujo do Hugo e mais cinco amigos de adolescência do canadense.
– “Desliga você”, “Ai não, amor, desliga você”. – Chris zoou, fazendo biquinho e investindo em uma voz fina, levando a garota a virar os olhos e todos, inclusive ela, aos risos. Aqueles caras não mudavam mesmo. – Mas tive pena dele, não vou mentir.
– Todo mundo fez quarentena e dois testes de PCR para estar aqui, acho que a gente merece uma diversãozinha com a cara dele. – Hugo brincou. Desde que os casos diminuíram, vem programando uma festa surpresa para o amigo, entrando em contato com os dez amigos mais próximos dele e garantindo todas as medidas de segurança para evitar preocupações, inclusive testando a própria família dele na véspera sem que ele visse.
– Preciso terminar de buscar as pessoas nos aeroportos e ligar para o Este, quando vocês terminarem o joguinho de vocês, se organizem. – A garota riu, ficando de pé e apontando para a tela que apresentava uma partida de FIFA. – Você já venceu mesmo, então vem comigo para pegar o bolo. – Apontou para o Hugo, que riu e a acompanhou.
A tarde passou voando, postergando sua ida a casa do garoto com “Reuniões de emergência” e “Relatórios urgentes” que precisava entregar ainda naquele dia, o que transformou a “tarde juntos” em um jantar. Quando o relógio se aproximou das seis e meia, era hora de colocar o plano em ação. A garota se aprontou e, torcendo para que tudo desse certo, seguiu os passos planejados. Assim que chegou na casa dele, subiu as escadas em direção ao quarto; atrás dela, todas as outras dez pessoas mais a família dele se uniram para decorar toda a sala de estar principal com o tempo que ela o enrolaria. A porta estava aberta e ela pôde claramente ver o amigo sentado na poltrona grande, jogando o mesmo nível de videogame que estava da última vez que comentou com ela – dois meses atrás. A menina não aguentou o riso, chamando a atenção para si e fechando a porta.
– Ainda no nível dezoito?
– Semana que vem faz três meses. – Ele riu e se levantou, olhando para ela de melhor forma. – O vestido azul. – Ergueu o canto dos lábios ao notar que ela usava o vestido comprado na segunda. – Você tá linda.
– Eu daria uma voltinha, mas aí você veria a surpresa, então vamos começar por ela. – Sorriu, andou até ele e o entregou o pacote que escondera atrás das costas. – Feliz aniversário, grandão.
– Você sabe que não precisava, certo?
– Uhum, agora abre. – Brincou e ele procedeu a retirar o laço delicado da enorme caixa cor de cobre. Atenta aos olhos dele, percebeu o choque imediato do garoto quando retirou a redoma de acrílico da embalagem.
– Isso… – Ele não tinha palavras, só conseguia olhar para ela e para o capacete amarelo nas mãos. – Como… Como você conseguiu isso?
– Uma amiga de uma amiga brasileira da minha sala na faculdade trabalha no Instituto e conhecia um colecionador que faleceu, então a família estava vendendo os itens. Aí foi só entrar em contato e negociar bem alto e bem rápido. – Riu sozinha enquanto o amigo seguia atônito, sentando na própria cama com o objeto em mãos. Lance era extremamente fã de Ayrton Senna, então aquele capacete, no modelo do tricampeonato de 91, autografado pelo piloto em si, era provavelmente uma das coisas mais difíceis de encontrar e de conseguir. – Lance? Cê tá bem?
– Eu to processando. – Riu sozinho e cobriu a boca. Era um capacete. Do Senna. Autografado. Pelo Senna. Ele refletia em fragmentos porque aquilo era literalmente demais para compreender de uma vez só. – Esse foi provavelmente o melhor presente que eu ganhei na vida. – Não conseguia segurar o sorriso. – Vem aqui, vem. – Se levantou e abraçou ela com força, a retirando do chão.
– Não querendo quebrar o momento, mas eu to sem ar. – Empurrou ele um pouco e respirou fundo, o fazendo rir, mas mantendo suas mãos na própria cintura.
– Obrigado. De verdade. – Ele falou, olhando dentro dos olhos dela.
– Eu sabia que ia te deixar feliz, então valeu a pena.
– Eu to feliz pra caralho. – Riu. – Preciso de um suporte legal pra ele, nem sei onde vou colocar.
– Aí já é com você. – Brincou, recebendo um beijo na têmpora esquerda e ouvindo uma notificação do celular.
– Ah não, me dá isso. – Ele pegou o aparelho dela e colocou no próprio bolso. – Você me deu o bolo o dia todo, aí no tempinho que a gente tem, você fica no celular? Sem chance. – Falou em tom de brincadeira, mas com um fundo de verdade.
– Olha de quem é a mensagem, idiota. – Agora foi a vez dela de sustentar um ar de riso. Ele procedeu com a ação e viu, na própria tela de bloqueio, o texto “Eu e o Scotty estamos prontos, quando ele acabar de chorar com o capacete me encontra na sala para a gente ir. – Chloe xx”, dando um sorriso sem graça e devolvendo o telefone à dona.
– Falha minha. – Riu. – Vamos?
– Sim, senhor. – sorriu e seguiu atrás dele, que recolhia celular, carteira, chaves e um casaco antes de passar pela porta. Sem notar que estranhamente tudo estava apagado, o canadense descia tranquilamente as escadas, ainda feliz com seu presente, quando sentiu que poderia infartar pelo susto que tomou. As luzes se acenderam e o tradicional coro de “Surpresa” ecoou, só que por não estar nem um pouco preparado para aquilo, o aniversariante caiu sentado nas escadas e todos, sem exceção, iniciaram uma gargalhada alta.
– Vocês querem me matar, eu já entendi tudo. – Lance ria consigo mesmo, colocando as mãos sobre o peito e misturando risadas com respirações profundas.
– Só de levinho. – Hugo brincou e foi dar um abraço no amigo, que recuou por instinto. – fez todo mundo fazer 15 dias de quarentena e 2 testes PCR, esse é provavelmente o ambiente mais seguro do mundo pra abraçar alguém. – Constatou e, aí sim, recebeu um abraço forte do aniversariante. – Parabéns, cara.
– Só eu que não fiz a quarentena, só fiz os testes, mas se eu tivesse COVID provavelmente o mundo todo saberia. – Esteban se aproximou do amigo, compartilhando um abraço. – Feliz aniversário.
– A gente pegou avião para chegar aqui, então acho que isso conta mais pontos. – Lella brincou e, desse jeito, um a um foi abraçando e parabenizando o garoto. Depois de cumprimentar todo mundo, ele finalmente notou o bolo e a decoração, enrugando as sobrancelhas e rindo alto. Tudo era rosa: os balões, fitinhas, os lenços dobrados sobre a mesa de jantar, o bolo, literalmente tudo. A justificativa? O último ano que ele correria de rosa, em teoria, merecia uma despedida à altura.
Com o clima leve e de muitas risadas, a noite passou muito rápido. Ele não percebia o tanto que sentia falta desses momentos até que os teve, depois de muitos meses sem estar entre amigos. Ironicamente, com todas aquelas pessoas na sala, todas as vezes que o assunto terminava, antes de outro ser começado, ele encontrava seus olhos fixados em apenas uma pessoa. Fosse enquanto ela gesticulava exageradamente para contar uma história engraçada ou apenas balançava a cabeça concordando com algo que Lawrence falara, o homem falhava em encontrar algum defeito. Ele sabia que ela sempre foi bonita, pelo menos ele sempre achou, mas nunca tinha parado para prestar atenção, e muito menos se sentido preso a ela daquele jeito.

Com passos lentos e passando a mão direita pelos cabelos, Lance desceu até a cozinha para tomar um copo de água. Chegando ao cômodo, encontrou exatamente a cena que esperara quando passou pelo quarto de hóspedes e o viu vazio e com a porta aberta – como a festa havia acabado depois da uma da manhã, ajudou a organizar tudo e terminou dormindo por lá. Com apenas a luz amarela da mesa de canto acesa, o ambiente estava suficiente iluminado – tanto para não chamar atenção às 2h da manhã quanto para evitar quedas e esbarrões.
– Quando vi seu quarto vazio eu imaginei que fosse te encontrar aqui. – O garoto riu, esfregando um dos olhos lentamente e andando até a geladeira. , que estava sentada no balcão central, virou de costas com um sorriso médio nos lábios.
– Antigos hábitos demoram a morrer, tava te esperando. – Ela apontou com a cabeça para uma fatia larga de bolo ao lado dela, enquanto dava uma garfada numa igualmente larga que estava em seu colo. O canadense sorriu e andou até ela, pegando o prato em mãos e ficando de pé entre os joelhos da menina. Desde os 17 anos, os dois criaram essa pseudo-tradição de voltar para comer o bolo após festas de aniversário. Quando todos iam embora e todas as luzes se apagavam, eles sentavam e passavam mais algumas horas conversando e terminando a torta. Apenas duas vezes não conseguiram, uma porque era humanamente impossível comer aquilo tudo e a outra porque o preparador físico dele proibiu, mas, de resto, tinham o recorde impecável de nunca deixar doce para o dia seguinte.
– Eu sabia que tinha esquecido algo, lembrei pouco antes de dormir. – Ele brincou, depois de ambos chegarem na metade do objetivo em completo silêncio. – De onde foi esse bolo? Parece o do ano passado.
– Eu tentei achar igual, mas a padaria fechou. – Deu de ombros. – Eu gostei.
– Eu também. – Colocou a louça de volta no balcão e tomou um gole da água que inicialmente veio buscar. – Agora me conta.
– Contar o que? – colocou seu prato junto ao dele e pôs as mãos sobre as coxas, sustentando um ar meio apático.
– O que tá te deixando assim, com essa cara de tristeza enquanto come bolo. – Sorriu de canto e alocou as palmas na cintura dela, balançando seu corpo um pouco e a fazendo abrir um sorriso breve.
– Tá tudo bem, juro. – Tentou sorrir, mas não conseguia mentir pra ele, o que terminou em uma careta.
– Tomara que você esteja ciente de que isso foi meio vergonhoso de assistir. – Brincou e recebeu um soquinho leve no ombro, acompanhado de risadas agora genuínas. – Fala, vai.
– É seu aniversário, eu não quero despejar coisa chata em você. – Ergueu um ombro.
– Tecnicamente, são duas da manhã.
– E, tecnicamente, você nasceu em Quebec, seis horas a menos que aqui, então ainda faltam quatro. – Ela riu e ele virou os olhos.
– Vai, não me enrola. Tem algo te incomodando e eu sei. Desde quando você não me conta essas coisas? – Ele a puxou mais pra perto, a fazendo tombar a cabeça no ombro e sorrir.
– Eu amo você, sabia? – passou as mãos pelos ombros dele e abraçou frouxamente seu pescoço, claramente tentando mudar o assunto. – De verdade. – Fez um carinho suave na nuca, desmanchando a cara séria que o mais velho sustentava. – Tava morta de saudades de te ver. – Alinhou os pelinhos da sobrancelha esquerda do garoto com o polegar direito, o fazendo baixar a guarda de uma vez por todas.
– Eu também sinto sua falta. – Sorriu de canto. – Principalmente quando as coisas vão mal, tipo agora, mas sinto o tempo todo, na verdade.
– O tempo todo? – Ela brincou, com um riso sapeca, enquanto enrolava uma mecha do próprio cabelo nos dedos.
– O tempo todo. – Sussurrou, com um carinho na cintura, indiscretamente olhando para a boca da menina e se aproximando dela milimetricamente. Ele balançou a cabeça rapidamente e seguiu a fala, trocando o peso do corpo de pé para justificar a movimentação. O que diabos tinha passado pela cabeça dele? – Mas já tem quatro dias que a gente se encontrou, já matamos a saudade, até encher a cara a gente já encheu, então você não vai me distrair assim. É o jantar, né? Que tá te deixando assim? – Falou praticamente sem dar nenhuma pausa, tentando tirar o foco da presepada que quase tinha feito. Será que ele não tinha um neurônio? O que ele pensava que ia fazer? Beijar a garota? Desde quando ele queria beijar ela? Ele não fazia ideia, sorte que não cedeu à impulsividade e fez uma merda sem nem mesmo saber o porquê. Voltando à terra, Lance viu levar as mãos ao colo e baixar a vista para analisar as unhas, com um aceno de cabeça para a pergunta feita. – Por que você tá tão nervosa? Desde o dia que você me falou você reluta sobre isso. Tem algo acontecendo? – Fez um carinho gentil na bochecha dela.
– É que… – Respirou fundo e decidiu contar. – Eu conheço os outros caras que vão e… – Suspirou. – Todas as pesquisas são expoentes, sabe? Os caras são quase todos idiotas prepotentes, mas os trabalhos são muito bons. Quase todo mundo fazendo descobertas sobre o COVID, correlacionando com cardiopatias, propondo fármacos… E a minha fala de uma coisa que foi descoberta há 40 anos. Eu recebi algumas mensagens desses outros alunos e eles nem me consideram parte do grupo. Se referem a todos como “Caras”. – Deu uma pausa e respirou pesadamente, ainda olhando para as mãos. – Eu não tive apoio científico pra nada, fiz tudo sozinha, enquanto eles tinham equipes inteiras, e até pesquisadores de carreira os ajudando. Eu apresentei em um monte de congressos, todo mundo aplaudiu e disse que era uma análise inovadora. Só que, no fim das contas, é algo que tem 40 anos, não é moderno nem revolucionário, então eu tô com medo de aparecer nesse jantar e me sentir inferior. – Levantou o olhar, observando um Lance comovido mas sem saber muito o que dizer.
– Olha, eu não entendo muito dessas coisas, mas parece muito mais difícil inovar em uma coisa que já vem sendo pesquisada há quatro décadas do em algo que acabou de aparecer e tudo é novo, certo? – Falou, com sinceridade. – Esse professor escolheu você porque você é uma das melhores, então você não tem mais nada a provar para ninguém. Já foi provado. O objetivo desse jantar, pelo que eu entendi, é só o comemorar que vocês são foda.
– E conseguir indicações para clínicas.
– Mas isso você tira de letra, não tem ninguém que converse melhor do que você. – Sorriu. – Você lidou a vida toda com encontros sociais de gente velha, chata e rica sem ter nada em comum, imagina tendo domínio do assunto? Eu mesmo não me preocupo. – Piscou e fez ela sorrir. – Você vai se dar bem, , mas se tudo der errado e você passar vergonha, eu digo que sou piloto e distraio todo mundo com minhas imensas conquistas e relatos da vida de sucesso, sexo e festas. – Engrossou a voz e investiu em uma pose parruda para imitar o suposto “personagem”, gerando uma gargalhada nela. – Vai dar certo, eu prometo. – Beijou a testa da inglesa, a abraçando e a colocando no chão, mantendo os braços ao redor dela.
– Tomara. – Sorriu torto. – Você já decidiu o que vai vestir?
– Minha mãe decidiu por mim, disse que se eu inventasse de ir de jaqueta ela me matava, então preferiu evitar perder o filho e ainda combinar com sua roupa. – Riu baixo. – Honestamente eu nem vi ainda, mas me senti atacado.
– Ela não mentiu e você sabe. Já perdi as contas das vezes que te encontrei nesses eventos e você estava de jeans. Jeans. – Brincou, dando ênfase na palavra e colocando as mãos nos ombros dele. – Mas falando a verdade, a gente precisa continuar amigos para sempre, porque quando eu casar sua mãe tem que escolher as roupas das madrinhas.
– E o seu vestido, e o da sua mãe, e o das daminhas, o terno dos convidados, do juiz… – Lance enumerou, virando os olhos com um sorriso. Desde que ela descobriu o trabalho de Claire, sempre pedia ajuda com tudo relativo ao tema porque a respeitava demais. – Eu sei, eu sei, nossa amizade existe porque você quer se aproveitar da minha mãe.
– Foi tudo um plano, desde o princípio. – Mostrou a língua para ele, o provocando um sorriso. – Mas sério, ela é a única pessoa que eu confio para evitar que meus padrinhos pareçam pinguins. – Ambos riram, enquanto ele cuidadosamente colocava o cabelo dela atrás das orelhas e atrás dos ombros.
– Eu com certeza ficaria um pinguim. – Brincou.
– Eu tenho certeza que sim. – Riu, iniciando um carinho na linha da mandíbula dele. – Promete que vai fazer essa barba para o meu casamento? – Falou baixinho, olhando para o local e sentindo os pelinhos. – Eu preciso de um padrinho bonitão. – Olhou de volta nos olhos do mais alto e sorriu.
– Eu gosto assim. – O rapaz deu de ombros.
– Eu também. – Riu sozinha. – Mas é meio tosca, vai. Você nunca deixa crescer toda, gosta desse meio termo. – Quando ela terminou, foi a vez dele mostrar a língua em um ato infantil. – É o mínimo, Lance! – Falou em um tom mais agudo, segurando o riso.
– O mínimo é não odiar o noivo, o que, levando em conta seu padrão de namorado, já vai ser difícil por si só. – Zoou com ela e levou um soquinho no ombro, bem leve, só para demonstrar indignação.
– Você não tem moral para reclamar de relacionamento quando você namorou a Liddy. – Apontou, rindo.
– Ela era legal, você que implicava com ela. – Deu de ombros, não segurando o sorriso.
– Ela que me ligava do nada pra me “avisar” que não era pra falar com você porque vocês estavam juntos, que “esqueceu” de te entregar o convite para o meu aniversário e que “acidentalmente” sempre cortava tudo que eu tinha pra dizer. Fora que o nome dela era Liddy, isso dá zero credibilidade! – Isso, associado à genuína revolta no rosto dela, o fez gargalhar.
– Você quer mesmo falar de namorados? Então vamos falar de namorados. Austin. – Lance falou, com a cara mais cínica possível, a vendo rir para si mesmo e começar as desculpas. – Você conseguiu o marco de namorar o cara mais SACAL do planeta.
– Ah, para com isso, ele era bem… estável. – Nem ela se aguentou com o adjetivo e riu alto. – Eu namorei com ele pensando no futuro, que ele seria um bom marido, essas coisas. – Deu de ombros, fazendo um carinho descompromissado na nuca do rapaz.
– Seria um ótimo marido, em oitenta anos. – Apontou, se juntando ao riso.
– E, além disso, ele era bonito e inteligente, ou seja, altas chances de filhos bonitos e inteligentes.
– O problema seria só fazer… – Sussurrou para si mesmo e recebeu, dessa vez, um tapa de verdade no braço, gargalhando.
– Cala a boca! – A voz dela subiu uma oitava e seu rosto ficou vermelho, o que o fez rir mais.
– Eu juro que comemorei um pouco quando vocês terminaram, aquele cara era um babaca. Você com certeza consegue alguém bem melhor.
– Tipo você? – Provocou como sempre tinha provocado, mas dessa vez se sentiu estranha, o mesmo tipo de estranha que se sentiu no provador da loja.
– Aí seria demais para você, mas alguém que chegue perto já é suficiente. – Riu, desconversando sem nem perceber o constrangimento dela. Ela estava pronta para engatar outro assunto quando percebeu as luzes sendo acesas e, instintivamente, os dois se afastaram como se estivessem fazendo algo de errado.
– Eita, esqueci que vocês comem o bolo. – Scotty, o namorado da Chloe, apareceu na porta do cômodo, sonolento e de pijama. – Desculpa interromper vocês, achei que não tinha ninguém aqui.
– Que nada, Scotty. – sorriu. – Ainda tem bolo, a gente não ia dar conta sozinho. – Apontou para o suporte com cerca de 1/6 do bolo restante.
– Eu vou pegar e vou vazar. Boa noite, galera. – O australiano levou a boleira inteira e dois garfos, o que dizia que provavelmente Chloe estava acordada. Em menos de um minuto, ele entrou e saiu sem deixar vestígios.
– Eu acho que isso é o sinal para a gente ir dormir que amanhã cedo tenho que ir para casa e você para a Itália. – Ela se referia ao Grande Prêmio da Emilia Romagna (Ímola), que seria um fim de semana curto e só começaria na sexta.
– Vem comigo, vai, você me faz bem e eu preciso de um pouquinho de sorte. – Puxou ela para perto pela cintura e fez um biquinho. Imediatamente, a única coisa que passou pela cabeça da britânica era beijar ele bem ali, para dizer o mínimo. A garota balançou a cabeça para afastar o pensamento, agora constante, e desviou o olhar. Repetiu consigo mesma: Pode ser o sono, a proximidade ou a saudade. Sono, proximidade, saudade. Um dos três, com certeza. Só isso.
– Sem apelação, Stroll. – Se recompôs. – A gente começou essa conversa com você dizendo que já tinha matado a saudade, fora que eu tenho prova prática presencial amanhã à tarde e já estou vacilando em dormir mal. Isso para não citar que você ainda vai pegar um voo e tem que estar pronto para o Track Walk em sete horas, o que te dá 4 horas de sono se você for deitar agora. – Enumerou.
– Estraga prazeres. – Ele riu e apertou o nariz dela. – Então eu vou dormir. Você vai comigo? No caso, amanhã, no jatinho. – Se confundiu com as palavras.
– Descer pra depois subir? Não rola. Vou de comercial, pelo menos dá para dormir até mais tarde. – Sorriu, dando de ombros após se referir ao mapa.
– Então até sábado que vem, certo? – Abriu os braços e ela se aninhou ali, o abraçando forte como despedida.
– Até. Boa sorte na corrida e juízo, ok? Vou estar torcendo. – Se afastou.
– Sempre. – Ele sorriu e se encaminhou para as escadas.
Entretanto, mais uma vez a sorte havia abandonado o menino Stroll. Depois de uma qualificatória ruim no sábado, que o garantiu uma P15 nada satisfatória no grid de largada, a corrida em si no domingo foi pior do que podia imaginar: após uma colisão com Esteban Ocon na primeira volta, que danificou a asa dianteira do carro dele, Lance já estava em péssimas condições quando a cereja foi colocada no bolo. Com os freios frios, o canadense não conseguiu parar na marca do pit stop e acidentalmente atropelou um mecânico, que Hollywoodianamente deu uma cambalhota para trás no impacto. Felizmente ninguém saiu ferido, pois o piloto tentou lidar da melhor forma na situação, mas a vergonha já estava passada. Depois do que havia sido uma primeira metade de campeonato incrível, atingindo até quarto lugar no campeonato de pilotos, a segunda metade estava sendo catastrófica: Corridas não terminadas, batidas nas quais ele não teve culpa, pneus furados, problemas técnicos, danos no carro… Lance Stroll era oficialmente a pessoa mais azarada do campeonato. E provavelmente em um raio de um quilômetro. E meio.

A semana passou rapidamente, com muitas chamadas de áudio e vídeo e um Lance não tão feliz. Nem sabia mais o que podia fazer para ajudá-lo. Tentou de tudo, até perder para ele nos jogos online para ver se um pouco de vitória e competição o fariam bem, mas sem sucesso. Chegado o esperado dia sete, mandou diversas mensagens para o rapaz, o lembrando do jantar e avisando que iria de carro até a casa dele na cidade e provavelmente dormiria lá, já que o evento seria na própria Londres. De acordo com a inglesa, uma total falta de respeito com quem morava em Oxford, mas compreensível porque a maioria dos escolhidos era da Capital, assim como o restaurante extremamente refinado no qual comeriam.
Um pouco antes das seis horas, apareceu na porta do amigo, extremamente nervosa. Apertou a campainha e encarou as unhas recém feitas – havia passado a tarde no salão, por pura insegurança, pois tanto a maquiagem leve, o cabelo em ondas quase naturais e as unhas nude poderiam muito bem ser feitas em casa. Estava começando a ficar impaciente quando o menino finalmente abriu a porta, com um rosto de tédio e abotoando as mangas da camisa social azul claro. Ela estava pronta para falar para ele que não precisava ir, mas não soube como reagir à reação dele a ela.
– Nossa… – Ele tentou formular uma frase, sem sucesso. – Nossa, . – Continuava a olhar para ela de cima a baixo, incrédulo, a vendo corar. – Você… uau. – Riu consigo mesmo e desistiu de falar algo que fizesse sentido. A garota vestia um macacão dourado sutil, com mangas boca de sino longas e corte reto na calça. Não era nem um pouco extravagante, puxava inclusive para o branco, mas brilhava por completo de uma forma quase angelical. O tecido fino e solto contrastava com o caimento mais geométrico e com a carteira preta fosca que ela segurava em mãos, dando um ar sério e ao mesmo tempo totalmente a cara dela.
– Eu vou aceitar isso como um “Você está linda e eu não desisti de ir com você”. – Ela riu sem humor.
– Hã? É claro que eu não desisti de ir com você, foi literalmente a única coisa boa pela qual esperei a semana toda depois da corrida. – Ele falou como se fosse óbvio e ela suspirou, relaxando. – E você está incrível, . Completamente linda… – Fez outra pausa para olhar mais um pouco para ela. – Entra. – Sorriu e abriu mais a porta, dando passagem. Não havia percebido, mas quando ela cruzou o caminho pela frente dele o canadense apertou as sobrancelhas. – Você tá quase da minha altura?!
– Dez centímetros. – Apontou para o salto nos próprios pés, rindo de canto. – Ainda me acostumando, mas eles são lindos, então graças a Deus vamos passar a noite sentados. – Piscou, brincando, e seguiu para sentar no sofá. Ele tentava não olhar fixamente para ela, para não ser estranho, mas não estava conseguindo superar o tanto que ela estava bonita naquela noite. Ela, por outro lado, estava fazendo um ótimo trabalho em esconder os olhares para ele. A barba recém feita era um capítulo à parte: ela sabia que ele tinha feito apenas porque ela pediu, e isso amolecia o coração da garota, por mais insignificante que pudesse ser. O cheiro suave do perfume amadeirado literalmente dominava toda a sala enquanto o moreno amarrava os cadarços dos tênis brancos que pareciam nunca terem sido usados. Ele usaria camisa social, calça social e faria a barba, mas sem condições de usar sapatos clássicos. Após alguns instantes, terminou a atividade e ficou de pé, pegando o telefone, a carteira e as chaves da casa.
– Vamos? – Sorriu para ela, que se levantou e se aproximou dele.
– Já pedi um Uber. Chega e quatro minutos. – Falou, despretensiosamente, enquanto fechava dois dos botões da camisa dele. – Eu não sei que fixação é essa com camisa aberta. – Riu e o olhou nos olhos, percebendo ali que ele estava completamente embasbacado com a presença dela, o que a fez rir. O homem engoliu em seco e seguiu até a porta, a abrindo e esperando a moça passar para trancar.
Passaram o caminho todo fazendo brincadeiras e rindo, mas, ao entrar no estacionamento do casarão onde ficava o restaurante, a garota travou completamente. Conseguiu apenas descer do carro, ficando estatística e não querendo dar mais nenhum passo à frente. Virou para o amigo e abriu a boca como se fosse falar algo, mas foi cortada antes de começar.
– Não, não dá para desistir. – Respondeu à pergunta que imaginou que ela faria, recebendo um olhar de súplica. – Não adianta fazer essa cara de cachorro abandonado. A gente vai entrar e você vai calar a boca dessa galera.
– Eu não quero calar a boca de ninguém, eu só quero ser tranquila e comedida, e que essa noite termine logo. – Fez um biquinho, ou pelo menos ele achou que ela fez, por ter a visão impedida pela máscara. Estava realmente angustiada. Lance então segurou a mão dela na dele, um ato extremamente simples, mas que funcionou como mágica: sentir os dedos dele entrelaçados nos dela e as pulseiras do rapaz tocando seu pulso a deram mais conforto do que pudesse imaginar, a fazendo respirar fundo. Com o coração já desacelerado, apertou a palma dele contra a sua e tomou ar.
– Eu não vou soltar, pode ficar tranquila. – Sussurrou e beijou a testa dela, baixando a própria proteção de face. – Eu tô aqui, com você, o tempo todo. Vai dar certo, . – Inconscientemente fez um carinho com o polegar no dorso da mão dela. – Vamos?
– Uhum. – Ela limpou a garganta e alinhou a coluna, colocando o cabelo atrás dos ombros e adotando uma postura que só poderia ser definida como “girl boss”. Ele riu com a mudança abrupta de aspecto e beijou agora a bochecha dela, a fazendo sorrir também. Era incrível como ela mudava totalmente quando encarnava o lado profissional.
– Você é perfeita. – Tentava segurar a risada a fim de alcançar uma postura mais séria, arrumando o tecido sobre o nariz.
Então, desse jeito e com as mãos dadas, os dois entraram no salão e imediatamente localizaram a mesa reservada – a única no imenso terraço do local, entra árvores iluminadas com luzes de natal. Ao passo que se aproximaram do ponto, todas as pessoas no recinto olhavam para o casal, o que passou despercebido por ele, mas aumentou a confiança dela. Antes de sentarem, cumprimentaram com acenos o professor e sua esposa, assim como todos os outros casais no local. Lance já estava atraindo alguns olhares das namoradas dos outros rapazes, mas quando puxou a cadeira para sentar ela pôde jurar que ouviu um suspiro vindo de uma delas. O namorado da dita cuja, Adam, cerrou os dentes imediatamente, o que fez a estudante se esforçar para conter o riso.
Alguns minutos depois, quando o último casal chegou, todos pediram as entradas e iniciaram um debate sobre a situação da pandemia, comentando principalmente sobre possibilidades de vacina. Como era de se esperar, entraram no mérito das próprias pesquisas sobre COVID, o que mais parecia uma medição de pênis coletiva: todos eles clamavam ter os melhores trabalhos e as maiores inovações, como previsto pela britânica. Vez ou outra ela colocava sua linha de trabalho em pauta e os outros desconversavam, mas o professor – a parte mais importante – não cessava os elogios a ela, sendo os elogios aos demais raros, o que a tranquilizava.
O assunto, por mais que mudasse, sempre era convertido em momentos de vangloriação, em todos os aspectos que fossem: esportes, viagens, carros, amizades famosas. não verbalizava uma palavra, primeiro porque achava ridículo, segundo porque não tinha mérito algum em comparar dinheiro dos pais (ninguém ali sabia da sua origem, e ela preferia assim) e terceiro porque brincar com os dedos do morenos em baixo da mesa era muito mais divertido – principalmente quando estava ganhando de três a dois na batalha de polegares.
Em um dado momento, começaram a comparar os acompanhantes e a inglesa visualmente virou os olhos. O nervosismo dela se transformou em total falta de paciência, principalmente porque mal havia terminado as entradas e ainda tinha um longo tempo de jantar pela frente. A pior parte de todo esse showzinho de exibição era que os rapazes enchiam as bocas para falarem que suas namoradas eram modelos, figuras da caridade, graduandas em Línguas ou campeãs de xadrez, mas não as deixavam falar uma palavra – além de sempre depositarem um tom de desdém, reafirmando para si mesmos que mulheres não podiam ser melhores que eles. Olhando por fora, as acompanhantes pareciam estar ali apenas como troféus, reafirmando a ideia machista que esses caras já tinham na cabeça: eles eram incríveis e as mulheres seus prêmios. Lance, que era tranquilo por natureza, já estava ficando incomodado com o tanto que as meninas estavam sendo silenciadas que tomou para si a responsabilidade, antes que a garota ao seu lado explodisse de raiva.
– Ashley, certo? – Comentou para a ruiva em sua frente, que parecia alguém amigável demais para ser cortada tão bruscamente como foi pelo namorado. Com um aceno de cabeça, ela confirmou. – Você falou que fazia Engenharia, né? – Mais uma afirmativa. – Qual o tipo? Eu acho que faria engenharia se estivesse na faculdade, acho incrível.
– Mecânica, por isso que eu sei quem você é. – Ela sorriu, o fazendo sorrir também.
– Eu falei para ela que isso era coisa de homem, que ela devia fazer algo mais feminino. – Evan, o companheiro dela, falou sem entusiasmo. estava fumaçando de raiva, sendo acalmada momentaneamente por um carinho no joelho. – Vocês se conhecem?
– Não exatamente. – Os dois e riram, fazendo todo o resto da mesa se entreolhar com confusão. – Como eu disse, não faço faculdade, mas acho que posso dar uma força pra ela ano que vem. – Piscou para a moça, que assentiu veementemente à proposta, atraindo agora olhares atentos dos restantes.
– Você ainda não disse o que faz da vida, “Chance”. – Evan perguntou com desdém e teve que respirar fundo para não perder a compostura. Aquele idiota estava dando nos nervos dela, a sorte era que o canadense ao seu lado era provavelmente a pessoa mais calma de todas.
– É “Lance”. – Corrigiu, com um sorriso. – E eu trabalho com corridas.
– Corridas? – O loiro debochou, recebendo outro sorriso em resposta, o que o irritou um pouco. – Como racha? Essas coisas?
– Não, como Fórmula 1. – praticamente cuspiu. Se eles não iam parar de comparar os pintos (agora dos acompanhantes), pelo menos ela calaria a boca de todos eles.
– Mas como você trabalha lá? Achei que tinha que ter se formado em algo até para ser mecânico. – Mais uma vez, o tom de desdém.
– Eu sou piloto. – E mais uma vez, a gentileza sem precedentes na fala dele estressou o interlocutor. – E provavelmente são os únicos cargos que não precisam de graduação mesmo, por isso eu acho engenharia incrível, essa galera que faz tudo possível. – Olhou para Ashley.
– Certo, agora fala a verdade. – Evan falou, com a cara mais séria possível. , que estava tomando um gole de sua água, se engasgou imediatamente. Ela estava ficando REVOLTADA com as merdas desse cara, mas mais uma vez a calma do amigo a atingiu, quando voltou a fazer o carinho no joelho dela. – São tipo umas 30 pessoas no mundo que são pilotos disso, claramente você tá mentindo.
– 20, na verdade, sem contar os reservas. – A ruiva pontuou.
– Eu não tenho por que mentir. Coloca no Google. – Abriu um sorriso largo, agora prestando atenção no rosto do outro quando esse pegou o celular. – Stroll, se facilitar. – Nesse momento, todos encaravam a face pálida do Evan Wood, e quando ele arregalou os olhos foi quase impossível segurar a risada. O aluno colocou o celular no bolso, furioso. – E aí? Achou? – Lance se deu ao luxo de debochar um pouquinho, vendo o cara apenas balançar a cabeça em afirmação. – Mas esse não é o foco desse jantar, então vamos falar das coisas que realmente importam. – Olhou para a menina do seu lado. – Eu não entendo muito dessas coisas, mas a me falou sobre uma história de clínicas para os próximos três anos. Como isso funciona? – Ele parecia genuinamente interessado, segurando a mão dela e prestando atenção no que o professor falava. A garota não conseguiu segurar um suspiro baixinho ao ver a cena.
O professor seguiu explicando como a organização do curso funcionava e pediu para que todos falassem um pouco dos seus projetos, sem comentários sobre congressos, prêmios ou escores, apenas a linha de pesquisa. Até ele estava ficando farto daquelas ceninhas todas. Um a um, todos foram comentando e conversando, e pela primeira vez na noite o ambiente estava amigável e todos trocavam elogios mútuos, inclusive planejando iniciarem algumas linhas de pesquisa unidos, até que chegou a vez do Evan.
– Como eu falei antes, minha linha de trabalho é em fármacos trombolíticos de forma preventiva para pacientes COVID positivo com indícios de elevação de D-Dímero. É algo muito avançado então não espero que todos entendam, mas como mais de 70% dos óbitos pela doença envolvem coagulopatias é algo que pode salvar vidas. – rolou os olhos, o que estava virando hábito. Não, não era avançado, muito menos complicado, e praticamente todos na mesa sabiam daquilo, mas como os resultados dele foram impressionantes, Wood estava naquela mesa, o que irritava ainda mais quem sabia a verdade. – Eu chamei a e a Maya para compor equipe junto comigo e com o Michael, meu colega, porque as duas são muito interessadas em endovascular. Elas estavam ocupadas com seus projetos, então disseram que não, o que foi uma pena, porque agora nosso estudo é revolucionário e não mais do mesmo. O que me deixa muito feliz em ver ela aqui, mostrando que conseguiu sozinha. Não é algo grande, mas a gente sabe que cada um faz aquilo no limite da sua capacidade, e bom, sabemos também que é mais difícil para ela, então ter feito esse trabalhinho de biomarcadores já é bem impressionante. Parabéns, . – A cada letra que ele falava ela borbulhava de ódio. Não tinha carinho, palavras de conforto ou abraços que conseguiriam segurar aquela raiva.
– Você só pode estar de brincadeira com a minha cara. – A inglesa riu cinicamente.
– Não vale a pena, . – Lance tentou freá-la, sem sucesso.
– Me diz, qual é a porra do seu problema, Wood? Você tem a cabeça tão enfiada no próprio cu que não entende as merdas que fala? – Falou, sem elevar a voz e sem perder a classe, fazendo todos os presentes arregalarem os olhos e segurarem o riso. – Você não tem um pingo de noção. Limite da minha capacidade? Mais difícil pra mim? Você só tá dolorido porque nem eu nem a Maya queríamos sustentar você na pesquisa, você tem completa consciência de que a gente está muito acima do seu nível. Seu trabalho só não é uma completa bosta porque você pagou para fazerem por você e, advinha só, quase todo mundo aqui sabe disso, a gente só gosta de ver você encher a boca pra se gabar do serviço dos outros como um completo idiota.
– Veja bem como você fala comigo, garota. – Evan engrossou a voz e colocou os punhos sobre a mesa.
– Você vai fazer o que? Chamar o seu pai? Você sabe que eu não tô mentindo. – Deu de ombros.
– Você pode segurar sua namoradinha antes que ela surte e destrua a própria carreira? – Falou, olhando para Lance.
– Primeiro, quem está vermelho e perdendo a compostura aqui é você, e segundo, namoradinha é o caralho, não tem homem no mundo que venha me segurar, seu machista de merda. – seguiu com um sorriso, num tom tão amigável que parecia estar dando as boas-vindas a um casamento, e a esposa do professor cuspiu o próprio vinho em uma risada, que logo tentou esconder.
– Você vai deixar ela falar assim? – Ele rangeu os dentes para o piloto, em mais uma tentativa.
– Você não me escutou, por acaso? Deve ser algo cognitivo, não é possível. Ele não tem que deixar ou não deixar eu falar algo, a porra da boca minha e eu falo o que eu quiser, seu idiota.
– A porra da boca é dela. – Stroll deu de ombros, a reafirmando, mas também rindo.
– Deve ser só pra isso que serve mesmo. – Evan bufou e imediatamente Lance colocou os cotovelos em cima da mesa e projetou o corpo para frente, assumindo uma postura rígida e, pela primeira vez, estressada.
– Eu acho melhor você pedir desculpas e ir embora agora. – Falou, em tom bem mais grave do que o normal e fuzilando o loiro com os olhos. A mesa estava em silêncio e o clima ficou pesado. – Agora. – Repetiu..
– Quem quis pegar ela foi você, agora tem que aguentar a faminha e dividir com os outros. – Evan riu sarcástico e, em um rompante, o canadense levantou da cadeira com tanta brutalidade que atingiu a mesa e fez todos os talheres tilintarem. só tinha o visto bravo assim duas vezes na vida, em situações semelhantes com a própria irmã.
– Lance… – Segurou na mão dele, balançando a cabeça em “não” e o olhando nos olhos. Com uma respiração profunda, ele se sentou novamente e ela continuou a falar. – Olha, Evan, eu acho realmente melhor você ir embora. Na verdade, eu acho melhor você sumir da minha frente com esse pintinho mole e essas reprovações no ciclo básico, e deixar essa garota, porque ela merece muito mais do que você, se não eu vou expor tudo o que eu sei e você nunca mais pisa num hospital na vida.
– Reprovações? – Agora foi a vez do professor se indignar.
– Pelo menos quatro, pelo que eu sei. O pai dele tem advogados que acharam brechas no regulamento da universidade para ele ter direito a “provas extras” e pagava aos professores para elas serem fáceis. Eu sei disso porque em quatro dessas matérias eu era monitora e eu que elaborei as provas, o pedido era “um nível bem baixo” para ele ser aprovado de todo jeito. Ele é expert em pagar as pessoas para deixar tudo mais fácil, certo Evan? Vocês sabiam que ele pagou pesquisadores de um laboratório privado para conduzirem os experimentos dele? Esse filho da puta só assinou o nome no final. – Sorriu, meiga, vendo o loiro ficar roxo de ódio. – Como eu sei disso? Eu fiz um curso lá e eu que preparei algumas das amostras, junto com mais dez estudantes, e ele nunca citou essa mão de obra no trabalho, citou? Tenho certeza que não. Inclusive isso pode até atrapalhar o resultado, já que estávamos aprendendo e ele usou como amostra profissional.
– E como você sabe que o pinto dele é mole?
– Eu nunca vi, mas você duvida? – E, pela primeira vez, ela riu debochada, fazendo os outros rirem abertamente. Wood jogou o guardanapo com força em cima da mesa e saiu revoltado. Ashley ia o seguir, mas olhou para a menina e decidiu escolher por si mesma e ficar sentada. respirou fundo e se virou para o professor, iniciando uma desculpa longa. – Dr Emmet, mil perdões por tudo isso. – Suspirou. – O senhor sabe que eu tentei manter a compostura durante todos esses meses, eu sei que o senhor percebeu essa mentalidade dele. Não queria causar nenhum tipo de confusão, mas misoginia é algo que eu não tolero, principalmente vindo desse tipo de gente. Eu venho aguentando há muito tempo, tentando me manter no academicismo, mas o que aconteceu aqui passou de todos os limites. Debater projetos é uma coisa, debater minha capacidade de executá-los ou não por eu ser mulher é outra totalmente diferente, isso pra não citar esse showzinho dele sobre o que é e o que não é coisa de mulher de acordo com a masculinidade frágil dele. Eu precisava falar algo, por mim e pelas outras meninas aqui, inclusive espero que os outros caras tenham aprendido algo com isso. Enfim, me desculpa por tudo isso, mas eu não podia ficar calada.
– Sem problemas, minha filha, não tem pelo que se desculpar. Talvez pela quantidade de palavrões, mas isso foi compreensível. – Contrariando as expectativas de reprimenda dela, ele riu. – Deixou mais divertido de assistir quando você acabou com ele. – Ele gargalhou e todos na mesa se uniram a ele; suspirando aliviada. – Mas foi importante e também me abriu os olhos. – Respirou fundo e assumiu postura séria. – Eu sabia da questão da farmacêutica privada, mas não sobre as reprovações e mão de obra de estudantes. Depois de hoje, vou retirar minhas recomendações e informar ao colegiado esse caso, para avaliação sobre suspensão e até rematrícula nas cadeiras em que isso ocorreu. Eu peço desculpas pelo desconforto que minha escolha gerou, mas a partir de hoje ele não faz mais parte desse grupo. Primeiramente por causa das reprovações e furos de pesquisa, mas principalmente por causa dessa postura ridícula que presenciamos. Isso mancha o meu currículo e a minha reputação e jamais quero ser associado a esse tipo de comportamento. Ou esse tipo de gente. Peço perdão, mas acho que não temos mais clima para finalizar esse jantar, podem ir para suas casas. – Respirou, desapontado. Após isso, todos sentiram realmente o clima coletivo baixar, então pediram seus Taxis e Ubers e foram se despedindo aos poucos, entre algumas risadas eventuais sobre o caos que acontecera e pedidos de desculpa. Lance pegou o número da Ashley e afirmou que entraria em contato com ela no próximo Grande Prêmio de Silverstone, para a entregar um passe de Paddock para ela conhecer tudo por dentro. Com o alerta de que faltavam cinco minutos para o Uber chegar, o casal se encaminhou para a frente do casarão. Já com uma distância boa andada no jardim que levava até o portão, o canadense agarrou a menina por trás em um abraço e a ergueu no ar, rindo junto com ela.
– Vem aqui, namoradinha. – Beijou a dobra do pescoço dela, em meio a gargalhadas, enquanto a enchia de cócegas.
– Para, idiota. – Ela ria alto.
– Cansou de ser boca suja? – Virou ela de frente para si pela cintura.
– Eu exagerei, né? – Cobriu os olhos, rindo.
– Só um pouquinho. – Mostrou com os dedos. – Aquele plano de ser comedida, entretanto, foi totalmente para o espaço. – Fez mais cócegas nela, aproveitando o som da risada. – Vamos pra casa.
– Posso dormir no seu sofá? Não quero dirigir pra Oxford hoje. – Fez um biquinho. O quarto de hóspedes dele estava sendo reformado, então só sobrava o sofá mesmo.
–Você dorme na minha cama, eu durmo no sofá. Você merece depois de hoje. – Fez um carinho no rosto dela e voltou a rir, lembrando das cenas do jantar.
– Sabe o que eu queria?
– Diz.
– Subway. Eu tô morta de fome, não deu tempo de comer nada. – Gargalhou.

O casal entrou no apartamento rindo, depois de jantarem o sanduíche mais melecado de molho da história e tomarem sorvetes de menta até não aguentarem mais. Ele jogou as chaves e o celular e na mesa do hall e ela fez o mesmo com a bolsa, tirando os saltos imediatamente e soltando um suspiro, ato que ele repetiu devido ao vírus.
– Eu preciso de um banho. – Ela constatou, retirando a máscara e colocando em um saquinho plástico que pegara na entrada. – Não que eu esteja suja, eu só preciso limpar esse vibe ruim de mim.
– E o coronavírus. – Lance completou, seguindo para o corredor, já sem a proteção facial.
– E o coronavírus. – Ergueu as sobrancelhas como se tivesse quase esquecido, sorrindo em seguida.
– Antes, vem aqui. – Ele já estava na cozinha buscando um copo de água. Quando ela entrou no cômodo, o rapaz esticou o braço para ela, que segurou a mão dele e se aproximou com um abraço na cintura. – Eu só queria dizer que tô muito orgulhoso de você. Do seu trabalho, do seu esforço, do seu talento, da sua inteligência e principalmente do modo que você lidou hoje, sem subir a voz nenhuma vez. – Fez um carinho na bochecha dela. – Podia ter falado menos palavrões? Podia. – Ela riu baixo. – Mas você foi incrível. Foi o tipo de coisa que eu só queria cutucar o cara do meu lado e dizer “Essa é a minha menina.”.
– Eu gosto quando você me chama assim, sabia? – Corou um pouco. – Eu sei que parece meio possessivo, mas eu gosto de verdade. Senti falta de ouvir.
– Eu te chamando de minha? – Brincou e viu ela ficar ainda mais ruborizada, assentindo sem o olhar nos olhos. – Então vou te chamar mais vezes, se for para te ver vermelhinha assim. – Riu e apertou o nariz da garota de brincadeira, usando a mão que repousava nas costas dela para trazê-la para mais perto. Circundada pelos braços dele, mexia desatentamente em um dos botões da blusa que o rapaz vestia.
– Obrigada por ter ido comigo, essa noite foi incrível. – Levantou o olhar.
– E você estava com medo. – Stroll comentou, fazendo um carinho nela com os polegares. – Você acabou com eles. – Riu.
– Eu acho que acabei mesmo. – Sorriu de canto. – Mas não conseguiria sem você lá comigo, principalmente quando ele falou aquelas coisas no final. Apesar de não querer ver você brigando, me deu um tempinho pra pensar no que fazer.
– Eu quase perdi a cabeça ali, você ter me parado e ter exposto tudo aquilo foi a melhor saída possível. – Curvou os lábios, segurando o rosto dela e acariciando a bochecha da garota. – Eu tenho quase certeza que você tiraria de letra sozinha, mas eu tenho que admitir que também gostei da noite, não foi nem um pouco chata. – Ambos riram. – Na próxima rinha de intelectuais, você tem que me chamar.
– Pode ter certeza que eu vou. – Ela brincou e os dois deram mais uma risada, mergulhando em um silêncio confortável em seguida. Eles tinham os olhares conectados, praticamente como se estivessem numa bolha só deles, mais uma vez. O toque suave dos dedos dele no rosto dela a dava certa sensação de paz, de que nada estava errado. Lance sentia o cheiro de camomila do cabelo da amiga por baixo do perfume escolhido, e refletia consigo mesmo o tanto que aquele aroma o lembrava outros tempos. Naquele momento, o rapaz prestava atenção em cada detalhe do rosto dela, tentando decorar cada linha, mas prestando atenção especial aos lábios. A única luz acesa era a embutida no roda-teto de gesso, deixando a iluminação no mínimo possível e dando um ar mais confortável a todo aquele sentimento ainda não nomeado.
– Para de me olhar assim… – sussurrou, baixando a vista mais uma vez, só que com um sorriso tímido, mas divertido. Lance não podia ver, mas apostaria que ela estava corada.
– Não dá. – Respondeu, brincalhão.
– Sério, Lance… – Falou manhosa, mas com ar de riso.
– Eu juro. – A puxou para ainda mais perto, colando seus corpos, e alinhou uma mecha do cabelo dela por trás da orelha. – Você é tão linda… – Sussurrou ao pé do ouvido, a fazendo engolir em seco. – Tão linda… – Enfatizou o “tão”, agora sim a vendo corar, pela proximidade e pelos olhos mais acostumados com o breu. – É mais forte do que eu. E vermelhinha assim, nossa… – Sorriu galanteador. – É impossível não olhar para você e ficar totalmente perdido.
– Você quer me fazer explodir de vergonha, Stroll? – Retomou a postura e o olhou nos olhos, rindo para quebrar o clima.
– Se eu quero alguma coisa, essa coisa é te beijar. – Falou, curto e grosso, abrindo um riso de canto de boca em seguida. A garota, em contrapartida, gelou: ficou completamente pálida e estática. – Eu quero te beijar, . – Repetiu, lentamente e olhando para a boca dela, e ela seguia sem ação, com os olhos arregalados. A informação parecia não proceder no cérebro britânico da moça, e sentir o carinho dele na mandíbula e a respiração quente perto do rosto não eram exatamente combustível para pensamentos lógicos. – Esse tempo todo longe de você foi péssimo, mas te ter pertinho de mim assim de novo… eu nunca percebi o quanto eu gosto de você. E é muito, . Muito. – As palavras saíam calmamente enquanto o mais velho aproximava a boca a ela. – Eu não consigo parar de pensar em você… – Falou, de forma quase inaudível, praticamente encostando os lábios nos da garota. – … então me deixa te beijar. – Com as testas coladas, os narizes encostados e as respirações se misturando, Lance deixou a decisão nas mãos dela. Mas ela, por outro lado, mal conseguia ouvir os pensamentos de tão alto e forte que o coração batia. Em um lapso de coragem e sem refletir muito, só balançou a cabeça em afirmação, imediatamente sentindo a boca dele contra a sua. Fechar os olhos foi quase obrigatório quando sentiu todo o corpo reagir àquele toque, não fazendo ideia de como permanecia em pé. Podia ser só um selinho, mas deixou a estudante totalmente desorientada. Com poucos segundos, empurrou o peito do piloto levemente, respirando fundo para suprir o ar que a deixara: eram muitos sentimentos, muito fortes, ao mesmo tempo e todos difíceis de nomear.
Um sorriso foi inevitável quando Stroll percebeu o rosto dela ainda tentando processar o que tinha acontecido – era de uma fofura sem igual. Não poderia perder a chance, então ergueu o queixo da menina e a olhou nos olhos, totalmente apaixonado. não reagiu com um riso, ou corou, ela apenas se mostrava extremamente vulnerável e um tanto quanto confusa. Era estranho a ver assim, pequenininha entre os braços, quando a viu como um furacão uma hora atrás, mas isso exprimia confiança. confiava muito no canadense, e aquela vulnerabilidade escondida era algo que ele sabia que não podia magoar. Engolindo em seco por várias vezes, um milhão de pensamentos cruzavam a mente da menina, mas nenhum ficava tempo suficiente para poder ser entendido, a atenção estando focada toda na boca dele. Hesitando em repetir o ato, mas querendo muito, sorriu quando sentiu mais uma vez o contato dele. As borboletas no estômago agora pareciam estar em toda parte, a fazendo relaxar e o segurar pelos ombros e pescoço. As mãos do rapaz agora estavam ambas na cintura dela, a segurando como se ela pudesse cair – e pelas pernas que bambearam algumas vezes, isso até fosse possível – e dando abertura para um beijo mais intenso. Quanto mais ela o beijava, mais ela queria continuar, perdendo a noção de há quanto tempo estavam ali. Quando a falta de ar bateu e eles tiveram que se afastar, a respiração ofegante do rapaz a fez voltar para a realidade. Ainda com os olhos fechados, ele era uma visão a ser contemplada, o que a arrepiou por completo e acendeu uma luz vermelha no cérebro.
– Calma… – O afastou pelo peito, poucos centímetros, mas o suficiente para que o ar exalado por ele não a desconcentrasse. – A gente não pensou direito sobre isso, Lance. – Falou, entre respirações profundas.
– Não tem o que pensar. Eu sou completamente louco por você e sei que você gosta de mim, nem que seja só um pouquinho. – Com uma voz rouca, ele mais uma vez excedeu na tarefa de arrepiar todo o corpo dela.
– Eu amo você, idiota. – Acariciou o rosto dele, falando ao olhar nos olhos. – E justamente por isso eu pergunto: e se isso der errado? Eu não tô preparada para te perder e…
– Quem disse que você vai me perder? – Se aproximou novamente.
– É sério. – Desviou o rosto para a direita, se afastando um pouco dele. – Isso aconteceu do nada, Lance. – Suspirou, o olhando. – Anos que a gente é amigo, ai a gente se afasta por tanto tempo, e eu tava morta de saudades de você, aí a gente se reencontra e tudo tá tão igual mas tá tão diferente… eu não sei quando eu comecei a sentir essas coisas, mas… por que você tá rindo? – Ela interrompeu a fala gesticulada com um biquinho, em resposta ao riso contido do homem.
– Porque você tá muito linda toda preocupada. – Sorriu.
– É sério, Stroll.
– Eu sei que é sério. Eu tô sentindo a mesma coisa, que parece que foi do nada mas também que já iria acontecer. – Beijou a bochecha dela.
– A gente tem que pensar bem nisso para não dar errado.
– Como pode dar errado se é a gente? – Sorriu e andou um pouco com ela, até encostar as costas da garota na ilha da cozinha, voltando a aproximar seus rostos.
– Lance… – Deitou a cabeça no próprio ombro, fazendo um pedido com os olhos.
… – Repetiu a manha, a fazendo rir enquanto fazia um leve carinho no cabelo dela.
– Não faz assim que você sabe que eu cedo.
– Mas eu quero que você ceda. – Brincou com uma mecha, um riso divertido no rosto. Se aproximou do pescoço da garota e depositou pequenos beijinhos durante todo o percurso até a boca dela, bem devagar.
– Golpe muito baixo. – riu e enlaçou o pescoço do mais alto, cedendo ao beijo.
– Eu preciso usar todos os artifícios… – Deu uma pausa. – Principalmente pra garantir minha garota. – Riu, a vendo ficar vermelha com o termo. – Você gosta mesmo, né? – Ela assentiu, rindo junto e iniciando outro beijo. Era algo tão orgânico e tão natural que parecia que os dois foram feitos um para o outro, só faltava a oportunidade. Em outra pausa por ar, o casal sentia tanta necessidade por proximidade que não separaram os rostos, e o menino aproveitou para brincar com a moça em sua frente. – Eu não vejo a hora de ter você toda pra mim. – Sussurrou. – Só pra mim. – Selou os lábios dela.
– Por que você faz isso, hein? – Ela cobriu a face instintivamente, rindo de nervoso.
– Sua reação responde a minha pergunta. – Riu e a beijou novamente. Dessa vez, o ritmo era mais rápido e mais urgente, como se fosse pura necessidade. A cada pausa, as buscas por ar eram mais curtas e o sentimento de insatisfação crescia. Não queriam se separar de forma alguma, então alguns instintos tomaram conta. Quando deu por si, havia desabotoado a barra da blusa dele e ele prosseguia para a retirar. Em meio aos lábios do mais velho tomando seu pescoço, a britânica viu de relance a tatuagem dele recém retocada, ainda com a cobertura plástica, então o choque de realidade bateu e o afastamento foi brusco, o deixando totalmente confuso.
– Tá tudo bem? Eu te machuquei? – Perguntou, preocupado.
– Não, tá tudo bem sim… Isso só tá indo rápido demais… Eu acho melhor eu ir para casa. – Suspirou, levando o polegar ao canto da boca.
– Eu te levo, tá tarde. – O rapaz vestiu a camisa novamente, a abotoando rapidamente.
– Eu acho melhor eu ir sozinha. – Falou baixo, olhando para as próprias palmas.
– São quase duas horas de estrada e…
– Eu prefiro ir só. – O cortou, na defensiva. – Agora eu não confio em mim mesma perto de você. Claramente eu não paro pra pensar e… – Levou uma mão para cobrir os olhos, a angústia crescendo a cada palavra falada. O que ela tinha acabado de fazer? – Vai piorar tudo. – Suspirou, indo em direção ao hall com o moreno em seu encalço.
– Você tá bem? Pra dirigir? Sem sono?
– Uhum. – Balançou a cabeça, pegando as chaves, a bolsa e os sapatos. – Obrigada pelo jantar.
– Cuidado na rodovia. Me avisa quando chegar, ok? – Ele falou e ela apenas assentiu, cruzando a porta em um misto de medo e covardia. Pela primeira vez em toda a vida, não fazia ideia do que fazer.

Fazia duas horas que a garota havia deixado Londres e Lance ainda estava deitado no sofá, depois de um longo banho, refletindo sobre o que tinha acontecido. Olhando para o teto, sem ter a mínima ideia de como proceder, só foi acordado do transe quando ouviu seu telefone tocar. Esticou o corpo até a mesa de centro e pegou o aparelho, vendo a foto da irmã e o levando ao ouvido.
Você não vai acreditar! – Ela começou, agitada de felicidade.
– Em que? – Soltou um sorriso genuíno. Pequeno, mas genuíno.
Eu acabei de vender uma música! – Chloe soltava gritinhos de emoção. – Vender mesmo, eles gostaram da letra, entraram em contato e eu vendi. Uma música minha, Lance! A letra e todos os arranjos, tudo eu! Eles gostaram de verdade! – Não conseguia parar de rir na linha.
– Chlo, isso é incrível! – Agora o garoto parecia realmente feliz. – Eu sempre disse que você ia conseguir, cara! Você é ótima, eu sempre disse! – Dava para ouvir o sorriso na voz dele. – Qual foi? Mirrors?
Exatamente! – Ela seguia com os sons desconexos de pura alegria. – A minha favorita.
– A minha também, é simplesmente incrível. Você deu tudo nela. – Afirmou.
A tá aí? Conta pra ela! Ela vai ficar louca. – Disse, animadamente.
– Ela já foi, mas com certeza vai ficar feliz quando souber. – Murchou, lembrando do ocorrido que o fez divagar por horas a fio.
Nossa, que quebra de clima essa sua voz. Ela foi pra Oxford? Sozinha? Que tipo de amigo você é? – Brincou, mas quando não ouviu uma risada como resposta, a irmã mais velha percebeu que algo estava errado. – O que rolou?
– Amanhã a gente conversa, você tem que curtir seu momento. Extremamente merecido, por sinal. – Tentou parecer motivado.
Corta essa. Eu sou sua irmã mais velha, essa responsabilidade é minha. Fora que vai que eu te contagio com minha alegria e resolvo sua bronca, seria mais um motivo para felicidade. – Riu.
– Não fala de contágio, boa coisa isso não atrai. – Comentou, sem humor, mas a irmã seguia aguardando pelo motivo do abatimento. – Eu acho que eu acabei de destruir a minha maior amizade. – Ele verbalizou exatamente o que martelava sua mente naquele momento, com um tom sarcástico e um pequeno riso meio desesperado.
Brigou com a ? Se brigou, nem estressa, vocês sempre se resolvem. Fica tranquilo, de verdade. – Chloe apontou, tentando ver o lado bom do pudesse ter acontecido.
– Antes fosse isso. – Respirou fundo. – Eu beijei ela, Chlo. – O silêncio da interlocutora foi sepulcral, dando margem para que ele continuasse. – Na verdade, a gente se beijou. E bastante. – Ele não podia ver, mas a irmã havia arregalado os olhos. – E eu juro, foi o melhor beijo da minha vida, mas ela ficou com medo que isso estragasse a nossa amizade e foi embora, mas eu acho que realmente já foi tudo pra o ralo. – Mais um momento de silêncio. O mais novo esperava avidamente por uma resposta, um comentário, uma reclamação, qualquer coisa, mas não vinha. – Tá vendo? Se nem você sabe o que falar é porque eu tô realmente fodido. – Bufou, levando uma das mãos aos olhos. – Sete anos no lixo porque não consegui me segurar.
Calma, Lance. – Tentou pensar em algo inteligente a dizer rapidamente, mas ainda estava surpresa com a informação. – Vê, uma hora isso iria acontecer, tava claro pra todo mundo. Vocês vão se resolver, sempre se resolvem. – “Era melhor ter ficado calada do que lançar esse clichê” Chloe riu consigo mesma. – Como ela reagiu? Como foi que isso rolou?
– A gente chegou do jantar, estava conversando e… – Ele suspirou sozinho, ouvindo um riso em resposta. – Eu pedi pra beijar ela e ela deixou. Na hora, foi como se eu estivesse esperando minha vida toda por aquilo, sabe? Ela sorri no meio do beijo, Chlo. – Outro suspiro. – Parecia que meu peito ia fisicamente explodir, que não tinha mais ninguém no mundo, só ela. Então eu cheguei à conclusão que eu tô completamente fodido porque eu acho que tô apaixonado por ela.
Você ainda acha? – A cantora riu. – É óbvio, cara. Você sempre esteve, eu não sei como essa informação é nova, só acho que você demorou a descobrir.
– Isso não ajuda em nada. – Balançou a cabeça, ironicamente rindo. – Pra quem trabalha escrevendo música sobre sentimentos, você é péssima em lidar com eles. – Os dois brincaram, deixando o ambiente leve. Lance colocou as mãos no próprio rosto e pensou sobre tudo mais uma vez: talvez todo mundo estivesse certo esse tempo todo, o que talvez deixasse tudo pior.

Do minuto que ela desligou o motor do carro em diante, respirou fundo e voltou a pensar completamente no beijo. Enquanto dirigia, as luzes – ou a falta delas – na estrada a deixavam concentrada. O rádio tocava baixinho a estação dos anos 80, que normalmente ela ouviria alegremente, mas hoje apenas sussurrou as letras. Pensa, , pensa. Ela tentava colocar os eventos em ordem lógica e cronológica e entender quando diabos tinha sentido aquilo por ele, quando que beijar ele tinha se tornado mais do que uma opção – e se tornado um desejo – e não conseguia colocar data. Voltou mentalmente em todos os momentos que lembrou de terceiros achando que os dois era um casal e percebeu que, realmente, só faltavam se beijar. Agora que tinham se beijado, o que aconteceria? Passava por todos os estágios em um rompante de pensamento: tristeza, felicidade, aflição, constrangimento, medo… e depois tudo recomeçava. Que merda ele tinha feito com a cabeça dela?
Decidiu entrar em casa, jogando os sapatos de qualquer jeito e literalmente deitando no chão do hall de entrada: Não tinha forças pra tomar banho naquele minuto, mas não contaminaria tudo por isso. Com o barulho das chaves, Maya, uma indiana que estava dividindo a casa com ela pois não pôde ir para seu país durante a quarentena (e também sua melhor amiga da faculdade) apareceu, notando o estado deplorável da britânica.
– Tá tudo bem? Como foi o jantar? – Perguntou, receosa.
– O jantar em si foi ótimo, até briga de nerd teve. – Respondeu, um tanto quanto apática, retirando a máscara.
– E por que essa cara de confusão? Melhor dizendo, por que você tá aqui? São duas horas de estrada! Achei que ia dormir na casa do Lance. – Maya falou, se aproximando da amiga até a faixa amarela colada no chão entre a sala e o Hall, que elas definiram como “limite do corona”. , em contrapartida, estava em outro plano. Tocando os lábios com o indicador e sentindo o gosto do álcool gel neles misturado com o gosto da boca dele, se sentiu estúpida. – ? ? – A amiga insistiu, sem resposta. – Onde você tá com a cabeça, garota? – A moça deitada no chão abriu a boca, entediada, como que fosse falar algo, mas foi interrompida por uma notificação. Maya pegou o próprio telefone em mãos e franziu a testa quando viu o nome do canadense acender na tela. – O Lance acabou de me perguntar se você chegou bem… por que ele não perguntou a você? – Enfatizou o “você”, vendo a inglesa respirar fundo e pegando logo uma cadeira para sentar próxima à faixa amarela. – Vai, , me conta logo o que rolou. – Mudou o tom de voz, pronta para uma das conversas complicadas que elas tinham de vez em quando.
– Ele me beijou. – falou baixinho, ainda com o indicador sobre a boca e olhando para o teto.
– QUE? – Já Maya não conseguiu conter a surpresa. – O Lance? – Viu a amiga assentir com a cabeça. – E por que você não está feliz? Quer dizer, tava claro pra todo mundo que vocês se gostavam.
– Eu nem sabia que eu queria beijar ele, Maya.
– Mas tava claro que você queria.
– E eu só percebi quando eu beijei ele de fato. – Bufou, cobrindo o próprio rosto. – Mas agora a gente ficou nesse gelo fino. E se não der certo? Eu perco ele? Eu não quero arriscar isso. Você tem noção que ele é uma das pessoas mais importantes no mundo pra mim? Quando ninguém, nem a minha família, estava lá por mim, ele estava. Se a gente tentar e der errado eu perco muito mais que meu melhor amigo, May. – Grunhiu baixo, fazendo a indiana rir.
– Amiga, de verdade, confia em mim. Ele pode ter literalmente qualquer garota no mundo e gosta de você, sempre gostou. Não tem por que se preocupar.
– Isso não ajudou nem um pouco, Maya. – falou, gargalhando em seguida, mais de nervoso do que com humor. – Pode dar errado de tantas formas e eu nem sei mais o que eu quero. Não sei se volto lá e agarro ele e digo “fui uma idiota por fugir mas amo você” ou se finjo que nada aconteceu e chamo ele pra jogar FIFA, não sei se quero ficar com ele ou que tudo volte a ser como antes.
– Eu acho que você tem que tomar um bom banho e dormir, aí amanhã pensa nisso. – A inglesa concordou. – Só por curiosidade, como foi esse beijo?
– Como se eu esperasse a vida toda por aquilo, sabe? Foi… perfeito, e eu não conseguia parar de sorrir. Ele me segurava como se eu pudesse quebrar… e disse que é louco por mim. – não conseguia esconder a vermelhidão do seu rosto quando repetia aquelas palavras. O frio na barriga era aterrorizante mas inebriante ao mesmo tempo. Ele tinha mesmo dito aquilo, e pensar nisso era surreal.
– Você genuinamente parece uma maçã. – Maya gargalhou, levando consigo um riso da colega.
– Foi tão natural, May, como se fosse pra acontecer. Parecia que a gente já tinha se beijado um milhão de vezes, porque não foi desconcertado como um primeiro beijo, só que teve toda aquela aura de primeiro beijo e… – Mais uma vez, cobriu o rosto por estar envergonhada e corada demais para continuar. – Foi simplesmente o melhor beijo da minha vida. – Suspirou.
– Eu não queria ser essa pessoa, mas… Você lembre que eu avisei? – Maya brincou. No primeiro ano de faculdade das duas, a indiana conheceu o garoto e a relação dos dois, dizendo sem nem pestanejar que “Se ambos não se resolvesse logo, uma hora ia acontecer algo, e ou iam perder a chance de vez ou iam desejar terem ficados juntos antes”. – Eu acho bom ser a opção número dois, porque você tá claramente apaixonada pelo cara.
– Eu acho que sim.
– Eu tenho certeza. – Riu.
– Por que eu só me meto em furada hein? – Bufou, incrédula na própria sorte.

Os dias se passaram e, se houvesse um recorde mundial para quantas vezes uma pessoa pode checar o celular por mensagens por dia, ambos haviam o batido. Depois daquela noite, nenhuma palavra tinha sido trocada. Eles já tiveram brigas no passado que os fizeram passar alguns dias sem se falarem, até que um dos dois cedesse, mas dessa vez não parecia que esse contato ia acontecer muito espontaneamente: ele achava que ela o odiava pelo beijo e ela achava que ele a odiava por fugir. tinha desistido de suas aulas extracurriculares naquela tarde de terça, pois não estava conseguindo prestar atenção em muita coisa para ser sincera, e assistia um filme quando Maya chegou em casa após sua ida ao mercado.
– Você viu quanto está custando uma caixa de luvas? Dez vezes o preço de antes! DEZ! – Como de costume, entrou reclamando do preço de algo que estava absurdamente inflado pela pandemia. Altamente específico, mas semanalmente ela mantinha essa tradição.
– Na próxima olha o preço do Lysol com cheirinho. – riu, virando para a colega.
– Ah não, , ainda nessa? – Tirou os sapatos e a máscara, no “limite do corona” do hall. Quando saiu, a amiga estava agarrada em um pote de sorvete assistindo uma aula de Dermatologia parecendo que estava vendo um daqueles filmes em que o cachorro morre.
– Desisti de dermato. Fui fazer uma pergunta e a professora perguntou se eu estava gripada por causa da voz embargada. – Riu, sem humor. – Aí tô assistindo “Como se fosse a primeira vez”, porque Adam Sandler não vai julgar meu ânimo de merda e Drew Barrymore é sempre uma ótima ouvinte.
– Amiga, você tá na fossa, viu. Mais tarde a gente assiste algo menos… deprimente, para ver se eleva seu espírito e tira esse ar negativo. – Maya brincou, pegando as compras e se dirigindo à área de serviço para higienizá-las, voltando de lá momentos depois com apenas um pacote. – Ah sim, isso chegou para você na portaria, eu dei um banho de álcool 70 então acho que já tá seguro, mas abre na mesa pra se precisar limpar mais algo não melar o sofá. – pegou o pacote em mãos e levantou, arrastando suas pantufas de unicórnio até a mesa da sala de estar. Ao abrir, percebeu que havia uma caixinha menor dentro. Nessa, estavam apenas três passes para o Paddock de Istambul e uma nota escrito “Soube que seus pais estão na Turquia, talvez seja um bom programa. Talvez chova, sei que seu pai gosta de ver corridas na chuva. Além disso, eu queria te ver. Sinto sua falta.”. Por mais que não tivesse assinatura, era impossível não saber de onde vinha. Quando deu por si, já estava com o telefone em mãos.
– Mãe? Oi, mãe. Será que o pai tá afim de ver uma corrida na chuva?


Arrependimento não era bem a palavra, mas desconforto com certeza definia o sentimento da menina naquele momento. Chegou na cidade na noite de sexta-feira, depois de um voo longo e exaustivo, e encontrou os pais no hotel. Como tinha aulas, não poderia vir na quinta, mas mandou os passes por um assessor da mãe que viajara antes, o que possibilitou aos pais uma a ida ao autódromo para o dia dos dois primeiros treinos livres. Durante o jantar, seu pai comentou sobre cada detalhe que viu, da Red Flag do Leclerc até o os resmungos de insatisfação perto do motorhome da Mercedes, deixando claro que ir foi uma ótima ideia e que ele sentia falta de ver corridas, principalmente caóticas como aqueles treinos foram – as pistas foram recém pavimentadas e estavam lisas demais, o que virou uma festa de rodadas. Sua mãe, em contrapartida, só sabia elogia Max Verstappen, como ele era um excelente corredor e como era elegante nas pistas, liderando a todo momento. Não podia discordar, mas sabendo que desde 2017 a mãe tentava a convencer de que ele era o cara certo para namorar e que ela devia investir, pois não podia perder a chance de casar com um futuro campeão, terminava ignorando todas as palavras.
Agora, mais uma vez a dominância do holandês tinha se concretizado: Com chuva intensa, os pilotos usaram os pneus intermediários e os de chuva extrema, mas no final das contas só 30 minutos do terceiro treino livre ocorreram de fato, coroando Max como líder imbatível. Do Paddock Club, a família , dessa vez completa, tinha assistido literalmente de camarote, mas não era suficiente para a mais nova. A ansiedade tomava conta do seu corpo, o que era visível pela perna inquieta. Enquanto todos comentavam sobre o desempenho incomum de Lewis Hamilton, ela só conseguia pensar no colega. Os carros cor-de-rosa oscilaram entre P13 e P7 durante os treinos, e ela sabia que Lance era capaz de muito mais que isso, principalmente em condições que todos achavam ruins.
Olhava o tempo todo para o relógio, numa batalha interna sobre ir ou não até ao Motorhome que tanto conhecia e, faltando 15 minutos para o início da qualificatória, em um lapso de impulsividade, finalmente decidiu ir direto para a garagem. Treinou várias vezes o que ia falar, repetindo as palavras a cada passo que dava, ajustando a touquinha rosa da BWT na cabeça, mais por nervosismo do que por frio em si. Entretanto, a confiança só durou até quando terminou de dar boa tarde para alguns funcionários e o viu, sentado em uma caixa muito grande de partes de carro, encarando a Pit Lane. Respirou fundo três vezes, e decidiu que não tinha como voltar atrás.
– Acho que dava para fazer melhor que P10, mas a diferença para o Ricciardo foi mais de um segundo e meio. – falou, abraçando o próprio corpo e sentido conforto no casaco mais grosso. Stroll tomou um susto com a voz dela, quase caindo do assento, descendo rapidamente e ficando de frente para ela, sem saber muito como reagir.
… – Procurou palavras, palavras essas que estava ensaiando desde que mandou os passes, palavras essas que sumiram totalmente do radar dele.
– É bom você procurar uma boa desculpa mesmo, porque o Este foi P4 e estava tirando onda com você quando liguei para dar parabéns. – Ela riu, quebrando um pouco o clima e o fazendo sorrir.
– Não tem desculpa, só não tava rolando uma conexão com o carro. Estar nos pontos já é uma vitória, principalmente depois de semana passada.
– Isso é uma péssima mentalidade, inclusive estranha, vindo do cara que se jogava em cima dos outros, como se não tivesse nenhum neurônio, pra garantir uma posição que já era dele. – Sorriu.
– Quando você chegou? Vi seus pais ontem, conversei com eles, achei que você não vinha. – O piloto perguntou, sem saber muito bem os que fazer com as mãos, cruzando os braços e os soltando imediatamente, para não parecer “na defensiva”.
– Ontem de noite, quase de madrugada. Só consegui jantar antes de capotar de sono, mas ouvi sobre os dois treinos, principalmente sobre Max. – A moça rodou os olhos, fazendo o interlocutor rir, sabendo muito bem do que se tratava. – Ouvi mais ainda hoje, com a chuva. Você podia dar a eles outro assunto pra falar, né? – Brincou, mas logo o ambiente ficou silencioso, e o clima tenso que ambos queriam evitar emergiu. – Lance, eu…
, quando… – Os dois falaram ao mesmo tempo, pedindo desculpas logo em seguida.
– Três minutos! – Um dos engenheiros algodão-doce gritou, atraindo olhares.
– Eu vim aqui pra ver como você estava. – A garota comentou, se aproximando dele e arrumando o macacão, fechando o velcro, enquanto ele pegava a balaclava de cima da caixa na qual previamente estava sentado. – E pra te desejar boa sorte. – Olhou nos olhos dele, que com a luz artificial e a proximidade pareciam cor de mel. Naquele momento, o coração de ambos parecia que explodiria, mas nenhuma frase era capaz de exceder os limites daqueles lábios.
– A gente pode conversar? Depois da qualificatória? – Em um sussurro, Lance quebrou a imaginária porem pesada barreira entre os dois, recebendo um aceno de cabeça como resposta.
– Mas só se você for bem. – Piscou com um sorriso, mais uma vez lidando graciosamente com a tensão. – E “bem” não é só estar na zona de pontos. – Riu e ficou na ponta dos pés para beijar a bochecha dele, falando um “Boa sorte” baixinho ao se afastar. Colocada a balaclava e o capacete, Stroll entrou em seu modo de concentração e foi até o carro. A britânica deu um aceno para os outros funcionários e subiu de volta para o Paddock Club, que ficava literalmente acima dos boxes.
No início do Q1, a chuva ainda caía, tornando um dos maiores desafios a simples tarefa de manter o carro dentro dos limites de pista e não ter as voltas deletadas. Na metade da sessão, Michael Masi, o diretor de corridas, decidiu por uma bandeira vermelha, ao ponto que as condições pioravam. Nesse momento, quem estava em P1 era Esteban Ocon, e não só comemorou como riu consigo mesma do tanto que poderia zoar o amigo, se estivessem em condições normais. Depois de longos quarenta minutos, a sessão retornou, sem chuva mas com a pista ainda cheia de poças, o que causou a Romain Grosjean um perda de controle do carro e outra bandeira vermelha. Quando a sessão retornou por mais uma vez, não havia mais quase nenhum tempo para tentar voltas mais rápidas. No Q2, perceberam que por mais que a chuva tivesse cessado, a escolha certa era permanecer em pneus de chuva extrema, visto que as McLarens trocaram e não foram tão bem, tendo que retornar a eles. Com ambas as Haas, Williams, Mclarens, Alpha Tauris e Ferraris fora, a surpresa do Q3 foram as Alfa Romeos, que pareciam brilhar nessas condições.
Com o tempo abrindo, a pista começou a secar, então a estratégia era o diferencial. Lance iniciou a sessão com os pneus de chuva extrema, mas esses não estavam entregando tudo que podiam, então foi para o box e colocou os intermediários, com possibilidade apenas de fazer poucas voltas. Na primeira tentativa, depois de driblar o tráfego, estava indo muito bem, até que a Mercedes de Valtteri Bottas girou em frente a ele e o fez perder seu ritmo. Dado isso, só havia tempo para mais uma única volta, e ele foi com tudo. Em condições terríveis, com pilotos muito mais experientes e premiados rodando como piões, Lance cruzou a linha de chegada em P1, com tempo de 1;47.765. O único risco era Verstappen, que liderou todos os treinos livres vinha logo atrás, com sangue nos olhos e sob os olhares atentos de todos. Alguns carros terminaram suas qualificatórias, mas nenhum nem um pouco perto do garoto. Por fim, Max chegou à reta da bandeira quadriculada e cruzou a linha com o tempo de 1:48.055. E era isso. Lance Stroll era pole position.
Quando a confirmação chegou, a televisão imensa do Paddock Club reproduzia o áudio de pura serotonina do menino, mas não estava mais lá: havia descido as escadas tão rápido que não deu tempo nem de escutar a voz dele. Entre os mecânicos e engenheiros cor de chiclete, foi em direção ao Parc Fermé, onde os pilotos estacionam os carros, e esperou a checada do rapaz. Quando apareceu, a reação imediata dele foi correr para a equipe, para a usual – e um tanto quanto violenta – comemoração. Tirou o capacete e a balaclava, ainda em estado de êxtase e suado, e continuou com os abraços, até que sentiu um que reconhecia bem. apareceu literalmente do nada entre aqueles homens, o abraçando com toda a força que tinha. Ele a ergueu nos braços e intensificou o ato, ambos rindo e ela chorando.
– Foi bom o suficiente pra a gente conversar? – Falou um pouco mais alto, para ela ouvir entre a gritaria que a equipe estava causando, sustentando o maior sorriso debochado possível no rosto.
– Cala a boca. – Ela riu e o beijou. Ali mesmo, no meio de todo mundo e provavelmente em frente a muitas câmeras. A princípio, ele não sabia muito bem como reagir, mas instintivamente seguiu com o beijo, que foi partido por risadas dela. Ele nem tinha percebido, mas toda a equipe gritava e assobiava para o momento, com um ar de “finalmente” que parecia que todos compartilhavam. – Você tem noção do que aconteceu aqui? – não conseguia parar de chorar e rir ao mesmo tempo.
– Diz pra mim. – Ele estava em êxtase, também sem conseguir parar de sorrir.
– Pole position. – falou, dando ênfase em cada parte da sentença, como se pudesse sentir o gosto das vogais.
– Diz de novo. – Brincou, beijando-a entre cada sílaba quando a ouviu repetir o termo. “Pole position”. Nem ele acreditava. Sabia que tinha feito uma volta incrível, mas pole position? Era surreal demais para ser verdade. Tudo aquilo era surreal demais, ao ponto dele se beliscar para poder acreditar.
– Lance? – A mais nova o chamou, vendo que ele estava totalmente aéreo. – A rodinha. – Apontou com a cabeça, o vendo a encarar confuso. – O pneu da Pirelli, de pole position, vai pegar. – Riu.
– AH SIM! – Se deu conta, fazendo todos ali rirem um pouco também. – Mas antes, deixa eu aproveitar essa adrenalina. – Olhou nos olhos da moça em sua frente, de uma forma que ela sentiu o mundo inteiro silenciar. – , eu te amo. Na verdade, eu meio que sempre te amei e sempre te disse isso, mas eu queria te dizer agora, porque agora é diferente. Eu amo você, não só do jeito “melhor amiga, pessoa importante, com quem eu quero compartilhar tudo”, mas também do jeito “estou completamente apaixonado por você”. E eu não quero te perder, principalmente agora, então a gente pode levar isso com calma, sem nenhuma pressa. A gente conversa, o quanto você precisar, a gente não precisa correr. A gente vai no seu tempo, ou o mais devagar possível, eu espero o tempo que for do jeito que for, nem… – A britânica não conseguia não achar ele completamente irresistível enquanto falava isso, todo fofo e preocupado, então não pensou duas vezes e o interrompeu com um beijo.
– Me pede logo pra namorar com você, grandão. – Falou, com os rostos ainda muito próximos e um sorriso largo.
– Namora comigo? – Ele riu por cima, vendo ela balançar a cabeça e o beijar novamente. Por um breve instante, Lance sentiu que se felicidade pudesse ser descrita, aquele momento a faria jus.
– Mas o resto a gente vai com calma, foi coisa demais para processar em pouco tempo. – riu, recebendo outro beijo.
– Sim, senhora. Como você quiser. – Interrompeu o contato, com um sorriso que agora parecia fazer parte do próprio rosto.
– Agora vai buscar a rodinha. – A garota repetiu, recebendo mais um beijo e o vendo se afastar. Após isso, a ficha dela caiu um pouco, pois percebeu todos os olhares em si, ficando muito vermelha.
– Finalmente, né! – Rob a deu um abraço de lado, rindo alto.
Naquele momento, diversas coisas transitaram pela mente da estudante. Todos os medos sobre distância, limites, saudade, agenda e riscos se fizeram presentes, mas dessa vez não conseguiram se manter nem por um segundo: tudo que ela conseguia focar era o cara orgulhosamente segurando o prêmio em forma de pneuzinho que tanto mereceu. Ver aquele sorriso, mesmo que por debaixo da máscara (Que sabe Deus onde ele arranjou), fez ela sentir que tudo ia dar certo. Que se eles fizeram dar certo durante seis anos, agora não seria um desafio tão grande.
Principalmente depois de ouvir da boca dele que ele a amava.
E de ter certeza que era completamente apaixonada por ele.
Daria certo. Até porque, sendo eles, como poderia dar errado?

 

Nota da Autora:

 

Individual:

 

     Quem me conhece sabe: Se eu tenho uma função nessa terra, essa função é defender Lance Stroll. Ser fã desse garoto não é nada fácil, mas eu visto meu bonezinho de Embaixadora da Causa Lance Stroll e tento converter todo mundo pra o lado pantera cor-de-rosa da força (kkkkk) – essa fic é mais um desses esforços (Quase todas as informações da fic, fora a PP e tudo que envolva ela, são reais viu?).

     Dito isso, queria agradecer às meninas do grupo de F1, que me acolheram nesse projeto aos 45 do segundo tempo para escrever sobre meu anjinho. Vocês são show! Por fim, O agradecimento especial vai pra minha amiga ruivinha que virou madrugadas fazendo o brainstorming comigo enquanto eu não tinha plot formado e quando eu desisti da história 4 vezes pra começar do zero. Você é uma pessoa e uma escritora incrível!

     Obrigada pela leitura <3

 

Coletiva:

     Essa fanfic faz parte do projeto Drive to Survive, um projeto no qual 11 autoras apaixonadas por Fórmula 1 se reuniram para escrever uma short para cada piloto do grid, divulgando e homenageando esse esporte incrível. 

     Os primeiros 5 pilotos que terão suas histórias contadas são: Valtteri Bottas, Lance Stroll, George Russell, Daniel Ricciardo e Lando Norris. Mas em breve todos os pilotos da temporada de 2020 terão uma história para chamar de sua, todas feitas com muito amor. Esperamos que curtam nossa proposta e embarquem nesse mundo com a gente. Não esqueçam de deixar aquele comentário no final e motivar uma autora a sempre continuar. Beijos e até a próxima fic xx