Drive to Survive – Pietro Fitipaldi

Drive to Survive – Pietro Fitipaldi

Sinopse: Ela acreditou que estava tomando a decisão certa quando escolheu terminar aquele relacionamento. Sabia que jamais esqueceria o primeiro namorado, que o amava mais que tudo, sua luta para esquecê-lo se tornou diária e mesmo após anos não foi capaz de esquecê-lo por completo. O que deveria fazer então? Ela optou por uma carta.
Gênero: Romance
Classificação: 12 anos.
Restrição: Essa fanfic faz parte do projeto Drive To Survive. Escrita com Pietro Fitipaldi, e ele é um personagem fixo. Somente a PP é interativa.
Beta: Sharpay Evans

Setembro de 2018.

Era um dia chuvoso na capital do Rio de Janeiro. Era algo incomum na cidade maravilhosa e quando acontecia assustava muito os moradores já que o evento era marcado pelos desastres que sucediam após as pancadas acabarem.
, ao contrário da maioria dos cariocas, adorava a chuva. Achava que era um dos fenômenos mais incríveis da natureza e um dos seus prazeres na vida era se enfiar debaixo das gotas gélidas que jorravam do céu. Era exatamente aquilo que estava planejando fazer, havia acabado de entrar no estacionamento de seu prédio e estava ajeitando todos os livros e apostilas, geralmente deixava tudo dentro do carro, por causa disso havia acumulado e naquele dia precisaria subir com tudo, isso até começar a chover, pois primeiro tomaria seu banho e então pensaria sobre como subir com todo seu material.
A moça estava cursando terapia ocupacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro, estava no quarto período e, nesse momento do semestre, estava em semanas de provas, seu emocional se encontrava destroçado e totalmente sem forças para arquitetar qualquer situação, só sabia que precisava colocar seus livros em pilha perto da porta traseira para facilitar pegar mais tarde.
Ela tirou a jaqueta de frio, as botas e meias ficando apenas com a calça jeans e camiseta que trajava, deixou os cabelos soltos, não se importava com o que a chuva faria com eles, já que mais tarde os lavaria de qualquer forma.
Quando colocou o corpo para fora do carro foi atingida pelas gotas fortes da chuva. Em primeiro momento, sentiu o baque das gotas frias atingindo seu corpo quente, que estava emoldurado pelas roupas de frio. Por instinto, ela encolheu os ombros, mas conforme caminhava, sentiu o corpo relaxar sobre a pressão da água que iniciava uma massagem relaxante sobre seus músculos exaustos.
Fechou os olhos sentindo as gotas se aglutinarem sobre as pálpebras fechadas e, conforme iam escorrendo por seu rosto, sentiu-se abraçada por aquela sensação gostosa que era estar debaixo daquela chuva, sentia como se algo soprasse fôlego sobre ela, liberando através da água que saia de si toda a combustão que seu corpo se encontrava jogando para longe tudo que a incomodava.
deu mais alguns passos e abriu os braços, a roupa já estava grudada em seu corpo e os cabelos amassados contra a cabeça, os pés descalços faziam barulhos de acordo com que pisava nas poças de água e ela amava esse som tanto que iniciou uma dança totalmente bizarra aos olhos das pessoas, mas para a estudante de terapia ocupacional, era sinônimo de liberdade.

Um trovão soou no céu ao mesmo tempo em que passos se aproximavam, porém a moça que estava distraída dançando na chuva não percebeu até seus ouvidos captaram a voz que amava.
– Que cena incrível! – O timbre de Pietro soou sobre os tímpanos de .
A ruiva parou de girar e encarou a fonte de onde vinha a voz. O coração disparou de forma instantânea e de maneira involuntária sorriu, Pietro estava ali, debaixo da mesma chuva que ela, com os braços cruzados sobre o peito e o sorriso mais lindo que já havia enxergado.
– Pietro? – Questionou incerta, tantas vezes achou estar enxergando o namorado, que desenvolveu o hábito de não acreditar sempre em que seus olhos viam.
– Sim, amor.
– Você está em casa. – Antes que pudesse raciocinar, estava correndo em direção ao garoto que abriu os braços esperando pelo corpo da namorada.
– Que saudade, meu amor. – Pietro sussurrou, apertando os braços sobre o corpo da capixaba. – Muitas saudades.
– Eu também. Eu também. – Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela, que se misturavam com a água da chuva, isso a impediu de secar. – Eu achei que só chegaria na semana que vem.
– Eu não estava suportando de saudades, precisei vir antes. – O jovem afundou seu rosto na curva do pescoço dela, inalando o cheiro natural que exalava da pele.
– Eu mal posso acreditar que minhas mãos estão sobre você. – Ela sussurrou.
e Pietro namoravam desde os 15 anos. Conheceram-se durante a escola, quando a moça se mudou do Espírito Santo para o Rio de Janeiro para iniciar seus estudos, com os olhos fincados já na faculdade federal que desejava.
Desde que se viram, tornaram-se melhores amigos e em pouco tempo estavam apaixonados. Pietro demorou para conseguir levar a relação deles adiante, já que tinha muito foco e não tinha intenção de namorar, mas determinado como o jovem era, através de seus gestos e atitudes incríveis conseguiu que a melhor amiga lhe desse uma chance e jurou que jamais a desperdiçaria e assim fez e permanecia fazendo, já há cinco anos de namoro.
Os dois tinham um relacionamento complicado pela distância, já que Pietro morava nos EUA desde o final de 2016, quando decidiu por completo se dedicar ao sonho de correr na Fórmula Um e por causa disso estava disputando GPs por todo o mundo pelas categorias de base. Ele sempre ia ao Brasil de dois em dois meses, já que para a namorada era complicado viajar para fora do país devido a graduação.
– Claro que estão. – Se afastou para olhar nos olhos escuros dela. – Eu amo você, minha Capitã Marvel!
– Já disse que sou a Feiticeira Escarlate. – A jovem protestou e o namorado riu.
– Para mim, você é a Capitã Marvel, a melhor que existe, dona da porra toda. Inclusive do meu coração.
– Ah, você tem a lábia de um tal de Tony Stark. – rolou os olhos.
– Só me faltou ser playboy, gênio, bilionário.
– Se me permitir ser a Feiticeira Escarlate, quem sabe eu faço uma magia para isso acontecer. – Disse pensativa apertando seus braços ao redor do pescoço dele.
– Só faça acontecer sua boca me beijando, ruiva. – Ela sorriu e Pietro amassou seus lábios contra os de , aliviando a enorme saudade que sentiam um do outro. Pietro apertou os braços sobre a cintura da namorada a puxando para mais perto com a intenção de colarem mais seus corpos, como se fosse possível de acontecer. , por sua vez, embolou suas mãos nos cabelos lisos de Pietro, concentrando sua força no carinho que ela sabia que o namorado gostava e a aprovação da parte dele veio com o sorriso entre o beijo, o que desmontou por completo. Os corações entraram em ritmo perfeito, assim como as bocas que buscavam com intensidade explorar cada canto, matando a saudade do outro a quem pertenciam.
– Amor, você precisa sair dessa chuva ou sua rinite estará atacada amanhã. – Ela sussurrou e Pietro assentiu.
– Sim. – Deu-lhe um selinho estalado. – Vou pegar minha mala no carro e já subimos.
Ela assentiu e ele entrelaçou seus dedos com os dela e lhe beijou o dorso da mão, antes de se afastar e caminhar até o carro que estava parado a poucos centímetros dele. fez o mesmo e correu até seu próprio carro tirando a chave da ignição, pegando a bolsa com a jaqueta e as botas. Quando trancou o carro, Pietro já tinha estacionado direito e com uma habilidade que sempre admirava. Ele agora a aguardava, assim que se aproximou, Pietro pegou de sua mão as coisas que segurava. Como em todas as circunstâncias, ele era um verdadeiro cavaleiro.
– Obrigada, amor. – já não questionava mais esses gestos, sabia que era algo da criação dele e não podia negar que hoje até gostava do quanto era mimada.
– Você estava na chuva há muito tempo, ? – Perguntou entrando no elevador.
– Tinha poucos minutos. Cheguei da aula e quis relaxar com a chuva. – Ela apertou o botão do terceiro andar e passou as mãos no rosto, eliminado as gostas que caiam sobre seus olhos.
– Como sempre, tudo que é da natureza é calmante para você. – Pietro sorriu e concordou.

As portas se abriram e o casal se arrastou para fora e logo estava destrancando a porta de seu apartamento.
Era extremamente simples, cômodos pequenos e bem ajeitados, já que era uma virginiana louca por planejamento e tinha dificuldade em lidar com desorganização. O apartamento era bem a cara dela, foi pintando por ela e Pietro – na verdade, ele mais atrapalhou e a sujou de tinta que pintou. – em tons de verde que a faziam se lembrar da natureza e pelo mesmo motivo havia algumas plantas sobre as bancadas da casa.

– Você recebeu as flores da semana? – O garoto questionou observando que sobre a mesa de dentro da sala havia um jarro com rosas vermelhas.
– Sim. Eu adoro quando são vermelhas. – jogou as chaves sobre a mesa da cozinha. – Obrigada mais uma vez. Suas flores sempre melhoram minhas quartas.
Quando os dois fizeram um ano de namoro, Pietro iniciou o ritual de mandar flores para toda quarta-feira e, após ir embora, manteve a tradição, com a ajuda de Rebeca Rocha a melhor amiga de , que Pietro carinhosamente chamava de RR. Ela, como a primeira apoiadora do casal, era quem comprava as flores a pedido do jovem piloto.

– Deixa de mentira, ! O que anima suas quartas-feiras são os jogos do Santos no Brasileirão. – Pietro fechou a cara em uma falsa raiva e soltou uma enorme gargalhada. Aquilo era a mais pura verdade
– Amor, suas flores ajudam também. – Aproximou-se do namorado que estava tirando os sapatos.
– Mente que eu me apaixono mais. Vou falar com a RR para suspender essas flores. – Pietro esfregou os cabelos, tirando os pingos de água.
– Não ouse fazer isso, Pietro Fitipaldi. – Disse com o dedo em riste e parou de andar quando viu que o jovem estava tirando a roupa de maneira espontânea, primeiro a camisa e depois desabotoou a calça, até que percebeu os olhos de queimando sobre si.
– O que foi?
– Você está tentando me seduzir? Arrancando a roupa na minha casa? – Ela mordeu o lábio inferior.
– Isso depende. – Ele deu um passo na direção dela. – Você é seduzível?
– Sinto informar, eu tenho namorado. – só conseguia enxergar a luxúria estampada nos olhos do jovem. – E ele é um tremendo gostoso, não troco ele.
– Ah, sim! Esse cara deve ter muita sorte. – As mãos dele foram para a cintura dela e logo escorregaram para debaixo da blusa apertando a pele causando arrepios leves.
– Sim. Somos um casal de sorte. – finalizou e logo Pietro chocou seus lábios contra os da namorada e de maneira desajeita foram caminhando para o quarto enquanto as roupas faziam uma trilha pelo chão do apartamento.

XXX
– Um doce por seus pensamentos. – Pietro anunciou enquanto chegava à sala com uma panela de brigadeiro que ele havia acabado de fazer e dois copos com guaraná.
sorriu e tirou os pés do sofá para que o namorado sentasse e então colocou suas pernas sobre o colo dele.
– Pode me dar a panela toda. – Esticou a mão e pegou uma colher mergulhando no doce e levando até a boca, sentindo o sabor delicioso do chocolate.
– Gulosa. – Ele sorriu e beijou o nariz da namorada, ajeitando-se melhor no sofá para ficar confortável e deu play no filme da TV.- Eu disse sério sobre seus pensamentos. Me diga o que está acontecendo?
– Como assim?
– Amor. – Pietro olhou a namorada de lado. – Eu te conheço há anos, você é minha melhor amiga, eu sei quando alguma coisa não está certa.
– Você me conhece bem. – Ela suspirou pesadamente e pegou mais doce.
– Sim. Me fala, o que está te incomodando? – O jovem pausou o filme e encarou a namorada lhe dando um selinho.
– Está na hora de conversarmos, Pie. – Ela prendeu a colher de entre os lábios e massageou as têmporas.
– Sobre?
– Você foi contratado como piloto de testes de uma equipe da Fórmula Um. – Começou cautelosa, questionando para si mesma se era o certo seguir com aquela conversa.
– Sim, segunda-feira preciso ir para os EUA de novo. Nós conversamos sobre isso semana passada quando o anúncio saiu. O que aconteceu?
– Eu não consigo mais, Pietro. – As palavras saíram como um borrão e no fundo nem ela sabia o que estava dizendo. – Essa relação à distância me machuca.
– O quê? Como assim te machuca?
– Pietro, nós estamos namorando a distância tem anos, é difícil estar longe de você, eu não aguento mais essa agonia. Eu sei que é seu sonho e nunca te pediria para não ir de vez, mas nós não podemos seguir. Você vai estar na Fórmula Um, toda semana em um país diferente e eu fico aqui no Brasil, totalmente agoniada e com os meus pensamentos em você. – Conforme ela proferia as palavras, os olhos de Pietro se arregalavam, aquilo não podia estar acontecendo. Maldito sejam seus ouvidos.
– Você está louca, ? Você está querendo terminar comigo, é isso?
– Pietro, é o melhor para nós. Eu fico acordada até de madrugada te esperando todos os dias por causa do fuso horário e você passa noites acordado me vendo estudar, você acha que isso é saudável? – Questionou, seu coração gritava no peito dizendo que ela não podia prosseguir com aquele maldito discurso. – Eu não consigo mais suportar essa distância, lidar com os meus dias esperando você chegar.
. – Pietro largou a colher que segurava e tomou as mãos da namorada pra si. – Nós conseguimos, nós podemos fazer dar certo. Será só por mais algum tempo, eu vou me esforçar e conseguir ser piloto titular, as coisas se ajeitam e eu venho te buscar.
– Eu não quero que você me busque. – tirou os pés do colo do namorado e se levantou, a cabeça girava um pouco e o coração estava em ruínas. – Os meus sonhos são no Brasil e os seus fora do Brasil, essa é a nossa realidade.
– Isso é o que você acredita. – Pontuou firme, também se levantando. – Nós fizemos funcionar até hoje, podemos fazer por mais algum tempo.
– Nós estamos nos arrastando nisso, Pie. – Uma lágrima correu pelo rosto de e depois muitas outras, não conseguia expressar a confusão que se encontrava, a cabeça dizendo algo e o coração dizendo o oposto. Gostaria que Pietro pudesse ler mentes para que a entendesse, não que estivesse menos bagunçado em sua cabeça. – Nós estamos sofrendo com a saudade, com a distância e agora tudo vai piorar. Mais tempo em viagens, mais tempo sem nos vermos, a gente precisa acabar com isso, é doloroso demais não ter você por perto.
– Eu sei que sim. – O jovem não conteve o instinto de se aproximar da ainda namorada e encaixar suas mãos grandes sobre o rosto dela. – Dói demais estar longe, mas nada se compara a não ter você. Eu me recuso, . Você quer que eu abra mão de ir? Eu abro e fico aqui.
– Jamais. – impulsou o corpo ficando na ponta dos pés e abraçando-o pelo pescoço, por causa da altura sempre precisava do movimento. – Eu te amo tanto, mas tanto que eu não posso pensar na possibilidade de você não alcançar algo que tanto lutou, você vai para a Fórmula Um e vai brilhar.
– Qual é a graça disso acontecer e você não estar ao meu lado? – Lágrimas também corriam pelo rosto dele. Tudo que ambos sonharam e planejaram eram estar juntos quando os sonhos de ambos se realizassem.
– Eu sempre estarei ao seu lado, vibrando e torcendo com suas conquistas, porém eu preciso tirar esse aperto do peito. Eu não consigo viver assim, isso destrói meu planejamento e foco. Eu preciso estudar e pensar na minha carreira e tudo que consigo pensar é na saudade que sinto de você todos os dias. – não conseguia conter as lágrimas e também não queria, perder Pietro gerava uma dor agonizante na moça, porém permanecer como estavam era torturante, os meses sem se ver, horários totalmente opostos e noites de sono perdidas para conseguirem conversar por poucos minutos. Às vezes, Pietro viajava por horas para ver a namorada e passava menos de 24 horas com ela, o tempo gasto no trajeto era maior que na companhia nela.
– A gente pode funcionar, . A gente pode fazer dar certo, conseguimos até agora. – O tom de voz de Pietro partiu o coração da jovem, ele implorava com lágrimas e olhos vermelhos, a dor estava estampada em seu rosto.
– Pietro, quantas vezes você chegou atrasado dos seus compromissos por ter ficado acordado até tarde, conversando comigo? – Afastou-se do carioca e passou as duas mãos no rosto, secando as lágrimas, os cabelos ruivos que ainda estavam molhados, ela prendeu em um coque frouxo. – Quantas vezes foi comendo no carro conversando comigo ao invés de almoçar de maneira decente?
– São preços muito baixos que eu não me importo de pagar. – Andou para perto dela, que se afastou. Se tivesse as mãos de Pietro sobre si, jamais conseguiria terminar.
– Como quando bateu o carro por atender minha ligação? – Voltou a questionar.
– Isso foi diferente. Eu estava com sono e cansado, foi um momento de descuido, acontece com qualquer pessoa. – Pietro passou as mãos pelos cabelos em sinal de desespero, perdia totalmente suas estribeiras quando o assunto era aquela ruiva capixaba que era a portadora de seu coração.
– Pietro, meu amor, essa distância mata a gente. Não podemos continuar fazendo isso. – Virou-se de costas para o namorado, para que ele não a visse chorando. O jovem ignorou a postura relutante da estudante e andou até ela, colocando seus braços ao redor de sua cintura e depositando o queixo sobre a curva de seu pescoço.
– Amor, não faz isso com a gente. Isso é um erro.
– Pie, nesse momento, nossos destinos estão separados, nossa realidade é diferente. – Ela colocou as mãos por cima das dele, sentindo o carinho sobre seu pescoço. – Nesse momento é o melhor para nós.
. – Ele girou a moça de frente para ele e colou suas testas. – Isso é um erro, nós precisamos ficar juntos.
– Pietro, não dificulta mais as coisas. – Ela pediu com os olhos fechados, o carinho que Pietro iniciou em sua cintura era desconcertante e a deixava zonza, como uma pobre viciada em algo que não poderia ter.
, você tem certeza disso? – Perguntou mais uma vez olhando dentro dos olhos dela, buscando no fundo a verdade por detrás daquelas palavras dolorosas que proferia. – Isso é um erro.
– É melhor para nós. Você vai ser o melhor de todos, um campeão como merece e eu me formarei, serei uma excelente TO. Nossa vida ainda vai se ajeitar.
Ela o abraçou com força finalmente se entregando por completo às lágrimas e aos gemidos que escapavam por seus lábios, não queria estar passando por aquilo, porém era necessário para a manutenção de sua saúde mental e a de Pietro, os dois se amavam, mas não era mais o momento para eles e na cabeça de não existia a possibilidade de permanecer da forma que estavam.
Pietro abraçou o corpo de com força, trazendo a moça que amava para mais perto de si, em mais uma inútil tentativa de fundir seus corpos. Dessa vez, ele desejava gravar todos os detalhes dela para que quando a saudade o invadisse, o piloto acessasse suas melhores memórias ao lado de sua , e em todas que ele se lembrava de algo bom que lhe aconteceu, a moça estava presente. E do fundo de seu coração, ele esperava que mais fossem criadas.
– O que você deseja fazer agora? Quer que eu vá embora? – Perguntou tentando se afastar um pouco, mas seu corpo não obedeceu.
– Não, eu quero que fique aqui. – Pediu esfregando o nariz no pescoço dele. – Passe esses dias aqui comigo, só nós dois, sem celular ou interrupções. E então, na segunda quando você for, eu terei seu cheiro em todos os cantos dessa casa.
– Eu fico, meu amor. Eu te amo, . Mesmo que você não acredite na gente, mesmo que ache que não é nossa realidade. Eu não acredito nisso e nesse mundo gigante ainda há lugar para nós. – Ele acariciou a bochecha dela com o polegar e limpou a lágrima que escorria.
– Eu te amo, Pie. Te amo mil milhões. – Ela encostou a cabeça no peito dele e Pietro beijou o topo da cabeça dela.
– Mais que mil milhões, muito mais.

E ali eles ficaram por uma quantidade de tempo que nem eles sabiam. O final de semana passou voando, durante os quatro dias seguintes, eles não se desgrudaram, fizeram amor em todos os cômodos da casa, assistiram todos os filmes da Marvel e DC, fritou berinjela com sal, comida que ela amava e o ensinou a gostar, eles dançaram na chuva e fizeram amor novamente.
E em sua última noite juntos, dormiram agarrados, os dedos entrelaçados e as respirações em ritmo perfeito. Durante a noite, lágrimas silenciosas correram pelos olhos de ao ver Pietro dormir, dentro dela algo gritava que estava fazendo uma gravíssima merda, mas seu sistema racional – no qual ela confiava muito – lhe dizia que aquilo era o certo, eles precisavam viver seus sonhos, sem qualquer interrupção e para que não ficassem com a sensação de algo interrompido no peito. Ela esperava com todas as forças estar certa.
Na manhã seguinte, quando acordou, Pietro já não estava mais ali, ela não sabia quando fora deixada sozinha, não havia vestígios que o piloto passará os últimos dias com ela, os únicos rastros do, agora, ex namorado era a camiseta que vestia e o perfume impregnado ao lado da cama.
secou uma lágrima e sentou na cama para resgatar o travesseiro e inalar mais de perto a essência de Pietro, surpreendeu-se ao encontrar sobre os panos escuros um papel dobrado, sorriu sozinha e abriu reconhecendo de imediato a letra de Fitipaldi.

“Fui incapaz de me despedir, não iria suportar te ver chorando com minha saída, eu ainda acho que isso é um erro, mas respeito você e suas escolhas. Não posso partir sem dizer, mais uma vez, eu te amo, não sou muito bom com palavras e você sabe, por isso peguei as palavras de alguém que é conhecido por você. Shakespeare disse: Amor não é amor, se quando encontra obstáculos se altera, ou se vacila no mínimo temor. Amor é um marco eterno, dominante, que encara a tempestade com bravura. É astro que norteia a vela errante, cujo valor se ignora lá na altura. Amor não teme o tempo, muito embora, seu alfange não poupa a mocidade; Amor não se transforma de hora em hora, antes se afirma para a eternidade. Meu amor por você nunca sofrerá alteração. Eu te amo, sempre e sempre.”

Releu as palavras mais incontáveis vezes antes de levar o bilhete ao peito, esperou milhares de minutos para sua ficha cair, mas esta nunca veio e a sensação que corria seu peito era que nunca cairia, realmente ele havia partido e não voltaria mais.
Soluços involuntários tomaram conta de si como uma forma de explodir a dor que sentia de maneira tão intensa que parecia física, seu corpo tremia e o coração batia tão rápido que não conseguia entender se era humanamente possível e, por mais que tentasse, não conseguia se controlar. Ela já tinha se arrependido da decisão e não tinha uma hora que Pietro se fora, quão estupidamente burra ela se considerava? A resposta era o máximo possível e depois mais que o máximo, não tinha muito mais o que fazer, somente deixar curar.
Quando passos ecoaram no assoalho, soube que não estava sozinha e ergueu os olhos para a porta com total esperança que fosse Pietro, todavia, foi com os olhos doces e compreensivos de Rebeca que encontrou. Ela que trajava roupas brancas como quase em todos os momentos, por causa da faculdade, tinha um sorriso fraco nos lábios, em suas mãos tinha um vaso com lindas rosas vermelhas e Rebeca adquiriu uma expressão de profunda compaixão ao se deparar com o estado da melhor amiga. A estudante de medicina abriu mais o sorriso e a olhou totalmente sem entender, questionando em um gesto mudo o motivo dela estar ali com flores, apesar de já saber a resposta.
Rebeca deu dois passos para dentro do quarto, colocou o vaso de rosas na mesa de estudos localizada perto do canto onde alguns quadros enfeitavam o fundo verde da parede, raspou a garganta e disse:
– Ele mandou flores uma última vez. – Ela tirou os sapatos ortopédicos e subiu na cama de joelhos. – E me pediu para vir aqui nesse horário, ele não queria que estivesse sozinha quando acordasse. – foi incapaz de pronunciar palavras, voltou a chorar copiosamente, liberando a dor que sentia. Rebeca secou uma lágrima solitária que escorreu pela própria bochecha e engatinhou até a amiga, lhe abraçando e puxando seu corpo trêmulo para si, começou a afagar os cabelos ruivos dela e com sua voz doce desatou a cantarolar uma música baixa, completando a cena mais triste que alguém poderia assistir.
Ah! Esse tal de amor! Será mesmo que ele é justo?

 

Dois anos depois – Novembro de 2020.

encaixou a chave na fechadura da porta de entrada, girou e destravou a mesma, entrando junto com as muitas sacolas que estavam penduradas em seu braço esquerdo. Assim que colocou os pés na sala de casa, foi recebida com muito amor por seu gato, que se embolava na perna da dona pedindo um pouco de carinho, colocou as sacolas sobre a mesa da cozinha, tirou a bolsa deixando-a lá também e então se abaixou para afagar entre as orelhas do gato.
– Daniel – A ruiva chamou enquanto caminhava pela casa com o animal no colo. – Dani? Está em casa?
– No chuveiro. – Escutou a voz do homem e não falou mais nada, somente sentou-se no sofá para esperar o loiro e juntos decidirem o que fariam naquela noite.
Ambos estavam exaustos por causa do final da faculdade, a correria de apresentação de monografia, junto com trabalhos e provas finais e mais relatório de estágios, era a personificação do caos para todo estudante.
Provavelmente, eles abririam um vinho e cozinharia algo, depois assistiriam um filme no sofá até pegarem no sono. Sua rotina era exatamente essa quase todos os dias, Daniel, seu namorado era estudante de engenharia, se conheceram na faculdade fazia exatamente um ano, se envolveram e não se desgrudaram mais, o loiro de olhos claros passava mais tempo na casa dela do que em sua república e ela gostava, pois se tinha algo que a incomodava, era permanecer sozinha.
Estava tão distraída pensando e com os dedos passando entre os pelos do gato que se assustou com o barulho do telefone em sua calça jeans, levantou um pouco o tronco e tirou o celular do bolso de trás, sorriu ao ver que era uma mensagem de Rebeca. Tinha dias que não via a melhor amiga, agora que ela estava na clínica–escola, passava mais tempo dentro do hospital, era raríssimo encontrar a loira, geralmente precisava ir até o hospital com um delivery do McDonald’s e sentar na cantina com a amiga para compartilharem pelo menos uma refeição, já que Rebeca não tinha mais vida social.
Destravou o celular com a digital, indo direto ao aplicativo do WhatsApp, abrindo a conversa com Rebeca, a mensagem da amiga era curta e simples.
“Beca: Liga no Sportv2.”

franziu o cenho confusa e olhou para os lados procurando o controle da televisão, avistou o objeto entre as saídas do sofá e resgatou o mesmo, se esticando e logo ligando no canal indicado.
Assim que se acostumou com o brilho da TV e após piscar duas vezes, concentrou-se no conteúdo. Estava passando um programa de esportes, o jornalista na bancada tinha os cabelos escuros e óculos, ele estava explicando algo sobre um acidente que teve durante o grande prêmio do Bahrein, com fogo e carro partido ao meio, se lembrava de ter ouvido algo do tipo por alto, mas não costumava prestar muita atenção na Fórmula Um.
Mas o que veio a seguir foi o suficiente para captar totalmente sua atenção, o título na matéria brilhou sobre as íris de .
“Pietro Fittipaldi substituirá Grosjean no GP de Sakhir; francês se feriu em grave acidente.”
arregalou os olhos e levou a mão a boca, totalmente surpresa. Ajeitou a postura no sofá e esticou o corpo para frente, apoiando os cotovelos no joelho. O jornalista iniciou a fala.
“A Haas anunciou na manhã desta segunda-feira que Pietro Fittipaldi, piloto reserva da equipe americana, será o substituto de Romain Grosjean na próxima etapa do ano, o GP de Sakhir. O piloto francês não terá condições de pilotar em função dos ferimentos em ambas as mãos, sustentados no incêndio assustador provocado pela batida do seu carro contra a barreira de proteção na primeira volta do GP do Barein, no último domingo.”
A foto de Pietro estampou a tela e entrou em apneia no exato momento que bateu os olhos no brasileiro. Fazia tempo que não via uma foto de Pietro, quando se separaram optou por não ter contato, acreditou que não era saudável para eles, no fundo tinha razão, já que aquela foto que estava vendo dois anos depois era capaz de desestabilizá-la, quem dirá se tivesse visto antes.
O moreno estava do mesmo jeito que ela se lembrava, a maior diferença eram os músculos que estavam mais evidentes principalmente na camisa que trajava na foto, preta e apertada, o símbolo da Haas estampado no lado direito do peito. Os cabelos lisos estavam jogados de lado como sempre, os olhos tinham um brilho totalmente reconhecível por , já que toda vez que Pietro ficava feliz, os olhos se enchiam de uma cor prateada que evidenciava sua felicidade, o sorriso enorme e aberto completava a cena.
A moça não prestou atenção no que estavam dizendo, somente fechou os olhos e se permitiu recordar todos os momentos que viveu ao lado de Pietro. Conforme um filme se passava em sua mente, lágrimas brotaram das órbitas, o coração iniciava aquela arritmia que sempre fora comum quando se referia ao carioca.
Pietro tinha conseguido.

Ele iria correr na Fórmula Um e ela não podia conter a felicidade que explodiu em seu coração. As lembranças invadiram seu peito como em um filme, das vezes que partilharam juntos daqueles sonhos. Das vezes que Pietro não conseguia andar por causa da dor no corpo e massageava seus músculos, ou quando os dedos dos pés sangravam por causa da sapatilha apertada e sem contar nas dietas que precisava fazer para manter o porte de atleta. Foram momentos difíceis e que uniram mais ainda o casal.
A ruiva se levantou do sofá quando o corpo começou a tremer devido as muitas lágrimas que jorravam involuntariamente de seus olhos, o peito apertou de maneira tão brutal que ela sentiu o ar faltar e precisou puxar com força torcendo para seus pulmões voltarem a trabalhar.
Deu passos rápidos para a janela mais próxima, que era a da sala, abriu rapidamente e colocou a cabeça para fora respirando um pouco da brisa fresca da cidade do Rio de Janeiro, os poucos segundos que ficou ali aliviaram a sensação de sufocamento por um momento, mas conforme o sorriso de Pietro impregnava sua mente o ar voltava a ser escasso.
– Respira, . Respira. – Murmurou para si mesma. – Só respira.
Ela tentava controlar sua própria respiração, sentia os batimentos de seu coração desacelerando, o peso de seus ombros diminuir. Sentia falta de Pietro, sentia falta deles juntos e naquele momento foi onde teve total certeza que não tinha esquecido o brasileiro. Durante o tempo separados, ela se iludiu acreditando que não sentia mais nada, que havia o esquecido.
Pobre, ! Vítima de seus próprios pensamentos disfuncionais.
Ela escorou a mão na parede e com a outra secou suas lágrimas e logo ajeitou os cabelos, tentando controlar sua postura, por um segundo acreditou que tinha conseguido, até quando levantou a cabeça e seus olhos encontraram o enorme vaso de Rosas Vermelhas sobre a mesa.
Exatamente as flores que Pietro lhe presenteava.
Incapaz de acreditar no que seus olhos viam, caminhou até a mesa. Precisava tocar na flor e ter certeza que não estava sofrendo de alucinações visuais. A hipótese não poderia ser descartada já que por diversas vezes acreditou estar vendo algo que não era real, principalmente a imagem dele batendo a sua porta.
Quando tocou nas pétalas rosas teve certeza que era real, seu sistema racional gritava que não era possível que Pietro tinha lhe enviado flores, mas por outro lado, as emoções e sentimentos que ainda nutria pelo primeiro namorado berravam que sim, era Pietro quem fizera o agrado, assim como em todas as vezes que se lembrava. Aquilo era totalmente insano. Uma total bizarrice. Pietro estava do outro lado do mundo e provavelmente sequer se lembrava da existência dela, que anos atrás optou por se separar ao enfrentar as dificuldades de um relacionamento à distância.
Cheirou o perfume das flores e sorriu sozinha, totalmente apaixonada. Em sua cabeça, iniciou-se uma música. Uma das que Pietro mais gostava de ouvir e vivia cantarolando para ela. “Só hoje, Jota Quest”. O corpo começou a se mover de maneira involuntária no ritmo invisível da música que só ecoava em sua cabeça.
Destacou uma das rosas, levou até o peito e girou com ela agarrada em seu corpo enquanto claramente dançava abraçada as memórias de seu passado. Girou no próprio eixo com lágrimas correndo pelas bochechas e o insistente sorriso que não conseguia impedir de surgir já que lembranças doces gritavam sobre seu cognitivo. Quando os dois faziam a mesma coisa naquela sala, dançavam ao som das músicas preferidas do casal, quase todas em ritmo brasileiro, se bem que, às vezes, o convencia a dançar sobre o gingado colombiano. As gargalhadas da moça motivavam o brasileiro a fazer gracinhas diante das músicas.
– Que cena mais linda! – Rugiu a voz e alargou mais o sorriso, imaginado ver Pietro a elogiando, porém não conseguiu esconder a decepção quando encontrou os olhos claros de Daniel, o atual namorado. – Pelo visto gostou das flores. – Sorriu e apontou a rosa solitária nas mãos da mulher.
– Foi você? – Questionou com os olhos fechados, não querendo acreditar.
– Claro que sim. – Daniel se aproximou da namorada, lhe deu um beijo rápido e logo se afastou com uma toalha ainda secando os cabelos loiros.
– Por que me deu flores?
– Eu sei que gosta de rosas e tentei ser um bom namorado. – Justificou como se fosse obvio
A ruiva forçou um sorriso sem mostrar os dentes, devolveu a rosa para o vaso e se afastou.
– Obrigada, amor. São lindas. – Engoliu em seco e tentou amenizar a expressão de decepção que cruzou seu rosto.
– O que vamos fazer hoje? – Ele questionou enquanto caminhava até a cozinha para guardar as coisas que ela havia comprado. – Estava pensando em abrir um vinho, o que acha?
– Pode ser. O que você decidir, por mim tudo bem.
Sentou-se novamente no sofá para ser mais eficaz em esconder o que estava de fato sentindo. Evitou olhar para a televisão novamente onde a reportagem ainda falava sobre Pietro, buscou o controle jogado sobre as almofadas e desligou com os olhos fechados.
O coração estava esmagado no peito, doía de uma forma que não se lembrava de ter sentindo. Quando caiu e quebrou o pé, ou quando teve cálculo renal e sofria com dores absurdas de cólica, nada se comparava a dor da saudade que naquele ocupou todos os cantos de seu corpo. Das células e poros até a última camada de sua pele. A imagem de naquele momento para quem visse era um completo caos.
Quando optou por terminar seu relacionamento acreditou que não seria fácil, ela sabia disso. Mas em nenhum momento imaginou que seria daquela forma, tudo que imaginou e calculou jamais se aproximou do que de fato sentia, da dor, da saudade, do quão insuportável era estar longe de Pietro.
Nos primeiros dias, acreditou que não sobreviveria, que suas forças para levantar da cama não voltariam, as cores sumiram diante de sua visão, os sorrisos eram murchos e sem vida, os programas que antes lhe causavam satisfação, hoje era somente mais uma lembrança da falta que Pietro fazia.
Quando uma lágrima grossa e solitária escorreu por seu rosto, a secou como um flash, e novamente seus olhos se direcionaram para a mesa onde as flores residiam sobre um belo vaso branco, desviou o olhar e jogou a cabeça para trás, na tentativa totalmente inútil de impedir que mais lágrimas caíssem, porém, seu sistema nervoso não a obedeceu, como nunca nada obedecia quando se tratava de Pietro Fitipladi.
Daniel, seu atual namorado, se aproximou da ruiva e assustou-se quando observou que a estudante chorava, totalmente preocupado ajoelhou em frente à moça e tocou seus joelhos.
– O que aconteceu, ? – Questionou e arregalou os olhos quando seus ouvidos captaram o apelido.
– Você me chamou de quê?
.
– Por quê?
– A Rebeca te chama assim, escutei outro dia. – Encolheu os ombros um pouco envergonhado. – É algo intimido de vocês?

balançou a cabeça negativamente e secou as lágrimas, era algo íntimo, bem íntimo, mas não era com Rebeca. A melhor amiga, às vezes, repetia o apelido por impulso e sempre se desculpava, pois detestava ouvir aquele apelido, a maneira carinhosa que Pietro a chamava.
– Minha cabeça dói um pouco, vou tomar um banho quente. – Falou baixo e se levantou sendo amparada pelas mãos do loiro em sua cintura.
– Eu te ajudo.
– Não precisa. – Se afastou do toque, ele queimava, e pior era a lembrança do toque que não poderia mais sentir. – Eu vou tomar um banho, vai ser rápido.
Ela não esperou a resposta do outro, seus pés somente se afastaram. A porta do quarto estava aberta e com o pé direito ela chutou a mesma quando entrou, não se assustando nenhum pouco com o barulho que fez eco pela casa.
prendeu os cabelos em um coque e retirou a blusa, permanecendo apenas com o sutiã. O caminho que traçou até entrar no banheiro foi o mais longo que percorreu nos últimos dois anos, ela sabia o motivo, o lugar para onde se direcionava era seu recinto secreto e de total paz. Não gostava de recorrer aquele armário no banheiro, mas sentiu que naquele momento era a única coisa que amorteceria sua agonia emocional.
A porta do banheiro foi fechada e trancada com cuidado, e ela permaneceu parada com as duas mãos sobre a porta, tentando controlar sua respiração totalmente descompassada.

(Dê Play na música)
Após alguns segundos, virou-se e encarou o armário envelhecido que ficava no canto inferior do banheiro, geralmente era onde guardava produtos de higiene pessoal, algumas toalhas e utensílios relacionados à manutenção do próprio ambiente.
Exceto a última gaveta, aquela ali continha pedaços da alma de . A ruiva abaixou de cócoras, esticou a mão direita e a abriu. Dentro do recipiente havia várias coisas pessoais, livros, roupas, CD’S todas coisas que foram de Pietro e ele não tirou da casa da, na época, namorada.
A primeira coisa que resgatou da gaveta o foi óculos escuro preto, o modelo era Rayban e ela conseguia se lembrar perfeitamente de como o encaixe do objeto entrava em simetria perfeita com o rosto másculo do carioca. Deixou de lado, e resgatou uma camisa verde musgo, parecia bastante com as cores que jorravam nas paredes de seu quarto, o tecido estava gasto e com aspecto de velho, já que nos últimos dois anos, não conheceu um pingo de água. se recusou a deixar o cheiro do perfume sumir. Atitude totalmente ridícula já que o próprio tempo se encarregou de apagar qualquer vestígio de cheiro que poderia existir.
Exatamente por esse motivo o próximo item que retirou da gaveta, foi um perfume. 212 sexy Man, o perfume preferido do piloto. Ela destampou o vidro e levou até as narinas, o corpo inteiro se arrepiou ao inalar o cheiro, a boca ficou seca com aquele gosto. O gosto amargo das doces memórias. Em um impulso totalmente racional, passou a blusa pelo pescoço sentindo a maciez abraçar sua pele, por cima borrifou incontáveis vezes o líquido do frasco, o perfume agora pirava sobre o ar. Fechou os olhos por mais alguns segundos enquanto os lábios se abriam em mais um sorriso, na mente instável dela conseguia sentir a presença do amado.
Será que Pietro se lembrava dela? Será que sentia saudades? Será que pensava e imaginava como seria se estivessem juntos, se já teriam mudado os planos para o futuro ou se ainda viveriam apenas um dia de cada vez?
Será que ele seguiu a vida e assim como ela conheceu outra pessoa? Será que outra mulher era dona dos beijos e do coração dele?
nunca saberia.
Respirou fundo mais uma vez e colocou a mão direita sobre o peito, para acalmar as batidas arrítmicas do coração. Outra vez, foi totalmente nula a tentativa. Voltou os olhos para as demais coisas que ainda pousavam dentro do receptáculo, por cima de um livro, O físico de Noah Gordon, havia um porta retrato com moldura dourada. Não aguentando o peso do próprio corpo, sentou por completo ajeitando as pernas na posição de índio e então pegou o objeto. Arrastou o corpo para trás até a parede usando a mesma como apoio, para só então aproximar a fotografia de seu rosto.
Ela conseguiu reconhecer de imediato o local, o dia e o exato momento em que o registro aconteceu. Ela e Pietro, estavam abraçados em frente uma mesa de jantar a decoração do fundo era de Natal, a árvore incrivelmente iluminada jorrava luz sobre a cabeça dos dois e transparecendo toda a alegria que sentiam.
adorava o natal, era uma data alegre e que exemplificava como a família se resumia, por causa disso, sempre fez questão de comemorar o natal, e, por causa dela, Pietro também aprendeu a amar a época natalina. A moça trajava um vestido verde, Pietro adorava que ela usasse essa cor, segundo ele, entrava com contraste com a cor do cabelo, tornando-a ainda mais bela. Os cabelos estavam soltos e com leves cachos, nos lábios um batom já quase inexistente, resultado de vários beijos que o namorado tinha lhe roubado. Do outro lado da foto, Pietro tinha um sorriso enorme que era capaz de engolir toda felicidade do mundo, vestia camisa social branca, mesma cor da calça escolhida particularmente para agradar a namorada, que sempre adorava vê-lo daquela forma.
Aquela foto foi tirada no primeiro natal deles como um casal, quando Pietro chegou até lá morrendo de vergonha para avisar que tinha mudado de posto, passando de melhor amigo para namorado. Todavia, a expressão que cruzou os rostos dos familiares de passou bem longe de surpresa. Todos já sabiam que eles terminariam juntos, eles eram a personificação da perfeição.
A futura terapeuta saiu de suas memórias e abraçou com toda força o porta-retrato, apegando-se com todo seu vigor ao objeto e a lembrança incrível que ele trazia. E então, ela não conseguiu controlar suas lágrimas, naquele dia, não se importou com os gemidos que escapavam de seus lábios, ou de como seu corpo tremia sendo ninado pelas lágrimas que jorravam. Ela somente se entregou àquela penumbra que sempre pairou sobre sua vida, que era recheada de situações que remetiam a ela momentos tão incríveis que jamais poderiam se repetir.
Tudo que viveu ao lado dele foi único, incomparável e totalmente inesquecível. Ela sabia que viveria o resto de sua vida presa àquelas cenas que dançavam em sua memória, mas por mais que odiasse confessar e acreditar, as coisas que escondia dentro daquela gaveta, eram a única coisa que a transportava para o passado, e nele foi a mulher mais feliz que existiu

XXX

No domingo da corrida, estava sentada em frente à TV com um copo de Gin tônica em mãos e petiscos pousavam em um prato sobre suas pernas.
A mão que segurava a taça tremia um pouco em ansiedade, já que em poucos minutos veria Pietro ao vivo em sua sala de estar. Antes que a transmissão se iniciasse, a ruiva levantou rapidamente para ir até a cozinha buscar mais bebida e para poupar tempo, decidiu carregar a garrafa e deixar nos pés do sofá.
Daniel não estava ali naquele dia, viajou para sua cidade e foi para casa passar o final de semana com sua família e seu irmão que tinha chegado de viagem a pouco tempo, a ruiva louvou aos céus quando o namorado lhe informou que não estaria presente. Na outra semana após ver novamente o rosto de Pietro e ter notícias de sua vida, tudo mudou.
A maneira como enxergava o atual namorado foi danificada drasticamente, o toque de Daniel queimava, os beijos tinham o gosto amargo e toda vez que fechava os olhos só conseguia imaginar Pietro. Noite passada enquanto dormiam, Daniel iniciou uma trilha de beijos sobre o corpo da namorada, não negou o contato, mas ficou com nojo de si mesma por estar sendo tocava por um homem e desejando estar nos braços de outro.

Como seria se Pietro estivesse naquele lugar? Como ele a tocaria? Como a beijaria? Suas mãos ainda permaneciam firmes como antes?
Ela jamais teria aquelas respostas.
respirou fundo quando sentiu as lágrimas se aglutinarem em seus olhos e, de maneira bruta, passou as mãos sobre o rosto. Focou sua total atenção na televisão quando iniciava a abertura com algumas imagens de pilotos e do local onde aconteceria o grande prêmio daquele final de semana.
Sua concentração na tela foi o motivo de não escutar a porta de sua casa sendo destrancada e aberta, sua percepção aconteceu somente quando o lugar ao seu lado no sofá afundou e uma mão tocou seu ombro. O grito que emitiu de sua boca fez Rebeca gargalhar e arquear a sobrancelha de maneira divertida, após reconhecer a feição leve da melhor amiga, lhe estapeou e depois a puxou para um abraço terno.
– Você anda muito assustada, . – A loira provocou sorrindo.
– Lógico, eu não escutei a porta abrindo, você quer me matar de susto?
A ruiva rebateu.
– Eu vim assistir à corrida com você, torcer pelo Max. – Ergueu as mãos para o alto em punho como uma líder de torcida.
– Quer beber? – Mostrou o copo e Rebeca desencaixou os pés de dentro do tênis colocando-os sobre o sofá.
– Não, obrigada. – Respondeu e então olhou a amiga. – Não está cedo demais para beber?
– Não, doutorinha. Em algum lugar do mundo já está de noite. – Respondeu firme. – Por que não quer beber? Devíamos beber juntas para eu afogar minhas magoas vendo o Pietro correr.
Rebeca emitiu um sorriso terno e balançou a cabeça negativamente.
– Eu tenho que ir para o hospital de tarde. – Só então percebeu que a menina trajava roupas na cor branca. – Se você vai afogar suas magoas, então se prepare. – Apontou a TV e se amaldiçoou quando olhou para frente e o brilho que jorrava do sorriso de Pietro lhe deu um murro no estômago.
O garoto se preparava para dar uma entrevista, naquele momento estavam posicionando o microfone nas mãos dele e ele retirava os óculos com toda educação para dar início. Rebeca se aproximou mais da amiga e de maneira gentil tocou seu joelho lhe passando forças em um gesto mudo.

“Estamos aqui hoje com o nosso brazuca, Pietro Fitipaldi. Boa tarde, Pietro, tudo bem? – A repórter, Mariana Becker, iniciou a entrevista.
“Boa tarde, Brasil! – O jovem piloto respondeu e a taça que estava na mão de caiu derrubando o liquido em seu sofá, mas não causando nenhum tipo de reação.
Mariana continuou fazendo perguntas e Pietro respondendo, tinha ciência disso, pois enxergava o movimento dos lábios dele na tela. Seus ouvidos absorveram o som gracioso de sua voz e colocou no repete automático dentro de seu próprio cérebro, trancando em um looping torturante.
O que ele respondia na entrevista, ela não tinha a menor ideia, só prestava atenção na melodia daquela voz. Sabe a sensação que o afogamento causa? Aquele momento em que o ar falta aos pulmões e por mais que tente não consegue controlar a respiração e sente que a qualquer momento sua consciência se perderá. Sentia-se daquela forma, totalmente entregue e sem forças para lutar por oxigênio.
Os choques térmicos que seu corpo recebia, era um reflexo dos espasmos de suas células se contraindo em dor, morrendo de dor. E mesmo após isso, as que nasciam permaneciam em agonia intermitente assistindo aquela cena caótica que a moça se concentrava.
arredou o corpo para trás, até as costas alcançarem o encosto fofo do sofá, dando a ela um suporte caso seu corpo desfalecesse, o que naquele momento estava por um fio de acontecer. Ela enxergava os lábios de Pietro se movimentando, mas o som de suas palavras, seus tímpanos não eram capazes de captar.
Sua mente carregada de alucinações soprava de maneira corrente o que ela queria que a mesma enxergasse, seus olhos totalmente obedientes sucumbiram ao desejo e seu coração liberou as memórias que ela mais reprimia.
Respirou fundo pela milésima vez, e viu Pietro passar as mãos pelo cabelo que caia em seus olhos, no braço direito tinha uma pulseira dourada e por instinto olhou para o próprio braço, identificando o mesmo objeto. A correntinha que enfeitava seu braço tinha o símbolo do infinito e foi um presente que havia ganhado do piloto.
Com pesar passou o dedo indicador direito pelo metal valioso contornando devagar cada pedaço dela, por uma, duas, três vezes. Mais uma lágrima quente escorreu pela bochecha direita, junto com ela a lembrança daquela exata quinta-feira. Da colcha branca. Do vinho rosê que enfeitava as taças.

Maio, 2016

– Você tem certeza que não quer ir comigo? – Pietro perguntou e ela negou com a cabeça, o moreno esticou o braço até a escrivaninha ao lado da cama, abriu a primeira gaveta tirando uma caixinha vermelha, olhava com olhos esbugalhados totalmente curiosa.
– Que isso, amor?
– Me dá um beijo que eu te mostro. – Pediu e ela sorriu dando-lhe um selinho. – Quero mais um. – Fez bico.
– Caixinha cara essa, não? – Disse e mais alguns selinhos foram dados antes que pegasse a caixinha, ela sentou na cama ainda enrolada no lençol branco, ao abrir seus lábios formaram o sorriso mais perfeito que Pietro já tinha visto, a cada sorriso que ela lhe direcionava, lhe fazia o homem mais feliz do mundo por tê-la ao meu lado! – É tão perfeito!
– Para você saber – Retirou a pulseira do infinito preparando para colocar em seu pulso. – que ninguém nunca vai te amar mais do que eu te amo. Mesmo que eu esteja indo para o outro lado do mundo, sempre vou amar você.
– Então já que é assim. – Deu-lhe outro selinho e pegou uma caneta na mesma escrivaninha que ele momentos antes, pegou o braço esquerdo e desenhou o mesmo símbolo, ele sorriu com a atitude da namorada, era engraçado e ao mesmo tempo surpreendente, como tudo que fazia. – Você vai tomar banho, e com certeza a tinta da caneta vai sair, mas toda vez que você olha para seu braço esquerdo vai lembrar que ninguém te ama como eu e nem nunca vai amar! – Ela disse e uma vontade enorme de nunca mais tomar banho tomou o corpo dele por completo, sorriu e lhe deu um beijo na testa.
– Então já que não vai comigo, podemos deixar um encontro marcado nessa mesma cama? – Voltou a deitar, puxando-a consigo.
– Com toda certeza, esse lado esquerdo na cama é só meu, não ouse colocar nenhuma outra aqui.
– Nem do lado esquerdo da cama e nem do coração.

. – O chacoalhar da mão de Rebeca a despertou de seu sonho. – Você está suando. O que está sentindo?
– Dor. – Respondeu baixo. – Beca, eu sinto falta do Pietro. Sinto falta todos os dias da minha vida. Por que eu fui fazer essa burrada, Rebeca? Por quê?
Os olhos da ruiva procuraram as respostas nos doces e compressivos da melhor amiga, porém Rebeca não disse nada. Não tinha o que falar. Ela ficou de joelho e abraçou a cabeça de , trazendo-a para seu peito. Diante do carinho, a estudante não processou mais palavras, deixou o corpo entrar em combustão explodindo em lágrimas. Muito se fala sobre a saudade, o motivo dela existir, porque a sentimos, o seu significando. Os motivos da saudade exalar nos corações das pessoas são vários.
Há pessoas que sofrem com a saudade por se prender ao passado a ponto de paralisar suas vidas atuais. Porque foram felizes no passado e não o conseguem ser agora ou porque não se sentem capazes de recuperar algo ou alguém perdido e que faz muita falta. Por causa da morte que foi o motivo de afastar corpos.
No caso especifico de , o motivo que remoía em seu peito e destroçava sua sanidade. Era o arrependimento. O passo de terminar fora dela, o desejo e a necessidade de acreditar que aquele relacionamento não daria certo também partiu dela, Pietro implorou para que ela não seguisse adiante, para que desse uma chance para eles. Para o amor deles.
A moça, entretanto, movida por sua mania de controle, de manter planejamento e detestar não ter o domino de tudo que acontecia, no momento em que se viu perdida sem entender o que acontecia, sem saber o que o futuro reservava, foi tomada pelo medo. Pela necessidade de permanecer sabendo e ditando quando e onde pisaria, ela e sua mania de não gostar do imprevisível.
Agora, porém, não tinha o que fazer. Iria encher a cara em Gin, mandar todas as energias positivas que puder para Pietro naquela corrida, pedir aos céus que ele encontre a felicidade genuína, que a próxima pessoa que entrar em seu caminho, não cometa os mesmos erros que ela cometeu.
Mas seu maior desejo era outra chance, uma chance para não errar novamente.
, amiga, você está escutando? – Rebeca mais uma vez interrompeu o fluxo de seus pensamentos.
– O que foi? – Resmungou passando as duas mãos pelo rosto.
– Escuta. – Apontou a TV e então focou os olhos novamente no aparelho, Pietro tinha um sorriso tímido nos lábios e coçou a nuca de maneira nervosa.

“Tem uma pessoa que eu gostaria de ter a oportunidade de agradecer, mas infelizmente tem algum tempo que perdemos contato. – Ele respirou.
“Agradeça então, vai que essa pessoa está te assistindo. – Incentivou a repórter loira.
“Eu queria agradecer todo o apoio que recebi dela, todo incentivo e carinho. Nós que lutamos por um sonho sempre enfrentamos muita dificuldade, é de extrema importância o apoio de amigos e família, ela me deu tanto apoio que fui incapaz de desistir, sempre pensando nas palavras de incentivo dela. Então, eu mando aqui o meu muito obrigado e eu espero que os sonhos dela também estejam se concretizando.
“Qual o nome dela? – Tornou a perguntar e Pietro sorriu.
“Ela costuma se chamar de Feiticeira Escarlate, mas eu sempre preferi Capitã Marvel.
“Obrigada, Pietro. Tenha uma ótima corrida hoje.

permaneceu imóvel no lugar, com as próprias mãos afastou os braços de Rebeca de si, e endireitou a coluna. Totalmente ereta. Não conseguindo proferir qualquer reação, palavra ou pensamento. Ela simplesmente fechou os olhos e chorou. Chorou pela vitória que ele havia conquistado. Chorou pela saudade que cortava sua alma. Chorou pelo arrependimento de ter escolhido deixa-lo. Chorou pelo desejo de conseguir voltar no tempo. Chorou por ele se lembrar dela. Por citá-la. Por agradecê-la.
E também se amaldiçoou por ter desistido. Por não ter lutado. Por ter escolhido o que aparentemente era o mais fácil, o que ela acreditava ser o melhor. Quanta idiotice. Queria gritar que ainda o amava, que o queria de volta, que detestava a distância e que tudo que precisava era dele por perto.
Rebeca imediatamente se colocou de pé e em passos rápidos chegou à cozinha, enchendo um copo com água, e logo voltando para perto de , colocou o copo no chão e se agachou com as duas mãos no joelho dela. A moça estava com as duas mãos enterradas nos cabelos, a cabeça baixa por entre os joelhos, os ombros tremiam de acordo com que os gemidos escapavam de seus lábios. Sons que cortava o coração da amiga.
. – Rebeca chamou baixo. – Eu trouxe um pouco de água, por favor, beba.
– Eu não quero nada, Beca. – Ela respondeu em meio aos soluços. – Eu não estou bem.
-Você está sentindo o quê? – Questionou preocupada.
– Saudade. Dor. Tristeza. Nojo. Estou com palavras agarradas na garganta, me sufocando por completo, me deixando sem ação. – cuspia as palavras sem pausa alguma e sem levantar a cabeça.
– Fale, . Você precisa colocar para fora. Precisa limpar sua alma.
– Não adiantaria se não for com o Pietro.
Rebeca não respondeu, somente olhou por cima dos ombros procurando algo, sorriu quando encontrou sobre a mesa um bloco com papel, correu até lá, pegou, logo pescou de dentro da própria bolsa uma caneta qualquer. Voltou para perto da amiga e sentou-se ao lado no sofá.

– Falar não é a única forma de colocar para fora. – Disse e então finalmente levantou a cabeça olhando-a.
Os olhos sempre iluminados estavam vermelhos e inchados, nas bochechas tinha marcas de água tão evidentes que era nítido que vinha chorando com frequência. Os cabelos ruivos estavam altos e embaraçados. Era a externalização do caos em seu interior.
– Escreve. Tira tudo que te sufoca do seu coração e depois levanta a cabeça, as coisas vão se ajeitar.
abriu e fechou a boca algumas vezes, sentindo os lábios colados por estarem totalmente secos, como se suas glândulas não produzissem mais salivas. Ela encarou o papel em branco e esticou a mão para pegar a caneta, olhou para a amiga que assentiu a incentivando a continuar. Ela sorriu tomou para si tudo que Rebeca lhe entregava, não sabia ao certo o que dizer, mas sabia que era daquilo que precisava.
– Eu… eu vou..
– Sim, vai para o quarto, eu vou permanecer aqui.
assentiu e ficou de pé, agachou para pegar o copo com água e o virou por completo na boca, Rebeca recebeu o copo em silêncio, voltando a prestar atenção na corrida que iniciava a volta de apresentação.
caminhou para seu quarto, os passos eram ritmados pelas batidas de seu coração. Fechou a porta com o pé e seguiu em direção a própria cama, subiu nela com os joelhos e andou até o topo sustentando o papel abraçado contra seu peito.
Sentiu o corpo afundar no colchão quando soltou seu peso sem controle, cruzou as pernas e posicionou o papel sobre as pernas. Fechou os olhos e movimentou a caneta na mão por várias vezes, totalmente incerta do que fazer. Era incrível que sabia exatamente o que queria dizer e ao mesmo tempo não tinha a menor ideia do que explanar.
Permaneceu de olhos fechados e esperou mais alguns segundos, quando deu por si as palavras estavam saindo de seu coraçãozinho em pedaços e indo para a ponta de seus dedos.

(Musica inspiração
“Oi, Pietro!
É difícil escrever para você, sem saber como te chamar, mas optei pelo nome, não sei se você ainda me permitiria usar o apelido, já que não sei como ou com quem você está, se ainda pensa em mim em algum momento, fazendo coisas simples do dia, assim como eu penso em você.
Eu conheci outra pessoa, após a gente terminar. O nome dele é Daniel e ele cuida muito bem de mim, sabe? Às vezes, eu acordava de madrugada chorando, após sonhar mais uma vez com você, ele me amparava e cuidava de mim, sem questionar o motivo. Gostaria de poder ser dele por inteiro, mas eu ainda tenho um pé atrás na nossa história e não sei para onde ir.
Mesmo ele sendo um cara incrível, para mim qualquer homem sempre será o segundo melhor, depois que a gente terminou.
Comparações são facilmente feitas, uma vez que conheci a perfeição do amor, e eu me repreendo muito por ter mandado você embora. Por ter desistido de nós. Me sinto como se estivesse diante de uma enorme arvore cheia de frutos bonitos e podres, e eu escolhi a maçã podre, acreditando que ela era a saudável, ainda tenho a semente para me lembrar todos os dias da minha péssima escolha.
Você é como um verão indiano no meio do inverno, ou como um doce com um recheio-surpresa. Ou quando vem muita batata frita no pedido, tudo que pode ser considerado bom está ligado a você. Eu jamais encontrarei alguém que me faça sentir o que você fez. Como eu poderia encontrar alguém melhor sendo que já tive o melhor?
Eu revivo aquele dia em minha cabeça várias vezes, quando eu decidi acabar, quando eu disse que nossos futuros eram separados e você chorou dizendo que me amava e que eu estava louca, mas depois de tanto tempo, Pie, eu vejo, você tinha razão.
Porque quando eu estou com ele, eu estou pensando em você e me questionando sobre o que você faria se você fosse aquele com quem eu estivesse passando a noite. Como desejo que eu estivesse olhando em seus olhos nesse momento para falar tudo isso, tudo que eu mais desejo é poder ver você sorrindo para mim novamente, mas quando penso em te encontrar, sou lembrada do quanto te fiz chorar.
Eu sinto raiva. De mim. Eu escolhi dessa forma, não? Teria que ser a última pessoa a derrubar lágrimas por algo que eu fiz, mas ele me beijou ontem de noite e eu senti o gosto da sua boca; ele também me abraçou de noite na cama e eu fiquei com nojo de mim mesma. Porque eu só pensava que queria sentir seu toque, seu beijo, seus carinhos.
Você é o melhor, Pietro Fitipaldi. E, sim, eu me arrependo, mas eu já não mereço mais você, porque como pude permitir a mim mesma deixar você ir? De qualquer forma, a lição está aprendida. Eu toquei e fui queimada. Não mereço mais sentir seus toques, seus beijos, sua risada. Não mereço mais morar em seu coração. Porém achei que você deveria saber que o que mais queria era ficar na mira dos seus olhos lindos, e acredito que mesmo depois de todo esse tempo, você merece saber. Eu sempre estou pensando em você, em todos os momentos do meu dia, fazendo as coisas mais simples, como beber água, caminhar na rua ou apresentar um trabalho importante, e enxergo seus lindos olhos na multidão me acalmando e dando forças.
Eu não sei o que motivo de estar escrevendo tudo isso, já que você não vai vir, arrombar a porta e me levar embora com você, mas essa noite eu sonhei com isso. Sonhei mais uma vez com a gente, meus sentimentos estão impregnados no passado e vivo te procurando em todos os lugares.
Me desculpe pelo sofrimento, você nunca mereceu, não vou dizer que desejo que seja feliz com outra, pois estaria mentindo mais uma vez e não quero mais mentiras. Você faz parte de mim. E eu sempre, sempre, vou estar sentindo sua falta.
Com amor, sua . “


4 de dezembro, 2020.

Daniel parou no meio da sala da namorada e colocou as mãos na cintura. Correu os olhos pelo cômodo mais uma vez esquadrinhando cada canto daquele local, pra ter a mais absoluta certeza que já tinha procurado em todos os locais.
E de fato, ele tinha procurado em todos os locais. Onde estava aquele maldito documento? Daniel era um homem bagunceiro, tentava ao máximo não fazer bagunça na casa de , pois ela sempre brigava e reclamava por dias de sua bagunça. Mas já tinha procurado aquele documento em todos os lugares e não havia achado, em sua república não estava, nem no carro ou armário da faculdade, o único lugar que poderia estar era na casa de .
Precisava urgentemente do contrato em mãos, era para uma entrevista de trabalho e no papel tinha os pontos chaves do que precisava falar. Odiando a si mesmo e mais ainda a sua bagunça, ele caminhou rapidamente até o quarto, era o único lugar que não havia olhado.
Antes de entrar deu três pulinhos na porta, fazendo um pedido para São Longuinho e prometendo não beber cerveja no próximo final de semana, mas, somente se encontrasse o que procurava.

Sentou na cama e abriu a primeira gaveta da cabeceira da cama. Tinha algumas coisas de , remédios, a caixa dos óculos, fones e o livro que atualmente estava lendo; O último Reino de Bernard Cornwell. e seu amor absurdo por histórias de épocas, riu sozinho e folheou o livro, verificando se não tinha algum papel perdido por ali. Foi no exato momento que mexia nas folhas que um pequeno envelope caiu no chão.
Daniel deixou o livro sobre a cama e resgatou o papel do chão. Era um envelope branco, na parte da frente estava escrito: Thinking Of You
Franziu o cenho confuso e mordeu o lábio totalmente indeciso se abria pra ver o conteúdo do papel. Sabia que era errado entrar na privacidade da namorada, mas algo dentro de sua alma lhe dizia que devia saber do que se tratava.
Olhou para os dois lados certificando-se que estava realmente sozinho e não corria o risco de chegar de supetão, ela tinha saído com Ester, uma amiga de faculdade, foram comprar fraldas para o chá de bebê que estava sendo preparado para uma outra amiga, Natália. Ela ficaria a tarde toda fora.
Respirou fundo e soltou o ar lentamente enquanto desdobrava o papel. Iniciou a leitura com certa cautela, conforme corria os olhos pelas palavras descritas sentia pontadas dolorosas sobre o coração.
A respiração ficou falha e lágrimas molharam seu rosto, quase não conseguia acreditar que aquilo era real. Que estava mesmo lendo, sabendo e entendendo coisas que por meses fora escondida pela ruiva.
O loiro fechou os olhos e beliscou o próprio braço na tentativa de acordar do pesadelo que estava vivendo. Quando abriu os olhos, estava no mesmo lugar e com aquele mesmo pedaço de papel em mãos. Estava perdido em seus pensamentos e sem saber o que fazer, era cruel demais ter que tomar uma decisão a respeito do que tinha lido.
Amava , tinha total certeza disso. E sabia que era com ela que pretendia ficar, mas se deu conta que ela não o amava, amava outro homem. E então se lembrou de uma das frases de seu personagem preferido de séries, Dean Whinchester: Só por que você ama muito alguém não significa que você deve ficar por perto e atrapalhar a sua vida.
Ele secou mais uma lágrima, dobrou novamente o papel, colocando dentro do mesmo envelope, pegou o celular que estava no bolso de sua bermuda, procurou nos contatos o telefone de Rebeca, ele não sabia o que fazer com aquela carta, mas Rebeca com certeza saberia. Abriu a conversa com a estudante de medicina, tirou uma foto do envelope e enviou como anexo na conversa. Digitou e apagou varias vezes, até que por fim optou pelo mais simples.
“Faça chegar nas mãos de quem é de direito. , merece mais uma chance, vou deixar debaixo do tapete da entrada.”
Não esperou uma resposta da loira, mesmo sabendo que tinha sido visualizada quase imediatamente, pois os dois traços do aplicativo ficaram azuis. Travou o telefone e colocou novamente no bolso, caminhou até o guarda-roupa de e começou a retirar todas as suas coisas que estavam por ali. Estava na hora de partir e deixar que vivesse o amor que desejava.

22 de dezembro de 2020.

Estava ventando aquela noite. As folhas de árvores balançavam à medida que a brisa corria pelos dentre os galhos. Era um dia atípico, já que estava fresco, clima que em dezembro não era característico no país tropical. Os cariocas tinham as casas e apartamentos enfeitados em comemoração ao natal, totalmente ansiosos e apaixonados pela época que estava se aproximando, pedindo para que a magia de natal os afetasse e trouxesse somente novidades boas.
, ao contrário da população, não estava animada para o natal. Geralmente gostava muito de comemorar a data, mas não naquele ano. Ela queria mesmo era que acabasse bem rápido, o desejo de dormir e somente acordar em 2021, gritava em sua mente.
A ruiva estava jogada no sofá. Os olhos estavam fixos em um ponto qualquer que não prestava atenção em nada, totalmente sem foco e sem brilho. O som que saia no ambiente vinha do aparelho televisivo localizado no painel em sua frente, o conteúdo era o seriado chicago PD, uma das series preferidas da ruiva, entretanto não tinha o mínimo de concentração para saber qual episódio estava ou a quanto tempo estava ali.
Ela tinha em mãos uma taça com Gin, não costumava ingerir tanto álcool como nos últimos dias por causa da atual situação que passava não tinha vontade alguma de permanecer sóbria. Dias atrás, Daniel tinha terminado o namoro e se afastado. Encontrou a carta que a capixaba tinha escrito para o ex-namorado e entendeu que não poderiam continuar juntos, quis ter forças para lutar, para pedir que ele ficasse, porém não conseguiu. Ela conseguia chorar e pensar que por duas vezes tinha destruído a própria vida, totalmente decorrente de um erro idiota e imaturo do passado.
Agora não tinha mais um namorado carinhoso ao seu lado, tinha gatos e livros e já estava se acostumando com a ideia que morreria sozinha, solteirona e cheia de gatos. Não tinha direito de reclamar, tinha sanidade metal o suficiente para saber que era fruto de suas próprias escolhas e, por causa disso, o poder de mudança era mínimo.
Não se permitia acreditar que não era uma tola, sabia que era. Tinha jogado sua felicidade pela janela, baseando suas atitudes em ideias que, em sua cabeça, era totalmente plausíveis. Arrependeu-se? Totalmente. Porém, agora, não tinha o que fazer, arquivou com toda sua experiência, colocando notas mentais para jamais repetir o erro.
A moça bebeu mais um gole da taça e bufou irritada quando percebeu que havia acabado, a preguiça dominou por completo seu corpo tentando de todas as maneiras impedir que se afastasse do aconchego daquele sofá.
Analisou por alguns segundos o que deveria fazer e quando desviou os olhos para a televisão e viu o casal Haley e Adam trocando um beijo apaixonado, sentiu os olhos encherem de água e decidiu que beberia mais.
Levantou com o copo em mãos e caminhou lentamente até a cozinha, os passos eram tão lentos que o espaço que cruzaria em segundos, pareceu que foi feito em horas. Seu gato, que estava deitado sobre as patas perto da bancada levantou a cabeça ao ver a dona se aproximando, sorriu e se abaixou preparado–se para fazer um carinho, o animal, porém, saiu de seu caminho não dando a menor atenção a ela.
Ótimo, até seu gato estava lhe ignorando! Obrigada, vida!
Depositou a taça sobre a bancada enquanto se afastava para buscar a garrafa verde dentro do armário superior. Na ponta dos pés, ela se esticou e tocou o vidro em mãos, girou no próprio eixo e destampou o recipiente sentindo o cheiro do álcool inundar suas narinas e os pelos de seu corpo reagir.
Com cautela, virou a garrafa e derramou o liquido, observando até onde encheria a taça, seu instinto racional disse que até o meio estava bom o suficiente, ela ignorou a vozinha e decidiu que encheria até a borda. E dessa vez levaria a garrafa para o sofá, não queria ficar refazendo aquele mesmo traçado mais incontáveis vezes na noite.
A campainha soou de maneira estridente, assustando que acabou derramando um pouco do liquido sobre a bancada. Ela rolou os olhos e se fingiu de morta, para que ninguém soubesse que estava em casa, o silêncio faria o visitante ir embora.
Ao contrário do que pensou, quem estava do outro lado não se retirou. Ao invés de tocar somente a campainha, iniciou batidas fortes na porta. bufou em raiva e soltou a garrafa com força, totalmente preparada para socar quem quer que fosse a irritante pessoa que parecia não ter mais o que fazer além de atolar o dedo na campainha. A pessoa do outro lado da porta não tinha um pingo de bom senso. Quando girou a chave, destravou e abriu a porta, a imagem que preencheu seus olhos foi totalmente surreal.

Eu te amo mil milhões.
Foi a primeira coisa que passou na cabeça de . Aquela voz. Aquele eu te amo naquela voz que jamais foi capaz de esquecer. A moça piscou várias vezes para se certificar que não era uma ilusão.
Era mesmo ele. Depois de dois anos.
O coração dela se aqueceu, uma corrente elétrica percorreu todo seu corpo, liberando choques de 220 volts, cada partícula, átomo e célula de seu corpo ganhou vida.

– Pietro? – Os nós de seus dedos da mão estavam duros, devido à força que colocava contra a porta que segurava.
Seu cérebro parou de obedecer a seus comandos e ela perdeu todo o controle de seu corpo. Constatou que não tinha se esquecido do exato tom da cor dos olhos de Pietro. E nem de nada ligado a ele, os cabelos, o corpo – agora mais musculoso – a voz. Era exatamente como se lembrava. Ele quase parecia seu novamente.
– Oi, . – Ele sorriu e desencostou o corpo do batente da porta. Ele levou a mão direita ao bolso da calça jeans e retirou um papel, girou entre os dedos. – É aqui que mora a pessoa que me escreveu essa carta?
– O quê? – Ela balbuciou incerta. Aquela era a carta que tinha escrito semanas atrás? Como ela foi parar nas mãos de Pietro.
– Eu posso entrar? – O piloto perguntou e ela assentiu sem dizer nada, deu um passo para trás dando passagem a ele.
O moreno entrou e andou um pouco pela sala, observando rapidamente o local, estava exatamente tudo como ele se lembrava. Ele olhou por cima do ombro e viu se aproximar.
O caminhar ainda era gracioso como antes, o corpo curvilíneo que sempre amou, as minis sardas que eram tão claras que somente ao se aproximar demais poderiam perceber, mas que ele conseguia perceber a metros de distância. Os cabelos ruivos não pareciam mais tão vivo, talvez pela luz que refletia sobre ela, mostrava um pouco mais loiros. parecia um pouco mais baixa, talvez pelas vestimentas largas.

– Não mudou em nada a decoração. – Apontou o dedo pelo local em uma mínima tentativa de quebrar o gelo.
– Sim, eu gosto muito dessa decoração. – As bochechas adotaram um tom avermelhado.
– Eu também gosto. – Ele tirou a jaqueta escura deixando sobre o sofá. E os dois sorriram, ninguém sabia mais o que dizer.
Pareciam travados e limitados à presença um do outro, estavam com medo do que falar, tantos anos depois, tantas coisas aconteceram, e por mais que a vontade de colocar tudo para fora existisse, havia medo. O medo de não conseguirem lidar com a presença e a distância entre si.
– O que você está fazendo aqui? – Ela mordeu o lábio inferior ansiosa pela resposta.
– Como eu disse: recebi sua carta. – Mostrou mais uma vez o papel como ilustração. – Eu vim saber se mereço ouvir da sua boca o que estava escrito na carta. – por um instante ficou paralisada, tentando absorver as palavras que ouviu.
Sem saber o que dizer, ela colocou as duas mãos na cabeça totalmente assustada e confusa. Sentindo o peso do ambiente, seu coração acelerou de forma abrupta e por isso os olhos se aglutinaram em água.
Na tentativa de se proteger, virou-se de costas, não gostava que Pietro a visse chorar, sempre se escondia e evitava o olhar dele. Segurou na parede mais próxima para evitar que seu corpo despencasse, a tremedeira que inundou seu corpo era gigante, fazendo com tudo ao seu redor girasse.
? – O jovem caminhou até onde a outra estava. Com um pouco de receio tocou o ombro dela, sentindo um formigamento gostoso atingir o membro. – , converse comigo. O corpo reagiu por completo ao toque dele.
A mão grande e levemente grossa, de uma maneira máscula liberou gatilhos que ela não pode conter os pensamentos impuros. Os choques que percorriam sua corrente sanguínea eram agradáveis, como uma moldura sentimental do que ela sempre fora acostumada. Seu corpo clamou pelo dele, necessitando nunca mais ficar longe do toque.
Ela, então, virou-se. Encarando os olhos escuros de Fitipaldi, não disse uma palavra sequer, assim como ele que também não ousou abrir a boca. Ambos entraram em um mundo particular onde só existiam os dois, onde não havia dor, sofrimento, distância e saudade. Onde o amor reinava. O amor deles.

Sem quebrar a conexão de seus olhos, ele a puxou para perto pelos ombros. Ela rodeou sua cintura, a diferença de altura ainda era grande, o que fazia com que a cabeça da ruiva ficasse na altura do ombro dele. Mesmo depois de tantos anos, acharam conforto naquele abraço, parecia que o tempo não havia passado, parecia que lágrimas de tristeza e saudade nunca foram liberadas, era incrível como o corpo dos dois respondia um ao outro, quase como se tivessem se esquecido de que não se pertenciam mais. Ou como se nunca tivessem deixado de se pertencer.
Mediante o contato confortante, , não conseguiu controlar. O choro soou como uma música alta e atingiu com tudo os tímpanos do jovem. Os gemidos dela doíam nele, cortavam o coração de uma forma lenta e torturante. Doía como se estivessem esquartejando em milhares de pedaços mínimos, com o único intuito de fazê-lo sofrer, como um criminoso condenado a anos de pena máxima.
Movido pela nuvem de sentimento, ele apertou mais os braços sobre ela, com o desejo de fundir seus corpos. Precisava estar perto dela, proteger ela, se certificar que jamais sofreria mais. Enfiou uma das mãos por entre os fios e iniciou uma carícia em seu couro cabeludo, apoiou o queixo no topo da cabeça dela e cheirou os cabelos, o cheiro ainda era o mesmo. E ele ainda adorava.
– Tudo vai ficar bem, . – Murmurou e apertou os punhos no tecido da camisa, embolando o pano conforme puxava em uma tentativa de respirar. Ela afastou o rosto, mas não se livrou do contato das mãos.
– Me perdoa, por favor, me perdoe, Pietro. – Iniciou uma fala totalmente descoordenada. – Eu fui uma idiota, eu abri mão de você. Eu te mandei embora, eu sinto muito. Eu sei que te fiz sofrer, eu não mereço você. Eu sinto sua falta todos os dias, eu me arrependo por ter sido tão idiota, eu amo você. Sempre amei, nunca vou deixar de amar. – Ela puxou o ar com força e soltou a blusa branca dele, dando alguns passos para trás, observando a expressão do rosto que se manteve séria.
Ao perceber que ele não falaria nada, sentiu-se envergonhada e totalmente idiota, até parece que depois de todo esse tempo ele ainda estaria com sentimentos intactos por ela. Claro que ele tinha seguido a vida, claro que tinha outra pessoa. Estranho seria se não tivesse. Ela fungou e apertou a ponta do nariz com força, logo após secou o rosto molhado.
– Me desculpe ter falado isso. – andou até a bancada, Pietro acompanhou com o olhar à medida que caminhava. Tomou a taça em mãos e ingeriu um longo gole da bebida e depois mais outro, corria tanto álcool em seu sangue que deveria passar longe de um palito de fosforo. – Eu sinto muito, imagino que você tenha alguém e que não deva ser agradável ficar escutando, sua ex falan…
-Eu tive alguém. – Interrompeu. – Eu tentei amá-la. – Cruzou as próprias mãos na tentativa frustrada de segurar o desejo de tocar ela. De tomá-la em seus braços. – Ela é uma mulher incrível, fazia de tudo para me agradar e ela me fez feliz. Em vários momentos me deu suporte, cuidou de mim, esteve ao meu lado em cada mísero segundo, seja triste ou feliz. – Respirou fundo, buscando os olhos dela. – Mas ela não era você. Depois de você, ninguém parecia chegar sequer perto de fazer comigo o que você fez. Com o tempo, ela cansou de não me ter por inteiro e foi embora.
sentiu o ar parar de chegar ao seu pulmão, a boca ficou seca e as pernas congelaram, esses são os malditos efeitos que Pietro Fitipaldi lhe causava.
– Onde está o cara legal que você conheceu?
– Foi embora quando encontrou a carta. – Ela respondeu baixo e engoliu em seco ao ver ele se aproximando, os olhos queimavam em intensidade. – Como essa carta chegou até você?
– Beca me enviou. Disse que tinha esperança que eu fizesse a coisa certa. – Parou em sua frente. As mãos dela caiam ao lado do corpo e Pietro tomou uma das mãos dela entre as suas. – Por que escreveu a carta, ?
-Eu precisava colocar para fora o que eu estava sentindo. Eu acreditei que jamais te veria novamente, que você já tinha me esquecido. E quando você falou de mim naquela entrevista, meu mundo caiu. Eu queria tanto estar lá, te abraçar após a notícia e depois que a corrida acabasse queria te receber como um vencedor. – Balançou a cabeça negativamente. – Escrever era a única coisa que eu podia fazer.
– Eu não te esqueci. – Levou a mão dela até seus lábios, depositando um leve beijo na região.
A energia dessa vez era diferente, algo que eles não sentiam em anos, e esse sentimento que eles acharam que tinham se perdido com o tempo, estava completamente intacto no coração dos dois.
-Ela não te fez me esquecer?
– Nenhuma mulher seria capaz. Eu tentei, . Tentei te tirar da minha cabeça, do meu coração. Deus, como eu tentei! Quanto mais eu tentava, mais eu lembrava, mais meu corpo chamava pelo seu, pedi meu irmão para esconder a aliança de compromisso, para ver se eu parava de encarar ela durante a noite, pensando se um dia, ela voltaria a estar em nossos dedos novamente. _ Uma lágrima correu em seu olho esquerdo, o que foi somente um gatilho para as outras. Mas foi inútil, então eu parei de tentar, aceitei que você é a mulher da minha vida.
Uma lágrima escorreu pelo rosto dela, prontamente secada por Pietro com o polegar direito.
– É exatamente assim que me sinto. Longe de você minha vida congelou, nada fazia sentido, nada era feliz. Sempre faltava alguma coisa, sempre faltava você. Eu nunca me perdoei por ter te deixado ir, por ter dito que não tínhamos futuro, mas a verdade é que você é meu futuro. Eu amo você, Pietro Fitipaldi. Sempre amei e vou sempre amar.
O piloto levou a mão esquerda dela, para seu coração, as unhas pintadas com esmalte escuro, entraram em contraste com a camisa escura que usava.
– Tudo que existe em mim, pertence a você. Eu te amo, .
As testas se colaram, conseguia sentir a respiração ofegante dele, o perfume, ver mais de perto aqueles olhos que tanto a deixava hipnotizada, os corações estavam arrítmicos anunciando que viria uma parada cardíaca, e eles não se importavam. Ele, então, segurou na cintura dela e a beijou. Nos primeiros segundos ela não o tocou, Pietro a segura com as duas mãos, estava com medo de que ela saísse dali a qualquer hora, estava com pavor de ser apenas um sonho como tivera tantas vezes e acordara no meio da noite com os olhos cheios de água. Até que ela tocou em seu rosto e se entregou naquele beijo, como nunca tinha feito antes.
Naquele momento não existia distância, e nem empecilho nenhum. Naquele momento só o que demonstravam eram as coisas boas que sentiam, a pureza apaixonada, a inocência. Lembravam-se do quanto esperaram por isso, o quanto sonharam com cenas e ocasiões diversas em que algo assim pudesse acontecer.
– Eu não arrombei a porta, mas vim te levar embora comigo, se você quiser.
– Eu vou. Eu vou com você para qualquer lugar. – Ela sorriu. – Sem mais erros, agora tudo dará certo.
– Sem mais erros. Até porque, nós somos a coisa mais certa que já existiu.
Selado com um beijo tudo aconteceu naturalmente, como sempre aconteceu entre eles, desde que se conheceram nunca forçaram nada, parecia que sempre tudo estava a favor deles, bem que diziam quando é para dar certo até os ventos sopram a favor. E tudo estava do lado de Pietro e , estava predestinado a sempre acontecer naturalmente. Sempre foi assim, e sempre vai ser.
“Não são poucas vezes esbarramos com o nosso destino pelos caminhos que escolhemos para fugir dele”, Jean de La Fontaine.

O projeto: Essa fanfic faz parte do projeto Drive to Survive, um projeto no qual 11 autoras apaixonadas por Fórmula 1 se reuniram para escrever uma short para cada piloto do grid, divulgando e homenageando esse esporte incrível. Os primeiros 5 pilotos já tiveram suas histórias contadas e você pode acompanhá-las aqui Shortfics – Fórmula Um assim como encontrar as próximas shorts.
Agora recebemos de coração aberto Pietro Fitipaldi, mas em breve todos os pilotos da temporada de 2020 terão uma história para chamar de sua, todas feitas com muito amor.
Esperamos que curtam nossa proposta e embarquem nesse mundo com a gente.
Não se esqueçam de deixar aquele comentário no final e motivar uma autora a sempre continuar.
Beijos e até a próxima! <3

Nota: Meu Brasil, brasileiro! Como eu amei escrever essa short! Primeiro que eu amo escrever como personagens brasileiros, a liberdade de escolha para tudo é muito mais fácil. E esse Pietro, Cristo senhor que homem! Que homem!
Essa fanfic foi feita em homenagem a uma grande amiga, uma das incríveis amigas que a fórmula um me presenteou no ano de 2020. Todas terão seu espaço em uma das fics, e essa veio direto para o coração de Lá Faria. Espero que ela se veja nessa personagem, se apaixone e se encante por esse casal, assim como eu. E acima de tudo, desejo que ela encontre um homem super apaixonado da mesma forma que esse pp!
Para quem leu, preciso dizer que nunca é tarde. Todos tomamos decisões erradas e acreditamos que é a coisa certa e se fazer, todavia, sempre tem como corrigir e acertar as coisas, desejo a você, cara leitora ou leitor, que consiga ter sabedoria para fazer escolhas e que mesmo que as faça de maneira errônea, que você consiga voltar atrás e refazer, pois a vida é assim, jamais podemos voltar atrás e fazer tudo do início, mas sempre podemos escrever um novo final!
Meus agradecimentos às meninas do grupo de fórmula Um, que aceitaram essa ideia e abraçaram as histórias de maneira linda, eu amei fazer parte da fundação de projeto, amei que vocês conseguiram levar adiante esse projeto que a primeiro momento surgiu como uma ideia idiota na minha cabeça, e cada uma de vocês conseguiram transformar em algo grandioso! Vocês são foda demais!
Beijos de purpurina!!