Drive to Survive – Sergio Pérez

Drive to Survive – Sergio Pérez

Sinopse: Imagine ter a sorte de encontrar o amor perfeito, sua alma gêmea, um parceiro para a vida e melhor amigo, juntos na mesma pessoa. Assim era a vida de Sergio “Checo” Pérez e Vivian, até que um acontecimento repentino transformasse suas vidas completamente. Será que o amor realmente tudo espera e tudo suporta? Será que o verdadeiro amor é mesmo para sempre? Será que o verdadeiro amor pode superar até mesmo o total esquecimento?
Gênero: Romance
Classificação: 14 anos
Restrição: Os nomes Paola, Antonio, Maria, Salomé, Matias, Jose, Miguel, Chiara e Lorelei são fixos.
Beta: Sharpay Evans

Capítulo Único

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás… Seremos…

Pablo Neruda

estava sentado na cama, encarando as Rosas de Heliogábalo de Lawrence Alma-Tadema, colorida e rosada com sua suntuosa moldura dourada que contrastava com o branco pálido da parede do quarto. Lá fora a chuva farfalhava sobre as telhas, gerando uma leve e baixa nuvem que embaçava os vidros da janela. O piloto se sentia cansado, os pés estavam inchados depois de um dia inteiro caminhando e brincando na praia com os filhos, vez ou outra ainda sentia o corpo balançar no ritmo das ondas quentes do mar mexicano.
Depois de decidir se desceria ou não para comer alguma coisa enquanto observava a obra de arte em seu quarto, pensou que seis horas seria um ótimo horário para tirar um cochilo, mais ainda se o tempo continuasse daquele jeito, quente e chuvoso. Deixou o corpo pender pesadamente sobre a cama e sequer se deu o trabalho de ajeitar a postura, continuou ali, de lado, observando ora a parede branca, ora a pintura de Alma-Tadema.
A obra neoclassicista do pintor holandês fora um presente de aniversário para sua esposa, adorava tudo que fosse ligado à arte, por isso as várias obras de arte espalhadas pela casa, o piano e a música clássica, que reverberava por todos os cômodos quando ela assumia a cozinha. Ela era a razão também da grande biblioteca que ocupava um terço da casa e dos coquetéis quase mensais em que o casal recebia músicos e amigos, como aristocratas britânicos do século dezenove.
se deleitava com aqueles pensamentos, até podia achar alguma graça nas rodas de conversa quando aqueles músicos chiques, usando passeio completo, indagavam a razão de alguém como estar casada com alguém como ele. Nestes momentos, ele apenas olhava no fundo dos olhos inquisidores, apertava os lábios e sussurrava forçando o sotaque latino, “bruxaria”.
Desde que se casara com a italiana, altiva e dócil , soube que precisaria se esforçar o resto da vida para ser o homem que sua merecia que ele fosse, mas não se incomodava, era um deleite ter a chance de ao menos tentar. No dia de seu casamento, no salão com vista para o mar e enfeitado de flores brancas, ele prometera a esposa que mesmo não sendo um especialista em arte, lendo os mesmos livros que ela, que mesmo não sabendo comer um escargot corretamente, sempre a amaria e tentaria por ela ser sua melhor versão de si mesmo.
não era alguém completamente grosseiro e rude, sempre soube se portar com alguma etiqueta e polidez, precisava disso em sua profissão. Ser um piloto de Fórmula Um o obrigava a estar no foco das câmeras, das luzes e a ter muitos olhos voltados para si o tempo todo. Num encarceramento invisível, aprendera tudo que precisava para sobreviver no meio e para conquistar sua rainha.
– Você vai mesmo ficar aqui? – perguntou num sorriso leve quando abriu a porta e encontrou o marido deitado na cama.
– Tem uma vaga para você, se quiser. – sugeriu abrindo um olho e buscando a figura da esposa. – Eu estou muito cheio do dia, bebi muita água do mar.

riu com a lembrança do marido furando ondas com os filhos, de como eles sorriam e de como não estava conseguindo dar conta das cinco crianças ao mesmo tempo.
– Eu não vou me deitar agora. – Ela caminhou até a cama, se sentou ao lado do marido pousando uma mão sobre suas costas e com a outra acariciou seus cabelos que nos últimos dias estava maior que o normal. – Tenho cinco monstrinhos lá em baixo com fome o bastante para devorar uma plantação inteira e com o pai desaparecido.
– É sério? Quem seria o pai desnaturado? – se ajeitou nos travesseiros, tentando aproveitar a calma do toque da esposa.
– Isso não importa mais. – deu de ombros. – Vou precisar arrumar um substituto, já que…

Antes que ela terminasse a frase, abriu os dois olhos e juntou as sobrancelhas, apertou a boca e inclinou um pouco o rosto, como se repreendesse a esposa por pensamento.
– Ah, mas não ouse. O que quer que eu faça? Eu cozinho hoje. – Anunciou o piloto ajeitando-se na cama, com a barriga para cima e acariciando o braço da esposa com delicadeza.
– Olhe só, quem é vivo sempre aparece. – riu alto da reação do marido e ele a puxou para um beijo tão calmo e apaixonado como era o relacionamento dos dois. – Você vai cozinhar?
– Pizza. Vou ter muito trabalho pedindo, sabe como me canso em ligações. – soprou ainda sem abrir os olhos e com o rosto junto ao de sua esposa. – Trabalho de mais. – Reclamou pousando a mão sobre o peito. – Ah, como será cansativo!

XXX

– Não, Salomé, você não pode ir. – repetiu pela milésima vez para a filha enquanto conversava com o irmão no telefone. – Eu vou ter que resolver isso depois, Antonio. Mande um abraço para Antonella. Matias, não corra aqui dentro. – Repreendeu outro filho que corria com um grito, mas foi ignorado.
– Mas papai, todos vão. – Salomé tentou argumentou.
– Mas você não é todo mundo, você é a minha menina. Não vai dormir do outro lado da cidade com pessoas que eu nem conheço. – Explicou enquanto juntava alguns brinquedos espalhados pelo sofá e resgatava do chão Maria, que chorava copiosamente. – Maria, pequena, por que está chorando? O que aconteceu, minha pequenininha?
– O que vamos ter para o almoço? – Paola, sua irmã, quis saber adentrando a grande sala.
– Boa pergunta, nos surpreenda. Fique à vontade, a cozinha é toda sua. – respondeu depois de direcionar um olhar incrédulo a irmã, enquanto ofertava um pouco de água a filha pequena. – Maria, se você não parar de chorar não consigo entender o que está acontecendo. Quer comer biscoitos? Vá com a tia Paola comer os biscoitos dela, vá. – Provocou a irmã entregando a filha em seus braços. – Onde está ? Ela já saiu?
– Acho que não, o carro ainda está ali. – Paola avisou saindo para a varanda com Maria.

O caos familiar de uma casa cheia de pessoas no primeiro dia do ano. Filhos, sobrinhos, parentes que às vezes nem ele mesmo se lembrava de ter, mas festas em família eram uma tradição que exigia. Segundo ela, a família era a coisa mais importante para se ter por perto em dias importantes, principalmente por comemorações assim serem escassas na família da italiana. sempre adorou o clima acolhedor e caloroso da família do marido, os sorrisos, companheirismo, ela era a primeira a convidar a família para que todos se reunissem nas festividades.
subiu as escadas com calma, sabia que a esposa devia estar atrasada para buscar os doces e bolos para que as comemorações continuassem em seu ritmo. Encontrou a porta aberta e o cheiro frutado e fresco do perfume de preenchia o ambiente, que acompanhado pela brisa fresca da manhã, tornava o quarto o próprio paraíso na opinião de . , pelo que o piloto pode ver pelo reflexo na janela, estava provando vestidos para mais tarde, completamente alheia aos seus compromissos.
– Eu achei que você já estivesse voltando, mas você sequer saiu de casa ainda. – atraiu a atenção da esposa, pondo-se escorado na porta do closet.
– Eu não estou atrasada, preciso estar lá só na hora do almoço. – deu de ombros enquanto colocava um vestido verde sobre si e conferia no espelho.
– E que horas são?
– Já é hora do almoço? – A mulher o encarou com olhos arregalados. – Por que ninguém me avisou? Os meninos já comeram? Que droga, eu ainda não consegui escolher uma roupa. – Bufou chateada vestindo uma calça jeans às pressas.
– Paola vai cozinhar, eu cuido dos meninos. – acalmou a esposa e passou a prestar atenção na pilha de roupas que ela provara. – Qual o problema com esses vestidos?
– Nenhum, o problema sou eu. Queria algo que não fosse chique demais, mas que ao mesmo tempo mostrasse que eu não escolhi a primeira roupa que achei só por estarmos em casa de férias. – Explicou.
– Me dê dois segundos para pensar. – apoiou o corpo preguiçosamente num armário e passou os olhos pelo lado do closet da esposa. – E se fosse aquele vestido verde que usou no jantar em Mônaco esse ano, com aqueles sapatos de bico fino preto, poucas joias, você sabe…– Sugeriu pensativo inclinando a cabeça sobre o ombro.
– É… o vestido verde é liso, corte reto e eu me sinto à vontade com ele, não fica marcando cada dobra. – concordou.
– Que dobra? – se pôs atrás da esposa no espelho, apoiando o queixo em seu ombro e a envolvendo em seus braços, para observá-la mais de perto.
– Essas aqui. – Ela mostrou levantando a camiseta que usava, revelando o abdômen.
– Eu não vejo dobras. Sabe o que eu vejo? Quer saber o que eu vejo? – questionou e franziu os lábios e encarou o marido sobre o ombro. – Eu vejo minha linda esposa.

sentiu relaxar o corpo em seus braços e riu com ela, fazendo cócegas em suas costelas, depois beijou docemente sua têmpora.
– Você é a mulher mais linda que existe, minha rainha. Entenda ou vou ser obrigado a passar a vida te dizendo isso. – Disse ainda com os lábios pressionados contra o rosto de .
– Acho que posso me acostumar com isso. – suspirou e riu, causando arrepios na mulher quando o hálito quente atingiu seu pescoço. – Você quer alguma coisa da rua? Preciso ir logo buscar aquelas encomendas.
– Minha espuma de barbear acabou há alguns dias, preciso de mais. Sabe, você devia ter pedido para alguém trazer até aqui. – lembrou.
– Meu bem, é ano novo. Deixe as pessoas descansarem, eu consigo fazer isso…se tiver um bom carro. – encolheu os ombros enquanto conferia sua aparência no espelho. – Um carro rápido, já que estou atrasada.
– Estou começando a achar que seu atraso foi apenas uma desculpa para dirigir meu carro novo. – acusou se sentando na cama.
– Claro que não, eu não preciso de uma desculpa para isso. Só preciso que meu lindíssimo esposo me dê as chaves. – provocou. – Principalmente se quer que eu traga aquela espuma de barbear horrorosa.
– Horrorosa? Por quê? – Indagou fingindo estar chocado, sabia que a esposa odiava aquela espuma de barbear, mas mesmo assim sempre comprava.
– Por que o cheiro dela é horrível.
– Quem liga para o cheiro, ela deixa minha pele macia como a de uma criança. – Defendeu .
– São os produtos químicos que estão reagindo ali por séculos. – saiu do closet com as mãos na cintura. – Como assim quem liga para o cheiro? Eu ligo. Aquela espuma foi motivo de mais da metade dos divórcios do país. Eu acho que você deve ser o único consumidor daquela coisa pavorosa.
– Melhor, mais espuma e mais barata. – riu, amava provocar e assisti-la argumentar, não se importava em perder as discussões, discutia apenas para vê-la falando como a mulher inteligente que era.
– A fábrica deve ter sido fechada há anos, eles devem vender o que foi produzido na época e que até hoje não encontra consumidores, exceto você.
– Então serei obrigado a comprar a patente, não posso ficar sem minha espuma. – Deu de ombros e deitou na cama, cruzando os dedos atrás da nuca de maneira despreocupada.
– Eu vou ligar para o meu advogado agora, quero o divórcio. – ameaçou sorrindo e se inclinou sobre o marido. – Estou indo.
– Você vai com o meu carro, não é? – Ele perguntou e assentiu. – Bom, vai economizar uns dez minutos e o papai acabou de ter uma ótima ideia. – Anunciou segurando o braço da esposa, impedindo que ela se afastasse. – Quero treinar.
– Vai para academia hoje? – franziu o cenho confusa.
– Não, não isso. Quero treinar outra coisa e preciso de você. – sorriu grande e em seguida puxou a esposa, que se desequilibrou e caiu deitada sobre si, não conseguia descrever o quanto amava sentir o peso dela sobre si. Rapidamente, inverteu a posição, ficando sobre a esposa, beijou-lhe rapidamente os lábios e se levantou, correu até a porta e a trancou, tendo o olhar curioso de sobre si. – Não é porque não planejamos ter mais bebês que não podemos tentar. – Ele piscou.
– Meu bem, estou atrasada. – sorriu e se levantou, caminhando até a porta.
– Me dê quinze minutos. – O piloto pediu abraçando a mulher e refazendo juntos os passos até a cama.
– E você vai estar pronto para esses quinze minutos? – indagou estreitando o olhar.
, para você eu estou pronto o tempo todo.

XXX

– Cuidado com meu carro, por favor. – pediu enquanto sorria, descendo as escadas atrás da esposa. – E não volte para casa sem minha espuma.
– Então acho que nunca mais vou voltar. – sorriu enquanto beijava a testa dos filhos antes de sair. – Jamais. Não vou comprar aquela espuma horrorosa.

Depois de mais de trinta minutos de atraso, estava pronta para buscar as encomendas no centro da cidade. No andar de cima, os lençóis ainda estavam enrolados e as roupas dispersas numa inebriante névoa doce e aconchegante de amor e prazer. sorria sozinho enquanto assistia a esposa se despedir dos filhos, lembrando-se das cenas anteriores, quando provava o sumo adocicado que escorria da esposa enquanto se transformavam no que fora proposto no matrimônio: uma só carne.

. – Chamou-a antes que ela passasse pela porta e então se aproximou alguns passos, segurou o rosto dela com as mãos, beijou sua testa e olhou em seus olhos. – Volte para mim, okay? – Pediu sorrindo e sorriu e piscou.
– Eu sempre volto. Mas agora preciso ir, já estou mais que atrasada. – Ela avisou descendo os degraus que levavam até a garagem. – Nunca mais acredito em você quando disser que são só quinze minutos.
– E ela diz como se não tivesse gostado. – acusou feliz. – Olhe só para você, está até mais bonita.

sorriu e enrubesceu, balançou a cabeça negativamente e entrou no carro. assistiu a esposa partir com um incômodo na boca do estômago, um frio diferente que fez o piloto mexicano tocar o peito e juntar as sobrancelhas.
– O que foi, ? – Paola, que notara a mudança no semblante do irmão, sorriu e o provocou. – Ela vai trazer o carro em segurança, não se preocupe.
– Ah, claro. Vai sim. – Ele riu, mesmo não achando se tratar de uma sensação tão boba.

XXX

– É a boneca da Maria? – perguntou à filha caçula que estava sentada sobre sua barriga. – Qual o nome dela?
– Da Maria. – A garotinha respondeu, os sutis cachos de seu cabelo alourado balançavam no ritmo que a rede balançava.
– E qual o nome dela? Sua filha precisa de um nome. – Brincou o piloto. – Que tal Julieta?
– Ela é Maria. – A pequena disse apontando para si. – É o papai. – Tocou o peito de . – É a Mia – Finalizou encarando a boneca.
– Mia. – Ele repetiu ajudando a filha a segurar a boneca. – Gostei do cabelo rosa da Mia e da roupa dela. Eu acho que a Mia quer dormir, vamos brincar de dormir? Você consegue? – Tentou ludibriar a criança.
– Está tudo bem aí? – ouviu a mãe perguntar quando saiu da rede com a filha no colo.
– Está, só estou tentando vencer essa aqui, mas hoje ela está empenhada. – sorriu.
– Por que não vem com a vovó? Que boneca mais bonita. – A matriarca da Família chamou a neta.
– Essa boneca foi um presente de uma amiga de , de Charlottesville. É simples, mas Maria nunca mais a soltou. – Contou .
– É realmente uma gracinha. – A mãe concordou aconchegando a neta em seus braços. – Você devia tomar um banho, já está cheirando mal. – Acusou e torceu o nariz e depois sorriu. – Aproveite e ligue para , deve ter acontecido alguma coisa com as encomendas.
– Que horas já são? Perdi a noção do tempo brincando com eles. – tateou os bolsos e depois o grande sofá da varanda em busca do celular, quando o encontrou e percebeu que já passava de cinco horas teve certeza de que algo teria dado errado.
– Ela atrasou, talvez a confeitaria já estivesse fechada. Ligue para ela e peça para ela ir até o Luigi, ele deve estar com a loja aberta. – Aconselhou a mãe.
– Se for isso, ela vai me matar.

Antes que terminasse de digitar os números do telefone da esposa, a ligação de um número desconhecido piscou no visor e ele rejeitou. Era parte de sua política nunca atender a números desconhecidos, principalmente durante as férias, por isso aquela ligação se somou as outras sete ligações perdidas daquela tarde.
entrou distraidamente na grande sala de estar com o celular na orelha, no mesmo segundo em que a ligação era redirecionada para a caixa postal, seu pai entrou na sala por outra porta com o telefone em mãos, acenando para ele.
– O que foi? – Indagou confuso.
– É para você.
– Sim. – disse assim que encostou o telefone da orelha, torcendo o nariz para o pai, que praticamente o havia empurrado o aparelho goela abaixo.
– Boa tarde, senhor. – Um homem do outro lado da linha cumprimentou e balbuciou algo em resposta, entediado e com pressa. – Gostaria de confirmar. O senhor é dono de um Koenigsegg Agera preto, com placa SYV–16–47?
– Sim, sou. Por quê? – se recostou na parede mais próxima. , mais uma vez, devia ter estacionado em algum lugar proibido e esquecido o carro. – É a minha esposa que está com ele, ela estacionou em lugar irregular de novo? Pode me passar o endereço de onde posso buscá-lo?
– Não senhor, desculpe, mas não se trata disso. – O homem coçou a garganta. – Infelizmente seu carro se envolveu num acidente na rodovia noventa e cinco.
– Não. – sentiu as pernas amolecerem e agradeceu por estar apoiado naquela parede. – Deve ser algum engano.
– Sinto muito, senhor. A motorista, segundo os documentos que estavam com ela, é Pauluccio , de trinta e um anos, se trata da sua esposa? – O oficial perguntou.

sentiu o ar faltar aos pulmões, a visão escurecer. Precisava fazer aquela pergunta, mesmo não tendo certeza se queria ou não a resposta. Naquela altura, seus pais e sua irmã já estavam na sala, o encarando com cenhos franzidos e testas vincadas. Prendeu a respiração, sabendo que aquela pergunta teria poder de transformar sua realidade, virar seu mundo de cabeça para baixo. Naquele momento, estava a distância de algumas palavras de perder ou não o grande amor de sua vida.

– Ela…é a minha esposa, sim. Ela está…ela… – Não conseguiu dizer em voz alta, doía demais e para evitar que a família percebesse a lágrima solitária e insistente que rolou por seu rosto, voltou-se para a parede.
– Ela foi encaminhada para o Hospital Santa Maria. E estava viva quando a vi, senhor. – O oficial tentou tranquiliza-lo, gentilmente.

Aquilo foi o suficiente. não precisava mais do que aquelas informações, atirou o aparelho nas mãos do pai, acompanhado por um murmúrio dolorido e embargado de “fale com eles”, depois pegou a primeira chave que encontrou no hall de entrada, a carteira e correu para a garagem. Não tinha tempo a perder, precisava ir até ela, precisava ir de encontro a sua rainha, sua .

XXX

Quando chegou ao hospital, como um furacão que assola ilhas tropicais no verão, desordenado, agitado e confuso, foi de pronto direcionado a uma vazia e solitária sala de espera. Será que não pensavam o quão cruel é pedir para alguém, naquela posição, apenas esperar?
Não sabia mais o que fazer, as horas se arrastavam numa lentidão torturante, médicos e enfermeiros iam e vinham sem parecer nota-lo, como se o esposo atormentado sequer estivesse ali, como se fosse um fantasma. Para ser justo, era exatamente assim que se sentia, um fantasma, um monte de matéria sem importância e sem objetivo de vida. Estava sendo engolido pelas ondas de uma maré ressacada que o atingia insistentemente, algumas vezes, mal podia respirar.
Quando dirigia aflito e ansioso até o hospital, encontrou em seu caminho certa contenção no trânsito, a pequena fila de carros estava sendo causada justamente pelo acidente de . vislumbrou a lataria retorcida que um dia fora seu carro, mas que agora parecia apenas um amontoado de ferro retorcido. sentiu um arrepio atingi-lo por toda coluna e um medo que o deixava cego e surdo.
não percebeu quando alguém tocou seu ombro, foi preciso que o chacoalhassem até que o piloto recobrasse seus sentidos e pudesse perceber que falavam com ele. Ele assistiu, ainda tonto de dor e medo, a médica explicar algo sobre possíveis danos, algo sobre cérebro, coma e mais um monte de informações que ele não pode processar no momento. Tinha pressa, muita pressa, então insistiu para vê-la e foi guiado ao leito onde a esposa se recuperava da cirurgia.
estava deitada, mas ao contrário de todas as milhares de vezes em que ele a assistia repousar, ela não parecia serena. Tinha o rosto arranhado e cortes na bochecha e no lábio superior, os cabelos não estavam brilhosos e macios como sempre, a pele perdera a cor, os tubos e fios poluíam a visão de seu rosto. Era um alívio saber que ela ainda respirava, mas encontrar a mulher que contemplara sorridente saindo pela porta horas antes, agora naquele estado, o fez sentir uma dor, um desespero que o mexicano nunca sentira antes.
E ele chorou.
Chorou de medo, alívio, preocupação, ansiedade, angustia, amor, chorou por estar face a face com seu maior medo e não poder fazer absolutamente nada para impedi-lo ou para proteger aqueles que amava. Sentiu-se impotente.

XXX

. – Contesina, mãe de , chamou-o tocando suavemente seu ombro. – Por que não vai para casa e descansa um pouco?
– Não, eu vou ficar. – Respondeu decidido.
– Eu vou ficar aqui, não vou sair do lado dela. – Insistiu a mais velha. – Eu vou ficar com a minha filha, e acho que você devia ficar com os seus. Já fazem cinco dias, , cinco dias que você não está em casa. As crianças estão assustadas, agitadas, você precisa estar com elas agora. – Argumentou olhando nos olhos dele.
– Eu não quero deixá-la. E se acontecer alguma coisa e eu não estiver aqui?
– O que tiver que acontecer, vai acontecer com você aqui ou não, não existe nada que você possa fazer para impedir. Mas em casa, você pode fazer muito. – Contesina insistiu mais uma vez.

encarou o rosto da italiana, as rugas disfarçadas pela maquiagem cara, o cabelo penteado elegantemente, como se a sogra fizesse parte de alguma novela de época do horário nobre. Depois voltou-se para , imóvel, numa penumbra entre estar viva ou morta. Pensou no que ela pediria para que ele fizesse, ficar com os meninos, respondeu automaticamente por pensamento e sorriu fraco.

– Eu vou ver nossos monstrinhos. Acorde cedo amanhã, está bem? Vou estar esperando. – Pediu sussurrando para , depois se inclinou mais um pouco e beijou a testa da esposa demoradamente. – Eu te amo, meu bem.

– Dê um abraço nas crianças por mim. – Contesina pediu esfregando os braços.

assentiu, encarou por mais algum tempo e então deixou-as. Desde o acidente, aquela seria a primeira vez em que ele se ausentaria do lado da esposa, sentia a angustia consumir cada pedaço seu que ainda restava. Se preocupava com as milhões de coisas que poderiam acontecer a ela quando ele não estivesse por perto, mas ao mesmo tempo, precisava estar em casa, ao lado dos filhos.
Precisava ser pai.

XXX

O canto do papa-capim ressoava e seguia a melodia da brisa leve que vinha da praia, balançando as cortinas brancas que arrastavam suas pontas pelo chão do quarto. O calor do sol denunciava o horário, passava do meio da manhã, de uma fresca e ensolarada manhã. ainda dormia pesadamente, fora obrigado pela mãe a tomar alguns calmantes para dormir melhor e enfim descansar. Se estivesse ali, jamais autorizaria que o marido se automedicasse, teria feito um chá, uma massagem e conversado com ele, escutado todas suas dores e acolhidos cada uma delas como sempre fazia.
Mas, naquele momento, na falta dela, os calmantes tinham cumprido seu propósito e dormia como se dorme alguém que passou o dia inteiro brincando entre as ondas da praia.
Quando Paola entrou no quarto para avisar o irmão da boa nova, titubeou, talvez devesse deixa-lo descansar mais um pouco, almoçar com calma e só então contar a ele sobre a ligação do hospital. Conhecendo o irmão, sabia que ele se irritaria quando soubesse, principalmente depois das milhares de súplicas de para que fosse acordado caso houvesse qualquer mudança no quadro de .

. – Paola chamou o irmão baixinho e tocou suas costas suavemente. – Acorde.

estava deitado de bruços, com o rosto enfiado no travesseiro que pertencia a esposa, somente se moveu quando a irmã o sacudiu com quase toda força que tinha. O piloto piscou algumas vezes, franziu o cenho, abriu e fechou a boca duas vezes, depois correu os olhos confuso pelo quarto. Quando caiu em si, pôs-se sentado na cama, os olhos agitados denunciaram a angustia súbita que o arrebatou.

– O quê? O que foi, Paola?
– Já são quase onze horas. – Ela sorriu sem mostrar os dentes.
– O quê? Por que não me acordaram mais cedo? – Questionou se levantando com pressa e indo até o banheiro lavar o rosto.
– Você precisava dormir, estava um caco. Agora sua aparência está melhor. – Paola piscou. – Tem algumas coisas que preciso falar com você. – Anunciou e pôs a cabeça para fora do banheiro, curioso e assustado. – Primeiro, Antonio ligou e disse que está tentando gerenciar as datas dos seus compromissos, mas que não vai conseguir adiar alguns por muito tempo. Ele disse que você precisa se organizar.
– Eu preciso cuidar da minha família agora, essa é a minha prioridade. O resto pode esperar. – Deu de ombros. – O que mais precisa dizer? – Perguntou enfiando a escova de dentes na boca.
– Você vai ficar para o almoço, vai almoçar junto com seus filhos e só depois vai para o hospital. Estamos conversados?
– Alguma notícia? Eu preciso ver como está. – se defendeu.
está no hospital com a mãe, mas os filhos dela estão aqui. Eu não sei a sua opinião sobre isso, mas pelo tanto que a conheço, penso que ela gostaria que você ficasse um pouco com eles. – Paola argumentou cruzando os braços sobre o peito e se aproximando do irmão. – São ordens da mamãe, você vai ficar aqui e vai almoçar com as crianças, depois vai até o hospital.
– Tudo bem, vocês têm razão. – Concordou enquanto jogava água no rosto. – Como eles estão? Ontem quando cheguei todos já estavam dormindo.
– Estão confusos, curiosos, com saudades de vocês. Salomé ontem perguntou o porquê de você e a mãe terem ido embora, se foi por culpa dela ou dos irmãos. – Contou Paola.

sentiu o coração apertar, estivera tão cego por sua própria angustia e dor que sequer lembrara que os filhos poderiam estar tão angustiados e confusos quanto ele. Respirou fundo enquanto encarava a água que escorria da torneira aberta e lamentou não ter cuidado disso antes. Precisava conversar com seus filhos, por isso pediu para que Paola os chamasse enquanto ele terminava de se recompor e pensava no que dizer.
Alguns minutos depois, seu pequeno time já estava sentado sobre sua cama. Ao contrário do normal, todos estavam calados, cabisbaixos, como ficavam quando estavam prestes a levar uma bronca. sentiu o coração apertar mais uma vez com a cena. Arrastou uma poltrona e sentou-se mais perto da cama, encarando as cinco crianças com olhares assustados e ansiosos.
Para que seus tesouros estivessem completos, faltava apenas , mas sabia que naquele momento de fragilidade, precisaria manter a família unida e ser a rocha forte que a esposa sempre dissera que era. Salomé, sua primogênita de nove anos permanecia firme, tinha o mesmo olhar forte de , mas, talvez, a que estivesse mais assustada com toda a situação. Os gêmeos Matias e Jose, com sete anos, pareciam desatentos e apáticos, com o mesmo olhar perdido que acreditava ter estampado. Maria, com três anos, brincava se pendurando a perna do pai, enquanto Miguel, com apenas um ano apenas sorria, tentando se equilibrar sobre as próprias pernas apoiado na lateral da cama.

– Como vocês estão? Obedecendo o vovô, a vovó e a tia Paola? – quis saber, sem nenhuma noção de como faria para tocar no assunto principal.
– Sim, papi! – Maria respondeu ainda pendurada na perna do pai, e os mais velhos assentiram.
– Que bom, que bom. Eu preciso que vocês se comportem bem, okay? – Pediu tocando a perna de Salomé, tentando transferir alguma confiança. – Preciso que sejam bons meninos e ajudem a abuelita no que ela precisar enquanto eu e a mamãe estivermos fora.
– A mamãe vai voltar? – Matias quis saber.
– Onde ela está? – Jose endossou.
– Na televisão disseram que ela não vai voltar nunca mais. – Salomé contou. – Ela morreu.
– Não, não, Salo. A mamãe não morreu. – tentou explicar. – Quem te deixou assistir TV? Não importa. – O pai respirou fundo antes de continuar. – A mamãe se acidentou, como acontece às vezes com o papai, nas corridas, lembra?
– Mas você volta, ela não voltou. A mamãe está triste com a gente? Por isso ela não quer voltar? – Matias indagou com os olhinhos ansiosos cintilando.
– Não, meu filho. – expirou tristemente. – Olhe para mim. A mamãe se machucou, por isso os médicos, no hospital, querem que ela fique lá até terem certeza de que ela está bem. Então, quando ela estiver, vai voltar para cá e nós vamos a praia, como sempre fazemos.
– E se ela não melhorar nunca? – Salomé questionou.
– Ela vai melhorar, e sabe por quê? – Sorriu de canto, tentando relaxar os filhos. – Porque ela sabe que vocês estão esperando ela aqui e que eu…ela sabe que eu sou vencido por vocês. – Brincou.
– Nós podemos ver ela? – Jose quis saber.
– Hospital não é lugar de criança. – lembrou enquanto bagunçava os cabelos do filho. – Mas eu sei de uma coisa…o médico me disse que para ela melhorar logo, precisa receber muitos desenhos coloridos, mas eu não sei onde posso encontrar desenhos assim.
– Eu sei. – Salomé ergueu o corpo sorridente. – Eu vou fazer um desenho.
– Eu vou também. – Os gêmeos repetiram em uníssono.
– Eu! – Maria gritou tentando acompanhar os irmãos.
– Podem começar, então, porque a mamãe precisa recebê-los depois do almoço. – Avisou e assistiu os filhos, exceto Miguel, correrem para fora do quarto e Paola entrar novamente.
– O que fez para deixá-los animados assim?
– Um truque de pai… – Deu de ombros e ajeitou Miguel no colo, se levantando e caminhando em direção a porta.
– Tem mais uma coisa que preciso dizer, mas queria falar depois que conversasse com eles. Sabia que você não teria paciência para isso depois. – Admitiu Paola.
– O quê? – empacou onde estava. – O que vocês estão me escondendo?
– Não estamos escondendo nada, estou te contando agora. , por favor, cumpra nosso combinado e almoce com seus filhos. – Pediu e o irmão assentiu desconfiado. – Contesina ligou, acordou. Ainda não está totalmente lúcida, acordou algumas vezes durante a noite, mas os médicos acharam se tratar de algum tipo de espasmo.
– Como assim? – Indagou ansioso.
– É, pelo que eu entendi, quando alguém acorda de um coma, demora até acordar de verdade, falar e todo o resto. Ela ainda está desorientada, não sabe onde está. Contesina não pode ficar com ela no quarto, os médicos querem que ela fique sozinha, por isso não adianta você correr para lá. – Paola avisou.
– E por que não me disseram isso? Eu tenho que ir até lá! – bradou agitado.
– Você vai, mas vai assim que almoçar com seus filhos. – Paola tocou o ombro do irmão e o olhou nos olhos. – O pior já passou, . Agora você precisa cuidar de vocês. Quando souber que você deixou os meninos para ficar com ela, pede o divórcio. – Provocou sorrindo.
– Eu…eu estou ansioso demais, não vou conseguir nem comer. – Confessou. – Mas você tem razão.
– Vai, o almoço já está na mesa. Aproveite e conte aos meninos também. – Paola sorriu mais uma vez e assistiu o irmão sorridente descer as escadas aos berros e gargalhadas, chamando os filhos para perto.

XXX

observava a movimentação no corredor com os olhos perdidos, distantes. Já passava de oito da noite, mas só pôde ver de longe, a esposa ainda estava muito desorientada e a equipe médica temia estressá-la. Para completar, parecia ter tido uma perda de memória recente devido a uma lesão na cabeça. não entendia muito daquilo, não entendia nada para ser sincero, mas tentou pesquisar na internet tentando amansar sua ansiedade. Ficou satisfeito quando a maior parte dos sites alegou se tratar de algo comum e passageiro.
Estava um pouco mais aliviado, mas ainda muito preocupado e estressado. Antonio acabara de liberar um comunicado oficial a imprensa sobre o estado de saúde de , aquilo acalmaria os ânimos por um tempo, tempo que ele julgava ser o suficiente para levar a esposa de volta para casa em segurança.
Contesina, sua sogra, estava sentada ao seu lado, pernas dobradas, cabelo impecável, exalando seu perfume caro, agarrada com força à sua bolsa de marca. sentia pena dela, desde que o marido padecera de câncer, Contesina se transformara numa mulher fria e mais rígida que o habitual. Agora, com naquelas condições, a italiana devia estar à beira de um colapso nervoso.

– Vai ficar tudo bem, vai dar certo. – , que estava com os cotovelos apoiados nos joelhos e corpo inclinado para frente, disse ao tocar educadamente o joelho da sogra. – Logo ela vai estar indo para casa com a gente.

Contesina assentiu sorrindo sem mostrar os dentes e voltou a encarar a parede como se sequer estivesse ali. E então, os dois vislumbraram a figura da médica responsável pelo caso de se aproximando deles com um sorriso contido.

– Boa noite. – Ela cumprimentou apertando as mãos dos dois. – Pensei que já tivessem ido.
– Não, vamos ficar aqui com ela. – anunciou.
– A senhora ainda está muito agitada. Ao contrário do senso comum, quando alguém desperta de um coma, precisa de alguns cuidados, atenção especial. Ela está desorientada, confusa e não está totalmente desperta ainda. – A médica contou colocando as mãos nos bolsos do jaleco. – Além disso, ainda não sabemos com certeza o seu estado, não pudemos avaliar com segurança ainda. A cirurgia foi um sucesso, mas ainda é muito cedo para qualquer coisa.
– Doutora Dubeux. – chamou pondo-se de pé. – Ela corre…sabe, risco de vida?
– Não, podem ficar em paz quanto a isso. Ela está estável, agora precisamos avaliar possíveis sequelas, mas ela está fora de risco. – Confirmou sorrindo docemente e agradeceu sorrindo e com um aceno.

XXX

– Senhor . – A doutora Debeaux cutucou delicadamente.
– Sim. Desculpe. – Se desculpou coçando os olhos e se ajeitando na cadeira dura da sala de espera.
– Você devia ir para casa, descansar um pouco. Está aqui desde ontem, sentado nessa cadeira miserável. – Ela sorriu.
– Eu quero falar com ela, com minha esposa. – Disse ele. – Eu só não gosto de ficar aqui, parado, sem saber o que está acontecendo.
está um pouco melhor agora, eu vim aqui justamente convidá-lo a ir até lá. – Contou e os olhos de brilharam de expectativa. – Mas antes de entrar, preciso que você seja paciente e entenda o quadro dela.
– Claro, eu faço o que for necessário.
parece ter um quadro de perda de memória, que infelizmente ainda não sabemos se é temporário ou não. – A médica contava enquanto caminhava ao lado do piloto rumo ao quarto.
– Como assim? Ela perdeu a memória e nunca vai recuperar? – sentiu o estômago revirar e seu rosto estampou a angustia e confusão que sentia.
– É cedo dizer, nossas apostas são de que ela deve recobrar a memória em alguns dias, mas não podemos garantir. No momento, ela não consegue se lembrar de nada que aconteceu depois do ano de dois mil e dez, nesses casos, geralmente…– A médica parou de andar e olhou para trás quando notou que estava congelado no lugar, com olhar perdido e confuso. – Senhor , tudo bem?
– Dois mil e dez, você disse? – Ele repetiu.
– Sim, isso.
– Foi o ano em que nos conhecemos. – Lembrou ele com pesar.

A médica apertou os lábios e fitou o homem com empatia, o piloto mexicano não estava em sua melhor fase, abatido, com barba por fazer, cabelo bagunçado e olhar perdido. O olhar que por alguns segundos havia se iluminado quando soube que veria a esposa, agora estava anuviado e assustado com sua falta de memória.
A médica guiou o homem até a porta e o fez entrar, dentro do quarto estavam e sua mãe, que sorriu educada com a chegada do genro. A mulher, por outro lado, franziu o cenho confusa.

– Tenha calma e paciência. – Pediu a médica.
– Olhe, . É o . – Contesina sorriu enferrujada. – Ele não saiu do seu lado, nem por um segundo. Eu te contei sobre ele, se lembra?
– Oi, . – sorriu com os olhos marejados e se aproximou a passos rápidos da esposa que mantinha a expressão confusa. – É tão bom ver você acordada…eu quase enlouqueci…tive tanto medo de perder você, meu amor. – Confessou e esticou a mão para segurar a de , que sutilmente recuou fazendo-o franzir o cenho.
– Ela ainda não tem muita certeza sobre as coisas, . Vamos ter paciência. – Contesina pediu.
– Por que não deixamos os dois a sós por um tempinho? – A médica sugeriu e em seguida acompanhou Contesina para fora do quarto.
– Minha mãe…– tentou dizer sem encarar o homem ao seu lado. – Ela disse que somos casados, casados há nove anos.
– Somos sim. – Ele sorriu grande. – Somos casados e temos cinco filhos, lindos. Eles estão com saudades de você, fizeram desenhos, aliás. – Lembrou e resgatou os desenhos do bolso e os entregou a esposa que os recebeu pacientemente.
– É estranho. – Confessou ela enquanto tocava os traços das crianças com a ponta dos dedos. – Eu não vejo nada de familiar…nem mesmo os nomes…
– Matias? O nome do seu padrinho e Jose, nome do seu avô e seu pai? Não vê familiaridade? Maria e Salo, Miguel? – Ela balançou a cabeça negativamente e deixou os desenhos caírem sobre o colo. – Tudo bem. – suspirou. – Você vai se lembrar em algum momento, nós todos temos que ter paciência.
– Todos me dizem isso… mas, eu não entendo…– deixou a cabeça repousar no travesseiro e fechou os olhos. – Ontem eu estava na faculdade, com meus objetivos e metas, hoje eu acordei e me disseram que tenho cinco filhos, que me casei e que minha vida basicamente se resume a isso.
– Não, isso não é verdade. – se inclinou um pouco, sentando-se no leito. – O centro da sua vida é a nossa família, assim como é o meu centro, mas você é bem mais que isso. Você tem alguns pacientes naquela clínica que sempre sonhou em trabalhar, é voluntária em abrigos para crianças, já publicou muitos artigos e até escreveu um livro sobre as relações entre pais e filhos na infância. Você participou de uma conferência gigante no final do ano passado sobre saúde mental infantil. Ninguém te contou isso?
– Não desse jeito. – Admitiu ela enquanto fitava o homem que tinha certo brilho no olhar ao falar de suas conquistas.
– Você é brilhante, inteligente, culta… ninguém nunca entendeu como nós ficamos juntos, você sempre foi boa demais para mim. – brincou.
– Se é verdade, por que eu me casei com você?
– Eu sempre me perguntei isso. – Ele sorriu com os olhos. – No natal, eu te fiz essa pergunta de novo, como faço todos os anos.
– E o que eu, supostamente, respondi? – quis saber.
– Você olhou nos meus olhos, inclinou a cabeça, sorriu como sempre fazia e disse que se apaixonou porque eu era simples. Você costumava dizer que eu cuidava de você, que se sentia protegida, amparada… – riu alto, atraindo a atenção e um olhar confuso de . – Mas eu confesso que até hoje não tenho certeza se esses são motivos fortes o suficiente. Talvez o amor seja a resposta.
– Você parece feliz. – comentou.
– Claro, obviamente estou feliz. Estou assustado também, com medo, preocupado com você, com os meninos. Mas estou muito feliz, porque o principal está aqui, você está bem, está viva e eu não vejo a hora de voltarmos para casa. – sorriu e passou a mão pelo cabelo, ansioso.
– E se eu não quiser voltar com você? – perguntou e sentiu a coluna gelar.
– Como assim? Não quer ir para casa?
– Eu não… não vejo essa casa como minha. Acabei de descobrir que meu pai está morto, não quero ofender, mas… não conheço você. Quero ficar com a minha mãe. – Confessou.
– Mas você conhece, . – Ele tentou argumentar, mas ela o cortou.
– Por favor, não me chame assim, parece que está falando com um cachorro. – Pediu angustiada e beirando um nível de estresse alarmante que a forçava a ser educada e polida. – Você me conhece, vocês todos dizem que me conhecem, dizem coisas sobre mim das quais eu não tenho ideia… eu me sinto perdida, afogada em um mar agitado que eu não posso sair. – desabafou e sentiu o peito apertar mais uma vez, era totalmente empático a dor dela, esquecendo até mesmo da sua naquele momento. – Eu vejo vocês todos querendo que eu me lembre, que eu seja alguém… que faça coisas que estão acostumados…, mas eu não sou essa pessoa.
– Eu imagino que não deve ser nada fácil para você. Lidar com todas essas expectativas… talvez… – ponderou bem o que estava prestes a dizer, sentiu aquela ideia corta-lo da virilha até o pescoço. – Talvez você tenha razão, talvez seja melhor você tirar algum tempo para você, sozinha até filtrar tudo isso.
– Você… você concorda? – franziu o cenho e uniu as sobrancelhas. – Minha mãe foi completamente contra, mas você, justo quem supostamente devia ser o voto contra, é a favor?
– Eu sou seu marido, jurei te proteger, apoiar, na saúde e na doença, até que morte nos separasse. – Ele lembrou e tocou os joelhos dela, acariciando-os sutilmente. – Se eu dissesse que isso me faz feliz, estaria mentindo. Tenho vontade de roubar você agora e levar para nossa casa, a ideia de você não se lembrar de nós… não se lembrar de mim, me faz sentir dores que eu nem achei que podia sentir. Mas, , se isso, se ficar longe de mim é o que precisa fazer agora… vou fazer tudo que está ao meu alcance para te ajudar.

ainda tinha o olhar confuso estampado no rosto, mas sua expressão estava mais suave, como se percebesse naquele instante que, apesar de não se lembrar daquele homem, podia confiar nele.

– Eu agradeço por não insistir.
– Eu te amo. – Ele declarou.

XXX

– É uma bela casa, vista para o mar. Ele dizia que precisava ser um palácio, digno de sua rainha. – Contesina contava para a filha enquanto encarava pensativa a paisagem através da janela do carro.
– Parece o discurso de um homem apaixonado. – Observou.
– Ele é, ao que me parece. – Contesina deu de ombros. – Para ele, você é uma princesa, uma rainha. Ninguém nunca entendeu como ele conseguiu que aceitasse se casar, mas bom, às vezes, fazemos coisas estúpidas na juventude.
– Você não gosta dele? – quis saber inclinando o corpo na direção da mãe.
– Não gostou ou desgosto. Acho que você se sacrificou muito por ele, podia ser diferente. – Desabafou.
– Do que está falando?
tinha esse sonho de se tornar um piloto quando vocês se conheceram, você estava na faculdade, aluna brilhante. Os anos que passamos aqui, com seu pai como embaixador, deviam ter sido apenas alguns anos, mas você quis ficar, se apaixonou e o que recebeu em troca disso? Atrasou todos os seus sonhos e metas para acompanhá-lo, se casou cedo e teve filhos e mais filhos.
– Mãe, eles são seus netos. Você não devia falar assim deles. Não gosta dos seus netos? – encolheu os ombros atônita.
– Claro que eu gosto, não seja boba. Mas você podia ter esperado um pouco mais para tê-los. Enquanto você ficava em casa cuidando das crianças, seu marido andava por aí, o ano inteiro fora correndo e fazendo sabe-se lá mais o quê. – Contesina lembrou amarga.
– Você acha que ele me traía? Digo, traía…a esposa?
– Não sei, você nunca me contava nada. – Deu de ombros ressentida.
– Ele pareceu gentil. Aceitou que eu não voltasse a viver com ele, até levou aquelas fotos para o hospital, para tentar me ajudar. E também os desenhos, os vídeos, os livros. – lembrou. – Como eu abri mão de tudo por ele? O que aconteceu aqui em Puerto Vallarta, o que aconteceu no México para me fazer mudar de ideia de deixar meus planos de carreira por um homem?

externalizou o pensamento no momento em que o carro estacionava em frente a grande mansão. O jardim verde e florido, as palmeiras gigantescas, a vista privilegiada para o mar, tudo era uma confusão, como se fizessem parte de um sonho de , mas que ela esquecera assim que abriu os olhos.
Quando o portão foi aberto, foi desperta de seu transe por gritos ansiosos de crianças, latidos de cachorros e passos rápidos. Quando girou o corpo em busca da fonte daquela algazarra, seus olhos se arregalaram e ela congelou no lugar. Quatro crianças corriam desesperadas e sorridentes em sua direção, como monstrinhos prestes a devorá-la.
Com o choque dos pequenos corpinhos ao dela, cambaleou para trás. As quatro crianças gritavam, chamavam, pulavam, se sentia numa festa infantil, carregando uma bandeja de doces.
– Cuidado. – Uma mulher morena pediu sorridente. – Desse jeito vão fazer a mamãe voltar ao hospital. Olá, . – Cumprimentou inclinando a cabeça sobre o ombro. – Me chamo Paola, sou sua cunhada. Aqueles são minha mãe e meu pai, pais do também. – Apresentou apontando para o casal e sorriu sem graça.
– Bom dia, . – cumprimentou ao se aproximar, segurava uma criança de aproximadamente um ano nos braços e tinha um olhar diferente, penetrante e intenso.
. Eu sou . – Lembrou. – Tudo bem, monstrinhos. Será que vocês podem me dar algum espaço? – Pediu as crianças e percebeu que todos sorriram. – Desculpe, eu sinto muito. Não devia ter chamado seus filhos dessa forma.
– Tudo bem, nós dois sempre os chamamos assim. – contou.
– Que tipo de mãe chama seus próprios filhos de monstrinhos?
– É uma longa história. – piscou.

No meio da tarde, sofria com uma enxaqueca terrível e estava extremamente cansada, a mãe havia se retirado para o quarto de hóspedes e a deixado sozinha com aquela família barulhenta. Fora apresentada à todas as crianças e precisou assistir, ouvir e dar atenção a todas. Primeiro por uma questão de educação, segundo, empatia e terceiro porque algo dentro dela gritava que aquele era o certo a fazer.
Todos estavam empolgados e agitados, apontava o tempo todo quais características dos filhos foram herdadas da esposa, e aquilo só a deixava mais angustiada. Sentia-se como uma impostora, ocupando lugar de alguém que devia voltar, mas que não era ela. Por isso era tão estranho estar com aquela criança no colo enquanto ele dormia, simplesmente porque todos julgavam ser terapêutico repetir coisas que supostamente fazia antes do acidente.
Num momento de distração de todos, ainda com o garotinho nos braços, caminhou pela casa. Estava decidida a dar uma chance à suposta família, quando pisou fora da cama naquela manhã, soube que era justo tentar e que aquilo era o mais correto a se fazer estando naquela posição. Com o cair lento e penumbroso da noite, percebia que parecia ser mesmo devotado e carinhoso, sem dúvidas era um bom pai, seus pais e irmã também pareciam gentis e acolhedores. Numa tarde, aquelas pessoas haviam sorrido mais para ela do que sua mãe numa vida inteira. pode notar, tinha os mesmos lábios que ela. Mas mesmo simpatizando com eles, não conseguia sentir o afeto que imaginava existir entre mães e filhos.
Pensava nisso enquanto subia as escadas e encontrava mais obras de arte, mais pinturas e fotos em família. Era estranho se ver naquelas fotos, como se tudo aquilo não fosse real e se tratasse de um sonho estranho e frívolo.
Encontrou a terceira porta do corredor entreaberta, empurrou-a com o pé e descobriu um quarto aconchegante e fresco, com a brisa da tarde balançando as cortinas esverdeadas e ursos de pelúcia pelos cantos. Tinham bom gosto, pensou enquanto ajeitava o pequeno na cama baixa e punha ao seu lado um urso marrom esquisito.
Em seguida, deixou o cômodo e teve cuidado para não fechar a porta totalmente, depois voltou a caminhar pelo corredor até encontrar a última porta, e quando fez, entrou no cômodo. O cheiro era familiar, flores e perfume masculino amadeirado, tudo estava milimetricamente arrumado, as cortinas brancas se agitavam suavemente com a brisa da praia, alguns pássaros pousavam no parapeito da varanda, a encarando com seus olhinhos pretos, como se soubessem toda a verdade sobre ela e aquela cena.
balançou a cabeça, afugentando aquela ideia e caminhou até a cama, de um lado a mesa de cabeceira continha uma fotografia da família, um pequeno troféu destinado ao melhor pai do mundo e óculos de grau. Na outra, um exemplar de A Casa Soturna, rosas brancas e mais fotos em família. Aquele era um livro que leria, pensou consigo mesma e sorriu. Caminhou até a mesa e se sentou na cama, folheando o livro, mas algum tempo depois foi abatida pelo cansaço e resolveu se deitar.
Quando se virou na cama, seus olhos encontraram com as Rosas de Heliogábalo, de Sir Lawrence Alma-Tadema numa moldura dourada, uma de suas obras favoritas. A tela fora baseada num episódio inventado retirado da História Augusta, onde o imperador romano Heliogábalo era retratado assistindo a uma tentativa de sufocar seus convidados com uma enorme quantidade de pétalas de rosa que caiam de um teto falso durante um jantar. No primeiro plano da pintura, era possível notar os convidados reclinados, assustados, cobertos por um oceano de pétalas cor de rosa, ao fundo, Heliogábalo era visível com um manto e uma coroa de ouro, junto com sua mãe e atrás deles, há um tocador de flauta e uma estátua de Dionísio.
Era tão estranho…o livro, suas flores favoritas, sua pintura favorita, tudo estava ali, até ela mesma, ao menos por um tempo. Mas não conseguia se conectar, sentia-se errada, angustiada por não devolver o afeto que aquelas pessoas queriam. Não podia ficar ali, não podia fingir ser parte daquilo e alimentar esperanças naqueles olhares ansiosos. Já haviam se passados dias, semanas desde que despertara naquele quarto gélido de hospital sem saber onde esteve por dez anos. Questão de dias, eles disseram, tudo vai ficar bem, mas nada ficava bem, nunca. As memórias não voltavam e sentia a angustia piorar.
Não poderia usurpar uma vida que não a pertencia, nem viver à sombra de algo que não sentia ou acreditava, não era justo com ninguém. Estar deitada naquela cama, sentindo a pele tocar aqueles lençóis, era como ser espetada por deitar numa cama de cactos, o ar parecia não circular naquele ambiente. Tomada aflição, desceu as escadas sorrateiramente e alcançou os jardins exteriores, salpicados de marias-sem-vergonha e rosas coloridas, nos fundos, entre um emaranhado de bouganvilles encontrou um pequeno portão de ferro que se abria numa trilha para a praia, entre a vegetação espessa e espinhosa.

XXX

caminhava com calma pelo jardim e pensava se sua intuição estivesse certa, ela estaria na praia, sentada na areia e encarando o mar, como sempre fazia quando precisava pensar. Quando sumiu do alcance dos olhos, imaginou que ela quisesse ficar sozinha, que toda a atmosfera da casa fosse muito para absorver. Por isso, deu a ela algum tempo na praia antes de ir ao seu encontro.
Atravessar os espinheiros e a vegetação fechada daquela pequena trilha não era uma tarefa muito fácil, só alguém que conhecesse o caminho conseguiria desbravar os galhos tortos e o solo arenoso até encontrar a praia azul. Quando alcançou, sentiu o coração aquecer por se dar conta de que se lembrara do caminho. Sua esposa estava sentada na areia, com os joelhos dobrados e olhos fixos nas ondas que arrebentava aos seus pés, formando espumas salgadas pintadas por pequenas conchas que coloriam a areia.

– Você se lembrou do caminho. – Sorriu se aproximando e sentando-se ao seu lado. – Se lembrou do portão e da trilha.
– Deduzi. – deu de ombros e encarou os pés, os pés delicados e bonitos que ele amava massagear.
– Não, você sabia. Talvez só não soubesse como acessar essa memória. – apoiou as duas mãos na areia e soltou seu peso sobre elas.
– Eu sinto muito por isso, por tudo isso. Sei que vocês esperavam que esse dia me ajudasse a lembrar, mas eu não posso, não consigo. Me sinto péssima por isso, porque ignorar a existência da minha própria família, se for isso mesmo, não parece algo que eu faria. – lamentou ainda com os olhos presos aos pés.
– Pode ser que leve algum tempo, temos que ter paciência. – tentou acalmá-la.
– E se não voltar? E se minha memória nunca mais voltar? – Ela indagou girando o corpo em sua direção, na intenção de olha-lo nos olhos. – E se eu nunca me lembrar da época em que fui sua esposa, que tive filhos com você? Devíamos fingir que está tudo bem e seguir a vida enquanto eu vivo com um homem que eu não amo e com filhos que não são meus?

Aquilo o atingiu em cheio, homem que não ama e filhos que não eram dela. não soube o que dizer, seu coração passou a bater descompassado, o ar fugia e os olhos inquisitivos e assustados de o pressionavam em busca de qualquer sinal, qualquer resposta.

– Desculpe, mas eu não sei o que quer que eu diga. Você sempre foi melhor nisso que eu, melhor em pensar com clareza nos problemas, você é o meu farol. Eu não sei…– Tentou explicar, mas o interrompeu, pondo-se de pé, agitada.
– Pare de fazer isso, pare de fazer isso comigo. – Pediu nervosa. – Me colocando como farol da sua vida e tudo isso…eu não sei nem mesmo quem é você. Eu fico com tudo isso passando na cabeça, preocupada com o que acontece se eu não me lembrar, com todo esse peso de precisar estar bem para pessoas que eu sequer conheço. – Desabafou com a voz embargada e falando alto.
– Mas você me conhece. Me conhece tanto que estamos juntos há dez anos. – rebateu e também se levantou. – O que você sugere que eu faça, ? Esqueça tudo? Ignore tudo que aconteceu e siga minha vida, como se você tivesse morrido?
– Eu não quero viver na sombra do que fui ou do que aconteceu um dia. – balançou a cabeça negativamente e mordeu o lábio inferior com força quando percebeu que não poderia conter as lágrimas. – Eu estou assustada, morta de medo e angustiada. Mas eu não posso ficar aqui fingindo que está tudo bem. Essa família é a sua família, . É a sua casa, seus filhos e sua esposa, a mulher que conheceu, morreu naquele acidente.
– Não. – Ele se aproximou rapidamente e segurou o rosto dela, mantendo firme o contato visual. – Não. Não vou aceitar isso. Como eu poderia? O que você quer fazer, ? Quer que eu diga aos nossos filhos que a mãe deles não os quer por perto? Que foi tudo um engano e que ela nunca mais vai voltar? Quer que eu simplesmente te deixe ir? – Questionou ignorando o calor das lágrimas que rolavam por sua face.
– Não existe uma opção em que ninguém sofra. – Ela negou com a cabeça. – Eu não vejo outra maneira.
– Não, pare com isso. Não, . – Pediu nervoso. – Você está fugindo.
– Estou. Você tem razão. Eu estou fugindo porque não sei nem mesmo quem eu sou, não sei nada sobre mim, só o que as pessoas dizem. Você diz que nos amamos, mas quando olho para você só consigo enxergar um homem desesperado…e eu entendo, no seu lugar eu também estaria.
, se esse é o problema… meu coração é grande o suficiente para amar por nós dois. – declarou, o piloto tinha os olhos projetados e agitados, o rosto vermelho e o lábio inferior estava trêmulo.
– E como isso seria justo? Ficar ao lado de uma mulher que não te ama, que sequer reconhece você. – inclinou a cabeça sobre o ombro. – Eu posso tentar ver as crianças algumas vezes, para que elas não sofram tanto, mas não consigo ficar, não consigo fazer isso.
– Você precisa de tempo? Precisa que eu te deixe sozinha por mais tempo para tentar colocar a cabeça no lugar e recuperar a memória? – Ele propôs desesperado.
– Não, . Eu preciso de tempo, preciso de espaço, mas não posso te acorrentar a mim, te acorrentar a uma esperança cega de algo que pode nunca acontecer. – Suavemente, segurou as mãos do piloto e as afastou de seu rosto. – Eu entendo que você me ama, mas não posso fazer isso. Estou te libertando, . Eu não me lembro de amar você, por isso te liberto, te deixo ir. Você está livre.

não pode conter as lágrimas ao ouvir aquilo, era como a morte, talvez pior que a morte. Por um tempo, pensou que tivesse perdido seu grande amor, mas então sobrevivera, contudo, agora ela estava indo embora de novo e ele se sentia impotente demais. Ouvi-la dizer aquilo o rasgava a carne, dilacerava como sequer imaginava ser possível.

– Mas eu não quero ir, . Não quero ser livre, quero ficar com você, por favor. Não faça isso, por favor. – Pediu em lágrimas e percebeu pelo olhar dela que também sentia dor naquele momento. – Não me deixe.
– Eu sinto muito, não queria fazer isso. Não queria que você sofresse. – Afirmou tentando secar as lágrimas que escorriam com as costas das mãos. – É estranho, mas me destrói ver você assim, mesmo que eu não entenda o motivo. E é principalmente por isso que não posso ser egoísta com você, é o certo a se fazer agora. Eu…eu sinto…eu lamento tanto.
– Por favor, . – Implorou pela última vez.
– Eu não posso. – Ela respondeu apertando os lábios para tentar conter o choro e então partiu.

assistiu o amor de sua vida correr por entre as espinheiras, fugindo dele e da vida que construíram e seu coração se quebrou. Se quebrou em pedaços demais para que pudessem serem unidos novamente e ele caiu de joelhos na areia, fraco demais, ferido demais para continuar vivo naquele dia.

Dois meses depois…

esperava ansiosamente que seus tacos ficassem prontos, enquanto tentava matar o tempo lendo algumas notícias sobre golfe. Nos últimos meses havia descoberto muito sobre si mesma, sobre como gostava de café, que adorava golfe e mojitos, os livros que gostava de ler, sua religiosidade e outros detalhes de sua personalidade. Era delicioso passar por aquele processo, experimentar e aprender do que gostava. Às vezes, ficava tão ocupada com as novidades que conseguia não pensar em e seus cinco filhos por dez minutos inteiros.

– Ah, então aí está você. – Lorelei surgiu de repente, assustando a amiga que se esticava para alcançar a comida. – Não acredito que você está comendo tacos de novo. Não te apresentaram restaurantes dignos ainda? – Ela provocou.
– Até apresentaram, mas sabe como são essas coisas, eu amo tacos. – Deu de ombros. – Achei que você não viria mais hoje. Chiara e eu já estávamos indo para casa.
– Eu tive um problema com um paciente. – Lorelei se explicou enquanto seguia a amiga até a mesa que estavam e cumprimentava Chiara com um abraço. – Gente, mas vocês só comem isso? Que horror. Pelo menos tem algum hambúrguer aqui?
– Tem uma barraca ali na esquina. Mas se prepare, toda vez que vou até lá, volto com um crush diferente. – Chiara brincou.
– Então é isso mesmo que eu preciso. – Lorelei gargalhou sendo acompanhada por Chiara. – , será que você pode sair do celular e participar da conversa?
– Oi? – Respondeu distraída.
– Ela deve estar vendo aquele vídeo que te mandei, está no Instagram. – Chiara explicou.
– Não, estou vendo umas notícias de golfe. De que vídeo vocês estão falando?
– Nada, deixa para lá. – Chiara engoliu seco e tentou mudar de assunto. – Lorelei, você vai amar o cara novo que trabalha na barraca de hambúrguer, ele é exatamente seu tipo…
– Vocês vão me mostrar o tal vídeo ou eu mesmo vou ter que encontrar? – indagou séria. – É sobre ele, não é? O que houve? Ele…ele está namorando? – Quis saber fingindo desdém.
– Quem? ? – Lorelei gargalhou jogando a cabeça para trás. – Nunca.
– Amiga, ele manda mensagem pelo menos duas vezes por dia para saber de você e se eu demoro a responder, ele liga. – Chiara confidenciou.
– Essa informação é completamente desnecessária. Você devia dizer a ele para seguir em frente e não o ajudar nessa loucura.
, eu sei que você não se lembra, mas não precisa fingir que não se importa, não para nós. – Chiara falou segurando a mão da amiga.
– Eu me importo, é claro. Tenho sentimentos. – deu de ombros novamente e mordeu seu taco. – Mas como disse, não posso…
– Não pode porque quer se conhecer e blá blá blá. – Lorelei a imitou forçando a voz. – Isso parece discurso de homem quando quer enrolar alguém, não de uma mulher como você.
– Vocês não sabem como é. Não sabem como é acordar um dia e descobrir que se passaram dez anos e que você não faz ideia do que aconteceu.
– Talvez você faça sim. – Chiara apontou.
– Claro que não. Do que está falando? – balançou a cabeça negativamente.
– Você vai mesmo fingir que não faz ideia? – Indagou olhando nos olhos da amiga. – Tudo que você diz estar descobrindo sobre você, são coisas que fazia com seu marido. Tacos? Comida favorita dele, porque você ama hambúrguer. Golfe? Meu deus, todos sabemos que você só assiste futebol durante as copas do mundo e as corridas do . Ele adora golfe, não você. – Chiara apontou.
– Dizem que quando duas pessoas convivem muito, tem muita intimidade, acabam se tornando iguais. – Lorelei lembrou. – Você agora, nessa fase, parece o de quando vocês se conheceram. Talvez você esteja sentindo falta dele e inconscientemente buscando coisas que te façam lembra-lo.
– Você fala como se eu estivesse reprimindo as lembranças desses últimos dez anos. – bufou chateada, sabia que as amigas tinham razão. Antes do acidente, teria preferido morrer a assistir golfe por mais de três segundos, não entendia bem sua paixão e interesse repentino no esporte.
– Não, amor, não quis dizer isso. – Lorelei explicou com doçura. – Mas talvez, saber o que você construiu durante esses dez anos tenha mexido com você mais do que você admite.
– Claro que mexe, vocês sabem como me sentia solitária. – deixou-se escorrer pela cadeira, do mesmo modo que sentia se escorrer por dentro, desmanchar sem contorno. – Saber que existe alguém como ele, bonito, gentil e apaixonado mexe comigo, mas ainda me parece errado ficar com ele sem sentir o mesmo. E eu não consigo parar de pensar nas crianças, pensar em como elas estão, o que estão pensando…
– Quando foi a última vez que as viu? – Chiara quis saber.
– Faz duas semanas. – sorriu triste e encarou o nada, revendo em sua mente toda a cena. – Algumas choraram quando eu fui embora. Salomé não quis falar comigo quando cheguei, José e Matias pareciam dispersos e, ao mesmo tempo, desobedientes, sem limites, tentando chamar atenção. Maria chorou o tempo todo e Miguel me deixou preocupada, está franzino. Paola contou que ele não está se alimentando direito, talvez seja por minha causa. Estou pensando em falar com… – fechou a boca e arregalou os olhos quando percebeu o que estava prestes a dizer.
– Pensando em falar? – Chiara encorajou.
– Que estranho. Eu estava prestes a dizer que pensava sobre pedir a opinião de e levarmos Miguel ao médico. – Confessou.

XXX

Quando o avião pousou em Puerto Vallarta, teve certeza que não queria ir para casa. As últimas reuniões com sua nova escuderia não tinham sido nada fáceis, era um piloto experiente, na última temporada mostrou isso e seus resultados só solidificaram seu potencial. Mas mesmo assim, suas opiniões eram ignoradas e o mexicano se sentia constantemente deixado de lado nas decisões mais importantes.
Estava frustrado, chateado, cansado.
Queria e precisava de um pouco de paz e por mais que estivesse cheio de saudades dos filhos, precisava de um tempo em silêncio para se organizar, organizar seus pensamentos e tentar traçar um plano de ação que o ajudasse a lidar com aquela situação estressante.
No verão mexicano, Puerto Vallarta ficava abarrotada de turistas, gente indo e vindo, famílias inteiras de férias nos resorts, a cidade não dormia. Bom para a cidade, mas péssimo para os habitantes locais. aprendera desde cedo sobre as praias menos frequentadas, justamente para evitar o encontro com aquela enxurrada de turistas, mas as melhores ficavam perto de casa e longe do aeroporto, onde ele estava. O lugar mais cômodo seria a pequena praia no campo de golfe, desconhecida aos turistas e menos badalada naquela época, e foi para lá que o piloto decidiu ir.
Depois de cumprimentar alguns jogadores, ele conseguiu atravessar toda extensão verde do clube e enfim colocar os pés na areia. Precisava muito daquilo, precisava sentir aquela paz e meditar um pouco. Aparentemente, alguém também tivera a mesma ideia e bufou chateado quando seus olhos alcançaram a mulher sentada na areia, com moletom e roupa de corrida. Era perto das sete da manhã, mas apesar do horário, o clima estava quente demais para aquelas roupas. Ele pensou, talvez se assuste com a minha presença e vá embora.
continuou caminhando, passou ao lado da mulher, tentando não jogar areia em seu rosto enquanto andava e rumou até onde as ondas se arrebentavam com seu estrondo sinfônico.
? – A mulher chamou e ele girou o corpo para encará-la assim que reconheceu a voz.
. – Desde que a mulher fora embora de sua casa, dois meses atrás, era a primeira vez que os dois se encontravam.
– O que você faz aqui? – Ela perguntou curiosa, pôs-se de pé e se aproximou, deixando que a água também tocasse seus pés.
– Precisava pensar, ficar sozinho. E você?
– Eu também. Senti que precisava correr, tirar certas coisas de dentro. – Ela contou encarando o chão.
– O que aconteceu? Contesina? Ou alguma coisa no trabalho? – Ele indagou sem perceber, com a mesma naturalidade que fazia quando eram um casal.
– Por que acha que tem algo a ver com a minha mãe? – franziu o cenho ressabiada.
– Bom, eu sei como são as coisas entre vocês. Quero dizer, como eram…– Deu de ombros e caminhou até o ponto onde estivera sentada e se sentou também, sendo seguido por ela. – Eu sei como isso te desestabilizava.
– Nós tínhamos uma relação difícil? Eu e… minha mãe? – Quis saber, sentando-se de frente para ele.
– Não necessariamente. Você cedia, fechava os olhos para as coisas ruins. – Contou. – Quando começou a fazer terapia e percebeu que o vazio que sentia, a necessidade de proteção tinha a ver com ela, ficou melhor. Aos poucos aprendeu a impor seus limites na relação de vocês.
– Vazio?
– É. – respirou fundo, tentando juntar as palavras certas na cabeça e se inclinou um pouco na direção dela, buscando o olhar de . – É um assunto delicado, a relação com a sua mãe te deixou muito gatilhos emocionais. Precisou de terapia, de tempo para lidar com tudo. Você se sentia só, desprotegida, as críticas dela abalaram sua estima, segurança…
– E se me permite o chute, agora é a hora que diz que tudo só melhorou depois que eu te conheci. – alfinetou na defensiva, não gostava da ideia de saber tanto sobre seus sentimentos mais profundos.
– Não, quando nós nos conhecemos você já estava se curando disso. Mas nós já conversamos sobre isso milhões de vezes. – Explicou ignorando a acidez dela.
– Não sei, eu não sou o tipo de pessoa que se abre tão facilmente. Ainda mais sobre esse tipo de assunto. – expirou pesadamente. – Mas independente de como soube, tem razão. Eu me sinto assim, me sinto só.

não respondeu, mas continuou com os olhos no mar, acompanhando as ondas e os sutis raios de sol que lutavam contra as nuvens grossas e pesadas de uma manhã nublada. Apoiou os cotovelos no chão e descansou o corpo. Não cederia aos ataques sutis de , a conhecia o suficiente para saber que quando a mulher se sentia acuada, triste ou magoada, o que vinha a seguir eram brigas, gritos e choro. não era alguém desequilibrada, muito pelo contrário, mas até o mais calmo lago excede as margens nos dias de cheia.

– Você quer ficar sozinho? – Ela perguntou depois de algum tempo em silêncio.
– Se você ficar em silêncio, não.
– Algum problema com os meninos? – Ela o fitou com os olhos ansiosos.
– Não, eles estão bem. Não se preocupe. – Respondeu fechando os olhos.
– O que há então? – Quis saber, insistente e riu sem humor, ainda de olhos fechados.
– Não é nada, só quero ficar em silêncio. – Pediu.
– É, eu também sou assim, gosto de silêncio. Muito barulho e pessoas falando me irritam. – contou.
– É você é. Você gostava de silêncio e agora eu gosto de silêncio, você gostava de chá e agora eu gosto de chá. Eu não sabia ficar em silêncio quando estava perto de você e agora você parece que esqueceu o que a palavra silêncio significa. – Respondeu um pouco impaciente e riu da ironia do momento.
– Ai. – juntou as sobrancelhas, afetada e girou o corpo para encarar o mar.

a observou de soslaio e percebeu a protrusão de seu lábio inferior, do jeito que sempre fazia quando era contrariada ou se sentia chateada. Pensou que por mais que ainda estivesse magoado com a partida da esposa, talvez aquilo fosse uma tentativa para acessar suas memórias, não podia negar isso a ela, não podia negar a eles.

– O trabalho. – Contou e sentiu o olhar atento de sobre si. – Não está como eu achei que seria. Sempre soube que não seria fácil, mas agora me sinto muito desmotivado, como se fosse só mais um, minha opinião parece não ser nem considerada. – Desabafou.
– Eu sinto muito por isso. – lamentou com os olhos atentos e empáticos.
– Eu também. – sorriu triste e ajeitou a coluna, dobrou os joelhos, apoiou os cotovelos neles e juntou as mãos. – Eu queria que as coisas tivessem sido diferentes, mais um tempo na Racing Point, mais calma nas decisões.
, eu pesquisei sobre você na internet. – Ela confessou e ele riu entredentes e passou a encará-la. – Você é um bom piloto, é ótimo. Tem bons resultados, ofensivo e sua nova equipe deve agradecer muito por você estar com eles. Eles podem até te subestimar, mas não podem apagar quem você é de verdade. vai mostrar o porquê de estar numa equipe de ponta nas pistas, onde realmente importa. – Disse ela com firmeza.
– Você tem razão, eu sei. – Admitiu encarando os pés. – Mas é mais difícil do que parece, é difícil ter confiança em si mesmo num momento desses.
– Se lembre do que importa. – recitou pensativa e o piloto inclinou a cabeça confuso. – De onde é essa frase? Eu sei que já ouvi antes, mas não lembro de onde.
– É minha. – Contou sorrindo. – Eu digo ela para você sempre. Se lembre do que importa, de quem importa e de quem te ama de verdade. – Completou.
– Acho que você já sabe o que fazer, então. – piscou.
– Você se lembra? Se lembra de alguma coisa? – Indagou ansioso e cheio de expectativas.
– Não, sinto muito. Às vezes, tenho alguns flashes de coisas que eu fazia, frases que ouvi…, mas não me lembro dos últimos dez anos. – Confidenciou tristemente. – Mas queria lembrar, eu juro, queria muito.
– Quem sabe um dia. – Ele sorriu triste.
– Eu espero que sim. – falou pondo-se de pé. – Eu preciso ir.
– Claro. – não se moveu, apenas apertou o abraço ao redor dos joelhos. – É bom te ver, . Ver que está bem.
– Você também. – Ela assentiu. – Espero que as coisas melhorem no trabalho.
– Obrigada. Espero que melhorem com sua mãe, também.

assentiu e se afastou alguns passos, então voltou-se para o piloto e, chamando-o disse:
– Eu sinto muito pelo que falei hoje, no assunto sobre minha mãe. Não quis te atacar. – Admitiu.
– Uma vez eu te perguntei porque nossos filhos se comportavam bem com outras pessoas, mas faziam birra quando estavam com a gente. – lembrou sorrindo saudoso. – Você disse que as crianças se sentiam seguras para se expressar com a gente, porque sabiam que nós os amávamos. Quando se está muito perto de uma rosa, você sente o perfume na mesma proporção que sente os espinhos.

sorriu, colocou uma das mãos no bolso do moletom e encarou o chão, sorriu de novo e olhou para o homem sentado na areia.
– Não me lembro, mas entendo porque me apaixonei por você dez anos atrás.

sorriu.

Três meses depois…

O autódromo Hermanos Rodríguez estava movimentado e agitado, como gostava de ver. Tudo voltava ao normal e aos poucos o público preenchia seus assentos numa algazarra mascarada e barulhenta.
Era dia de treino classificatório, todos estavam animados, excitados com a expectativa para obter uma melhor posição. O mexicano tinha resultados agradáveis nas últimas corridas, dois abandonos por problemas mecânicos, dois pódios, um quarto e um quinto lugar. Podia conviver com aquilo e a temporada não estava sequer na metade.
O que realmente o incomodava não era a ansiedade antes da classificação, mas sim a falta da sua outra metade. Os filhos estavam em casa com seus pais assistindo pela TV, Antonio, seu irmão, o acompanhava e no momento o observava a distância. nem mesmo sentia vontade de correr, parecia não ter sentido estar ali, em sua casa, em seu país e sem .
Desde o acidente dela, sua vida estava de pés para o alto. Perdera a esposa, sentia tantas saudades que durante a noite mal podia respirar, os filhos também sentiam muitas saudades da mãe, mas, ao menos uma vez por mês, se dispunha a visitá-los. Nesses momentos, preferia não estar em casa, era doloroso demais assistir ali, como se os filhos, como se ele fosse apenas um estranho para quem ela fazia um favor.

– No que está pensando? – Antonio quis saber ao se aproximar.
– No de sempre… sinto falta dela aqui. – Lamentou.
– Depois daquela conversa de vocês na praia, nada de novo? – Antonio apertou os lábios num sorriso compreensivo e empático.
– Não. – sorriu amargo. – Na praia, não foi como se ela se lembrasse de algo, foi mais sobre ela sentir alguma empatia pela minha situação. Eu estive pensando, talvez para ela seja melhor se esquecer de mim, seguir a vida sem que eu atrapalhe. – Confessou triste.
– Claro que não, que absurdo. – Antonio balançou a cabeça negativamente e tocou o ombro do irmão, atraindo sua atenção. – Você conhece melhor do que eu, acha mesmo que ela ficaria feliz em saber que abandonou cinco crianças, os cinco filhos dela? Ela tem que se lembrar, ela precisa se lembrar. Nessa altura do campeonato, não existe mais essa opção de talvez seja melhor para ela viver sem você.
– Eu só estou me acostumando ao inevitável, irmão. – Sentenciou expirando pesadamente.

XXX

encarava a gôndola de shampoos havia mais de dez minutos sem ter noção do que levar. Aparentemente, as lojas da Cidade do México não eram tão bem equipadas quanto a de Jalisco, teria que se contentar com algo parecido ao que estava habituada. Era a primeira vez que a italiana viajava sozinha depois do acidente, a estadia curta na capital mexicana foi decidida depois de receber um convite para um seminário de saúde mental infantil. estava tão animada que precisar ficar alguns dias sem lavar o cabelo ou seus problemas mais recentes não conseguiriam afetar seu humor.
Enquanto lia alguns rótulos, sentiu o celular vibrar e remexeu a bolsa até encontra-lo, quando atendeu, seus ouvidos se acostumaram rapidamente a saudação animada de Lorelei.

– Me ajude a decidir, fico dias sem lavar o cabelo ou fico dias me coçando e tomando antialérgicos? Não encontro meu shampoo em loja alguma dessa cidade. – Contou sorrindo.
– Deixe de ser tão metida, compre qualquer um, ora. – Lorelei provocou.
– Eu sou alérgica, lembra? Da última vez, quase fiquei careca. – Explicou.
– Eu tenho quase certeza que nos últimos dez anos você se curou dessa alergia.
– Se eu não lembro, não fiz, não sei e não confio. – disse tentando soar engraçada, mas não achava graça naquela situação, nem mesmo um pouco.
– Falando nisso, como ficou aquele assunto? Fez o exame de sangue para confirmar? – Lorelei perguntou curiosa.
– É, já peguei o resultado. – Expirou pesadamente e encarou os pés. – Mas não vou falar disso por telefone, é um assunto sério demais.
– Querida, é um assunto feliz. Quando vai contar para o ?
– O quê? Enlouqueceu? Como vou contar a ele sobre uma coisa que nem sei como aconteceu, se é verdade ou não. Eu gosto dele, tenho certa empatia, não quero fazê-lo sofrer mais uma vez.
– Não tenho certeza se isso o faria sofrer,
– Podemos não tocar nesse assunto aqui? Por favor, em casa nós conversamos, Lori. – Pediu.
– Tudo bem. – Ela suspirou. – Aliás, eu te liguei para te contar uma coisa, lembra daquele trabalho na Universidade de…– Lorelei falava, mas não prestava atenção, seus olhos estavam presos a uma TV que sequer havia notado.

Sobre o balcão da loja, presa a parede, estava uma TV grande que mostrava o treino classificatório do Grande Prêmio do México, segundo a legenda na tela. O aparelho e tudo que ele mostrava estavam invisíveis a ela até que uma cena específica chamou sua atenção.
Um carro estava em chamas depois de atingir outro, havia fogo, extintores de incêndio e um piloto estava do lado de fora, enquanto o outro saía do carro. Naquele instante foi transportada para dentro de suas memórias…

Estava dirigindo por uma estrada sinuosa, margeada pela esquerda por um paredão de pedras e por outro pelo mar azul mexicano, amava aquele mar, moraria nele se pudesse. Estava atrasada, sabia que precisava adiantar e pisar mais fundo, senão teria problemas, mas mesmo assim se sentia relaxada, tranquila e em paz, completa.
Desviou o olhar por dois segundos, para olhar o mar, adorava a vista que aquela curva proporcionava, o mar com sua casa ao fundo, alguns dias, se olhasse bem podia ver na varanda, ou os filhos. Quando voltou a olhar para a estrada, foi surpreendida por outro carro que avançava em sua direção, em tão alta velocidade quanto ela, invadindo completamente sua faixa.
Num bater de cílios, tirou o carro da pista, girando bruscamente o volante para a direita e então tudo revirou, como se estivesse em um liquidificador gigante. A última cena que os olhos desfocados de fotografaram antes de se fecharem foi o fogo que começava a crepitar na parte da frente do carro, areia que podia enxergar pela janela quebrada e ao fundo, sua casa.

– Oi? ? Está aí? – Lorelei chamou.
– Sim, me desculpe. Eu acho que acabei de ter um flash… como se uma memória invadisse… – Contou atordoada e sentiu-se zonza.
– Você está bem? Como assim? Como foi isso? – Lorelei perguntou ansiosa.

sentiu-se zonza, talvez pela lembrança forte do acidente, talvez pelo seu estado atual, não sabia com certeza a razão. Quando percebeu as pernas perderem a firmeza, buscou apoio na prateleira mais próxima, recheada de produtos masculinos, mas seus olhos e olfato se prenderam a um produto em especial, uma espuma de barbear. A embalagem vermelha maquiava o cheiro forte e horrível que a espuma tinha, no mesmo instante flashes de momentos em que implicava com o cheiro daquela espuma, o cheiro que saía do banheiro de seu quarto e logo em seguida, surgia pela porta sorrindo e com metade do rosto ainda coberto pela loção branca.
A italiana não tinha certeza se aquela imagem era real, se realmente acontecera ou se era algo criado por sua imaginação, como as que criava enquanto tentava se lembrar da vida que levou durante aqueles dez anos. Estava confusa, perdida, tonta e prestes a vomitar.

, me responda! Está tudo bem? – Lorelei insistiu.
– Não, não está, mas talvez fique… acho que vai ficar tudo bem. – Declarou.

XXX

Faltavam duas voltas para o final do Grande Prêmio do México, tentava se manter concentrado na pista, nos segundos finais, mas sua cabeça vagava para onde quer que estivesse. Naquele dia, a sentia mais perto que nunca, como se de coração ela também estivesse naquele carro. Quando pensou em não correr naquela manhã, principalmente pelo acidente do dia anterior e pelo desequilíbrio emocional que a falta da esposa causava, Antonio fora duro em dizer que quando recobrasse a memória, não se perdoaria em saber que ele desistiu de si mesmo por sua causa.
Seu irmão estava certo e era por que corria naquele dia, por , por seus filhos, por seu casamento, por amor.
E aquela vitória era mais que um sinal, depois de alguns erros das outras equipes durante trocas de pneus, estava na liderança com vantagem de vinte segundos para o segundo colocado, seu companheiro de equipe. Se sentia feliz por poder mostrar a , quando ela voltasse para casa que conquistara aquele troféu para ela, em nome dela.
Quando finalizou a última volta e vislumbrou a bandeira quadriculada flamular, sentiu as lágrimas escorrerem por seu rosto. Rezou, rezou a Deus, agradeceu a chance de vencer mais uma, rezou por si mesmo, por sua família, seus filhos, sua esposa e agradeceu.
Quando parou o carro atrás do grande número um, saltou o mais rápido que os equipamentos permitiam e correu para a equipe, correu para o irmão. Deus sabia o quanto ele adoraria ter corrido para os braços de , mas a hora chegaria, ele tinha fé.
Depois de muitos abraços e festa, era chegada a hora de subir ao pódio, o ressoar do hino mexicano o atingiu em cheio, não se segurou e chorou. Chorou enquanto assistia ao filme de sua vida, como espectador único e principal. Lembrou-se das dificuldades na nova escuderia, das dificuldades nas primeiras corridas, das vezes que fora menosprezado, do último ano problemático, quando achou que não teria um assento para o próximo ano. Lembrou-se dos filhos, cada um dos cinco, lembrou-se dos pais, dos irmãos e sobrinhos, lembrou-se de , lembrou-se e torceu para que por algum milagre ela também se lembrasse. chorava copiosamente, um misto de alegria, saudosismos e superação, sentimento que não caberia em palavras num jornal, ou no vídeo de uma entrevista qualquer, cabia apenas em seu coração.

XXX

Um pouco longe da multidão que assistia ao pódio, refletia sobre a cena enquanto sentia as lágrimas encharcarem o rosto. Mal dormira a noite, agitada demais, confusa demais, mas sabia exatamente onde queria e precisava estar na manhã seguinte. Por intervenção divina, mesmo em meio aos prantos, encontrou o olhar dela em meio à multidão. O piloto piscou e esfregou os olhos algumas vezes, como se tentasse ter certeza de que não era uma visão, que estava mesmo ali. Enquanto ainda recebia jatos de champanhe dos outros dois pilotos, caminhou receoso, buscando descer dali e encontrar sua esposa, confirmar que ela não era mesmo uma miragem.
Depois de atravessar a multidão tendo cuidado para que os olhos não se desconectassem, estava a menos de dois metros de , olhando em seus olhos ansiosos e molhados, percebendo a respiração descompassada dela.

? – Chamou incerto.
– Eu… – Ela sorriu grande. – Eu me lembrei de que tinha uma encomenda sua. – Falou enquanto retirava da bolsa que carregava o frasco da espuma de barbear do marido.
– Você… você se lembra? Você se lembra? Se lembra de mim? – Ele perguntou sem pausas, animado e voltando a chorar.
– Sim, eu me lembro. – Confirmou e se atirou nos braços do marido.

Aquela saudade que tantos os consumia, o vazio no peito que não entendia de onde surgia, era necessidade de . Necessidade de ter o corpo do marido junto ao seu, porque mesmo que sua mente não se lembrasse, suas células nunca se esqueceram dele. Ali era seu encaixe perfeito, sua metade completa, seu grande amor e pai dos seus filhos, seu .

– Eu não acredito. – Ele sorriu e segurou o rosto dela próximo ao seu para que pudesse observa-la mais de perto. – Eu esperei tanto por isso…rezei tanto.
– Eu sinto muito, eu lamento não ter me lembrado. Na verdade, não sei como pude esquecer de você e dos nossos meninos. Eu me sinto péssima por isso, me sinto…– Desabafou , mas a interrompeu.
– Ei, ei…não se preocupe. Foi uma fase ruim, mas já passou. E serviu para mostrar o quanto somos fortes, o quanto nosso amor é forte. – Disse ele e em seguida a beijou calmamente e com doçura.

Enquanto sentia os lábios do marido juntos aos seus, se perguntava como pode passar todo aquele tempo sem tocá-lo, sem sentir as borboletas que floriam seu estômago toda vez que se encontravam, sem sentir o nervosismo quando se percebia alvo dos olhares dele. Como pudera esquecer que estava completamente apaixonada por ?

– Vai ficar tudo bem, desde que fiquemos juntos. – Ele sorriu ainda com as testas juntas. – Eu sou o homem mais feliz do mundo hoje, porque você voltou para mim.

sorriu, afastou o rosto do de seu esposo e afastou seus corpos alguns centímetros, em seguida olhou em seus olhos e sorriu.

– Eu sempre volto, sempre vou voltar para você. – Sorriu grande e tocou o rosto de acariciando suavemente sua face. – Mas não mais sozinha. – Disse e pousou a outra mão sobre o ventre.

O piloto a encarou confuso, depois olhou novamente para a mão que tocava a barriga da mulher e de volta aos seus olhos, abriu a boca algumas vezes sem dizer nada, piscou atônito e sorriu enquanto expirava pesadamente.

– É sério? Você está? Está mesmo grávida?
– Sim. – Confirmou. – Os médicos disseram que eu só não o perdi no acidente porque provavelmente ele foi concebido no mesmo dia. – contou.
– Eu sou o homem mais feliz do mundo todo. – Anunciou ele enquanto beijava e abraçava a mulher.
– Eu te amo. – declarou.
– Eu também amo você, minha . – repetiu apertando o abraço e beijando o ombro da esposa. – Meu Deus, que não sejam gêmeos de novo. – Rezou.

Fim…

Nota da autora:
O projeto: Essa fanfic faz parte do projeto Drive to Survive, um projeto no qual 11 autoras apaixonadas por Fórmula 1 se reuniram para escrever uma short para cada piloto do grid, divulgando e homenageando esse esporte incrível. Os primeiros 5 pilotos já tiveram suas histórias contadas e você pode acompanhá-las aqui Shortfics – Fórmula Um assim como encontrar as próximas shorts.
Agora recebemos de coração aberto Sergio “Checo” Pérez, mas em breve todos os pilotos da temporada de 2020 terão uma história para chamar de sua, todas feitas com muito amor.
Esperamos que curtam nossa proposta e embarquem nesse mundo com a gente.
Não esqueçam de deixar aquele comentário no final e motivar uma autora a sempre continuar.
Beijos e até a próxima! <3

Nota: Minha gente do céu inteiro!!!
Quem me conhece sabe o nível de surto que eu tenho com esse homem, sou apaixonado no Sergio e tive o privilégio de escrever com ele. Eu to no céu, minha gente!
Me apaixonei desde o início por esse casal, por esse Checo paizão e um marido da P****, tanto que até trouxe uma galera pro meu time. Tentei trazer a essência do Checo aqui, tudo que me lembra esse mexicano incompreendido e de coração enorme e torço para que se apaixonem por ele também.
Ps.: Caso se apaixonem, me procurem, bora fundar um fã-clube e ser amigas.
Um agradecimento especial ao grupo F1❤, por proporcionar esse encontro e essa fanfic. Obrigada, Carol F, minha musa por me ensinar tanto e por fortalecer junto, fazendo das tripas coração para que esse projeto saísse do papel. Obrigada Carol Devlin, por me fazer surtar e surtar comigo com esse Papi<3 que tem povoado nossos sonhos. Obrigada, Marianaaaa, amo você. Obrigada, dona Lori por aguentar os surtos e ajudar na construção dessa beleza, Obrigada Mia, mesmo a distância continuo amando você, minha deusa.