Drive to Survive – Valtteri Bottas

Drive to Survive – Valtteri Bottas

Sinopse: Valtteri planejava passar o natal como o Grinch, até que a chegada inesperada e mágica de uma donzela do século dezesseis atrapalha seus planos. Agora ele precisa ajudar a duquesa com seu propósito, enquanto descobre que o amor pode estar onde se menos espera.
Esta fanfic faz parte do especial Drive to Survive
Gênero: Romance
Classificação: Livre
Restrição: Os nomes Jaime, Janet, Phoebe, Gina e Shane jã são utilizados.
Beta: Sharpay Evans

Capítulo Único
21 de dezembro

O limpador de para-brisas balançava de um lado para o outro preguiçosamente, tentando afastar os flocos de neve que caiam. No rádio Blue Christmas, de Elvis Presley fazia repensar suas últimas escolhas. Não que aquelas escolhas tivessem sido feitas por ele, na verdade em tudo aquilo ele era um mero coadjuvante, um espectador a quem coube assistir tudo de dentro do palco.
Quando sua noiva, Phoebe, resolveu que seria uma boa ideia jogar o relacionamento de anos para o alto, ele sequer fora consultado. Se lembrava perfeitamente de cada detalhe daquela noite, depois do jantar com Shane e Gina, um casal de amigos, Phoebe se recolheu mais cedo e então, durante a madrugada o acordou dizendo que aquele era o fim. Sem sinais, sem chances para que tentasse recuperar a relação. O amor simplesmente havia acabado.
Já haviam se passado quatro meses, mas desde então não se passara um dia sequer onde o piloto, não amaldiçoasse o amor e todo tipo de relacionamento afetivo. Estava decidido e possuía mil argumentos, poderia convencer qualquer um de que o amor e a paixão eram reações químicas e serviam apenas para a perpetuação da espécie. Toda baboseira romântica sobre isso não passava de manobras capitalistas.
Estava voltando de mais um treino cansativo e com a aproximação do natal, aparentemente todos os casais da cidade haviam resolvido sair de suas casas e demonstrar o amor em público. Patético, pensava, duvido que todos esses cheguem até o próximo natal juntos.
Não era um homem amargurado ou coisa do tipo, só não era mais cego quando o assunto era amor. Para o piloto da , as comemorações natalinas daquele ano somente serviriam para que toda a família perguntasse sobre Phoebe, abrindo a ferida ainda não cicatrizada. Por isso e por seu novo mal humor cotidiano, resolvera passar as festas isolado em uma de suas casas na Inglaterra, tomando uísque e assistindo filmes de terror, enquanto cortava todas as fotos com a antiga parceira.
A autoestrada estava vazia de carros, mas completamente abarrotada de neve. dirigia devagar e tediosamente, até que alguém surgiu de repente no meio da pista. O piloto fez o possível para desviar, mas não teve muito sucesso, com o asfalto liso e o pedestre surgindo tão repentinamente, pouco pode fazer.
Droga, pensou. saiu do carro o mais rápido que pôde, por sorte, estava devagar e o impacto não fora muito violento. O piloto puxou o capuz do casaco, tentando se proteger da neve grosa e rumou em direção ao espantoso pedestre.
– Você está bem? Pode me ouvir? – perguntou se abaixando.

No chão, de bruços e coberto por uma pesada capa vermelha estava sua vítima. Quando o pedestre levantou o rosto, seu capuz revelou uma face feminina e assustada. Uma mulher. Ela tinha feições bonitas e seu rosto estava corado pelo frio, os olhos grandes estavam arregalados e fixos em .
– Onde eu estou? – Ela quis saber, sua voz era trêmula e sussurrante.
– Falkland, Inglaterra. Você acabou de ser atropelada. – O tom do piloto também era vacilante. – Por mim.
– Mas o que é esse clarão? – A mulher perguntou confusa, enquanto tentava cobrir os olhos para evitar a luz dos faróis. – Desculpe, quem é o senhor? Eu fui o que?
– Eu vou chamar uma ambulância. – avisou. Talvez o impacto tivera sido mais forte do que pensou.

XX
– Então, ela vai ficar bem? – questionou ao médico assim que o viu surgir pela porta.
– Ela está bem, todos os exames tiveram resultados normais. Mas…– O médico titubeou.
– Mas? – Encorajou o piloto.
– Onde mesmo que o acidente aconteceu? Eu penso que ela pode ter alguma condição especial, pré-existente. – Explicou o médico, abaixando a voz dois tons. – Ela está lúcida, desperta, mas insiste ser uma senhora do século dezesseis.
– O que? – se surpreendeu.
– Bom, foi o que ela disse. – O médico levantou os ombros. – Ela passou por uma avaliação psicológica, parece estar tudo bem.
– Isso só pode ser brincadeira…– balançou a cabeça e soltou um riso nasalado, enquanto pensava em como era azarado.
– Quer a minha opinião sincera? – O homem arqueou uma sobrancelha e assentiu curioso. – Está nevando, segundo a meteorologia, essa será uma das noites mais frias do mês. Talvez ela esteja tentando se passar por louca e ficar quentinha no hospital.
franziu os lábios, sabia que isso era comum entre moradores de rua, mas aquela mulher não parecia uma. Estava despenteada, o rosto um pouco sujo, mas devia ser pelo acidente, ela não parecia viver nas ruas.
– Vocês não podem mantê-la aqui? Só essa noite? – O piloto quis saber, estava preocupado.
– Eu lamento, estamos lotados. Houve um engavetamento por causa da baixa visibilidade, muitas vítimas. Ela será liberada, depois disso a fantasia medieval deve passar. – O médico lançou a um sorriso educado e se afastou.

Então era isso, tinha feito sua parte. A mulher misteriosa fora resgatada, recebera os cuidados necessários e agora estava livre para voltar para de onde veio. Nada de mais, tudo correu bem. Mas não conseguia ignorar os fatos, não podia deixar de pensar sobre o que o médico falara. Alguém fingindo ser louca apenas para tentar passar a noite aquecida e não morrer de hipotermia numa calçada…
Se bem que, aquela mulher não devia viver nas ruas, não parecia alguém assim. deu de ombros, ignorando sua consciência e escolheu acreditar na versão mais fácil. Tomou o elevador e rumou ao estacionamento, precisava dormir e queria incessantemente sua cama.
Quando alcançou o carro, seus olhos perceberam uma figura vermelha caminhando pelo estacionamento em direção a saída. A mulher que atropelara mais cedo, ela parecia perdida, olhava para os lados, como se tentasse encontrar algo familiar.
pensava sobre o que fazer. Devia ir embora, seguir a vida e deixar cada um com seus próprios problemas, mas ele a havia atropelado, era por sua culpa que a mulher estava ali. Talvez não seria uma má ideia oferecer uma carona, ser gentil e educado depois de atropelar a mulher era o mínimo a se fazer.
Por isso, abandonou o carro e correu em direção a desconhecida.
– Oi! – chamou e a mulher voltou-se para ele. – Eu não sei se você se lembra de mim, meu nome é . – Ele tentou sorrir.
– Senhor …– A mulher franziu o cenho e expirou, tentando se lembrar onde escutara aquele nome. – Oh, sim. Senhor , o curandeiro branco me falou sobre o senhor.
– Ah…claro. – assentiu e estendeu a mão para cumprimenta–la.– ¬-Bom, eu…eu que…bem, sabe…– Ele se atrapalhou com as palavras.
– Foi o senhor que tentou passar por cima de mim com aquela coisa. – A mulher falou e arqueou uma sobrancelha.
– Com meu carro. Sim, foi. – inclinou a cabeça confuso com a escolha de palavras da mulher. – Eu sinto muito por isso.
– Devia mesmo sentir. O senhor devia ter mais cuidado com aquele animal violento e gigantesco. – Ela dobrou os cotovelos e segurou um dos punhos frente ao corpo.
– Animal? – tinha a testa enrugada e o lábio inferior levemente projetado. – Bom, se você não tivesse entrado na minha frente de repente, isso não teria acontecido. – Respondeu irritado.
– O senhor deveria prestar mais atenção, senhor . – Ela respondeu com desdém.
– Eu…ah! – bufou e deu-lhe as costas pisando firme.

Quem aquela mulher pensava ser? Tentava ser gentil e ela o tratava daquela forma? Devia ser mesmo louca como o médico disse, pensava. Se era isso que ela queria que acreditassem, parabéns. Ao mesmo tempo, se ela realmente tivesse alguma questão psicológica, que espécie de pessoa ele seria se a deixasse na rua durante a noite, sozinha?
Mas que inferno!
Tantos planos feitos para uma noite tranquila e todos jogados no lixo. Fazer o que era fácil ou fazer o que era certo? Droga.
girou nos calcanhares e voltou a acompanhar a mulher que caminhava fingindo não o notar. Ela tinha o nariz empinado e caminhava elegantemente, como se tivesse uma pilha de livros sobre a cabeça. Apenas agora notara suas roupas, um pesado e gigantesco vestido vermelho, do tipo que você só encontra em seriados medievais e coisas do gênero. A capa grossa e aveludada fazia parte do visual Cersei Lannister da desconhecida e pensou em como encontraria os familiares da mulher para devolvê-la.
– Hey! – O piloto chamou, mas a desconhecida continuou andando. – Moça. – Chamou mais uma vez.

balançou a cabeça e bufou, não acreditava no que estava prestes a fazer.
– Senhora, eu sinto muito por ter a atropelado. – Falou e assim que as primeiras sílabas foram proferidas a mulher parou de andar. – Eu vou tomar mais cuidado, prestar mais atenção. – Ela se virou.
– Suas desculpas estão aceitas, senhor . – Ela disse, mas mantinha um olhar desconfiado e uma sobrancelha arqueada.
– Agora, se me permite, gostaria de leva-la para casa. – começou a falar, se aproximando aos poucos da mulher. Como piloto de Fórmula Um, lidava com pessoas o tempo todo e aquela não devia ser muito diferente, apesar da condição inusitada. – A noite está fria e vai piorar.
– É muita gentileza, senhor . – A desconhecida sorriu educada. – Muito obrigada.

Dizendo isso ela se aproximou de , ainda parecia desconfiada, mas também ansiosa.
– Claro, vamos. – piscou e caminhou rumo ao carro com a mulher a seu encalço.
– Onde está seu cavalo? – Ela perguntou assim que abriu a porta do carro, mas o piloto apenas franziu o cenho, unindo as sobrancelhas e torceu a boca confuso. – Carruagem? Ou quem sabe uma carroça?
– Nós vamos de carro. – enfatizou enquanto tocava o carro com as duas mãos. – Os cavalos estão dormindo, vamos de carro. Você vai gostar, não vai sentir frio.
– Senhor , não precisa falar comigo como se eu fosse uma criança ou uma tola. – Ela trancou a expressão.
– Tudo bem…– expirou enquanto tentava pensar no que dizer. – Como é mesmo que você se chama?
Joan Baxter Lancaster, duquesa de Falklands e… – Ela respondeu fazendo uma sutil e suave reverência.
– Certo, . – a interrompeu. – Nós vamos de carro porque eu não tenho um cavalo, se você entrar, com certeza verá que é do seu agrado.

ainda parecia incerta, mas a neve voltara a cair pesadamente e então ela aceitou. Dentro do carro o calor e a maciez dos bancos de couro a fizeram relaxar e esquecer um pouco de toda a estranheza que aquele espaço a causara.
a observava incerto, parecia um personagem da vila do papai Noel, o vestido vermelho, o cheiro de leite, canela e pinheiro, tudo o remetia a aquele lugar.
– Então, pode me dizer onde mora? – O piloto quis saber.
– O lago Flake, no castelo…– Ela começou a explicar e então compreendeu.

O lago Flake era um dos maiores lagos da região e as suas margens ficava um antigo castelo medieval que havia sido destruído a décadas, no lugar fora feito um monumento para visitação. A vila do papai Noel ficava no mesmo lugar, junto ao castelo. devia trabalhar na vila e viver nos fundos do castelo, como outros funcionários do lugar.
– Você trabalha no castelo Falkland? – tentou puxar assunto.
– Não, senhor. Eu vivo lá, é a minha casa. – respondeu e apenas assentiu, ela devia estar confusa pelo acidente.

XX
Alguns minutos depois já estava estacionando o carro em frente a grande loja de presentes do castelo. tinha os olhos arregalados e estava desinquieta, a mulher pulou para fora do carro quando teve chance e rumou a passos rápidos em direção ao castelo com o piloto tentando acompanha-la.
– Houve um equívoco, senhor . – Ela avisou agitada. – Este não é o castelo Falkland.
– Este é. – balançou a cabeça positivamente. – Eu tenho total certeza disso. É o que diz a placa. – Ele apontou e se aproximou do letreiro.
– Desculpe-me, mas eu não posso ler. Mas eu conheço meu lar…este não é o castelo Falkland, este…– foi interrompida por crianças que corriam pela neve com balões de luzes. – O que são todas essas coisas, são como estrelas, brilhando…essas pessoas…
parecia realmente atordoada e confusa e ao percebe-la assim, sentiu compaixão.
– Espere aqui, não se mova. – Pediu o piloto. – Eu já volto.

correu em direção a um dos seguranças e perguntou ao homem se ele conhecia a exótica moça de vestido vermelho, depois perguntou a um vendedor de balões e depois a uma das assistentes do papai Noel que passava por ali, todos negaram com certeza. Ou a mulher estava mentindo ou realmente era maluquinha.
– Tem certeza que é aqui? – perguntou.
– Sim, senhor. – Ela concordou tristemente, ainda parecia confusa com tudo aquilo, observando as luzes e a movimentação de pessoas com cautela e desconfiança.
– Se ao menos houvessem alguns policiais por aqui, poderíamos pedir ajuda.– balançou a cabeça. – Estamos em dois mil e dezenove e não pensaram em…– o interrompeu de repente.
– Desculpe–me, senhor. O que é dois mil e dezenove? – Indagou confusa.
– Dois mil e dezenove, ora. O ano, estamos em dois mil e dezenove. – repetiu.
– Não, senhor. Estamos no ano da graça de mil quinhentos e vinte. – Ela respondeu com veemência.

a encarou sério, esperando que ela continuasse e quando não fez ele riu alto. Devia ser alguma piada, de péssimo gosto, mas uma piada.
– O que é tão engraçado, senhor ? – Ela indagou com a expressão fechada.
– Você…– tentou se recuperar da crise de riso. – Quer dizer, mil e quinhentos?

A expressão de endureceu, não entendia porque o homem ria. Não era uma piada, não havia nada de engraçado nisso, estava perdida, confusa, só e ainda precisaria lidar com um bobo.
– Você não acredita mesmo nisso, não é? – riu franco ao notar a expressão sisuda da mulher. – Você sabe que isso…bem, que isso é…

arregalou os olhos de modo súbito. Com as palavras sem sentido do senhor tudo havia se encaixado. Se lembrou da bruxa, da floresta e do feitiço.

* * *

cavalgava pela floresta com Jaime V, futuro rei da Escócia. Era um dia frio e o natal se aproximava, assim como seus preparativos e por isso estava a acompanhar o futuro marido e rei numa caçada, mesmo abominando tal homem e tal prática.
Em certo momento, quando Jaime e outros homens estavam prestes a capturar o animal, resolvera se afastar. Desceu de seu cavalo e o puxava por entre algumas árvores, pensando no quanto adoraria estar quente e seca dentro de castelo, talvez bordando alguma coisa ou quem sabe comendo algo quente.
Um ruído capturou sua atenção e ao busca-lo, vislumbrou a figura de uma velha senhora, seu corpo era curvado pelo peso dos anos, os cabelos brancos estavam desgrenhados e ela usava uma capa puída para se proteger da neve.
crescera ouvindo a lenda da boa bruxa que vivia nas florestas ao redor do castelo. Suas amas sempre lhe contavam essas histórias, de como ela apenas aparecia para os que mais precisavam e não para os que mais queriam. Histórias sobre lições e ensinamentos que somente a velha boa bruxa poderia ofertar. Com todas aquelas lembranças, a duquesa de Falkland não pôde conter a curiosidade.
– Boa senhora? – Ela chamou e então a mulher sorriu.
– Está perdida, minha criança? – A bruxa perguntou.
– Não, senhora. Estou acompanhando o príncipe Jaime, eles estão numa caçada. – explicou.
– Uma viúva num cortejo estaria mais feliz que você. – A velha observou e sentiu as bochechas esquentarem.
– Perdoe-me, senhora. Eu apenas não gosto…de caçadas. – suspirou.
– Ah, mas que rude da parte do príncipe, trazer tão bela e delicada dama para acompanha-lo numa caçada. – A bruxa torceu os lábios.
– Certamente. – concordou sem pensar.
– Um rei assim precisará de uma amável e piedosa rainha. – A mais velha disse.
– Talvez ele já tenha sua futura rainha. – sorriu e fez uma sutil reverência.
– Ah, decerto que ele já tem. – A bruxa circundou a duquesa a passos lentos. – Mas está é a rainha certa? – A mais velha quis saber.

se alarmou com a pergunta, ninguém poderia questionar sua honra ou virtudes como futura rainha, nem mesmo uma bruxa.
– Como ousa? – A duquesa indagou arqueando a sobrancelha.
– Ah, querida, não se ofenda. – A bruxa riu abafado. – Digo a você que apenas uma das rainhas que o mundo conheceu foi a escolha correta. – Ela contou e se aproximou um pouco mais de , que se afastou ao sentir o hálito da mulher. – Uma jovenzinha virtuosa de Nazaré.
– Eu serei uma boa rainha, tenho certeza. – falou.
– Mas será uma rainha com todas as virtudes que uma boa rainha precisa? – A bruxa indagou.
– Eu sou muitíssimo virtuosa. – A duquesa levantou o queixo.
– Talvez a arrogância seja valorizada demais hoje em dia. – A bruxa deu de ombros.
– Eu…– tentou protestar, mas não soube o que dizer.
– Oh, minha querida…gostaria de conhecer todas essas virtudes? – A mais velha quis saber.
– Certamente. – respondeu. – É de minha vontade ser uma boa rainha. – Respondeu a duquesa e a bruxa sorriu docemente.
– Então, talvez seja hora de algumas lições. – A bruxa sussurrou.
– A boa senhora me ensinará, decerto. – disse.
– Não, não, não. – A bruxa balançou a cabeça e sorriu gatuna. – Aprenderá sobre compaixão, altruísmo e gentileza, bondade e amor. Mas não comigo, é claro.
– Com minha futura sogra, então? – A duquesa perguntou curiosa.
– Oh, não. Bem antes disso, decerto. – A bruxa piscou ladina. – Você fará uma viagem, para um lugar diferente de tudo que já viu… – A mais velha pôs se a explicar.
– Para a França? – a interrompeu.
– Não, menina tola. Para verdadeiramente longe, através do tempo, verá o futuro e tudo que nele existe. – Ela respondeu e um leve tremor tomou conta de sua face. – Você verá coisas nunca vistas antes, num mundo muito mais triste e falso. Porém, lá também descobrirá e conhecerá todas as virtudes necessárias. E, apenas quando descobrir as verdadeiras virtudes de uma rainha que poderá voltar para casa.
– Mas senhora, viajar? Eu não posso viajar, sequer me preparei para isso…– tentou explicar.
– Talvez pelo menos aprenda a ser menos tola. – A bruxa sussurrou para si mesma e balançou a cabeça. – Oh, sim, já estava me esquecendo. Precisa voltar antes da meia-noite de natal ou ficará neste lugar sombrio para sempre.

E essa fora a última coisa que os olhos assustados da duquesa viram antes de encarar a luminosidade que a cegou e a acertou em cheio.

* * *

– Eu…não pode ser possível.
tocou a testa com as costas da mão e sentiu os joelhos fraquejarem, antes que o senhor pudesse socorre-la, a duquesa estava no chão. Seus olhos encaravam os transeuntes que passavam rapidamente por eles, os clarões e o castelo que não era o dela.
A bruxa era real e a havia enfeitiçado e a lançado naquele lugar estranho. Tudo era diferente, as pessoas, suas roupas, seus cavalos e a falta deles…
– Eu devo chamar outra ambulância? – quis saber, sua testa estava vincada de preocupação.
– O que? – perguntou num sussurro.
– Você está bem? Sente alguma coisa? – O piloto insistiu.
– Tudo está acontecendo conforme ela disse…tudo isso. – A mulher devaneou confusa.
– Ela quem?
– A bruxa. – respondeu. – Havia nesse bosque uma bruxa, a chamavam de bruxa boa. Ela se revelava apenas para os que mais precisavam e não para os que mais a queriam…eu a vi. Estávamos caçando e ela se mostrou.
– Caçando no lago Flake? – interrompeu com um irônico sorriso. – O que? Esquilos? Pombos?
– Cervos, senhor . O príncipe caçava cervos naquela manhã. – respondeu enfezada.
– Príncipe. – juntou as sobrancelhas confuso.
– Pois é isto que estou tentando lhe dizer, senhor. – A mulher lhe lançou um olhar suplicante. – Eu a vi, ela me disse que eu faria uma viagem, para um lugar diferente, verdadeiramente longe. Disse que eu veria coisas nunca vistas antes, num mundo muito mais triste. – A forasteira contou.
– Acho que o médico liberou você cedo demais. – tateou os bolsos a procura do celular, mas a moça o tocou suavemente no braço, chamando sua atenção para ela.
– Senhor, se o que diz está certo, se estamos em dois mil e dezenove…– suspirou pesarosa. – Então eu tenho uma missão a cumprir.
– Missão? Eu…você não deve estar bem mesmo. – balançou a cabeça e começou a caminhar de volta ao carro.
– Mas é verdade. – se levantou e o seguia a passos rápidos segurando com as mãos o pesado vestido. – O senhor não poderia me ajudar? Senhor , por favor. – Pedia ela. – Senhor, por favor.
– Eu já fiz isso. – O piloto apressou o passo, estava assustado. – Agora já não é mais comigo. – falou e entrou no carro.

permaneceu parada, o piloto girou a chave e apertou o volante com força, aquilo era loucura e ele não precisava de mais essa insanidade. A moça tinha cativado sua simpatia por um breve momento, tinha doçura no olhar e realmente se portava como alguém educada. Mas não, era louca, louca de pedra.
Insistir ser do século dezesseis. Aquilo só podia ser alguma tentativa frustrada de se aproximar de um piloto famoso e se aproveitar de sua fama, mas ele não era nenhum bobo. Se , isso se esse fosse realmente o nome dela, quisesse se aproveitar de alguém, que procurasse outra pessoa.
Antes de chegar a saída para a rodovia, deixou o olhar procura-la uma última vez. estava segurando a saia do vestido e seu rosto estava atravessado pelo desapontamento. O piloto encarou os olhos profundos e escuros da mulher por alguns segundos e instintivamente freou o carro. Droga, pensava ele, por que é que não conseguia simplesmente seguir em frente e esquecer dessa história maluca? Sabia que se desse as costas, não dormiria e seria atormentado pelo olhar daquela excêntrica mulher por muito tempo.
Mas que droga, péssimo dia para sentir compaixão, resmungou para si mesmo enquanto voltava de ré.
– Ajudar no que? – bufou mal-humorado quando abriu sua janela e pode rever a mulher de mais perto.

XX
– Então você acha mesmo que está aqui para aprender a….como é mesmo? – quis saber.
– Para aprender as verdadeiras virtudes de uma rainha. – explicou novamente.
– Eu tenho quase certeza que isso é o assunto de um filme da Netflix. – O piloto comentou.
– O que é um filme? – indagou confusa.

Estavam de volta a estranha carruagem do senhor , indo para sua casa onde ficaria protegida e segura. Tudo era tão estranho, tudo era tão familiar e ao mesmo tempo tão estranho, talvez isso era viajar através do tempo. A duquesa pensava que precisava encontrar a boa bruxa novamente e precisava da ajuda do senhor para aprender tudo que precisava daquela terra esquisita.
– Acho que isso será mais rápido do que parece. – pensou alto enquanto revia em sua mente a lista de filmes e livros que indicaria a mulher. – Aqui estamos nós. – Ele anunciou enquanto a porta da garagem era aberta.
guiou pelas escadas e abriu a porta. A mulher observava tudo, apreciando cada detalhe do diferente lar, cada móvel, livro e fotografia.
– Se me permite, senhor. – A mulher voltou-se para . – Que dia é hoje?
– Vinte e um de dezembro. – falou esfregando as mãos e arqueando as duas sobrancelhas.
– E onde estão os enfeites, a grande árvore de natal e o maravilhoso cheiro de biscoitos de gengibre? – Ela indagou inclinando um pouco a cabeça por sobre o ombro.
– Não comemoro o natal. – O piloto respondeu secamente.
– Ora, mas…– tentou protestar.
– O senhor deste castelo não comemora mais natais e não permite que o questionem sobre isso. – interrompeu e sentiu vergonha por perceber que estava realmente entrando, por breves segundos, no jogo da exótica forasteira.
– Como queira. – Ela respondeu e inclinou a cabeça numa reverência.

No final das contas era divertido participar da fantasia de sobre reis, rainhas, bruxas e viagens no tempo. Pelo menos poderia contar isso nas próximas corridas e arrancar risadas de seus companheiros de equipe.
– Aqui está. – O piloto anunciou ao abrir uma das portas. – Os vossos aposentos, princesa . – Ironizou.
– Muito obrigada, senhor . – Ela sorriu sem mostrar os dentes. – Mas eu não sou uma princesa, sou uma duquesa, a duquesa de Falkland. – Explicou com calma e sentiu uma pontada de arrependimento por tê-la acolhido.
– Tanto faz. – falou devagar e girou nos calcanhares rumando ao seu próprio quarto.
– Senhor . – o chamou. – Se me permite outra pergunta, porque mudou de ideia e decidiu me ajudar?
– Bom, me pareceu uma bela noite para sentir compaixão. – Respondeu com um suave e sutil sorriso.

arregalou os olhos quando ouviu a palavra sair da boca do homem. Compaixão, aquela era a primeira virtude. O senhor havia sentido compaixão dela e a ajudado, tudo acontecia conforme a boa bruxa tinha previsto, estava aprendendo, verdadeiramente.

XX
22 de dezembro

rolou na cama preguiçosamente, era uma manhã fria e sua cama estava maravilhosamente quente e acolhedora. Não pensava em sair dali tão cedo, sua folga seria bem usada nos braços de seus cobertores. Repentinamente um barulho fez com que o piloto arqueasse uma sobrancelha ainda sem abrir os olhos, então outro barulho. abriu os olhos confuso e pensou no que poderia estar acontecendo. Ah, merda!
O piloto pulou da cama e correu pela casa em busca da fonte daquela zoeira, se apoiou na parede duas vezes quando escorregou nos tapetes e então alcançou a cozinha. Ali, parada com uma frigideira em mãos, suja de farinha e suada estava sua hóspede.
se apressou a desligar o fogão e todas as outras coisas que estavam prestes a incendiar a casa.
– O que você pretendia? Me matar enquanto durmo? – Perguntou mal-humorado.
– Peço que me perdoe, senhor . Eu tentei preparar o desjejum, mas tudo isso é tão esquisito…decerto esta é a cozinha mais estranha na qual entrei. – lamentou enquanto limpava as mãos num pano.
– E uma…– tentou se lembrar. – Duquesa, não é? – Se certificou e ela assentiu. – Uma duquesa por acaso saberia cozinhar?
– Faz parte de ser uma boa senhora, saber gerenciar um lar, cuidar dos filhos, costurar…– explicou.
– Então acho que você precisa de algumas aulas. – sorriu e a mulher expirou desapontada. – Deixa comigo. – Pediu.

O piloto conduziu até a mesa e pôs-se a preparar o café da manhã, não se lembrava da última vez que vira a cozinha tão bagunçada e tão suja.
– Senhor , eu deveria fazê-lo. Sinto muito por toda essa confusão. O que a senhora minha mãe diria se me visse nessa situação? – choramingou. – Deixe-me cuidar disso.

A duquesa tentou se levantar, mas a impediu e continuou a cutucar a geladeira em busca dos ingredientes que precisava. Em outra situação teria se irritado com aquilo, com a bagunça, com ter tido que acordar cedo em sua folga, mas o olhar atordoado de o tinha amolecido. Pensava que seria interessante alimentar a fantasia da mulher, ver até onde ela ia com aquilo. Estava de folga, teria tempo de sobra para isso e de quebra ainda teria a mente ocupada com o assunto.
Às vezes pensava no quanto estava sendo tolo por receber a tal duquesa, acolhendo, rindo de suas insanidades. Mas logo isso seria resolvido, procuraria a polícia e reportaria que encontrou uma mulher desmemoriada e fantasiosa, sua família deveria estar à sua procura. Pensava nisso enquanto observava de soslaio de braços cruzados, sobrancelhas juntas e os lábios projetados num bico chateado. A mulher até que tinha sua beleza, grossos cabelos ruivo-escuro, olhos dóceis e agitados, era mais alta que a maioria das mulheres e não possuía um biótipo esbelto como sua antiga noiva.
lembrava uma pintura renascentista com rosto bonito e corpo rechonchudo, era isso, uma bela, confusa e atrapalhada pintura.

– Eu aposto que você nunca comeu algo assim antes. – falou sorridente ao apresentar a comida a .
– Oh, eu certamente posso concordar. – Ela respondeu olhando com atenção para cada prato, sentindo o cheiro e tentando adivinhar seus ingredientes.
– Pão de cevada, torta da carélia, leite e mingau de aveia. – O piloto apresentou orgulhoso. – Você gosta de geleia de frutas vermelhas?
– Sim, gosto. – assentiu. – Tem razão, senhor. – Ela falava enquanto servia um grande copo de leite. – Eu acho que nunca comi algo assim, não dessa forma.
– Não precisa de chamar de senhor. – sorriu ao se ajeitar na cadeira.
– Mas senhor , eu…– protestou.
– Como isso funciona? – quis saber. – Como um senhor, você deve fazer o que eu peço?
– Perfeitamente. – Ela concordou.
– Então, desejo que me chame apenas de . – O piloto falou sorrindo e enfiou um pedaço de torta na boca. – Toda essa formalidade não é necessária.
– Como queira, sen….– se corrigiu diante o olhar repreensivo do piloto. – . – Ela sorriu envergonhada.

Tudo aquilo era tão estranho. Se ter feito aquela viagem já era algo inusitado, conhecer aquele tempo, todas aqueles apetrechos, suas camas estranhas, suas carruagens de metal, suas casas quentes, até mesmo o tão gentil anfitrião que já a havia ensinado a primeira das lições, ter compaixão.
O senhor havia acolhido uma forasteira desconhecida, oferecido teto e comida, isso não era que ela esperava quando a bruxa falou de sua viagem.
– Você precisa de novas roupas e de um banho. – Ele lembrou e tentou inclinar a cabeça sutilmente para verificar seu odor. – Depois nós vamos até a cidade, vamos tentar te levar para casa.

XX
– Aqui está, vou te deixar a vontade. Leve o tempo que precisar. – piscou enquanto mostrava a grande banheira para . – E pode usar essas coisas todas também. – Apontou para os shampoos e cremes que estavam sobre o armário. – Esse você usa no cabelo, esse também, esse aqui é para a pele. Já esse é o pré alguma coisa…– Tentou explicar enquanto lia alguns rótulos.
– Obrigada, perfeitamente. Obrigada. – assentia confusa.
– Vou te deixar. – sorriu mais uma vez e deixou o banheiro, fechando a porta atrás de si.

Sem dúvidas era uma situação engraçada, pensava enquanto ria, ao menos não sobrava tempo para pensar em seus problemas. As roupas de Phoebe deveriam servir para , principalmente as caríssimas e de marcas famosas, ele doaria todas. Que vingança saborosa, comemorou.
Enquanto isso, a duquesa de Falkland fazia a maior bagunça com todos aqueles cremes e shampoos naquela enorme banheira de água quente. Com toda certeza algo que gostaria de ter em seu castelo seria uma banheira daquelas, a água não esfriava e todos aqueles cremes cheirosos…
Quando enfim conseguiu abandonar aquelas leitosas águas, se cobriu com o roupão que havia cedido. Era uma vestimenta inadequada e estranha, mas a mulher estava tão ansiosa com as novas roupas que usaria, que sequer se importava com aquilo.
– Aqui está, pode escolher o que quiser. – apontou animado para um grande quarto cheio de vestidos, sapatos e outras coisas.
– O que é isso? – arqueou as sobrancelhas confusa.
– Roupas, ora. – O piloto respondeu inclinando a cabeça.
– São…elas são…– tentou escolher com cuidado o que dizer. – Singulares. – Sorriu sem graça.
– Eu diria caras, mas singulares também serve. – riu alto enquanto mostrava algumas peças para .
. – A duquesa o chamou e o piloto percebeu o quanto seu nome soava diferente na voz dela. – Se me permite, a que mulher estas roupas pertencem?
– Não pertencem a ninguém. – respondeu rapidamente, dando as costas.
– Ela morreu? – perguntou com simplicidade.
– O que? Não! – respondeu rapidamente. – Ela…
– Perdoe-me, não quis ser indelicada. – se desculpou.
– Tudo bem. – balançou a cabeça e expirou, qual era o problema em falar da antiga noiva? Aquilo ainda o afetava tanto assim? Pensou. – Eram da minha noiva, mas ela não se importa com elas, nem com nada que esteja nessa casa.
– Vocês não vão mais se casar? – perguntou e assentiu. – Eu lamento.
– Tudo bem, não é como se fosse o fim do mundo. – sorriu fraco. – Eu já superei. – Falou e arqueou as sobrancelhas. – E você, duquesa? Já tem seu duque? No caso, é rei, não é?!
– Estou prometida, devo me casar no fim do inverno. – assentiu e contou.
– Não parece muito feliz com isso. – observou.
– Eu estou, serei uma rainha. – Ela sorriu fraco. – Afinal, quem pode ter mais sorte do que uma duquesa que se torna rainha?
– Uma duquesa que esteja feliz em se casar? – O piloto sugeriu.
– O amor é para plebeus, meu senhor. – deu de ombros e voltou sua atenção a um pesado cachecol. – E o casamento não passa de uma mera formalidade, para a união de povos, terras e herdeiros. – Falou a duquesa distraidamente.
– Eu concordo. – curvou para baixo os cantos da boca e projetou o lábio. – Mas alguém como você não deveria acreditar em amor verdadeiro, predestinação e propósito?
– Ser uma duquesa não faz de mim uma tola, senhor. – riu abafado.
– Você tem razão, história de princesa errada. – sorriu. – Tem apenas uma coisa que não concordo. – Disse e o fitou com curiosidade. – O casamento não é só uma mera formalidade, sabe? É algo bom, cheio de apoio mútuo, amor, respeito e companheirismo. Talvez só aconteça para todos, mas ainda acontece.
– Soa como um romântico, . – o provocou.
– Não, bem longe disso na verdade. – balançou a cabeça. – Eu acho que o amor não deve existir mesmo, não do jeito que nos ensinam. Mas reconheço que algumas pessoas, poucas pessoas, tenham o privilégio de encontra-lo. – Explicou o piloto.

pensava naquelas palavras enquanto assistia o piloto passar pela porta. Tinha certa verdade no que o homem dizia, talvez ela não fizesse parte do grupo de pessoas que encontram o amor e se casam por ele. A uma duquesa cabia fazer o que podia de melhor para o povo e não para si, antes de escolher um marido por amor, devia escolher o marido que mais poderia trazer benefícios para seu reino. Era sem dúvidas o jeito mais altruísta de enxergar tudo e sem dúvidas o jeito certo.

XX
conferia algumas mensagens em seu celular enquanto esperava aos pés da escada. Não via a hora de contar tudo aquilo para seus amigos, com certeza seria a melhor das histórias. O piloto tirou os olhos do celular quando ouviu passos se aproximarem a escada e buscou a fonte deles com o olhar.
insurgiu timidamente, vestindo um belo vestido verde que alcançava seus joelhos, um casaco preto, pesado e longo, sapatos de salto preto e meias. O cabelo preso num coque arrumado completava com delicadeza e elegância o visual. não esperava que a duquesa maluquinha se tornaria aquela belíssima mulher.
desceu as escadas com elegância e não pode conter o impulso de oferecer ela sua mão.
– Eu encontrei um pouco de perfume e alguma maquiagem, espero que não haja problema…– Ela contou.
– Você está absolutamente perfeita, senhora. – sorriu embasbacado.
– Obrigada. – sorriu envergonhada. – Essas roupas são tão distintas das minhas, eu me sinto…estranha…parece que falta algo.
– Parece que elas foram feitas para você. – O piloto sorriu. – Sua carruagem a espera, senhora. – falou e os dois rumaram a garagem sorrindo.

XX
– Tem certeza de que ninguém notificou? Nenhum desaparecido? – insistia.
– Eu sinto muito, senhor. – A policial repetiu pela terceira vez. – Não tem nenhum desaparecido com essa descrição aqui, nem nas cidades mais próximas.
– Tudo bem. – O piloto assentiu frustrado. – Aqui está meu telefone, por favor, se algo mudar me informe. – Pediu enquanto escrevia os números num pedaço de papel e entregava a oficial.
– E então, eles podem me ajudar? – , que esperava sentada na recepção, indagou curiosa.
– Ainda não, mas eles vão tentar. – Contou.
– Ah. – suspirou e começou a caminhar ao lado do piloto rumo a saída do prédio. – Eu preciso voltar antes da meia noite de natal, ainda tenho algum tempo. Tudo dará certo.
– Você é otimista, maluca, mas otimista. – O piloto riu.
– Maluca? – perguntou confusa e então seus olhos encontraram um grande prédio acinzentado. – O que é isso? – Quis saber apontando para a construção luxuosa.
– Ah, isso é o museu. – explicou com simplicidade.
– O que é um museu? Quem vive lá?
– Museu é o lugar onde nós guardamos todos os registros dos povos que viveram aqui antes de nós, arte, armas, pegadas, ossos…– explicava distraído e não percebeu quando soltou seu braço e subiu apressada as escadas que levavam ao museu. – Ei! Aonde vai? !
– É aqui. – Ela disse quando o piloto a alcançou. – Aqui devem estar as respostas que procuro. Talvez saibam sobre a boa bruxa, sobre tudo que eu conheço.

concordo com a cabeça, aquilo fazia sentido, mas obviamente, se, e apenas se a história sobre viagens no tempo fosse verdade. Talvez serviria para despertar de sua fantasia medieval, em todo caso parecia uma boa ideia.
Ao entrarem no museu, foram guiados para a ala sobre a história local. nunca dera muita atenção aquela parte do museu, na verdade não se lembrava de ter dado atenção a parte nenhuma dele.
– Ali. – apontou e correu em direção a uma grande pintura. – Eu sabia. – Ela celebrou.

correu os olhos pela obra, ela retratava o lago Flake e ao fundo o antigo castelo Falkland em toda sua imponência e luxo. hesitou em tocar a pintura, enfim reconhecia algo, enfim via algo familiar e podia sentir um pouco de paz. Permitiu-se olhar ao redor e se viu rodeada de velhas lembranças. Não se conteve e caminhava apressadamente por todas, apontando e contando tudo a .
– Ali era o castelo de verão de Jaime V. – Disse apontando para outra pintura. – Este baile, eu me lembro, em honra ao rei Jaime IV. – Mostrou outra obra com belas senhoras em seus belos vestidos.
– Esses trajes, eu os conheço. Esse vestido é o vestido que eu usaria em meu casamento. – contou sorrindo, enquanto encarava um manequim com um pesado e gigantesco vestido branco.
– Aqui diz que ele pertenceu a rainha Janet da Escócia. – leu e em seguida se permitiu explorar outras obras.
– Mas…isso não é possível. – abriu a boca embasbacada. – Janet… será a mesma Janet? A minha irmã Janet? Senhor , o que mais o senhor sabe sobre isso? – perguntou, mas o homem parecia chocado, com os olhos vidrados em algo e não conseguia a ouvir. – Senhor ? ? – Ela insistiu.

O piloto não se movia, então a duquesa tentou encontrar o que o havia chocado tanto. Atrás de si e frente a , estava uma grande e bela pintura da duquesa da Falkland. sorriu e se aproximou da pintura, se lembrava com exatidão de quando a tela fora feita.
– Então…então…– abria e fechava a boca sem conseguir dizer nada. – É verdade…você é de mil e quinhentos…
– Ora, o senhor não acreditava? – indagou surpresa.
– Eu…– balançou a cabeça rapidamente, como se tentasse organizar os pensamentos. – Se bem que você pode só estar fingindo ser ela.

A lógica não o permitia acredita naquilo, que aquilo realmente estava acontecendo, que aquela mulher havia mesmo vindo do passado.
– Não acredita em mim? – o fitou magoada. – Nunca acreditou…eu… – Ela encarou o chão, se dando conta de que o piloto estivesse fingindo o tempo todo, possivelmente. – Não me importa se acredita em mim ou não, se pensa que sou louca…
– Senhora, se puder falar mais baixo… – Um dos guias do museu repreendeu .
– Veja bem, senhor. – o chamou. – Olhe bem, não é a mesma pessoa. Eu, e a duquesa de Falkland? – Ela indagou apontando para a pintura e o guia a encarou atônito.
– Bom, é o mesmo nome e a semelhança é realmente incrível, mas isso é impossível. – O guia respondeu com simplicidade e incerteza.
– É o que eu disse. – confirmou.
– Mas sou eu, posso provar. – inspirou, inflamada. – Pergunte-me algo, qualquer coisa e então poderei provar.
– Essa é boa. – rolou os olhos.
– Senhora, por favor, isso é….– O guia tentou intervir.
– Isso, pergunte. – pediu. – Vamos ver o que ela pode fazer.
– Bom, já que insistem…eu particularmente sou especialista na história local. – O guia contou pomposo e riu. – Bem, vejamos, sobre a duquesa de Falkland…uma pergunta bem simples, quando e como ela morreu?
– Acho que essa…– balançou a mão próximo ao pescoço, tentando sinalizar que aquela não seria uma boa pergunta.
– Senhor, eu estou bem aqui, como poderia saber como e onde morri? – devolveu a pergunta. – Aliás, quando será?
– Bom, não tem registros, a duquesa desapareceu durante…– O guia tentou explicar.
– Uma caçada de cervos, em vinte e um de dezembro de mil quinhentos e vinte. Estavam presentes toda a corte do príncipe Jaime V. – o interrompeu.
– Então eu nunca voltei…– Ela sussurrou para si mesma.
– Algo que encontra em qualquer livro…– O guia desdenhou.
– Por que é a verdade, eu sei tudo sobre mim. – A duquesa respondeu em desespero. – Posso contar quantos e os nomes dos filhos bastardos dos meus irmãos e de meu pai, posso contar como o príncipe Jaime era um tolo e só se importava com o tamanho do animal que abatia nas caçadas, posso contar porque não me casei até ser prometida ao príncipe…
– Existe uma coisa…– O guia a interrompeu. – Há pouco, algumas escavações encontraram coisas nas ruínas do castelo Falkland, se sabe tanto assim sobre a duquesa, então saberá o que foi.
– Qualquer um saberia disso? – indagou.
– Não, senhor. Apenas eu e minha equipe de três pessoas, é um assunto completamente confidencial.
– Nas ruínas? – indagou.
– Uma sala à parte na ala oeste do castelo, com vista para o lago. – O guia revelou.
– Não havia nada demais na ala oeste. – deu de ombros. – Havia o meu quarto e uma pequena biblioteca. – disse e os olhos do homem se arregalaram.
– Biblioteca? – Ele repetiu.
– Sim, livros que vieram da França e tinha o meu favorito. – sorriu com a lembrança. – Uma história sobre uma família de ratos do campo e seus dilemas. – riu. – Eu estava tendo lições, meu pai havia permitido que eu aprendesse a ler. O livro é o único que eu tive tempo de escrever meu nome.
– Incrível. Fantástico. – O guia respondeu atônito.
– O que isso significa? – questionou.
– Significa que ou esta mulher se comunica com os mortos ou temos a própria duquesa de Falkland em pessoa diante de nós.

XX
23 de dezembro

Naquela manhã esperou para o café, sempre mantendo o olhar ansioso preso a escada, esperando o momento em que ela desceria para comer. Desde a ida ao museu, quando a mulher descobriu que ele não acreditava em sua história se fechara. Quando se desvencilharam do curioso guia, o tratara com uma educação fria e sequer o tinha olhado.
A duquesa não havia comido nada, nem deixado o quarto em que estava. estava incomodado com aquela situação, incomodado com a verdade chocante de que existiam provas de que realmente pertencia a outro século e isso era impossível, inimaginável para alguém prático e cético como ele.
Agora ele tinha em sua casa uma duquesa do século dezesseis que estava furiosa e decepcionada com ele. era gentil, dócil e espirituosa e toda essa aura misteriosa e frágil da mulher o havia cativado de certa forma. Talvez porque ao se preocupar com uma estranha em sua casa, ele não precisasse pensar em seus próprios calos e dores.
O incomodava saber que a mulher estava desapontada ou triste com ele, mesmo que ele soubesse que no fim das contas, sempre teve alguma razão para desconfiar. não pode se conter, a agonia da situação o consumia. Preparou uma bandeja com um recheado café da manhã e subiu as escadas rumo ao quarto de .
. – chamou depois de bater na porta duas vezes. – Sou eu. Você devia comer alguma coisa, já faz tempo desde a sua última refeição. – O piloto colou a orelha na porta, mas não pode ouvir som algum. – Eu sinto muito por tudo, eu não devia ter duvidado de você. – Disse rolando os olhos. – Por favor, abra a porta.

Novamente, nada aconteceu. Talvez precisasse apelar, se não pode contra eles, junte–se a eles, pensou o piloto.
– Minha senhora, eu exijo que abra a porta e que se apresente a mesa. – Ordenou tentando manter a voz mais grave. – Estarei esperando.
se sentia a própria fera dizendo aquilo para uma Bela enclausurada e prisioneira, mas se aquela era a única forma de conseguir conversar e se desculpar, não teria escolha. Alguns minutos depois, quando já tinha tomado seu lugar na mesa, o piloto acompanhou descendo as escadas. Ela mantinha uma expressão dura, fria, mas o olhar denunciava sua incerteza e chateação.
– Eu não queria ter feito isso, mas você precisa comer. – explicou docemente e ofereceu um copo de leite a duquesa. – Eu sinto muito pela forma que me comportei no museu, fui rude e me arrependo. É que tudo isso parecia impossível…
– Eu sei que parece impossível, eu possivelmente não acreditaria se estivesse no vosso lugar. – o interrompeu. – Mas se não acreditava em mim, porque fingia?

Aquela pergunta o surpreendera. O piloto abriu a boca algumas vezes, mas não soube o que dizer, simplesmente por não saber a resposta para aquela pergunta.
– Eu…– Talvez devesse ser sincero, pensou . – Eu pensei que você fosse louca, . Que estivesse perdida e que logo encontraríamos a sua família. – A mulher juntou as sobrancelhas e apertou os lábios numa linha fina.
– Decerto que pensou. – Ela sorriu sem humor. – Eu agradeço a hospitalidade, gentileza e todas as virtudes que me ensinou, mas é hora de ir. – avisou e se levantou da mesa.
– O que? Não. Por favor, não precisa fazer isso. – correu para alcança-la aos pés da escada. – Você disse que precisava da minha ajuda para cumprir seu propósito aqui, aprender as verdadeiras virtudes de uma rainha. Você não pode ir. – Ele pediu.
– Eu aprendi sobre gentileza, altruísmo, compaixão e também aprendi sobre descrença, mentiras. A boa bruxa me avisou que esse mundo era triste, mas eu demorei para perceber. Eu agradeço, senhor , mas é hora de ir.
se mantinha serena e distante, a assistiu subir as escadas devagar, pensando no que fazer. Definitivamente não queria que ela fosse embora, principalmente por saber que ela não teria para onde ir, nevava forte, ela ficaria desabrigada. A outra razão era que ele sabia bem quem era, o rancor do término o tinha modificado um pouco, mas superficialmente, não queria que carregasse em sua memória uma versão equivocada de quem ele era. Precisava que ela soubesse que ele não era falso ou coisa do tipo.
O piloto subiu as escadas o mais rápido que pode e encontrou a porta do quarto de aberta, a mulher ajeitava o pesado vestido vermelho que jazia sobre a cama. Quando o piloto bateu na porta anunciado sua chegada, ela pôs-se a encara-lo, mas permaneceu imóvel no mesmo lugar.
– Será que eu posso falar algumas coisas? – O piloto perguntou e assentiu educada. – Eu me comportei como um tolo e não tenho uma desculpa para isso. Eu gostaria muito que ficasse, que permanecesse aqui enquanto tenta descobrir como voltar para casa, mas sei que não posso pedir isso diante a forma com que agi com você. – apertou os lábios e encarou o chão enquanto o piloto se sentou na cama. – É mais fácil acreditar que esse tipo de magia não existe, foi mais fácil acreditar que tudo aquilo que você me contou era mentira, porque no momento em que eu aceitasse como verdade, significaria que todas as outras coisas também são.
– Eu não o entendo, senhor . – assumiu.
– Eu acho que remoí coisas demais quando minha noiva me deixou, aceitei que o amor e que nada disso existia. Que o mundo era duro, sem sentido e cruel com todos. Eu escolhi acreditar nisso porque era mais fácil, eu acho que sou egoísta, porque preferi acreditar que se eu não poderia ter um amor verdadeiro, significava que ele não existia para ninguém. Fiquei amargurado, rancoroso, mal-humorado…e então você apareceu. – encontrou o olhar curioso de . – E eu achei mais fácil acreditar que você era louca, do que aceitar que tudo que eu sempre acreditei e as novas coisas nas quais acreditava era mentiras. Não é fácil acreditar em magia quando não se tem um pingo dela em sua vida.
– Eu sinto muito por isso, senhor. – levantou as sobrancelhas e apertou os lábios, compreensiva. – Eu não acreditava em nada disso até…bem…até chegar aqui. E talvez, agora que vi a magia acontecer e sei de sua existência, seja difícil enxergar as coisas do mesmo modo.
– Como será isso? Viver depois de saber de tudo isso, de que todas essas coisas são possíveis. – perguntou.
– Ao menos agora temos algo a almejar. – sorriu singela.
– Por favor, não vá. – Pediu ele.

o observou, porque aquele homem que sequer acreditara nela agora pedia para que ficasse? Ela estava magoada, mas queria ficar, se sentia segura ali e as atitudes do excêntrico anfitrião a divertiam.
– Por favor, você poderia me perdoar? – pediu e sentiu os ombros relaxarem.

Talvez ainda tivesse algumas virtudes a exercitar com o Senhor .

XX
Após o almoço, depois de acertarem os ponteiros a duquesa percebeu que diante tudo que já havia feito por ela, não perdoar o homem por sua descrença não seria justo. Além disso, seria bom continuar seca e longe da neve. Havia aprendido muitas coisas sobre aquele mundo novo, as comidas, a cama, os shampoos e todas aquelas coisas que a faziam sentir limpas. As roupas também eram diferentes, mais leves, mas ainda reveladoras demais.
O senhor havia cozinhado um delicioso peixe rosado com batatas, nunca havia visto um homem cozinhar daquela forma e estava admirada com os dotes do anfitrião. Desejava secretamente que seu pai e irmãos fossem mais parecidos com , mais dóceis e agradáveis, mas assim com seu futuro esposo, todos os homens só pensavam em banquetes, caçadas, ouro, bebedeiras, mulheres e em guerras.
Desde que chegara, não havia pensando sobre sua família e tudo que a esperava em Falkland. Será que era verdade que nunca voltaria? Será que sua irmã se casaria com o príncipe em seu lugar? Toda aquela aventura, aquela viagem seria em vão?
Talvez sua família sequer sentiria sua falta, talvez nem notassem que não participaria dos banquetes. Mas seu reino? Todos aqueles ensinamentos seriam em vão e ela não poderia ser a melhor rainha que poderia ser? Ao mesmo tempo, se perguntava por que é que ser rainha seria tão bom? Se casar com alguém de quem não gostava, viver cercada de bajuladores, cumprir dezenas de protocolos cansativos e correr o frequente risco de morrer jovem.
– O príncipe não deve ter a bondade como fundamento de suas ações, mas deve saber ser bom ou mau conforme a necessidade política. – lia em voz alta enquanto navegava por seus pensamentos. – Se puder, deve ser bom, mas se necessário deve usar da maldade, evitando sempre o meio termo. Deve evitar ficar em cima do muro e pender hora para um lado hora para outro, pois isso seria sua ruína. – Continuou ele.
– Senhor , não estou certa se ainda quero ser rainha se para isso precisar agir dessa forma. – interrompeu a leitura do piloto.
– Tudo bem, na verdade quase tudo aqui é besteira. Entre o príncipe de Maquiavel e o pequeno príncipe, eu prefiro o que fala de flores. – deu de ombros. – Eu tive uma ideia, vamos assistir um filme, acho que você vai gostar mais. – Ele disse e fechou o livro rápido, fazendo com que o ar deslocado pelas páginas atingisse o rosto de e a fizesse rir. – Posso perguntar uma coisa?
– Mas é claro. – sorriu educada.
– Por que quer ser rainha? – a encarou com a curiosidade cintilando os dóceis olhos azuis.
– Bem…– pensou sobre a ironia da vida, há pouco fazia o mesmo questionamento a si mesma. – Eu gostaria de ajudar o povo, ser alguém bom com quem eles pudessem contar. – Ela levantou os ombros. –Também porque ser uma rainha é importante, ser respeitada, governar, ir a bailes…– sorriu e inclinou a cabeça por sobre o ombro.
– Mas você não precisa ser uma rainha para fazer todas essas coisas. – Ele disse com simplicidade.
– Eu não entendo.
– Bom, existem milhares de formas de ajudar as pessoas sem ser uma rainha e outras milhares de ser respeitada, importante e de ir a festas bonitas. – riu. – Eu acabei de ter uma ideia.

O piloto pulou do sofá e ofereceu a mão para que se levantasse. Há tempos fazia grandes doações para um abrigo da região, mas sempre evitara visitar o lugar quando o convidavam. Mas naquele momento, naquele natal aquilo parecia a forma perfeita de apresentar a duquesa formas de ser bom sem precisar carregar uma coroa.
– Se apronte, nós vamos sair. – avisou enquanto conduzia a mulher pela escada.
– Mas para onde vamos? – Ela quis saber.
– É uma surpresa, duquesa. – sorriu e paralisou onde estava, dois degraus acima. – Você confia em mim?

encarava a mulher ansioso e arqueou uma sobrancelha e inclinou a cabeça sobre o ombro, a duquesa tinha o olhar incerto e desconfiado. Ela então sorriu ladina e ofereceu a mão para o piloto.
– Confio. – respondeu e sorriu com os olhos, depois os dois subiram as escadas correndo ansiosos.

XX
correu até a entrada puxando , nevava muito e o frio poderia congelar seus ossos. A entrada para o abrigo era ampla e amarela, a duquesa observava os brinquedos e a correria de crianças maravilhadas. Naquele ano, além das crianças que viviam no abrigo, outras crianças e suas famílias fariam parte da festa de natal.
Ano após ano era convidado a participar do evento, mas sempre surgia algo na mesma data ou sua noiva escolhia outra coisa para fazer, por isso não conseguiu pensar em nada melhor para apresentar a duquesa no momento.
! – O administrador do abrigo o cumprimentou com um abraço. – É muito bom vê-lo. Esta deve ser a sua noiva, é um prazer conhece-la. – O homem esticou a mão.

o ofereceu a mão educadamente e lançou um olhar nervoso a , para que ele desfizesse a confusão.
– Na verdade, esta é . – piscou. – Minha nobre hóspede. – Sorriu o piloto.
– Ah, me desculpem por isso. – O homem enrubesceu. – É que vocês fazem…deixem para lá. – piscou curiosa. – As crianças ficarão muito animadas com a sua presença. Queiram me acompanhar.

e foram conduzidos por um largo corredor até um salão bem iluminado, com uma grande árvore de natal. Lá, em longas mesas, dezenas de crianças e adultos estavam sentados e no centro, perto da árvore, o papai Noel.
– O que acha? Nada mal, não é? – O piloto perguntou curioso.
– É tudo tão lindo. – A duquesa observava tudo atentamente, maravilhada. – Quem é aquele homem com roupa vermelha?
– Ah. – riu e guiou a mulher para mais perto do bom velhinho. – Existe uma lenda, sobre um bom velhinho que viaja num trenó puxado por renas na noite de natal. Ele entrega presentes para todos que se comportaram durante o ano, desce por suas chaminés e as pessoas deixam leite e biscoitos para ele. – O piloto contou, analisando de perto a feição de diante a história.
– E como você, senhor , gosta de leite e biscoitos. Se deixar a barba e a barriga crescerem, puser uma túnica vermelha…pensando bem, não sei se teríamos estoque de leite o suficiente para o senhor. – o provocou e riu alto.
– Como se atreve? – O piloto cruzou os braços. – Como se atreve a continuar me chamando de senhor ? – sorriu e se afastou do homem.

A duquesa de Falkland nunca tivera visto algo tão belo, todas as luzes piscando, tudo aquilo era tão mágico. Para ela não fazia sentido não acreditar em magia vivendo em natais como aquele. Se coração estava quente naquele salão, com todas aquelas pessoas e crianças correndo, o cheiro das comidas e da árvore de natal. Era tudo tão incrível, sempre desejara festas assim, mas segundo os costumes, não poderiam ser realizadas no castelo.
agradecia profundamente por tê-la trago a um lugar tão mágico e maravilhoso. A mulher tentou encontrar seu anfitrião entre as pessoas, ele estava rindo e brincando com algumas crianças, duas estavam em seu colo e outras de pé próximas a ele. Senhor ria alto e pôde notar como sua risada era contagiante e como ele sorria com os olhos. Seria tão bom se no lugar do bruto Jaime, ela pudesse se casar com alguém gentil como .
Enquanto observava a cena do homem com as crianças, o senhor papai Noel se aproximara sem que ela notasse.
– Já fez seu pedido de natal? – Ele quis saber.
– Oh, não. Eu ainda não pensei nisso. – admitiu.
– Talvez se casar logo? – O papai Noel sugeriu olhando para .
– Não, senhor. Eu não poderia me casar com o senhor , tenho um noivo à minha espera em casa. – contou desanimada.
– Bom, então quem sabe deseje ir para a casa? – Insistiu o velhinho.

não soube o que dizer, havia um grande conflito dentro de si. Queria voltar para seu lugar, para seu povo, se casar e ser rainha, mas também estava se familiarizando com aquele mundo tão distinto e até gostando dele. Havia também o senhor , sentiria falta de seus copos de leite, mingau e das frutinhas vermelhas que ele sempre tinha por perto. E não sentia falta nenhuma dos conflitos entre os reinos, do sangue, da agressividade dos homens e sua aspereza e bestialidade.
– Claro, eu desejo voltar para a casa. – No fim o dever fala mais alto, era uma duquesa, devia honrar seu lugar.
– Bom, dizem que uma casa é feita de tijolos, mas um lar é feito de amor e magia. – Papai Noel disse. – Onde é o seu lar?
– Lar? – respondeu vacilante.
– Sim, lar é onde o seu coração está. – Respondeu o velhinho.

não soube responder. Onde é que seu coração estava?
Não era com seus pais e irmãos, não eram tão amáveis quanto as famílias que ali estavam, nem estava com seu noivo. Talvez estivesse com seu povo, mas se fosse o caso para onde voltaria?
, não gostaria de vir ajudar a distribuir alguns brinquedos? – a chamou, cortando seus devaneios e assentiu. Quando tentou se despedir do papai Noel, percebeu que ele havia sumido.

XX
Algumas horas depois, e estavam sentados junto aos outros, comendo uma deliciosa ave assada. A entrega de presentes fora inesquecível e pensava em como poderia repetir aquilo quando voltasse para casa. Além disso, estava ainda mais admirada com , seu anfitrião devia ser uma das pessoas mais bondosas que conhecera em toda vida. Além de dedicar algum tempo para ficar com aquelas pessoas, ainda fazia doações anuais para o abrigo, segundo o que o administrador dissera no brinde antes do jantar. tinha certeza de que tudo aquilo devia ser obra da boa bruxa, conhecer um homem tão gentil e bondoso a ensinara coisas que a duquesa jamais esqueceria.
Assim também era para o piloto. se sentia mais feliz e completo do que se lembrava de ser possível, o sorriso não deixava o rosto e a alegria daquelas pessoas contagiava cada célula de seu corpo. Estava feliz em enfim conhecer aquele lugar, feliz por conseguir mostrar aquilo tudo para e feliz ao perceber a admiração dela pelo local.

XX
Já era quase meia noite, e a duquesa chegavam em casa depois de um dos melhores dias de suas vidas. Não se lembravam da última vez que se sentiram tão felizes com coisas tão simples quanto aquela, estar entre todas aquelas pessoas, simplesmente comemorando o natal.
– Os natais aqui são sempre assim? – quis saber.
– Não, não sempre. – encarou os próprios pés enquanto subiam as escadas. – Na verdade eu nunca fiz isso, sempre achei que não valia a pena ou que tinha coisas mais importantes para fazer. – Assumiu.
– Ora, mas por que? O senhor pareceu tão feliz lá? – questionou.
– Eu sei e me arrependo tanto de não ter ido antes…– suspirou. – Acho que demorei para enxergar o que estava ao meu lado.
– O que importa, , é que enfim o senhor enxergou. – disse e sorriu parando em frente a porta de seu quarto.
– Obrigada por me ajudar a ver. – agradeceu. – Você esperava que eu te ajudasse a descobrir as virtudes de uma rainha, mas no fim das contas você está me ensinando a ser uma pessoa melhor.

sorriu e a acompanhou, os dois não sabiam o que dizer, mas se encaravam transbordando felicidade e gratidão. Talvez tivesse sido agraciado com um belo, nobre e ruivo presente de natal, pensava. E tinha certeza de que se alguém poderia auxilia-la, seria o dócil, bondoso e gentil anfitrião de olhos azuis.
– Sabe, acredito que no fim das contas o senhor seja o homem mais virtuoso que eu já conheci. – contou e sorriu mais abertamente.

foi invadido por uma onda de orgulho e alegria, seu sorriso mostrava todos os dentes e sorria com os olhos também. O piloto assistiu a duquesa cumprimenta-lo com um aceno e entrar no quarto. Estava feliz, verdadeiramente feliz como há muito não esteve.

XX
24 de dezembro

Quando os primeiros raios de sol invadiram o quarto de naquela manhã, ela já estava acordada há algum tempo. Era seu último dia, ou ela descobria como voltar e aprendia as virtudes que faltavam ou ficaria para sempre naquele lugar. Naquela manhã, a possiblidade de nunca mais voltar já não a assustava tanto quanto antes, mas ainda precisava honrar seu lugar como duquesa de Falkland.
se levantou com calma e se ajeitou para o café, seu estômago roncava quando ela pensava nas delícias que o senhor devia estar preparando na cozinha. A duquesa deslizou graciosamente pelas escadas, usando um vestido rosa da antiga noiva de seu dócil anfitrião. Quando alcançou a sala, encontrou a mesa do café posta, cheia de comidas deliciosas e remexendo algumas caixas.
– Aí está você, duquesa. – Ele sorriu ao cumprimenta-la. – O café já está servido, espero que goste da torta de morangos que fiz.
– Senhor . – chamou, mas se corrigiu ao encontrar o olhar repreensivo do homem. – , desculpe. O que são todas essas caixas?
– Bom, eu pensei que esta casa está muito sem graça. Será que você poderia me ajudar? – Ele perguntou enquanto balançava uma guirlanda que retirara da caixa e sorriu.

já havia providenciado um grande pinheiro e agora ele e o enchiam de enfeites vermelhos e dourados. A mulher levava jeito para aquilo, sabia exatamente onde colocar cada guirlanda, cada visco, cada enfeite.
– Como vocês fazem isso na sua casa? – quis saber.
– Os empregados geralmente enfeitavam o salão para os banquetes. – deu de ombros. – Quando eu era criança gostava de ajudar e assistir, sempre adorei o natal.
– Aposto que as comidas da ceia não são tão boas quanto as nossas. – implicou enquanto apoiava um banquinho para que pusesse uma estrela no topo da árvore.
– Isso é um disparate, …– o reprendeu.

Antes que a duquesa pudesse terminar a frase, se desequilibrou e despencou do alto da árvore, sendo amparada pelos braços de . Com o peso e a surpresa o piloto deu alguns passos para trás, até conseguir apoiar o corpo na soleira da porta.
– Me desculpe, me desculpe por isso. – falou rindo.
– Tudo bem, eu sou profissional em segurar donzelas que caem do alto de árvores de natal. – O piloto brincou enquanto ria.

tocou o chão com os pés, mas os braços ainda estavam ao redor dos ombros do piloto, os dois riam e se olhavam. De repente, a duquesa olhou para cima e inclinou a cabeça.
– O que foi? – quis saber.
– O visco. – sorriu. – Estamos debaixo dele.

olhou para cima e pensou sobre aquilo. No último ano sua noiva não quis beija-lo debaixo do visco, disse se tratar de uma tradição ridícula e sem sentido e agora ele estava onde estava. Talvez não devesse ignorar essas coisas, pelo menos não mais.
– Bom, não sei como os duques de Falkland fazem, mas aqui, acredito que só nos resta uma coisa a fazer.

Dizendo isso, encostou seus lábios nos da duquesa, com doçura e carinho. A atitude impulsiva não deveria representar nada, apenas um singelo e rápido beijo para dar sorte, mas aquele não seria um natal comum em nenhum sentido. Quando tocou os lábios da nobre mulher, a paz e satisfação que sentiu foram comparadas a um banho quente num dia muito frio, ou a provar um delicioso pudim após a ceia de natal, ou vencer uma corrida difícil com a diferença de alguns segundos.
– Oh. – balbuciou quando se afastaram e ela abriu os olhos, a duquesa estava completamente corada. – Feliz natal. – Disse ela e sorriu.

A surpresa estava estampada nos olhos da mulher, não esperara por aquilo. Não era um hábito comum beijar homens assim, não em seu mundo pelo menos. Por isso a duquesa não sabia se a sensação incômoda na barriga era um efeito comum a beijar alguém ou se significava que ela havia gostado do toque de seu anfitrião.

XX
pensava sobre o costume estranho de beijar pessoas debaixo do visco, quando mostrou o pequeno galho a , não imaginava que o anfitrião fizesse aquilo, mas que estranho, pensava ela, ora essa. A duquesa não conseguia ficar irritada com o homem, pelo sorriso dele e sua empolgação com aquelas coisas, aquilo devia ser uma peça que a havia pregado.
Para o piloto, era apenas um costume, uma superstição que escolheu não ignorar, apenas isso. Mas ao mesmo tempo, beijar a duquesa era algo que ele poderia fazer todos os dias. sentia um grande carinho por , apesar do pouco tempo na presença da mulher, ela o fazia sentir especial, querido e alegre. Sequer se lembrava das questões que anteriormente circulavam em sua cabeça.
afastou o olhar da duquesa, que assistia vidrada as pessoas presas na caixa, como ela chamava sua TV, para encarar o visor do celular. Mais dezenas de mensagens de sua família tentando confirmar sua presença na ceia de natal não paravam de chegar, torceu os lábios e bufou entediado.
– Algum problema, meu senhor? – perguntou curiosa.
– Não, não é nada. – Ele deu de ombros.
– As vozes em sua caixinha o deixaram chateado, eu posso ver. – Ela disse apontando para o celular nas mãos do piloto e ele sorriu.
– A minha família, eles querem que eu vá ao jantar de natal hoje à noite. – Contou.
– Que maravilha! – sorriu animada. – E por que o senhor não deseja ir?
– Bom, eles vão perguntar sobre a minha noiva, ainda não contei que nos separamos.
– Talvez essa seja uma excelente ocasião, todos estarão reunidos. – sugeriu.
– Não é tão simples. – balançou a cabeça e permitiu o corpo escorregar no sofá. – Eu não quero falar sobre ela ou sobre coisas relacionadas ao fim.
– Bom, tenho certeza que sua família respeitará sua posição, mas o senhor não pode comemorar uma data como estas longe da família. O natal é tempo de união e….bem, o senhor deve saber todas essas coisas.
– Você sempre passa os natais com sua família? – indagou curioso.
– Sim, mas porque se eu me recusar, eles enviam um cão de guarda para me buscar e me amordaçar a mesa. É um protocolo, os duques precisam demonstrar união. – Ela respondeu com simplicidade e o piloto pensou que talvez seus natais em família não fossem assim tão ruins.
– Quer saber, duquesa? – falou enquanto se levantava. – Eu vou a esse jantar e a senhora irá como minha convidada.
– Eu? Mas senhor…
– É um pedido, , por favor aceite. – disse olhando-a nos olhos e a duquesa assentiu.

XX
A noite caíra e era hora de ir a tão pouco esperada ceia em família. Talvez surgir com ao seu lado faria com que as atenções de todos se voltassem a ela, o piloto então poderia ficar de fora, apenas assistindo a cena.
– Acho que podemos ir. – avisou.

A duquesa estava no corredor, esperando que o piloto saísse de seu quarto. Quando atravessou a porta e encontrou a mulher, entendeu porque Jaime a tinha escolhido como futura rainha. usava um longo vestido vermelho, que parecia ter sido desenhado para ela e os cabelos estavam soltos e caiam por sobre seus ombros, o sapato de salto enfatizavam os centímetros a mais que ela tinha de altura. sorriu embasbacado.
estava radiante, um pouco preocupada, porém radiante. Iria a um jantar de natal, estava ansiosa para participar de tal momento. , sua companhia estava absolutamente encantador com suas roupas diferentes.
– A população do mundo inveja vosso futuro esposo neste momento, duquesa. – sorriu enquanto caminhavam para a garagem.
– Como se chama isso que está usando, senhor ? – Ela quis saber curiosa.
– Ah, terno. – O piloto respondeu pomposo alisando sua gravata. – Não é chique?

XX
A ceia de natal não era algo tão esperado por , não depois que o piloto crescera. Mas naquele ano o natal estava sendo diferente de tudo que ele poderia imaginar, a presença da duquesa o tinha feito questionar milhares de verdades absolutas em sua vida. Sua família também estava apaixonada por sua convidada, sequer se lembravam que o piloto estava lá e isso o divertia.
estava maravilhada com aquela família, como eles se olhava e se tratavam com respeito e carinho. Entendia de onde provinham as virtudes de seu anfitrião.
– O que está achando do natal dos ? – se aproximou furtivamente.
– Eu nunca estive em um jantar tão agradável, senhor. – respondeu, seus olhos brilhavam.
– Você não precisa me chamar assim, . – O piloto brincou distraído.
? – A duquesa indagou curiosa.
– É um apelido. – sorriu. – Forma carinhosa de se chamar alguém próximo, de quem se gosta.
– Carinhosa? De quem se gosta? – questionou, mas foi interrompida pela mãe de .
– Por que vocês ainda estão aí? Venham tirar nossa foto, andem logo. – A mais velha chamou.

e se dirigiram para a frente da árvore de natal, onde toda a família posava para o fotógrafo. O piloto voltou-se a olhar para a duquesa, percebendo cada traço e os sinais de felicidade no rosto dela. Nos últimos dias, sequer se lembrava de seus amargos pensamentos, da antiga companheira ou de seu rancor pelo amor, sua cabeça estava cheia de planos, queria apresentar o mundo a e talvez a convencer a ficar.
A duquesa se sentia acolhida ali, com todas aquelas pessoas e toda aquela atmosfera feliz, mas não podia evitar, seus pensamentos estavam em Falkland e se alguém havia sentido sua falta. Os natais em casa não eram como os da família , eram cheios de música, brigas, bêbados intermináveis e gordurosos banquetes que duravam quase uma semana, mas aquele era o natal que estava acostumada, o natal de seu povo.
prestou atenção em cada momento daquela festa, ora os olhos estavam nos convidados, ora no relógio. Estava sufocada pela dúvida, não sabia o que fazer, precisava ir para casa, mas não tinha ideia de como. A duquesa estava sentada, observando tudo e mal participando da festa, a maior parte do tempo havia estado ao seu lado, deixando-a apenas quando sua presença era requisitada.
Quando o relógio marcou dez horas, todos se reuniram ao redor da árvore para a troca de presentes. A empolgação da família era tamanha que contagiava a duquesa, ela estava totalmente curiosa para aquilo. A forma com que os familiares recebiam os presentes, como se abraçavam e sorriam, como se importavam com seus entes.
– Eu amei, muito obrigada, mãe. – O senhor agradeceu a mãe.
– Eu sei que você adora sair por aí, andando de bicicleta e fazendo exercícios. Vai precisar se manter hidratado. – Ela explicou.

pensava sobre como eles se importavam uns com os outros, como pensavam com carinho em cada um ao preparar o presente. A atmosfera que aquilo criara tomou por completo o coração da duquesa e ela sentiu a felicidade a invadir.
– Está gostando? – perguntou ao se aproximar da mulher que ainda tinha os olhos presos em sua família.
– É tão…lindo. – Ela suspirou.
– É, família pode ser complicado. Nós nos desentendemos as vezes, mas nunca falta amor. – O piloto disse e o encarou com os olhos arregalados.
– Amor?
– Sim, cuidar um dos outros, gostar e respeitar apesar dos defeitos, se preocupar…– começou a explicar e então a duquesa sorriu e piscou os olhos agitada.
– É isso! – celebrou. – Essa é a virtude que faltava! Eu sei, pensei que descobriria o amor de outras maneiras ou que nunca descobriria, mas o amor estava mais perto do que pensei. – A duquesa sorriu grande e o piloto correu os olhos por sua própria família. – Eu entendo agora, essa felicidade que me acolheu e tomou meu coração, o cuidado com aquelas crianças, a gentileza e bondade com que me recebeu…tudo isso é amor. Agora eu vejo, o amor é bem maior do que eu achei que fosse, a mágica que move este mundo é o amor. É ele que faz todos os sonhos se tornarem possíveis, é o amor…

compreendia cada palavra que a duquesa dizia, como se cada sílaba lavasse seus olhos para enxergar a realidade a sua frente, seus familiares, o abrigo, a duquesa…tudo aquilo se resumia a uma coisa, ao amor e suas diversas formas possíveis.
– Eu preciso ir, preciso voltar. – respondeu animada correndo em direção a porta.
, espere. – chamou enquanto corria. – Você vai mesmo voltar?
– Eu…– parou onde estava e encarou o piloto, seu olhar era vacilante. – Eu preciso voltar.

O piloto sentiu seu humor mudar, já não estava mais tão feliz quanto antes, sentia uma forte onda de tristeza misturada com frustração o atingir em cheio.
– Pelo menos permita-me acompanhar você. – O piloto pediu e sorriu tristemente, assentiu e sorriu.

XX
O carro estava estacionado no lugar onde havia atropelado a duquesa dias atrás, o piloto e caminhavam em direção a floresta. A viagem fora silenciosa, nenhum dos dois soube o que dizer ou queria dizer alguma coisa.
– Acredito que devo seguir sozinha agora. – avisou voltando-se ao piloto.
– Tem certeza? – insistiu e ela assentiu com a cabeça. – Bom, então…acho que é isso.
– Sim. – suspirou e baixou o olhar.
– Eu gostaria…– Os dois disseram juntos.
– Primeiro você. – sorriu.
– Bom, eu gostaria de agradece-lo, . Aprendi coisas tão maravilhosas com o senhor, coisas tão bonitas. – sorriu e segurou as mãos do piloto. – Eu jamais conseguirei agradecer o suficiente e nunca esquecerei deste tão maravilhoso natal. – Ela sorriu.
– Eu aprendi tanto com você, com certeza você será uma grande e incrível rainha. – piscou e sorriu novamente. – Eu vou sentir a sua falta, muita falta, duquesa. Tem certeza que vai?
– O dever…eu gostaria de não ter….– A mulher sussurrou e sorriu tristemente quando ela soltou sua mão e caminhou em direção ao bosque. – Cuide-se, senhor e aproveite seu natal, .

precisou conter o impulso ao ouvir aquilo, a duquesa se lembrara de sua explicação sobre o que era um apelido. Não entendia porque ela devia ir, mas respeitava sua decisão. O piloto sorriu e assistiu se embrenhar no bosque e desaparecer, então uma doce saudade se apossou dele.

XX
Depois daquela despedida, não pode voltar para a ceia, não tinha ânimo ou vontade para celebrar. Estava feliz por ter tido a breve chance de conhecer e aprender com a duquesa, além de passar por uma experiência tão incrível quanto aquela, mas sentiria falta. Para quem ele cozinharia? Para quem ele explicaria sobre o mundo? Para quem ele leria seus livros?
O piloto tocou a grande e enfeitada árvore de natal, se lembrando do sorriso e dos modos educados da duquesa, correu os olhos pelo visco e se lembrou do rápido beijo e sorriu. Quando vislumbrou a cozinha, lembrou-se das expressões de enquanto comia a sua comida, lembrou-se de quando a viu descer as escadas sem seu vestido de época pela primeira vez. sorriu tristemente e suspirou, depois subiu as escadas devagar e foi até o quarto de .
O vestido vermelho estava sobre a cama, a capa estava pendurada e o piloto a tocou, sentindo a maciez do veludo o confortar. O que estou fazendo, pensou ele, não devia ceder tão facilmente. Mas o que eu poderia fazer, ela tem seus deveres como futura rainha, continuou , não posso pedir que escolha. Talvez eu devesse ter ido com ela, concluiu.
De qualquer forma, ele não poderia simplesmente ficar ali, parado se lamentando. Precisava dizer a que gostaria que ela ficasse, que gostaria muito ou quem sabe ir com ela, se fosse essa a solução, precisava dizer. Talvez se corresse, conseguiria alcança-la. era um piloto de Fórmula um, era hora de mostrar seu talento.

XX
Nem as pistas dos maiores autódromos do mundo viram um piloto correr tanto quanto as ruas da cidade de Falkland naquela noite. acompanhava o relógio, faltavam três minutos para a meia noite e ainda tinha pouco menos de meio quilometro pela frente, disputando a estrada com a neve pesada.
Quando chegou ao ponto onde deixara a duquesa momentos antes, saltou do carro e correu em direção ao bosque, mas antes que pudesse alcançar as árvores, o piloto vislumbrou um clarão que o cegou por alguns segundos. Piscou algumas vezes, tentando se acostumar a luz e conferiu o relógio, viu que ele marcava meia noite.
O desapontamento invadiu seu coração e o entristeceu. Não, não, pensou ele, se tivesse sido um pouquinho mais rápido…
Agora nunca mais veria a duquesa, a não ser por pinturas e histórias. Sentiria tanta falta dela e agora não havia mais nada que pudesse fazer, tinha desperdiçado a chance. Não se perdoaria por isso, agora só teria as doces lembranças dos momentos que passara com ela e uma bela história de natal para contar aos filhos e netos.
ainda estava atônito, respiração descompassada e coração acelerado. O piloto se arrastou até o carro, olhar para os pés e se lamentando profundamente.
– Feliz natal, senhor ! – A saudação congelou o piloto onde ele estava.

Quando levantou os olhos em busca da voz, encontrou . A duquesa estava parada do outro lado da estrada e sorriu enquanto corria em direção ao piloto.
– Você não foi. – constatou em meio ao abraço.
– Bom, como eu poderia abrir mão da banheira de água quente, da caixa com pessoas e do seu mingau? – sorriu.
– Eu…eu…nem posso acreditar que você ficou. – O piloto celebrou gargalhando. – Eu estou tão feliz!
– Bom, creio que o príncipe Jaime possa encontrar uma outra esposa. – sorriu. – Mas minha missão ainda não terminou, tenho muito a aprender neste mundo. Será que o senhor poderia me ajudar? – Ela sorriu.
– Seria uma honra, duquesa. – Respondeu o feliz e sorridente piloto.

Continua…?

Nota da autora: Como parte do fã clube de três pessoas do , preciso dizer que escrever isso foi um sonho. Essa short preencheu meu coração de amor, magia e biscoitos de gengibre, espero que preencha o seu também.
E quem sabe…o ano de 2021 nos presenteie com uma continuação fofíssima da história da nossa duquesa.
Muito obrigada, Família do grupo F1❤ por tanto. E que venham mais surtos pro ano que vem!!!!

O projeto: Essa fanfic faz parte do projeto Drive to Survive, um projeto no qual 11 autoras apaixonadas por Fórmula 1 se reuniram para escrever uma short para cada piloto do grid, divulgando e homenageando esse esporte incrível.
Os primeiros 5 pilotos que terão suas histórias contadas são:
Valtteri Bottas, Lance Stroll, George Russell, Daniel Ricciardo e Lando Norris.
Mas em breve todos os pilotos da temporada de 2020 terão uma história para chamar de sua, todas feitas com muito amor.
Esperamos que curtam nossa proposta e embarquem nesse mundo com a gente.
Não esqueçam de deixar aquele comentário no final e motivar uma autora a sempre continuar.
Beijos e até a próxima! <3