Grand Prix

Grand Prix

Sinopse: De maneiras muito diferentes, o automobilismo havia determinado quem eles eram: ele, piloto de uma das maiores escuderias do mundo; ela, sua engenheira de corridas – e filha do maior nome que o esporte já viu.
Juntos, eles buscariam o título. E o que quer que o destino lhes reservasse no caminho até o topo.
Gênero: Romance
Classificação: +16
Restrição: Daniel Ricciardo é o principal, e fixo
Betas: Alex Russo

a Daniel Ricciardo story

I.Pré-temporada: Londres.

Quando entrou no prédio que ocupava uma quadra inteira, Daniel Ricciardo era um misto de muitas expectativas e uma dose um tanto menor de receio. Aos 31 anos de idade, ele não tinha mais tempo a perder. Certas oportunidades eram únicas na vida, e correr pela McLaren, naquele momento, era uma delas.
Deparar-se com o hall dedicado aos campeões lendários da escuderia lançou arrepios por todo o corpo do piloto: Lauda, Hunt, Hamilton, Fittipaldi, Prost, Senna. O que sentiu ao se imaginar ali, ao lado deles, fez com que se recordasse de quando não passava um moleque cheio de sonhos e uma ideia fixa: ser campeão mundial da Fórmula 1. O garoto havia crescido – um punhado de músculos a mais, vários centímetros de altura e os dentes alinhados com auxílio de aparelho ortodôntico não deixavam negar. O sonho, contudo, permanecia intacto.
E era este o motivo para ter deixado a Red Bull, anos atrás, e também a razão pela qual abandonara o projeto falido da Renault. Para Ricciardo, ser campeão era tudo o que importava. E era para isso que ele estava ali, sendo apresentado ao mundo como a nova contratação da escuderia inglesa: a McLaren havia lhe prometido o título, e ele estava ali para conquistá-lo.

era uma pessoa organizada – ou ao menos gostava de imaginar que sim. No mínimo, encontrava-se bem na própria bagunça. Naquela tarde, contudo, a mulher se via perdida em um mar de planilhas e desenhos de modelagem, procurando suas anotações acerca dos últimos testes no motor do esportivo que a equipe havia desenvolvido para aquela temporada, apenas para conferir pela décima vez os números que sabia de cor.
Como uma das únicas mulheres da escuderia e, principalmente, por trabalhar diretamente com mecânicos que haviam sido subordinados a homens por uma vida inteira, ela sentia que precisava se provar todos os dias. Era exaustivo – e frustrante, e absurdo, e lhe deixava puta da vida vezes demais para que fosse saudável, é verdade – mas também fizera dela quem era: a primeira mulher a ocupar o cargo de engenheira de corridas de uma das maiores equipes da Fórmula 1. Quebrar paradigmas não era algo tão estranho a sua família, afinal.
Na agitação da busca pelos papéis, esbarrou no porta-retrato que, solitário em meio à bagunça, adornava sua mesa de trabalho. Ergueu o objeto, tomando um segundo afetuoso para olhar a fotografia tirada ao lado do pai em dos poucos domingos de manhã que tivera na sua companhia. Só então se deu conta de que o documento que procurava estava bem ali.
— Obrigada, pai. – agradeceu baixinho em sua língua natal, um sorriso melancólico cortando os lábios e sendo absorvido rápido o suficiente para que não se transformasse em uma emoção maior.
Era um grande dia, afinal, e ela tinha trabalho a fazer.
A mulher checou mais uma vez os números sobre os quais perdera algumas noites: eram dados que cruzavam o desempenho do carro e seu novo piloto – estimativas gloriosas que, ela não podia negar, davam-lhe um frio na barriga e grandes expectativas com as quais não era nem mesmo familiarizada. não era uma otimista por natureza, mas uma fiel fervorosa de análises racionais: e ali, entre seus dedos, ela via uma fórmula de sucesso.
— Ei, Jarvis! – o grito naquela voz de garoto mal saído da adolescência talvez pudesse causar sobressaltos em outras pessoas, mas as aparições de Lando Norris em seu escritório eram tão frequentes que a mulher nem mesmo ergueu os olhos do trabalho, sentando-se novamente na cadeira de couro e abrindo seus e-mails mais uma vez – Você não devia estar lá embaixo dando boas vindas pro cara novo? Sendo simpática? – ele continuou, e não precisava olhar para saber que ele sorria. Sempre sorrindo, Lando.
— Eu acho que esse era o seu papel, como bom companheiro de equipe. – ela continuou a digitar o e-mail em que trabalhava antes da interrupção – E não ouse se sentar aí – completou, mirando a tela do computador e interrompendo o movimento do garoto que já se empoleirava sobre a mesa, e parou no meio do gesto, sem ter ideia de como ela tinha visto aquilo sendo que tinha os olhos no computador. Cada dia tinha mais certeza de que ela era um robô, honestamente.
— Vim te buscar. – deu de ombros, jogando o corpo sobre uma cadeira e pegando a bolinha anti-estresse vermelha que se destacava na mesa, feito uma criança que não consegue manter seus dedinhos longe de algo colorido. ergueu os olhos para ele e pretendia ralhar com o rapaz, mas Lando tinha uma expressão concentrada arrancando um fio solto da bolinha e a mulher não conseguiu conter um sorriso discreto: uma criança, sim. Mas era meio que a sua criança, então não havia muito que pudesse fazer a respeito. – Ele já deve ter chegado, devem estar mostrando o lugar, sabe? Essas coisas de apresentação, e tal… – ele tagarelava sem parar, apertando a bolinha nas mãos e ganhando parte da atenção da mulher porque o barulho que fazia era irritante, e estava prestes a mandar que sossegasse quando ele parou – Você acha que… Sabe, que o Carlos vai se sair bem no primeiro dia dele na Ferrari? – perguntou, enfim tirando os olhos do brinquedo, pousando-os sobre a mulher, que tomou alguns segundos absorvendo a pergunta.
Então era sobre isso.
— Imagino que sim… Ele é um grande piloto. – apoiou o queixo sobre o punho, estudando o rapaz com atenção, o olhar suavizando até que ela o encarasse com olhos afetuosos – Você vai sentir falta dele – constatou, tombando a cabeça discretamente para a direita. Não era uma pergunta, mas uma certeza. Ela também sentiria, afinal.
— Acho que sim. – Lando deu de ombros, voltando a descontar sua ansiedade na bolinha, fugindo dos olhos da mulher porque não queria deixar transparecer quanta verdade havia naquilo. Eram uma dupla e tanto, os dois… Sentiria muita falta de Carlos, e de como transformavam o trabalho em diversão, como se realmente fossem só dois garotos sendo pagos para dirigir carros legais enquanto corriam em círculos.
— Você vai ficar bem, garoto. – sorriu de canto, e se a mesa não estivesse entre os dois, talvez tivesse lhe bagunçado os cabelos. – Eu me preocuparia se você estivesse prestes a ser dupla do Kimi, mas Ricciardo? Sério? Eu me preocupo com o que será de nós tendo que lidar com vocês dois juntos, isso sim… – suspirou, verdadeiramente receosa, mas ganhando uma gargalhada gostosa de Lando em resposta.
— Dan é legal! – os olhos travessos do garoto brilharam diante da ideia. – Vai ser engraçado vendo você colocá-lo na linha… – continuou, relaxando na cadeira, e pensou em colocar os pés sobre a mesa até se lembrar que morreria, caso o fizesse. – Eu tenho minha reclamação sobre isso, aliás: por que o cara novo chega já ganhando a Jarvis, e eu continuo preso com Simon? – reclamou, com um bico engraçado, falando o nome do próprio engenheiro com um desgosto evidente. Zero senso de humor, aquele cara tinha. , pelo menos, ainda que risse dele na maior parte do tempo, tinha um senso de humor (altamente questionável) aguçado.
A mulher gargalhou dessa vez, enfim se levantando e contornando a mesa para se sentar sobre ela, diante do garoto. Bagunçou os cabelos de Lando, tornando-o ainda mais o adolescente que ele era aos seus olhos.
— Por mais que isso infle meu ego, você sabe que não precisa de mim – ela sorriu, dando de ombros. – Você e Simon fazem um bom trabalho juntos, e não sei de onde tirou essa ideia de que Carlos tinha uma vida mais fácil comigo, do que você tem com ele! – brincou, cutucando o ombro do rapaz – Essa porta vai estar sempre aberta pra você, Lando. – ela apontou o queixo na direção da entrada do escritório. – Até porque você nunca bate, de todo jeito. – completou, fingindo uma irritação que não alcançava seus olhos.
— É bom que sabe! – Lando se colocou de pé, com um sorriso travesso, fugindo dali agora que já sentia o coração mais leve. – Te vejo lá embaixo, !
sorriu sozinha por um instante, mas logo teve sua atenção desviada para o celular vibrando sobre a mesa. A tela mostrava o nome de que, além de ser uma de suas melhores amigas, era também a responsável pela assessoria de imprensa da McLaren. Atendeu, e nem mesmo havia terminado de dizer “alô” quando foi interrompida.
— Onde você está? – a atropelou com aquela voz que, dada a frequência de palavras-por-segundo e tom esganiçado, denunciava sua ansiedade. – Por que não está na oficina? – completou, num grito travestido de sussurro que indicava que tinha companhia.
— Jesus, o que está havendo com vocês hoje? – resmungou, afastando o telefone do ouvido por um segundo. – Estou trabalhando. Gostaria de estar de férias em Ibiza, com um espanhol sem camisa me servindo mojitos? Gostaria. Mas não. –tagarelou, fechando várias abas no computador, sem pressa alguma.
! exclamou, indignada, o que arrancou uma risadinha da outra e só fez com que quisesse irritá-la ainda mais. – Ele vai estar aqui em um minuto!
— Ele quem? – respondeu em um tom falsamente curioso, girando na cadeira com um sorriso divertido. Era maldade, mas não conseguia resistir à ideia de implicar com a amiga.
— Ricciardo! – respondeu, entre desesperada e incrédula, e revirou os olhos.
— Ah, que coincidência! Eu, por acaso, estou trabalhando no carro dele. – a engenheira devolveu, enfim se colocando de pé, rumo ao elevador – Meu Deus, , respira… – soltou uma risada, decidindo acabar com a agonia da amiga. – Chego em dois minutos. – avisou, chamando o elevador enquanto encarava o próprio reflexo em uma parede de vidro que dava vista para a imensa área verde no meio da qual ficava a pista de teste que conhecia como ninguém. Estava contando os segundos para ver o carro na pista, e era melhor que Ricciardo fizesse bom proveito dele. O elevador chegou ao sexto andar e a mulher entrou, apertando o botão que dava acesso ao subsolo.
Oh, shit, hold it! – uma mão se interpôs às portas do elevador, enquanto tentava processar o que ouvira, o sotaque carregado arranhando seus ouvidos. Assim que as portas se abriram, no entanto, tudo fez sentido: Daniel Ricciardo estava parado do outro lado, australiano da cabeça aos pés.
De perto, ele era mais alto do que ela se recordava de já ter visto pelo paddock, e precisava admitir que passou um instante além do necessário encarando os olhos castanhos do rapaz que, à luz artificial do elevador, pareciam tão claros, em contraste aos dela, com suas íris escuras feito café. – Boa tarde! – ele sorriu, e talvez tenha usado alguma expressão australiana que ela não compreendeu de pronto. Mas não havia necessidade de compreender perfeitamente quando ele sorria largo, tão simpático quanto poderia, fazendo-se entender em qualquer língua do mundo.
— Boa tarde. – a mulher respondeu, finalmente direcionando o olhar ao diretor da escuderia, Andreas Seidl, que se postava ao lado de Ricciardo com um sorriso largo pela coincidência do encontro.
! – Andreas saudou alegremente. Era visível o quanto estava inflado por ter ao seu lado o piloto que era mais nova joia da equipe – Nós estávamos mesmo descendo para encontrar você. – continuou, despertando a curiosidade de Ricciardo já que, até onde o piloto sabia, estavam indo para a oficina da escuderia – Daniel, essa é , acho que é seguro dizer que ela é a mulher mais importante da sua vida daqui em diante… – completou, com uma risada conspiratória que fez a mulher revirar os olhos minimamente, apenas o quanto era possível diante de seu chefe.
— Andreas, você vai assustar o rapaz… – fez pouco caso da situação, sorrindo de canto numa tentativa de exercitar a tão falada simpatia, que Lando mencionara. Precisava trabalhar nela… – Muito prazer, Ricciardo. – saudou, com um aceno polido.
— Daniel. – o piloto estendeu a mão para a morena, que a encarou por um segundo antes de aceitá-la, uma sombra de sorriso nos lábios, porque oh, ela sabia quem ele era. Conhecia-o provavelmente melhor do que ele mesmo, depois de meses estudando as corridas dele tão minuciosamente, bem como todas as suas estatísticas, a fim de ajustar seu carro para extrair o melhor do piloto, exaltando suas fortalezas e minimizando as falhas.
— Ela é sua engenheira de corrida. – Andreas anunciou, encarando os dois com animação: ali diante dele estava a combinação que lhe garantia o sucesso. era espetacular no que fazia, e ele mal podia esperar para ver como ela e Ricciardo funcionariam juntos.
— Oh, sério? – Daniel respondeu com entusiasmo, pegando a mulher de surpresa. Ela estava acostumada com desconfiança e incredulidade… Mesmo Carlos, a recebera com reticências. Entusiasmo era, definitivamente, algo novo – Alguma restrição a xingamentos no rádio? – perguntou, bem-humorado, com a primeira preocupação que cruzou sua mente ao saber que teria uma garota outro lado do rádio de seu carro.
— Só se estiver preparado para ouvi-los de volta. – devolveu, quase sorrindo, assim que o elevador parou no andar correto.
— Daniel, muito prazer! – foram praticamente atropelados por , que se adiantou na direção do piloto tão logo saíram do elevador, cumprimentando-o de forma entusiasmada – , nos falamos pelo telefone. – ela continuou, equilibrando o tablet e o celular em uma das mãos para estender a outra ao rapaz – Cuido das relações públicas da empresa e devo dizer que estamos muito animados por ter você no time! – sorriu, e não conteve um risinho nasalado para a empolgação da outra. Era adorável, na verdade, ela não podia culpar Lando…
— Claro! Muito prazer, ! – ele cumprimentou, sorrindo. Tinha imaginado alguém mais velho quando conversou com a mulher pelo telefone… Ela e Norris pareciam mal saídos do colegial, por Deus!
— Eu estou ligando agora mesmo pra sua engenheira, ela… – começou, só então reparando na figura de um pouco atrás dele. A amiga lhe encarava com uma sobrancelha erguida, os olhos brilhando em divertimento como se dissesse “ahá! Quem está atrasada?” – Oh! Vocês já…?– concluiu, gesticulando para os dois – Ah, certo… – a expressão murchando um pouquinho já que não poderia fazer sua grande apresentação.
— Ela tinha planejado tudo o que diria a você sobre a . – Lando se aproximou, rindo ao passar um dos braços em torno da mulher e deixando um olhar afetuoso à garota, que sentiu as bochechas corarem ao ser exposta pelo piloto com quem compartilhava de uma proximidade conhecida por todos, e que mais parecia um crush mútuo que não evoluía, para a agonia também de todos. – Seja bem-vindo, cara! – cumprimentou Daniel com um toque de punhos. Já tinham se falado bastante nas semanas que precederem a vinda de Ricciardo para equipe, então não era como se fosse lá uma grande novidade para os dois.
— Obrigado. – Daniel sorriu, voltando a encarar , retomando o assunto porque se interessava no que quer que lhe dissessem sobre – Eu ficaria feliz em ouvir, mesmo assim. – arriscou um olhar para a morena a sua esquerda, que conservava uma expressão divertida até então, mas enrijeceu a postura no instante em que ele sugeriu aquilo.
— Na verdade, você não ficaria não… – interveio, lançando a um olhar de alerta.
— Bem, – a mais jovem ignorou, continuando com um sorriso – eu só ia ressaltar o quanto vocês têm tudo para formarem uma das duplas mais bem-sucedidas juntos! – começou a tagarelar. – Você certamente sabe como o desempenho de Sainz cresceu na última temporada e evoluiu desde que ele e começaram a trabalhar juntos, então…
— Ok, chega de bobagem. – interrompeu a amiga, sentindo uma verdadeira agonia ao ouvir elogios publicamente. Sabia de seu trabalho e se orgulhava dele, mas preferia não fazer previsões antes que tivesse resultados junto do novo piloto.
— Ela é nossa Jarvis. – Lando resumiu, sorrindo divertido na direção da mais velha, e arrancando um sorriso largo do outro. – Sabe…? Parece um robô, assustadora de tanta precisa, sabe a resposta pra coisas que você nunca imaginaria sequer perguntar, parece não ter sentimentos mas lá no fundo você encontra alguma coisinha que pode ser chamada de senso de humor… – deu de ombros, recebendo com atrevimento o olhar severo que fingiu lhe enviar, enquanto Daniel partia em uma gargalhada sonora.
— Ok, já chega, Lando… Senhor. – dirigiu-se ao diretor, esperando que o homem interrompesse aquela bobagem, mas o mais velho parecia estar se divertindo, obrigando-a a respirar fundo e começar a andar. – Certo, venham comigo, por favor. – chamou, tomando a frente naquele ambiente que era tão seu: estava pronta para o show. O carro da temporada era um espetáculo e ela estava tão orgulhosa que queria ter a certeza de que veria o rosto do piloto quando colocasse os olhos nele – É melhor que você vença, Ricciardo, esse carro merece a primeira página… – completou, já de costas, andando adiante dos dois com a postura de quem era dona do lugar. E, bem… era quase isso.
— Daniel. – odiretor da equipe segurou o rapaz pelo ombro, atrasando um pouco a passada para acrescentar uma informação que julgava essencial. O piloto ouviu, mas seus olhos permaneciam na mulher que andava entre os carros com sua calça de couro e botas de salto, enquanto se perguntava de onde diabos ela havia saído. De seus sonhos, talvez? – Não pergunte sobre o pai dela, sim? – murmurou.
— Sobre o…? Por que diabos eu perguntaria sobre o pai dela? – franziu o cenho, sem encontrar ímpeto o suficiente para deixar de olhar a mulher que, naquele momento, corria um dos dedos pela lateral do carro, como em um afago. Céus.
Andreas deu uma risada nasalada, meneando a cabeça para a falha de comunicação: um pequeno detalhe, deixado de fora, que quando veio a tona fez as sobrancelhas de Daniel se erguerem na mais genuína surpresa.
— Ela é filha do Senna, garoto. Ayrton Senna.
Por um segundo, foi como se aquilo tudo não passasse de uma brincadeira. E então, quando a veracidade dos fatos o atingiu de uma vez só, Daniel podia praticamente ouvir sua mente zunindo, tentando processar a informação. A filha de Senna. Seus olhos correram novamente até , e ele murmurou um xingamento que, naquele contexto, poderia se dever tanto ao fato de que trabalharia com a herdeira de um dos maiores nomes do esporte, quanto à imagem da mulher a sua frente que, parada ao lado do carro com os braços cruzados, parecia tão impaciente quanto espetacular.
— Ei, vocês dois. – ela chamou, acenando com a cabeça para o que deveria ser a verdadeira estrela do dia, o esportivo laranja elétrico que se destacava em meio ao cinza industrial e o branco cirúrgico da oficina. – Não está ansioso para conhecer seu carro, Ricciardo? – perguntou, erguendo uma sobrancelha para o piloto.
— Claro, claro! – ele se adiantou alguns passos, e todas as outras questões desapareceram de sua mente por um instante quando enfim colocou os olhos onde deveria: o carro era escandalosamente bonito. O design agressivo, mas carregava também algo que ele não conseguia nomear exatamente. Elegância, saberia pontuar.
Era exatamente por causa de carros assim que garotos sonhavam em correr na Fórmula 1.
analisou a expressão dele ao observar o carro, satisfeita ao vê-lo assobiar enquanto dava a volta em torno do esportivo, admirando cada curva: talvez ele, como ela, pensasse em cada uma delas de forma matemática, imaginando a aerodinâmica, a velocidade, o vácuo que deixaria para trás… Talvez apenas admirasse como um garoto diante de um carro espetacular – e ela apostava mais nessa hipótese. O fato é que quando ele ergueu os olhos para ela, tinha neles um brilho que lhe agradava. Um brilho vitorioso, coroado por um sorriso franco, incomum ao ambiente tão esterilizado do esporte.
— É linda, não é? – Andreas tinha os olhos ambiciosos na máquina, e não notou que o piloto dirigia seu olhar para um ponto mais adiante, à mulher que agora conversava com um mecânico sobre qualquer questão prática, a postura altiva e segura fazendo os cantos dos lábios dele se erguerem em apreciação. O diretor buscou o rosto dele, aguardando sua resposta, e só então Daniel percebeu o que fazia.
— É… – ele desviou o olhar de imediato, abrindo um sorriso largo para a própria piada, antes de completar – É linda. – completou, escapando novamente com os olhos para , que dessa vez o observava de volta.
Era exatamente por causa de mulheres como ela que caras como ele perdiam a cabeça.

Daniel chegou ao hotel depois de escurecer. Tinha pousado em Londres pela manhã, e nem tivera tempo de desfazer as malas antes de se encontrar com seu agente no escritório da McLaren, onde passou o dia inteiro sendo apresentado a cada detalhe da engrenagem que fazia funcionar uma das mais antigas escuderias da Fórmula 1. Estava exausto, é verdade, mas também cheio do tipo de energia que apenas um novo projeto era capaz de lhe provocar. Queria correr. Queria ganhar.
E ainda havia … Aquela surpresa que, omitida em seu contrato, enchia-lhe de uma forma diferente de energia. Ele não era mais um garoto, não era como se se sentisse tentado por qualquer mulher atraente que lhe atravessava o caminho – ou talvez, sim, mas não era o caso. Não quando se pegara admirando verdadeiramente o modo como aquela mulher era boa no que fazia. Ouvi-la falar do carro enquanto passava os dedos sobre o capô displicentemente, citar estatísticas sobre performance enquanto o encarava com olhos sérios que não davam espaço para que sequer pensasse em se afastar deles… aquilo havia mexido com sua cabeça.
Jogou-se sobre a cama vestindo o casaco com as novas cores com as quais ainda não se acostumara, deitando-se em um travesseiro que não era seu. Precisava se mudar o quanto antes… Pegou o celular para avisar a seu agente que sairia no dia seguinte para procurar um apartamento, quando viu a notificação na tela: 2 mensagens de Max Verstappen.

Max: acabou de me dizer que você vai trabalhar com a !
recebida às 21:17

Max: hahaha boa sorte!
recebida às 21:18
“Filho da puta”, Daniel riu, revirando os olhos. É claro que a conhecia, como poderia ser diferente? Eram Senna e Ferrari, afinal, os dois maiores sobrenomes do esporte.

Quer dizer todo mundo conhecia a filha do Senna, menos eu?
visto às 21:18

Max: acho que sim! 😀
recebida às 21:19
Max: ela é legal!
recebida às 21:19
‘Legal’ não era a primeira palavra que lhe vinha à mente ao pensar em … Ela era foda no que fazia, isso estava claro. Extremamente competente, caso precisasse colocá-lo em termos adequados. E ainda…

Ela é gostosa pra caralho!
visto às 21:19

Max: é você dizendo, não eu…
recebida às 21:20
Daniel leu a resposta com uma expressão divertidamente incrédula e não conteve uma gargalhada, porque era engraçado ver o amigo assim tão apaixonadinho que era incapaz de falar de outra mulher. Devia ser legal, até. Ou não. Ele gostava bem de sua vida como era…

Hahahahahaha
visto às 21:20
Como está a ?
visto às 21:20

 

Max: bem! Te mandando um beijo e dizendo para tirar o olho da
recebida às 21:21
Tão logo a mensagem chegou, Max apareceu gravando um áudio. Não foi surpresa para Daniel que, quando deu play na gravação, ela trazia a voz da namorada do amigo: “Dan, querido! é gostosa pra caralho, mas é tipo o Saara no quesito quantidade de areia pra esse seu caminhãozinho australiano…”, ela gargalhou junto de Max, antes de continuar “mas eu também sou pro Max, então quem sabe?”, continuou, rindo sozinha dessa vez
Daniel revirou os olhos, gargalhando também, porque aquilo era tão típico deles… não perderia uma chance de implicar com o namorado nem se sua vida dependesse disso, e era o que havia de melhor na época em que os três conviviam mais intensamente: não davam a Max um segundo de paz.

Um cara pode sonhar, Ferrari!
visto às 21:23
Especialmente esse cara…
visto às 21:23

Tirou uma selfie engraçadinha, com uma sobrancelha erguida teatralmente, enviando-a sem se preocupar em aguardar pela resposta. Deixou o celular sobre a mesa de cabeceira antes de tirar o casaco e a camisa, e já se preparava para entrar no banho quando ouviu o aparelho vibrar. Checou a tela, esperando encontrar uma risada de Max, mas se deparou com o nome dela, o próprio Saara.
: Ricciardo, boa noite.
recebida às 21:25
: Amanhã às 9h, ok? Esteja descansado.
recebida às 21:25

A mulher podia sentir o suor marcando sua camiseta pouco a pouco, conforme os minutos se passavam. Não interessava que fosse inverno e o frio obrigasse todos do lado de fora a usarem casacos pesados e cachecóis, debaixo de um carro seria sempre quente e claustrofóbico.
— Inferno! – resmungou, amaldiçoando quem quer que houvesse suspendido tão pouco o esportivo, forçando-a a trabalhar com o nariz praticamente colado ao fundo do carro. Ela inspecionava cada centímetro minuciosamente, certificando-se de que tudo estivesse em ordem para a primeira volta do novo piloto. Piloto este que, se não estava enganada, já deveria estar ali.
A morena escorregou para fora, e ainda estava deitada quando se deparou com a imagem de Ricciardo encostado sobre o capô, o macacão vestido pela metade deixando evidentes os músculos sob a camiseta de malha preta. Ele ficava bem nas novas cores.
— Vejo que não deu tempo mesmo de terminar de se vestir… – indicou com um dedo o torso do rapaz – Está atrasado. – ela se levantou com a facilidade de quem estava acostumada a fazer aquilo com frequência e limpou as mãos sobre o jeans antes de postá-las sobre a cintura, encarando o homem como se esperasse uma explicação. Não que esta fosse, de fato, sua intenção com o ato, mas algo na atitude dela inconscientemente parecia intimidar as pessoas. Bem, algumas.
— Ah, desculpa… Eu não sabia que deveria te encontrar embaixo do carro… – Ricciardo respondeu de pronto, abrindo um sorriso quando ergueu as sobrancelhas. Havia algo tão natural e honesto no modo como ele sorria, que a revirada de olhos da mulher veio acompanhada de um discreto erguer de lábios. Seria uma convivência curiosa, aquela que iniciavam – Eu te trouxe café. – explicou a real razão do atraso, estendendo para a mulher um copo de papel com a inicial dela em caneta esferográfica preta.
— Isso não vai livrar sua cara, Ricciardo. – devolveu, mas destampou o copo no mesmo instante, tomando um gole com os olhos fechados – É canela? – perguntou, recebendo um aceno satisfeito em resposta. Estar atento aos detalhes fazia parte do trabalho de Daniel, e bastou uma vez para que reparasse em como gostava de seu café: quente, forte e com uma nota discreta de exotismo. Café era, aliás, era uma boa metáfora para outros aspectos da vida da mulher. Mas isso era muito até mesmo para a percepção aguçada do piloto – Enchanté. – agradeceu, forçando um sotaque francês, visto que ele acabara de passar os dois últimos anos numa escuderia francesa, e ela não perderia a chance de debochar de um adversário, sob nenhuma hipótese.
— Você acabou de me xingar? – Daniel ergueu uma sobrancelha, já que seu francês se resumia a “voulez vous coucher avec moi, ce soir”. E ele nem mesmo sabia o que isso significava, mas funcionava com as mulheres em Mônaco.
— Eu vou deixar você descobrir. – respondeu, erguendo aqueles olhos espertos na direção do rapaz, e ela poderia estar zombando dele pelo como mordia o sorriso, mas ele ainda assim se viu sorrindo junto. O que quer que fosse, soava bem na voz dela.
— Eu falei com Max ontem à noite, ele disse que você e são amigas. – comentou, lembrando-se da conversa no dia anterior, tentando puxar qualquer assunto para descobrir o lado “legal” mencionado pelo amigo. Por enquanto ele se sentia apenas quase intimidado, o que seria de fato, caso não fosse um belo cara de pau.
— Sim. Dos dois, na verdade… – sorriu sem mostrar os dentes, sem notar a expressão de traído no rosto de Daniel. Max lhe pagaria por nunca ter tido a decência de lhe apresentar aquela mulher, e ter lhe enchido com uma dúzia de colegas enjoadas de – É uma longa história. – ela encerrou o assunto de pronto, deixando seu copo sobre a mesa – E nós estamos atrasados.
— Sim, senhora. – Daniel acenou uma vez com a cabeça, para enfim se desencostar carro, vestindo a parte superior do macacão bem como as luvas que trazia no bolso. Ali, ele se transformava em Daniel Ricciardo, o maior especialista em ultrapassagens da atualidade – Então é hoje que eu dou uma volta com essa coisa linda? – Daniel perguntou, aproximando-se do carro e dando mais uma olhada na máquina, sentindo a empolgação começar a crescer em seu interior e eletrizar as pontas de seus dedos, ansioso por tê-los em torno do volante.
— Tá mais para o contrário. – sorriu de canto, entregando-lhe um capacete de treino inteiramente amarelo, o que despertava na mulher velhas e doces lembranças. Ricciardo o vestiu, encarando-a através da viseira, e não precisava ver seus lábios para perceber o sorriso bonito que lhe alcançava os olhos: talvez dentro do piloto, houvesse ainda o garoto que só queria se divertir – Eu vou ser a voz na sua cabeça – a mulher devolveu um sorriso de canto, dando um tapinha na lateral do capacete – Agora vá correr.

Não havia nada mais satisfatório do que dirigir um Fórmula 1, isso era unanimidade entre todos os felizardos que tiveram a honra da experiência. Daniel não era diferente, amava tudo sobre aquela sensação: a vibração do motor do carro sob seu corpo, o toque do volante entre os dedos, o cheiro de gasolina que lhe acompanhava desde a infância e, é claro, o som alucinante das acelerações e freadas, que lhe acalmava e excitava em iguais proporções. Andar em um carro novo pela primeira vez, no entanto, era quase como um primeiro encontro: algo receoso, com alguns tropeços naturais, mas surpreendente e instigante a cada descoberta.
E uma certeza ele tinha, logo após a primeira volta: aquele encontro era promissor.
Isso, garota! – exclamou, logo após forçar o carro em uma curva fechada, aguardando para ver como ele responderia e se satisfazendo com a estabilidade apresentada.
— Hm, perdão? – abriu o rádio, e a voz feminina carregada daquele sotaque charmoso era algo com o que Ricciardo sentia que poderia se acostumar com facilidade. Nada contra seu antigo engenheiro, mas era uma vitória fácil. Com o perdão do trocadilho.
— Não foi com você, . – o piloto não conteve uma risada, iniciando uma volta mais lenta, apenas para sentir o carro, saboreando cada metro percorrido.
— Não me diga que você é daqueles que trata seu carro como uma garota, Ricciardo… – a voz dela era divertidamente pesarosa entre o chiado do rádio. A gargalhada do piloto não demorou a soar nos ouvidos da mulher, e revirou os olhos, sorrindo já que ele não podia vê-la: é claro que ele era.
— Não só como uma garota, a garota que eu amo. – ele pressionou o volante de forma quase carinhosa, começando a desacelerar em direção à garagem, estacionando próximo de onde a mulher lhe aguardava – E eu estou apaixonado! – ele saltou para fora do cockpit, arrancando o capacete apenas para lançar um sorriso aberto para a mulher – Ela é incrível. – completou, arriscando mais um olhar para a máquina.
revirou os olhos enquanto tirava os grandes fones de ouvido, mas a animação do piloto era tanta que ela não teve coragem de contradizê-lo. E, fosse “ele” ou “ela”, formaram uma boa dupla aqueles dois.
— Pode se despedir da sua amada agora, precisamos analisar a telemetria. – avisou, retomando o tom profissional.
— Qual seu signo? – Ricciardo perguntou de súbito, enquanto os dois caminhavam até os computadores que apresentavam gráficos complicados que ele conseguia ler, com alguma dificuldade, mas que aos olhos de se traduziam em uma centena de conclusões às quais ele nunca chegaria sozinho.
— Você acredita nessa bobagem? – retrucou, olhando para ele como se o rapaz fosse um louco da melhor espécie. Ao vê-lo erguer as sobrancelhas, aguardando, respondeu sem a menor paciência, a fim de encerrar aquele assunto o quanto antes – Capricórnio.
— Ah, eu sabia!! – ele estalou a língua, sorrindo presunçoso – Isso é muito capricórnio! – deu de ombros como se fosse muito óbvio! Os olhos de piscaram devagar, encarando aquele homem de 1,80 se altura falando sobre signos, e ele se quebrou em uma risada – Não, eu não acredito nessa bobagem… – parafraseou a mulher, correndo um pouco para alcançá-la – Só queria arrumar uma desculpa pra sua falta de senso de humor. –o sorriso agora era tão largo que quis bater nele por ser tão bonito em momentos inapropriados, como ali, fazendo uma piada digna de um garoto de 13 anos.
— Eu sei que essa é a parte chata, mas isso ainda é trabalho, Ricciardo. – comentou, sentando-se na cadeira diante de um monitor duplo apenas para começar a abrir uma série de programas complexos que mostravam uma dezena de linhas de dados.
Yes, ma’am. – ele maneou a cabeça, respirando fundo ao puxar uma cadeira, gostando um pouco mais do que deveria daquele lugar, ao lado dela – Ei, . – chamou, sem conter a língua dentro da boca, quase rindo do modo como ela cerrou os olhos, reunindo paciência. Ao menos não era como Lando, e aquela idiotice de Jarvis… Ela podia lidar com . – Pode me chamar de Daniel.
— Carlos foi Sainz até o dia em que foi embora daqui. – ergueu minimamente os lábios, encarando-o por um segundo antes de desviar os olhos, sorrindo mais largo ao completar – Então eu não esperaria por isso, Ricciardo.

 

Nota da Autora:
Eu nem acredito que tô aqui de volta, de verdade… Grand Prix surgiu há TANTO tempo!!! De alguma forma esse plot nunca morreu pra mim – fala sério, eu precisava escrever com a filha do Senna em algum momento da vida! A volta da temporada da F1 trouxe de volta meu amor (leia-se surto) pelo Dan, e o que temos como resultado é o retorno dessa fic, dessa vez com algo que ela nunca teve antes: um roteiro prontinho do começo ao fim!!
Por isso, dessa vez, eu prometo: venham comigo, vai valer a pena!!
Tô completamente apaixonada por esses dois, e espero de verdade que eles também ganhem os coraçõezinhos de vocês!!
Ah! Allegra e Max terão em breve uma história só deles, mas isso eu deixo pra Carol contar! <3
Sugestões e críticas são muito bem-vindas! Vou amar saber o que vocês acharam desse (re)começo! Me conta aqui embaixo, realmente faz meu dia!!
E eu não poderia de jeito nenhum ir embora sem agradecer às melhores pessoas do mundo, que se empolgaram junto comigo em mais essa aventura doida: elas sabem quem são! Grand Prix também é de vocês, e pra vocês! <3
Beijinhos, e até a próxima!
Belle.