Lagom

Sinopse: “Lagom” é uma palavra sueca que, em tradução literal, significa “o suficiente”.

Para Marco Asensio, o suficiente era o que ele estava vivendo. Aos 23 anos, jogando em seu time do coração ao lado de grandes nomes do futebol, comandado por seu ídolo e conquistando títulos sequencialmente, além de ser integrante da seleção espanhola de futebol. Amado e aclamado pelos torcedores do Real Madrid e pelos espanhóis quando na seleção. Para Marco Asensio aquilo era o suficiente.
Para Veronica Hidalgo, o suficiente era o que ela estava vivendo. Aos 25 anos trabalhando em sua amada profissão, cobrindo o esporte que mais ama desde que era uma criancinha em Madrid, cobrindo o time de seu coração em um jornal de reconhecimento mundial, vendo seu nome estampar grandes notícias, sendo citada e repostada e ganhando prêmios na profissão. Respeitada e admirada por colegas, superiores e por esportistas. Para Veronica Hidalgo aquilo era o suficiente.
Para a vida… Ah, para a vida eles eram apenas duas pessoas se bastando sozinhas, mas ainda precisavam encontrar-se como o Lagom na vida um do outro: nem muito, nem pouco, apenas o suficiente.
Gênero: Comédia romântica
Classificação: 16 anos. Contém linguagem imprópria, consumo de drogas lícitas e insinuação ao sexo
Restrição: É escrita com o jogador Marco Asensio do Real Madrid, os demais jogadores do elenco são fixos, e se passa na temporada 2019/2020. Alguns nomes estão em uso e são fixos.
Beta: Regina George

Capítulos:

Prólogo

23 de julho de 2019

segurava sua cerveja e observava a televisão do bar totalmente incrédula com o que estava assistindo. Tudo bem, o time está em pré-temporada, mas é inadmissível que o Real Madrid cogite perder para o Arsenal em qualquer momento que seja.
E, pra piorar, o time estava perdendo por dois a zero, gols feitos por Lacazette e Aubameyang! E Nacho fora expulso logo no começo do jogo quando colocou a mão na bola dentro da área para cortar um cruzamento, mas acabou cedendo o pênalti, que foi o primeiro gol da equipe londrina, pouco depois aconteceu o segundo, pelos pés do francês Aubameyang.
queria arrancar os olhos de alguém.
Os do Zidane, talvez. Ou os dos jogadores. Ou os de todos eles e o de Florentino Pérez junto. O time com jogadores de nome, importantes e caríssimos perdendo praquele time limitado do Arsenal? Era de causar revolta até no mais pacífico dos torcedores.
O Real Madrid vinha de uma derrota por 3 a 1 para o Bayern de Munique, além de uma intriga envolvendo Gareth Bale (que tinha se tornado uma persona non grata para os torcedores do Real Madrid) e seu descomprometimento para com o time (não quis atuar contra o time bávaro).
Não havia um madridista que não estivesse com vontade de mandar Gareth Bale para o pior de todos os campeonatos existente no mundo e nunca mais vê-lo. Mesmo depois do galês ter sido tão importante para a conquista de quatro Champions Leagues, mas se ele não conseguia ser grato ao time que tinha lhe dado tudo, os torcedores também não lhe seriam gratos.

– Você está brava demais pra um jogo de pré-temporada e que não vale nada de verdade, . – Cora falou, rindo.
– É inadmissível que o Real Madrid perca para o Arsenal. Mesmo que seja na pré-temporada e que eles estejam todos molengas!
– Relaxa, . – Cora ainda ria da amiga.
– Eu odeio futebol. – resmungou, voltando a beber sua cerveja.
– É apenas a pré-temporada, amiga.
– Se na pré-temporada já estamos ruins assim, imagine durante a temporada?
– Olha, agora estamos os dois times com dez jogadores. – Cora apontou para a televisão, onde o árbitro expulsava um jogador do Arsenal. – E é o zagueiro, já ajuda muito…
– Apenas um milagre pode salvar o Real Madrid dele mesmo.
Poucos minutos depois, o jogo foi para o intervalo e as duas permaneceram bebendo, observando o pouco movimento do bar naquele dia de jogo, mas entendível, afinal, pré-temporada não costuma encher bares e as pessoas costumam assistir aos jogos em suas casas.
Quando o jogo retornou para o segundo tempo, Zidane tinha seis substituições a fazer, sem contar a que fizera logo quando Nacho fora expulso. Courtois, Odriozola, Marcelo, Bale, Isco e estavam preparados para entrar em campo.
esperava que eles fizessem algo em campo, porque era preciso. Mesmo que seja um torneio de pré-temporada, é importante que o time tenha motivação, afinal, mesmo não sendo uma competição de verdade, poder dizer que conseguiram ter uma pré-temporada boa o suficiente para vencer vários times que estarão disputando coisas importantes durante a temporada regular.
À beira do campo da Fedexfield, em Maryland, esperava fazer um bom jogo. Precisavam vencer, já tinham perdido o primeiro jogo contra o Bayern de Munique por 3 a 1, os torcedores estavam pouco confiantes e para os jogadores aquilo era horrível. Odiava sentir-se desvalorizado e desacreditado, então teriam que fazer valer a pena aquela viagem para a pré-temporada.
Com seis minutos em campo, deu um chute forte de fora da área, mas a bola bateu no travessão, a bola ainda voltou no zagueiro Varane, que estava na área, mas o zagueiro do Arsenal desviou a bola para escanteio, mas não deu em nada.
Aos dez minutos do segundo tempo, Gareth Bale abriu o placar para o time madrilenho, depois de uma pequena confusão na área: Marcelo cruzou, Isco recebeu e tocou para , travado pelo goleiro, mas na sobra o galês u.
comemorou, também. Se pressionassem bem, podiam empatar e virar o jogo, o Arsenal estava deixando o Real Madrid gostar do jogo.
E, três minutos depois, foi a vez de fazer seu gol, após uma assistência de Marcelo, de primeira, o camisa 20 deixou tudo igual no placar e saiu comemorando com o lateral brasileiro.
Mas, seis minutos depois de marcar o gol do empate, em uma dividida de bola com Aubameyang, pisou errado e caiu de quatro, batendo os joelhos na grama, sentindo dor, gritando e pedindo ajuda.
Cercado pelos amigos de time, reclamava da dor terrível em seu joelho esquerdo, chorou e implorou na direção do banco para que os médicos do time fizessem algo que o ajudasse.
O primeiro a se aproximar foi Odriozola, seguido por Luka Modric, Varane e Sergio Ramos, todos nos dois primeiros segundos que se seguiram à queda de ao solo e enquanto ele sentia como se sua perna tivesse sido arrancada de seu corpo, tamanha dor que lhe atingia no momento.
E, enquanto os médicos o atendiam, Sergio Ramos, o capitão do time, estava abaixado ao seu lado, tentando fazer ficar um pouco mais calmo, falando com uma calma que parecia nem pertencer ao zagueiro, ele acalentava o mais novo, que ainda se debatia e pedia ajuda, porque a dor estava lancinante.
Ao olhar para Jaime Abascal, o médico do time, se deu por vencido, colocou a camisa sobre o rosto e começou a chorar desesperado. Pela expressão do médico, aquilo não tinha sido nada bom e, pela dor que sentia, era algo absurdamente grave.
bateu no solo, gritou, reclamou de dor e quando o puseram na maca para carregá-lo até o vestiário – porque ele não conseguia nem mesmo sentar-se, o meia voltou a cair no choro. Não queria ter que passar por aquilo, não aguentava a dor que lhe atingia no joelho esquerdo, tampouco a de seu coração aflito ao ser atingido pela gravidade do que tinha acontecido.
Sua vida profissional ia tão bem! Estava na seleção, jogando no maior time do mundo, jogava bem, os torcedores o admiram muito e o valorizam de um jeito que faz sentir-se bem, sempre procurando melhorar e aprender com os treinamentos para não desapontar Zidane, os torcedores e à mãe, que tinha sido uma enorme entusiasta de seu futebol enquanto viva.
Ele estava no Real Madrid, como ela tinha previsto e dito à Florentino Perez muitos anos antes. Agora ele estava a caminho do vestiário para uma análise médica que definiria o quão grave tinha sido a lesão e se algum procedimento seria necessário.
De longe, preso em seus próprios pensamentos e revendo sua vida passar diante de seus olhos, ouvia Jaime conversando ao celular e falando algo sobre ligamentos, menisco e cirurgia. imaginava, mas não queria crer, que sua temporada tinha chegado ao fim antes mesmo de começar.
Precisava ligar para o pai e para o irmão, precisava que eles ficassem calmos, ainda que ele mesmo não soubesse como fazer isso por si. As ligações foram rápidas, estava chorando demais e aquilo provavelmente tinha apenas alarmado os dois ainda mais. E, além disso, precisava terminar de ser examinado para ter total certeza do que aconteceria e só então ligaria para os dois de novo e conversariam.
O Real Madrid voltou a pressionar e se o goleiro Emiliano Martínez não estivesse tão empenhado, o terceiro gol poderia ter saído menos de cinco minutos depois do empate. E a pressão continuou até o final, mas nada fez com que o placar mudasse.
Os times disputaram pênaltis para definir quem levaria os pontos da partida e, por 3 a 2, o Real Madrid venceu. Os madridistas comemoraram a vitória, mas, apreensivos com o ocorrido com .
E, quando o Real Madrid postou a nota informando sobre a lesão de e sua cirurgia, sentiu-se absurdamente triste, tanto pelo time que perderia um jogador excelente e que tinha qualidades em campo que seriam fundamentais, quanto pelo jovem jogador que passaria por uma cirurgia tão delicada e complicada.
Restava aos dois apenas torcer para que tudo desse certo.

Un

“No pensé que encontrarte era mi destino…” (Juanes ft. Sebastian Yatra – Bonita)

MARCA.com, Avenida de San Luis, Madrid, sexta-feira, 16 de agosto de 2019

– Hidalogo, Valdebebas. Agora. Montero já está lá pra fazer as imagens. – ouviu o chefe falar e suspirou.
Não que odiasse ir à Valdebebas, de forma alguma, mas preferia ficar na redação naquele dia, terminaria de pesquisar algumas coisas pra uma série que começariam a postar no site e isso estava lhe ocupando tempo suficiente, não precisava de interrupções que a fariam ter que trabalhar dobrado.
Podiam ter mandado outra pessoa, mas Sacristán tinha seus motivos para querer que a mulher fosse a enviada para o centro de treinamento do Real Madrid: é sua melhor jornalista e aquela seria a coletiva que precedia o início oficial da temporada 2019/2020.
era uma das melhores jornalistas da Espanha e o redator gostava de sua obstinação, de como ela se fazia presente e se impunha, mas sem ser grosseira ou maltratar as pessoas. Sabia que ela seria quem faria a diferença naquela coletiva, provavelmente seria a responsável por fazer as melhores perguntas e porque tinha o olhar apurado para várias coisas que passavam batido por outros repórteres.
Desligou o computador antes de levantar e sair da redação, em busca do próprio carro para que pudesse sair para a Ciudad Real Madrid, mas não sem antes comprar algo para comer antes de chegar ao centro de treinamento, não sabia quanto tempo demoraria até conseguirem comer algo e estava realmente com fome.
Seguiu ouvindo músicas e pensando em que poderia ser dito na coletiva, além do que poderia ser visto nos treinos. Tinha a mente trabalhando a milhão, criando vários cenários e perguntas, principalmente por ser a coletiva que precedia o primeiro jogo oficial da temporada, depois de uma pré-temporada pouco proveitosa, existiam as dúvidas sobre a janela que ainda não estava fechada, sobre a lesão de , sobre a possível punição que Dani Carvajal poderia cumprir… Deus! Odiava ser mandada para coletivas sem um mínimo de preparo.
– Identificação. – o porteiro pediu e mostrou o crachá do Marca, vendo o homem anotar algo e entregar um papel para que deixasse no painel do carro, bem à vista, no estacionamento.
seguiu até o estacionamento e deixou o carro na vaga que o papel entregue pelo porteiro indicava, deixou o papel sobre o painel, pegou as coisas que precisava e saiu do carro, andando pelo curto caminho até o campo em que alguns dos jogadores finalizavam o treinamento. Não estavam todos por ali e começou a tomar notas mentais antes de encontrar com Rafael Montero, seu colega de trabalho, e tentar descobrir o que tinha acontecido durante o treino.
Observou David Bettoni, auxiliar técnico, conversava com Vinicius Junior, Marcelo e Luka Jovic, fazendo gestos comedidos e falando baixo, recebendo acenos dos três jogadores. Ainda em campo, Isco, Sergio Ramos, Dani Carvajal e Lucas Vazquez conversavam e riam de alguma coisa enquanto davam pequenos toques em uma bola que estava com o grupo. O treinamento sério tinha acabado, então aquelas imagens não diriam muita coisa aos telespectadores que as assistissem e nem aos jornalistas presentes.

– Montero. – cumprimentou e o homem a olhou, sorrindo.
– Oi , achei que faria só imagem hoje. – Montero respondeu, dando um sorriso simpático.
– Sacristán me mandou de última hora. – respondeu e Rafael deu uma risada pelo nariz.
– É bem a cara dele te mandar de última hora, porque você é o cérebro pensante daquela redação. – riu. – Vai pra Vigo?
– Estou de folga. – deu de ombros. – E então, o que aconteceu?
– Treino fechado, pegamos só o rondo final e algumas brincadeiras dos jogadores, nada de treino, essa parte o Zidane fez fechado.
– E nesse rondo faltou alguém além dos que a gente já sabe que estão fora?
– Não. Só os que já sabíamos mesmo.
– Carvajal?
– Participou do rondo. Alguma notícia da suspensão?
– Nenhuma, mas é provável que nem entre em campo, acho que Zizou não vai correr riscos e escalar um jogador que pode dar problemas… – respondeu.
– E sobre a janela?
– Nada concreto. A novela Pogba continua, mas duvido que isso saia do plano do querer nessa temporada. – respondeu, dando de ombros. – Acho que vai ser isso mesmo, esse plantel e só.
– Bale ficou…
– Não sei se isso é bom ou ruim. – soltou uma risadinha pelo nariz. – Você está no seu carro?
– Uber. – deu de ombros.
– Ótimo, voltamos juntos então. Vim de carro. – falou, observando o pequeno grupo de jogadores brincar entre si.
As brincadeiras não serviam pra nada além da nota que poderia inserir sobre o bom clima entre o elenco, mesmo que aquela fosse uma panelinha de jogadores antigos e não dos recém-chegados.
Um pouco depois seguiram para a sala de imprensa em que Zidane concederia a coletiva. tomou um lugar na segunda fileira de cadeiras, deixando Rafael mais ao fundo com a câmera e abriu o notebook, ligou o gravador do celular e abriu o site do Marca, teria que mandar as informações em tempo real e esperava conseguir fazer aquilo sem surtar. Já tinha sua pergunta em mente e torcia para que ninguém fizesse a mesma pergunta que ela ou então entraria muda e sairia calada da coletiva.
E esperava que Zidane estivesse de bom humor.
As perguntas começaram e o francês respondia com habilidade, da mesma forma que anotava as perguntas feitas e as respostas dadas. Em algumas das perguntas sentiu vontade de se enfiar num buraco de vergonha, não era possível que as pessoas achassem mesmo que Zinedine Zidane responderia a alguma daquelas coisas e muito menos acreditava que tinham mesmo coragem de fazer perguntas tão idiotas.
Perguntaram sobre jogadores que não compõem o elenco, sobre vida pessoal de alguns dos jogadores, fizeram insinuações e Zidane parecia estar realmente se segurando pra não xingar um palavrão e mandar as pessoas terem um pouco mais de respeito, bom senso e competência.

– Olá, Mister. – falou, erguendo a mão, e Zidane lhe deu um sorriso sem mostrar os dentes, mas aliviado por tê-la ali, já tinha visto em várias coletivas e sabia que ela não faria perguntas idiotas. – Não sabemos como ficará a situação de Carvajal, tampouco podemos espelhar a temporada no que foi a pré-temporada em que os jogadores novos ainda não possuíam entrosamento entre si, jogadores chegaram, jogadores saíram, jogadores ficaram, está lesionado… mas há nomes incríveis no plantel e muita especulação já que a janela ainda não fechou, mas quero te perguntar sobre o jogo de amanhã.
– Finalmente. – Zidane deu uma risadinha nasalada.
– O Celta entrará em campo muito bem reforçado, foi um time que também investiu muito e montou uma excelente equipe, e, além disso, entrarão com muita vontade de vencer para, além de começar bem a própria temporada, ser uma pedra no sapato do Madrid em uma possível caminhada pelo título, sei que você sabe disso, que estudou tudo muito bem, mas há alguma preocupação em específico?
– Se eu te contar eu perco o elemento surpresa… – Zidane brincou, dando uma risada e fazendo os presentes rirem. – Mas eu concordo, o Celta se reforçou muito bem, temos as preocupações habituais e algumas pontuais, conversei com todos os jogadores e treinamos algumas coisas específicas, acho que teremos um bom jogo no aspecto técnico e espero que consigamos a vitória.
sorriu agradecida, recebendo um sorriso amistoso do treinador francês, e foi escrever a resposta. A coletiva ainda duraria mais alguns bons minutos e ela tinha muito o que fazer.

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Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, sexta-feira, 16 de agosto de 2019


estava deitado na maca e queria muito chorar, mas não parecia adequado fazer aquilo naquele momento.
Sentia dor desde a cirurgia e ainda estava com o joelho inflamado, precisava começar aos poucos, com massagens e coisas que ajudassem a desinflamar o joelho e desinchar a região antes de começar a movimentar e fortalecer a perna para voltar a andar sozinho, sem cadeira de rodas e sem muleta.
Mas também tinha total consciência de que não adiantava nada ficar desesperado para voltar a jogar em cinco dias, isso não aconteceria. Ele, primeiro, tinha que vencer a inflamação e o inchaço, a rigidez, depois andar, conseguir se mover sem muletas, andar sem mancar, fortalecer músculos, correr, pegar condicionamento físico… demoraria bastante, ele sabia.
Mas, mesmo sabendo, ainda estava frustrado com toda a situação, ainda que não seja sua culpa e que não tenha sido ele o responsável pela lesão (tampouco Aubameyang era o culpado), sentia-se mal com a lesão, com as dores e com a situação toda que o envolvia. O time viajaria pra Vigo na manhã seguinte, mas ficaria em Madrid para fazer a fisioterapia, exames e para cuidar do próprio corpo.
Era triste, mas não podia reclamar e nem fazer nada para mudar aquela situação. Ele não tinha uma máquina do tempo para voltar em julho e não se machucar, então lhe restava apenas aceitar e fazer o que estava ao seu alcance. Passaria por aquilo, mesmo que, no momento, tivesse certeza que não tinha forças para tanto.

, por hoje vamos encerrar. – ouviu Niko Mihic, o chefe dos serviços médicos, falar e assentiu. – Amanhã de manhã vamos repetir os exames depois dessa técnica de hoje e ver como as coisas ficaram e como evoluirão para o restante do tratamento.
– Tudo bem. – respondeu, suspirando de alívio e desapontamento.
Com ajuda dos fisioterapeutas, desceu para a cadeira de rodas que ainda o acompanharia por algum tempo durante aqueles meses, sendo guiado pelo pai pelos corredores do centro de treinamento até o estacionamento.
Mas foram interrompidos quando uma pessoa tropeçou na cadeira de rodas e caiu. Por sorte, assim pensou, foi só ela quem caiu e ele continuou intacto. A mulher estava no chão, sentada e parecia conhecida… ele tinha quase certeza. Foi quando ela tirou os cabelos do rosto que ele conseguiu ver com clareza que sim, ele a conhecia.

Flashback
Madrid, quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

dirigia a caminho de Valdebebas, ouvia um reggaeton animado e cantava palavras soltas da música que ele não tinha certeza se sabia qual era, batucando o volante, sem tirar os olhos da rua, totalmente atento ao que fazia e sem muita pressa, estava com tempo, o horário era vantajoso e o sentido em que seguia também.
Estava atravessando um cruzamento, em que a preferência era sua, quando ouviu o barulho e sentiu o impacto, fazendo o carro sacudir e parar. Nada que o machucasse, mas os airbags abriram e teve certeza de ter escutado um vidro se partindo em algum lugar, mas não sabia se era o de seu carro e precisava se livrar daquele airbag. Merda, precisaria ligar para o seguro também e para o guincho. E pedir um Uber pra terminar o caminho até Valdebebas.
Quando finalmente saiu do carro, percebeu a mulher que estava parada ao lado do outro carro – que estava bem destruído – e falava ao celular. A expressão derrotada fez sentir pena, então aproximou-se da mulher e começou a observar as pessoas que estavam parando para ver o que tinha acontecido.

– Oi. – falou, aproximando-se. – Você está bem?
– Ai meu Deus. – ela resmungou. – Eu não acredito que bati no carro de um jogador de futebol!
– Você está bem? – repetiu.
– Estou. E você?
– Também, só assustei com o barulho e o impacto. – falou e a olhou atentamente, percebendo que ela tinha alguns pequenos cortes de vidro do lado esquerdo do rosto, alguns no pescoço e no braço. – Você está sangrando.
– É, estourei todos os meus vidros. – resmungou. – E seu carro mal amassou!
– Pare de andar, por favor, eu vou chamar uma ambulância e você vai ao médico. Pode ter fraturado alguma coisa com a batida.
– Chamei a polícia e o guincho do seguro, preciso falar com eles antes de ir pro hospital. Você deveria ligar pro seu seguro também. E pro time pra avisar que aconteceu um acidente.
– Qual seu nome? Eu sou , mas pela sua reação, você me conhece.
. – respondeu educada. – E sim, eu te conheço. , por favor, me perdoe. De verdade. Não tive intenção de bater, eu juro! Eu estou atrasadíssima pro trabalho e acabei pisando com mais força no acelerador do que deveria.
– Não se preocupe, eu estou bem e não me aconteceu nada. Estou preocupado com você, porque você está sangrando, mesmo que pouco, e pode ter lesionado alguma coisa.
– É, mas você precisa ir ao médico do time e fazer exames pra ter certeza que não se machucou. Eu espero que não, imagina se o Real Madrid me processa! Eu não tenho como arcar com o preço que um arranhão em você deve valer!
– Não se preocupe com isso, . – falou num tom sereno. – Vou ligar pro seguro e pro time, avisar sobre o ocorrido e nós vamos ao hospital, você está sangrando e pode ter machucado mais do que acha. Eu vou para Valdebebas depois que você passar pelo hospital.
– Não precisa disso.
– Precisa, porque você está sozinha e se precisar de alguma coisa, um acompanhante pode ser útil. Quando chegarmos lá, você pode ligar pra outra pessoa te acompanhar, se isso te fizer sentir mais segura.
– Não vou causar problemas no seu relacionamento? – perguntou e olhou sem entender. – A irmã do Sergio Ramos…
– Não somos namorados. – suspirou. – Tiraram fotos muito tendenciosas, foi apenas uma coincidência termos nos encontrado. E quando saímos da boate, saímos juntos, porque eu estava sóbrio e de carro, a deixei em casa e fui pra minha.
– Você não precisa me explicar nada disso. – deu de ombros. – Ai.
– Pare de se mexer, vou chamar a ambulância. – falou sério e a mulher assentiu, vencida.

– Você gosta de bater nos meus meios de locomoção. – brincou, dando um sorriso, e a mulher sorriu de volta, ainda sentada no chão.
– E nas duas vezes a culpa foi minha. – riu. – Eu te machuquei?
– Não, , eu estou bem. E você? Machucou?
– Menos do que da primeira vez. – falou rindo baixo. – Desculpa.
– Tudo bem.
– E como você está?
– Melhorando. – sorriu pequeno e ficou de pé, ajeitando a roupa e os cabelos.
– Não vou mencionar nosso incidente na matéria do dia, eu juro. – brincou, fazendo rir. – E fico feliz por você estar melhorando e já estar aqui pra tratamento. As coisas vão demorar um pouco a voltarem ao normal, mas é ótimo que você esteja em tratamento. Principalmente com médicos tão competentes.
– Eu também acho. – sorriu. – É um pouco frustrante, mas vou com calma, um objetivo por vez e tenho esperanças de que tudo dará certo.
– Todos temos. – sorriu simpática.
– Eu sinto muito interromper o momento… – Gilberto, o pai de , se pronunciou. – Mas precisamos mesmo ir, , ou vamos nos atrasar.
– Desculpe a falta de educação. – falou, estendendo a mão para cumprimentar o pai de . – Eu sou , a responsável pela batida no carro de em 2018.
– Oi . – Gilberto sorriu, cumprimentando-a. – Você não se machucou mesmo?
– Estou bem, só estava desatenta. E quase machuquei vocês dois.
– Quase não senti o impacto. – brincou. – Agora precisamos mesmo ir. Nos falamos depois.
– Estou torcendo pela sua recuperação, .
. Me chame de . – falou, sorrindo sincero, e assentiu.
– Agora preciso correr e encontrar meu colega, ainda tenho que voltar pra redação.
– Precisa de carona?
– Não, obrigada. – sorriu.
– Cuidado pra não esbarrar em mais ninguém. – brincou.
– Aparentemente, eu só causo acidentes com você. – deu uma risadinha e acenou em despedida.
– Certeza que não sentiu nada? – Gilberto perguntou e assentiu.
– Tudo bem, pai, não sinto mais dor do que já estava sentindo. – deu de ombros. – Agora precisamos mesmo ir, porque a terapia começa daqui a pouco.

Dos

“Hay que empezar de cero para tocar el cielo…” (Shakira – Waka Waka)

Estádio Municipal de Balaídos, Vigo, sábado, 17 de agosto de 2019

não estava nem um pouco feliz.
Deveria estar de folga, mas foi tirada de seu dia em paz e sossego para viajar às pressas para poder cobrir o jogo do Real Madrid em Vigo. Um dia particularmente cinzento, nublado e abafado na Galiza. Faria comentários para o Marca Radio e entrevistaria os jogadores ao final da partida, além de fazer a coletiva de Zidane.
Teria três dias de folga na semana seguinte, o fim de semana todo, mas, naquele momento, para as folgas cumuladas não valiam a pena. Foi tirada de casa às pressas e seguiu para Vigo sem a menor vontade, pois o responsável por cobrir o jogo estava doente e não poderia trabalhar, então esperava que o jogo pelo menos fosse bom, que o Real Madrid vencesse muito bem e fizesse valer aquela viagem a trabalho que nem mesmo estava em seus planos.
Eden Hazard, de última hora, cortado para o jogo e ficaria parado por um mês, dando espaço para Vinicius Junior iniciar jogando. estava animada pelo jovem jogador iniciar a partida, além de gostar muito dele, sabia que Vinicius é um excelente jogador e que só tende a acrescentar ao plantel.
Aos doze minutos do primeiro tempo, Gareth Bale cruzou a bola rasteira na área e a intenção era de encontrar Vinicius Junior, mas foi Karim Benzema quem mandou a bola pra rede, abrindo o placar do jogo. comemorou o gol animada e só depois lembrou de que estava trabalhando, comentou sobre a jogada e voltou sua atenção ao campo. Esse é um dos motivos pelos quais odeia cobrir jogos do Real Madrid em campo, acaba sempre comemorando demais.
Aos trinta minutos, quase o Celta de Vigo empatou, uma bola alçada na área não foi alcançada pelo atacante do time da casa e passou bem próximo ao goleiro Thibaut Courtois, que não conseguiu alcançar, mas, por sorte, a bola não entrou. Em resposta, pouco depois, Luka Modric quase u o segundo gol do time visitante, mas o goleiro Rubén Blanco estava atento e evitou que o Real Madrid ampliasse o placar.
Faltando poucos minutos para o fim do primeiro tempo, foi a vez de Benzema dar um passe perfeito para Gareth Bale, mas, novamente, o goleiro Blanco salvou o que seria o segundo gol do Madrid. E, em resposta, o Celta de Vigo partiu para o ataque depois do escanteio e passando pelo lateral Odriozola, Denis Suárez entrou na área, entregou a bola para Iago Aspas, que foi puxado e caiu, mas o jogador Brais Méndez entrava livre e u o gol.
A comemoração do Celta de Vigo durou pouco, o juiz foi chamado pelo VAR e anulou o gol do time da casa, pois Iago Aspas estava impedido na jogada dentro da área. O intervalo do jogo chegou e a vantagem madrilenha ainda era pequena, mas pelo menos era uma vantagem.

– Deram o gol para o Benzema, mas pra mim, pelo que vi, o gol foi feito pelo Vinicius Junior. – falou no microfone, pouco depois dos times saírem de campo.
– Pela imagem também pareceu, mas deram o gol para o francês… – o narrador respondeu. – E o que você achou dessa jogada do final do primeiro tempo, ?
– Uma bagunça. O sistema defensivo do Madrid parece ter apagado. A sorte da defesa é que o VAR chamou o juiz e o gol foi anulado, foi uma bagunça desde que Suárez passou pelo Odriozola como se não tivesse ninguém marcando, depois conseguir entrar na área, ser puxado e ainda conseguir tocar a bola… Outro ponto absurdo é que deixaram Brais Méndez entrar livre na área para chutar. Se a vontade desse time é conseguir os três pontos e conquistar títulos, esse tipo de coisa deve ser muito bem treinada pra evitar que gols assim aconteçam sem impedimentos.
– Recomendaria alguma mudança pro segundo tempo?
– De postura da defesa. – respondeu, fazendo o narrador rir. – Se eles voltarem menos relapsos, pode ser que fique tudo bem. Na subida estão ótimos, mas precisam se atentar à marcação e à criação, estou sentindo falta do Modric mais desperto.
– Vamos fazer um intervalo agora e já voltamos com o segundo tempo da partida entre Celta de Vigo e Real Madrid. – o narrador falou e tirou os fones, colocou o microfone no bolso da calça e seguiu para o banheiro.
Ainda teria que mudar de lado de campo, estava acompanhando o Real Madrid e teria que estar para o lado que o time atacaria. Precisava comer também, estava com fome e cansada de ficar em pé. Queria estar em casa assistindo ao jogo sentada no sofá, mas ainda tinha que aguentar um bom tempo de trabalho, então era melhor resolver o que podia enquanto tinha tempo.

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Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, sábado, 17 de agosto de 2019

Enquanto estava deitado na maca fazendo fisioterapia, assistia ao jogo do Real Madrid. O jogo estava no intervalo, o time vencia por 1 a 0 e quase tinham ido para o intervalo empatados, mas o VAR u o impedimento e a vantagem foi mantida.
Observando a televisão, viu caminhando despreocupada pela lateral do campo, tinha o microfone do Marca em mãos junto com o celular. Ele nem sabia que fazia transmissões de campo, não lembrava de já tê-la visto antes, mas, claro, estava sempre concentrado no jogo e não no que acontecia ao redor.
Quando o segundo tempo foi retomado, não havia mudanças no time e esperava que a vantagem fosse ampliada, porque precisavam mostrar logo no começo da competição que não estavam ali para serem meros espectadores. O que quase aconteceu com menos de um minuto, Marcelo entrou na área, entregou a bola para Benzema, que chutou corretamente, mas a bola passou raspando a trave e não entrou.
O jogo ficou num lá-e-cá, com uma pressão descomunal e impensável do Celta de Vigo, que encontrava espaço às costas de Odriozola quase o tempo todo e conseguia chegar à área, mas, por sorte, Courtois e Casemiro salvaram as duas chances iminentes de gol. E, aos onze minutos, Luka Modric foi expulso após uma falta em Denis Suárez, pegando a parte traseira do tornozelo do mais novo com as travas da chuteira. O VAR solicitou o juiz na tela e ele expulsou o croata, deixando o Real Madrid com um jogador a menos em campo.
E da cobrança de falta originada, quase o empate. Mas, novamente, por sorte o goleiro Courtois evitou o gol de Gabriel Fernández. Aos dezesseis minutos do segundo tempo, Toni Kroos recebeu a bola de Marcelo fora da área e chutou do jeito que gosta de chutar e fez um golaço. Dois a zero.
deu um grito de comemoração empolgado, fazendo o fisioterapeuta rir e comemorar junto. Por um segundo ele tinha esquecido da dor e estava comemorando o golaço do alemão Toni Kroos. Uma pintura. Um gol com a assinatura do meia, um chute forte e bem colocado, inteligente.
Novamente o lá-e-cá. A vantagem do Real Madrid não parecia afetar os ânimos do time da casa, que continuava pressionando, arriscando e se não fossem as boas defesas do goleiro belga, teriam empatado e ampliado.
Zidane tirou Vinicius Junior para colocar Lucas Vázquez, alguns minutos depois tirou Gareth Bale e colocou Isco. Dois jogadores que tinham feito um bom jogo e davam espaço para outros dois que sempre eram contestados pela torcida, mas tinha aprendido uma coisa em sua vida: nunca duvide do que faz Zinedine Zidane.
E, como previsto, as substituições deram certo. Vázquez e Isco tentaram, chutaram, pressionaram, e aos trinta e cinco minutos, Karim Benzema girou entrando na área, entregou a bola para Lucas Vázquez que chutou, tirando o goleiro e dois defensores e fazendo o terceiro gol do Real Madrid.

¡Vamos, carajo! falou, animado, batendo palmas e se pudesse teria pulado para comemorar o gol do amigo.
Luka Jovic entrou no lugar de Karim Benzema e três minutos depois foi a vez de Marcelo arriscar, um chute forte de fora da área, mas Blanco espalmou e a bola quicou na frente de Vázquez e saiu forte da área. Pouco depois foi a vez do Celta de Vigo fazer o seu gol, já nos acréscimos, Iker Losada entrou na área e chutou cruzado, tirando Courtois da jogada e marcando o gol de honra da equipe da casa.
– Marina vai matar o capi. – ouviu José Parrales, o fisioterapeuta do time, falar e deu uma gargalhada.
– Eu tenho certeza absoluta que amanhã na recuperação ele vai falar que Marina o xingou por ter aberto tanto as pernas e ter deixado o jogador ganhar campo. – Julio de la Morena, outro integrante do departamento médico, falou rindo.
– Ou Isco vai contar. – Julio riu. – Marina deve ser a pessoa mais madridista da história.
– Sendo irmã de quem é, não duvido mesmo. – riu ao falar.
voltou a passar na televisão, dessa vez indo na direção do túnel e deu uma risada nasalada ao vê-la tropeçar enquanto caminhava e tentando disfarçar.
– Do que você está rindo? – Parrales perguntou sem entender e apontou para a televisão.
– Essa repórter… , se não me engano, foi ela quem bateu no meu carro em 2018 e quem tropeçou na minha cadeira de rodas essa semana.
– Foi ela? – Parrales perguntou surpreso e assentiu. – Ela é uma ótima jornalista, gosto do que ela escreve e sempre que vejo as coletivas e é ela quem vem do Marca, as perguntas são boas.
– Zizou também gosta. – Julio riu. – Na coletiva de ontem ele quase soltou um foguete ao vê-la. É uma jornalista educadíssima e muito competente.
, você está evoluindo bem… essa semana o Abascal pode tirar seus pontos e vamos começar do zero, cuidar da cicatrização e da inflamação, toda essa situação de uma cirurgia tão séria é muito nova para o seu corpo, então as dores e os incômodos são normais, mesmo que seja uma merda e que te atrapalhe a dormir e a comer. Bom, pelo menos por enquanto essas coisas são normais na intensidade em que estão, mas se houver alguma mudança, se aumentar muito, você tem que nos informar.
– Claro.
– E vamos começar a andar de muletas agora mesmo. – o fisioterapeuta falou sério e assentiu. – Não precisa ter medo, nós vamos te ajudar e faremos isso com calma, não vamos forçar e nem te machucar.
– Como anda a terapia? – Parrales perguntou e deu um sorriso pequeno.
– Bem. É muito estranho como essas coisas funcionam, mas tem sido bom falar sobre tudo.
– É importante mesmo e nós estamos conversando com o presidente pra montarmos uma equipe de psicologia para o time principal e para as equipes da base. Sem contar o basquete… esportes são bem complicados e vocês precisam de todo suporte pra lidar com tudo que acontece, desde derrotas até lesões. Então vamos discutir e começar a procurar bons profissionais que saibam lidar com isso, vocês farão sessões semanais individuais e em grupo, porque é importante. – Julio falou sério.
– Também acho que é importante. Acho que estaria sendo muito pior se eu não tivesse começado a terapia pra auxiliar nesse momento.
– É uma discussão antiga no meio do futebol, porque isso, como tantas outras coisas, é um tabu enorme e sofre muito preconceito, mas existe uma taxa enorme de atletas com depressão e outras doenças psicológicas e que se forem tratadas da forma correta, conseguem ser controladas ou curadas. Precisamos disso.
– Ouvi dizer que a Federação Alemã ia pedir pra UEFA tornar obrigatório ter psicólogos e psiquiatras dentro das equipes médicas dos times em toda a Europa e depois repassar isso pra FIFA tornar obrigatório em todo o mundo. Espero que o façam e nós deveríamos fazer pressão pra Federação Espanhola fazer o mesmo, porque é muito importante cuidar da saúde mental dos atletas além de apenas da saúde física e de cifras.
– Acho que isso será ótimo. – concordou. – Mas, agora, vamos ficar de pé. Eu acho que quero chorar, porque estou com medo, mas se não começar do zero, não começo de lugar nenhum.

Tres

“My one, when all is said and done, you’ll believe God is a woman…” (Ariana Grande – God is a Woman)

MARCA.com, Avenida de San Luis, Madrid, segunda-feira, 02 de setembro de 2019

– Sem chances! – foi enfática e o chefe rolou os olhos. – Eu detesto aquele programa! E eu serei a única mulher, eles vão encher meu saco!
, eles querem um jornalista do Marca e que seja excelente, ou seja, você.
– Tem uma redação repleta de jornalistas, Sacristán. Escolha outro.
– Já mandei seu nome, eles já te anunciaram. – o homem respondeu e soltou um grunhido raivoso. – Não rosne, você estará de folga amanhã e o fim de semana todo. De novo.
– Depois de ir cobrir jogo fora da cidade. De novo. – respondeu em tom petulante. – E eu espero que vocês aumentem meu salário logo, porque eu tenho trabalhado mais do que todo mundo nesse lugar.
– Pensarei no seu caso. – o redator chefe riu. – Agora vá trabalhar.

saiu da sala de Sacristán bufando e pouco contente com o que ele tinha conseguido. Ela queria apenas ir embora e descansar depois do trabalho, mas não seria isso que aconteceria ao fim do expediente. teria que ir para os estúdios da emissora Mega e participar de um dos programas que ela menos gosta de ver e, mesmo assim, é um dos mais assistidos e considerado o maior e melhor programa esportivo da Espanha.
El Chiringuito de Jugones.
Queria poder chorar e reclamar mais, bater o pé e dizer que não iria, mas além de não poder mesmo fazer pirraça como uma criança de cinco anos, não adiantaria nada. O chefe não se renderia, o nome dela já estava lá e a pior coisa que ela poderia fazer era tirar seu nome daquela lista sem um motivo realmente plausível.
Então sua birra teria que ser engolida e ela teria que aparecer no programa, tentar engolir sua cara de nojo e fazer os comentários que precisasse. Sabia que aquilo seria uma tortura, porque provavelmente os comentários machistas a deixariam muito brava e ela não poderia surtar ao vivo, daria ainda mais motivo para falarem merda a seu respeito.
Era melhor retomar o trabalho e tentar ignorar a vontade de dar a louca e sumir por Madrid e nunca aparecer no programa da noite. Tinha uma matéria para escrever e não podia ficar apenas surtando. Os outros jornalistas convidados seriam razoavelmente toleráveis – pelo menos os que iriam na bancada do Real Madrid – então restava a apenas torcer para que os blaugranos também fossem minimamente suportáveis.

– Que cara é essa, ? – ouviu Cora perguntar quando sentou-se em sua mesa, e suspirou de forma dramática.
– Adivinha quem vai pro El Chiringuito hoje?
– Sério? – Cora perguntou, segurando a risada. – Amiga, eu acho que será ótimo! Você é super talentosa e inteligente, vai tirar de letra e vão cogitar mandar o Pedrerol embora e te colocar como a apresentadora.
– Deus me livre! – respondeu de pronto. – E nem posso pedir pra não ir ou pra me substituírem se não tiver um motivo plausível… você me atropelaria?
– Estou de bicicleta, não vou conseguir nada além de deixar marcas de pneu nos seus tênis.
– Eu odeio a minha vida.
– Deixa de drama, , vai dar tudo certo e eu tenho certeza que o Sacristán só te mandou, porque você é a melhor opção.
– Vocês ficam falando isso como se fosse mudar alguma coisa ou que fosse verdade que eu sou a melhor mesmo. – resmungou.
– A única jornalista com vários prêmios aqui é você, minha querida. – Cora respondeu e resmungou. – Estarei acordada pra assistir e espero que você arrase!
– Farei o possível. Se é que vão me deixar falar…
– Como se você se calasse pra qualquer pessoa, . – Cora deu uma risada alta, atraindo a atenção de mais gente do que gostaria.
– Agora vamos trabalhar, porque você fez tanto escândalo que o Sacristán está olhando bastante interessado pra cá. E eu tenho que fazer uma matéria pra daqui vinte e seis minutos.
– Eu tenho que ir cobrir o treino do Atletico de Madrid. Infelizmente.
– Ainda bem que nunca me mandam pra lá, porque eu me demitiria na hora.
– Acho que é exatamente por isso que não mandam. – Cora riu. – Se não nos vermos mais hoje, saiba que estarei assistindo e espero que você arrase!
– Você deveria ficar do meu lado e me atropelar, porque ai mandam outra pessoa e eu posso ficar em paz na minha casa.
– Já basta a folga do fim de semana completo, gracinha.
– Depois de trabalhar direto cobrindo jogos, lindinha… – respondeu, num tom quase ácido, mas sorriu para a amiga. – Se você passar perto do Simeone, dê um chute nele por mim.
– Claro, daí você me arruma um excelente advogado pra me livrar da cadeia e da indenização absurda que terei que pagar para aquele azedo.
– Hoje você está se recusando a causar muitos acidentes, não gostei.
, para de falar e vá trabalhar! – Cora brincou, dando uma risadinha antes de sair de perto da amiga para ir resolver suas próprias coisas.

concentrou-se em revisar sua matéria para que pudesse postar no site do Marca e deixou que o dia passasse enquanto, de fones, ouvia uma playlist de reggaeton animada, com muitas músicas que lhe davam vontade de dançar e a fizeram esquecer quase que completamente o compromisso do fim de noite.
Quase.
Quando finalmente estava indo embora, um pouco mais cedo que o habitual, dirigiu pelo caminho até seu apartamento pensando em várias coisas sobre o programa: quem tinha escolhido aquele horário péssimo? Por que diabos um programa que passa de meia noite às duas e meia da manhã é tão assistido e comentado? Por que querem que ela vá? Quem, por tudo que é mais sagrado, faz um programa esportivo na Espanha e pensa em uma bancada para apenas dois times e esquece que há um terceiro time que, além de ser da capital, é tão importante para o cenário futebolístico do país quanto os outros dois? E, por que discutiam sobre os outros clubes como “plano de fundo”, reforçando a ideia que tantas pessoas têm a respeito da Liga, como se fosse um campeonato de dois clubes e nada além disso?
E, com a cabeça cheia dessas perguntas, ouvindo música e querendo sumir, chegou em sua casa para aproveitar algumas horas de sossego antes de ter que se arrumar para ir ao estúdio e participar do programa.

📰🤍⚽️
Madrid, sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Já era quase meia-noite, mas estava sentindo dor e não conseguia dormir, então resolveu ligar a televisão e procurar algo para assistir e que lhe desse sono, porque tinha que estar no centro de treinamento bem cedo e precisava estar descansado para os exercícios do dia, que ainda consistiam em fisioterapia e, talvez, evoluísse para algo na água em breve.
Passando os canais, parou no Mega, que anunciava o início de “El Chiringuito de Jugones” que começaria em instantes. Ele já tinha assistido ao programa, principalmente durante os dias de recuperação, quando estava com tanta dor que passava as noites em claro, mas nunca entendeu muito bem os motivos de um programa esportivo passar tão tarde e nem como era possível que fosse um dos mais assistidos da Espanha.
Assim que Pedrerol apareceu, dando início ao programa, notou a presença de uma pessoa conhecida. . Parecia estar bastante à vontade, sorriu quando foi anunciada e cumprimentou os outros presentes. Além dela, apenas uma outra mulher que compõe a equipe fixa, Sandra, e os outros oito homens.
reparou que estava do lado do Real Madrid, mas imaginou que fosse por ela escrever sobre o time. Provavelmente seja mesmo madridista, ele não fazia ideia, afinal, ela poderia muito bem nem ser de Madrid.

, estou muito agradecido por você ter aceitado o convite e vindo como a representante do Marca. – Pedrerol falou e deu um sorriso pequeno. – Uma jornalista muito premiada e reconhecida, que faz matérias sempre precisas e muito bem escritas, usadas como fontes pra outros grandes jornalistas… é uma honra tê-la aqui.
– Obrigada. – agradeceu um pouco sem jeito.
– Bom, você estava nos dois últimos jogos do Madrid, não estava? – perguntou e ela assentiu. – E qual sua percepção dos jogos?
– Foram dois jogos bem diferentes pela estratégia de jogo dos adversários. Contra o Valladolid, o jogo em que o Madrid teve muito mais posse, muito mais chances e foi bem inconclusivo. Bola na trave não adianta nada, conseguir escanteio sem ter quem conclua bem também não adianta nada. O time demorou muito pra fazer um gol, faltavam oito minutos para o fim, mas acharam que estava tudo vencido e, de repente, tomam um gol seis minutos depois. Uma falta de atenção horrorosa que custou dois pontos. Já contra o Villarreal, o time tomou um gol cedo, também depois de um vacilo enorme do Madrid, e demorou a empatar pra ter uma mínima esperança de conquistar pontos. Jogar lá com o Villarreal é sempre difícil, mas podiam ter complicado menos. E, por mais improvável que possa parecer, é preciso agradecer ao Bale pelos dois gols, porque se ele não estivesse no lugar certo, na hora certa, teria sido uma derrota horrível, em alguns momentos o Villarreal quase implorou pra tomar um gol, mas, novamente, sem nenhuma efetividade concreta, o Madrid perdeu a chance de virar, ampliar e golear. O segundo gol do Villarreal foi absurdo. É impensável que um time com os nomes que o Real Madrid tinha em campo fizesse uma patifaria daquela.
– Mas você acha que há algum problema?
– Acho que os de sempre, mas a desatenção foi horrorosa. O Madrid tinha esses apagões na época do Solari e do Lopetegui. Uns apagões gerais e que dão esse tipo de resultado. Se mostrarmos só as estatísticas dos jogos pra pessoas que não o assistiram, com certeza diriam que o Real Madrid venceu e bem, mas não foi assim. Não adianta nada ter as estatísticas a favor se não terão efetividade. Uma coisa que falo sempre, desde a época do Guardiola no Barcelona: posse de bola não ganha jogo, jogar bonito demais não ganha jogo. O que resolve é bola na rede, atenção e foco no objetivo. Se querem o título, não podem vacilar assim. Um time que ser campeão não fica em quinto lugar na tabela de classificação.
– Esse título já tem dono. De novo. – um dos componentes do lado do Barcelona falou no intuito de provocar e deu uma risadinha.
– Fiquem com La Liga, nós ficamos com a Champions League. – respondeu, fazendo os demais rirem do deboche usado.
– E pra Champions League, quais são seus pensamentos?
– Acho que podemos tentar, temos um elenco realmente bom, mas é preciso trabalhar alguns pontos nesse time, principalmente psicológico.
– Você já falou disso algumas vezes, se não me engano.
– Sempre falo. É uma das coisas que deveria ser obrigatória para os times de futebol, porque cuidar da mente e do emocional desses profissionais é o que vai fazer com que o time jogue bem e ganhe títulos. Mas toda vez que falo isso, meia dúzia de torcedores revoltados ficam me xingando na internet e falando que “futebol é coisa pra homem e se não aguentam a pressão, podem ir dançar balé”, mostrando que além de não terem um pingo de empatia e amor pelo próprio time, eles também não entendem nada de balé, porque é muito difícil e a pressão é ainda pior do que no futebol.
– Bom, agora vamos falar sobre a situação em Barcelona, sobre toda a instabilidade política e que pode comprometer o jogo Barcelona x Espanyol…

O programa continuou por outras duas horas e seguiu assistindo, mesmo com a dor aliviada e com sono, porque estava bastante interessante ver o programa e como era uma mulher segura e que não se deixava abater pelos comentários ácidos de alguns dos jornalistas da bancada do Barcelona.
Ela era bastante eloquente, tinha reparado. Falava bem e dominava muito o assunto futebol, dava prazer vê-la falar tão bem e sem deixar que seu lado torcedora afetasse o julgamento da jornalista Hildalgo. Quando o programa acabou, resolveu dormir, porque estivera com sono por boa parte do tempo, mas tinha gostado de ver falar tão bem que tinha esquecido que precisaria acordar cedo para ir para a fisioterapia.
Por sorte, não precisaria dirigir ou fazer atividades pesadas, então talvez conseguisse tirar alguns cochilos nos intervalos entre os exercícios. Pelo menos esperava que fosse possível fazer isso. Mas, no momento, iria dormir.

 

Cuatro

“Yo no sé ni qué hacer, no sé, cuando estoy cerca de ti, tus ojos color café se apoderaron de mí…” (Rauw ft. Camilo – Tattoo)

Estádio Santiago Bernabéu, Madrid, sábado, 14 de setembro de 2019

Em quarenta minutos o Real Madrid tinha feito três gols – dois de Karim Benzema e um de Casemiro – e o Levante parecia morto, sem nenhuma chance de reação e aquilo só fazia parecer que o segundo tempo da partida seria com ainda mais gols do time da casa, que estava animado, empurrando e amassando o visitante.
A posse de bola estava altíssima para o Real Madrid, muitas tentativas, passes certos e bolas roubadas com tanta eficiência que nem parecia o Real Madrid das rodadas anteriores que tinha empatado de forma vexatória com Valladolid e Villarreal. Parecia o Real Madrid sedento que todos os madridistas ansiavam por ver.

– Você é muito doida de vir no meio da torcida. – ouviu Martín falar.
– Se a namorada do Isco e irmã do Sergio Ramos vem no meio da torcida, eu que sou uma mera jornalista não terei problemas. – deu de ombros. – E, em todo caso, eu cubro o Madrid, só falo a verdade sobre o time e jogadores.
– É, você tem um ponto… – riu. – Você está de folga só hoje ou o fim de semana todo?
– Hoje e amanhã. O Juanes tá cobrindo hoje, porque eu trabalhei em dois jogos por ele e ainda fui no El Chiringuito anteontem, então estou curtindo meus merecidos dias de folga, porque as pessoas esquecem que não sou a única jornalista que cuida do Real Madrid naquele jornal.
– Por que o Bale não foi nem relacionado?
– Ele foi expulso contra o Villarreal. – respondeu como se fosse óbvio, mas deu uma risadinha. – Esse intervalo entre os jogos pra ter eliminatórias da Euro foi bem comprido mesmo, tá perdoado por ter esquecido.
– Pelo menos vencemos os dois.
– Contra a Romênia e Ilhas Faroé, eu venceria sozinha. – respondeu rindo. – Mas ele está suspenso, deve estar lá em cima. Se é que veio…
– Provavelmente, todos eles são obrigados a vir.
– Nem vou responder da forma como eu bem queria, porque você vai falar que é apenas meu desgosto por ele que está falando.
– O jogo está prestes a voltar, vou ao banheiro e já volto. – Martín falou, recebendo um aceno de cabeça de e saiu para ir ao banheiro.

Logo aos quatro minutos do segundo tempo, Borja Mayoral diminuiu a vantagem do Real Madrid. O jogo ainda era muito mais do time da casa, sem muita efetividade, apenas oferecendo perigo, mas sem concretizar, e aos trinta minutos, Gonzalo Melero, fez o segundo gol do visitante.
O jogo terminou com a vitória do Real Madrid por 3 a 2, mas estava novamente muito brava com a desatenção do time, em dois gols que poderiam ter sido evitados, mas preferiram deixar acontecer. Quatro jogos e nenhum clean sheet. Não era possível que o time estivesse tão mal treinado nessa parte do campo. Não era possível.

– Precisamos sair logo daqui, antes que você invada a coletiva e pergunte ao Zizou qual o problema da defesa. – Martin brincou, abraçando pelos ombros.
– Vamos embora mesmo, porque eu estou brava. Vencemos, mas estou brava.
– Vai dar tudo certo, . Essa taça é nossa. A por todas!
A por todas, mas desse jeito vai ficar difícil. Uma hora vamos encontrar um time que não estará tão disposto a fazer menos gols que nós e perderemos feio.
, ganharemos todas as taças da temporada. – Martín falou em tom convicto.
– Assim espero. – resmungou. – Mas vencemos, pelo menos isso. Mais três pontos e agora é lutar pra voltar ao primeiro lugar.
– E ainda tem Champions League essa semana. O que acha?
– Que se tivermos sorte, podemos apenas empatar com o PSG lá. Vencer eu acho um pouco difícil, porque eles têm um elenco bem forte.
– Você vai?
– Se me mandarem pra Paris pra cobrir jogo, eu ficarei bem puta. Mas feliz por ir assistir ao jogo in loco. – riu. – Vamos embora logo, eu quero aproveitar umas horas de descanso.
– Se não for pra Paris, vai trabalhar?
– Claro. Sacristán não gosta de mim o suficiente pra me dar uma folga aleatória no meio da semana só pra eu assistir ao jogo de casa. – deu de ombros. – Anda logo, o trânsito estará bem ruim até Hortaleza, você sabe.
– Vamos almoçar por aqui, eu pago.
– Agora você disse as palavras certas.

📰🤍⚽️

Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Cinquenta e cinco dias desde a lesão. estava fazendo exercícios na água, desde caminhadas, até bicicleta e alguns outros para ajudar no retorno à caminhada normal em solo, porque, de alguma forma, o impacto da água e a pressão exercida faziam coisas boas pelos músculos e ligamentos.
Ele estava um pouco mais tranquilo, mesmo que ainda pensasse muito sobre a lesão e ficasse pesquisando coisas que poderiam ajudá-lo a se recuperar mais rápido, desde exercícios até algumas coisas para se alimentar.
já tinha conversado com Sergio Llull, um dos jogadores da equipe de basquete do Real Madrid, que tivera a mesma lesão na temporada anterior e estava totalmente recuperado, jogando bem e sem nenhuma dor ou sequelas. Llull tranquilizou sobre a lesão e a recuperação, disse para que ele confiasse no tratamento e se esforçasse para melhorar cada dia mais e que isso daria certo.
A equipe de televisão do Real Madrid vinha filmando todo o processo, desde a lesão, para um futuro documentário a ser exibido na Real Madrid TV quando voltasse. Todos diziam que ele voltaria em grande estilo, que marcaria gols e seria muito importante para o time. tentava não se contagiar com tanta positividade acerca de seu retorno, afinal se seu retorno não fosse dessa forma, acabaria frustrado e isso seria péssimo, então aceitava os elogios e os desejos de recuperação, mas evitava criar expectativas.
Já estava andando sem as muletas e os exercícios na água eram mais para o fortalecimento dos músculos perdidos depois de tanto tempo sem exercitá-los como fazia habitualmente, precisava desfazer-se da rigidez que os ossos da região tinham adquirido e ainda precisava diminuir um pouco do inchaço antes de começarem trabalhos mais fortes para que ele pudesse voltar a treinar em campo.
Mas ainda faltava muito tempo até que isso acontecesse e ele não queria contar dias e depois se frustrar. Já tinha ido ao gramado, andado pelo campo e conversado com alguns dos companheiros por lá, mas não era treinar. E sentia falta daquilo. Era uma grande merda assistir tudo pelos vidros, ver os companheiros correndo, seguindo as ordens de Zidane e se preparando para os jogos que ele não disputaria, jogos que apenas assistia de casa ou dos camarotes do Santiago Bernabéu.

– Hoje você está dispensado, vá aproveitar suas horas de descanso. – Parrales falou e juntou as mãos num agradecimento para provocar.
– Finalmente estou livre dessa tortura.
– Precisa de carona, ? – ouviu a voz do capitão Sergio Ramos.
O time estava em recuperação, alguns em fisioterapia, mas Sergio Ramos e Isco pareciam prontos para irem embora.
– Meu pai vem me buscar.
– Falou feito um adolescente de treze anos. – Isco falou, dando uma risadinha.
– Que é exatamente o que ele é. – Sergio implicou com o mais novo.
– Cuidem da vida de vocês. – resmungou, abraçando os amigos em despedida e saiu da sala de fisioterapia.
Precisava encontrar alguém das filmagens do tal documentário, tinham deixado o recado de que precisavam falar com ele, então ele tinha mesmo que passar por lá (onde quer que fosse esse “lá”) e resolver o que precisavam que fosse resolvido.
Enquanto caminhava, acabou perdendo-se pelo caminho e acabou trombando com alguém pelo caminho. E, claro, não podia ser outra pessoa além da que recorrentemente tem trombado com ele em todos os locais.

– Estou começando a achar que você está me seguindo apenas pra ficar esbarrando em mim. – implicou e deu uma risadinha nasalada.
– Não foi a intenção, . Nunca é, mas você sempre surge do nada e a gente acaba se esbarrando.
– Eu trabalho aqui, então acho que minha suposição está mais correta.
– Eu vim trabalhar, então posso dizer que eu também estou trabalhando aqui.
– E na televisão também. – sorriu simpático. – Você foi ótima no Chiringuito. Não sabia que você era madridista.
– Sou. E obrigada. – sorriu agradecida.
– Já assisti algumas vezes, principalmente durante a recuperação, mas nenhum dos programas foi tão bom quanto esse. De verdade. Achei bem legal que você consiga afastar sua torcida das suas análises de trabalho. E foi bem demais defendendo o Madrid e os outros times. Você já foi lá antes?
– Obrigada. – deu um sorriso pequeno. – Não, foi a primeira vez que fui e nem queria ter ido, pra ser bem sincera, mas meu chefe meio que me mandou por livre e espontânea pressão, não tive muita escolha, mas foi interessante. Mesmo que o horário seja muito estranho.
– É, realmente o horário não faz muito sentido, mas foi bem legal.
– E então, como anda a recuperação?
– Estou andando sem as muletas, mesmo que ainda não seja o caminhar normal e que eu ainda esteja repuxando um pouco a perna, mas já estou caminhando sem as muletas e fazendo exercícios mais pesados, mesmo que a parte posterior esteja me incomodando um pouco ainda.
– É normal, não é? Pelo tempo que você não movimenta tanto a perna…
– É sim. Jaime disse que é totalmente compreensível. – respondeu sorrindo. – Ah, eu te vi num dos jogos… acho que foi contra o Vigo.
– Ah… eu fui cobrir pra Rádio Marca de última hora. Meu colega que ia passou mal e eu fui enfiada num avião pouco menos de duas horas antes do jogo. – resmungou. – Você ouviu?
– Não. Eu te vi na televisão, você tropeçou e quase caiu. – riu. – Acho que você tem um problema com isso…
– Eu preciso me concentrar mais em andar do que mexer no celular ou ficar conversando, sempre acabo esbarrando nas coisas e nas pessoas. Como, por exemplo, você.
– É, acontece… – riu. – E então, vai pra Paris?
– Só se me mandarem a trabalho, mas não estou sabendo de nada ainda… só me mandaram pra coletiva do pré-jogo mesmo.
– Zizou comemorou sua presença de novo? – deu uma risadinha ao falar e acabou rindo junto.
– Acho que sim, mas eu provavelmente sou a única que não fico enchendo o saco sobre contratações que não vão acontecer, especulações idiotas e perguntas do tipo “o que vocês precisam fazer pra ganhar?”.
– Mais gols do que o adversário, todo mundo sabe disso.
– Pois é. Mas sempre tem um pra perguntar alguma coisa idiota assim… e sobra pra eu fazer as perguntas complexas e deixar o Mister orgulhoso.
– Perguntaram sobre Mbappé e Neymar?
– Claro! Achei que Zizou ia embora no meio da coletiva quando surgiu esse assunto.
– Ninguém fala de mim? – perguntou e recebeu um aceno negativo.
– Não hoje, pelo menos. – deu de ombros. – Preciso ir agora, tenho que voltar pra redação pra terminar o esp…
– Especial da Champions League pra ir ao ar hoje. Eu leio o Marca. – deu um sorriso e voltou a sorrir com ele.
– Obrigada. Compartilhe nas suas redes sociais e aumente os cliques nas minhas matérias, estou precisando.
– Aposto que você é a mais lida do Marca, .
– Não vou confirmar nada. – riu. – Agora preciso mesmo ir, conto com sua leitura no dia de hoje, .
.
– É estranho te chamar de .
– Por favor.
– Tudo bem, . – sorriu. – Boa recuperação e diga aos seus companheiros de time que se eles não vencerem, vou incinerar esse centro de treinamento com todos dentro.
– Que horror. – deu uma risada. – Mas eu aviso. Bom trabalho.
– Obrigada. – respondeu, despedindo-se com um aceno.
demorou um pouco pra chegar ao estacionamento, ainda teve dar algumas voltas pelo centro de treinamento até encontrar o responsável pelas filmagens para conversar e quando chegou, encontrou o pai esperando por ele no carro.
– Demorou hoje.
– Tive que ir conversar com o pessoal do Real Madrid TV por causa do documentário.
– Vi aquela jornalista daquele dia, a que caiu.
– Nos esbarramos hoje de novo. – respondeu, sentando-se no banco do carona.
– Literalmente?
– Literalmente. – riu.
– Ela é muito bonita.
– É sim. Assisti o dia que ele foi ao Chiringuito, é muito inteligente também.
– Precisamos comprar ração pro Rome. – Gilberto falou e assentiu.
– Podemos passar num McDonald’s?
– Jaime vai mandar te matar se ficar sabendo. – Gilberto riu, tirando o carro do estacionamento e seguindo pra fora do centro de treinamento.
– É só não deixarmos ele saber. – riu ao falar. – Eu mereço, estou me recuperando bem.
– Então tudo bem, teremos McDonald’s. – respondeu e sorriu feito criança.

Cinco

“Yeah, like you’re sent to rock the Earth, my friends think you’re amazing…” (McFly – Something About You)

Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, terça-feira, 17 de setembro de 2019

¡Buenos días, chavalito! ouviu a voz de Sergio Ramos, que sorria para o mais novo que se aproximava.
– Bom dia, capi. – cumprimentou, abraçando Sergio Ramos e recebendo um beijo no rosto quando o fez. – Chegou cedo.
– Vim fazer um pré-treino com o Jaime. – o capitão deu de ombros.
– ¡Buen día señores! – ouviram Isco, que se aproximava.
– Bom dia, Magia. – Sergio cumprimentou.
– Bom dia, bro.
– E então, já começou a contar as novidades sobre a namorada? – Isco implicou e o olhou sem entender. – Nem vem, você estava conversando com ela ontem, quase babando na mulher no meio do corredor!
– No meio do corred… Ah! Não, nós não somos nada. Ela é a jornalista que bateu no meu carro em 2018. – deu uma risadinha.
, do Marca. – Sergio falou e assentiu. – Boa jornalista.
– Realmente.
– E muito gata. – Isco acrescentou e Sergio o olhou, estreitando os olhos e tentando parecer ameaçador. – Não mais do que minha namorada, obviamente, mas eu ser um homem muito bem comprometido não significa que fiquei cego e hipócrita do nada.
– Ela é mesmo muito bonita, mas não existe isso de namorada, Francisco. – falou, fazendo Isco olhar de forma duvidosa. – É sério. Ela bateu no meu carro naquela vez, nunca mais tínhamos nos encontrado, mas já nos esbarramos literalmente duas vezes esse ano e eu a vi na televisão duas vezes, sendo que nunca tinha visto.
– Já dizia Shakira: você acredita em destino? – Isco implicou, fazendo Sergio assentir em concordância, sorrindo zombeteiro.
– Não sinto absolutamente nada por , apenas a acho uma excelente jornalista e mais nada.
– Ela realmente é boa. Quando é ela quem vem, o Marca é quem faz a melhor pergunta e é sempre interessante. – Sergio falou e os três voltaram a caminhar até a sala de fisioterapia.
– Se você não sente nada e fica babando pela mulher daquele jeito, imagina se sentisse? Sério, quase achei que você ia afogar a coitada na baba.
– Deixe de ser ridículo, Francisco. – deu um pedala no amigo, que gargalhou.
– Eu te defenderia, chaval, mas eu também percebi. Você estava olhando pra ela quase bobo, dando sorrisinhos ao falar…
– Não desviou o olhar dos olhos dela, parecia hipnotizado. Nem mesmo percebeu que nós estávamos vendo. – Isco falou dando uma risada abafada. – Pode até não gostar, mas tem alguma coisinha…
– Vocês são doidos.
– Devíamos ter filmado. – Sergio riu.
– Deveríamos encenar pra ele ver como foi. – Isco sugeriu, fazendo Sergio gargalhar em concordância. – Eu sou o .
– Eu sou o único bonito dos três, então serei a , obviamente. – Sergio riu.
– Vocês são ridículos.
– Calma, vamos encenar e você vai entender como estava. – Isco falou, parando quase da mesma forma que estava no dia anterior.
– Como não sei como foi que ficou te olhando, eu vou ficar sem nenhuma expressão e apenas observando como Francisco, no caso você, se derrete por mim, porque sou o mais bonito, mesmo que minha irmã diga que não.
– Vocês são mesmo ridículos. – gargalhou.
Isco olhava fixamente para Sergio, dando risadinhas e sorrisinhos, mexia a boca como se falasse e tinha os olhos fixos nos de Sergio Ramos, quase como se estivesse hipnotizado. deu uma gargalhada, balançando a cabeça negativamente, e os outros dois encerraram a péssima atuação da cena do dia anterior.
– Ainda bem que vocês são jogadores, se dependessem de atuação, morreriam de fome.
– Foi isso que aconteceu ontem, apenas aceite, porque nós vimos sua cara. – Isco implicou, rindo da cara do amigo.
– Vocês estão muito desocupados. – falou, rolando os olhos, e voltando a andar.
– Eu aposto dez euros que antes do natal vocês serão um casal. – Isco falou, mordendo o lábio inferior para provocar .
– Aposto vinte que vai demorar um pouco mais, porque é lento e vai perder o timing.
– Aposto cinquenta que vocês são dois sequelados que falam demais da vida alheia e não cuidam das próprias vidas. – respondeu, recebendo um tapa na nuca de Sergio Ramos.
– Não bate no ! – Isco falou alarmado e Sergio olhou sem entender. – Você já esqueceu que a namorada dele é jornalista? Vai que ela escreve que ele está sendo agredido pelo capitão do time? Isso pode dar um problemão pra você, vai envolver o time e o presi vem aqui pra nos matar!
– É verdade… – Sergio falou, fingindo pensar, e abraçou pelos ombros. – Diga a ela pra publicar coisas boas sobre mim.
– Ela é um pouco fanática, tipo sua irmã.
– E como você sabe disso, ? – Isco olhou interessado, mexendo as sobrancelhas pra cima e pra baixo.
– Ontem ela disse que se vocês não vencerem, ela vai incinerar Valdebebas com a gente dentro.
– Já sabemos que ela vai se encaixar bem no grupo de esposas e namoradas. – Isco riu ao falar. – Nina falou a mesma coisa, que se perdermos, ela vai me matar quando eu estiver dormindo.
– Felizmente a Pilar é normal e não fica falando essas coisas. – Sergio riu. – Mas Nina me disse algo parecido, que se não vencermos, ela vai passar meu endereço pra alguns torcedores bastante perigosos, tirar os meninos e a Pilar da casa e me deixar lá pra morrer. Não sei se estou mais preocupado com ela realmente fazer isso ou por ela conhecer esse tipo de pessoa.
– O importante é que a vai se adaptar bem ao grupo muito antes do que o imaginava. – Isco falou, apertando as bochechas de , bem quando entraram na sala de fisioterapia.
– Quem é e a que grupo ela vai se adaptar bem? – José perguntou.
– A nova namorada do . – Isco respondeu antes que falasse algo. – A jornalista.
– Bom, isso explica o motivo pelo qual ele a viu na televisão outro dia e ficou cheio de sorrisinhos… anda prestando bastante atenção nela. – Jaime falou em tom de implicância.
– Eu detesto todos vocês e vou embora desse recinto. – falou, suspirando, arrancando gargalhadas dos companheiros.
– Vai mesmo. – Jaime falou sério. – Piscina. Hoje vamos tentar novos exercícios, tenho gostado muito dos resultados que você está obtendo.
– Ainda bem que vou pra bem longe desses dois, eles já me gastaram pro resto do ano em pouquíssimos minutos.
– Chame a pra sair, . Não seja frouxo.
– Cuida da sua vida, Francisco.
– Não seja mal educado. – Sergio falou e rolou os olhos. – Chame-a para sair.
– Eu concordo. Talvez ela pare de esbarrar em você se vocês andarem juntos. – José implicou, fazendo rolar os olhos.
– Vocês são todos insuportáveis.
– Bom trabalho, chaval, continue assim, focado, logo você estará de volta pra nos ajudar a conquistar títulos. – Sergio sorriu carinhoso e devolveu o sorriso.
– Obrigado, capi, boa viagem pra vocês e um bom jogo. Estarei torcendo daqui. – falou e despediu-se dos dois amigos com abraços e beijos no rosto antes de seguir para a piscina com José e Jaime García para a piscina.

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Madrid, quinta-feira, 03 de outubro de 2020

Depois da derrota para o PSG – que tinha classificado como: “uma humilhação que deveria obrigar o Real Madrid a fechar as portas e rever seus conceitos” – por 3 a 0, o Real Madrid venceu dois jogos pela Liga Espanhola (jogos que foi cobrir, tanto o jogo em Sevilla, em que o único gol da partida foi feito por Karim Benzema, quanto o jogo no Santiago Bernabéu contra o Osasuna, em que Vinícius Júnior e Rodrygo foram os responsáveis pela vitória madrilenha), empatou com o Atlético de Madrid no Wanda Metropolitano num jogo chato e amarrado, também pelo campeonato espanhol, e empatou com o Clube Brugge dentro do Santiago Bernabéu.
Um empate com gosto de derrota… para o clube belga, que saiu na frente do placar logo no começo do jogo. Se não fosse por Sergio Ramos e Casemiro, o time madrilenho teria enfrentado outra derrota feia na Champions League. O time era o último colocado do grupo, atrás de Clube Brugge e Galatasaray. tinha participado de um dos programas da Rádio Marca e foi preciso muito controle para não acabar falando demais. Tinha participado da cobertura do jogo e o time estava tão apático e desmotivado que chegava a dar pena, ela sentiu vontade de entrar em campo e estapear todos os jogadores, mas não podia.
Os dias de trabalho a estavam engolindo, ela mal tivera tempo de ligar para os pais durante aquelas semanas, tinha acumulado uma semana de folgas depois de tantas viagens e coberturas de jogos. E aquela quinta-feira tinha sido eleita para ser o primeiro dia de folga depois de tantos dias caóticos de muito trabalho e exaustão. Usaria os outros depois, poderia aproveitar para passar uns dias em Tenerife com os pais e relaxar, estava mesmo sentindo falta da ilha.
Mas, no momento, estava curtindo uma atípica tarde de folga no meio da semana sem absolutamente nada para fazer em casa, no sofá. Tinha a cabeça apoiada no colo de Martín enquanto assistiam “Viva: A Vida É Uma Festa”. O tipo de folga que nenhum deles costumava ter durante a semana, porque quando tinha folgas durante a semana, Martín estava trabalhando e não podia tirar folga, então os momentos juntos costumavam ser depois do horário do expediente e aos fins de semana em que não estava trabalhando.

– Achei que você ia tirar uma semana de folga direto e ir pra Tenerife. – Martín falou, sem tirar os olhos da televisão.
– Eu até queria, mas precisava comunicar com antecedência, porque é uma semana longe. E, em todo caso, terei uma semana completa quando for, terei os seis dias que faltam tirar e a folga da semana…
– Você é esperta.
– E você vai pra Tenerife comigo?
– Posso tentar, vou pedir pra Dolores me dar um retorno sobre minha agenda e escolhemos uma semana pra visitar seus pais e aproveitar aquele paraíso. Só não tenho certeza se consigo uma semana toda, a clínica não pode ficar sem um endodontista e o Ángel está de férias.
– Pode ser um fim de semana mais estendido… De quinta a domingo.
– Vou dar uma olhada nisso e marcamos. – respondeu. – Jantamos em casa hoje?
– Prefiro, meu plano hoje é não sair de casa pra absolutamente nada.
– Cozinhamos ou pedimos?
– Eu cozinho, porque você é um desastre na cozinha.
– Então vamos pedir, você está totalmente de folga hoje.
– Já pedimos o de ontem e o almoço de hoje. Não quero comer nada de delivery.
– Tudo bem… – Martín falou, abaixando-se para dar um beijo nos lábios de .
– Pare de me atrapalhar a ver o filme. – falou implicante, mas sorrindo terna.
– Você já viu esse filme umas vinte vezes, .
– Eu gosto muito.
– É perceptível. – riu. – Mas, tudo bem, gosto dessa parte do Héctor vestido de Frida.

Seis

“Ain’t about how fast I get there, ain’t about what’s waiting on the other side, it’s the climb…” (Miley Cyrus – The Climb)

Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, 15 de outubro de 2019

– Eu estou cansado. – reclamou, quando o dia de trabalho de fisioterapia ainda estava pela metade.
– Alguma dor? – Jaime perguntou, mas negou com um aceno.
– Só aquele pequeno incômodo mesmo, mas totalmente suportável.
– Ótimo. Eu fico muito feliz de ver que estamos há quase cem dias da cirurgia e sua recuperação tem sido realmente muito boa.
– Ainda bem. Eu também fico feliz por estarmos avançando bem, um passo de cada vez, e fazendo dar certo.
– Vá beber uma água, sente e descanse um pouco, vamos voltar a trabalhar mais esses músculos.
– Eu posso viajar no fim de semana? – perguntou e o Jaime olhou curioso. – Palma.
– Vou conversar com o Abascal e ver se te liberamos esses dias… acho que pode te fazer bem.
– Queria ir visitar minha avó na Holanda, mas vou deixar pra fazer isso mais pro fim do ano.
– E você tem conversado com sua namorada jornalista? – Jaime brincou, fazendo rolar os olhos.
– Ela não é minha namorada.
– Ainda.
– Você está ficando tempo demais perto do capi e do Isco. – negou com um aceno de cabeça. – Aqueles dois falam disso sempre que me veem. Outro dia ela esteve aqui e o Ramos faltou me arrastar pra lá quando me viu saindo.
– O capi está tentando emplacar a nova função de cupido. – Jaime riu. – E vá logo, hoje tem jogo da Espanha e eu quero te mandar embora antes disso.

deu uma gargalhada, indo buscar uma garrafa de água no frigobar ao canto da academia e sentou-se de forma relaxada enquanto ouvia um reggaeton alto tocar, começou a cantar com Ozuna, “Se Preparó”, e fingia dançar, fazendo Jaime rir.
A fisioterapia ainda durou um bom tempo, agora não apenas com exercícios básicos, mas já no trabalho de reestabelecer a estrutura muscular da perna lesionada que tinha perdido muita massa muscular. Um pouco de exercício na academia e terminou o dia com os exercícios na piscina, que agora estavam mais puxados e faziam com que ele ficasse cansado, mas motivado.
O cansaço sem dor era um bom sinal, mostrava que seu corpo estava se readaptando à rotina de exercícios frequente. esperava começar a treinar em campo em breve, mas sabia que ainda era um pouco cedo para aquilo. Por várias vezes se pegou observando o treino do time em campo pelas grandes janelas das salas de fisioterapia, aquilo lhe servia como motivação para que em breve estivesse lá, em campo, e pudesse ser uma opção para entrar em campo e voltar a jogar.
Quando chegou em casa, tomou um banho e foi sentar-se no sofá para assistir ao jogo da Espanha com o pai, o irmão e seu cachorro, Rome, torcendo pelos companheiros de Real Madrid e de seleção. Queria um bom resultado, pois aquele jogo podia definir a classificação para a Euro de 2020.

– Como foi hoje? – Igor, seu irmão mais velho, perguntou antes do jogo começar e deu um sorriso que misturava o cansaço e a felicidade.
– Foi ótimo. Estou morto.
– Mas algo ainda dói?
– Só um pequeno incômodo, mas Jaime já disse que é perfeitamente normal, porque é a adaptação do meu corpo à nova situação e que como o joelho ainda está um pouquinho inchado e desacostumado com atividades, fica um pouco dolorido, mas fiz exames e está tudo bem.
– Que bom. – sorriu. – Alguma previsão?
– Nada. Ainda manteremos os treinos na academia, mas essa semana vamos treinar usando um equipamento da NASA e eu estou super curioso, deve ser muito estranho.
– Equipamento da NASA? – Gilberto perguntou curioso e assentiu.
– Sim. Algo na esteira, parece que é uma bolha anti impacto que eles usam em treinamentos de astronautas.
– E ainda estão te filmando? – Igor perguntou e assentiu.
– Estou me sentindo uma estrela de cinema. – riu. – Inclusive, querem vir gravar algumas coisas aqui com a gente. Parece que vão fazer um documentário…
– Você está mesmo muito importante. – Igor implicou.
– É o preço de ser o jogador mais bonito do elenco. – respondeu, forçando um tom convencido e caindo na risada.
– Espero que não peçam pra ir no seu quarto, está uma bagunça. – Gilberto falou, fazendo Igor gargalhar.
– Parece que nunca saiu da adolescência.
– Hahaha, Igor, muito engraçado. – respondeu, debochado, fazendo uma careta para o irmão. – Pai, meu quarto está arrumado, eu o deixei organizado de manhã. Rome esteve por lá?
– Quase nada. – o mais velho deu de ombros. – Passou o dia comigo enquanto assistíamos televisão.
– Que inveja.
– Vamos assistir agora. – Igor apontou pra tela. – Vamos assistir a nossa classificação pra Euro.

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MARCA.com, Avenida de San Luis, Madrid, terça-feira, 15 de outubro de 2019

– O que você está pretendendo fazer esse fim de semana? – Cora perguntou para , mas sem desviar os olhos da televisão.
Precisavam ficar atentas, pois estavam cobrindo o jogo da Seleção Espanhola para o site do MARCA.com e qualquer piscada em momento errado, poderia atrapalhar na cobertura da partida.
– O irmão mais novo do Martín vai casar, então vamos a Toledo pra isso.
– Está de folga?
– Estou no sábado, mas não estou escalada pro jogo de domingo, só se for uma emergência que não tem outra possibilidade de ser feita por outra pessoa.
– Quase quero apostar que vão dar um jeito de te mandar pra Sevilla. – Cora deu uma risadinha. – Mas espero que não.
– Pelo amor de Deus, não! – riu. – Eu não aguento mais essas ligações de última hora me escalando pra jogo.
– Olha lá, que merda! – Cora falou dando um pulo na cadeira. – Como esse goleiro defendeu isso? Como ele conseguiu defender essa cabeçada do Gerard Moreno? Filho da puta!
– Que inferno. – reclamou junto. – Precisamos vencer e já classificar de uma vez nessa merda e facilitar nossa vida pro ano que vem.
– É bem capaz de perder, nunca vi uma seleção que gosta de um sufoco…
– A Itália. – deu uma risadinha. – Poderíamos ter resolvido isso contra a Noruega na semana passada, mas cá estamos nós…
– Enfim, o irmão mais novo vai casar? E Martín não fala nada sobre casamento com você?
– Muito cedo pra isso, Cora.
– Vocês namoram há uns dois anos, , não está tão cedo assim…
– Está sim. E não estamos pensando em casamento por enquanto. Pelo menos eu não estou.
– Mas vocês não precisam casar imediatamente caso ele peça…
– Eu sei disso, mas não acho que estamos nesse momento. – deu de ombros. – Vou pedir uma pizza pra gente.
– A redação está cheia…
– Eu disse que é pra nós duas. Os outros que se virem. – deu uma risada abafada, mal desviando os olhos da televisão para pedir a pizza pelo aplicativo.

O primeiro tempo do jogo terminou empatado sem gols, mas com boas chances para os dois lados, grandes defesas dos goleiros e oportunidades perdidas pelas duas seleções. O empate classificaria a Espanha, mas nenhum torcedor queria aquilo, tampouco os jogadores pareciam querer um empate.
Quando a pizza chegou, o segundo tempo da partida estava começando, e as duas voltaram suas atenções à televisão e mastigavam os pedaços de pizza sem tirar os olhos do jogo. Aos cinco minutos, a Suécia abriu o placar depois de uma sequência de defesas do goleiro De Gea.

– Achei falta no primeiro lance. – falou enquanto escrevia o lance para o tempo real da partida que estava indo ao ar no site.
– O Bernat escorregou sozinho. – Cora resmungou. – De Gea rebateu mal e deixaram o cara entrar sozinho na área… ridículo.
– Precisamos empatar. – resmungou, voltando sua atenção para a televisão.
– Agora sim vamos pelo empate.

O jogo continuou bastante intenso, a Espanha criou muitas chances, mas o goleiro Olsen defendeu tudo que podia e conseguia. A Espanha só conseguiu o empate nos dois minutos de acréscimos, após a cobrança de escanteio que gerou uma pequena confusão na área e Rodrigo Moreno se aproveitou e u o gol do empate e que dava a classificação da Espanha como a líder do grupo.
O jogo acabou um minuto depois e as duas respiraram aliviadas. Agora jogariam contra Malta e Romênia, ambas em casa, sem depender de ninguém e de nada. Estavam confirmados na Eurocopa de 2020. Uma chance de título para tentar desfazer a imagem negativa que a seleção vinha carregando desde 2014 e sua eliminação prematura na Copa do Mundo, que precedeu outra eliminação prematura na Eurocopa de 2016, caindo nas oitavas-de-final para a Itália, e uma Copa do Mundo horrenda em 2018.
As duas, Cora e , saíram da redação juntas e seguiram para a casa de , costumavam sempre jantar juntas por lá quando cobriam jogos juntas e assim fizeram. Passaram no supermercado, compraram algumas cervejas, pediram comida e logo estavam sentadas na sala, acompanhadas de Nairóbi, a gatinha branca de .

– Você não gosta do Martín o suficiente pra vocês se casarem? – Cora perguntou e deu uma risada alta.
– Que direta.
– Fiquei curiosa.
– Gosto, Cora, mas não pra casar agora. Não estou nesse momento e sei que ele também não está.
– Será?
– Com certeza. Se estivéssemos, um de nós dois já teria falado sobre casamento, mas, por enquanto, estamos muito satisfeitos apenas namorando.
– Mudando de assunto… ouvi dizer que essa semana você não derrubou ninguém em Valdebebas… – Cora brincou, fazendo rir.
– Eu nunca derrubei ninguém. Eu sou a pessoa que cai.
– Alguma notícia de ?
– Nenhuma além das que todos sabemos: ele está em fisioterapia e a previsão de volta é março de 2020.
– Você é amiga dele, descubra mais coisas.
– Não sou amiga dele, Cora.
– Você já bateu no carro dele, ele te levou pro hospital, ficou lá com você até sua alta e te trouxe em casa, você já quase o derrubou de uma cadeira de rodas, vocês já se esbarraram e conversaram um tempão… pra mim isso configura amizade.
– Mas você é doida, então não posso levar em consideração o que você está falando.
– Ele é cheiroso? Porque ele parece ser cheiroso.
– Por que eu saberia disso?
– Porque você já esbarrou nele!
– Não fiquei prestando atenção nisso, amiga.
– Mas não sentiu cheiro de nada?
– Ele usa um bom perfume.
tem cara de ser bastante cheiroso, daquele tipo que deixa o ambiente todo perfumado quando chega.
– Martina sabe que você está interessada em cheiro de homens?
– Deus me livre! Eu apenas mencionei uma coisa que acho que é real. – Cora falou apressada, fazendo rir. – De homem o que eu mais gosto é da distância que tenho deles.
– Não está errada, mas quando eu encontrar com de novo, eu presto bastante atenção e te digo se ele é cheiroso com toda certeza ou não.

Siete

“Ain’t about how fast I get there, ain’t about what’s waiting on the other side, it’s the climb…” (Miley Cyrus – The Climb)

Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, sexta-feira, 01 de novembro de 2019



estava digitando alguns tweets na conta do Marca enquanto Zidane respondia às perguntas da coletiva de imprensa que precedia o jogo contra o Real Betis, no dia seguinte, no Santiago Bernabéu. Odiava fazer o papel de social media, mas era melhor do que andar com aquele estagiário lerdo e preguiçoso do setor, preferia ela mesma escrever rapidamente as perguntas e respostas que, naquele dia, estavam, em sua maioria, realmente interessantes.
Quando chegou sua vez, ao estender a mão, Zidane lhe lançou um sorriso simpático, sorriu de volta da mesma forma. Tinha uma tremenda admiração pelo homem, tanto como jogador quanto treinador, tinha vencido tudo e era um homem de respeito. E, , claro, gostava de ter a chance de escrever sobre o que ele falava antes dos jogos.

Míster, bom dia.
– Bom dia.
– Ontem o Marcelo falou sobre a crise de ansiedade que teve na final da Champions League contra o Liverpool. Isso é bastante recorrente no futebol, por mais que seja pouco falado e tratado, ainda existe um preconceito enraizado sobre o tratamento de transtornos psicológicos e emocionais, não apenas no futebol, mas de modo geral na sociedade. E o Madrid tem uma torcida que cobra muito, que critica muito e por mais que alguns torcedores achem que os jogadores não leem, ou até não se importem caso os jogadores leiam, os atletas leem todas as críticas e isso, as vezes, os afeta muito em campo. Foi perguntado sobre a rotatividade do elenco e sobre essa ser a primeira vez que os onze de um jogo serão repetidos… como tem se dado o trabalho psicológico com os atletas para lidar com todas as pressões internas e externas, acontecimentos intra e extracampo, como, por exemplo, lesões graves como as de ? Há um trabalho feito e direcionado apenas para isso? Existe um acompanhamento real para trabalhar não apenas o físico do atleta, mas também o psicológico?
– Uau. – Zidane deu uma risadinha, fazendo os demais rirem. – Eu não sabia que essa história do Marcelo tinha chegado pra imprensa… bom, respondendo, o Madrid é mesmo uma equipe que possui muita cobrança interna e externa, os próprios atletas se pressionam muito e ver a competição por posições também é um fator que pode ajudar nesses transtornos. Nós possuímos psicólogos pra ajudar nossos atletas quando eles consideram necessário fazer acompanhamento, isso não é algo que podemos forçar. No caso de lesões, eles fazem o acompanhamento obrigatoriamente, porque o psicológico faz toda a diferença nesse momento, sei que o psicológico faz toda a diferença nos outros momentos também, mas os atletas não são obrigados a fazer. E eu, assim como você sempre disse, compactuo com a ideia do tratamento psicológico obrigatório para atletas, em separado e em coletivo, mas é uma questão bastante complexa e que requer bastante diálogo com os atletas, com os clubes e as federações, porque não podemos obrigar os atletas a isso, afinal, nenhum tratamento psicológico faz efeito se for desse jeito, forçado e de forma inquisidora.
– Vamos agora para as duas últimas perguntas em francês. – o assessor de imprensa do clube falou e sorriu agradecida para Zidane e anotou a resposta do treinador antes de postar no Twitter, enquanto prestava atenção nas perguntas francesas que eram feitas e traduzidas automaticamente em seus fones de ouvido.
A coletiva durou mais alguns minutos, o tempo que ele gastou para responder as duas últimas perguntas, e logo os jornalistas estavam todos de saída da sala de imprensa, depois que o treinador e os assessores saíram. cumprimentou alguns dos conhecidos, sem parar para uma conversa demorada. Precisava encontrar Rafael para fazer uma chamada para um vídeo que iria para o site e só então poderiam voltar para a redação e terminar seu trabalho.
Uma mensagem no celular informava que Rafael estava esperando do lado de fora, então não demorou a seguir para o lugar em que ele tinha tirado uma selfie para marcar a localização, estava com pressa, tinha trabalho a fazer na redação e sabia que Rafael ainda precisava ir até o centro de treinamento do Atletico de Madrid para cobrir o treino do outro time.
Quando chegou ao local, avistou de longe que estava prestes a entrar em um carro e o mais novo acenou, apontando para o carro e ela negou, levantando o microfone e ele assentiu, voltando a acenar, mas dessa vez em despedida e logo o carro deu partida e sumiu do estacionamento, sendo guiado pelo pai do jogador.

– Ouvi dizer que você fez uma super pergunta ao Mister hoje… – Rafael falou e deu de ombros.
– Uma pergunta comum, como sempre.
– Fez Zizou sorrir? – perguntou, dando uma risadinha e ela assentiu. – Então não foi comum, . Você precisa começar a aceitar que é foda.
– Eu sei que sou foda, Montero, nunca duvidei, mas foi uma pergunta simples sobre a declaração do Marcelo ontem e como o time trata o psicológico dos jogadores.
– Vou procurar pra ver depois. – sorriu. – Então, precisamos gravar o take pra edição colocar você falando antes e o texto eu te mandei por mensagem.
– Você é a melhor pessoa de todas, Montero. – sorriu. – Gostei do treino, espero que o jogo amanhã seja bom.
– O Madrid precisa vencer se quiser mesmo lutar pela taça.
– Com certeza. Mas não acho que teremos um jogo fácil, porque o Betis vem desesperado pra vencer e sair da parte de baixo da tabela.
– Também acho que o jogo vai ser bem pegado e que se o Madrid bobear como fez em alguns jogos, vai perder pontos importantes.
– Vira essa boca pra lá! – reclamou, fazendo o colega rir. – Agora vamos filmar essa chamada logo, eu preciso ir pra redação e você também tem mais o que fazer.

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Estádio Santiago Bernabéu, Madrid, sábado, 02 de novembro de 2019

Aquela era a primeira vez em cem dias que pisava no Santiago Bernabéu, mas, infelizmente, muito longe dos gramados, onde ele queria estar de verdade. Cem dias. Parecia ter se lesionado há tanto tempo, muito mais do que “apenas” aqueles cem dias.
Seguido de perto por uma câmera da Real Madrid TV, visitou vestiários e foi para o camarote para assistir à partida. Torcendo por um bom jogo, por uma boa vitória e por seus companheiros de time. Precisavam daquilo se queriam mesmo ser campeões de La Liga, não podiam deixar que o Barcelona se afastasse tanto assim na classificação, porque quando isso acontecia, normalmente eles levavam o título sem muitas dificuldades.
Mas, mesmo com tantas oportunidades, o jogo foi para o intervalo sem gols e nenhum dos torcedores presentes no estádio – e os fora dele, com certeza – estavam felizes com o desempenho do Madrid em campo. Um ataque ineficaz que não era capaz de fazer um mísero gol em um time que estava desesperado, tinha uma defesa pouco confiável e lutando na parte de baixo da tabela.

– Não entendo o motivo de não termos feito gol. – reclamou com o pai, que assentiu.
– Não sei qual dos dois times parece mais perdido em campo.
– É um saco assistir ao jogo da torcida, eu desaprendi a fazer isso. – resmungou, fazendo Gilberto dar uma risada baixa.
– Logo você estará de volta, filho. E voltará ainda melhor do que quando parou.
– Não seja tão otimista, pode ser uma decepção e tanto quando as coisas não saírem conforme o planejado…
, eu sei que você voltará ainda mais forte e você também precisa saber e acreditar nisso tanto quanto eu e todos os outros.
– Eu prefiro não ter as expectativas tão altas, porque prefiro não ficar frustrado.
– Zidane disse que confia na sua recuperação total e completa. E se você não acredita que vai ficar totalmente bem, não confia em quem está te tratando e cuidando de você no departamento médico. Você vai voltar bem, filho, porque você não sabe o que é jogar mal e nunca soube. Quando retornar, será em grande estilo e de um jeito que vai deixar claro pra todos que duvidarem da sua capacidade que você é e usa essa camisa do Real Madrid por talento e capacidade. – Gilberto falou sério e deu um sorriso, abraçando o pai e dando um beijo no rosto do mais velho.
– Pai, o senhor é a melhor pessoa que eu já conheci na vida.
– Eu sei disso. – sorriu. – Agora vou buscar algo pra comermos e você fique aqui.
– Claro. – respondeu e o pai saiu de perto.
. – ouviu seu nome ser chamado e quando se virou, encontrou Nacho Fernández entrando no camarote.
Chavalito. – sorriu para o amigo. – Senta aí.
– Não achei que você viria. – Nacho falou, sorrindo e sentou ao lado de .
– Decidi vir ontem no fim da tarde. – deu de ombros.
– E como está sua recuperação?
– Ótima. – sorriu. – Estou me recuperando bem, já sem dores, mas ainda é cedo demais pra voltar. E você?
– Também estou bem, me recuperando e fazendo de tudo pr…
– TIO! – os dois foram interrompidos por uma voz infantil e logo Alejandra estava entrando animada, seguida de perto por Nachito, e foi abraçar .
– Como vocês cresceram! – falou, abraçando a menina e ela sorriu.
– Eu sou bem grande mesmo!
– Já cansaram de brincar? – Nacho perguntou curioso.
– Nãoooooo! – a menina respondeu ao pai de uma forma prolongada e bem dramática, acenando negativamente para enfatizar ainda mais a resposta. – Estamos brincando, mas eu vim dar um abraço no tio .
– Anda Ale, vem brincar! – uma outra voz infantil chamou e quando se viraram para ver quem era, encontraram Liam e Sergio Jr esperando pelos dois.
– É, vão brincar e fazer bagunça. – Nacho falou e Alejandra não se deu ao trabalho de responder, apenas deu um beijo no rosto de e saiu do camarote com o irmão, que entrou mudo e saiu calado, e voltariam a brincar.
– Esse lugar está cada dia mais cheio de crianças… – falou observando as crianças que se afastavam do camarote.
– E ainda faltam algumas. – Nacho deu uma risadinha.
– A creche da Nina está aberta?
– Nina só vem aqui em cima quando é forçada. – Nacho riu ao falar. – Hoje os pais dela não vieram, então ela deve estar lá embaixo com o Santiago.
– Ela é doida, porque todo mundo a conhece agora que o namoro dela e do Isco foi assumido.
– Agora nada, eles assumiram tem uns dois anos.
– Você entendeu o que eu quis dizer. – falou, rolando os olhos.
– E você acha que ela liga pra isso? Nina não está nem um pouco preocupada com esse tipo de coisa mais. – Nacho riu. – E, agora, falta uma criança sua pra compor a creche.
– Muito difícil ter um filho sem uma namorada, Nacho.
– Não é bem assim, você viu como o James teve o Samuel…
– Eu não vou alugar uma barriga pra ter um filho. – riu. – Não vou contribuir pro aumento da creche. Não por enquanto.
– Tudo bem, você é integrante da creche. E bebês não podem ter bebês. – Nacho riu ao implicar com o amigo.
– Deixe de ser idiota. – resmungou.
– Então, além de bom de bola, agora você resolveu ser ator? – Nacho perguntou, maneando a cabeça na direção das câmeras.
– Se eu não voltar bem, pelo menos garanto meu sustento no futuro. – respondeu rindo e Nacho riu junto.
– Você voltará muito bem, . Todos nós sabemos disso.
– Assim espero, mi amigo, assim espero…
– Nacho, que surpresa. – ouviram a voz de Gilberto, que regressava ao camarote, com um prato em mãos e sorriu agradecido quando o pai lhe entregou a comida.
– Estou de molho também, vim assistir ao jogo.
– Está sofrendo tanto quanto ? Porque ele está quase pulando em campo…
– Acho que menos, estou sofrendo um pouquinho, mas acho que no segundo tempo as coisas ficarão melhores.
– Vamos torcer por isso, porque o primeiro tempo foi um show de horrores. – Gilberto deu uma risadinha ao falar.
– Pelo menos não estamos perdendo, isso sim seria um problema.
– E nem perderemos. – falou, virando-se para o amigo. – Precisamos vencer.

Mas não venceram.
O jogo terminou empatado, depois de outras tantas chances perdidas de ambos os lados. O resultado não era bom para nenhuma das duas equipes, o Real Madrid estava se afastando ainda mais do líder Barcelona e o Real Betis se aproximando mais da zona de rebaixamento.
Depois de um tempo conversando com os conhecidos e amigos que estavam na área reservada do estádio, estava de saída com seu pai já dentro do carro e podia jurar ter visto entrando em um carro com outras duas mulheres, mas estavam distantes o suficiente para que ele não tivesse certeza.
E, em todo caso, ele tinha que parar de achar que estava vendo em todos os lugares. Não fazia o menor sentido.

Ocho

“Tengo dos ovarios y los pongo por delante, soy lo que soy, soy lo que ves y lo de valiente no me quita lo cortés” (Cami – Aqui Estoy)

MARCA.com, Avenida de San Luis, Madrid, quarta-feira, 20 de novembro de 2019

– Eu não vou falar sobre nada disso, Sacristán. – falou séria e o homem rolou os olhos.
– É uma notícia esportiva, .
– Não, não é. E eu te falei isso lá em dois mil e dezoito quando os dois assumiram o namoro e vários tabloides começaram a falar a respeito disso. Nós não somos um canal de fofoca, nós falamos sobre esportes. Eu sou uma jornalista esportiva, não sou uma espécie de gossip girl pra fazer matéria falando sobre a irmã de Sergio Ramos que namora com Isco. Eu não me importo nem um pouco sobre quem namora com quem e você também não deveria, porque não é da sua conta.

– Eu estou falando sério. Já tivemos essa discussão quando eles assumiram o namoro e eu disse que não publicaria nada a respeito e que se alguém daqui publicar, eu pego minhas coisas e vou embora pro AS sem pensar duas vezes. – falou séria. – Não somos um tabloide de fofoca, nós falamos sobre esportes!
– E vamos falar sobre a irmã de Sergio Ramos no Wanda Metropolitano, acompanhada do namorado Isco, assistindo ao jogo da Espanha ontem…
– Sem chance.
– Você não fará, mas algum deles fará e eu quero só ver se você vai mesmo sair.
– Experimente. – respondeu séria. – Experimente chegar a esse ponto, Sacristán, e veja bem se eu não coloco minhas coisas em uma caixa e saio daqui direto pra mesa no AS que o Relaño disse que me espera e esperará pra sempre.
– Você não faria uma idiotice dessas.
– Posso sair daqui pro AS, pro Daily Mail, The Guardian, Daily Mirror, Mundo Deportivo… tenho e sempre tive propostas deles mesmo sem procurar, Sacristán, e já me falaram que eu teria carta branca pra trabalhar. Se você acha que eu vou ficar fazendo papel de fofoqueira pra um monte de pessoas sem o que fazer fique comentando sobre a vida alheia, a vida de uma mulher, na verdade, além de tentar criar uma rivalidade entre ela e eu, porque criar esse tipo de notícia é querer que eu a provoque e ela responda, que gere muito inferno e comentários, você está enganado. Eu não sou esse tipo de pessoa e nem de profissional, não me formei na faculdade pra ser esse tipo de pessoa e espero que você saiba disso. Se não estiver bom pra você o fato de que eu me preocupo com o exercício regular do meu trabalho e com a imagem desse jornal, você pode me demitir sem nenhum remorso.
– Não seja tão infantil, . Você é uma excelente jornalista, eu não vou te mandar embora.
– Então pare de querer controlar meu trabalho! – falou uma oitava acima do tom normal. – Eu não vou falar sobre isso e nenhum dos jornalistas daqui farão isso. Ninguém aqui se formou pra escrever fofocas de futebol. Aqui você tem uma equipe de profissionais capacitados e excelentes, pessoas que trabalharam e trabalham muito pra conseguir esse emprego, não pessoas que vão ficar criando matérias pra falar do namoro de pessoas, de términos ou o que for! Ninguém tem absolutamente nada a ver com a vida privada de nenhum jogador, a parte pública da vida deles é o futebol, o que eles fazem dentro de campo e, fora dele, só se for afetar algo no desempenho em campo. Não interessa se eles namoram entre eles, com os familiares uns dos outros ou com o que for!
– Você não precisa ficar brava assim.
– Sim, eu preciso! – falou séria e mais alto do que queria. – Eu já falei isso antes, mas vou repetir. E preciso repetir brava, talvez assim você memorize as palavras e não volte a me pedir esse tipo de coisa! Qual o sentido falar sobre a vida amorosa da irmã de Sergio Ramos? Só porque ela namora com outro jogador? Não vejo necessidade nenhuma disso! Ninguém deveria se importar com essa merda, porque é a vida privada deles e não é da conta de ninguém se não deles mesmos! Se eu chegar ao rádio e ouvir uma pergunta que seja sobre isso, eu me demito ao vivo e não estou nem aí.
– Pare de ameaçar se demitir.
– Eu não estou ameaçando, estou avisando. – respondeu séria. – Qualquer coisa sobre vida privada de jogador, coisas que não envolvam futebol, eu vou embora.
– Envolve futebol, porque Isco está muito abaixo do que jogava antes
– Vou fingir que não ouvi isso, que não entendi o tom que você usou, porque se eu não fizer isso, nós vamos brigar muito mais do que agora. – respondeu. – Isco não está jogando bem desde antes disso, aquele time de 2017 jogava muito bem e ele teve um bom pico de desempenho, só que caiu com o tempo e não soube e nem está sabendo lidar bem com as pressões e cobranças pra voltar a apresentar um futebol regular, então se você tem alguma coisa a falar sobre Isco em campo, fale sobre como ele não consegue fazer o básico quando entra no jogo e, por isso, tem passado a maior parte do tempo no banco! Não queira culpar a namorada dele, porque ela não entra em campo, ela não quebrou as pernas dele e nem o fez desaprender a jogar.
– Eu não falei que a culpa é dela.
– Não falou, mas deixou subentendido que é isso o que pensa. Isco é um jogador entre o mediano e o bom, tem muitas coisas pra aprimorar, mas nenhuma delas envolve o namoro com a irmã do Sergio Ramos. E, caso envolva, não é da sua conta. E nem da de ninguém fora do relacionamento!
, abaixe o seu tom de voz.
– Eu vou abaixar o meu tom de voz quando você assimilar e compreender o que eu estou dizendo, Sacristán. Eu não estou te desafiando, eu não estou ameaçando, eu estou falando a verdade e que você deveria levar a sério ao invés de ficar querendo competir com o Salvame pra ver quem vende mais fofoca. Eles já falaram sobre isso, inclusive.
– Eu já entendi seu ponto, , pode ficar tranquila.
– Espero que tenha entendido mesmo, porque se eu precisar falar sobre isso mais uma vez, eu vou me demitir e sem retratação. – falou séria e Sacristán assentiu.
– Estão te esperando no andar da Radio Marca. – falou e ela assentiu, levantando-se da cadeira em que estava e saiu da sala do chefe.
Muitos olhares em sua direção, claro, afinal a conversa entre ela e o chefe tinha sido bem audível. Ninguém falou ou fez nada, exceto Cora, que lhe lançou um sorriso de aprovação e ergueu os polegares para a amiga.
– Ainda bem que você falou tudo que precisava ser dito. Amei. – Cora falou quando se aproximou da própria mesa para buscar algumas coisas antes de ir até a estação da Radio Marca.
– Infelizmente foi necessário ser incisiva e audível, ele realmente queria que eu me prestasse ao papel de escrever algo do tipo. – falou, pegando a agenda e algumas anotações.
– Nos encontramos para almoçar? – Cora perguntou e assentiu. – Estarei ouvindo.
– Não se atrase. – falou antes de sair da própria mesa e ir na direção da saída.

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Madrid, quarta-feira, 20 de novembro de 2019

não era do tipo de pessoa que costumava escutar rádio, tinha perdido aquele hábito há anos, mas naquele dia estava de fones e prestes a começar a ouvir um programa da Radio Marca da manhã. E ouviria, porque tinha visto no Instagram que participaria do programa e estava curioso para ouvir a opinião dela sobre algumas coisas. Tinha ficado sabendo de como ela tinha ficado brava há uns meses, no jogo contra o Club Brugge, e como já assistira um programa esportivo do qual ela fez parte, depois dos recentes acontecimentos, ela provavelmente teria opiniões interessantes.

– Agora esse programa vai realmente ficar interessante. – o locutor, Raúl Varela, falou animado. – Uma das melhores jornalistas do Marca.com está aqui pra participar do programa. , bom dia.
– Desculpem o atraso, eu precisei resolver umas coisas lá na redação antes de chegar. Mas, bom dia Raúl, Edu, Gonzalo, Pablo, Luiz e Pedro.
falou e os cumprimentos foram ouvidos quase em uníssono.
– Vamos começar falando sobre o desempenho do Madrid, como as coisas parecem estar se encaixando bem no time.
– Finalmente.
falou dando uma risadinha e os outros riram junto. – Mas, é, o time parece ter engrenado desde o empate com o Club Brugge, foram sete jogos contando Champions League e La Liga, cinco vitórias, um empate e uma derrota. Um desempenho realmente bom, mesmo com alguns pontos que precisam muito ser consertados, a defesa foi muito bem, apenas três gols sofridos nesses sete jogos. Vinte gols feitos e três sofridos, é realmente interessante e me parece muito bom.
– Mais do que bom.
– um dos homens, não sabia diferenciar quem, falou.
– Não te impressiona a quantidade de pênaltis marcados? Cinco em sete jogos?
– um deles perguntou.
– Me preocuparia se fossem pênaltis mal marcados, mas foram todos reais. – respondeu. – Mas, fora isso, foram bons jogos.
– E como você vê as atuações dos novatos?
– Vinicius e Rodrygo são espetaculares, mesmo que Vinicius já estivesse aqui na temporada passada, essa temporada nós podemos dizer que ele tem recebido mais oportunidades e eu o considero novato por isso. Hazard, Jovic, Mendy e outros são bem consistentes, algumas atuações medianas e ruins, mas acontece. Acho que ainda falta um pouco de confiança deles mesmos, porque são grandes jogadores.
– Ainda estou desconfiado de Hazard e Jovic, não acho que valham tudo que foi pago.
– Hazard foi essencial para o Chelsea durante todos esses anos, Edu.
falou num tom muito calmo, mas firme e com conhecimento. – E nós sabemos que o potencial de dificuldade da Premier League é muito maior do que de La Liga, lá não existem apenas três times se alternando no topo e os demais se matando no meio da tabela. Coisas loucas acontecem naquela liga e Hazard foi um jogador muito importante para o Chelsea, assim como é na Bélgica. Ele precisa perder a timidez, acho que a ficha ainda não caiu que ele está no Real Madrid e as coisas são diferentes aqui, mas os adversários o estudam bem e quando não o param na bola, param na porrada. Jovic também me parece ainda estar tímido, eu o acho um jogador muito bom, ele mostrou isso na temporada passada, no Frankfurt.
– E os antigos?
– Temos excelentes jogadores há um bom tempo, acho que não preciso mencionar Sergio Ramos, Marcelo, Varane, Carvajal, Nacho, Casemiro, Kroos, … mesmo que alguns estejam machucados, temos um bom time, algumas peças um pouco desgastadas e já não rendendo tanto, mas outras até que ainda bem.
– E quem não está rendendo tanto, na sua opinião?
– Modric, desde a Copa, não tem jogado quase nada do que realmente sabe jogar. E, pra mim, como eu já disse várias vezes, não acho que ele mereceu vencer como “Melhor do Mundo”, mesmo sendo um jogador excelente. Enfim, também posso citar Isco, que não vem atuando e quando atua, não rende o que é esperado, Vázquez, que costuma render bem quando atua na lateral, mas no ataque é um pouco ineficiente, Mariano…
respondeu e recebeu algumas concordâncias. – Benzema parece ter se livrado do pé torto das últimas temporadas e voltou a fazer os gols que sabe e dos quais o Madrid precisa.
– James?
– Não é o melhor do mundo, mas gosto do estilo de jogo e da forma como ele se comporta em campo. É um bom jogador e eu daria mais oportunidades, mas não sou Zidane, não sei da realidade dos treinos e nem do que se passa em Valdebebas, impossível entender os motivos por trás de tudo.
– E Bale?
– Ele sete dos dezessete jogos disputados até agora pelo Madrid, o que já é muito mais do que eu esperava que ele fizesse durante toda a temporada.
– ela soltou uma risadinha ao falar. – E, como ele mesmo fez questão de mostrar ontem no jogo pela seleção do País de Gales: Madrid é em último lugar, então ele, pro time, faz esse tipo de esforço e não entra nem na lista dos que não rendem, porque quando ele está em Madrid, está no Departamento Médico.

deu uma risada ao ouvir a fala da jornalista. Estava aguardando por aquela parte ansiosamente.

– Aquilo foi… – um dos homens começou a falar e deixou a frase morrer.
– Ridículo, pra dizer o mínimo. falou num tom sério. – Eu sei que ele não tem nenhuma obrigação de amar o Real Madrid, que isso é obrigação da torcida, mas tem a obrigação de respeitar. Respeitar o time e a torcida, além de respeitar os companheiros de equipe. Bale nunca se esforçou para se enturmar de verdade, não fala espanhol, tem um comportamento realmente preguiçoso com o clube que lhe deu tudo que ele conquistou em sua carreira. Bale teve participação importante em todas as Champions Leagues que conquistou pelo Real Madrid, ele é um jogador realmente muito bom e que tem um potencial absurdo e que pode ser aprimorado ainda mais se ele quiser, mas não consegue respeitar o clube em que está e nem a torcida.
– Você acha mesmo?
– Sem dúvidas. Ele é um bom jogador, machuca muito, mas tem velocidade, presença de jogo, sabe finalizar e se posicionar muito bem em campo. Se não ficasse de birrinha, sabe se lá o motivo, já teria conquistado muito mais coisas, não apenas coletivamente. Ele teve, e eu já disse isso algumas vezes, potencial de ser indicado para ser o melhor do mundo e vencer! Não sei o que se passa na cabeça dele, nem quero também, mas faz pouco sentido um comportamento tão apático em relação ao clube quanto ao que ele tem pelo Real Madrid. Sei que ele vai ficar sabendo disso aqui, que vão perguntar o que ele acha e ele, muito provavelmente, vai responder que eu não sei do que se passa na cabeça dele e nem em sua vida e que estou tirando conclusões do meu bolso pra poder falar, o discurso é decorado e eu imagino que essa será a reação dele, se é que terá alguma reação também. Realmente, não sei do que se passa em sua cabeça e nem em sua vida, posso estar tirando conclusões do meu bolso, mas o faço quando vejo as atitudes do jogador em campo. Se não está feliz em Madrid, que encontre um clube novo. É simples. Todos os ciclos se encerram, então talvez seja esse o momento que o ciclo de Gareth Bale se encerra no Madrid e começa em outro lugar.
– Também achei indecoroso da parte dele ostentar aquela bandeira com “Gales. Golf. Madrid. Nessa ordem.”, deixa claro que ele não está nem aí pro clube e só quer ganhar o salário e mais nada.
– Por sorte, o Madrid tem ótimos nomes que podem jogar quando o galês está mais preocupado com o golf ou sem poder atuar por estar lesionado
. – falou, querendo mudar de assunto. – E ainda bem.
– Rodrygo e Vinicius estão ai pra isso.
– E deve voltar em breve, então acho que teremos uma boa briga.
falou num tom animado. – Gosto muito do estilo de jogo dele, um dos melhores, e é jovem, então temos muito a ganhar com ele na Espanha e no Real Madrid.
– E por falar em Espanha, a seleção se classificou para a Euro 2021 contra a Suécia lá na Suécia, mas venceu os dois últimos jogos, contra Malta, por sete a zero, e ontem contra a Romênia, por cinco a zero. Podemos esperar algo melhor do que os últimos cinco anos de vexames?

continuou ouvindo o programa por mais de uma hora, dando algumas risadas ao ouvir comentários sobre os times, jogos e uma ou outra piada e quando se despediu, desligou o rádio e quando ia se levantar, o celular tocou e não demorou a atender quando viu que se tratava de uma chamada de Isco.

– Sua namorada não gosta de mim. – foi a primeira coisa que Isco falou, fazendo gargalhar.
– Ela não disse que não gosta de você.
– AHÁ! Não negou que é a namorada! – Isco riu alto e rolou os olhos, mesmo que o amigo não pudesse ver o gesto. – Enfim, achei ofensivo ela dizer que eu não rendo nada em campo.
– Ela falou que você não tem rendido o esperado, o que significa que esperam que você renda mais, porque sabem que você é bom.
– Marina te disse isso? Porque ela falou exatamente a mesma coisa enquanto estávamos ouvindo a entrevista.
– Você ouviu isso por quê?
– Pelo mesmo motivo que você, claro. Sua namorada é uma boa jornalista, mas eu queria saber qual seria a fala dela sobre a bandeira do Bale.
– Eu não fiz isso. – respondeu, rindo. – Jamais faria isso…
– Bale é um otário e se eu pudesse, enfiaria aquela bandeira no… TÁ BOM, AMOR. Meu Deus, essa mulher é louca igual ao irmão dela mesmo. – Isco falou, tomando o celular de volta. – Enfim, ela gosta de você.
– Sim, do jogador . Mas ela não está errada, eu sou sensacional. – brincou.
– Bom, eu só queria te ligar pra dizer isso e pra avisar que te busco uma e meia pra sessão de treino da tarde. Fofocaremos mais pessoalmente, pisha.

Nueve

“Y empecé mis planes para vernos otra vez…” (Sebastian Yatra – Cristina)

MARCA.com, Avenida de San Luis, Madrid, segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

esticou-se em sua cadeira, soltando um grunhido baixo e satisfeito ao sentir os músculos se esticando depois de tanto tempo na mesma posição. Finalmente era hora de ir aproveitar alguns dias de folga, mesmo que, antes, precisasse terminar de fazer as malas para passar os feriados de fim de ano em Tenerife.
Tinha trabalhado muito naquele fim de ano, cobriu jogos de La Liga nos estádios pela Espanha – o time fez seis jogos, somando três vitórias e três empates – e ainda viajou para a Bélgica para cobrir o jogo de volta contra o Club Brugge pela Champions League, além de ter participado novamente de alguns programas de rádio e televisão. Estava exausta e não podia estar mais satisfeita de ter conseguido mais algumas folgas que a permitiriam passar o Natal e o Ano Novo com os pais sem se preocupar com trabalho ou com precisar voltar apressada para trabalhar.
Deixou a redação depois de se despedir de alguns colegas de trabalho que ainda estavam na redação, desejando um bom fim de ano, e seguiu rapidamente para o próprio apartamento. Cora já tinha buscado Nairóbi e cuidaria da gatinha enquanto estivesse fora, então apenas iria para a casa de Martín depois de terminar de fazer as malas e de lá seguiriam para o aeroporto.

– Preciso te contar uma coisa. – Martín falou quando entrou em sua casa, arrastando as malas.
– Devo ter medo?
– Não. – deu uma risadinha, aproximando-se para dar um selinho na namorada. – Só não vou poder ficar o feriado todo. Posso passar o Natal, mas preciso voltar pra Madrid dia 27, Ángel operou o joelho hoje e os pacientes dele vão se consultar comigo.
– Mas… você não tinha tirado férias?
– Sim, mas são pacientes que não podem esperar, infelizmente.
– Então você vai ficar quatro dias?
– Você é quem precisa de férias, , trabalhou muito nesses últimos meses e precisa de descanso. Eu não trabalhei tanto quanto você.
– Mas eu não estou falando de quem trabalhou mais, cariño, mas sim de quase não ficarmos juntos no fim de ano. Eu só volto pra Madrid dia cinco de janeiro e tinha feito alguns planos pra aproveitarmos os dias em Tenerife.
– Aproveitaremos enquanto eu estiver lá, . Depois você descansa muito e recarrega as energias pra 2020.
– Então melhor pegar as malas e irmos, não podemos nos atrasar.
– Claro. – Martín respondeu e foi pegar as próprias malas enquanto pedia o Uber para irem ao aeroporto.

Não estava satisfeita de passar a maior parte de sua folga sem Martín, tinha feito planos para aproveitarem aqueles dias juntos, mal conseguiram fazer isso naquela segunda metade de 2019, mas os planos foram todos frustrados com a necessidade de retorno tão rápido dele para Madrid. estava um pouco chateada, mas sabia que logo passaria e que ficaria bem em Tenerife com os pais durante aqueles dias.
Ela aproveitaria muito, sabia disso, adorava passar um tempo com os pais em Tenerife, mas queria que ele estivesse junto para que pudessem se reconectar enquanto casal, ela estava mesmo sentindo que o namoro estava escapando por entre seus dedos. Tinham começado a cancelar encontros um com o outro por causa de trabalho ou por cansaço, o aniversário de namoro tinha sido comemorado em casa, com comida de delivery e os dois dormindo no sofá. Mas, tudo bem, ela entendia que era uma necessidade de trabalho.
A viagem foi tranquila e depois de duas horas e quarenta e cinco minutos, os dois estavam desembarcando em Santa Cruz de Tenerife, sendo recebidos por um vento um pouco frio, mas muito mais fresco e menos poluído que o ar de Madrid. O percurso de vinte minutos entre o aeroporto e a casa dos pais de foi feito tranquilamente, num silêncio sem muito significado ou peso, apenas a quietude de aproveitar até o silêncio daquele lugar.

– Achei que só viriam amanhã, eu teria feito algo para jantar se soubesse que vocês chegariam hoje. – María falou, abraçando demoradamente.
– Viríamos amanhã, era o plano, mas consegui um preço ótimo pra hoje e resolvi comprar. Desculpe por chegarmos tão tarde.
– Não são nem onze da noite, filha, está tudo bem. – a mulher sorriu. – Peça algo para comerem, não preparei nada e até eu cozinhar, já estará na hora do café da manhã.
– Vamos pedir algo sim, María, pode ficar tranquila. – Martín falou, sendo abraçado pela mulher logo que ela soltou a filha.
– Coloquem as coisas no quarto da , tomem banho e peçam algo pra comer! Amanhã vocês podem sair e aproveitar o dia antes de jantarmos.
– Vamos pensar em descanso depois do nosso jantar, mama. Amanhã quero passar o dia na cozinha com a senhora, como fazíamos antes. – sorriu para a mãe ao falar e recebeu o sorriso de volta. – Cadê o papa?
– Dormindo. – María riu. – Ele achou que vocês chegariam de manhã cedo e foi dormir pra acordar cedinho.
– Então vamos tentar fazer pouco barulho e deixá-lo dormir sossegado. – falou, recebendo um aceno da mãe e logo foi para seu antigo quarto.
Os dois tomaram banho, pediram comida e passava de uma da manhã quando, finalmente, deitaram para descansar um pouco depois do dia de trabalho e da viagem de avião.
– Você está chateada? – Martín perguntou num sussurro.
– Chateada não, apenas um pouco triste, achei que passaríamos alguns dias juntos, só nós dois, porque isso não acontece faz muito tempo. Nós estamos constantemente ocupados, desmarcando compromissos e nosso relacionamento está ficando de lado. Sei que tenho culpa nisso, você também, então eu queria usar esses dias pra gente se reconectar, ter um momento nosso, porque sinto como se estivesse te perdendo aos poucos.
– Nós estamos mesmo precisando disso, mas não consigo mesmo ficar em Tenerife até dia cinco e nem quero que você volte comigo, você teve um ritmo de trabalho insano nesses últimos meses e precisa muito de descanso. Vamos dar um jeito, somos dois adultos e sabemos que precisamos desse tempo pelo bem do nosso relacionamento, mas vamos fazer valer a pena enquanto estamos aqui, juntos, tudo bem? – Martín falou, olhando nos olhos de , e ela assentiu, dando um sorriso pequeno, mas satisfeito.
– Tudo bem, vamos aproveitar nossos poucos dias juntos. Talvez o pouco seja suficiente.

A véspera de Natal foi um dia bastante ocupado. passou o dia com a mãe escolhendo o cardápio da noite, enquanto Gael e Martín saíram para comprar algumas coisas e depois foram ajudar a organizar a sala de jantar. Fazia tempo que não passavam o Natal em Tenerife, nos dois últimos anos tinham passado em Madrid e em Toledo, ela tinha sentido falta de passar um tempo na ilha em que passou tanto tempo de sua vida.
tinha nascido e crescido em Santa Cruz de Tenerife e só se mudou para o continente quando foi estudar em Madrid e depois disso voltou apenas para visitar. Sentia falta de morar ali, de conviver com os pais todos os dias, mas não podia reclamar da vida que tinha em Madrid. Amava cada parte daquele lugar e de sua história que tinha sido e vinha sendo construída lá. Pensando bem, não deixaria Madrid se não fosse obrigada.

– Em que tanto você pensa? – Martín perguntou enquanto lavavam o que tinham sujado durante o jantar.
– No quanto quero ir à praia amanhã.
– Será que o tempo estará bom?
– Se a previsão do tempo estiver correta, sim.
– Então amanhã passaremos o dia na praia, mi amor. Vamos aproveitar.
– Você volta no dia 27 a noite?
– Sim, no último voo pra Madrid.
– Então podemos aproveitar o dia 27 também. – falou, desligando a torneira e virando-se para o namorado. – Acho que devemos ir dormir, quero acordar cedo pra ir correr e depois, praia.
– Claro. – Martín sorriu, deixando o pano de prato sobre a pia seca e olhou nos olhos de .
– Cama.
– Podemos fazer outras coisas por lá, você sabe… – Martín sorriu, fazendo sorrir de volta e fingir um descaso ao dar de ombros.

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Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, terça-feira, 07 de janeiro de 2020

não tinha motivos para estar pensando tanto nas coisas que tinha ouvido Brandon falar nos dias em Mallorca depois que ele sonhou com e caiu na bobagem de contar para o melhor amigo que tinha sonhado com a jornalista e uma análise demorada de sonhos, gestos, ações e relatos alheios, apenas fizeram com que o grupo de amigos composto por Angel, Javi, Brandon e Bertto falasse o óbvio: estava interessado na mulher e deveria fazer algo a respeito antes que fosse tarde demais.
Não podia negar que realmente é uma mulher bonita e atraente, sem contar que é muito inteligente, mas ela é mais velha do que ele e não parece interessada nele desse jeito. E, em todo caso, não podia simplesmente chegar e falar “oi, vamos sair um dia desses?”, aquilo parecia totalmente ridículo, prepotente e sem noção, além do o risco que corria de acabar arruinando as conversas que costumavam ter quando se esbarravam, o que não acontecia há um bom tempo.
Era melhor nem ficar pensando demais nisso, porque esse tipo de coisa não aconteceria entre os dois e ele acabaria frustrado, o que seria péssimo e prejudicaria o bom relacionamento dele com a mulher. Precisava concentrar-se nos exercícios de musculação, agora muito mais pesados e intensos, e não em outras coisas. Precisava voltar logo para os campos e a jogar. Estava cansado de departamento médico, fisioterapia e musculação. Queria jogar bola, fazer gols, ajudar o Madrid a conquistar títulos.
O ano tinha começado com algumas notícias estranhas, não para ele, mas para o mundo, só que não as estava considerando e levando em conta realmente aquilo que os jornais diziam. O que bastaria para ele era resolver aquela questão física e voltar logo aos campos, estava confiante de que poderia retornar logo a jogar. Precisava disso. Sentia-se vazio sem a presença em campo, algo lhe faltava.

– Em que tanto pensa, ? – Jaime perguntou e o mais novo deu de ombros.
– Em voltar logo.
– Se melhorarmos um pouco mais a questão da massa muscular, posso dizer que ainda esse mês você começa a treinar em campo, não em grupo, mas em campo pra retomar ritmo de jogo e condicionamento. – o fisioterapeuta falou, fazendo sorrir.
– Não aguento mais olhar só na sua cara, Jaime. De verdade.
– E nem eu aguento mais a sua, . – riu. – Você vai voltar logo, garoto. Voltar e fazer o que sabe fazer de melhor, que é jogar bola.
– Estou sentindo muita falta de jogar futebol sem ser no FIFA. – falou e Jaime deu uma risada. – Mal posso esperar para voltar a jogar, ter a torcida perto, ouvir meu nome ser anunciado e os torcedores comemorarem, fazer gols… sinto falta de toda a atmosfera do Bernabéu.
– Estranho seria se não sentisse. – Jaime riu. – Agora, vamos parar de falar e voltar aos exercícios. Estou cansado da sua cara hoje, .
– Quando isso acabar, Jaime, eu vou fazer um gol em sua homenagem.
– Vou cobrar. – o fisioterapeuta falou, dando um sorriso para .

A sessão de exercícios e fisioterapia durou por mais duas horas, quando foi finalmente liberado (e as câmeras da RMTV foram desligadas e pararam de segui-lo) para ir embora. O time tinha vencido o Getafe alguns dias antes, fora, por 3 a 0 e a boa fase em que o Real Madrid tinha encerrado 2019 permanecia. Estavam sem perder em La Liga desde 30 de outubro de 2019, somando dez jogos invictos na competição. Cinco empates e cinco vitórias. E esperava que as coisas continuassem assim, porque poderiam ser campeões.
Era o sonho.
Vencer La Liga de novo com o Madrid.
O time do seu coração.
Mas, antes, o time viajaria ainda naquele dia para a Arábia Saudita, onde disputará a Supercopa da Espanha, agora em um novo formato, contra Barcelona, Atlético de Madrid e Valência. O Madrid enfrentaria o Valência e depois, se vencesse, o vencedor de Barcelona e Atlético de Madrid. Era um teste, se as coisas dessem certo, aquele seria o novo formato da competição.
E foi por isso que encontrou , caminhando despreocupada com um caderno em mãos, um celular e não conversava com ninguém. Os dois não se trombaram, mas se adiantou para andar lado a lado com a jornalista, que sorriu quando o viu se aproximando.

– Feliz ano novo, .
– Obrigada, , feliz ano novo pra você também.
. – corrigiu e ela franziu o nariz, fazendo o mais novo sorrir.
– E então, como foram as festas de fim de ano?
– Boas, muito boas, de verdade. Passei em família lá em Mallorca. E você?
– A mesma coisa, mas em Tenerife.
– Você não é madrilena? – perguntou surpreso e negou com um aceno.
– Nascida e criada em Santa Cruz de Tenerife.
– Veio fazer a coletiva do Zizou? – perguntou e ela assentiu. – E hoje foi melhor?
– Bastante. – sorriu. – Algumas perguntas idiotas, mas a maioria foi muito boa.
– E você vai cobrir os jogos presencialmente?
– Eu não estou nem um pouco afim de viajar, então vou ficar em Madrid e fazer o plantão na redação e acho que vou participar da final na Radio Marca, mesmo se o Madrid não classificar.
– Entendi.
– E a recuperação?
– Muito bem. – sorriu animado. – Talvez eu volte a campo pra treinar ainda esse mês. Só não conte pra ninguém.
– Não escrevo fofocas, . – respondeu num tom sério, fazendo o jogador retesar um pouco, quase arrependido por ter falado aquilo, mas sorriu e isso fez respirar aliviado.
– Não quis ofender.
– Eu sei. Reconheço ofensas sobre minha escrita e ao meu trabalho de longe.
– Duvido que alguém critique ou ofenda. – respondeu, sincero. – Eu já li e já te ouvi falar, você é ótima.
– Obrigada.
– Inclusive… você pode não fazer fofoca, mas eu faço. – deu uma risadinha. – Isco ouviu aquele programa da Radio Marca e falou que você não gosta dele.
– Eu gosto dele. – respondeu sincera. – E por isso eu disse que ele pode render mais quando entra em campo, porque eu sei e confio totalmente que ele pode. Diferente do outro que critiquei em tom duro e criticaria na cara dele se for possível e preciso.
– Confesso que eu ouvi o programa daquele dia apenas pra saber qual seria sua reação ao acontecimento. Mas eu imagino que você falaria a mesma coisa para qualquer jogador de qualquer time que tivesse feito aquilo.
– Com toda certeza. Achei antiético e antiprofissional demais, falaria mesmo que fosse do Atletico de Madrid ou do Barcelona, por exemplo. E sendo com o meu time, falo mesmo e se achar ruim, falo na cara dele. Mas, provavelmente, ele não deve ter entendido, já que não fala espanhol.
– Você é terrível. – deu uma risadinha. – Mas ele sabe, traduziram aquilo em uns trezentos idiomas.
– Se ele quiser, repito em inglês. Diferente dele, eu falo mais de um idioma. – respondeu num tom quase infantil, fazendo gargalhar.
– Sério, você é terrível.
– São os fatos. – deu de ombros, mas tinha um sorriso divertido nos lábios.
– Quando eu voltar, por favor, faça apenas elogios. – brincou, fazendo rir, bem quando chegaram ao estacionamento, perto do carro em que ela estava.
– Não garanto, mas se você fizer por merecer, tecerei o maior dos elogios a você e ao departamento médico do clube.
– Eles merecerão mais do que eu esse elogio, disso você pode ter certeza. – sorriu.
– Precisa de carona?
– Não, eu estou de carro. – deu de ombros.
– Você já pode dirigir? – perguntou surpresa e ele assentiu.
E, por um milésimo de segundo, a coragem que ele nem sabia que tinha (e depois se odiaria muito por ter, com certeza) fez com que as palavras escapassem de sua boca antes que seu cérebro conseguisse segurá-las.
– O que você acha de sairmos um dia desses? – perguntou e o olhou um pouco surpresa pelo convite repentino.
– Infelizmente eu terei que recusar, . – respondeu educada.
– Desculpa. Sei que soa muito prepotente e sem noção, mas você é bonita e muito interessante, achei que seria legal sairmos pra conversar um pouco sobre outras coisas que não sejam os papos de sempre… mas entendo, sou jogador e as pessoas adoram fazer fofoca sobre a vida de jogadores e isso poderia impactar em algo na sua vida. Totalmente compreensível, nem pensei direito, desculpa.
– Não é por isso. – sorriu ao falar. Seu tom permanecia educado e simpático e assentiu sem ter muita certeza do motivo de fazê-lo. – Pode ficar tranquilo. Meu problema não é com sua fama ou com as fofocas que fazem sobre a vida de pessoas conhecidas, pode ter certeza.
– É muito mal educado eu perguntar qual seu motivo pra não aceitar? – perguntou sem jeito e sorriu, dando uma risadinha pelo nariz e assentiu.
– Eu fico lisonjeada pelos elogios, obrigada. E mais ainda pelo convite. Mas eu tenho namorado, . Sei que poderíamos sair como amigos, mas nós dois sabemos que não foi esse o motivo do convite e não seria nada polido fazer esse tipo de coisa enquanto eu sou uma pessoa comprometida. – respondeu e ele assentiu.
Então ela era comprometida.
sentiu suas esperanças meio que (pra não dizer totalmente) caíram por terra, mas apenas sorriu e assentiu. Entendia e concordava totalmente o ponto dela, até porque o convite não era mesmo para uma saída de amigos. Ele estava mesmo interessado nela, mas não poderia fazer nada a respeito.
E, depois de uma despedida rápida, um pouco sem jeito por parte dele, foi embora para casa, dirigindo e pensando que odiava muito aquela coisa de vinte segundos de coragem, porque tinha sido um tiro no escuro e o tiro tinha ido direto em seu próprio pé.

Diez

“Quando você passa tudo para, gata o que cê tem isso é coisa rara. Eu nem vou negar tá na minha cara, eu quero você pra mim…” (Luccas Carlos – Coisa Rara)

Madrid, sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

– Você não acha que é muito cedo pra termos esse tipo de conversa? – perguntou e Martín deu uma risadinha nasalada antes de negar com um aceno.
– Estamos empurrando essa conversa com a barriga faz um bom tempo, . Desde antes de viajarmos no fim do ano, acho que até antes disso.
– É, você tem razão.
– As coisas entre nós estão sendo levadas com um sentimento de quase descaso. Os dois se enfiando em compromissos de trabalho, querendo ou não, e negligenciando nosso tempo juntos, que só acontece quando não há emergências de trabalho ou algum compromisso com amigos. Eu sei que gosto de você, mas é diferente de como era no começo. E sei que você me entende, que muito provavelmente esteja se sentindo assim também. – Martín falou num tom sereno e assentiu.
Não podia negar o inegável. Há tempos aquele namoro tinha se tornado confortável e os dois estavam juntos por comodismo, mesmo que vez ou outra acabassem tendo bons momentos como casal. Era inegável que o amor entre eles tinha deixado de ser romântico e tinha se tornado uma amizade. E só.

– E como ficamos?
– Acho que no começo é melhor dar um tempo na convivência, porque mesmo que as coisas tenham esfriado, ainda doerá. Mas, podemos ser amigos quando tivermos maturidade suficiente pra isso.
– É…
– É muito estranho terminar um relacionamento sem ser por problemas. – Martín soltou uma risadinha ao falar. – Mas já vínhamos terminando faz tempo, se você perceber, já não há mais nada meu aqui e nem nada seu na minha casa há um tempo.
– Inconscientemente a gente já estava se preparando pra esse momento.
– Fique bem, . – Martín falou num tom cuidadoso e sincero, o mesmo que sempre tinha utilizado com ela.
– Você também, Martín. – falou, abraçando o, agora, ex-namorado.

Martín não se demorou, apenas deu um beijo terno no rosto de e saiu. Tinham terminado o namoro na mesma forma como sempre o conduziram: com calma e sempre pensando um no outro. Já não eram o mesmo casal há tempos, as coisas tinham realmente esfriado e era melhor acabar tudo ao invés de estragar o que tinham vivido durante aqueles anos juntos.
contou até dez. Depois até dez de novo. E depois até vinte. Depois de quase cinco minutos em uma contagem mental de segundos para respirar fundo para entender que, depois de todos aqueles anos, estava solteira, só reagiu quando o celular vibrou em seu bolso, em alerta de mensagem.
“Direto para Valdebebas, , coletiva do Zizou.”, dizia a mensagem de Sacristán.
Respirou fundo, foi ao banheiro para finalizar a maquiagem e saiu de casa para Valdebebas, não sabia se encontraria alguém por lá, mas foi. A cabeça longe, muito longe, porque mesmo que fosse algo consensual, sem traições ou problemas, ainda sim era um término e isso doeria por um tempo, ainda seria estranho deixar de ser uma pessoa comprometida, deixar de ser a namorada do Martín, mas se acostumaria, era apenas o choque inicial com o término do namoro, ela sabia. No fundo, ela sabia.
Não se arrependeriam, disso sabia, mas sofreria. Claro que sofreria. Como Martín mesmo disse, tinham sido bons anos juntos e o namoro deles era realmente ótimo, se entendiam bem e era raro quando se desentendiam ou discordavam de algo.
Era melhor afastar isso da cabeça, deixaria para ficar triste depois do expediente. Ligou o rádio enquanto seguia pelo trânsito um pouco mais intenso do que o esperado na direção de Valdebebas, e foi ouvindo algumas notícias esportivas antes de, finalmente, chegar ao centro de treinamento do Real Madrid. Os acontecimentos da manhã entorpeceram , mas não o suficiente para que ela perdesse o profissionalismo. Fez a pergunta que precisava – talvez um pouco abaixo de sua própria média – e quando a coletiva foi finalizada, saiu da sala de imprensa com pressa.
Queria ir embora para a redação e dar um jeito de fazer o tempo passar. Estava mentalmente exausta e não estava nem perto da hora do almoço ainda. Mas, enquanto andava, deparou-se com caminhando animado ao lado de Jaime. Caminhavam na direção de um dos campos e não conseguiu conter o sorriso ao vê-lo caminhar parecendo uma criança quando convence o pai a levá-lo ao parque. Sentindo-se ser observado, os olhos de encontraram os de e ele sorriu, acenando para que se aproximasse. E ela o fez.

– Vejo que alguém está evoluindo bem no tratamento. – falou ao se aproximar e o sorriso de aumentou.
– Finalmente! Eu não aguentava mais ficar lá dentro. – resmungou. – Coletiva?
– Sim.
– Fez o Mister se orgulhar?
– Tentei. – sorriu fraco ao falar e virou-se para Jaime, estendendo a mão livre para cumprimentar o homem. – Muito prazer, .
– Do Marca. – o homem sorriu, fazendo-a sorrir junto. – Eu sou Jaime, a babá dessa criança aqui há uns meses. Inclusive, ele é bastante seu fã, tem lido muito o Marca e sempre fala das coisas que você publica.
– Então tenho um fã-clube? – perguntou, num tom divertido, para o jogador que estava começando a ficar sem graça.
– Ô. – Jaime riu. – Vou arrumar as coisas em campo pro seu treino, chaval, não demore.
– Não vou. – sorriu ao falar.
– Foi um prazer conhecê-la pessoalmente, . Já ouvi falar de você, não apenas pelo , e também sempre leio o que você publica. Você é uma excelente profissional.
– Obrigada. – sorriu agradecida e o homem se afastou, seguindo para o campo e deixando os dois sozinhos. – Fico feliz que você já esteja indo para o campo, . Estou torcendo pra que você volte logo.
– Obrigado. – sorriu. – Cento e oitenta e quatro dias.
– Um baita presente de aniversário adiantado, hein? – falou, sorrindo, e assentiu. – Espero que seja uma recuperação de campo rápida, que você volte logo e salve o Madrid.
– Tentarei. – o mais novo deu uma risadinha. – A previsão é começo de março, mas pode ser antes. Depende do que eu fizer nos treinos em campo e de como vou me readaptar.
– Espero que bem e rápido. Você merece um retorno épico. – sorriu. – Eu estava num bar no dia da sua lesão, num raro dia de folga. Foi uma coisa horrível de assistir e eu não consigo imaginar a intensidade da sua dor, mas você não desistiu. Nunca desiste, não é mesmo?
– Assim você me deixa sem jeito. – deu uma risadinha ao falar. – Mas obrigado. Eu tento não me desanimar, mas não vou mentir dizendo que não tive vontade de desistir pelo menos vinte vezes durante esses cento e oitenta e quatro dias.
– Não desista. A torcida está ansiosa por te ter de volta e nós sabemos que você é capaz de superar nossas expectativas. – sorriu sincera. – Agora vá pro treino. Jaime está olhando pra cá e eu estou com medo de tomarem minha credencial, não posso perder meu emprego também.
– Também? – perguntou curioso. – O que mais você perdeu?
– Quem disse que eu perdi algo? – perguntou, cruzando os braços, e ele sorriu.
– Seus olhos. – respondeu, piscando. – Bom trabalho, .
– Obrigada, pra você também. – sorriu e o jogador se afastou, seguindo para o campo em que Jaime tinha feito alguma coisa que ela não sabia o que era.

O caminho até a redação do Marca foi tranquilo. Ao som de uma playlist totalmente aleatória que misturava AC/DC e Abraham Mateo, trabalhou a maior parte do dia, escreveu sobre a entrevista, preparativos do time para o jogo contra o Sevilla, no dia seguinte, e uma pequena nota sobre o começo dos treinos de em campo, algo que poderia dar esperança aos madridistas.
Tentou ocupar a cabeça o máximo que conseguiu e, ao fim do expediente, não esperou um segundo a mais. Pegou seu casaco, a bolsa e desligou tudo antes que alguém surgisse com algo para que ela fizesse.

– Ei. – ouviu a voz de Cora e virou-se na direção da amiga. – Aconteceu alguma coisa.
Não era uma pergunta.
– Martín e eu terminamos hoje de manhã. – falou de uma vez e a amiga não demorou a abraçá-la numa tentativa de conforto.
– Aconteceu algo?
– Só percebemos que nós dois já não éramos namorados, que tínhamos caído no marasmo e no comodismo, não estávamos valorizando nosso relacionamento como deveríamos, mas não é um caso de conversar e tentar resolver, porque já estava claro que um término seria a única forma de resolver tudo.
– Precisa de um ombro amigo?
– Eu quero ficar sozinha, se você não se importa. Eu, uma garrafa de vinho e algum filme clichê pra que eu assimile. Não tive tempo pra isso ainda, trabalhei demais hoje, então vou passar essas horinhas assim, sozinha e chorando um pouco, porque mesmo que tenha sido consensual, dói um pouquinho, no fim das contas.
– Está de folga amanhã? – Cora perguntou e assentiu. – Se precisar de algo, me ligue. Se quiser ir ao jogo pra desanuviar a cabeça, ou se quiser que eu compre uma arma e fure o Martín inteiro. Qualquer coisa.
– Você é a melhor. – respondeu, abraçando a amiga com carinho. – Sobre o jogo, talvez, posso pensar. E sem tiros no Martin, ele não fez nada.
– Podemos criar nossa própria versão de “La Casa de Papel”. – Cora sorriu, fazendo dar uma risada baixa.
– Por enquanto eu prefiro que você não seja presa, sabe?
– Por enquanto. – Cora deu um sorriso quase esperançoso. – Isso significa que um dia você vai considerar a chance de eu ir presa, o que com certeza é com algo bem legal. Eu aceito e nem preciso saber o que é.
deu uma gargalhada mais alta do que gostaria, mas era uma gargalhada sincera.
– Idiota. – falou ainda rindo. – Agora eu vou embora, antes que alguém apareça com mais alguma coisa pra eu fazer e eu acabe presa nesse lugar por mais tempo do que quero.
– Qualquer coisa me liga, . – Cora falou séria e assentiu. – E divirta-se na noite da fossa, mas sem esquecer que você é maravilhosa demais e que não há o que lamentar, porque o namoro de vocês foi bom e honesto enquanto durou, talvez seja pra que coisas novas aconteçam e vocês sejam ainda mais felizes, cada um em seu próprio caminho agora.
– Você é sem condições, Cora. Sem condições. – falou, dando um sorriso agradecido, beijou demoradamente a bochecha da amiga, sussurrou “obrigada, eu te amo” e se foi.
Precisava mesmo de um tempinho para si, em casa, de pijamas e aproveitaria a noite para tomar um bom vinho, assistir a algum filme sem se preocupar com a hora, porque estaria de folga no dia seguinte e poderia dormir até tarde.
Mas, primeiro, precisava ir ao mercado comprar algumas garrafas de vinho e uma bela pizza pra acompanhar a noite.

📰🤍⚽️

Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, segunda-feira, 21 de janeiro de 2020

– Cumpleaños feliz, cumpleaños feliz, te deseamos , cumpleaños feliz… ouviu quando estava saindo do campo ao fim de seu treinamento e encontrou Isco e Sergio, caminhando juntos em sua direção.
– Obrigado. – agradeceu, olhando para os amigos.
Mas, quando se virou para olhá-los, o rosto empalideceu tão rápido que os dois mais velhos olharam sem entender, preocupados. Ele parecia bem, mas agora estava pálido como se tivesse visto um fantasma. E só entenderam o que estava acontecendo (e precisaram ser bem discretos) quando ouviram uma voz feminina se aproximando do grupo.
– Parece que alguém está fazendo aniversário hoje. – falou, anunciando sua presença, e assentiu sem jeito. – O mais novo dos quatro.
– E o menos bonito. – Isco implicou, tentando fazer o amigo se envergonhar ainda mais. Ou arrancar um comentário diferente de .
– Sou mais bonito que você. – falou e Isco deu uma gargalhada.
– Preciso concordar com o , porque só minha irmã te acha bonito, Francisco.
– Ah, Isco. – falou e o jogador a olhou. – Eu espero que você não tenha entendido mal a minha entrevista pra rádio. Gosto do seu estilo de jogo e de você, sei que você é um bom jogador e que pode acrescentar muito ao elenco, só acho que está um pouco aquém do que pode e sabe fazer. Se você se sentiu ofendido, me desculpe, não era a intenção.
– Fofoqueiro. – Isco falou para , que deu uma gargalhada.
– Eu não fiz nada.
– A menos que a Nina tenha ido falar com ela, foi você quem contou.
– Eu não conheço sua namorada, Isco, então foi o mesmo quem fez a fofoca sobre você ter ficado ofendido. – falou, dando uma risadinha nasalada. – Eu não quis te ofender, de verdade.
– Eu sei disso, eu ouvi sua entrevista também e entendi o tom que você falou, então não precisa se desculpar, até porque a Nina falou exatamente a mesma coisa que você e o . – Isco respondeu.
– Ninguém falou de mim? – Sergio perguntou, mas já sabia a resposta, porque ele também tinha ouvido a entrevista.
– Claro que falei. – respondeu. – Conversamos sobre seu desempenho na seleção e no clube e como tem sido um excelente capitão e comandante. Como sempre
– Bom, , – Isco interrompeu antes que Sergio respondesse. – você vai me perdoar por sair assim tão rápido, mas eu preciso ir tomar banho e ir pra casa. Inclusive, Sese, a Nina quer que você vá também. Precisamos resolver aquela coisa.
– Precisamos resolver que coisa? – Sergio Ramos perguntou, confuso, e Isco teve que se controlar para não bufar e rolar os olhos.
– Aquilo que a Nina pediu pra que a gente faça hoje. – Isco respondeu olhando para o capitão, que ainda parecia não ter entendido que era para saírem dali e deixarem os dois sozinhos.
– Não precisa, Isco. – interrompeu, dando uma risada baixa. – Eu vim apenas dar parabéns ao , aproveitar que vim pra coletiva de pré-jogo.
– Eu estou todo suado. – falou, tentando evitar o abraço iminente.
– Você não pode recusar um abraço de aniversário, . – Sergio falou num tom sério, mas sabia que ele estava apenas tentando deixa-lo ainda mais sem graça.
– Você vai ficar suja de suor se me abraçar. E vai trabalhar fedorenta.
– Vou almoçar em casa, então posso me trocar se achar que estou fedorenta. – falou, dando uma risadinha e aproximando-se para abraçar .
queria se enfiar num buraco, porque aquilo era demais. Não tinha a menor condição de aquilo estar acontecendo com ele, de verdade, no meio de Valdebebas e na frente das duas últimas pessoas que poderiam conhecer ou se aproximar de , que, inclusive, estavam fazendo mímicas com as mãos, imitando beijos e corações, além de biquinhos e risadinhas silenciosas às costas da mulher.
O abraço durou um pouco mais do que ele achou que duraria e lhe desejou muitas coisas boas, o que ele achou fofo, mas estava tão sem graça que nem sabia o que fazer quando o abraço se findou e o olhava de forma simpática.
– Nem está tão fedorento, só um pouquinho suado.
– Eu avisei. – ele resmungou.
– Agora, cavalheiros, eu vou embora. Preciso ir almoçar e ainda trabalhar enquanto faço isso. – falou e os três sorriram simpáticos. – Capi, sei que você não viaja com o time, mas você vai Isco, então espero que faça um bom jogo e que vocês passem de fase.
– Vai rolar uma ameaça? Contra o PSG eu sei que rolou.
– Se formos eliminados pelo Unionistas de Salamanca, eu coloco fogo nesse lugar com todos vocês aqui dentro e vou pra Rádio falar de vocês. – brincou, fazendo Isco assentir.
– Deus me livre, já tem gente da imprensa falando mal de mim demais. Prefiro evitar mais uma. Principalmente quando se trata de você, que tem um mundo inteiro de pessoas lendo o que você escreve.
– Jogue bem e classifique o Madrid e eu farei questão de falar bem de você. – falou num tom sério, mas o sorriso que tinha nos lábios mostrava que não era assim que as coisas funcionavam.
– Eu preciso jogar bem, minha namorada é doida e disse que vai me matar a noite enquanto eu estiver dormindo caso a gente perca. – Isco falou, rindo, mas arregalou os olhos ao lembrar que estava falando isso pra uma jornalista. – Não, nada disso. É brincadeira.
– Isco, sua vida pessoal não me interessa. – falou e Isco quase respirou aliviado ao ouvir. – Eu só me interesso pela vida de vocês dentro de campo, fora de lá, vocês podem fazer o que quiserem, desde que não seja manchar a história ou a imagem do Madrid.
– Eu agradeço. Tem gente que mataria pra poder escrever algo sobre Nina e eu.
– Não faço parte desse grupo, pode ficar tranquilo. – sorriu. – Agora é sério. Eu vou embora e vocês vençam amanhã.
– Pode deixar. – os três responderam e com um aceno foi embora, deixando-os sozinhos.
– Quando eu posso começar a cantar “tá namorando, tá namorando”? – Isco perguntou, gargalhando, quando já estava distante o suficiente para não ouvir.
– Não pode. É meu aniversário, me deixa em paz!
– Quando foi que as coisas ficaram tão amigáveis assim entre vocês? – Sergio perguntou interessado.
– Nós apenas conversamos, não exagere.
– Claro, porque ela veio te abraçar apenas porque vocês conversam vez ou outra… – Isco respondeu num tom entediado. – Eu que sou seu amigo não quero te abraçar todo suado e fedorento, imagina uma jornalista super famosa, premiada e conhecida!
– Talvez eu tenha convidado pra sair.
– O QUÊ? – os dois falaram alto, chocados com a informação.
– Parem de gritar. – reclamou. – Enfim, foi no começo do mês, mas ela namora.
– Namora?
– Foi o que ela disse, então deve ser verdade. Ela não teria motivos para mentir.
– É, isso é. – Isco pareceu pensar. – Mas pelo menos tomou vergonha na cara e fez algo.
– Isco, você está me devendo. – Sergio falou, estendendo a mão. – Apostei que eles demorariam mais do que o Natal e, em todo caso, já passou o Natal e você perdeu. Vintinho.
– Eu não vou te pagar nada, porque não disse em qual Natal. – Isco falou, dando um tapa na mão do capitão.
– Vocês cansam minha beleza. – falou, dando uma risada nasalada. – Eu vou almoçar, porque ao contrário de vocês, eu tenho que treinar mais e trabalhar.
– Feliz aniversário, . – Sergio falou, abraçando o amigo e logo Isco fez o mesmo.

A despedida, depois de mais algumas piadinhas e logo estava no refeitório do clube, almoçando e pensando no abraço que tinha dado nele. Nada além de um abraço de aniversário, ele tinha total consciência disso, mas tinha gostado bastante. E guardaria aquela sensação gostosa do abraço consigo por muito tempo.


Nota da Autora: Oioi!
Ora ora, parece que as orações foram ouvidas (as do e as de vocês) e agora é uma mulher solteira. Por quanto tempo? Não sabemos, mas é como disse Harry Styles uma vez: não é sobre vencedores ou perdedores, mas nós vencemos!
Espero que tenham gostado desse capítulo, não esqueçam de comentar me dizendo o que acharam sobre. Principalmente sobre quanto tempo demorará pra eles terem alguma coisa…
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