Lagom

Sinopse: “Lagom” é uma palavra sueca que, em tradução literal, significa “o suficiente”.

Para Marco Asensio, o suficiente era o que ele estava vivendo. Aos 23 anos, jogando em seu time do coração ao lado de grandes nomes do futebol, comandado por seu ídolo e conquistando títulos sequencialmente, além de ser integrante da seleção espanhola de futebol. Amado e aclamado pelos torcedores do Real Madrid e pelos espanhóis quando na seleção. Para Marco Asensio aquilo era o suficiente.
Para Veronica Hidalgo, o suficiente era o que ela estava vivendo. Aos 25 anos trabalhando em sua amada profissão, cobrindo o esporte que mais ama desde que era uma criancinha em Madrid, cobrindo o time de seu coração em um jornal de reconhecimento mundial, vendo seu nome estampar grandes notícias, sendo citada e repostada e ganhando prêmios na profissão. Respeitada e admirada por colegas, superiores e por esportistas. Para Veronica Hidalgo aquilo era o suficiente.
Para a vida… Ah, para a vida eles eram apenas duas pessoas se bastando sozinhas, mas ainda precisavam encontrar-se como o Lagom na vida um do outro: nem muito, nem pouco, apenas o suficiente.
Gênero: Comédia romântica
Classificação: 16 anos. Contém linguagem imprópria, consumo de drogas lícitas e insinuação ao sexo
Restrição: É escrita com o jogador Marco Asensio do Real Madrid, os demais jogadores do elenco são fixos, e se passa na temporada 2019/2020. Alguns nomes estão em uso e são fixos.
Beta: Regina George

Prólogo

23 de julho de 2019

segurava sua cerveja e observava a televisão do bar totalmente incrédula com o que estava assistindo. Tudo bem, o time está em pré-temporada, mas é inadmissível que o Real Madrid cogite perder para o Arsenal em qualquer momento que seja.
E, pra piorar, o time estava perdendo por dois a zero, gols feitos por Lacazette e Aubameyang! E Nacho fora expulso logo no começo do jogo quando colocou a mão na bola dentro da área para cortar um cruzamento, mas acabou cedendo o pênalti, que foi o primeiro gol da equipe londrina, pouco depois aconteceu o segundo, pelos pés do francês Aubameyang.
queria arrancar os olhos de alguém.
Os do Zidane, talvez. Ou os dos jogadores. Ou os de todos eles e o de Florentino Pérez junto. O time com jogadores de nome, importantes e caríssimos perdendo praquele time limitado do Arsenal? Era de causar revolta até no mais pacífico dos torcedores.
O Real Madrid vinha de uma derrota por 3 a 1 para o Bayern de Munique, além de uma intriga envolvendo Gareth Bale (que tinha se tornado uma persona non grata para os torcedores do Real Madrid) e seu descomprometimento para com o time (não quis atuar contra o time bávaro).
Não havia um madridista que não estivesse com vontade de mandar Gareth Bale para o pior de todos os campeonatos existente no mundo e nunca mais vê-lo. Mesmo depois do galês ter sido tão importante para a conquista de quatro Champions Leagues, mas se ele não conseguia ser grato ao time que tinha lhe dado tudo, os torcedores também não lhe seriam gratos.

– Você está brava demais pra um jogo de pré-temporada e que não vale nada de verdade, . – Cora falou, rindo.
– É inadmissível que o Real Madrid perca para o Arsenal. Mesmo que seja na pré-temporada e que eles estejam todos molengas!
– Relaxa, . – Cora ainda ria da amiga.
– Eu odeio futebol. – resmungou, voltando a beber sua cerveja.
– É apenas a pré-temporada, amiga.
– Se na pré-temporada já estamos ruins assim, imagine durante a temporada?
– Olha, agora estamos os dois times com dez jogadores. – Cora apontou para a televisão, onde o árbitro expulsava um jogador do Arsenal. – E é o zagueiro, já ajuda muito…
– Apenas um milagre pode salvar o Real Madrid dele mesmo.
Poucos minutos depois, o jogo foi para o intervalo e as duas permaneceram bebendo, observando o pouco movimento do bar naquele dia de jogo, mas entendível, afinal, pré-temporada não costuma encher bares e as pessoas costumam assistir aos jogos em suas casas.
Quando o jogo retornou para o segundo tempo, Zidane tinha seis substituições a fazer, sem contar a que fizera logo quando Nacho fora expulso. Courtois, Odriozola, Marcelo, Bale, Isco e estavam preparados para entrar em campo.
esperava que eles fizessem algo em campo, porque era preciso. Mesmo que seja um torneio de pré-temporada, é importante que o time tenha motivação, afinal, mesmo não sendo uma competição de verdade, poder dizer que conseguiram ter uma pré-temporada boa o suficiente para vencer vários times que estarão disputando coisas importantes durante a temporada regular.
À beira do campo da Fedexfield, em Maryland, esperava fazer um bom jogo. Precisavam vencer, já tinham perdido o primeiro jogo contra o Bayern de Munique por 3 a 1, os torcedores estavam pouco confiantes e para os jogadores aquilo era horrível. Odiava sentir-se desvalorizado e desacreditado, então teriam que fazer valer a pena aquela viagem para a pré-temporada.
Com seis minutos em campo, deu um chute forte de fora da área, mas a bola bateu no travessão, a bola ainda voltou no zagueiro Varane, que estava na área, mas o zagueiro do Arsenal desviou a bola para escanteio, mas não deu em nada.
Aos dez minutos do segundo tempo, Gareth Bale abriu o placar para o time madrilenho, depois de uma pequena confusão na área: Marcelo cruzou, Isco recebeu e tocou para , travado pelo goleiro, mas na sobra o galês u.
comemorou, também. Se pressionassem bem, podiam empatar e virar o jogo, o Arsenal estava deixando o Real Madrid gostar do jogo.
E, três minutos depois, foi a vez de fazer seu gol, após uma assistência de Marcelo, de primeira, o camisa 20 deixou tudo igual no placar e saiu comemorando com o lateral brasileiro.
Mas, seis minutos depois de marcar o gol do empate, em uma dividida de bola com Aubameyang, pisou errado e caiu de quatro, batendo os joelhos na grama, sentindo dor, gritando e pedindo ajuda.
Cercado pelos amigos de time, reclamava da dor terrível em seu joelho esquerdo, chorou e implorou na direção do banco para que os médicos do time fizessem algo que o ajudasse.
O primeiro a se aproximar foi Odriozola, seguido por Luka Modric, Varane e Sergio Ramos, todos nos dois primeiros segundos que se seguiram à queda de ao solo e enquanto ele sentia como se sua perna tivesse sido arrancada de seu corpo, tamanha dor que lhe atingia no momento.
E, enquanto os médicos o atendiam, Sergio Ramos, o capitão do time, estava abaixado ao seu lado, tentando fazer ficar um pouco mais calmo, falando com uma calma que parecia nem pertencer ao zagueiro, ele acalentava o mais novo, que ainda se debatia e pedia ajuda, porque a dor estava lancinante.
Ao olhar para Jaime Abascal, o médico do time, se deu por vencido, colocou a camisa sobre o rosto e começou a chorar desesperado. Pela expressão do médico, aquilo não tinha sido nada bom e, pela dor que sentia, era algo absurdamente grave.
bateu no solo, gritou, reclamou de dor e quando o puseram na maca para carregá-lo até o vestiário – porque ele não conseguia nem mesmo sentar-se, o meia voltou a cair no choro. Não queria ter que passar por aquilo, não aguentava a dor que lhe atingia no joelho esquerdo, tampouco a de seu coração aflito ao ser atingido pela gravidade do que tinha acontecido.
Sua vida profissional ia tão bem! Estava na seleção, jogando no maior time do mundo, jogava bem, os torcedores o admiram muito e o valorizam de um jeito que faz sentir-se bem, sempre procurando melhorar e aprender com os treinamentos para não desapontar Zidane, os torcedores e à mãe, que tinha sido uma enorme entusiasta de seu futebol enquanto viva.
Ele estava no Real Madrid, como ela tinha previsto e dito à Florentino Perez muitos anos antes. Agora ele estava a caminho do vestiário para uma análise médica que definiria o quão grave tinha sido a lesão e se algum procedimento seria necessário.
De longe, preso em seus próprios pensamentos e revendo sua vida passar diante de seus olhos, ouvia Jaime conversando ao celular e falando algo sobre ligamentos, menisco e cirurgia. imaginava, mas não queria crer, que sua temporada tinha chegado ao fim antes mesmo de começar.
Precisava ligar para o pai e para o irmão, precisava que eles ficassem calmos, ainda que ele mesmo não soubesse como fazer isso por si. As ligações foram rápidas, estava chorando demais e aquilo provavelmente tinha apenas alarmado os dois ainda mais. E, além disso, precisava terminar de ser examinado para ter total certeza do que aconteceria e só então ligaria para os dois de novo e conversariam.
O Real Madrid voltou a pressionar e se o goleiro Emiliano Martínez não estivesse tão empenhado, o terceiro gol poderia ter saído menos de cinco minutos depois do empate. E a pressão continuou até o final, mas nada fez com que o placar mudasse.
Os times disputaram pênaltis para definir quem levaria os pontos da partida e, por 3 a 2, o Real Madrid venceu. Os madridistas comemoraram a vitória, mas, apreensivos com o ocorrido com .
E, quando o Real Madrid postou a nota informando sobre a lesão de e sua cirurgia, sentiu-se absurdamente triste, tanto pelo time que perderia um jogador excelente e que tinha qualidades em campo que seriam fundamentais, quanto pelo jovem jogador que passaria por uma cirurgia tão delicada e complicada.
Restava aos dois apenas torcer para que tudo desse certo.

Un

“No pensé que encontrarte era mi destino…” (Juanes ft. Sebastian Yatra – Bonita)

MARCA.com, Avenida de San Luis, Madrid, sexta-feira, 16 de agosto de 2019

– Hidalogo, Valdebebas. Agora. Montero já está lá pra fazer as imagens. – ouviu o chefe falar e suspirou.
Não que odiasse ir à Valdebebas, de forma alguma, mas preferia ficar na redação naquele dia, terminaria de pesquisar algumas coisas pra uma série que começariam a postar no site e isso estava lhe ocupando tempo suficiente, não precisava de interrupções que a fariam ter que trabalhar dobrado.
Podiam ter mandado outra pessoa, mas Sacristán tinha seus motivos para querer que a mulher fosse a enviada para o centro de treinamento do Real Madrid: é sua melhor jornalista e aquela seria a coletiva que precedia o início oficial da temporada 2019/2020.
era uma das melhores jornalistas da Espanha e o redator gostava de sua obstinação, de como ela se fazia presente e se impunha, mas sem ser grosseira ou maltratar as pessoas. Sabia que ela seria quem faria a diferença naquela coletiva, provavelmente seria a responsável por fazer as melhores perguntas e porque tinha o olhar apurado para várias coisas que passavam batido por outros repórteres.
Desligou o computador antes de levantar e sair da redação, em busca do próprio carro para que pudesse sair para a Ciudad Real Madrid, mas não sem antes comprar algo para comer antes de chegar ao centro de treinamento, não sabia quanto tempo demoraria até conseguirem comer algo e estava realmente com fome.
Seguiu ouvindo músicas e pensando em que poderia ser dito na coletiva, além do que poderia ser visto nos treinos. Tinha a mente trabalhando a milhão, criando vários cenários e perguntas, principalmente por ser a coletiva que precedia o primeiro jogo oficial da temporada, depois de uma pré-temporada pouco proveitosa, existiam as dúvidas sobre a janela que ainda não estava fechada, sobre a lesão de , sobre a possível punição que Dani Carvajal poderia cumprir… Deus! Odiava ser mandada para coletivas sem um mínimo de preparo.
– Identificação. – o porteiro pediu e mostrou o crachá do Marca, vendo o homem anotar algo e entregar um papel para que deixasse no painel do carro, bem à vista, no estacionamento.
seguiu até o estacionamento e deixou o carro na vaga que o papel entregue pelo porteiro indicava, deixou o papel sobre o painel, pegou as coisas que precisava e saiu do carro, andando pelo curto caminho até o campo em que alguns dos jogadores finalizavam o treinamento. Não estavam todos por ali e começou a tomar notas mentais antes de encontrar com Rafael Montero, seu colega de trabalho, e tentar descobrir o que tinha acontecido durante o treino.
Observou David Bettoni, auxiliar técnico, conversava com Vinicius Junior, Marcelo e Luka Jovic, fazendo gestos comedidos e falando baixo, recebendo acenos dos três jogadores. Ainda em campo, Isco, Sergio Ramos, Dani Carvajal e Lucas Vazquez conversavam e riam de alguma coisa enquanto davam pequenos toques em uma bola que estava com o grupo. O treinamento sério tinha acabado, então aquelas imagens não diriam muita coisa aos telespectadores que as assistissem e nem aos jornalistas presentes.

– Montero. – cumprimentou e o homem a olhou, sorrindo.
– Oi , achei que faria só imagem hoje. – Montero respondeu, dando um sorriso simpático.
– Sacristán me mandou de última hora. – respondeu e Rafael deu uma risada pelo nariz.
– É bem a cara dele te mandar de última hora, porque você é o cérebro pensante daquela redação. – riu. – Vai pra Vigo?
– Estou de folga. – deu de ombros. – E então, o que aconteceu?
– Treino fechado, pegamos só o rondo final e algumas brincadeiras dos jogadores, nada de treino, essa parte o Zidane fez fechado.
– E nesse rondo faltou alguém além dos que a gente já sabe que estão fora?
– Não. Só os que já sabíamos mesmo.
– Carvajal?
– Participou do rondo. Alguma notícia da suspensão?
– Nenhuma, mas é provável que nem entre em campo, acho que Zizou não vai correr riscos e escalar um jogador que pode dar problemas… – respondeu.
– E sobre a janela?
– Nada concreto. A novela Pogba continua, mas duvido que isso saia do plano do querer nessa temporada. – respondeu, dando de ombros. – Acho que vai ser isso mesmo, esse plantel e só.
– Bale ficou…
– Não sei se isso é bom ou ruim. – soltou uma risadinha pelo nariz. – Você está no seu carro?
– Uber. – deu de ombros.
– Ótimo, voltamos juntos então. Vim de carro. – falou, observando o pequeno grupo de jogadores brincar entre si.
As brincadeiras não serviam pra nada além da nota que poderia inserir sobre o bom clima entre o elenco, mesmo que aquela fosse uma panelinha de jogadores antigos e não dos recém-chegados.
Um pouco depois seguiram para a sala de imprensa em que Zidane concederia a coletiva. tomou um lugar na segunda fileira de cadeiras, deixando Rafael mais ao fundo com a câmera e abriu o notebook, ligou o gravador do celular e abriu o site do Marca, teria que mandar as informações em tempo real e esperava conseguir fazer aquilo sem surtar. Já tinha sua pergunta em mente e torcia para que ninguém fizesse a mesma pergunta que ela ou então entraria muda e sairia calada da coletiva.
E esperava que Zidane estivesse de bom humor.
As perguntas começaram e o francês respondia com habilidade, da mesma forma que anotava as perguntas feitas e as respostas dadas. Em algumas das perguntas sentiu vontade de se enfiar num buraco de vergonha, não era possível que as pessoas achassem mesmo que Zinedine Zidane responderia a alguma daquelas coisas e muito menos acreditava que tinham mesmo coragem de fazer perguntas tão idiotas.
Perguntaram sobre jogadores que não compõem o elenco, sobre vida pessoal de alguns dos jogadores, fizeram insinuações e Zidane parecia estar realmente se segurando pra não xingar um palavrão e mandar as pessoas terem um pouco mais de respeito, bom senso e competência.

– Olá, Mister. – falou, erguendo a mão, e Zidane lhe deu um sorriso sem mostrar os dentes, mas aliviado por tê-la ali, já tinha visto em várias coletivas e sabia que ela não faria perguntas idiotas. – Não sabemos como ficará a situação de Carvajal, tampouco podemos espelhar a temporada no que foi a pré-temporada em que os jogadores novos ainda não possuíam entrosamento entre si, jogadores chegaram, jogadores saíram, jogadores ficaram, está lesionado… mas há nomes incríveis no plantel e muita especulação já que a janela ainda não fechou, mas quero te perguntar sobre o jogo de amanhã.
– Finalmente. – Zidane deu uma risadinha nasalada.
– O Celta entrará em campo muito bem reforçado, foi um time que também investiu muito e montou uma excelente equipe, e, além disso, entrarão com muita vontade de vencer para, além de começar bem a própria temporada, ser uma pedra no sapato do Madrid em uma possível caminhada pelo título, sei que você sabe disso, que estudou tudo muito bem, mas há alguma preocupação em específico?
– Se eu te contar eu perco o elemento surpresa… – Zidane brincou, dando uma risada e fazendo os presentes rirem. – Mas eu concordo, o Celta se reforçou muito bem, temos as preocupações habituais e algumas pontuais, conversei com todos os jogadores e treinamos algumas coisas específicas, acho que teremos um bom jogo no aspecto técnico e espero que consigamos a vitória.
sorriu agradecida, recebendo um sorriso amistoso do treinador francês, e foi escrever a resposta. A coletiva ainda duraria mais alguns bons minutos e ela tinha muito o que fazer.

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Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, sexta-feira, 16 de agosto de 2019


estava deitado na maca e queria muito chorar, mas não parecia adequado fazer aquilo naquele momento.
Sentia dor desde a cirurgia e ainda estava com o joelho inflamado, precisava começar aos poucos, com massagens e coisas que ajudassem a desinflamar o joelho e desinchar a região antes de começar a movimentar e fortalecer a perna para voltar a andar sozinho, sem cadeira de rodas e sem muleta.
Mas também tinha total consciência de que não adiantava nada ficar desesperado para voltar a jogar em cinco dias, isso não aconteceria. Ele, primeiro, tinha que vencer a inflamação e o inchaço, a rigidez, depois andar, conseguir se mover sem muletas, andar sem mancar, fortalecer músculos, correr, pegar condicionamento físico… demoraria bastante, ele sabia.
Mas, mesmo sabendo, ainda estava frustrado com toda a situação, ainda que não seja sua culpa e que não tenha sido ele o responsável pela lesão (tampouco Aubameyang era o culpado), sentia-se mal com a lesão, com as dores e com a situação toda que o envolvia. O time viajaria pra Vigo na manhã seguinte, mas ficaria em Madrid para fazer a fisioterapia, exames e para cuidar do próprio corpo.
Era triste, mas não podia reclamar e nem fazer nada para mudar aquela situação. Ele não tinha uma máquina do tempo para voltar em julho e não se machucar, então lhe restava apenas aceitar e fazer o que estava ao seu alcance. Passaria por aquilo, mesmo que, no momento, tivesse certeza que não tinha forças para tanto.

, por hoje vamos encerrar. – ouviu Niko Mihic, o chefe dos serviços médicos, falar e assentiu. – Amanhã de manhã vamos repetir os exames depois dessa técnica de hoje e ver como as coisas ficaram e como evoluirão para o restante do tratamento.
– Tudo bem. – respondeu, suspirando de alívio e desapontamento.
Com ajuda dos fisioterapeutas, desceu para a cadeira de rodas que ainda o acompanharia por algum tempo durante aqueles meses, sendo guiado pelo pai pelos corredores do centro de treinamento até o estacionamento.
Mas foram interrompidos quando uma pessoa tropeçou na cadeira de rodas e caiu. Por sorte, assim pensou, foi só ela quem caiu e ele continuou intacto. A mulher estava no chão, sentada e parecia conhecida… ele tinha quase certeza. Foi quando ela tirou os cabelos do rosto que ele conseguiu ver com clareza que sim, ele a conhecia.

Flashback
Madrid, quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

dirigia a caminho de Valdebebas, ouvia um reggaeton animado e cantava palavras soltas da música que ele não tinha certeza se sabia qual era, batucando o volante, sem tirar os olhos da rua, totalmente atento ao que fazia e sem muita pressa, estava com tempo, o horário era vantajoso e o sentido em que seguia também.
Estava atravessando um cruzamento, em que a preferência era sua, quando ouviu o barulho e sentiu o impacto, fazendo o carro sacudir e parar. Nada que o machucasse, mas os airbags abriram e teve certeza de ter escutado um vidro se partindo em algum lugar, mas não sabia se era o de seu carro e precisava se livrar daquele airbag. Merda, precisaria ligar para o seguro também e para o guincho. E pedir um Uber pra terminar o caminho até Valdebebas.
Quando finalmente saiu do carro, percebeu a mulher que estava parada ao lado do outro carro – que estava bem destruído – e falava ao celular. A expressão derrotada fez sentir pena, então aproximou-se da mulher e começou a observar as pessoas que estavam parando para ver o que tinha acontecido.

– Oi. – falou, aproximando-se. – Você está bem?
– Ai meu Deus. – ela resmungou. – Eu não acredito que bati no carro de um jogador de futebol!
– Você está bem? – repetiu.
– Estou. E você?
– Também, só assustei com o barulho e o impacto. – falou e a olhou atentamente, percebendo que ela tinha alguns pequenos cortes de vidro do lado esquerdo do rosto, alguns no pescoço e no braço. – Você está sangrando.
– É, estourei todos os meus vidros. – resmungou. – E seu carro mal amassou!
– Pare de andar, por favor, eu vou chamar uma ambulância e você vai ao médico. Pode ter fraturado alguma coisa com a batida.
– Chamei a polícia e o guincho do seguro, preciso falar com eles antes de ir pro hospital. Você deveria ligar pro seu seguro também. E pro time pra avisar que aconteceu um acidente.
– Qual seu nome? Eu sou , mas pela sua reação, você me conhece.
. – respondeu educada. – E sim, eu te conheço. , por favor, me perdoe. De verdade. Não tive intenção de bater, eu juro! Eu estou atrasadíssima pro trabalho e acabei pisando com mais força no acelerador do que deveria.
– Não se preocupe, eu estou bem e não me aconteceu nada. Estou preocupado com você, porque você está sangrando, mesmo que pouco, e pode ter lesionado alguma coisa.
– É, mas você precisa ir ao médico do time e fazer exames pra ter certeza que não se machucou. Eu espero que não, imagina se o Real Madrid me processa! Eu não tenho como arcar com o preço que um arranhão em você deve valer!
– Não se preocupe com isso, . – falou num tom sereno. – Vou ligar pro seguro e pro time, avisar sobre o ocorrido e nós vamos ao hospital, você está sangrando e pode ter machucado mais do que acha. Eu vou para Valdebebas depois que você passar pelo hospital.
– Não precisa disso.
– Precisa, porque você está sozinha e se precisar de alguma coisa, um acompanhante pode ser útil. Quando chegarmos lá, você pode ligar pra outra pessoa te acompanhar, se isso te fizer sentir mais segura.
– Não vou causar problemas no seu relacionamento? – perguntou e olhou sem entender. – A irmã do Sergio Ramos…
– Não somos namorados. – suspirou. – Tiraram fotos muito tendenciosas, foi apenas uma coincidência termos nos encontrado. E quando saímos da boate, saímos juntos, porque eu estava sóbrio e de carro, a deixei em casa e fui pra minha.
– Você não precisa me explicar nada disso. – deu de ombros. – Ai.
– Pare de se mexer, vou chamar a ambulância. – falou sério e a mulher assentiu, vencida.

– Você gosta de bater nos meus meios de locomoção. – brincou, dando um sorriso, e a mulher sorriu de volta, ainda sentada no chão.
– E nas duas vezes a culpa foi minha. – riu. – Eu te machuquei?
– Não, , eu estou bem. E você? Machucou?
– Menos do que da primeira vez. – falou rindo baixo. – Desculpa.
– Tudo bem.
– E como você está?
– Melhorando. – sorriu pequeno e ficou de pé, ajeitando a roupa e os cabelos.
– Não vou mencionar nosso incidente na matéria do dia, eu juro. – brincou, fazendo rir. – E fico feliz por você estar melhorando e já estar aqui pra tratamento. As coisas vão demorar um pouco a voltarem ao normal, mas é ótimo que você esteja em tratamento. Principalmente com médicos tão competentes.
– Eu também acho. – sorriu. – É um pouco frustrante, mas vou com calma, um objetivo por vez e tenho esperanças de que tudo dará certo.
– Todos temos. – sorriu simpática.
– Eu sinto muito interromper o momento… – Gilberto, o pai de , se pronunciou. – Mas precisamos mesmo ir, , ou vamos nos atrasar.
– Desculpe a falta de educação. – falou, estendendo a mão para cumprimentar o pai de . – Eu sou , a responsável pela batida no carro de em 2018.
– Oi . – Gilberto sorriu, cumprimentando-a. – Você não se machucou mesmo?
– Estou bem, só estava desatenta. E quase machuquei vocês dois.
– Quase não senti o impacto. – brincou. – Agora precisamos mesmo ir. Nos falamos depois.
– Estou torcendo pela sua recuperação, .
. Me chame de . – falou, sorrindo sincero, e assentiu.
– Agora preciso correr e encontrar meu colega, ainda tenho que voltar pra redação.
– Precisa de carona?
– Não, obrigada. – sorriu.
– Cuidado pra não esbarrar em mais ninguém. – brincou.
– Aparentemente, eu só causo acidentes com você. – deu uma risadinha e acenou em despedida.
– Certeza que não sentiu nada? – Gilberto perguntou e assentiu.
– Tudo bem, pai, não sinto mais dor do que já estava sentindo. – deu de ombros. – Agora precisamos mesmo ir, porque a terapia começa daqui a pouco.

Dos

“Hay que empezar de cero para tocar el cielo…” (Shakira – Waka Waka)

Estádio Municipal de Balaídos, Vigo, sábado, 17 de agosto de 2019

não estava nem um pouco feliz.
Deveria estar de folga, mas foi tirada de seu dia em paz e sossego para viajar às pressas para poder cobrir o jogo do Real Madrid em Vigo. Um dia particularmente cinzento, nublado e abafado na Galiza. Faria comentários para o Marca Radio e entrevistaria os jogadores ao final da partida, além de fazer a coletiva de Zidane.
Teria três dias de folga na semana seguinte, o fim de semana todo, mas, naquele momento, para as folgas cumuladas não valiam a pena. Foi tirada de casa às pressas e seguiu para Vigo sem a menor vontade, pois o responsável por cobrir o jogo estava doente e não poderia trabalhar, então esperava que o jogo pelo menos fosse bom, que o Real Madrid vencesse muito bem e fizesse valer aquela viagem a trabalho que nem mesmo estava em seus planos.
Eden Hazard, de última hora, cortado para o jogo e ficaria parado por um mês, dando espaço para Vinicius Junior iniciar jogando. estava animada pelo jovem jogador iniciar a partida, além de gostar muito dele, sabia que Vinicius é um excelente jogador e que só tende a acrescentar ao plantel.
Aos doze minutos do primeiro tempo, Gareth Bale cruzou a bola rasteira na área e a intenção era de encontrar Vinicius Junior, mas foi Karim Benzema quem mandou a bola pra rede, abrindo o placar do jogo. comemorou o gol animada e só depois lembrou de que estava trabalhando, comentou sobre a jogada e voltou sua atenção ao campo. Esse é um dos motivos pelos quais odeia cobrir jogos do Real Madrid em campo, acaba sempre comemorando demais.
Aos trinta minutos, quase o Celta de Vigo empatou, uma bola alçada na área não foi alcançada pelo atacante do time da casa e passou bem próximo ao goleiro Thibaut Courtois, que não conseguiu alcançar, mas, por sorte, a bola não entrou. Em resposta, pouco depois, Luka Modric quase u o segundo gol do time visitante, mas o goleiro Rubén Blanco estava atento e evitou que o Real Madrid ampliasse o placar.
Faltando poucos minutos para o fim do primeiro tempo, foi a vez de Benzema dar um passe perfeito para Gareth Bale, mas, novamente, o goleiro Blanco salvou o que seria o segundo gol do Madrid. E, em resposta, o Celta de Vigo partiu para o ataque depois do escanteio e passando pelo lateral Odriozola, Denis Suárez entrou na área, entregou a bola para Iago Aspas, que foi puxado e caiu, mas o jogador Brais Méndez entrava livre e u o gol.
A comemoração do Celta de Vigo durou pouco, o juiz foi chamado pelo VAR e anulou o gol do time da casa, pois Iago Aspas estava impedido na jogada dentro da área. O intervalo do jogo chegou e a vantagem madrilenha ainda era pequena, mas pelo menos era uma vantagem.

– Deram o gol para o Benzema, mas pra mim, pelo que vi, o gol foi feito pelo Vinicius Junior. – falou no microfone, pouco depois dos times saírem de campo.
– Pela imagem também pareceu, mas deram o gol para o francês… – o narrador respondeu. – E o que você achou dessa jogada do final do primeiro tempo, ?
– Uma bagunça. O sistema defensivo do Madrid parece ter apagado. A sorte da defesa é que o VAR chamou o juiz e o gol foi anulado, foi uma bagunça desde que Suárez passou pelo Odriozola como se não tivesse ninguém marcando, depois conseguir entrar na área, ser puxado e ainda conseguir tocar a bola… Outro ponto absurdo é que deixaram Brais Méndez entrar livre na área para chutar. Se a vontade desse time é conseguir os três pontos e conquistar títulos, esse tipo de coisa deve ser muito bem treinada pra evitar que gols assim aconteçam sem impedimentos.
– Recomendaria alguma mudança pro segundo tempo?
– De postura da defesa. – respondeu, fazendo o narrador rir. – Se eles voltarem menos relapsos, pode ser que fique tudo bem. Na subida estão ótimos, mas precisam se atentar à marcação e à criação, estou sentindo falta do Modric mais desperto.
– Vamos fazer um intervalo agora e já voltamos com o segundo tempo da partida entre Celta de Vigo e Real Madrid. – o narrador falou e tirou os fones, colocou o microfone no bolso da calça e seguiu para o banheiro.
Ainda teria que mudar de lado de campo, estava acompanhando o Real Madrid e teria que estar para o lado que o time atacaria. Precisava comer também, estava com fome e cansada de ficar em pé. Queria estar em casa assistindo ao jogo sentada no sofá, mas ainda tinha que aguentar um bom tempo de trabalho, então era melhor resolver o que podia enquanto tinha tempo.

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Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, sábado, 17 de agosto de 2019

Enquanto estava deitado na maca fazendo fisioterapia, assistia ao jogo do Real Madrid. O jogo estava no intervalo, o time vencia por 1 a 0 e quase tinham ido para o intervalo empatados, mas o VAR u o impedimento e a vantagem foi mantida.
Observando a televisão, viu caminhando despreocupada pela lateral do campo, tinha o microfone do Marca em mãos junto com o celular. Ele nem sabia que fazia transmissões de campo, não lembrava de já tê-la visto antes, mas, claro, estava sempre concentrado no jogo e não no que acontecia ao redor.
Quando o segundo tempo foi retomado, não havia mudanças no time e esperava que a vantagem fosse ampliada, porque precisavam mostrar logo no começo da competição que não estavam ali para serem meros espectadores. O que quase aconteceu com menos de um minuto, Marcelo entrou na área, entregou a bola para Benzema, que chutou corretamente, mas a bola passou raspando a trave e não entrou.
O jogo ficou num lá-e-cá, com uma pressão descomunal e impensável do Celta de Vigo, que encontrava espaço às costas de Odriozola quase o tempo todo e conseguia chegar à área, mas, por sorte, Courtois e Casemiro salvaram as duas chances iminentes de gol. E, aos onze minutos, Luka Modric foi expulso após uma falta em Denis Suárez, pegando a parte traseira do tornozelo do mais novo com as travas da chuteira. O VAR solicitou o juiz na tela e ele expulsou o croata, deixando o Real Madrid com um jogador a menos em campo.
E da cobrança de falta originada, quase o empate. Mas, novamente, por sorte o goleiro Courtois evitou o gol de Gabriel Fernández. Aos dezesseis minutos do segundo tempo, Toni Kroos recebeu a bola de Marcelo fora da área e chutou do jeito que gosta de chutar e fez um golaço. Dois a zero.
deu um grito de comemoração empolgado, fazendo o fisioterapeuta rir e comemorar junto. Por um segundo ele tinha esquecido da dor e estava comemorando o golaço do alemão Toni Kroos. Uma pintura. Um gol com a assinatura do meia, um chute forte e bem colocado, inteligente.
Novamente o lá-e-cá. A vantagem do Real Madrid não parecia afetar os ânimos do time da casa, que continuava pressionando, arriscando e se não fossem as boas defesas do goleiro belga, teriam empatado e ampliado.
Zidane tirou Vinicius Junior para colocar Lucas Vázquez, alguns minutos depois tirou Gareth Bale e colocou Isco. Dois jogadores que tinham feito um bom jogo e davam espaço para outros dois que sempre eram contestados pela torcida, mas tinha aprendido uma coisa em sua vida: nunca duvide do que faz Zinedine Zidane.
E, como previsto, as substituições deram certo. Vázquez e Isco tentaram, chutaram, pressionaram, e aos trinta e cinco minutos, Karim Benzema girou entrando na área, entregou a bola para Lucas Vázquez que chutou, tirando o goleiro e dois defensores e fazendo o terceiro gol do Real Madrid.

¡Vamos, carajo! falou, animado, batendo palmas e se pudesse teria pulado para comemorar o gol do amigo.
Luka Jovic entrou no lugar de Karim Benzema e três minutos depois foi a vez de Marcelo arriscar, um chute forte de fora da área, mas Blanco espalmou e a bola quicou na frente de Vázquez e saiu forte da área. Pouco depois foi a vez do Celta de Vigo fazer o seu gol, já nos acréscimos, Iker Losada entrou na área e chutou cruzado, tirando Courtois da jogada e marcando o gol de honra da equipe da casa.
– Marina vai matar o capi. – ouviu José Parrales, o fisioterapeuta do time, falar e deu uma gargalhada.
– Eu tenho certeza absoluta que amanhã na recuperação ele vai falar que Marina o xingou por ter aberto tanto as pernas e ter deixado o jogador ganhar campo. – Julio de la Morena, outro integrante do departamento médico, falou rindo.
– Ou Isco vai contar. – Julio riu. – Marina deve ser a pessoa mais madridista da história.
– Sendo irmã de quem é, não duvido mesmo. – riu ao falar.
voltou a passar na televisão, dessa vez indo na direção do túnel e deu uma risada nasalada ao vê-la tropeçar enquanto caminhava e tentando disfarçar.
– Do que você está rindo? – Parrales perguntou sem entender e apontou para a televisão.
– Essa repórter… , se não me engano, foi ela quem bateu no meu carro em 2018 e quem tropeçou na minha cadeira de rodas essa semana.
– Foi ela? – Parrales perguntou surpreso e assentiu. – Ela é uma ótima jornalista, gosto do que ela escreve e sempre que vejo as coletivas e é ela quem vem do Marca, as perguntas são boas.
– Zizou também gosta. – Julio riu. – Na coletiva de ontem ele quase soltou um foguete ao vê-la. É uma jornalista educadíssima e muito competente.
, você está evoluindo bem… essa semana o Abascal pode tirar seus pontos e vamos começar do zero, cuidar da cicatrização e da inflamação, toda essa situação de uma cirurgia tão séria é muito nova para o seu corpo, então as dores e os incômodos são normais, mesmo que seja uma merda e que te atrapalhe a dormir e a comer. Bom, pelo menos por enquanto essas coisas são normais na intensidade em que estão, mas se houver alguma mudança, se aumentar muito, você tem que nos informar.
– Claro.
– E vamos começar a andar de muletas agora mesmo. – o fisioterapeuta falou sério e assentiu. – Não precisa ter medo, nós vamos te ajudar e faremos isso com calma, não vamos forçar e nem te machucar.
– Como anda a terapia? – Parrales perguntou e deu um sorriso pequeno.
– Bem. É muito estranho como essas coisas funcionam, mas tem sido bom falar sobre tudo.
– É importante mesmo e nós estamos conversando com o presidente pra montarmos uma equipe de psicologia para o time principal e para as equipes da base. Sem contar o basquete… esportes são bem complicados e vocês precisam de todo suporte pra lidar com tudo que acontece, desde derrotas até lesões. Então vamos discutir e começar a procurar bons profissionais que saibam lidar com isso, vocês farão sessões semanais individuais e em grupo, porque é importante. – Julio falou sério.
– Também acho que é importante. Acho que estaria sendo muito pior se eu não tivesse começado a terapia pra auxiliar nesse momento.
– É uma discussão antiga no meio do futebol, porque isso, como tantas outras coisas, é um tabu enorme e sofre muito preconceito, mas existe uma taxa enorme de atletas com depressão e outras doenças psicológicas e que se forem tratadas da forma correta, conseguem ser controladas ou curadas. Precisamos disso.
– Ouvi dizer que a Federação Alemã ia pedir pra UEFA tornar obrigatório ter psicólogos e psiquiatras dentro das equipes médicas dos times em toda a Europa e depois repassar isso pra FIFA tornar obrigatório em todo o mundo. Espero que o façam e nós deveríamos fazer pressão pra Federação Espanhola fazer o mesmo, porque é muito importante cuidar da saúde mental dos atletas além de apenas da saúde física e de cifras.
– Acho que isso será ótimo. – concordou. – Mas, agora, vamos ficar de pé. Eu acho que quero chorar, porque estou com medo, mas se não começar do zero, não começo de lugar nenhum.

Tres

“My one, when all is said and done, you’ll believe God is a woman…” (Ariana Grande – God is a Woman)

MARCA.com, Avenida de San Luis, Madrid, segunda-feira, 02 de setembro de 2019

– Sem chances! – foi enfática e o chefe rolou os olhos. – Eu detesto aquele programa! E eu serei a única mulher, eles vão encher meu saco!
, eles querem um jornalista do Marca e que seja excelente, ou seja, você.
– Tem uma redação repleta de jornalistas, Sacristán. Escolha outro.
– Já mandei seu nome, eles já te anunciaram. – o homem respondeu e soltou um grunhido raivoso. – Não rosne, você estará de folga amanhã e o fim de semana todo. De novo.
– Depois de ir cobrir jogo fora da cidade. De novo. – respondeu em tom petulante. – E eu espero que vocês aumentem meu salário logo, porque eu tenho trabalhado mais do que todo mundo nesse lugar.
– Pensarei no seu caso. – o redator chefe riu. – Agora vá trabalhar.

saiu da sala de Sacristán bufando e pouco contente com o que ele tinha conseguido. Ela queria apenas ir embora e descansar depois do trabalho, mas não seria isso que aconteceria ao fim do expediente. teria que ir para os estúdios da emissora Mega e participar de um dos programas que ela menos gosta de ver e, mesmo assim, é um dos mais assistidos e considerado o maior e melhor programa esportivo da Espanha.
El Chiringuito de Jugones.
Queria poder chorar e reclamar mais, bater o pé e dizer que não iria, mas além de não poder mesmo fazer pirraça como uma criança de cinco anos, não adiantaria nada. O chefe não se renderia, o nome dela já estava lá e a pior coisa que ela poderia fazer era tirar seu nome daquela lista sem um motivo realmente plausível.
Então sua birra teria que ser engolida e ela teria que aparecer no programa, tentar engolir sua cara de nojo e fazer os comentários que precisasse. Sabia que aquilo seria uma tortura, porque provavelmente os comentários machistas a deixariam muito brava e ela não poderia surtar ao vivo, daria ainda mais motivo para falarem merda a seu respeito.
Era melhor retomar o trabalho e tentar ignorar a vontade de dar a louca e sumir por Madrid e nunca aparecer no programa da noite. Tinha uma matéria para escrever e não podia ficar apenas surtando. Os outros jornalistas convidados seriam razoavelmente toleráveis – pelo menos os que iriam na bancada do Real Madrid – então restava a apenas torcer para que os blaugranos também fossem minimamente suportáveis.

– Que cara é essa, ? – ouviu Cora perguntar quando sentou-se em sua mesa, e suspirou de forma dramática.
– Adivinha quem vai pro El Chiringuito hoje?
– Sério? – Cora perguntou, segurando a risada. – Amiga, eu acho que será ótimo! Você é super talentosa e inteligente, vai tirar de letra e vão cogitar mandar o Pedrerol embora e te colocar como a apresentadora.
– Deus me livre! – respondeu de pronto. – E nem posso pedir pra não ir ou pra me substituírem se não tiver um motivo plausível… você me atropelaria?
– Estou de bicicleta, não vou conseguir nada além de deixar marcas de pneu nos seus tênis.
– Eu odeio a minha vida.
– Deixa de drama, , vai dar tudo certo e eu tenho certeza que o Sacristán só te mandou, porque você é a melhor opção.
– Vocês ficam falando isso como se fosse mudar alguma coisa ou que fosse verdade que eu sou a melhor mesmo. – resmungou.
– A única jornalista com vários prêmios aqui é você, minha querida. – Cora respondeu e resmungou. – Estarei acordada pra assistir e espero que você arrase!
– Farei o possível. Se é que vão me deixar falar…
– Como se você se calasse pra qualquer pessoa, . – Cora deu uma risada alta, atraindo a atenção de mais gente do que gostaria.
– Agora vamos trabalhar, porque você fez tanto escândalo que o Sacristán está olhando bastante interessado pra cá. E eu tenho que fazer uma matéria pra daqui vinte e seis minutos.
– Eu tenho que ir cobrir o treino do Atletico de Madrid. Infelizmente.
– Ainda bem que nunca me mandam pra lá, porque eu me demitiria na hora.
– Acho que é exatamente por isso que não mandam. – Cora riu. – Se não nos vermos mais hoje, saiba que estarei assistindo e espero que você arrase!
– Você deveria ficar do meu lado e me atropelar, porque ai mandam outra pessoa e eu posso ficar em paz na minha casa.
– Já basta a folga do fim de semana completo, gracinha.
– Depois de trabalhar direto cobrindo jogos, lindinha… – respondeu, num tom quase ácido, mas sorriu para a amiga. – Se você passar perto do Simeone, dê um chute nele por mim.
– Claro, daí você me arruma um excelente advogado pra me livrar da cadeia e da indenização absurda que terei que pagar para aquele azedo.
– Hoje você está se recusando a causar muitos acidentes, não gostei.
, para de falar e vá trabalhar! – Cora brincou, dando uma risadinha antes de sair de perto da amiga para ir resolver suas próprias coisas.

concentrou-se em revisar sua matéria para que pudesse postar no site do Marca e deixou que o dia passasse enquanto, de fones, ouvia uma playlist de reggaeton animada, com muitas músicas que lhe davam vontade de dançar e a fizeram esquecer quase que completamente o compromisso do fim de noite.
Quase.
Quando finalmente estava indo embora, um pouco mais cedo que o habitual, dirigiu pelo caminho até seu apartamento pensando em várias coisas sobre o programa: quem tinha escolhido aquele horário péssimo? Por que diabos um programa que passa de meia noite às duas e meia da manhã é tão assistido e comentado? Por que querem que ela vá? Quem, por tudo que é mais sagrado, faz um programa esportivo na Espanha e pensa em uma bancada para apenas dois times e esquece que há um terceiro time que, além de ser da capital, é tão importante para o cenário futebolístico do país quanto os outros dois? E, por que discutiam sobre os outros clubes como “plano de fundo”, reforçando a ideia que tantas pessoas têm a respeito da Liga, como se fosse um campeonato de dois clubes e nada além disso?
E, com a cabeça cheia dessas perguntas, ouvindo música e querendo sumir, chegou em sua casa para aproveitar algumas horas de sossego antes de ter que se arrumar para ir ao estúdio e participar do programa.

📰🤍⚽️
Madrid, sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Já era quase meia-noite, mas estava sentindo dor e não conseguia dormir, então resolveu ligar a televisão e procurar algo para assistir e que lhe desse sono, porque tinha que estar no centro de treinamento bem cedo e precisava estar descansado para os exercícios do dia, que ainda consistiam em fisioterapia e, talvez, evoluísse para algo na água em breve.
Passando os canais, parou no Mega, que anunciava o início de “El Chiringuito de Jugones” que começaria em instantes. Ele já tinha assistido ao programa, principalmente durante os dias de recuperação, quando estava com tanta dor que passava as noites em claro, mas nunca entendeu muito bem os motivos de um programa esportivo passar tão tarde e nem como era possível que fosse um dos mais assistidos da Espanha.
Assim que Pedrerol apareceu, dando início ao programa, notou a presença de uma pessoa conhecida. . Parecia estar bastante à vontade, sorriu quando foi anunciada e cumprimentou os outros presentes. Além dela, apenas uma outra mulher que compõe a equipe fixa, Sandra, e os outros oito homens.
reparou que estava do lado do Real Madrid, mas imaginou que fosse por ela escrever sobre o time. Provavelmente seja mesmo madridista, ele não fazia ideia, afinal, ela poderia muito bem nem ser de Madrid.

, estou muito agradecido por você ter aceitado o convite e vindo como a representante do Marca. – Pedrerol falou e deu um sorriso pequeno. – Uma jornalista muito premiada e reconhecida, que faz matérias sempre precisas e muito bem escritas, usadas como fontes pra outros grandes jornalistas… é uma honra tê-la aqui.
– Obrigada. – agradeceu um pouco sem jeito.
– Bom, você estava nos dois últimos jogos do Madrid, não estava? – perguntou e ela assentiu. – E qual sua percepção dos jogos?
– Foram dois jogos bem diferentes pela estratégia de jogo dos adversários. Contra o Valladolid, o jogo em que o Madrid teve muito mais posse, muito mais chances e foi bem inconclusivo. Bola na trave não adianta nada, conseguir escanteio sem ter quem conclua bem também não adianta nada. O time demorou muito pra fazer um gol, faltavam oito minutos para o fim, mas acharam que estava tudo vencido e, de repente, tomam um gol seis minutos depois. Uma falta de atenção horrorosa que custou dois pontos. Já contra o Villarreal, o time tomou um gol cedo, também depois de um vacilo enorme do Madrid, e demorou a empatar pra ter uma mínima esperança de conquistar pontos. Jogar lá com o Villarreal é sempre difícil, mas podiam ter complicado menos. E, por mais improvável que possa parecer, é preciso agradecer ao Bale pelos dois gols, porque se ele não estivesse no lugar certo, na hora certa, teria sido uma derrota horrível, em alguns momentos o Villarreal quase implorou pra tomar um gol, mas, novamente, sem nenhuma efetividade concreta, o Madrid perdeu a chance de virar, ampliar e golear. O segundo gol do Villarreal foi absurdo. É impensável que um time com os nomes que o Real Madrid tinha em campo fizesse uma patifaria daquela.
– Mas você acha que há algum problema?
– Acho que os de sempre, mas a desatenção foi horrorosa. O Madrid tinha esses apagões na época do Solari e do Lopetegui. Uns apagões gerais e que dão esse tipo de resultado. Se mostrarmos só as estatísticas dos jogos pra pessoas que não o assistiram, com certeza diriam que o Real Madrid venceu e bem, mas não foi assim. Não adianta nada ter as estatísticas a favor se não terão efetividade. Uma coisa que falo sempre, desde a época do Guardiola no Barcelona: posse de bola não ganha jogo, jogar bonito demais não ganha jogo. O que resolve é bola na rede, atenção e foco no objetivo. Se querem o título, não podem vacilar assim. Um time que ser campeão não fica em quinto lugar na tabela de classificação.
– Esse título já tem dono. De novo. – um dos componentes do lado do Barcelona falou no intuito de provocar e deu uma risadinha.
– Fiquem com La Liga, nós ficamos com a Champions League. – respondeu, fazendo os demais rirem do deboche usado.
– E pra Champions League, quais são seus pensamentos?
– Acho que podemos tentar, temos um elenco realmente bom, mas é preciso trabalhar alguns pontos nesse time, principalmente psicológico.
– Você já falou disso algumas vezes, se não me engano.
– Sempre falo. É uma das coisas que deveria ser obrigatória para os times de futebol, porque cuidar da mente e do emocional desses profissionais é o que vai fazer com que o time jogue bem e ganhe títulos. Mas toda vez que falo isso, meia dúzia de torcedores revoltados ficam me xingando na internet e falando que “futebol é coisa pra homem e se não aguentam a pressão, podem ir dançar balé”, mostrando que além de não terem um pingo de empatia e amor pelo próprio time, eles também não entendem nada de balé, porque é muito difícil e a pressão é ainda pior do que no futebol.
– Bom, agora vamos falar sobre a situação em Barcelona, sobre toda a instabilidade política e que pode comprometer o jogo Barcelona x Espanyol…

O programa continuou por outras duas horas e seguiu assistindo, mesmo com a dor aliviada e com sono, porque estava bastante interessante ver o programa e como era uma mulher segura e que não se deixava abater pelos comentários ácidos de alguns dos jornalistas da bancada do Barcelona.
Ela era bastante eloquente, tinha reparado. Falava bem e dominava muito o assunto futebol, dava prazer vê-la falar tão bem e sem deixar que seu lado torcedora afetasse o julgamento da jornalista Hildalgo. Quando o programa acabou, resolveu dormir, porque estivera com sono por boa parte do tempo, mas tinha gostado de ver falar tão bem que tinha esquecido que precisaria acordar cedo para ir para a fisioterapia.
Por sorte, não precisaria dirigir ou fazer atividades pesadas, então talvez conseguisse tirar alguns cochilos nos intervalos entre os exercícios. Pelo menos esperava que fosse possível fazer isso. Mas, no momento, iria dormir.

 

Cuatro

“Yo no sé ni qué hacer, no sé, cuando estoy cerca de ti, tus ojos color café se apoderaron de mí…” (Rauw ft. Camilo – Tattoo)

Estádio Santiago Bernabéu, Madrid, sábado, 14 de setembro de 2019

Em quarenta minutos o Real Madrid tinha feito três gols – dois de Karim Benzema e um de Casemiro – e o Levante parecia morto, sem nenhuma chance de reação e aquilo só fazia parecer que o segundo tempo da partida seria com ainda mais gols do time da casa, que estava animado, empurrando e amassando o visitante.
A posse de bola estava altíssima para o Real Madrid, muitas tentativas, passes certos e bolas roubadas com tanta eficiência que nem parecia o Real Madrid das rodadas anteriores que tinha empatado de forma vexatória com Valladolid e Villarreal. Parecia o Real Madrid sedento que todos os madridistas ansiavam por ver.

– Você é muito doida de vir no meio da torcida. – ouviu Martín falar.
– Se a namorada do Isco e irmã do Sergio Ramos vem no meio da torcida, eu que sou uma mera jornalista não terei problemas. – deu de ombros. – E, em todo caso, eu cubro o Madrid, só falo a verdade sobre o time e jogadores.
– É, você tem um ponto… – riu. – Você está de folga só hoje ou o fim de semana todo?
– Hoje e amanhã. O Juanes tá cobrindo hoje, porque eu trabalhei em dois jogos por ele e ainda fui no El Chiringuito anteontem, então estou curtindo meus merecidos dias de folga, porque as pessoas esquecem que não sou a única jornalista que cuida do Real Madrid naquele jornal.
– Por que o Bale não foi nem relacionado?
– Ele foi expulso contra o Villarreal. – respondeu como se fosse óbvio, mas deu uma risadinha. – Esse intervalo entre os jogos pra ter eliminatórias da Euro foi bem comprido mesmo, tá perdoado por ter esquecido.
– Pelo menos vencemos os dois.
– Contra a Romênia e Ilhas Faroé, eu venceria sozinha. – respondeu rindo. – Mas ele está suspenso, deve estar lá em cima. Se é que veio…
– Provavelmente, todos eles são obrigados a vir.
– Nem vou responder da forma como eu bem queria, porque você vai falar que é apenas meu desgosto por ele que está falando.
– O jogo está prestes a voltar, vou ao banheiro e já volto. – Martín falou, recebendo um aceno de cabeça de e saiu para ir ao banheiro.

Logo aos quatro minutos do segundo tempo, Borja Mayoral diminuiu a vantagem do Real Madrid. O jogo ainda era muito mais do time da casa, sem muita efetividade, apenas oferecendo perigo, mas sem concretizar, e aos trinta minutos, Gonzalo Melero, fez o segundo gol do visitante.
O jogo terminou com a vitória do Real Madrid por 3 a 2, mas estava novamente muito brava com a desatenção do time, em dois gols que poderiam ter sido evitados, mas preferiram deixar acontecer. Quatro jogos e nenhum clean sheet. Não era possível que o time estivesse tão mal treinado nessa parte do campo. Não era possível.

– Precisamos sair logo daqui, antes que você invada a coletiva e pergunte ao Zizou qual o problema da defesa. – Martin brincou, abraçando pelos ombros.
– Vamos embora mesmo, porque eu estou brava. Vencemos, mas estou brava.
– Vai dar tudo certo, . Essa taça é nossa. A por todas!
A por todas, mas desse jeito vai ficar difícil. Uma hora vamos encontrar um time que não estará tão disposto a fazer menos gols que nós e perderemos feio.
, ganharemos todas as taças da temporada. – Martín falou em tom convicto.
– Assim espero. – resmungou. – Mas vencemos, pelo menos isso. Mais três pontos e agora é lutar pra voltar ao primeiro lugar.
– E ainda tem Champions League essa semana. O que acha?
– Que se tivermos sorte, podemos apenas empatar com o PSG lá. Vencer eu acho um pouco difícil, porque eles têm um elenco bem forte.
– Você vai?
– Se me mandarem pra Paris pra cobrir jogo, eu ficarei bem puta. Mas feliz por ir assistir ao jogo in loco. – riu. – Vamos embora logo, eu quero aproveitar umas horas de descanso.
– Se não for pra Paris, vai trabalhar?
– Claro. Sacristán não gosta de mim o suficiente pra me dar uma folga aleatória no meio da semana só pra eu assistir ao jogo de casa. – deu de ombros. – Anda logo, o trânsito estará bem ruim até Hortaleza, você sabe.
– Vamos almoçar por aqui, eu pago.
– Agora você disse as palavras certas.

📰🤍⚽️

Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Cinquenta e cinco dias desde a lesão. estava fazendo exercícios na água, desde caminhadas, até bicicleta e alguns outros para ajudar no retorno à caminhada normal em solo, porque, de alguma forma, o impacto da água e a pressão exercida faziam coisas boas pelos músculos e ligamentos.
Ele estava um pouco mais tranquilo, mesmo que ainda pensasse muito sobre a lesão e ficasse pesquisando coisas que poderiam ajudá-lo a se recuperar mais rápido, desde exercícios até algumas coisas para se alimentar.
já tinha conversado com Sergio Llull, um dos jogadores da equipe de basquete do Real Madrid, que tivera a mesma lesão na temporada anterior e estava totalmente recuperado, jogando bem e sem nenhuma dor ou sequelas. Llull tranquilizou sobre a lesão e a recuperação, disse para que ele confiasse no tratamento e se esforçasse para melhorar cada dia mais e que isso daria certo.
A equipe de televisão do Real Madrid vinha filmando todo o processo, desde a lesão, para um futuro documentário a ser exibido na Real Madrid TV quando voltasse. Todos diziam que ele voltaria em grande estilo, que marcaria gols e seria muito importante para o time. tentava não se contagiar com tanta positividade acerca de seu retorno, afinal se seu retorno não fosse dessa forma, acabaria frustrado e isso seria péssimo, então aceitava os elogios e os desejos de recuperação, mas evitava criar expectativas.
Já estava andando sem as muletas e os exercícios na água eram mais para o fortalecimento dos músculos perdidos depois de tanto tempo sem exercitá-los como fazia habitualmente, precisava desfazer-se da rigidez que os ossos da região tinham adquirido e ainda precisava diminuir um pouco do inchaço antes de começarem trabalhos mais fortes para que ele pudesse voltar a treinar em campo.
Mas ainda faltava muito tempo até que isso acontecesse e ele não queria contar dias e depois se frustrar. Já tinha ido ao gramado, andado pelo campo e conversado com alguns dos companheiros por lá, mas não era treinar. E sentia falta daquilo. Era uma grande merda assistir tudo pelos vidros, ver os companheiros correndo, seguindo as ordens de Zidane e se preparando para os jogos que ele não disputaria, jogos que apenas assistia de casa ou dos camarotes do Santiago Bernabéu.

– Hoje você está dispensado, vá aproveitar suas horas de descanso. – Parrales falou e juntou as mãos num agradecimento para provocar.
– Finalmente estou livre dessa tortura.
– Precisa de carona, ? – ouviu a voz do capitão Sergio Ramos.
O time estava em recuperação, alguns em fisioterapia, mas Sergio Ramos e Isco pareciam prontos para irem embora.
– Meu pai vem me buscar.
– Falou feito um adolescente de treze anos. – Isco falou, dando uma risadinha.
– Que é exatamente o que ele é. – Sergio implicou com o mais novo.
– Cuidem da vida de vocês. – resmungou, abraçando os amigos em despedida e saiu da sala de fisioterapia.
Precisava encontrar alguém das filmagens do tal documentário, tinham deixado o recado de que precisavam falar com ele, então ele tinha mesmo que passar por lá (onde quer que fosse esse “lá”) e resolver o que precisavam que fosse resolvido.
Enquanto caminhava, acabou perdendo-se pelo caminho e acabou trombando com alguém pelo caminho. E, claro, não podia ser outra pessoa além da que recorrentemente tem trombado com ele em todos os locais.

– Estou começando a achar que você está me seguindo apenas pra ficar esbarrando em mim. – implicou e deu uma risadinha nasalada.
– Não foi a intenção, . Nunca é, mas você sempre surge do nada e a gente acaba se esbarrando.
– Eu trabalho aqui, então acho que minha suposição está mais correta.
– Eu vim trabalhar, então posso dizer que eu também estou trabalhando aqui.
– E na televisão também. – sorriu simpático. – Você foi ótima no Chiringuito. Não sabia que você era madridista.
– Sou. E obrigada. – sorriu agradecida.
– Já assisti algumas vezes, principalmente durante a recuperação, mas nenhum dos programas foi tão bom quanto esse. De verdade. Achei bem legal que você consiga afastar sua torcida das suas análises de trabalho. E foi bem demais defendendo o Madrid e os outros times. Você já foi lá antes?
– Obrigada. – deu um sorriso pequeno. – Não, foi a primeira vez que fui e nem queria ter ido, pra ser bem sincera, mas meu chefe meio que me mandou por livre e espontânea pressão, não tive muita escolha, mas foi interessante. Mesmo que o horário seja muito estranho.
– É, realmente o horário não faz muito sentido, mas foi bem legal.
– E então, como anda a recuperação?
– Estou andando sem as muletas, mesmo que ainda não seja o caminhar normal e que eu ainda esteja repuxando um pouco a perna, mas já estou caminhando sem as muletas e fazendo exercícios mais pesados, mesmo que a parte posterior esteja me incomodando um pouco ainda.
– É normal, não é? Pelo tempo que você não movimenta tanto a perna…
– É sim. Jaime disse que é totalmente compreensível. – respondeu sorrindo. – Ah, eu te vi num dos jogos… acho que foi contra o Vigo.
– Ah… eu fui cobrir pra Rádio Marca de última hora. Meu colega que ia passou mal e eu fui enfiada num avião pouco menos de duas horas antes do jogo. – resmungou. – Você ouviu?
– Não. Eu te vi na televisão, você tropeçou e quase caiu. – riu. – Acho que você tem um problema com isso…
– Eu preciso me concentrar mais em andar do que mexer no celular ou ficar conversando, sempre acabo esbarrando nas coisas e nas pessoas. Como, por exemplo, você.
– É, acontece… – riu. – E então, vai pra Paris?
– Só se me mandarem a trabalho, mas não estou sabendo de nada ainda… só me mandaram pra coletiva do pré-jogo mesmo.
– Zizou comemorou sua presença de novo? – deu uma risadinha ao falar e acabou rindo junto.
– Acho que sim, mas eu provavelmente sou a única que não fico enchendo o saco sobre contratações que não vão acontecer, especulações idiotas e perguntas do tipo “o que vocês precisam fazer pra ganhar?”.
– Mais gols do que o adversário, todo mundo sabe disso.
– Pois é. Mas sempre tem um pra perguntar alguma coisa idiota assim… e sobra pra eu fazer as perguntas complexas e deixar o Mister orgulhoso.
– Perguntaram sobre Mbappé e Neymar?
– Claro! Achei que Zizou ia embora no meio da coletiva quando surgiu esse assunto.
– Ninguém fala de mim? – perguntou e recebeu um aceno negativo.
– Não hoje, pelo menos. – deu de ombros. – Preciso ir agora, tenho que voltar pra redação pra terminar o esp…
– Especial da Champions League pra ir ao ar hoje. Eu leio o Marca. – deu um sorriso e voltou a sorrir com ele.
– Obrigada. Compartilhe nas suas redes sociais e aumente os cliques nas minhas matérias, estou precisando.
– Aposto que você é a mais lida do Marca, .
– Não vou confirmar nada. – riu. – Agora preciso mesmo ir, conto com sua leitura no dia de hoje, .
.
– É estranho te chamar de .
– Por favor.
– Tudo bem, . – sorriu. – Boa recuperação e diga aos seus companheiros de time que se eles não vencerem, vou incinerar esse centro de treinamento com todos dentro.
– Que horror. – deu uma risada. – Mas eu aviso. Bom trabalho.
– Obrigada. – respondeu, despedindo-se com um aceno.
demorou um pouco pra chegar ao estacionamento, ainda teve dar algumas voltas pelo centro de treinamento até encontrar o responsável pelas filmagens para conversar e quando chegou, encontrou o pai esperando por ele no carro.
– Demorou hoje.
– Tive que ir conversar com o pessoal do Real Madrid TV por causa do documentário.
– Vi aquela jornalista daquele dia, a que caiu.
– Nos esbarramos hoje de novo. – respondeu, sentando-se no banco do carona.
– Literalmente?
– Literalmente. – riu.
– Ela é muito bonita.
– É sim. Assisti o dia que ele foi ao Chiringuito, é muito inteligente também.
– Precisamos comprar ração pro Rome. – Gilberto falou e assentiu.
– Podemos passar num McDonald’s?
– Jaime vai mandar te matar se ficar sabendo. – Gilberto riu, tirando o carro do estacionamento e seguindo pra fora do centro de treinamento.
– É só não deixarmos ele saber. – riu ao falar. – Eu mereço, estou me recuperando bem.
– Então tudo bem, teremos McDonald’s. – respondeu e sorriu feito criança.

Cinco

“Yeah, like you’re sent to rock the Earth, my friends think you’re amazing…” (McFly – Something About You)

Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, terça-feira, 17 de setembro de 2019

¡Buenos días, chavalito! ouviu a voz de Sergio Ramos, que sorria para o mais novo que se aproximava.
– Bom dia, capi. – cumprimentou, abraçando Sergio Ramos e recebendo um beijo no rosto quando o fez. – Chegou cedo.
– Vim fazer um pré-treino com o Jaime. – o capitão deu de ombros.
– ¡Buen día señores! – ouviram Isco, que se aproximava.
– Bom dia, Magia. – Sergio cumprimentou.
– Bom dia, bro.
– E então, já começou a contar as novidades sobre a namorada? – Isco implicou e o olhou sem entender. – Nem vem, você estava conversando com ela ontem, quase babando na mulher no meio do corredor!
– No meio do corred… Ah! Não, nós não somos nada. Ela é a jornalista que bateu no meu carro em 2018. – deu uma risadinha.
, do Marca. – Sergio falou e assentiu. – Boa jornalista.
– Realmente.
– E muito gata. – Isco acrescentou e Sergio o olhou, estreitando os olhos e tentando parecer ameaçador. – Não mais do que minha namorada, obviamente, mas eu ser um homem muito bem comprometido não significa que fiquei cego e hipócrita do nada.
– Ela é mesmo muito bonita, mas não existe isso de namorada, Francisco. – falou, fazendo Isco olhar de forma duvidosa. – É sério. Ela bateu no meu carro naquela vez, nunca mais tínhamos nos encontrado, mas já nos esbarramos literalmente duas vezes esse ano e eu a vi na televisão duas vezes, sendo que nunca tinha visto.
– Já dizia Shakira: você acredita em destino? – Isco implicou, fazendo Sergio assentir em concordância, sorrindo zombeteiro.
– Não sinto absolutamente nada por , apenas a acho uma excelente jornalista e mais nada.
– Ela realmente é boa. Quando é ela quem vem, o Marca é quem faz a melhor pergunta e é sempre interessante. – Sergio falou e os três voltaram a caminhar até a sala de fisioterapia.
– Se você não sente nada e fica babando pela mulher daquele jeito, imagina se sentisse? Sério, quase achei que você ia afogar a coitada na baba.
– Deixe de ser ridículo, Francisco. – deu um pedala no amigo, que gargalhou.
– Eu te defenderia, chaval, mas eu também percebi. Você estava olhando pra ela quase bobo, dando sorrisinhos ao falar…
– Não desviou o olhar dos olhos dela, parecia hipnotizado. Nem mesmo percebeu que nós estávamos vendo. – Isco falou dando uma risada abafada. – Pode até não gostar, mas tem alguma coisinha…
– Vocês são doidos.
– Devíamos ter filmado. – Sergio riu.
– Deveríamos encenar pra ele ver como foi. – Isco sugeriu, fazendo Sergio gargalhar em concordância. – Eu sou o .
– Eu sou o único bonito dos três, então serei a , obviamente. – Sergio riu.
– Vocês são ridículos.
– Calma, vamos encenar e você vai entender como estava. – Isco falou, parando quase da mesma forma que estava no dia anterior.
– Como não sei como foi que ficou te olhando, eu vou ficar sem nenhuma expressão e apenas observando como Francisco, no caso você, se derrete por mim, porque sou o mais bonito, mesmo que minha irmã diga que não.
– Vocês são mesmo ridículos. – gargalhou.
Isco olhava fixamente para Sergio, dando risadinhas e sorrisinhos, mexia a boca como se falasse e tinha os olhos fixos nos de Sergio Ramos, quase como se estivesse hipnotizado. deu uma gargalhada, balançando a cabeça negativamente, e os outros dois encerraram a péssima atuação da cena do dia anterior.
– Ainda bem que vocês são jogadores, se dependessem de atuação, morreriam de fome.
– Foi isso que aconteceu ontem, apenas aceite, porque nós vimos sua cara. – Isco implicou, rindo da cara do amigo.
– Vocês estão muito desocupados. – falou, rolando os olhos, e voltando a andar.
– Eu aposto dez euros que antes do natal vocês serão um casal. – Isco falou, mordendo o lábio inferior para provocar .
– Aposto vinte que vai demorar um pouco mais, porque é lento e vai perder o timing.
– Aposto cinquenta que vocês são dois sequelados que falam demais da vida alheia e não cuidam das próprias vidas. – respondeu, recebendo um tapa na nuca de Sergio Ramos.
– Não bate no ! – Isco falou alarmado e Sergio olhou sem entender. – Você já esqueceu que a namorada dele é jornalista? Vai que ela escreve que ele está sendo agredido pelo capitão do time? Isso pode dar um problemão pra você, vai envolver o time e o presi vem aqui pra nos matar!
– É verdade… – Sergio falou, fingindo pensar, e abraçou pelos ombros. – Diga a ela pra publicar coisas boas sobre mim.
– Ela é um pouco fanática, tipo sua irmã.
– E como você sabe disso, ? – Isco olhou interessado, mexendo as sobrancelhas pra cima e pra baixo.
– Ontem ela disse que se vocês não vencerem, ela vai incinerar Valdebebas com a gente dentro.
– Já sabemos que ela vai se encaixar bem no grupo de esposas e namoradas. – Isco riu ao falar. – Nina falou a mesma coisa, que se perdermos, ela vai me matar quando eu estiver dormindo.
– Felizmente a Pilar é normal e não fica falando essas coisas. – Sergio riu. – Mas Nina me disse algo parecido, que se não vencermos, ela vai passar meu endereço pra alguns torcedores bastante perigosos, tirar os meninos e a Pilar da casa e me deixar lá pra morrer. Não sei se estou mais preocupado com ela realmente fazer isso ou por ela conhecer esse tipo de pessoa.
– O importante é que a vai se adaptar bem ao grupo muito antes do que o imaginava. – Isco falou, apertando as bochechas de , bem quando entraram na sala de fisioterapia.
– Quem é e a que grupo ela vai se adaptar bem? – José perguntou.
– A nova namorada do . – Isco respondeu antes que falasse algo. – A jornalista.
– Bom, isso explica o motivo pelo qual ele a viu na televisão outro dia e ficou cheio de sorrisinhos… anda prestando bastante atenção nela. – Jaime falou em tom de implicância.
– Eu detesto todos vocês e vou embora desse recinto. – falou, suspirando, arrancando gargalhadas dos companheiros.
– Vai mesmo. – Jaime falou sério. – Piscina. Hoje vamos tentar novos exercícios, tenho gostado muito dos resultados que você está obtendo.
– Ainda bem que vou pra bem longe desses dois, eles já me gastaram pro resto do ano em pouquíssimos minutos.
– Chame a pra sair, . Não seja frouxo.
– Cuida da sua vida, Francisco.
– Não seja mal educado. – Sergio falou e rolou os olhos. – Chame-a para sair.
– Eu concordo. Talvez ela pare de esbarrar em você se vocês andarem juntos. – José implicou, fazendo rolar os olhos.
– Vocês são todos insuportáveis.
– Bom trabalho, chaval, continue assim, focado, logo você estará de volta pra nos ajudar a conquistar títulos. – Sergio sorriu carinhoso e devolveu o sorriso.
– Obrigado, capi, boa viagem pra vocês e um bom jogo. Estarei torcendo daqui. – falou e despediu-se dos dois amigos com abraços e beijos no rosto antes de seguir para a piscina com José e Jaime García para a piscina.

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Madrid, quinta-feira, 03 de outubro de 2020

Depois da derrota para o PSG – que tinha classificado como: “uma humilhação que deveria obrigar o Real Madrid a fechar as portas e rever seus conceitos” – por 3 a 0, o Real Madrid venceu dois jogos pela Liga Espanhola (jogos que foi cobrir, tanto o jogo em Sevilla, em que o único gol da partida foi feito por Karim Benzema, quanto o jogo no Santiago Bernabéu contra o Osasuna, em que Vinícius Júnior e Rodrygo foram os responsáveis pela vitória madrilenha), empatou com o Atlético de Madrid no Wanda Metropolitano num jogo chato e amarrado, também pelo campeonato espanhol, e empatou com o Clube Brugge dentro do Santiago Bernabéu.
Um empate com gosto de derrota… para o clube belga, que saiu na frente do placar logo no começo do jogo. Se não fosse por Sergio Ramos e Casemiro, o time madrilenho teria enfrentado outra derrota feia na Champions League. O time era o último colocado do grupo, atrás de Clube Brugge e Galatasaray. tinha participado de um dos programas da Rádio Marca e foi preciso muito controle para não acabar falando demais. Tinha participado da cobertura do jogo e o time estava tão apático e desmotivado que chegava a dar pena, ela sentiu vontade de entrar em campo e estapear todos os jogadores, mas não podia.
Os dias de trabalho a estavam engolindo, ela mal tivera tempo de ligar para os pais durante aquelas semanas, tinha acumulado uma semana de folgas depois de tantas viagens e coberturas de jogos. E aquela quinta-feira tinha sido eleita para ser o primeiro dia de folga depois de tantos dias caóticos de muito trabalho e exaustão. Usaria os outros depois, poderia aproveitar para passar uns dias em Tenerife com os pais e relaxar, estava mesmo sentindo falta da ilha.
Mas, no momento, estava curtindo uma atípica tarde de folga no meio da semana sem absolutamente nada para fazer em casa, no sofá. Tinha a cabeça apoiada no colo de Martín enquanto assistiam “Viva: A Vida É Uma Festa”. O tipo de folga que nenhum deles costumava ter durante a semana, porque quando tinha folgas durante a semana, Martín estava trabalhando e não podia tirar folga, então os momentos juntos costumavam ser depois do horário do expediente e aos fins de semana em que não estava trabalhando.

– Achei que você ia tirar uma semana de folga direto e ir pra Tenerife. – Martín falou, sem tirar os olhos da televisão.
– Eu até queria, mas precisava comunicar com antecedência, porque é uma semana longe. E, em todo caso, terei uma semana completa quando for, terei os seis dias que faltam tirar e a folga da semana…
– Você é esperta.
– E você vai pra Tenerife comigo?
– Posso tentar, vou pedir pra Dolores me dar um retorno sobre minha agenda e escolhemos uma semana pra visitar seus pais e aproveitar aquele paraíso. Só não tenho certeza se consigo uma semana toda, a clínica não pode ficar sem um endodontista e o Ángel está de férias.
– Pode ser um fim de semana mais estendido… De quinta a domingo.
– Vou dar uma olhada nisso e marcamos. – respondeu. – Jantamos em casa hoje?
– Prefiro, meu plano hoje é não sair de casa pra absolutamente nada.
– Cozinhamos ou pedimos?
– Eu cozinho, porque você é um desastre na cozinha.
– Então vamos pedir, você está totalmente de folga hoje.
– Já pedimos o de ontem e o almoço de hoje. Não quero comer nada de delivery.
– Tudo bem… – Martín falou, abaixando-se para dar um beijo nos lábios de .
– Pare de me atrapalhar a ver o filme. – falou implicante, mas sorrindo terna.
– Você já viu esse filme umas vinte vezes, .
– Eu gosto muito.
– É perceptível. – riu. – Mas, tudo bem, gosto dessa parte do Héctor vestido de Frida.

Seis

“Ain’t about how fast I get there, ain’t about what’s waiting on the other side, it’s the climb…” (Miley Cyrus – The Climb)

Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, 15 de outubro de 2019

– Eu estou cansado. – reclamou, quando o dia de trabalho de fisioterapia ainda estava pela metade.
– Alguma dor? – Jaime perguntou, mas negou com um aceno.
– Só aquele pequeno incômodo mesmo, mas totalmente suportável.
– Ótimo. Eu fico muito feliz de ver que estamos há quase cem dias da cirurgia e sua recuperação tem sido realmente muito boa.
– Ainda bem. Eu também fico feliz por estarmos avançando bem, um passo de cada vez, e fazendo dar certo.
– Vá beber uma água, sente e descanse um pouco, vamos voltar a trabalhar mais esses músculos.
– Eu posso viajar no fim de semana? – perguntou e o Jaime olhou curioso. – Palma.
– Vou conversar com o Abascal e ver se te liberamos esses dias… acho que pode te fazer bem.
– Queria ir visitar minha avó na Holanda, mas vou deixar pra fazer isso mais pro fim do ano.
– E você tem conversado com sua namorada jornalista? – Jaime brincou, fazendo rolar os olhos.
– Ela não é minha namorada.
– Ainda.
– Você está ficando tempo demais perto do capi e do Isco. – negou com um aceno de cabeça. – Aqueles dois falam disso sempre que me veem. Outro dia ela esteve aqui e o Ramos faltou me arrastar pra lá quando me viu saindo.
– O capi está tentando emplacar a nova função de cupido. – Jaime riu. – E vá logo, hoje tem jogo da Espanha e eu quero te mandar embora antes disso.

deu uma gargalhada, indo buscar uma garrafa de água no frigobar ao canto da academia e sentou-se de forma relaxada enquanto ouvia um reggaeton alto tocar, começou a cantar com Ozuna, “Se Preparó”, e fingia dançar, fazendo Jaime rir.
A fisioterapia ainda durou um bom tempo, agora não apenas com exercícios básicos, mas já no trabalho de reestabelecer a estrutura muscular da perna lesionada que tinha perdido muita massa muscular. Um pouco de exercício na academia e terminou o dia com os exercícios na piscina, que agora estavam mais puxados e faziam com que ele ficasse cansado, mas motivado.
O cansaço sem dor era um bom sinal, mostrava que seu corpo estava se readaptando à rotina de exercícios frequente. esperava começar a treinar em campo em breve, mas sabia que ainda era um pouco cedo para aquilo. Por várias vezes se pegou observando o treino do time em campo pelas grandes janelas das salas de fisioterapia, aquilo lhe servia como motivação para que em breve estivesse lá, em campo, e pudesse ser uma opção para entrar em campo e voltar a jogar.
Quando chegou em casa, tomou um banho e foi sentar-se no sofá para assistir ao jogo da Espanha com o pai, o irmão e seu cachorro, Rome, torcendo pelos companheiros de Real Madrid e de seleção. Queria um bom resultado, pois aquele jogo podia definir a classificação para a Euro de 2020.

– Como foi hoje? – Igor, seu irmão mais velho, perguntou antes do jogo começar e deu um sorriso que misturava o cansaço e a felicidade.
– Foi ótimo. Estou morto.
– Mas algo ainda dói?
– Só um pequeno incômodo, mas Jaime já disse que é perfeitamente normal, porque é a adaptação do meu corpo à nova situação e que como o joelho ainda está um pouquinho inchado e desacostumado com atividades, fica um pouco dolorido, mas fiz exames e está tudo bem.
– Que bom. – sorriu. – Alguma previsão?
– Nada. Ainda manteremos os treinos na academia, mas essa semana vamos treinar usando um equipamento da NASA e eu estou super curioso, deve ser muito estranho.
– Equipamento da NASA? – Gilberto perguntou curioso e assentiu.
– Sim. Algo na esteira, parece que é uma bolha anti impacto que eles usam em treinamentos de astronautas.
– E ainda estão te filmando? – Igor perguntou e assentiu.
– Estou me sentindo uma estrela de cinema. – riu. – Inclusive, querem vir gravar algumas coisas aqui com a gente. Parece que vão fazer um documentário…
– Você está mesmo muito importante. – Igor implicou.
– É o preço de ser o jogador mais bonito do elenco. – respondeu, forçando um tom convencido e caindo na risada.
– Espero que não peçam pra ir no seu quarto, está uma bagunça. – Gilberto falou, fazendo Igor gargalhar.
– Parece que nunca saiu da adolescência.
– Hahaha, Igor, muito engraçado. – respondeu, debochado, fazendo uma careta para o irmão. – Pai, meu quarto está arrumado, eu o deixei organizado de manhã. Rome esteve por lá?
– Quase nada. – o mais velho deu de ombros. – Passou o dia comigo enquanto assistíamos televisão.
– Que inveja.
– Vamos assistir agora. – Igor apontou pra tela. – Vamos assistir a nossa classificação pra Euro.

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MARCA.com, Avenida de San Luis, Madrid, terça-feira, 15 de outubro de 2019

– O que você está pretendendo fazer esse fim de semana? – Cora perguntou para , mas sem desviar os olhos da televisão.
Precisavam ficar atentas, pois estavam cobrindo o jogo da Seleção Espanhola para o site do MARCA.com e qualquer piscada em momento errado, poderia atrapalhar na cobertura da partida.
– O irmão mais novo do Martín vai casar, então vamos a Toledo pra isso.
– Está de folga?
– Estou no sábado, mas não estou escalada pro jogo de domingo, só se for uma emergência que não tem outra possibilidade de ser feita por outra pessoa.
– Quase quero apostar que vão dar um jeito de te mandar pra Sevilla. – Cora deu uma risadinha. – Mas espero que não.
– Pelo amor de Deus, não! – riu. – Eu não aguento mais essas ligações de última hora me escalando pra jogo.
– Olha lá, que merda! – Cora falou dando um pulo na cadeira. – Como esse goleiro defendeu isso? Como ele conseguiu defender essa cabeçada do Gerard Moreno? Filho da puta!
– Que inferno. – reclamou junto. – Precisamos vencer e já classificar de uma vez nessa merda e facilitar nossa vida pro ano que vem.
– É bem capaz de perder, nunca vi uma seleção que gosta de um sufoco…
– A Itália. – deu uma risadinha. – Poderíamos ter resolvido isso contra a Noruega na semana passada, mas cá estamos nós…
– Enfim, o irmão mais novo vai casar? E Martín não fala nada sobre casamento com você?
– Muito cedo pra isso, Cora.
– Vocês namoram há uns dois anos, , não está tão cedo assim…
– Está sim. E não estamos pensando em casamento por enquanto. Pelo menos eu não estou.
– Mas vocês não precisam casar imediatamente caso ele peça…
– Eu sei disso, mas não acho que estamos nesse momento. – deu de ombros. – Vou pedir uma pizza pra gente.
– A redação está cheia…
– Eu disse que é pra nós duas. Os outros que se virem. – deu uma risada abafada, mal desviando os olhos da televisão para pedir a pizza pelo aplicativo.

O primeiro tempo do jogo terminou empatado sem gols, mas com boas chances para os dois lados, grandes defesas dos goleiros e oportunidades perdidas pelas duas seleções. O empate classificaria a Espanha, mas nenhum torcedor queria aquilo, tampouco os jogadores pareciam querer um empate.
Quando a pizza chegou, o segundo tempo da partida estava começando, e as duas voltaram suas atenções à televisão e mastigavam os pedaços de pizza sem tirar os olhos do jogo. Aos cinco minutos, a Suécia abriu o placar depois de uma sequência de defesas do goleiro De Gea.

– Achei falta no primeiro lance. – falou enquanto escrevia o lance para o tempo real da partida que estava indo ao ar no site.
– O Bernat escorregou sozinho. – Cora resmungou. – De Gea rebateu mal e deixaram o cara entrar sozinho na área… ridículo.
– Precisamos empatar. – resmungou, voltando sua atenção para a televisão.
– Agora sim vamos pelo empate.

O jogo continuou bastante intenso, a Espanha criou muitas chances, mas o goleiro Olsen defendeu tudo que podia e conseguia. A Espanha só conseguiu o empate nos dois minutos de acréscimos, após a cobrança de escanteio que gerou uma pequena confusão na área e Rodrigo Moreno se aproveitou e u o gol do empate e que dava a classificação da Espanha como a líder do grupo.
O jogo acabou um minuto depois e as duas respiraram aliviadas. Agora jogariam contra Malta e Romênia, ambas em casa, sem depender de ninguém e de nada. Estavam confirmados na Eurocopa de 2020. Uma chance de título para tentar desfazer a imagem negativa que a seleção vinha carregando desde 2014 e sua eliminação prematura na Copa do Mundo, que precedeu outra eliminação prematura na Eurocopa de 2016, caindo nas oitavas-de-final para a Itália, e uma Copa do Mundo horrenda em 2018.
As duas, Cora e , saíram da redação juntas e seguiram para a casa de , costumavam sempre jantar juntas por lá quando cobriam jogos juntas e assim fizeram. Passaram no supermercado, compraram algumas cervejas, pediram comida e logo estavam sentadas na sala, acompanhadas de Nairóbi, a gatinha branca de .

– Você não gosta do Martín o suficiente pra vocês se casarem? – Cora perguntou e deu uma risada alta.
– Que direta.
– Fiquei curiosa.
– Gosto, Cora, mas não pra casar agora. Não estou nesse momento e sei que ele também não está.
– Será?
– Com certeza. Se estivéssemos, um de nós dois já teria falado sobre casamento, mas, por enquanto, estamos muito satisfeitos apenas namorando.
– Mudando de assunto… ouvi dizer que essa semana você não derrubou ninguém em Valdebebas… – Cora brincou, fazendo rir.
– Eu nunca derrubei ninguém. Eu sou a pessoa que cai.
– Alguma notícia de ?
– Nenhuma além das que todos sabemos: ele está em fisioterapia e a previsão de volta é março de 2020.
– Você é amiga dele, descubra mais coisas.
– Não sou amiga dele, Cora.
– Você já bateu no carro dele, ele te levou pro hospital, ficou lá com você até sua alta e te trouxe em casa, você já quase o derrubou de uma cadeira de rodas, vocês já se esbarraram e conversaram um tempão… pra mim isso configura amizade.
– Mas você é doida, então não posso levar em consideração o que você está falando.
– Ele é cheiroso? Porque ele parece ser cheiroso.
– Por que eu saberia disso?
– Porque você já esbarrou nele!
– Não fiquei prestando atenção nisso, amiga.
– Mas não sentiu cheiro de nada?
– Ele usa um bom perfume.
tem cara de ser bastante cheiroso, daquele tipo que deixa o ambiente todo perfumado quando chega.
– Martina sabe que você está interessada em cheiro de homens?
– Deus me livre! Eu apenas mencionei uma coisa que acho que é real. – Cora falou apressada, fazendo rir. – De homem o que eu mais gosto é da distância que tenho deles.
– Não está errada, mas quando eu encontrar com de novo, eu presto bastante atenção e te digo se ele é cheiroso com toda certeza ou não.

Siete

“Ain’t about how fast I get there, ain’t about what’s waiting on the other side, it’s the climb…” (Miley Cyrus – The Climb)

Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, sexta-feira, 01 de novembro de 2019



estava digitando alguns tweets na conta do Marca enquanto Zidane respondia às perguntas da coletiva de imprensa que precedia o jogo contra o Real Betis, no dia seguinte, no Santiago Bernabéu. Odiava fazer o papel de social media, mas era melhor do que andar com aquele estagiário lerdo e preguiçoso do setor, preferia ela mesma escrever rapidamente as perguntas e respostas que, naquele dia, estavam, em sua maioria, realmente interessantes.
Quando chegou sua vez, ao estender a mão, Zidane lhe lançou um sorriso simpático, sorriu de volta da mesma forma. Tinha uma tremenda admiração pelo homem, tanto como jogador quanto treinador, tinha vencido tudo e era um homem de respeito. E, , claro, gostava de ter a chance de escrever sobre o que ele falava antes dos jogos.

Míster, bom dia.
– Bom dia.
– Ontem o Marcelo falou sobre a crise de ansiedade que teve na final da Champions League contra o Liverpool. Isso é bastante recorrente no futebol, por mais que seja pouco falado e tratado, ainda existe um preconceito enraizado sobre o tratamento de transtornos psicológicos e emocionais, não apenas no futebol, mas de modo geral na sociedade. E o Madrid tem uma torcida que cobra muito, que critica muito e por mais que alguns torcedores achem que os jogadores não leem, ou até não se importem caso os jogadores leiam, os atletas leem todas as críticas e isso, as vezes, os afeta muito em campo. Foi perguntado sobre a rotatividade do elenco e sobre essa ser a primeira vez que os onze de um jogo serão repetidos… como tem se dado o trabalho psicológico com os atletas para lidar com todas as pressões internas e externas, acontecimentos intra e extracampo, como, por exemplo, lesões graves como as de ? Há um trabalho feito e direcionado apenas para isso? Existe um acompanhamento real para trabalhar não apenas o físico do atleta, mas também o psicológico?
– Uau. – Zidane deu uma risadinha, fazendo os demais rirem. – Eu não sabia que essa história do Marcelo tinha chegado pra imprensa… bom, respondendo, o Madrid é mesmo uma equipe que possui muita cobrança interna e externa, os próprios atletas se pressionam muito e ver a competição por posições também é um fator que pode ajudar nesses transtornos. Nós possuímos psicólogos pra ajudar nossos atletas quando eles consideram necessário fazer acompanhamento, isso não é algo que podemos forçar. No caso de lesões, eles fazem o acompanhamento obrigatoriamente, porque o psicológico faz toda a diferença nesse momento, sei que o psicológico faz toda a diferença nos outros momentos também, mas os atletas não são obrigados a fazer. E eu, assim como você sempre disse, compactuo com a ideia do tratamento psicológico obrigatório para atletas, em separado e em coletivo, mas é uma questão bastante complexa e que requer bastante diálogo com os atletas, com os clubes e as federações, porque não podemos obrigar os atletas a isso, afinal, nenhum tratamento psicológico faz efeito se for desse jeito, forçado e de forma inquisidora.
– Vamos agora para as duas últimas perguntas em francês. – o assessor de imprensa do clube falou e sorriu agradecida para Zidane e anotou a resposta do treinador antes de postar no Twitter, enquanto prestava atenção nas perguntas francesas que eram feitas e traduzidas automaticamente em seus fones de ouvido.
A coletiva durou mais alguns minutos, o tempo que ele gastou para responder as duas últimas perguntas, e logo os jornalistas estavam todos de saída da sala de imprensa, depois que o treinador e os assessores saíram. cumprimentou alguns dos conhecidos, sem parar para uma conversa demorada. Precisava encontrar Rafael para fazer uma chamada para um vídeo que iria para o site e só então poderiam voltar para a redação e terminar seu trabalho.
Uma mensagem no celular informava que Rafael estava esperando do lado de fora, então não demorou a seguir para o lugar em que ele tinha tirado uma selfie para marcar a localização, estava com pressa, tinha trabalho a fazer na redação e sabia que Rafael ainda precisava ir até o centro de treinamento do Atletico de Madrid para cobrir o treino do outro time.
Quando chegou ao local, avistou de longe que estava prestes a entrar em um carro e o mais novo acenou, apontando para o carro e ela negou, levantando o microfone e ele assentiu, voltando a acenar, mas dessa vez em despedida e logo o carro deu partida e sumiu do estacionamento, sendo guiado pelo pai do jogador.

– Ouvi dizer que você fez uma super pergunta ao Mister hoje… – Rafael falou e deu de ombros.
– Uma pergunta comum, como sempre.
– Fez Zizou sorrir? – perguntou, dando uma risadinha e ela assentiu. – Então não foi comum, . Você precisa começar a aceitar que é foda.
– Eu sei que sou foda, Montero, nunca duvidei, mas foi uma pergunta simples sobre a declaração do Marcelo ontem e como o time trata o psicológico dos jogadores.
– Vou procurar pra ver depois. – sorriu. – Então, precisamos gravar o take pra edição colocar você falando antes e o texto eu te mandei por mensagem.
– Você é a melhor pessoa de todas, Montero. – sorriu. – Gostei do treino, espero que o jogo amanhã seja bom.
– O Madrid precisa vencer se quiser mesmo lutar pela taça.
– Com certeza. Mas não acho que teremos um jogo fácil, porque o Betis vem desesperado pra vencer e sair da parte de baixo da tabela.
– Também acho que o jogo vai ser bem pegado e que se o Madrid bobear como fez em alguns jogos, vai perder pontos importantes.
– Vira essa boca pra lá! – reclamou, fazendo o colega rir. – Agora vamos filmar essa chamada logo, eu preciso ir pra redação e você também tem mais o que fazer.

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Estádio Santiago Bernabéu, Madrid, sábado, 02 de novembro de 2019

Aquela era a primeira vez em cem dias que pisava no Santiago Bernabéu, mas, infelizmente, muito longe dos gramados, onde ele queria estar de verdade. Cem dias. Parecia ter se lesionado há tanto tempo, muito mais do que “apenas” aqueles cem dias.
Seguido de perto por uma câmera da Real Madrid TV, visitou vestiários e foi para o camarote para assistir à partida. Torcendo por um bom jogo, por uma boa vitória e por seus companheiros de time. Precisavam daquilo se queriam mesmo ser campeões de La Liga, não podiam deixar que o Barcelona se afastasse tanto assim na classificação, porque quando isso acontecia, normalmente eles levavam o título sem muitas dificuldades.
Mas, mesmo com tantas oportunidades, o jogo foi para o intervalo sem gols e nenhum dos torcedores presentes no estádio – e os fora dele, com certeza – estavam felizes com o desempenho do Madrid em campo. Um ataque ineficaz que não era capaz de fazer um mísero gol em um time que estava desesperado, tinha uma defesa pouco confiável e lutando na parte de baixo da tabela.

– Não entendo o motivo de não termos feito gol. – reclamou com o pai, que assentiu.
– Não sei qual dos dois times parece mais perdido em campo.
– É um saco assistir ao jogo da torcida, eu desaprendi a fazer isso. – resmungou, fazendo Gilberto dar uma risada baixa.
– Logo você estará de volta, filho. E voltará ainda melhor do que quando parou.
– Não seja tão otimista, pode ser uma decepção e tanto quando as coisas não saírem conforme o planejado…
, eu sei que você voltará ainda mais forte e você também precisa saber e acreditar nisso tanto quanto eu e todos os outros.
– Eu prefiro não ter as expectativas tão altas, porque prefiro não ficar frustrado.
– Zidane disse que confia na sua recuperação total e completa. E se você não acredita que vai ficar totalmente bem, não confia em quem está te tratando e cuidando de você no departamento médico. Você vai voltar bem, filho, porque você não sabe o que é jogar mal e nunca soube. Quando retornar, será em grande estilo e de um jeito que vai deixar claro pra todos que duvidarem da sua capacidade que você é e usa essa camisa do Real Madrid por talento e capacidade. – Gilberto falou sério e deu um sorriso, abraçando o pai e dando um beijo no rosto do mais velho.
– Pai, o senhor é a melhor pessoa que eu já conheci na vida.
– Eu sei disso. – sorriu. – Agora vou buscar algo pra comermos e você fique aqui.
– Claro. – respondeu e o pai saiu de perto.
. – ouviu seu nome ser chamado e quando se virou, encontrou Nacho Fernández entrando no camarote.
Chavalito. – sorriu para o amigo. – Senta aí.
– Não achei que você viria. – Nacho falou, sorrindo e sentou ao lado de .
– Decidi vir ontem no fim da tarde. – deu de ombros.
– E como está sua recuperação?
– Ótima. – sorriu. – Estou me recuperando bem, já sem dores, mas ainda é cedo demais pra voltar. E você?
– Também estou bem, me recuperando e fazendo de tudo pr…
– TIO! – os dois foram interrompidos por uma voz infantil e logo Alejandra estava entrando animada, seguida de perto por Nachito, e foi abraçar .
– Como vocês cresceram! – falou, abraçando a menina e ela sorriu.
– Eu sou bem grande mesmo!
– Já cansaram de brincar? – Nacho perguntou curioso.
– Nãoooooo! – a menina respondeu ao pai de uma forma prolongada e bem dramática, acenando negativamente para enfatizar ainda mais a resposta. – Estamos brincando, mas eu vim dar um abraço no tio .
– Anda Ale, vem brincar! – uma outra voz infantil chamou e quando se viraram para ver quem era, encontraram Liam e Sergio Jr esperando pelos dois.
– É, vão brincar e fazer bagunça. – Nacho falou e Alejandra não se deu ao trabalho de responder, apenas deu um beijo no rosto de e saiu do camarote com o irmão, que entrou mudo e saiu calado, e voltariam a brincar.
– Esse lugar está cada dia mais cheio de crianças… – falou observando as crianças que se afastavam do camarote.
– E ainda faltam algumas. – Nacho deu uma risadinha.
– A creche da Nina está aberta?
– Nina só vem aqui em cima quando é forçada. – Nacho riu ao falar. – Hoje os pais dela não vieram, então ela deve estar lá embaixo com o Santiago.
– Ela é doida, porque todo mundo a conhece agora que o namoro dela e do Isco foi assumido.
– Agora nada, eles assumiram tem uns dois anos.
– Você entendeu o que eu quis dizer. – falou, rolando os olhos.
– E você acha que ela liga pra isso? Nina não está nem um pouco preocupada com esse tipo de coisa mais. – Nacho riu. – E, agora, falta uma criança sua pra compor a creche.
– Muito difícil ter um filho sem uma namorada, Nacho.
– Não é bem assim, você viu como o James teve o Samuel…
– Eu não vou alugar uma barriga pra ter um filho. – riu. – Não vou contribuir pro aumento da creche. Não por enquanto.
– Tudo bem, você é integrante da creche. E bebês não podem ter bebês. – Nacho riu ao implicar com o amigo.
– Deixe de ser idiota. – resmungou.
– Então, além de bom de bola, agora você resolveu ser ator? – Nacho perguntou, maneando a cabeça na direção das câmeras.
– Se eu não voltar bem, pelo menos garanto meu sustento no futuro. – respondeu rindo e Nacho riu junto.
– Você voltará muito bem, . Todos nós sabemos disso.
– Assim espero, mi amigo, assim espero…
– Nacho, que surpresa. – ouviram a voz de Gilberto, que regressava ao camarote, com um prato em mãos e sorriu agradecido quando o pai lhe entregou a comida.
– Estou de molho também, vim assistir ao jogo.
– Está sofrendo tanto quanto ? Porque ele está quase pulando em campo…
– Acho que menos, estou sofrendo um pouquinho, mas acho que no segundo tempo as coisas ficarão melhores.
– Vamos torcer por isso, porque o primeiro tempo foi um show de horrores. – Gilberto deu uma risadinha ao falar.
– Pelo menos não estamos perdendo, isso sim seria um problema.
– E nem perderemos. – falou, virando-se para o amigo. – Precisamos vencer.

Mas não venceram.
O jogo terminou empatado, depois de outras tantas chances perdidas de ambos os lados. O resultado não era bom para nenhuma das duas equipes, o Real Madrid estava se afastando ainda mais do líder Barcelona e o Real Betis se aproximando mais da zona de rebaixamento.
Depois de um tempo conversando com os conhecidos e amigos que estavam na área reservada do estádio, estava de saída com seu pai já dentro do carro e podia jurar ter visto entrando em um carro com outras duas mulheres, mas estavam distantes o suficiente para que ele não tivesse certeza.
E, em todo caso, ele tinha que parar de achar que estava vendo em todos os lugares. Não fazia o menor sentido.

Ocho

“Tengo dos ovarios y los pongo por delante, soy lo que soy, soy lo que ves y lo de valiente no me quita lo cortés” (Cami – Aqui Estoy)

MARCA.com, Avenida de San Luis, Madrid, quarta-feira, 20 de novembro de 2019

– Eu não vou falar sobre nada disso, Sacristán. – falou séria e o homem rolou os olhos.
– É uma notícia esportiva, .
– Não, não é. E eu te falei isso lá em dois mil e dezoito quando os dois assumiram o namoro e vários tabloides começaram a falar a respeito disso. Nós não somos um canal de fofoca, nós falamos sobre esportes. Eu sou uma jornalista esportiva, não sou uma espécie de gossip girl pra fazer matéria falando sobre a irmã de Sergio Ramos que namora com Isco. Eu não me importo nem um pouco sobre quem namora com quem e você também não deveria, porque não é da sua conta.

– Eu estou falando sério. Já tivemos essa discussão quando eles assumiram o namoro e eu disse que não publicaria nada a respeito e que se alguém daqui publicar, eu pego minhas coisas e vou embora pro AS sem pensar duas vezes. – falou séria. – Não somos um tabloide de fofoca, nós falamos sobre esportes!
– E vamos falar sobre a irmã de Sergio Ramos no Wanda Metropolitano, acompanhada do namorado Isco, assistindo ao jogo da Espanha ontem…
– Sem chance.
– Você não fará, mas algum deles fará e eu quero só ver se você vai mesmo sair.
– Experimente. – respondeu séria. – Experimente chegar a esse ponto, Sacristán, e veja bem se eu não coloco minhas coisas em uma caixa e saio daqui direto pra mesa no AS que o Relaño disse que me espera e esperará pra sempre.
– Você não faria uma idiotice dessas.
– Posso sair daqui pro AS, pro Daily Mail, The Guardian, Daily Mirror, Mundo Deportivo… tenho e sempre tive propostas deles mesmo sem procurar, Sacristán, e já me falaram que eu teria carta branca pra trabalhar. Se você acha que eu vou ficar fazendo papel de fofoqueira pra um monte de pessoas sem o que fazer fique comentando sobre a vida alheia, a vida de uma mulher, na verdade, além de tentar criar uma rivalidade entre ela e eu, porque criar esse tipo de notícia é querer que eu a provoque e ela responda, que gere muito inferno e comentários, você está enganado. Eu não sou esse tipo de pessoa e nem de profissional, não me formei na faculdade pra ser esse tipo de pessoa e espero que você saiba disso. Se não estiver bom pra você o fato de que eu me preocupo com o exercício regular do meu trabalho e com a imagem desse jornal, você pode me demitir sem nenhum remorso.
– Não seja tão infantil, . Você é uma excelente jornalista, eu não vou te mandar embora.
– Então pare de querer controlar meu trabalho! – falou uma oitava acima do tom normal. – Eu não vou falar sobre isso e nenhum dos jornalistas daqui farão isso. Ninguém aqui se formou pra escrever fofocas de futebol. Aqui você tem uma equipe de profissionais capacitados e excelentes, pessoas que trabalharam e trabalham muito pra conseguir esse emprego, não pessoas que vão ficar criando matérias pra falar do namoro de pessoas, de términos ou o que for! Ninguém tem absolutamente nada a ver com a vida privada de nenhum jogador, a parte pública da vida deles é o futebol, o que eles fazem dentro de campo e, fora dele, só se for afetar algo no desempenho em campo. Não interessa se eles namoram entre eles, com os familiares uns dos outros ou com o que for!
– Você não precisa ficar brava assim.
– Sim, eu preciso! – falou séria e mais alto do que queria. – Eu já falei isso antes, mas vou repetir. E preciso repetir brava, talvez assim você memorize as palavras e não volte a me pedir esse tipo de coisa! Qual o sentido falar sobre a vida amorosa da irmã de Sergio Ramos? Só porque ela namora com outro jogador? Não vejo necessidade nenhuma disso! Ninguém deveria se importar com essa merda, porque é a vida privada deles e não é da conta de ninguém se não deles mesmos! Se eu chegar ao rádio e ouvir uma pergunta que seja sobre isso, eu me demito ao vivo e não estou nem aí.
– Pare de ameaçar se demitir.
– Eu não estou ameaçando, estou avisando. – respondeu séria. – Qualquer coisa sobre vida privada de jogador, coisas que não envolvam futebol, eu vou embora.
– Envolve futebol, porque Isco está muito abaixo do que jogava antes
– Vou fingir que não ouvi isso, que não entendi o tom que você usou, porque se eu não fizer isso, nós vamos brigar muito mais do que agora. – respondeu. – Isco não está jogando bem desde antes disso, aquele time de 2017 jogava muito bem e ele teve um bom pico de desempenho, só que caiu com o tempo e não soube e nem está sabendo lidar bem com as pressões e cobranças pra voltar a apresentar um futebol regular, então se você tem alguma coisa a falar sobre Isco em campo, fale sobre como ele não consegue fazer o básico quando entra no jogo e, por isso, tem passado a maior parte do tempo no banco! Não queira culpar a namorada dele, porque ela não entra em campo, ela não quebrou as pernas dele e nem o fez desaprender a jogar.
– Eu não falei que a culpa é dela.
– Não falou, mas deixou subentendido que é isso o que pensa. Isco é um jogador entre o mediano e o bom, tem muitas coisas pra aprimorar, mas nenhuma delas envolve o namoro com a irmã do Sergio Ramos. E, caso envolva, não é da sua conta. E nem da de ninguém fora do relacionamento!
, abaixe o seu tom de voz.
– Eu vou abaixar o meu tom de voz quando você assimilar e compreender o que eu estou dizendo, Sacristán. Eu não estou te desafiando, eu não estou ameaçando, eu estou falando a verdade e que você deveria levar a sério ao invés de ficar querendo competir com o Salvame pra ver quem vende mais fofoca. Eles já falaram sobre isso, inclusive.
– Eu já entendi seu ponto, , pode ficar tranquila.
– Espero que tenha entendido mesmo, porque se eu precisar falar sobre isso mais uma vez, eu vou me demitir e sem retratação. – falou séria e Sacristán assentiu.
– Estão te esperando no andar da Radio Marca. – falou e ela assentiu, levantando-se da cadeira em que estava e saiu da sala do chefe.
Muitos olhares em sua direção, claro, afinal a conversa entre ela e o chefe tinha sido bem audível. Ninguém falou ou fez nada, exceto Cora, que lhe lançou um sorriso de aprovação e ergueu os polegares para a amiga.
– Ainda bem que você falou tudo que precisava ser dito. Amei. – Cora falou quando se aproximou da própria mesa para buscar algumas coisas antes de ir até a estação da Radio Marca.
– Infelizmente foi necessário ser incisiva e audível, ele realmente queria que eu me prestasse ao papel de escrever algo do tipo. – falou, pegando a agenda e algumas anotações.
– Nos encontramos para almoçar? – Cora perguntou e assentiu. – Estarei ouvindo.
– Não se atrase. – falou antes de sair da própria mesa e ir na direção da saída.

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Madrid, quarta-feira, 20 de novembro de 2019

não era do tipo de pessoa que costumava escutar rádio, tinha perdido aquele hábito há anos, mas naquele dia estava de fones e prestes a começar a ouvir um programa da Radio Marca da manhã. E ouviria, porque tinha visto no Instagram que participaria do programa e estava curioso para ouvir a opinião dela sobre algumas coisas. Tinha ficado sabendo de como ela tinha ficado brava há uns meses, no jogo contra o Club Brugge, e como já assistira um programa esportivo do qual ela fez parte, depois dos recentes acontecimentos, ela provavelmente teria opiniões interessantes.

– Agora esse programa vai realmente ficar interessante. – o locutor, Raúl Varela, falou animado. – Uma das melhores jornalistas do Marca.com está aqui pra participar do programa. , bom dia.
– Desculpem o atraso, eu precisei resolver umas coisas lá na redação antes de chegar. Mas, bom dia Raúl, Edu, Gonzalo, Pablo, Luiz e Pedro.
falou e os cumprimentos foram ouvidos quase em uníssono.
– Vamos começar falando sobre o desempenho do Madrid, como as coisas parecem estar se encaixando bem no time.
– Finalmente.
falou dando uma risadinha e os outros riram junto. – Mas, é, o time parece ter engrenado desde o empate com o Club Brugge, foram sete jogos contando Champions League e La Liga, cinco vitórias, um empate e uma derrota. Um desempenho realmente bom, mesmo com alguns pontos que precisam muito ser consertados, a defesa foi muito bem, apenas três gols sofridos nesses sete jogos. Vinte gols feitos e três sofridos, é realmente interessante e me parece muito bom.
– Mais do que bom.
– um dos homens, não sabia diferenciar quem, falou.
– Não te impressiona a quantidade de pênaltis marcados? Cinco em sete jogos?
– um deles perguntou.
– Me preocuparia se fossem pênaltis mal marcados, mas foram todos reais. – respondeu. – Mas, fora isso, foram bons jogos.
– E como você vê as atuações dos novatos?
– Vinicius e Rodrygo são espetaculares, mesmo que Vinicius já estivesse aqui na temporada passada, essa temporada nós podemos dizer que ele tem recebido mais oportunidades e eu o considero novato por isso. Hazard, Jovic, Mendy e outros são bem consistentes, algumas atuações medianas e ruins, mas acontece. Acho que ainda falta um pouco de confiança deles mesmos, porque são grandes jogadores.
– Ainda estou desconfiado de Hazard e Jovic, não acho que valham tudo que foi pago.
– Hazard foi essencial para o Chelsea durante todos esses anos, Edu.
falou num tom muito calmo, mas firme e com conhecimento. – E nós sabemos que o potencial de dificuldade da Premier League é muito maior do que de La Liga, lá não existem apenas três times se alternando no topo e os demais se matando no meio da tabela. Coisas loucas acontecem naquela liga e Hazard foi um jogador muito importante para o Chelsea, assim como é na Bélgica. Ele precisa perder a timidez, acho que a ficha ainda não caiu que ele está no Real Madrid e as coisas são diferentes aqui, mas os adversários o estudam bem e quando não o param na bola, param na porrada. Jovic também me parece ainda estar tímido, eu o acho um jogador muito bom, ele mostrou isso na temporada passada, no Frankfurt.
– E os antigos?
– Temos excelentes jogadores há um bom tempo, acho que não preciso mencionar Sergio Ramos, Marcelo, Varane, Carvajal, Nacho, Casemiro, Kroos, … mesmo que alguns estejam machucados, temos um bom time, algumas peças um pouco desgastadas e já não rendendo tanto, mas outras até que ainda bem.
– E quem não está rendendo tanto, na sua opinião?
– Modric, desde a Copa, não tem jogado quase nada do que realmente sabe jogar. E, pra mim, como eu já disse várias vezes, não acho que ele mereceu vencer como “Melhor do Mundo”, mesmo sendo um jogador excelente. Enfim, também posso citar Isco, que não vem atuando e quando atua, não rende o que é esperado, Vázquez, que costuma render bem quando atua na lateral, mas no ataque é um pouco ineficiente, Mariano…
respondeu e recebeu algumas concordâncias. – Benzema parece ter se livrado do pé torto das últimas temporadas e voltou a fazer os gols que sabe e dos quais o Madrid precisa.
– James?
– Não é o melhor do mundo, mas gosto do estilo de jogo e da forma como ele se comporta em campo. É um bom jogador e eu daria mais oportunidades, mas não sou Zidane, não sei da realidade dos treinos e nem do que se passa em Valdebebas, impossível entender os motivos por trás de tudo.
– E Bale?
– Ele sete dos dezessete jogos disputados até agora pelo Madrid, o que já é muito mais do que eu esperava que ele fizesse durante toda a temporada.
– ela soltou uma risadinha ao falar. – E, como ele mesmo fez questão de mostrar ontem no jogo pela seleção do País de Gales: Madrid é em último lugar, então ele, pro time, faz esse tipo de esforço e não entra nem na lista dos que não rendem, porque quando ele está em Madrid, está no Departamento Médico.

deu uma risada ao ouvir a fala da jornalista. Estava aguardando por aquela parte ansiosamente.

– Aquilo foi… – um dos homens começou a falar e deixou a frase morrer.
– Ridículo, pra dizer o mínimo. falou num tom sério. – Eu sei que ele não tem nenhuma obrigação de amar o Real Madrid, que isso é obrigação da torcida, mas tem a obrigação de respeitar. Respeitar o time e a torcida, além de respeitar os companheiros de equipe. Bale nunca se esforçou para se enturmar de verdade, não fala espanhol, tem um comportamento realmente preguiçoso com o clube que lhe deu tudo que ele conquistou em sua carreira. Bale teve participação importante em todas as Champions Leagues que conquistou pelo Real Madrid, ele é um jogador realmente muito bom e que tem um potencial absurdo e que pode ser aprimorado ainda mais se ele quiser, mas não consegue respeitar o clube em que está e nem a torcida.
– Você acha mesmo?
– Sem dúvidas. Ele é um bom jogador, machuca muito, mas tem velocidade, presença de jogo, sabe finalizar e se posicionar muito bem em campo. Se não ficasse de birrinha, sabe se lá o motivo, já teria conquistado muito mais coisas, não apenas coletivamente. Ele teve, e eu já disse isso algumas vezes, potencial de ser indicado para ser o melhor do mundo e vencer! Não sei o que se passa na cabeça dele, nem quero também, mas faz pouco sentido um comportamento tão apático em relação ao clube quanto ao que ele tem pelo Real Madrid. Sei que ele vai ficar sabendo disso aqui, que vão perguntar o que ele acha e ele, muito provavelmente, vai responder que eu não sei do que se passa na cabeça dele e nem em sua vida e que estou tirando conclusões do meu bolso pra poder falar, o discurso é decorado e eu imagino que essa será a reação dele, se é que terá alguma reação também. Realmente, não sei do que se passa em sua cabeça e nem em sua vida, posso estar tirando conclusões do meu bolso, mas o faço quando vejo as atitudes do jogador em campo. Se não está feliz em Madrid, que encontre um clube novo. É simples. Todos os ciclos se encerram, então talvez seja esse o momento que o ciclo de Gareth Bale se encerra no Madrid e começa em outro lugar.
– Também achei indecoroso da parte dele ostentar aquela bandeira com “Gales. Golf. Madrid. Nessa ordem.”, deixa claro que ele não está nem aí pro clube e só quer ganhar o salário e mais nada.
– Por sorte, o Madrid tem ótimos nomes que podem jogar quando o galês está mais preocupado com o golf ou sem poder atuar por estar lesionado
. – falou, querendo mudar de assunto. – E ainda bem.
– Rodrygo e Vinicius estão ai pra isso.
– E deve voltar em breve, então acho que teremos uma boa briga.
falou num tom animado. – Gosto muito do estilo de jogo dele, um dos melhores, e é jovem, então temos muito a ganhar com ele na Espanha e no Real Madrid.
– E por falar em Espanha, a seleção se classificou para a Euro 2021 contra a Suécia lá na Suécia, mas venceu os dois últimos jogos, contra Malta, por sete a zero, e ontem contra a Romênia, por cinco a zero. Podemos esperar algo melhor do que os últimos cinco anos de vexames?

continuou ouvindo o programa por mais de uma hora, dando algumas risadas ao ouvir comentários sobre os times, jogos e uma ou outra piada e quando se despediu, desligou o rádio e quando ia se levantar, o celular tocou e não demorou a atender quando viu que se tratava de uma chamada de Isco.

– Sua namorada não gosta de mim. – foi a primeira coisa que Isco falou, fazendo gargalhar.
– Ela não disse que não gosta de você.
– AHÁ! Não negou que é a namorada! – Isco riu alto e rolou os olhos, mesmo que o amigo não pudesse ver o gesto. – Enfim, achei ofensivo ela dizer que eu não rendo nada em campo.
– Ela falou que você não tem rendido o esperado, o que significa que esperam que você renda mais, porque sabem que você é bom.
– Marina te disse isso? Porque ela falou exatamente a mesma coisa enquanto estávamos ouvindo a entrevista.
– Você ouviu isso por quê?
– Pelo mesmo motivo que você, claro. Sua namorada é uma boa jornalista, mas eu queria saber qual seria a fala dela sobre a bandeira do Bale.
– Eu não fiz isso. – respondeu, rindo. – Jamais faria isso…
– Bale é um otário e se eu pudesse, enfiaria aquela bandeira no… TÁ BOM, AMOR. Meu Deus, essa mulher é louca igual ao irmão dela mesmo. – Isco falou, tomando o celular de volta. – Enfim, ela gosta de você.
– Sim, do jogador . Mas ela não está errada, eu sou sensacional. – brincou.
– Bom, eu só queria te ligar pra dizer isso e pra avisar que te busco uma e meia pra sessão de treino da tarde. Fofocaremos mais pessoalmente, pisha.

Nueve

“Y empecé mis planes para vernos otra vez…” (Sebastian Yatra – Cristina)

MARCA.com, Avenida de San Luis, Madrid, segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

esticou-se em sua cadeira, soltando um grunhido baixo e satisfeito ao sentir os músculos se esticando depois de tanto tempo na mesma posição. Finalmente era hora de ir aproveitar alguns dias de folga, mesmo que, antes, precisasse terminar de fazer as malas para passar os feriados de fim de ano em Tenerife.
Tinha trabalhado muito naquele fim de ano, cobriu jogos de La Liga nos estádios pela Espanha – o time fez seis jogos, somando três vitórias e três empates – e ainda viajou para a Bélgica para cobrir o jogo de volta contra o Club Brugge pela Champions League, além de ter participado novamente de alguns programas de rádio e televisão. Estava exausta e não podia estar mais satisfeita de ter conseguido mais algumas folgas que a permitiriam passar o Natal e o Ano Novo com os pais sem se preocupar com trabalho ou com precisar voltar apressada para trabalhar.
Deixou a redação depois de se despedir de alguns colegas de trabalho que ainda estavam na redação, desejando um bom fim de ano, e seguiu rapidamente para o próprio apartamento. Cora já tinha buscado Nairóbi e cuidaria da gatinha enquanto estivesse fora, então apenas iria para a casa de Martín depois de terminar de fazer as malas e de lá seguiriam para o aeroporto.

– Preciso te contar uma coisa. – Martín falou quando entrou em sua casa, arrastando as malas.
– Devo ter medo?
– Não. – deu uma risadinha, aproximando-se para dar um selinho na namorada. – Só não vou poder ficar o feriado todo. Posso passar o Natal, mas preciso voltar pra Madrid dia 27, Ángel operou o joelho hoje e os pacientes dele vão se consultar comigo.
– Mas… você não tinha tirado férias?
– Sim, mas são pacientes que não podem esperar, infelizmente.
– Então você vai ficar quatro dias?
– Você é quem precisa de férias, , trabalhou muito nesses últimos meses e precisa de descanso. Eu não trabalhei tanto quanto você.
– Mas eu não estou falando de quem trabalhou mais, cariño, mas sim de quase não ficarmos juntos no fim de ano. Eu só volto pra Madrid dia cinco de janeiro e tinha feito alguns planos pra aproveitarmos os dias em Tenerife.
– Aproveitaremos enquanto eu estiver lá, . Depois você descansa muito e recarrega as energias pra 2020.
– Então melhor pegar as malas e irmos, não podemos nos atrasar.
– Claro. – Martín respondeu e foi pegar as próprias malas enquanto pedia o Uber para irem ao aeroporto.

Não estava satisfeita de passar a maior parte de sua folga sem Martín, tinha feito planos para aproveitarem aqueles dias juntos, mal conseguiram fazer isso naquela segunda metade de 2019, mas os planos foram todos frustrados com a necessidade de retorno tão rápido dele para Madrid. estava um pouco chateada, mas sabia que logo passaria e que ficaria bem em Tenerife com os pais durante aqueles dias.
Ela aproveitaria muito, sabia disso, adorava passar um tempo com os pais em Tenerife, mas queria que ele estivesse junto para que pudessem se reconectar enquanto casal, ela estava mesmo sentindo que o namoro estava escapando por entre seus dedos. Tinham começado a cancelar encontros um com o outro por causa de trabalho ou por cansaço, o aniversário de namoro tinha sido comemorado em casa, com comida de delivery e os dois dormindo no sofá. Mas, tudo bem, ela entendia que era uma necessidade de trabalho.
A viagem foi tranquila e depois de duas horas e quarenta e cinco minutos, os dois estavam desembarcando em Santa Cruz de Tenerife, sendo recebidos por um vento um pouco frio, mas muito mais fresco e menos poluído que o ar de Madrid. O percurso de vinte minutos entre o aeroporto e a casa dos pais de foi feito tranquilamente, num silêncio sem muito significado ou peso, apenas a quietude de aproveitar até o silêncio daquele lugar.

– Achei que só viriam amanhã, eu teria feito algo para jantar se soubesse que vocês chegariam hoje. – María falou, abraçando demoradamente.
– Viríamos amanhã, era o plano, mas consegui um preço ótimo pra hoje e resolvi comprar. Desculpe por chegarmos tão tarde.
– Não são nem onze da noite, filha, está tudo bem. – a mulher sorriu. – Peça algo para comerem, não preparei nada e até eu cozinhar, já estará na hora do café da manhã.
– Vamos pedir algo sim, María, pode ficar tranquila. – Martín falou, sendo abraçado pela mulher logo que ela soltou a filha.
– Coloquem as coisas no quarto da , tomem banho e peçam algo pra comer! Amanhã vocês podem sair e aproveitar o dia antes de jantarmos.
– Vamos pensar em descanso depois do nosso jantar, mama. Amanhã quero passar o dia na cozinha com a senhora, como fazíamos antes. – sorriu para a mãe ao falar e recebeu o sorriso de volta. – Cadê o papa?
– Dormindo. – María riu. – Ele achou que vocês chegariam de manhã cedo e foi dormir pra acordar cedinho.
– Então vamos tentar fazer pouco barulho e deixá-lo dormir sossegado. – falou, recebendo um aceno da mãe e logo foi para seu antigo quarto.
Os dois tomaram banho, pediram comida e passava de uma da manhã quando, finalmente, deitaram para descansar um pouco depois do dia de trabalho e da viagem de avião.
– Você está chateada? – Martín perguntou num sussurro.
– Chateada não, apenas um pouco triste, achei que passaríamos alguns dias juntos, só nós dois, porque isso não acontece faz muito tempo. Nós estamos constantemente ocupados, desmarcando compromissos e nosso relacionamento está ficando de lado. Sei que tenho culpa nisso, você também, então eu queria usar esses dias pra gente se reconectar, ter um momento nosso, porque sinto como se estivesse te perdendo aos poucos.
– Nós estamos mesmo precisando disso, mas não consigo mesmo ficar em Tenerife até dia cinco e nem quero que você volte comigo, você teve um ritmo de trabalho insano nesses últimos meses e precisa muito de descanso. Vamos dar um jeito, somos dois adultos e sabemos que precisamos desse tempo pelo bem do nosso relacionamento, mas vamos fazer valer a pena enquanto estamos aqui, juntos, tudo bem? – Martín falou, olhando nos olhos de , e ela assentiu, dando um sorriso pequeno, mas satisfeito.
– Tudo bem, vamos aproveitar nossos poucos dias juntos. Talvez o pouco seja suficiente.

A véspera de Natal foi um dia bastante ocupado. passou o dia com a mãe escolhendo o cardápio da noite, enquanto Gael e Martín saíram para comprar algumas coisas e depois foram ajudar a organizar a sala de jantar. Fazia tempo que não passavam o Natal em Tenerife, nos dois últimos anos tinham passado em Madrid e em Toledo, ela tinha sentido falta de passar um tempo na ilha em que passou tanto tempo de sua vida.
tinha nascido e crescido em Santa Cruz de Tenerife e só se mudou para o continente quando foi estudar em Madrid e depois disso voltou apenas para visitar. Sentia falta de morar ali, de conviver com os pais todos os dias, mas não podia reclamar da vida que tinha em Madrid. Amava cada parte daquele lugar e de sua história que tinha sido e vinha sendo construída lá. Pensando bem, não deixaria Madrid se não fosse obrigada.

– Em que tanto você pensa? – Martín perguntou enquanto lavavam o que tinham sujado durante o jantar.
– No quanto quero ir à praia amanhã.
– Será que o tempo estará bom?
– Se a previsão do tempo estiver correta, sim.
– Então amanhã passaremos o dia na praia, mi amor. Vamos aproveitar.
– Você volta no dia 27 a noite?
– Sim, no último voo pra Madrid.
– Então podemos aproveitar o dia 27 também. – falou, desligando a torneira e virando-se para o namorado. – Acho que devemos ir dormir, quero acordar cedo pra ir correr e depois, praia.
– Claro. – Martín sorriu, deixando o pano de prato sobre a pia seca e olhou nos olhos de .
– Cama.
– Podemos fazer outras coisas por lá, você sabe… – Martín sorriu, fazendo sorrir de volta e fingir um descaso ao dar de ombros.

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Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, terça-feira, 07 de janeiro de 2020

não tinha motivos para estar pensando tanto nas coisas que tinha ouvido Brandon falar nos dias em Mallorca depois que ele sonhou com e caiu na bobagem de contar para o melhor amigo que tinha sonhado com a jornalista e uma análise demorada de sonhos, gestos, ações e relatos alheios, apenas fizeram com que o grupo de amigos composto por Angel, Javi, Brandon e Bertto falasse o óbvio: estava interessado na mulher e deveria fazer algo a respeito antes que fosse tarde demais.
Não podia negar que realmente é uma mulher bonita e atraente, sem contar que é muito inteligente, mas ela é mais velha do que ele e não parece interessada nele desse jeito. E, em todo caso, não podia simplesmente chegar e falar “oi, vamos sair um dia desses?”, aquilo parecia totalmente ridículo, prepotente e sem noção, além do o risco que corria de acabar arruinando as conversas que costumavam ter quando se esbarravam, o que não acontecia há um bom tempo.
Era melhor nem ficar pensando demais nisso, porque esse tipo de coisa não aconteceria entre os dois e ele acabaria frustrado, o que seria péssimo e prejudicaria o bom relacionamento dele com a mulher. Precisava concentrar-se nos exercícios de musculação, agora muito mais pesados e intensos, e não em outras coisas. Precisava voltar logo para os campos e a jogar. Estava cansado de departamento médico, fisioterapia e musculação. Queria jogar bola, fazer gols, ajudar o Madrid a conquistar títulos.
O ano tinha começado com algumas notícias estranhas, não para ele, mas para o mundo, só que não as estava considerando e levando em conta realmente aquilo que os jornais diziam. O que bastaria para ele era resolver aquela questão física e voltar logo aos campos, estava confiante de que poderia retornar logo a jogar. Precisava disso. Sentia-se vazio sem a presença em campo, algo lhe faltava.

– Em que tanto pensa, ? – Jaime perguntou e o mais novo deu de ombros.
– Em voltar logo.
– Se melhorarmos um pouco mais a questão da massa muscular, posso dizer que ainda esse mês você começa a treinar em campo, não em grupo, mas em campo pra retomar ritmo de jogo e condicionamento. – o fisioterapeuta falou, fazendo sorrir.
– Não aguento mais olhar só na sua cara, Jaime. De verdade.
– E nem eu aguento mais a sua, . – riu. – Você vai voltar logo, garoto. Voltar e fazer o que sabe fazer de melhor, que é jogar bola.
– Estou sentindo muita falta de jogar futebol sem ser no FIFA. – falou e Jaime deu uma risada. – Mal posso esperar para voltar a jogar, ter a torcida perto, ouvir meu nome ser anunciado e os torcedores comemorarem, fazer gols… sinto falta de toda a atmosfera do Bernabéu.
– Estranho seria se não sentisse. – Jaime riu. – Agora, vamos parar de falar e voltar aos exercícios. Estou cansado da sua cara hoje, .
– Quando isso acabar, Jaime, eu vou fazer um gol em sua homenagem.
– Vou cobrar. – o fisioterapeuta falou, dando um sorriso para .

A sessão de exercícios e fisioterapia durou por mais duas horas, quando foi finalmente liberado (e as câmeras da RMTV foram desligadas e pararam de segui-lo) para ir embora. O time tinha vencido o Getafe alguns dias antes, fora, por 3 a 0 e a boa fase em que o Real Madrid tinha encerrado 2019 permanecia. Estavam sem perder em La Liga desde 30 de outubro de 2019, somando dez jogos invictos na competição. Cinco empates e cinco vitórias. E esperava que as coisas continuassem assim, porque poderiam ser campeões.
Era o sonho.
Vencer La Liga de novo com o Madrid.
O time do seu coração.
Mas, antes, o time viajaria ainda naquele dia para a Arábia Saudita, onde disputará a Supercopa da Espanha, agora em um novo formato, contra Barcelona, Atlético de Madrid e Valência. O Madrid enfrentaria o Valência e depois, se vencesse, o vencedor de Barcelona e Atlético de Madrid. Era um teste, se as coisas dessem certo, aquele seria o novo formato da competição.
E foi por isso que encontrou , caminhando despreocupada com um caderno em mãos, um celular e não conversava com ninguém. Os dois não se trombaram, mas se adiantou para andar lado a lado com a jornalista, que sorriu quando o viu se aproximando.

– Feliz ano novo, .
– Obrigada, , feliz ano novo pra você também.
. – corrigiu e ela franziu o nariz, fazendo o mais novo sorrir.
– E então, como foram as festas de fim de ano?
– Boas, muito boas, de verdade. Passei em família lá em Mallorca. E você?
– A mesma coisa, mas em Tenerife.
– Você não é madrilena? – perguntou surpreso e negou com um aceno.
– Nascida e criada em Santa Cruz de Tenerife.
– Veio fazer a coletiva do Zizou? – perguntou e ela assentiu. – E hoje foi melhor?
– Bastante. – sorriu. – Algumas perguntas idiotas, mas a maioria foi muito boa.
– E você vai cobrir os jogos presencialmente?
– Eu não estou nem um pouco afim de viajar, então vou ficar em Madrid e fazer o plantão na redação e acho que vou participar da final na Radio Marca, mesmo se o Madrid não classificar.
– Entendi.
– E a recuperação?
– Muito bem. – sorriu animado. – Talvez eu volte a campo pra treinar ainda esse mês. Só não conte pra ninguém.
– Não escrevo fofocas, . – respondeu num tom sério, fazendo o jogador retesar um pouco, quase arrependido por ter falado aquilo, mas sorriu e isso fez respirar aliviado.
– Não quis ofender.
– Eu sei. Reconheço ofensas sobre minha escrita e ao meu trabalho de longe.
– Duvido que alguém critique ou ofenda. – respondeu, sincero. – Eu já li e já te ouvi falar, você é ótima.
– Obrigada.
– Inclusive… você pode não fazer fofoca, mas eu faço. – deu uma risadinha. – Isco ouviu aquele programa da Radio Marca e falou que você não gosta dele.
– Eu gosto dele. – respondeu sincera. – E por isso eu disse que ele pode render mais quando entra em campo, porque eu sei e confio totalmente que ele pode. Diferente do outro que critiquei em tom duro e criticaria na cara dele se for possível e preciso.
– Confesso que eu ouvi o programa daquele dia apenas pra saber qual seria sua reação ao acontecimento. Mas eu imagino que você falaria a mesma coisa para qualquer jogador de qualquer time que tivesse feito aquilo.
– Com toda certeza. Achei antiético e antiprofissional demais, falaria mesmo que fosse do Atletico de Madrid ou do Barcelona, por exemplo. E sendo com o meu time, falo mesmo e se achar ruim, falo na cara dele. Mas, provavelmente, ele não deve ter entendido, já que não fala espanhol.
– Você é terrível. – deu uma risadinha. – Mas ele sabe, traduziram aquilo em uns trezentos idiomas.
– Se ele quiser, repito em inglês. Diferente dele, eu falo mais de um idioma. – respondeu num tom quase infantil, fazendo gargalhar.
– Sério, você é terrível.
– São os fatos. – deu de ombros, mas tinha um sorriso divertido nos lábios.
– Quando eu voltar, por favor, faça apenas elogios. – brincou, fazendo rir, bem quando chegaram ao estacionamento, perto do carro em que ela estava.
– Não garanto, mas se você fizer por merecer, tecerei o maior dos elogios a você e ao departamento médico do clube.
– Eles merecerão mais do que eu esse elogio, disso você pode ter certeza. – sorriu.
– Precisa de carona?
– Não, eu estou de carro. – deu de ombros.
– Você já pode dirigir? – perguntou surpresa e ele assentiu.
E, por um milésimo de segundo, a coragem que ele nem sabia que tinha (e depois se odiaria muito por ter, com certeza) fez com que as palavras escapassem de sua boca antes que seu cérebro conseguisse segurá-las.
– O que você acha de sairmos um dia desses? – perguntou e o olhou um pouco surpresa pelo convite repentino.
– Infelizmente eu terei que recusar, . – respondeu educada.
– Desculpa. Sei que soa muito prepotente e sem noção, mas você é bonita e muito interessante, achei que seria legal sairmos pra conversar um pouco sobre outras coisas que não sejam os papos de sempre… mas entendo, sou jogador e as pessoas adoram fazer fofoca sobre a vida de jogadores e isso poderia impactar em algo na sua vida. Totalmente compreensível, nem pensei direito, desculpa.
– Não é por isso. – sorriu ao falar. Seu tom permanecia educado e simpático e assentiu sem ter muita certeza do motivo de fazê-lo. – Pode ficar tranquilo. Meu problema não é com sua fama ou com as fofocas que fazem sobre a vida de pessoas conhecidas, pode ter certeza.
– É muito mal educado eu perguntar qual seu motivo pra não aceitar? – perguntou sem jeito e sorriu, dando uma risadinha pelo nariz e assentiu.
– Eu fico lisonjeada pelos elogios, obrigada. E mais ainda pelo convite. Mas eu tenho namorado, . Sei que poderíamos sair como amigos, mas nós dois sabemos que não foi esse o motivo do convite e não seria nada polido fazer esse tipo de coisa enquanto eu sou uma pessoa comprometida. – respondeu e ele assentiu.
Então ela era comprometida.
sentiu suas esperanças meio que (pra não dizer totalmente) caíram por terra, mas apenas sorriu e assentiu. Entendia e concordava totalmente o ponto dela, até porque o convite não era mesmo para uma saída de amigos. Ele estava mesmo interessado nela, mas não poderia fazer nada a respeito.
E, depois de uma despedida rápida, um pouco sem jeito por parte dele, foi embora para casa, dirigindo e pensando que odiava muito aquela coisa de vinte segundos de coragem, porque tinha sido um tiro no escuro e o tiro tinha ido direto em seu próprio pé.

Diez

“Quando você passa tudo para, gata o que cê tem isso é coisa rara. Eu nem vou negar tá na minha cara, eu quero você pra mim…” (Luccas Carlos – Coisa Rara)

Madrid, sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

– Você não acha que é muito cedo pra termos esse tipo de conversa? – perguntou e Martín deu uma risadinha nasalada antes de negar com um aceno.
– Estamos empurrando essa conversa com a barriga faz um bom tempo, . Desde antes de viajarmos no fim do ano, acho que até antes disso.
– É, você tem razão.
– As coisas entre nós estão sendo levadas com um sentimento de quase descaso. Os dois se enfiando em compromissos de trabalho, querendo ou não, e negligenciando nosso tempo juntos, que só acontece quando não há emergências de trabalho ou algum compromisso com amigos. Eu sei que gosto de você, mas é diferente de como era no começo. E sei que você me entende, que muito provavelmente esteja se sentindo assim também. – Martín falou num tom sereno e assentiu.
Não podia negar o inegável. Há tempos aquele namoro tinha se tornado confortável e os dois estavam juntos por comodismo, mesmo que vez ou outra acabassem tendo bons momentos como casal. Era inegável que o amor entre eles tinha deixado de ser romântico e tinha se tornado uma amizade. E só.

– E como ficamos?
– Acho que no começo é melhor dar um tempo na convivência, porque mesmo que as coisas tenham esfriado, ainda doerá. Mas, podemos ser amigos quando tivermos maturidade suficiente pra isso.
– É…
– É muito estranho terminar um relacionamento sem ser por problemas. – Martín soltou uma risadinha ao falar. – Mas já vínhamos terminando faz tempo, se você perceber, já não há mais nada meu aqui e nem nada seu na minha casa há um tempo.
– Inconscientemente a gente já estava se preparando pra esse momento.
– Fique bem, . – Martín falou num tom cuidadoso e sincero, o mesmo que sempre tinha utilizado com ela.
– Você também, Martín. – falou, abraçando o, agora, ex-namorado.

Martín não se demorou, apenas deu um beijo terno no rosto de e saiu. Tinham terminado o namoro na mesma forma como sempre o conduziram: com calma e sempre pensando um no outro. Já não eram o mesmo casal há tempos, as coisas tinham realmente esfriado e era melhor acabar tudo ao invés de estragar o que tinham vivido durante aqueles anos juntos.
contou até dez. Depois até dez de novo. E depois até vinte. Depois de quase cinco minutos em uma contagem mental de segundos para respirar fundo para entender que, depois de todos aqueles anos, estava solteira, só reagiu quando o celular vibrou em seu bolso, em alerta de mensagem.
“Direto para Valdebebas, , coletiva do Zizou.”, dizia a mensagem de Sacristán.
Respirou fundo, foi ao banheiro para finalizar a maquiagem e saiu de casa para Valdebebas, não sabia se encontraria alguém por lá, mas foi. A cabeça longe, muito longe, porque mesmo que fosse algo consensual, sem traições ou problemas, ainda sim era um término e isso doeria por um tempo, ainda seria estranho deixar de ser uma pessoa comprometida, deixar de ser a namorada do Martín, mas se acostumaria, era apenas o choque inicial com o término do namoro, ela sabia. No fundo, ela sabia.
Não se arrependeriam, disso sabia, mas sofreria. Claro que sofreria. Como Martín mesmo disse, tinham sido bons anos juntos e o namoro deles era realmente ótimo, se entendiam bem e era raro quando se desentendiam ou discordavam de algo.
Era melhor afastar isso da cabeça, deixaria para ficar triste depois do expediente. Ligou o rádio enquanto seguia pelo trânsito um pouco mais intenso do que o esperado na direção de Valdebebas, e foi ouvindo algumas notícias esportivas antes de, finalmente, chegar ao centro de treinamento do Real Madrid. Os acontecimentos da manhã entorpeceram , mas não o suficiente para que ela perdesse o profissionalismo. Fez a pergunta que precisava – talvez um pouco abaixo de sua própria média – e quando a coletiva foi finalizada, saiu da sala de imprensa com pressa.
Queria ir embora para a redação e dar um jeito de fazer o tempo passar. Estava mentalmente exausta e não estava nem perto da hora do almoço ainda. Mas, enquanto andava, deparou-se com caminhando animado ao lado de Jaime. Caminhavam na direção de um dos campos e não conseguiu conter o sorriso ao vê-lo caminhar parecendo uma criança quando convence o pai a levá-lo ao parque. Sentindo-se ser observado, os olhos de encontraram os de e ele sorriu, acenando para que se aproximasse. E ela o fez.

– Vejo que alguém está evoluindo bem no tratamento. – falou ao se aproximar e o sorriso de aumentou.
– Finalmente! Eu não aguentava mais ficar lá dentro. – resmungou. – Coletiva?
– Sim.
– Fez o Mister se orgulhar?
– Tentei. – sorriu fraco ao falar e virou-se para Jaime, estendendo a mão livre para cumprimentar o homem. – Muito prazer, .
– Do Marca. – o homem sorriu, fazendo-a sorrir junto. – Eu sou Jaime, a babá dessa criança aqui há uns meses. Inclusive, ele é bastante seu fã, tem lido muito o Marca e sempre fala das coisas que você publica.
– Então tenho um fã-clube? – perguntou, num tom divertido, para o jogador que estava começando a ficar sem graça.
– Ô. – Jaime riu. – Vou arrumar as coisas em campo pro seu treino, chaval, não demore.
– Não vou. – sorriu ao falar.
– Foi um prazer conhecê-la pessoalmente, . Já ouvi falar de você, não apenas pelo , e também sempre leio o que você publica. Você é uma excelente profissional.
– Obrigada. – sorriu agradecida e o homem se afastou, seguindo para o campo e deixando os dois sozinhos. – Fico feliz que você já esteja indo para o campo, . Estou torcendo pra que você volte logo.
– Obrigado. – sorriu. – Cento e oitenta e quatro dias.
– Um baita presente de aniversário adiantado, hein? – falou, sorrindo, e assentiu. – Espero que seja uma recuperação de campo rápida, que você volte logo e salve o Madrid.
– Tentarei. – o mais novo deu uma risadinha. – A previsão é começo de março, mas pode ser antes. Depende do que eu fizer nos treinos em campo e de como vou me readaptar.
– Espero que bem e rápido. Você merece um retorno épico. – sorriu. – Eu estava num bar no dia da sua lesão, num raro dia de folga. Foi uma coisa horrível de assistir e eu não consigo imaginar a intensidade da sua dor, mas você não desistiu. Nunca desiste, não é mesmo?
– Assim você me deixa sem jeito. – deu uma risadinha ao falar. – Mas obrigado. Eu tento não me desanimar, mas não vou mentir dizendo que não tive vontade de desistir pelo menos vinte vezes durante esses cento e oitenta e quatro dias.
– Não desista. A torcida está ansiosa por te ter de volta e nós sabemos que você é capaz de superar nossas expectativas. – sorriu sincera. – Agora vá pro treino. Jaime está olhando pra cá e eu estou com medo de tomarem minha credencial, não posso perder meu emprego também.
– Também? – perguntou curioso. – O que mais você perdeu?
– Quem disse que eu perdi algo? – perguntou, cruzando os braços, e ele sorriu.
– Seus olhos. – respondeu, piscando. – Bom trabalho, .
– Obrigada, pra você também. – sorriu e o jogador se afastou, seguindo para o campo em que Jaime tinha feito alguma coisa que ela não sabia o que era.

O caminho até a redação do Marca foi tranquilo. Ao som de uma playlist totalmente aleatória que misturava AC/DC e Abraham Mateo, trabalhou a maior parte do dia, escreveu sobre a entrevista, preparativos do time para o jogo contra o Sevilla, no dia seguinte, e uma pequena nota sobre o começo dos treinos de em campo, algo que poderia dar esperança aos madridistas.
Tentou ocupar a cabeça o máximo que conseguiu e, ao fim do expediente, não esperou um segundo a mais. Pegou seu casaco, a bolsa e desligou tudo antes que alguém surgisse com algo para que ela fizesse.

– Ei. – ouviu a voz de Cora e virou-se na direção da amiga. – Aconteceu alguma coisa.
Não era uma pergunta.
– Martín e eu terminamos hoje de manhã. – falou de uma vez e a amiga não demorou a abraçá-la numa tentativa de conforto.
– Aconteceu algo?
– Só percebemos que nós dois já não éramos namorados, que tínhamos caído no marasmo e no comodismo, não estávamos valorizando nosso relacionamento como deveríamos, mas não é um caso de conversar e tentar resolver, porque já estava claro que um término seria a única forma de resolver tudo.
– Precisa de um ombro amigo?
– Eu quero ficar sozinha, se você não se importa. Eu, uma garrafa de vinho e algum filme clichê pra que eu assimile. Não tive tempo pra isso ainda, trabalhei demais hoje, então vou passar essas horinhas assim, sozinha e chorando um pouco, porque mesmo que tenha sido consensual, dói um pouquinho, no fim das contas.
– Está de folga amanhã? – Cora perguntou e assentiu. – Se precisar de algo, me ligue. Se quiser ir ao jogo pra desanuviar a cabeça, ou se quiser que eu compre uma arma e fure o Martín inteiro. Qualquer coisa.
– Você é a melhor. – respondeu, abraçando a amiga com carinho. – Sobre o jogo, talvez, posso pensar. E sem tiros no Martin, ele não fez nada.
– Podemos criar nossa própria versão de “La Casa de Papel”. – Cora sorriu, fazendo dar uma risada baixa.
– Por enquanto eu prefiro que você não seja presa, sabe?
– Por enquanto. – Cora deu um sorriso quase esperançoso. – Isso significa que um dia você vai considerar a chance de eu ir presa, o que com certeza é com algo bem legal. Eu aceito e nem preciso saber o que é.
deu uma gargalhada mais alta do que gostaria, mas era uma gargalhada sincera.
– Idiota. – falou ainda rindo. – Agora eu vou embora, antes que alguém apareça com mais alguma coisa pra eu fazer e eu acabe presa nesse lugar por mais tempo do que quero.
– Qualquer coisa me liga, . – Cora falou séria e assentiu. – E divirta-se na noite da fossa, mas sem esquecer que você é maravilhosa demais e que não há o que lamentar, porque o namoro de vocês foi bom e honesto enquanto durou, talvez seja pra que coisas novas aconteçam e vocês sejam ainda mais felizes, cada um em seu próprio caminho agora.
– Você é sem condições, Cora. Sem condições. – falou, dando um sorriso agradecido, beijou demoradamente a bochecha da amiga, sussurrou “obrigada, eu te amo” e se foi.
Precisava mesmo de um tempinho para si, em casa, de pijamas e aproveitaria a noite para tomar um bom vinho, assistir a algum filme sem se preocupar com a hora, porque estaria de folga no dia seguinte e poderia dormir até tarde.
Mas, primeiro, precisava ir ao mercado comprar algumas garrafas de vinho e uma bela pizza pra acompanhar a noite.

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Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, segunda-feira, 21 de janeiro de 2020

– Cumpleaños feliz, cumpleaños feliz, te deseamos , cumpleaños feliz… ouviu quando estava saindo do campo ao fim de seu treinamento e encontrou Isco e Sergio, caminhando juntos em sua direção.
– Obrigado. – agradeceu, olhando para os amigos.
Mas, quando se virou para olhá-los, o rosto empalideceu tão rápido que os dois mais velhos olharam sem entender, preocupados. Ele parecia bem, mas agora estava pálido como se tivesse visto um fantasma. E só entenderam o que estava acontecendo (e precisaram ser bem discretos) quando ouviram uma voz feminina se aproximando do grupo.
– Parece que alguém está fazendo aniversário hoje. – falou, anunciando sua presença, e assentiu sem jeito. – O mais novo dos quatro.
– E o menos bonito. – Isco implicou, tentando fazer o amigo se envergonhar ainda mais. Ou arrancar um comentário diferente de .
– Sou mais bonito que você. – falou e Isco deu uma gargalhada.
– Preciso concordar com o , porque só minha irmã te acha bonito, Francisco.
– Ah, Isco. – falou e o jogador a olhou. – Eu espero que você não tenha entendido mal a minha entrevista pra rádio. Gosto do seu estilo de jogo e de você, sei que você é um bom jogador e que pode acrescentar muito ao elenco, só acho que está um pouco aquém do que pode e sabe fazer. Se você se sentiu ofendido, me desculpe, não era a intenção.
– Fofoqueiro. – Isco falou para , que deu uma gargalhada.
– Eu não fiz nada.
– A menos que a Nina tenha ido falar com ela, foi você quem contou.
– Eu não conheço sua namorada, Isco, então foi o mesmo quem fez a fofoca sobre você ter ficado ofendido. – falou, dando uma risadinha nasalada. – Eu não quis te ofender, de verdade.
– Eu sei disso, eu ouvi sua entrevista também e entendi o tom que você falou, então não precisa se desculpar, até porque a Nina falou exatamente a mesma coisa que você e o . – Isco respondeu.
– Ninguém falou de mim? – Sergio perguntou, mas já sabia a resposta, porque ele também tinha ouvido a entrevista.
– Claro que falei. – respondeu. – Conversamos sobre seu desempenho na seleção e no clube e como tem sido um excelente capitão e comandante. Como sempre
– Bom, , – Isco interrompeu antes que Sergio respondesse. – você vai me perdoar por sair assim tão rápido, mas eu preciso ir tomar banho e ir pra casa. Inclusive, Sese, a Nina quer que você vá também. Precisamos resolver aquela coisa.
– Precisamos resolver que coisa? – Sergio Ramos perguntou, confuso, e Isco teve que se controlar para não bufar e rolar os olhos.
– Aquilo que a Nina pediu pra que a gente faça hoje. – Isco respondeu olhando para o capitão, que ainda parecia não ter entendido que era para saírem dali e deixarem os dois sozinhos.
– Não precisa, Isco. – interrompeu, dando uma risada baixa. – Eu vim apenas dar parabéns ao , aproveitar que vim pra coletiva de pré-jogo.
– Eu estou todo suado. – falou, tentando evitar o abraço iminente.
– Você não pode recusar um abraço de aniversário, . – Sergio falou num tom sério, mas sabia que ele estava apenas tentando deixa-lo ainda mais sem graça.
– Você vai ficar suja de suor se me abraçar. E vai trabalhar fedorenta.
– Vou almoçar em casa, então posso me trocar se achar que estou fedorenta. – falou, dando uma risadinha e aproximando-se para abraçar .
queria se enfiar num buraco, porque aquilo era demais. Não tinha a menor condição de aquilo estar acontecendo com ele, de verdade, no meio de Valdebebas e na frente das duas últimas pessoas que poderiam conhecer ou se aproximar de , que, inclusive, estavam fazendo mímicas com as mãos, imitando beijos e corações, além de biquinhos e risadinhas silenciosas às costas da mulher.
O abraço durou um pouco mais do que ele achou que duraria e lhe desejou muitas coisas boas, o que ele achou fofo, mas estava tão sem graça que nem sabia o que fazer quando o abraço se findou e o olhava de forma simpática.
– Nem está tão fedorento, só um pouquinho suado.
– Eu avisei. – ele resmungou.
– Agora, cavalheiros, eu vou embora. Preciso ir almoçar e ainda trabalhar enquanto faço isso. – falou e os três sorriram simpáticos. – Capi, sei que você não viaja com o time, mas você vai Isco, então espero que faça um bom jogo e que vocês passem de fase.
– Vai rolar uma ameaça? Contra o PSG eu sei que rolou.
– Se formos eliminados pelo Unionistas de Salamanca, eu coloco fogo nesse lugar com todos vocês aqui dentro e vou pra Rádio falar de vocês. – brincou, fazendo Isco assentir.
– Deus me livre, já tem gente da imprensa falando mal de mim demais. Prefiro evitar mais uma. Principalmente quando se trata de você, que tem um mundo inteiro de pessoas lendo o que você escreve.
– Jogue bem e classifique o Madrid e eu farei questão de falar bem de você. – falou num tom sério, mas o sorriso que tinha nos lábios mostrava que não era assim que as coisas funcionavam.
– Eu preciso jogar bem, minha namorada é doida e disse que vai me matar a noite enquanto eu estiver dormindo caso a gente perca. – Isco falou, rindo, mas arregalou os olhos ao lembrar que estava falando isso pra uma jornalista. – Não, nada disso. É brincadeira.
– Isco, sua vida pessoal não me interessa. – falou e Isco quase respirou aliviado ao ouvir. – Eu só me interesso pela vida de vocês dentro de campo, fora de lá, vocês podem fazer o que quiserem, desde que não seja manchar a história ou a imagem do Madrid.
– Eu agradeço. Tem gente que mataria pra poder escrever algo sobre Nina e eu.
– Não faço parte desse grupo, pode ficar tranquilo. – sorriu. – Agora é sério. Eu vou embora e vocês vençam amanhã.
– Pode deixar. – os três responderam e com um aceno foi embora, deixando-os sozinhos.
– Quando eu posso começar a cantar “tá namorando, tá namorando”? – Isco perguntou, gargalhando, quando já estava distante o suficiente para não ouvir.
– Não pode. É meu aniversário, me deixa em paz!
– Quando foi que as coisas ficaram tão amigáveis assim entre vocês? – Sergio perguntou interessado.
– Nós apenas conversamos, não exagere.
– Claro, porque ela veio te abraçar apenas porque vocês conversam vez ou outra… – Isco respondeu num tom entediado. – Eu que sou seu amigo não quero te abraçar todo suado e fedorento, imagina uma jornalista super famosa, premiada e conhecida!
– Talvez eu tenha convidado pra sair.
– O QUÊ? – os dois falaram alto, chocados com a informação.
– Parem de gritar. – reclamou. – Enfim, foi no começo do mês, mas ela namora.
– Namora?
– Foi o que ela disse, então deve ser verdade. Ela não teria motivos para mentir.
– É, isso é. – Isco pareceu pensar. – Mas pelo menos tomou vergonha na cara e fez algo.
– Isco, você está me devendo. – Sergio falou, estendendo a mão. – Apostei que eles demorariam mais do que o Natal e, em todo caso, já passou o Natal e você perdeu. Vintinho.
– Eu não vou te pagar nada, porque não disse em qual Natal. – Isco falou, dando um tapa na mão do capitão.
– Vocês cansam minha beleza. – falou, dando uma risada nasalada. – Eu vou almoçar, porque ao contrário de vocês, eu tenho que treinar mais e trabalhar.
– Feliz aniversário, . – Sergio falou, abraçando o amigo e logo Isco fez o mesmo.

A despedida, depois de mais algumas piadinhas e logo estava no refeitório do clube, almoçando e pensando no abraço que tinha dado nele. Nada além de um abraço de aniversário, ele tinha total consciência disso, mas tinha gostado bastante. E guardaria aquela sensação gostosa do abraço consigo por muito tempo.


Nota da Autora: Oioi!
Ora ora, parece que as orações foram ouvidas (as do e as de vocês) e agora é uma mulher solteira. Por quanto tempo? Não sabemos, mas é como disse Harry Styles uma vez: não é sobre vencedores ou perdedores, mas nós vencemos!
Espero que tenham gostado desse capítulo, não esqueçam de comentar me dizendo o que acharam sobre. Principalmente sobre quanto tempo demorará pra eles terem alguma coisa…
Aqui tem o grupo do Facebook e aqui o do WhatsApp.
Vocês também podem seguir a personagem no Instagram que tem spoilerzinho lá antes de saírem as atualizações (além de ter link das playlists também) ou/e me seguir no Twitter (mas aqui eu só surto por esportes num geral, bandas e xingo determinados presidentes não disse quais).

Once

“Baby perderme en tus ojos no fue mi decisión, una mirada que solo había visto en televisión, no pelemos con la ley de la atraction…” (Sebastian Yatra ft. Monsta X – Magnetic)‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Em Valdebebas, estava treinando forte. Poderia voltar a ser uma opção para Zidane daqui um mês, talvez até menos, então estava dando ainda mais de si nos treinos em campo, ainda em separado, para conseguir pegar um bom ritmo. Estava ansioso, de um jeito bom, para poder ser uma opção, para voltar a jogar.
Estava um pouco preocupado com as notícias, uma doença séria estava deixando muita gente preocupada ao redor do mundo, Corona Vírus, ele tinha escutado num jornal há uns dias, e parecia bem sério. Um vilarejo na China tinha sido atingido, muita gente morreu e a doença se espalhou pelo país de forma rápida, havia especulação sobre a causa: morcegos que viraram comida e tinha transmitido para os seres humanos, mas ele não fazia ideia se era verdade ou não.
Aquilo podia não ser tão sério assim, como também poderia ser sério demais, mas esperava profundamente que não fosse, que conseguissem controlar e só.

– Ser jovem é uma coisa ótima. – Jaime falou quando chutou a bola e fez um gol. – Vocês têm corpos que se regeneram e readaptam muito rápido.
– Pra mim parece que faz uma eternidade.
– Uma lesão da magnitude que foi a sua não se cura tão fácil assim, algumas pessoas demoram de dez a vinte meses para conseguir os resultados que você tem com menos de sete meses. – Jaime falou satisfeito. – Você é incrível e eu estou muito orgulhoso.
– Nada disso teria sido possível sem o trabalho impecável de vocês.
– Quando você voltar e fizer um gol, espero que dedique pra gente. – brincou. – Eu quero pedir um exame pro Abascal, uma ressonância, só pra ter total certeza que estamos mesmo perto de te liberar.
– Meu coração se enche de alegria ao ouvir isso. – sorriu.
– Garoto, você não faz ideia de como o meu está. – Jaime sorriu. – Você merece um retorno fenomenal e terá. E mais rápido do que poderíamos imaginar que seria.
– Mudando de assunto… você ouviu falar desse vírus lá na China?
– Ouvi sim, mas não sei no que acredito, tem gente inventando muita coisa e eu não sei se é tão sério quanto parece ou se é mais sério do que parece. – Jaime respondeu, puxando o carrinho com os bonecos formando a barreira para que treinasse batidas de forma específica. – Então nos resta apenas esperar e torcer para que não seja sério, que consigam controlar e salvar mais vidas.
– Também espero. – respirou fundo.
– Agora, quero que você bata com a perna esquerda, daquele jeito que você sempre faz, precisamos ver como está a dor e a musculatura desse lado da perna. Vou colocar sete bolas em diferentes lugares e quero você chutando com a esquerda, forte. O intuito não é fazer gols, mas se fizer, ótimo. Depois faremos com a direita. – Jaime falou, ajeitando as bolas de futebol nas marcas.

conseguiu fazer seis gols, chutando forte e do jeito como gostava e costumava fazer fora da área. O treino ainda durou outra hora e meia, chutes com barreira, sem barreira, rasteiros, altos, meia altura, cruzamentos, pulos para cabeceio… estava sendo ainda mais puxado, mas aquilo era tudo que queria.
Quando precisou sair do campo, sentindo cada pedacinho do corpo doer e pedir por um banho quente e descanso, ele sabia que tinha sido um dia realmente proveitoso. Poderia passar o restante do dia com o pai, como sempre, aproveitando a companhia dele e só. Igor provavelmente chegaria na sexta-feira à noite, então poderiam aproveitar o fim de semana como família.
Domingo poderiam ir ao jogo contra o Celta de Vigo, que daria início ao returno de La Liga e ele estava esperançoso, o Real Madrid estava no primeiro lugar e o time estava bem. Queria aquele título, mesmo que não fosse jogar nem um turno completo quando retornasse aos planos de Zidane. O Real Madrid merecia aquela Liga.
E, dessa vez, quem tropeçou foi , na saída do campo, andando de costas enquanto conversava com Jaime, só sentiu quando estava prestes a cair quando caiu. E, junto, levou , que tinha uma expressão um pouco assustada com o acontecimento tão rápido e repentino.

– Então é assim que você se sente quando eu trombo em você do nada? – a mulher perguntou, enquanto ainda estavam no chão.
levantou preocupado, rápido e a ajudou a ficar de pé, olhando para num misto de vergonha e preocupação e tentava descobrir se a tinha machucado de alguma forma naquela queda.
– Desculpa! , sério, me perdoe. Eu estava andando de costas, ideia de idiota, e não pensei que podia esbarrar em alguém. Me desculpa.
– Sem problemas. – ela sorriu. – Eu já esbarrei umas dez vezes em você só esse ano, então você está apenas descontando.
– Você machucou? Está tudo bem? Quer pedir pra algum dos médicos olharem como você está? – perguntou, ainda preocupado, causando uma risada em , e a ajudando a ficar de pé. – Do que você está rindo?
– De você, obviamente. – respondeu. – Eu estou bem, , foi apenas um esbarrão e nada além disso.
– Mas você me desculpa? Sério, eu n…
. – interrompeu. – Eu te desculpo, estou bem e não me machuquei. Fique calmo.
– E então, veio pra coletiva?
– E cobrir o treino. – assentiu. – Até falei na matéria do site que você estava treinando em campo e que pode ser que retorne antes do esperado, mas depende ainda do aval do departamento médico.
– O plano é esse.
– E o plano dará certo.
– Assim espero. – deu uma risadinha. – E espero que a gente comece o returno bem.
– Somos dois.
– Não querendo fazer fofoca, mas já fazendo, Isco e Sergio fizeram gols na semana passada e estavam insuportáveis aqui falando sobre isso e cobrando duas horas de podcast a respeito disso. – riu ao falar. – Ignore os dois quando os vir. É pro seu bem.
– Farei o possível. – riu. – Agora eu preciso ir, tenho reunião de alinhamento na redação e estou atrasada.
– Bom trabalho. – falou, sorrindo. – E aproveite bastante o dia amanhã.
– Aproveitarei com uma boa garrafa de vinho e minha gatinha, obrigada. Aproveite o dia amanhã também. – falou, dando um sorriso, e despedindo-se de com um aceno.

Como assim aproveitaria o dia com uma garrafa de vinho e a gata? Será que… não. Era melhor não ficar pensando naquilo, não podia criar esperanças ou teorias sobre o status de relacionamento de apenas por querer sair com ela.

– Você quase matou a . – Jaime implicou quando entrou na sala de fisioterapia.
– A culpa foi sua. Deveria ter me avisado. – resmungou.
– A culpa foi sua por andar de costas, . – riu. – Não é nem um pouco inteligente fazer isso.
– Eu percebi.
– Amanhã de manhã você vai pro hospital fazer os exames e vem pra cá. Vamos fazer um pouco de fisioterapia aqui dentro e depois um treino lá no campo, seu dia de São Valentim será em minha companhia, traga chocolates e flores. – Jaime brincou, arrancando uma gargalhada sincera de .
– Também quero flores, por favor. E chocolate, eu gosto. – respondeu no mesmo tom de brincadeira.
– Recomendações pro exame: alimentação leve hoje, sem fast-food e coisas do tipo. Beba bastante água, durma cedo e bem. Usarão contraste, então quatro horas de jejum. O exame é às nove, no Veritas. E vá acompanhado.
– Tudo bem.
– Até amanhã, . – Jaime falou e os dois se despediram com um abraço antes do jogador sair para ir embora.

Os planos de comer pizza naquela noite estavam frustrados, teria que deixar para o dia seguinte, na companhia do pai e do irmão, mas estava tudo bem. Pelo menos era um exame para seu retorno e ele podia conviver com isso.
Além do mais, ainda estava martelando a ideia de que ia curtir a data com uma garrafa de vinho e a gatinha. Podia ser que o namorado não estivesse em Madrid, mas pelo tom, parecia que não tinha mais um namorado. E, por mais horrível que tivesse se sentido ao pensar nisso, estava feliz se ela estivesse mesmo solteira.

Doce

Cuando sufren por amor, se te quiebra el corazón, aquí estaré contigo en todos los sentidos…” (Lasso – Ibuprofeno)

Estádio Santiago Bernabéu, Madrid, quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

observava o jogo atentamente, estava atrás do gol em que o goleiro Ederson defendia, à frente da Muralha Branca, agora no segundo tempo, e observava o time do Real Madrid tomar sufoco diante do Santiago Bernabéu lotado.
O Manchester City tinha o controle do jogo, ainda que o Real Madrid tenha ameaçado algumas vezes o gol do time inglês, mas foi muito mais ameaçado do que ameaçou. E isso, para (e todos os madridistas), era inadmissível.
Aos quinze minutos do segundo tempo, Vinicius Junior cruzou a bola para Isco, que u e o estádio explodiu em comemoração. Isso! Ainda que estivessem jogando terrivelmente mal e que Courtois tenha salvado a pele do time blanco, vencer era a parte importante. Poderiam desfilar um futebol bonito depois, por enquanto era necessário vencer o jogo, jogando bem ou mal.
Mas, claro, as coisas não ficaram boas para o Madrid, mesmo que o time tenha criado volume de jogo e começado a criar mais oportunidades e jogar melhor. Aos 33 minutos do segundo tempo, Gabriel Jesus empatou para o Manchester City, cabeceando a bola nas costas de Sergio Ramos e tirando o goleiro Courtois da bola.
E, aos 36, em um pênalti idiota e desnecessário, Dani Carvajal deu a chance de o time inglês ampliar. E foi o que aconteceu. Kevin De Bruyne fez o segundo gol da equipe inglesa, Courtois caiu para o outro lado e, assim, o time inglês virou o jogo.
Aos quarenta minutos, o capitão Sergio Ramos foi expulso por uma falta em Gabriel Jesus na entrada da grande área.

– Parece que as coisas estão todas contra o Real Madrid hoje… ouviu no fone em seu ouvido e suspirou.
– Inclusive o próprio Real Madrid. – respondeu. – O time não tem um pingo de garra, uma preguiça sem tamanho e estão displicentes demais! Parecem crianças jogando num parque e não o maior time do mundo na maior competição de futebol europeu!
– Realmente. Estamos aqui vendo o VT do pênalti e da expulsão… erros primários e inexplicáveis. O tipo de coisa que se espera de um novato desesperado, não de jogadores selecionáveis e de um time do tamanho do Real Madrid.
– É um absurdo! – respondeu.
, queria informar que você passou no telão muito puta e xingando um belo palavrão quando De Bruyne u. – a voz de Raúl soou em seus ouvidos e ela deu uma risada pelo nariz.
– Única pessoa com reação dentro de campo foi a . E olha que nem em campo ela está.
– Acabou. – falou quando o juiz apitou o fim da partida.

Depois de mais algumas análises, desceu para a coletiva de imprensa de Zidane. O clima estava tenso e ninguém podia ser mais culpado disso do que o próprio francês, que mexeu mal e tardiamente, que não orientou bem os jogadores e pareciam um bando de crianças não treinadas.

– Boa noite, Mister. – falou séria e Zidane assentiu. – Você acabou de dizer que apenas os dez minutos finais do jogo foram complicados para o Madrid, o que ao meu ver, não é o certo. O time teve dificuldades em todos os setores o tempo todo durante o jogo, as estatísticas e o resultado do jogo provam o contrário dessa fala. Você também disse que havia duas boas equipes em campo, de igual para igual, e pede que os torcedores continuem acreditando e venham no domingo, são três derrotas nas últimas cinco partidas, o Madrid foi eliminado da Copa do Rei, não é mais líder de La Liga e agora tem essa derrota que deixa o time com um pé fora da Champions League… é normal que o time tenha perdido a intensidade de antes, mas como essas derrotas e péssimo desempenho em campo podem ser considerados para efeito positivo de dizer que o time é bom e de que é normal esse tipo de coisa acontecer? E como isso pode se espelhar diante do Barcelona no clássico do fim de semana?
– Bom… é normal perder o ritmo de jogo, mas acho que não temos muita diferença para o City, não tive acesso às estatísticas, mas não foi um jogo com uma diferença tão grande, foi?
– Numericamente falando, parece que não faz diferença, mas em momentos em que as coisas aconteceram, ficou comprovado o despreparo de um dos times diante do outro e foi bem descarado. – falou e o treinador assentiu enquanto ouvia.
– Então, respondendo sua pergunta, o efeito positivo é aprender com esses erros e ver com essas estatísticas o que pode ser feito para atuarmos nos próximos jogos cometendo menos erros e fazer com que as vitórias voltem. – Zidane respondeu e assentiu.
Outros dez minutos de coletiva se passaram e, por fim, estava saindo do estádio, depois de entregar seus equipamentos para a equipe do jornal. Quando chegou ao estacionamento, Cora estava no carro, rádio ligado e bateu palmas para a amiga.
– Você é meu exemplo de autocontrole e de boas perguntas. Eu no seu lugar, teria perguntando o que caralhos estava passando naquela careca pra ele cortar o Antoninho a troco de nada, fazer aquelas substituições bostas e tão tarde! – Cora falou e deu uma risada, sentando-se no banco do carona.
– Minha vontade era de berrar isso e jogar uma cadeira, mas tive que ser polida.
– Ele gosta de você.
– Imagino que sim.
– Foi a única pergunta que ele não respondeu de forma debochada ou um pouco mais ríspida. – Cora falou, dando partida no carro.
– Estou morrendo de fome, passa no McDonald’s e vamos pra casa. – falou, vendo Cora assentir.
– Você trabalha amanhã?
– Que dia eu não trabalho? – perguntou, dando uma risada. – E ainda vou pra rádio.
– Bem feito, quem manda ser boa de serviço? – Cora falou rindo.
Antes que pudesse responder, sentiu o celular vibrando em seu bolso com uma solicitação de amizade no Instagram.

📰🤍⚽️

– Então a sua jornalista é aquela que apareceu brava no telão? – Igor perguntou quando chegaram em casa e assentiu.
– Não minha, mas é ela.
– Ela é bonita. Você segue as redes sociais dela?
– Não, mas eu tinha o telefone, de quando ela bateu no meu carro… lembra?
– Ah, foi ela? – Igor perguntou surpreso e assentiu. – E você não a segue por quê?
– Nunca pensei nisso. – deu uma risadinha, mas abriu o Instagram e tratou de procurar por , recebendo uma conta privada como resposta, porém o “seguir de volta” estava lá, então enviou a solicitação.
E uma mensagem.
“Te vi no telão hoje, achei que você invadiria o campo e mataria um jogador! Desculpa mandar essa solicitação, mas acho injusto que você me siga e eu não possa te seguir hahaha”

Agora precisava esperar que ela aceitasse a solicitação. Provavelmente ainda tinha namorado, então só podia torcer para que ela aceitasse a solicitação e eles pudessem conversar e se tornar amigos de verdade.
Rome latiu pedindo atenção e colocou o celular no bolso, abaixando-se para pegar o cachorro no colo e o abraçou, dando beijos no bicho, que o lambeu em resposta e agitou-se em animação por receber carinho.
Ele não percebeu no momento em que tinha aceito sua solicitação e respondido sua mensagem, estava ocupado rolando pelo chão da sala brincando com Rome e esperando que a comida que tinham pedido chegasse. E já estava indo dormir quando, finalmente, pegou o celular e viu a resposta dela:

Você argumentou bem, então vou aceitar que você me siga
Espero que não canse de ver fotos de trabalho, gatos e umas selfies estranhas, além de mensagens motivacionais pra mim mesma…

Pra mim parece ok esse tipo de conteúdo
E eu espero que vc aprecie minhas fotos apenas sobre futebol e raramente sobre minha vida…

Claro! Mas poste mais foto do cachorro
Ele é realmente muito fofo

Farei o possível, mas não posso garantir
As pessoas precisam gostar de mim e não do Rome

Penso o mesmo sobre a Nairóbi, mas continuo postando…
Menos do que gostaria, admito, pq ela não gosta muito de fotos

Nairóbi????

La Casa de Papel…

Espero que ela seja tão incrível quanto a personagem
A Nairóbi é foda!

Com certeza!
Melhor personagem!!!

Eu também acho, ela é incrível.
Não gosto muito do Rio e nem da Tokio

Somos dois
E nem daquele outro… o do tapa-olho, esqueci o nome
E da inspetora! Sem ser a Murillo, a grávida!
E o insuportável do Arturo

São as PIORES PESSOAS DO UNIVERSO!
Palermo é o do tapa-olho, certo?

Isso!
Ele mesmo!
São atores maravilhosos, interpretam tão bem que eu ODEIO os personagens

Se eu contar que eu gosto do Gandía, você vai me julgar?

Block!
É impossível que uma pessoa de bem goste daquele homem, !

Ele é determinado

Determinado a ser um cuzão, só se for!
Nem Magayver fazia o que esse cara faz!

Magayver?

Eu esqueço que você é uma criança dos anos 2000…

Você nem é tão mais velha assim

Eu tenho 25

E eu 23!

Então não se faça de desentendido, porque vc sabe quem é Magayver!

Claro que eu sei 😂😂😂😂

Eu vou te bloquear

Pode bloquear, mas me passe seu número, melhor conversarmos no WhatsApp (ou Messenger), aqui eu fico confuso

Muitas mensagens… é o preço da fama
Mas anote meu número
E vamos ter uma conversa séria sobre a impossibilidade de ter uma boa índole e gostar do Gandía

Trece

“Déjame robarte un beso que te enamore y tú no te vayas…” (Carlos Vives ft. Sebastian Yatra – Robarte um Beso)

Estádio Santiago Bernabéu, Madrid, domingo, 01 de março de 2020

– Larga esse telefone. – Cora falou, implicando com a amiga.
– Estou só tirando uma foto pra postar no Instagram, me deixa.
– Pra ele ver e comentar.
– Você está louca. – riu. – Estou fazendo um post pro feed. Apenas isso.
– Você finge que acredita nisso e eu vou fingir junto.
– Ia te chamar pra tomar uma cerveja depois do jogo, mas teremos que deixar pra depois. Só você está de folga, eu trabalho.
– Podemos ir pra sua casa comer uma pizza e jogar conversa fora.
– O que é muito melhor do que uma cerveja num bar lotado. – sorriu. – Mas no momento vamos torcer pro careca conseguir fazer esse time vencer hoje.
– Você acredita nisso?
– Ele me passou um pouquinho de confiança na coletiva dessa semana.
– Sacristán te transformou na jornalista de Valdebebas mesmo hein?
– Ele queria que eu trabalhasse hoje, disse que meus comentários na transmissão seriam muito importantes e essenciais, mas estou de folga e falei que não iria nem se ele quadruplicasse o pagamento desse dia de trabalho.
– Você é a dona do Marca e não assume. Eu tenho certeza.
– Shhhh! Não fale tão alto, as pessoas podem descobrir. – brincou. – Eu sou é explorada naquele jornal.
– Culpa sua que é excelente em tudo que faz, se tivesse um pouquinho de preguiça, como todo ser humano normal, isso não aconteceria.
– Me ensine. – implicou, fazendo Cora rir.
– Eu ficaria ofendida, mas eu realmente faço isso pra não trabalhar todo fim de semana e ser sempre chamada pra ir pra rádio ou em televisão.
– Eles estão entrando em campo. – falou, apontando e os times começavam a entrar no gramado do Santiago Bernabéu.

A doença que tinha começado na China no fim de 2019, estava se espalhando muito mais rápido do que se imaginava e começava a dar sinais na Europa. A Itália estava sofrendo bastante e era, de longe, o local mais afetado no continente europeu, quase perto de chegar ao mesmo número da China. As coisas estavam péssimas e a única coisa que queria era que aquilo não chegasse à Espanha e que acabasse logo.
Quanto ao jogo, o Real Madrid estava afiadíssimo. Era superior ao Barcelona, tanto em chances como em aproveitamento, mas o placar demorou a mudar. Apenas aos vinte e seis do segundo tempo é que Vinícius Junior abriu o placar para o Real Madrid, o brasileiro recebeu a bola de Toni Kroos, num passe perfeito, entrou na área pelo lado esquerdo, chutou e tirou do goleiro Ter Stegen a chance de defesa.
O segundo gol do Real Madrid saiu já nos acréscimos, depois de outras tantas tentativas de ambos os lados. O recém saído do banco, Mariano Díaz, substituiu Karim Benzema e com menos de um minuto em campo, depois de uma cobrança de lateral de Dani Carvajal, do lado direito do campo, Mariano correu, venceu os zagueiros na velocidade e bateu forte. Dois a zero.
O primeiro lugar em La Liga era do Real Madrid depois dessa vitória, o que incentivava muito os próprios jogadores e enchia a torcida de esperança. Principalmente depois do tropeço diante do Manchester City durante a semana, pela Champions League. O time parecia ajustado e isso seria ótimo para dali uns dias, quando fossem jogar a volta e definir a permanência na competição internacional.
Cora e foram para a casa da última, depois de uma ida à pizzaria para garantir o que comeriam durante aquelas horas em que passariam em casa apenas não fazendo nada específico, apenas conversando e comendo, como sempre tinham gostado de fazer, desde a época de faculdade.

, seu amigo tá mandando mensagens demais. Fala que você tá ocupada comigo.
– Ele vai notar que se eu não estou respondendo é por estar ocupada, amiga, pode ficar tranquila que eu sou toda sua hoje. – deu de ombros.
– Quando foi que ele pegou o seu número?
– A primeira vez foi quando eu bati no carro dele e aquela nave espacial que ele dirigia mal arranhou depois de eu destruir meu carro inteiro! No fim do mês passado ele começou a me seguir no Instagram e nós conversamos um pouco, ele pediu o número de novo e falou que achou que eu tinha mudado de número e por isso tinha excluído o contato, mas eu só tinha apagado o número dele mesmo e por isso a foto sumiu do WhatsApp.
– O poder dessa mulher ao apagar o número de ! – Cora implicou. – Mas parece que vocês têm conversado muito.
– Não tanto quanto parece. Ele trabalha e eu mais ainda, então conversamos as vezes, trocamos uns memes e opiniões sobre séries.
– Namoradinhos.
– Mas só se for mesmo. – deu uma gargalhada.
– Você acha que essa doença vai chegar aqui?
– Com certeza. – Cora suspirou e olhou para a amiga. – Infelizmente está se espalhando muito rápido e eu ouvi dizer que a OMS já declarou que é uma pandemia. Não sei quanto tempo vai demorar pra decretarem o fechamento de tudo, mas ficaremos em lockdown feito a Itália e a China.
– Podiam dar um jeito de parar isso antes que fique pior.
– Mas não vão. Ainda deve demorar até que tomem alguma providência.
– Acho que vou pedir meus pais pra virem pra cá antes que fechem tudo.
– Não sabemos quanto tempo esse fechamento pode durar, , imagina se isso se estende demais? Eles não podem abandonar as próprias coisas.
– Queria que isso não existisse, já tem gente demais morrendo e poderíamos ter evitado muito se tivéssemos um pouco de bom senso e alguns hábitos de higiene mais apurados.
– Você pode ir passar o lockdown, se ele acontecer, lá em casa pra não ficar sozinha aqui.
– Por mais que eu ame você e a Titi, eu vou recusar. Não sirvo pra segurar vela. E preciso cuidar da minha casinha também.
– Chame seu amigo pra passar esses dias aqui com você. – Cora implicou.
– Só se ele trouxesse o cachorro.
– Nairóbi manda te matar.
– Você acredita que ele disse que gosta do Gandía? – falou num tom ofendido.

As duas passaram mais algumas horas conversando, rindo e implicando uma com a outra. Era tarde quando foram dormir, dividindo a cama de , e ela aproveitou para ler e responder algumas mensagens que tinha recebido. Inclusive as de .

Você foi ao jogo!!!!!!!
Poderia ter me dito, teria te convidado pra ir no camarote!!!!!
E eu disse que ganharíamos!!!!!!!
Comecei a ver The Boys
Mas já começa de um jeito péssimo
Coitado do cara que tem a namorada evaporada pelo Flash azul!
Amei o episódio
Espero que os outros sejam tão bons quanto esse
Desculpa te encher de mensagens, achei que você gostaria de saber
E eu estou muito errado de gostar de alguns dos Sete?

Eu agradeço pela gentileza, mas eu não iria em um camarote em dia de El Classico, mas obrigada
E The Boys é incrível!!!! Eu adorei
Foi a Cora quem me indicou e eu achei muito boa
E depende de quem você gosta
Se estiver falando do Deep e do Homelander, você está errado

Eu não gosto desses dois
Gosto da Maeve. E do Black Noir. E da Starlight.

Mais ou menos perdoado por essas escolhas
Eu acho que gosto do Noir e da Maeve também

Eu fiquei com pena do carinha que teve a namorada atropelada
Mas a namorada dele estava na rua!!!!!
Ela seria atropelada de qualquer jeito!

, você está ABSURDAMENTE errado!
Ela não seria atropelada, ela não estava no meio da rua!!!!
O A-Train que foi um idiota
Você precisa assistir tudo pra gente conversar sobre o final da temporada

Eu devia ter descoberto isso quando estava machucado!
No começo da recuperação, eu não fazia nada além de ver séries

Você pode ver agora, com calma
E eu preciso dormir, amanhã tenho que trabalhar
E você também

Daqui quinze dias eu volto a campo com o time pra treinar
O que você acha de sairmos pra comemorar?

📰🤍⚽️
Madrid, Espanha, quarta-feira, 04 de março de 2020

Nem acreditava que tinha mesmo chamado para sair e que ela tinha aceitado. Aquilo era ótimo, mas não sabia de onde tinha tirado a coragem de repetir o convite.
Tudo bem, ela já não tinha fotos de namorado no Instagram e também já tinha falado que o relacionamento acabara há alguns meses, mas saber daquelas informações era uma coisa, agir e chamar pra sair tinha sido outra totalmente diferente.
aceitou com certa demora. Disse que tinha dormido antes de responder, mas não fez rodeios, aceitou sair e perguntou se ele tinha alguma ideia de dia e lugar. Claro que no momento em que ela fez isso, ele já tinha perguntado a Isco e a Sergio sobre onde poderiam se encontrar e os dois, depois de zoarem bastante com a cara dele, tinham decidido ajudar e deram o nome do restaurante, um local bem discreto e não seriam perturbados por fãs e nem por fotógrafos que vez ou outra decidiam tomar conta da vida dos jogadores do Real Madrid.
E, naquele momento, estava na frente do espelho, estava tão nervoso que parecia nunca ter saído com uma mulher em um encontro na vida. Parecia um adolescente. E isso fazia Igor se divertir bastante observando o irmão.

– Pare de rir de mim. – reclamou, olhando-se no espelho pela sétima vez procurando algum defeito na roupa ou em si mesmo.
– Você está ótimo, , pare de procurar defeitos na roupa ou em você. E saia logo!
– Estou adiantado demais.
– Só dez minutos. Vá no banheiro e saia, porque você vai se atrasar.
– Por que eu estou tão nervoso? – resmungou, virando-se para o irmão e tinha uma expressão tão engraçada que Igor não conseguiu conter a gargalhada.
– Você quer impressionar a , a acha incrível e isso faz com que você fique nervoso por achar que não vai conseguir. Mas você vai, porque se ela aceitou, significa que ela também acha que você é algo além do jogador . Pelo que você me disse, não faz o tipo interesseira e nem fofoqueira.
– Você anda lendo muitos livros de autoajuda. – implicou com o irmão, mas sorriu agradecido. – E ela não é mesmo desse tipo, a tem uns três ou quatro prêmios de jornalismo e nunca foi fazendo fofoca ou inventando coisas. Ela é ótima no que faz, já ouvi e já li diversas coisas. Ela é incrível.
– Justamente. Então seja apenas você mesmo, . Ela já conhece um pouco do que você é fora do trabalho, pelas mensagens que vocês vêm trocando e pela forma como conversam pessoalmente.
– Quando foi que você ficou tão bom em dar uma palavra de amor e conforto? – implicou, mas tinha um sorriso grato no rosto. – Obrigado.
– Agora vá logo no banheiro e saia dessa casa pra buscar a . Você vai se atrasar.

não demorou muito a sair de casa e seguiu o trajeto recomendado pelo GPS até a casa de . Uma vizinhança agradável, tinha gostado do local, das árvores na rua e de como tudo parecia tranquilo e calmo.
Enviou uma mensagem avisando que tinha chegado e menos de dois minutos depois, estava saindo no portão. Usando um vestido preto justo de mangas longas e que ia até os joelhos, uma bolsa a tiracolo, os cabelos soltos, uma maquiagem muito bonita com um batom vermelho vibrante e muito bonito. Ela estava ainda mais linda do que o habitual. abriu a porta do carro e sentou ao lado de , antes que ele tivesse a reação de sair do carro e abrir a porta para ela.

– Boa noite. – foi a primeira a falar, sorrindo de um jeito tão animado que sentiu-se contagiado.
– Boa noite. – respondeu. – Eu ia abrir a porta, mas você foi mais rápida.
– Deixo isso pra volta. – ela sorriu. – E então vamos?
– Claro.
– Você está bem?
– Estou sim. Intensificando os treinos pra me juntar ao grupo em breve. E você? – falou, guiando o automóvel pelo caminho até o restaurante.
– Estou bem, um pouco surpresa com o convite, na verdade. Espero que não tenham fofoqueiros por lá.
– Pelo que Isco e Sergio disseram, é um lugar bem reservado. Isco foi diversas vezes com a Nina antes deles se assumirem.
– Posso fazer uma pergunta indiscreta? Mas eu morro de curiosidade…
– Eu acho que já sei sobre o que é, mas diga…
– Você e a Marina tiveram alguma coisa?
– Sabia! – gargalhou, mas não olhou para . – Não, não tivemos. Aquele dia, Nina estava passando por um momento difícil e foi encher a cara pra afogar as mágoas. E calhou de eu estar lá também, o que foi ótimo, porque ela bebeu demais e saiu de lá muito mal, dei carona pra ela não precisar pegar UBER ou táxi naquele estado e correr o risco de algo ruim acontecer. Só que tiraram fotos em ângulos muito suspeitos e ficou parecendo que a gente se agarrou a noite toda, mas não foi o que aconteceu.
– Ah, entendi… não que seja da minha conta, não é, mas eu achei que vocês tivessem um lance.
– Único jogador capaz de quebrar a regra de ouro da Nina foi o Isco. E, em todo caso, por mais que ela seja linda, não faz meu tipo. E eu também tenho minhas regras sobre não ficar com mulheres que tenham algum laço com algum dos meus companheiros.
– E qual seu tipo?
– Fisicamente falando? Não tenho um tipo.
– Isso nem fez sentido, . – riu ao falar. – Todo mundo tem um tipo, por mais que não considere que isso seja a parte mais importante.
– Sim, eu sei. A gente primeiro se apaixona pelo que vê e depois pelo que a pessoa é, mas não posso dizer que tenho um tipo, todas as mulheres com quem me relacionei foram bem diferentes fisicamente falando. – deu de ombros, olhando rapidamente para ao final de sua fala.
– Talvez tivessem e você não tenha reparado. Vai que você é daqueles que só namora mulher com pé bonito? – brincou, fazendo dar uma gargalhada.
– Eu usaria isso como um requisito para me aproximar de qualquer mulher, com certeza. Esses caras que gostam de pé são bem… diretos nesse ponto.
– É, isso é…
– Então fisicamente falando, acho que não tenho um tipo, mas eu gosto de mais calma sabe? Nina é um furacão. Não que isso seja ruim, não me entenda mal, mas eu, , gosto de calma, não monotonia, mas calma.
– Acho que entendi. – falou e deu um sorriso pequeno, estavam chegando ao restaurante. – Você acha que tem algum risco?
– De sermos vistos?
– Não, eu digo por causa do corona vírus.
– Acredito que não, eles devem ter um protocolo de higiene. – deu de ombros, entrando no estacionamento do local e parando na primeira vaga livre que encontrou.
– Posso descer ou você quer abrir a porta? – brincou e riu.
– Você é muito debochada. – respondeu num riso nasalado. – Mas eu abro.
– Então faça o favor, estou com fome. – deu uma risada e não demorou a sair do carro para abrir a porta e logo os dois estavam saindo do estacionamento para entrar no restaurante.
Um local bonito, aberto e arejado, muito diferente do que tinha imaginado. Quando Isco e Sergio falaram que era bem reservado, achou que era algo bem mais intimista, recluso e escuro. Mas o local era amplo, aberto e muito bem iluminado.
Foram guiados até a mesa reservada e afastou a cadeira para que sentasse, fazendo-a rir baixo, mas sorrir agradecida. O garçom só foi até a mesa para deixar o menu quando foi chamado e só retornou para anotar os pedidos quando foi novamente solicitado.
– E então, você gosta de relacionamentos calmos? – falou, quando o garçom já tinha deixado a mesa para solicitar os pedidos na cozinha.
– Eu acho que me expressei mal, não sei… eu não quis dizer monótono. Eu quis dizer… calmo. Eu não sei explicar. – soou frustrado, fazendo sorrir e assentir.
– Um amor tranquilo, acho que é isso que você quis dizer. Nada que doa ou que seja um furacão de emoções e reações, mas que tenha tranquilidade e as coisas não sejam tão… fervorosas, mas sem ser monótono e totalmente parado. Que a outra pessoa não seja apática, mas que também não seja tão efusiva.
– Isso! Você é realmente boa com palavras e pra se expressar.
– Eu faço o possível. – sorriu. – Mas me conte, você viu o filme?
– Claro que não. – deu uma risadinha nervosa.
– Por quê?
– Não existe a menor chance de eu assistir um filme de terror, .
– O filme é horrível, . Eu senti sono e raiva por ter perdido quase duas horas.
– Eu não vou assistir Atividade Paranormal!
– Quer um resumo? É simples: os espíritos gostam de derrubar as vasilhas da casa e toda empregada é latina, eles usam isso de uma forma xenofóbica e aí depois o espírito vai embora e volta em outro lugar. Fim.
– Me lembre de nunca deixar você escolher um filme pra assistirmos.
– Então quer dizer que vamos assistir filmes juntos? – perguntou e sentiu as bochechas queimarem.
Queria se enfiar num buraco e se esconder eternamente.
– Bom… depende de você.
– Podemos pensar nisso caso você admita que ninguém em sã consciência e com um pingo de moral pode gostar do Gandía.
– Me senti ofendido. – fingiu, mas sorriu de um jeito travesso. – Só assumo isso quando você admitir que reggaeton é muito melhor do que qualquer outro ritmo musical.
– Então acabamos por aqui. – falou, fingindo que se levantaria. – Os outros ritmos são todos muito interessantes.
– Faça uma playlist.
– Considere feita. – sorriu ao falar.
O jantar decorreu de forma agradável entre os dois, que conversaram quando sentiram vontade e não apenas para preencher vazios constrangedores. Não houve nenhum vazio constrangedor, na verdade, apenas silêncios agradáveis para desfrutarem da companhia um do outro e do lugar. Depois de finalizarem o jantar, seguiram para o estacionamento, adiantou-se dois passos quando se aproximaram do carro para abrir a porta e não pode deixar de rir.

– Você não bebe nada mesmo? – perguntou quando já estavam a caminho da casa dela.
– Eu não gosto de álcool.
– Você é uma surpresa, .
– Eu nunca fui adepto de beber, mesmo já tendo experimentado, não gosto do sabor, acho horrível. – deu de ombros, sem desviar os olhos da rua.
– Não existe a menor chance de você ser de verdade.
– Eu sou. – sorriu. Estavam chegando à casa de e ele não queria dizer tchau e ele só voltou a falar quando estacionou o carro à porta da casa dela. – E então, nosso jantar de comemoração pelo meu futuro retorno foi bom?
– Excelente. – sorriu e percebeu que ela estava sendo sincera. – Mas confesso que quando você disse que seria um local reservado, pensei que seria bem diferente. Um lugar em que pessoas vão com os amantes e se escondem bem.
– Provavelmente isso acontece, mas eu também admito que achei que seria um local bem diferente.
– Mas foi ótimo. Adorei.
– Podemos ir lá de novo na próxima vez.
– Agora você está me devendo um filme. – deu um sorriso ao falar.
– Que eu escolherei.
– Se for ruim, eu te bloqueio.
– Você não faria isso com o jogador de futebol mais legal do Real Madrid.
– Marcelo, Casemiro e Vinicius Júnior mandam lembranças.
– Mas eu sou o mais bonito.
– Kroos, Ramos e Hazard mandam lembranças. – implicou.
– Eu posso te beijar? – perguntou de repente, ficando surpreso ao ouvir aquelas palavras escapando tão livremente.
– Estamos em estado de alerta por causa dessa pandemia,
– Prometo que eu não tenho a menor chance de ter isso.
– Eu acredito que eu também não.
– Pois é… – falou e deu uma risadinha nasalada.
– Você é muito difícil, .
– Depende do ponto de vista. – sorriu, aproximando-se de e a beijou.

Catorce

“Esta cuarentena se me está haciendo una condena, no tenerte me envenena…” (Abraham Mateo – Esta cuarentena)

Madrid, Espanha, domingo, 08 de março de 2020

 

Você vai cobrir o jogo hoje?

Não, hoje eu estou em casa
Pq?

Isco não foi pro jogo e ele e a Nina nos chamaram pra ir assistir com eles

Você quer me apresentar seus amigos???
Parece sério…

Só se você quiser ir, não é uma obrigação
Mas eu queria muito te ver

Tudo bem, me mande o endereço e o horário

Eu te busco

Preciso levar algo?

Acho que só cerveja se você for beber
A comida ficou por conta dos dois

Que horas você chega?

Seis e meia

Estarei esperando
Nos falamos quando vc chegar
Vou enviar o pré-jogo pra rádio agora

Depois do jantar, os dois se viram uma única vez em Valdebebas, de longe e apenas acenaram um para o outro. As conversas continuaram mensagens diárias e durante horas, sem contar uma vídeo-chamada, mas queria vê-la pessoalmente, estar perto dela.
não demorou a chegar até a casa de , que também não demorou a sair quando ele mandou uma mensagem avisando que tinha chegado. estava com uma camisa do Real Madrid azul da temporada 17/18, mas ele não conseguiu ver o nome que estava escrito, uma calça jeans clara mais larga e com as barras dobradas e um All Star branco nos pés.
E três caixas de Heineken. Trinta e seis garrafas de cerveja.

– Você bebe tanto assim? – perguntou um pouco surpreso e deu uma risada antes de inclinar-se para beijar os lábios de rapidamente.
– Bebo, mas estou levando cerveja pra todo mundo. Não era isso?
– Não. – riu. – Mas a Nina bebe muito, então isso aí vai rapidinho.
– Se eu tiver que beber pra esquecer uma derrota, , você não volta a treinar com o time, porque eu matarei todos.
– Eu não tenho absolutamente nada com isso. – falou rindo. – De quem é o nome nas costas da camisa?
– Kroos.
– Antônio? Que absurdo!
– Ele é ótimo, deixe de ser chato.
– Não discordo, mas podia ser a minha… – falou num tom infantil.
– Vamos trocar então, você assiste com essa aqui e eu uso essa sua.
– Sua blusa não vai caber em mim.
– Então não reclama. – falou rindo e deu uma gargalhada.
– Você tem uma minha?
– Ainda não.
– Ainda não. – ele deu um sorriso ao repetir.

O caminho até a casa de Isco foi razoavelmente rápido e ao som de uma playlist de reggaeton que tinha escolhido e era devidamente cantada pelos dois enquanto trafegavam pelas ruas de Madrid, não demoraram a chegar e entrar no condomínio em que Isco mora, já autorizados na portaria.
estava um pouco ansioso por aparecer com na casa do amigo. Tudo bem, ela já o conhecia e tinha sido um convite para os dois, mas aquilo não era muito… oficial? Não que não quisesse que se tornasse oficial, queria, mas dava um caráter sério a algo que mal tinha começado e isso poderia passar a impressão errada para .

! – Marina abriu a porta e cumprimentou, ignorando totalmente a presença de ao lado da mulher. – Ainda bem que você aceitou vir. Eu sou a Marina. Nina.
– Então você é a famosa Marina. – sorriu. – É um prazer conhecê-la.
– Famosa? – Marina fez uma careta ao falar, dando espaço para que os dois entrassem e fechou a porta atrás de si. – Se for pelos jornais, é mentira. Se for pelo meu irmão, é mentira. Se for pelo Isco, é mais mentira ainda!
– E se for pelo ?
– Se ele falou que eu danço bem, é mentira também. – Marina riu. – Venham, vamos lá pra fora. , você faça o favor de trazer essas cervejas pra eu colocar pra gelar logo pra começarmos bem o pré-jogo.
– Oi Nina, tudo bem? Quanto tempo! Eu estou bem, obrigado. E você? Como estão as coisas?
– Deixe de ser carente, garoto. – Marina rolou os olhos, mas sorriu. – Venham logo.
não teve tempo de responder como queria, porque Marina já tinha saído andando com ao seu lado e as duas falavam sobre o que achavam que o jogo seria e pareciam se conhecer há anos pela forma que conversavam.
Cumprimentou Isco, Santiago e Amelie quando chegou ao exterior da casa, colocou as cervejas no gelo e foi sentar com os outros cinco, entre e Santiago, que já esperavam por ele.
– Eu acho que estamos ferrados com Marina e assistindo ao jogo juntas. – falou rindo. – já me ameaçou quando estávamos vindo.
– Nina disse que vai matar todos nós se o time perder.
– Amelie também falou algo sobre matar vocês. – Santiago endossou o coro. – Fico feliz que não sou jogador, sobraria pra mim e eu sou bonito demais pra morrer.
– Eu ainda estou machucado e não tenho absolutamente nenhuma ligação com uma derrota se eu não estiver em campo. – reclamou e Marina deu de ombros.
– Você é do elenco, , ou seja… – Amelie falou séria e as outras duas concordaram.
– Você vai matar seu irmão e seu namorado, Marina? – perguntou e ela assentiu.
– Ao contrário do Bale, o Madrid é em primeiro lugar pra mim, . – Marina falou, fazendo Amelie e gargalharem.
Entre uma cerveja e outra, os seis conversaram um pouco antes do jogo e, quando a partida se iniciou, as atenções foram todas para a televisão. O jogo era em Sevilla contra o Real Betis e a única coisa que todos eles queriam era a vitória do Madrid, precisavam manter a liderança do campeonato para criar uma distância considerável do Barcelona, se queriam mesmo levantar aquela taça.
Mas o time da casa foi quem abriu o placar no fim do primeiro tempo, com o brasileiro Sidnei. Nos acréscimos do primeiro tempo, Karim Benzema marcou o gol de empate do time merengue em cobrança de pênalti e o jogo foi para o intervalo empatado. Um empate não seria bom, mas seria menos ruim que uma derrota.
Porém, aos trinta e sete minutos do segundo tempo, o Real Betis ampliou o placar, com o gol saído dos pés do espanhol Cristian Tello. E, mesmo que o Real Madrid tivesse tentado e jogado com mais volume e intensidade, não conseguiu reverter o resultado negativo. E o jogo ficou naquele 2 a 1, três pontos e a liderança perdida. O Real Madrid deixou a liderança escapar por entre os dedos em um jogo com tantos vacilos e desperdícios.

– Gosto dessa versão de All I Ask. – falou e Marina sorriu.
Estavam sentados na varanda, munidos de cervejas e aperitivos para conversar um pouco depois de terem ficado tensos e nervosos assistindo ao jogo.
– É do Aaron Tveit. Ele é ótimo.
– Aquele bonitinho que você me mostrou? – Amelie perguntou e Marina assentiu.
– Também acho Aaron ótimo e super talentoso. Ele tem uma voz incrível, adorei Les Miserables e gosto muito das músicas que já o ouvi cantando. – concordou.
– Eu fui a um musical dele e de uma amiga há uns anos lá em Londres, Assassins, não sei se você já ouviu falar. – Marina falou e a olhou, assentindo.
– Eu quis ir, mas estava presa trabalhando e não consegui, infelizmente, porque ouvi dizer que foi ótimo. – resmungou. – Esse foi o com a Adelaide, Addie, certo? A da realeza?
– A própria! Addie é incrível! Ela é a amiga que falei.
– Vocês mulheres todas se conhecem? – Isco perguntou e deu uma risada.
– Claro que não, mas há mulheres que é uma obrigação do ser humano conhecer. E a Addie é uma dessas. – respondeu.
é minha pessoa favorita das pessoas presentes nesse local. – Marina sorriu ao falar.
– Eu ficaria ofendida, mas ela também é a minha pessoa favorita desde bem antes de entrar nessa casa. – Amelie falou dando uma risada. – Melhor pessoa e madridista mais sensata do mundo inteiro.
– Vocês são todas doidas, então faz sentido que gostem umas das outras mesmo. – implicou, abraçando pelos ombros.
– Enfim, como eu estava dizendo… – Marina retomou a fala. – Aaron é ótimo, espero que ele venha pra Madrid com a Lola, com ou sem musical. Eles são ótimos e ela é uma gracinha.
– Você quer ser babá de uma criança da realeza? – Santiago implicou e Marina deu uma risada antes de assentir.
– Imagina o pagamento… – falou e Amelie concordou.
– Aaron não é tão rico assim, então talvez eu é quem tenha que pagar pra cuidar da Lola. – Marina brincou, fazendo os outros rirem.
– Eu acho que isso é contra as normas deles, não? – Santiago perguntou.
– Desde quando Addie e Aaron seguiram as regras daquela família? – Marina riu.
– E ela poderia vir também.
– Isso já não dá pra garantir, aquele pessoal tem umas regras estranhas de viagem dos integrantes da Família Real. Nem a Lola deve poder viajar assim. – Marina falou, fazendo uma careta.
– Acho que é preciso fazer até faculdade pra ser babá das crianças da Família Real. Eu li algo sobre isso há um tempo. – Amelie falou num tom pensativo.
– Talvez as famílias reais se comuniquem e a daqui receba a inglesa pra um chá e um musical. – Isco deu de ombros.
– Ou um jogo do Madrid. – Marina riu. – Harry tinha dito que queria uma revanche, coitado. Torce pro Arsenal e tem esse tipo de desejo contra o Madrid.
– Espera… Harry? Harry… O Harry? Aquele irmão do Willian? O filho da Princesa Diana? O PRÍNCIPE HARRY? – Isco perguntou perplexo e Marina assentiu.
– Obviamente, mi amor, eu não conheço outro Harry. Nem o Kane, nem o Styles, nem o Judd e nenhum outro. Então teria que ser esse Harry aí mesmo.
– VOCÊ CONHECE O PRÍNCIPE HARRY, MARINA? – e Isco perguntaram juntos, perplexos, e Marina assentiu, dando um sorrisinho.
– Que diabo de sorriso é esse, Ramos? – Isco perguntou, fazendo Marina rir alto.
– Nada, amor. Só conheço o Harry. – deu de ombros. – Quando conheci Aaron e fui ver a estreia da Addie, Harry estava conosco.
– Eu acho que tenho medo do que está por vir depois disso. – Isco falou, fazendo Santiago dar uma risada alta e tomar um gole da cerveja logo em seguida, fazendo Amelie e rirem junto, entendendo bem o que viria a seguir.
– Passado é passado, amor. Ele está casado, eu estou namorando o melhor jogador nascido e criado em Málaga…
– Marina?? – Isco olhou perplexo, num tom que subiu uma oitava tamanha a surpresa em sua voz. – Você…
– Aham. – Marina voltou a dar de ombros como se não fosse nada de excepcional. – Mas isso não é da conta de ninguém e é passado.
– Meu Deus do céu! – Isco falou num tom que beirava o desespero e que só fez os demais rirem. – Como assim você já beijou o PRÍNCIPE HARRY??
– Isco, a gente nem se conhecia de verdade nessa época. – Marina riu. – Acho que eu te conheci pessoalmente quando ganhamos a Champions daquela temporada, mas eu não tenho certeza se foi naquele mesmo ano.
– Você já esteve prestes a ser da Família Real! – falou surpreso.
– Deus me livre! – Marina gargalhou. – Aquele pessoal é estranho demais. Até pra mim. Foi só um lance, um dia e só.
– Seu irmão sabe disso? – perguntou dando uma risadinha nasalada.
– Ah, mas é claro que sabe… ele inclusive amou saber que o Príncipe Harry fez coisas com a irmã dele. – Marina respondeu debochada, arrancando uma gargalhada quase geral.
– Eu também não estou gostando de saber que o Príncipe Harry fez coisas com a minha namorada.
– Isco, deixe de ser ridículo. – Marina riu. – Estávamos bêbados demais.
– Como sempre. – Santiago implicou, recebendo um dedo do meio em resposta.
– Por que você não me contou isso antes??
– Porque quem gosta de passado é museu, mi amor. Eu não fico te perguntando das coisas do seu passado, porque não acrescenta em nada no nosso namoro.
, eu sei que você não escreve fofocas, mas eu imploro por uma página inteira do Marca amanhã falando sobre a DR entre Nina e Isco, causada pelo Príncipe Harry, depois deles ouvirem um cover de Aaron Tveit! – Santiago falou rindo e assentiu, rindo junto.
– Vou ligar pra redação agora mesmo e agilizar tudo. Juntem-se, vou tirar uma foto pra colocar. Marina, finja que está batendo no Isco, esse tipo de coisa dá clique e ibope pra história. – brincou, fazendo os outros rirem.
– Eu escolhi um péssimo dia pra te apresentar alguns amigos. – falou baixo no ouvido de e ela sorriu, virando-se em sua direção.
– Mas eu gostei.
Já era bem tarde quando os visitantes foram embora. tinha certeza de que se arrependeria amargamente de dormir tão tarde sendo que teria que acordar bem cedo, o que faria acompanhada de poucas horas de sono e uma ressaca. Mas tinha sido ótimo sair para ver o jogo com os amigos de e conhecê-los.
– Boa noite? – perguntou ao parar o carro na entrada da casa de .
– Quer entrar?
– Você não precisa dormir cedo?
– Já está bem tarde, não vou dormir muito, então se eu nem dormir não vai mudar muita coisa. – deu de ombros e deu um sorrisinho pequeno.
– Tudo bem, mas não sei se fico. Não tenho roupa aqui pra ir pra Valdebebas.
– Você tem que treinar cedo?
– O treino começa as dez.
– Essa hora eu já estarei no Marca há duas horas, dá tempo de você ir na sua casa pra buscar uma roupa para o treino.
– Você vai me enxotar cedo?
– Claro. – deu uma risadinha. – Vou abrir o portão e você coloca o carro lá dentro.
– Você tem certeza?
– Quer deixar o carro na rua?
– Não, eu falo sobre eu ficar.
– Você não quer?
– Quero.
– Então nós dois temos certeza. – falou, dando um sorriso, e não negaria nem que quisesse.

📰🤍⚽️
Madrid, Espanha, quarta-feira, 25 de março de 2020

Em casa.
estava presa em casa há doze dias. Trabalhando de casa desde a sexta-feira, 13 de março, porque o lockdown foi decretado e ninguém podia sair de casa a não ser que fosse extremamente necessário. Tudo estava fechado na Espanha e em boa parte da Europa naquele momento.
O corona vírus tinha chegado ao país e não tinha sido com calma, pessoas estavam entubadas e morrendo às centenas por dia, as coisas estavam bastante sérias e, por enquanto, essa era a medida de contenção da propagação do vírus que tinha sido encontrada pela OMS e pelos governos ao redor do mundo para conter a doença.
Desde o dia em que tinha dormido em sua casa, não o vira pessoalmente. Não fora a Valdebebas, já que a presença de jornalistas foi proibida naquela semana, La Liga foi interrompida na segunda-feira, 09 de março, e não faziam ideia de quando o campeonato voltaria, naqueles dias, apenas ventilavam a ideia de um lockdown que talvez nem acontecesse.
E, bom, foi o que aconteceu.
trabalhou até a quinta-feira na redação e a partir da sexta-feira estava trabalhando de casa, trancada, depois de comprar comida e outras coisas que fossem suficientes para passar o mês sem precisar sair de casa se não fosse um motivo extremamente importante e que envolvesse a possibilidade de morrer caso não saísse.
Quando encerrou o expediente – agora bem encurtado e sem muito o que falar, pois os campeonatos estavam parados pelo mundo – esticou-se de forma preguiçosa e saiu da cadeira, depois de desligar tudo, e seguiu lentamente para a cozinha. Precisava cozinhar alguma coisa, não existia delivery naquele momento, era cada um por si e os canais de culinária no YouTube por todos.
e tinham começado a fazer chamadas de vídeo perto da hora de dormir, passavam algumas horas se falando, por vezes assistiam séries ou filmes juntos e estavam sempre conversando. Os dias estavam muito mais longos do que costumavam ser, as horas pareciam duplicadas e eles lidavam com o momento da melhor forma que podiam.
O celular tocou em seu bolso e um sorriso se abriu em seu rosto automaticamente, antes mesmo que visse quem era o autor da chamada. Sabia que seria e estava ansiosa por isso, mesmo que tivessem trocado mensagens durante boa parte do dia.

– Você ainda está trabalhando? perguntou assim que ela atendeu a chamada de vídeo.
– Acabei agora. – respondeu, dando de ombros. – Como você está?
– Bem, já entediado de tanto ficar em casa e não poder ir nem ao portão, mas bem. E você?
– Eu também estou bem e entediada. – deu uma risadinha. – Preciso fazer algo pra comer. Estou atrasada pra assistirmos Vis a Vis?
– Não, ainda tem um tempinho. Quer que eu desligue agora pra você comer e podermos assistir?
– Posso colocar o telefone em algum lugar enquanto pego o que sobrou do almoço pra comer. – deu de ombros.
– E o que foi que você comeu?
– Salada de legumes com atum. E você?
– Salada de legumes com frango. Igor faz uma incrível.
– Estou vivendo de comer coisas fáceis de fazer, não tive o despertar de cozinheira.
– Eu devia ter pedido pra você vir passar a quarentena morando aqui em casa comigo. Que saco. resmungou.
Cariño, por mais que eu aprecie o que você quis dizer, eu não iria. Eu tenho minha própria casa.
– Eu sei. suspirou. – Só… estou sentindo falta de ficar perto de você.
– Eu também.
– Deveríamos ser vizinhos de muro, eu pularia o muro todo dia se você quisesse me ver.
– Com certeza eu aceitaria sua visita pelo muro, porque além de estar um tédio ficar sozinha o dia todo dentro de casa, eu também queria muito te ver pessoalmente.
– Será que isso ainda vai durar muito tempo?
– Foram apenas doze dias, . Treze, não sei. Já perdi as contas. – deu uma risadinha abafada, colocando o celular encostado em alguns vidros de tempero enquanto ia até a geladeira buscar algo para comer.
– Mas será que serão muitos mais?
– Acho que sim, pelo menos uns quarenta…
– Deus me livre! Quarenta dias? Eu vou morrer de saudades.
– Deixe de ser dramático. – deu uma gargalhada, voltando sua atenção para a tela do celular. – Você viveu muito bem vinte e três anos da sua vida sem mim, quarenta dias não vão te matar.
– Vivi vinte e três anos, mas agora que eu conheço você, é impossível ficar tanto tempo assim longe. falou, fazendo-a soltar uma gargalhada tão alta quanto a anterior, mas seguida de um “awn”.
É, ela podia dizer o mesmo.

Nota da Autora: Oioi!
Infelizmente existe pandemia no Lanaverso (que veio fortíssimo com Nina e Isco) e esses dois estão afastados cada um em sua casinha, infelizmente sem poder se ver pessoalmente, mas usando a tecnologia pra amenizar a saudade… Repito que não existirão dias de luta, apenas dias de glória e um pouquinho de saudade, que é bom pra eles matarem quando se reencontrarem. Certo? Ah! A Addie e o Aaron citados existem, eles são os personagens principais de uma fanfic da Bruna (@bruni.ta lá no Instagram, bora botar pressão pra ela postar aqui também, porque a ideia de Marina dando um passeio na família real britânica foi dela!!!!)
Espero que tenham gostado, não esqueçam de comentar dizendo o que acharam e o que esperam dessa quarentena dos dois, que ficarão longe (nesse capítulo e no próximo, então o próximo também será grande pra poder passar esse tempo) e só poderão ser casalzinho conversando por mensagem e chamada de vídeo.
Aqui tem o grupo do Facebook e aqui o do WhatsApp.
Vocês também podem seguir a personagem no Instagram que tem spoilerzinho lá antes de saírem as atualizações (além de ter link das playlists também) ou/e me seguir no Twitter (mas aqui eu só surto por esportes num geral, bandas e xingo determinados presidentes não disse quais).

Quince

“Al terminar todo esto voy a buscarte, porque están por explotar todas estas ganas que te tengo…” (Danny Ocean part. Nibal, Justin Quiles y Feid – Cuando Amanezca)

Madrid, Espanha, terça-feira, 14 de abril de 2020

– Eu ouvi toda sua playlist, gostei bastante, mas eu preciso muito saber se você entende e sabe cantar as músicas do BTS! Sério, aquilo é IMPOSSÍVEL! – falou, fazendo gargalhar.
– Não sei cantar, não entendo sem as traduções da internet, mas gosto da música deles. Eles são muito bons.
– Jamais imaginei que você ouvisse isso… vou soar meio babaca, mas eu achava que era coisa de adolescente.
– Primeiro, isso de “coisa de adolescente” não existe. Segundo, eles têm fãs de todas as idades. As apresentações são incríveis, as músicas são bem legais e contagiantes. Eu ouvi um dia meio que sem querer e gostei bastante.
– Eu também achei legal, mas diferente. – deu de ombros. – Queria poder te ver pessoalmente.
– Também queria te ver, cariño, mas infelizmente ainda temos muitos dias trancafiados em nossas próprias casas. suspirou do outro lado da tela, e fez o mesmo, deitado em sua cama. – Não vamos sair desse lockdown tão cedo, ao que parece, as coisas estão péssimas.
– Deveríamos ter combinado de ficar juntos. – suspirou sentido. – Poderíamos ter combinado isso antes de decretarem o lockdown, quando avisaram que podia ser que acontecesse.
– Eu concordo, mas não posso deixar minha casa sozinha. E você não poderia deixar a sua e nem seu pai, no fim das contas acabaríamos nessa situação em que estamos, porque não tem outra saída mesmo. Sem contar que não temos tanta intimidade assim pra passar sabe-se lá quanto tempo morando sob o mesmo teto. Imagina o caos que poderia ter sido se essa ideia tivesse surgido antes? Poderia ter dado errado e acabaríamos presos um ao outro por semanas.
– É, eu sei. – resmungou. – Mas é uma merda, porque não podemos fazer nada.
– Só ter um pouco de consciência e ficar em casa, os casos e as mortes estão apenas aumentando e a única coisa que podemos fazer é ficar quietos em casa enquanto isso não diminui ou não encontram uma forma de parar essa proliferação.
– Vamos voltar a falar de coisa boa, por favor. – pediu, fazendo sorrir.
– Claro.
– Sua playlist… bem eclética.
– Eu te disse que eu sou eclética.
– Eu sei, mas não imaginei que teria de AC/DC a J Balvin. – deu uma risada ao falar, fazendo rir junto.
– Mas o que você esperava? riu.
– Não sei, mas acho que não esperava que iria de rock pauleira ao reggaeton mais exótico existente.
– Sou assim. – piscou, fazendo sorrir.
– Gosto disso. Eu gosto de reggaeton e um pouquinho, bem pouquinho, de pop.
– Abra sua mente e expanda seus horizontes, . falou, sorrindo para o mais novo.
– Faça mais playlists. Ou me apresente a algo diferente.
– Será que o pessoal do Madrid te libera pra me dar uma entrevista pro jornal?
– Como assim?
– Tenho que arrumar alguma coisa pra escrever, pensei em uma entrevista com alguém do time, você é o mais acessível no momento.
– Ah, então quer dizer que você só se aproximou de mim pra me usar? – fingiu um tom decepcionado, fazendo rir e assentir para provocá-lo. – Lamentável, . Estou devastado.
– Eu sei que você gosta.
– Não vou desmentir. – riu. – Vou perguntar e te falo. Pra quando?
– Se puder ser ainda esse mês…
– Tá.
– Pede um e-mail, eu mando as perguntas pra eles lerem antes e ver se liberam.
– Vou mandar uma mensagem e perguntar.
– Obrigada. Não quero ser mandada embora, porque não tenho muito o que fazer, já que tudo está parado.
– Você participou do rádio… foi legal.
– Mas nem tem muito o que falar, está tudo fechado, não tem futebol e nem nada pra eu falar sobre.
– Quer que eu peça pra mais alguém dar entrevista?
– Acho que não precisa.
– Certeza que tem um cara que vai amar te dar uma entrevista. – deu uma risadinha e riu alto.
– Esse vai me dar trabalho, porque vou precisar traduzir pro espanhol e ainda vou gastar todo meu inglês pra conversar com ele. implicou, fazendo gargalhar.
– Mas sério… – falou ainda rindo. – Eu pergunto se eles liberam mais atletas pra entrevistas, tipo Isco, Sergio, Nacho…
– Acho que não precisa, mas se eles quiserem depois… e nem sabemos quanto tempo isso ainda vai durar…
– Não sei se muito mais, mas no começo eu achava que isso nem chegaria aqui e nós estamos em casa há um mês.
– Pois é, pensei o mesmo quando saíram as notícias, será que ficaremos muito além do meio do ano?
– Talvez sim, mas acho que o governo deve ir liberando as coisas para voltarmos ao normal… alguns serviços vão voltar e eles devem ir abrindo algumas coisas aos poucos.
– Irresponsabilidade total, porque com toda certeza coisas extremamente desnecessárias vão abrir, as pessoas vão se aglomerar e as coisas voltarão a ficar ruins.
– Espero que permitam que eu saia de casa pra te ver.
– Resta saber se eu quero te ver. – respondeu, dando uma risadinha e arqueou as sobrancelhas e a olhou incrédulo.
– Você quer e sabe disso. – piscou e sorriu.
– Deixa de ser chato e liga logo essa televisão, já estamos atrasados pra começar a assistir o filme.

📰🤍⚽️
Madrid, Espanha, segunda-feira, 20 de abril de 2020

– Ai amiga, eu não aguento mais esse lockdown. – Cora reclamou ao telefone.
– Nem me fale. Já estou de saco cheio de ficar em casa, toda minha criatividade acabou e eu já mudei os móveis de lugar umas cinco vezes. Nairóbi já não entende como eu só fico em casa agora e meus pijamas estão todos surrados.
– Tenho a impressão de que já assisti todo o catálogo da Netflix e da Amazon.
– E sua prima, como está?
– No hospital ainda, mas melhorou bem. Ela quase morreu.
– Ainda bem que ela melhorou. Ela pegou no hospital?
– Foi sim. Dois médicos da equipe dela morreram. Foi bem tenso. – Cora suspirou. – Tem falado com seus pais?
– Conversei com eles hoje de manhã, eles estão preocupados comigo e eu mais ainda com eles, mas parece que tem uma vizinha deles que é quem ficou responsável por ir ao supermercado e essas coisas para evitar que as pessoas do grupo de risco saíam de casa. E você? Falou com sua mãe?
– Aham, ela está bem, minha irmã é quem está saindo pra fazer tudo.
– Eu preciso ir ao mercado, minha comida está acabando.
– Podíamos marcar a mesma hora, porque poderíamos nos ver à distância.
– Não vamos poder nos abraçar, não é uma boa ideia. – resmungou.
– E como anda seu namoro?
– Que namoro?
– Com o , não se faça de sonsa.
– Não somos namorados. Temos algo, mas não sério assim.
– Quero ser convidada pro casamento.
– Você é maluca. – riu. – Mas não temos nada sério, não tivemos tempo de desenvolver isso antes.
– E estão desenvolvendo agora. Vocês conversam todo dia e estão criando intimidade e confiança. Sei que falta o elemento presencial, o que teria acontecido se não existisse uma pandemia, então o relacionamento está sendo muito bem desenvolvido.
– Você está muito desocupada. – riu.
, vocês conversam todo santo dia, estão desenvolvendo mais do que apenas atração física. Sem contar que vocês já entraram nessa por causa dessa coisa de conversar muito e não coisas profissionais. Ele enxerga além da do Marca, você enxerga muito mais do que o do Real Madrid, o que facilita que vocês falem um com o outro sem a barreira do profissionalismo.
– Vou entrevistá-lo amanhã pro site. – deu uma risadinha ao falar. – E, sim, concordo, nós estamos um degrau acima desse profissionalismo.
– Um? – Cora deu uma gargalhada. – Eu diria que vocês estão a uns quarenta degraus acima. E eu preciso ir agora, Martina precisa de um remédio pra cólica e eu preciso ir comprar.
– Tudo bem, amanhã nós conversamos mais. Estou sentindo sua falta demais.
– E eu a sua, , logo voltamos ao normal.
– Tomara. – falou e a ligação foi encerrada.

O celular vibrou em alerta de mensagem quando preparava-se para deixar o aparelho no sofá e viu que eram mensagens de . Involuntariamente um sorriso surgiu em seu rosto.

Amanhã faremos essa entrevista por vídeo?
Vai pro site o vídeo?

Isso, em vídeo e o que vai pro site é o vídeo editado, porque provavelmente eu corte algumas perguntas

Então não posso ficar sem camisa…
Que absurdo!

Pode sim, vai aumentar os cliques e me dar um pouco de dinheiro

Mas as pessoas vão se distrair me vendo e vão ignorar a entrevista

Não ligo, gera clique mesmo assim

E vc vai deixar as outras pessoas me cobiçarem?

Por cliques no trabalho? Com certeza!
HAHAHAHAHAHAHAH

Vc é ridícula

Sou, mas você gosta

É, eu gosto mesmo

📰🤍⚽️
Madrid, Espanha, domingo, 26 de abril de 2020

– Vocês estão parecendo dois mendigos. – implicou.
Estava em uma chamada de vídeo com Sergio Ramos e Isco, coisa que não fazia há tempos, e observava os amigos que estavam com os cabelos e barbas bem maiores que o habitual.
– A gente não tem culpa se você é um bebê e não tem barba pra deixar crescer. – Isco respondeu num tom desaforado.
– E eu não tenho culpa de ter chuveiro em casa e saber como usar, diferente de vocês.
tá todo engomadinho, porque o namoro dele é recente. Se já estivesse acostumado, já teria ficado mais relaxado. – Isco implicou.
– Ah, mas você vai fazer essa barba hoje, Francisco. – ouviu a voz de Marina ao fundo e segurou para não gargalhar. – E tomar um banho com cloro, tá precisando.
– Sergio, leva sua irmã embora daqui. Eu imploro. – Isco resmungou, fazendo o mais velho gargalhar.
– Demorou muito tempo pra eu me livrar dela, você que aguente. – Sergio riu ao falar com o cunhado. – E foi você quem quis quebrar a regra dela, se vire.
, você tem que continuar sendo a salvação desse trio, porque parece que é o único que toma banho. – Marina apareceu na tela ao lado de Isco. – merece que o namorado dela seja limpo e cheiroso.
– Não somos namorados, Nina.
– E ela está fazendo a quarentena com você? – Sergio perguntou e o mais novo negou.
– Não a vejo desde… acho que o dia na casa do Isco. A gente tem se falado por vídeo, apenas. Todos os dias, mas só por vídeo.
– Por que não ficaram juntos?
– É como ela falou, não temos intimidade suficiente pra passar esse tempo juntos, porque não sabemos quanto mais isso vai durar e podia ficar muito ruim a situação. Estamos amadurecendo esse… lance, não sei como nomear o que temos, porque não é um namoro, mas também não é qualquer coisa, e acho que depois que o lockdown acabar, nós podemos ver isso com mais calma.
– Que gracinha. – Marina falou, sorrindo.
– Nina, vai trabalhar. – Isco enxotou a namorada e pegou o celular de volta. – Essa chamada é do trio, você não faz parte do trio.
– Ainda bem, porque coitado do ter que ser amigo de dois aspirantes a nômades, porque sinceramente. pelo menos tem o mínimo de higiene razoável que se exige de um ser humano. – Marina falou, beliscando Isco de leve. – Sese, avisa pra Pilar que mais tarde vou ligar pra ela. Tome banho e faça essa barba, pelo amor de Deus.
– Sua irmã é insuportável. – Isco reclamou. – E o pior é que isso só faz com que eu a ame ainda mais.
– Você é bem mais insuportável que ela. – falou num tom provocativo.
– Sou. – riu, concordando. – Enfim, retomando o assunto… eu achei que você e a ficariam juntos nessa quarentena, mas isso de não ter intimidade faz sentido, mesmo que vocês pareçam se dar super bem.
– É, eu sei, mas é bem diferente… vocês estão acompanhados e, com certeza, nesse mês vocês já brigaram mais do que o normal e olha que têm bastante tempo de convívio com Pilar e Nina e se conhecem bem mais, e eu não temos tanto tempo assim e poderia dar errado o que nem começou direito.
– Será que esse lockdown vai durar muito tempo ainda? – Isco foi o responsável pela pergunta.
– Espero que não, mas acho que vamos ficar em casa até o fim do mês que vem, provavelmente. Os números estão bem ruins. – Sergio respondeu, suspirando.
– Eu tenho evitado jornais, eu estava ficando surtado vendo aquelas coisas todas. – falou, suspirando. – Inclusive, minha entrevista com a pro Marca sai essa semana, espero que vocês leiam e depois me elogiem.
– Narcisista. – Sergio riu. – Eu sou o capitão, eu deveria ser entrevistado também.
– Eu sou o mais bonito do elenco, eu deveria ser entrevistado.
– Isco falou, imitando o tom de Sergio Ramos e os outros dois gargalharam.
– Depois dessa eu vou mesmo tomar banho. – Sergio gargalhou.
– Coitado, não tem um espelho em casa.
– Nina fica iludindo o Isco falando que ele é lindo… dá nisso.
– Ah, vão se foder vocês dois.
– Isco falou, causando ainda mais risos.
– Vamos jogar FIFA online? – ofereceu, fazendo os outros dois assentirem animados em concordância.
– Finalmente uma boa ideia. – Isco implicou.

“Podemos conversar só mais tarde? Estou numa reunião com meu chefe e acho que vai durar um pouco mais do que eu imaginei. E, sim, reunião no domingo. O proletariado precisa mesmo se revoltar… enfim, te ligo quando pudermos falar em paz (se você também estiver desocupado), beijos”, dizia a mensagem de , que leu pela barra de notificações.

– Pela cara de bobo, vai abandonar o FIFA e ir namorar. – Isco implicou.
– Ao contrário de nós três, trabalha. – riu. – E anda logo, quero acabar com a raça de vocês no videogame do mesmo jeito que faço em campo.

📰🤍⚽️
Madrid, Espanha, segunda-feira, 04 de maio de 2020

ainda estava lendo vários feedbacks da entrevista com que foi ao ar no site do Marca e que estava rendendo bastante. Tinha sido a primeira a conversar com ele após a lesão, com total autorização do Real Madrid, que apenas pediu para não entrar muito no que planejavam para o documentário que estavam filmando, o que foi prontamente atendido.
Perguntou sobre a lesão, claro, sobre como vinha sendo o tratamento e qual o sentimento dele após aquela parada que atrasava tanto seu retorno, as expectativas… uma entrevista bem leve e até rápida, mas suficiente para ser reproduzida em diversos sites pelo mundo e para render vários elogios do chefe, mas não se impressionava, sua fase deslumbrada já tinha passado há tempos e ela agora apenas trabalhava por amor à profissão, não aos louros que poderia conquistar.
Já tinha conversado com naquele dia, bem mais cedo do que de costume, ficou horas com Cora no telefone e depois falou com os pais. Partiu pra uma sessão de yoga no quintal, aproveitando o sol daquele belo dia de primavera, para esticar um pouco os músculos e depois de um bom banho, estava no sofá para assistir alguma coisa.
Estava de saco cheio de ficar em casa. Algumas coisas estavam voltando a funcionar, o Real Madrid testaria seus atletas no dia seguinte e, seguindo protocolos, voltaria a treinar a partir do dia onze, com grupos pequenos de atletas em curtos períodos de tempo, sem contato físico e todos os cuidados sendo tomados.
achava irresponsabilidade, mesmo que entendesse que os atletas precisavam voltar a treinar para manter o condicionamento físico, eles eram absurdamente ricos e tinha suas próprias academias em casa, poderiam fazer isso lá, à distância, sem precisar se reunir, afinal, os campeonatos não voltariam tão cedo. E, para ela, nem deveriam voltar naquele ano. Pessoas estavam morrendo aos milhares pelo mundo diariamente e havia coisas muito mais importantes do que o retorno de competições esportivas, mesmo que ela estivesse sentindo falta de assistir futebol.
Deveriam concentrar os esforços em desenvolver remédios, vacinas, tratamentos eficazes e que começassem a salvar as vidas das pessoas. Futebol podia ficar pra depois. Que cancelassem os campeonatos e não dessem a taça pra ninguém, se fosse gerar muita polêmica, poderiam fingir que a temporada não existiu e fim de papo. Mas, envolvendo a quantidade de dinheiro que envolvia, obviamente isso não aconteceria.
Não adiantaria ficar brava, ninguém a ouviria e ela não faria barulho suficiente para que o campeonato fosse cancelado. Na França as coisas já tinham sido resolvidas, declararam o PSG campeão da Liga Francesa e, talvez (nem era certo), tivessem a disputa da reta final da Copa da França. Mas, mesmo com nomes tão caros por lá, o futebol na França não movimentava tanto dinheiro quanto na Espanha.
Enquanto estava assistindo uma reprise de um programa de confeitaria, ela não tinha prestado atenção no nome, e pensando em como seria delicioso ter um pedaço de bolo para comer (como sempre sentia quando estava vendo algum programa de comida), viu a tela do celular acender mostrando a notificação de que tinha recebido um e-mail.
Um e-mail do Real Madrid.
Sem entender (e um pouco receosa do que poderia se tratar, afinal, tinha recentemente entrevistado um dos atletas da equipe), pegou o celular e abriu o e-mail sem demora, mal acreditando no conteúdo:

“Prezada srta. ,

É de conhecimento nacional o seu bom trabalho no jornalismo esportivo nacional, contando com diversos prêmios da categoria, sempre sendo citada como fonte confiável de reprodução, há anos cuidando das notícias relativas ao Real Madrid, seja em Valdebebas, em campo ou por outros meios, sempre com respeito e profissionalismo, mesmo que seja assumidamente madridista e nunca tenha poupado críticas quando necessário.
Aos olhos de toda a equipe do Real Madrid, nós a consideramos uma profissional excelente, sempre com perguntas pontuais e bem feitas, diretas e sem especulações e invenções, tratando a equipe com respeito e não apenas o Real Madrid, mas todas as equipes sobre as quais precisou falar.
Inclusive, aproveitamos a oportunidade para enviar nossos cumprimentos pela excelente entrevista com nosso atleta , realizada há alguns dias, e que foi amplamente citada por outros veículos de comunicação pelo mundo.
Por esse motivo, entramos em contato para oferecer uma vaga na equipe do Real Madrid, como uma de nossas jornalistas, tendo total liberdade de criação dentro da equipe e para sugestões de trabalho.
Aguardamos contato para esclarecermos valores salariais e jornada de trabalho.
Atenciosamente,
Real Madrid TV.”

Dieciséis

“Dime si quieres conmigo, como yo quiero contigo y si así lo quisemos, vamos a darle sentido…” (Piso 21 – Besandoté)

Madrid, Espanha, segunda-feira, 11 de maio de 2020

– E o que diabos isso tem a ver com eles estarem em Valdebebas pra fazer exames pra ver se alguém está doente? – perguntou sem entender, observando a imagem do chefe na tela do computador.
– Você sabe que alguns furaram o lockdown, ou melhor, que não guardaram corretamente o prazo como deveriam. – Sacristán respondeu num tom óbvio.
– Mas não saiu absolutamente nada envolvendo Isco, Marina ou Sergio Ramos.
– Nunca se sabe.
– Sabe-se sim, Sacristán. Se tem uma coisa que nós sabemos é que não há nenhuma notícia envolvendo os três. Ou melhor, nada que envolva a Marina, porque você está interessado em falar sobre a vida dela, como sempre.
– Não comece com esse discurso, .
– Então não comece com essa merda de novo, Sacristán. Marina não foi vista fora de casa, Isco muito menos. Nem o filho dele veio pra Madrid, ninguém viu e não tem nenhum registro. As pessoas gostam de cuidar da vida da Marina, porque ela é a irmã do Sergio Ramos e namora com o Isco, mas isso não faz diferença nenhuma para o Real Madrid ou para qualquer outro esporte, porque ela não é atleta e não entra em campo pra jogar.
– Mas se ela estiver infectada por furar o lockdown, pode passar para o namorado e isso terá a ver com o Madrid.
– Ela só terá se infectado, se o Corona Vírus for na casa em que ela está, bater na porta e entrar, porque não viram a Marina fora de casa e olha que tem fotógrafos sempre procurando por ela em todo canto.
– Provavelmente ela foi visitar o novo sobrinho.
– Claro, porque ela deve ser inconsequente nesse nível, assim como Ramos e Pilar devem ser idiotas o suficiente pra permitir que uma pessoa de fora vá pra casa deles no meio do lockdown causado por uma pandemia e fique perto de uma mulher de resguardo, um recém-nascido e três crianças. – falou, rolando os olhos. – Lembra do que eu te avisei sobre esse assunto?
– Como esquecer? Você fez um escândalo que todo mundo naquele prédio ouviu.
– E faço outro se você continuar insistindo nisso.
– Tudo bem, , tudo bem. Mas um dia, um dos jornalistas vai aceitar falar sobre isso e você perde seu lugar.
– Se eu que sou a empregada não estou preocupada com isso, você que é o chefe também não deveria estar. – respondeu e o homem deu uma risadinha nasalada. – É só isso?
– Sim. Reunião presencial na sexta-feira lá no jornal. – Sacristán respondeu e a reunião foi encerrada.

ficou de pé, espreguiçando-se e bocejando. Precisava almoçar, mas queria mesmo tomar um bom banho e relaxar. Tinha conversado com o Real Madrid, o salário seria muito bom e ela quase não acreditou quando viu os valores, mas ainda não tinha dado uma resposta definitiva.
Gostava de trabalhar no Marca e de tudo que aquilo lhe proporcionava, os programas de TV e rádio, as coberturas de jogos com opiniões, o que falava sobre jogadores e treinador… Se optasse por ir para o Real Madrid, perderia essa liberdade de criticar os jogadores e o treinador, também perderia a visibilidade e a atuação fora das paredes do Marca.
No Real Madrid, pelo menos, não teria que ficar brigando com o chefe pois não se formou para falar de vida privada de jogadores, talvez não pudesse participar de programas de rádio e TV fora dos limites do clube, mas a ideia de trabalhar lá era tentadora.
Trabalharia nos jogos, talvez no rádio ou na TV do time, mas teria folgas durante a semana, estaria diretamente ligada ao departamento de comunicação do Real Madrid, o salário era incrível e ela tinha bons benefícios se aceitasse.
Ainda não tinha contado para ninguém, não sabia se aceitaria ou se continuaria no Marca, porque, apesar de precisar repetir várias e várias vezes que não cuidava da vida pessoal dos jogadores, gostava de lá e era por isso que nunca tinha aceitado outras propostas que chegavam a ter até mais dinheiro envolvido.
Mas também tinha pensado muito sobre a possibilidade de, no Real Madrid, não poder se envolver com nenhum dos atletas. Não que ela quisesse se envolver com outro, estava satisfeita com , mas isso poderia ser um risco. Ou não? Não tivera coragem de perguntar nada, porque… bem, ela e não tinham nada oficial, então isso não entraria em pauta. Ainda.
Imaginava que não existisse nada do tipo, mas teria que descobrir antes de aceitar qualquer proposta que pudesse colocar em jogo aquilo que ela e tinham. Precisava pensar bastante e, como tinha recebido um “você será bem-vinda quando decidir que é a hora de se juntar ao time, fique à vontade para pensar”, usaria isso a seu favor.
Nairóbi miou do chão, fazendo com que abaixasse para pegá-la no colo e lhe fizesse um carinho.

– O que você quer? Sua vasilha de comida está cheia, tem água fresquinha… você está carente? – perguntou, dando um beijo nos pelos da gata, que ronronou manhosa. – Você é uma safada. O lockdown está prestes a acabar e eu voltarei a ficar fora boa parte do dia. Será que você vai sobreviver a isso?
Antes que continuasse falando, seu celular tocou em cima da mesa, o nome de aparecia na tela, ela não tardou a atender a chamada de vídeo do jogador.
– Não tenho corona e volto a treinar com o time assim que os treinos forem reabertos!
– Oi, , tudo bem comigo sim e você? – implicou. – Nairóbi, você vai cair!
– Por que você está com ela no colo?
– Porque ela é carente e está aproveitando os últimos dias em que posso ficar fazendo carinho nela o dia inteiro. – respondeu dando uma risadinha. – E que bom que você volta a treinar com o time. Mas, como vai funcionar?
– Dividiram em vários grupos, não vamos passar de cinco jogadores, horário marcado, tem distanciamento e um monte de protocolos, tudo aprovado pela OMS, pelo que entendi. Fizemos os exames hoje e aquele troço dói!
– Fizeram o do palitinho? – perguntou e assentiu. – Ótimo que você não tenha pegado e melhor ainda que voltará aos treinos com o grupo. Alguma perspectiva de volta dos jogos?
– Me diga você. deu uma risadinha e colocou Nairóbi sobre o sofá antes de sentar-se no móvel.
– Então não temos notícias sobre essa perspectiva, La Liga ainda não se pronunciou. Eu, particularmente, acho que é errado voltar. Deveriam cancelar a temporada e fingir que nunca aconteceu. Sem taças, sem rebaixamentos e fim.
– Não dá pra ser assim…
– Dinheiro demais envolvido, eu sei. – falou, dando de ombros. – Chegou em casa faz tempo?
– Faz sim, me dei o dia de folga. E você?
– Acabei de sair de uma reunião com o Sacristán. E nós brigamos, claro.
– Brigaram? Por quê?
– Porque ele quer que eu fique tomando conta da vida privada de jogador. – rolou os olhos ao falar. – Quer dizer, ele quer que eu cuide da vida da Marina.
– Ele sabe que vocês se conhecem? Que a gente conversa e… essas coisas?
– Minha vida pessoal não diz respeito ao meu chefe, mas nós já brigamos várias vezes por causa do namoro da Marina e do Isco, desde que eles assumiram. Na verdade, nós brigamos quando teve aquela fofoca sobre você e ela, depois brigamos ainda mais quando Isco e Nina assumiram e, desde então, sempre que Sacristán cisma em falar da vida dela, nós entramos nesse campo minado.
– Mas qual o interesse dele nisso?
– Cliques. Só que ele só se importa com a vida dela, não com a vida do Isco. Por exemplo, quando o Isco estava saindo bastante pra baladas em 2017, ninguém ligava e eram poucos os jornais que faziam pequenas manchetes falando que o viram na noite, mesmo que isso sim pudesse afetar o desenvolvimento dele em campo. Quando ele namorava a atriz, antes da Marina, só falaram dela, porque é colchonera, mas querem falar da Marina, por ser irmã do Ramos e querem inventar coisas pra criar tensão no time, entre os dois jogadores e no relacionamento deles.
– E você briga com ele por quê?
– Primeiro, eu me formei para ser jornalista esportiva e não fofoqueira. Segundo, a vida privada dos jogadores não me diz respeito, cada um com seus problemas, desde que não interfira no desempenho em campo. Terceiro, querem pegar uma mulher pra ser o bode expiatório quando existem mil jogadores que deveriam ser cobrados, pois eles são os atletas e não ela. Desde quando ser irmã do capitão do time e namorada de um outro jogador é motivo pra ela ser manchete esportiva? E isso me irrita. Da última vez, antes de hoje, ele queria que eu escrevesse sobre Marina ser a responsável pelo péssimo desempenho de Isco em campo.
– Sério? perguntou assustado e assentiu.
– Por mim, vocês podem fazer o que quiserem desde que respeitem o Madrid e cumpram o que foram contratados pra fazer. Não ligo para o que fazem em suas vidas pessoais e acho que ninguém além de vocês deveria ligar.
– Difícil demais que as pessoas entendam isso, , nós somos bem atrativos pras pessoas que vivem de criar e inventar desgraça na vida alheia. deu uma risadinha nasalada. – Hoje eu me senti aquele cara da caverna que você estava falando outro dia…
– Cara da caverna? – perguntou sem entender.
– É, aquele de costas pra porta, quando sai de lá…
– Ah! “O Mito da Caverna”? – riu quando assentiu. – Por quê?
– Porque eu me senti saindo da caverna depois de tanto tempo só enxergando as sombras do lado de fora. As coisas pareceram muito diferentes na realidade agora.
– Que filosófico. – implicou, mas tinha um sorriso no rosto. – Eu só fui ao supermercado uma vez, depois pedi pelo aplicativo e entregaram, não faço ideia de como é sair do sofá e ter que viver em sociedade. E sexta-feira tenho que ir ao jornal.
– Posso ir te ver?
– Hoje?
– Não. Essa semana, um dia que você puder.
– Quando os treinos voltam?
– Semana que vem.
– Você devia passar o fim de semana aqui então.
– Te busco no jornal?
– Claro. – sorriu e o viu sorrir de volta.

📰🤍⚽️


Madrid, Espanha, sexta-feira, 15 de maio de 2020

Depois de mais de dois meses, estava finalmente estava liberado para sair de casa (ainda com restrições), depois de todos aqueles dias trancafiado apenas com o pai, o irmão e o cachorro em casa, vivendo dias monótonos e com uma rotina tão ensaiada que tinha lhe causado enjoo.
Na segunda-feira, fora ao clube para fazer os testes e estava bem, recebeu a programação do retorno e como seriam os treinos, horários e protocolos, tinha treinado duro em casa sozinho e, naquele momento, estava saindo de casa e indo na direção da redação do Marca, buscaria e os dois passariam o fim de semana juntos na casa dela depois de mais de dois meses desde a última vez que tinham se encontrado pessoalmente.
estava nervoso, parecia o dia em que tinham ido ao primeiro encontro, sentia as mãos suarem e um calafrio no estômago. Estava ansioso, mas de um jeito bom, porque a veria e tinha realmente sentido falta de . O que ele ainda considerava estranho, visto que só tinham saído duas vezes e apenas conversaram muito.
já tinha se apaixonado antes e lembrava-se muito bem da sensação, da forma como as coisas eram fantasiosas e emocionantes no começo. Recordava perfeitamente dos sentimentos, da forma como as coisas funcionavam num relacionamento, mesmo que os dele não tivessem dado tão certo assim durante sua vida.
Só que dessa vez ele não estava sentindo apenas o que as pessoas normalmente sentem quando se apaixonam. Tinha algo a mais. Sentia-se completo, claro, nunca tinha acreditado naquele papo de “metades”, mas sim em pessoas inteiras que se juntam para crescerem juntas. Mas alguma coisa estava diferente. Era como se tivesse faltado aquilo que ele tinha e sentia por , como se aquela “chavinha” nunca tivesse virado antes e agora estivesse totalmente virada, como se sentir aquilo fosse o suficiente.
Podia estar delirando e ser apenas a emoção, mas ele gostava do que sentia com , mesmo que seus dias tivessem sido, na maioria, fisicamente separados e a comunicação tenha sido por vídeos e mensagens de texto. E os dois tinham conversado muito e sobre várias coisas durante o lockdown, desde trocas de playlists de músicas totalmente aleatórias até assuntos filosóficos; falaram de política, futebol e das famílias, compartilharam memes e vídeos fofos de animais e receitas, mas também trocaram links sobre estudos, astrologia, astronomia e qualquer que fosse o interesse do momento. E, o mais importante: nunca faltou assunto, qualquer fosse a pauta que resolvessem abordar. Fizeram silêncios confortáveis assistindo séries e filmes, ou leituras, se divertiram com as tentativas de yoga e exercícios que faziam remotamente, dormiram em chamadas de vídeo e foram o casal que deveriam ter sido presencialmente não fosse a pandemia que os privou disso.
E nunca tinha sentido vontade de fazer esse tipo de coisa com qualquer outra namorada. Não que não as tivesse amado, ele tinha, mas era diferente. Era como se ele tivesse encontrado a pessoa certa. E ele nem sabia se acreditava mesmo nisso, mas, pelo que sentia, não parecia ser necessário acreditar para que acontecesse em sua vida. Algo na presença de – ainda que remotamente – era suficiente. Adequado. Ou qualquer coisa que pudesse definir a forma como ela o fazia se sentir, o que ele achava impossível, provavelmente nenhuma palavra do mundo pudesse expressar aquilo e era estranho demais que fosse assim. Pelo menos pra ele.
Estava um pouco preocupado, não pelas únicas duas vezes em que se viram pessoalmente naquele status acima de “pessoas que se esbarram e conversam”, já tinham passado daquele ponto e ele sabia que não faria joguinhos de interesse, muito menos o usaria ou o magoaria.
A preocupação era com as especulações que faziam sobre sua vida pessoal, que tinha entrado em foco quando ele postou um print nos stories do Instagram, mesmo que sem identificação de quem era a pessoa, apenas falavam sobre sabores de sorvete. Ele preferia chocolate, ela preferia creme. A publicação foi inocente, ele apenas escreveu “quando a pessoa (não eu) tem zero critérios para escolher sabor de sorvete”. Só.
Mas tinham feito daquilo notícia, começaram a especular sobre um namoro, queriam saber quem era a “felizarda” e tudo mais. E, o fato de que ele falou “estamos namorando” ao fundo de um stories do irmão (que nem sabia estar sendo gravado enquanto ele conversava com o pai) apenas tornou tudo ainda mais maluco. não tinha falado nada a respeito, ele nem sabia se ela já tinha ouvido falar daquilo. Ele esperava que não. Ou que, se tivesse ouvido, não surtasse.
“Mudança de planos, pode vir direto pra minha casa, ganhei carona da Cora e já cheguei. Estou te esperando”, dizia a mensagem de e respirou aliviado. Pelo menos não teria tantas chances de ser visto acompanhado e tornar aquele lance dos dois um inferno. Principalmente por saber que o chefe dela gostava de fofocas de vida de jogador.
Pegou o retorno e seguiu pelo curto trajeto até a casa de , sentindo-se ainda mais ansioso pelo reencontro depois de tantos dias longe. E, quando estacionou o carro, precisou de alguns minutos antes de tomar coragem para informar que tinha chegado. Sentia-se como um adolescente, mas a sensação do nervosismo era gostosa, afinal, porque significava algo bom.
Sentia algo e não era nenhuma novidade, mesmo que o assustasse um pouquinho a ideia de ter se apaixonado no meio do lockdown e estando distante da pessoa, porque não achava que estivesse apaixonado antes, era apenas interesse, o sentimento tinha se desenvolvido naqueles dias de isolamento. Ele só esperava que fosse recíproco, não queria um coração partido, já tivera amostras disso antes e ele preferia que não se repetisse nunca mais.
Enviou uma mensagem para que ela abrisse o portão – porque preferia não deixar o carro na rua durante todo o fim de semana – e logo estava parando o carro e a olhando de soslaio. estava com um vestido preto de alças largas e com desenhos de girassóis grandes que ia até os joelhos, e o controle do portão em mãos. O dia estava nublado, mas a temperatura estava relativamente amena, não achava que fosse chover, mas ainda era uma da tarde, talvez pudesse acontecer no restante do dia.
Não que ele se importasse, estava muito mais preocupado em passar o resto daquela sexta-feira e os outros dois dias e meio na companhia dela. Com chuva ou com sol.

– Desce logo desse carro. – falou quando o portão fechou e a olhou, dando um sorriso convencido.
– Estava tão ansiosa assim por me ver? – respondeu quando saiu do carro, depois de apanhar a mochila com suas coisas no banco do passageiro.
– Perguntou o emocionado que, no primeiro dia liberado pra sair de casa, deu uma volta enorme na cidade só pra me ver. – implicou, fazendo gargalhar enquanto se aproximava dela.
– Para de falar e me beija. – respondeu, puxando o corpo de pra mais perto do seu e ela o olhou fingindo nojo e colocou a mão na boca dele.
– Corona vírus. – respondeu e rolou os olhos, tirando a mão dela de sua boca.
– Não estou infectado, você pode me beijar tranquilamente. – respondeu, mas não esperou a resposta.
deu um sorriso antes de abrir mais os lábios e beijá-lo de verdade, como os dois queriam há tempos. Foi um beijo de quem tinha sentido falta de se tocar e se beijar, mesmo tendo feito isso tão poucas vezes, mas nada desesperador e que os fizesse querer arrancar a roupa naquele exato momento, apenas um beijo para dissolver a saudade que sentiram da presença física um do outro.
– Oi. – falou quando separaram os lábios, fazendo dar um sorrisinho antes de deixar um selinho demorado nos lábios dela.
– Oi.
– Sua namorada não vai ficar brava por você estar aqui beijando outra? – implicou, fazendo dar uma risada.
– Ela nem sabe que a gente namora ainda, não perguntei. – respondeu dando um sorriso e sorriu junto.
– Você deveria perguntar, imagina se outra pessoa pergunta antes e você perde a chance?
– Espero que ela aceite meu pedido, estou saindo de casa no dia que afrouxaram as regras do isolamento apenas por ela. – respondeu sincero.
– Talvez ela considere isso a seu favor, ela deve ter sentido muito a sua falta nesses dias.
– Você acha que se eu pedir, ela aceita?
– Depende… como você pretende fazer isso?
– Eu pretendo olhar bem nos olhos dela. – falou, afastando-se um pouco para olhar diretamente nos olhos de e enlaçou os dedos das mãos aos dela. – Segurar as mãos dela assim e falar que provavelmente parece loucura pedi-la em namoro já que nós saímos apenas duas vezes antes do lockdown e passamos dias apenas conversando por vídeo e mensagens, mas que eu me apaixonei por ela desse jeito, porque ela é incrível e uma pessoa com quem posso conversar sobre quem é o personagem mais legal de Os Flinstones, mas também posso ter conversas sérias sobre política, futebol e filosofia. Talvez ela ache que é loucura que eu goste dela assim e que eu tenha realmente me apaixonado de um jeito que nunca me apaixonei antes, que essa quarentena tenha sido difícil por estar longe dela e por atrasar tanto os meus planos, mas que ela me deu forças e que ter a companhia dela, mesmo que apenas por vídeo, foi o que me ajudou a manter a cabeça no lugar. Talvez ela ache que eu sou completamente doido, porque eu acho que também acho que eu seja doido, mas acho que eu sou doido por ela. Preciso falar pra ela que achei que não teria um novo relacionamento tão cedo, não depois de todos os fracassos de antes, então resolvi focar no futebol, mesmo tendo uma lesão muito séria e que me afastou dos gramados por tanto tempo, achei que o sucesso profissional seria uma forma de tampar o buraco das decepções amorosas, mas ela apareceu trombando em mim como se fosse a pessoa mais lerda e distraída do mundo, quando, na verdade, ela é a mulher mais inteligente e esperta que eu conheço. Vou olhar nos olhos dela, falar tudo isso, dizer que é incrível tê-la em minha vida e que gostaria muito, muito mesmo, que ela fosse minha namorada, mesmo que a gente não conte pra ninguém de fora, que sejamos apenas nós dois escondidos dos olhos do mundo, contanto que sejamos nós dois, porque gosto dela, gosto mesmo. Ela me faz sentir bem e me faz sentir… alguma coisa que não sei nomear. É como se ela me fizesse sentir… o suficiente? Não quanto a mim, mas sentir esse… sentimento, como se fosse da forma suficiente que não é excessivo, mas não falta nada. E depois que eu falar isso, depois que eu deixar que ela saiba que eu estou apaixonado e disposto a tentar, mesmo que ela tenha um péssimo gosto pra sorvete e que não ache Mallorca o melhor lugar do mundo, eu vou perguntar, olhando diretamente nos olhos dela, se ela aceita namorar comigo.

o olhava admirada, um sorriso bobo em seus lábios, sentindo as bochechas corarem um pouco pela forma como ele a olhava e observando cada pedacinho do rosto de tão perto de si. Ele falava com sinceridade e ela podia ver e ouvir perfeitamente a verdade que ele queria mostrar.

– Ela só não vai aceitar se for muito boba, aposto que ela se sente do mesmo jeito.
– Então você acha que eu posso olhar nos olhos de e perguntar se ela aceita namorar comigo? – perguntou e ela assentiu. – Você acha que ela aceitaria?
– Eu tenho total certeza que ela aceita ser a namorada de . Mesmo que vocês precisem ir devagar pra entender bem o que está acontecendo, afinal é tudo muito recente e estamos saindo de um lockdown, vocês mal se viram e conviveram pessoalmente antes, mas possuem intimidade o suficiente pra conversar sobre tudo que quiserem. E, mesmo que você tenha um gosto horrível pra personagens de algumas séries e não admita em voz alta que Tenerife é o melhor lugar do mundo, ela também gosta de você desse jeitinho ai que você falou.
– Podemos parar de falar em terceira pessoa? – franziu o nariz numa careta e riu, assentindo. – Então você aceita?
– Eu não seria idiota de dizer não. Principalmente quando você conseguiu descrever muito bem o que eu sinto também.
– Obrigado por bater no meu carro e depois por quase me jogar no chão.
– Obrigada por estar no lugar certo e na hora certa. Duas vezes.

Diecisiete


“Tú, llegaste de repente así eres tú. No te importo la gente y fuimos dos, solo escuche tu voz, así siempre eres tú…”
(Tini ft. Nacho – Te Quiero Más)

Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, sábado, 13 de junho de 2020

esticou-se na cama do dormitório lentamente e com muita preguiça. Estava relacionado para o jogo do dia seguinte contra o Eibar, que aconteceria ali, no Alfredo di Stéfano, e ele estava absurdamente feliz. Vinha sendo um mês ótimo em sua vida pessoal e profissional, não podia reclamar.
Estava com e as coisas entre eles estavam muito bem, obrigado. Conversavam bastante e estavam estabelecendo os contornos daquela relação. Seus pais e amigos mais próximos sabiam do namoro, mas ninguém além desse círculo próximo tinha ciência de que existia algo entre e . Pediram segredo, porque nenhum deles tinha a intenção de perder a privacidade e acabar sendo alvo de fofocas idiotas que envolveriam suas vidas profissionais e privadas.
As coisas também estavam muito boas profissionalmente falando, tinha voltado a treinar com o time, durante um tempo apenas com um pequeno grupo para evitar aglomerações e obedecer o protocolo de segurança de La Liga e da OMS, passando a treinar com o time completo um tempo depois, pois as competições voltariam a acontecer e eles precisavam ter entrosamento. E, agora, estava relacionado para compor o elenco que ia para o jogo contra o Eibar.
Zidane não lhe dera certeza de que jogaria, provavelmente ficasse apenas no banco o jogo inteiro, mas estava relacionado depois de dez meses e vinte e dois dias longe de estar num estádio à disposição do treinador. Depois de dez meses e vinte e dois dias assistindo aos jogos de casa ou, no máximo, no camarote do Bernabéu.
estava animado e faminto, precisava comer e jogar videogame se quisesse amenizar o nervosismo para conseguir dormir em paz. Tinha conversado com alguns momentos antes e ela tinha parado de responder, ia para um programa na rádio e não podiam passar mais tempo conversando.
Quando chegou até a sala de jogos, depois de um jantar rápido e sossegado, encontrou Sergio Ramos, Isco, Nacho, Dani Carvajal, Toni Kroos e Lucas Vázquez sentados em dois dos sofás da sala. Conversavam sobre alguma coisa enquanto Carvajal e Vázquez jogavam videogame, fazendo os outros rirem dos erros.

– A primeira de fora é minha. – se anunciou, sentando numa poltrona vazia perto do grupo.
– A primeira depois de todo mundo, só se for. – Toni falou rindo.
– Você sabia que a namorada do é sua fã? – Isco perguntou e o olhou quase que repreendendo por ter aberto a boca num momento inoportuno.
Daquele grupo, apenas ele e Sergio sabiam que ele estava namorando.
– Como assim o nosso bebê está namorando? – Lucas perguntou e o jogo foi esquecido, já que todas as atenções se voltaram para o mais novo.
– É, eu estou.
– Aquela jornalista né? – Nacho perguntou e olhou surpreso. E curioso. – Não me olhe assim, porque estava óbvio demais. Eu vi as caras de bobo que você fazia pra ela quando estavam perto um do outro.
– A ? – Dani Carvajal perguntou surpreso, fazendo Sergio e Isco assentirem e o lateral olhou ainda mais surpreso. – Porra, o tá com muita moral. Ela é foda e uma baita gostosa. Com todo respeito.
– Quem é essa? – Toni perguntou sem entender.
– A que falou do Bale naquela vez. – Lucas foi o primeiro a falar e o alemão pareceu saber quem era apenas com aquela informação.
Claro que sabia, aquele bando de fofoqueiros tinha falado daquela entrevista no grupo de WhatsApp paralelo ao do elenco completo e que existe apenas para “troca de informações entre amigos e que não envolve contar para outros, que podem ser o alvo dessas informações”, nas palavras de Isco para definir o grupo.
– E ela é minha fã?
e ela foram assistir ao jogo contra o Betis lá em casa e ela estava usando a sua camisa. – Isco respondeu e Toni não pareceu muito convencido com a ideia de que era sua fã
– Isso não quer dizer absolutamente nada.
– Só que ela não tem uma camisa do namorado, porque ela não usaria de outro jogador se ele tivesse se dignado a comprar uma camisa pra ela. – Dani implicou, fazendo rolar os olhos.
– Ela agora tem. – respondeu. – E naquele dia ela ainda não era minha namorada. Era a segunda vez que estávamos saindo.
– Na segunda vez você a levou pra conhecer um amigo? – Nacho perguntou surpreso.
– Isco já a conhecia. – deu de ombros.
– Mas é diferente. – os demais responderam todos juntos, rindo logo em seguida.
– Bom, fomos só assistir ao jogo lá. Não foi bem um encontro.
– E isso é um passo enorme, , porque você a levou pra casa de um amigo. É quase um pedido de casamento. – Carvajal falou, recebendo um tapa na nuca dado por Sergio.
– Agora a gente sabe o motivo do Dani não ter se casado ainda. – Lucas implicou, rindo.
– Não casei, porque não quis.
– Ou seja, a Daphne ainda não quer. – provocou e o amigo mostrou o dedo do meio antes de começar a rir.
, por que você estava escondendo seu namoro da gente? – Lucas perguntou num tom ofendido.
– Porque vocês são fofoqueiros. – o mais novo respondeu. – E o Isco também. Já deve estar na capa de metade dos jornais desse país que a é minha namorada.
– Isco deveria saber guardar segredos melhor do que isso, porque ficou escondendo a Marina um tempão. – Carvajal implicou.
– De vocês, porque o Sese sabia muito antes, porque eles não conseguiam disfarçar e nem tentavam. Lembra do dia do jogo aqui e que os dois não paravam de se olhar e cochichar um pro outro? – Nacho riu ao falar.
– Vocês precisam aprender a guardar segredos como a Maria, ela soube do namoro da Nina e do Isco antes de vocês e pouco depois de eu descobrir e nunca contou nada nem pro marido e se fazia de desentendida toda vez que a gente implicava com a Nina sobre estar encalhada. – Sergio falou num tom preguiçoso e Nacho assentiu.
– O chefe da que com certeza amaria falar com vocês, bando de fofoqueiros.
– Do que você sabe que a gente não sabe, ? – Isco perguntou interessado.
– Que ele gosta de cuidar da vida pessoal de jogador e das namoradas. Principalmente da sua. Quer dizer, da vida da Nina. falou que eles já brigaram várias vezes por causa disso.
– O Marca agora quer virar jornal de fofoca? – Lucas perguntou curioso e deu de ombros.
disse que não escreve e que se publicarem algo do tipo lá no jornal, ela vai pedir demissão. E ele ficou com o pé atrás, porque ela é a melhor jornalista de lá e tem várias propostas de emprego de outros jornais do país e pela Europa toda, mas não cansa de ficar jogando piadinhas a respeito disso. Ela contou que na semana passada ele ficou jogando piadinhas sobre a Alice estar grávida de novo e como isso impactaria no desempenho do Álvaro em campo, porque agora tem mais um filho pra cuidar além dos gêmeos. Ele quis culpar a Nina pelo desempenho do Isco ter caído também, palavras dele. contou que gritou tão alto que o prédio inteiro ouviu.
– Vou contar isso pra Nina.
– Ah lá o fofoqueiro. – Sergio gargalhou.
– Não é fofoca se é sobre ela.
– Bom, você tem um ponto.
– E vamos todos ter pontos, quero jogar videogame e não ficar fofocando. – falou e os demais riram.
– Fofoca é boa quando é sobre os outros né? Quando envolve a gente é péssimo. – Isco falou e assentiu, rindo.
– Com certeza, mas vamos jogar isso logo, eu tô começando a ficar com sono e daqui a pouco o Bettoni vem nos mandar dormir.
– Amanhã vai ser bem estranho, não vai? – Lucas perguntou. – Sem ninguém no estádio, só a gente…
– Além disso, não é no Bernabéu, vamos jogar aqui no di Stéfano… é bem diferente de tudo que estamos acostumados. – Toni falou e os outros assentiram. – Mas é necessário e vamos ter que acostumar, acho que ainda demora a ter imprensa e torcedores em massa nos estádios.
– Isso podia acabar logo. – Lucas resmungou. – E vamos voltar a jogar logo, tenho que ganhar de todos vocês antes de ir pro meu sono de beleza.
– E nunca mais acordou. – Dani Carvajal implicou, fazendo os amigos gargalharem.

Entre uma ou outra provocação, o pequeno grupo permaneceu jogando por algumas horas até que foram se dispersando aos poucos, deixando , Sergio e Isco sentados, o videogame desligado e os três muito despreocupados.
Isco estava trocando mensagens com alguém, provavelmente Marina, Sergio estava deitado no sofá e assistia a alguma coisa no celular, dando uma risada ou outra ocasionalmente, enquanto tinha o próprio celular em mãos e digitava algumas mensagens para .

, não existe a menor possibilidade de vc estar falando sério

Mas eu estou falando sério!

Esse namoro mal começou e já vai terminar
Pq eu me recuso a namorar uma pessoa que acha que a Grifinória é a melhor casa de Hogwarts

Cariño, você sabe que é a melhor

Nem nos seus maiores sonhos!
Sonserina é a maior e a melhor casa e todo mundo sabe

Você é quem não pode estar falando sério
Que heresia!

Claro que eu estou

Grifinória é muito superior

Esse namoro acabou

Dumbledore era da Grifinória
Só por aí vc percebe que era a maior e melhor
Da sua casa só os péssimos

Você só viu os filmes
E quer falar as coisas que não sabe

Mas é claro que eu só vi os filmes!
Alguém leu e facilitou meu acesso ao universo HP
Pq eu perderia meu tempo lendo?

Os filmes fizeram a Sonserina parecer uma lata de lixo
Sendo q nem todos maus saíram de lá
Peter Pettigrew era grifano
James era um ser humano péssimo na época da escola
Ficava fazendo bullying com os outros pra ficar se mostrando

Só ouço o som da sua inveja
Grifinória maior e melhor
Aceite os fatos

Eu vou te bater

Só se der beijinho depois

Só tem beijinho quando vc admitir que a Sonserina é muito maior

Se for pra ganhar um beijo seu, eu falo o que vc quiser

Merlim e Dumbledore estão vendo a lealdade desse grifano…

HAHAHAHA
Eles não vão me conceder um beijo seu

Você deveria ir dormir, cariño

Eu vou daqui a pouco
Quando vierem me mandar dormir

Vc tem quantos anos? 4?

Vc vem cobrir o jogo amanhã?

Não
Vou participar da transmissão, mas em casa
Na rádio

Ah, que pena

Mas nos veremos depois do jogo
Esqueceu?

Como é que eu esqueceria q vc vai jantar lá em casa?
E vai conhecer meu pai e meu irmão?

 

📰🤍⚽️
Madrid, Espanha, domingo, 14 de junho de 2020

Ao contrário do que pensava, estava muito tranquila naquele dia. Tinha participado da transmissão do jogo do Real Madrid, que venceu o Eibar por 3 a 1, no Alfredo di Stéfano, e mesmo que fosse uma experiência totalmente nova, tinha sido boa e bem tranquila, tudo funcionou bem e mesmo que com um pouco de atraso nos comentários, tinha dado certo.
Mas não ficaria nervosa por isso, na verdade, pensou que ficaria muito nervosa pela perspectiva de ir conhecer o pai e o irmão de . Mesmo que ela já conhecesse Gilberto, era diferente conhecê-lo como seu sogro, era diferente de uma conversa ou outra num corredor em Valdebebas. Aquilo oficializava ainda mais o namoro – não que já não fosse bastante oficial, mas envolver as famílias sempre dava aquele caráter muito mais sério aos relacionamentos – e ela temeu que fosse precipitado, mas estava tranquila e com um bom pressentimento.
Conhecia os Igor apenas dos raros posts do Instagram de sobre sua vida privada e Gilberto pelo dia em que quase derrubou da cadeira de rodas. Ele tinha passado a maior parte de sua vida apenas com os dois, já que perdeu a mãe muito novo e tinham sido apenas os três na maior parte de sua vida. Gilberto, Igor e . E eles pareciam se dar muito bem.
Quando o horário de sair para o jantar chegou – junto com a mensagem de avisando que tinha chegado – ela estava pronta e não demorou a sair. Ele ainda estava com a roupa do time, não tinha entrado em campo, mas já era um passo enorme estar de volta ao banco de reservas depois de tanto tempo.

– Oi. – falou quando entrou no carro, recebendo um sorriso e um beijo rápido de .
– Oi lindinha. Preparada?
– Eles não podem ser piores que meus pais. – deu uma risadinha ao falar e deu a partida no carro.
– Impossível seus pais serem ruins, eles fizeram você. E você é incrível, cariño. – falou, sorrindo e sorriu envergonhada.
– Espero que você tenha falado bem de mim pra eles.
– Não existe como falar mal de você. – respondeu, virando-se rapidamente para olhar enquanto dirigia. – Quer dizer, tem, porque você não tem bom senso e acha que a Sonserina realmente é uma boa casa.
– Pare esse carro, eu vou descer e vou embora. – falou num tom sério, fazendo gargalhar.
– Ai neña, nós dois sabemos que a Grifinória é a maior.
– Amor, não existe a menor chance de você estar correto. – falou e a olhou surpreso, bem quando pararam no semáforo. – Que foi?
– Você me chamou de quê?
– De amor. – respondeu como se fosse óbvio. – Além de sem noção pra casas de Hogwarts, você está ficando surdo, corazón?
– Você estragou o momento, . – reclamou, arrancando o carro quando a luz verde do semáforo apareceu, e riu.
– Chamei de amor, mesmo que você não mereça.
– Você tem os livros? – perguntou sem desviar os olhos da rua.
– Claro.
– Quero emprestado, vamos ver se mudo de opinião.
– Você vai mudar de opinião se não começar a ler achando que a Sonserina é a pior casa do mundo. Tem que ir sem julgamentos.
– When you’re with me no judgement, cariño. – parafraseou a música que tinha em sua playlist que tinha de tudo um pouco.
– Que poliglota. – implicou e riu, parando na frente de sua casa para abrir o portão da garagem.
– Também falo um pouquinho de holandês.
– Aguardo bastante pra ouvir. – sorriu.
Em vista da casa dos jogadores que já tinha visto na internet e depois de ir até a casa de Isco, jamais diria que ali morava um jogador do Real Madrid. Uma casa de fachada simples, mas muito bonita, e não parecia muito grande, mesmo que ela soubesse que no quintal eles tinham uma boa área de grama e uma piscina pelos stories de treino que ele tinha postado e por todas as chamadas de FaceTime que tinham feito. Quando desceram do carro, já dentro da garagem, os dois seguiram de mãos dadas até o interior da casa.
Rome foi o primeiro a recepcioná-los, correndo animado até o dono e latindo já pedindo sua atenção. se abaixou e o pegou no colo, abraçou e beijou o cachorro com carinho e sorriu para a feição atenta e curiosa que Rome fez quando olhou para . Ela o olhava encantada, achando o bichinho ainda mais fofo do que em fotos e nas chamadas de vídeo.
Gordito, essa é a , você sabe. Fala oi com ela. – falou com o cachorrinho e se aproximou.
– Ei, Rome, você é tão lindo… – ela falou, afagando o cachorro devagar.
– Parece com o pai. – falou num tom galante, fazendo-a rir, mas assentiu e lhe deu um beijo no rosto.
– Então essa é a famosa ? – a voz de Igor interrompeu o momento e os dois se viraram na direção do mais velho.
– Depende do tipo de fama que andam me dando. – sorriu ao falar.
– A fama da é apaixonada e dada pelo , a fama da jornalista é algo que precede. – Igor se aproximou e sorriu para . – Eu sou Igor.
– É um prazer finalmente conhecê-lo, Igor.
– Cadê meu pai?
– Nosso. – Igor implicou. – Cozinha. Ele está ansioso pra conhecer a , falou disso a tarde toda.
– Mas eles já se conhecem. – falou sem entender.
– Não desse jeito, cariño. – sorriu. – Eu conheci o pai do depois de trombar na sua cadeira e quase te derrubar.
– E você ainda não era minha namorada. – pareceu pensar e ela assentiu. – Então vamos até lá.
– Já cheguei até aqui. – a voz de Gilberto se fez ouvir e o homem entrou na sala, tinha um sorriso satisfeito no rosto ao ver ao lado do filho. – É um prazer ter você aqui, .
. Me chame de , por favor.
– É um prazer ter você aqui, . – Gilberto corrigiu. – Estou muito feliz que vocês finalmente tenham dado uma chance pra isso que vocês têm e que resolveram namorar. falava de você feito um bobo bem antes de começarem a ter algo.
– Pai… – resmungou.
– Falava mesmo. – Igor riu.
– Vocês poderiam parar? – voltou a resmungar, fazendo dar uma risada baixa.
– Querem jantar agora? Já está tudo pronto… – Gilberto perguntou, olhando para o relógio em seu pulso.
– Eu estou morrendo de fome, parece até que joguei. – riu.
– Então lavem as mãos e vamos comer, vou colocar a mesa.
– Você cozinhou? – perguntou e o pai assentiu. – É, cariño, você é mesmo especial. Ele tem uma preguiça imensa de cozinhar e só faz em ocasiões absurdamente especiais e importantes, ou seja…
– Então eu me sinto honrada. – sorriu. – Precisa de ajuda para servir?
– Se você não se importar. – Gilberto sorriu ao responder.

seguiu com o mais velho para a cozinha e rapidamente a mesa de jantar estava posta. A comida era simples, mas estava deliciosa e ela sabia que tinha sido feita com muito carinho e afeição por Gilberto, que não escondia os olhares de admiração ao filho e a ela. Igor observava a feição do irmão e vez ou outra fazia alguma gracinha para deixá-lo sem graça e fazer rir. Eram uma família realmente agradável.
Depois de comerem, Gilberto enxotou Igor e para lavarem a louça e sentou na sala com e Rome. Ela conhecia aquela atitude, já tinha lido e visto filmes suficientes pra entender que haveria uma conversa importante, também já tinha namorado e seu pai já tinha feito aquilo. Mas, algo na expressão de Gilberto não dava sinais de que seria uma conversa séria ou ruim, apenas parecia… uma conversa normal entre um pai e a namorada de seu filho.

– Ele gosta de você. – Gilberto foi direto e assentiu.
– E eu gosto dele.
– Posso ver. – o homem sorriu. – não ficava tão… deslumbrado, apaixonado, há um bom tempo. Acho que ele tinha resolvido focar no futebol e deixou o lado pessoal de lado, o que não é uma decisão muito esperta, mas com você… desde o dia da cadeira… Desde aquele dia, falou sobre você e sobre seu trabalho, encantado com a forma que você fala e escreve, todos os dias. Durante o lockdown eu achei que as coisas poderiam ficar ruins, que vocês poderiam nunca mais conversar e tudo acabar, mas eu estava enganado.
– Não posso criticar a ideia dele de focar na carreira, eu fiz isso durante toda minha vida, eu acho. Eu namorei até o começo do ano, mas meu namoro tinha se tornado totalmente algo pra ficar no segundo plano e foi por isso que acabou, ele e eu acabamos nos jogando em nosso trabalho e esquecemos de cuidar do lado pessoal. Mas com o … apesar de eu ter minhas responsabilidades e cuidar do trabalho, não ter diminuído em nada meu profissionalismo, é diferente. Sinto vontade de falar com ele, de conversar sobre tudo e não deixar que as coisas passem, tenho vontade de contar tudo e de ouvir tudo que ele tem pra me dizer. Eu tive medo que no lockdown a gente se afastasse, mas foi o contrário. Gosto muito dele, o suficiente para não deixar as coisas caírem na rotina, o suficiente pra que a gente faça isso funcionar.
– Você não tem medo de que falem que você o está usando pra se promover?
– Vai acontecer, porque é isso que as pessoas fazem: inventam coisas pra causar conflito. Lembro da época em que o Ramos e a Pilar começaram a namorar e foi um inferno. Ela já era famosa há tempos, já tinha uma carreira consolidada, mas muita gente começou a dizer que ela só estava com o Ramos para aparecer e se exibir. Sei que gosto do seu filho o suficiente pra ignorar esse tipo de coisa e deixar que as pessoas falem o que bem entenderem, porque o que elas falam sempre é muito diferente da realidade. – respondeu e Gilberto sorriu.
– Fico feliz em saber que você tenha essa maturidade. Vocês formam um casal bonito e eu espero que tudo dê certo. – o homem falou, bem quando entrou na sala, secando as mãos na calça de moletom do Real Madrid que ainda estava usando e sentou ao lado de , abraçando-a pelos ombros.
– Eu também acho, mesmo que ele tenha um péssimo gosto pra escolher personagens em séries e filmes.
– Sempre foi assim. – Gilberto falou, implicando com o filho.
– Ei! – protestou e o pai sorriu.
– Mas ele é um bom garoto.
– Ainda bem que eu tive a sorte de conhecê-lo. – sorriu, virando o olhar para e ele sorriu de volta.
Gostava dele, de verdade. E ignoraria qualquer coisa que fosse atrapalhar aquilo que os dois tinham começado.

Dieciocho


“I don’t care who sees it babe, I don’t wanna hide the way I feel when you’re next to me, I love the way you make me feel…”
(Ariana Grande – Imagine)

MARCA.com, Avenida de San Luis, Madrid, terça-feira, 16 de junho de 2020

– Coletiva por videoconferência? – Cora perguntou e assentiu.
– Eu ia fazer de casa, mas Sacristán me fez vir até aqui só pra me contar pessoalmente que eu tenho que ir ao Chiringuito. Já brigamos, claro, porque estamos no meio de uma pandemia e ele quer que eu vá pra um programa com pessoas que eu sei lá se estão respeitando as normas da OMS? Ele está puto comigo.
– Ele ficar puto com você é a coisa mais normal do mundo, convenhamos. – Cora riu ao falar. – Mas eu concordo, é de uma irresponsabilidade sem tamanho.
– Agora eu tenho que ir pra tal coletiva virtual.
– Não vai fazer aqui?
– Na minha mesa? Não. Lá na salinha.
– Eu sempre achei estranho você não ter uma sala e ficar aqui no meio desse caos.
– Eu sou jornalista, só quem tem sala exclusiva são os redatores e pessoas frescas demais pra viver no meio do caos. – deu de ombros, mas sorria. – Agora, com licença, vou falar com o careca francês.
– Diga a ele que mandei um beijo. – Cora brincou, piscando e ficou de pé, levando o notebook consigo até a sala em que ficaria para a coletiva.
E depois de instalada, já com os fones e acessando o link que o time tinha dado para que os jornalistas entrassem na coletiva, observou a imagem de Zinedine Zidane pela tela. Pelo que tinha entendido, o treinador veria os jornalistas que fizessem as perguntas, mas os jornalistas não veriam uns aos outros e apenas ouviriam as perguntas que fossem feitas para anotações em seus veículos de comunicação. Seria ainda mais rápida que as coletivas presenciais, menos de quinze minutos, então ela estava esperando por sua chance de fazer a pergunta enquanto digitava tudo que ele falava no Twitter do jornal.
A coletiva durou pouco mais de doze minutos e logo estava de volta ao seu local de trabalho. Tinha feito uma pergunta simples para Zidane sobre como o time tinha voltado aparentemente melhor depois da parada e como ele acreditava que aquele jogo contra o Valencia poderia ser, principalmente na questão de desgaste físico dos jogadores e logo foi finalizada a sessão coletiva.
O Real Madrid permanecia na espera por sua resposta, ela ainda não tinha se decidido totalmente, mas já tinha se dado o prazo de decidir até o fim da temporada e foi o que enviou ao departamento de comunicação do time, informou que tomaria uma decisão até o fim da temporada e foi respondida que teria o tempo que quisesse. E ela ainda não tinha contado para ninguém – exceto Nairóbi, que já tinha escutado aquela conversa algumas vezes desde que o e-mail tinha sido recebido – por não querer criar falsas esperanças em nenhuma das pessoas, muito menos queria ser influenciada pelo que poderiam dizer.
Ela ainda estava pensativa sobre o que poderia ser de seu relacionamento com caso aceitasse trabalhar lá. Não queria perder o namorado, estavam se dando tão bem podendo passar tempo fisicamente juntos e aproveitando a companhia presencial um do outro, entendiam-se tão bem… já tinha conversado com os pais de por FaceTime e já estavam até combinando um encontro para que ele os conhecesse pessoalmente, passavam horas juntos sem que fosse exaustivo ou entediante.
Queria manter aquilo, aquela sensação do começo em que tudo é doce e envolvente, e tinha para si que se sentiria assim por muito, muito tempo com e com a forma como eles conduziam aquele relacionamento. Conversavam, definiam limites e eram bastante abertos sobre sentimentos e o que queriam. É um namoro novo, mas com toques experientes de quem quer fazer durar.

– Ei, eu estou falando com você. – Cora empurrou de leve a cadeira de com o pé e a amiga a olhou. – Tá apaixonada demais e fica viajando na maionese pensando no seu namorado?
– Estou, mas não estava pensando nele, especificamente. – respondeu, fazendo a amiga sorrir e soltar um “own”.
– Eu te abraçaria, porque foi fofo, mas estamos em uma pandemia e precisamos praticar o distanciamento social. – Cora implicou. – Enfim, como eu estava dizendo, eu quero almoçar.
– Vamos pedir comida pra almoçar aqui, porque não existe a menor chance de restaurante.
– E eu estava falando pra você escolher o que vai comer, porque quero pedir comida logo.
– O que você pedir. – deu de ombros. – Acostumei a comer em horários bem alternativos em casa, então não sei se estou com fome ainda, mas talvez eu até esteja.
– Nem me fale. – Cora riu. – Meu relógio biológico ainda tá todo bagunçado.
– Tem dias em que eu estou assim também, outros já volta ao normal…
– Hoje nós vamos almoçar cedo e depois você vai falar com o Sacristán de novo sobre não ir para o Chiringuito.
– Eu não gosto daquele programa em dias normais, imagina no meio de uma pandemia!
– Ninguém com bom senso gosta, amiga. – Cora falou, olhando para o celular enquanto pedia o almoço. – Vamos comer comida mediterrânea do Al Punto.
– Ainda bem! Achei que você ia pedir japonês e eu ia te bater.
– Não tenho culpa se você é fresca.
– Ele gosta disso. – fez uma careta. – Essa semana pediu e dormiu no sofá, peixe é fedorento demais e nem escovando os dentes o cheiro ficou menos pior.
– Você não pode estar falando sério.
– Ele não dormiu no sofá, mas também não aconteceu nada, eu não conseguia parar de sentir cheiro de peixe.
– Fresca. – Cora implicou. – E ele é cheiroso?
– Quando não está comendo peixe, sim. Muito.
– Sabia! Ele tem cara de ser muito cheiroso mesmo.
– Precisamos almoçar juntos lá em casa um dia.
– Um fim de semana em que ele e a Martina estejam disponíveis. – Cora falou e assentiu.
. – ouviu a voz de Sacristán e precisou conter a vontade de rolar os olhos.
Levantou-se e seguiu pela curta distância até a sala do chefe, que já estava sentado em sua mesa. sentou-se na cadeira à frente do homem e observou rapidamente os olhos do chefe, já que o restante do rosto estava coberto pela máscara.
– O que aconteceu agora?
– El Chiringuito.
– Já te falei isso e não quero brigar, Sacristán. Eu não gosto de ir naquele programa nem em dias normais, no meio de uma pandemia é que eu não vou gostar mesmo. Peça pra outra pessoa ir.
– Tudo bem, , tudo bem. – o homem respondeu num tom calmo. – Eu te chamei justamente pra dizer que recusei o convite pra hoje e falei da pandemia e eles estão estudando a possibilidade de, na semana que vem, fazer isso por acesso remoto. Acho que estão fazendo ao vivo no estúdio, mas sem máscaras e eu realmente não acho que seja uma atitude com bom senso ir pra um lugar assim. Estão em menor número, mas não deixa de ser descuidado.
– Eu não quero participar nem remotamente, pra ser sincera. Não gosto do programa e acho um desserviço ao jornalismo esportivo.
– Tudo bem, posso mandar outra pessoa. – Sacristán deu de ombros. – Preciso te dizer também que consegui liberação pro jogo contra o Valencia, pra ter uma pessoa lá. Eu gosto de como você faz transmissão de jogo pra rádio, eles pediram pra ser você.
– Sem problemas. Do mesmo jeito de sempre?
– Isso, mas com todas as medidas de proteção, não teremos aglomeração de repórteres e nem com os jogadores. Além disso, permitiram que você esteja na zona mista, então a ideia é você entrevistar algum jogador que seja destaque da partida e o áudio vai ao vivo pra rádio, teremos ao vivo no site também e depois ficará disponível na matéria do jogo.
– Tudo bem.
– Lá eles vão passar as instruções do di Stéfano pro distanciamento, mas acho que não tem muita coisa além do que já sabemos sobre contato físico, máscaras…
– Sem problemas.
– Não conte pra ninguém, por favor. Tem várias pessoas que acham que eu te favoreço demais aqui e isso só daria mais motivos.
– Não pretendo contar pra ninguém. – sorriu.
E era verdade.
Nem ficaria sabendo, era melhor que não soubesse que ela estaria lá e apenas focasse em seu possível retorno aos gramados depois de quase um ano de espera.

📰🤍⚽️
Estádio Alfredo di Stéfano, Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, quinta-feira, 18 de junho de 2020

Quando Bettoni o chamou, sentiu que poderia vomitar de ansiedade. Estava no aquecimento, mas não achou que fosse mesmo entrar em campo. Tinha ficado apenas no aquecimento contra o Eibar, achou que isso se repetiria, mas não. O assistente de Zidane o mandou intensificar o aquecimento e um pouco depois, estava tirando o colete e arrumando o uniforme para entrar em campo.
O jogo estava difícil, o Real Madrid tinha feito um gol com Benzema alguns minutos antes, mas era o Valencia e o time sempre dava muito trabalho, não havia um meio termo. E o juiz (e o VAR) já tinha anulado um gol do Valencia, as coisas estavam mesmo apertadas e precisavam melhorar se quisessem vencer. O Madrid precisava daqueles três pontos.
Não jogaria muito, seriam pouco mais de quinze minutos, mas estava há quase um ano sem pisar num gramado de jogo oficial, não tinha condições de jogar mais do que aquilo ainda. Sentiu o estômago se encolher tanto que quase tinha sumido, mas respirou fundo e caminhou até Zidane que estava na beirada do campo.
Zidane falou algumas coisas com a mão tampando a boca para que não fosse visto pela televisão ou pelos adversários e, por fim, o abraçou pelos ombros e tampou a boca antes de cochichar em seu ouvido:
– Vá pela direita e faça um gol. – o francês falou num tom leve, dando um tapinha na cabeça do mais novo, que riu, assentindo.

Não acreditava que fosse acontecer, afinal, estava voltando a campo depois de trezentos e trinta dias. Eram quase onze meses desde sua lesão, em julho do ano passado, e parecia ser muito mais tempo… Quando a placa subiu, mostrando o número de Fede Valverde para sair e o de , que entraria em seu lugar, ele deixou o nervosismo do lado de fora do campo e entrou, depois de ser cumprimentado pelo amigo com um leve toque de mãos.
Respirou fundo, dando uma corrida até a área do Valencia, em que o Real Madrid cobraria escanteio no canto direito do campo. Sergio Ramos estava lá, sempre a esperança de gols salvadores, mas a bola passou pelo capitão e encontrou o lateral Mendy, fora da área do lado esquerdo. O francês estava marcado, mas passou pelo dinamarquês Daniel Wass, cruzou a bola na medida certa para que a recebesse e tocasse direto para o gol, de primeira.
Gol.
Trinta segundos depois de entrar em campo.
Trinta segundos em campo depois de trezentos e trinta dias.
saiu sorrindo largo, sendo seguido pelos companheiros que estavam tão felizes quanto ele. Sergio Ramos, Luka Modric e Dani Carvajal foram os primeiros a chegarem perto do mais novo e o abraçaram, ignorando totalmente qualquer regra de distanciamento social que deveriam seguir. Estavam tão felizes pelo amigo que seria impossível não o abraçar para comemorar seu retorno, com direito a um gol. Ninguém merecia um gol naquele jogo mais do que . E ele tinha feito. Trinta segundos depois de entrar em campo após quase um ano fora. Depois ele foi abraçado por Benzema e Hazard.
Apontou para os médicos do time, sentados no banco de reservas, e agradeceu. Todos estavam em êxtase. merecia aquele gol mais do que qualquer pessoa no mundo inteiro. Ele merecia voltar em grande estilo, como sempre tinha sido. E voltou. Primeiro toque na bola depois de tanto tempo e era pra fazer um gol. Um gol que aumentava a vantagem do Real Madrid sobre o Valencia. Um gol que aumentava as chances de o time da casa sair vencedor. Um gol que mostrava que ele estava de volta.
Benzema ainda fez outro gol aos quarenta minutos do segundo tempo, o que selou de vez a vitória do time madrilenho e o colocava muito perto do Barcelona na briga pelo título de La Liga naquela temporada. Teriam tempo de conseguir passar o time catalão, mas, no momento, queria apenas aproveitar aquele dia e aquela vitória. Queria aproveitar seu gol e como isso tornou seu retorno ainda mais especial.
Ao final do jogo, a celebração no vestiário, o sorteio do antidoping e logo estava sendo comunicado de que falaria com a imprensa. A pouca imprensa presente, pelo que ele tinha ficado sabendo, mas não tinha se atentado. A jornalista que lhe interessava, provavelmente, estava trabalhando de casa. E, pensando nela, pegou o celular e viu apenas uma mensagem, comedida demais para seu gosto, mas sorriu ao ver o conteúdo do texto:
“Eu disse que você voltaria em grande estilo, como sempre foi. Não gaste muita energia na comemoração do vestiário, economize pra gastarmos mais tarde. 💜”
Pegou a bolsa de mão para sair do vestiário, iria de lá direto para a casa de , então responderia depois de passar pela imprensa. Estava tão feliz que a máscara não conseguia esconder direito seu sorriso que estava estampado em seus olhos e nas pequenas ruguinhas que eles formavam quando sorria.
E ficou ainda mais feliz quando viu que quem o esperava na zona mista era, ninguém menos que, . O brilho no olhar dela dizia muita coisa e ele queria poder levantá-la, beijá-la e comemorar com ela, que tanto incentivo tinha lhe dado, ainda antes de serem algo além de pessoas que se esbarravam pelo caminho.

– Estamos agora com , ao vivo na Rádio Marca e no site do MARCA.com, depois dessa vitória contra o Valencia em um jogo que foi bastante apertado, mas no fim permitiu que o time da casa fizesse uma boa vantagem e vencesse por três a zero. – ele a ouviu falar, olhando para a câmera. – Eu te perguntaria como você está se sentindo ao fazer um gol em seu retorno aos campos, trinta segundos depois de entrar e no primeiro toque na bola, mas acho que é totalmente visível pelo seu sorriso, ainda que escondido pela máscara, e é uma pergunta idiota. Você passou quase um ano fora, , foi uma lesão séria e que te custou muita coisa. Conversamos há algumas semanas no site do jornal e falamos sobre isso, você até brincou sobre fazer um gol no retorno aos campos e… foi o que aconteceu. Zidane tem uma confiança absurda em você, o que vocês conversaram antes de entrar?
– Não posso te contar. – deu uma risadinha. – Mas… trinta segundos?
– Sim. Trinta segundos. – assentiu. – Não vou te fazer perguntas, vou abrir o espaço pra você agradecer a quem te ajudou nesse tempo, porque é desnecessário perguntar a sensação e o sentimento do momento do retorno com um gol e que ajudou o time a conseguir três importantes pontos na busca pelo Barcelona para ser campeão da liga.
– Sobre a sensação e o sentimento… acho que alívio, voltar e ser assim tão fundamental me mostrou que eu não me perdi nesse tempo de recuperação, espero continuar bem para continuar entrando, ganhando ritmo de jogo e ajudando o Madrid a vencer e conquistar títulos.
– É o que todos esperamos e torcemos, . – ela sorriu e estava prestes a encerrar a entrevista quando ele voltou a falar.
– Quero agradecer a toda equipe médica, o que eles fizeram por mim em nenhum outro lugar do mundo eu teria sido recuperado da forma como fui e tão rápido, então eles são os principais a serem agradecidos. Meu pai e meu irmão, que me mantiveram firme durante o começo da lesão, durante a primeira parte da recuperação, no meio dessa pandemia… – falou, sentindo os olhos marejarem e a voz começar a falhar. – Ao Real Madrid inteiro, do porteiro ao presidente, aos torcedores que sempre me apoiaram. E minha namorada, que sempre me manteve motivado e nunca me deixou desacreditar que eu era capaz de conseguir voltar em alto nível, que voltaria sendo um bom jogador. Obrigado, cariño. – falou, olhando diretamente para .
Mas não esperou que ela respondesse. Num impulso, talvez por ter pensado em Iker e Sara na Copa do Mundo de 2010, abaixou a máscara e a de e juntou os lábios aos dela num selinho demorado. Talvez ela o matasse, mas era o que ele queria fazer, comemorar com sua namorada. deu um sorriso totalmente envergonhado quando se separaram, fazendo sorrir junto.
– Esse foi , do Real Madrid, para a Rádio Marca e para o site do MARCA.com. – falou sem graça e o homem que estava com a câmera sinalizou que tinha cortado a transmissão.
– Cuida bem dessa mulher, , porque ela é incrível. – o homem falou sério e assentiu.
tirou os fones e entregou ao câmera, junto com o microfone, enquanto permanecia olhando e esperando que ela lhe desse algum sinal de que não tinha gostado daquela demonstração de afeto tão pública.
Mas ela não fez.
estendeu a mão para e os dois saíram assim do estádio: de mãos dadas, sorrindo sob suas máscaras, e deixando que o mundo ficasse pra trás enquanto eles se preocupavam em ser felizes e em comemorar o retorno do jogador em grande estilo.

Diecinueve

“Porque este amor no está perdido, tú ya sabes que este amor nos encontró…” (Tini ft. Sebastian Yatra – Oye)

MARCA.com, Avenida de San Luis, Madrid, Espanha, segunda-feira, 22 de junho de 2020

sabia muito bem o que encontraria quando entrasse naquele prédio. Tinham passado a quinta-feira pós jogo contra o Valencia e a sexta-feira pela manhã totalmente desconectados da internet, além de quererem aproveitar o tempo juntos e celebrar o retorno fenomenal de aos campos, os dois sabiam muito bem que a internet deveria estar um belo inferno a respeito daquele beijo.
Mais tarde na sexta-feira, foi treinar para o jogo de domingo naquele fim de temporada tão corrido que teriam pela frente. aproveitou a sexta-feira e o sábado de folga totalmente desconectada das redes sociais, transmitiu o jogo de domingo na rádio do Marca (e foi totalmente respeitada pelos companheiros de transmissão que não fizeram menção ao ocorrido depois do jogo contra o Valencia, afinal, era sua vida pessoal e aquilo não era da conta de ninguém) e, naquele momento, estava de volta para mais um dia de trabalho. E teria que trabalhar ouvindo cochichos sobre o ocorrido, sentindo olhares de colegas de trabalho enquanto falavam de sua vida.
Não tinha ficado brava ou aborrecida com o beijo, não tinha motivos pra isso e não se importava que as pessoas soubessem que estavam juntos, porque, afinal, estavam mesmo juntos. A única coisa que passava por sua cabeça durante todo aquele tempo é que queria evitar as coisas ruins que vinham sendo ditas sobre ela e sobre ele; falavam da diferença de idade (que nem era tanta, pouco mais de dois anos, mas por ser ela a mais velha, aquilo era quase uma heresia), de trabalhos e quaisquer outras coisas que achassem pertinentes para falar o que não deviam e o que não sabiam sobre a vida alheia.
até quis cancelar sua participação na transmissão, mas foi impedida pelo chefe (é claro) e, pensando um pouco mais, ela poderia (e iria) ignorar comentários idiotas que porventura recebesse. Mas a transmissão, na realidade, foi muito tranquila, nenhum dos três que estavam trabalhando com ela mencionou o ocorrido, avisaram antes do jogo que a vida dela era privada e ninguém tinha nada com isso.
Foi uma transmissão bem tranquila, o Real Madrid venceu o Real Sociedad por 2 a 1, em San Sebastián, assumiu a liderança do campeonato, já que o Barcelona empatou com o Sevilla na sexta-feira e permitiu que o time madrileno se tornasse líder de La Liga.
tinha viajado com o time, mandou poucas mensagens durante o fim de semana e também não tinha rendido tanto o assunto, além de estar ocupada no domingo com o pré-jogo e depois com a transmissão, estava dando um tempo de redes sociais naquele fim de semana e também sabia que estava preocupado achando que a culpa de algo ruim que acontecesse (a ela e/ou entre eles) era totalmente dele, então ela preferia que conversassem pessoalmente (o que aconteceria naquela noite, depois do trabalho).
Deixando os pensamentos de lado, desceu do carro no estacionamento, trancou a porta do veículo, cumprimentou algumas pessoas pelo caminho até chegar ao andar da redação e não foi nenhuma surpresa ao ver algumas pessoas a olhando de canto e cochichando, como se ela não estivesse ali e nem tentavam ser discretos. Sentou-se em sua mesa e Cora sorriu para a amiga.

– Bom dia, florzinha.
– Bom dia. – respondeu, sorrindo. – Já está fofocando da minha vida também?
– Fofocar notícia velha? – Cora falou num tom de descaso, abanando uma das mãos, e sorriu. – Como foi o fim de semana? Você sumiu.
– Estava evitando a internet, ontem vim pra cobrir o jogo e foi bem tranquilo.
– Você deveria estar de folga então, não?!
– Sábado e domingo. – deu de ombros. – Assim espero, pelo menos, não quero ter que transmitir jogo no fim de semana de novo.
– Eu preciso ir agora pra fazer a coletiva do Simeone e depois uma reunião com a equipe que cuida desse time horrível, mas comemos juntas? Digo, pedimos o almoço juntas?
– Claro. – sorriu. – Boa sorte.
– Pelo menos não é presencial e eu não preciso estar pessoalmente na presença daquele homem. – Cora torceu o nariz, fazendo sorrir.
– Então vai logo. – enxotou a amiga e logo estava sozinha.
Observou seu cronograma sobre a mesa para ver o que precisava fazer naquele dia, quais as pautas, porque precisava começar a trabalhar. Abriu as redes sociais do Real Madrid e o site do time em busca de alguma notícia que servisse de base para o que tinha que escrever, mas não havia atualizações ainda. O time não voltaria aos treinos pela manhã.
. – ouviu a voz de Sacristán e deu um suspiro antes de ficar de pé e ir até a sala do chefe, fechando a porta atrás de si.
– Bom dia, Sacristán.
– Bom dia, . – falou e apontou para a cadeira livre à frente de sua mesa.
– O que aconteceu agora?
– Eu é que te pergunto. O que foi aquilo na quinta-feira?
– Não sei do que você está falando. – falou, torcendo para que não estivesse mesmo ouvindo aquilo.
– Na entrevista do pós-jogo com
– Uma entrevista de pós-jogo com um jogador. Foi isso o que aconteceu.
– Eu não sabia que entrevistas rendiam beijos. – o tom era zombeteiro e não demonstrou afetação.
– Você tem algum propósito profissional com essa conversa? Porque se não tem, sinto te informar, mas minha vida pessoal não te diz respeito.
– Não quero saber disso, . A única coisa sobre isso que me interessa é se você for trazer notícias adiantadas pro jornal.
– Como é que é?
– Você ouviu bem, não vou repetir.
– E você acha que isso é o tipo de coisa que você pode falar? Que pode sugerir esse tipo de coisa absurda e totalmente antiética? – perguntou ofendida. – Eu não sei de onde você tirou que eu sou esse tipo de profissional, Sacristán, porque eu nunca dei sinais disso, mas como não ficou claro, vou ser bem didática pra você entender: eu não sou fofoqueira pra ficar falando de vida pessoal de jogador e muito menos pombo-correio pra levar e trazer informações!
– Ninguém vai saber que foi você, , deixe de drama.
– Você não tem o direito de me chamar assim, não somos nada além de chefe e empregada, muito menos pode questionar meu profissionalismo ao sugerir que eu peça para um atleta quebrar sigilo de vestiário pra soltar na mídia apenas porque somos namorados. – falou, ficando de pé. – Você não tem senso?
– Tenho, mas é ótimo noticiar coisas de verdade antes dos outros, não acha? E seria de uma boa fonte, então a informação seria verdadeira e, juntando isso à credibilidade que você tem…
– Eu espero que isso seja uma brincadeira de muito mal gosto. De verdade.
– Pareço estar brincando?
– Não. E esse é o problema. – respondeu desacreditada. – Quer saber? Estou me demitindo e volto apenas pra buscar meu acerto do mês. Boa sorte e boa vida pra vocês.
– Começou o drama de se demitir…
– Não é drama, Sacristán. – falou, tirando o crachá e o colocou com força sobre a mesa do homem, fazendo barulho. – Estou me demitindo de verdade.
– Você tem que comunicar com quinze dias de antecedência que pretende deixar o emprego, então ainda tem mais quinze dias pra cumprir aqui na redação. – o homem respondeu debochado.
– Eu estou me demitindo e te avisando que não vou voltar aqui.
– Não vai receber o que deveria.
– Eu espero que você não faça isso. – sorriu de forma debochada ao falar, inclinando-se na direção de Sacristán. – Esse prédio inteiro é testemunha de todas as vezes que você quis me fazer desviar de função, de todos os trabalhos que fiz por semanas sem folga e dessa conversinha sobre vazar informações de vestiário, porque estamos sendo bastante audíveis. Se você pretende não ser processado, espero que quarta-feira de manhã meu pagamento esteja aqui e a rescisão também.
– Está me ameaçando?
– Não estou ameaçando, porque ao contrário do que você pensa, eu não preciso disso. Eu estou te avisando que esse ciclo acabou, se eu precisar escancarar pro mundo inteiro o tipo de jornalismo que você quer fazer, as jornadas triplicadas e tudo mais, você não vai ficar bem. Nem o jornal. E eu sei que vocês não querem isso, então evite minha ligação pra sede e faça o que eu estou te falando.
– Você vai se arrepender disso, .
– Talvez eu me arrependa no meu novo emprego em que eu ganho duas vezes mais do que aqui e não serei pressionada pelo meu chefe pra ficar fazendo fofoca e sendo pombo correio pra gerar clique. – sorriu debochada. – Estarei aqui na quarta-feira às dez, espero que tudo esteja pronto.

não esperou resposta, apenas saiu da sala do homem, pegou as próprias coisas sobre sua mesa e deixou um bilhete para Cora informando que não almoçariam juntas, mas depois conversaria com a amiga sobre o ocorrido. E, depois disso, deixando todas as identificações do Marca para trás, respondeu o e-mail do Real Madrid e dirigiu sem demora até o escritório da assessoria de imprensa do time, no Santiago Bernabéu.
Tinha um contrato para assinar e algumas coisas a discutir a respeito disso.

📰🤍⚽️
Madrid, Espanha, segunda-feira, 22 de junho de 2020

estava preocupado.
Passou o dia inteiro sem falar com e no fim de semana os dois mal conversaram depois que ele precisou ir para o treino na tarde da sexta-feira e não tinham mais se encontrado. Ela, provavelmente estava puta por causa do beijo para o mundo inteiro ver e por isso não tinham conversado mais desde então. Tinha sido ótimo, mas agora a ideia parecia idiota e irresponsável, como se ele fosse um adolescente descontrolado.
A única coisa que sabia é que se encontrariam na casa dela em alguns minutos, ele estava ali, dentro do carro, parado na rua e pensando se seu namoro que mal tinha começado já estava prestes a terminar. Esperava que não. Pediria desculpas, diria que aquilo nunca mais se repetiria, arrumaria um jeito, se fosse necessário, porque não queria perder aquele relacionamento que vinha lhe fazendo tão bem.
Pegou o telefone e ligou para a primeira pessoa que pensou que poderia ajudá-lo naquele momento, não demorando a ser atendido.

? – a voz de Marina soou curiosa do outro lado.
– Oi Nina, tudo bem? Tá podendo conversar?
– Claro. Aconteceu algo?
– Estou surtando. – deu uma risadinha nasalada.
– Mas por q… ah. – Marina deu uma risada baixa. – Vocês conversaram?
– Ainda não. Estou parado na porta da casa dela, mas estou surtando e pensei em ligar pra pessoa mais sensata dos meus contatos sem ser meu pai.
– Você me ligou pra te dar o número da María? – brincou e soltou uma risada.
– Agora que você falou, vou desligar e ligar pra ela. – respondeu ainda rindo.
– Fico feliz que você tenha pensado em mim. O que aconteceu?
– Eu estou meio nervoso desde… sexta-feira à tarde, quando precisei ir pra Valdebebas e vi toda a repercussão do que aconteceu… Nós mal conversamos desde então.
– Você não podia esperar menos repercussão do que teve, . Primeiro, o beijo favorito de todos os espanhóis com bom senso foi copiado em rede nacional, porque uma pessoa com bom senso ama aquele momento da Sara e do Iker mais do que ama a conquista da Copa. Segundo, você é um excelente jogador, joga no maior time do mundo, é um selecionável e o mundo está de olho em você, principalmente depois do retorno incrível que teve. Terceiro, estamos falando de . – Marina enfatizou bem a última parte. – É estranho ter o mundo cuidando da sua vida pessoal assim, eu sei e você também sabe, porque passa por isso há um tempo, mas vocês precisam conversar e ver como vão lidar com isso.
– Nina, mas e se ela ficou puta e quiser terminar?
– Ela pareceu puta e disposta a terminar quando vocês saíram do di Stéfano e depois enquanto estavam juntos até você precisar ir treinar?
– Não. Mas podia ser apenas o calor do momento. Ou pra não cortar minha onda e minha felicidade pelo gol e pela volta aos gramados.
– Você acha que ela deixaria de fazer algo só porque isso poderia cortar sua onda?
– Não.
– Então você tem a resposta sobre ela ter ficado puta e querer terminar. – riu. – , vocês têm que sentar e conversar sobre o que aconteceu, já está feito e não tem como desfazer, ainda bem, porque foi lindo e eu amei. Acho que já vi umas mil vezes. Enfim, vocês precisam conversar e definir como levarão esse relacionamento a partir de agora que o mundo inteiro sabe que estão juntos.
– Podemos fingir que não sabemos de nada.
– Você pode até evitar o assunto e nem ser perguntado sobre isso, meu querido, mas não deixarão que ela evite. – Marina respondeu, dando uma risadinha sentida. – E, não adianta ignorar, você lembra que na época daquele rumor sobre nós, não adiantou, então conversem e decidam o que vocês farão. Conversar é uma das coisas mais importantes em um relacionamento, , não deixem isso passar e nem tentem empurrar pra debaixo do tapete.
– E se ela quiser terminar? – o tom era igual ao de uma criança de cinco anos.
– Então vocês seguirão suas vidas, cada um no seu canto. Eu não acho que ela faria esse tipo de coisa, , ela gosta de você, caso contrário, vocês nunca teriam passado do status de pessoas que se esbarram.
– Você sabe disso dos esbarrões?
– Isco é um fofoqueiro, caso você tenha esquecido.
– Meu medo é que ela queira terminar. Eu acho que não estou pronto pra isso.
– Meu conselho é que você tire isso da cabeça. Não entre na casa dela com esse desespero, senão essa conversa está fadada ao fracasso. Se você não se sente seguro, dê meia volta e só apareça aí quando se sentir confortável e confiante o suficiente pra não surtar. Caso você ache que consegue deixar esse surto de lado e ir conversar com ela, seja sincero e conversem sobre como esse relacionamento segue, sobre aparições e essas coisas. Iker e Sara nunca esconderam o namoro, sempre foram vistos juntos e mesmo quando falavam aquelas merdas sobre o relacionamento deles e inventando coisas pra ter o que falar. Isco e eu deveríamos ter feito isso também se eu não fosse burra. Meu irmão e a Pilar também nunca esconderam o interesse e nem o relacionamento. Acho que vocês podem fazer isso acontecer, mesmo que não fiquem postando fotos o dia todo falando um do outro, que não vivam de declarações na internet, porque isso é só pra encher os olhos dos curiosos, vocês podem manter o relacionamento a vista de todos. Sei que na teoria é bem mais fácil que na prática e que eu sou a pior pessoa pra falar sobre isso, porque estou sempre prestes a mandar um fotógrafo ou um fofoqueiro pra puta que pariu, mas eu sou muito boa em falar o que os outros precisam fazer.
– Você é irmã do seu irmão, Nina, mandar nos outros está no seu sangue. – respondeu, fazendo Marina gargalhar. – Mas… obrigado. Eu… eu acho que podemos conversar hoje e ver como ficamos. Não sei se ela terminaria por causa daquilo, não tem motivos. Eu acho.
– Ei, o jantar está pronto! Vem comer. Quem é? O Santi? – ouviu a voz de Isco ao fundo.
.
– Por que vocês estão fofocando como você faz com o Santiago hein? , você liga pra fofocar é pra mim e não pra Marina!
– Isco falou alto e seu tom era ofendido, o que fez o mais novo rir.
– Avisa pro seu namorado que eu ligo pra ele pra fofocar, mas pra você eu ligo pra pedir conselhos, pois você é a parte sensata desse relacionamento.
– Todo mundo sabe que Ninisco é 100% Marina sendo linda, perfeita e sem defeitos e o Isco só contribuiu com o nome do ship. – Marina implicou.
– Eu vou te falar com o que mais eu contribuo nesse relacionamento assim que você desligar esse telefone. Ou melhor, vou mostrar.
– Nisso eu tenho que concordar, mi amor. Melhor contribuição de todas, sorte a minha.
– Credo, que nojo. Sério, obrigado Nina. Vou descer do carro e ir até lá. Espero que dê tudo certo.
– Dará, . E me conte como foram as coisas depois. – Marina falou e a ligação foi encerrada.
respirou fundo, abriu a porta do carro e o trancou assim que desceu. Não demorou a ser recebido por no portão, que sorriu de um jeito tão bonito quando o viu que todas as preocupações de ficaram do lado de fora e ele nem conseguia pensar no motivo de ter ficado apreensivo.
– Você demorou. – falou antes de dar um selinho demorado em , fechando o portão em seguida e os dois caminharam até o interior da casa.
– Desculpa. – falou, franzindo o nariz e ela sorriu de volta, mas antes que pudesse seguir até o sofá, a segurou pela mão e a olhou apreensivo. – , nós estamos bem?
– E por que não estaríamos?
– Por causa do inferno que estão fazendo na internet por causa do beijo que eu te dei depois do jogo? – perguntou em tom óbvio e ela deu de ombros.
– Sempre existirão pessoas pra falar sobre o que acontece na vida dos outros, seja para o bem ou para o mal, mas cabe a nós decidir se a verdade será o que elas falam ou se é o que realmente acontece. Eu sei quem eu sou, conheço meu trabalho e meu profissionalismo muito bem; também sei quem você é dentro e fora de campo, sei que nosso relacionamento é novo e ainda está encontrando forma, então o que estão postando no Twitter pouco me interessa. Se acham que você não me merece, problema é deles, porque essa não é a verdade e nem será. Você é quem decide se a verdade é que eu não te mereço ou o contrário, mi amor. – respondeu e deu um sorriso ao ouvir aquilo, tomando nos braços e a abraçando.
– Você é uma pessoa incrível, , e eu jamais poderia ter imaginado que teria a chance de namorar de novo e com uma pessoa tão maravilhosa. Eu estava surtando, não nego, tive medo de que isso acabasse interferindo na sua carreira, já q…
– Ah, mas interferiu. – falou séria, afastando-se um pouco de para olhá-lo diretamente e ele teve vontade de chorar.
– S-sério?
– Não sou mais jornalista do Marca por causa disso. O Sacristán teve a pachorra de me chamar hoje e dizer que eu poderia vazar informações do time pro jornal e sempre termos notícias em primeira mão. Então eu pedi demissão, porque essa atitude só mostra o quanto ele não valoriza meu trabalho e nem a profissional que eu sou e sempre fui. E achou que você é algum tipo de idiota também, que ficará vazando informações do clube. Sem contar a intromissão na vida pessoal… então nós brigamos e eu pedi demissão.
– Desculpa por isso. Eu não quis te causar nenhum problema, cariño, de verdade. Eu só… agi no impulso e…
– E copiamos o melhor beijo espanhol de todos os tempos. – sorriu. – Não se preocupe, amor, porque uma hora ou outra as pessoas saberiam que estamos juntos, nunca esteve nos meus planos só sair às escondidas com você, uma hora ou outra aconteceria e eu já estava mentalmente preparada pra lidar com isso. E, em todo caso, eu acabaria saindo do Marca em breve mesmo.
– Acabaria? – perguntou curioso.
– Recebi uma proposta de emprego muito, muito melhor.
– Melhor que todas as outras?
– Uma proposta capaz de colocar todas as outras no chinelo. – respondeu sorrindo.
– E quando foi isso?
– Depois da nossa entrevista pro site do Marca. O Real Madrid me mandou um e-mail oferecendo um cargo no departamento de imprensa do time, mas eu estava pensando muito, pesando prós e contras de tudo. Hoje fui até a sede e conversei com o responsável, ele me explicou o que quer que eu faça e esclareceu dúvidas, eu aceitei e começo amanhã.
– Sério? – deu um sorriso enorme, recebendo um aceno de , que também sorria. – Mas… ele falou algo sobre nós?
– Falou sim. – assentiu. – Disse que nos acha um casal bonito e que espera que tudo dê certo entre nós.
– Nenhuma implicância sobre o namoro?
– Essa era minha primeira condição para aceitar o trabalho, cariño, se dissessem que eu teria que escolher entre o trabalho e o relacionamento, eu não aceitaria o trabalho, porque esse tipo de coisa só mostra que não confiariam na profissional que sou.
– Tem como você ser mais perfeita?
– Acho que não. – brincou, sorrindo. – Mas eles disseram que tudo bem, contanto que a gente não se agarre durante o expediente.
– E você vai ficar em Valdebebas?
– Fico sim, mas não em contato direto com vocês em treinos e essas coisas. Eu vou ficar bem na parte de assessoria de imprensa, participo de coletivas, mas também fico como repórter em alguns jogos e com algumas coisas que forem pra TV e pro Rádio do time.
– Vai trabalhar muito lá também.
– Vou, mas me deram algumas liberdades, o salário é incrível, terei folgas de verdade e tiro férias com uma parte das férias do time.
– Bastante vantajoso.
– E ainda tenho o plus de ganhar camisas agora ao invés de comprar.
– Eu ainda vou te dar todas com meu nome nas costas.
– Não espero menos do que isso, gracinha. – piscou. – Agora vamos jantar, eu estou com fome e imagino que você também esteja.
– Eu estou é com vontade de te beijar. – resmungou, fazendo gargalhar e lhe dar um beijo demorado na bochecha.
– Primeiro a gente janta, depois podemos aproveitar um tempinho juntos.
– Ou um tempão. – sugeriu, mordendo o lábio inferior e olhando para .
– Ou um tempão. – concordou.

Veinte

“Yo lo que siento es que cuando estamos juntos está a favor el universo, todo es tan perfecto…” (Greeicy – Los Besos)

Madrid, Espanha, sexta-feira, 03 de julho de 2020

Estava cansada do trabalho no dia anterior, depois do jogo do Real Madrid, a sexta vitória consecutiva do time. Teria que trabalhar, ao contrário de , não estava de folga pela manhã e os dois acabaram nem dormindo juntos, acordaria cedo para o trabalho e ele merecia descansar um pouco antes de precisar ir para o centro de treinamento.
Aqueles dez dias de trabalho no Real Madrid vinham sendo ótimos, bem diferente do que ela tinha achado que seria, porque cuidava da parte de assessoria de imprensa da equipe e era ainda mais corrido do que pensou que seria, muitas coisas para fazer e decisões para tomar, mas estava feliz com aquilo.
Só não estava feliz com todo inferno que muitas pessoas estavam fazendo na internet depois que tinham descoberto que, agora, ela estava trabalhando para o Real Madrid. Coisas do tipo “só está lá por estar com um jogador”, “usou o pra conseguir o emprego”, “outra golpista que usa macho burro pra subir na vida” estavam circulando pela internet e ela via tudo, afinal as menções eram diretas a ela ou nos tweets do Real Madrid.
Resolvera ignorar, não perderia tempo respondendo àquele tipo de coisa, sabia da verdade e era isso que importava, mas era horrível ver as pessoas falando tanta asneira sobre si e sobre seu profissionalismo. Tinha decidido ignorar, mas era uma bela merda que as pessoas se achassem no direito de opinar sobre o que não sabiam e tampouco foram perguntadas.
Ouviu o celular tocar no quarto e, enquanto escovava os dentes, foi até o aparelho para atender. Cora.

. – atendeu falando como podia com a boca cheia de espuma de pasta de dente.
– Eu acho que você precisa ligar na Rádio Marca agora. E pare de atender o telefone escovando dente. – Cora falou, desligando em seguida e, mesmo sem entender, foi até o rádio para descobrir o que estava acontecendo.
– Estamos recebendo excepcionalmente o redator-chefe do Marca, Javier Sacristán, que tem um recado importante pra dar a vocês. Bom dia, Javi.
– Bom dia, Raúl. –
ouviu a voz do chefe e respirou fundo, temendo o que estava por vir naquele momento. – Eu vim fazer um pronunciamento rápido, que também está sendo gravado e vai ao Instagram do jornal e espero que não seja necessário que esse tipo de pronunciamento seja feito de novo.
– Lá vem. – murmurou.
– É de conhecimento geral que a jornalista deixou o Marca e agora trabalha na assessoria de imprensa do Real Madrid, o que é uma imensa honra para o time madrileno, é uma das melhores jornalistas europeias, tudo que ela publicou pelo Marca era reproduzido pelo mundo inteiro, nunca se questionava ou se desconfiava do que ela dizia e postava, porque nunca inventou nada para ganhar cliques ou notoriedade. Ela cumpriu o juramento da faculdade de ter compromisso com a verdade e nunca usar sua voz para espalhar mentiras e propagar o mal. Ela tinha propostas da Europa inteira, de times e jornais, pois sempre foi uma profissional comprometida com o trabalho, não à toa era sempre solicitada em programas de rádio e televisão, estava nas transmissões dos jogos e suas matérias eram sempre as mais acessadas. Outra coisa que sempre se percebe, podem buscar todos os vídeos de coletivas de Zidane ou nas que fez com Lopetegui ou Solari, todos sempre pareciam muito felizes ao vê-la, sabiam da qualidade do trabalho exercido por ela. nunca criou polêmicas ou fez perguntas apenas por fazer, para criar climas tensos ou coisas do tipo. E, por isso, o Real Madrid a enxergou e ofereceu o emprego a ela. Eu fiz questão de ressaltar a eles, quando fizeram a ligação de praxe pra pedir referências, de que estavam contratando a melhor profissional que poderiam querer. venceu prêmios de jornalismo por sua competência e pela profissional que é, não por ter sido favorecida por alguma relação pessoal. O que, inclusive, é abominado por ela. Eu assumo que muitas vezes tentei fazer com que ela relacionasse quedas de rendimento de jogadores com seus estilos de vida fora dos campos e ela sempre me peitou dizendo que não trabalhava para publicar fofocas e especulações, que o jornalismo tem compromisso com a verdade e não com especulações a respeito da vida pessoal e privada dos jogadores. O namoro dela com o jogador em nada tem a ver com esse novo emprego, é uma excelente jornalista e o Real Madrid não contrataria uma pessoa por causa de relacionamentos com jogadores, pelo contrário, o clube não se arriscaria dessa forma. Então, a todos que estão falando esse tipo de coisa, joguem o nome no Google e leiam bem todas as coisas sobre ela, sobre sua formação com louvor, seus artigos científicos publicados e reproduzidos por vários veículos de comunicação, suas conquistas de prêmios de jornalismo e o reconhecimento que ela tem dentro e fora da Espanha. nunca precisou de pessoas para alçar seus voos, ela sempre fez isso sozinha. Leiam tudo que ela já escreveu e vejam como ela nunca precisou de mentiras e polêmicas, nunca se expôs pessoalmente e sempre procurou trabalhar pela verdade. – Sacristán falou e seu tom era sério, mas sereno. – E era isso. Qualquer dúvida que exista, entrem em contato comigo, eu terei o prazer de fazer excelentes recomendações, é uma das melhores profissionais com quem já trabalhei e que ela agregou e sempre agregará muito ao jornalismo esportivo espanhol.

ficou encarando o rádio, segurando a escova de dentes dentro da boca, olhos arregalados e sentindo o celular começar a vibrar loucamente com as várias notificações de mensagens. Não era possível que Sacristán tinha ido ao rádio falar tudo aquilo em sua defesa depois de todas as vezes que brigaram e em que ela simplesmente não fez o que ele queria e lutou para que não houvesse invasão na privacidade dos atletas.
Estava perplexa, não podia negar, mas precisava terminar de se arrumar para trabalhar e ainda arrumar um tempo de ligar para Sacristán e agradecer por aquele pronunciamento, mesmo que ela já estivesse ignorando totalmente o que diziam a seu respeito. Tinha sido uma atitude muito respeitosa do antigo chefe e ela era realmente grata por ter trabalhado tantos anos no Marca, o maior jornal da Espanha, e ter sido reconhecida dentro da profissão escrevendo sobre o esporte que tinha crescido amando.
Terminou de escovar os dentes e pegou a bolsa para sair, mas enquanto caminhava até o carro, o celular tocou em seu bolso e o nome “Javier S.” estava na tela. Ótimo, ela já resolveria toda a questão de uma vez.

– Alô.
?
– Oi Sacristán, eu mesma.
– Acho que você deve ter ouvido na rádio ou viu o vídeo em que foi marcada no Instagram do jornal…
– Eu ouvi sim. Inclusive ia te ligar para agradecer, achei absolutamente respeitoso seu pronunciamento e fico feliz que você tenha sentido vontade de se pronunciar para defender meu nome assim, eu mesma ia só ignorar.
, você foi uma das melhores pessoas com quem trabalhei durante todos esses anos, sempre muito respeitosa e profissional, nunca misturando a sua vida ou seus interesses pessoais com o trabalho. Todas as propostas de trabalho que você recebeu durante esses anos foram muito mais do que merecidas e eu acho que não consigo citar outra pessoa tão competente quanto você no atual cenário do jornalismo esportivo nacional.
– Obrigada.
– Mas eu liguei, também, porque percebi que fui um idiota com você, tanto como profissional quanto como mulher.
– Foi mesmo.
– E durante muito tempo. Quando te pedia pra escrever aquelas coisas e mencionava a vida pessoal de jogadores, principalmente de namoradas e esposas. Você nunca precisou disso e nem o Marca, mas eu pensei em cliques e esqueci que nosso compromisso é com a verdade. E te desrespeitei ao falar o que causou sua saída, mesmo que eu imagine que você fosse sair de qualquer forma. Errei ao te pedir aquele absurdo e dizer que você poderia pedir ao seu namorado para vazar informações. Peço desculpas, de verdade, por isso e por ter feito você se estressar várias vezes por causa disso, mas serviu para que eu, mesmo que tardiamente, abrisse os olhos e enxergasse que a fofoca fica por conta do Salvame e que o Marca faz jornalismo sem especulação, apenas com a verdade.
– Tudo bem. Eu fiquei muito puta na hora, de verdade, em todos esses momentos, mas eu me conheço e sei que nunca me venderia para publicar esse tipo de coisa, se fossem me demitir caso eu não publicasse, eu seria demitida e procuraria outro lugar pra trabalhar. Foi muito bom trabalhar no Marca, foi uma oportunidade maravilhosa e sei que cresci muito profissionalmente aí e sou muito grata por todas as portas que o jornal abriu.
– Você me desculpa, de verdade?
– Claro. Águas passadas não movem moinhos.
– Espero que continuem deixando você ir à rádio, gostamos mesmo de ter você por lá.
– Cobrir jogo será impossível, mas vez ou outra posso ir ao La Tribu.
– Você deve estar indo para o trabalho, desculpa incomodar e espero que você tenha ainda mais sucesso nessa nova fase, . Você merece.
– Obrigada, Sacristán. Digo o mesmo pra você. – respondeu e depois de uma despedida rápida, desligou.
Entrou no carro e viu o celular acender antes de colocá-lo na bolsa. Não responderia naquele momento – ainda não tinha respondido ninguém e só o faria mais tarde – mas viu a notificação com o nome de e deu uma risada nasalada antes de deixar os pertences sobre o banco do carona e sair de casa.
“Eu achava que eu era o mais famoso desse relacionamento, mas fui dar um Google no seu nome, como seu antigo chefe falou… sério, me dá um autógrafo?”

Quando chegou ao trabalho, precisava resolver algumas coisas para as notas que iam ao site, sem contar as postagens. A vitória contra o Getafe tinha sido a sexta depois do retorno do campeonato, o Real Madrid estava invicto naquele retorno, e caminhando a passos largos para erguer mais uma taça do campeonato nacional. E aquilo até acendia uma chama de esperança nos madridistas de que a classificação para as quartas-de-final da Champions League era possível.
Trabalhou muito mais do que achou que trabalharia e mal teve tempo de responder as mensagens no horário de almoço, tivera uma reunião na parte da tarde e que consumiu boa parte do expediente. Ao final do dia, quando finalmente estava saindo do prédio, o celular vibrou em sua mão e ela pegou para olhar antes de entrar no carro e ter que enfrentar um trânsito terrível de fim de dia.

– Alô.
– Falo com a jornalista mais importante dos últimos tempos? – a voz de soou do outro lado e riu.
– Não, aqui é a assessora de imprensa do Real Madrid.
– Acho que eu sou o próximo Piqué. Serei conhecido como o namorado da eternamente. – brincou. – Sorte a minha, inclusive.
– Você é ridículo. – riu. – Tudo bem? Como foi seu dia?
– Parado na parte da manhã e fiz treino de recuperação e um tático leve hoje, mas eu estou bem. E você?
– Trabalhei demais, mas pelo menos é sexta-feira.
– Viaja com a gente pra Bilbao?
– Claro. E estarei em Valdebebas amanhã, pra auxiliar na coletiva virtual.
– Posso ir dormir com você hoje? Vamos juntos pra lá.
– Claro, amor. Eu vou sair daqui agora, não devo chegar em casa com menos de meia hora, o trânsito deve estar uma merda, então espera eu chegar em casa e tomar um banho, eu te aviso e você vai, pode ser? Da sua casa pra lá é bem mais rápido.
– Foi de carro?
– Hoje sim, saí no limite do horário e resolvi não vir de UBER ou de bicicleta.
– Uma pena, eu te buscaria…
– Então a gente se vê lá em casa daqui a pouco, tudo bem?
– Claro, daqui a pouco eu chego. Quer que leve alguma coisa?
– Acho que não, vamos trabalhar amanhã, então sem chance de beber vinho e comer pizza, vamos deixar isso pra depois.
– Tudo bem. Até daqui a pouco, mi amor. falou e a ligação foi encerrada.
seguiu para o próprio carro e enfrentou meia hora de congestionamento na Gran Via de Hortaleza antes de conseguir chegar em casa, num trajeto que normalmente durava dez minutos. Mas, pelo menos, veria dali alguns minutos e isso a deixava menos estafada de aturar congestionamentos depois de um dia intenso de trabalho, a recompensa seria ótima.

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Estádio Alfredo di Stéfano, Ciudad Real Madrid, Valdebebas, Madrid, quinta-feira, 16 de julho de 2020

– O Real Madrid, depois dessa vitória contra o Villarreal, aqui no Alfredo di Stéfano, acaba de se consagrar campeão da temporada 2019/2020 de La Liga, totalizando trinta e quatro conquistas, o maior campeão nacional da liga. São tempos difíceis, mas o time conseguiu se reencontrar e voltar bem para finalizar o campeonato, ainda levando o título. Faltando apenas um jogo para o fim do campeonato espanhol, o time começa agora a se concentrar no jogo de volta da Champions League, contra o Manchester City, em Manchester, no dia sete de agosto, buscando a classificação para as quartas-de-final da competição, mesmo que o primeiro resultado tenha sido negativo. Hoje, com dois gols válidos e um anulado, o Real Madrid venceu por dois a um e é um dia de comemoração, mesmo no cenário atual e sem poder ter o contato com a torcida, como sempre acontece, mas em breve estaremos todos celebrando juntos. ¡Hala Madrid! y nada más. – falou para a câmera e a gravação foi encerrada.
– Podemos tirar uma foto com a taça agora? – ouviu a voz de e se virou na direção em que ele estava, com um sorriso enorme no rosto.
– Estou trabalhando, , não consigo parar agora. – respondeu, franzindo o nariz, e soltou um resmungo quase mimado. – Mas parabéns pelo título, amor. E, pra mim, seu gol foi legal e nós vencemos por três a um.
– Não dá pra ser rapidinho? – perguntou, fazendo beicinho e ela negou. – Que saco.
– Vá comemorar, eu tenho que ir auxiliar o careca. – falou, maneando a cabeça na direção em que Zidane estava se encaminhando para falar com La Liga e riu.
– Vamos embora juntos?
– Claro. Te espero no estacionamento. – respondeu e assentiu, saindo de perto da jornalista e voltando para as comemorações.
– Vá tirar uma foto com ele e a taça. – ouviu Jorge, o câmera, falar.
– Estou trabalhando, o momento de comemoração é dele. – respondeu e o homem riu, balançando a cabeça negativamente.
– O Zizou sabe se virar com a entrevista pra La Liga. E, em todo caso, você já acabou seu trabalho.
– Mas e…
– Ei, ! – Jorge gritou, atraindo a atenção do jogador. – Toda sua.
– Jorge!
– Vejo você amanhã. – o câmera respondeu, dando uma risada da cara que fez e saiu de perto quando se aproximou.
– Agora podemos?
– Devemos. – deu uma risada nasalada. – Mas longe da aglomeração.
– Claro, não quero que você tenha que lidar com esses idiotas.
– Ela lida com você, , então lidar com a gente é fácil. – ouviu uma voz masculina e quando se virou, encontrou Nacho, que tinha um sorriso amistoso no rosto. – É um prazer conhecê-la pessoalmente, .
– Digo o mesmo, Nacho. Parabéns pelo título.
– E como está sendo trabalhar diretamente no clube?
– Bem diferente, pra ser sincera. Eu falava do time fora, eu tinha mais amplitude pra falar de coisas, fazer críticas… agora eu trabalho para o time, então esse tipo de coisa não será exposto, mas tem sido bem interessante lidar com o clube diretamente.
– Eu gostava de ler o que você escrevia no Marca e quando ia pra rádio. – Nacho falou e sorriu. – E quando foi ao Chiringuito.
– Minha maior alegria é não ir mais a esse programa. – riu. – Não gosto do tipo de jornalismo que fazem lá e da forma como tentam criar polêmicas e boatos.
– Sério?
– Absolutamente. Não combinava comigo e eu fui duas vezes obrigada, se dependesse de mim, nunca teria pisado naquele programa. Acho que eles forçam algumas coisas desnecessárias pra ter audiência.
– Então você se livrou de uma boa, porque eles realmente pareceram gostar da sua presença lá dessa última vez, no começo da temporada. – Nacho sorriu. – Vou deixar vocês tirarem a foto, porque todo mundo precisa ir embora logo. Foi um prazer conhecer você, .
– Igualmente, Nacho. – ela sorriu e o jogador acenou em despedida, dando um tapa na nuca de antes de se afastar.
– Filho da mãe. – resmungou. – Foto?
– Foto.
– Hoje a gente pode comer pizza e tomar vinho?
– Bem pouco, eu trabalho amanhã. – falou e os dois seguiram até Eden Hazard, que estava com a taça tirando as fotos.
– A francesa está em Madrid, mona mie? – perguntou e Eden fez uma careta, negando com um aceno.
– Está na França, precisou voltar pra lá e trabalhar.
– Achei que ela viria morar aqui.
– Só quando casarmos.
– E isso será quando?
– Por mim seria amanhã, mas ela acha que precisamos esperar um pouco mais antes de dar um passo desses. – resmungou, fazendo uma careta. – Agora a taça é toda sua e de sua namorada. É um prazer conhecê-la, .
– O prazer é todo meu, Hazard. – respondeu num tom simpático.
A foto foi tirada pelo belga, primeiro uma de sozinho com a taça, uma do casal e outra de sozinha com a taça e logo o troféu saiu para ser exibido em outras fotos. Os jogadores precisaram deixar o campo e logo estavam nos vestiários celebrando um pouco mais. O dia seguinte seria de folga – menos para os que não jogaram – e voltariam ao trabalho no sábado para uma preparação rápida para o último jogo de La Liga, contra o Alavés, ali mesmo no di Stéfano.
Não haveria folga até o jogo contra o Manchester City, então os treinos seriam bem mais intensos e duradouros, sem muitas folgas e já até se especulava que o time ficaria fechado em Valdebebas para concentração total. Então, precisavam aproveitar aqueles momentos juntos antes das férias que poderiam aproveitar naquele momento.

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Madrid, Espanha, sábado, 01 de agosto de 2020

Depois que tinha recebido aquela mensagem de mais cedo dizendo que os pais estavam em Madrid e que ele iria conhecê-los naquela noite, estava aflito. Tinha certeza absoluta que os pais dela são pessoas incríveis, já tinha conversado com os dois por FaceTime, mas ele iria conhecê-los pessoalmente. E isso era assustador. Conhecer os pais da namorada era sempre muito assustador, ele nunca fora muito fã desse momento, mesmo sabendo que os pais de eram pessoas muito boas e tranquilas e que não tinha com o que se preocupar.
Arrumou-se da melhor forma possível, conferindo a imagem tantas vezes no espelho que seu reflexo estava quase cansado de aparecer e observar a incerteza que pairava sobre naquele momento. Não estava formal, mas não estava desleixado, porém não sabia como poderia passar uma boa imagem para os pais de .
E estava um calor dos infernos em Madrid naquele sábado, os termômetros já tinham registrado trinta e nove graus durante a tarde e a temperatura não tinha abaixado muito desde então, o que só deixava mais apreensivo, porque uma bermuda poderia parecer desleixado demais, mas uma calça jeans poderia matá-lo de calor.
Naquele momento, estava de bermuda jeans e uma camisa de malha simples, tênis e só, mas tinha achado muito simples e talvez displicente. Não queria parecer displicente ou relaxado. Só queria se vestir de um jeito que não fosse derreter, mas que não passasse a impressão errada para os pais da namorada.

– Pare de se preocupar e saia logo, você vai se atrasar, cabeçudo. – Igor falou, parado no batente do quarto do irmão. – Você está ótimo e eles vão gostar de você pelo que você é e não pelas suas roupas.
– Eu queria muito ficar tranquilo mesmo, mas são os pais dela e eu fico nervoso pensando que talvez eles não gostem de mim e isso será uma merda.
, eles já te conhecem. E gostam de você pelo simples fato da filha deles gostar de você e por perceberem que vocês são um casal bonito com um relacionamento saudável e como se fazem bem. Vá logo ou eu vou chamar o pai pra vir te tirar de casa pelas orelhas.
– Você consegue ir de um ser humano incrível pra ser um pé no saco com menos de cinco segundos, Igor. – murmurou, mas deu um sorriso pequeno. – Não me esperem acordados.
– Como se fôssemos perder tempo. – Igor respondeu num tom implicante e observou o irmão passar por ele para sair.

não demorou a chegar na casa de e a descer do carro, com uma boa garrafa de vinho em mãos. Ouviu uma palestra sobre vinhos dada por Toni Kroos no vestiário do clube naquele dia quando pediu sugestões, e resolveu seguir a dica do alemão que parecia muito entendido do assunto. Se tudo desse errado, ele mataria o companheiro no dia seguinte.
também não demorou a aparecer no portão para atendê-lo e ela estava linda, como sempre. Com uma camiseta clara (que ele pensou ser branca, mas quando estavam nas luzes da casa ele descobriu ser azul clara) e uma saia jeans até os joelhos e uma sandália baixa, os cabelos presos por causa do calor que fazia na capital espanhola naquele dia. Ela era linda o tempo todo, ele não cansava de pensar nisso e de ter certeza de que era um homem de sorte.
Os dois entraram rápido na casa e agradeceu mentalmente pelo ar condicionado, porque Madrid estava muito quente naquele dia. Muito mesmo.
Os pais de estavam sentados na sala e assim que os mais novos entraram, sua atenção se voltou para o casal. sentiu as bochechas esquentarem, mas deu um aperto leve em sua mão e deu um sorriso rápido e encorajador. Não era a Terceira Guerra Mundial ou uma final de Champions League, era apenas conhecer pessoas.

– Mãe, pai, esse é , meu namorado. – falou, sorrindo. – , esses são meus pais, María e Gael. Mas vocês três já sabem disso.
– É um prazer conhecê-los pessoalmente, senhor e senhora . – falou um pouco distante dos dois, ainda preocupado com as medidas de segurança por causa da pandemia.
– Uma pena não poder te dar um abraço ainda, , mas é um prazer conhecê-lo pessoalmente. E somos Gael e María, não precisa de formalidades, já te falamos. – María falou num tom amistoso e sentiu o peso dos ombros sair.
– Eu passei meses longe de vocês e ainda não estou aceitando bem essa coisa de sem abraços. – resmungou.
– Parabéns pelo título e pela recuperação, . Torci muito por isso. – Gael falou, usando o mesmo tom de María.
– Obrigado.
– Vamos comer? Eu estou morrendo de fome e aposto que também deve estar. E vocês dois também.

foi lavar as mãos antes de ir para a cozinha e quando chegou ao cômodo, os outros três já estavam à mesa. Nairóbi não demorou a aparecer e se esfregar nas pernas de , como tinha adquirido o hábito de fazer, e os quatro começaram a comer e quase não houve conversa enquanto apreciavam a comida simples, mas muito gostosa.
Tinha começado a comer comida mediterrânea depois de começar a namorar , ela o apresentou àquela culinária e ele tinha se tornado um fã. A codorna recheada com centeio e aromatizada com ervas frescas estava deliciosa, a salada estava impecável e o vinho tinha combinado muito bem com tudo. A sobremesa foi leve, uma combinação de frutas e um iogurte grego (ou era algo parecido com isso, não sabia), que foi justificada por , pois os pais precisavam pegar leve no açúcar.

– Vocês duas podem ir pra sala, já fizeram o jantar, e eu vamos lavar tudo e conversar um pouco. – Gael falou, fazendo o sangue de esfriar um pouco.
– Eu não vou reclamar, fiz unha hoje e não estou nem um pouco disposta a estragá-la com serviços domésticos hoje mesmo. – falou, ficando de pé. – Não assuste o , pai, foi difícil demais convencê-lo a namorar comigo.
– Como se fosse eu que precisasse ser convencido. – deu uma risadinha, beijando o dorso da mão de .
– Claro que foi! Eu precisei te convidar pra sair duas vezes pra você aceitar, . Eu fiquei esperando até você topar sair comigo…
– Ainda bem que a gente parou de acreditar em você faz tempo, . – María falou rindo e causando uma risada na filha. – Vem, vamos deixar seu pai assustar seu namorado um pouquinho.
– Vocês falam como se eu fosse um tirano. – Gael falou num tom decepcionado, mas tinha um sorriso no rosto.
– Amor, qualquer coisa você grita e eu venho te resgatar. – falou para , dando um beijo em seu rosto antes de sair da cozinha com a mãe.
Gael e tiraram os pratos da mesa, guardaram a comida que tinha sobrado e partiram para a lavagem do que estava sujo: lavaria e Gael secaria. E estava realmente ficando nervoso, ainda que não houvesse um clima hostil ou pesado.
– Quantas vezes você passou por esse tipo de situação? – Gael perguntou, mas seu tom não era inquisitivo, apenas curioso e um tanto divertido pela tensão do garoto. – Acho que não muitas, dado o nervosismo.
– Não foram muitas vezes mesmo, duas ou três, mas dessa vez eu estou um pouco mais apreensivo. – falou, dando um risinho nervoso em seguida. – Estou esperando que vocês gostem de mim como se minha vida dependesse disso.
– É ela quem tem que gostar de você, . E ela gosta muito, percebo pela forma como ela fala com e sobre você, o tom de voz e pelo jeito como te olha. E sei que você gosta dela do mesmo jeito. está feliz profissional e pessoalmente, então eu estou feliz e torcendo por vocês. Minha filha é incrível, você sabe disso, uma profissional incrível e um ser humano maravilhoso. Só desejo que vocês sejam felizes e se façam muito bem.
– Ela me faz muito bem e eu espero fazer o mesmo por ela. é incrível e acho que nós entramos na vida um do outro, de vez, na hora certa. É como falei com ela há uns tempos, eu me refugiei no trabalho pra evitar mais decepções amorosas, mas ela apareceu e me mostrou que posso ser feliz profissionalmente e pessoalmente ao mesmo tempo, que uma coisa não interfere na outra. Não posso garantir que seremos felizes para todo o sempre, mas enquanto estivermos juntos, e eu espero que seja para todo o sempre, eu vou fazer o possível para que ela seja feliz e que nosso relacionamento seja sempre tão leve como é e sempre foi.
– Se vocês vão durar pra sempre não dá pra saber, mesmo que estejamos todos torcendo por isso, mas vocês se olham da mesma forma que minha esposa e eu nos olhamos e estamos casados há trinta e dois anos. – Gael sorriu ao falar. – Vou apenas dar um conselho de pai e que acredito que o seu pai também já tenha dito: cuidem bem de vocês dois, do relacionamento e da conexão que vocês criaram e construirão daqui pra frente, pra um relacionamento dar certo, vocês dois precisam cuidar dos detalhes para que as coisas nunca sejam demasiadas ou escassas. É preciso encontrar o lagom e fazer dele a medida de tudo.
– Lagom? – perguntou sem entender, segurando um prato em mãos todo cheio de sabão.
– É uma palavra sueca que é bastante conhecida, mesmo que não tenha uma tradução literal em vários idiomas. Significa “o suficiente”, quando não é muito e nem pouco, mas o suficiente para fazer dar certo e manter o equilíbrio. E vocês precisam encontrar esse ponto, então nunca deixem o relacionamento de lado e mantenham sempre todas as cartas sobre a mesa, porque a sinceridade é um dos pilares pra que um relacionamento dê certo.

sorriu, assentindo.
Lagom.
Tinha passado bastante tempo achando que o suficiente era apenas seu sucesso em campo, que se estivesse no topo do mundo profissionalmente, então teria tudo que precisava, que aquilo era suficiente. Mas tinha se enganado, porque apenas o sucesso profissional não lhe bastava, era pouco. Com ele sentia que as coisas estavam completas, que era suficiente.
E quando chegaram na sala, encontrando as duas mulheres conversando, teve certeza de que aquilo era suficiente para que ele fosse feliz em sua vida pessoal, porque sentia uma sensação gostosa de pertencimento e suficiência quando estava com , era como estar em casa.

Epílogo

“Y llegaste, mi medialuna, tú llegaste. No estaba oscuro, pero alumbraste; no estaba vacío, pero me llenaste; no estaba herido, pero me curaste, me miraste, eh, y me mataste. Volví a la vida cuando me besaste…” (Camilo – Medialuna)

Santa Cruz de Tenerife, Ilhas Canárias, Espanha, sábado, 15 de agosto de 2020

Os dias que precederam o jogo contra o Manchester City foram muito corridos para e , que se viram bem menos do que gostariam, mas era como os horários se adaptavam aos compromissos de trabalho durante aqueles dias de preparação para o jogo decisivo na competição.
Seguiram juntos no avião na viagem para Manchester, mas depois disso só tiveram, realmente, tempo juntos no voo de volta para Madrid, depois da eliminação do Real Madrid na Champions League para o Manchester City.
tinha ficado muito puta, mesmo que tivesse certeza de que não passariam para as quartas-de-final, esperava que o time tivesse pelo menos um pouco mais de vontade de vencer, o que não aconteceu. Passou o aniversário em outro país, trabalhando e assistindo ao Real Madrid jogar com pouca vontade de vencer e se classificar, enquanto o time da casa tinha feito o seu melhor e saído com a classificação.
Queria ter entrado em campo e estapeado cada um dos jogadores, mas não podia fazer isso, então apenas voltou emburrada no avião e esperava que aquilo fosse o suficiente para fazê-los entender que ela estava muito puta. Não que alguns fossem se importar, em todo caso.
Tinha ganhado um bolo no dia e cantaram parabéns antes do jogo, mas todo clima de felicidade tinha sumido e nem mesmo as quase três horas de voo ao lado de foram suficientes para amenizar seu humor depois daquele fiasco. Queria seu Real Madrid de volta, aquele que era temido, não aquele time preguiçoso que tinha assistido mais vezes do que gostaria naquelas duas últimas temporadas principalmente. Mas, pelo menos, no dia seguinte, o casal aproveitou para almoçar e passar bons momentos juntos.
A folga na semana fora dada a quase todo setor de comunicação e aproveitou para que pudesse viajar e levar a Tenerife para passarem alguns dias juntos. Fora uma semana realmente agradável, aproveitaram dias de praia e passeios pela ilha. Era absolutamente delicioso estar com e ter aqueles dias livres e sem compromissos de trabalho para interromper os momentos juntos tinha sido realmente muito bom, mesmo que ainda precisassem observar as normas da OMS sobre aglomerações.
Os pais o tratavam com muito carinho, quase como um filho, e isso era devidamente correspondido por . Gilberto e Igor tinham conhecido Gael e María na estadia dos dois em Madrid quando os conheceu pessoalmente, um dia muito agradável e tinha amado ver como as duas famílias tinham se dado bem.
queria que ela fosse conhecer a família dele na Holanda, mas ainda não podiam viajar assim e as pessoas em grupo de risco não deveriam ser expostas por tão pouco, então contentaram-se, por ora, com ligações de vídeo e a avó dele tinha amado , elogiou bastante a mulher e disse que ele era um garoto de sorte por ter aquela namorada tão bonita e talentosa.
Naquele momento, estavam se preparando para a última noite juntos naquela semana, viajaria de volta para Madrid no dia seguinte e passaria alguns dias de férias em Mallorca. Talvez ela conseguisse ir no fim de semana conhecer a ilha e passar mais alguns momentos com ele, aproveitando para descansar e se divertir juntos, mas não era uma certeza.
Ainda havia muita gente falando sobre o namoro, mas nenhum dos dois se importava de verdade, afinal, eles são os únicos que sabem de verdade o que acontece dentro do relacionamento, do que sentem e quais são suas intenções. O que vinha de fora não os atingia e nem gerava dúvidas, pelo contrário, apenas dava certeza de que iniciar aquele relacionamento tinha sido um acerto.

– Amor, você acha que podemos comer fora? – perguntou, deitado na cama de enquanto ela estava separando as roupas para começar a fazer as próprias malas.
– E vamos, cariño. Vamos comer no Italiano di Tenerife, vamos ficar do lado de fora e eles não estão lotando os locais, então dá pra ficar tranquilamente. Podemos descer de lá e ficar um pouquinho na praia pra aproveitar esse restinho de dia juntos, já que você viaja de manhã pra Mallorca e eu vou pra Madrid de tarde e depois só nos veremos no fim de semana, se é que eu vou conseguir viajar.
– Vou tomar um banho então. – falou, ficando de pé e seguindo para o banheiro do quarto.
continuou arrumando sua mala, deixando fora apenas a roupa que usaria para voltar para Madrid no dia seguinte e a roupa que usaria naquela noite. Estava quente e o dia tinha sido proveitoso, ficaram um tempo na praia e depois voltaram para a casa que tinham alugado para passar aqueles dias apenas os dois.
saiu do banheiro um tempo depois, com os cabelos molhados e a toalha enrolada na cintura, cantarolando alguma coisa que não conseguia entender e ele tampouco fazia ideia do que era, não falava sequer uma palavra, apenas murmurava um ritmo estranho.
– Eu sei que eu sou muito bonito, mas você está quase babando. – implicou, inclinando-se para dar um selinho nos lábios de .
– Convencido. – riu. – Eu estou tentando descobrir que música é essa que você está resmungando.
– Não é música nenhuma, só um monte de sons na minha cabeça. – riu. – Vá tomar banho, vida, ou vamos nos atrasar.
– O que acha de pedirmos pra viagem, levarmos uma toalha e comermos na praia?
– Acho que você teve uma ideia fantástica. – sorriu. – Banho.
– Banho. – respondeu, voltando a juntar os lábios aos dele rapidamente antes de arrancar a toalha dele e correr para o banheiro, ouvindo uma gargalhada acompanhada de um palavrão.
Não demorou a tomar banho e sair do banheiro de volta ao quarto, encontrando já vestido com uma bermuda, camiseta e tênis. Ele estava ajeitando os cabelos na frente do espelho e não pareceu notar que estava no cômodo, buscando a roupa que tinha deixado separada sobre a cama e indo vestir-se no banheiro.
Vestiu o cropped e o short jeans, penteou os cabelos e fez uma maquiagem simples, estava calor demais e ela não pretendia sair com a cara prestes a derreter. Sentou na beirada da cama para calçar os tênis e a olhou pelo reflexo do espelho, dando um sorriso.
– Você é bonita demais.
– Obrigada. – respondeu dando uma risadinha. – Pronto?
– Se você estiver, sim.
– Então está. – falou, ficando de pé. – Falta só pegar uma toalha pra sentarmos na praia e comermos pra aproveitar o restinho da última noite dessas férias.
– Nem acredito que vou passar a semana toda longe de você. – resmungou, observando pegar uma toalha limpa na mala.
– Amor, já passamos dois meses sem nos ver, uma semana será fácil de lidar.
– Quem dera. – resmungou. – Mas serão mais dias depois, eu ainda fico a outra semana lá antes de voltar pra Madrid e ainda preciso cumprir a quarentena depois que voltar.
– Aproveite os dias pra se divertir com bastante segurança, nós conversaremos como fizemos durante o lockdown e vai dar tudo certo. – sorriu, fazendo sorrir de volta. – Agora tudo pronto. Vamos.

O rápido trajeto até o restaurante foi ao som da playlist de , feita durante o lockdown, que os dois já tinham incluído e excluído algumas músicas e cantavam animados. Ela decidiu ir sozinha ao restaurante, pegaria a comida e dirigiria até a praia e poderiam aproveitar aquele fim de dia.
Demorou um pouco mais do que pensava, havia bastante gente fazendo pedidos para viagem, mas logo estava voltando com duas sacolas de papel grandes com o jantar. Decidiram deixar o carro por ali, estavam a menos de dois minutos da praia e seguiram a pé, encontrando-a basicamente vazia.
Sentaram afastados das pessoas que ainda estavam no local, colocou as sacolas sobre a toalha, entre os dois, e observou enquanto ela tirava as embalagens, sem tirar os olhos dela, ainda que estivesse começando a escurecer e, em breve, ele acabasse não vendo muito bem as coisas.
– Esse jantar foi dica da Nina, ela me contou que uma vez veio aqui e comeu esse nhoque com um molho branco incrível e que foi o melhor prato italiano que ela já comeu em toda a vida.
– Como você é de uma ilha e não come peixe? – perguntou, recebendo uma das pequenas caixas de isopor com a massa.
– Justamente. – riu. – Eu comia peixe quando era criança, mas o cheiro… eca! Nojento. Acho que enjoei de sentir o cheiro de peixe por todo lado. Eu parei de comer antes de entrar na adolescência, depois fui excluindo quase todas as coisas do mar, porque eu acho que tudo isso fede.
– Você come peixe, eu lembro de você já ter comido atum.
– Atum é o único peixe que eu como, mas tem que ser aquele de lata que vem na água, porque se tiver um cheirinho que seja, eu não como. E, mesmo assim, é muito difícil eu comer, não gosto.
– Fresca. – implicou, abrindo a tampa para conferir a refeição que teria pela frente durante aquela noite. – Se está gostoso eu não sei, mas está cheiroso.
– Muito. Ah, tem vinho. – sorriu para a garrafa que tinha consigo. – Só não tem taça, vamos nos virar com copos de plástico.
– Por mim tudo bem, mas não vamos beber muito, eu tenho que dirigir.
– Fico feliz que vai sobrar mais pra mim, esse vinho é meu favorito. – sorriu, pegando o próprio jantar e abrindo a tampa. – Aqui tem tanta comida que seria capaz de alimentar toda minha família.
– Por que não trouxemos Nairóbi e Rome?
– Não sei, mas deveríamos mesmo ter trazido os dois.
– Na próxima. – falou antes de começar a comer e assim que deu a primeira garfada e comeu, arregalou os olhos. – Essa é a melhor coisa que eu já comi na vida!
– Nina acertou em cheio. – falou depois de comer a primeira garfada. – Eu nunca comi um nhoque tão gostoso na vida e essa foi só a primeira garfada.
– Ainda bem que vem muita comida, porque eu seria obrigado a voltar lá pra comprar muito mais se viesse menos. Isso está… perfeito!
Os dois comeram sem pressa, trocando poucas palavras durante a refeição, sentindo a brisa fresca e ouvindo as poucas conversas que restavam pela praia, o mar calmo e os sons dos carros passando a pouca distância.
Quando acabaram de comer, encostou-se no corpo de e ele a envolveu com o braço, dando um beijo em sua têmpora e os dois passaram um bom tempo apenas observando o céu escurecer ainda mais e as estrelas começarem a despontar no céu, acompanhando a lua minguante que era quase um fiapinho, mas combinava com o céu daquele dia, de alguma forma.
Não demoraram a deixar as caixinhas vazias dentro das sacolas de papel, acompanhadas dos copos vazios e do vinho pela metade, e deitaram na toalha, observando o céu, tinha um dos braços envolvendo , que estava aninhada ao seu corpo e o outro braço apoiava a cabeça.

– Você já parou pra pensar que se eu estivesse no meu horário normal, nunca teria batido no seu carro e nós provavelmente não estaríamos aqui?
– Já pensei a respeito disso algumas vezes. – respondeu, fazendo um carinho no braço de . – E acho que teríamos nos encontrado mesmo assim. Você tem uma mania estranha de esbarrar em mim.
– Mas se eu esbarrasse em você em Valdebebas sem ter batido no seu carro, nós nem teríamos conversado tempo suficiente. Eu teria pedido desculpas e seguido meu caminho, só continuei conversando, porque eu já tinha batido em você e a situação favorecia uma conversa.
– É, você tem razão. – pareceu pensar. – Ainda bem que você destruiu seu carro no meu.
– E aquela nave espacial nem arranhou! – falou num tom quase ofendido. – Eu tive que comprar outro carro.
– Seu pai me ensinou uma coisa, uma expressão sueca, quando nos conhecemos pessoalmente e eu nunca mais consegui parar de pensar sobre isso. – falou, mudando de assunto, mas seus olhos permaneciam no alto, no céu, mesmo que sentisse os olhos de em si durante todo aquele tempo. – Lagom.
– E o que isso significa?
– Não tem uma tradução literal em todos os idiomas, mas significa basicamente “o suficiente”, o que seria a quantia precisa de algo, sem ser muito e sem ser pouco. Fui pesquisar a respeito e é tipo um mantra sueco para viver bem e ser feliz e tem até um livro a respeito, “A Arte Sueca Para Uma Vida Equilibrada”. Esse mantra ensina que vivendo isso, esse Lagom, você consegue alcançar o equilíbrio perfeito em tudo, desde apreciar uma boa refeição até conseguir valorizar devidamente as relações com aqueles que se ama. Eu acho que essa é a palavra perfeita para definir nós dois desde o começo do nosso relacionamento, quando éramos apenas pessoas que se esbarravam. Você e eu encontramos a medida suficiente para fazer a vida ser incrível, tanto pessoal quanto profissionalmente. Temos vidas privadas e profissionais que caminham juntas, mas não se atrapalham e nem se confundem. Acho que conversar muito nos ajuda a contornar limites e balancear para que nunca sejam coisas pra mais ou pra menos. Esse relacionamento começou quando eu precisava balancear minha vida pessoal com a vida profissional e eu só posso te agradecer, porque esses têm sido meses muito felizes e eu espero que sejam anos e mais anos, pra sempre, com essa mesma sensação gostosa de pertencimento.
– Você é muito bom em me deixar sem palavras, . – deu uma risadinha ao falar. – Você é essa medida exata que eu precisava. Não que eu não tenha amado Martín ou algum dos outros namorados que tive, mas eu coloquei minha vida profissional a frente de tudo e deixei minha vida pessoal em segundo plano. Talvez isso tivesse que acontecer para que a gente se encontrasse, afinal, porque nós deixamos nossas vidas pessoais de lado e nós as reencontramos ao mesmo tempo, juntos e isso é muito mais do que eu poderia esperar.
– Tem uma música, de um cantor chamado Camilo, que é basicamente o que eu sinto desde que percebi que eu estava gostando de você, antes de ter coragem de te chamar pra sair.
– Qual música?
– Medialuna. Não estava escuro, mas você iluminou, não estava vazio, mas você me preencheu, não estava machucado, mas você me curou. Você olhou para mim e me matou, mas eu voltei à vida quando você me beijou. – recitou o refrão da música. – E eu amo você, . Não preciso que você me responda se não se sentir da mesma forma, mas eu me sinto assim e não acho que seja cedo demais pra te dizer isso e o quanto você me faz bem e como eu sou feliz por ter você comigo, na minha vida, compartilhando momentos com você.
– Eu sei que você me ama, obrigada. – brincou, aproximando o rosto do de . – E eu também te amo, cariño. Amo cada um dos momentos que nós temos, até as brigas que terminam com os dois se olhando emburrados e rindo um da cara do outro, amo até seu pé feio e como você ronca baixinho quando está cansado. Você faz meu coração ficar quentinho, cuida de mim e me deixa cuidar de você e eu não poderia ser mais agradecida ao universo, a qualquer que seja a entidade divina ou ao destino, por ter te colocado no meu caminho para que eu esbarrasse em você, literalmente. Encontramos nosso Lagom e eu espero que nunca o deixemos escapar, não quero perder esse sentimento que tenho quando coloco os olhos em você, porque você faz com que eu me sinta em casa.

sentia que poderia viver naquele momento eternamente, deitados numa toalha na praia e sem preocupações com o mundo exterior, apenas os dois e momentos juntos, palavras de carinho e muito, muito amor envolvido. sentia o mesmo, depois de tomar um bom vinho caro num copo de plástico na beirada da praia, uma das mais bonitas que já tinha conhecido, ao lado de uma pessoa tão incrível e a quem tivera a sorte de, literalmente, esbarrar, sentia que não poderia estar num lugar melhor.
Eram um clichê tão bonito que ela não queria viver outra coisa, não queria sentir outra coisa além de todo aquele sentimento gostoso chamado amor. Tinha encontrado um ponto de equilíbrio em que se sentia feliz pessoal e profissionalmente e, mesmo que para quem pudesse ver de fora que aquilo era apenas a empolgação do começo de relacionamento, também tinha certeza e sentia com todo seu coração de que aquilo duraria por muito, muito tempo.
E, bom, fariam de tudo para honrar o mantra sueco e viver plenamente felizes e equilibrados, porque enquanto tivessem um ao outro para se segurar e se cuidar, não precisavam de mais nada.

 

FIM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Nota da Autora: Oioi!
Essa é a última nota de Lagom e eu não sei se estava preparada pra isso. Acho que não estou e nem estarei, porque essa foi uma das fanfics mais fáceis de escrever que eu já fiz. e foram personagens tão incríveis, escrever a amizade e o namoro deles foi natural e super gostoso de escrever, sem complicações e apenas muita maturidade dos dois pra tudo.
Eu odeio despedidas e me despedir desses dois é difícil, mas precisa acontecer. Eu espero que vocês tenham gostado e quero deixar um agradecimento a cada leitura, a cada comentário (por mais simples que seja), vocês me fizeram muito feliz com isso e eu espero que continuemos juntes nas fanfics em andamento e nas próximas que chegarão. Obrigada mesmo por isso.
Não sei mais o que dizer, então vou deixar apenas os links pros grupos do Facebook e do WhatsApp. E, se quiserem me seguir no Twitter, fico falando um monte de coisas, vamos amigar, eu sou legal.
Era isso. Obrigada por tudo e em breve eu volto com mais fanfic de futebol ♥️