Léger et Inattendu

Léger et Inattendu

Sinopse: Aimée e Pierre se conhecem a vida toda, por causa da amizade entre suas famílias, e sempre acharam que não tinham nada em comum. Ela sempre gostou de ler e estudar e é engenheira de uma grande empresa em Marselha. Ele, enquanto piloto de Fórmula 1, vive cercado desse assunto que ela nunca teve o menor interesse. Os problemas pessoais de cada um deles, acabam os levando a uma conversa honesta que os desperta a conhecer um pouco mais sobre o outro e assim descobrir que não são de mundos tão diferentes quanto pensavam.
Gênero: Romance
Classificação: Livre
Restrição: Com exceção dos principais, todos os pilotos são fixos assim como os nomes dos familiares.
Beta: Sharpay Evans

Capítulos:

Prologue

Fevereiro de 2009

– Mãe, você tem certeza que eu preciso ir? – estava deitada em sua cama com um livro nas mãos.
– É claro que sim, . São seus padrinhos, você não fará uma desfeita dessas.
– Mãe, o aniversário nem é deles.
– Mas é do e eles são praticamente família, você sabe. – Mabelle respondeu encarando os cabides no guarda-roupas, procurando uma roupa adequada para a filha.
– Ele nem vai saber se eu não for. – insistiu. – Ele, os irmãos, os amigos e vocês só têm um assunto quando se encontram. Corridas e autódromos. – Falou entediada.
– Vai que você arruma um namoradinho. – Sugeriu separando um vestido salmão.
– Pai, me salva! – A filha pediu em um tom sofrido. – Mamãe está querendo me arrumar um namorado de novo.
– Querida, você já está com quinze anos, em breve dezesseis. Nessa idade eu já tinha umas paqueras. – fez careta.
– Eu sou capaz de achar alguém sozinha e não vai ser no aniversário do . Sabe por quê? – Mabelle respirou fundo e a encarou. – Porque ele e os amigos tem treze anos! E zero maturidade.
– Yohan, venha convencer sua filha. – Mabelle gritou do corredor e o marido apareceu pouco tempo depois.
, você não vai ficar sozinha em casa. Se arrume para nós irmos.
– Posso, pelo menos, levar o meu livro?
– É uma festa, . – Mabelle vetou. – A ideia é socializar.
– Pode, filha. Leve o seu livro, mas dê uma chance à festa. – Yohan concordou e sua esposa rolou os olhos. – Se mesmo assim você não se enturmar, você pode ler.
sabia que aquilo era o máximo que conseguiria negociar, então pegou o cabide com o vestido e se trancou no banheiro em seguida.
– Você sempre cede aos caprichos dela, Yohan. – Mabelle reclamou com o marido, voltando ao próprio quarto para terminar de se arrumar.
– É só um livro, Mabelle. Deixe a menina se divertir como ela gosta.
– Preferir ler um livro do que aproveitar uma festa. – Seu tom deixava claro o quanto ela desaprovava tal comportamento. – Às vezes me pergunto se ela é mesmo nossa filha. – O homem riu. – Nunca gosta de festas e não se interessa por nada das corridas, que são sua vida.
– As pessoas são diferentes e não tem nada de errado nisso, mon amour. Ela se interessa por ser inteligente e estudiosa.
– Poderia ter tido uma carreira maravilhosa como modelo. – Mabelle ainda resmungou, mas Yohan já estava descendo as escadas para esperá-las na sala.

Un

Maio de 2019

, onde você está? – Mabelle questionou assim que a filha atendeu a ligação. – Não estou vendo seu carro aqui na rua.
– Eu estou no elevador, mamãe. Saí do trabalho mais tarde e estou atrasada, sei disso. – Ajeitou a bolsa em seu ombro.
– Só queria conferir. Você tem nos evitado desde que… – rolou os olhos já sabendo o que viria a seguir. – Bem, desde que o Thierry terminou com você.
– Mãe, eu não tenho evitado vocês. Tanto que mesmo sem estar animada eu estou indo a esse jantar na casa da madrinha.
– Tudo bem. Dirija com cuidado.
– Pode deixar. – Desligou, guardou o celular de volta na bolsa e entrou no carro.

No fundo ela sabia que estava sim evitando não só os pais, mas qualquer companhia desde o fim do namoro. Nos primeiros dias, sentiu uma tristeza avassaladora, não tinha percebido nenhum indício de que o fim do relacionamento se aproximava e só conseguia se questionar sobre o que ela tinha feito de errado. Depois, com seus sentimentos em ordem, conseguiu enxergar toda a situação com racionalidade e percebeu que ela não tinha culpa alguma. Mesmo assim ainda doía e ela não queria encontrar com pessoas que a encheriam de perguntas sobre aquilo.

Não demorou muito a estacionar na rua da casa dos . Pelos outros carros estacionados, além do carro dos pais dela, imaginou que alguns dos filhos deveriam estar lá também. Desceu, ajeitando o cabelo e o macacão listrado. Caminhou até a entrada da casa e tocou a campainha.

– Oi, Marie. – Sorriu para a criança que tinha aberto a porta.
– Filha, quantas vezes vou ter que te dizer para não abrir a porta sem saber quem é? – Paul repreendeu a filha.
– Mas é a . – Ela se justificou, abraçando a mais velha.
– Mas você não sabia disso, espertinha. – Ele bagunçou os cabelos dela.
– Zoe, a chegou! – Saiu correndo pela casa.
– Como você está? – Paul perguntou abraçando a recém-chegada.
– Tudo ótimo e vocês?
– Estamos bem. – Deu passagem e entrou, notando mais rostos do que ela esperava na sala de jantar.
, querida! Que bom que chegou! Como você está? – Pascal abraçou a afilhada.
– Oi, madrinha. Tudo ótimo. – Repetiu o que tinha dito ao primogênito dela, era mais fácil manter a pose de tudo ótimo.
! – Zoe apareceu a agarrando pelas pernas. – Você vai brincar de boneca com a gente hoje? Igual àquela vez? – abraçou a outra neta de Pascal.
– Se der tempo depois do jantar, que tal? – Ela assentiu.

Seguiu a ordem da mesa, cumprimentando o padrinho, depois os próprios pais, Gabrielle, a esposa de Paul, , Philippe e a esposa dele, Cécile. Sentou-se ao lado da última que lhe contou sobre o pequeno Valentin, que estava dormindo no segundo andar e explicou porque Petrus e Paco não tinham ido.
Jean-Jaques e Pascal eram a típica família francesa rica, com diversos funcionários na enorme casa, mesmo que nenhum filho morasse lá permanentemente. foi servida com uma taça de vinho e, pouco tempo depois, o jantar foi servido. Paul e Gabrielle serviram a filha e a sobrinha e para o restante da mesa o assunto era o mesmo de todos os encontros. O kartódromo de Yohan e as corridas de na Fórmula 1.
– E você, ? Seu pai estava nos contando que você está num novo cargo na empresa. – O padrinho tentou incluí-la na conversa.
– Ah sim. – Sorriu, olhando em sua direção. – Eu assumi uma obra que está no fim, porque o engenheiro de lá mudou de seguimento. E quando acabar eu vou coordenar todo o departamento pós-obra.
– Um departamento todo para você? – Pascal estava admirada. A afilhada tinha seguido um caminho profissional do qual conheciam muito pouco. – Parabéns, querida!
– E aí? Já domou todos os peões de obra? – perguntou fazendo graça, sabia que era uma fala ridícula.
Imediatamente as falas de Thierry terminando com ela surgiram em sua mente e ela sentiu toda a dor novamente. Não choraria na frente deles. Se levantou de uma vez, fazendo um barulho alto ao arrastar a cadeira e saiu o mais rápido que conseguiu dali sem correr.
– Mas o quê? – perguntou sem entender o que tinha acontecido e ouviram o barulho da porta da frente fechando.
– Releve, querido. Eu sinto muito. – Mabelle pediu desculpas a todos pelo comportamento da filha. – Ela está tendo problemas para aceitar o término do namoro. – Explicou.
– Parece que o Thierry usou coisas assim como argumento para terminar com ela. – Yohan acrescentou.
– Eu… não sabia. – se sentiu mal.
– Não tinha como saber. – Mabelle abanou a mão, mostrando que estava tudo bem.
– Eu vou lá falar com ela. – Se levantou, precisava se desculpar.
– Era aquele namorado antigo? – Pascal perguntou se lembrando do rapaz.
– O próprio. – Mabelle respondeu a amiga. – E já falavam em casamento. Foi um choque.
abriu a porta e a fechou atrás de si novamente, vendo sentada na calçada. Ela não olhou para trás, mas sabia que alguém estava se aproximando e secou os olhos.
– Tenho a leve impressão que Mabelle faria um escândalo se a visse sentada com essa roupa no chão. – se sentou ao lado dela e ela riu fraco.
– Ela provavelmente já vai me dar o sermão pela falta de educação em ter saído da mesa daquela forma.
– Me desculpe. – Ele falou olhando para ela, que desviou o olhar da rua para ele. – Foi uma coisa idiota de se dizer, eu só fui fazer graça, eu não-
– Está tudo bem. Não é culpa sua de qualquer forma. – Passou a mão no rosto novamente. – Minha mãe deve ter contado, não é? – Ele assentiu.
– Algo sobre o seu ex ter falado isso. – Resumiu bastante, não pretendia deixá-la mais desconfortável.
– Minha mãe acha que tudo é muito simples e que eu estou fazendo drama. – Ela voltou a dizer, mas não o olhava. – Faz só uma semana que tudo aconteceu. Imagine você, esperar que seu namorado te leve para jantar para comemorar um ano e oito meses de namoro e ganhar o fim do relacionamento baseado em argumentos machistas sobre mulheres em obras.
– Que merda.
– Você não faz ideia. – Respirou fundo. – Essa obra que eu assumi era dele, mas ele foi convidado para assumir a construção de um shopping e eu fiquei no lugar dele. Isso tem pouco mais de um mês. – não sabia de onde tinha vindo a vontade de contar tudo para alguém que nem era tão próximo ou íntimo dela, mas, naquele momento, sentia a necessidade de colocar tudo para fora. – E então, há exatos sete dias ele terminou comigo dizendo que não conseguia confiar em uma mulher que estava cercada de homens dia após dia. Que ele conhecia todos os trabalhadores de lá, que sabia que eu não conseguiria impor limites a eles e que eles se aproveitariam de mim.
– Você me desculpa, mas ele me parece um tremendo babaca. – foi pega de surpresa pelas palavras e voltou a olhá-lo. – Ele confiou em você durante um ano e oito meses e aí, do nada, ele não confia mais só porque você está trabalhando com outros caras? Isso é idiotice!
– Alguém que entende a minha indignação. Obrigada.
– Até eu que não entendo nada do seu trabalho sei que isso foi uma desculpa idiota. – Ela concordou com um aceno.
– E sabe o que é pior? O que me dói realmente? – esperou que ela continuasse. – Foi a forma como ele colocou tudo isso. Eu entendo claramente que isso é ridículo, mas a forma como ele insinuou que eu cairia no papo de qualquer um deles, que seria presa fácil para homens como aqueles, me fez me sentir um inútil pedaço de carne.
– Mas você sabe que é melhor do que isso, não sabe? Porque até eu que convivo o mínimo do mínimo com você sei que você é uma engenheira ótima. – sorriu agradecida. Nunca tinha escutado algo assim sobre ela vindo dele. – Meus pais sempre amaram o quanto você era estudiosa e viviam dizendo aqui em casa como tinham orgulho de você e que nós podíamos nos inspirar em você e sermos mais estudiosos também.
– Obrigada. – Mesmo que aquelas palavras não fossem verdadeiras, tinham sido reconfortantes. – Você pode entrar se quiser. – Ela disse quando olhou para trás.
– Acho que prefiro aqui onde ninguém pergunta sobre a minha vida profissional a cada dois segundos. – Ela colocou o cabelo atrás da orelha e sorriu.
– É, aqui isso não vai acontecer mesmo. – Ele riu lembrando da aversão dela com o esporte.
– O que é isso de pós-obra? – se lembrou do termo usado por ela mais cedo, do qual ele nunca tinha ouvido falar.
– É o acompanhamento da obra depois de entregue, porque o cliente tem garantia contra alguns defeitos por um tempo.
– É sério?
– Por que não seria?
– Não sei, eu nunca imaginei. – Deu de ombros.
– É uma parte que eu gosto bastante. Apesar da dor de cabeça que alguns proprietários causam. – Acrescentou.
– Do tipo meu ralo está entupido? – Chutou a coisa mais boba que imaginou.
– Às vezes, sim.
– E você tem que ir lá pra isso?
– Se a reclamação for só um ralo entupido, eu não preciso vistoriar, posso só mandar o encanador. Ralo entupido é uma coisa que aparece logo, se for causada por detritos da obra que foram jogados lá. – Explicou.
– E por que a obra faz isso se depois vai ter que ir arrumar?
– Também queria saber. A única coisa que consigo pensar é que quem joga não é quem precisa ir arrumar depois. Os trabalhadores de obras geralmente passam pra outra quando uma é entregue e os funcionários do pós-obra precisam ter uma delicadeza maior, digamos assim. Como já tem pessoas morando e tudo mais, o trabalho precisa ser diferenciado e esses profissionais são treinados nisso também.
– Interessante, eu nunca ia imaginar.
– Quando eu estava na faculdade essa foi a parte que eu mais gostei de trabalhar. Foi onde mais aprendi. Vendo o que os erros de uma obra causam depois.
– Ah, então é como a revisão dos carros de corrida antes e depois da corrida. – Tentou comparar com algo que conhecia.
– Não saberia dizer, mas acho que sim.
– E o que você faz agora?
– Não muito, porque a obra já está em fase de acabamento. A parte pesada já foi. A maior parte do trabalho é acompanhar as frentes de serviço para garantir se estão seguindo o cronograma para entregar no prazo. Você deveria ir conhecer um dia. – Sugeriu vendo que ele parecia interessado.
– Eu posso? – Perguntou mais por curiosidade do que por vontade de ir, estava mais interessado na forma como ela falava sobre o trabalho do que no trabalho em si.
– Claro. Você só precisa ser liberado pelo responsável, que no caso sou eu, e colocar um capacete que nem de longe é estiloso como o de vocês.
– Se eu for conhecer seu trabalho, você vai conhecer o meu?
– Não. – Respondeu prontamente e deu uma gargalhada alta.
– Poxa, . – Ele ainda sorria.
– É você que está interessado no meu trabalho e não o contrário. – Argumentou, mas também ria.
– Você não pode falar que não gosta sem nunca ter ido. A próxima é em Mônaco, não tem como não gostar de Mônaco. – Ela o encarou com a sobrancelha arqueada. – Se você for e realmente odiar, prometo nunca mais tocar no assunto, que tal?
– Quando é? – realmente não tinha o menor interesse em ir, mas a ideia de sair da sua rotina, mesmo que por um final de semana a agradava.
– Próximo domingo, no caso sem ser amanhã.
– Um pouco em cima, que pena! – Fingiu tristeza e ele voltou a rir.
– Se você topar, eu organizo tudo e você só precisa ir. – Propôs e estava cada vez mais próxima a ceder.
– Por que faria isso?
– Porque eu quero muito estar do seu lado quando você confessar que não odiou, porque é simplesmente impossível odiar corrida. – Ela estreitou os olhos para ele enquanto pensava. Não tinha medo de pagar língua e acabar gostando, também não tinha problema em admitir as coisas, mas odiaria que todos ficassem no seu pé por isso.
– Com uma condição. – segurou o riso. – Não conte para ninguém, por favor. É provável que eles morram de tanta felicidade pelo seu feito e eu só quero sair daqui por uns dias.
– Fechado. – Estendeu a mão para selar o trato e ela apertou. – Posso ir ao seu trabalho na terça?
– Combinado.
– Agora vem, vamos jantar. Metade da minha família está nos olhando pela janela.
– Será que não posso só ir pra casa e você falar que eu estava passando mal?
– Não, já vou omitir a sua ida para Mônaco, não vou mentir hoje também. – Limpou a calça ao se levantar e voltou a estender a mão para que ela se levantasse.
– Hora de encarar a senhora Mabelle.
– Não vai ser tão ruim assim. – Abriu a porta e deu passagem a ela, entrando em seguida.

🔸🔹
estava animado para ir ao trabalho de pelo simples fato de conhecer algo diferente. A princípio ele só estava tentando confortá-la em relação as asneiras faladas pelo ex-namorado, mas vê-la contar sobre o trabalho com tanta propriedade de certa forma o tinha deixado curioso para conhecer uma realidade diferente.
A única outra pessoa de seu convívio mais próximo e que não era ligada à corrida era Paco, seu irmão do meio. O único que nunca teve interesse de correr, nem mesmo de kart e que era professor de literatura francesa na Universidade de Aix-Marselha. Mas nunca tinha sido fã de escola, menos ainda de literatura e nunca tinha se interessado pelo trabalho do irmão.

– Boa tarde, vim falar com a . – Anunciou ao senhor na guarita.
– Seu nome? – Perguntou, pegando o rádio em cima da mesa para chamar a engenheira.
. – Respondeu sem pensar.
– Você é mesmo o piloto? – Ele perguntou admirado e sorriu tímido. – Bem que vi que não parecia deste lugar vestido assim. Pode entrar. – Disse entregando um capacete branco a ele. – É só seguir esse caminho e seguir as placas.
– Obrigado. – ajustou o capacete na cabeça e seguiu as instruções.
O lugar não era cheio de terra como ele havia imaginado, mas sim de concreto, de cima a baixo. Passou pela entrada e aquilo era estranho de ver. Grandes paredes cinzas, com grandes buracos que ele julgou serem os espaços para portas e janelas, vários buracos menores retangulares nas paredes, cheios de fios saindo e outras coisas parecidas com mangueiras amarelas.
Era estranho, mas o fazia lembrar do próprio carro sem a pintura e o acabamento. Para ele, o carro era lindo de qualquer jeito, mas sabia que para outros seria estranho. Devia ser assim com a construção para os engenheiros. caminhou mais um pouco, parando em frente a uma sala com a identificação de escritório na porta.
– Você veio! – apareceu atrás dele quando ele estava prestes a bater na porta.
se virou e demorou alguns segundos para responder pois nunca tinha visto sem roupas elegantes antes, e ali de jeans, camisa de uniforme, botas timberland e capacete, ela parecia chamar ainda mais atenção.
– É, sou praticamente outra pessoa. – Confirmou como se lesse os seus pensamentos.
– E mesmo assim aposto que arrasa corações. – Queria dizer que mesmo assim estava bonita, mas parecia estranho e ficou satisfeito por ter achado uma resposta alternativa. – Mas por que achou que eu não viria?
– Porque você disse que viria mais cedo. – Respondeu destrancando a sala e dando passagem a ele.
– É, eu me atraso mais do que gostaria. – Confessou e ela riu.
A sala tinha uma mesa com um computador simples, duas prateleiras lotadas com caixas de plástico vermelhas e uma mesa maior e retangular que cabiam umas seis pessoas.
– Glamuroso, hum? – Ela brincou, atraindo a atenção dele que pairava nas caixas enquanto ela conferia alguns documentos no computador.
– Eu estou me sentindo uma criança naquelas visitas escolares. – Confessou vendo que tudo chamava sua atenção.
, esses engenheiros do escritório são todos burros! Não tem condições. – Olivier entrou na sala resmungando, soltando um plástico cheio de projetos em cima da mesa maior.
, esse é meu estagiário, Olivier. Olivier, esse é o . – Só então o mais novo notou que tinha mais alguém ali.
– E aí? – Cumprimentou e voltou a olhar para os projetos. percebeu que esperou ser reconhecido, mas não falou nada.
– O que o pessoal do escritório fez? – Perguntou fechando a planilha do Excel.
– A obra está acabando e eles ainda estão enviando versão plotada de projeto. Nem cabe mais nada nessas caixas e nem adianta mandar isso agora.
– Deve ser o as built, não? – Puxou o plástico para perto, verificando a versão na tabela do primeiro. – É sim. – Mostrou para ele.
– Nunca ouvi falar.
– Sério? – Colocou o projeto de volta na embalagem e ele assentiu. – O que andam ensinando pra vocês na faculdade?
– Não isso, porque eu nunca ouvi falar.
– As built é a versão ajustando o projeto a como foi construído de fato. – Explicou.
– É um projeto que justifica os erros da obra?
– Também, mas não só erros. Algumas coisas, às vezes, são executadas de forma diferente, mas não por erro e esses projetos tem que estar aqui até a entrega da obra, então guarde todos. E se precisar de mim vou estar nos apartamentos do oitavo andar. – acenou para que a seguisse e Olivier apenas assentiu pegando uma das caixas vermelhas.
-O que tem no oitavo andar? – andava ao lado de , tentando ver os detalhes do lugar ainda sem pintura.
– São os que estão em acabamento, mas ainda não finalizados. Depois podemos ir em um que ainda não começaram a mexer e em um finalizado. – Ele assentiu. – Aguenta subir tudo de escada? – O provocou e ele riu.
– Eu sou um atleta, é claro que consigo. Você não faz a menor ideia de como são os meus treinos, você se surpreenderia.
– Aposto que sim. – Subiram em silêncio os oito andares, mantendo a respiração regular.
– Achei que acabamento eram as portas. – Falou ao notar que já estavam dentro do apartamento.
– Elas fazem parte, mas são praticamente as últimas a serem colocadas. Os peões podem ser muito, mas muito descuidados. Você se surpreenderia. – Repetiu as palavras dele.
A verdade é que ele estava se surpreendendo a cada instante desde que entrara ali. Era fácil ser surpreendido quando não sabia o que esperar.
– O acabamento começa com a instalação de pisos e revestimentos, depois passamos para a fase de pintura e instalação das portas principais, que são as únicas que ainda não foram instaladas. As outras esquadrias estão todas instaladas. – Indicou as janelas e as portas dos quartos. – E, por último, as louças e metais, pia, vaso, torneiras. – Exemplificou.
– É meio estranho ver o lugar sem essas coisas básicas. Você consegue imaginar um lugar pronto se olhasse apenas assim para comprar? – Ela assentiu. – Ainda bem que consegui correr na Fórmula 1. – Ela riu com ele.
– Isso é prática. É a primeira vez que você está vendo, eu trabalho com isso desde o estágio.
– Eu não consigo nem julgar se esse espaço para um quarto é grande ou pequeno, porque parece que meus móveis não vão caber aqui, mas se são dois por andar eu acredito que ele seja de um tamanho considerável.
– Eu não sei quantas coisas você tem no seu quarto, mas sim, são dois por andar e são de alto padrão, então o tamanho é ideal para mais coisas além do básico.
, aconteceu um acidente! – Olivier apareceu gritando no apartamento.
– Como assim? Acidente com quem? – A engenheira sentiu o coração acelerar e não sabia o que esperar.
– O Joseph estava com a makita cortando a cerâmica lá no décimo segundo e não sei como ele cortou a perna.
– E já chamou a Cindy?
– Ela não respondeu pelo rádio. – seguiu Olivier para o andar do acidente.
– Alguém já chamou uma ambulância? – O estagiário assentiu e ela ligou para a técnica de segurança do trabalho que deveria estar ali.
Chegaram ao andar e havia mais sangue do que engenheiros pretendiam ver em sua vida. Cindy tinha chegado antes deles e tomado as primeiras providências, tirando os outros funcionários do local, e comprimindo um pano na ferida. O barulho de ambulância foi ouvido e respirou aliviada, o socorro estava ali e ninguém morreria em sua obra sob sua supervisão.
acompanhou todo o processo de resgate de Joseph, que permanecia acordado e gemendo de dor, afinal responderia por isso perante a empresa e perante a justiça, caso o operário a acionasse. Mas um dos paramédicos disse que não era tão grave quanto parecia e ela se agarrou a essa ideia.
Acabou dispensando todos mais cedo e acionando a equipe de limpeza, pois seria impossível continuar qualquer trabalho enquanto houvesse sangue ali. E foi só quando estava descendo das escadas para a sua sala que se lembrou de .
Pegou o celular no bolso da calça e soltou o ar aliviada ao ler a mensagem dele dizendo que estaria na sala lá debaixo. Desceu mais rápido do que fazia normalmente e o encontrou sentado na mesma cadeira de antes, mexendo no próprio celular.
– Me desculpa, ! Eu te esqueci completamente. – Confessou extremamente sem graça.
– Você tinha uma emergência. Eu preferi vir pra cá para não atrapalhar. – Não lidava bem com sangue, mas ela não precisava saber disso.
– Achei que você teria ido embora. Não te culparia se tivesse ido.
– Sem saber o que é uma makita? Eu não iria a lugar nenhum. – Ele brincou, aliviando parte da culpa que ela sentia.
– Você poderia ter procurado no Google.
– É verdade, mas fazia parte de conhecer seu trabalho, então você vai me contar. – Ela se encostou na mesa, ficando de frente para ele.
– É como uma serra circular, ela corta quase tudo. Ele estava cortando as peças de porcelanato para assentar na sala. Ainda não entendi como conseguiu cortar a perna daquele jeito.
– Acidentes acontecem.
– Mas não precisava ser hoje que você estava aqui. Nem viu nada da obra direito.
– Eu posso voltar depois, se você ainda for à corrida. – Ela sorriu.
– Eu vou, nós temos um trato. – Pegou sua bolsa na gaveta. – Mas agora vamos sair daqui, estou começando a sentir uma dor de cabeça. Muita tensão para um dia só.
– Vamos, ainda preciso terminar de arrumar minhas coisas para viajar amanhã.

Se despediram do lado de fora da construção, desejou boa viagem e combinaram de conversar por mensagem sobre os detalhes da ida dela a Monte Carlo. foi para sua casa direto, precisava de um banho para tentar tirar o cheiro de sangue que parecia ter grudado em suas narinas.
seguiu para a casa dos pais e durante todo o caminho ele só conseguia imaginar o quão absurdo tinham sido os argumentos do ex de ao terminar o namoro com ela. Porque, por aquele único dia, ele podia afirmar, sem sombra de dúvidas, que era uma mulher forte e com estômago forte também. E que não importava quem fosse o homem, dobrar não era algo fácil, principalmente em seu trabalho.

Nota da autora: Oi, gente! E então? O que me dizem dessa nova história?
Desde a minha ida ao autódromo no ano passado eu estava louca para escrever algo com corrida e Fórmula 1 e finalmente deu certo! Espero que tenham gostado!
Até a próxima atualização!

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Deux

nunca tinha achado tão bom o fato de as construções pararem mais cedo nas sextas-feiras como naquele dia 24. Com sua pequena bagagem no carro desde que saíra de casa naquela manhã, se sentia prestes a embarcar numa aventura como nunca tinha feito antes e essa adrenalina a deixava num ótimo humor.
Imaginou qual seria a reação de seu pai se a visse animada daquela forma para ir para Monte Carlo e se pegou rindo sozinha. No fundo, o que a tinha deixado naquele estado era fazer algo inesperado e sem contar para ninguém. Em seus vinte e cinco anos de idade, não houve um dia sequer em que seus pais não soubessem aonde ela estava, mas sempre havia uma primeira vez para tudo.
Tinha dito aos pais que passaria o final de semana na casa de , ajudando com os últimos ajustes do casamento e pediu para que a melhor amiga sustentasse a mentira. não se sentia confortável em mentir sem saber onde de fato estaria, mas ela não podia negar que ver a engenheira empolgada com algo depois do término a deixava feliz e por isso aceitou encobri-la.
tinha enviado a localização exata do hotel em Mônaco onde ele já estava desde quarta-feira e ela colocou no gps, verificando um trajeto de quase três horas pela frente. Passou num drive-thru antes de seguir viagem e avisou-o quando estava saindo de Marselha.

Pouco depois das nove da noite ela havia chegado ao destino. Estava cansada depois de tanto tempo dentro do carro e de uma semana de trabalho, e dois dias de descanso pareceram ainda melhor. Monte Carlo continuava com a mesma beleza que ela admirara anos atrás em uma viagem com os pais e se pegou pensando em quantos lugares lindos tinha tido a oportunidade de conhecer como piloto, lugares que ela mesma nem imaginava conhecer.
Pegou sua mochila no carro e deixou que o manobrista o estacionasse. O hotel era muito chique e ela estava encantada com a construção de colunas altas e vãos grandes, tanto que nem mesmo percebeu que a esperava no saguão.

– Você chegou. – Disse atraindo então a atenção dela.
– Você ficou me esperando aqui? – Se cumprimentaram com um abraço rápido.
– Para ter certeza que você não estava só tirando uma com a minha cara.
– Eu sou uma mulher de palavra, . Algo que pelo visto você não está acostumado. – O provocou.
– Ei! – Ele riu, sem ter o que dizer sobre aquilo. – Vem, seu check-in já está feito. – Entregou um cartão magnético a ela. – Seu quarto é no quinto andar, eu estou no terceiro.
– Sabe que essa de te deixar organizar tudo saiu melhor do que o esperado? Vou te deixar planejar todas as minhas férias daqui pra frente.
– Não tive tanto o que organizar. – O elevador parou no quinto andar e os dois desceram. – Você deve estar com fome.
– Você já comeu? – Perguntou ao mesmo tempo em que ele tocou no assunto.
– Não, minha mãe me mataria se eu não te esperasse.
– E se eu não estivesse com fome?
– Eu pediria algo no quarto pra mim. – Deu de ombros e foi inevitável não lembrar de algumas situações em que Thierry nem a considerara em suas decisões. E ela e não eram nem mesmo grandes amigos.
– Podemos pedir algo aqui, se você quiser. – sugeriu, jantar com ele era o mínimo que ela podia fazer, embora soubesse que ele não esperava nada em troca. – Eu só preciso tomar um banho antes. Como pode ver, eu vim direto do trabalho. – Apontou para as botas.
– Pode ser. Vou para o meu quarto e você me chama. – Ela concordou com a cabeça e destravou a porta do quarto enquanto voltava para o elevador.

O quarto, assim como o hotel, era elegante e tinha espaço suficiente. Organizou as roupas no armário e foi logo para o banho. Com os cabelos penteados e uma roupa confortável, enviou uma mensagem a , avisando que podia subir quando quisesse. lia as opções do cardápio quando ele bateu na porta.

– Oi outra vez. – A cumprimentou tentando disfarçar o tempo que tinha reparado nela, de novo.

Se vê-la de jeans e camisa social no trabalho já o tinha surpreendido, vê-la de short jeans e camiseta foi mais inesperado ainda e ele não negaria que ela era realmente bonita independente do que usasse. Estava aliviado por ela estar concentrada demais nas opções de pratos para reparar que ele a tinha encarado.

– Já sabe o que vai pedir? – entregou o cardápio a ele.
– Já, não posso sair da dieta com a corrida amanhã. – Conferiu as horas no relógio. – Na verdade já estou furando o horário de comer.
! – Chamou a atenção dele. – Você não devia! Não é pra se prejudicar por minha causa.
– Relaxa. – Negou com a cabeça. – Me fala qual você quer para eu pedir. – Tirou o telefone do gancho e ela apontou o prato na lista.
Ele se sentou em uma das cadeiras em volta da mesa circular e ela fez o mesmo.
– Então, me conta o que eu preciso saber para ir amanhã e não parecer uma idiota completa. – Pediu interessada no trabalho dele pela primeira vez.
– Você não vai parecer uma idiota. – Ele riu. – Não é como se alguém fosse te encher de perguntas sobre a Fórmula 1.
– Não sobre a Fórmula 1, mas sobre você, sua equipe, sei lá. – Deu de ombros tentando pensar em coisas que seriam importantes. – Pelo menos me conta o que eu devo comemorar, vai que todo mundo grita e eu fico parada. – Ele riu novamente da preocupação dela. – Para de rir! Eu estou falando sério.
– Bom, eu estou correndo pela Red Bull Racing esse ano. É uma equipe muito boa que está competindo com a Ferrari e a Mercedes. O outro piloto da equipe é o , não sei se você já ouviu falar. – negou com a cabeça. – E o chefe é o Christian Horner.
– Também nunca ouvi falar. – Se levantou quando ouviram batidas na porta para pegar os pedidos e voltaram à mesa.
– E como você está na competição? – deu um sorriso fraco e olhou para o prato.
– Não estou tão mal, mas não estou tão bem como deveria. – Confessou. – Tem sido difícil me adaptar ao carro e sempre vai muito bem.
– Entendi. E os seus amigos? Eles ainda correm com você? Aqueles que costumavam ir às suas festas de aniversário? – Ela lembrava de alguns deles.
– A maioria não. Não sei se você se lembra do . Ele está correndo pela Ferrari agora.
– Não me lembro dele na sua casa, mas sei quem é. E aquele que usava óculos e estava sempre com você?
– O Tonio? – Ela fez uma careta, em dúvida sobre o nome do garoto. – Deve ser. O Anthoine ainda corre, mas na Fórmula 2.
– Entendi. – Colocou mais um pouco de macarrão na boca enquanto pensava se precisava de mais informações. – Ah, e por que você precisou chegar aqui na quarta se a corrida é só domingo?
– Por causa de reconhecimento da pista, que acontece na quinta.
– Isso não é algo que você faça em simulador ou algo do tipo?
– Sim, mas são os ajustes finais da estratégia da corrida.
– Você tem estratégia para correr? – Ele achou engraçada a expressão no rosto dela. – Eu sempre achei que era só correr.
– Toda equipe tem estrategistas para analisar o melhor momento de fazer a parada para trocar pneus, qual tipo de pneu deve render mais, essas coisas.
– Entendi.
– Na sexta acontecem os treinos livres um e dois. Podemos dar quantas voltas quisermos na pista, durante determinado tempo e os pilotos tentam marcar o menor tempo em uma volta. E no sábado temos o terceiro treino livre e o treino classificatório, que é o que define as posições que cada piloto largará no domingo.
– E que horas vamos amanhã? – foi surpreendido pela pergunta.
– Você vai? Achei que só iria na corrida. – deu de ombros.
– Eu já estou aqui mesmo. Vamos ter a experiência completa. – Ele sorriu, sentia que uma parte dela, mesmo que mínima, estava começando a se interessar pelas corridas.
– O treino livre de amanhã será ao meio dia e o classificatório às 15h. Nós ficamos por lá direto, mas você não precisa ficar se não quiser. – Ela concordou, decidiria depois.

Terminaram de jantar e conversaram um pouco sobre o trabalho dela e o que tinha acontecido com o rapaz depois do acidente. Foi só quando bocejou que ambos perceberam que já estava tarde e que precisava descansar para o dia seguinte. Se despediram e antes de sair entregou a credencial que daria acesso ao paddock.

– Não vamos juntos? – Pegou o que ele entregava.
– Eu não sei, corro o risco de ser fotografado, mesmo não sendo o maior interesse deles, você pode acabar aparecendo e você não queria que ninguém te visse.
– Posso ir no meu carro então e a gente entra mais ou menos juntos. – Sugeriu. – Não quero estar completamente perdida lá.
– Tudo bem, nos falamos amanhã de manhã. – Beijou o topo da cabeça dela.
– Boa noite, . Bom descanso. – Desejou com um sorriso.
– Boa noite. – fechou a porta em seguida, pegando o pijama no armário.

Escovou os dentes, trocou de roupa, colocou o celular para carregar e se ajeitou na cama, sentindo o corpo agradecer por finalmente poder relaxar. Apagou as luzes e piscou até se acostumar com o escuro do quarto. Sem que se desse conta, seus pensamentos estavam em . Tinham estado um na vida do outro desde que ele nascera e ela nunca havia imaginado que poderiam compartilhar momentos divertidos como naquela semana ou que pudessem se tornar amigos. Enviou uma mensagem a , avisando que estava bem e logo adormeceu.

🔸🔹
estava no paddock1 aguardando o início do treino classificatório naquela tarde. A manhã tinha sido exatamente como combinado, ela tinha ido em seu próprio carro e eles se encontraram na frente do circuito. A engenheira estava imensamente surpresa por descobrir que era um circuito de rua e não num autódromo. a havia acompanhado até a garagem da equipe, mostrado o lugar onde ela poderia ficar para assistir e ela tinha feito questão de chamar o mínimo de atenção para si.
Ela não tinha visto muita graça no treino livre, os carros saiam e voltavam quando queriam e ela achou confuso. Não entendeu porque as pessoas gostavam de assistir aquela parte, não tinha tido nada muito emocionante. Já a próxima etapa parecia ser mais emocionante, pois a quantidade de espectadores tinha aumentado consideravelmente.
Durante o intervalo entre as duas etapas, tinha dado uma volta com ela pelo paddock e os motorhomes2, mas não tiveram muito tempo juntos pois ele logo precisou voltar com a equipe. No tempo em que aguardava percebeu que a maioria das pessoas ali apostava e torcia por , o outro piloto da equipe, e ela se lembrou das palavras dele na noite anterior. Se ela que só estava torcendo por ele já sentia a pressão dos comentários, nem imaginava como era tudo aquilo para ele.

foi liberado para o Q13 depois de , apesar do tráfego intenso característico da primeira parte, conseguiu pegar a pista limpa e marcar o menor tempo. voltou a sentir a pressão de ocupar um daqueles carros quando foi informado do tempo do companheiro.
Focado em dar a melhor volta possível, conseguiu encaixar uma ótima volta e marcar o terceiro tempo. deu um gritinho comemorando ao ver o sobrenome indo para o terceiro lugar, apesar de tentar reconhecer o carro dali de onde ela estava, era mais fácil acompanhar pela tela.
Estava feliz com o terceiro melhor tempo, mas inconformado que Magnussen tivesse um tempo melhor que o dele. Sabia também que seria questão de tempo até que as Mercedes marcassem tempos melhores, e não só eles como o alemão subiram na lista. Levou o carro de volta ao final dos dezoito minutos, confirmando que seu tempo o colocava em sexto lugar.
viu o nome dos cinco últimos pilotos saírem da tela e comemorou internamente o fato de ainda estar entre os dez primeiros. Bebeu um pouco da sua água se amaldiçoando por estar tão empolgada com algo que ela jurou que odiava em toda a sua vida. Ela nem sabia como, de repente, corridas pareciam tão interessantes e ainda nem era a corrida de verdade.
Depois de sete minutos os quinze pilotos restantes recomeçaram as voltas e bufou vendo os mesmos dois nomes de cara nos primeiros lugares e ficou ainda mais contrariada quando o tal ocupou o terceiro lugar, seguido de outros nomes que ela nunca tinha ouvido falar, a não ser Vettel.
O final tinha sido uma loucura, os nomes do final subindo e ela só soltou o ar quando viu que o nome de não estava entre os últimos cinco. O que significava que ele disputaria a próxima parte.
– Vamos, ! – Ela murmurou para si mesma.
– Merda! – bateu com força no volante ao saber que poderia ser punido pela manobra que atrapalhou Grosjean. Precisaria dar ainda mais de si para ainda largar relativamente bem mesmo se fosse punido. – Foco, . Sinta o carro. Você consegue. – Repetiu para si mesmo.
Deu tudo de si naqueles doze minutos, tentou esquecer de todos os outros pilotos e focar apenas em se melhorar. 1m11s041 havia sido o seu melhor tempo naquela pista até então e o colocava em quinto no grid. Era um bom resultado, ele estava satisfeito, mas antes mesmo de deixar o carro a punição foi definida e ele largaria em oitavo.

Com o final da classificação, as pessoas não demoraram a esvaziar o local, mas sabendo que não sairia imediatamente, esperou um pouco mais para encontrá-lo no local marcado por ele.
– Parabéns! – o abraçou com um sorriso. – Cinco de vinte na engenharia é muito bom. – Comentou ao perceber que ele, de fato, não estava feliz como ela.
– Vou largar em oitavo.
– Por quê? – O olhou de lado enquanto caminhavam para fora do autódromo. – Eu vi seu nome na lista, estava em quinto.
– Fui punido com três posições por atrapalhar outro piloto no Q23.
– Ah, não é sua culpa se ele foi ruim. – Ela tentou melhorar o clima e acabou rindo, porque ela claramente não fazia ideia da fama de Grosjean. – De qualquer forma é amanhã que importa e você vai ser ótimo, sabe por quê?
– Por quê? – Ele voltou a olhá-la.
– Porque eu estou aqui e isso tem que ser a maior sorte que um piloto pode ter. Eu em uma corrida.
– Pelo visto alguém vai pagar língua. – Provocou e ela manteve o sorriso.
– Já estou pagando, fazer o quê? – Deu de ombros. – Eu te disse que sou uma mulher de palavra. Só nunca ia imaginar que torcer para alguém correndo seria tão legal. Talvez essa fosse a diferença, eu não conheci nenhum outro piloto de Fórmula 1 antes.
– Pode ser. Mas se eu for bem amanhã e você for o amuleto da sorte, você terá que ir em todas as corridas.
– Aí já é demais. Eu tenho uma vida, sabia?
– Que está bem mais divertida depois que passou a me conhecer de verdade. Pode falar. – O tom dele era de brincadeira, mas ele não fazia ideia da verdade que as palavras continham.
– Nos seus sonhos. – Devolveu no mesmo tom. – Vamos logo, estou com fome.

🔸🔹
havia dito que ela poderia ficar na garagem se quisesse, mas ela não se sentiu confortável em ficar ali, parecia íntimo demais para alguém que sabia tão pouco como ela, e preferiu assistir do mesmo lugar do dia anterior. Antes de a corrida começar todos os pilotos se juntaram em um círculo, todos com bonés vermelhos em homenagem a alguém importante que havia falecido. Niki Lauda, pelo que leu na tela, mas também não sabia quem ele era. Fizeram um minuto de silêncio em homenagem ao homem e até as buzinas das embarcações foram ouvidas.
Foram liberados para a volta de apresentação e parou o carro em P8. Ainda estava chateado pela punição, mas sabia que tinha condições de fazer uma boa corrida e ganhar algumas posições. Ele precisava confiar em si como confiava nela enquanto engenheira.
As luzes se apagaram e foi dada a largada. esperou que todos aqueles carros juntos se chocassem logo de cara, mas nenhuma batida aconteceu. Os quatro primeiros pilotos mantinham a mesma ordem e a primeira mudança que ela notou foi quando o sexto carro ultrapassou o quinto, Ricciardo agora estava atrás de Vettel e ameaçava o segundo colocado a todo instante.
Não entendeu o que tinha acontecido exatamente, mas a imagem era do carro de com rodando e com pneu furado. Era apenas a volta dezesseis, das setenta e oito do circuito, mas a corrida havia acabado para ele. Os três primeiros trocaram os pneus e conseguiu sair na frente de Bottas, ocupando a segunda posição. tinha gostado de ver, mas entendia que isso seria ainda mais pressão para .
, venha para os boxes. – Ouviu no rádio e confirmou.
Com a entrada do Safety Car na pista, era hora de alterar a estratégia e aproveitar para trocar os pneus, como praticamente todos os pilotos estavam fazendo. foi avisado que estava em segundo, mas que tinha uma punição de cinco segundos por saída perigosa dos boxes. Aquela era sua chance de se esforçar ainda mais e quem sabe terminar a corrida na frente do companheiro de equipe.
passou a ocupar o quinto lugar quando o piloto a sua frente fez sua parada. Era um bom resultado, mas ainda faltavam 49 voltas e nada estava garantido.
Se tinha achado o começo da corrida tranquilo, ela já havia mudado de opinião. Os primeiros pilotos mantinham o trabalho, mas entre os dez últimos a disputa era constante. Um piloto havia encostado em outro e tomado punição de dez segundos. Pouco depois dois outros pilotos se envolveram num incidente na saída do “Grande Hotel”.
Quando parecia que a corrida tinha se acalmado a disputa intensa entre os dois primeiros recomeçou. estava mais veloz que Hamilton, chegando até mesmo a tocar no carro dele. Mas ele se defendeu e manteve a liderança.
Com uma boa distância para o piloto que estava atrás dele, foi chamado aos boxes para uma nova troca de pneus, com a estratégia de tentar tirar o tempo mais rápido da prova. E foi o que ele fez, na volta sessenta e oito. Estava feliz por garantir pelo menos mais um ponto. Manteve um bom ritmo, mas não o suficiente para ganhar outra posição e cruzou a linha de chegada em quinto lugar, apenas um lugar atrás de após sua punição.
relaxou o corpo no assento ao final da competição. Estava exausta de torcer e nem imaginava como os pilotos estariam após mais de uma hora e quarenta de prova. Tinha achado o treino classificatório mais interessante do que a corrida no final das contas, mas a experiência toda tinha sido interessante. Estava ansiosa para encontrar depois da corrida, esperava que ele estivesse feliz com o resultado. Ela entendia que não era o ideal, mas cinco de vinte ainda era muito bom na cabeça dela.

🔸🔹
– Você ter certeza que vai encarar a viagem de volta hoje ainda? – estava deitado na cama dela, enquanto ela guardava as coisas de volta em sua mochila.
– Claro que sim, eu trabalho amanhã cedo. – O olhou e ele parecia prestes a dormir ali mesmo.
Tinham conversado um pouco sobre a corrida mais cedo. Apesar de não estar totalmente satisfeito com o resultado, tinha gostado de ouvir os comentários positivos e entusiasmados de . Ela tinha admitido que corridas não eram de todo ruim no final e não tinha descartado a possibilidade de ir a alguma outra no futuro.
– Anda, desce comigo antes que você durma aqui. – Ela o cutucou na barriga e ele se levantou.
– Me avisa quando você chegar em casa. – Estava um pouco preocupado.
– Você já vai estar capotado, nem vai ver minha mensagem.
– Mas eu vejo quando eu acordar e vou saber que você chegou bem.
– Eu não estou cansada como você, eu vou chegar bem. – Garantiu, mas pela feição dele, ainda esperava que ela concordasse com ele.
– Sério, . Ninguém sabe que você estava aqui, se acontecer alguma coisa… – não sabia porque estava com aquele receio.
– Tudo bem, . Se vai te deixar tranquilo, eu te mando uma mensagem quando chegar. – Negou com a cabeça, pensando que não tinha dado satisfação nem para os pais no final de semana e daria a ele.
– Aonde você está indo? – Ele perguntou vendo-a ir em direção à recepção.
– Fazer o checkout. – Ele correu até ela e pegou o cartão magnético da mão dela.
– Nada disso, eu ia organizar tudo. Lembra?
– Eu não preciso que você pague para mim, . – Rebateu.
– Ah, eu tenho plena consciência disso. Mas de qualquer forma já está pago, então você pode desemburrar e deixar isso pra lá. – Pela expressão dela ele sabia que ela não concordava, mas ela sabia que não adiantaria brigar.
Seguiram para o lado de fora e o manobrista apareceu com o seu carro. abriu a porta de trás, colocando sua mochila lá.
– Obrigada pelo final de semana, . – Enfatizou o nome dele e o abraçou com gratidão.
Ele pôde sentir isso. Talvez em todos aqueles anos aquele fosse o abraço mais verdadeiro trocado por eles.
– Não há de quê, Leblanc. – Retribuiu da mesma forma.
– Do que você está rindo?
– Depois de um final de semana na companhia um outro você me chama pelo meu nome completo. Achei que agora éramos amigos.
– Ah, para! – Ela o empurrou de leve. – Foi com todo amor do mundo que falei seu nome completo.
Abriu a porta do motorista, pegou o celular no bolso da calça e estava colocando o destino no gps quando recebeu uma mensagem de . Pensou que podia ser algo relacionado aos pais estarem atrás dela, mas acabou fazendo uma careta quando viu que era sobre o par no casamento.
– Está tudo bem? – perguntou, preocupado pela feição de desagrado dela.
– Está sim. – Respirou fundo, fechando o aplicativo de mensagens. – É só uma amiga querendo me apresentar possíveis homens para serem meu par no casamento dela, já que agora sou uma madrinha sem acompanhante. – Explicou.
– Eu posso te acompanhar. – Disse num impulso, pegando não só ela como ele mesmo de surpresa. – Se você quiser, é claro. – Acrescentou.
– Você faria isso? – Estava surpresa pela oferta dele, mas parte dela se sentia confortável se ele de fato a acompanhasse, pois eles se conheciam e tinham se dado bem durante aquela semana.
– Se eu não tiver corrida, sim. – Confirmou. – Quando é?
– No próximo sábado. – Respondeu derrotada, sabia que estava em cima da hora.
– Estarei em Marselha então. – não acreditou no que ouvira.
– Mesmo? – confirmou com a cabeça e ela o abraçou novamente, por impulso. – Ai meu Deus! Muito obrigada, ! De verdade! – Estava aliviada, não queria ser apresentada para nenhum amigo de ou de Leon. – Fico te devendo essa.
– Talvez eu cobre algum dia. – Deu uma piscadinha com o olho direito. – Agora vai logo ou vai chegar em casa só amanhã.
Ela entrou no carro, colocou o cinto de segurança e abriu a janela.
– Obrigada. – Repetiu com um sorriso sincero.
– Boa viagem! – desejou e assim que o carro dela virou a esquina ele entrou de volta no hotel. Precisava de algumas horas de sono.
– Quem é a garota? – Grosjean puxou assunto ao cruzar com no lobby.
– Ahn? – Não imaginou que Grosjean tivesse visto .
– A garota que você acabou de se despedir. – sorriu tímido.
– Uma amiga.
– Com esse sorriso no seu rosto, diria que não é só isso. – Grosjean deu um tapinha no ombro do mais novo e seguiu seu caminho.
entrou no elevador e ao olhar no espelho constatou que tinha mesmo um sorriso bobo no rosto. Sabia que tinha a ver com , mas seu cérebro estava cansado demais para analisar qualquer coisa naquele momento. E foi assim que ao entrar no quarto, tirou os tênis, se jogou na cama e dormiu instantaneamente.

1Paddock: edificação encontrada nos circuitos de automobilismo para abrigar o pessoal das equipes, veículos, oficiais de provas e convidados. (Foto)

2Motorhome: é como uma casa sobre rodas, uma estrutura completa que serve todos da equipe. (Foto)

3Q1, Q2 e Q3: são as três partes do treino classificatório, em que os pilotos tentam obter o melhor resultado possível e que define o grid de largada. (Vídeo)

Nota da autora: Hello, hello! O que acharam da corrida em Mônaco? E da interação entre eles? Me contem aqui nos comentários se era o que vocês esperavam ou não e também quais as previsões para os próximos capítulos!
Beijinhos e até o capítulo 3!

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Trois

— Está tudo bem, ? — questionou ao ser abraçada pela melhor amiga. — Fiquei preocupada com você, pela forma que falou ao telefone.
— Está tudo bem. — Garantiu se sentindo boba por ter se afetado tanto na sede da empresa mais cedo.
— Você já tinha me dado o bolo e voltou atrás. Me conta o que aconteceu. — a guiou para a mesa no jardim do fundo da casa, onde duas taças de vinho as esperavam.
— Você está bebendo em plena terça-feira, ?
— Eu estou muito ansiosa com o casamento, eu preciso beber para me acalmar. — Justificou, entregando uma taça para . — Mas pare de me enrolar e me conte o que foi que te abalou. — abriu a boca para negar, mas foi mais rápida. — Nem tente fingir que não, eu te conheço a tempo demais para saber pelo seu tom de voz que algo aconteceu.
— Por que é que eu vim para cá mesmo? — fez drama.
— Porque você me ama muito. Agora anda! — Falou séria, bebendo um gole de sua taça.
— Me convocaram para uma reunião lá na empresa hoje. No escritório mesmo, na sede. — assentiu. — Eu já esperava que fosse uma reunião apenas para checar o andamento, afinal a data de entrega está chegando e no final de mês sempre temos que enviar os relatórios da obra. Mas adivinha. — Carregou a última frase com ironia.
— Amiga, você sabe que eu sou médica, não engenheira. Não faço ideia do que seu chefe poderia querer com você. — E então uma ideia a ocorreu. — Ele não deu em cima de você, não é? Porque se ele tiver feito isso eu juro que. — a interrompeu.
— Não, não. Não foi nada disso. — Garantiu. — Eu estava na sala de reuniões, esperando o Riquelme aparecer e o Thierry entrou na sala.
— E o que é que ele foi fazer lá? Ele não está cuidando da construção de um shopping em outra cidade? — assentiu.
— Eu não tive nem tempo de perguntar, provavelmente nem perguntaria, não queria nem ouvir a voz dele. Mas o Riquelme apareceu logo em seguida, confirmando que a reunião era para acompanhar a obra, comparando com o planejamento do Thierry! — Aimeé falou com raiva, como se fosse o maior absurdo do mundo, mas não entendeu o motivo. — Ele não precisava estar lá, eu podia muito bem mostrar por mim mesma, até porque em algumas frentes de serviço eu consegui estar à frente do planejado. Se eles não confiavam que eu ia conseguir, não precisavam ter me colocado nesse cargo.
— Ei, ei! — a cortou, ela estava falando sem parar. — Calma aí. De onde você tirou que eles não confiavam que você conseguiria?
— A forma como ele falou, ! Foi como se eu não conseguisse manter a obra em ordem! — Continuou usando seu tom de indignação. — Como se precisasse da supervisão do Thierry ou se não fosse capaz por ser mulher!
, você não acha que interpretou mal? — que lavava a taça à boca, parou com a mesma no meio do caminho.
— Não me diga que vai defendê-lo.
! Me escuta! — Pediu, segurando a mão da amiga que estava sobre a mesa. — Eu não estou defendendo ninguém, muito menos o Thierry. Ele foi ridículo com você e nada vai mudar minha opinião sobre isso. Eu só acho que talvez você tenha interpretado erroneamente o fato de Riquelme tê-lo chamado. — Ponderou. — Riquelme sempre te tratou lá dentro como uma filha, sempre que pôde te deu um cargo melhor lá, não imagino ele duvidando da sua capacidade assim.
passou a mão livre da taça pelo rosto. Ouvindo as palavras da amiga, conseguia enxergar aquela reunião de outra perspectiva e poderia ter razão.
— Talvez a intenção dele fosse só se prevenir. Caso algo não estivesse saindo como o planejado, ter alguém que pudesse ajudar a resolver a situação, já que aquela era a obra do Thierry.
— Deve ser por isso que a maioria das empresas tem uma política que não permite relacionamento entre os funcionários. — Falou com a voz sofrida.
— Você não esperava o Thierry lá e isso te deixou na defensiva. Você ainda está magoada com ele e eu acho que pode ter assumido que tudo era contra você porque ele colocou essa questão no término de vocês. Ele usou essa obra e esse cargo como desculpa para o fim do namoro.
— É provável que você esteja certa. — Confessou. — Não queria admitir, mas vê-lo lá me desestabilizou.
— E está tudo bem, . Ainda é algo recente e você ainda está se adaptando. Com exceção da sua mãe, ninguém espera que você supere isso de noite para o dia. — achava incrível o talento da amiga com as palavras, se sentia tão reconfortada naquele momento que sabia que tinha feito a escolha certa em ir para lá.
O tempo começou a fechar e um vento frio fez com que as duas fossem para o lado de dentro da casa. Com as taças novamente cheias e abrigadas pelo sofá super aconchegante de , estava mais relaxada e a amiga achou propício para trazer um novo assunto à tona.
— E então? Vai me contar aonde se escondeu no final de semana ou vou continuar sem saber porque te acobertei?
— É segredo. — Disse, bebendo mais um pouco do vinho.
— Você nunca me deixou tão curiosa em toda a vida, . Pena que não posso te odiar. — As duas riram. — Eu vigiei seus stories o final de semana todo, esperando uma foto que fosse, qualquer coisa e nada.
, se fosse para você saber eu mesma teria contado. — não tinha motivos para não contar à amiga, mas tinha sido bom ter aquilo só para ela num momento de turbulência e ela queria guardar aquela sensação.
— Só não vou insistir nisso porque ainda precisamos falar sobre minha mensagem que você ignorou.
— Eu não ignorei. — Se defendeu, mas se lembrou em seguida da mensagem sobre o par para o casamento.
— Eu andei pensando em quais convidados seriam uma boa companhia para você, tem alguns amigos do Leon também que são bem legais e estão solteiros.
— Obrigada, mas não precisa.
— Você não vai entrar sozinha, amiga. E não tem a opção de você não ser minha madrinha! — cruzou os braços, deixando claro que aquilo não estava aberto para negociação.
— Claro que não vou deixar você, ficou louca? — a tranquilizou. — Eu arrumei um par, pode ficar tranquila e se preocupar com outras coisas para o seu grande dia.
— Arrumou? — A amiga a olhou desconfiada. — Quem?
— É segredo. — repetiu apenas para deixa-la curiosa.
— Você sabe que preciso do nome dele para colocá-lo na lista de convidados.
— É o . — Contou.
— Quem é ? — vasculhou na memória.
— O , . — Explicou.
— O piloto? — Leon questionou assustando as duas que nem mesmo tinham percebido que ele tinha chegado do trabalho.
— O próprio. — confirmou.
— O filho da sua madrinha? — questionou confusa e voltou a confirmar. — Achei que vocês não se falavam. Pelo menos nos seus aniversários ele sempre estava com o grupo que você chamava de “chatos das corridas”. — riu por a amiga lembrar disso.
— Caramba, vai ter um piloto da Fórmula 1 no nosso casamento. — Beijou os lábios da noiva. — , você já tem um lugar especial no meu coração. — Falou e seguiu para o segundo andar, deixando as duas às sós novamente.
— Espera aí! — ligou os pontos. — Foi com ele que você passou o final de semana? — A empolgação tomando conta da expressão dela ao confirmar pela falta de resposta da engenheira. — Meu Deus, ! — Levou as mãos à boca, incrédula.
— Ah, para de exagero! Não foi nada do que você está pensando. — Se defendeu imaginando o que passava pela cabeça dela.
— Você foi a uma corrida com ele? — Perguntou olhando algo no celular.
— Me dá isso aqui. — Tentou puxar o aparelho, com medo de ter postado alguma foto em que ela aparecia, mas era só ele na corrida.
Leblanc se rendeu e foi a uma corrida de Fórmula 1. Quem diria. — negava com a cabeça, mas estava sorrindo. — Vai me contar ou posso deixar minha imaginação fluir? Porque olha, ele é bem bonitinho. Está bem melhor do que eu me lembrava.
— Para com isso, ! — pediu, se sentindo um pouco envergonhada. — Não aconteceu nada, ok? Sim, eu fui a uma corrida, mas foi só isso.
Apesar de toda a curiosidade, sabia que a amiga tinha o próprio tempo e que pressioná-la não costumava levar a lugar nenhum.
— E ele simplesmente soube do meu casamento e quis vir?
— Acabei comentando com ele quando você mandou a mensagem sobre possíveis acompanhantes para mim e ele se ofereceu. — Deu de ombros, mostrando que não era nada demais.
— Então agora vocês são amigos. — afirmou.
— Algo assim.
— E existe alguma chance de serem mais do que isso? — Seus olhos transbordavam curiosidade.
— Não, . Acabei de sair de um relacionamento. Não tenho nem cabeça para isso agora.
— Tem razão. Mas fico feliz que ele tenha colocado um sorriso no seu rosto. — voltou a sorrir pelo simples fato de se lembrar do final de semana.
— Foi aquela coisa que você não sabia que precisava até fazer, sabe? Não imaginei que precisava da experiência de sair de tudo por uns dias até fazer isso.
— Isso é muito bom. Você vai ficar brava se eu shippar vocês no meu casamento? — arriscou.
! — A amiga a censurou, mas ria.
— Você tem que tirar mesmo a graça de tudo? — Reclamou.
— Você não vai fazer nada! Esqueceu que meus pais vão ao seu casamento? A última coisa que preciso é minha mãe acreditando que somos um casal. Você sabe como ela acha que eu já estou passando da idade de casar. — Lembrou que a mãe tinha um casamento todo montado em sua cabeça.
— Ah, é verdade. Prometo me controlar então. — Falou séria e decidiram deixar o assunto de lado quando Leon voltou a se juntar a elas.

🔸🔹
Junho de 2019

— Me explica uma coisa, porque é que você vai para Marselha de novo esse fim de semana? — O preparador físico de questionou quando finalizaram o percurso de corrida nas ruas de Milão.
— Vou para um casamento. — Contou, respirando pesadamente por causa do cansaço e olhou no relógio. — Inclusive, já deveria estar me arrumando para ir.
— Casamento de quem?
— Na verdade eu não conheço.
— Você precisa ir num casamento em que você nem conhece quem está casando? — Pyry riu da careta de . — Você nem gosta de casamentos.
— Pois é, quando vi já tinha me oferecido para acompanhar uma pessoa.
— Uma pessoa… sei. — Ele falou em tom de zoeira e apenas negou, destravando o próprio carro.
— Te vejo segunda. — Se despediu e foi para seu apartamento. Tinha menos de duas horas para estar no aeroporto ou perderia seu voo e se atrasaria para o casamento.

🔸🔹
estava na entrada do espaço onde seria o casamento e conferia às horas no celular a cada dez segundos. Não tinha conseguido falar com desde cedo e agora estava morrendo de medo de não ter com quem entrar ou de entrar com qualquer um. Pegou uma taça com água de um garçom que estava próximo a ela e respirou fundo algumas vezes. Estava muito nervosa, não queria estragar o grande dia da amiga.
dirigia o mais rápido que podia pelas ruas de Marselha, entrando enfim no caminho de terra que levava para a área entre duas grandes vinícolas em que aconteceria o casamento. Tinha levado o seu melhor terno preto, tinha avisado que era assim que todos os padrinhos deveriam ir, e tinha colocado uma gravata azul que tinham dito a ele uma vez que realçava seus olhos. Estacionou na primeira vaga que encontrou e seguiu para a entrada.
acenou para os pais que já estavam sentados na parte dos convidados. Mabelle adorava casamentos e tinha insistido em irem mais cedo para pegar um bom lugar. Para evitar o falatório dela, a filha tinha conseguido escapar de todas as vezes que em ela perguntara sobre quem seria seu par, mas sabia que ela estava morrendo de curiosidade.
— Vamos, . Não faça isso comigo. — Murmurou passando as mãos pelo vestido, tentando se acalmar e então ele cruzou a entrada. — Finalmente. — Disse aliviada e o abraçou. — Minha vontade é de te bater por só chegar agora.
— Eu já te contei que não me dou bem com horário. — Ele riu.
— É, mas eu não achei que fosse tão sério assim.
— Desculpa. — Pediu quando ela mostrou as mãos que ainda tremiam um pouco.
A cerimonialista os chamou, organizando-os em ordem na fila com os demais padrinhos.
— O que temos que fazer? Só fui padrinho nos casamentos dos meus irmãos, mas não precisei entrar com ninguém. — Perguntou baixo quando os músicos começaram a tocar e as pessoas foram se sentando para o início da cerimônia.
— É que a mãe da é brasileira e desde que ela viu o vídeo de casamento da mãe, ela quis um casamento parecido. Lá os padrinhos entram em casais e a mãe dela também casou de dia ao ar livre. Mas só temos que entrar pelo corredor e nos sentar do lado oposto que o casal a nossa frente for. — Ele assentiu.
— A propósito, você está muito bonita. — Elogiou e ela nem teve tempo de responder, pois seriam os próximos a entrar.
— Deem as mãos. — A cerimonialista pediu, fazendo o gesto com as próprias mãos e segurou a mão direita de com a sua esquerda.
O corredor não era longo e eles andavam mantendo distância do casal à frente deles. Ambos com um sorriso no rosto. se segurando para não rir da expressão de Leon no altar ao ver que era mesmo em seu casamento e por ver a expressão no rosto de Mabelle.
— Espera! Aquele é o ? Mas o quê? — estava surpreso e virou-se para a namorada como se ela tivesse as respostas. — Eu nem sabia que ele estava namorando. Ah, mas ele vai ouvir muito! — O piloto riu com gosto. — Ele não me escapa.
, silêncio! — Eloise pediu, tentando fazer com que o namorado ficasse quieto, mas ela também ria. — Eu sei que ela é uma das melhores amigas de infância da , mas da última vez que a vi o namorado era outro. — Contou.
— Bom que pelo menos tenho um conhecido na festa. — A namorada o olhou de lado. — Além de você, schat.
— Yohan, você viu aquilo? — Mabelle balançava o marido pelos ombros. — É o ! A está acompanhada do ! — Os olhos da mulher brilhavam de empolgação e o marido sorria.
— Eu estou vendo, mon amour.
— Ele é um pouco novo para ela, não é? — Questionou, mas nem esperou uma resposta. — Não importa! Será que Pascal já sabe?
— Mabelle, ele só a está acompanhando. terminou o namoro esses dias. Se eles estivessem juntos nós saberíamos. — Yohan tentou controlar a esposa, que só parou quando ouviu a marcha nupcial.
e estavam nos assentos do lado direito, o lado da noiva, e ao ouvirem a música os dois se viraram para o corredor. A engenheira já sentia a emoção tomar conta de si e as lágrimas surgiram assim que viu em seu vestido de noiva, acompanhada do pai. Ela estava deslumbrante e radiante. sabia que casar sempre fora um sonho dela e estava muito feliz por ela e por Leon. Olhou para cima, evitando que as lágrimas caíssem e a confortou com um afago no ombro. Há um mês não sabia o quanto era emotiva.
Se assentaram e a cerimônia começou. não saberia dizer se realmente tinha passado rápido ou se era o fato de ela estar tão envolvida pelas palavras que não percebeu o tempo passar. Os noivos se beijaram no exato momento em que o sol se punha e os convidados se levantaram e aplaudiram o casal. Na mesma sequência, os casais de padrinhos saíram e os fotógrafos pediram que não fossem ainda para o salão, pois os noivos queriam fotos com eles ao ar livre.
Várias fotos foram tiradas até que fossem liberados, só dos padrinhos com Leon, só as madrinhas com , o inverso, todos os casais com os noivos em diversas poses. aproveitou a oportunidade para abraçar Leon e em seguida sua amiga, antes que ela tivesse que dar atenção a todos os outros convidados.
— Parabéns, amiga! Eu estou tão feliz por você! — Falou sentindo os olhos marejados novamente.
— Não me faça chorar, ! — A médica segurava as lágrimas e as duas riram. — E que belo casal vocês fazem, hein? — Indicou , com a cabeça, um pouco mais atrás. — Até combinaram gravata com seu lindo vestido azul hortênsia.
— Acredite, foi só coincidência. — informou.
— Eu não acredito em coincidências. — Rebateu.
— Então você é padrinho. — surgiu ao lado de com uma taça de cerveja, assustando-o.
— Você aqui! — Se cumprimentaram.
— A Eloise fez faculdade com a . — explicou e assentiu, cumprimentando a namorada do amigo em seguida. — Você escondeu de todo mundo que está namorando? Espertinho… — riu alto. — Sua paz acabou.
— Schat, deixa ele em paz. — Eloise tentava ser séria com ele.
— Nós não somos namorados. Nossos pais são amigos e eu só vim acompanhá-la porque o antigo par foi desconvidado. — Contou da forma que achou apropriada.
— Amor, esse é o melhor casamento da minha vida! — Leon interrompeu a esposa com a amiga. — e estão mesmo aqui! — Ele estava em êxtase.
— Que bom saber que você pensa isso por causa de pilotos da Fórmula 1 e não porque está se casando comigo. — Ela foi irônica, mas ele nem se importou.
Depois de conversar com os dois e falar várias vezes como era uma honra ter os pilotos em seu casamento, finalmente conseguiu levar o marido para a recepção e apresentou ao e a Eloise.
— Você sabia que ele estaria aqui? — cochichou com .
— Não fazia ideia, levei um susto. — Confessou. — E sua mãe está acenando insistentemente, nos chamando para a mesa dela.
— Mal posso esperar pelos mil comentários que ela fará sobre nós. E sim, não lembrei que ela e meu pai viriam quando aceitei você como par.
— Relaxa e curte a festa da sua amiga, . Eu levo o para a mesa também e teremos assunto com seu pai por muito tempo.
— Que animador. — Ela disse totalmente irônica e ele riu alto, fazendo com que ela risse também.
, Eloise, venham se sentar com a gente. — os convidou e os quatro seguiram para a mesa de Mabelle e Yohan.

Pela primeira, vez não se importou que o assunto na mesa por quase duas horas fosse corrida, pois isso impedia os comentários sobre ela e . , por sua vez, estava adorando contar toda a sua trajetória desde que começara a correr com quatro anos e meio e Yohan estava dando bastante corda a ele. Eloise estava conversando com outra médica e apesar de não estar incluída em nenhum assunto, a engenheira estava bem.
Somente quando a janta foi servida é que o assunto passou a ser o casamento, comentaram da cerimônia e da decoração e de como a comida estava deliciosa. E o temido momento, enfim, havia chegado.
— A minha parte favorita foi vocês entrando juntos. — Mabelle tinha um sorriso largo de satisfação no rosto. — Formam um casal tão lindo, não é Yohan? — Cutucou o marido que pela expressão não queria responder aquilo.
— Eu concordo. — se intrometeu e Eloise o olhou séria. — Tirando nós dois e os noivos, eles foram o casal mais bonito daqui.
— Eu concordo. — Ela reforçou, como se sua opinião ainda não estivesse clara.
— Querida, eu acho que podíamos ir embora. Estou cansado. — Yohan sugeriu, dando uma piscada discreta para a filha.
— A não vai querer ir ainda. — Mabelle ponderou, mas Yohan se levantou, mostrando que realmente queria ir para casa.
— Eu a deixo em casa depois. — ofereceu, sem considerar que aquilo empolgaria ainda mais a mais velha. — Eu estou de carro.
— Você não vai beber?
— Eu não bebo quando estou dirigindo, Mabelle. Pode ficar tranquila.
— Ai! — Colocou as mãos no peito. – É o genro que eu pedi a Deus! — fez uma careta de sofrimento enquanto gargalhava alto.
— Parabéns, cara. Já conquistou a sogra! — apertou o ombro do amigo, ainda com um sorriso enorme no rosto.
— Já chega, ! Deixe-os em paz! Vamos dançar. — Eloise o puxou para a pista de dança.
— Vocês vêm? — O piloto falou um pouco mais alto.
— Daqui a pouco. — gritou e quando estavam apenas os dois na mesa, escondeu o rosto nas mãos. — Me desculpe mesmo pela minha mãe.
— Relaxa, . Eu tenho um exemplar parecido lá em casa. Minha mãe já me colocou em tanta situação constrangedora…
— Deve ser por isso que elas são amigas. — se levantou. — Você falou sério sobre me deixar em casa? — Ele assentiu. — Então eu vou beber. — Ela andou em direção ao quiosque de drinks e a acompanhou.
— Vodka? — Ele estranhou quando ela recebeu dois copos com bebidas cor de rosa.
— Com morango. — Sorriu ao beber um gole pelo canudinho e ofereceu a ele, que negou. — Não imaginou que eu bebesse outras coisas, né?
— Honestamente, não. — Confessou e riu.
— Uma dama só deve beber com classe, champanhe ou vinho. — Imitou o tom de voz da mãe e riu.
— Você é adulta, . Nem mora com eles mais. — Era estranho que ela desse satisfação a eles.
— Eu sei, mas algumas discussões não valem a dor de cabeça, sabe. — Ele concordou. — Agora vamos dançar, pois seu amigo tem cara de ser um péssimo dançarino e vai ser minha vez de zoar com a cara dele.

constatou que estava certa, tinha o corpo duro para dançar e pôde zoá-lo algumas vezes, o que se tornou ainda mais divertido porque ele não achava tanta graça quando ele era o alvo das brincadeiras.
Depois de uma série de músicas mais agitadas e divertidas, Perfect Symphony de Ed Sheeran com Andrea Bocelli começou a tocar e uma luz colocou o casal de noivos em foco no centro da pista de dança. Leon e dançaram aproximados e foram aplaudidos. Quase no final da música outros casais se juntaram e começaram a dançar, incluindo e Eloise, e estendeu a mão, num convite mudo, que foi aceito por , embora um pouco receosa.
colocou os braços em volta do pescoço de , sentindo o toque firme e ao mesmo tempo cauteloso dele em sua cintura. Estarem tão próximos assim a deixava um pouco nervosa, nem mesmo se lembrava da última vez que dançara uma música lenta com alguém.
I’ll be do Edwin McCain começou em seguida e procurou a amiga com os olhos, ela era a única que sabia o quanto adorava aquela música e não acreditava em ser só coincidência, mas e Leon estavam tão conectados que ela deixou quieto e apenas aproveitou a dança.
nem mesmo era um bom dançarino e não entendia porque vinha agindo tanto por impulso na presença de . Com os braços dela em volta de seu pescoço, sentia ainda mais o perfume dela e a sensação de que aquilo era simplesmente certo o assustava um pouco.
conduzia Eloise até ter o olhar de em si e então juntou os lábios, indicando que o amigo deveria logo beijar , mas ele negou sutilmente com a cabeça e evitou olhar novamente na direção de . Assim que a música acabou os casais se separaram e então uma música animada e diferente começou a tocar.
— Vem, ! — apareceu, puxando a amiga e suas primas brasileiras.
— Não, ! — A engenheira negou, reconhecendo um dos funks que a noiva adorava dançar.
Mas não desistiu e logo as cinco garotas dançavam uma coreografia que ninguém, além delas, parecia conhecer. conseguiu escapar antes mesmo do primeiro refrão, era tímida demais para tanto público.
— Que música é essa? — perguntou balançando a cabeça no ritmo da música.
— Não sei o nome, é um estilo brasileiro que a adora dançar e me ensinou uma vez.
— E mexe o bumbum desse tanto mesmo? — Ele parecia impressionado e Eloise deu um beliscão no braço dele.
— Daí pra mais. — fez careta, arregalou os olhos e ria dos dois.
— Acho que é hora de irmos embora. — Eloise entrelaçou os dedos aos do namorado. — Daqui a pouco você vai querer dançar isso e é melhor evitarmos uma tragédia. — Ela zoou e os quatro riram.
e Eloise se despediram e e continuaram na pista de dança, o funk tinha acabado e os grupinhos voltaram a se juntar e dançar. estava com os olhos fechados e dançava com os braços para cima quando um rapaz um pouco bêbado tropeçou e a empurrou sem querer, fazendo-a se desequilibrar e ser segurada por .
levantou o rosto e seu olhar imediatamente se conectou ao dele e por alguns instantes era como se não houvesse ninguém ali além deles, como se pudessem ler um ao outro. sentia seu coração bater depressa, a respiração dela batendo em seu rosto, suas mãos ainda segurando os braços dela.
levou a mão direita até o rosto de , colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha. Desceu a mão até a nuca dela e então, mais uma vez por impulso, uniu seus lábios aos dela. Foi como se todo o seu interior se aquecesse e a sensação de que aquilo era simplesmente certo voltou a tomar conta dele.
fechou os olhos e retribuiu o beijo, ignorando completamente a parte do seu cérebro que gritava que aquilo não deveria acontecer. Assim como tudo que tinha acontecido com eles desde a recente aproximação, o beijo era leve e inesperado, mas trouxe consigo um misto de sensações que a deixou confusa.
— Eu… acho que já podemos ir embora. — Ela disse um pouco sem graça, ao finalizarem o beijo.
— Tudo bem. — Sorriu e a acompanhou até os noivos para se despedirem.

A maior parte do trajeto foi feito em silêncio, a não ser pela música que tocava no rádio. até havia tentado iniciar um assunto ou dois, mas não tinha dado continuidade. Ela ainda estava absorvendo o que tinha acontecido e tentava encontrar respostas para todas as perguntas que rondavam sua mente.

🔸🔹
tinha dormido até tarde e sem vontade para cozinhar algo novo, pegou um prato pronto no congelador e colocou-o no micro-ondas. Deitou-se no sofá e em menos de dois minutos todos os questionamentos sobre a noite anterior voltaram a ocupar sua cabeça. Ela precisava falar com alguém e sabia que a única pessoa com quem conseguiria se abrir era .

, eu sei que você está em sua lua de mel, mas quando não estiver ocupada com o Leon, me mande uma mensagem ou me ligue. Preciso de seus conselhos.”

Suspirou e rolou os contatos, abrindo a conversa com . Viu que ele estava online e resolveu mandar uma mensagem, deixando claro que estava tudo bem entre eles.

“Bom dia!
Obrigada mais uma vez por ter me acompanhado ontem!”

“Bom dia!? Já são três da tarde!😂
Foi um prazer.”

“Ainda não almocei, então é bom dia sim.”

 

“Acordou agora?”

 

“Deve ter uma meia hora…
O que está fazendo?”

“Arrumando minhas coisas, volto para Milão daqui a pouco.
E você?”

“Esperando o micro-ondas fazer meu almoço 😅

“Ah, acho que você precisa saber de uma coisa…”

“Que coisa? 👀

“Sua mãe ligou aqui e falou para minha mãe tudo o que ela falou ontem na festa.”

“Ai, não! 🤦🏻‍♀‍🤦🏻‍♀‍

“Não se espante se sua mãe estiver planejando o seu casamento, porque a conversa entre elas foi desse nível. 😬”

“Ainda bem que você está indo para casa então! Haha
Tem corrida essa semana?”

“Tenho sim, em Montreal.
Já está com saudade das pistas?”

“Nos seus sonhos! Hahaha”

“Preciso terminar aqui ou vou perder meu vôo!
Bom almoço!”

“Sempre atrasado… 🤦🏻‍♀‍
Obrigada!
Boa viagem!”

estava indo para cozinha buscar o prato quando o telefone tocou e a imagem de apareceu na tela. Deslizou o dedo, desbloqueando o aparelho e ajeitando o cabelo, pois era uma chamada de vídeo.

— Eu disse para você me ligar quando não estivesse ocupada e você me liga no primeiro dia da lua de mel? — riu, mas a amiga deu de ombros.
— Primeiro, Leon está desmaiado na cama. — Alternou a câmera, mostrando o rapaz dormindo. — Segundo que se você quer ouvir algum conselho meu, quer dizer que alguma coisa aconteceu, então… — Fechou a porta da sacada e se sentou em uma das cadeiras dali. — Sou toda ouvidos. O que aconteceu?
— Eu beijei o . — Falou de uma só vez, escondendo parte do rosto com a mão livre.
— Você o quê? — quase engasgou com o suco que bebia. — Você beijou o ?
— Não eu! — Devolveu no mesmo tom. — Nos beijamos ontem na sua festa. Não sei quem beijou quem, só aconteceu.
— Não acredito que eu perdi isso!
! — A engenheira riu da falta de foco da outra.
— Ok, ok. E precisa de conselho para o quê? Vocês foram embora juntos, não foram? — arregalou os olhos e gemeu.
— Para de pensar besteira! Ele só me trouxe em casa. Foi literalmente só um beijo lá no seu casamento.
— E qual o problema, amiga?
— O problema é que eu não senti nada e eu nem sei se deveria sentir.
— O que você acha que deveria sentir?
— Culpa talvez. — Suspirou novamente. — Eu nem lembrei que Thierry existia. Nós terminamos há menos de um mês e eu beijei outra pessoa e isso não me incomodou. Isso é… errado.
— Disse quem? — não estava mais brincando.
— Sei lá. Ninguém esquece alguém de um dia para o outro.
— Primeiro que já tem quase um mês e outra, tempo é relativo e não quer dizer nada. Você não tem que sentir culpa se fez algo que você estava com vontade. Até porque, se você fosse homem ninguém estava nem aí, então você também não tem motivos para estar. — assentiu. — E outra, isso é uma característica sua, quando você é magoada, essa mágoa apaga os sentimentos bons que você já teve por alguém. Não digo só pelo Thierry, mas te conheço há muito tempo e você é assim. Não me admiraria se você tivesse esquecido ele com uma semana. — As duas riram.
— E era por isso que eu precisava falar com você. — disse, aliviada.
— Mas me conta, não sentiu nadinha beijando o ?
— Talvez tenha sentido, mas a confusão tomou conta de tudo.
— Mas foi bom? Por favor, não me deixe curiosa! — riu do desespero da amiga e confirmou com um aceno. — E quando vão se ver de novo?
— Não tenho nem ideia. — Foi sincera.
— Espero que logo! — Piscou apaixonadamente, apenas para irritar. — Leon acordou, eu preciso ir. Me mantenha informada!
— Pode deixar! Aproveite a Grécia por mim!

Nota da autora: Oi de novo!
Aposto que por essa vocês não esperavam! Nosso casal que não é casal dando seu primeiro beijo para deixar nossos corações quentinhos! Hahahah
Aguardo as considerações de vocês sobre essa confusão de sentimentos desses personagens e também o que acharam do capítulo e o que acham que vem a seguir!
Beijos e até o capítulo quatro!

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Quatre

— P5, . P5. — O piloto foi informado pelo rádio com o encerramento do Q3 e imediatamente se lembrou de dizendo que cinco de vinte era bom.

Deixou o carro com um sorriso, largar em quinto lhe dava oportunidades de criar uma boa estratégia para o dia seguinte. Acreditava que não seria difícil uma ultrapassagem sobre Ricciardo, que largaria em quarto, e o peso em seus ombros também era menor com seu companheiro largando em décimo primeiro.
Tirou as luvas, capacete e a balaclava e foi se trocar. tinha dito que não conseguiria assistir à qualificação e ele tinha dito que contaria para ela como tinha sido quando acabasse. Estava deixando a motorhome da RBR quando esbarrou em , não esperava que ele ainda estivesse ali.

— Foi mal, não vi você. — balançou o celular na mão esquerda.
— Está conversando com a namorada, né? Eu te perdoo. — tinha um sorriso zombeteiro.
— Ela não é minha namorada. — rolou os olhos. — Você não tinha que… sei lá, estar grilado com a qualificação e nem querer olhar na minha cara?
— Ah, eu estou. — confirmou. — E isso faz eu me sentir bem melhor. Mas me diz, por que não quer assumir o namoro?
— Quem não quer assumir namoro? — estava passando em frente à motorhome naquele momento e parou entre os dois pilotos.
— O . — respondeu, como se achasse tal atitude deplorável.
— Você está namorando? — questionou o amigo, surpreso.
— Não! — voltou a dizer. — O que está me irritando para se sentir melhor depois da qualificação ruim dele.
— Foi culpa do Magnussen e todo mundo sabe. — Deu de ombros. — Olha aí, está trocando a gente para falar com ela, e não quer assumir o namoro. — Provocou por estar digitando uma mensagem.
— Quem é a garota? — perguntou interessado, quase não tinham tempo de conversar sobre outros assuntos.
— A , afilhada dos meus pais. — Explicou e se lembrou da garota que estava sempre presente na casa dos pais de .
— Achei que vocês não se falavam direito.
— Ah, mas se falam sim e fazem outras coisas também que eu vi. — voltou a falar, rindo quando ficou sério.
— O que você viu? — Perguntou cauteloso, prevendo a resposta que não queria receber.
— Vocês dois se beijando na festa. — abriu a boca. — É, eu ainda demorei um pouco a ir embora e vi vocês na pista de dança. Já estava achando que a noite ia acabar no zero a zero.
— Nunca imaginei que vocês tinham coisas em comum. — tentava imaginar os dois juntos, embora não visse há alguns anos.
— Pois é. — Coçou a nuca em sinal de desconforto. — Mas o está exagerando.
— Continue se iludindo. — deu dois tapinhas nas costas do companheiro e de equipe e se despediu, deixando os dois.
— E então? Não está mesmo namorando? — soltou enquanto caminhavam para a saída.
— Não. Eu te contaria se estivesse. — sempre era totalmente honesto com o amigo. — Você se lembra como era, nunca tivemos muito em comum mesmo até que começamos a conversar e resolvemos conhecer melhor um ao outro. Digo, eu conheci o trabalho dela e ela assistiu o GP de Mônaco e então agora nós somos amigos.
— Amigos? Você tem certeza? — O monegasco podia estar enganado, mas pelas expressões de , ele arriscaria dizer que poderia ser algo a mais.
— Sim, amigos. — Confirmou.
— E não rolou nenhuma outra coisa?
— Só o beijo que o viu no casamento. Mas não foi algo planejado, só aconteceu.
— Que casamento foi esse que pelo visto só eu não fui convidado.
— Da melhor amiga da , que por acaso é médica e estudou com a Eloise.
— Ué, mas você não estava em Milão?
— Estava, fui para Marselha só para acompanhá-la no casamento mesmo, porque ela ia com o namorado que agora é ex. — tinha um sorriso discreto e o conhecia bem demais para saber que ele estava se segurando para dizer algo. — Fala.
— É que você fala dela de uma forma diferente, nunca vi você falar assim de uma amiga e menos ainda beijar uma amiga. — Pontuou e foi o suficiente para que se questionasse se ele não estava sendo honesto nem consigo mesmo.
— Não é como se eu tivesse muitas amigas. — Ele riu. — Geralmente eu fico, começo a namorar e vou ficando amigo depois.
— Pois é, e já tem um tempo que você não se envolve romanticamente com alguém.
— Com tudo que está acontecendo comigo na RBR meu foco precisa ser minha carreira.
— E ainda sim você arranjou tempo para voar até Marselha para ir a um casamento com ela. — pontuou, deixando o amigo mais pensativo ainda.

🔸🔹
podia sentir pelo tom das mensagens trocadas no dia anterior que estava mais feliz e mais confiante do que na corrida anterior, estava torcendo para que ele realmente se saísse bem, sabia que a vida dele era literalmente aquilo e assim como ela adorava ser uma engenheira bem sucedida, desejava o mesmo a ele.
Estava com o notebook aberto na mesa de jantar, precisava finalizar o projeto de um sobrado de um cliente para enviar no dia seguinte, mas da terceira vez que se desconcentrou por pensar na corrida, carregou o aparelho consigo para o sofá e ligou a televisão no canal esportivo. A largada seria em breve e ela esperou que depois do início a corrida ficasse monótona o suficiente para que ela conseguisse trabalhar.
se sentia bem dentro do carro durante a volta de apresentação, a estratégia clara em sua mente. Acompanhou as luzes vermelhas acendendo uma a uma e pisou fundo quando as mesmas se apagaram, dando início à corrida. Tinha sido uma largada normal e ao final da primeira volta, ele, assim como todos a sua frente, ocupavam exatamente as mesmas posições.
já estava feliz por ter outro piloto em primeiro lugar, se não fosse , que fosse pelo menos algum diferente do último grande prêmio. A ideia de voltar para o trabalho depois da largada foi abandonada, quando viu indo para os boxes na volta 9, no começo da corrida.

— Ah não! — Reclamou ao vê-lo voltar na décima terceira posição, mas voltou a relaxar ao ver que ele já havia ganhado uma posição e que já ameaçava mais um piloto.

Na décima sexta volta, estava em nono lugar e estava sentada na beirada do sofá, como fazia assistindo as partidas de futebol, sempre nervosa demais para assistir como uma pessoa normal.
começava a ficar frustrado consigo mesmo por não conseguir tirar o máximo do carro. Estava a bastante tempo em oitavo e para completar, tinha retornado dos boxes na frente dele e pouco tempo depois já tinha ultrapassado Hulkenberg e sumido de sua vista.

— Isso é um absurdo! — reclamava novamente com a televisão. — Por que o Vettel está sendo penalizado? Ele não fez nada demais! Agora o Hamilton vai ganhar de novo! — Soltou o corpo no sofá. — Rá! Bem feito! — Riu quando o alemão carregou a placa de primeiro lugar em frente ao próprio carro.

Desligou a televisão antes da premiação, já tinha perdido tempo demais em que deveria estar trabalhando e nem era que estaria no pódio. Se pegou imaginando que ele deveria estar ainda mais frustrado do que na semana anterior, já que estava três posições abaixo em relação a ela.

— Por que você tem que ficar tão na frente dele, hein ? — Lembrou que a pressão adicional vinha disso. — Chega de enrolar.

Pegou o computador e levou-o de volta para mesa de jantar. Pegou um pacote de biscoitos no armário e um copo com água. Só se levantaria dali quando terminasse o projeto.

Ainda estava ajustando alguns detalhes no trabalho e só percebeu que quase três horas haviam se passado pois o celular tinha vibrado e acendido a tela, mostrando uma notificação. Era uma mensagem de .

“Oi. O que está fazendo?”

“Oi.”

E enviou uma foto do projeto ainda no Autocad.

“Trabalhando domingo?”

“Você não é o único.”

“Posso te ligar?”

estava sentado na cama do hotel, emocionalmente exausto daquele dia. Tinha se esforçado tanto e não tinha sido suficiente, de novo. Seu cérebro ansiava por uma distração e foi a primeira a ocupar os pensamentos dele. Parte dele acreditava que era o fato de ela não estar inserida naquele universo, a outra parte considerava as palavras de do dia anterior.

“Pode.”

se surpreendeu, no entanto, ao perceber que era uma chamada de vídeo. Passou as mãos pelo cabelo, pois não fazia ideia de como estava e atendeu a ligação.

— Hey! Está tudo bem? — A única pessoa que a ligava por vídeo era .
— Está sim. — Mas já tinha percebido, tanto pela expressão quanto pelo tom de voz que não estava realmente bem. — Você viu a corrida? — A engenheira tentou disfarçar, mas acabou rindo e se entregando. — Achei que não veria.
— Não era realmente meu plano inicial, eu ia terminar o projeto, achei que conseguiria ver só a largada, mas só saí da frente da televisão quando acabou. — agora sorria, e para parecia verdadeiro.
— Eu tinha certeza que ia demorar mais para você passar a gostar de corridas. Acho que você tinha medo de gostar. — Brincou.
— Acredite, estou tão surpresa quanto você.
— Isso quer dizer que você vai na próxima? É em Le Castellet. — coçou a testa, mas ria.
— A sua família vai? — Ele confirmou. — Isso vai ser a confissão para o mundo que eu me rendi à F1. – Sorriu de lado. — Você vem pra cá então?
— Ainda não decidi, estou bastante frustrado com tudo isso e preciso melhorar.
— Você não acha que está se cobrando demais? — Ela ponderou, lembrando que ele costumava ser uma pessoa mais relaxada, mesmo focado e agora parecia que estava sendo sufocado.
— Eu preciso ser melhor, . Eu preciso. — Disse sério.
— E eu entendo, eu só acho que você precisa se dar um pouco mais de valor, porque eu sei que você está dando o seu melhor e isso é o que você pode oferecer. — As palavras dela causaram mais impacto do que ele esperava, mas ele não queria conversar sobre sua situação.
— Vamos mudar de assunto? A obra já está no final, que projeto é esse? — se ajeitou na cadeira.
— É para um trabalho por fora. Meu pai fez propaganda da filha engenheira e um filho de um amigo dele vai casar e me contratou para o projeto de um sobrado.
— Entendi. É muito errado eu achar que quem fazia isso eram os arquitetos? — Ele fez uma careta e negou.

explicou a diferença de trabalhos executados por arquitetos e engenheiros, acabou contando um pouco mais sobre o curso na faculdade e suas matérias preferidas e só desligaram porque alguém bateu na porta do quarto de .

🔸🔹
tinha evitado pensar sobre as palavras de , mas mesmo assim tinha decidido ir direto para Marselha. O que ele sabia e tinha admitido para si mesmo, com certo custo, era que os únicos momentos em que ele não se sentia pressionado eram os momentos em que ele estava com ela e era por isso que tinha dirigido até o trabalho dela, sem avisá-la. Precisava ocupar a mente com outra coisa.
O mesmo senhor do outro dia estava na guarita e abriu um sorriso logo que avistou o piloto indo em sua direção.

— Boa tarde, veio falar com a ? — assentiu.
— Isso. Ela está? Dessa vez não avisei que viria. — Coçou a nuca, como fazia quando ficava um pouco incomodado.
— Está sim. Vou descobrir onde ela está. — Fez um sinal com a mão para que ele esperasse enquanto falava com a engenheira pelo rádio. — Ela está no 202. Não falei que é você. — Sorriu cúmplice.
— Obrigado. — Pegou o capacete que o senhor o entregara e o colocou antes de entrar.
— Sabe, é uma menina muito especial. — Ele começou a falar e parou onde estava e se virou para ouvir. — Eu trabalhei com ela quando ela era apenas estagiária e eu nunca conheci alguma engenheira que se preocupasse tanto com as pessoas. — sorriu involuntariamente. — Quando tive um problema grave de saúde, eles quiserem me demitir e ela insistiu no contrário e estou com ela desde então. Quando ela muda de cargo ela me leva junto e eu fico feliz que tenha outro tipo de pessoa na vida dela porque aquele engenheiro… — Negou com a cabeça. — Não a merecia.

ficou em silêncio por não saber o que falar. Sempre soube que tinha um coração enorme e talvez essa fosse outra coisa que os dois tinham em comum.

— Mas vai lá. Ela não costuma lidar bem com surpresas, mas acho que vai gostar de te ver. — assentiu e seguiu pelo caminho que agora ele conhecia um pouco melhor.

Subiu as escadas e ao chegar no segundo andar notou a diferença desde a última vez que estivera ali. Entrou no apartamento e foi seguindo pelo corredor, vendo que não só as portas estavam instaladas, mas tudo o que antes faltava. Era, na opinião dele, um lugar pronto para receber a mudança.

?! — estava esperando que alguém aparecesse depois do aviso no rádio, mas não esperava ele.
— Droga, minha camiseta me entregou, né? — Lembrou que vestia sua camiseta da seleção francesa de futebol com o número dez e seu nome nas costas. assentiu, mas era provável que o reconhecesse mesmo vestindo outra coisa.
— O que está fazendo aqui? Achei que tinha ido para Milão.
— É… acabei vindo pra cá. Me lembrei que não conheci seu trabalho de verdade no outro dia e pensei que você poderia me mostrar hoje.
— É sério? — Ele assentiu.
— O que tem aqui? — puxou a prancheta da mão dela. — Checklist? — Passou as várias páginas ali.
— Essa é uma unidade finalizada, então é hora de passar um pente fino e procurar por defeitos que possam ser encontrados pelo cliente e arrumarmos antes de que o cliente de fato venha.
— E você vai fazer um desse para cada apartamento? — Fez uma expressão sofrida.
— Não, Olivier está no outro andar. Mas não é tão ruim quanto parece, pelo menos eu não acho.
— Você está literalmente procurando defeito no seu próprio trabalho.
— Você também não procura defeito no seu carro? Para melhorá-lo?
— Ok, você venceu. — Ele riu. — Mas o carro praticamente fala. Você sente nas mãos ou nos pés ou pelo som. Aqui você tem que literalmente sair procurando.
— Você também procuraria se viesse morar aqui. É só pensar nisso. Nós precisamos entregar com o mínimo de defeitos, assim o cliente fica satisfeito e faz uma avaliação positiva.
— Entendi. — Passou os olhos pela folha que já estava com alguns “x” marcados e algumas observações. — Falta trava na janela? — riu da expressão de incompreensão dele.
— Vem aqui. — Ela entrou em uma das suítes e ele a seguiu. — É essa trava aqui, para quando fechar a janela. — Mostrou.
— E na outra não tem? — Ela negou com a cabeça. — Entendi. E fechaduras? — Leu outro item da lista.
— A mesma coisa da janela, só que com as portas. — fechou a porta do banheiro e forçou, a porta permaneceu fechada. — Essa está ok.
— Você tem que procurar rachaduras em todas as paredes? Isso vai levar uma vida.
— É mais fácil quando você pega o jeito.
— Veremos. — Voltou a procurar por algum item na lista que parecia fácil notar algum defeito.

não esperava que ele de fato quisesse fazer o trabalho dela durante aquela tarde, mas não podia negar que tinha sido bem mais divertido, mesmo que mais demorado, por estar explicando e mostrando os itens para ele. acabou percebendo que ela tinha razão, quando foi para um novo cômodo foi mais fácil por já saber o que procurar e ao final do expediente dela, eles tinham feito o checklist completo de três andares.

— Obrigada pela ajuda. — Foi sincera enquanto guardava os documentos preenchidos em uma pasta. — Vou ficar lembrando dos seus comentários quando estiver fazendo a vistoria das outras unidades.
— Foi legal, mas realmente não acho que conseguiria fazer isso em um prédio todo.
— Tudo bem, eu também não conseguiria correr. — Pegou sua mochila e trancou a sala antes de deixar a construção com ao seu lado.
— O que vai fazer agora? A gente pode ir em algum lugar comer alguma coisa… — Sugeriu de forma despretensiosa, preferindo não pensar no porquê de querer continuar na companhia dela.
— Eu adoraria, mas se importa se pedirmos algo no meu apartamento mesmo? Eu preciso tomar um banho, porque diferente de você que continua parecendo um modelo mesmo tendo passado uma tarde na obra, eu fico suja.
— Você não está suja, .
— Mas me sinto. — Confessou. — Sou assim desde sempre, entenda o sacrifício que foi ir direto do trabalho para Mônaco aquele dia.
— Tudo bem, eu te sigo até lá então. — Ela assentiu e cada um entrou no próprio carro.

— Fique à vontade! — disse ao destrancar a porta do apartamento. — Ali é a cozinha, se quiser água ou qualquer coisa, aqui tem um banheiro. — Indicou uma porta fechada. — Prometo que não demoro.
— Relaxa. Você gosta de comida chinesa? — Ela assentiu e ele pegou o celular no bolso para fazer o pedido.

Enquanto a esperava voltar, começou a andar pelo lugar. A sacada tinha uma vista bonita da cidade, com os barcos no cais. No móvel abaixo da tv, ele viu alguns porta-retratos e se abaixou para ver melhor as fotos. Ela com a melhor amiga na praia, uma da formatura, com o diploma em mãos, com os pais no aniversário de casamento deles e uma dela num estádio de futebol, vestindo uma camiseta da seleção exatamente como a dele, com o mesmo número 10.

— E aí? O que tem de tão interessante para você estar agachado todo esse tempo? — Ele voltou a ficar de pé, com a foto nas mãos.
— Você realmente gosta de futebol? — A expressão de surpresa nítida no rosto dele
— Uau, você é o primeiro cara que não me pergunta isso em tom de dúvida ou deboche.
— Tá brincando! — Ela negou.
— Aparentemente ser engenheira ainda é aceitável, mas gostar de futebol passa dos limites. Isso quando não acham que você fala que gosta só porque acha algum jogador bonito. — Rolou os olhos e se sentou no sofá.
— Bom, ainda bem que você está andando mais comigo, porque eu não sou babaca assim. — Se sentou ao lado dela.
— Ah tá, príncipe do cavalo branco. — Riu com o tom irônico.
— Ah, até que eu fui um príncipe sim no casamento. Sua mãe já estava quase implorando para a gente namorar e isso porque ela nem viu a gente se beijando. — arregalou os olhos, não esperava que ele tocasse no assunto e ele mesmo não pretendia ter falado aquilo. — Mas… Você não é torcedora do Lyon, é? — Perguntou, quebrando o silêncio constrangedor que tinha se instalado.
— Claro que não! Só precisei ver um jogo do PSG para saber que era aquele meu time. — Respondeu sem a menor intenção de tocar no assunto anterior.
— Que alívio! — Os dois riram, ainda um pouco sem graça. — Nós precisamos ir a um jogo então.
— Acho lindo como tudo é fácil pra você, pode ser do outro lado do planeta e você acha tranquilo ir.
— Força do hábito. — Justificou e foram interrompidos pelo interfone. liberou a entrada do entregador e com a ajuda de levaram algumas coisas para a mesinha de centro da sala.
— Prefere comer na mesa de jantar? Estou tão acostumada a ficar aqui no sofá ou no tapete.
— E eu achando que sentar na calçada da minha casa tinha sido novidade. — Ela riu por lembrar daquele dia e quanta coisa tinha mudado. — Pode ser aqui mesmo, estava bem confortável.

A campainha tocou em seguida e ela levou as embalagens para a sala.

— Você chamou mais gente? Olha quanta comida, !
— Eu não sabia do que você gostava. — Deu de ombros. — Mas voltando a um assunto mais importante, você nunca pensou porque eu corro com o número dez?
, eu nem sabia que número você era até ir para Mônaco aquele dia. — Ela confessou, rindo sem nada de culpa. — Mas agora deduzo que seja por causa do futebol.
— Sim, por causa do Zidane. — Abriu uma das caixinhas com rolinhos primavera e pegou. — Eu nunca ia imaginar que a gente teria isso em comum. E você nem falou nada! — A acusou. — Eu passei o dia com essa camisa.
— Eu não achei que era importante. — Deu de ombros. — Ah, que camisa legal, eu tenho uma também. — Afinou a voz.
— Falando assim, realmente. — Riu da interpretação dela mesma. — Mas nós iremos a um jogo.
— Combinado.
— O que me lembra que eu queria te falar uma coisa. — Tocou no assunto que tinha enrolado o dia todo e ela passou o olho da caixinha de yakisoba para o rosto dele. — Vai ter uma festa da RBR na semana que vem, vai ser em Le Castellet mesmo. Estava pensando se você gostaria de ir comigo, já que você conheceu o pessoal, conhece o e ele vai levar a Eloise.
— Quando é? — Perguntou na intenção de enrolar para dar uma resposta.
— Na quarta.
— Festa em plena quarta-feira? — Ele assentiu. — Vocês são muito estranhos.
— Porque quinta recomeça tudo de novo, reconhecimento de pista, depois treinos… mas eu volto para dormir aqui, e não precisamos ficar até tarde na festa. Eu sei que você precisa trabalhar. — sentia como se ele já tivesse pensado em tudo.
— Então acho que posso quebrar o seu galho, .
— E ela voltou com o sobrenome. — Respirou fundo, fingindo desgosto, o que só aumentou o sorriso dela.

Depois de comerem, a ajudou a tirar e limpar as coisas e aproveitou para se despedir e voltar para casa. Pyry provavelmente exigiria o dobro dele no treinamento do dia seguinte e ele precisava descansar, assim como ela também precisava. o acompanhou até a garagem do prédio, pois ele tinha estacionado na outra vaga dela. Se abraçaram antes de ele entrar no carro e sair.
realmente tinha feito o que ela sempre condenara nas amigas, ela tinha afastado as pessoas enquanto estava namorando Thierry. Apenas tinha permanecido em seu círculo de amigos e ela estava satisfeita por poder contar com também.

Nota da autora: Tivemos provocando , tivemos visita surpresa no trabalho dela e um jantar inesperado com leve climão ao tocar no assunto do beijo! Qual foi a sua parte preferida? Me contem nos comentários!
E me contem também quais as expectativas para o próximo capítulo com essa festa e a corrida na França!
Beijinhos e até mais!

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Cinq

— Oi, Mée! — Amélia abraçou a amiga.
— Nem acredito que vocês me ouviram, não marcaram compromisso e estão arrumados exatamente como eu pedi! Que orgulho! — Fingiu enxugar uma lágrima enquanto o casal a encarava ainda sem saber o que estava acontecendo.
— Você foi bem insistente nisso, então me diga logo o que é que você está aprontando porque sabe que eu sou curiosa.
— Eu vou levar vocês para a corrida deste final de semana! — Contou feliz, mostrando as três credenciais em suas mãos.
— Nós vamos para La Castellet? — Leon arregalou os olhos pegando tudo da mão de Aimée e vendo que eram reais.
— Vamos sim, porque eu sou uma madrinha de casamento muito fantástica. — Se gabou e Leon a abraçou, tirando-a do chão.
— Eu te amo, Aimée. Você sabe disso, não é? — A soltou e ela concordou com a cabeça.
— Até agora não vi o que eu ganho com isso.
— A minha belíssima companhia e também precisa ir para controlar seu marido caso ele dê um ataque de fã. — Ela pontuou e ele fez uma careta.
— Você de bom humor e indo ver uma corrida, realmente o piloto opera milagres. — Amélie zoou a amiga.
— Vamos logo ou vamos nos atrasar. — Leon as chamou já com as chaves do carro na mão.
— Vamos no meu, você vai estar emocionado demais para voltar dirigindo. — Aimée balançou a própria chave na mão.
— Você está provavelmente certa.

O trajeto de quarenta e cinco minutos até o Circuito de Paul Ricard não teve um minuto de silêncio. O casal tinha bastante coisa para contar sobre a Grécia e a lua de mel e Aimée preferiu não os interromper, preferia não ser o centro da conversa, pelo menos na presença de Leon.
Entraram no autódromo e Leon parecia uma criança fascinada, pois as duas vezes que tinha ido a um Grande Prêmio tinha sido como uma pessoa pagante comum que fica longe e precisa de binóculos para enxergar, de acordo com as palavras dele.

— Olha só quem temos por aqui. — Max os cumprimentou da garagem da RBR.
— Isso é mesmo real. — Leon parecia estar sonhando vendo cada canto do lugar e os três acabaram rindo.
— Apreciem o show. — Max deu uma piscadinha convencida e pegou o capacete que estava na bancada. — Ah, Aimée. — A engenheira o olhou. — Bem legal você ter vindo, quase nenhuma namorada costuma assistir à qualificação presencialmente. — O sorriso zombeteiro no rosto dele a fez negar.
— É por isso mesmo que estou aqui, não sou namorada de ninguém. — Ele riu alto e deu as costas aos três, indo se concentrar nos minutos finais antes de começar o Q1.
— Seu namorado está vindo aí. — Amélie sussurrou e Aimée estava prestes a dar uma má resposta quando seus olhos pararam em Pierre, que ainda não as tinha visto, e vinha na direção de seu carro com o macacão vestido só até a cintura. — Quer um babador? — Voltou a sussurrar e Aimée fechou a boca, engolindo em seco e causando uma risada na amiga.
— Que bom que vieram, não tinha visto vocês aí! — Pierre as cumprimentou, notando Leon em seguida mais afastado. — Já preciso ir. — Apontou para o carro.
— Obrigada pelas credenciais. — Amélie agradeceu.
— Boa sorte! — Aimée desejou e ele sorriu para ela, colocando a balaclava e o capacete em seguida e entrando no carro.

Deixaram que Leon escolhesse de onde veriam a qualificação e Aimée se sentiu aliviada por terem saído da garagem. Ele logo começou a conversar com outros homens que estavam por perto e Amélie aproveitou para conversar sobre o que ela estava se segurando, o que realmente estava rolando entre a amiga e o piloto.

— Não tem nada pra me contar? — Aimée a encarou esperando uma pista do que ela estava se referindo. — Sobre vocês dois. — Esclareceu.
— Não tem nós dois, Ame!
— Amiga, eu não sou cega, você estava secando o Pierre ali na frente de todo mundo e eu achei realmente que você ia babar.
— Palhaça! — Aimée a empurrou com o ombro. — Eu só não estava preparada, eu nunca imaginei que um macacão na cintura seria sexy, ok? — Se defendeu.
— Então você acha o Pierre sexy? — Aimée voltou a abrir a boca, mas de incredulidade.
— Para de tirar palavras não ditas da minha boca, Ame! Você entendeu o que eu quis dizer.
— Sim, que você o achou sexy. Sabe, não tem nada demais em assumir que você está achando-o interessante.
— Não preciso assumir nada se você já tem suas próprias conclusões.
— Eu tenho que tirar minhas conclusões porque você não me conta as coisas, Aimée! Eu soube que você ia com ele a uma festa? Não! Tive que saber pela internet com fotos lindíssimas de vocês dois juntos.
— Ah, não! Você também com isso? — Suspirou e fez uma cara derrotada. — Eu não aguento mais minha mãe falando sobre essas fotos.
— Não posso tirar a razão dela. E olha que eu achei vocês dois maravilhosos no meu casamento, mas aquelas fotos estão fantásticas e vocês se portaram como um casal nelas. Não podem esperar que quem viu pense diferente.
— Eu sei. — Respondeu contrariada. — Mas não aconteceu nada, eu teria contado se tivesse.
— Nem um beijinho? — Aimée negou.
— Não, Ame! — Riu da insistência dela. — Nós fomos e voltamos como amigos. E foi divertido assim, por favor, aceite e pare de criar teorias. E vamos prestar atenção que já começou.

🔸🔹
Pierre fechou a porta de casa com mais força do que era necessário e atraiu todos os olhares para si. Quando a última coisa que queria era público, sua família inteira estava reunida na sala de estar. Balançou a cabeça e subiu as escadas de dois em dois degraus, sem proferir uma palavra sequer. Fechou a porta do quarto com força também, estava extremamente frustrado e seria capaz de socar alguma coisa se não precisasse de sua mão para pilotar.
Entrou no chuveiro e deixou a água cair, na esperança de aliviar parte daqueles sentimentos negativos que o consumiam. Mas, assim como tinha sido durante todo o caminho de Le Castellet até a sua casa, ele só conseguia repassar a qualificação e a reunião com a equipe depois. Estava cansado de não conseguir melhores resultados mesmo treinando tanto e dando o seu melhor dia após dia. Estava cansado de não conseguir ter um bom desempenho no carro da RBR e principalmente de ser comparado com Max a cada cinco minutos.
Tinha chegado a ficar em oitavo, mas terminou o Q1 em décimo primeiro. Apesar de melhorar o seu tempo na segunda parte do treino classificatório, terminou em décimo, com a diferença para Albon de apenas quatro centésimos de segundo. Na última parte só tinha superado Giovinazzi, que no fundo não significava nada. Largaria em nono enquanto Max tinha alcançado o quarto melhor tempo.
A reunião com a equipe depois não tinha ajudado em nada a melhorar seu humor. Queriam saber o que não estava funcionando para ele, mas ele não sabia, se soubesse ele mesmo solucionaria o problema. Mas no momento ele não tinha confiança na estratégia adotada, não tinha confiança que seria capaz de terminar em uma posição melhor e aquela corrida era justamente na França, ele queria ser motivo de orgulho para o país, mas tudo só parecia se distanciar cada vez mais de suas mãos.

Ouviu batidas na porta e colocou um dos travesseiros no rosto, não queria conversar com ninguém naquele momento. Mesmo assim ouviu a porta se abrindo e pouco tempo depois o colchão afundando.

— Foi tão ruim assim? — Philippe começou o assunto.
— Foi horrível, vocês não viram? — O travesseiro abafou a resposta e o irmão mais velho o puxou do rosto do mais novo.
— Nós vimos, mas para nós nunca é horrível, Pierre. Todos nós temos muito orgulho de você e ver você entrando assim em casa parte o coração de todos nós.
— Eu não achei que todos vocês estariam aqui. — Confessou puxando o travesseiro de volta.
— Esse não é o foco. Parece que você não lembra mais porque corre, Pierre. Há quanto tempo não vemos um sorriso sincero seu em relação a isso? — Sentia um peso ainda maior nos ombros ao ouvir aquilo.
— É muito frustrante tudo isso, toda essa expectativa que não consigo atingir. — Sentou-se ao lado de Philippe e apoiou a cabeça nas mãos.
— Então crie expectativas que você possa alcançar. Até porque a expectativa mais próxima de se concretizar no andar de baixo é o seu casamento com Aimée. — O mais velho riu enquanto Pierre resmungou um “ah não!”.
— Por que raios a dona Pascal resolveu usar o Instagram justamente depois da festa? — Fez a pergunta retórica.
— Acho que a pergunta mais prudente seria o que Aimée estava fazendo com você num evento da RBR. Vocês não estão realmente juntos, estão? — Naquele momento Philippe considerou que talvez a mãe não estivesse tão errada sobre os dois.
— Não, Phil. Eu a acompanhei em um casamento e ela me acompanhou nesse evento, só isso.
— Mas o pai disse que ela vai na corrida amanhã e todo mundo sabe que a Aimée odeia F1.
— O casal de amigos dela gosta bastante e ela vai acompanhá-los. — Mentiu.
— Sei… — Philippe riu fraco.
— Ah, já me basta o Charles insinuando que eu talvez goste dela de uma forma diferente e me deixando com a pulga atrás da orelha, você não precisa falar isso também. — O empurrou para fora da cama.
— Você viu as fotos, não viu? — Pierre confirmou com a cabeça. — Deixou todos nós com a pulga atrás da orelha. Não dava para olhar aquelas fotos e não pensar que tem algo entre vocês, mas se você diz que não tem nada rolando.
— Não tem, é sério. Nos tornamos amigos, apenas isso. A sociedade precisa aceitar que amizade entre homem e mulher existe.
— Aham. Agora levanta daí e vai falar com as suas sobrinhas porque elas só falavam de você até você chegar.
— Tá bom, mas não deixa a mãe falar de novo sobre essas fotos, por favor.
— Meio difícil, o assunto dela com Cécile foi esse o dia todo. — Pierre coçou a cabeça.
— Pelo menos ela não vai amanhã, seria realmente bastante constrangedor.
— Nunca subestime o poder de constrangimento de uma mãe, Pierre. Ou de um pai. O pai vai amanhã, não vai?
— O nosso e o dela. — Pierre confirmou enquanto deixavam o quarto.
— Boa sorte, então! — Philippe riu e desceu as escadas na frente.

🔸🔹
— Olha só, a minha norinha chegou. — Jean-Jaques acenou com a mão e Aimée arregalou os olhos, desviando o olhar para o pai.
— Eu não tenho nada a ver com isso, querida. — Yohan levantou as mãos.
— Realmente adoraria se vocês fossem um casal. — O mais velho continuou a Aimée sorriu sem graça enquanto os cumprimentava.
— Pai, para com isso. — Foi Philippe quem cortou o homem e ela sorriu agradecida.
— Esses são meus amigos, Amélie e Leon. — Apresentou mudando o assunto e todos se cumprimentaram.
— Não sabia que o pai do Pierre estava nessa torcida também. — Amélie falou baixo, apenas para a amiga ouvir.
— Estou dando graças a Deus por ter vindo de carona com vocês e não com eles. — Devolveu no mesmo tom.

Aimée queria ter visto Pierre para desejar uma boa corrida, mas a garagem da RBR estava cheia demais e sabendo que ela não seria ela mesma com tanta plateia, seguiu Leon e Amélie para outro lugar como no dia anterior.
A corrida havia durado quase uma hora e meia e tinha sido bem chata para Aimée. Se aquela fosse a sua primeira, provavelmente não teria existido uma segunda. Praticamente a mesma ordem desde a primeira volta até o final, nada emocionante. Hamilton, seguido de Bottas, seguido de Leclerc formavam o pódio daquele domingo.
Verstappen tinha se mantido em quarto, mesmo reclamando que o carro não entregava potência imediatamente após a aceleração nas saídas das curvas. Vettel tinha ultrapassado os dois carros laranja sem muita dificuldade e ocupado o quinto lugar por quase toda a prova. E Gasly continuava em nono, exatamente como no dia anterior.
Ouvir que ele não tinha ritmo a deixara angustiada, principalmente com o carro de trás cada vez mais perto do dele. Uma volta depois de o carro amarelo parar nos boxes, Pierre também fez sua parada, e apesar de voltar em nono, logo foi ultrapassado. Com outros dois carros fazendo suas paradas, houve a esperança de que Pierre conseguisse melhorar a posição, mas ambos voltaram na frente dele e ele caíra para décimo primeiro.
— Não quero mais ver. — Aimée declarou derrotada, tapando os olhos com as mãos.
— Se você está achando isso, imagina ele. — Amélie comentou e Aimée sentiu o coração apertar.
— A situação não está mesmo boa para ele. — Leon entrou no assunto. — Enquanto o Max está fora do pódio por pouco ele nem está pontuando.
— Posso voltar a dizer que odeio corridas? — Perguntou fazendo o casal rir.
— Se o Pierre estivesse ganhando aposto que não estaria odiando. — Amélie pontuou.
— Claro que não! — A engenheira concordou.

— P11, Gasly. P11. — Foi informado pelo rádio, mas não respondeu. — Ricciardo vai ser investigado pelo que fez nessa última volta, dependendo da punição você ainda pode pontuar.
— Obrigado, pessoal.

A punição tinha se concretizado para o australiano e com duas punições de cinco segundos, ele foi para o décimo primeiro lugar, empurrando Gasly para décimo e marcando um ponto por aquela corrida.

Aimée não sabia nem mesmo se Pierre gostaria de falar com ela, mas tinha decidido que ficaria ali e esperaria por ele. Disse a Amélie que ela podia seguir com Leon e que ela voltaria com o pai e o padrinho, mas fez o mesmo com eles, ficando para trás em La Castellet.
Viu alguns pilotos aproximando para a área de entrevistas e ficou por perto, na intenção que ele a visse ali. Estava distraída com a fala de Vettel quando reconheceu a voz de Pierre com outra repórter.

— Foi um dia longo e difícil. Estou decepcionado, principalmente porque foi aqui na França. Desde a classificação sofri com a aderência e foi o mesmo na corrida. Ainda não tenho resposta, mas estou certo de que analisaremos tudo para compreender exatamente porque nos faltou ritmo. Realmente nunca me senti assim com o carro e como a Áustria já vem na próxima semana temos que trabalhar rapidamente para arrumar tudo. — Finalizou a declaração e saiu cabisbaixo.

Aimée não sabia quanto tempo tinha esperado ali no estacionamento até que Pierre apareceu e dessa vez ele a viu.

— Aimée? — Sua feição, até então séria. se alterou para surpresa. — O que está fazendo aí? Achei que tinha ido embora. — Ela deu um meio sorriso, estava triste por ele.
— Algo me disse que você estaria com raiva e achei que não deveria te deixar dirigir nessas condições. — Disse estendendo a mão para ele, mas ele não entregou a chave.
— Acho que deveria sim. — Riu irônico. — Max dirige com raiva o tempo todo e funciona perfeitamente bem. — Aimée negou com a cabeça, não tinha achado graça realmente.
— Você nem percebe o que está fazendo, não é mesmo? — Pierre endireitou a postura. — Você se compara a ele a cada segundo, até quando não está lá dentro. — Apontou para o autódromo. — Deixa o Max pra lá, Pierre. Ele é ele e você é você. Dirigir com raiva não vai te fazer um piloto melhor. É se comparar tanto e o tempo todo que está te puxando para baixo e você nem percebe. — Ele desviou o olhar do dela. — Não estou falando isso para te magoar. Essa é a terceira corrida que estou assistindo e posso estar completamente errada, mas para mim você precisa apenas ser melhor que você mesmo a cada dia. — Ele assentiu fraco.
— Podemos… não falar disso agora. — O tom de voz dele era baixo e foi a vez de Aimée assentir.
— Mas você ainda não vai voltar dirigindo. — Voltou a estender a mão, esperando pelas chaves. — Ou vai me dizer que tem ciúme demais do carro para deixar uma mulher dirigir? Ou acha que eu vou estragá-lo? — Cruzou os braços o desafiando e ele negou.
— Meu medo é que você dirija melhor, aí sim vou me sentir totalmente fracassado. — Aimée riu alto.
— Agradeço a fé que você tem em mim como motorista, mas pode ficar tranquilo, tenho plena consciência de que não dirijo tão bem quanto você, quem dirá melhor. — Falou convicta. — Agora me dê as chaves.

Pierre as entregou e Aimée rapidamente se ajeitou no lugar do motorista enquanto ele dava a volta no carro e entrava no lugar do passageiro no Honda NSX. Era acostumada com câmbio automático, mas nunca tinha dirigido um carro esportivo antes. Começou com cautela, não queria causar nenhum acidente, um conserto em um carro daqueles devia custar um ano inteiro do seu salário.
À medida que ia acostumando com o carro, curtia ainda mais a sensação de dirigi-lo. Pierre estava se divertindo com as reações dela e aos poucos sentiu a negatividade diminuir, até respirar parecia mais fácil. Não sabia quais os motivos reais de Aimée ter ficado para trás, mas era grato por tê-lo feito ocupar a cabeça com outras coisas mais uma vez.

🔸🔹
Uma semana depois Aimée tinha ido almoçar na casa dos pais, já tinha um tempo desde que ela passava um dia todo com eles, apenas os três. Tinha passado no restaurante preferido de Mabelle e tinha sido uma refeição agradável, em que Yohan contou de como o kartódromo estava com uma nova e promissora geração de pilotos e Aimée contou como as coisas estavam fluindo em seu trabalho e que a festa de entrega já tinha sido previamente marcada para agosto.
Mabelle se mantinha por fora desses assuntos e vez ou outra os interrompia para contar alguma notícia ou fofoca dos vizinhos ou de suas amigas nos seus encontros semanais. Aimée tinha até se surpreendido por Mabelle não ter tocado no nome de Pascal ou de Pierre até então, mas ter sua vida amorosa de fora da conversa era bastante agradável.
Aimée obrigou os pais a irem para a sala descansar enquanto ela retirava a mesa e cuidava da louça, já que não tinha muita coisa. Quando terminou foi para a sala, encontrou seu pai com um livro e Mabelle não estava no sofá.

— Onde a mamãe está? — Perguntou se sentando ao lado do pai e alcançando o controle da televisão.
— Foi deitar um pouco, ela tem se cansado com muita facilidade. — Yohan fechou o livro. — Já tentei fazer com que ela vá ao médico, mas ela insiste que não tem nada acontecendo. — Respirou fundo.
— Vou conversar com ela depois, nem que tenha que levá-la até o consultório. — O pai riu. — Ela está sentindo alguma coisa?
— Que eu saiba, só tem reclamado de cansaço. — Ela assentiu, sabia que sua mãe esconderia qualquer problema com si mesma até o último segundo.
— E o que você vai fazer agora? — Pegou o livro que o pai lia. — Quer assistir à corrida comigo? — Ofereceu com um sorriso e o sorriso no rosto do pai se alargou.
— Precisei esperar vinte e cinco anos para esse momento. Acho que estou emocionado. — Levou a mão ao coração teatralmente e Aimée riu, ligando a televisão em seguida.
— Não vai se acostumando, pode ser a última se for o mesmo fiasco da semana passada. — Fez uma careta.
— Isso acontece até com o seu futebol e você sabe. — Ela concordou vendo o grid de largada na tela.
— Uau, que milagre é esse que outra pessoa vai largar em primeiro e não o Hamilton? — Yohan a olhou com um sorriso de canto.
— A quanto tempo você está assistindo corridas? Não me venha com semana passada. — Aimée mordeu o lado interno da boca, tinha se entregado.
— Há pouco tempo, pai. — Ela o olhou, mas ele continuava com a expressão de quem não acreditava totalmente nela. — Pierre vai largar em oitavo? — Era uma pergunta retórica.
— Ele realmente não está fazendo uma boa temporada com a RBR.
— Mas ele é realmente um bom piloto, pai? — Ela cruzou as pernas em cima do sofá e se virou para ele. — Digo, você o acompanhou desde criança no kart.
— Aimée, ninguém chega a ocupar um dos únicos vinte assentos da Fórmula 1 sem ser realmente um bom piloto. — Ela continuou olhando esperando a resposta da pergunta dela. — Ele é sim um bom piloto, mas às vezes isso não basta. Tem uma infinidade de variáveis.
— Esse Max é realmente melhor que ele? — Ela continuou com as perguntas e Yohan estava verdadeiramente feliz em ter aquele momento com a filha.
— Nesse carro sim. — Percebendo que não era o que a filha queria ouvir, continuou. — Mas ele ainda vai ter muitas oportunidades, pelo menos mais dez anos pela frente e ele pode conquistar muita coisa.
— Espero que sim. — Voltou a olhar para a televisão, esperando a largada.
— Já começou melhor que a passada. — Yohan comentou ao ver Norris ultrapassando Hamilton na largada.
— Durou dois segundos. — Ela riu, vendo Hamilton recuperar a posição. — Mas isso sim é bom! Max caiu para sétimo! — Aimée comemorou. — Eu sei que ele provavelmente vai subir de novo. — Completou ao olhar para o pai.

Na volta sete as posições já eram outras, Verstappen ocupava a sexta posição e Vettel que tinha largado em nono assumia a quarta posição. Leclerc continuava liderando e Aimée estava secretamente torcendo para que ele segurasse até o final, já que não acreditava numa melhora significativa de Pierre.

— Ai, eu fico toda confusa com essas paradas, sempre me iludo que vai melhorar e parece que sempre voltam pior. — Aimée não gostava de ver os nomes descendo na lista e agora Vettel estava em oitavo e Leclerc em terceiro.
— É que você precisa considerar que o Max e o Hamilton ainda não pararam. — Explicou o que ela sabia. — Então Leclerc deve assumir a liderança novamente quando eles pararem.
— Pai, é sofrimento demais assistir. Está na metade da prova e o Pierre conseguiu cair ainda mais. Isso é frustrante demais.
— Em trinta voltas pode acontecer tanta coisa, filha. — Nesse instante tanto Hamilton quanto Verstappen fizeram as suas paradas e com a troca da asa dianteira do primeiro, retornaram, respectivamente em quinto e quarto. — Viu só.
— Não o deixa passar, Vettel! Segura ele aí! — Aimée riu do próprio desespero com Max se aproximando de Vettel, que estava em terceiro.
— Vai passar na próxima. — Yohan constatou e foi o que aconteceu.
— Pai! — Aimée o empurrou fraco.
— Não tinha nada que o alemão pudesse fazer. — Se justificou.
— Ah, mas não é possível! Deixou-o passar de graça! — Aimée voltou a reclamar seis voltas depois, quando Max ultrapassava Bottas. — Leclerc, se você não segurar esse carro eu juro que nunca mais torço para você. — Falou séria para a televisão e Yohan voltou a rir.
— Meus domingos teriam sido mais divertidos se você assistisse corridas desde antes.
— Pai, foco aqui! Olha isso! — Aimée estava em pé, inconformada de que Max poderia mesmo levar o primeiro lugar.

Max ultrapassou Leclerc, Leclerc devolveu. Faltando apenas três voltas para o final os carros seguiam lado a lado, chegando a se tocar. Max acabou levando a melhor e ocupando o lugar mais alto no pódio, seguido por Leclerc e Bottas. Pierre foi apenas o sétimo.

— Acho que isso significa que você vai assistir mais corridas comigo. — Yohan sorriu, mas Aimée estava visivelmente chateada. — Você disse que tinha que ser melhor que a passada e isso foi.
— Eu sei. — Voltou a se sentar ao lado do pai e encostou a cabeça no ombro dele. — Eu só queria que o Pierre conseguisse resultados melhores, parece que ele não confia mais nele, sabe.
— Todo mundo tem fases, Aimée. O Pierre tem a cabeça no lugar, se ele está numa fase ruim, ele vai encontrar um jeito de melhorar.
— Espero que tenha razão. — Yohan sorriu e fez um carinho na cabeça da filha.
— E quando vai me contar o que está acontecendo entre vocês? — Aimée endireitou a postura e arregalou os olhos.
— Até você, pai! — Exagerou no drama. — Não tem nada acontecendo, a gente só tem se conhecido melhor e feito favores um para o outro.
— Eu te conheço o suficiente para saber que quando as pessoas falam demais sobre você, você exclui todas as possibilidades de se tornar verdade. — Aimée ficou em silêncio. — Só não quero que deixe de viver algo que pode ser bom com ele porque sua mãe e sua madrinha não param de falar sobre isso.

Aimée voltou a encostar a cabeça no ombro dele. Amava o fato de ele nunca esperar uma resposta se ela não quisesse falar. Ela nunca havia sido aberta em relação aos seus sentimentos com os pais, até com a melhor amiga não era algo muito fácil. Mesmo assim, se surpreendia com a capacidade do pai em conhece-la tão bem.

Nota da autora: Olá! Espero que não estejam me odiando por não ter uma cena com a festa da RBR! Hahahaha
Eu realmente tinha a intenção de fazer essa cena, ela estava no planejamento, mas então percebi o quanto seria repetitiva por já ter feito o casamento e acabei mudando um pouco os planos.
Ainda assim tivemos outros acontecimentos relevantes para o que virá por aí.
Não se esqueçam de comentar e me contar o que acharam do capítulo e o que esperam dos próximos! A interação de vocês é muito importante pra mim!
Beijinhos e até a próxima atualização!

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