Retrouvailles

Retrouvailles

Sinopse: “Retrouvailles é uma expressão francesa que significa “a felicidade do reencontro após um longo período de tempo”. E, depois de dez anos, a única coisa que os dois sentem é felicidade por, finalmente, estarem juntos de novo…
Gênero: Comédia Romântica
Classificação: 16 anos. Uso de palavras de baixo calão e consumo de drogas lícitas e ilícitas
Restrição: Foi escrita originalmente com o jogador Eden Hazard, então todos os nomes dos jogadores do Chelsea na temporada 2018/2019 serão citados, além de alguns dos jogadores da seleção belga, então dê preferência para ele ou para outro jogador que não faça parte de nenhum dos times.
Betas: Regina

Capítulos:

Prologue

Retrouvailles (s.f.), do francês: a felicidade do reencontro após um longo período de tempo.

Un

“Querida ,
Eu não sei como fazer isso sem parecer um idiota sem coração, mas não sei se consigo falar tudo que preciso e da forma como preciso, então prefiro escrever. Sei que um dia você vai me entender (ou não) e talvez possa me perdoar por isso.
Nós acontecemos um na vida do outro de forma certa, mas no momento errado, pois somos imaturos demais para lidar com isso da forma certa. Não falta amor, mas falta maturidade.
Então, eu quero te propor algo, vai parecer a coisa mais louca do mundo, mas nesse momento faz muito sentido na minha cabeça: em dez anos, no dia quinze de setembro de dois mil e dezoito, seja lá onde eu estiver ou onde você estiver, a gente vai se encontrar e conversar sobre tudo isso.
Pelo tamanho e intensidade do amor que eu sinto por você, sei que será muito difícil que isso mude, mesmo daqui um milhão de anos, mas, mesmo sabendo disso, em dez anos muita coisa pode acontecer. Poderemos estar casados (entre nós ou com outras pessoas), ter filhos, estarmos ricos ou muito pobres, talvez até mesmo mortos.
Eu sei que parece uma ideia muito idiota, que deveríamos fazer isso agora, mas não acho que a gente tenha maturidade suficiente para fazer isso dar certo nesse momento, não vamos saber conversar e isso só vai deixar tudo muito pior do que já está.
Nos encontraremos nesse dia e vamos conversar de forma adulta e madura, ver se ainda vamos nos amar da mesma forma, se o carinho ainda será o mesmo e se há alguma chance de fazermos isso dar certo de verdade, se amadurecemos o suficiente para ficarmos juntos de novo ou não.
Eu tenho uma ideia do que quero para o meu futuro e você tem a sua, mas as duas ideias não batem e não têm como caminharem juntas sem que a gente se magoe e destrua o amor que sentimos.
Como não faço ideia de onde estarei, nos encontraremos no seu lugar favorito de Paris (o que é favorito agora, se mudar, você vai ter que dar um jeito de me avisar) às cinco e meia da tarde. Não sei se você vai, mas eu estarei te esperando.
Obrigado por tudo, eu amo você e eu sempre vou te amar.”

Eu guardava aquela carta há nove anos, onze meses e vinte e nove dias. Quase 120 meses. 520 semanas. 3.651 dias. 87.624 horas, 5.257.440 minutos e 315.446.400 segundos depois de tê-la recebido. Bom, algumas horas, minutos e segundos a mais, se considerarmos o horário do recebimento, mas deu para entender o que eu quis dizer: é muito tempo.
Em dez anos, eu nunca estive tão nervosa quanto estou agora, dia quatorze de setembro de dois mil e dezoito. Um dia antes do encontro que está marcado desde dois mil e oito.
Em dez anos muita coisa mudou, realmente.
Eu fiz vinte e seis anos, ele fez vinte e sete. Eu deixei de ser a adolescente louca e irresponsável que era e que só pensava em sair com meus amigos para beber, fumar, e me tornei uma adulta responsável, que ainda sai com os amigos para beber e fumar, mas sem precisar passar a noite fora de casa como se o mundo fosse acabar na manhã seguinte e eu precisasse beber tudo que eu encontrasse pela frente.
Eu nunca entendi como foi que nós dois nos tornamos namorados, não tínhamos quase nada em comum. Nos conhecemos ainda na escola, e ele sempre foi muito certinho, um “menino cheio de nove horas”, como minha mãe costumava chamá-lo naquela época. Sei que, de uma forma muito estranha, nós nos entendemos, namoramos e tudo acabou.
Apesar de ele ser mais velho que eu, nós tínhamos uma aula juntos no ano letivo de 2006/2007, literatura francesa, ele era esforçado, apesar de não ser um dos mais inteligentes da turma, eu tampouco era. Nós não nos falávamos, ele tinha os amigos dele, eu tinha os meus e era assim que as coisas funcionavam.
Até que um dia, uma amiga minha disse que queria ficar com uma amiga dele, mas essa amiga dele disse que só ficaria com a minha amiga, se eu ficasse com ele também. Confuso, eu sei, mas foi o que aconteceu, para ajudar minha amiga a ficar com a amiga dele, eu aceitei ficar com ele. Ponto. Achei que seria apenas isso, mas nós começamos a conversar, saímos algumas vezes sozinhos, ficamos outras vezes e nos tornamos um casal.
Ele estava começando sua carreira como jogador de futebol, então evitava todas as coisas que eu fazia: sair tarde da noite para encher a cara, fumar, fazer bagunça e infringir a lei de todas as formas que uma adolescente de quinze anos podia fazer. Ele tinha potencial para conseguir se tornar um grande jogador conhecido mundialmente.
E, bom, ele se tornou.
Para a seleção, ele é uma espécie de divindade, em seu time atual ele é ídolo incontestável de todos os torcedores e, além disso, todos os times do mundo querem a chance de dar a ele uma camisa com seu escudo, o nome “” estampado nas costas junto com o número 10.
Dez.
Há onze anos e meio atrás, quando nossa história começou, em Lille, eu era a namorada de , um ser humano sempre muito agradável de se estar por perto, atencioso, engraçado, responsável, muito divertido e lindo. Irresistivelmente lindo. Dono daqueles olhos azuis lindos, de um sorriso arteiro e sempre muito animado, de uma alegria contagiante, de um abraço apertado delicioso e confortável, de um beijo maravilhoso…
era a luz que eu precisava, enquanto me enfiava no que eu julgava ser “a rebeldia normal de uma adolescente”. Muito do que eu fazia, realmente, era comportamento de adolescente, mas muitas coisas passavam do limite do aceitável, e estava lá para me aconselhar e me mostrar que eu estava seguindo o caminho errado.
Não que eu aceitasse bem as sugestões, brigamos muitas vezes por suas “intromissões”, mas no fundo eu sabia que ele estava certo e eu só fui entender que ele estava fazendo isso pelo meu bem, quando eu o perdi, quando tudo entre nós dois acabou.
Mas nunca faltou amor. Nunca.
Nesses dez anos separados – ainda que ele tenha continuado a morar aqui em Lille por mais quatro anos antes de se transferir para o Chelsea e mudar de vez para Londres – eu sempre o amei, amadureci aquela loucura de adolescente e me tornei algo que jamais pensei que me tornaria: advogada.
Aos quinze anos eu pensava que teria uma banda com alguns amigos e achava que ficaria absurdamente rica, viajaria o mundo, teria uma multidão de fãs que matariam e morreriam por mim, acreditava que eu poderia beber muito e o tempo todo e todas aquelas coisas estúpidas que qualquer adolescente que seja no mínimo tapado, idiota e egoísta, já imaginou fazer. E não, não acho que ser cantora seja estúpido, tapado, idiota e egoísta, mas sim a parte de esbanjar dinheiro e ego. Agora, pois na época eu achava que tudo isso era ótimo e aceitável. E hoje vejo como isso podia ter sido um enorme problema na época em que eu namorava com ele.
era absolutamente focado, era o primeiro a chegar nos treinos e o último a sair, jogava todos os jogos como se fosse uma final de Copa do Mundo, mesmo quando ainda estava nas categorias de base do time, e estava sempre pensando em seu desempenho e em seu futuro. Na minha cabeça de adolescente irresponsável, ele era idiota, porque pensava que ele deveria apenas aproveitar o que a vida lhe oferecia. Sem limites.
Nós brigávamos muito, porque, bom, eu era um problema. Gostaria de dizer que a culpa é do meu signo, mas eu não sou de áries, leão, gêmeos ou escorpião, nasci em setembro, sou de virgem. E todas as variáveis do zodíaco – lua, ascendente, saturno etc. – são muito bons, não podem ser culpados pela minha imaturidade na época. Ele é capricorniano, isso podia ser um problema, mas obviamente não vou culpar os signos pela minha falta de noção quando eu era mais nova.
Essa carta-término veio acompanhada de um buquê de flores e um ursinho de pelúcia que eu ainda tenho. Era a forma mais possível de terminar um relacionamento. Sempre atencioso, fofo e carismático.
Passei por todas as fases do término, da tristeza ao rancor, voltando à tristeza e compreendendo o que ele quis dizer naquela carta: sempre houve e sempre haveria amor, mas faltava maturidade e insistir naquele relacionamento da forma como era, teria matado todo o sentimento, destruído todo o carinho que sempre tivemos um pelo outro e o rancor teria ficado eternamente.
Nós dois nunca mais nos vimos, não pessoalmente. Eu, que sempre amei futebol e sempre torci para o Lille e ia a todos os jogos na cidade, deixei de acompanhar o time enquanto ele esteve por aqui. Voltei a fazê-lo quando se mudou para Londres para se tornar um nome conhecido e disputado mundialmente. Não assisto a nenhum jogo dele, procuro evitar todas as notícias que envolvem seu nome, mas, claro, é impossível não ouvir uma ou outra coisa sobre ele por aqui. se tornou o fenômeno belga que faz os clubes disputarem ferrenhamente seu interesse.
Profissionalmente, sei de muita coisa sobre ele (mais do que gostaria), mas não faço ideia do que se passa em sua vida pessoal, preferi me manter longe de tudo que pudesse me levar a ter um mínimo de informação que fosse, eu não sei o quanto posso aguentar saber.
Tê-lo em solo francês na Eurocopa de 2016 foi uma tortura, principalmente quando a seleção belga jogou em Lille, eu me mantive trancada em casa nos dias em que ele estava na cidade, não aguentava mais ouvir o nome dele, tampouco podia lidar com o medo que eu tive de encontrá-lo e descobrir o que eu não queria saber. A parte boa era não terem jogado no grupo da França e que não tenham chegado à final, porque pude ver minha seleção jogar.
Ainda que eu tenha fugido dele nessa época, por diversas vezes eu tive vontade de ir a Londres para vê-lo e adiantar essa conversa, mas, ao mesmo tempo, tive medo da reação que ele teria ao me ver, se é que ainda se lembra de mim e de ter agendado uma data em seu futuro para me ver, a ex-namorada da época da escola.
Na mesma proporção em que sinto falta dele, tenho medo do que pode ter acontecido nesses dez anos, afinal, eu mudei muito, tanto externa quanto internamente. Ele também pode ter se tornado outra pessoa.
Em dez anos eu tive três namorados e, ainda que gostasse muito dos três e que nos déssemos bem, nenhum deles despertou em mim o amor que despertou. Amor verdadeiro. Amor intenso e verdadeiro, da forma mais pura e simples que podia existir e que parece coisa de filme demais para ser verdade, mas que é real e acontece, ainda que a maioria das pessoas duvide.
não era extravagante, demonstrava seu amor em pequenos gestos e de forma verdadeira. Podemos nunca mais ficar juntos, mas ele sempre será o amor da minha vida, foi ele quem me ensinou o que é amor de verdade.
Meu lugar favorito em Paris é o melhor local para se assistir ao pôr-do-sol: a Place du Trocadéro. A vista ao fim do dia é uma das coisas mais lindas do mundo e eu sempre amei a forma como o pôr-do-sol parece diferente ali. Nós dois saímos de Lille diversas vezes apenas para ver o pôr-do-sol em Paris, sentávamos num banco de concreto, comíamos croissant e macarons, tomávamos café e assistíamos àquele espetáculo de cores juntos, abraçados, exatamente como qualquer casal de filme romântico clichê.
Mas, agora, as coisas são diferentes.
Ele é um jogador mundialmente conhecido e disputado, não vai querer se sentar num banco de concreto em uma praça para ver o pôr-do-sol, ainda que seja em Paris, muito menos terá paz para fazer isso, as pessoas o conhecem e reconhecem em qualquer lugar em que ele esteja.

– Você está me ouvindo? – senti meu corpo ser sacudido de leve e acordei dos meus pensamentos, escondendo o pedaço de papel com aquela caligrafia de um garoto de dezessete anos que nunca saiu da minha memória e a quem sempre amei. – Não precisa guardar, eu já li esse papel e sei perfeitamente do que se trata.
– O que você quer, ? – perguntei, me virando para minha melhor amiga e sócia, que estava ao meu lado e me encarava.
– Já está bem tarde, podemos ir embora, não vai acontecer mais nada hoje. E é sexta-feira!
– Eu não estou te segurando aqui, você pode ir embora se quiser.
– Está, porque eu estou de carona com você.
– Ah é. – disse e suspirei, jogando a cabeça para trás e encarando o teto do escritório.
– É amanhã? – perguntou enquanto se encaminhava para sentar-se na cadeira que estava do outro lado da minha mesa e eu simplesmente murmurei um “uhum”. – E você está pensando se vale a pena ir parar em Paris sem ter certeza se ele está solteiro, se vai aparecer e se ainda é seu , se a fama não o corrompeu. E se seu lugar favorito continua sendo uma boa opção, porque ele agora é famoso e as pessoas o reconhecem no mundo inteiro, não apenas em Lille e que isso pode tirar a paz do encontro. E, principalmente, você está se perguntando se ele se lembra do compromisso marcado e se ainda se lembra de você.
– Como você sabe que eu estou pensando nisso?
– Eu te conheço há vinte e seis anos, fomos criadas juntas e somos melhores amigas desde antes de decidirmos isso por nós mesmas. E vivi dez anos te vendo amá-lo à distância e totalmente distante, sem procurar saber nada e sempre evitando todas as notícias sobre ele, bloqueou em todas as redes sociais, silenciou tudo que envolvesse as palavras “ ” e “Seleção Belga”, evita tudo sobre o Chelsea, ficou anos evitando o próprio time por causa dele e na Eurocopa quase teve um colapso nervoso nas duas vezes em que ele esteve na cidade. Já te vi chorar querendo ir até Londres para vê-lo e resolver toda essa situação antes do prazo combinado, já te vi chorar de medo de ir até lá e descobrir o que tinha acontecido com ele, se estava ou não casado, se é o mesmo de sempre e tudo mais. Não preciso que você me fale, porque eu sei bem o que está se passando na sua cabeça.
– Meu medo é ir e ele não aparecer. Ou pior, aparecer e ter se tornado um daqueles jogadores babacas que acham superiores e que por serem jogadores, podem fazer e ter tudo que quiserem. – Suspirei e ela me ofereceu seu melhor sorriso consolador.
– Não me parece o tipo de coisa que o Elfinho faria.
– Para de chamá-lo assim. Ele nunca pareceu um elfo.
– Claro que parece! Igual àqueles ajudantes do Papai Noel em filme. Ou um Oompa-Loompa, mas ele não era laranja e nem tinha o cabelo verde. Mas é a mesma coisa de um Oompa-Loompa.
– Cala a boca, . – disse sem segurar o riso.
– O ponto aqui é, , que esse não é o tipo de coisa que o faria. Não o que nós duas conhecemos.
– Se eu mudei, ele também pode ter mudado, . Ele pode muito bem achar que se sentar num banco de concreto em uma praça, comendo croissant e ver o pôr-do-sol, é coisa da ralé e não de um jogador do nível dele, já que ele pode mandar fechar a Torre Eiffel e ver tudo sozinho lá de cima sem ser incomodado.
, se ele tiver se tornado esse tipo de pessoa, o problema é só dele. Você se tornou alguém melhor, alguém que nenhum de nós imaginava que fosse se tornar, uma adulta comprometida, responsável e que possui uma carreira estável e ótima, que não pensa apenas no dinheiro e que trabalha por amar o que faz. E você amadureceu o seu sentimento por ele. Vai doer caso ele tenha se tornado um babaca? Vai, claro que vai, mas você não terá culpa nenhuma. Então, se prepare para embarcar para Paris amanhã e leve os croissants. Se ele não aparecer, come sozinha, assista ao pôr-do-sol e aproveita aquela vista maravilhosa, você merece. Se ele aparecer e for um babaca, inventa que tem namorado ou pode até me usar e dizer que, no fim das contas, nós duas não éramos apenas melhores amigas. Se ele aparecer e for o seu , aquele mesmo Elfinho de sempre, conversem e descubram se vocês se tornaram melhores um para o outro. E mande um beijo enorme para ele nesse caso.
– É… – disse e suspirei, mordendo a parte interna da bochecha.
fazia as coisas parecerem tão simples quando falava daquele jeito, mas, ainda que eu saiba que ela está sendo sincera, não posso me impedir de pensar em como as coisas nem sempre são fáceis na prática como são na teoria.
– Pare de pensar que as coisas nem sempre são tão fáceis na prática quanto na teoria, ! Amanhã é sábado e você não tem nada para fazer, porque não tem absolutamente nada para fazer aqui. Então compre uma roupa bonita e vá. Compre os croissants e espere por ele. E me avise quando chegar em Lille e se preciso ir ao supermercado comprar chocolate e sorvete antes de ir até sua casa te consolar.
– Tudo bem. – Suspirei e me pus de pé, pegando a bolsa e deu um sorriso sincero.
– Você se tornou um mulherão! E se ele perder a chance, os outros homens do mundo agradecerão. – disse se pondo de pé e nós saímos do escritório.

Eu a deixei em sua própria casa e depois segui até a minha. Um apartamento simples, pequeno, mas que me serve muito bem, obrigada. Fica a dois minutos da Gare de Lille Flanders, onde pegarei o trem amanhã. Além de ser perto de basicamente tudo que eu preciso para viver, mas não tanto do escritório, que fica no centro da cidade.
Não pretendo aparecer em Paris com cara de quem passou a noite acordada por estar nervosa, demonstrando total e completo despreparo emocional para aquele encontro, que está marcado há dez anos, então resolvi que fazer yoga e alguns minutos de meditação provavelmente me ajudarão a dormir tranquila e relaxada.
Na verdade, eu queria fumar um baseado, mas não tenho como conseguir tão em cima da hora, não conheço ninguém que faça isso mais, então preciso me contentar com o yoga, uns incensos e meditação.
Assim que cheguei, deixei a bolsa pendurada ao lado da porta e fui até Sirius, que estava preguiçosamente deitado no sofá, e lhe fiz um carinho, recebendo um ronronar manhoso em resposta. Tomei um banho quente, vesti uma boa roupa para yoga, voltei para a sala, coloquei uma música bem suave e comecei a me alongar nas posições que conseguia me lembrar e que podiam me fazer relaxar um pouco.
Depois de uma hora assim, comecei a mentalizar que tinha ajudado e que eu estava me sentindo muito mais relaxada – o que não passa de uma grande mentira – e fui até a cozinha. Comi um sanduíche mal feito, escovei os dentes e me enfiei sob os edredons para dormir uma excelente noite de sono, tranquila e relaxada.
Não deu certo.
Rolei pela cama a noite inteira, repassando mentalmente a última vez em que nos encontramos: o nosso término.

Flashback – 15 de setembro de 2008

tinha jogado no dia anterior, enfrentado uma hora e meia de ônibus, de Montbéliard até Basel, mais cinco horas de voo voltando para casa, depois de terem tomado um chá de aeroporto, que durou outras quatro horas pelo mau tempo naquele dia.
O Lille empatou com o Sochaux fora de casa, a situação do time não era boa, estávamos em décimo quinto lugar na tabela, ainda que fosse a quinta rodada e muita coisa ainda fosse acontecer naquele campeonato.
Tínhamos brigado feio alguns dias antes, mais especificamente, no dia doze de setembro, que foi meu aniversário.
Era uma sexta-feira, eu tinha resolvido sair para comemorar meus dezesseis anos, da forma como eu vivia minha adolescência: com álcool, bagunça e um baseado. E sem regras. Meus pais me deixaram ser uma adolescente bem livre, o que hoje eu acho um erro, mas por sorte, eu me livrei do destino que eu estava construindo para mim.
Nós brigamos, porque precisava treinar cedo no dia seguinte, o que significava que precisava ir para casa cedo e eu não conseguia aceitar que ele não ficaria na minha comemoração, afinal é como dizem por aí, só se faz dezesseis anos uma vez na vida.
Eu queria comemorar e queria que meu namorado estivesse lá comigo.

– Eu preciso voltar meia noite para casa hoje, ma chérie. – falou sério e eu o encarei mais séria ainda. – Vou treinar de manhã e viajar, não posso treinar e viajar de ressaca, muito menos ainda bêbado.
– Você é um corta clima do caralho, . – disse emburrada e cruzei os braços, no maior gesto pirracento possível. – Você nunca quer sair com a gente, sempre arruma uma desculpa e eu saio sozinha!
– Você continua saindo, linda, não precisa ficar brava. – falou num tom fofo, aquele tom que desmanchava meu coração e ele sabia disso, e me puxou para sentar-se mais perto no banco da praça, me envolvendo em seu abraço. – Nós dois sabemos que é importante que eu consiga me firmar no time, para alcançar outros times na Europa e…
– E conseguir isso é mais importante do que comemorar o aniversário da sua namorada com ela? – perguntei e ele suspirou pesaroso, não era aquilo que ele queria dizer, mas eu interpretei como eu queria, para arrumar um motivo para discutir. – Pela falta de resposta, acho que sim, muito mais.
, eu não disse isso.
– Já que o time é muito mais importante do que eu, você pode ir embora agora então, . – falei séria e me soltei de seu abraço, me colocando de pé rápido.
… – ele me segurou pela mão e eu o olhei brava.
– Agora sou eu quem não te quer aqui. Vá embora, dormir cedo e viajar com o time. Vocês precisam mesmo, a situação não está boa e se continuarem assim, vão ser rebaixados. – Respondi desaforada e sai de perto dele, voltando para perto do meu grupo de amigos, que estava um pouco mais à frente na praça, bebendo animadinhos. Ele foi embora, estava certo em fazer isso e eu percebi isso no dia seguinte, mas na hora eu fiquei com muita raiva dele.

E então ele chegou de viagem na madrugada do dia quinze, já que tinham enfrentado toda a maratona de viagem de ônibus e chá de aeroporto para conseguir voltar para Lille. Depois do horário que as aulas tinham acabado, ele me mandou uma mensagem de texto falando que passaria na minha casa mais tarde naquele dia, porque precisávamos conversar.
Por mais que eu estivesse magoada, pelos meus motivos estúpidos e egoístas, eu estava com muita vontade de vê-lo. Eu sempre ficava assim quando ele estava voltando de viagem, animada para vê-lo, para abraçá-lo, beijá-lo e dizer que senti a falta dele.
Mas vê-lo ali, com um buquê de rosas vermelhas, um ursinho de pelúcia e cara de quem tinha notícias ruins a dar, me fizeram vacilar quando abri a porta.

– Isso é para você. – falou e me estendeu as flores e o urso, depois de entrar na sala de casa. – Feliz aniversário.
– Você já tinha me dado um presente, mon amour. – disse e apontei para o sofá. Ele se sentou e eu me sentei ao seu lado, inalando o perfume das flores e me virei em sua direção, lhe dando um sorriso. Estava preparada para pedir desculpas pelo chilique que eu tinha dado uns dias antes. – Eu amei, obrigada por ser maravilhoso e o melhor namorado do mundo. Eu te amo.
– Eu também te amo. – Ele disse dando um sorriso sem mostrar os dentes e suspirou.
– Mas… – disse antes que ele falasse e ele soltou um risinho pelo nariz antes de se virar em minha direção e segurar minha mão livre.
– Mas isso não está dando certo. – voltou a suspirar e tirou o papel do bolso da calça jeans que usava, me entregando em seguida. – Eu te amo muito, , muito mesmo. Só que apenas amor não basta, a gente precisa de muito mais do que isso para ser feliz de verdade e manter nosso relacionamento. Para fazer dar certo. E em respeito a tudo que nós vivemos nesse último um ano e meio, é melhor terminar. Não me entenda mal, não estou dizendo que prefiro o futebol a você, mas…
– Eu sei. – disse num tom baixo e compreensivo, deixando as flores sobre a mesa de centro. – Eu sei.
– Vem cá. – falou e me puxou para um abraço apertado, aqueles abraços que só ele sabia dar, que confortavam e abrigavam. – Eu te amo. Muito.
– Eu também te amo. – Respondi sentindo as lágrimas se formarem em meus olhos.
– Nós fomos um bom casal, certo? Eu te fiz feliz?
– Você me conhece melhor do que ninguém, mon petit, sempre me fez feliz. E nós fomos os melhores, pode ter certeza disso. Só acho que a gente deve se afastar por um tempo, para lidar com tudo isso, você sabe.
– Tudo bem. – me soltou de seu abraço e era como se eu tivesse perdido um pedaço de mim naquele momento.
Ele me deu um beijo demorado na bochecha e se levantou, caminhando até a porta sem olhar para trás e saiu de casa sem que eu o acompanhasse. E eu nunca mais o vi pessoalmente depois daquilo.

Flashback OFF

Quando o celular despertou às seis da manhã, eu não tinha pregado o olho, mas resolvi que correr seria uma boa, ainda que meu corpo esteja cansado e implorando por algumas horas de sono. Mas meu corpo que se resolva com meu inconsciente depois, porque eu preciso liberar todas as substâncias químicas responsáveis pela tensão, desespero, medo e a imensa vontade de me mudar para o local mais ermo e escondido da Austrália.
Vesti uma calça de ginástica, um moletom, peguei o celular, os fones e fiz minha rota habitual, que contempla doze quilômetros diários, seis na ida e seis na volta, mas naquele dia eu não os faria com a intenção habitual de manter a saúde e a forma física, iria apenas para que as horas passassem e eu não me consumisse em nervosismo e desespero dentro do meu apartamento e acabasse mesmo me mudando pro lugar mais ermo da Austrália.
Quem, por tudo que é mais sagrado nesse mundo, marca um encontro para dali dez anos? Eu vi isso em um filme, mas ainda assim o cara vivia no passado e a mulher no futuro e eles conversavam por cartas deixadas na caixa de correio da casa que eles viviam. E nem lá isso deu certo, porque o cara morreu! Bom, pelo que eu me lembro ele morreu, mas eu nem sei se morreu mesmo ou se eles chegaram a se encontrar, mas esse não é o ponto. O ponto é que isso é loucura. Loucura total.
Fiz os doze quilômetros apenas na ida, com a voz de Black M em meus ouvidos. Tomei café da manhã de padaria por onde eu estava e voltei para casa de táxi, eu não faria vinte e quatro quilômetros de corrida nem se eu fosse maratonista. A parte boa foi conseguir fazer o tempo passar, ainda que só fossem nove e quarenta da manhã quando retornei.
Eu não vou ao salão, nem comprarei roupas novas. Meu cabelo está muito bem, obrigada, minhas roupas são muito boas, recentemente adquiridas, muito bem lavadas e conservadas. Eu só preciso de um bom banho de banheira para relaxar e sair daqui mais cedo para chegar em Paris e providenciar croissants e um bom lugar para ficar e esperar.
Mas… como ele vai saber quem sou eu? Porque eu sei muito bem quem é ele, mas eu sou uma anônima, não apareço em jornais ou televisão pelo mundo, ninguém me conhece e ele não deve nem fazer ideia de como eu me pareço mais. E nem adianta pensar que ele vai saber pelo lugar, aquele banco é disputado quase a tapas.
E agora?
Num timing perfeito, meu celular tocou, me despertando dos meus devaneios e eu o atendi após ver o nome “Mãe” na tela. Isso não pode ser bom. Ela nunca me liga usando o próprio celular se não for algo muito urgente. E a última coisa que preciso no dia de hoje é uma urgência familiar que ninguém mais possa resolver, além da única filha da família , que no caso sou eu.

– Alô? – atendi preocupada e quase clamando para que ela tivesse ligado por engano.
? É a mamãe.
– Mãe? Aconteceu alguma coisa? Por que a senhora tá usando o celular?
– Não faço ideia de onde deixei o telefone de casa.
– Como assim? A senhora tentou ligar para ele? – perguntei sem entender. Como ela tinha perdido um telefone fixo? Coisas que se pode esperar de Jay .
– Tentei, mas ele está descarregado e não faço ideia de onde ele está! – ela respondeu. Telefone sem fio. Ok, agora faz sentido. – Enfim, eu estou te ligando porque chegou uma encomenda para você.
– Aí? Eu mudei o endereço há muito tempo.
– É, mas eu acho que essa ia chegar aqui de qualquer forma, ele não deve saber seu endereço. Ou deve achar que você ainda mora aqui. – ela respondeu e por um mísero segundo eu não entendi o que ela queria dizer, apenas para que minha mente fosse golpeada pelo nome do remetente: . – Ele podia ter procurado na lista telefônica.
– Mãe, ninguém usa lista telefônica há uns quinze anos.
– Eu uso.
– É, mas a senhora vive presa nos anos noventa, mãe. – disse rindo e ela me xingou com um belo palavrão. – Enfim, a senhora abriu?
– Claro que não! A encomenda é para você.
– E o que é? – perguntei já sabendo que ela tinha, sim, aberto a encomenda.
– Uma camisa do Chelsea com o número dele e um “use isso, preciso te encontrar, afinal de contas. P.S.: Estou suspenso.”. – respondeu e eu dei uma gargalhada antes de assimilar bem aquela ligação. Ele se lembra. E o principal: ele estará lá. – Não faço ideia do que ele quis dizer com esse “p.s.”.
– Tudo bem, passo aí daqui a pouco para buscar.
– Não precisa. Seu pai está indo perto da sua casa e vai te entregar. Ele já deve estar chegando, na verdade. Demorei a ligar porque não tinha encontrado o telefone e tive que procurar o celular para conseguir falar com você.
– Mãe, a senhora é uma negação com tecnologia, hein?
– Sou. – ela resmungou, me fazendo rir. – E quando voltar de Paris, espero que você me conte como foi reencontrar o menino.
– Espera aí, como a senhora sabe que eu vou a Paris?
– Ele mandou uma passagem de trem também. Devia ter fretado um avião, agora ele é rico e pode fazer esse tipo de coisa. – disse num tom desapegado e só me restou rir.
– A senhora precisa parar de ler e abrir as coisas dos outros. – disse ainda rindo e ela soltou um resmungo do outro lado do fone, ao mesmo tempo em que o interfone tocou, anunciando que meu pai estava me esperando. – Mãe, o interfone tá tocando, vou descer e pegar a blusa com papai e te ligo quando eu chegar em Lille.
– Tudo bem. E usem camisinha, não sei se quero netos. – ela respondeu e desligou antes que eu pudesse falar alguma coisa.

Meu pai me abraçou rapidamente e saiu mais rápido ainda, disse que precisava ir logo, porque minha mãe estava falando na cabeça dele há dias o perturbando porque queria alguns lençóis novos e ele tinha ficado incumbido da missão de comprá-los, já que minha mãe acha que ele tem um gosto pra isso bem melhor que ela. Aproveitou para me avisar que eu deveria ir almoçar com eles quando eu voltasse para Lille e poderíamos conversar com calma sobre todos aqueles acontecimentos interessantes que viriam.
Minha família, com toda certeza, é a razão pela qual eu era completamente doida quando criança e adolescente. E o motivo pelo qual eu sou feliz, responsável e bem resolvida.
Subi de volta ao meu apartamento e abri a tal encomenda. A camisa azul estava numa caixa com o escudo do Chelsea. Presunçoso. A nota me parece muito “sou o dono do mundo” e há todo o ar de “você deve ser identificável, ou vou perder meu precioso tempo de jogador à toa, já que estou suspenso do jogo e poderia muito bem estar, sei lá, dormindo na minha cama com lençóis de seda egípcia e linho marroquino, com doze mulheres maravilhosas ao estilo modelos da Victoria Secrets”, mas ele tinha perdido tempo e dinheiro enviando aquela camisa, talvez fosse moda em Londres usar camisa de time como cropped, mas não na França. Aqui as coisas não funcionam desse jeito.
Ok, estou exagerando, mas ficaria um pouco curta, disso eu tenho certeza. Sem chances. Está frio demais para esse tipo de coisa e, o principal: torço para o Lille. Não vou usar uma camisa de outro time!
A passagem é para o trem de quinze horas e onze minutos, com previsão de chegada em Paris às dezesseis horas e quarenta e cinco minutos, então eu ainda tenho tempo de tomar um bom banho relaxante e almoçar em paz, sem pressa. E é bem mais rápido ir de trem do que de carro. E mais econômico também, além de ser um carro a menos na rua, menos poluição e o meio ambiente agradece.
Arrumei a casa toda, ouvindo Sirius miar em reclamação quando o enxotei da cama para arrumá-la e depois do sofá, para ajeitar tudo e deixar a casa em total e completa ordem. Às onze e meia, o apartamento estava totalmente limpo e organizado e ao meio-dia eu saí para almoçar, no Flunch. Eu até faria um almoço decente e saudável em um sábado habitual em casa, mas meu nervosismo pela aproximação do horário de saída da cidade mal me deixou caminhar até o restaurante e fazer um pedido, imagina cozinhar!
Eu comi rápido, voltei mais rápido ainda para casa e fui tomar banho. Enchi a banheira com uma água quente e bem gostosa, coloquei sais de banho e substituí o rap de Black M por uma playlist de meditação para tentar criar um clima relaxante, mas não adiantou. Meu nervosismo não me permitiu relaxar, porque constantemente minha cabeça me lembrava do fiasco que estava por vir e que provavelmente estragaria o meu amor pelo pôr-do-sol em Paris para todo o sempre.
Fiquei algum tempo na banheira antes de, efetivamente, ir até o chuveiro para tomar banho e lavar os cabelos. Sai do banheiro enrolada num roupão grosso e felpudo, indo escolher o que vestir e sem saber que tipo de roupa eu deveria usar praquela ocasião.
Encarei todas as minhas roupas por mais tempo do que eu fazia habitualmente, me demorando a escolher até mesmo a calcinha e o sutiã, afinal nunca se sabe, e me sentei na cama, encarando os cabides cheios de roupas. Nada parecia bom o suficiente para usar num encontro com , a estrela belga e sensação do futebol mundial.
Não quero parecer a advogada super formal ou bem vestida demais para a ocasião, mas também não pretendo aparecer lá feito uma mendiga. Parece que o conselho de , sobre comprar uma roupa nova, deveria ter sido seguido.
Depois de um bom punhado de minutos observando minhas próprias roupas, vesti uma calça jeans preta justa, uma bota preta de cano curto e saltos baixos grossos, uma blusa preta grossa de mangas longas e gola alta e uma jaqueta jeans, ainda que eu tivesse cogitado usar uma de couro preta. Era preto demais, pareceria mais uma ida a um funeral do que, exatamente, um encontro.
Liguei o secador e sequei os cabelos, prefiro não me sentenciar a pegar uma pneumonia por sair com eles molhados nesse tempo frio, e pus uma touca cinza para tampar as orelhas do vento frio. Brincos, pulseiras, alguns anéis e um colar foram colocados para amenizar o ar fechado da roupa, mesmo que a touca tenha um pompom cinza grande na ponta, ainda pareço séria demais.
Fiz uma maquiagem que não me exigiu muito conhecimento e destreza, é o que podia fazer dado meu estado de espírito, melhor não arriscar nada mais elaborado ou vou sair parecendo um palhaço fugido de algum circo de estacionamento; passei um bom perfume e peguei os óculos de grau que me acompanhavam na vida, olhando o resultado no espelho. Estava bom para a ocasião. Eu acho.
Basicamente joguei todas as coisas que precisava na bolsa preta tiracolo: celular, fones de ouvido, capa para os óculos, documentos, carteira, passagens, chaves de casa e um livro para passar o tempo dentro do trem. E o projeto de blusa que ele tinha enviado, que eu devolveria e ele que fizesse o que bem quisesse com aquela blusa. Isso não deve caber nem no Sirius!
Ok, exagerei.
O trem sai às quinze horas e onze minutos da estação, faltando dez minutos para as três, alimentei Sirius e encarei meu apartamento limpo, organizado e prestes a ficar quase totalmente vazio. Eu posso fingir um infarto e não aparecer? Posso, mas, como que prevendo isso, me ligou.

– Espero que você não esteja pensando em se fingir de morta ou qualquer coisa do tipo para não ir.
, você um dia vai me ensinar essa coisa que você faz? De ler pensamentos?
– Não. E pare de tentar bloquear seus pensamentos com essa musiquinha estúpida. – disse e, ainda que eu saiba que fazer isso é previsível e inútil, já que ela não estava mesmo lendo meus pensamentos, realmente acertou. – E anda logo, você está atrasada.
– Tchau.
– Me liga quando chegar em Lille. Ou antes, se for necessário que eu vá pra Paris matar o Elfinho.
– Ligo. – disse e desliguei antes que ela fizesse outra observação e eu acabasse ficando em casa mais tempo do que deveria e acabasse realmente perdendo o trem e tendo que ir de carro.

Conferi se as passagens estavam mesmo na bolsa e sai do apartamento, deixando Sirius muito ocupado com a tarefa de fazer nada e passar o resto do dia alternando entre comer e ficar deitado na cama, no sofá ou em qualquer outro canto da casa, como ele bem gostava de fazer.
Os quatro minutos de caminhada até a estação de trem pareceram horas e quando cheguei, o embarque já estava permitido. Sentei-me em meu lugar e esperei pelos minutos que faltavam até a partida. Um homem sentou-se ao meu lado, mas estava muito concentrado em seu celular para falar um simples “boa tarde”. Educação mandou lembranças, querido.
Coloquei os fones, abri meu livro e li cinco ou seis vezes a mesma frase antes de respirar fundo e me concentrar para que eu conseguisse ler. Tudo isso antes do trem arrancar e eu sentir meu corpo esfriar e eu cogitar que eu estava morrendo de ataque cardíaco.

Uma hora e trinta e quatro minutos depois, eu estava em Paris, desembarcando do trem. Quatro e quarenta e cinco da tarde. Desembarquei na estação Trocadéro e nesse momento eu senti meu estômago revirar. Não era fome, não era dor de barriga. É o nervosismo de encontrar o amor da minha vida dez anos depois. Dez anos depois do término.
Segui até uma cafeteria, o Carette Paris, e pedi um café grande para a viagem, ainda que me doa profundamente estar contribuindo com mais plástico que futuramente poluirá o mundo, mas eu preciso me apressar se quiser achar algum lugar para sentar, comprei também alguns croissants de amêndoas com chocolate e alguns macarons de framboesa, os favoritos dele.
O ar gelado, mas confortável, de Paris me fez, por alguns minutos, esquecer a negatividade quanto a toda situação e me fez pensar que, talvez, as coisas possam dar certo. Que, finalmente, eu teria o amor da minha vida de volta e que ficaríamos juntos de novo, que teríamos nosso “felizes para sempre”.
O clima de Paris não é mágico apenas nos filmes e livros, é mágico até em quem vem ou vive aqui de verdade.
A Place du Trocadéro é ampla, mas o meu local favorito é um ponto específico: fica ao final do último lance de degraus, virando à esquerda, em um canteiro antes do pequeno muro. “Escondido” pelo canteiro alto, há um banco de pedra em que a vista é incrível. O local estava ocupado, claro, então me sentei no canteiro, cruzando as pernas e esperei que alguém saísse, ou eu ficaria por ali mesmo.
Enquanto eu observava o céu começar a adquirir um tom alaranjado combinando com um azul claro, o lugar foi se enchendo de turistas. E eu não tirava a razão de nenhum deles por estarem tão admirados, se eu tivesse a chance de ver aquela cena todos os dias, eu pararia para assistir e tenho certeza de que jamais me cansaria de admirar a beleza daquilo. O sol passando por trás da Torre Eiffel antes de se pôr e a noite cair sobre a Cidade Luz, é uma das coisas mais lindas que já tive a oportunidade de ver na vida.
Tirei o celular da bolsa e tirei uma foto da Torre, com aqueles tons de alaranjado e azul do céu a deixando ainda mais bonita.

– Eu também gosto muito dessa vista. – Ouvi uma voz masculina e, mesmo que eu não a ouvisse há dez anos, eu sabia a quem ela pertencia. – Chega um pouco para lá, quero sentar-se também.
– Cruze as pernas para não colocar em cima das pessoas. – Respondi sem olhá-lo, apenas me afastando e dando espaço para que ele se sentasse. Duvido muito que ele caiba sentado aqui, em todo caso, mas se ele quer tentar, quem sou eu para tentar impedir?
– Não me cabe. – Resmungou e eu precisei segurar para não rir do tom de voz de criança sentida que ele usou. voltou a ficar de pé na rampa e encostado no canteiro. – Você não vai olhar para mim?
– Não. – disse e suspirei, sem coragem de olhar até de canto de olho. – Agora não, quero ver o sol se pôr primeiro.
– Por mim, tudo bem. – respondeu e nós ficamos em silêncio.

Ele parado quase do meu lado, provavelmente, olhando para frente e eu sentada na beirada do canteiro, com uma sacola de papel ao meu lado, um copo de café quente em mãos e sem coragem de olhar, ainda que de soslaio, para ele. E ficamos assim por longos minutos, quase vinte, até que um casal saiu do banco, se aproximando das grades para tirar fotos, e se sentou, cutucando meu pé para que eu descesse e me juntasse a ele. E eu o fiz, mas ainda sem olhá-lo.
O perfume… Era mil vezes melhor do que eu me lembrava. E não olhar para ele estava se tornando uma missão complicada. Tão complicada quanto não inalar aquele perfume de forma mais descarada e próxima possível.

– Quer? – estendi a sacola de papel em que os croissants e os macarons estavam em embalagens plásticas. Ele pegou, sem encostar em mim e ouvi um grunhido satisfeito emitido por ele.
– Você ainda lembra.
– Eu nunca serei capaz de esquecer que você gosta de croissant de amêndoas com chocolate e macaron de framboesa. E um chocolate quente amargo. Só que achei melhor não trazer o chocolate.
– Por quê? – ele perguntou abrindo a sacola de papel.
– Não sabia se você chegaria aqui no horário, chocolate amargo frio não é tão gostoso quanto é quente para fazer companhia ao docinho do croissant e do macaron. – disse ainda olhando para a Torre.

Terminei meu próprio café e fiquei segurando o copo, amenizando a tensão do momento girando-o entre meus dedos, enquanto observava o sol passar por trás da Torre Eiffel, atraindo celulares e câmeras para registrar aquele momento, mas preferi apenas observar, em silêncio, aquele espetáculo que eu sempre amei ver. Eu nunca me cansarei de Paris.
Quando o sol finalmente se pôs e o banco ao nosso lado já estava totalmente vazio, voltei a me sentir nervosa. Ele estava pacientemente esperando por alguma reação, por uma fala ou qualquer manifestação. E esperou calado apenas porque estava comendo seus macarons feito uma criança.

– E então, vamos ficar sentados e calados? – quebrou o silêncio entre nós e eu suspirei. – Por que você está sem a camisa?
, ela não serve nem no meu gato. – Respondi ainda sem olhá-lo.
, você vai conversar comigo sem me olhar? – perguntou, pegando em minha mão e eu me obriguei a olhar para o lado. Ele estava com um moletom preto, com o capuz sobre um boné azul escuro e esse deveria ser o motivo de ninguém ter percebido quem ele é. Aqueles inconfundíveis e apaixonáveis olhos azuis estavam ainda mais lindos e me pediam para que eu não os ignorasse nunca mais. – Senti falta desse rosto.
– E como você me achou?
– Eu te reconheceria em qualquer lugar, , não preciso que você esteja usando camisa nenhuma. E eu sabia que te acharia aqui, nesse lugar.
– Então você mandou a camisa por quê?
– Porque eu não sabia se você viria, se você se lembrava. E imaginei que você poderia duvidar que eu viesse também. E quanto ao tamanho, podemos trocar se você quiser.
– Eu duvidei que viria sim, afinal você é , estrela do Chelsea e o maior ídolo belga de sei lá quanto tempo, não vai ficar saindo por aí pra se sentar em bancos de concreto pra ver o pôr-do-sol, sendo que pode mandar fechar a Torre Eiffel e ver tudo lá de cima sozinho e sem ser incomodado.
– Acho que você conhece o errado então. – deu uma risadinha sem deixar de me encarar. – Contínuo sendo o mesmo, . Só cresci.
– Só envelheceu, na verdade, o tamanho ainda é o mesmo. – brinquei e ele rolou os olhos, mas me deu um sorrisinho. – te mandou um beijo enorme.
– A Princesa ainda se lembra de mim? – perguntou surpreso. Ele a chamava de Princesa desde sempre, porque ela odiava aquele chamamento e ele adorava deixá-la irritada.
– Lembra. E ainda te chama de Elfinho.
– Mande outro beijo para ela. – disse simpático e nós voltamos a ficar em silêncio. Fui a primeira a desviar os olhos, mas dessa vez ele pareceu entender, encostou sua cabeça no cimento atrás de nós e ficou olhando para o céu que escurecia gradativamente. – Vamos ficar por aqui mesmo?
– Você que sabe. – Dei de ombros sem olhá-lo.
– Por mim tudo bem. – respondeu e suspirou pesadamente. – Dez anos hein?
– É, dez anos…
– E então, me atualize. Quero todos os detalhes de tudo que eu perdi nesse tempo. – pediu e eu me virei em sua direção, encontrando os lindos e curiosos olhos azuis dele.
– Eu fui para a faculdade, me formei em Direito e sou advogada e…
– Advogada? Você? – ele se sobressaltou e me encarou surpreso.
– É, eu mesma. e eu, na verdade. Fomos para a faculdade, nos formamos e somos sócias em Lille. Sou advogada e professora.
– Você teve algum motivo especial para entrar para faculdade?
– Tive. – disse e murchou um pouco, provavelmente não era a resposta que ele esperava ouvir. – Finalmente percebi que eu tinha sido uma adolescente imbecil ao almejar aquelas coisas egocêntricas. Agora ganho bem, mas não estou trilhardária e nem tenho uma multidão de fãs que matariam e morreriam por mim, mas me sustento e ajudo pessoas. Continuo gostando de sair para beber com meus amigos, não igual fazia antes, agora tenho responsabilidade e sei a hora de parar e voltar para casa. E tem o fato de que um corpo de vinte e cinco anos não se recupera tão bem de uma ressaca quanto um corpo de quinze.
– Vinte e seis. – corrigiu, piscando e dando um sorriso. Um daqueles sorrisos maravilhosos dele. – E joyeux anniversaire, . Ainda que atrasado.
– Obrigada.
– Casou?
– Não. – Neguei com um aceno. – E nem tenho filhos. Namorei, mas não deu certo, estou solteira há alguns meses. Moro sozinha num apartamento perto da Gare de Lille Flanders, um pouco distante do meu escritório, mas é meu apartamento, que eu pago o aluguel, as contas e me sustento sozinha. Pequeno, simples, mas o suficiente para me fazer feliz e para que eu viva em paz com Sirius, meu gato.
– Você tem mesmo um gato? – perguntou rindo. Era engraçado, porque quando eu era adolescente, eu meio que detestava gatos.
– Tenho. – Respondi sorrindo. – Ele um dia apareceu no parapeito da minha janela no escritório, ainda filhote e quase decrépito. Eu o adotei e somos uma família agora.
– Esses dez anos mudaram muitas coisas em você.
– Algumas coisas, mas em essência eu continuo a mesma pessoa que você sempre conheceu melhor do que qualquer um. – disse e ele deu um sorriso.

Como estava lindo. Mais lindo do que era quando namoramos, agora usa barba, os cabelos estão um pouco maiores do que costumavam ser, havia os sinais do envelhecimento, claro, o rosto de menino se tornou o rosto de um homem lindo, mas era visível que nada tinha mudado além do seu exterior.
Seus olhos denunciavam que por dentro, ele ainda era o meu menino de dezessete anos, o belga que eu conheci e que ganhou meu coração com sua humildade e timidez, que facilmente me fazia rir e que sempre foi o ser humano mais agradável de estar por perto.

– O que foi? – perguntou, dando um sorrisinho, ao perceber que eu o encarava admirada. Era impossível não reparar cada mínimo detalhe naquele rosto, não o vejo há dez anos e ele está mais lindo do que eu imaginava ser possível.
– Nada. – disse dando um risinho sem graça. – E com você? Como estão as coisas? Como foram esses dez anos?
– Eu fiquei em Lille até 2012, evitava todos os lugares em que eu poderia te ver, porque sabia que nunca resistiria, acabaria me aproximando e nos desgastando. Passei por todas as fases de um término de relacionamento, da tristeza profunda ao rancor desnecessário, mas isso me ajudou a me manter firme e não te procurar antes da hora. Não era certo desgastar nosso sentimento quando não tínhamos maturidade para entendê-lo e cuidá-lo da forma devida. Enfim, em 2012 fui para o Chelsea e por lá permaneço até hoje, ainda que, como você disse, muitos times estejam me disputando, vivendo meu sonho de ser um bom jogador de futebol. Tive apenas uma namorada séria durante esses dez anos, nós até cogitamos casar, mas a ideia não foi para a frente.
– E por quê?
– Porque ela não é você. – deu um sorriso sem mostrar os dentes e suspirou antes de retomar sua fala. – Eu não podia firmar compromisso com alguém antes de saber se nós dois podíamos voltar a ter alguma coisa. E se eu não me sentia firme para tomar esse passo, é porque não era amor suficiente para que a gente se casasse e começasse uma família. Nós terminamos e ela se mudou para os Estados Unidos há um ano, que foi quando terminamos, e desde então estou solteiro. Não tenho filhos também. Moro sozinho, minha casa é muito grande só para mim, mas eu tenho um cachorro e ele ocupa bastante espaço. E é uma boa casa, porque cabe a família inteira nas visitas, mas vazio demais a maior parte do tempo, já que todo mundo tem suas vidas e não podem viver comigo. Ganho mais dinheiro do que consigo gastar sozinho ou com ração e veterinário, mas faço filantropia pelo nome dos outros, não gosto de mídia desse jeito. Continuo do mesmo jeito, preferindo estar com a família, evitando baladas e mídia. Gosto de aparecer apenas dentro de campo. – Ele pareceu pensar em tudo que podia falar sobre si. – E eu acho que é só isso.
– Uma vida agitada, eu diria. – Dei um sorriso sem jeito. – E como está a família?
– Meus pais e meus irmãos estão muito bem. Thorgan casou e tem uma filhinha, Elayna, mora na Alemanha e joga no Borussia Mönchengladbach faz um tempo. Kylian tem vinte e dois agora, está se divertindo muito em Londres e joga no time sub-23 do Chelsea, mas não mora comigo, ele tem a própria casa. Ethan tem quatorze anos, está jogando no Tubize, lá na Bélgica e mora com meus pais. Sempre que podem, eles vêm à Londres, é muito bom tê-los em casa e relembrar os tempos em que morávamos todos juntos e era quase caótico pela quantidade de pessoas juntas. E agora com uma criança para piorar, ou melhorar, a situação. – Ele deu uma risadinha. – E seus pais?
– Ótimos. Hoje minha mãe ligou para me falar da camisa. Ela conseguiu perder o telefone fixo dentro de casa e ainda disse que você deveria ter procurado meu endereço na lista telefônica. – disse e ele deu uma gargalhada, atraindo alguns olhares, mas ninguém ainda parecia reparar em quem ele é.
– Lista telefônica? Jay está um pouco presa nos anos noventa, não?
– Um pouco é bondade sua. – Respondi rindo.
– Eu realmente queria ter procurado seu endereço, mas não consegui pensar na ideia de digitar seu nome na internet e encontrar informações que eu não queria ver. Procurei pelo seu nome no Instagram uma única vez, mas não encontrei nada e nesse dia eu achei que tinha se casado e mudado de nome, por isso eu não te achava, resolvi que não procuraria mais.
– Eu te bloqueei assim que fiz a conta, .
– Me bloqueou? Por quê?
– Porque eu também não queria correr o risco de ver que você tinha seguido em frente, que tinha uma família e essas coisas. – Confessei sem jeito.
– Então você não sabia de nada disso que eu contei?
– Sabia que você estava no Chelsea, mas eu venho, há dez anos, evitando tudo que diz respeito a você. Enquanto você esteve no Lille, eu parei de ir aos jogos e de acompanhar o time e só voltei quando você foi embora. Consigo evitar a maioria das coisas a seu respeito, quase a totalidade, mas vez ou outra ouço algo em Lille, você ainda é muito amado por lá.
– Você estava em Lille na Eurocopa?
– Sim, trancada em casa, com medo demais de sair de casa e encontrar com você, ou descobrir qualquer coisa que fosse e que eu não estava preparada para ouvir.
– Eu sinto muito por isso, . – Ele pediu se sentindo culpado.
– Não sinta. Era coisa minha, eu estava com medo de descobrir que eu tinha te perdido para sempre, porque eu continuava tendo esperanças de que fôssemos ficar juntos, mesmo depois de muitos anos separados. Você me perguntou agora pouco se eu tinha um motivo para a mudança radical em minha vida, eu tive sim. Você.
– Eu?
– Sim. Eu encontrei algo que amo fazer, porque sempre soube que eu precisava ser uma pessoa melhor. E não só para você, mas para mim também. Alguém capaz de enxergar além do próprio umbigo, alguém que fosse capaz de sonhar junto com você e não ser alguém que queria cortar suas asas ou podar seus sonhos. Uns anos depois do nosso término, quando entrei na faculdade, eu parei para pensar sobre minhas atitudes e eu teria destruído não só nosso amor, mas também sua carreira.
– Como assim?
– Se tivéssemos continuado juntos, eu teria deixado sua fama me subir à cabeça, teria achado que isso me dava o direito de me achar e me sentir superior aos outros e essas coisas. Nosso término foi para que a gente aprendesse várias coisas. Eu me tornei a adulta responsável que jamais achei que me tornaria, porque vi que eu precisava crescer e amadurecer quando você terminou comigo. Tanto por você, quanto por mim.
– Você tá falando sério? – ele perguntou surpreso e eu assenti, sentindo meus olhos arderem com as lágrimas que se aproximavam.
– Cada vez que eu me lembrava daquele dia, que eu olhava praquele urso ou relia a carta, eu conseguia enxergar todas as vezes em que eu deveria ter agido de forma madura e te apoiado, mas preferi ser uma idiota, pirracenta e egoísta. Quando eu já não tinha você pra me falar, às duas da manhã, que eu não deveria fazer aquelas coisas, ou que eu devia me preocupar com meu futuro, foi que eu percebi que era você quem me mantinha na superfície, que não me deixava afundar.
– Entendi. – Ele deu um sorrisinho e pegou minha mão entre as suas.
– Você sempre me conheceu melhor do que qualquer outra pessoa, mesmo quando era aquele mar de águas turbulentas e escuras. Você me enxergava como um rio calmo e transparente, não precisava de esforço nenhum para ver além do que eu demonstrava. Sabia tudo só de me olhar. E acho que ainda pode fazer isso se tentar.
– Eu posso dizer o mesmo, . Você sempre me conheceu melhor que qualquer pessoa e por mais que ache que era egoísta e essas coisas, você acertou muito mais do que errou durante nosso namoro. Você cuidava de mim, porque eu estava sozinho em Lille sem minha família, me ajudou com coisas da escola, foi uma namorada maravilhosa e atenciosa. Você estava apenas curtindo sua adolescência, não tinha obrigações com as minhas responsabilidades.
– Você é a pessoa que eu mais amo na vida depois dos meus pais, , foi você que me ensinou o que é amor de verdade e que um namoro não pode ser só amor, que só te amar não seria suficiente para que nós ficássemos juntos e fôssemos felizes. E depois do nosso término, eu comecei a perceber quais eram as outras coisas que um relacionamento precisa para se manter firme e dar certo. Comecei a perceber como meus pais se apoiam, como sempre conversam sobre as coisas que querem ou precisam fazer, que muitas vezes os dois brigam por coisas idiotas e também por coisas sérias, mas eles sempre conversam sobre tudo, expõem seus sentimentos, vontades e opiniões, conseguem chegar a um denominador comum, a algo que seja bom pro casal e não apenas pra um deles. E cada vez que eu percebia isso, eu me lembrava de nós, de como não havia diálogo e só discussões, que não havia concessões. Nós não éramos maduros o suficiente, nosso amor não era suficiente para nos segurar de pé sem que tudo fosse perdido.
– Eu também nunca amei ninguém da forma como eu te amo. Só de pensar em você, meu coração acelera e eu sinto como se eu fosse explodir a qualquer momento só de pensar em você, minhas mãos suam e as palavras fogem completamente da minha mente. Sempre foi assim, sempre. Eu tentei achar outra pessoa, tentei te tirar do meu coração, mas assim como você disse que eu fui sua inspiração para que você se tornasse alguém melhor, você foi a minha.
– Fui? – perguntei surpresa.
– Eu faço de tudo para chegar ao topo, porque sempre acreditei que você merece alguém que tenha objetivos grandes, que sonhe grande e que vá atrás da realização. E, como você disse, fiz isso por você e por mim. Você não via meu progresso, mas eu vi e tinha você como inspiração, porque mesmo que você ache que não era nada além de uma adolescente rebelde, você era muito dedicada ao que queria, fosse algo que hoje podemos considerar fútil ou não. Lembra quando você queria aprender a tocar violão e não parou até aprender a tocar perfeitamente?
– Lembro. – disse dando um sorriso com a lembrança. – Foram dias difíceis, eu quase não tinha coordenação motora.
– E mesmo assim não desistiu.
– É, não desisti.
– Não foram raras as vezes que eu me peguei pensando se você estava me vendo e o que achava da pessoa que eu estava me tornando, do profissional que eu estava me tornando. Eu nunca tive coragem de ligar pros seus pais e perguntar sobre você, nem mesmo para ou qualquer outra pessoa, porque eu também tinha medo de descobrir que você tinha encontrado alguém que não teria medo de te amar tanto, porque um dos motivos que me levou a terminar com você foi esse, , eu te amava demais, te amava de um jeito que chegava a me assustar e doer e eu não sabia até onde aquilo era bom pra nós dois. Não adiantou nada terminar, porque continuei te amando da mesma na mesma intensidade, só amadureci o sentimento. – deu um risinho pelo nariz e fez um carinho na minha mão com o polegar. Seus olhos estavam fixos nos meus, sinceros e intensos como sempre tinham sido.
– Eu tive alguns relacionamentos e nenhum me fez sentir da mesma forma como eu me sentia quando nós namorávamos, em nenhum havia a expectativa que eu tinha de te ver quando você chegava de viagem, de estar com você e te ouvir rir, falar ou apenas estar por perto. Foram dez anos de muitos aprendizados, muitos choros e alguns bons porres por sua causa, . – disse e soltei um riso pelo nariz, sentindo as lágrimas descendo por meu rosto.
– Nós choramos juntos então. – deu um sorriso e a mão livre ele usou para limpar minhas lágrimas. – Eu sentia sua falta de forma absurda, . Mas eu não sabia se podia ir atrás de você, eu morria de medo da rejeição. Eu nunca soube como você tinha lidado com nosso término, como sua vida estava e eu não queria arriscar descobrir.
– Eu pensei diversas vezes em me enfiar no primeiro avião para Londres e ir atrás de você, mesmo que eu tenha passado os dias em que você esteve em Lille basicamente escondida em casa, mas tinha medo de descobrir que você tinha me esquecido, ou de que tivesse uma vida com outra pessoa e estivesse realmente muito feliz para se lembrar de mim ou de qualquer coisa do seu passado aqui na França que não envolvesse o futebol. Todas as vezes eu acabava chorando em algum bar ou no colo da minha mãe. Dois dos meus três namoros terminaram por causa disso. A gente pode até não ficar junto, , mas você sempre será o amor da minha vida, a pessoa mais importante, porque me ensinou muito.
– Eu não consigo e nem quero imaginar um futuro sem você, Heux. – falou me olhando nos olhos. – Pode não ser como casal, mas nós fomos feitos para estarmos um na vida do outro. Foram dez anos muito difíceis, apesar de todo crescimento profissional e sentimental, sempre faltou alguma coisa. Faltava o seu abraço, os seus beijos, os seus sorrisos e sua espontaneidade, faltava sua alegria e energia. Sem você, eu sou só o “menino cheio de nove horas”, como sua mãe me chamava. – Ele disse dando uma risada, mas seus olhos brilhavam pelas lágrimas que segurava. – Eu cheguei a ir a Lille um dia, antes mesmo da Eurocopa, mas não tive coragem de sair do aeroporto. Voltei pra Londres na mesma hora. Quer dizer, três horas e meia depois. Estive aqui em Paris três vezes, eu queria te encontrar e que a gente jogasse essa data para o inferno, que adiantássemos e resolvêssemos tudo, mas nunca tive essa sorte. E acho que foi bom não termos nos encontrado, talvez as coisas não fossem tão amigáveis quanto agora.
– Eu vim aqui algumas vezes também pra admirar esse espetáculo que sempre será minha coisa favorita no mundo, tinha esperanças de te ver, mesmo que de longe, mas não aconteceu e eu imaginava que você podia estar ocupado demais sendo “a sensação belga” pra se lembrar dessas pequenas coisas. – Suspirei, sentindo as lágrimas voltarem a rolar pelo meu rosto.

Agora nem mesmo segurava suas próprias lágrimas, estamos os dois chorando na frente da Torre Eiffel. Ele me abraçou e fez um carinho em minhas costas enquanto nós dois estávamos chorando, tanto pelo reencontro quanto pela sinceridade e intensidade das palavras usadas.
Foram dez anos separados, dez anos em que eu pensei muito, se aquilo entre nós tinha sido mesmo amor e não apenas um namoro adolescente muito intenso, mas que terminaria de qualquer forma, já que namoros adolescentes nunca duram mesmo; se nós nos encontraríamos de novo em algum momento, se algum dia eu pararia de pensar nele daquela forma, se eu deixaria de amá-lo daquele jeito intenso, verdadeiro e avassalador. Dez anos de muitas incertezas e confirmações, de crescimento profissional, pessoal e sentimental.
Os dez anos, ainda que muitos, foram o tempo perfeito.

– Você me perdoa? – pedi num sussurro e ele soltou o abraço, se afastando para me olhar em dúvida.
– Perdoar? Pelo quê?
– Por ter sido péssima, egoísta, idiota e desatenta quando éramos namorados. Por negligenciar seus sonhos e planos, porque eu achava que a vida se resumia a beber, transar e sair com meus amigos para bagunçar pela cidade. Fui uma péssima pessoa com você.
– Só se você me perdoar por ter sido incompreensivo, egoísta e medroso.
– Você nunca foi isso, .
– E nem você era isso, .
– Você sempre foi o melhor namorado e o melhor amigo que eu poderia ter. Eu nunca consegui encontrar outra pessoa, porque eu não estava realmente procurando, eu queria você. Queria te encontrar em outras pessoas, mas você é único. O único. O meu único.
– É, posso dizer o mesmo. – deu um sorriso sem jeito. – Será que nossas versões adolescentes teriam orgulho de nossas versões adultas?
– Duvido que a de quinze anos aceitasse que a de vinte e seis tivesse se tornado advogada, que passa boa parte dos dias enfiada em uma sala ou em audiências, ao invés de estar pelo mundo enchendo a cara e fazendo merda. – Respondi rindo e limpei as últimas lágrimas que tinham rolado do meu rosto.
– Acho que o de dezessete anos só não se orgulharia de ter passado dez anos longe de você, porque ele era completamente alucinado pela Heux, mas, pelo menos, o de vinte e sete continua alucinado pela Heux. – Ele respondeu sincero e me fez dar um sorriso involuntário.
– A de dezesseis anos também não se orgulharia desses dez anos, mas eu tenho certeza que se orgulharia muito de ver o de vinte e sete anos sendo disputado pelo mundo inteiro, todos os times desesperados para colocar seu nome nas costas das próprias camisas e poder se orgulhar de dizer “ é nosso”. Ela teria orgulho de ver que o sonho da seleção se realizou, que o sonho de chegar a um grande clube também se realizou e que você chegou tão longe por mérito próprio, sem precisar passar por cima das pessoas, sem precisar destruir os sonhos dos outros para conquistar o seu.
– Eu tenho certeza de que o de dezessete estaria tão surpreso quanto eu estou por saber que você se tornou advogada, jamais imaginei que você fosse entrar para uma profissão tão séria. – Ele riu.
– Acho que ninguém esperava, na realidade. Nem eu mesma. Fui a uma feira de profissões quando estávamos no último ano do ensino médio e foi amor à primeira vista.
– É, igual eu senti quando te vi pela primeira vez.
– Você se lembra? – perguntei surpresa e ele negou com um aceno.
– Claro que eu me lembro. – Ele deu uma risada. – Entrei na sala e te vi. A coisa mais clichê de todas. Mas você não olhava para mim, não falava comigo e eu ficava feito um idiota apaixonado. A Claire não queria beijar aquela sua amiga, ela queria TE beijar, então eu tive que abrir meu coração pra ela e dizer que eu já gostava de você há um tempo, mas não tinha coragem de falar, então ela, como o cérebro pensante que sempre foi, disse que aceitava ficar com a sua amiga, apenas se você ficasse comigo. O que foi bom para ambos os lados, já que as duas namoraram por um tempão e nós dois ficamos juntos também.
– Eu não te amei assim que te vi, sinto muito. – disse e ele deu uma risadinha, me fazendo rir junto. – Eu te achava bonito, mas você era mais velho que eu e eu não entendia o fato de você fazer uma única matéria na minha sala, mas não hesitei quando Amalie me disse as condições. Achei que a gente só ficaria naquela vez, mas não foi assim e com o passar do tempo, eu realmente senti que por você eu faria qualquer coisa. Algo que eu achava que existia apenas em filmes e livros. – Dei uma risadinha e nós ficamos em silêncio enquanto ele brincava com minha mão entre as suas.

A noite já tinha caído em Paris, as luzes estavam começando a se acender, apenas para comprovar que essa cidade consegue fazer com que eu me apaixone por ela cada vez mais.

– E como a gente fica? – ele perguntou depois de passarmos muito tempo em silêncio e me olhou. Deus, como eu posso amar tanto esse par de olhos azuis mesmo depois de tanto tempo? – Porque eu vivo em outro país, você tem sua vida aqui e não posso te pedir para largar tudo e ir atrás de mim.
– A gente fica. E depois a gente vê o que acontece. Esperei dez anos para te ouvir dizer que ainda me ama e que estamos prontos para ficarmos juntos um com o outro, que estamos prontos para nos amar de novo. E se nem dez anos fizeram o sentimento mudar ou diminuir, duvido que um bom punhado de quilômetros faça alguma diferença agora. – Dei de ombros, mas com um sorriso no rosto, que o fez sorrir de volta. – E, de qualquer forma, nós sempre vamos ter Paris.

E ele me abraçou. E estava claro pra mim: ainda bem que eu esperei por ele e que ele também me esperou, porque era ali que eu pertencia, àquele abraço que colocava tudo de volta no lugar, que fazia com que dez anos tivessem se passado, mas sem que tivéssemos nos separado.

 

Nota da Autora: Eu amo meu gordinho belga e eu espero que vocês também amem esse homem, porque o único defeito dele é não ter defeitos.
Aqui tem o grupo do Facebook e aqui o do WhatsApp.
Vocês também podem me seguir nesse perfil do Instagram ou no Twitter (mas aqui eu só surto por futebol, bandas e xingo determinados presidentes não disse quais).
Espero que tenham gostado e não esqueçam de comentar.

Deux

, você pode, por favor, tirar a sua perna de cima de mim? Eu preciso me arrumar e voar pra Lille. – pediu, mas foi totalmente ignorada, tendo seu corpo puxado pra mais perto e ganhando um beijo no ombro.
– Fica aqui comigo, vamos passar o dia todo juntinhos na cama. – o pedido de foi praticamente ronronado e se não precisasse mesmo ir pra França, teria aceitado apenas pelo tom usado.
– Eu gostaria muito, mas preciso ir embora, mon amour. Tenho uma audiência hoje ainda. E você tem que treinar.
– Nossa vida era tão mais fácil quando éramos adolescentes. – resmungou, escondendo o rosto nos cabelos de e ela deu um sorriso que ele não viu.
– A sua nunca foi.
– Quando a temporada terminar, você tira férias e viaja comigo?
– Não posso prometer, você sabe.
– Agora eu entendo como você odiava o quanto eu era responsável e focado no trabalho. – resmungou, fazendo rir.
– Vai , me deixa levantar. – pediu. – Tenho que tomar banho e voltar pra França.
– Posso ir junto pro banho?
– Nem pensar! Eu estou atrasada e ter você pelado e debaixo do mesmo chuveiro em que eu estarei pelada não vai ajudar em nada.
, você é uma chata. – voltou a resmungar e soltou de seu abraço, mas ao invés de sair da cama, a mulher virou-se para ele e lhe fez um carinho no rosto.
– Eu volto daqui dezessete dias, mon chéri.
– Isso não ajuda em nada, . Em nada. – respondeu mimado.
– É o melhor que posso fazer. Infelizmente. – suspirou, finalmente sentando-se na cama.
– É egoísta demais te pedir pra vir morar aqui comigo?
– Bastante. – riu. – Eu entendo, porque queria que você voltasse a jogar no Lille, mas você merece um time que te mereça, o que não é o caso.
– Não fale assim do Lille. – falou, fingindo estar ofendido, e sentou ao lado de .
– Eu posso, torço pro time e falo com total conhecimento de causa. – deu de ombros e em seguida encostou a cabeça ali.
– É cada vez mais difícil te deixar ir embora.
– Eu me lembro de ter dito isso há alguns bons anos atrás.
– Você falava isso todos os dias em que eu precisava ir embora da sua casa, fosse pra concentração ou viajar.
– Continua muito difícil. Mesmo depois de anos separados. – confessou.
– Uma hora nós temos que parar de ficar nos separando assim.
– Você ainda tem bastante tempo para jogar futebol, eu ainda tenho muitas audiências a fazer e aulas a ministrar, então essa ainda não é a hora. – falou, tentando cortar o clima triste de despedida que começava a se instalar, mas recebeu um resmungo mimado e dolorido de que fez seu coração se encolher.
– Eu vou dar um jeito de te ver ainda essa semana.
– Duvido que o Sarri deixe você se ausentar sem ser por um motivo muito sério.
– Que inferno. – resmungou pirracento.
– Você é pior que a Elayna quando o quesito é fazer dramas e pirraças.
– Sai da minha casa agora. – respondeu, fingindo-se de bravo, e gargalhou, antes de ficar de pé.
– Finalmente posso fazer isso sem me sentir culpada, já que foi você quem me expulsou daqui, então a culpa é sua por eu estar partindo.
– Não seja advogada comigo, . – falou, estreitando os olhos.

não respondeu, apenas se apressou para o banheiro e trancou a porta assim que entrou no cômodo. Realmente não podia se atrasar mais e ter junto com ela no banho só pioraria a situação de seu atraso que já não lhe era muito favorável.
Os dois estavam naquele relacionamento – e, sim, era um relacionamento assumido para as famílias e amigos próximos, mas não para a imprensa e para o resto do mundo – desde o encontro em Paris, em setembro, três meses antes. Naquele dia, os dois conversaram sobre tudo o que precisavam conversar e resolver.
Falaram sobre o tempo todo que passaram juntos, sobre o tempo que passaram separados e o que viria a seguir, se voltariam a tentar alguma coisa ou não. foi com para Lille, encontrou alguns amigos antigos, os pais de e conheceu a casa dela. Foi o primeiro fim de semana que passaram juntos, dos poucos em que tiveram a oportunidade durante aqueles meses. E exatamente ali resolveram que se tantos anos tinham passado sem que a vida sentimental de ambos desse certo longe um do outro, era um sinal de que só daria certo se ficassem juntos. E desde então eram um casal.
queria descrição, tinha bastante receio de como aquilo influenciaria seu trabalho. Sabia que os olhos de muitos se virariam em sua direção, ela deixaria de ser apenas “, a professora e advogada” e se tornaria “A namorada de ”. Ainda que sempre tenha sido muito discreto em sua vida pessoal, todo o mundo lhe conhecia e todos ao seu redor tornavam-se, automaticamente, alvo dos olhares, das lentes e dos comentários de todos. queria evitar aquilo.
Os dois se encontraram duas vezes em Paris, em locais diferentes e chegaram em momentos distintos, registrados em quartos separados e nunca vistos juntos. Em Londres, sempre alugava um carro e nunca usava táxi, além de ter ido aos jogos no meio da torcida, nunca no camarote, nunca usando a camisa 10 com o nome de , ainda que usá-la não fizesse diferença alguma no estádio, já que quase todos os torcedores ostentavam a camisa 10 e o sobrenome “” em suas costas. Dava trabalho manter as coisas assim, mas eles vinham fazendo dar certo.
Ela já tinha deixado diversas peças de roupa na casa de , quase não levava malas e isso diminuía bastante os problemas, já que ele nunca ia ao aeroporto quando chegava a hora de partir. As despedidas eram feitas longe de tudo e todos. entendia e não se ressentia quando precisavam se ver e ficarem juntos escondidos dos olhos do mundo, principalmente porque podiam aproveitar bem sua privacidade sem ser incomodados.
Mas queria tê-la por perto durante mais tempo, ainda que soubesse que essa vontade era muito, muito egoísta. Mas já tinham passado dez anos totalmente separados, considerava que fora tempo demais e o suficiente para que nunca mais quisesse repetir a experiência.
saiu do banheiro já arrumada, para evitar mais atrasos, e desviou os olhos da tela do celular quando sentiu o perfume dela preencher o quarto. Estava maravilhosa, usando uma calça flare preta de cintura alta, uma blusa cinza de mangas longas e gola rolê e um casaco grosso também cinza. O scarpin preto estava coberto pela barra da calça, mas a deixava bem mais alta. Passou apenas base, rímel e um batom claro. olhava quase hipnotizado e ela caminhava pelo quarto em direção ao celular que tinha sido deixado conectado ao carregador, próximo à bolsa.
– Merda. – reclamou ao checar uma notificação.
– O que aconteceu?
– Adiantaram a pauta, não vou chegar a tempo. – bufou. – Inferno.
– E agora?
vai no meu lugar, mas não estou com raiva por perder o julgamento e sim porque mudaram o horário e não avisaram com antecedência. Eu teria ido embora ontem à noite se soubesse. – falou frustrada.
– Sinto muito, ma belle. Quer mudar o horário da passagem e ir mais tarde? Pelo menos pra tomarmos café juntos?
– Não posso. – suspirou frustrada. – Ainda dou aula hoje e preciso me preparar para o julgamento de amanhã.
– Certo, certo. – falou dando um suspiro sentido e ficou de pé. – Você vai pegar avião assim?
– Não posso me atrasar mais, mon amour. Então já vou direto e, em todo caso, o voo é rapidinho.
– Eu te vejo antes do Natal?
– Vou passar o Natal com meus pais, venho depois e passo o ano novo com você.
– Ainda bem que terei meu beijo de ano novo. – falou sorrindo e se aproximou de . – Você de salto fica muito grande.
– Essa é a intenção, tampinha. – caçoou e rolou os olhos.
– Tão linda e tão implicante…
– Você acha que eu não sei o que você está fazendo, não é mesmo ?
– O que eu estou fazendo ?
– Você está me enrolado pra que eu perca meu voo e fique aqui.
– E está dando certo? – perguntou quase esperançoso.
– Não, porque eu já estou indo.
– Você tem que tomar café, ! – protestou quando se soltou de seu abraço e tirou o celular do carregador, jogando os dois dentro da bolsa aberta.
– A viagem é rápida, não se preocupe. – respondeu fechando a bolsa e pegou a pasta que estava sobre a poltrona. – E preciso de um favor.
– Pode falar.
– Você poderia, por favorzinho, dar um jeitinho de lavar essas roupas? Separadas das suas, claro.
– Seu pedido é uma ordem, mademoiselle. Quer que deixe prontas pra você levar pra Lille?
– Elas podem ficar também. – deu de ombros. – Só eu que não posso ficar agora, já estou mais do que atrasada.
– Avisa quando chegar, por favor. – pediu e assentiu, voltando a se aproximar e tirou os sapatos antes de passar os braços ao redor do pescoço dele e dar um sorriso.
– Prefiro quando estamos da mesma altura.
– Eu também. – deu um sorriso arteiro antes de juntar os lábios aos dela no tradicional beijo de despedida quando ela precisava ir embora e ele ficava naquela casa enorme sentindo sua falta.
– Nos vemos em alguns dias. – falou separando os lábios dos de , antes que ficasse irresistível demais e ela acabasse cdo ao pedido e ficasse mais um dia ali.
On est fait l’un pour l’autre. – falou observando se afastar para resgatar a bolsa e a pasta.
A toi pour toujours. respondeu, mandando um beijo de longe e saindo.

voltou a deitar em sua cama e encarou o teto. Sozinho. De novo. Aquela casa parecia vazia demais sem , ainda que ela não estivesse ali todos os dias e só tivesse passado a frequentar aquela casa há três meses e, mesmo assim, com poucas idas. Ainda que ele morasse ali há seis anos. já tinha roupas por ali, deixava seu perfume nas roupas dele, nos lençóis, nas almofadas do sofá…
Havia perfumes, cremes e maquiagem de em seu banheiro, tudo naquela casa, agora, indicava que uma mulher fazia parte da vida dele. Havia… felicidade. Era possível perceber isso nos móveis que não foram mudados de lugar, nas paredes que permaneciam da mesma cor de sempre, na decoração simples que ele tinha escolhido logo que chegara em Londres há seis anos.
Até mesmo seu cachorro estava sob o efeito de . Ele a adora! Fica tão ou mais ansioso que quando está para chegar, quando ela chega o cachorro só tem olhos e carinhos para ela e quando é hora da francesa partir, fica tão desolado quanto o dono, como se nunca tivesse vivido tanto tempo antes do regresso de .
Ouvindo o estômago roncar alto, se obrigou a sair da cama, teria que se virar para fazer o café da manhã (se é que o tomaria em casa), porque sempre que estava na cidade ele dava folga à empregada para terem mais momentos à sós e agora estava sozinho, sem namorada e sem café da manhã. Após uma passada no banheiro, seguiu até a cozinha e encontrou o cachorro deitado num canto, com o olhar desolado de quem já estava sentindo falta de .

– Eu te entendo, companheiro. Eu te entendo. – brincou. – Preciso comer, não sei fazer nada, então vou te dar a sua ração e ir comer no Chelsea.

🇫🇷 💙 🇧🇪
– Você está com uma cara péssima. – Cesar Azpilicueta falou quando se aproximou.
foi embora ontem.
– Ela ficou pouco dessa vez.
– Tinha que trabalhar e precisou ir embora. E não volta antes do Natal.
– São só quinze dias, se você ficou dez anos, consegue aguentar quinze dias.
– Quem dera se fosse fácil assim. – suspirou. – Infelizmente é bem mais difícil agora, principalmente porque já ficamos separados por dez anos.
– Você já propôs que ela venha pra cá de vez?
– Já, mas ela gosta de trabalhar e se vier pra cá as coisas não serão assim, então eu não vou insistir, é egoísta demais querer que ela largue a vida dela e venha pra cá ser minha namorada e nada além disso. Estamos fazendo dar certo, só é ruim sentir tanta falta de estar junto dela com mais frequência.
– Você apaixonado é uma das coisas mais engraçadas do mundo. – Azpilicueta caçoou.
– Cala a boca.
– Vocês vão resolver isso, eu sei que vão.
– Tomara que com o tempo as despedidas fiquem mais fáceis.
– Não ficam, mon frère. Não ficam. – Azpilicueta abraçou o amigo pelos ombros.
– Nesse momento eu precisava de uma mentira que me confortasse e me desse um pouco de esperança e não da verdade dolorosa. – deu uma risadinha e abraçou o espanhol pelos ombros também.
– Adri e eu queremos que vocês jantem conosco. Ela adorou a .
– Antes fosse só ela.
– Sei que o papo está ótimo, mas vocês dois poderiam parar de apenas falar e ir treinar enquanto falam? – Gianfranco Zola, auxiliar técnico, apareceu e se enfiou no abraço dos dois, os abraçando pela cintura.
Seu tom era amistoso e ele sorria.
– Sim senhor. – Azpilicueta respondeu sorrindo. – O belga apaixonado precisa de um incentivo a mais, caprichem no trabalho dele hoje.
– Filho da p… – começou a dizer, mas os outros dois saíram andando e rindo e o deixaram para trás.

🇫🇷 💙 🇧🇪
– Tá tudo bem aí, ? – ouviu a fala em francês e ergueu os olhos, encontrando Olivier Giroud parado à sua frente.
– Tudo bem, cara. Só estou esperando minha namorada responder minha mensagem, aí posso ir embora tranquilo, já que não vou mexer no celular até chegar em casa e o trânsito vai me fazer demorar, eu tenho certeza.
– É aquela da carta? – Giroud perguntou e assentiu. – Dez anos e as coisas continuam iguais?
– Melhores, eu diria. – sorriu.
– É o charme francês, somos inesquecíveis. – Giroud brincou, fazendo rir.
– Você eu não sei, mas a realmente é inesquecível.
– Estamos no mesmo time há pouco tempo, mas ela te fez ficar mais… feliz. Vejo você sorrir mais, falar mais… – Giroud falou e deu um sorriso sem graça. Não tinha como discordar, afinal, era verdade. – Retrouvailles. – concluiu dando um sorriso e sorriu mais abertamente, voltando a assentir.
Era a maior de todas as verdades do mundo e ele não poderia contestar nem se quisesse.

“On est fait l’un pour l’autre” (Somos feitos um para o outro) e “A toi pour toujours” (Seu para sempre) são expressões usadas por casais e elas se completam, normalmente quando um fala a primeira, o outro fala a segunda e vice-versa.

Nota da Autora: Gordinho belga sendo fofo e lindo e surpreende um total de zero pessoas. Queria ser Louise, sinceramente…
Aqui tem o grupo do Facebook e aqui o do WhatsApp.
Vocês também podem me seguir nesse perfil do Instagram ou no Twitter (mas aqui eu só surto por futebol, bandas e xingo determinados presidentes não disse quais).
Espero que tenham gostado e não esqueçam de comentar.

Trois

“Exibida”, dizia a mensagem que tinha enviado à , respondendo a foto que a amiga tinha lhe mandado: estava ao lado de N’Golo Kanté e com a camisa devidamente autografada.
tinha retornado a Londres logo após a audiência e estava a caminho da casa de depois da derrota do Chelsea para o Leicester no Stamford Bridge.
A primeira derrota em casa naquela temporada.
Ela sabia que estaria frustrado, tinha jogado muito bem, o time até tinha se esforçado, mas sem a efetividade necessária para vencer o jogo e acabou derrotado por um time que não vencia há algum tempo no campeonato e entrou mais motivado em campo. A derrota afastava mais um pouco o Chelsea dos primeiros colocados e sabia como estaria por causa daquilo.
Ele voltaria de carona com a família de Azpilicueta, conforme o combinado, então os dois apenas se encontrariam em casa, o que lhe dava tempo de tentar recordar como lidar com um frustrado após uma derrota.

Lille, 16 de Agosto de 2008
– Você vai ficar aí, emburrado, ao invés de vir deitar no sofá com sua namorada e assistir um filme bem legal? – perguntou e soltou um grunhido frustrado.
– Vou.
– Ah, mon amour, esquece isso. Perder faz parte. – falou, levantando-se do sofá e foi até que estava sentado no chão, longe dela.
– É a segunda rodada e não conseguimos ganhar nenhum jogo! Empatamos com o Nancy e perdemos pro Rennes! E eu nem mesmo entrei em campo, mesmo sabendo que eu podia entrar e ajudar o time!
, eu como torcedora do Lille fico agradecida que você fique frustrado com os resultados ruins e que queira mostrar seu melhor, mas não há nada que você possa fazer pra mudar o que aconteceu, apenas continue trabalhando forte e você vai conseguir se firmar como titular e se tornará um grande ídolo com um nome amado e respeitado aqui.
– Não é tão fácil assim. – suspirou, aninhando-se ao abraço da namorada, que lhe deu um beijo no rosto. – Eu fico me sentindo um inútil quando isso acontece. Eu tenho potencial e sei disso, mas ficar no banco vendo o time ser atropelado dentro de casa é ridículo!
– É ridículo, realmente, mas passou. Agora é concentrar nos próximos jogos e ter atuações de gala nos treinamentos pra convencer o Rudi de que você merece uma chance no time titular.
– Você tem razão, mas eu estou puto. – falou num tom quase mimado e o apertou em seu abraço.
– Então fique puto ali, no sofá, vendo filme comigo. Faz tempo que não somos apenas nós dois e eu estou sentindo falta disso. – deu um sorriso e sorriu de volta.
Que diabo aquela garota tinha que era capaz de mudar suas emoções tão fácil e sem esforço algum?
– Você sabe como cuidar do seu namorado e fazer com que ele mude de humor.
– Isso porque eu nem mencionei que fiz bolo de chocolate pra você. – piscou.
– Você é o amor da minha vida, .

Flashback OFF

Quando estacionou o carro à porta da casa, ainda não tinha sinais da chegada de , mas sabia que provavelmente ele demoraria, já que poderia ter sido sorteado para o doping e talvez concedesse uma entrevista para algum canal de TV ou até mesmo para a Chelsea TV. Ele podia, até mesmo, ir à casa dos Azpilicueta e ficar lá por um tempo antes de ir pra casa.
Até o cachorro parecia desanimado naquele dia, nem a chegada de o fez se empolgar, tinha continuado deitado e a observava se mover pela cozinha, procurando o necessário para fazer um bolo. Sabia que gostava e, naquele momento, mimá-lo parecia uma boa ideia, ele tinha feito uma excelente partida e merecia.

– Se você ficar me olhando com essa cara triste, vou começar a achar que arrumou uma nova namorada e você gosta mais dela do que de mim, Eliot. – falou para o cachorro, que permanecia deitado enquanto ela passava massa do bolo da travessa para a forma em que colocaria no forno. – Vou colocar uma música legal pra gente cantar e dançar enquanto esse bolo assa, quero sua animação, preciso de companhia pra melhorar o humor de .

Eliot continuou quieto e a observou colocar a forma no forno, ir até a sala, colocar “Sur Ma Route”, do rapper Black M, para tocar alto. O cachorro, um pequeno poodle branco, a olhou curioso, quando ela retornou à cozinha e lhe direcionou um sorriso.

– Sur ma route, oui, il y a eu du move, oui, de l’aventure dans l’movie. Une vie de roots. Sur ma route, oui! Je n’compte plus les soucis de quoi devenir fou, oui! Une vie de roots. cantou junto com a voz do rapper francês e isso fez com que o cachorro se animasse um pouco. – Então você gosta quando eu canto em francês?

estava demorando, ela percebeu, mas podiam estar presos no trânsito ou ter ficado na casa de Cesar por um tempo antes de ir para casa, o que deu a o tempo de cantar algumas músicas e dançar acompanhada de Eliot, que parecia ter se libertado de toda a preguiça e agora pulava e latia animado ao redor de . Ela ainda teve tempo de tirar o bolo do forno e desenformá-lo.
Quando a porta se abriu, anunciando que finalmente estava em casa, estava cantando animadíssima ao som de OMG, de Camila Cabello. Ela não o viu parado a observando cantar animada, dançando pela cozinha enquanto Eliot pulava e latia ao seu redor.

I got that la la la like, pull up, pull up, pull up straight from Tokyo. You cannot believe it when we come through. Woo, my God, you look good today. Woo, my God, you look good today… – ela cantou, rebolando e deu um sorriso ao ver a cena.

Dez anos passaram, mas continuava a mesma coisa em sua essência. Era a mesma garota que tinha deixado para trás, em Lille, quando terminaram o namoro há dez anos, só estava mais velha, formada, trabalhando com o que ama e um pouco mais alta.
Eliot viu primeiro e latiu animado para o dono, atraindo a atenção de , que parou de dançar e o olhou por alguns segundos, sem sentir vergonha por estar dançando animadíssima na cozinha junto com o cachorro e depois do time do namorado ter perdido em casa pela primeira vez na temporada.

– Podem continuar, eu estava adorando. – deu um sorrisinho de lado e piscou para ele.
– Prefiro que o único som agora seja o da sua voz. – respondeu, indo até a sala para desligar a música, voltando logo em seguida. – Fiz bolo.
– Imaginei que faria, e foi por isso que eu recusei a proposta de ficar na casa do Cesar para comer. – sorriu, abraçando pela cintura.
– Não vou fazer um discurso clichê, pode ficar puto com a derrota, porque eu também fiquei. E muito.
– Gosto da forma como você pensa. – riu, dando um beijo em seu rosto e sorriu.
– Vamos comer bolo e aproveitar as últimas horas sozinhos antes da minha atenção se voltar para Elayna, a coisinha mais linda da família .
– Ei! A coisinha mais linda da família sou eu. – resmungou, fazendo dar um sorriso.
– Seria seu sonho, . – provocou, soltando-se do abraço do namorado para ir até a mesa, onde o belo bolo os esperava.
– Você sabe que a coisinha mais linda da família sou eu.
– Eu prefiro o Ethan.
– Mentirosa.
– Amanhã preciso buscar meus pais no aeroporto bem cedo e minha mãe quer conhecer a cidade. – falou quase derrotada.
– Eu te contei que o Cesc vai embora?
– Sério? – perguntou chateada. – Eu gostei bastante dos filhinhos lindos e a esposa dele, além de linda, é muito legal. E ficou de me apresentar o Messi.
– Quem precisa de Messi quando se tem em carne e osso dormindo na mesma cama, hein? – perguntou presunçoso.
, cala a boca. – disse rindo. – E pra onde ele vai?
– França.
– A França é um país relativamente grande, sabe? Seja específico.
– Mônaco.
– Ah, pra longe. – murchou. – Que pena. Realmente gostei deles.
– É, ele é um cara fantástico, a família dele também.
– O cara que te deu mais assistências pra gol em toda sua carreira, certo?
– Certíssimo. – confirmou, partindo uma fatia de bolo e enfiando um pedaço grande na boca. – ‘fá ‘felifiofo.
– Eu sei, eu que fiz.
– Você é o amor da minha vida, . – falou, dando um sorriso cheio de bolo nos dentes, fazendo rir.
– Eu sei. – repetiu, sorrindo. – Agora, você come e nós vamos passar nossas últimas horinhas juntos assistindo a um bom filme.
– Espero que você esteja dizendo que vamos transar muito. – falou, dando uma garfada no bolo e fazendo gargalhar.
– É isso mesmo que eu quis dizer.

🇫🇷 💙 🇧🇪
– Você veio pra ficar? – Adriana perguntou para , enquanto Adriana trocava a fralda do novo herdeiro da família.
– Só até dia oito. – respondeu, franzindo o nariz numa careta.
– Ainda não resolveu vir mesmo?
– Ah, eu gosto muito do meu trabalho e não consigo vir pra cá pra trabalhar com o que faço. – respondeu um pouco chateada. – Mas é horrível, porque passo muitos dias longe e poucos dias perto. Eu tive que fazer um malabarismo enorme pra conseguir ficar aqui todos esses dias e, pelo visto, não devo aparecer aqui até fevereiro.
– Tudo isso? – Adriana perguntou surpresa.
– Infelizmente. – suspirou e pegou o bebê no colo. – Queria que fosse mais fácil, mas não tem como fazer isso. Não pra continuar trabalhando com o que gosto.
– E é sem chance que ele vá pra França…
– Provavelmente ele vá pra Madri, mas é bem mais distante que Londres. – falou num lamento. – Queria que ele ficasse aqui, gosto mais do Chelsea.
– Acho que todos querem. – Adriana deu uma risadinha e as duas saíram do quarto, voltando para a sala.
– Já treinando, ? – Cesar perguntou, dando um sorriso brincalhão para a mulher, que vinha pelo corredor com seu filho no colo.
– Ela até me avisou esses dias que se eu não fizer filhos bonitos feito os seus, eu terei problemas. – falou, fingindo-se de ofendido, e sentou-se ao seu lado.
– Não menti. – ela deu de ombros. – São todos muito bonitos e se não for assim, melhor nem fazer.
– E você veio pra ficar em definitivo, ?
– Quem dera. Volto pro trabalho quando o recesso forense acabar. Não sei quando volto, não deve ser antes de fevereiro.
– Vai matar o belga do coração. – Cesar falou, recebendo um praguejar em francês do amigo.
– Não fale assim com seu capitão, . – implicou, fazendo rolar os olhos e estender os braços para pegar o bebê, que o olhou, mas não aceitou o colo, virando-se para o pai e estendendo os bracinhos. – Pronto, você fez a criança me trocar pelo pai.
– Vamos fazer alguns nossos. – ele respondeu, abraçando-a pelos ombros.
– Adri, você poderia ir me visitar… – sugeriu, recebendo um aceno animado da mulher. – Quando eles viajarem, pegue as crianças e vamos aproveitar.
– Lille é tão bonita quanto Marseille?
– É sim, mas não tem aquele clima mediterrâneo gostoso. Porém é uma cidade linda, acho que você e as crianças vão gostar.
– Nós estamos aqui, caso tenham esquecido. – César falou, fazendo Adriana e rirem.
– Pois estão sendo excluídos do nosso encontro. – Adriana respondeu, abanando a mão em descaso.
– Teremos folga delas, mon frère. – deu uma risadinha. – Mas, agora, precisamos ir. Minha casa está cheia de gente e eu larguei todo mundo lá pra vir aqui.
– São seus pais, , tenha dó. – Cesar falou, rolando os olhos.
– E meus irmãos.
– E a coisinha mais linda da família. A Elayna. – falou rapidamente, antes que pudesse fazer piadinha sobre. – E não precisamos voltar agora pra casa, deixa de ser chato.
– Tudo bem, você fica e eu vou. – deu de ombros. – Meu pai queria conversar comigo e como eu posso até não ser a coisinha mais linda da família , ainda sou a coisinha mais importante.
– Coitado, tão iludido… – implicou, recebendo um selinho de . – Vou embora daqui a pouco, preciso buscar meus pais cedo e quero ir apertar a Elayna mais um pouco.
– Estou com ciúmes.
– Problema seu. – deu de ombros, fazendo os amigos rirem.
Recebeu um outro selinho antes de ir embora pelo curto caminho que separava as duas casas.

🇫🇷 💙 🇧🇪
– Nossa, que casa grande! – Jay falou quando estacionou o carro em frente à casa de .
– Mãe, por favor, não fique comentando sobre isso.
– Eu não vou. – Jay respondeu entediada. – Os pais dele já chegaram?
– Chegaram ontem à noite. – assentiu. – Pai, o senhor fala?
– É um belo lugar para morar. – Tom falou, observando a vizinhança.
– É. Aqui é realmente lindo. – concordou. – Londres é uma cidade muito bonita.
– Já está pensando em trocar Lille por Londres? – Jay perguntou quase provocativa.
– Talvez. – respondeu em um tom casual, dando de ombros. – Agora, vamos entrar, porque eu já me cansei de ficar na chuva.
– Aqui sempre chove assim?
– Em alguns sim, em outros não. – voltou a dar de ombros, tirando a chave do bolso e abrindo a porta da casa.

A sala estava ocupada por Eliot, Elayna, Thorgan e Thierry estavam ali. Provavelmente , Ethan e Kylian estivessem jogando videogame no andar de cima, se é que não tinham ido para a casa de Cesar, eram todos muito amigos e quando estavam na cidade, sempre acabavam juntos para conversar e jogar videogame. Carine e Marie, sabia, estavam na cozinha terminando de aprontar as coisas para a ceia.
levou as malas dos pais para um dos quartos de hóspedes e os deixou na sala conversando com a família de , estavam entretidos em colocar a conversa em dia e se atualizarem sobre as novidades uns dos outros depois de tanto tempo.

– Onde estão os três bebês da família? – perguntou quando entrou na cozinha.
– Estão na casa do Azpilicueta, claro. – Carine respondeu em tom óbvio. – Resolveram fazer um campeonato de videogame hoje, porque amanhã de tarde eles vão treinar e de manhã embarcam pra Watford.
– Vocês vão ao jogo? – perguntou, indo até a bancada e recomeçando seu trabalho na ceia que ajudava a preparar.
– Eu volto pra casa amanhã no fim do dia com Thorgan e Elayna. – Marie respondeu.
– Thierry e eu não vamos, mas ficamos aqui até o dia 28 com Ethan. Você vai?
– Não. Vou ficar por aqui, levar meus pais para conhecerem a cidade e essas coisas. E, claro, vocês estão mais do que convidados. – respondeu, cortando uma cenoura em rodelas grossas. – Eles ficam aqui até o dia vinte e oito também. Eu fico até o aniversário do e depois volto pra casa.
– Você não sente vontade de ficar permanentemente? – Marie perguntou, desviando o olhar do pato que começaria a rechear em instantes.
– Sinto. – suspirou. – Mas tenho meu trabalho por lá e realmente gosto do que faço e largar tudo… é difícil.
– Imagino. – Marie respondeu. – Quem ficou responsável pela sobremesa?
– Eu. – respondeu. – Já está pronta, na geladeira. E eu preciso dizer que na França a gente não costuma comemorar nada na véspera de Natal, então pra mim isso é uma novidade muito boa.
– O que vocês estão fazendo? – Jay apareceu na cozinha.
– A ceia de Natal. – sorriu.
– Posso ajudar em alguma coisa? Eles estão falando de esportes e eu odeio esportes. – Jay fez uma careta, recebendo algumas risadas e um convite mudo para que se juntasse ao grupo.
– Então, eu fiz a sobremesa. La bûche de Noël. Espero que vocês gostem, porque eu achei que ficou realmente gostoso.
– Confio em você. – Carine respondeu. – Pois bem, o pato está sendo recheado e será assado em instantes, fizemos alguns petiscos, a sobremesa está pronta e temos vinho e suco…
– Então podemos descansar. – Marie respondeu, enquanto terminava seu trabalho. – Bom, eu posso descansar daqui a pouco.

Antes que pudesse falar alguma coisa, viu a tela do celular acender com a mensagem recebida e leu pela notificação a mensagem de , dizendo que chegariam em casa em alguns instantes e poderiam se arrumar para a ceia de Natal, receberiam a família Azpilicueta para o momento e sorriu.
Um pouco depois a casa estava mais barulhenta com a chegada dos três irmãos , que falavam sem parar e riam de alguma piada interna. Dividiram-se em seus quartos para aprontarem-se para a ceia de Natal, que não poderia acabar tarde, já que e Cesar precisavam treinar de manhã cedo no dia seguinte.
estava feliz por compartilhar, novamente, aquela data com pessoas tão especiais e a quem queria tão bem. Seus pais estavam muito bem enturmados, como sempre, e conversavam com todos sem nenhum problema, ainda que tivessem alguma dificuldade de comunicar-se com Azpilicueta que não dominava tanto assim o francês, mas arriscava uma ou outra palavra e conseguiam conversar.
Passava da uma da manhã quando a casa ficou totalmente silenciosa, cada qual em seu quarto para que pudessem dormir. Os presentes tinham sido trocados, além de muitas risadas que foram dadas, sorrisos e abraços.
Retrouvailles.
E com esse pensamento, adormeceu.

🇫🇷 💙 🇧🇪
– Nem acredito que vou passar o ano novo em Marrakesh! – falou empolgada, fazendo rir.
– Queria te levar pra Casablanca e falar “we’ll always have Paris”, mas o clima não estava tão agradável e pelo que deram na previsão do tempo, o céu ia ficar nublado agora a noite.
– Esse aqui já é um excelente local pra passarmos o nosso primeiro ano novo juntos depois de tanto tempo. – respondeu, terminando de colocar o brinco.
– Você está tão linda com esse vestido. Realça a cor dos seus olhos.
– Vocês jogam em Londres depois de amanhã?
– Sim, contra o Southampton. Você vai?
– Não nos camarotes, gosto de ir na torcida.
– Claro, claro. – deu uma risadinha antes de voltar a juntar os lábios aos de num selinho rápido.
– A vista daqui é linda. – falou, observando a Mesquita Koutoubia, pela janela da ampla suíte, além da visão privilegiada das montanhas do Atlas.
– Eu queria a suíte do último andar, mas algum exibido chegou primeiro. – respondeu em tom emburrado.
– Aqui está perfeito, mon amour. – sorriu. – Vamos descer ou vamos acabar passando a virada de ano dentro do quarto.
– Pra mim parece uma ideia bem interessante. – o sorriso cheio de segundas intenções do jogador fez com que risse.
– Sem chances, meu amor. Quero ver os fogos. Podemos vir pro quarto depois disso tranquilamente.
– Então vamos. – estendeu a mão para a namorada e os dois saíram da enorme suíte em que estavam hospedados desde a noite anterior.
Assistiriam à queima de fogos naquele dia, depois de terem ficado acordados a noite inteira para assistir ao nascer do sol, passearam um pouco pela cidade e voltaram para o hotel para descansar um pouco antes de assistirem aos fogos. Voltariam para Londres pela manhã seguinte, já que treinaria na parte da tarde.
Os dois saíram do hotel e seguiam para a Jemaa El-Fna, um dos pontos turísticos mais conhecidos de Marrakesh, onde a queima de fogos aconteceria à meia noite, além da quantidade enorme de barracas de comida estariam abertas para aproveitar o grande fluxo de turistas na cidade.
– Vamos evitar as aglomerações, por favor.
– Isso vai ser difícil, ma belle, mas podemos tentar. – respondeu, já observando o intenso movimento de pessoas na rua e que pareciam se encaminhar para o mesmo local que eles.
Os dois comeram algumas coisas e faltando cerca de cinco minutos para a chegada de 2019, resolveram procurar por um lugar para assistirem aos fogos. Não seria uma das melhores vistas para o show, mas conseguiriam assistir a tudo e, numa eventual necessidade de saírem rápido do local, não teriam problema.
entrelaçou os dedos aos de e apertou levemente a mão do namorado quando a contagem regressiva começou a ser feita. Várias pessoas, diversas nacionalidades, reunidas naquele local esperando pela chegada do novo ano, que demorou poucos segundos para ser anunciado pelo show de fogos que começou.
virou-se para e a beijou, da mesma forma apaixonada de sempre, com o mesmo amor e devoção que sempre reservava para a amada e ela lhe beijou da mesma forma. Aquele beijo de meia-noite era, para os dois, a coisa mais preciosa que acontecia em anos, simbolizava a grande expectativa de um ano inteiro juntos, aproveitando cada segundo e construindo, novamente, uma vida de casal.
Mentalmente, enquanto ainda se beijavam, os dois agradeciam por terem crescido e amadurecido, por terem se permitido tentar de novo e por estarem fazendo dar certo, mesmo que em países diferentes e passando alguns bons dias sem se ver. O amor era o que os mantinha juntos, o que os manteve juntos durante todos esses anos, ainda que separados.

– Você fez um pedido de ano novo? – perguntou quando se separaram e deu um risinho antes de lhe dar um selinho.
– Meu pedido de ano novo chegou em setembro. – respondeu, dando um sorriso para a namorada.

não respondeu, apenas voltou a beijá-lo. E aquilo confirmava para o que ele já sabia: ela também tinha recebido o seu melhor pedido quando resolveram tentar de novo.

Nota da Autora: Eu sou a pessoa mais rendida por esses dois que existe nesse mundo e nada e nem ninguém pode me provar o contrário!
Aqui tem o grupo do Facebook e aqui o do WhatsApp.
Vocês também podem me seguir nesse perfil do Instagram ou no Twitter (mas aqui eu só surto por futebol, bandas e xingo determinados presidentes não disse quais).
Espero que tenham gostado e não esqueçam de comentar.

Quatre

– Precisa de carona, belga aniversariante? – Azpilicueta perguntou e soltou um resmungo, assentindo em seguida.
me mandou mensagem falando que já foi embora e não vem mais. – resmungou num tom infantil, fazendo o capitão rir.
tem meu respeito. – César falou rindo, destravando o carro e logo os dois estavam no veículo, afivelando os cintos.
– Dois idiotas. – reclamou.
– Ela não ia ficar até amanhã de manhã?
– Ia, mas ligou e ela precisou ir embora. – deu de ombros.
– Dessa vez ela ficou muito, não reclame.
– É, mas queria que ela ficasse mais tempo. Tipo pra sempre. – respondeu, fazendo César gargalhar e buzinar em despedida ao porteiro.
Pararam por alguns minutos para fotos com alguns torcedores que estavam na saída de Cobham e logo estavam a caminho do condomínio em que vários dos jogadores do Chelsea residem pela proximidade ao centro de treinamento.
– A única forma da ficar pra sempre é se você fizer o Direito mudar aqui na Inglaterra e o Reino Unido não sair da União Europeia.
– Se eu pudesse, faria isso. – resmungou. – Preciso de uma folga pra ir passar uns dias com ela lá em Lille, apesar de ser bem mais fácil pra ela vir pra cá.
– Haja dinheiro de passagem.
– Ela gosta muito de vir, porque consegue adiantar coisas do trabalho durante o voo e aqui podemos ficar juntos sem problemas.
– Alguém nesse namoro tem que ser inteligente. – Azpilicueta implicou, fazendo rir.
– Claro, claro. – resmungou e Azpilicueta logo estacionou o carro à porta da casa do belga. – Quer entrar, cara?
– Você tá tão carente assim que precisa que eu entre e te faça companhia?
– Vá pro inferno. – respondeu, fazendo César gargalhar.
– Tudo bem, só preciso avisar pra Adri que não vou pra casa agora, porque senão ela fica preocupada.
– Ai meu Deus, que fofo o bebê. – caçoou do amigo, enquanto o espanhol digitava uma mensagem no celular.

Os dois soltaram os cintos e seguiram pelo curto caminho até a porta. observava a fachada da casa, triste e totalmente apagada, sem nenhuma alegria de chegar após um dia de treino. Tivera dias ótimos com lhe recepcionando todos os dias com abraços e beijos, perguntando sobre seu dia e indo aos jogos em Londres.

– Quer comer alguma coisa? Acho que ainda tem do bolo que a fez ontem. – ofereceu, fechando a porta de casa após Azpilicueta entrar.
– Pode ser.
– Então vem, lá na cozinha é melhor. – falou, seguindo pelo hall de entrada com o amigo em seu encalço.
– SURPRESA! – ouviu ao acender a luz da cozinha.
Havia balões por todo o cômodo, vários amigos, seus irmãos, pais e . Todos usavam chapéu de festa com uma foto dele, o bolo tinha uma foto dele fazendo a famosa celebração de escorregar pela grama sobre os joelhos e todos usavam uma camisa com seu nome e número, do Chelsea e da Bélgica.
– Você mentiu pra mim, . – estreitou os olhos ao falar com a namorada, que gargalhou e assentiu.
não teve tempo de receber a resposta, pois foi tomado por abraços de todos os presentes, que lhe felicitavam por mais um ano de vida e desejavam o melhor de todas as coisas para ele, que sorria agradecido, mas mantinha seu olhar sobre , que sorria e parecia aguardar pelo momento em que poderia abraçá-lo de novo para lhe parabenizar pelo aniversário.
– Posso te abraçar agora? – se aproximou, quando se aproximou de .
Alguém já tinha colocado música para tocar, bebidas (refrigerante, chá e suco, claro) estavam sendo distribuídas e os convidados já interagiam entre si.
– Claro, menteur. – implicou, sendo abraçado por , que lhe deu um beijo demorado no rosto antes de voltar a falar.
– Não me chame de mentirosa, eu só não falei a verdade pra não estragar a surpresa.
– Tudo bem, tudo bem. – resmungou, aspirando o perfume dos cabelos de e lhe deu um beijo na curva da mandíbula. – Você fica até amanhã?
– Sim, mas viajo cedo de volta pra Lille.
– E quando nós nos veremos de novo?
– Acho que no fim do mês, mas não sei. Tenho que conferir minha agenda, acho que não tenho tantas audiências assim.
– Queria que fizéssemos alguma coisa no dia dos namorados. Acho que já podemos começar a combinar, o que acha? – perguntou, erguendo o olhar para olhar nos olhos de e ela sorriu.
– Com você me olhando desse jeito, eu não posso negar nada.
– Então vem morar comigo.
– Não sou um cachorro que você acha na rua e coloca pra dentro de casa, mon amour.
– Se eu te pedir em casamento, você aceita?
– Você terá que pedir pra saber. – piscou, dando uma risadinha.
– Pois bem, você quer casar comigo? – perguntou e deu um sorriso antes de juntar os lábios aos de em um selinho demorado. – Isso foi um sim?
– Isso foi um “peça direito depois, você só está emocionado”. – implicou. – Vem, vamos comer um pouquinho.
– Como você conseguiu fazer isso sem que eu suspeitasse de nada? – perguntou enquanto seguia com até a mesa em que alguns petiscos tinham sido postos.
– Meu nome é , meu amor. Eu consigo tudo o que quero. – falou sem fingir modéstia.
– Eu concordo, porque conseguiu fazer até o N’Golo vir. – maneou a cabeça na direção do companheiro de clube, que estava acompanhado de Jorginho e Giroud em uma conversa a poucos metros do casal.
– Sou ótima, mon amour. – piscou. – E, em todo caso, você é meio tapado pra essas coisas.
– Eu não sou tapado!
– Amor, seu time quase inteiro está aqui, sua família, amigos e pessoas de quem você gosta. E você nem suspeitou. Ou seja, você é tapado.
– Estou retirando meu pedido de casamento de minutos atrás, . – implicou, fazendo rir e abraçá-lo pelo pescoço.
– Você não retiraria esse pedido nem se eu te matasse, mon amour.
– É, isso é uma verdade. – estalou os lábios, dando um sorriso vencido. – Mas só porque eu te amo muito, caso contrário, estaria retirado.
– Tudo bem, tudo bem. – lhe deu um selinho e um “eca” foi ouvido.
Carlota, uma das filhas de César Azpilicueta e Adriana, estava por perto e fez uma careta para o casal.
– Isso mesmo, filha. Eca. – César apareceu, tomando a garota nos braços e a menina o abraçou pelo pescoço.
– Deixe de ser idiota. – implicou, fazendo o amigo dar um sorriso.
– Quanto mais ela demorar a achar beijos na boca interessantes, melhor pra esse velho pai preocupado.
– Seu amigo quer saber como eu fiz isso sem que ele percebesse…
– Ele é tapado, foi por isso. – César falou, fazendo soltar um palavrão em francês e a pequena Carlota o olhou sem entender.
– Peça desculpas. – falou para , que fez uma careta e franziu o nariz.
– Desculpa, ma princesse. O tio falou algo que não deveria.
– Palavrão? – perguntou, fazendo uma feição assustada quando ele confirmou com um aceno. – Papai, tio tem que ficar de castigo.
– Tem. – César deu uma risada, sendo acompanhado pelos dois adultos.
– Mas, primeiro, vamos cantar parabéns pro tio . O que acha? – perguntou, estendendo os braços para a menina, que aceitou de bom grado e pulou para o colo da mulher.
– SIM! – comemorou animada. – Tia, tem docinho?
– Tem sim. E aquele bem gostoso que a tia fez pra você ontem também.
– EBA! – a menina abraçou de forma apertada e as duas saíram andando animadas, deixando os dois homens sozinhos.
– Fecha a boca, mon frère. Pare de babar pela forma como a mulher que você quer que seja a futura mãe dos seus filhos se comporta com outras crianças. – César implicou, abraçando pelos ombros e o belga sorriu.
– É impossível. – sorriu.
– Uma hora dessas e você babando pela ? – a voz de Ethan, o caçula dos , foi ouvida e o garoto logo apareceu perto do irmão.
– Novidade seria a hora em que ele não estivesse babando por ela. – César implicou, fazendo Ethan rir e rolar os olhos.
– Cuidem das próprias vidas. – resmungou, fazendo o irmão mais novo rir.
– Ei, vamos cantar os parabéns! – a voz de soou mais alta que as conversas paralelas e todas as atenções se voltaram para a mulher que ainda carregava a filha de César Azpilicueta em seu colo.
– É, eu quero bolo! – a menina falou, fazendo boa parte dos presentes rirem.
– Se a filha do capitão mandou, nos resta apenas obedecer. – Emerson Palmieri foi o responsável pelo comentário e logo estavam todos perto da mesa.

O bolo era simples que misturava vários tons de azul num degrade, as velas produziriam faíscas e atrás deles havia apenas uma faixa simples com um “Feliz Aniversário” escrito. A mesa tinha cupcakes, alguns docinhos e ornamentos, mas nada extravagante e que tivesse custado um absurdo. Era uma celebração simples, como quando faziam em La Louvière. Ou em Lille nos dias em que tinha apenas e os colegas de escola e time para lhe fazer companhia.
Rodeado de amigos que o queriam muito bem e que lhe desejavam apenas o melhor da vida, cantou os parabéns em inglês, um pouco em francês e em espanhol, com Carlota batendo palmas animada. Os pedaços de bolo foram servidos, junto com uma ou outra bebida para os convidados que ainda permaneciam na casa e a música animada foi a trilha sonora da tarde.
Passava das dez da noite quando a casa estava finalmente vazia, até mesmo os pais de tinham ido embora, e apenas o casal permanecia ali, acompanhados do cachorro que estava num estado entre acordado e muito sonolento e não dava a devida atenção. e , no sofá, bebericavam um pouco de vinho e comiam um pedaço de bolo.

– Esse bolo está ótimo. – falou, terminando de mastigar o doce.
– Também adorei. É de uma confeitaria no centro, achei bem fofinha da primeira vez que a vi e entrei. As coisas são deliciosas e eu estou oficialmente viciada, sempre levo coisas pra comer em casa quando venho.
– Ah! Então é por isso que você não me deixa ir com você pro aeroporto… – estreitou os olhos, dando um apertão na cintura de . – Quer comer tudo sozinha!
– Claro. Eu não sou uma atleta que precisa medir milimetricamente cada coisa que eu como, você tem que cuidar da ingestão de açúcar e essas coisas. – respondeu rindo e tentando desviar-se de . – E se você não for comigo, eu como sozinha.
– Egoísta. – reclamou, mordendo de leve a bochecha da namorada.
– Vou sentir falta de Londres quando você for embora.
– Eu estou indo embora? – perguntou, dando uma risadinha e o olhou quase entediada.
– Você sabe que sim. – ela respondeu, dando de ombros. – As pessoas aqui são ótimas.
– São. – concordou. – E gostam de você também.
– Queria poder ficar mais um pouquinho. – falou preguiçosamente, aninhando-se ao corpo de e ele a abraçou, fazendo um carinho em seu braço.
– Eu também queria, mas você precisa cuidar da França.
– Não devemos nos encontrar até a segunda semana de fevereiro. – suspirou, erguendo o olhar para . – Dia dos namorados. Acho que nem vai ser no dia, porque eu acho que você tem jogo.
– Tudo bem, ossos do ofício. – respondeu sem reclamar muito. – Mas, obrigado por ter ficado aqui no meu aniversário e ter feito essa surpresa maravilhosa.
– Queria ter feito algo maior, você merece, mas fico feliz que seus amigos tenham vindo e te prestigiado. Além de ter sido ótimo ficar com você todos esses dias, curtindo sua companhia e por poder aproveitar pra passar seu aniversário com você.
– Eu te amo. – falou, fazendo um carinho no rosto de e ela sorriu.
– Eu também te amo, lindinho.
– Agora vamos pra cama, porque você vai acordar cedo pra ir pra casa e eu pretendo ter uma despedida bem empolgante no meu aniversário. – falou, fazendo gargalhar.
– Então anda logo, vamos precisar de muito esforço pra queimar todo esse bolo que você comeu hoje, atleta. – provocou, ficando de pé e estendendo a mão para .
– Inclusive, quero comer mais.
– Sinto muito, mas eu vou levar tudo pra Lille.
– Você me odeia muito.
– Sim. – deu uma risadinha, beijando a ponta do nariz do belga e o abraçou. – Mas só porque te amo muito também.
– Isso nem faz sentido, mas tudo bem. – resmungou. – Vamos logo antes que você desista ou vá comer mais.
– Feliz aniversário, mon amour. – falou antes de beijar .

Antes que pudessem sair da sala e ir para o quarto.
Queria apenas beijá-lo, sentir o gostinho doce do bolo na boca dele e aquele gostinho doce de aniversário cada vez que estavam juntos.

Cinq

Se estava vendo aquele jogo lá em Lille, tinha certeza de que ela estava cogitando pegar um avião e ir parar em Stamford Bridge para socar cada um dos jogadores do time. “Menos no Kanté, é claro”, ela diria.
Após perder o primeiro jogo das semifinais para o Tottenham por 1 a 0, o time azul estava vencendo por 2 a 0, gols de e N’Golo Kanté, resultado que o classificava para a final sem nenhum impedimento. Mas, claro, o Chelsea gostava de adicionar um pouquinho de drama em todos os seus jogos e, obviamente, aquele era um jogo que precisava de um pouco de emoção. Mais do que o normal. Ou seja, logo no início do segundo tempo o atacante Fernando Llorente descontou para o Tottenham e o jogo estava dois a um. Dois a dois no agregado.
E um empate levaria o jogo para os pênaltis.
não estava exatamente preocupado com o que faria ou o que estava pensando, porque ele mesmo estava muito preocupado com o resultado daquele jogo. E mesmo correndo muito, tentando, chutando, fazendo de tudo um pouco, o placar não mudava e nem parecia disposto. Não conseguiam desempatar o jogo e resolver sem drama e sufoco. Ele queria que os companheiros reagissem também, mas suas jogadas por vezes eram mais ágeis que os pensamentos alheios e ele acabava sem muito sucesso.
Queria um golzinho só.
Apenas um.
Sem sufoco.
Queria ir praquela final e ter a chance de vencer um título naquela temporada.
Pelo menos um.
Mas o gol não veio no tempo regulamentar e nem nos acréscimos.
Pênaltis.
Tudo bem, estavam em Stamford Bridge e tinham sua torcida a favor, o peso estava sobre os ombros do Tottenham, mas o Chelsea bem que podia ter sido mais incisivo e aumentado aquele placar ao invés de irem para os pênaltis.
Mas, tudo bem, não adianta chorar os gols desperdiçados.
Agora é torcer pra não desperdiçar mais.
Não desperdiçariam. Confiavam em Kepa, um excelente goleiro e que tinha chegado pra suprir a ausência de Thibauth Courtois, e pra melhorar o sistema defensivo do time blue. O garoto vinha mostrando-se absolutamente confiável e seguro em suas defesas e atuações, então tinham esse ponto positivo.
nem mesmo teve a chance de cobrar um dos pênaltis, porque Kepa defendeu duas cobranças do time do Tottenham – vindas de Eric Dier e Lucas Moura – e o Chelsea não perdeu nenhuma das cobranças. Quatro a dois.
Estavam na final da EFL Cup.
Ligaria para quando chegasse em casa, por enquanto queria apenas comemorar com os companheiros de equipe aquela ida para uma final de taça. queria ser campeão e não se importava se considerassem aquele campeonato como algo pequeno. Qualquer vitória é uma vitória.

– Eu estou morto. – Azpilicueta reclamou, recostando-se no banco do carona e deu uma risadinha.
Estava no banco de trás da caminhonete, tinha como companhia as duas crianças mais velhas do amigo, enquanto Adriana era a responsável por conduzi-los até o condomínio.
– Nem fala. Eu acho que não vou conseguir passar do sofá hoje. – respondeu.
– Vocês correram muito. – Adriana falou por alto. – E a ?
– Está bem. Nos falamos mais cedo hoje e ela disse que estava bem.
– Tenho certeza que se ela viu esse jogo, ela vai estar na sua casa assim que chegarmos até lá. – Azpilicueta disse, dando uma risada.
– É provável mesmo. – deu uma risadinha. – Mas acho que ela tinha uma audiência hoje, ela falou algo sobre isso e soltou algumas coisas que eu não entendo, mas finjo que sim pra ela ficar falando mais tempo.
– A tia vai demorar a voltar, tio? – Carlota perguntou e assentiu, fazendo um bico emburrado.
– Vai sim, ma princesse. – respondeu. – Acho que mais uns vinte dias, pelo menos.
– E você vai ter uma síncope. – Azpilicueta implicou, rindo, e soltou um suspiro sentido.
– Eu até discordaria, mas é a verdade. – resmungou. – Fiquei muito mal acostumado com a por perto tanto tempo e agora meus dias se resumem treinar e sentir falta dela.
– Inclusive, amanhã à tarde vou de carona com você. – César falou quando entraram no condomínio.
– Por quê?
– Porque eu quero. – o espanhol respondeu, dando de ombros. – É porque a Adri vai precisar do meu carro e eu detesto dirigir esse aqui.
– Tudo bem, eu aceito esse encargo. – implicou. – Adri, você fica me devendo essa, acertaremos depois.
– Já estamos acertados, você está de carona hoje. – Adriana respondeu, parando o carro à frente da casa do belga. – E eu ainda passei pela minha própria casa apenas para deixar você na sua.
Touché. – respondeu dando uma risadinha. – Agora eu vou embora pra casa alimentar meu cachorro, ligar pra minha namorada e me preparar mentalmente pra ter a companhia desse espanhol chato amanhã.
– Tchau tio! – Carlota despediu-se animada, dando um beijo no rosto do belga, que se despediu da menina com a mesma animação.
– Vejo você amanhã, Dave. – falou, saindo do carro. – Obrigado pela carona, Adri.
– Cuide bem do meu marido amanhã. – Adriana implicou, buzinando em despedida e seguiu até sua casa.
Alimentou Eliot, deitou-se em sua própria cama e ligou para , que demorou a atender e apareceu com uma toalha enrolada no cabelo e uma máscara preta no rosto.
– Oi mon amour.
– Tudo bem, linda?
– Sim e você?
– Tudo ótimo. Você viu o jogo?
– Não. Eu estava trabalhando, alguém aqui tem que fazer isso. respondeu, fazendo rir. – Mas vi o resultado, parabéns pela classificação.
– Obrigado.
– Mas foram pros pênaltis… vocês fizeram algo errado.
– Claro que fizemos. É o Chelsea, não existe um dia normal nesse time. – deu uma risada, fazendo rir junto.
– Ainda bem que o Lille não me fez raiva essa semana.
– Nós saímos na frente, fizemos dois gols, mas deixamos o Tottenham fazer um e acabamos indo pros pênaltis, perdemos o primeiro jogo por um a zero.
– Entendi, mas ainda bem que estão na final! Quero um ingresso pra ir, obrigada.
– É óbvio! Você é meu amuleto.
– Amorzinho, você vai se importar se eu desligar? Preciso ir até a casa dos meus pais antes de ir encontrar com Claire e algumas das pessoas que estudaram comigo. E, como você pode ver, eu não estou nem mesmo 10% pronta pra sair de casa, ainda estou fazendo um skincare de leve…
– Sem problemas, mon amour. Conversamos amanhã.
– Boa noite, mon petit. Je t’aime.
Je t’aime à l’infini. – respondeu, mandando um beijo para a imagem da namorada que logo desapareceu da tela do celular.

Não queria ter encerrado a ligação tão rápido, mas entendia que ela tivesse seus compromissos e não pudesse passar toda a noite em uma chamada de vídeo. Ele mesmo não podia, mas era a forma que tinha para aliviar um pouco da falta que sentia de em casa.
Eliot subiu na cama, deitando-se sobre o dono, que lhe fez um carinho e olhou para o pequeno cachorro, mas não falou, apenas ficou ali acariciando o cachorrinho e tentando pensar no que fazer até a hora de dormir. Estava cansado, mas não podia dormir tão cedo, mesmo que soubesse que precisaria acordar cedo no dia seguinte pra correr.

– Queria que ela viesse morar aqui, pulguento. – resmungou, recebendo um olhar curioso do cachorro. – Mas é egoísmo demais pedir pra ela deixar a vida dela toda na França pra vir pra cá ser apenas a minha namorada. Às vezes eu penso em ir pro PSG, apenas pra ficar mais perto dela, mas não vale a pena pela parte da minha carreira… é difícil, pulguento. Muito difícil. Mas agora eu vou comer alguma coisa, escovar os dentes e ir dormir sozinho e triste depois do meu time se classificar para a final da EFL Cup.

🇫🇷 💙 🇧🇪
já sabia que podia esperar um carrancudo, porque ele ainda não devia ter digerido bem a derrota (ou melhor, a humilhação) contra o Manchester City por seis a zero. Mesmo que o Chelsea tivesse, literalmente, acabado de vencer o Mälmo, o camisa 10 estaria carrancudo e bastante irritado com aquela derrota.
tinha recebido folga logo após o jogo e nem viajou com a delegação de volta para Londres, pegou um voo para Paris e os dois combinaram de se encontrar no hotel em que sempre ficavam hospedados, passariam a noite juntos, viajaria de volta pra Londres no fim do dia seguinte e voltaria para Lille poucas horas depois dele partir.
Da janela do quarto, observava a rua e o movimento dos carros. Estava com frio e queria apenas que chegasse para se verem depois de tantos dias. Não poderiam se demorar, claro, as rotinas não permitiam isso ainda, mas logo – pelo menos era o que ela repetia para si mesma – estaria de férias e seria possível ficarem juntos por mais tempo. Ainda que fosse um pouco suspeito e levantasse interesse de fofoqueiros o motivo pelo qual estaria em Lille e sendo visto com uma mulher desconhecida em fotos.
Mas era melhor não pensar nisso por enquanto. Tinha resolvido viver um dia de cada vez ao lado de , ainda que soubesse que ficariam juntos para sempre e que logo as pessoas estariam se intrometendo em sua vida e misturando a vida profissional de com a vida pessoal, e, ainda que sentisse muito medo do que estava por vir, sabia que estaria ao lado dele e farão tudo da melhor forma possível; além disso, ainda tem o fato de que se amam e que o resto do mundo não tem absolutamente nada com isso.
Passava das oito quando o jantar chegou, o homem que entregou parecia confuso com a quantidade de comida pedida ser, aparentemente, para apenas uma pessoa, mas não falou nada, apenas desejou boa noite e bateu em retirada. Pouco menos de cinco minutos depois, outra batida na porta fez sair depressa da cama para atender, deparando-se com , que tinha um sorriso no rosto, uma sacola em mãos, além de um buquê.

– Posso sentir a raiva emanando de seus poros, mon amour. – falou, dando passagem para que entrasse no quarto.
– Eu já superei aquele jogo. – falou, fazendo gargalhar. – Tudo bem, não superei, mas vamos focar no dia de hoje e não em futebol.
– Tudo bem, mas parabéns pela vitória hoje.
– Eu mal joguei. – resmungou. – E bonne Saint Valentin, mon amour.
Merci, mon amour. Bonne Saint Valentin à toi aussi.
– Eu trouxe um presente.
– Ainda bem. – deu uma risadinha, pegando o buquê de flores das mãos de e deu um sorriso ao lembrar-se que ele sempre tinha o costume de lhe dar flores quando eram mais novos.
– Pelos velhos tempos.
– Obrigada. – falou, dando um selinho em . – Agora a sacola.
– Interesseira.
– A comida está esfriando, .
– Tudo bem, a sacola. – deu uma risadinha antes de entregar a sacola e não demorou a tirar a caixa com a logo de uma marca muito famosa. – Espero que goste, combina com você.
– Amor, esse sapato deve ter custado o olho da cara!
– Não foi o da minha, então acho que estamos no lucro. – brincou, vendo admirada com o sapato que tinha em mãos.

Ele não entendia absolutamente nada daquilo e contou com a ajuda de Adriana para comprar algo que fosse gostar. E, pela expressão dela, totalmente admirada com o sapato e a bolsa que estavam sobre a cama, ele sabia que tinha acertado ao pedir a ajuda da amiga.
não tardou a experimentar os sapatos, que couberam perfeitamente, e caminhou pelo quarto, absolutamente feliz e com a bolsa a tiracolo. Estava se sentindo a pessoa mais sortuda de todas.
Os dois sentaram na pequena mesa no canto do quarto, perto da janela, enquanto jantavam e trocaram algumas palavras sobre os dias que passaram sem se ver, tinham conversado bastante, mas nenhum deles parecia se importar de verdade se já tinha falado ou escutado o que estava sendo dito.

– Estou esperando o meu presente. – falou quando terminaram de comer, depois de deixar os pratos sobre o carrinho no corredor.
– Não comprei nada pra você. – deu de ombros.
– Que absurdo! – falou, fingindo um tom ofendido. – Eu movi céus e terra por causa do seu presente, !
– Tenho certeza que por “céus e terra”, você foi pedir pra Adri fazer isso e, em troca, ficou com aquelas criancinhas lindas da família Azpilicueta.
– Odeio que você saiba das coisas. – resmungou, deitando-se na cama e puxando para mais perto de si.
– Eu não comprei nada para você, mas comprei uma lingerie pra mim que você, com certeza, vai adorar tirar. – falou, dando um sorriso cheio de segundas intenções.
– Agora sim estou gostando dessa conversa.
– E, em todo caso, o presente pra você deve chegar na sua casa amanhã.
– Então você comprou algo.
– Comprei, é claro.
– Estou curioso.
– Foi bem difícil, sabe?! Então, quando você o receber, pense em como vai me agradecer muito por ter feito isso.
– Com comida, é claro. – deu uma risada ao falar, fazendo rir junto. – Mas, no momento, quero ver a tal lingerie que você comprou e que eu vou querer muito tirar do seu corpo.
– É melhor esperar um pouquinho para não termos uma congestão.
– Você tem razão. Eu prefiro não ser encontrado morto em um quarto de hotel, porque comi feito um elefante e ao invés de descansar, fui fazer sexo com minha namorada super gostosa.
– E ainda tem o fato de que seríamos encontrados pelados. Isso seria péssimo. – completou, fazendo rir e puxá-la para mais perto. – Então é melhor assistirmos a algum filme.
– Jamais achei que essa frase seria usada para realmente assistir a um filme. – deu uma risada. – Ah, a Carlota mandou beijos pra você.
– Obrigada, mande beijos pra ela também quando você voltar pra Londres.
– Pode deixar. – falou, dando um beijo na bochecha da namorada. – Inclusive, Eliot também me pediu pra dizer que está sentindo sua falta lá em casa.
– Pois diga pra ele que logo eu volto, porque também estou sentindo falta dele.
– Direi, pode deixar. – falou, ligando a televisão. – E, caso interesse saber, eu também estou sentindo muito a sua falta por lá também.
– E eu sentindo falta de ir pra lá. Vou tentar te visitar esse mês ainda, mas não garanto.
– Tudo bem, vamos viver um dia de cada vez. Primeiro aproveitamos hoje, comemorando o dia dos namorados e depois nós pensamos no que vai acontecer mais pra frente.
– E, por falar nisso, você está devendo um almoço pros meus pais. Temos que dar um jeito nisso, não aguento mais minha mãe falando que eu sou a responsável por esse almoço não acontecer.
– Pode falar pra ela que vamos marcar pra antes do fim da temporada. Daremos um jeito, porque sua mãe cozinha muito bem, será um prazer.
– Isso mesmo, coma muito pra sua bunda continuar crescendo e ficando cada vez mais gostosa.
– Eu faço o que posso. – deu uma risadinha. – Mas, posso pedir um beijo decente antes de começarmos a ver esse filme? Porque até agora eu não ganhei um beijo bem dado e você sabe o quanto eu gosto de te beijar e como eu estou sentindo muita falta de fazer isso.
– Você é tão dramático… – rolou os olhos, soltando-se do abraço de e ele soltou um resmungo baixo antes que ela deitasse sobre o corpo dele e o beijasse.

Six

estava em Paris após a vitória do Chelsea sobre o Mälmo, no último dia 14 de fevereiro. Ficou hospedado em um hotel e alguns dos hóspedes viram saindo de um quarto que não era o que ele estava hospedado. Além disso, essa não é a primeira vez que vai para Paris e fica hospedado neste hotel e já houve relatos de que esse costume de sair de dois quartos quando fica por lá. Seria algum affair? Cenas dos próximos capítulos…”

leu e releu aquela legenda numa foto em que estava marcado e que tinha aparecido em seu Instagram como sugestão no ícone da lupa. Era uma foto dele no aeroporto de Paris, depois da noite que passaram juntos no dia dos namorados.
Ela queria se enfiar num buraco.
Ainda que ninguém saiba quem é o “affair” de , logo chegariam nela. Tudo bem, eles nem se seguem no Instagram, não curtem nada um do outro, mas as pessoas têm o faro bem aguçado quando se trata de cuidar da vida alheia.
sempre fora reservado em sua vida pessoal e basicamente nada vem a público, mas o assédio midiático aumentou exponencialmente depois da Copa do Mundo de 2018, quando o interesse do Real Madrid por ele ficou ainda maior e mais explícito. E, mesmo que ele não poste nada na internet sobre sua vida pessoal, com essa fofoca rolando solta, os paparazzi não o deixarão em paz.
Então, era melhor manter-se longe de Londres por um tempo, afinal, não teria como chegar e sair do condomínio sem ser vista. E isso incluiria o Stamford Bridge também. Preferia evitar que os olhos invejosos e as línguas afiadas do mundo começassem a falar sobre sua vida.

– Sirius, a vida é injusta demais. – resmungou, afagando o gato que estava ao seu lado.
Quando o celular tocou ao seu lado, jurava que era e atendeu sem nem mesmo olhar para a tela.
– Oi, mon amour.
– Obrigada, mas eu não sou gorda, baixinha e belga. – ouviu a voz de e deu uma risada.
– O que você quer?
– Saber como você está.
– Nós estávamos juntas há menos de uma hora, , você sabe como eu estou.
– É, mas eu não sabia que estavam especulando que seu namorado tem um affair e como isso mexeu com você que, provavelmente, está pensando em não pisar em Londres tão cedo.
– Às vezes eu fico mesmo muito assustada com você.
– Não é preciso ser uma pessoa com algum poder paranormal para saber que você está surtando pela fofoca que soltaram falando do elfinho em Paris com um affair.
– Eu estou surtando. – assumiu. – Tenho medo de começarem a segui-lo e acabarem com a paz que temos agora.
, isso não vai acontecer.
– Eu não duvido de mais nada. – soltou uma risadinha. – Se ele está sendo seguido por um boato de ter um affair, imagina o que vai acontecer quando descobrirem que ele é parte de um casal?
– E seu medo é esse?
– Além de perdermos nossa privacidade, vão me tornar a “namorada de ” e eu deixarei de ser , a advogada e professora.
– E o que você vai fazer?
– Não aparecer em Londres por um bom tempo, até que o deixem em paz.
– E se nunca o deixarem em paz?
– Então nunca mais irei à Londres.
– Você é tão inteligente pra algumas coisas e tão burra pra outras… falou séria do outro lado da linha. – , eles não vão descobrir nada. esconde tão bem a própria vida que ninguém sabe de nada. E vocês nem mesmo se seguem em redes sociais.
– Não quero falar sobre isso.
– Então não temos mais o que falar nessa ligação, achei que você queria conversar sobre tudo, mas não quer e eu não vou insistir.
– Obrigada por ter se preocupado, amiga, de verdade. Eu só preciso digerir isso.
– Tudo bem, mas lembre-se da adolescente que estava pouco se fodendo pro que os outros falavam da vida dela e cuidava da própria vida.
– Farei o possível. – soltou um suspiro. – Obrigada amiga, je t’aime!
– Je t’aime encore deux fois. respondeu e a ligação foi encerrada.

🇫🇷 💙 🇧🇪
estava descontente.
Muito mais do que isso, pra falar a verdade.
cancelara suas idas para Londres por tempo indeterminado, agora ele tinha pessoas interessadas em sua vida pessoal e ela não queria acabar perdendo sua individualidade e se tornasse apenas “a namorada de ” e isso acabasse, também, influenciando seu trabalho e atrapalhasse tudo que ela tinha construído durante todos aqueles anos.
sabe que, em todo caso, ela está correta. Sabe que ela será desmerecida e tratada apenas como a namorada de um jogador famoso e mais nada, via aquilo acontecer diariamente com tantas outras esposas e namoradas dos amigos e de conhecidos, mulheres muito famosas e com suas próprias vidas e que são tratadas como um acessório dos jogadores. Desprezariam que a carreira de fora inteiramente construída sem que fizesse parte daquilo, mas ninguém se importaria com isso.
Mas está sentindo falta da namorada.
Muita.
E era péssimo que ele tivesse que ser privado da presença de por causa de pessoas fofoqueiras e sem o que fazer.
Quando o nome de apareceu na tela, mostrando a chamada de vídeo que ela pretendia fazer, suspirou e logo atendeu, mesmo que estivesse chateado com a atitude dela de não ir mais para Londres e de não deixá-lo ir para Lille, ele sentia falta de todo e qualquer mísero contato com ela.

– Que cara é essa, mon amour? perguntou, olhando para a feição pouco contente de .
– Cansaço, ma princesse. – forçou um sorriso. – Como você está?
– Cansada, mas bem. Tive um dia intenso hoje e vou passar o fim de semana com meus pais, eles querem fazer uma pequena viagem a Dunkerque e passaremos dois dias lá.
– Não está frio demais pra isso?
– Tente colocar isso na cabeça de Jay . deu uma risada ao falar. – Ah, se você ver a Adri antes que eu consiga falar com ela, diga que nosso roteiro pra… abril, está de pé e vamos ter bons dias de paz e descanso de vocês.
– Estou sentindo sua falta. – falou, dando um suspiro derrotado. Tinha falado aquilo todos os dias, desde que tinha decidido que namorariam por FaceTime por tempo indeterminado. – Desculpa repetir isso pela milionésima vez, mas eu estou mesmo.
– Eu também estou, meu amor, mas espero que você entenda meus motivos.
– Eu entendo, mas os odeio.
– Eu também os odeio.
– Você vem pelo menos pra final da EFL? – perguntou, ajeitando-se na cama e negou com um aceno. – Mas, amor, você não iria numa área reservada pra família nem nada assim! E ninguém vai te relacionar a mim, você sabe disso.
– Amor, não vale a pena ir pra Londres só pra ir ao jogo.
– E eu?
– Você sabe que seu condomínio está cheio de fotógrafos ao redor. Um hotel também chamaria atenção. Eu não quero que as pessoas comecem a se meter no nosso relacionamento assim tão rápido.
, o Azpi e a Adri vivem super bem e eles são bem na deles, tipo nós dois.
– Amor, mas você está bem no foco desde a Copa, principalmente com todo assédio do Real Madrid por você. Sua vida toda parece muito mais interessante pra eles e eu não quero gente se enfiando na nossa vida e nem me desmerecendo.
, não acho que as coisas serão assim, isso pode ser uma reação exagerada.
– Como pode não ser. suspirou. – , sei que é uma merda estarmos fazendo assim, mas é o melhor por enquanto. Deixar a poeira baixar e esquecerem de seu suposto affair e poderemos voltar ao normal.
– Tudo bem. – ele suspirou, tentando não transparecer sua frustração. – E então, roteiro de abril? O que vocês pretendem fazer?

🇫🇷 💙 🇧🇪
queria muito estar em Londres. Queria estar na torcida por de perto no estádio, mas, principalmente, queria ter a chance de abraçá-lo e consolá-lo após aquela derrota e a perda do título. Num jogo pesado, depois de muita confusão entre Kepa e Maurizio Sarri, o time londrino perdera nos pênaltis e o título da EFL Cup era do Manchester City.
olhava para num mix de divertimento e desgosto, observava olhando para a televisão, agora desligada, e com o celular em mãos, sem saber o que escrever para consolar .

– Pare de me olhar com essa cara que diz “eu avisei que não seria nada bom você ficar aqui em Lille ao invés de ir pra Londres”, . – falou, sem se virar para a amiga, apenas erguendo a cabeça e encarando o teto.
, você sabia que seria uma merda ficar em Lille ao invés de ir, independente do resultado. Se ele ganhasse, você estaria eufórica e querendo beijá-lo e comemorar, se ele perdesse, como perdeu, você ficaria aqui triste e querendo estar lá para consolá-lo.
– Eu sei. – resmungou. – Me dói muito ter que fazer assim, porque eu estou sentindo MUITA falta dele, mas não quero perder meu nome e me tornar “a namorada do ”.
– Lá em Barcelona, quem joga é o “marido da Shakira”.
– É bem diferente. Shakira é a Shakira. Eu sou eu.
– Então seja você. Você o suficiente pra que ele se torne o “namorado da ”.
– Sabemos que isso é quase impossível.
– Então não é totalmente. – falou séria. – Sério, não se escondam e nem tente fugir das pessoas. Elas não têm nada com isso, com a vida ou namoro de vocês.
– Eu sei, mas é difícil. Não é como quando éramos adolescentes e ele era uma promessa ainda desconhecida pelo mundo. Agora tem um bilhão de pessoas querendo saber da vida dele e isso me assusta, você sabe que esse nosso meio é machista e vão querer desmerecer todo meu trabalho por causa de ser quem é.
– As coisas não são assim. – ficou de pé. – Mas não adianta eu ficar falando isso se você não quer entender. Eu vou pra casa, ligue pro elfinho e o console. Nos vemos amanhã de manhã.
– Tudo bem, bom descanso e obrigada pela companhia para assistir ao jogo.
– Vou contar pra todo mundo que você fica muito mais nervosa e atenta aos jogos do Chelsea do que pelo Lille. – provocou.
– Otária. – reclamou, dando um sorrisinho.

A amiga fez um carinho em Sirius antes de sair do apartamento, fechando a porta atrás de si. voltou a repousar a cabeça no encosto do sofá e fechou os olhos. Queria ter a coragem da de dezessete anos que pouco ligava pra opinião alheia e que estaria, nesse momento, abraçada a e o consolando pela derrota.
Ainda que a taça disputada não fosse lá a coisa mais importante da Inglaterra, ainda sim era um título e é o ser humano mais competitivo que conhece. E ele deveria estar furioso com a derrota. E triste. E ela também está.
Será que teria tempo de pegar um avião – ou um trem – e ir pra Londres pra passar umas horas com ? Não. Teria uma segunda-feira cheia de trabalho e não tinha condições de ir para Londres, não poderia ficar e aproveitar a companhia dele do jeito como gostaria.
Então, fez o que estava ao seu alcance: ligou para .
E ele não atendeu.
Pelo horário, ele deveria estar voltando pra casa, talvez de ônibus com o time, talvez de carona com alguém, ligaria depois de novo, mas enviou uma mensagem e foi organizar as coisas para o dia seguinte.

: Amor, sinto muito pela derrota. Principalmente como aconteceu, sei que vocês queriam muito vencer, mas mesmo assim vocês tentaram e não deu. Acontece. Outros títulos maiores virão para vocês comemorarem.
Eu te amo demais, queria poder te abraçar nesse momento ou fazer um bolo de chocolate, mas não posso fazer isso sem perder o dia de trabalho amanhã e a semana toda de trabalho…
Estou sentindo sua falta, te amo muito e me avise quando eu puder te ligar.

Pôs o celular no bolso e foi ajeitar as coisas para o trabalho.
E foi dormir antes que respondesse. Meia noite. Provavelmente ele estava bem chateado e isso explicava sua ausência no aplicativo. E torcia para que fosse apenas isso.

Nota da Autora: Oi!
Primeiro eu quero agradecer a todo mundo que tá lendo e fez Retrouvailles pegar top 5 do site. Estou emocionada, porque essa história é um dos meus bebezinhos e eu fico muito feliz que tenha gente lendo e gostando <3
E sobre o final… não tem drama, EU PROMETO! Essa foi a história mais amorzinho que eu escrevi na vida, livre de todo drama e tristeza que eu habitualmente gosto.
Aqui tem o grupo do Facebook e aqui o do WhatsApp.
Vocês também podem me seguir nesse perfil do Instagram ou no Twitter (mas aqui eu só surto por futebol, bandas e xingo determinados presidentes não disse quais).
Espero que tenham gostado e não esqueçam de comentar.

Sept

A última pessoa que esperava encontrar quando abriu a porta do apartamento era .
Mas era exatamente quem estava ali.
Parado, com uma pequena mala de rodinhas ao seu lado, os olhos concentrados na mulher que tinha aberto a porta.
Não se viam pessoalmente há um mês e dez dias.
deu um sorriso antes de se jogar nos braços de , que a envolveu em um abraço saudoso e não falou nada, apenas a beijou da forma como sentia tanta falta. Queria sentir os lábios dela nos seus, queria sentir o gosto da boca dela, da língua, o perfume…

– Oi. – falou, separando os lábios dos de , dando um sorriso ao vê-lo ali.
– Oi.
– Entra. – falou, dando espaço para que ele entrasse e logo estavam no interior do apartamento, novamente com os lábios juntos.

prendeu o corpo de contra a porta e voltou a beijá-la tentando aplacar a saudade que sentia do contato físico com o amor da sua vida. soltou uma risadinha sufocada enquanto , agora, beijava seu pescoço e fazia um arrepio gostoso percorrer todo seu corpo ao sentir a barba dele passar por sua pele. Estava rendida.
A primeira peça de roupa a sair do corpo foi a camisa de , que não tardou a jogar pelo chão e voltou a usar as mãos para tocar cada pedaço de pele disponível de , voltando a beijá-lo com pressa.
enfiou os dedos pelos cabelos de e puxou, separando os lábios dos dela e a olhou nos olhos. sentiu que poderia derreter-se ali mesmo, nas mãos dele e sem fazerem absolutamente nada excepcional.

– Eu senti tanto sua falta. – falou, fazendo dar uma risada safada e, quando a mulher se inclinou para beijá-lo, voltou a segurá-la pelos cabelos.
– Sem pressa, mon amour.
– Temos tempo? – perguntou, sentindo a respiração de muito perto e sem nenhum contato direto.
– Só até amanhã perto da hora do almoço.
– Ótimo, estou livre pela manhã no escritório, podemos aproveitar pra colocar em dia tudo que está em falta.
– Vamos primeiro a isso e depois nós precisamos conversar. – falou, mas quando foi beijá-la, se esquivou e olhou sem entender.
– O que precisamos conversar?
– Nada urgente, , podemos deixar pra amanhã.
– Então você deveria ter deixado pra falar sobre isso na hora que quisesse falar sobre.
, sério, vamos voltar para o que estamos fazendo. Senti sua falta.
– Eu posso ver, mas agora eu quero saber o que precisamos conversar.
– Amor… – suspirou. – Eu devia ter ficado quieto.
– Deveria. – falou séria, soltando-se do abraço e estendeu a mão para e os dois foram sentar no sofá.
… – deu um suspiro pesado. – Eu vim te ver. Eu fui fotografado deixando a seleção e descendo aqui em Lille. Me viram saindo do aeroporto e eu fui fotografado, só não fui seguido. Eu entrei no seu prédio, passei pelo porteiro e pedi autorização. Passei por vizinhos no elevador. E você abriu a porta e me agarrou no meio do corredor sem se dar conta de que havia pessoas lá. , é injusto demais com a gente que façamos isso, percebe? É injusto esconder, injusto nós sofrermos com a distância e com a saudade só pra ficar fora das fofocas e dos cliques de paparazzi que vão postar as fotos na internet e falar das nossas vidas.
– Amor, não é tão fácil assim. – suspirou. – Eu sei que suas intenções são ótimas, eu as entendo e agradeço, mas você é o jogador, não vai ser quem vai sofrer a perseguição, entende? A mídia te ama, seus fãs te amam… a perseguida seria eu, porque eu deixaria de ser “ , advogada, professora, pós graduada, mestre e doutora, reconhecida nacionalmente por conquistas em casos e com o livro que tem escrito que é citado na bibliografia de cinco grandes universidades francesas” e passaria a ser “a namorada de ”. Independentemente do local e de tudo que eu tenha feito antes de você voltar pra minha vida. Vão falar de aparência, de dinheiro, vão começar a descreditar tudo que conquistei sozinha e meu ambiente de trabalho é muito machista. Todas as conquistas femininas são diminuídas e nós somos tratadas como nada. Imagina só quando ficarem sabendo que nós estamos juntos? Nunca mais conseguirei fazer uma audiência ou dar uma aula sem que seu nome seja mencionado, sem que me chamem de “a namorada do jogador de futebol” e eles farão isso, porque falta muita ética nessa profissão.
, mas vamos viver na encolha pra sempre? Seremos um casal escondido eternamente e nunca poderemos casar e viver nossa vida de casal? Porque eu não quero ter que ficar te encontrando escondido e que ninguém saiba que eu tenho uma namorada e que ela é o amor da minha vida, entende?! Você é e sempre será e ninguém tem nada que falar sobre mim, nenhum de nós dois tem nada a ver com o sucesso da carreira do outro diretamente. Você se tornou essa mulher maravilhosa sozinha e eu estava apenas em seu coração e pensamentos. Eu me tornei um jogador de elite sozinho, você esteve apenas no meu coração e pensamentos.
– Na teoria é bem mais fácil que na prática, . Na prática, vão criar manchetes nojentas sobre mim e falando coisas horríveis sobre nós, inventarão coisas e isso vai nos fazer mal, porque eu estarei aqui e você lá. Vão inventar coisas e vão comentar sobre minha falta de apoio presencial ao meu namorado, vão dizer que priorizo minha vida ao invés de te priorizar e todo aquele discurso nojento e machista. E você sabe que será assim.
, quando foi que você parou de se importar com a sua felicidade e passou a se preocupar com o que os outros têm a dizer sobre você? Quando éramos mais novos, você não ligava quando ficavam apontando e dizendo que você era minha namorada.
– Antes era algo regional, , agora é algo mundial. Todas as pessoas do mundo com acesso à minha vida e ao meu relacionamento. Coloque-se no meu lugar por um momento e pense como seria a situação se você fosse o desconhecido, se eu fosse a pessoa de quem tomam conta da vida. Pense em tudo que você fez sozinho e que vão apagar, porque agora você está comprometido com uma pessoa famosa.
– Mas, , a maioria dos jogadores namora mulheres desconhecidas e…
– E todas elas são enquadradas na categoria “mulheres de jogador”. Mesmo as famosas são assim. Veja a Pilar Rúbio, por exemplo, a mulher sempre foi famosa e teve a própria carreira, mas agora ela é a “esposa do Sergio Ramos” e só. Acho que a única que não teve esse infortúnio, mas tentam acabar com o relacionamento dela todos os dias, é a Shakira.
– Você vai mesmo manter toda essa distância entre nós? Sério? Porque nós passamos meses sem nenhum problema, íamos e vínhamos sem nenhum problema e ninguém nos viu ou descobriu, por que isso agora?
– Porque te viram, . Porque sua vida agora é tão interessante quanto a dos astros do seu futuro clube. Você é o melhor jogador da sua seleção atualmente, é o melhor jogador da Premier League atualmente e tem um time gigante te querendo! Sua vida se tornou muito interessante, porque os torcedores de todos os times querem te ver e te copiar.
– Não chegaremos nunca a um consenso.
– Porque você não entende que EU não quero que as pessoas façam das nossas vidas um circo ou um seriado. Não quero que viremos um tipo de “keeping up with the Kardashians” e que os dois sejam importunados. Principalmente eu, porque você não vai ter nenhuma importunação diferente da que já tem. A culpa será minha por estar longe, eu serei a julgada pela aparência, perderei minha identidade e serei apenas algo seu, como uma chave de carro ou a sua carteira. Vão falar que estou gastando seu dinheiro e o diabo a quatro. E eu não tenho nenhuma vontade de me tornar apenas isso. Eu te amo demais e eu espero que você nunca duvide disso, de verdade, e é por isso que eu não quero que as pessoas nos vejam agora. Esse furor precisa passar pra que nós possamos viver nossas vidas em paz.
– Eu também te amo, . Muito. E sei que vão fazer isso, eu entendo, mas eu não quero ter que passar tanto tempo longe da minha namorada, da mulher que eu amo e por quem eu morreria e mataria sem pensar. Eu te amo tanto, . Tanto. E eu sinto que eu estou te perdendo aos pouquinhos quando deixo, por assim dizer, que você se afaste e fique aqui enquanto eu estou lá. Eu viria pro PSG se o Chelsea quisesse, eu voltaria para o Lille, eu pararia de jogar futebol, mas sei que você nunca ia querer isso. Não se afaste de mim, . Por favor.
– Eu não estou me afastando de você, mon amour, quero afastar nosso amor do provável inferno que farão em nossas vidas. Eu te amo, , como jamais amei alguém na minha vida. Você é tudo pra mim e eu não quero te perder. E, justamente por isso, eu prefiro que as coisas fiquem assim por mais um tempo. – falou, olhando nos olhos e ele assentiu.

Desviou os olhos dos de e deixou a cabeça repousar no encosto do sofá, olhando para todos os cantos do cômodo que não o fizessem olhar para a namorada. Ele entendia o que ela queria dizer e também sabia que ela estava fazendo aquilo para protegê-los de tudo que estava por vir.
Mas está magoado.
Seu coração não consegue entender com a mesma facilidade que seu cérebro, não consegue assimilar que todas aquelas medidas são para que as pessoas não comentem seu relacionamento, mas não teriam o que comentar se continuassem daquele jeito, apenas se vendo por FaceTime e nada mais. Uma hora um deles ficaria cheio e resolveria dar um fim a tudo.
E não queria nem pensar naquela possibilidade. Tinham sido dias cheios de amor e alegria aqueles com desde setembro. Uma felicidade que ele não vivenciava há muito, muito tempo. Amar aquela mulher é tudo pra ele. Tudo. E perdê-la novamente nunca esteve, está ou estará em seus planos.
entende, mas ao mesmo tempo não consegue entender.
encostou a cabeça no ombro de e soltou um suspiro dolorido.

– Eu te amo, meu amor. Por favor, não pense demais. Só entenda que eu te amo e por isso eu não quero nos machucar com tudo que vai acontecer.
– Tudo bem, . – suspirou. – Você vai se importar se eu for pra casa?
– Mas você nem chegou aqui e já vai? – ajeitou o corpo, sentando-se de lado e olhando para o perfil de , que permanecia encarando a televisão desligada.
– Não acho que a gente tenha clima pra que eu fique aqui.
– Você está terminando comigo? – perguntou preocupada, tentando não demonstrar que poderia chorar a qualquer segundo.
– Não, . Eu jamais farei isso, nosso namoro só vai acabar se você terminar comigo, mas acho que toda essa conversa tirou o clima todo e…
– E, nada, . – segurou o rosto dele entre as mãos, fazendo com que os olhos azuis do belga se voltassem para ela. – Eu não vou terminar com você, porque eu te amo. E eu não quero que você vá embora. Eu preciso que você fique e me dê a certeza de que eu estou lutando pelo que é certo, por nós. Eu preciso que você fique pra me dar a força que eu preciso pra aprender a lidar com a gritante diferente entre nossos mundos agora. Eu preciso disso. Se você for embora, eu vou saber que não tenho condições de lutar por nada disso, que não tenho forças para ser a , advogada, professora E namorada de . Preciso que você esteja comigo nessa, . Somos um casal, temos que fazer isso juntos. Você e eu. Nós dois. Por favor. Por favor. Eu não quero ter que reaprender a viver sem você, não quero perder todos os melhores dias que tive em dez anos, não quero perder toda a alegria que sinto ao recordar a cada segundo que você está de novo na minha vida, que é o meu namorado. O amor da minha vida. Por favor. Se você também sente alguma dessas coisas, fica.

não falou, apenas observou com todo carinho e amor que sente por ela. Aquela mulher linda que ele tinha aprendido a amar quando ainda era uma adolescente rebelde e cheia de sonhos malucos e inspiradores. Não teria coragem de levantar daquele sofá por livre e espontânea vontade nem em um milhão de anos. Aquele rosto era tudo que precisava e observá-la tão de perto fazia seu coração bater um tanto descompassado.
Tirou as mãos de de seu rosto, sentindo seus olhos encherem-se de lágrimas e a abraçou de um jeito necessitado, sendo abraçado da mesma forma. Se precisavam. Nenhum dos dois teria coragem de ir embora da vida um do outro agora. Ou em qualquer tempo. Se amam, se precisam e se completam. E, mesmo magoado, mesmo que seu coração não entendesse aquela atitude de de jeito nenhum, ele faria o que ela pedisse. Dariam um jeito de fazer dar certo, como vinham fazendo antes.
Um miado carente do chão fez com que o abraço fosse desfeito e ambas as lágrimas fossem vistas e secas. Sirius encarava os dois pouco satisfeito por estar perdendo seu lugar no sofá, com o acréscimo de que tinha deixado o gato esperando pela comida quando foi atender à porta.

– Eu esqueci de você, Sirius. – franziu o nariz e pegou o gato no colo. – Vem, vou colocar sua ração e te deixar voltar pro seu lugar de direito.
– Esse gato está ficando cada dia mais gordo e folgado. Quando ele e o Elliot dividirem a mesma casa, teremos algumas brigas.
– Elliot é um gentleman, ele nunca entraria numa briga. – falou, ficando de pé e olhou para . – Esse daqui é um monarca absolutista e que gosta de mandar.
– Vocês franceses guilhotinam gente assim. – provocou, fazendo rir.
– Não nesse caso. Tenho certeza que a democracia reinará.
– No momento eu vou parar de falar disso e vou tomar um banho, tudo bem?
– Nada bem. – estalou os lábios. – Você está me devendo um ótimo sexo de reencontro e de reconciliação.
– Eu acabei de jogar e fazer um gol, sabe? Você precisa ir com calma.
– Não sei fazer isso, sou intensa. – piscou. – Mas pode tomar banho, mon amour. Eu estava prestes a fazer o mesmo antes de você chegar.
– Então te espero e resolveremos os dois problemas ao mesmo tempo. – piscou. – E, , vamos fazer dar certo sim. Desse jeito ou de outro.
– Eu te amo.
– E eu te amo duas vezes ida e volta. – falou, observando o sorriso de e logo a mulher estava a caminho da cozinha e ele indo para o quarto dela.
Tinha que concordar com Azpilicueta, afinal, aquela música que ele vinha cantando há dias no vestiário e que tinha se tornado uma trilha sonora obrigatória entre os jogadores e ele tinha que concordar com o tal Camilo, não havia mesmo ninguém como .

Huit

– Ele vai surtar e eu vou rir. Grave isso, por favor. – Azpilicueta falou quando deixou perto da entrada da casa de , e deu uma risada, assentindo, mesmo que não fosse mesmo gravar o surto do namorado ao vê-la ali quase vinte dias depois da ida dele à França.
– Você vai ouvir os gritos lá da sua casa.
– Eu espero que não. – o espanhol falou, fazendo uma careta.
– Idiota. – a francesa falou rindo. – Eu não estava falando disso.
– É bom te ter por aqui, , sentimos sua falta.
– Eu também senti falta de vocês. – respondeu dando um rápido abraço no amigo e desceu do carro, pegando suas malas e indo na direção da porta.

Azpilicueta e tinham articulado todo o plano durante a semana: ele e Adriana negariam carona para , alegando que precisavam buscar um familiar no aeroporto, mas levariam , que tinha ido nos camarotes para assistir ao jogo. E até então estava tudo certo. tinha chegado há alguns minutos, provavelmente estava tomando banho, então teria tempo de entrar e fazer uma surpresa.
Deixou as malas num canto do quarto e deitou-se na cama, ouvindo o barulho do chuveiro e uma cantoria desafinada de uma música que, originalmente, deveria ser em espanhol, mas estava sendo cantada em outro idioma. Algo muito diferente do que deveria. Quando o chuveiro foi desligado, estava deitada na cama de , ao lado de Elliot e sentiu um frio no estômago pela expectativa de rever .
Ele tinha feito os dois gols do Chelsea na vitória sobre o West Ham e, conhecendo o namorado, sabia que ele estava muito feliz e animado. saiu do banheiro cantarolando a tal música em espanhol sem prestar atenção à sua cama, ocupado demais em enxugar os cabelos e dançar de um jeito cômico e pouco condizente com a música.

– Ainda bem que você é jogador de futebol e não cantor, porque você morreria de fome se dependesse disso. – falou, fazendo se assustar.
– De onde você surgiu?
– De Lille. E você? – brincou, levantando-se da cama e indo até , o abraçando sem demora. – Senti sua falta.
– Eu também senti a sua, mon amour, mas… como você entrou?
– Caso você tenha esquecido, eu tenho a chave dessa casa. E pra chegar até aqui, eu ganhei uma caroninha dos Azpilicueta.
– Ah, claro que eles estão envolvidos nisso. – deu uma risada, envolvendo a cintura de com os braços. – Chegou agora?
– Bem antes do jogo, inclusive parabéns pela excelente atuação e pelos dois gols, vocês foram muito bem hoje. – sorriu, olhando nos olhos de . – Adri me buscou no aeroporto e nós fomos pro jogo nos camarotes.
– Podia ter me dito.
– Se eu tivesse dito não seria surpresa. – falou em tom óbvio.
– Você fica até quando?
– Não posso ficar muito, preciso trabalhar. falou que segura as pontas até sexta-feira, então fico até domingo.
– Só isso? – resmungou. – Tudo bem, posso aceitar e viver bem com isso.
– Infelizmente são poucos dias, mon petit, mas serão dias proveitosos.
– Nem acredito que você está aqui. – sorriu, enfiando o nariz nos cabelos de e aspirando o cheiro gostoso do shampoo dela.
– Vim pra matar o que estava me matando. – sorriu. – Agora, se você puder tirar essa toalha e resolver esse problema, ficarei agradecida.

🇫🇷 💙 🇧🇪
– Você tentou destruir a cozinha? – falou, encostada no batente da porta e se assustou.
Tinha acabado de colocar a travessa no forno e se virou para a namorada.
– Não. E eu vou limpar agora.
– Precisa de ajuda?
– Não, mon coeur, pode tomar um banho ou qualquer outra coisa, quando o jantar estiver pronto eu te chamo.
– Você fez o nosso jantar? – perguntou usando um tom fofo e assentiu sem graça.
– Procurei uma receita fácil de fazer na internet e que tivesse o passo-a-passo em vídeo pra principiantes, sou uma negação na cozinha, você sabe, mas você merece que eu comece a aprender a te paparicar.
– Você não cansa de ser fofo?
– Não. – deu um sorriso ao falar. – Mas só porque você merece.
– Awn. – falou se aproximando e o abraçou pela cintura, dando um selinho nos lábios do namorado. – Você é lindo e fofo. E sua boca está com gosto muito bom de limão siciliano.
– Talvez eu tenha usado limão siciliano.
– Eu amo limão siciliano.
– Eu sei. – piscou e limpou uma mancha de farinha de trigo do rosto dele.
– Você trouxe até flores! – ela olhou para a mesa da cozinha, com um arranjo de flores sobre o tampo.
– Some dessa cozinha, , você está atrapalhando minha surpresa. – reclamou e riu, antes de voltar a lhe dar um selinho.
– Vou tomar um banho. Você deveria vir também.
– Pode ir, vou dar um jeito na bagunça primeiro.
– Eu adoro quando você me mima, eu fico me sentindo muito importante. – falou antes de se soltar dos braços de para sair da cozinha e deixá-lo sozinho.

era péssimo cozinhando, se precisasse seguir uma receita sem um vídeo ensinando demorada e detalhadamente tudo que precisava ser feito, ele não conseguia. Nem mesmo na adolescência conseguiu ensinar algo útil ao namorado, ele sempre fazia muita bagunça e a comida era sempre ruim, mas ela nunca se importava quando resolvia cozinhar para ela; mesmo que acabassem pedindo alguma coisa pra comer depois, porque aquilo que ele tinha tentado fazer não era comestível, o que valia era o gesto e o simples fato de se importar o suficiente para tentar agradá-la era suficiente.
E enquanto tinha ido tomar banho, depois de boas horas andando por Londres com Adriana, fazendo compras e conversando bastante, ajeitou a cozinha, lavou tudo que tinha sujado, limpou a cozinha, arrumou a mesa para os dois jantarem, colocou os pratos, talheres e taças e foi tomar banho.

– A ocasião pede uma roupa bonita? – perguntou, entrando no banheiro ainda enrolada na toalha, e se virou para olhá-la.
– A seu gosto, ma princesse.
– Posso tirar a comida do forno?
– Não precisa. Eu já desliguei, mas não quero que esfrie. Vou terminar de tomar banho e vamos jantar.
– Tudo bem. – respondeu, saindo do banheiro e voltou para o quarto.

terminou seu banho e vestiu-se com uma calça jeans, tênis e um suéter azul um pouco mais grosso, porque apesar de não haver chuva ou neve e de o aquecedor da casa estar ligado, fazia frio. usava com um vestido preto à altura dos joelhos, botas curtas e um cardigã azul claro, estava sentada na sala assistindo ao jornal.
Ele foi para a cozinha, tirou a travessa do forno e colocou sobre a mesa, além de pegar o vinho e colocar sobre a mesa também.

– Posso te levar para jantar, ma belle? – perguntou quando voltou para a sala e estendeu a mão para , que sorriu.
– Claro. – aceitou a mão estendida por e quase chorou de emoção quando viu a mesa posta para os dois. Ele puxou a cadeira para que ela se sentasse e depois tomou lugar à frente dela. – Qual o cardápio, chef?
– Massa gratinada com legumes e bechamel vegano. – falou sorrindo e serviu o prato de . – Espero que você goste, porque eu fiz meu melhor e acho que até está comestível.
– Eu sempre gosto quando você cozinha, mesmo que a gente acabe comendo algo encomendado depois, porque o que vale é a intenção. E gosto mais ainda de você sendo fofo e fazendo cardápio vegano pra mim. – respondeu enquanto colocava o vinho em sua taça. – E o que eu fiz de tão especial pra merecer esse jantar?
– Você não precisa fazer nada especial pra eu querer te fazer um agrado. – deu de ombros. – Mas, tem o fato de que eu te amo e como você vai embora em alguns dias, no sábado eu não durmo em casa e mal vamos nos ver domingo, então estou te fazendo esse tipo de mimo.
– Não me deixe tão mal-acostumada, porque posso gostar e ficar voltando pra Londres sempre que quiser ser paparicada. – brincou e sorriu, enquanto se servia do prato que havia feito.
– Pretendo deixá-la feliz sempre, então vou fazer esse tipo de coisa toda vez que eu puder. E saber que isso vai te trazer mais vezes pra Londres é um incentivo enorme.
– Eu te amo. – deu um sorriso e começou a comer.

E, surpreendentemente, a comida estava muito gostosa e bem comestível. Podia ser simples e que ele não tivesse feito tanto esforço assim naquele prato, mas estava delicioso e a intenção de fazer para que passassem mais alguns momentos juntos era o que deixava tudo ainda melhor.
Os dois jantaram trocando poucas palavras, apenas aproveitando o jantar e a companhia um do outro, que ainda duraria mais três dias antes que precisasse viajar com o time para jogar contra o Liverpool – jogo que iria assistir na torcida e viajaria de lá pra casa – então usariam o tempo livre para aproveitarem a presença um do outro, não faziam ideia de quando poderiam fazer isso tão cedo.
A reta final da temporada estava intensa para o time londrino e , como a estrela do time, tinha grandes responsabilidades; estava com a agenda cheia em Lille também, tinha audiências a fazer, provas a aplicar e corrigir, precisava revisar um artigo e uma nova edição de seu livro que sairia em breve.
Ao final do jantar, os dois foram lavar a louça juntos, lavava e enxugava e guardava. Trocaram algumas palavras sobre o dia, além de um ou outro assunto envolvendo amigos e conhecidos e enquanto observava lavar os pratos totalmente concentrados, teve ainda mais certeza de que queria aquilo por toda sua vida. Que queria lavar os pratos ao lado de , do amor de sua vida, e que nunca se cansaria de fazer aquilo.

🇫🇷 💙 🇧🇪
– Você fica linda quando está toda concentrada lendo, sabia? – falou, atraindo a atenção de , que estava tão distraída na leitura que nem mesmo ouviu o namorado chegar.
– Eu sei, obrigada por me lembrar. – sorriu ao falar e se aproximou, dando nela um selinho demorado.
– E o que você está lendo?
– Uma fonte pra um artigo que estou escrevendo. – deu de ombros. – Como foi seu dia?
– Cansativo, mas agora que estou em casa com você, tudo está ótimo.
– Gosto que você esteja muito feliz por eu estar aqui. – respondeu, virando-se na cama e ficando sentada. – E gostarei mais ainda se você tiver trazido comida, porque eu estou com muita preguiça de cozinhar.
– Eu faço tudo por você, . – falou, voltando a dar um selinho em e ela sorriu. – E eu não trouxe, porque vamos sair.
– Vamos?
– Sim. Quero te levar no London Eye.
– Eu achei que você não ia oferecer e eu teria que ir segurar vela pro Jorginho e pra Natália por lá! – falou, ficando de pé e dando um sorriso animado. – Vou me trocar e nós vamos.
– Tudo bem, princesa, vou vestir uma roupa mais quente e nós vamos.
– Eu amo roda gigante! – falou animada, fazendo rir.
– Eu sei disso.

não demorou a voltar vestida com um jeans, tênis, um gorro e um moletom grande e grosso. Estava animada, porque queria ir ao ponto turístico há tempos, mas nunca iam a lugar nenhum, nem mesmo quando Adriana a convidou pra ir com ela e Cesar, a francesa aceitou. E agora estava ali, devidamente agasalhada e animadíssima para ir à roda gigante mais conhecida do mundo, ainda que não seja a maior.
Logo os dois estavam a caminho e nenhum deles tinha pensado em serem vistos e como lidariam com aquilo, porque a euforia estava muito maior do que qualquer preocupação que pudessem ter.

– Lembra quando você me levou até La Louvière e nós fomos até um parque de diversões bem capenga? – perguntou enquanto entravam na cabine, indo pra um canto bem perto do vidro.
– Foi a primeira vez que você disse que me amava. – deu um sorriso ao lembrar da ocasião e a abraçou pela cintura.
– Eu estava apavorada de medo naquela montanha-russa velha. – riu baixo ao lembrar do dia. – Pensei que fôssemos morrer, então eu não podia morrer sem te dizer que te amava.
– No fim, estamos vivos. – deu um sorriso. – Mas eu fiquei tão impactado com as palavras sendo ditas que eu perdi até a adrenalina da montanha-russa. Porque, claro que eu sabia que você gostava muito de mim, você sempre demonstrou, mas falar é diferente.
– Eu te amo. – falou, dando um selinho em e ele sorriu, fazendo um carinho na bochecha dela com o polegar.
– Eu te amo muito, . – respondeu, sentindo abraçá-lo e encostar a cabeça no ombro do namorado e olhar pro lado de fora da roda gigante, observando Londres enquanto a cabine começava a subir.
– Queria ter comprado um anel bem bonito, eu te pediria em casamento com essa bela visão.
– Eu aceito. – falou baixo, olhando nos olhos. – E nem preciso de um anel.
– Ótimo. – sorriu. – Vou mudar meu nome pra .
– Soa melhor que . – provocou, fazendo morder de leve a ponta de seu nariz.
– Separe uma data em sua agenda pra podermos casar e eu, oficialmente, me tornar um .
– Quando chegarmos em casa eu vejo o que posso fazer por você. – falou, dando uma risadinha. – Agora vamos contemplar a beleza dessa cidade.
– Prefiro contemplar a sua. – falou, fazendo soltar uma risadinha abafada, mas não respondeu.
Não tinha o que falar, em todo caso, estava feliz de estar ali com ele. E estaria feliz com em qualquer lugar.

🇫🇷 💙 🇧🇪
abraçou demoradamente quando o voo para Paris foi anunciado e ela, infelizmente para ele, precisava voltar pra França e para suas responsabilidades. O time ainda demoraria pelo menos uma hora e meia para embarcar para Londres e ele ficaria no aeroporto sem a namorada, depois de uma derrota por 2 a 0 pro time da casa.
Tudo bem, era o Liverpool e ninguém – nem o próprio Chelsea – esperava vencer o time que estava voando na Champions League e na Premier League, mas uma derrota era sempre péssimo e ninguém estava feliz com aquilo.

– Eu volto em breve, mon amour. – falou, fazendo um carinho no rosto de e ele soltou um resmungo insatisfeito. – Não seja mimado.
– Você ainda nem foi embora e eu já estou sentindo sua falta.
– Nos veremos em breve, eu prometo. – falou, dando um selinho demorado nos lábios de , que tratou de enfiar os dedos pelos cabelos de e fazer daquele um beijo de verdade.
Mesmo que estivessem no aeroporto e que aquele tipo de demonstração pública de carinho não fizesse o tipo de nenhum dos dois, mas queria beijá-la pela última vez antes de embarcar para a França e só voltar em uns vinte dias, pelo menos. também não achou de todo ruim, queria um último beijo de verdade antes de voltar pra casa e pra todas as suas atividades laborais e que lhe consumiriam muito tempo e energia.
– Eu detesto interromper, pombinhos, mas seu voo está na última chamada, . – a voz de Azpilicueta soou e os dois encerraram o beijo, demorando-se enquanto ainda se olhavam.
– Avise quando chegar em casa, por favor.
– Vai demorar um pouco, mas aviso. E você também avise. – pediu, voltando a dar um selinho demorado em , depois de um abraço apertado no namorado.
– Aviso.
– Tchau, Azpi, nos vemos em alguns dias. – abraçou o capitão, que a abraçou de volta e logo a francesa estava correndo pelo aeroporto, até o portão indicado para seu voo de volta pra casa, deixando observando e com um sorrisinho pequeno nos lábios.
– É muito bom ver vocês bem de novo.
– É muito bom estar bem com ela de novo. – sorriu ao falar. – Mas, como sempre, queria ficar mais tempo com ela.
– Não vejo novidades.
– Parece que sinto muito mais falta dela agora do que nos dez anos que passamos separados e eu achava que isso era impossível, porque eu sentia muita falta dela.
– Vocês passaram dez anos distantes um do outro, então agora que estão juntos de novo é normal que a dor da separação seja mais dolorida, pela lembrança da separação anterior.
– No seu tempo livre você tem estudado psicologia? – caçoou do amigo, que lhe deu um tapinha na nuca, e os dois seguiram pra perto do restante do elenco.

: Uma última selfie antes de desligar o celular e voar pra Paris.
Te amo e já estou sentindo sua falta.

deu um sorriso ao ver a mensagem, mas não respondeu, ela provavelmente não veria até chegar em Paris, mas tudo bem. Ele estava feliz por estar com , por estarem bem e, mesmo por tão poucos dias, terem ficado juntos aproveitando a companhia um do outro sem precisar fazer malabarismos para se esconder.

Neuf

, o que você não me pede sorrindo que eu não faço chorando? – falou, fazendo sorrir do outro lado da tela.
– Vou comprar suas passagens e pedir pra separarem as credenciais pros jogos. falou sorridente. – Mas, agora, preciso mesmo ir treinar.
– Bom treino, ma vie. – falou, mandando um beijo para a imagem de , que logo sumiu e ela deixou o celular sobre a mesa.

Poderia ter surtado um pouco quando fotos de e uma “mulher desconhecida” no aeroporto de Liverpool começaram a circular, logo após o jogo? Poderia.
Poderia ter surtado mais ainda quando começaram a comentar sobre a ida deles à London Eye alguns dias antes com fotos deles? Poderia.
Poderia ter surtado três vezes mais quando começaram a cogitar a ideia de que poderia ser a ex-namorada da época em que ele jogava em Lille?
Poderia.
Mas não surtou.
Não tinha ficado totalmente calma, claro, foram necessárias algumas garrafas de vinho e dois dos melhores baseados para que relaxasse e não surtasse de vez. Não poderia esconder seu relacionamento para sempre e tinha falado sério quando disse que se casaria com ele, então não podia se esconder e surtar a cada vez que falassem dela ou cogitassem que tinha uma namorada.
ficou preocupado, ligou, até cogitou ir para Lille pra saber como ela estava, mas quando viu que estava bem com tudo e não cogitava desaparecer de Londres eternamente como tinha feito antes, seu coração bateu mais tranquilo. Jamais conseguiria viver sem ela de novo, não queria tentar e preferia que a vida seguisse para sempre ao lado de sua amada.
Quando ofereceu que ela fosse ao último jogo do Chelsea no Stamford Bridge pela Premier League daquela temporada – e que também seria o último jogo dele no estádio pela Premier League – não esperava que ela fosse aceitar de bom grado, inclusive dizendo que queria ir nos camarotes com Adriana. E ao oferecer que ela ficasse para ir ao jogo da semifinal da Europa League que aconteceria quatro dias depois, esperava menos ainda que ela aceitasse, mas aceitou. Disse que, talvez, precisasse ir pra casa depois do jogo do campeonato inglês, mas que voltaria sem sombra de dúvidas.
resolveu não pensar demais naquilo, precisaria fazer as malas pra viajar na noite do dia seguinte e passaria o fim de semana em Londres, como estava sentindo falta de fazer. Não tinha certeza se poderia ficar até quinta-feira por lá, mas, de qualquer forma, voltaria para ver o time do namorado jogar. As duas últimas partidas dele no estádio que ela tinha aprendido a gostar de frequentar.
sentiria falta dos Azpilicueta e do clima de Londres, das coisas que via e vivia lá, mas estava radiante por finalmente ir viver seu sonho de jogar pelo Real Madrid e de bônus teria Zidane, seu ídolo desde a infância, como treinador. Era tudo que ele queria e podia pedir: era um grande jogador, da elite, querido por vários times, amado por torcedores de várias equipes, um ídolo nacional e uma estrela que brilhava dentro e fora de campo.

– Você pensando no elfinho é muito engraçado. – apareceu para provocar. – E eu ouvi tudo, então queria dizer que, infelizmente, você não pode ficar até quinta-feira e precisará voltar.
– Sério? – fez uma careta e assentiu.
– Você tem que aplicar uma última atividade antes da prova final. E tem aquela audiência em Paris na quarta-feira, esqueceu?
– Esqueci. – resmungou. – Mas tudo bem, posso ir pros dois jogos. Quer ir?
– Até queria ir ver o Chelsea ser eliminado na Europa League, mas tenho programas mais importantes. – implicou, recebendo um dedo do meio de . – Você largou o Lille pra torcer pro Chelsea.
– É um time simpático. – deu de ombros. – Mas jamais largarei o Lille.
– Temporada que vem você largará pelo Real Madrid.
– Não faz muito meu time, mas tenho certeza que ficarei perfeita com aquela camisa.
– Ele vai mesmo?
– Vai. – fez uma careta. – Prefiro Londres, mas eu não tenho que preferir nada, afinal. Só que só vai anunciar ao final da temporada, mesmo que todos saibam que vai acontecer.
– Eu gostaria muito de ficar aqui conversando sobre a vida de , mas nós temos que trabalhar e estamos perdendo tempo aqui enquanto deveríamos estar a caminho do tribunal.
– Você sabe estragar a felicidade alheia como ninguém, . – resmungou, ficando de pé, e deu um sorriso de lado.
– Faço o que posso. Se eu te deixar muito feliz, você não tem motivos pra ligar pro elfinho no fim do dia.
– Eu até negaria, mas é a verdade. – riu, pegou a bolsa e colocou o celular e a agenda dentro. – Vamos trabalhar, porque eu ainda não estou rica o suficiente pra me aposentar.

🇫🇷 💙 🇧🇪
O Stamford Bridge estava lotado, como sempre. Era o último jogo do time em casa pela Premier League naquela temporada, então vários torcedores encheram o estádio na expectativa de ver um grande jogo, mesmo que contra o Watford, além de poderem se despedir de . Não que fosse uma despedida oficial, não era, mas os preços dos ingressos para a Europa League estavam um pouco mais altos do que muitos poderiam pagar, então aquela era a chance.
E viram o belga brilhar.
Duas assistências para os gols de Ruben Loftus-Cheek e David Luiz, além de uma atuação de gala, como na maioria dos jogos. O Chelsea venceu por 3 a 0, garantiu-se na Champions League da temporada 2019/2020 e só tinham mais um jogo pela Premier League naquela temporada, contra o Leicester, mas a temporada tinha sido proveitosa. Não poderiam alcançar os dois líderes, porque a diferença de pontos passava dos vinte e cinco pontos, mas tinha sido uma temporada ótima com um novo treinador e uma nova filosofia de jogo.
Quando o jogo acabou, abriram o acesso das famílias ao campo e, incerta, desceu junto com Natália Leteri, esposa de Jorginho, e levava Alicia no colo enquanto conversava com a brasileira e tinha Adriana e as três crianças Azpilicueta consigo.

– Respire devagar, , você vai ter um troço. – Adriana falou, fazendo dar uma risadinha nervosa.
– Eu sou nova nesse negócio de ser wag, amiga, então estou um pouco preocupada.
– Relaxa. – Natália falou. – Nunca fica fácil, mas com o tempo você passa a se importar menos com fotos e comentários.
– Assim espero. – resmungou.
As crianças correram para os pais quando os avistaram e havia muita gente por ali, várias esposas e namoradas, crianças correndo por todos os lados e rindo e os jogadores que estavam caminhando pelo campo, alguns davam entrevistas ou eram gravados pela equipe do Chelsea… e, claro, os fotógrafos estavam por todos os lados, tirando fotos e mais fotos de todos os jogadores e suas famílias. As arquibancadas permaneciam cheias, o hino do Chelsea tocava alto pelos alto-falantes e a torcida cantava.

! – virou-se na direção em que ouviu sua voz e logo estava sendo erguida por , que a abraçou pela cintura e lhe deu um selinho demorado. – Não achei que você fosse descer.
– E perder a chance de darem um rosto aos boatos? – brincou, envolvendo o pescoço de com os braços e sorriu. – Bom jogo, mon amour.
– Você é meu amuleto, . – piscou, colocando-a no chão. – Estou feliz que você tenha descido.
– Espero que você pague meu terapeuta quando começarem a me xingar por ser sua namorada.
– Não vão te xingar. – falou sério, entrelaçando os dedos aos de , e sorriu para a mulher. – Vem, vamos ver uns pirralhos correndo e ser fotografados pra sermos admirados por todas as pessoas do mundo, porque eu sou lindo.
– Você é muito metido. – deu uma risada, apertando a mão de e logo os dois estavam andando pelo gramado.
– Estou vendo corretamente e está aqui? – Olivier Giroud perguntou surpreso ao ver o casal.
– Aaron! – soltou a mão de e estendeu os braços para o garotinho, que sorriu e logo foi para seus braços.
– É impressão minha ou você fez todas as crianças do time se apaixonarem por você? – Giroud perguntou rindo.
– Era uma tentativa desesperada de fazer ficar aqui, porque teria pena das crianças que nunca mais me veriam, mas não deu certo. – falou, fazendo o atacante rir alto.
– O belga não tem coração, então agora você terá que conquistar as crianças de Madrid.
– Tia ! – a voz de Jade soou e logo as pernas de foram envolvidas pela filha mais velha de Olivier Giroud.
– Oi lindinha! Não te vi nos camarotes…
– Eu estava dormindo. – deu de ombros. – Vem tia, vamos brincar.
– Vamos. – sorriu. – Tchau, jogadores, vejo vocês depois.

saiu com Jade e Aaron e logo eram um grupo grande de crianças com a mulher, que agora também tinha a companhia de Natália, Jennifer, Adriana e Izabel, que estavam animadas e falavam sobre aquele intenso fim de temporada.

– Você vai ficar pro jogo da Europa League? – Natália perguntou e negou.
– Eu volto pra casa hoje a noite, mas volto pra ver o jogo.
– Precisamos de você, , você é o novo amuleto do time. – Adriana riu. – Precisamos de toda a força possível, porque será um jogo intenso.
– E como estamos falando de Chelsea, já sabemos que será um jogo complicado. – falou rindo.
– Pena que na temporada que vem não teremos aqui pra isso. – Izabel resmungou e assentiu frustrada.
– Prefiro Londres, mas…
– Ei, mon couer. – ouviu a voz de , mas não teve tempo de responder, já que ele juntou os lábios aos dela num selinho demorado, que foi devidamente fotografado por vários dos fotógrafos em campo.
– Obrigada por isso, . – ralhou baixo, fazendo um sorrisinho brotar nos lábios do belga.
– Se você já está na chuva, mon amour, precisa aceitar que vai se molhar.
– Idiota. – deu uma risadinha.
– Agora eu vou dar umas entrevistas, tirar umas fotos e a gente se encontra daqui a pouco pra ir pra casa. – falou, dando outro beijo nos lábios de e se afastando rapidamente.
– Então vocês finalmente resolveram assumir o namoro? – Izabel perguntou, dando um sorriso absolutamente satisfeito e assentiu.
– Uma hora isso ia acontecer, então não tinha mais motivos pra adiar.
– Gosto assim. – Adriana sorriu.
– Preciso tirar umas fotos com meu digníssimo marido, mas vamos nos encontrar pra tomar uma cerveja lá em casa depois que isso aqui acabar. – Natália falou e as três assentiram. – Avisem seus maridos e nós nos encontramos lá.
– Sim senhora. – falou e depois de abraços rápidos, o grupinho se dispersou.

estava tirando fotos com alguns dos companheiros e era homenageado pela torcida que tanto o adora. sorriu ao ouvir o nome dele ser gritado com tanto amor e apenas confirmou o que sempre soube: tornou-se um referencial, um ídolo, alguém inesquecível para milhares – milhões – de pessoas pelo mundo. E isso era tudo que ela e ele mais queriam.

🇫🇷 💙 🇧🇪
queria entrar em campo e socar a cara de cada um dos jogadores do Chelsea. Como sempre.
Não era possível que eles gostassem tanto assim de emoção. Não era possível mesmo. Saíram na frente, mas tomaram o empate e o jogo se tornou muito intenso, muitos ataques do Eintracht Frankfurt, mas Kepa estava atento e nada passava.
estava mais brava ainda, porque o goleiro do outro lado era Kevin Trapp e ele nem é lá isso tudo… não era possível que o Chelsea não fosse vencer aquele jogo no tempo normal.
Mas claro que não iria.
Nem na prorrogação.
Agora estavam ali, novamente definindo a ida para uma final nos pênaltis.

– Eu não tenho emocional pra lidar com o Chelsea. – falou, fazendo Adriana rir.
– Ninguém tem. – Adriana riu. – E essa é a magia do time.
– Gosto de coisas fáceis, esse negócio de sofrimento não serve pra mim.
– Falou a torcedora do Lille. – Adriana provocou, rindo. – Mas é verdade, o Chelsea glamouriza o desespero e o sofrimento de um jeito que chega a ser absurdo.
– Devem ter alguma parceria com clínicas de cardiologistas.
– Vão começar as cobranças. – Adriana cutucou a amiga, que soltou um suspiro sofrido.
– Vai Chelsea, por favor, que ele saia daqui com um último título. – falou baixo em francês, atenta ao campo.

O Frankfurt começou cobrando os pênaltis e o camisa 9 Haller abriu o placar. praguejou em francês, xingando o compatriota – que não ouviria – e logo o camisa 8 do Chelsea, Ross Barkley, estava caminhando até a área, pegando a bola e Kevin Trapp estava pulando sobre a linha. A batida do camisa 8 foi forte, o goleiro até pulou pro lado certo e na altura certa, mas foi gol. Pra alívio de e da torcida blue presente em Stamford Bridge.
A segunda cobrança do Frankfurt também foi convertida por Luka Jovic. Kepa até acertou o lado e a altura da bola, mas não conseguiu defender e o time alemão estava à frente, obrigando o Chelsea a acertar mais uma cobrança. E não acertou. Azpilicueta bateu estranho e Kevin Trapp defendeu. Adriana soltou uma lamúria, quis xingar um palavrão, mas não o fez.
A terceira cobrança do Frankfurt saiu dos pés do holandês de Guzmán, que bateu firme e ampliou a vantagem do time alemão. queria chorar, entrar em campo e bater em todos os jogadores do Chelsea e atropelar os alemães. Não era possível que o Chelsea fosse cair em casa nas semis da Europa League. E Jorginho manteve o Chelsea vivo nas cobranças, deslocou Trapp pra um lado e bateu no outro. Ainda havia esperança.
A quarta cobrança do time alemão saiu dos pés de Hinteregger, que bateu no meio do gol, rasteiro, e Kepa apenas fechou as pernas e segurou a bola. gritou tão alto que os torcedores que estavam fora dos camarotes ouviram e viraram-se para ver a francesa pulando em êxtase pela defesa. Se o Chelsea fizesse, igualaria o placar e as coisas ficariam menos ruins. E fez. David Luiz tomou uma distância quase exagerada e bateu forte, deslocando Trapp e igualando o placar.
Na última cobrança das cinco obrigatórias, o português Gonçalo Paciência, foi pra bola. tinha as mãos unidas perto da boca, esperançosa de que Kepa defendesse ou que o português mandasse pra longe aquela cobrança. E Kepa defendeu. Andrea, namorada do goleiro, e estavam pulando juntas, comemorando a defesa do goleiro como um gol de título.
Por Deus, como ela poderia ter se apaixonado por um time tão instantaneamente como tinha se apaixonado pelo Chelsea?
A última cobrança sairia dos pés de . estava prestes a ter um treco. Se ele fizesse, o Chelsea se classificava, se ele perdesse, iriam para as alternadas.
E ele fez.
sentiu o mundo parar por um breve milésimo de segundo antes de voltar, no trajeto da bola pra dentro do gol.
O Chelsea estava na final.
Estava abraçada à Adriana, Andrea, Natália e Izabel, as cinco gritavam e comemoravam como as maiores torcedoras do time, como se não estivessem ali, naquele estádio, apenas porque os maridos/namorados jogam pelo Chelsea.
Arsenal e Chelsea fariam a final de dali vinte dias em Baku.

– Se eu tivesse voltado com quando ele veio pra cá, acho que eu já teria infartado e morrido, porque até onde eu pesquisei e sei, o time é bem fã desse tipo de emoção exagerada. – falou, depois do final dos pênaltis, quando o estádio começava a esvaziar e os jogadores preparavam-se para sair.
– Eu que cheguei aqui essa temporada tenho o mesmo sentimento. – Izabel falou rindo, fazendo Andrea e Natália concordarem com um aceno.
– Adri é a única que já conhecia o histórico. – Andrea falou rindo. – Meu Deus, nem em Bilbao as coisas eram tão intensas assim.
– O Lille não ganha nada e nem disputa, então eu só sinto raiva e não emoção.
– No Real Madrid não era tão desesperador assim. – Izabel falou rindo. – Tinha toda a tensão pros jogos e muitas vezes o time perdia pra uns adversários mais fracos, mas em jogos grandes e finais… era diferente.
– Tudo que eu quero é que o Chelsea não passe aperto nessa final. – falou soltando um risinho sofrido. – Eu não tenho mais idade pra passar tanto sofrimento assim.
– Vamos vencer. – Adriana falou, dando um sorriso confiante. – E agora vamos embora, porque já estão liberados e podemos ir.
– Eu preciso mesmo, tenho que viajar amanhã bem cedo de volta pra casa, tenho uma audiência cedo.
– Então só nos veremos em Baku, certo? – Izabel perguntou e assentiu.
– Estaremos todas lá, sofrendo feito hoje. – Andrea brincou e arregalou os olhos.
– Sem sofrimento, pelo amor de Deus! Eu não consigo lidar com isso mais.
– Coitada, uma temporada e já está assim… – Adriana implicou, ficando de pé. – Vou buscar minhas crias e conversamos depois.
– Preciso buscar as minhas também. – Natália falou, ficando de pé e sendo seguida pelas outras três que fizeram o mesmo.
– Então nós três vamos descer e encontramos em Baku. Ou antes, no caso das que ficam em Londres. – Izabel falou e após vários abraços, as três estavam saindo a caminho do estacionamento privativo.

Andrea foi a primeira a ver Kepa, correu em sua direção e pulou nos braços do goleiro, enchendo o rapaz de beijos e palavras em espanhol que não entendia. Izabel foi mais comedida na direção do marido e logo estava perto de , dando um sorriso orgulhoso e satisfeito.

– Parabéns pela classificação, mon coeur. – sorriu, dando um selinho em , que a abraçou.
– Obrigado, ma princesse. – falou, dando outro selinho em , que se soltou do abraço e virou na direção de Kepa.
– Kepa, você é foda pra caramba! Sou sua fã e você é o melhor goleiro do mundo, por favor, nunca deixe o Chelsea! Você é o melhor! – falou para o goleiro, que deu um sorriso enorme e foi até a francesa e a abraçou, tirando-a do chão. – Sério. Você é foda!
Gracias, quer dizer, obrigado. – corrigiu, ainda sorrindo.
– Eu não vou ser elogiado? – Mateo Kovačić perguntou, fingindo um tom decepcionado e o abraçou.
– O Real Madrid está perdendo um jogadoraço, porque você é sensacional! E ainda bem! Fique eternamente no Chelsea, porque precisamos disso.
– Uma temporada e ela foi convertida em blue com sucesso. – deu uma gargalhada ao falar. – E o seu namorado que fez o gol da ida pra final não vai receber um elogio?
– Você não fez mais que sua obrigação. – falou em tom banal, voltando a abraçá-lo e sorriu. – Se quisesse um elogio, deveria ter feito dois gols no tempo normal.
– Já sabemos quem manda em casa. – Mateo Kovačić implicou, fazendo assentir.
– Ela manda e muito. – resmungou, mas deu um sorriso.
– Agora é a hora em que nos despedimos e vamos embora, porque precisamos descansar um pouquinho. – Mateo falou, recebendo a concordância do belga e Kepa, que concordou sem entender muito bem, e logo estavam seguindo para os próprios carros e indo embora para casa.

: Você apareceu na televisão, sabia?
Comemorando feito uma louca!
Estou te banindo da torcida do Lille eternamente e você só poderá torcer pro Chelsea a partir de agora.
E dê parabéns ao elfinho

mandou parabéns e disse que estou banida eternamente da torcida do Lille, porque apareci na televisão enquanto comemorava a classificação. – falou rindo quando entraram na casa de .
– Banida? – deu uma risada.
– Sim. Ela me baniu e disse que agora eu sou torcedora do Chelsea e não posso mais me denominar torcedora do Lille.
– Espero que na temporada que vem você seja torcedora do Real Madrid. – falou sério e o olhou nos olhos.
– Decidido mesmo?
– Totalmente. – sorriu pequeno. – Eu amo o Chelsea, mas é preciso mudar de ares pra viver outros estilos de jogo e o meu sonho.
– Bom, eu estou apaixonada pelo Chelsea, então você e o Real Madrid terão que me convencer a trocá-lo. – falou, dando uma risadinha. – Porém, se será pra uma evolução e você acha que é a decisão correta, estarei na torcida. Menos contra o Chelsea e o Lille.
– Amor, você está fazendo do jeito errado. – riu. – Hoje foi meu último jogo como jogador do Chelsea em Stamford Bridge e foi meio triste, mas pelo menos nos classificamos pra final e posso sair daqui levando o mesmo troféu com o qual cheguei aqui vencendo.
– E sairá. – sorriu. – Então, já sabe onde vai morar?

Dix

Estádio Olímpico de Baku, Cidade de Baku, Azerbaijão
29 de maio de 2019
Final da UEFA Europa League
estava sentada com Izabel, Natália, Andrea, Jenny e Adriana. Além disso, Antônio Rüdiger estava com elas, o presidente do clube e algumas das outras esposas e namoradas, alguns familiares e amigos dos jogadores dos dois times.
O estádio não estava cheio, poucos ingressos foram destinados aos torcedores dos times e a preços altíssimos, os demais ingressos foram destinados a patrocinadores e à politicagem local, o que fazia do estádio um local quase vazio.
Mas não era com isso que estava se importando, em todo caso.
Naquele momento, estava preocupada com suas orações sendo atendidas para que o Chelsea se sagrasse campeão, para que vencesse um último título importante antes de sair oficialmente do clube naquele que seria o último jogo do Chelsea na temporada, depois de uma excursão (muito contestada por torcedores, jornalistas e pela própria comissão técnica) aos Estados Unidos e que acabou acarretando a lesão de um dos melhores jogadores do time, o camisa 12, Ruben Loftus-Cheek.
Mas, além disso, torcia para que o clube ganhasse aquele título, porque eles mereciam. Tanto os jogadores, suas famílias, comissão técnica, como os torcedores. O Chelsea tinha se tornado uma parte importante de sua vida e ela era muito feliz por ter podido passar alguns meses em Londres e por ter aprendido a gostar daquele time que tinha feito com que o homem de sua vida fosse reconhecido mundialmente e se tornasse alvo de cobiça de diversos times gigantes ao redor do globo.
O jogo ainda demoraria pelo menos duas horas a começar, então as conversas, filmagens e fotos aconteciam disparadamente entre todos os presentes no estádio. Naquele momento, estava comendo batata frita e bebendo cerveja enquanto repetia pela décima nona vez a mesma prece.

, pare de comer e venha conversar. – Natália chamou, fazendo virar-se para o grupo.
– Converse pela última vez num estádio com suas amigas do time londrino. – Izabel falou, fazendo soltar uma risadinha.
– É a verdade, infelizmente. – respondeu. – Queria poder dizer que não, mas é. É o último jogo, mas oficialmente só chega à imprensa daqui uns dias.
– Apesar de estar triste por perder a companhia, sei que ele está fazendo o certo ao ir realizar o sonho de infância. – Adriana falou e Rüdiger estalou os lábios como se discordasse.
– Desculpem pela intromissão, mas todo cadáver no Everest é de alguém que resolveu sair da zona de conforto pra realizar um sonho. – respondeu, fazendo as mulheres gargalharem.
– É necessário concordar. – Jenny se pronunciou, ainda rindo.
– E estarei mais longe dele do que agora. – reclamou.
– Fique em Londres e deixe em Madri. – Natália sugeriu, fazendo rir.
– Demorei dez anos pra ter esse homem de volta, não é agora que eu o deixarei sozinho.
– Considerando que ele te deixou sozinha no seu aniversário… – Izabel brincou, recebendo apoio de Natália e Adriana, que assentiram rindo.
– Coitado, estavam em preparação para a final. Não é culpa dele. – defendeu, fazendo beicinho. – Mas ganhei presente, então ele encontrou uma forma de se desculpar.
– Bom saber que você é facilmente comprável. – Adriana falou, estreitando os olhos.
– Todo mundo tem um preço. O meu depende de quem quer comprar. – respondeu rindo.

A conversa continuou durante um tempo, algumas fotos foram tiradas e postadas em redes sociais, um tempo depois os times subiram para o aquecimento e voltou a focar nas orações e em prestar atenção no time azul de Londres em seu aquecimento e preparação concentrada para o jogo que poderia sagrá-los campeões da Europa League.
nunca tinha entendido bem os motivos de a competição ser tão subvalorizada perante a Champions League. Afinal, não eram duas competições apenas com times europeus? Por que então o campeão da Champions League era considerado o “dono da Europa” e o campeão da Europa League era apenas um time com um prêmio de consolação? Não fazia sentido.
Tinha aniversariado há dois dias, mas não pode compartilhar da companhia de , que estava em tempos intensos de treinamento e estritamente proibido de sair de Londres. Então, ele estava ocupado treinando, mas encomendou um bolo pra ela e enviou junto com um belo par de sapatos e uma bolsa muito bonita que tinha escolhido e ele apenas pagou.
Não se encontravam há muitos dias e só se veriam de perto quando o jogo acabasse. E torcia para que fosse para celebrar a conquista do time azul. Esperava um jogo duro e difícil, um jogo que provavelmente custaria sua sanidade – como tinha aprendido que as coisas no Chelsea funcionavam – e algumas unhas, mas, ao contrário, o Chelsea dominou o jogo sem dificuldades e venceu com um placar elástico: 4 a 1.
O placar só fora aberto no segundo tempo por seu compatriota Olivier Giroud. Jenny gritou duas vezes mais animada, fazendo as companheiras rirem. O segundo gol saiu dos pés de Pedro, depois de uma assistência de , fazendo os torcedores do Chelsea gritarem bastante e comemorarem. Poucos minutos depois, o terceiro gol foi de , numa cobrança de pênalti, fazendo ficar de pé e aplaudir com mais ênfase do que nos dois gols anteriores. O Arsenal descontou com Iwobi, mas mal tiveram tempo de comemorar e estava fazendo o quarto gol, após um passe de Olivier Giroud.
Quatro a um.
O Chelsea se sagrava campeão da Europa League de novo.
tinha chegado vencendo a competição, agora saía vencendo outra vez. Queria que ele tivesse vencido uma Champions League, já que a competição é muito mais bem valorizada. Quando o acesso dos familiares foi liberado, queria correr e agarrar , beijá-lo e parabenizá-lo, mas além de ele estar cercado de jornalistas e fotógrafos, tinha os companheiros todos por perto, tentando aproveitar os últimos minutos de com a camisa do Chelsea.
Ele e Azpilicueta tiraram fotos juntos, grandes amigos desde o começo juntos na equipe, agora se separariam de novo. voltaria ao continente, César ficaria para continuar capitaneando o time londrino rumo a mais vitórias e conquistas. E, no fundo, queria que ficasse também, tinha amado Londres e todos os amigos que fizera por lá.

– No que você tanto pensa, ? – ouviu a voz de Olivier Giroud, abraçando-a pelos ombros e acompanhado de Jade.
– Em como vou sentir falta disso aqui, mon ami. – deu uma risadinha ao falar. – Agora terei que comemorar os títulos em Madri.
– Espero que a gente se enfrente na temporada que vem e o Chelsea vença. – provocou.
– Sabe que eu também? – brincou. – Pode ser 2 a 1 pro Chelsea, o 1 foi feito pelo .
– Vocês se adaptarão bem, .
– Eu sei. – ela sorriu, virando-se a tempo de ver vindo em sua direção carregando a taça.
– Quero uma foto nossa. – o belga falou.
– Fico lisonjeado por você se lembrar de mim. – Olivier brincou, arrancando uma risada do casal.
– Impossível esquecer desses seus belos olhos azuis, Oli. – brincou.
– Tirem logo essa foto, preciso colocar meus muitos filhos pra tirarem uma foto com a taça também. – Giroud fingiu ralhar.
– Cadê o celular? – perguntou e deu de ombros.
– Vamos tirar com os fotógrafos oficiais, quero uma foto em excelente qualidade pra fazer um pôster enorme e colocar em casa. Só não será maior do que a nossa futura foto com a taça da Copa do Mundo. – ele respondeu sorrindo.
– Não sabia que você era francês, mon amour. – respondeu, pegando o próprio celular para tirar uma selfie com e a taça.
– Copa do Mundo que a Bélgica vai ganhar em cima da França, ma princesse. – provocou.
– Eu posso trocar a cor da camisa pra torcer por suas conquistas em times, menos contra o Lille, mas nunca abandonarei les bleus.
– Posso viver com isso, apenas por saber que você estará comigo. – sorriu. – Agora, foto oficial com minha namorada.

🇫🇷 💙 🇧🇪
já tinha recebido tantos abraços de despedida dos companheiros – que ainda apenas cogitavam a iminente saída do belga – que nem estava mais prestando atenção em quem o abraçava, desejava boa sorte e alguns até arriscavam pedir pra que ele repensasse e ficasse por mais um ano. Mais uma Champions League, quem sabe?
A volta pra casa no avião com os familiares de todos e uma festa tremenda por parte dos jogadores fez seu coração ficar um pouco apertado. Uma despedida em alto estilo, ele sabia, ficava muito feliz que todos aqueles anos em Londres tivessem te rendido tantos títulos, jogos, gols e reconhecimento mundial. Ele era um desconhecido quando saiu de Lille e se tornou um nome que várias crianças pelo mundo diziam ser enquanto jogavam futebol.

– Ainda tem a festa. – ouviu conversando animada com Natália. – Nunca fui em uma festa de time.
– As do Chelsea são sempre ótimas. – foi a vez de Adriana falar animada. – Vamos nos divertir muito.
– Gosto assim. Minha primeira festa é de um título grande.
– E a última também. – falou e se virou para olhá-lo.
– Última? Eu fui adotada pela Adri e pelo César, você que se vire. – respondeu, fazendo o namorado rir.
– Gosto disso!
– As festas em Madri são ótimas também, . – Izabel falou, sorrindo. – Você vai amar.
– Sem falar de despedidas ainda, vamos apenas celebrar. – Azpilicueta apareceu, um pouco alterado pelo álcool, sentando-se no colo de Adriana.
– Todos vamos sentir falta da , impossível não começar esse clima de despedidas. – falou Natália.
– Adri e eu vamos adotá-la, ela fica conosco. – sorriu e a francesa sorriu junto.
– Sinto muito, mon frère, mas preciso do meu amuleto. – respondeu, abraçando a namorada.
– É, mas ela é o amuleto do Chelsea também, então ela fica. – Adriana falou num tom incisivo que quem visse de fora quase acharia que era uma briga.
– Depois dessa eu vou deixá-la. Não brigo com a Adri. – brincou, fazendo se aconchegar em seu abraço enquanto continuava conversando com as amigas.

O Chelsea o tinha dado o mundo e ele ficava feliz por ter feito tudo que podia e mais um pouco pelo time londrino. E mesmo que sua saída fosse inevitável, sabia que sairia pela porta da frente e se um dia quisesse voltar, seria bem recebido por todos. E ali, com a taça da Europa League de um lado e de outro, ele sabia que tinha tudo que precisava. Não apenas sucesso, mas alguém com quem compartilhar uma vida.
E essa ideia era o que dava certeza a de que tinha chegado a hora. Na verdade, desde os dezessete ele sabia que seria daquele jeito. E tê-la de novo, com aquele eterno doce sabor do reencontro depois de tanto tempo só comprovava o que ele sempre soube.

Épilogue

Estádio Santiago Bernabéu, Madri, Espanha
13 de junho de 2019
Eu estava diante de uma multidão de fãs que lotavam as arquibancadas do estádio merengue para assistir a minha apresentação. Eu me despedi oficialmente do Chelsea há seis dias com uma mensagem para os torcedores dizendo o quanto sou e sempre serei grato ao time por ter aberto tantas portas para mim e por possibilitar que eu realizasse meu sonho de criança de jogar no Real Madrid.
Recebi muitas mensagens lindas de torcedores londrinos que me agradeciam por aqueles seis anos juntos, pelos títulos e por sempre ter dado meu melhor para ajudar o time nas constantes conquistas durante esse tempo; havia, claro, outras mensagens pouco amistosas de fãs ressentidos, mas espero que eles entendam. Havia, ainda, outras tanto empolgadas de torcedores merengues pela minha transferência e desejando me ver logo em campo.
E agora aqui estou eu, no gramado do Santiago Bernabéu, usando a camisa branca do Real Madrid, sendo apresentado como jogador do time para começar a temporada 2019/2020. Realizando meu sonho de criança de jogar no Real Madrid e sob o comando de meu maior ídolo no futebol: Zinédine Zidane.
Após passar pelos exames físicos – que eu gabaritei, claro, depois de uma breve dieta para emagrecer um pouco – eu fui formalmente apresentado à imprensa, fiz um discurso rápido sobre minha satisfação de estar no maior clube do mundo, além de minha eterna gratidão por terem confiado que eu poderia compor o elenco de um time tão grande e que possui sempre enormes chances de vencer tudo que disputa. Tirei a tradicional foto com o presidente Florentino Pérez, segurando a camisa branca com meu nome estampado em um dourado que fazia meu coração bater um tanto mais acelerado, pois aquela estampa era oficial e não uma coisa com a qual eu tinha sonhado tantas e tantas vezes durante todos esses anos.
No gramado, após me anunciarem e a torcida me ovacionar de forma que fez todo meu corpo se arrepiar e me deu uma vontade imensa de chorar de emoção, gravei alguns vídeos para o Instagram do clube, beijei o escudo (não por marketing ou falsidade, porque sempre amei o Real Madrid e isso não diminui ou anula meu amor e carinho pelo Chelsea e nem apaga a veracidade com a qual beijei aquele escudo e honrei aquelas cores), autografei bolas de futebol e as chutei para a torcida, que ainda comemorava minha ida para o clube e pareciam tão felizes quanto eu estou por estar aqui em Madri.
De longe eu vi , que optou por não entrar em campo, mas estava na foto oficial ao lado do presidente, ela tirava fotos e fazia vídeos, sorrindo tão orgulhosa de mim que parecia ser ela quem sonhava em me ver no Real Madrid desde sempre.
Depois da apresentação finalmente teremos alguns dias de férias, já que os quinze dias após a final da Europa League foram cheios de burocracia: encerrar meu vínculo profissional com o Chelsea, assinar meu novo contrato com o Real Madrid, colocar a casa de Londres à venda, procurar um local para viver provisoriamente enquanto procuro uma nova casa em Madri, empacotar a mudança, contratar uma transportadora para trazer as coisas de Londres pra cá, dar vacinas em Elliot para poder trazê-lo para a Espanha, além de toda a documentação que o cachorro precisa para mudar de país (muito mais burocrático do que todo o resto, diga-se de passagem)… tudo feito com a ajuda de , que separou alguns dias para me ajudar a resolver tudo no prazo.
O nosso plano é uma viagem para passar alguns dias em um resort na Grécia, depois vamos passar um ou dois dias em Lille, uma viagem rápida até La Louvière, e depois voltar para Madri e fixar residência de forma definitiva.
Pelo menos eu.
ainda tem o trabalho, a faculdade e muitas coisas na França, não pode simplesmente jogar tudo pro alto e se mudar pra Madri, mas já andei estudando e acho que é possível que ela possa se mudar pra cá, mas isso é assunto pra outra hora, por enquanto posso curtir o som da multidão que lota o Santiago Bernabéu por minha causa, que grita meu nome e faz com que eu me sinta tão amado e querido como sou.
Meu nome vai estampar muitas camisas desses torcedores e é meu dever fazer valer essa confiança, esse sentimento carinhoso que os torcedores de muitos clubes nutrem por mim. E espero fazer aqui o bom trabalho que sempre busco fazer na Bélgica e sempre busquei fazer no Chelsea.

– Você ficou ainda mais gostoso nesse conjunto todo branco. – falou quando a cerimônia finalmente acabou e eu estava descendo as escadas para o vestiário para me trocar e aproveitar meus poucos dias de férias.
– Espere até me ver de sunga branca. – brinquei, fazendo-a rolar os olhos.
– Esse short deixou sua bunda ainda maior. – mordeu o lábio inferior, me abraçando por trás e me fazendo dar uma risadinha baixa.
– Obrigado por estar aqui comigo, eu estou muito feliz por realizar esse sonho e alcançar o objetivo de ser um jogador internacionalmente reconhecido e por estar aqui. Eu serei treinado pelo meu maior ídolo! Acho que ainda é meio surreal, sabe? Estou com medo de acordar desse sonho. – falei quando entrei no vestiário e ela estava comigo.
Mon prince, isso não é um sonho. – falou, parando à minha frente e me olhando séria, mas de forma terna. – Eu te conheci quando éramos adolescentes e você tinha um sonho. Você se dedicava muito, seguia dietas, era o primeiro a chegar nos treinos e o último a sair, não abusava de álcool e alimentos que poderiam prejudicar sua saúde, você se dedicava tanto que fez o Chelsea se interessar. E lá você continuou dedicado, não parou nem quando poderia se acomodar depois de tantos anos. Os belgas de amam, porque você sempre mostrou compromisso com sua seleção e com seu país, assim como todos os torcedores do mundo, porque eles veem que você é um profissional dedicado e que sempre procura fazer o melhor para o clube, está sempre se doando por completo e fazendo a diferença. Crianças te admiram por você ser você, desse jeitinho. Adolescentes e adultos a mesma coisa. Hoje esse lugar estava abarrotado de pessoas que te admiram e te amam. Você alcançou seu objetivo de ser um profissional respeitado internacionalmente e agora vai realizar seu sonho de jogar no time do seu coração e ser treinado pelo seu maior ídolo; eu é que te agradeço pela chance de poder ver isso de perto e por ter a certeza de que você vai continuar fazendo seu melhor aqui, independente de já ter alcançado seu objetivo e de estar realizando o sonho.
– Você vai me fazer chorar. – respondi num tom baixo, realmente quase chorando.
– Sem choro, ma vie, precisamos ir embora. Temos um voo que sai para a Tessalônica em breve.
– Um voo longo.
– Muito longo. – reclamou. – Troca de roupa, vou te esperar no carro.
Je t’aime, ma princesse.
Je t’aime aussi, mon coeur.
On est fait l’un pour l’autre.
A toi pour toujours. – respondeu antes de me deixar sozinho para me trocar.

Troquei de roupa rapidamente, até porque não podia me demorar muito por lá, o estádio precisava fechar e eu ainda tinha que ir até o hotel em que estamos hospedados pra buscar nossas coisas e viajarmos para alguns dias de férias na Grécia, em paz, sossegado e sem futebol por alguns dias, apenas e eu.

🇫🇷 💙 🇧🇪
– Paris? – perguntou e eu assenti.
– Queria assistir ao pôr-do-sol com você. – falei, torcendo para que ela aceitasse e eu pudesse seguir meu plano.
– Tudo bem.
– Então vá se arrumar, vamos sair daqui a pouco.
– Hoje? – perguntou surpresa e eu assenti. – Você não me ajuda em nada mesmo .
– É só tomar um banho, se trocar e nós vamos. – dei de ombros e ela me olhou descrente, dando uma risadinha antes de sair da cama e seguir, totalmente sem roupa, para o banheiro.

Pensei em ir junto, mas se o plano era sair de casa, me enfiar num chuveiro com a seria a última coisa que eu poderia fazer, então apenas esperei que ela saísse do banho enrolada em uma toalha e fosse se trocar para eu mesmo tomar um banho rápido. Quando sai do chuveiro, encontrei com uma saia jeans, uma regata azul escura e tênis, um boné para um eventual sol, além de óculos escuros que estavam presos na gola da regata.
Vesti-me quase da mesma forma, mas trocando a regata por uma camisa cinza da Nike e a saia por uma bermuda jeans, peguei um boné e os óculos de sol, conferi os bolsos pra ter certeza que estava com tudo que preciso e logo estávamos deixando Sirius bem alimentado e pegando a estrada de carro até Paris. Eu até tinha pensado em ir de trem, mas acho que o conforto de voltar no carro, podendo ser a hora que bem quisermos. Isso sem contar a privacidade que teremos para ir e voltar.

– As músicas e o volante são meus. – falou, sentando-se no banco do motorista, ligou o rádio e conectou com o celular para tocar alguma playlist específica.

O trajeto de duas horas e meia foi feito de forma animada, com uma playlist de músicas bem alternadas, que iam de Shawn Mendes a Black M, cantava animada e batucava o volante enquanto eu seguia no banco do passageiro tentando acompanhar as músicas sem rir muito da empolgação dela em cantar tudo.
deixou o carro na Avenue du Président Wilson e seguimos pela pouca distância até os Jardins du Trocadéro, para o local em que costumávamos vir antes e no qual nos encontramos dez anos depois.
Sem café e sem macarons, apenas nós dois de mãos dadas e seguindo para o local em que costumávamos ficar, que por muita sorte estava vazio e logo sentamos no banco de concreto e começamos a observar o movimento de turistas tirando fotos e posando com a Torre Eiffel ao fundo. O dia ainda demoraria um pouco até se tornar noite, mas nada que nos impedisse de aproveitar bastante o local, o que também me dava tempo de pensar um pouco e resolver a confusão de palavras que cercavam minha cabeça naquele momento.
Eu sei que não preciso de discursos elaborados e nem palavras pomposas, mas eu quero falar e externar como esse último ano foi ótimo, como as coisas ficaram tão melhores com a presença dela na minha vida… e por mais clichê que isso pareça, quero dizer. Já falei diversas vezes, mas gosto de sempre deixar que ela saiba como eu a amo e como a existência dela é tudo pra mim.

– Lembra quando viemos aqui num fim de semana, porque você tinha sido cortado do jogo e estava muito triste? – perguntou, virando o rosto em minha direção, e eu assenti.
– Foi ótimo, eu até esqueci do jogo e do que estava perdendo em campo, porque estava aqui com você, estávamos comendo uma pizza deliciosa sentados exatamente aqui e bebendo refrigerante. – relembrei, dando um sorriso saudoso. – Foi ótimo passar metade do dia aqui com você.
– Nunca entendi como sempre dávamos um jeito de vir a Paris, do nada, apenas pra sentar aqui e ver o pôr-do-sol.
– Posso parafrasear Rick Blaine e falar que nós sempre teremos Paris? – perguntei e ela deu uma risadinha baixa, encostando a cabeça em meu ombro.
– Não sendo no contexto do filme, pode.
– Eu queria esperar até o pôr-do-sol, mas eu preciso falar uma coisa com você agora…
– Preciso ter medo?
– De forma alguma. – falei e ela voltou a me olhar. – , tem quase um ano que nós resolvemos dar uma nova chance pro nosso amor e esses têm sido os meses mais felizes da minha vida em dez anos. Estar com você e ter você por perto é absolutamente tudo que eu preciso pra ser feliz de verdade e eu não consigo imaginar mais a minha vida sem você. E eu me sinto constantemente feliz desde aquele dia, desde que resolvemos nos dar a chance de tentar de novo. E tentamos todos os dias, mesmo separados fisicamente, mas sempre ligados pelo amor. Agora os voos de Lille pra Madri e de Madri pra Lille demoram um pouco mais do que os de Lille pra Londres e de Londres pra Lille, mas pelo menos estamos no continente e com a certeza da União Europeia…
– E isso significa que posso trabalhar em Madri e em Lille.
– É. – soltei o ar um pouco nervoso. – Bom, eu não entendo bem como isso de advogados funciona, se dá mesmo pra trabalhar lá e em Lille, mas provavelmente deve existir essa chance. Enfim, eu… o que eu quero dizer… eu sempre tive a certeza de que quero me casar com você e passar com você toda a minha vida, construir uma família e envelhecer do seu lado, mas eu nunca pedi com o tom sério de hoje antes, porque nunca tentaria te tirar tudo isso que você ama: seu trabalho, seus estudos, suas aulas. Mas, agora, eu tenho certeza que posso te propor isso sem atrapalhar sua vida.
– Certo…
– Há uns meses o Giroud me disse que toda essa felicidade que eu sinto tem nome: Retrouvailles.
– A felicidade do reencontro após um grande período de tempo. – sorriu pra mim de forma carinhosa.
– La vie c’est des étapes… La plus douce c’est l’amour… La plus dure c’est la séparation… La plus pénible c’est les adieux… La plus belle c’est les retrouvailles. – falei baixo, recebendo um selinho demorado. – Eu tenho um anel no bolso e quero te pedir em casamento agora, sem uma cena enorme, porque sei que você não gosta disso. , você aceita se casar comigo, nos seus termos, da sua forma, quando você quiser?
… – ela começou a falar, mas se interrompeu, dando um sorriso tão grande que quase achei que partiria seu rosto ao meio. – Eu aceito me casar com você agora mesmo se for possível. Eu já aceitei há tempos, não na London Eye, mas quando coloquei os olhos em você na escola. Você é o amor da minha vida, , e eu casaria com você com ou sem um anel. Os meus termos são: vamos nos casar. Posso trabalhar lá e aqui, basta me registrar pra isso e mesmo se eu não pudesse, eu daria um jeito de conseguir outra coisa, porque eu não abro mão da felicidade que eu sinto por te ter de volta. Naquele dia em que nós nos reencontramos eu soube que seria meu quatervois.
– Estou pronto pra me chamar .
– E eu pra ser a . – sorriu e me abraçou apertado.

E, ali, naquele abraço, eu descobri que eu seria feliz para sempre por ter dado uma nova chance pra minha vida. é meu quatervois desde o princípio e sempre serei feliz, sempre, por tê-la reencontrado. O reencontro é mesmo a parte mais bonita da vida.


Quatervois (s.): do francês, o ponto da virada na vida de alguém
– La vie c’est des étapes… La plus douce c’est l’amour… La plus dure c’est la séparation… La plus pénible c’est les adieux… La plus belle c’est les retrouvailles.”: A vida é feita de etapas. A mais doce é o amor, a mais dura é a separação, a mais dolorosa é o adeus, a mais bela é o reencontro.

Nota da Autora: Oi!
Essa é a última nota nessa fanfic, que foi uma das (se não A) mais fofa que já escrevi na vida, levinha e quase sem drama (teve um pouquinho, porque se não tiver um sofrimento, nem que seja pouco, eu morro).
Meu gordinho belga merece todo amor do mundo (e sei que ele tem com a Natasha e a imensa creche que ele tem em casa, perdi as contas, mas acho que são cinco crionças, sem contar com ele!), mas era meu sonho escrever alguma coisa com ele e eu realizei com Retrouvailles.
Espero que vocês tenham gostado <3 tem outras trocentas fanfics minhas de futebol aqui (com um pouco de sofrimento), caso queiram ler 😊
Aqui tem o grupo do Facebook e aqui o do WhatsApp.
Vocês também podem me seguir no Twitter (mas aqui eu só surto por esportes, bandas e xingo determinados presidentes não disse quais).