Hold it Against Me

Hold it Against Me

  • Por: M. Angeli
  • Categoria: EXO | Kpop
  • Palavras: 10104
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Sinopse: Levou apenas 48 horas para que ela visse tudo desabar diante dos seus olhos. Começou do lado de fora de uma boate e 48 horas depois, estava sendo exposta por toda a internet.
Gênero: Drama e Romance.
Classificação: 16 anos.
Restrição: É uma continuação independente de Hot, não é necessária a leitura da outra. Contém violência e retrata o machismo, pode ser gatilho. Leia com responsabilidade.
Beta: Alex Russo.

Capítulo Único

48 horas atrás, e transavam contra uma parede atrás de uma boate na rua principal. Ela ainda lembrava a música que tocava ao fundo, abafando os gemidos que escapavam entre seus lábios.
Era um tanto quanto irresponsável fazer aquilo em local público, mesmo a noite, quando era difícil enxergar muita coisa, mas não era como se já não fosse expert em convencê-lo a fazer qualquer coisa. Bastou puxá-lo para mais perto e sussurrar algumas palavras em seu ouvido para que ele fosse dela mais uma vez, as escondidas em algum lugar proibido como estavam acostumados em fazer, mas ela deveria ter imaginado que, em algum momento, sua maré de sorte passaria.
Havia pessoas demais do colégio naquele mesmo lugar. Era uma comemoração para a vitória do time, afinal, e deveria ter imaginado que estariam sendo observados. era do tipo que chamava atenção e com os amassos trocados ainda dentro da boate, era fácil adivinhar o que faziam ao sair.
48 horas atrás, a filmaram transando contra a parede de uma boate com na rua principal e agora a acompanhavam com o olhar onde quer que ela fosse, após terem visto o vídeo que viralizou pela internet e teve mais acessos que metade dos vídeos pornôs nacionais.
fingia não ver as risadinhas das garotas, ou os olhares de repulsa. Um público dividido em achar que ela merecia o que estava acontecendo e o que tinha nojo da garota por ser uma vadia. Era triste a falta de apoio feminino, especialmente quando sabia que pelo menos metade delas tinham alguma fantasia com . Era triste porque, independente de como havia acontecido, era um momento íntimo sendo divulgado para o mundo todo através da internet. Era triste porque todo o público masculino agora olhava para ela como se fosse um pedaço de carne enquanto era cumprimentado pelos corredores como se fosse um rei por ter comido uma garota atrás da boate.
E isso sim era nojento.
O machismo era nojento, e piorava ainda mais quando vinha das próprias mulheres. Pelo menos metade das que apontavam para ela julgavam-se feministas, mas aparentemente o feminismo só funcionava para elas, não para outras mulheres.
E aquilo nem era feminismo.
sentia-se sim envergonhada pelo vídeo espalhado. Tinha vontade de se esconder cada vez que um garoto lhe encarava como se fosse o próximo lanche, como se o fato de ter transado com um cara dissesse algo sobre ela ou significasse que todos tinham chance, que era só assoviar que ela levantava a saia, mas o maior sentimento dentro dela, no momento, era a raiva. E nem era do maldito que a havia filmado, não. Era do mundo repulsivo no qual viviam. O preconceito, o machismo, a discriminação. Porque um homem era o rei se transava com uma garota e ela era uma vadia, tanto para os outros homens quanto para as mulheres.
– Ei, ! – ouviu seu nome ao longe e, imediatamente, virou o corredor. Tudo o que não precisava no momento era vê-lo. Sabia que ele tinha tanta culpa pelo que havia acontecido quanto ela e o conhecia o suficiente para saber que se gabar por sexo não era algo que faria, no entanto, ainda assim, precisava de um tempo.
Nunca foi do tipo que chorava, que se lamentava ou que falava de sentimentos, que se abria. Não tinha o que dizer para ele, ou uma forma correta de reagir. Com certeza não reagiria como ele provavelmente esperaria, então preferia simplesmente não vê-lo.
Parou ao lado de uma sala qualquer, e suspirou ao encostar as costas contra a parede. Aquele dia estava um saco. As pessoas olhando para ela onde quer que fosse era um saco e as que riram ao vê-la parada ali, mais ainda. Se perguntou como podiam ser tão cruéis. Como podiam achar tanta graça de algo como o que havia acontecido com ela, mas se lembrou então que para eles, ela não passava de uma vadia e isso justificava tudo.
– Mandou bem, hein, ! – ela ouviu novamente, mais perto agora, e afastou-se dali rapidamente, pronta para fugir.
– Vai pro inferno. – ouviu responder, soando furioso como nunca havia escutado, e antes que pudesse de fato se afastar para evitá-lo, foi tomada por um dos braços e puxada para dentro da sala mais próxima.
– No meio da escola? Ficou louco?! – perguntou enquanto ele trancava a porta, voltando-se para ela depois disso. – Já não estão falando o suficiente?!
– Eles são ridículos. – respondeu irritado, sem dar muita atenção para o que ela havia dito. – Isso é ridículo.
– Sim, é. E você não está ajudando. – ela devolveu no mesmo tom. passou por ele para tentar abrir a porta e sair, mas a impediu, segurando novamente seu braço antes de suspirar como se tentasse controlar a si mesmo.
– Desculpa. – pediu, e ela estreitou os olhos ao encará-lo, se perguntando pelo que exatamente ele se desculpava. Por estar irritado, ou pelo vídeo? Ambas as coisas seriam ridículas. – Como você está? – quis saber, e dessa vez ergueu uma sobrancelha antes de se afastar, fingindo não entender o motivo daquilo.
, é claro, revirou os olhos, como se aquela reação fosse um teatro ridículo.
– O quê? – perguntou, com sua melhor expressão cínica no rosto. – Não vou chorar, se é isso que está esperando.
– Jamais esperaria isso de você, mas seria compreensível se chorasse. – respondeu, e dessa vez quem foi obrigada a revirar os olhos foi ela.
– Mas não estou, e nem vou. Já pode ir. – devolveu, tentando mais uma vez se adiantar até a porta, mas ele bufou ao impedi-la novamente. – Que inferno, o que você quer de mim?! – explodiu, irritada por ter que ter aquela conversa. Ela era melhor em fingir que estava tudo bem do que em discutir o assunto. Não queria discutir o assunto. – Foi você que mandou gravarem, que espalhou o vídeo?
– O quê?! – ele perguntou, elevando o tom de voz, chocado e totalmente perplexo com a acusação. – Ficou louca?!
– Se não foi você, então não me deve nada. – esclareceu, tentado fazer com que ele entendesse que não tinham o que conversar. Nunca foram de conversar, na verdade, independente de quantas vezes já haviam estado juntos. Ele já deveria ficar feliz se ser o primeiro que tinha vontade de repetir. – O que aconteceu foi uma merda e eu mataria o idiota que gravou se soubesse quem foi, mas não sei. E não tem nada que possamos fazer quanto a isso a não ser esperar que passe. E vai passar.
– E pra você é tão fácil assim estar bem com tudo isso? – ele perguntou, descrente. – Fomos expostos, humilhados e estão falando disso por toda parte. Como você pode estar bem?
Eu fui humilhada. É de mim que estão falando quando querem criticar alguém por isso. – deixou claro, porque aparentemente era normal um homem transar em qualquer lugar, mas uma mulher não podia ter a mesma liberdade.
– Você não pode me culpar pela ignorância alheia. – ele se defendeu, e ela negou com a cabeça.
– E por isso não estou te culpando. – respondeu ela, de forma mais amena agora, pois realmente não o culpava por isso. Ela havia iniciado a provocação e o levado para trás da boate. Claro que não podia ter feito nada sozinha, não havia o obrigado a nada tampouco e definitivamente era santo, mas não podia culpá-lo por atitudes que eu havia iniciado. – Eu só não quero falar sobre isso. – disse de uma vez, esperando que ele entendesse. – Eu quero tempo pra ficar sozinha.
Sem dizer uma palavra, deu um passo para o lado após alguns instantes, saindo de frente da porta. , dessa vez, não fui impedida de passar por ele ou de abrir a porta para sair, mas podia ver a insatisfação expressa em seu olhar para quem quisesse assistir.
– Eu sei que nunca fomos disso… – ele começou assim que a porta foi aberta, mas apesar de parar onde estava para ouvi-lo, ela não se virou para encará-lo. – Mas eu estou aqui se quiser conversar. Estamos juntos nisso, mesmo que as pessoas não vejam as coisas da mesma forma para nós dois. Mesmo que os julgamentos sejam diferentes, eu estou aqui.
jamais aceitaria admitir, mas aquelas palavras mexeram sim com ela. Nunca chegaram a ser próximos sentimentalmente apesar de todas as vezes que já havia dormido juntos, mas era impossível negar que não havia algo ali, maior que atração sexual. Não depois de tanto tempo.
Independente disso, no entanto, não respondeu nada, limitando-se em menear com a cabeça antes de se por para fora. Era para se despedirem ali. O sinal já havia tocado e ambos já deveriam estar em aula, mas assim que colocou o primeiro pé no corredor deu de cara com o diretor do colégio, como se o homem já esperasse pelos dois ali.
E, de fato, o homem estava esperando. Claro que estaria. Seu péssimo dia só estava começando.

+++

Não era a primeira vez e dificilmente seria a última em que terminaria ali, na sala da direção. No entanto, o motivo para estar ali dessa vez a assustava mais do que os anteriores. Não que tivesse medo do diretor da escola, ou de ser punida por ele. Seu único e verdadeiro medo era de chamarem seus pais e que aquele vídeo com terminasse na mão deles, especialmente na de seu padrasto.
estava sentado na cadeira ao seu lado, então fez o possível para controlar a ansiedade ou os pés batendo contra o chão. O problema era que, se parava os pés, começava a bater com as unhas na cadeira e se tentava conter as duas coisas, quando notava, estava mordendo o canto da boca com força demais para que as pessoas na sala não fossem capazes de notar.
– Está tudo bem. – disse ao seu lado, e ela respirou fundo para não simplesmente estapeá-lo por isso.
– Não preciso de conforto. – devolveu, tentando controlar seus impulsos de ansiedade.
– Não parece. – ele respondeu e se voltou para ele com cara de poucos amigos, sendo, no entanto, impedida de falar quando o diretor voltou para a sala.
– Conseguimos contato com seu pai e ele está a caminho. – falou o homem e ela fechou os olhos por um segundo enquanto sentia suas mãos congelarem. Seu pai de verdade morava nos Estados Unidos. Era o contato do seu padrasto na ficha de contato e ele definitivamente era a última pessoa que ela queria que soubesse do vídeo.
Sentiu o medo tomar conta de cada célula do meu corpo e não foi capaz de dizer nada, nem mesmo contra a injustiça e, principalmente, contra a discriminação que o homem estava cometendo com aquela atitude.
– Pode, por favor, me explicar que lógica seguiu para isso? – perguntou por ela, soando quase ofendido. – Eu juro que não consigo entender nem mesmo porque os pais dela foram chamados quando não fizemos nada além de estar juntos na mesma sala. E pior, porque só os dela.
– A escola ainda não tem nenhuma regra que impeça dois alunos no mesmo cômodo, mesmo que eles tenham a reputação de vocês dois. – o homem explicou e dessa vez nem mesmo com todo o pânico que sentia foi capaz de deixar de lado aquela situação.
– Nossa reputação? – perguntou, apesar do estômago embrulhado com a possibilidade de ver seu padrasto logo mais.
– Eu sei o que acontece na minha escola. – o homem falou, e ela se obrigou a prestar atenção no que ele dizia. – O vídeo tem causado alvoroço e impedido os alunos de se concentrarem nas aulas. – começou e , até então inclinado para frente com os cotovelos sobre os joelhos, se voltou para trás, encostando contra o encosto da cadeira e levado uma das mãos até o queixo como se estivesse apenas esperando que o homem terminasse sua frase para iniciar o julgamento. – Era de se esperar que pensassem que algo a mais estava acontecendo quando os dois simplesmente decidiram se trancar sozinhos dentro de uma sala.
– Ainda estou confuso. Está nos punindo porque alguém pensou que a gente ia fazer algo que não fizemos? – perguntou o garoto, com a voz carregada de ironia.
Me punir. – respondeu no mesmo tom, sem tirar os olhos do diretor, e concordou com a cabeça.
– Isso, desculpe. – falou, sem deixar o sarcasmo de lado. – Punindo apenas a ela por algo que acharam que nós dois estávamos fazendo.
– Não tem relação com a denúncia. – ele respondeu, mas era evidente que agora estava desconfortável. – E nem é uma punição. – continuou, fazendo com que risse em deboche. – A repercussão do vídeo tem atrapalhado as aulas e nos preocupamos com o que vem sendo dito. Vai ser melhor para você se afastar das aulas por alguns dias, até que isso passe. É tudo muito recente e tememos o que pode acontecer com você se continuar na escola.
– O que pode acontecer? – repetiu assim que ele terminou, sua voz um quarto mais alta. – Vai afastá-la das aulas porque não pode evitar que os alunos façam mal a ela? Não consegue oferecer segurança para seus alunos e nem impedir que um garoto provoque-a? Por que não tira todas as garotas dos corredores, então? Transforme isso em um colégio só para garotos porque o que está acontecendo aqui, pode acontecer com qualquer um e você definitivamente não está preparado para lidar com essa situação.
– O vídeo é um gatilho. – foi o que o homem respondeu, como se fosse justificativa o suficiente e acabou rindo novamente. Aquela situação era tão absurda que ela só conseguia ser aquele tipo de reação: O riso.
– Para abuso sexual? – perguntou, descrente. – Ver pornô é gatilho para estupro? Por que me desculpe, mas eu só ouço estupro quando você fala sobre “fazer mal”. Estou errada?
– Estou tentando tomar a atitude mais segura para você no momento. – ele insistiu, e foi o próprio quem continuou:
– Não, você está punindo a vítima por espalharem um vídeo íntimo dela ao invés de procurar quem fez isso para punir a ele! – debateu inconformado. – É isso que você está fazendo! Vai punir a ela ao invés de impedir que caçoem dela pelos corredores.
– Chega, não vamos mais discutir sobre isso. – cansado da discussão, o homem interviu e como em um timing perfeito, batidas na porta impediram a continuação do assunto.
sentiu seu coração parar com a intromissão, e não teve coragem de se virar para a porta como fez quando esta se abriu.
– Com licença. – falou a secretária ao adentrar o cômodo. – O senhor já está aqui.
– Ótimo. – o diretor respondeu, fazendo sinal para que os dois se levantassem. – Saiam, por favor. Vou conversar com ele a sós. – disse, e sentiu o olhar de cravado sobre ela, como se esperasse alguma atitude dela para decidir o que fazer.
Mas sem palavras dessa vez, a garota apenas obedeceu, temendo demais aquela conversa para querer participar, ou brigar por isso.
O homem mostraria o vídeo para Robert e, depois disso, sofrer as consequências seria inevitável.

+++

Não tinha realmente um motivo para que estivesse onde estava, literalmente jogada no chão enquanto uma lágrima solitária escorria por seu rosto sem sua permissão.
Perguntou-se se aquilo, de alguma forma, era uma espécie de castigo por alguma coisa. Nunca acreditou em Deus, ou em destino. Era muito cética para acreditar em qualquer coisa naquele sentido, mas, naquele momento, se perguntou isso, se estava pagando por algum pecado muito ruim. Claro que, quando notou o que fazia, acabou rindo de si mesma por isso, já que não tinha qualquer sentido. Imaginou que cogitar aquela possibilidade era a prova de que ela estava completamente perdida, “atirando” para todos os lados em uma tentativa de descobrir o porquê de tudo aquilo.
Mas a verdade era que a vida era apenas uma merda.
Ter sido deixada pelo pai quando mais nova havia sido apenas mais uma merda da vida. Seu padrasto agressivo era apenas mais uma merda da vida, junto com sua mãe que aceitava aquilo e com seu diretor machista de merda, que mostrara o vídeo a Robert pedindo que “desse um jeito de controlá-la” ao invés de pedir por apoio a uma garota que estava sendo exposta, humilhada e julgada por fazer algo que todo mundo fazia.
Quando seu celular tocou, foi chamada de volta para a realidade e olhou para o aparelho sobre a cama, mas não fez qualquer movimento. Sabia que doeria se fizesse, depois de ter tomado uma das maiores surras já recebidas do padrasto. Isso sem contar que o chão frio, de certa forma, aliviava a dor.
Quanto o telefone parou de tocar, ela fechou os olhos e se permitiu suspirar, desejando dormir ali mesmo para, pelo menos, esquecer sua vida tão desprezível. A suspensão pelo menos lhe daria alguns dias em casa e não precisaria faltar para esconder as manchas no corpo. Também não precisaria lidar com olhares e como já estava trancada ali, não precisaria sair para lidar com Robert também. Tentou se deixar consolar por isso. Logo tudo passaria, como sempre passava, mas o som de uma nova mensagem lhe deixou curiosa sobre o celular novamente.
Muito provável fosse alguma de suas amigas. A essa altura já sabiam que Robert havia ido buscá-la e, bom, imaginariam o que viria a seguir. Decidindo que precisava tranquilizá-las para que não pensassem o pior, obrigou-se a se sentar, mordendo o lábio inferior para não emitir qualquer ruído ou gemido com a dor que se espalhou por seu corpo. Ela tinha manchas escuras nos braços, onde o padrasto havia segurado para arrastá-la para o carro e depois, para dentro de casa. Ela provavelmente tinha uma mancha escura no rosto, onde ele a havia estapeado com força o suficiente para derrubá-la e marcas de cinta. Deveria estar um caco, mas conseguiu se esticar até o celular.
A primeira coisa na qual reparou, foi na ligação perdida de , mas ao invés de retornar apenas apagou, abrindo as mensagens para confirmar que eram as amigas, preocupadas com ela.
Digitou meia dúzia de mentiras para que não se preocupassem mais e voltou para o lugar que estava no chão, mas não pôde dormir, pois agora, foram batidas na porta que a interromperam.
Imediatamente, a garota se encolheu no chão, lutando ao máximo contra as lágrimas ao pensar na possibilidade de ser Robert mais uma vez, muito mais assustada do que gostaria de admitir.
? – ouviu sua mãe chamar baixinho e sentiu o peito se aliviar por ser ela. Não que a mulher lhe transmitisse qualquer tipo de conforto ou segurança, mas o fato de não ser o padrasto era o suficiente para ela no momento.
Nenhum pouco inclinada em se levantar para caminhar até a porta, tudo o que ela fez foi fechar novamente os olhos para esperar que ela fosse embora, mas ao invés disso ouviu o som da chave na maçaneta e voltou a se sentar, agora chocada com o fato da mulher ter a chave.
– Como você…? – ela perguntou ao ver a mãe entrar no quarto, fechando e trancando a porta atrás de si.
– Minha menina, olha pra você… – a mulher falou, abaixando-se ao seu lado com a mão estendida em direção ao seu rosto, mas se esquivou do toque. Tinha raiva da mãe por submetê-la a isso. Mais do que tinha do pai por abandoná-las. Entenderia talvez, se sozinhas não tivessem condições de se manter, mas tinham. Sua mãe recebia mais que o padrasto e ele gastava todo seu salário com bebidas. Não conseguia entender de forma alguma porque a mãe se mantinha com aquele porco e não a perdoava por isso. Sua mãe representava tudo que ela detestava em uma mulher, a começar pela submissão.
– Desde quando tem minha chave? – perguntou ao invés disso, estendendo a mão para ela. – Eu quero de volta.
– Sou sua mãe, preciso da chave do seu quarto.
– Não precisa, eu não me sinto segura aqui sabendo que tem. – respondeu rapidamente, fuzilando a mulher com o olhar. – E sabemos que é culpa sua eu precisar de algum lugar seguro em casa. – disse, sem se importar em soar cruel. Cruel era ela ter que apanhar do padrasto sem ninguém para defendê-la, nem mesmo sua mãe.
– Preciso da chave caso te aconteça algo aqui dentro.
– Só vai acontecer se ele tiver a chave e estando com você, é muito fácil que isso aconteça. – debateu a garota. – Eu quero a chave de volta. – insistiu, firme, e a mulher acabou lhe entregando. Ela cedia fácil demais, era assim sempre e odiava que fosse, que a mulher não tivesse pulso para nada. – Agora vá embora e me deixe sozinha. – falou, voltando a se deitar no chão sem encarar a mulher.
… eu vi o vídeo. – falou ela e a garota sorriu sem humor antes de dar de ombros.
– Todo mundo viu. Não é surpresa. – respondeu. Todos já a julgavam na escola, uma pessoa a mais ou a menos nem fazia lá muita diferença. Especialmente quando ela já não levava sua mãe muito a sério, por mais que doesse admitir. Muitas coisas, alias, doíam de admitir, como o fato de sentir mais falta de ter aquele apoio materno do que demonstrava, ou que no fundo estava com mais vergonha do vídeo do que havia deixado transparecer durante todo o dia.
Ela quis chorar quando seu padrasto lhe obrigou a ver o vídeo pela primeira vez. Estava fugindo dele até então deixando que sua mente lhe confortasse repetindo para si mesma que podia ser pior e que, muito provavelmente, não dava pra ver muita coisa no escuro.
Mas era ela quem não havia reparado no foco de luz tão perto deles, que permitiu uma filmagem bem específica. Sequer dava para negar que era ela, haviam feito questão de dar zoom em seu rosto e ela teve nojo de si mesma vendo aquilo.
– Foi irresponsabilidade, você sabe, não sabe? – a mulher falou e respirou fundo.
– Eu já consegui notar isso sozinha e estou sofrendo as consequências melhor do que qualquer lição de moral que você possa dar. – respondeu, quase implorando, mesmo mentalmente, que ela a deixasse em paz. Era gente demais julgando, e ninguém apoiando. Tudo bem, não havia sido a atitude mais inteligente de sua vida. Era um local inadequado, era loucura e era errado. Podiam ter chamado a polícia, ou tê-los constrangido, mas escolheram filmar para expor os dois para o mundo em um site pornô. Agora, ela estava sendo punida. Era a única, aliás, sendo punida como se todos vendo aquele vídeo já não fosse terrível o suficiente. E ninguém via esse lado, que também era errado. Filmar alguém sem autorização em um momento íntimo e colocar na internet. Só a julgavam por ter feito aquilo e falavam na culpa que ela tinha por isso, como se uma atitude errada justificasse outra atitude errada.
– São as consequências do que você fez. – a mulher insistiu, e ela apenas soltou uma risada nasalada, desistindo de brigar por aquilo.
– Eu sei, mãe. – falou, sem olhar para a mulher. E fez o máximo para manter o sarcasmo longe do seu tom de voz, mesmo sentindo-se totalmente quebrada por dentro. – Eu pedi por isso, você está certa. Também mereci a surra dessa vez pelo que eu fiz.
– Não seja irônica comigo, . Você sabe que estou certa.
– Eu sei. É isso que eu estou dizendo, não é? – respondeu, desviando o olhar para a mulher e odiando-se quando uma lágrima escorreu de seus olhos. Sua mãe, vendo aquilo, suavizou a expressão e ameaçou se aproximar, mas virou o rosto, contendo as outras lágrimas que quiseram escorrer. – Vai embora, por favor. – pediu, e após suspirar, alguns segundos depois, a mulher se deu por vencida e finalmente saiu.
Nunca antes teve tanta vontade de chorar quanto naquele momento. Passou a vida apanhando do padrasto por nada, mas como daquela vez ela merecia, estava certo e era justificável.
Talvez merecesse mesmo, por ser tão estúpida. Ou pelo menos por se importar tanto com o que não deveria importar mais, como a falta de apoio da mãe com absolutamente tudo.
Decidindo deixar aquilo de lado, antes que sucumbisse se vez, ela respirou fundo e ignorando as dores, pegou o celular e finalmente se levantou, ligando para . Ia precisar de luzes apagadas e uma boa dose de maquiagem, mas precisava daquilo, de alguma distração, e ele seria a sua.

+++

estava de pé em frente ao espelho do banheiro quando notou a sombra de em sua janela. O celular estava ao seu lado, caso ele ligasse e a garota fechou o estojo de maquiagem, apoiando as duas mãos contra a pia esperando que ele entrasse.
Havia avisado sobre deixar a janela aberta, embora o tenha feito mesmo apenas depois de terminar a maquiagem. Precisou esconder uma marca arroxeada abaixo dos olhos e precisou dar um jeito em sua aparência após aquele dia de merda. Deixou muitos detalhes de lado para que não parecesse que estava maquiada e evitou rímel e delineador por isso. Precisou usar um robe de mangas cumpridas também para esconder as marcas em seus braços e até se surpreendeu por ainda tê-lo, visto que nunca o tinha usado. Fazia conjunto com um baby doll preto e liso, simples, que usava para dormir as vezes. Vestia muito bem, fazia com que ela se sentisse sensual, mas pela primeira vez não se ficou bem por isso, ou feliz. Assim que se olhou no espelho, com a imagem perfeita como se tudo estivesse maravilhosamente bem, teve nojo de si mesma mais uma vez. Estava, inclusive, considerando pedir para que ele não fosse até lá, mas por outro lado também torceu para que ele fizesse aquilo passar.
Quando a porta foi aberta, direcionou o olhar para ele e o acompanhou enquanto entrava, dando as costas para também fechar a porta atrás de si. Após fazê-lo, a procurou com o olhar e não tardou a encontrar o seu pelo reflexo do espelho. se permitiu encará-lo sem fazer nenhum movimento por alguns instantes, e ele não ousou se mover, como se ainda estivesse incerto quanto a sua reação. Ela não tinha dito muito quando o chamou de qualquer forma, então não podia culpá-lo. Havia apenas mandado a ele uma localização com instruções para achar sua janela.
– Está tudo bem? – ele perguntou quando ela não disse nada ou se moveu, dando mais dois passos lentos em sua direção antes de parar mais uma vez.
Após encará-lo por mais um segundo, ela finalmente se virou em sua direção, aproximando-se dele sem dizer nenhuma palavra. Ficou de frente para ele, à apenas um passo de colar seus corpos. Um espaço mínimo entre os dois. parecia o paraíso, e ela precisava dele essa noite. Precisava de férias, precisava esquecer toda aquela droga que havia acontecido nas últimas horas, mas mais do que isso ela precisava de alguém, mesmo que fosse daquela forma, a única que ela conhecia.
– Você diria que eu sou louca se… Se eu dissesse que quero o seu corpo agora? – ela começou, o tom de voz próximo a um sussurro enquanto olhava em seus olhos e negou com a cabeça. Mas não como se negasse a sua pergunta, mas como se a repreendesse por ela.
… – falou em tom de aviso enquanto ela segurava um dos lados de sua jaqueta e a garota deu o último passo para frente, mordendo o lábio inferior para evitar de continuar a fala quando a única coisa que passou por sua mente foi um “por favor”. Ainda tinha dignidade o suficiente para não implorar por isso, mas sentiu todas as suas estruturas ruírem quando ele lhe envolveu com um dos braços apenas para fazê-la esconder o rosto em seu pescoço em um abraço que nem de longe condizia com o que eles eram.
Mas seu perfume era tão tranquilizador que ela não quis fazer nada além de ficar ali em seus braços. Sentiu a mão livre de rumar para seus cabelos e se encolheu onde estava, sentindo a mesma vontade de chorar que sentiu antes lhe invadir. Chamar até ali era justamente para evitar isso, as lágrimas, temendo não parar mais se começasse e foi novamente tentando evitá-las que ela imiscuiu os dedos em seus cabelos também, puxando-o para si enquanto ficava na ponta dos pés para colar seus lábios aos dele.
O beijo de tinha o mesmo sabor adocicado com o qual ela estava acostumada, mas o ritmo era mais lendo do que o habitual. Normalmente, quando chegavam àquela parte, já haviam se provocado por tempo o suficiente para deixar qualquer traço de delicadeza de lado, mas ali era diferente. estava sendo cuidadoso, como se não soubesse o que esperar e mesmo que uma parte dela gritasse para que ele lhe agarrasse como normalmente fazia, com o mesmo fogo que existia entre eles, havia outra gostando daquela atenção muito mais do que deveria, fazendo seu coração bater três vezes mais rápido como se estivesse prestes a sair do seu peito. Aquele novo tipo de contato era bom, essa era a verdade. Permitia que ela o explorasse com uma calma que nunca existiu entre eles. Podia se concentrar em sentir apenas os lábios dele sobre os seus. Podia se concentrar em sentir seu sabor, o calor do seu corpo contra o dela e suas línguas movendo-se em sincronia quase ensaiada uma contra a outra.
Mas quando ele rompeu o beijo e ela sentiu a respiração de contra seu rosto, se lembrou do real motivo de tê-lo ali, mesmo estando ainda entorpecida com os efeitos dele sobre ela. Em seus sentimentos e não só em seu corpo como o habitual.
Sem esperar por qualquer reação dele, ou mesmo que recuperasse o fôlego, ela então o beijou novamente. Não podia se deixar seguir para aquele lado. Pessoas apenas causavam decepção e não o havia chamado ali para oferecer apoio e sim sexo, apenas isso, para que pudesse esquecer o mundo ao seu redor, não para senti-lo com ainda mais intensidade como estava fazendo com que sentisse.
Com o novo beijo, foi quem ditou o ritmo e a garota mordeu seu lábio inferior enquanto o obrigada a dar passos para trás. correspondeu, segurando-a pelos cabelos, mas tentou se afastar quando caiu sentado contra a cama, mesmo quando se sentou sobre seu colo.
– Ei, ei, chega. – ele falou entre o beijo, seu tom de voz demonstrando o quão afetado ele estava pela falta de fôlego.
Ignorando seu pedido, no entanto, beijá-lo novamente foi exatamente o que fez, sem nem ao menos se dar ao trabalho de abrir os olhos. A garota passou a ponta da língua por seu lábio inferior antes de deixar que suas línguas se encontrassem outra vez, mas antes que tivesse oportunidade de aprofundar o beijo, voltou a rompê-lo, a fazendo resmungar insatisfeita.
– Você não quer isso de verdade agora. – disse ele, tocando seu rosto com gentileza, mas ela tirou sua mão dali incomodada com o toque.
– Parece mesmo que eu não quero? – perguntou contra sua boca, mas ele segurou com firmeza em sua cintura para impedi-la de se aproximar demais. Aquele toque, em qualquer outro momento, teria feito seu corpo inteiro ferver, mas dolorido como estava, a garota não conseguiu conter um gemido, mesmo que baixo, de dor. Mesmo despreparada para aquilo, ela tentou não se encolher, mas não pôde evitar a careta, o que chamou a atenção de rapidamente.
, o que está acontecendo? – ele perguntou, mas ela negou, afastando suas mãos novamente para que pudesse se levantar dessa vez. Mais que depressa ela saiu de seu colo, e colocou-se de pé em seguida. – Alguém te machucou?
– Vai embora. – ela pediu, fechado o robe em sua cintura sem encará-lo.
– Não até você não me dizer quem te machucou.
– Ninguém me machucou, agora vai embora. – repetiu, mas voltou a encará-lo quando não se moveu. – O que é?! – quis saber, aumentando o tom de voz. – Se não quer me fuder vai embora. Foi pra isso que eu te chamei e é pra isso que você serve! – exclamou e inabalável, apenas sorriu, erguendo uma das sobrancelhas como se perguntasse se ela já tinha terminado. – Tira esse sorriso cínico da cara e some daqui, . – disse em tom de ameaça, e sem dizer nada, ele apenas inclinou a cabeça para o lado.
– O que você está escondendo embaixo do robe, ?
– Pele, carne. Nada diferente do que você já viu, alias. Há alguns minutos eu estava até disposta a mostrar, mas agora eu quero que você saia.
– Nós dois sabemos que você não ia tirar nada, porque colocou isso justamente para que eu não pudesse ver. – deduziu, dando um passo para frente. – Quem te machucou?
– Ninguém, . Eu já disse. – insistiu sem vacilar.
– Então me deixa ver.
– Não. – respondeu simplesmente.

– O que é? Se eu não deixar, vai tirar a força? – perguntou e ele apenas revirou os olhos.
– Não seja ridícula. – respondeu, como se aquela ideia fosse absurda. – Por que você só não me deixa te ajudar?
– Eu deixei, você que não quis.
– Você não queria ajuda, queria um botãozinho pra te fazer esquecer os problemas. – ele respondeu. – Isso não ajuda, isso não é solução.
– E que porra você quer que eu faça?! – se exaltou, o fazendo vacilar para trás quando ela simplesmente gritou, explodindo em cima dele. – Eu não posso apagar todas as cópias do vídeo espalhadas pela internet, pelos celulares e nem apagar a memória de ninguém que viu. Não tem como apagar essa droga de problema!
– Não tem, mas ele não dá o direito de ninguém mexer com você e eu quero saber quem fez isso.
– E o que você vai fazer? Bater de volta? Isso vai resolver?!
– Vai quando ele aprender a mexer com alguém que pode com ele.
– Não se para violência com mais violência.
– E para como? Se entregando a ela? – respondeu, fazendo com que as lágrimas voltassem para seus olhos. Ele estava certo, não ia parar enquanto ela estivesse ali, mas não tinha outro lugar para onde ir. Talvez o pai, em outro estado, mas recusava há anos todas as tentativas dele de aproximação.
– Por favor, . Só vai embora, por favor. – pediu, com a voz embargada enquanto dava as costas para poder limpar as lágrimas que finalmente começaram a descer.
… – ele sussurrou, aproximando-se dela, mas a garota o afastou quando ele tentou abraçá-la mais uma vez.
– Faz o que eu estou pedindo, por favor, vai embora. Por favor. – implorou, com os olhos cheios de lágrimas. – Tudo o que eu queria quando te chamei era não chorar e você aqui não está ajudando, . – confessou. – Só vai embora, por favor.
– Me deixa ficar, . – pediu, mas ela negou com a cabeça e foi nesse momento que tudo desabou. Mas não por causa dela ou de sua resposta.
Em momento nenhum havia lembrado de trancar a porta depois que a mãe saiu e ali estavam as consequências. Repentinamente e sem qualquer aviso, Robert entrou no quarto e o barulho da porta fez a garota pular, ficando lado a lado com .
– Não… – pediu ela por antecedência, erguendo uma das mãos para frente quando viu o homem. – Ele já está indo embora. – informou, mas não conseguiu evitar se encolher quando ele se aproximou. deu um passo para trás, e segurando pelo braço faz com que este repetisse o gesto. Ainda sem entender o motivo para aquilo, apenas olhou com confusão para que nem ao menos notou.
– Era ele, não era? No vídeo, era ele. – Robert chacoalhou o dedo na direção do rapaz, o cheiro de bebida que ele transmitia tomando conta do local. – Era ele sim. – disse, e só teve tempo de virar o rosto antes dele segurá-la por um dos braços para afastá-la de . Robert a empurrou contra o armário e a garota gemeu com o impacto, indo ao chão em seguida.
! – exclamou, tentando avançar em sua direção para socorrê-la, mas foi impedido por um soco recebido do homem e vacilou dois passos para trás. O rapaz levou uma das mãos até o rosto, no local atingido e em seguida ergueu o olhar para o homem, chocado.
, desistindo de lutar contra as lágrimas, deixou que escorressem e apenas negou com a cabeça quando viu o olhar de sobre ela.
– Vai embora, por favor. – insistiu em um sussurro fraco que o rapaz ignorou totalmente.
– Foi ele que fez isso com você? Seu pai fez isso? – perguntou, já deduzindo tudo, mas ela negou.
– Ele não é meu pai. – respondeu, deixando-o ainda mais confuso.
– Não sou o pai, mas sou o responsável por ela e isso quer dizer dar um jeito em você. – falou, investindo contra que não teve qualquer dificuldade em se esquivar do golpe, empurrando o homem quando este passou direto por ele. Não precisou de nenhum esforço, mas Robert caiu e por mais que merecesse, não pôde ficar feliz por isso, ciente de que agora tudo só ficaria pior.
Ela pediu, mais uma vez, que fosse embora, mas sabia que já era em vão. Robert não o deixaria ir tão fácil agora e ela apenas se encolheu quando a troca de agressões começou, chorando encolhida no chão com o rosto escondido dos joelhos.
sempre teve medo de denunciar Robert e o homem caçá-la junto com sua mãe se fosse solto. Sempre teve medo de sua mãe não perdoá-la no caso de denunciar Robert, mas livrar-se dele era a única forma de ter paz, pelo menos em casa, onde deveria ser seu porto seguro. Pensando nisso, se arrastou até o celular, discando o número da emergência. Suas mãos tremiam e os sons de socos eram assustadores, mas o que a fez congelar no lugar, sem apertar o botão verde, foi ver ser jogado contra sua mesa de estudo.
… – ela sussurrou, mas se encolheu quando viu seu padrasto virá-lo de frente, socando-o no rosto mais uma vez. Desesperada, ela se levantou, apertando finalmente o botão de discar e pediu mentalmente que fosse logo. – Vai… Por favor… – falou, vendo empurrar Robert para longe com um chute e o homem espumar de raiva.
Robert voltou correndo para se jogar contra e ela fechou os olhos, ouvindo a ligação ser atendida. Entre lágrimas, pediu por ajuda, falou brevemente o motivo, mas antes que tivesse oportunidade de dizer o endereço, viu Robert pegar o abajur para atingir e se levantou, deixando o aparelho de lado para se jogar sobre ele.
pulou nas costas do padrasto, que a jogou para longe. Ela bateu com as costas contra o chão e se encolheu para gemer, mas ainda viu Robert se levantar para seguir em sua direção, com o abajur ainda em mãos. A garota se obrigou a engolir o choro, mas Robert não teve tempo de fazer nada, sendo impedido por que, infelizmente, apenas o empurrou para longe.
Depois disso, tudo foi como um flash.
Primeiro foi atingido no rosto pelo abajur e o porcelanato da peça se quebrou sobre ele, que vacilou dois passos com o golpe. O sangue começou a escorrer de sua testa e arregalou os olhos com o líquido vermelho cobrindo rapidamente toda a lateral de seu rosto. Em choque, ela apenas ficou ali, olhando a cena que se seguia e teve apenas tempo de gritar quando Robert atingiu novamente, o fazendo cair.
! – ela se colocou de pé em um pulo, e empurrou Robert quando este deu o primeiro passo para perto do rapaz. – Deixe-o em paz! – votou a gritar, esmurrando o homem com toda a força que tinha no peito.
– Para com isso, . – ouviu repreendê-la, e parou o que fazia para encará-lo, fazendo esforço para se levantar. Parecia zonzo, o que não era de se admirar, mas a distração fez com que ela levasse um tapa forte o suficiente para derrubá-la. Mais uma vez, foi ao chão, mas não se deixou ficar ali dessa vez. Tão rápido quanto caiu, a garota se levantou. O abajur não era a única peça pesada do quarto. Sem pensar duas vezes, pegou o telefone ao lado da cama. Era apenas decorativo, mas produzido em ferro e mais pesado que o abajur, definitivamente.
Antes que Robert chegasse perto de o suficiente para golpeá-lo outra vez, ela o acertou com o telefone, usando as duas mãos para aplicar na pancada toda força que tinha.
O homem desabou, inconsciente, e deixou o telefone cair, voltando a chorar quando viu o que havia feito. Suas mãos tremiam, seu coração parecia prestes a sair pela boca e ela só desviou o olhar do corpo inerte do homem quando notou há um passo dela.
– Não fica assim. – ele disse, e como se só então se lembrasse do que havia acontecido a ele, voltou a se desesperar.
! – exclamou, levando uma das mãos até seu rosto. Ainda escorria sangue do corte em sua testa, pingando em sua camisa braça que, a essa altura, já estava totalmente manchada de vermelho. Manchas demais, aliás, para que ela pudesse permanecer tranquila quanto ao ferimento. – Você precisa sentar, você…
– Está tudo bem. – ele a interrompeu, segurando-a pelos ombros, mas a garota negou com a cabeça. A última coisa que parecia no momento era bem. Sua respiração estava descompensada, como se ele estivesse muito cansado e seus olhos não pareciam totalmente abertos. Ele não estava bem, e qualquer um podia notar.
– Não, não está! – falou, segurando-o da melhor forma que podia para tentar levá-lo até a cama para se sentar. Ele parecia prestes a desabar de qualquer forma, mas o som de sirenes a fizeram respirar um pouco mais aliviada, isso até o corpo de simplesmente pender para frente, e ela arregalar os olhos ao segurá-lo. – ! – ela gritou, mas já era tarde demais, ele havia perdido a consciência e tudo o que ela pôde fazer foi sustentá-lo o suficiente para diminuir o impacto de sua queda, segurando-o com a cabeça em seu colo enquanto chorava esperando que o socorro chegasse.

+++

parou em frente a porta do quarto e soltou o ar pela boca, com a mão parada na maçaneta. Era a primeira vez em horas que tinha um tempo para si e já estava anoitecendo. Era surreal que tudo aquilo havia acontecido em uma única tarde: A agressão, a briga entre e seu padrasto e a polícia chegando.
Todos os vizinhos já estavam na porta, mesmo antes da viatura chegar. Haviam escutado os gritos e também chamaram a polícia. Sabiam o que costumava acontecer na casa dos , assim como souberam também que dessa vez havia chegado ao limite.
A ambulância foi chamada e todos os envolvidos socorridos. Seu padrasto estava sendo mantido algemado na cama de hospital, e já tinha acordado. Estava melhor do que ela no fundo queria que estivesse. estava pior. Precisou de pontos, e por pouco não precisou também de sangue, mas essas eram apenas as notícias que havia recebido entre depoimentos, cuidados médicos e sua mãe, que era médica naquele mesmo local, mas a garota se recusou a ver.
Fazia anos que não falava com seu pai e meses que não o atendia sempre que tentava contato, mas decidiu que em meio a tudo que estava passado, era a hora te aceitar, especialmente quando ele ligou bem no meio de tudo.
A garota, que já havia chorado demais aquele dia, sentiu vontade de chorar novamente, mas não o fez. Pela primeira vez via algum caminho. Era incerto demais para que se sentisse aliviada por ele na verdade, mas o fato de ver uma luz já fazia seu peito de encher com o ar mais puro que havia provado em meses. Talvez anos.
Após tempo demais parada ali, finalmente abriu a porta sem ver qualquer motivo para bater, mas sentiu-se envergonhada quando encontrou com companhia. O garoto também já estava acordado apesar de seus olhos estarem um pouco menores que o normal e lhe encarou imediatamente, assim como a mulher sentada na cama ao seu lado.
– M… me desculpe. – pediu rapidamente para ela, uma mulher muito parecida com e mais velha, provavelmente sua mãe. – Eu não…
– A TV, . – falou, apontando para a tela com a cabeça e após olhar para ele por um instante, ela obedeceu.
A televisão estava ligada em um canal local de notícias e a garota ficou espantada em ver a escola em que estudavam ali, mas praticamente coberta de papéis coloridos. Várias pessoas estavam na frente, em grande parte mulheres, algumas velhas demais para serem alunas, mas todas carregando algo em mãos para colar nos muros.
se aproximou da TV, como se isso fosse dar zoom na tela o suficiente para ler as mensagens e, só então, reparou no título da matéria no canto inferior da tela: “Jovem suspensa após ter vídeo intimo divulgado na internet comove alunos”.
– São mensagens de apoio. – explicou quando ela não foi capaz de dizer nada e novamente se voltou para ele, confusa quanto a forma como aquilo tomou proporções tão grandes.
Quem respondeu a pergunta que ela nem ao menos havia verbalizado, foi a mãe de , ou quem ela deduzia ser a mãe dele:
– A atitude da escola mediante ao ocorrido foi a pior possível. – disse ela, enquanto a garota permanecia muda. – O vídeo se espalhou na escola, e tomaremos alguma atitude quanto a isso, mas só você pode processá-los pelo que fizeram com você. Por te punir ao invés de prestar apoio. Por não se preocupar em achar o culpado ou em impedir que o vídeo se espalhasse ao invés disso.
– P… processá-los? – a garota perguntou. Era óbvio que, bom, ela sabia o que era, e que existia essa possibilidade, mas ela não tinha nem ideia do que fazer, como ou onde e jamais teria esse tipo de assistência da família que tinha. Pelo menos não de sua mãe e seu pai, apesar de ter uma vida muito bem consolidada, não sabia se podia conversar com ele sobre isso tão abertamente, não ainda.
– Ela tentou sugerir que você tome essa atitude com a gente. – explicou, olhando com humor para a mãe, como se achasse graça sobre o fato dela não ter conseguido se explicar direito. – Eu contei para ela o que aconteceu porque ela é advogada, e saberia o que fazer. Não podia deixar da forma como estava. – disse, e a garota abriu a boca em um “ah”.
– Podemos fazer isso e podemos vencer, mas eu não posso deixar de te alertar também. Se quiser começar essa briga, precisa saber que eles vão desenterrar tudo que puderem para te fazer parecer a pior pessoa do mundo. Vão te atacar, e provavelmente tentarão de tudo para distorcer fatos e te humilhar. Vai ser uma exposição ainda maior e se começar, vai ter que ser forte…
– Eu quero. – a garota respondeu sem vacilar, antes que ela terminasse, e a mulher sorriu orgulhosa e de forma tão maternal que ela teve vontade de abraçá-la. Mais maternal que sua própria mãe. – E quero que saibam disso. – continuou, na esperança de que aquela história tão lamentável pelo menos servisse de algo para as outras pessoas, nem que fosse para dar esperança a quem sofria de algo semelhante. – Não sei se… se isso pode ajudar em algo, mas se puder, eu quero tentar. – falou, e o sorriso da mulher se alargou ainda mais.
– É a melhor escolha. – ela falou, levantando-se para abraçar que, sem reação, levou alguns segundos para retribuir. – Fico feliz com a sua escolha. – falou ao se afastar, tocando o ombro da garota. – E saiba que eu te dou todo o apoio.
– Eu também. – falou, e finalmente, por algum motivo bom de alguma forma, sentiu os olhos voltarem a marejar ao olhar para ele.
– Vou buscar algo para comer. – a mãe dele disse em uma desculpa óbvia de deixá-los a sós, pegando sua bolsa na cadeira para sair do quarto. Ainda sem reação, apenas a acompanhou com o olhar enquanto a porta se fechava logo atrás dela.
E mesmo depois que ela saiu, ainda ficou parada encarando a porta, por pelo menos dois minutos, antes da voz de despertá-la.
– Vai ficar mesmo ai, parada? – perguntou ele com humor. – Não quer nem saber se eu estou vivo?
– Estou ouvindo sua voz, então está. – ela respondeu, finalmente se voltando para ele, e sorriu minimamente por isso antes de voltar a assumir o mesmo semblante de antes e se calar. Ela o analisou primeiro, cada detalhe, e o rapaz não disse nada enquanto isso, dando a ela o tempo necessário. – Eu fiquei tão preocupada quando você desmaiou. – confessou de uma vez, sentindo um enorme alívio lhe invadir quando finalmente permitiu-se entender que ele estava bem. – Tinha tanto sangue, eu achei que…
– Está tudo bem. – ele garantiu, sorrindo para ela. – Eu estou bem. – repetiu, afastando-se para o lado e chamando-a ao bater com uma das mãos no espaço que abriu ao seu lado.
… – ela começou, negando, e ele revirou os olhos.
– Deixa de ser ridícula, não é um pedido de namoro e eu já sei que você vai embora. – falou, deixando-a surpresa por isso.
– Hum? – perguntou, e ele deu de ombros.
– Minha mãe é bem comunicativa e já encontrou com a sua. Eu sei tudo o que você pode imaginar. Seu pai, Robert… Vou testemunhar contra ele. Vamos resolver isso também. – falou e a garota sorriu, novamente sentindo-se emotiva. Desistindo de fugir, ela se aproximou como havia pedido, e se deitou ao lado dele, deixando que ele a puxasse para seu peito.
– Ela parece uma mulher incrível. – a garota sussurrou sem olhá-lo. – A sua mãe. – explicou, e sentiu quando ele concordou com a cabeça.
– Ela é. – ele respondeu, com um sorriso que ela podia até mesmo imaginar em seu rosto, mesmo sem vê-lo. – E você também. – continuou, fazendo com que ela o encarasse dessa vez. – Estou orgulhoso.
Sentindo-se segura ali, ela sorriu para ele, satisfeita com a forma como tudo acabou se desenvolvendo no final. Com seu sorriso, também acabou sorrindo e se inclinou para tocar brevemente seus lábios, afastando-se logo em seguida.
– Você, vai me ligar. – falou após voltar para seu lugar. – Pelo menos uma vez por mês eu quero saber se tenho que quebrar a cara de mais alguém.
– Deixa de ser brigão, . – ela o beliscou e ele riu ao se esquivar dela. – E isso nem é um relacionamento para que eu tenha que te ligar.
– Se fosse um relacionamento eu ia querer uma ligação por dia.
– E ia ficar querendo.
– Ah, eu sei bem. – ele respondeu, não esperando nada diferente dela. – Não dá pra exigir muito de .
– Jamais. – ele concordou com um sorriso que ele apenas admirou de inicio antes de voltar a falar.
– Eu me importo com você independente disso e gostaria de saber se está bem. – falou sério. – E só para constar, ainda vamos nos com minha mãe como sua advogada, então vai ter que me aguentar.
– Ah, eu digo o mesmo. – ela respondeu, o fazendo rir ao subir uma das mãos por sua barriga, por cima da camisa, agora limpa, que ele vestia. – E nem precisamos ter um relacionamento para fazer o que fazemos.
– Não. – ele concordou e ela acabou rindo antes dos lábios dele tocarem ternamente os seus mais uma vez.

FIM

 

Nota da Autora:
A continuação de Hot, espero que tenham gostado<3
Vou deixar aqui meu grupo de leitoras e meu twitter caso queiram encontrar as outras fanfics que eu já escrevi. E não esqueçam de comentar, pls.

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