Singular

  • Por: Queen B
  • Categoria: EXO | Kpop
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  • Capítulos: 5 | ver todos

Sinopse: Depois de mais uma decepção amorosa, ela estava pensando seriamente em desistir. Ficar sozinha. Parecia que era o jeito como as coisas tinham que ser, já que tudo sempre dava errado. Ou… Era o jeito que as coisas tinham que ser até que ela tivesse que olhar onde nunca pensou em olhar, descobrindo, assim, exatamente o encaixe tão singular que precisava.
Gênero: Romance
Classificação: Livre
Restrição: –
Beta: Alex Russo

Capítulos:

 

01. As minhas histórias quando você para pra escutar

 

se sentia exausta quando entrou no apartamento que dividia com suas melhores amigas naquela noite. A casa estava silenciosa e, ciente que aquilo não era nem de longe típico quando e estavam lá, concluiu sem muito esforço que as duas estavam fora.
Buscou o celular do bolso e, sem tirar os olhos do aparelho, seguiu andando distraída pela residência, checando suas mensagens. mandara algo no grupo das três, avisando que ia ao cinema com e rolou os olhos, se perguntando quando eles finalmente iam assumir o obvio: Se gostavam. Por que não estavam juntos ainda?
e eram melhores amigos desde que se mudara para o apartamento, antes pertencente apenas a e . Para , os sentimentos de pela amiga eram tão óbvios quanto a constante rotina do sol, sempre nascendo no mesmo horário e se pondo também, mas achava que não. O que era irônico já que era a mais confiante das três, exceto, é claro, quando o assunto era .
rolou os olhos e passou para a próxima mensagem: . Estava com .
Ai, aquelas duas… Um dia, um dia, quem sabe, encontraria paciência para as peculiaridades de um relacionamento amoroso. Não seria naquela noite.
gostava da própria aparência, da imagem que via refletida pelo espelho toda manhã quando acordava, mesmo quando seu cabelo não colaborava de jeito nenhum ou uma espinha nascia em algum ponto inconveniente de seu rosto. O processo para chegar aquele ponto, é claro, fora árduo, mas ela conseguiu. O problema não era aquele, não era sua aparência que lhe fazia sentir tão desgostosa e desmotivada quando o assunto eram relacionamentos amorosos.
As coisas simplesmente davam errado.
Ela, que não era a pessoa mais simples do mundo e muito menos assim tão fácil de lidar, não era de fácil cativo também. Ainda que se esforçasse por um relacionamento, o que ela nem mesmo gostava de fazer – era como trair suas ancestrais, que tanto lutaram para mulheres encontrarem a auto-suficiência e não precisarem se “esforçar” para tornar um relacionamento medíocre “ok” –, , em boa parte das vezes, perdia o interesse nos homens com quem tentava algum tipo de relacionamento e, quando não era esse o caso, quando eles não se mostravam, de alguma forma, a própria definição de “boy lixo”, era ela quem não parecia agradar.
As coisas, enfim, simplesmente davam errado.
Suspirando, ela colocou o celular de lado depois de responder suas amigas e livrou-se da calça jeans, apertada demais para que ela realmente continuasse usando agora que estava no conforto de sua casa, vestindo shorts de lã ao invés disso, e então deixou novamente o quarto em que dormia, seguindo até a cozinha com o celular novamente em mãos, zapeando entre os aplicativos em busca de alguma distração para sua mente barulhenta, devido, é claro, a frustração.
Frustrante era simplesmente o modo mais certo de definir aquela noite.
estava saindo com um homem, Nam. Ele era doce e relativamente bonito, relativamente inteligente, mas só… Faltava algo.
O que a garota queria, na verdade, era, nada mais que algo singular. Estar com alguém que lhe fizesse sentir como se cada momento fosse único. Como se os dias não fossem apenas datas para marcar no calendário. Alguém, que lhe fizesse se apaixonar
Era aquilo.
nunca se apaixonara antes e não queria continuar se esforçando, insistindo até que o sentimento cedesse e surgisse, como mágica. Dali em diante, nada mais daquilo.
se apaixonaria se tivesse que se apaixonar, mas não ia fazer mais esforços para que aquilo acontecesse. Estava colocando o amor, qualquer que fosse sua ideia de amor romântico, de lado. E e teriam que passar mais noites em casa com ela, era bom que se preparassem. Era bom que e se preparassem também, era bom que todos se preparassem.
Balançando várias vezes a cabeça para si mesma diante das conclusões as quais chegava, ergueu o olhar do celular já quando estava prestes a esbarrar na mesa da cozinha, soltando um gritinho ao notar que não estava sozinha.
— Garoto! Mas que porra?! – ela esbravejou, com a mão no peito, tentando acalmar o coração em meio ao susto que foi notar em sua cozinha, com um sanduíche a meio caminho da boca. Ou, ele estava com o sanduíche a meio caminho da boca um instante atrás, no primeiro segundo em que os olhos de o capturaram ali.
Depois que ela gritou, pulou de susto e parte do molho de seu sanduíche acabou indo parar em sua roupa, lambuzando tudo. rolou os olhos, quase batendo o pé enquanto lhe encarava com o olhar duro, uma das mãos na cintura.
Ele desviou o olhar de seu lanche para ela, curvando os ombros de um jeito que, se não estivesse pendendo entre o susto e a fúria, julgaria cômico. era o vizinho da frente, ele morava com e estudava na mesma universidade que e as garotas. Ele estava sempre lá, na verdade, assim como os outros garotos, mas nunca estivera lá sem elas.
— Oi… – ele acenou com a mão, incerto, depois de baixar o sanduíche e rolou os olhos.
— O que você está fazendo aqui, ?! – perguntou, soando tão impaciente quanto de fato se sentia antes de suspirar e balançar a cabeça, resmungando baixinho enquanto abria a geladeira e tirava de lá uma jarra de suco. – Quase me matou do coração.
— Desculpe. – ele murmurou, baixinho. – Estava aqui quando e saíram para ir ao cinema. me deixou ficar.
— E por que você ia querer ficar aqui sozinho? – questionou, ainda confusa, só para terminar rolando os olhos novamente ao voltar a lhe encarar e notá-lo desviando o olhar para o próprio sanduíche. era um idiota. – Pela comida, é claro. – murmurou mais para si mesma do que para ele, ainda balançando a cabeça e sorriu amarelo, obviamente lhe ouvindo de qualquer jeito.
— Desculpe? – tentou, incerto e , novamente, apenas rolou os olhos e balançou a cabeça, sem se dar ao trabalho de responder enquanto seguia para a sala com seu copo de suco em mãos. Para sua infelicidade, no entanto, foi atrás. – Ei, o que você tem? – ele quis saber, soando confuso, talvez até preocupado, enquanto se sentava ao lado dela no sofá e balançou a cabeça.
— Nada. – resmungou, soando muito pouco convincente antes de engolir um pouco de suco. Devia ter pegado algo para mastigar. Seria mais fácil não falar com se estivesse comendo e não bebendo. E quem diabos ele achava que era para notar que havia algo errado com ela? Quando sua relação chegara naquele patamar?
— Sabe que pode me contar, não sabe? – ele insistiu e ela arqueou as sobrancelhas em sua direção, lhe encarando incerta. balançou a cabeça diante de sua expressão. – É sério, . Somos amigos.
— Somos? – ela questionou, eu não sabia disso, pensou também, mas evitou despejar as palavras. Aquilo seria grosseiro demais até para ela.
— É claro, apesar de e não serem tão assustadoras quanto você, eu gosto de você também. – ele retrucou, com simplicidade e acabou rindo de suas palavras. Aquilo era inusitado o suficiente para ela não conseguir imaginar mais ninguém falando, além dele. – É sério. Você pode confiar em mim, .
A garota mordeu o lábio diante de sua insistência. Sabia ser firme e a própria hesitação seria uma surpresa até para ela mesma, se a garota não soubesse que, se suas amigas estivessem ali, a garota provavelmente estaria desabafando com elas naquele exato momento. Ela queria falar. Mesmo que talvez não fosse ajudar, que fosse acabar sendo completamente inútil, era o que ela queria. Era o que lhe faria, pelo menos, se esvaziar um pouco de todo o peso que fazia sua cabeça doer naquele momento.
Mas… Falar com ? Ela sempre o considerou tão bobo. Não de um jeito ofensivo, mas só… Não como alguém com quem ela realmente desabafaria.
— Eu acho que prefiro esperar as garotas. – retrucou por fim, cuidadosa. Não queria magoá-lo, só… Não sabia como falar com ele, desabafar com ele.
rolou os olhos.
— Se tomar coragem, como me prometeu que tentaria fazer, e se declarar para , eles vão demorar um pouco. e , então… – ele fez um barulho sugestivo com a boca e fez uma careta de nojo por isso, estapeando seu ombro.
— Tenha modos, !
Ele apenas riu em resposta.
— Eu tenho, . Só estou falando a verdade. – retrucou, como se fosse muito simples. – Então, vai me contar ou não? Posso fingir que sou elas se isso for te ajudar.
— Você não conseguiria. – devolveu, muito certa do que dizia e arqueou as sobrancelhas em sua direção, como se perguntasse se aquilo era um desafio. Ela sustentou seu olhar e então o garoto pigarreou, como se entrasse no personagem.
se endireitou no sofá, virando de frente para ele para apreciar aquele momento, que ela esperava ser, no mínimo, vergonhoso. Não que não estivesse acostumado. Ele passava muita vergonha.
Você é ridícula, é isso que você é. – ele afinou a voz, imitando de um jeito, no mínimo, cômico e mordeu a risada, franzindo o cenho. pigarreou outra vez e a garota balançou a cabeça, imaginando que, agora, ele tentaria encarnar sua interior. – , pelo menos você não é uma anta. O que quer que esteja acontecendo, você vai superar. – disse, arrancando uma gargalhada que não conseguiu conter, tampando a boca com a mão em seguida.
era ridículo.
— Garoto! – ela reclamou em meio às risadas, lhe estapeando e ele riu, tirando o boné e passando a mão nos cabelos, sem graça, antes de colocar o acessório de volta. Não antes que notasse a tinta que ele usava no cabelo já desbotando. Ela gostava da cor que escolhera pintar o cabelo, aquele lilás clarinho, embora nunca fosse admitir em voz alta, e vê-la desbotando lhe arrancou uma careta. Será que ele já ia desistir daquela cor? – Você precisa retocar sua raiz. – criticou, como se implicasse, embora a intenção fosse apenas que ele, de fato, fizesse aquilo.
assentiu.
— É, eu sei. – disse. – Ainda não sei se vou. Mas não mude de assunto. O que você tem, hein?
suspirou, impaciente. Ele não ia mesmo desistir daquilo, que droga.
— É mais o que eu não tenho. – cedeu por fim, embora nem ela mesma acreditasse naquilo. Estava prestes a desabafar com ? – Terminei um namoro hoje, . De novo. Eu estou sempre terminando relacionamentos e estou começando a acreditar que não nasci para isso, para estar com alguém. Me sinto sozinha ás vezes e é um saco, é isso. Às vezes, eu queria ter alguém, mas me odeio por isso também. Porque eu não queria me sentir assim, porque me parece errado, já que eu sou feminista e devia acreditar que posso ser feliz sozinha… – ela se calou, fazendo uma careta e balançando a cabeça. – Olha, esquece, tá legal? É melhor você ir embora. Já está tarde. – resmungou prestes a se pôr de pé, mas segurou seu braço antes que ela o fizesse.
— Espera. – ele murmurou e ela suspirou, mas obedeceu, voltando a lhe encarar. – Embora eu ache, sim, que você não precise de uma pessoa ao seu lado para se sentir bem, feliz, não é errado que se sinta sozinha ás vezes. Na verdade, acho que se sentimos algo, não devíamos nos julgar por isso, porque é parte da gente, de quem somos, e a gente devia gostar de cada parte de quem somos. – disse, com lhe encarando tão atenta quanto surpresa. Não esperava ouvir algo tão sensato dele.
— Sim, eu… – ela começou, baixinho, mas logo perdeu a voz – Acho que você está certo. – conseguiu, enfim, finalizar.
Ele assentiu.
— É claro que estou. – retrucou, como se fosse obvio e ela rolou os olhos, assentindo, mais para si mesma do que para ele. Aquele era o que ela conhecia. – Além do mais, , ainda estamos muito novos. E na faculdade. Não precisamos encontrar a pessoa com quem vamos passar o resto da vida agora, mas se é o que você quer, então podemos fazer um trato… – ele começou, se interrompendo apenas para encará-la brevemente. balançou a cabeça, indicando que estava tão perdida quanto parecia em relação ao rumo daquela conversa. – A gente pode fazer assim: Se, daqui a cinco, sete anos, quando terminarmos nossos cursos, ainda estivermos sozinhos, podemos sair juntos. Eu e você. Sabe, ver se funciona.
— Eu e você?! – a garota perguntou, chocada, para se dizer o mínimo, por simplesmente pensar na possibilidade. Quando assentiu, como se não fosse nada demais, ela riu, numa reação que representava tanto pânico quanto surpresa e, é claro, diversão. Pensar naquilo, naquela possibilidade, era tão estranho que chegava mesmo a ser divertido. – , isso nunca aconteceria. Não temos nada em comum e você é… – ela lhe olhou de cima a baixo e então se calou, balançando a cabeça. – Não consigo sequer pensar na possibilidade sem sentir como se estivesse prestes a ter um derrame. Sério, não. Não, não, não, não, não…
— Não seis vezes, sério? – retrucou, como se estivesse muito ofendido e ela simplesmente deu de ombros, como se a culpa não fosse dela. E não era mesmo. Foi culpa dele de vir com aquela conversa absurda. Os dois juntos. Há. Tá bom. – Eu sou um cara legal, . Sou bonito, inteligente e até sei cantar.
, você é praticamente uma criança. Eu já te vi correr e se trancar no banheiro com medo da . – ela retrucou, com escárnio. – Me desculpe se não consigo acreditar que isso, nós dois – apontou de um para o outro – daria certo.
— É claro que daria. – ele insistiu, como se ela não houvesse dito nada. – , você está me ofendendo, de verdade.
, não seja ridículo. – ela rolou os olhos, impaciente. – Você nem mesmo gosta de mim.
— Poderia gostar. – ele insistiu, fazendo um bico – E você poderia gostar de mim também. Só parece estranho porque a gente nunca pensou de verdade na possibilidade e… Ei, espera! – ele reclamou, se pondo de pé quando fez o mesmo, levando o copo vazio de suco que tinha em mãos até a pia da cozinha. lhe seguiu, quase tropeçando nos próprios pés no percurso. – !
— Me esquece, .
— Não, você não esta me levando a sério. – ele insistiu, quase batendo o pé de frustração e riu baixinho diante da visão, balançando a cabeça.
— Você é uma criança. Eu não sou babá. – retrucou, como se fosse muito simples e ele rolou os olhos.
— Não sou criança. Posso provar. – devolveu e fez uma careta, apreensiva, diante da afirmação. – Me deixa te levar num encontro. Tem um lado meu que você não conhece, posso mostrar. – ele sugeriu e ela quase suspirou de alivio, com medo que ele tirasse as roupas ali ou sabe-se lá o que para provar o próprio ponto.
Era bem o tipo de coisa que ele faria mesmo.
— Não, eu não quero sair num encontro com você. – retrucou, rolando os olhos. – Na verdade, não quero sair num encontro com ninguém. Quero dar um tempo de encontros, de relacionamentos, de tudo isso.
— Besteira. Sai comigo. – ele insistiu, ignorando que ela estivesse lhe empurrando porta afora enquanto insistia. – Por favor, . – ele choramingou, segurando a porta aberta com um dos pés quando ela lhe empurrou para fora e chutou seu pé.
— Tchau, . – resmungou simplesmente, rolando os olhos e batendo a porta antes que ele tentasse impedir novamente.
Sair com ele… Ah, tá. Só se ela fosse louca.
Bem, não sabia ainda, mas havia algo sobre aquela história. Era a história de como , presa num ciclo vicioso e, no mínimo, deprimente de péssimos relacionamentos, se viu apaixonada pela pessoa mais improvável possível: .

 

02.Você, incrivelmente, não se importa, se eu te chutar a noite inteira…

estava atrasada e irritada.
Uma coisa, é claro, estava diretamente ligada a outra, mas aquilo já era de se imaginar, levando em conta que era ela ali.
A garota corria apressada em direção ao ponto de ônibus enquanto xingava mentalmente seu professor por tê-la segurado na sala de aula por mais tempo do que era realmente necessário. Agora estava atrasada para a droga do trabalho, argh.
Quando chegou ao ponto de ônibus, no entanto, ela terminou apenas por apoiar as mãos nos joelhos, curvando-se e respirando de maneira ofegante enquanto observava frustrada seu ônibus já quase sumindo de vista.
O próximo só passaria em quarenta minutos, no mínimo. Céus, ela ia matar aquele professor estúpido.
, está atrasada? – ouviu perguntarem e rolou os olhos, sem nem mesmo virar para ver quem o fizera antes de responder:
— Não, só precisava perder uns quilinhos e decidi correr. – ironizou, só então olhando pelo canto do olho na direção de , o autor da pergunta idiota. Previsível. – O que você quer, ?
— Anh… Nada, estou à toa. – ele deu de ombros, enfiando as mãos nos bolsos e de jeito nenhum acreditou em suas palavras. Conhecia aquele garoto, que vivia roubando comida em sua geladeira, o suficiente para não cometer a estupidez de acreditar. – Mas, sabe… Tenho um carro. Posso te dar uma carona, se você quiser. – arqueou as sobrancelhas duas vezes consecutivas e balançou a cabeça, escondendo o rosto nas mãos enquanto se perguntava o que fizera para merecer aquela criança lhe atazanando daquela forma.
E nem mesmo podia negar o que ele oferecia, porque precisava daquilo.
Argh.
— Eu não vou pedir. – devolveu por fim, empinando o nariz como se não precisasse dele. Se chegasse atrasada no trabalho acabaria saindo tarde também e todo o seu dia estaria arruinado, mas não queria falar aquilo para ele. Não queria dar o gostinho ao garoto, seu orgulho gritava que não devia.
Sem que ela visse, rolou os olhos.
? – chamou, fazendo com que ela voltasse a olhar pelo canto do olho em sua direção. acenou com a cabeça em direção ao estacionamento do campus onde estudavam. – Posso te dar uma carona?
Ela suspirou, assentindo e, sem falar nada, fez sinal para que ela passasse em sua frente, só então seguindo em direção ao seu carro, no estacionamento logo atrás deles.
— Mas não pode falar sobre aquela maluquice de me levar pra sair de novo. – ela avisou, parando de andar e apontando em sua direção.
— Eu estou te fazendo um favor, falo do que eu quiser. – ele retrucou e fincou os pés onde estava, cruzando os braços como se o desafiasse. Ela não ia a lugar nenhum com ele se ele lhe provocasse e, no fundo, ele sabia daquilo. também a conhecia o suficiente. – Mas não quero falar disso, sou mesmo muito bom pra você. – ele acrescentou, dando de ombros em seguida e rolou os olhos, mas não respondeu, seguindo o garoto até o carro dele.

— Eu só estou dizendo que não temos nada em comum e…
— E eu só estou dizendo que você está errada. – interrompeu , que bufou e rolou os olhos, jogando a cabeça para trás no banco do carona. Estava a cada instante mais arrependida de ter aceitado aquela carona, honestamente. – “A Cabana” também é o meu livro de cabeceira, por exemplo. – ele murmurou, fazendo com que ela lhe encarasse surpresa.
— Como você sabe que é o meu? – quis saber, ao mesmo tempo desconfiada e surpresa pela informação. lera “A Cabana”? E ainda lia de novo de vez em quando, quando não conseguia dormir? Como ela?
Ela só podia ter ido parar em um universo paralelo.
— Não interessa como eu sei, eu hein. – retrucou, balançando a cabeça como se perguntar aquilo fosse absurdo e mal educado da parte dela e a garota rolou os olhos. – Meu ponto é que o livro também é reconfortante pra mim, também me faz sentir amado e todo mundo quer ir dormir se sentindo amado. Cada um segue seus métodos para isso, mas, no fim, é o que todo mundo quer. E temos esse método em comum.
— Você acabou de me fazer ver que, na verdade, isso não é nada demais. – ela retrucou, sorrindo convencida quando ele virou para lhe encarar, demonstrando chateação exagerada. – Afinal, todo mundo quer se sentir amado antes de dormir, não é? E o tanto de gente que também deve ler esse livro antes de dormir…
! – reclamou, lhe interrompendo de maneira abrupta, muito como uma criança insatisfeita, e ela riu por isso, sem conseguir se conter. Ele bufou, virando para encarar a estrada a sua frente. – Vai, me deixa sair com você. Eu juro que, se eu estiver errado e você certa sobre a possibilidade de nós dois, nunca mais te incomodo com isso. Juro mesmo.
— Jura? Com o dedinho? – ela perguntou, debochada, erguendo mindinho em sua direção e rolou os olhos, empurrando sua mão para longe e bufando, insatisfeito. Ela riu. – , sério. Não sei por que quer tanto sair comigo, mas tem um motivo pra não ter dado certo com outros caras até hoje. Não é sempre culpa deles, eu também não sou perfeita. – ela tentou explicar sem que ele se sentisse ofendido, buscando lhe fazer ver que haviam motivos, motivos reais e que importavam para ela, para a garota não querer sair com ele. Ou ninguém mais.
— Como se eu não soubesse disso. – ele retrucou baixinho, sarcástico e ela bufou.
, tem coisas que você não sabe sobre mim.Na cama, dormindo com outra pessoa, eu roubo a coberta e as vezes até chuto.. – ela parou, bufando, quando o viu dar de ombros, como se aquilo não fosse importante.
Ele não ia mesmo desistir?
— Não ligo pra isso. – murmurou, com simplicidade, e lhe encarou de maneira cética, sem acreditar em suas palavras. Ele rolou os olhos. – Até rouba meu cobertor as vezes. E chuta, então…
— Eu nem vou perguntar por que vocês dormem juntos. – ela murmurou, balançando a cabeça num não e ele riu, empurrando sua cabeça para o lado.
— Para de ser besta. – reclamou e ela riu também, dando de ombros em seguida.
— Ok, quer defeitos de verdade? Eu tenho também. – retrucou, como se não se importasse em continuar. – Eu sou extremamente ciumenta, . Ao ponto de ter ciúmes de com as vezes e eu os acho adoráveis juntos. Quando eu amo alguém, amo muito, demais, demais mesmo e isso pode ser sufocante para algumas pessoas. Porque é como eu sou, eu tenho ciúmes demais e posso ser sufocante.
— Ok, mas você acha que não merece ser amada por isso? – ele retrucou, deixando sem fala por um instante. Ela achava aquilo? Não achava, não é? Só… Era complicado demais… Certo? – Você acha que, porque, você chuta enquanto dorme e rouba a coberta toda pra si, ou porque ama com intensidade demais, não merece ser amada? Ou talvez porque é dedicada e, quando não está estudando, está trabalhando? Porque ama o que faz? Ou porque faria tudo por suas amigas? Porque, por amá-las tanto, faria tudo por elas? Isso tudo é ruim? Te torna alguém assim tão grotesco, que ninguém jamais amaria?
— Não… – ela murmurou, baixinho, quase abaixando a cabeça e, se alguém lhe dissesse a alguns dias que lhe faria agir daquela maneira, , definitivamente, não acreditaria e até riria. Assim como não acreditaria, e talvez ainda não acreditasse completamente, que sair com ele era uma boa ideia. Mas… Bem… Talvez? Quer dizer, de que outro jeito deveria reagir? Como continuar a fugir sem se sentir patética ou humilhada depois daquela conversa?
Ter lhe fazendo sentir patética ou humilhada seria o fim dos tempos para , que não achava que seu orgulho sobreviveria aquele evento.
— Vamos num barzinho esse fim de semana e, depois, podemos dar uma volta na praia lá perto. Você vai gostar. – falou, como se soubesse no que ela estava pensando e mordeu o lábio, olhando de canto do olho para ele ao assentir, muda.
Era aquilo, então. Ia sair com .
Só podia estar enlouquecendo.

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03.O meu sorriso quando tem o teu pra acompanhar…

 

— Oh Deus, por que eu não posso ser uma mosca, só de vez em quando? Queria tanto ver isso… – reclamava, de maneira exagerada, enquanto voltava da cozinha com , com os copos e o refrigerante em mãos enquanto a mais velha segurava a caixa de pizza.
, que esperava as duas no sofá da sala de estar, no apartamento onde moravam, riu.
— Eu me pergunto a mesma coisa. Queria poder bater em você e você parar de zunir no meu ouvido. – comentou, arrancando uma careta da mais nova enquanto ria, apontando em sua direção.
— Eu também!
rolou os olhos, empurrando-as para se sentar no meio das duas, no assento ao centro do sofá. e lhe olharam feio pela atitude, mas ela ignorou, acostumada com aquele tipo de olhar vindo delas.
, foca! – ela ordenou e a outra bateu palmas, realmente imitando uma foca. rolou os olhos e escondeu o rosto nas mãos, balançando a cabeça. – Por que você é assim, hein? – questionou enquanto erguia o olhar para a amiga de cabelos coloridos, que riu e deu de ombros, como se não soubesse.
olhou de uma para a outra e balançou a cabeça, se perguntando como fora parar entregando cada metade de seu coração para elas. e eram suas melhores amigas no mundo inteiro, as pessoas em quem mais confiava e pelas quais, de fato, faria tudo, mas, como chegara aquele ponto, não sabia, visto que elas podiam ser tão estupidamente bobas quando queriam.
, eu concordei em sair com o . – ela murmurou baixinho, por fim, sabendo que era aquilo que tentava falar, em meio as provocações e brincadeiras idiotas de .
Ao ouvir, pulou no lugar, dando uma joelhada na costela de no percurso e, ao se esquivar, a mais velha caiu por cima de , que quase derrubou a fatia de pizza que tinha em mãos.
— Minha pizza! – gritou, empurrando e trazendo a pizza para perto do peito como se pudesse proteger a fatia daquela forma. lhe encarou como se nunca houvesse visto loucura naquela proporção, porém não teve tempo de falar o que quer que fosse, já que , ainda chocada com a informação sobre , interveio:
— Mas… – ela começou, atordoada. – Como assim? Eu não entendi. – falou, soando tão confusa quanto só ela era capaz e riu baixinho, sussurrando algo como “cadê a novidade?” enquanto rolava os olhos.
Crianças, ela estava cercada de crianças. A garota começava a acreditar, aliás, que era por isso que aceitara sair com , no fim das contas. Estava tão acostumada a amar crianças, que, bem por que não mais uma?
Céus, o que? Ela pensara mesmo aquilo? Em amar ?
chacoalhou a cabeça, como se pudesse espantar aquele pensamento para a ilha do esquecimento em sua mente e fingir que nunca acontecera. É claro, não deu tão certo quanto ela gostaria, mas pelo menos tentara.
, a vai sair num encontro com o , eles vão num barzinho e depois vão andar na praia, de mãozinhas dadas e olhando pra lua… – explicou, da mesma maneira carregada de provocação de sempre, e empurrou sua costela, rindo quando, novamente, quase derrubou sua fatia de pizza.
— Minha pizza, ! – reclamou, lhe empurrando de volta e balançou a cabeça, puxando de volta para perto dela.
— Mas você gosta do ? Desde quando? Por que eu não sabia disso e a sim? – ela quis saber, soando mais ofendida a cada pergunta e nem , nem se surpreenderam por ela ter decidido focar, justamente, naquela parte.
— Porque a namora o agora e o linguarudo contou pra ela antes que eu tivesse a chance. – rolou os olhos, olhando feio para como se aquilo fosse afetar , que nem estava ali. estirou a língua em sua direção em resposta. – Você não sabe por que você e passam mais tempo transando do que qualquer coisa, antes que me pergunte por que ele não te falou nada. – murmurou, rindo quando corou, embora fosse verdade.
Enquanto e namoravam, e tinham um tipo bem diferente de relacionamento. Não era nem mesmo uma amizade colorida, já que, se passasse muito tempo com , vestida, os dois sairiam no tapa, para se dizer o mínimo. Não dava para dizer que eles eram amigos.
Ela, realmente, só o procurava para transar, já que a atração física, em contrapartida ao resto, era intensa e funcionava bem como um afrodisíaco para ambos.
— Não gostei. – reclamou, cruzando os braços e fazendo bico e praticamente se jogou em cima de para apertar suas bochechas, fazendo tanto ela quanto gritarem no percurso, o que só a fez rir. Havia, obviamente, pouca coisa que gostava tanto quanto gostava de implicar com aquelas duas.
— Sai daqui! – reclamou, empurrando a mais nova para longe. – , olha a !
! – reclamou também e a mais nova rolou os olhos, fazendo sinal para que falasse de uma vez.
— Vai, conta pra ela. – falou e rolou os olhos, mas assentiu, respirando fundo antes de realmente o fazer.

Quando, enfim, terminou de contar, estava um tanto aturdida.
— Agora eu acho que também queria ser uma mosca. – murmurou, fazendo bico e concordou, apontando em sua direção e dizendo “não é?”.
rolou os olhos.
— Eu só vou nesse encontro pra ele me deixar em paz. Sei que não vai dar em nada. – murmurou, muito certa do que dizia. Ela ainda acreditava, de verdade, que a simples possibilidade de algo acontecer entre os dois soava, no mínimo, bizarra. Não importava o que dizia, gostar de ler “A Cabana” vez ou outra não era o suficiente para que realmente pudessem ter um relacionamento.
— Eu não estaria tão certa se fosse você. – cantarolou, divertida e concordou.
— Parando pra pensar, vocês até formariam um casal bonitinho. – comentou, pensativa e olhou de uma para a outra de maneira cética.
— Que mané casal bonitinho, eu hein. – reclamou, como se aquilo fosse loucura. – é uma criança, gente, uma criança. É sério que vocês me vêm com uma criança?
— Uma criança bem grande… – retrucou, com uma nota de malicia na voz que julgou, no mínimo, desnecessária. – Vai saber, as vezes ele tem mais coisa grande além das orelhas.
, que horror! – exclamou, enojada, estendendo o braço para bater na mais nova, que riu ao desviar.
— Só estou falando, ué. – retrucou, como se não fosse nada demais. – Carinhas de neném fofinho não me enganam mais. – deu de ombros, como se fosse muito simples e arqueou as sobrancelhas em sua direção diante da afirmação.
— Posso supor que o tem algo a ver com isso?
— Com certeza. – a mais nova riu, sem pudor. – Sabe, você não imaginaria que ele é tão bom de cama, sabe, com o lado selvagem e tudo mais…
— Lálálálá! – gritou, lhe interrompendo e tampando os ouvidos e tanto quanto riram disso, apertando seu nariz e seus lábios para fazê-la parar, arrancando uma careta da garota, que inflou as bochechas e empurrou as mãos das duas. – Idiotas. – reclamou.
— Trouxa. – devolveu, rindo antes de se voltar para . – Enfim, eu espero que você esteja errada e dê tudo certo no encontro. é um doce e você merece um doce. Seria uma pena se realmente desistisse do amor porque alguém, além da gente, ia ter sorte demais em ser amado por você. – deu de ombros ao falar, se pondo de pé enquanto o fazia. – Agora, vou tomar banho pra dormir. Estou cansada.
— Você está dormindo na casa do desde que começaram a namorar e, quando volta, está cansada. Isso é um absurdo, ele está roubando você da gente. – reclamou, como se estivesse muito chateada e riu, lhe mandando beijos no ar.
— Comecei a namorar o não tem nem uma semana, para de surtar. – retrucou e abriu a boca num “O”, evidenciando sua ofensa. riu novamente. – Ninguém nunca vai me roubar de vocês. Amo muito vocês pra isso, relaxa. – garantiu, com simplicidade. – E prometo que estarei disponível pra vocês amanhã o dia todo, tá bom?
— Eu não, alguém tem que trabalhar nessa casa. – retrucou, se pondo de pé também e imitou com uma careta.
— Você vai me deixar sozinha aqui com ela? – perguntou, apontando para , que olhou ofendida em sua direção.
— Ei! Achei que estivesse com saudades de mim! – reclamou, ofendida e deu de ombros.
— Já passou.
riu e balançou a cabeça.
, vai logo tomar banho que eu também quero. – ordenou e a maknae assentiu, correndo para o banheiro.
observou e, só quando ouviu o barulho do chuveiro, virou novamente para .
— Sabe, eu não diria isso na frente dela porque já é convencida o suficiente, mas ela está certa. – disse para a mais velha, que lhe encarou sem ter certeza se entendia. continuou. – Você não devia desistir do amor, dando certo ou não com . A pessoa que você amar vai mesmo ser muito privilegiada, mas você também vai. Por poder dividir esse coração tão grande e tão forte com alguém, confiar em alguém pra isso.
murmurou, baixo. Sempre que as duas falavam coisas daquele tipo, a garota sentia o coração transbordar de amor. Aquele era seu privilégio, não precisava de mais, no fim das contas. Elas eram prova o suficiente de que o amor era real, mágico, e, acontecendo ou não de maneira romântica para ela, não se importava. Já tinha todo amor que podia precisar. – Vocês duas já são isso pra mim. Eu já divido meu coração com vocês.
sorriu ao ouvir, abraçando a amiga de lado brevemente antes de lhe desejar boa noite, seguindo em direção ao próprio quarto.
Uma vez sozinha, suspirou. Não estava nenhum pouco certa quanto aquela história com , mas a verdade era que, agora, era tarde demais para voltar atrás. Teria que encarar aquilo e, bem, que seja o que Deus quiser.

+++

se sentia exausta quando entrou no ônibus de sempre, que lhe deixava quase na porta de casa todo dia quando saía do trabalho, porém acabou despertando ao ver ali.
O que diabos?!
tinha um carro, o que estava fazendo ali?
Antes que sequer chegasse ao ponto de realmente virar para o lado contrário ao que ele estava e ignorar sua existência, como faria se tivesse tido tempo de decidir por aquilo, acenou e, pior ainda, começou a berrar por ela.
, , ! – ele gritava e a garota precisou abaixar a cabeça, constrangida, para evitar os olhares que se dirigiram a ela, como se todos soubessem o seu nome. Claro porque tinha o olhar fixo nela. Estúpido, idiota, ridículo.
— Qual é a porra do seu problema, ?! – a garota reclamou assim que se aproximou dele e o garoto riu, se levantando de onde estava sentado e fazendo sinal para que ela tomasse seu lugar. rolou os olhos, mas obedeceu, tentando não começar outra discussão, afinal já fizera o favor de chamar a atenção do ônibus inteiro para ela. A garota não precisava colaborar.
— Ué, eu só te chamei. – ele murmurou, rindo em seguida, para a própria sorte. Honestamente, não achava que ia ter autocontrole se ele, realmente, demonstrasse achar não ter feito nada demais. A risada irônica, pelo menos, servia para mostrar que ainda tinha alguma noção, mesmo que não usasse do jeito certo. – Queria te ceder o lugar. Você deve estar cansada.
— Você não tem um carro? Por que está pegando o ônibus? – estreitou os olhos, ignorando sua fala anterior e o garoto bufou por isso, assentindo.
—Sim, eu tenho um carro, -ssi, obrigada por lembrar. – resmungou e ela riu.
-shi. – corrigiu por implicância e ele lhe encarou incrédulo, fazendo com que ela risse outra vez. – Estou brincando. O que aconteceu com seu carro?
— Minha irmã bateu. Está no conserto. – ele contou, cabisbaixo e arqueou as sobrancelhas.
— E sua irmã está bem?
— Ah, sim. – ele fez um gesto com a mão, demonstrando descaso. – Não aconteceu nada com ela, só com o carro.
— Bom, isso é bom, então. – murmurou, diante da expressão claramente insatisfeita de . – Antes o carro do que ela.
— Sim, sim… – ele concordou, soando desgostoso ainda assim. – Preferia que ela soubesse dirigir direito, na verdade.
— Ensine ela, então. – deu de ombros, como se fosse muito simples e arqueou as sobrancelhas, lhe encarando como se aquele fosse o maior absurdo que já escutara. – O que é?
balançou a cabeça.
— Olha, eu sou paciente, tá? Eu não sou como… Você sabe, você – ele soltou um risinho quando a garota rolou os olhos diante de suas palavras, continuando antes que ela pudesse reclamar. – Eu poderia até ensinar a a dirigir, ou a . Mas minha irmã… – ele fez uma careta, optando por não finalizar, sem realmente precisar para que entendesse o que ele queria dizer.
— Bom, se você prefere ensinar e … – riu e ele riu junto, concordando.
Aquilo era esquisito.
Normalmente, quando estava com , não ria daquele jeito. Como se estivessem se divertindo juntos, era, na verdade, sempre um as custas do outro. Mas era bom também, era algo com o qual estava acostumada. E achava que podia se acostumar com aquilo também, com tê-lo rindo junto com ela. A sensação era diferente, mas boa também.
Estranho.
Mal podia acreditar que estava, realmente, pensando naquilo, e chacoalhou a cabeça para si mesma. … Quem diria, não é mesmo?
— Ei, está com fome? – perguntou de repente, enquanto o ônibus virava na esquina de sua parada e apertou o botão que solicitava a parada, se pondo de pé em seguida e fazendo sinal para que lhe acompanhasse.
O garoto pôs a mão em suas costas enquanto andavam e ela olhou feio em sua direção por sob o ombro, fazendo com que ele rapidamente puxasse a mão para si e abaixasse a cabeça, mordendo a risada que não notou, ou teria com certeza, pelo menos lhe beliscado.
— Estou com fome. – resmungou quando desceram do ônibus e arqueou as sobrancelhas, puxando os óculos de sol que usava no topo da cabeça e colocando sob os olhos.
— Eu ouvi da primeira vez.
rolou os olhos ao lhe ouvir, puxando-a pelo braço e chacoalhando o membro da garota, que fez uma careta e lhe empurrou.
!
— Vamos comer uma pizza ali na esquina?
— Peça pizza em casa, ora. – a garota retrucou, rolando os olhos mesmo que ele não pudesse ver e resmungou.
— Não quero pedir pizza em casa, vai estar lá. Ele enche o saco e não me deixa escolher nada em paz porque é uma criança chata que não suporta nem o cheiro de metade do cardápio, é um saco. – ele retrucou, irritado e achou cômico ver reclamando da criancice de outra pessoa enquanto praticamente esperneava para convencê-la a ir comer pizza com ele.
— Meu Deus, você é o mais maduro em casa? – ela quis saber, chocada com o pensamento assim que ele cruzou sua cabeça e lhe deu um sorriso de escárnio.
— Você podia não parecer tão surpresa. – reclamou e ela riu, sem culpa. morava com e , nenhum dos três era um grande exemplo de pessoa adulta, mas era, no mínimo, cômico que, no cotidiano deles, terminasse por equivaler ao que representava para suas amigas.
— Você é a do e do . Desculpe, mas isso é sim uma surpresa. – ela retrucou e ele acabou não conseguindo não rir enquanto ela parecia tão entregue ao deleite que a constatação lhe causava.
— Eu tento… – deu de ombros, com falsa modéstia e tirou os óculos para olhar em seus olhos, arqueando as sobrancelhas com deboche.
— Modéstia não combina com você.
— Olha, isso não importa. Eu acho que nós, Jozianes, temos que nos unir contra os pirralhos com quem moramos, então porque você só não diz sim pra mim de uma vez e vem comer uma pizza comigo? Eu pago.
— É claro que você paga. – rolou os olhos, como se estivesse muito ultrajada e arqueou as sobrancelhas em sua direção.
— Isso é um sim? – quis saber e a garota bufou, como se estivesse lhe deixando exausta com aquela conversa. Um segundo depois, no entanto, com ele ainda lhe encarando de maneira insistente, ela suspirou assentiu.
— Tudo bem, , vamos comer pizza. – rolou os olhos e ele deu um pulinho em comemoração, fazendo com que ela balançasse a cabeça e escondesse o rosto nas mãos. Podre, aquele garoto era podre. – Quer se acalmar? – ela reclamou, olhando, constrangida, em volta. – E nunca mais use meu nome como adjetivo. Você não é uma . – avisou, apontando o dedo em sua direção e tirou o boné que usava, pousando-o sob o peito enquanto assumia uma expressão solene ao assentir.
— Eu prometo. – fez graça e rolou os olhos, lhe estapeando no peito.
— Para com isso ou você vai comer pizza sozinho.
— Ai, ai, tá. – ele reclamou, rolando os olhos. – Já parei. Você tem razão, eu não quero mesmo ser uma , Jozianes são chatas e eu sou… – se calou sob o olhar duro de , suspirando. – Parei, parei. – ergueu os braços ao lado da cabeça, como quem se rendia e ela assentiu, colocando os óculos de volta e passando em sua frente em direção a pizzaria, que já entrava no campo de visão do casal.
E o pior? Aquilo tudo era pose.
, no máximo, achava graça das idiotices que aprontava naquele momento, de cada uma delas, e se perguntou o que estava acontecendo consigo. Já fora uma melhor.

 

04.É tão particular, o meu encontro quando é com você…

 

Quando o fim de semana finalmente chegou, não sabia dizer como realmente se sentia a respeito daquilo, do que estavam fazendo, ela e . Ainda parecia loucura e sem propósito, mas havia aquela vozinha dentro dela, ganhando uma firmeza surpreendente com o passar dos dias, murmurando: Talvez você acabe se surpreendendo…
É claro, não contava com aquilo. E foi o que continuou repetindo para si mesma em todo o percurso no carro que alugara, já que, claro, não tinha a menor vocação para andar de ônibus. Eles iam em direção ao barzinho que ele mencionara antes e, quando chegaram e deu a volta no carro para abrir a porta para ela, engoliu em seco com a vozinha em sua cabeça soando mais alta.
Não ia criar expectativas, não ia.
-ssi! – uma das garçonetes cumprimentou ao passar pelos dois na entrada e acenou, sorrindo de maneira cordial enquanto seguiam até uma mesa, onde ele puxou a cadeira para , antes de dar a volta e se sentar também. Foi o tempo necessário para outra garçonete acenar e perguntar se ia se apresentar aquela noite, fazendo com que ele coçasse a nuca enquanto negava, sem jeito.
assistia a cena com curiosidade.
— Com quantas delas você dormiu? – ela perguntou, direta, quando ele finalmente se voltou para a garota e tossiu, claramente pego de surpresa, o que lhe fez rir antes de arquear as sobrancelhas. – Três? – questionou, olhando em volta e contando mentalmente a quantidade de mulheres que trabalhavam no estabelecimento. – Hm… Cinco?
-yah! – reclamou, constrangido, lhe interrompendo e ela riu, dando de ombros enquanto pescava o cardápio da mesa, analisando-o a fim de evitar seu olhar, mesmo se divertindo com a situação. passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os um pouco. – Não dormi com nenhuma delas. – resmungou, baixinho, e ergueu os olhos em sua direção, estreitando-os em seguida, desconfiada. balançou a cabeça. – Estou falando sério, .
— Tá, mas você poderia, se quisesse. – ela deu de ombros, olhando pelo canto do olho na direção da garçonete que não tirava os olhos de , mesmo servindo outra mesa simultaneamente. – E foi até meio rude trazer uma garota num encontro aqui. Vai partir o coração delas.
-yah, não… Não tem nada a ver. – negou com a cabeça, fazendo a garota rir do quão sem jeito ele estava. Nunca imaginou ver sem jeito por conta de um assunto que, depois de meses morando com , considerava tão banal. Ainda mais ele, que adorava razões pra inflar o próprio ego e, bem, estava praticamente jogando vários em seu colo. – Eu nem conheço nenhuma delas tão bem, a gente só se cumprimenta.
— Bom, elas gostam de você. – retrucou com simplicidade, rindo quando rolou os olhos, desviando o olhar para uma das garçonetes, que se aproximou em seguida, trazendo duas garrafas de soju e um copo para cada, lhes servindo em seguida.
Assim que ela se afastou, voltou a encarar .
— Viu? – os dois gesticularam ao mesmo tempo na direção da garota e riram juntos em seguida, já que o “viu?” de ambos tinha intenção completamente diferente. – -yah, você está louca.
— Há quanto tempo vem aqui, ? – perguntou, ignorando a afirmação do garoto, que deu de ombros.
— Acho que desde que mudei para Seul. – ele murmurou, pensativo. – O Sr. Choi, o dono daqui, era amigo do meu pai e é como se fossemos da mesma família. Ele sempre me acolheu e foi quem me ensinou tudo que eu sei sobre música, sabe?
assentiu, desviando o olhar para o palco ocupado por uma banda que tocava covers naquele momento. Até então, ela nem mesmo sabia que tinha uma relação tão intensa com a música em si, mas não precisou de muito para notar aquilo pelo pouco que ele dissera. Tudo na expressão e postura do garoto enquanto falava denunciava tal coisa.
— Então, é por isso que nunca notou que elas gostam de você. – ela retrucou por fim, com simplicidade. – Você sempre vem aqui pra tocar, esperando poder se conectar com sua paixão com a mesma profundidade sobre a qual lemos a respeito ou vemos nos filmes no cinema, por isso não repara em como as garçonetes olham pra você. Como se fosse o galã desses filmes. – ela arqueou as sobrancelhas algumas vezes consecutivas para fazer graça e riu, balançando a cabeça.
— Elas não gostam de mim. – ele insistiu, embora agora que realmente parava para pensar a respeito das palavras da garota talvez até conseguisse ver a verdade por trás delas, a verdade que não notara antes.
deu de ombros, bebericando do próprio copo.
— Acredite no que quiser, . – deu de ombros e ele resmungou, incomodado que ela não acreditasse nele, o que lhe fez rir. Aquilo era típico dele e, normalmente, em momentos como aquele era muito mais fácil perder a paciência com o garoto do que realmente se divertir como acontecia naquele momento, mas lá estava ela, rindo com a birra de . Esquisito, no mínimo. – E então, você vai tocar hoje?
— Anh… Não… Estou num encontro – ele retrucou, genuinamente confuso, como se não entendesse como poderia fazer as duas coisas ao mesmo tempo. , novamente, riu, não podendo evitar a surpresa por estar rindo tanto naquela noite. Tinha tanta certeza que seria um desastre e, bem, parando para pensar, seria mais fácil se realmente fosse mesmo…
Céus, no que estava se metendo?
— Nunca ouvi você tocar. – ela deu de ombros, como se não fosse grande coisa de qualquer forma. – Se você for bom, pode contar pontos ao seu favor.
— É claro que eu sou bom. – devolveu e assentiu, satisfeita. Era como se a terra voltasse aos eixos, estava sendo confiante de maneira exagerada outra vez e não agia mais como se estivesse sem jeito. Vê-lo sem jeito era esquisito e tornava toda aquela noite fácil demais para , que ficava, no mínimo, insatisfeita em pensar naquela noite acompanhada de qualquer adjetivo positivo.
não podia, de jeito nenhum, bagunçar sua cabeça daquele jeito. Ela não dera o direito.
— Então, vai tocar? – a garota perguntou, como se não fosse nada demais, já que já iniciara o assunto.
— Você quer ouvir? – ele retrucou, no mesmo tom.
deu de ombros, como se não ligasse.
— Tanto faz.
— Bom, então não tem porque eu ir… – ele também deu de ombros, imitando a postura indiferente da garota, que arqueou as sobrancelhas em sua direção, como se esperasse por algo e, quando apenas lhe encarou da mesma forma, ela bufou.
— Vai, . – resmungou – Quero ouvir.
Ele sorriu, assentindo e se pondo de pé.
— Tudo bem. Pra você, eu canto. – piscou para a garota, que rolou os olhos e o observou beber de uma vez o restante do soju em seu copo, sem entender porque, de repente, a atitude lhe fez parecer tão atraente. Que loucura ela aquela, desde quando lhe fazia pensar e sentir aquelas coisas?
Ugh.
O garoto seguiu até o palco e conversou por um instante com o pessoal da banda, antes de chegarem a um acordo, que envolveu se curvando em gratidão e então subindo ao palco, parando no centro dele. ajustou o microfone a sua altura enquanto a banda se posicionava e então deu duas batidinhas, de leve, no mesmo, fazendo com que o restante dos presentes focassem nele, assim como fazia.
sorriu, sem jeito, e acenou para o público.
— Oi, pessoal! – cumprimentou – Então, basicamente, eu estou aqui num encontro essa noite. Foi difícil, mas eu a venci, a cansei, eu acho. – o garoto fez uma pequena pausa para rir e balançou a cabeça, desacreditada, contendo simultaneamente o ímpeto de esconder o rosto nas mãos. Ao menos, ele não apontara para ela ou algo do tipo, ninguém precisava saber que fora ela, a desavisada que venceu pelo cansaço e arrastou até aquele bar naquela noite. – Estou contando isso para que simpatizem comigo e tenham alguma compaixão, caso eu vá mal e estrague a noite de vocês, porque o que eu quero fazer é… Bem, eu quero cantar uma música. Espero que não se importem, que me ajudem – riu, sem graça e pousou a mão sobre a boca, tentando não xingar, rir ou bufar diante do olhar de , que passeava pelo público mas parecia sempre voltar para ela, intenso – -yah, vou dedicar essa música a você. Espero que goste. – apontou na direção de ao finalizar seu discurso e a garota arregalou os olhos, virando o rosto para o lado contrário por reflexo e corando ao notar o modo como todos ali lhe encaravam.
Ela ia matar .
pigarreou um instante depois que os acordes iniciais da música soaram, vindos dos instrumentos da banda. A voz do garoto tomou o ambiente em seguida e se viu engolindo em seco, perplexa, enquanto se encolhia no lugar, escondendo os braços no colo no instante em que seus pêlos se eriçaram.
Mal podia acreditar que estava arrepiada. Queria mesmo matar .

When you were here before [Quando você esteve aqui antes]

Couldn’t look you in the eye [Não pude te olhar nos olhos]

You’re just like an Angel [Você parece um anjo]

Your skin makes me cry [Sua pele me faz chorar]

A voz de era incrível, grossa do tipo que justificaria, em qualquer outra situação, qualquer outra pessoa, estar arrepiada como estava. Ela, no entanto, não via justificativa nenhuma para o modo como seus pêlos dançavam em pé ao mesmo tempo em que ela sentia aquele ímpeto crescente de se encolher mais e mais, até que os joelhos estivessem grudados ao peito, impedindo que seu coração escapasse da caixa torácica como ameaçava fazer.
julgava a si mesma e considerava irracional estar reagindo de maneira tão física aquele protótipo, inusitado, de serenata, exceto que, bem fazia todo sentido. “Protótipo inusitado” era, ainda, um modo, no mínimo, errôneo e ofensivo de se referir a performance do garoto, que fechou os olhos para cantar o trecho seguinte, ruindo as defesas de muito mais do que ela achava que era, ou jamais seria, capaz de admitir.

You float like a feather [Você flutua como uma pena]

In a beautiful world [Num belo mundo]

And I wish I was special [E eu queria ser especial]

You’re so very special [Você é tão especial]

But I’m a creep, I’m a weirdo [Mas eu sou esquisito, eu sou estranho]

What the hell am I doing here? [O que diabos eu estou fazendo aqui?!]

I don’t belong here [Eu não pertenço a este lugar]

A voz de era o suficiente para manter a platéia cativa, todos com o olhar focado nele e o coração apertado por ele e por sua coragem, imaginando o desfecho daquilo, do grande gesto do garoto.
Dessa forma, não se movimentava muito no palco, mantendo o microfone suspenso no suporte enquanto cantava, com o olhar fixo em , que só o encarava de volta, com a mente completamente em branco. Era como se tantos pensamentos estivessem indo e vindo que, atingindo certo ponto, ela não foi mais capaz de absorvê-los, como se palavras passassem em sua cabeça, formando frases numa velocidade tão absurda que nem que quisesse ela seria capaz de acompanhar.
Se ocupou, ao invés disso, de encarar enquanto ele cantava e absorver tudo que podia absorver, que era, basicamente, os sintomas físicos e bizarros que lhe tomavam como avalanche diante da apresentação, para a qual ela não chegara nem perto de se preparar.
estava, sem sombra de dúvidas, jogando baixo.
Era desnecessário dizer que aquela música era linda, que a amava, e até odioso, porque só tornava tudo a respeito daquele cenário ainda mais clichê e, pior, lhe obrigava a admitir algo um pouco pesado demais, proferir palavras que ela nunca achou que fosse capaz: Talvez estivesse certo. E, ela, errada.

I don’t care if it hurts [Eu não me importo se machuca]

I want to have control [Eu quero ter controle]

I want a perfect body Eu quero um corpo perfeito]

I want a perfect soul [Eu quero uma alma perfeita]

I want you to notice [Eu quero que você perceba]

When I’m not around [Quando não estou por perto]

You’re so very special [Você é tão especial]

I wish I was special… [Eu queria ser especial…]

Quando finalizou a música, sua voz soava levemente arrastada porque ele sorria, mas, de maneira alguma aquilo afetou sua performance e, no instante em que ele se curvou para a frente, em agradecimento, salvas de palmas tomaram o estabelecimento.
, no entanto, ainda que considerasse aquilo merecido, não conseguiu se mover. Ela o observou acenar e se curvar outra vez, sorrindo tão agradecido quanto maravilhado e se perguntou se ele já fizera aquilo antes, se apresentar para uma platéia completamente ciente de cada parte daquilo, de estar fazendo aquilo. Ele dissera que ia ali para tocar, mas não parecia que já fizera aquilo, o que estava fazendo naquele exato momento.
— Ou você gostou tanto que perdeu o rumo ou eu fui tão mal que você ficou enjoada. – murmurou assim que voltou a se sentar de frente para a garota, que balançou a cabeça, com ironia no olhar, e levou o próprio copo a boca, ocupando-se de beber todo o soju restante ali ao invés de realmente elogiá-lo. Não era possível que ele não soubesse que era bom. – Obrigado, -yah. Fico feliz que tenha gostado. – o garoto riu, acenando com a cabeça como o bom cara de pau que era e tampou a boca, segurando a bebida dentro dela ou teria feito uma bagunça das grandes.
era ridículo, para se dizer o mínimo.
— Quando você decidiu dedicar a música a mim, já tinha escolhido o que ia cantar? – ela quis saber e ele piscou, parecendo surpreso com a pergunta. – Quero saber porque escolheu essa música, .
— Ah. – o garoto coçou a nuca ao exclamar, desviando o olhar e arqueou as sobrancelhas, esperando. Ele bufou, voltando a virar para lhe encarar. – Quer mesmo saber?
.
— Eu não pensei muito, na verdade. Eu sabia que cantaria essa música se tivesse que cantar uma hoje, porque estaria com você e são coisas que, talvez, eu não sei… Faziam sentido cantar pra você.
— Ainda não entendi. – a garota retrucou, lhe encarando com certa desconfiança e suspirou, cedendo sem conseguir acreditar que estava realmente cedendo. O que lhe levara a escolher aquela música, e realmente falar em voz alta que estava dedicando-a a , afinal, nunca passara de meros pensamentos, mal formados e sequer aceitos por completo dentro dele.
— Olha, eu não sou inseguro na maior parte do tempo, nem é fácil me intimidar, mas é diferente com você. Eu me sinto diferente quando estou com você e, certo, eu sei que no inicio isso aqui que estamos fazendo hoje era só um desafio maluco que eu inventei, mas a verdade é que, nessa última semana, eu me senti… Hm… Diferente.
— Em relação a mim? – perguntou, sem conseguir evitar uma nota de surpresa na voz e assentiu, desviando o olhar para a madeira da mesa. A garota sentiu o coração pular no peito, como se ele ainda estivesse no palco cantando. – Quer dizer que, por causa da sua insistência em provar que podia dar certo entre a gente, que eu podia vir a gostar de você, vo-você… – a garota fez uma pausa quando gaguejou, o coração pulando cada vez mais enquanto ela buscava dentro de si coragem para perguntar de uma vez. – Você descobriu que gosta de mim?
— Acho que sim. – ele murmurou, baixinho. desviou o olhar para o palco, sentindo-se, no mínimo, atordoada e passou vários instantes em silêncio, imersa na mais absoluta confusão. Aquilo estava mesmo acontecendo? – Eu… Posso estar errado. Posso estar confundido tudo.
— Quer sair daqui? – lhe interrompeu, se pondo de pé num pulo e, confuso, imitou sua atitude, prestes a perguntar aonde ela queria ir, porém retirou o casaco com pressa e olhou em volta, voltando a falar antes que ele o fizesse. – Vamos na praia. Dar uma volta.
Ainda confuso, tudo que fez foi concordar.

sempre tivera uma conexão forte demais com o céu, a noite, durante o dia, chovendo ou em dias de sol. Ela sempre vira certa mágica na imensidão acima de sua cabeça, havia poesia escondida nas nuvens, nas estrelas e até no céu mais limpo de todos, sem que fosse necessário nenhum tipo de complemento para torná-lo a paisagem perfeita, pacificadora e incrível.
Aquilo sempre existiu, aquela sua paixão pouco explicável pelo céu, desde que ela se entendia por gente.
Dessa forma, não foi surpresa, não de verdade, que o céu, tão amplamente exposto na praia em frente ao bar de onde saíram, houvesse acometido a garota com tanta intensidade, muito mais do que a praia em si. Não foi nenhuma surpresa, e, em qualquer outro momento, aquela visão, que a garota considerava tão bonita e especial, teria sido o suficiente para lhe fazer sentir purificada e em paz. Em qualquer outro momento.
ainda se sentia atordoada e um tanto quanto sem ar quando se sentou na areia, ao lado de .
— É como se… Uma parte de mim está entrando em pânico, desesperada e a outra… A outra parte continua curiosa, alimentando essa curiosidade estúpida que eu venho tentando fingir que não está aqui desde o dia em que você inventou essa coisa de sairmos num encontro. –desabafava com ele, que sentado ao lado dela, lhe escutava silenciosamente. – Eu não sei o que fazer, .
-yah, você já parou pra pensar que, talvez, o motivo de todos os seus relacionamentos anteriores não terem dado certo é que… – ele parou, coçando a nuca sem saber se devia mesmo ir em frente e assentiu, lhe incentivando, então ele assentiu para si mesmo também. – você não se entrega. Eu entendo que tenha medo de se ferir, de verdade, mas acho que o motivo de nunca ter estado tão apaixonada quanto vemos outros casais por aí estar ou… Sabe… Ter estado com alguém que se sentiu desse jeito por você também é que… Você não deixou ninguém te conhecer desse jeito. E nem quis conhecer ninguém desse jeito também, porque dá medo e eu entendo, mas… É isso. Talvez você só esteja com medo agora também.
— E o que você acha é que me conhece? Que eu não preciso ter medo porque a gente já se conhece?
— Em parte, sim. Acho que a gente conhece vários aspectos um do outro, o suficiente para que a gente possa enlouquecer o outro as vezes, pelo menos. Mas… Eu não sei se acho que a gente não precisa ter medo, ou que eu te conheço por completo. Ou que gosto de todas as partes de você que…
— Uau. – lhe interrompeu, rindo com ironia. – Que declaração.
riu ao ouvir, fazendo que não.
— Não, eu não quis dizer que… – ele balançou a cabeça, se atrapalhando – Você tem defeitos, eu sei. E você também sabe que eu tenho defeitos, mas acho… Acho que pode ser refrescante, pra nós dois, explorar isso. Tudo que a gente sentiu durante essa semana toda, sabe?
— E se não for como a gente espera?
— Bom, pode ser melhor. – ele deu de ombros, assumindo uma postura cuidadosa em seguida. – Ou, se simplesmente não der certo, bem… A gente sempre pode ser sincero um com o outro e conversar sobre isso, voltar a amizade. A gente sempre foi sincero um com o outro e acho que, se mantermos isso, as probabilidades estarão ao nosso favor.
assentiu, sentindo o coração bater tão rápido no peito quanto quando estava no palco, lhe deixando completamente sem rumo com aquela voz que a garota nunca imaginou que ele tinha.
— Olha pra mim? – ela pediu, baixinho, já que ele havia desviado o olhar depois de falar, focando no mar e no movimento um tanto quanto hipnotizante das ondas. obedeceu e, ainda com o coração retumbando contra o peito de maneira absurda, tocou seu rosto com uma das mãos e aproximou o rosto do seu, roçando o nariz no seu por um instante, tempo o suficiente para que ele pousasse uma das mãos em sua cintura, fechando os olhos e então fazendo com que ela fechasse os olhos um instante antes de ele o fazer, pressionando simultaneamente os lábios dela com os seus.

 

Epilogo. O teu abraço que me enlaça devagar
E enfeita todos os meus dias e horas

Três meses depois

estava absurdamente nervoso.
Ele tinha, bem, nenhuma experiência com aquilo. Nunca comemorara aniversário de namoro antes e estava certo que exagerara enquanto seguia para dentro da casa de com aquela bola de pêlo em mãos.
Os olhos arregalados de em sua direção ao abrir a porta para ele foram o suficiente para que ele sentisse ainda mais daquilo: Exagerara.
, vocês estão namorando há três meses! Três! O que vai fazer quando comemorarem um ano, dar uma casa a ela? – perguntou assim que ele passou por ela, soando tão horrorizada quanto realmente estava. sorriu amarelo, pensando que ela podia ter dito antes, que um cachorrinho não era presente de três meses e sim um ano. Agora era, obviamente, tarde demais.
, que estava sentada no sofá da sala, jogando vídeo-game com , desviou o olhar da TV apenas para olhar feio em sua direção.
— Não ouse. – apontou, ameaçadoramente, em sua direção.
riu e olhou de uma para a outra, confuso, porém não teve tempo de perguntar nada, já que no instante seguinte a porta foi aberta e a própria passou por ela, fazendo com que ele lhe assustasse e escondesse seu presente, um filhote de labrador, atrás de si. deu as costas, não conseguindo conter a risada e arqueou as sobrancelhas em sua direção.
— Amor? – questionou, sem entender coisa alguma diante de sua postura tão claramente suspeita. – Achei que você só viria mais tarde. Que cara é essa?
— Nada, amor. Achei que estaria fora o dia todo hoje. – ele deu de ombros, como se não fosse nada demais, e arqueou, desconfiada, as sobrancelhas.
— Por quê? Por acaso está me traindo com uma das minhas melhores amigas? – ela fez graça e tanto quanto fizeram caretas, enojadas diante do quadro que a mais velha pintara. rolou os olhos por isso. – Ridículas. – retrucou, mesmo que elas não houvessem realmente chegado a dizer nada, e se aproximou de para lhe dar um selinho, mas ele recuou, fazendo com que ela voltasse a franzir o cenho, confusa. – ?!
— Eu ‘tô com sapinho. – ele mentiu descaradamente e gargalhou da sala, ao passo que tanto quanto olhavam para ele como se uma nave alienígena houvesse acabado de jogá-lo ali, bem no meio do corredor da casa delas.
— Que porra, ?! – reclamou, lhe estapeando e pulando, assustada, para trás quando ouviu um latido estridente em resposta a sua atitude. – Você latiu?!
— A culpa é sua por namorar um cachorro. – resmungou, rindo quando olhou feio para ela. – O quê? Você é que latiu.
— Argh, cala a boca! – ele resmungou, impaciente e olhou de um para o outro sem entender coisa alguma, embora cada vez mais sem qualquer paciência. Odiava se sentir por fora e, definitivamente, se sentia por fora naquele momento.
respirou fundo e equilibrou o filhote que escondia atrás de si em apenas uma de suas mãos, usando a outra para segurar, de maneira um tanto desajeitada diga-se de passagem, as mãos de sua namorada, que lhe encarou desconfiada.
— Feliz aniversário, jagi. – ele sorriu, e balançou a cabeça, mordendo o próprio sorriso. Era ridículo a facilidade com que lhe tinha domada, ela nem mesmo conseguia odiar a própria situação, tão absurdamente vergonhosa. Há algum tempo, quando inesperadamente se viu desabafando logo com , imaginava se havia alguém por aí para ela, se sentia cansada e frustrada, odiando cada parte do que sua vida se tornara, em termos de relacionamentos amorosos, pelo menos.
Se ao menos tivesse alguma suspeita do que estava por vir…
— Feliz aniversário, . – ela resmungou, tentando, inutilmente, manter a pose. Infelizmente – ou nem tanto – para ela, sabia muito bem do poder que tinha sob ela. encarou e fora capaz de enfrentar cada uma de suas particularidades com maestria, conseguindo, inclusive, driblar a sensação de medo que assolava no inicio, quando se deu conta que gostava dele.
Por mais insano que aquilo soasse, estava, realmente, lhe ensinando algo. Ele estava ensinando a se entregar, a viver todo o amor que lhe fora dada a oportunidade de viver. E ela realmente era agradecida por isso.
É claro, não admitiria aquilo em voz alta tão cedo, conhecia o suficiente para saber que ele ficaria insuportável se ela expusesse tudo aquilo para ele, mas, bem, era a verdade. A verdade que ela guardaria apenas para si, mas a verdade.
— Bom, eu tenho uma surpresa pra você… — começou, sem jeito, e arqueou as sobrancelhas, voltando a ficar desconfiada. Ele sorriu e beijou sua testa, parecendo muito como uma criança travessa que tenta tranquilizar alguém mais velho a respeito de sue segredo. só ficou mais desconfiada. – Não me olhe assim, tenho certeza que vai gostar.
— Ok… O que é? – ela perguntou, olhando em volta, na direção de suas amigas, como se esperasse uma dica ou algo do tipo. Foi quase cômico o modo como as duas desviaram o olhar para direções opostas ao mesmo tempo. optou por apenas rolar os olhos, voltando-se pra . – ?
O garoto, então, sorriu mais, finalmente tirando o filhotinho de labrador de seu esconderijo atrás de si e trazendo-o para frente do próprio peito, mostrando o bichinho para , que abriu a boca, completamente chocada.
— Você sempre quis um labrador… — ele deu de ombros, sem jeito, e por um instante, nem mesmo soube dizer se achava o cachorrinho mais adorável ou o próprio . É claro, passou logo. Era um labrador, um filhote!
— Ai, meu Deus, ! – ela voltou a estapeá-lo, várias e várias vezes seguidas, numa tentativa pouco lógica de extravasar o surto que começava a dominá-la. Ela realmente sempre quisera um labrador, Deus! – Eu não acredito que fez isso, meu Deus… – ela pegou o cachorrinho nos braços, olhando-o completamente boba e sorriu, direcionando a ela um olhar muito parecido.
Da sala de estar, e se entreolharam e fizeram som de vômito, numa provocação, no mínimo, infantil, mas bem, se davam o direito de ser infantil quando tinham a chance de implicar com ambos, e , simultaneamente. rolou os olhos e beliscou pela brincadeira, arrancando um gritinho da mais nova.
riu, não se importando em reclamar. Tinha um cachorrinho, um cachorrinho!
— Como vai chamá-lo, ? – foi quem perguntou, se pondo novamente de pé para se aproximar da amiga, fazendo menção de fazer carinho no cachorro, que, no entanto, latiu e ameaçou mordê-la assim que ela aproximou a mão dele. fez careta. – Credo. Podia chamá-lo de Júnior, é implicante igual.
— Eu gostei! – concordou, animado, e rolou os olhos, ignorando os dois enquanto seguia para a sala de estar, sentando-se perto de no sofá.
— Até parece que eu vou dar a você um nome feio como o do , não é, meu amor? – ela murmurou, fazendo voz infantil para o cachorro, que lhe encarou com seus olhos escuros atentos, como se realmente entendesse tudo que ela dizia. derreteu inteira sob o olhar tão puro.
— Ei, meu nome não é feio, não! – retrucou, ultrajado, seguindo em sua direção. – Você gosta, não mente não.
— E quem te iludiu assim, querido? – retrucou, erguendo o olhar para ele, que arqueou as sobrancelhas.
— Você mesma, querida! – ele devolveu, sorrindo satisfeito quando ela franziu o cenho, lhe encarando como se perguntasse que loucura era aquela saindo de sua boca. – De noite, quando você chama por mim e demonstra gostar muito do meu nome, quando eu…
! – gritou, lhe interrompendo e estapeando-o, envergonhada. – Para de ser ridículo, garoto.
— Você pode chamá-lo de Elton. – sugeriu, chamando a atenção do casal, que virou para lhe encarar, com expressões bem diferentes no rosto. parecia curioso e , bem, curiosa também, mas não do mesmo jeito animado que seu namorado. Ela parecia muito mais se perguntar que doença sua melhor amiga tinha.
— Isso é nome de gente.
— Mas é legal, tipo Elton John, ! – retrucou, balançando seus ombros em seguida, como se aquilo fosse contar pontos ao seu favor. – Vai, por favor, vamos chamá-lo de Elton John, por favor!
— Jesus, eu estava brincando… – riu baixinho e rolou os olhos, optando por ignorá-la.
— Elton John coisa nenhuma, . Quer chamar alguém de Elton John, chama a maluca da , eu hein. – ela resmungou, ácida e riu, apontando para e sussurrando “Elton John”, exatamente como uma criança implicante. voltou a rolar os olhos ao notar o que ele fazia. – Idiota. Eu vou chamá-lo de… Marley!
— Hm… Clichê! – resmungou em meio a uma tosse forçada, tentando fingir que não dissera nada. lhe ignorou, encarando o cãozinho em seus braços completamente apaixonada.
Estava decidido: Seria Marley. E os olhinhos escuros, puros e cheios de amor, concordavam. Ele definitivamente gostava de Marley.

— Ei, Elton… – sussurrava, estralando os dedos para o cachorrinho no instante em que entrou na cozinha depois de sair do banho, lhe pegando no flagra.
— Elton é o teu rabo, . – ela reclamou e apenas riu, dando de ombros.
— Pedi comida. – ele avisou e ela assentiu, abrindo a geladeira para pegar um pouco de água.
— Ótimo, estou faminta. – ela falou, feliz com a noticia. Os outros haviam saído, deixando a casa só para os dois durante a noite, e estava feliz, de passar algum tempo sozinha com seu namorado maluco e seu cachorrinho. e sempre seriam sua família, é claro, mas gostava daquela versão reduzida também e, ainda que ela não fosse o tipo romântica e sonhadora, acabava sendo extremamente fácil imaginar um futuro numa outra casa, só com e seu cachorrinho. Tão fácil… – Tenho uma coisa pra você também. – murmurou depois de um instante, aproximando-se de , que lavava a louça, e o abraçando por trás.
Ele sorriu, olhando por sob o ombro em sua direção.
— Me comprou um presente? – ele perguntou, surpreso e ela sorriu, fazendo que não.
— Na verdade, não. Não é exatamente uma coisa, mas bem, é algo importante. Algo que quero dizer a você. – ela explicou e girou no lugar, virando de frente para ela. Sempre que enrolava daquele jeito era porque estava buscando coragem para dizer algo, e, se era algo que ela precisava buscar coragem para falar, então era algo grande. Ele não lhe apressou, mesmo curioso, optou apenas por encarar a garota com atenção enquanto esperava. ficou na ponta dos pés e lhe roubou um selinho, sorrindo em seguida. – Não precisa ficar tão sério, não é algo ruim.
— Certo… – ele coçou a nuca e soltou um risinho, sem jeito. – O que foi?
sorriu mais, sentindo o coração absurdamente aquecido enquanto olhava para ele, depois brevemente, pelo canto do olho, espiava Marley deitado, espalhado, no chão, perto dos dois, lhes assistindo. E tinha absoluta certeza do que disse em seguida:
— Eu amo você, .
piscou, surpreso, e não conseguiu falar nada por um instante, mas aquilo não assustou , como teria feito há meses atrás, antes de ela sequer se imaginar num relacionamento com . Ela parecia saber quão certo era aquilo, o que os dois tinham. Tinha total segurança do que sentiam, do que era, e não tinha mais medo.
Quando finalmente sorriu, no entanto, ela acabou sorrindo também, com uma pontada, culpada, de alivio. Ok, talvez ainda estivesse caminhando em direção a total segurança da qual falara antes…
— Você me ama! – exclamou, apontando para ela e sorrindo largamente em seguida, cheio de si. – Você me ama! – ele quase gritou, rindo e se afastando da garota para dançar sozinho pela casa, fazendo com que risse e seguisse até ele, lhe observando dançar de maneira ridiculamente boba no meio da sala de estar.
Céus, ele era ridículo.
! – ela reclamou, balançando a cabeça, porém não conseguiu conter uma risada quando ele a puxou para dançar com ela, tentando alcançá-lo para estapeá-lo, porém não sendo capaz, já que o garoto segurou suas duas mãos nas suas, inclinando o rosto para o dela e lhe roubando um beijo em seguida.
— Eu também te amo, .
E foi assim. Ele a derreteu completamente e lhe arrancou o mais bobo dos sorrisos, que ela sequer conseguiu pensar em esconder como normalmente faria, o puxando para si e desfazendo o sorriso apenas quando suas bocas se encontraram.
E tudo estava perfeito. encontrara seu, tão sonhado e tão singular, amor. De maneira ainda mais singular, mas bem, estava feliz coma quilo também.
Estava feliz com absolutamente tudo.

FIM