Tu me manques

Sinopse: É curioso pensar no poder que tem o conceito da ‘última chance’. Quando confrontadas em uma situação extrema, em que não há absolutamente mais nada a perder, as pessoas podem ter atitudes absolutamente inesperadas. Ele certamente não teria feito aquilo se as circunstâncias fossem diferentes. Mas aquela era a mulher da sua vida, e estava prestes a se casar. Com outro.
Gênero: Romance
Classificação: 14 anos – insinuação de sexo
Restrição: Pode ser lida com qualquer pessoa
Beta: Alex Russo

Capítulos:


PRÓLOGO

Ele podia sentir todos os olhares voltados para si, como se o atravessassem. Suas mãos tremiam e o pulso estava tão acelerado que ele tinha a clara impressão de que os mais próximos eram capazes de ouvir seu coração denunciando seu descompasso. O álcool nublava seus sentidos, mas era honestamente grato por isso: sóbrio, certamente não teria sequer aparecido para testemunhar aquele show de horrores.
Seus olhos varreram o ambiente, e era como se todos os presentes pudessem ver cada um de seus pecados estampados em seu rosto: eram seus juízes, ainda que apenas em sua própria consciência. A tensão de , de pé ao seu lado, era tão intensa que parecia palpável, e quando enfim pousou o olhar sobre , engoliu seco: o vestido branco parecia uma afronta. A delicada aliança na mão esquerda, uma ofensa pessoal. Nos olhos dela ele via desespero, um pedido agoniado de misericórdia.
Por Deus, como a amava.
Ali, sofrendo como não guardava recordação de já ter feito algum dia, seu único impulso era o de cruzar o salão e confortar a dor dela, como fizera tantas outras vezes. Naquela noite, contudo, e em todas que viriam a seguir, ela tinha quem o fizesse.
O rapaz desviou os olhos, uma vez que não conseguiria prosseguir com aquilo enquanto a encarasse. Na realidade, duvidava que fosse ter forças para tanto, independente de qualquer coisa… Ele podia ver a mão de pronta para arrancar das suas o microfone a qualquer momento. Ou para dar um soco bem na sua cara, talvez – ele não estava nada feliz com tudo aquilo. E quem estava? não, certamente. Ela parecia a ponto de chorar, e ele não podia nem mesmo culpá-la: também sentia uma vontade filha da puta de deixar que as lágrimas rolassem. era, provavelmente, o mais contente dentre os envolvidos. O que era irônico, e tão desolador que não conseguia sequer pensar no assunto.
Os olhares incisivos que recebia o enervavam: ele queria gritar até sua garganta doer mais do que a agonia pungente que sentia dentro do peito. O que diabos esperavam que dissesse depois daquilo? O que ele podia possivelmente dizer depois de ver a sua garota se casando?
As palavras ditas mentalmente fizeram com que saísse de sua embriaguez por um momento, dando algum sentido àquilo tudo: estava casada. Com outro.
, do riso solto e das ideias mirabolantes. Do idealismo feroz e da personalidade tão transgressiva quanto inspiradora. Seu amor mais profundo, seu afeto mais secreto.
Todas as memórias formadas ao longo de anos ao lado dela pareciam correr por sua mente em um segundo e, quando ergueu a taça de champagne à frente do corpo, seu rosto carregava uma serenidade perturbadora que fez a mulher sentir o estômago se transformar em um cubo de gelo. Subitamente, ele sabia o que dizer. E todos se calaram para ouvir.

Cinco anos atrás

Com , sempre foram os olhos. Quando ela entrou na sala de aula pela primeira vez, sua fama a precedia: a garota transferida vinda de Paris que, diziam os mais empolgados, era descendente de Godard e tão talentosa quanto – o que era praticamente o mais alto pedigree em uma faculdade de Cinema. A postura foi provavelmente a primeira coisa na garota a destacá-la dos demais – a ascendência francesa evidente em cada gesto, naquela elegância despreocupada e magnética. Não era exatamente bonita, mas interessante a ponto de não ser possível passar indiferente a aura que a envolvia. Foi apenas quando ela se sentou ao seu lado, contudo, usando aqueles malditos olhos para prender os seus, que ele teve certeza: nada no mundo superaria o modo como ela era capaz de desarmá-lo com um olhar.
“Você é sempre tão sério, jaqueta de couro?”
Ele mal teve tempo de pensar em uma resposta, porque no instante seguinte ela lhe presenteava com o primeiro sorriso: não uma gargalhada aberta, como muitas que viriam a seguir – , como ele viria a perceber, não economizava risadas. Aquele, contudo, foi um sorriso de canto em que eram os olhos os verdadeiros protagonistas: eles sorriam ainda mais que os lábios, parecendo lhe convidar a se juntar a eles. Ele sorriu, aceitando o convite sem saber que ali, o fazia por uma vida inteira.
Um ano depois, ela ainda não suportava vê-lo sério – “Isso não fica bem em você, ”, ela diria, tocando a ruga entre suas sobrancelhas – e ele não aprendera a conter o sorriso que tomava conta de seus lábios sempre que ela parecia tão livre. Tão . Observando-a através da tela da câmera, se perdia no modo como os olhos dela vagavam irrequietos: eles pareciam absorver o mundo e beber toda aquela beleza, alimentando-se dela.
! – brigou, tão logo percebeu que o alvo da câmera não era mais a paisagem, e sim ela. Sempre ela. Erguendo uma das mãos, aproximou-se da lente de modo a se esconder, mas o último sorriso que deu à filmagem fez com que o rapaz agradecesse aos céus por ter capturado aquilo com a câmera. Ele retornaria àquele filme uma boa dose de vezes no futuro, admirando o modo como os olhos dela se estreitavam e denunciavam seu sorriso parcialmente encoberto pelas mãos. – Para com isso! – fez um bico, empurrando a mão dele para baixo.
– A ideia foi sua… – ele sorriu de canto, dando de ombros. – Não é culpa minha se você entrou na frente da câmera. – completou, alargando o sorriso quando ela rolou os olhos. – Eu sei reconhecer um bom take quando vejo um, ok? – ergueu os braços defensivamente, admitindo, sem intenção, que ela era o melhor dos quadros que ele poderia ter capturado com as lentes.
– A ideia era explorar isso, e não eu! – abriu os braços como se quisesse abraçar o mundo: o céu colorido do fim de tarde, a grama queimada de sol e as árvores outonais. E havia tanto magnetismo nela que duvidava que a natureza não fosse, de fato, curvar-se à sua vontade.
– Você disse “belezas cotidianas”. – o garoto respondeu, encolhendo os ombros em um gesto que era tão, tão seu.
De fato, aquele era o tema que havia escolhido para seu projeto do semestre na faculdade de Cinema, o qual nomeara “Inefable, um olhar sobre o cotidiano”, título tão charmoso quanto ela própria. Sua ideia era captar o singelo, e ela sabia o quanto o olhar de seria importante naquilo: ele era artístico e poético em cada uma de suas escolhas visuais, e se alguém podia mergulhar com ela no conceito do curta, era ele. – Acho que isso se aplica. – ele apontou para o visor da câmera que tinha a imagem congelada do rosto dela contra o pôr do sol.
sorriu, e o sorriso logo se transformou em uma risada: ela não era a melhor das pessoas quando se tratava de receber elogios, ainda que fosse um especialista em fazê-los. Era engraçado como eles nunca pareciam planejados – e de fato não eram – e como eram sempre pouco usuais. Como tudo sobre ele, na realidade. era o tipo de cara que elogiaria suas mãos, e diria o quão completamente arriscados eram seus roteiros – o que, ambos sabiam, era um grandíssimo elogio para ela.
– Vem, chega por hoje. – a garota mordeu um sorriso, dando um puxão descontraído na manga de sua jaqueta antes de andar até a traseira da velha caminhonete dele, subindo na caçamba com um salto. – Salud! – saudou, estendendo para ele uma garrafa de cerveja que pegara no cooler que levaram para tornar o dia de filmagens menos exaustivo.
aceitou a cerveja com um sorriso mínimo, levando-a aos lábios enquanto se acomodava ao lado da mulher, os olhos se deixando encantar pela beleza que os últimos raios de luz do dia provocavam ao iluminar a vegetação diante deles.
– Eu me sinto tão pequeno aqui… – murmurou, como se um tom mais alto pudesse quebrar a harmonia do ambiente. acenou, compreendendo o que ele sentia: por mais que o ritmo frenético da cidade pudesse ser sufocante e aterrador, aquele vazio associado à imponência da natureza que os cercava fazia com que se dessem conta da própria pequenez.
– Nós temos muitas planícies na França. – ela começou, e a conhecia o suficiente para reconhecer uma expressão de saudade quando a via. – Quando eu era criança, às vezes olhava pra aquele horizonte sem fim e me perguntava como seria o outro lado do mundo… – sorriu, levando a cerveja aos lábios antes de continuar, já tendo os olhos ávidos do rapaz sobre si: qualquer história, quando vinda dela, parecia-lhe a narrativa de um sonho. Era feito viajar para o mundo de , e ele podia dizer sem dúvidas que aquele era um de seus destinos favoritos, ainda que não fosse sequer um lugar. – Agora eu estou aqui. – ela deu um sorriso pequenininho. – E é tudo tão, tão igual… – soltou um risinho pelo nariz, surpresa com o próprio devaneio.
– Igual? – franziu o cenho, verdadeiramente curioso acerca do ponto que ela tentava levantar: ele podia pensar em uma dúzia de diferenças, e duvidava que ela também não as notasse.
– A cultura é diferente, claro. – abanou aquela percepção superficial com uma das mãos, voltando ao que era realmente o cerne de sua questão. – Mas o que nos faz humanos, , isso não muda. – sorriu, deitando mais um olhar ao horizonte antes de continuar. – Eu me sentia tão pequena lá… Assim como você, aqui. – explicou, sorrindo quando ele acenou em compreensão – No mundo inteiro há sofrimento. E amores. Saudades, e alegria, e raiva, e dor… – ela pontuava, e havia tanta alma e certeza no que dizia, que poderia se convencer apenas pelo tom que ela usava. – Há amores à primeira vista na França, como há aqui. – seu sorriso era entusiasmado, crescendo com a percepção de que o que dizia fazia sim, sentido. – E corações partidos. E também dores que nem sequer tem nome. Isso há em todo lugar, . É o que nos quebra em pedacinhos. – ela sorriu, e havia ali um quê de melancolia com que ele se identificava profundamente. – E também o que nos faz vivos.

Quatro anos atrás

– De quantas cervejas você ainda vai precisar? – rolou os olhos sem precisar encarar o amigo para perceber a ironia de cada palavra. Levou a garrafa até os lábios, ignorando o comentário e o fato de sua avidez por evitar o assunto apenas confirmar o ponto do outro.
A festa estava cheia o suficiente para que ele conseguisse se esquivar de pelo resto da noite e evitar aquele tipo de intervenção, só precisava encontrar uma forma de sair dali.
– Do que você tá falando? – perguntou, uma vez que a expressão de , uma sobrancelha irritantemente arqueada em desafio, deixava claro que não desistiria sem uma resposta. Uma evasiva cínica ainda era uma resposta, certo?
– Do que eu estou falando…? – a risada de soara tão irritante que não conteve o revirar de olhos, correndo os olhos pelo ambiente para avaliar suas rotas de fuga. – Você é apaixonado pela garota há anos, ela termina um relacionamento que parecia mais sólido que o da família real inglesa e você realmente vai ficar a noite inteira bebendo até estar lesado o suficiente pra não conseguir trocar duas palavras com ela. – ele tomou a garrafa das mãos de – ao invés de tomar uma porra de uma atitude quando uma chance dessas aparece?
massageou as próprias têmporas, deixando que o olhar flutuar livremente. Como sempre, o magnetismo de o atraiu e ele a encontrou dançando consigo mesma, os olhos fechados e os cabelos em completo desalinho. A imagem trouxe um sorriso inevitável aos olhos do rapaz, e nem mesmo pôde deixar de sorrir: tinha que dar o braço a torcer e admitir que era realmente bom quando se tratava de esconder o que sentia – lhe custara um bom tempo para arrancar a verdade do melhor amigo – mas havia momentos em que a verdade ficava tão ridiculamente estampada no rosto dele, que se perguntava como era possível que não soubesse. Ou mesmo sentisse.
– Só vai, cara… – aconselhou, tocando o ombro do amigo, falando sério dessa vez. – Não perde essa chance.
… – respirou fundo, forçando seus olhos a se livrarem do magnetismo que exercia sobre ele, com dificuldade. – Não… Não dá. Agora não. – cerrou os olhos enquanto deixava que a cerveja descesse por sua garganta, aliviando quão seca ela parecia diante da simples possibilidade de se aproximar dela com alguma intenção. sempre foi um alvo distante, a musa inalcançável de seus sonhos, e era difícil retirá-la do pedestal depois de tanto tempo.
– Me dá um bom motivo. – cruzou os braços na frente do corpo, colocando-se na linha de visão do amigo, que tentava a todo custo evitar seus olhos. – , porra, para de se sabotar! – exclamou, exasperado, diante da apatia do outro.
– Ela acabou de terminar. – o rapaz organizou seus pensamentos antes de responder. Sabia que parte daquela recusa em tomar alguma iniciativa se devia ao medo que tinha de acabar fodendo tudo e perdendo a companhia dela de uma vez por todas. Naquela noite, em especial, excepcionalmente, ele tinha argumentos. – Bebeu demais, , olha pra ela… – suspirou, voltando a observar a garota e se surpreendendo quando os olhos dela capturaram os seus, atraindo-o com um sorriso. – Ia ser muito errado fazer isso agora… – terminou, e precisou se firmar fortemente àquelas palavras enquanto assistia ao sorriso de se alargando enquanto ela dava um pulinho animado, chamando-o com os braços.
– Eu admiro isso, cara, e tenho certeza de que a também admiraria, se estivesse sóbria. – ressaltou – Mas hoje, se não for você, vai ser outro. – constatou a verdade, mas podia dizer que já não mais lhe escutava: como podia competir com , afinal?
, de fato, já não tinha no amigo sua atenção: cobriu o espaço que o separava de segurando um sorriso pequeno nos lábios, tentando sublimar o fato de que ela parecia dolorosamente atraente enquanto se movia ao ritmo da música, parecendo tão inconsciente do fato de ter metade dos presentes estudando seus movimentos, o que era quase cômico. E trágico, para ele e todos os outros que não ganhavam sequer uma migalha de sua atenção.
! – ela deu um pulinho, agarrando-se ao seu pescoço até que os pés saíssem do chão, entregando seu peso completamente ao braço que ele passara em torno de sua cintura a fim de sustentá-la. – Eu te procurei tanto! – franziu o cenho em uma expressão divertida depois de alinhar seu rosto ao dele. – Onde você estava? –perguntou, estreitando os olhos de forma cômica.
– Fugindo das lições de moral do . – ele respondeu com sinceridade, e a risada dela se fez ouvir por sobre a música, arrancando também um sorriso dele, que a colocou no chão a fim de conseguir concatenar as ideias, o que era impossível com à tiracolo.
– Nós devíamos beber juntos! – a garota tomou sua cerveja dele, virando o conteúdo antes que pudesse impedi-la. – Pare com a carranca, isso não fica bem em você, . – ela sorriu, tocando o ponto entre suas sobrancelhas, e ganhando um sorriso pelo quão compenetrada parecia em acertar o lugar correto.
Ele podia ver graça em toda a situação, mas a desinibição extrema de aliada à forma como ela claramente não tinha total domínio de si fortaleciam sua convicção de que aquela definitivamente não era a noite. Se é que haveria ‘a noite’, em que ele finalmente ‘criaria culhões’, como costumava dizer, para dar o primeiro passo em direção a algum lugar.
– Nós devíamos pegar alguma coisa pra você comer… – ele não conteve a o sorriso diante da carranca adorável que tomou conta do rosto da garota frente àquela sugestão que, ele tinha certeza, ela considerava tão entediante.
– Chato. – ela respirou fundo, sem conter um sorriso quando beijou sua testa.
– Chata é você. – ele murmurou, e seu olhar denunciava quão pouca verdade havia naquelas palavras. Andando de costas, a fim de se divertir um pouco mais com a imagem tão frustrada da garota, completou. – Eu já volto.
– É melhor me trazer álcool! – ela gritou, indignada, e o rapaz não conteve uma risada enquanto procurava pela cozinha na casa em que acontecia a festa onde, pensando melhor, ele não tinha ideia de como fora parar.
, é claro.
Desviando de vários colegas surpreendentemente mais embriagados que ele próprio – e que ele se lembrava apenas vagamente de já ter visto no campus da faculdade – enfim chegou, aos tropeços, até a cozinha. Precisou pedir licença a um casal de calouros que se agarrava sobre a bancada para alcançar os armários e surrupiar para um pacote de salgadinhos e estava pronto para voltar para a garota quando foi pego em uma conversa longa com alguns colegas de turma sobre qualquer assunto desimportante. Aquele era um problema recorrente, que tanto quando costumavam lhe apontar: simplesmente não sabia ser minimamente mal educado com quem fosse.
E ali, ainda que não quisesse sustentar a conversa, ele se forçou a sorrir e interagir por alguns minutos antes de encontrar uma brecha plausível para voltar à sala.
A expressão de foi a primeira coisa a lhe alertar sobre a verdadeira bagunça que seu coração estava prestes a se tornar: não era um ‘eu te avisei’ arrogante. Não, era pesar: pena de , e raiva de si mesmo por ter sido tão lento em impedir aquela situação de merda. O modo como o amigo evitou seus olhos fez com que o estômago de se afundasse antes mesmo de se deparar com a cena: abraçava alguém, e as mãos dele descansavam preguiçosamente na cintura da garota.
Era , como não demorou a reconhecer: o veterano cujas habilidades detrás das câmeras eram questionáveis mas que, diziam as línguas femininas do campus, era bonito o suficiente para fazer sucesso em qualquer tela de cinema. Tão previsível que poderia ser cômico, se não fosse sua pequena tragédia pessoal.
O que quer que tenha dito no ouvido da francesa claramente surtiu efeito, uma vez que os lábios de se partiram em um sorriso enquanto envolvia o pescoço dele com os braços. Naquele instante, precisava concordar com : era um especialista em auto-sabotagem. E, aparentemente, também em masoquismo, já que seus reflexos foram lentos a ponto de não impedi-lo de ter a visão exata do momento em que uniu seus lábios. Não ele, ela.

Três anos atrás

– Então é aqui que você se escondeu. – o sorriso de canto na voz dele era notável mesmo em seu tom de voz e, mesmo que não fosse, ainda assim a faria sorrir. olhou por sobre os ombros, e não precisou dizer uma palavra para que ele se aproximasse, recostando-se ao lado dela na mureta do topo do prédio. – Todos estão te procurando.
– Precisava de cinco minutos. – confessou, e seus olhos correram novamente pela noite fechada que caía diante deles, denunciando a alta madrugada. – Achei que estivessem bêbados demais pra sentirem a minha falta…
– Talvez tenham mencionado algo sobre precisarem da dona da casa para abrir uma garrafa de Royal Salut… – ele riu, coçando a nuca, arrancando uma gargalhada nasalada da mulher, que rolava os olhos.
– Um bando de interesseiros, é isso que vocês são. – ela franziu o cenho, batendo o ombro no dele de leve no dele, inconsciente do que aquele contato mínimo era capaz de causar a .
– Ei, eu fui só o porta-voz… – ele ergueu os braços em rendição, aproveitando o gesto para criar uma distância mínima entre eles.
– Golpe baixo, já que é o único que sabe que eu venho aqui… – esbravejou, e não pôde deixar de sentir aquela migalha de informação fazendo uma felicidade tênue tomar conta de seu coração: eram muitas as noites que haviam perdido naquele telhado entre filmes que nunca seriam terminados e longas conversa sobre assunto algum. E era tão bom saber que aquilo era deles, que não podia nem mesmo ser certo.
– Eu não disse a ninguém onde ia procurar, então você tem a vantagem… – o sorriso dele era doce, como de costume.
– Me diga que você pelo menos tem um cigarro, e aí eu vou considerar uma vantagem. – ela devolveu, fazendo-o rir pelo nariz.
– Achei que tivesse parado. – ele comentou, franzindo o cenho. Não podia negar que era uma visão absolutamente aterradora, no entanto, por isso tirou um maço de cigarro do bolso traseiro dos jeans, entregando-o a ela junto do isqueiro.
– Eu parei. – piscou, tirando um cigarro da carteira e levando-o até os lábios, usando uma das mãos para cobrir a chama do isqueiro, até que enfim sentisse a fumaça quente invadir seus pulmões. – Isso é um momento de fraqueza e embriaguez. – riu, soltando a fumaça com os olhos cerrados, aproveitando a sensação de prazer e culpa que o gesto lhe despertava.
Oh, ela sentia falta daquilo feito louca…
acendeu um cigarro para si, e os dois desfrutaram de um de seus silêncios confortáveis: ela não pensava em coisa alguma, enquanto ele se perdia em cada nuance do rosto dela sob a má iluminação urbana, e o modo como o vento gelado condensava a fumaça do cigarro diante dos lábios dela tornando a cena tão dolorosamente bela que ele gostaria de tê-la gravada permanentemente na memória. Talvez tivesse, de fato.
– Nós devíamos descer. – determinou, quando o cigarro chegou à metade, e seu sorriso, antes culpado, transformou-se em pesar enquanto ela segurava o cigarro diante do rosto por um momento. – Oh, tu me manques… – murmurou, antes de deixá-lo cair, seguindo o movimento com os olhos assim como seguia cada um de seus gestos. – Você já ouviu isso? – questionou, voltando a encará-lo e sorrindo frente à negativa do amigo: amava falar tanto quanto ele era fascinado por ouvir seus discursos apaixonados sobre todas as menores coisas. – Nós não temos algo que substitua ‘saudade’ no francês, sabe? Mas temos isso… Tu me manques. – explicou – Mas é ainda maior que saudades. Significa, literalmente, você falta em mim. Você é parte de mim. Como um órgão. Como sangue. – terminou, voltando a olhar para baixo, onde dezenas de metros abaixo brilhava a brasa de seu pequeno deslize, seu pequeno pecado. – Tu me manques.

Dois anos atrás

era uma mulher atraente.
Nunca, contudo, a vira tão deslumbrante quanto no vestido preto que usava para o baile de formatura – o que era bastante irônico, uma vez que não podia imaginar que não tanto tempo depois outra ocasião substituiria aquela noite no ranking, e nesta ela usaria branco.
Na celebração da graduação, contudo, contrariando o que os rumores pelos corredores da faculdade diziam – a fama de a precedia, e as pessoas simplesmente não se cansavam de especular a respeito da francesa – não era nada excepcionalmente intrincado ou complexo. Era simples, elegante, e tão impactante quanto a presença dela, que parecia unir a sensualidade de Brigitte Bardot ao olhar esperto de Audrey Tatou. Era a mulher dos sonhos de , e entrava no salão de braços dados a outro. Dois anos, e ele ainda não se acostumara àquela visão que ainda lhe causava um desconforto dolorido no estômago.
– Vamos cumprimentar logo, cara… – deu um tapinha nas costas do amigo ao ver a direção que os olhos de tomavam. – Que aí você fica livre disso. –completou, já partindo na direção da mesa de antes que o outro tivesse qualquer chance de protestar.
! – um sorriso iluminou o rosto de assim que se deu conta dos amigos que se aproximavam. Eram semanas loucas, aquelas, e ela mal tinha tempo de ver seus garotos. – ! – exclamou, sorrindo para a forma como eles pareciam tão arrumados, destoando da aparência casual que sempre ostentavam na faculdade. – Deus, olhem pra vocês! – abriu os braços, segurando-os ao mesmo tempo.
– Pode dizer que tá morrendo de orgulho, . – sorriu, beijando o rosto da mulher.
– Alívio por te ver formar, eu diria. – a morena apertou o nariz do amigo carinhosamente, e manteve o braço que enlaçava , tocando o ombro dele delicadamente com o rosto. – E muito feliz. Por nós três. – subiu o olhar para o rapaz com um sorriso caloroso, que ele respondeu com um apertar de olhos, sincero. Era uma marca-registrada, o modo como os olhos dele eram capazes de sorrir.
– E aí, , tudo certo, cara? – cumprimentou o namorado da amiga com um abraço, e com um olhar fez com que se lembrasse de que deveria fazer o mesmo.
Ele o fez como sempre que era forçado àqueles encontros: quieto e educado, buscando sair de perto do outro antes que precisasse se ver envolvido em uma conversa com ele. Não que fosse o problema, de forma alguma, e talvez fosse isso o que mais perturbava o caráter gentil de : ele era simpático, amigável, e sem dúvida alguma tratava com nada menos do que ela merecia. Não havia um motivo concreto para não gostar dele, exceto o fato de serem ambos completamente apaixonados pela mesma garota.
– Baby, eu vou pegar uma bebida, você quer alguma coisa? – perguntou, depois de alguns minutos de conversa.
– Hoje não, preciso me comportar. – ela sorriu. – Vai rápido, ou eu posso acabar aos beijos com um veterano gato, e aí sabe o que vai ser de mim pelos próximos anos né? – brincou, segurando-o pela gravata para lhe dar um selinho breve e sorridente, completamente inconsciente do quão direto na ferida suas palavras haviam tocado. gostaria de pensar que fora apenas coisa da sua casa, mas mesmo mostrava sinais de ter feito a mesma associação que ele: o destino era um enorme filho da puta, às vezes. – Não demora!
, querida… – tomou a palavra já que tinha certeza de que não o faria. – Eu quero saber o que você me diz das amigas francesas, passei quatro anos esperando por esse momento. – disse num tom teatralmente baixo, causando uma gargalhada nos demais.
– Eu realmente tenho alguém pra te apresentar hoje, lunatic. – a morena revirou os olhos, batendo de leve no ombro do amigo – Cadê a ? – murmurou, dando uma olhada ao redor até localizar a garota que buscava –, chérie! – chamou, erguendo uma das mãos. – Esses são . – apontou para o amigo, sorrindo sem mostrar os dentes, sabendo que seria ele a chamar a atenção da mulher. – E . – fez o mesmo com o outro, que precisava controlar o desejo absurdo de gargalhar da expressão abismada de enquanto olhava para a mulher que parecia saída de um editorial da Vogue. – Essa é , minha prima.
– Prima? – levou uma das mãos aos cabelos instintivamente, bagunçando-os de forma a fazer com que e se encarassem com risos idênticos presos aos lábios. – escondeu a informação de que era a única da família que não herdou a beleza… – implicou com a amiga, mas a risada de serviu a dois propósitos: torná-los mais próximos, e provar que a fluência no francês não seria necessária para que se entendessem.
– Eu sinto muito por não ter uma prima pra você. – fez um biquinho para , que abanou a ideia com uma risada. Se ela apenas soubesse… – Ela é o de saias, só por isso não te apresentei.
– Eu mal consigo lidar com um , então passo. – comentou, espiando a forma despreocupada e sorridente como o amigo conversava com a prima de .
Por que com ele as coisas nunca pareciam tão fáceis?
Uma voz soou nos microfones chamando os formandos ao centro do salão, com o anúncio de que o vídeo dos formandos seria exibido, e bateu palminhas animadas enquanto caminhava junto de e , ansiosa para ver o resultado daquilo e agradecendo a Deus pela existência de maquiagem à prova d’água. A ideia era recordarem os quatro anos de faculdade, e eles foram deixados livres para que enviassem qualquer vídeo que desejassem, para representar aquela jornada.
– O que vocês mandaram? – perguntou, num sussurro, assim que as luzes baixaram e todos se concentraram no telão.
– Você vai ver, shh… – riu da curiosidade dela, logo sendo tragado para a avalanche de memórias que eram derramadas naquela tela: eram festas animadas, vídeos completamente embriagados, paisagens de tirar o fôlego, momentos intimistas, tudo contribuía para que a emoção tomasse conta dos presentes.
Em pouco tempo, o vídeo que mais aguardava teve início: estava no topo do prédio dela, e dedilhava no violão a melodia de Creep, do Radiohead, completamente alheio ao fato de que era filmado pela garota. Os olhos de se apertaram em sorriso nostálgico por aquelas noites que ele guardava com tanto carinho na memória, e passou um dos braços em torno dos ombros de , que deixou que algumas lágrimas escorressem.
Quando apareceu em uma filmagem fazendo uma dancinha ridícula para a câmera, aproveitou para se recuperar das lágrimas com uma risada, apenas para ser pega de surpresa ao se deparar com o próprio rosto no telão.
… – ela arregalou os olhos, admirada: eram imagens antigas de um dia de outono em que filmavam seu curta. Ela se lembrava de brigar com por insistir em filmá-la, e nunca tinha colocado os olhos no resultado até aquele dia: o modo como sorria, ainda que tentasse se esconder da câmera de , fez com que um sorriso se desenhasse em seu rosto tantos anos depois. Ela segurou o braço do rapaz, incapaz de dizer nada pelo embargo crescente que sentia na garganta.
Era aquilo sobre , que ela jamais saberia explicar: estava na maneira como ele colocava alma no que fazia, em como era por inteiro em tudo o que produzia, na sua capacidade de emocionar. De tocar seu coração.

Um ano atrás

sinceramente não conseguia compreender como haviam chegado naquele instante fatídico: em um momento, sorria para ele, abraçando-o forte depois de quase um ano sem se verem devido ao mestrado dele na Espanha – desculpa esfarrapada para tentar se afastar dela, como Beakhyun insistia em confabular – fazendo com que ele se sentisse em casa pela primeira vez em tanto tempo.
Algum tempo depois eles gargalhavam do modo como havia domado de modo inimaginável, e lhe perguntava sobre se ele tinha alguém na Espanha. negara, ainda que tivesse: não era nada, afinal. Não era ela.
E então, subitamente e sem dar a ele a menor chance de ao menos tentar se preparar para o que viria a seguir, o sorriso da francesa se alargou enquanto de sua boca vertiam palavras tão cruéis que toda a cena parecia fora de contexto: sentados na beira do prédio de , seu lugar preferido no mundo inteiro, foi que ele ouviu a sentença à sua felicidade.
e eu vamos nos casar, .”
tinha certeza de que deveria dizer algo. esperava por isso, ele podia dizer, pelo modo como seus olhos o encaravam em expectativa.
Frente a sua apatia – completamente mal interpretada – ela começou a tagarelar sobre como ‘era cedo’, mas sentiam que ‘estavam prontos’. As palavras, contudo, pareciam quicar pelo vazio da mente de enquanto ele tentava organizá-las de forma a que fazerem algum sentido. Qualquer sentido, que não tornando-se oficialmente uma mulher casada.
– Uau! – as três letras finalmente se uniram e ele deu seu máximo para desenhar no rosto um sorriso custoso. – Eu… Uau. – repetiu, e um riso nervoso escapou de seus lábios enquanto apoiava sua cerveja no concreto, prevendo o risco de deixar suas mãos vacilarem.
– Você acha que eu sou louca por fazer isso, não acha? – suspirou, escondendo o rosto nas mãos enquanto um risinho estupidamente feliz escapava dos lábios dela, e pela primeira vez os olhos de captaram a imagem da aliança delicada em sua mão direita. – Mon Dieu, eu também acho, … Mas quer tanto isso, e eu… Ai, eu estou tão feliz que beira o ridículo! – o riso dela, apesar das circunstâncias, fez com que o sorriso de se tornasse um pouco mais verdadeiro, ainda que tão, tão repleto de tristeza.
A fim de evitar que ela o encarasse por tempo o suficiente para perceber as lágrimas que começavam a arder em seus olhos, a abraçou de lado, fazendo o possível para reagir conforme ela esperava. Deus era testemunha de como nunca imaginara ter um dia o amor de , e não podia dizer que o fato era uma surpresa. Ele só esperava que, quando acontecesse, não parecesse como mãos invisíveis o sufocando. Como ele sentia agora.
Nada poderia prepará-lo, contudo, para a dor de responder ao pedido murmurado por através de um sorriso: “você aceita ser meu padrinho, ?”

16 horas atrás

Era a terceira vez que se levantava da cama desde que se deitara, há pouco mais de uma hora.
Primeiro, fora o calor infernal daquele verão em Nice, que o obrigara a escancarar as enormes janelas da casa de campo em que se hospedava pelo fim de semana. Depois, um gato miando insistentemente debaixo de sua janela o fez espantá-lo aos sussurros. Agora, no entanto, ele não tinha uma desculpa para andar da cama para o banheiro, que não encarar a imagem completamente destruída do homem no espelho, inquieto demais para adormecer.
estaria casada em menos de vinte e quatro horas, e ele não conseguia passar um segundo sem revirar entre os lençóis, amaldiçoando cada uma das oportunidades perdidas em que pudera e quisera dizer a ela o que sentia, antes que fosse tarde demais.
E agora era tarde demais.
Deitando-se novamente, o rapaz escondeu o rosto nos antebraços, convencendo-se de que passado aquele evento, todos os dias que viessem seriam, inevitavelmente, melhores. Nada poderia ser pior do que ver escorrer por seus dedos, definitivamente, sem nem mesmo ter tido a alegria de tê-la. Um toque leve na porta fez com que se levantasse pela quarta vez, sem se dar ao trabalho de amaldiçoar , já que ele pelo menos mantinha sua mente ocupada ao bater àquela hora.
Assim que seus olhos encontraram a figura de pé do outro lado da porta, teve certeza de que finalmente caíra no sono. Caso contrário, isso significaria que estava de fato ali, dentro de um pijama ridiculamente descombinado e meias, mesmo no calor infernal, carregando uma garrafa de Grey Goose.
– Ai, graças a Deus você está acordado! – ela suspirou e, antes que pudesse processar aquela visita inesperada, já fechara a porta e se sentara na cama, encarando a escuridão do lado de fora.
– Hmm, você não devia estar dormindo? – coçou a nuca, e o gesto fez com que sorrisse de canto enquanto o observava se aproximar, desviando os olhos apenas quando percebeu que encarava seu tronco exposto por tempo demais.
– Eu acho que sim. – ela murmurou, brincando com o adesivo da garrafa, e o modo como suas bochechas estavam coradas e a voz um tom mais aguda que o normal era o suficiente para que soubesse que ela já bebera antes mesmo de ter companhia.
– E por que não está? – ele respirou fundo, sentando-se de frente para a mulher, encarando-a com curiosidade. O destino era mesmo um filho da puta por colocá-la ali, o torturando com uma crueldade sem precedentes.
– Eu não consigo dormir. – suspirou, abrindo a garrafa e virando um gole com uma careta. – Eles dizem que é comum isso, sabe? – ela riu, limpando os cantos dos lábios, enquanto estudava cada um de seus movimentos buscando encontrar algum sentido para aquele encontro. – Essa… insegurança. – a palavra fez o estômago de revirar, e ele se amaldiçoou por isso: o que estava pensando?
– Eu acho que deve ser normal… – respondeu, em um fio de voz, mas aceitou a garrafa que ele lhe estendia para enfim sentir o álcool se ocupando de sua garganta como as palavras não pareciam conseguir fazer. O que diabos ela fazia ali? Por que parecia tão estupidamente bonita? E o que diabos aquilo queria dizer? – É um grande passo.
– O maior, … – ela suspirou, encarando os lençóis, parecendo perdida em seus próprios pensamentos. – Te faz pensar se um passo na direção errada não pode estragar tudo. – os olhos de se demoraram nos seus por tempo suficiente para que se perguntasse se havia algo ali. Se aqueles olhos tão enormes e expressivos, que desde o primeiro instante o capturaram com tanta facilidade, naquele instante queriam lhe dizer algo.
Ou, no mínimo, se estavam se mostrando abertos a receber as verdades que ele guardara por tanto tempo. Sentia-se um filho da puta por sequer pensar em usar aquela pequena rachadura a seu favor, mas a verdade é que as pessoas subestimam o poder que existe no cenário da última chance. Quando se trata disso, do fim da linha, de não ter mais o que perder, ninguém pode garantir absolutamente nada.
– Parece a direção errada? – a voz dele soava pequenininha, sufocada pelo modo como seu coração se acelerava dentro do peito. Sua razão implorava para que deixasse aquilo de lado e não perguntasse sobre o que certamente só faria aquela dor filha da puta crescer ainda mais dentro do peito. Seus instintos, contudo, exigiam que agarrasse o que parecia uma última esperança. A última brincadeira do destino que o colocava diante de , testando sua coragem.
– Parece… – suspirou, encarando o teto a fim de encontrar as palavras que buscava, continuando apenas depois de tomar mais uma dose da bebida. – É como ser carregada pela maré, . Você acompanha o fluxo, e espera chegar em terra firme. – respondeu, cerrando os olhos numa tentativa de se centrar.
– Você nunca ‘seguiria a corrente’, … – negou com a cabeça, quase rindo do quão ridículo aquilo soava. – Isso não é você.
– Eu queria que você não soasse tão decepcionado. – riu pelo nariz, voltando a encará-lo.
Por Deus, como ela sentia falta de … Como sentia falta da que era ao lado dele
– Você quer se casar? – as palavras escaparam dos lábios de antes que ele tivesse chance de passá-las pelo seu crivo que, certamente, as teria vetado imediatamente. Estava feito, e o modo como os olhos de o encaravam em surpresa eram a prova de que ele havia feito a pergunta em voz alta.
– Eu vou me casar, . – foi a resposta dela, antes de voltar a levar a garrafa aos lábios, ganhando tempo para processar a pergunta. – Eu amo . – completou, e dessa vez não foi rápido o suficiente ao esconder a expressão magoada em seu rosto. – E sei o quanto o que eu ‘tô sentindo agora é ridículo, mas é completamente natural, e… – ela tentava encadear seu pensamento, mas o discurso parecia fraco até mesmo aos seus ouvidos.
… – a voz de era baixa, e ele nem mesmo percebeu que se aproximara minimamente da mulher na cama até ter as mãos dela entre as suas. – Se você não… – pausou por um momento, sentindo a boca seca diante das palavras que seus lábios urgiam desesperadamente por dizer. – Se não tem certeza, só…
– Não diz isso. – a mulher implorou, interrompendo-o. Ela simplesmente não podia ouvir àquilo naquele momento: qualquer incentivo a largar tudo parecia subitamente tentador demais, e ela só podia culpar a bebida pelo desejo absurdo que tinha de se agarrar às palavras dele. – Por favor, não diz isso…
– Não faz isso… – as palavras saíram de seus lábios, sussurradas e parecendo dançar entre eles até atingirem os ouvidos de , e ao ouvi-las sentiu que o desespero o guiava pelos instantes seguintes. – , por favor, não faz isso…
… – os olhos de esquadrinhavam seu rosto, tentando compreender aquele lado do melhor amigo com que ela nunca estivera frente a frente. No instante em que a verdade caiu sobre ela com o peso de toneladas, antes mesmo que ele precisasse dizê-la, pôde ver seu olhar se quebrar. – , não… murmurou, meneando a cabeça enquanto sentia os olhos marejados por ver que lágrimas silenciosas cortavam o rosto do rapaz, partindo com elas um pedaço de seu coração.
– Deus, eu te amo tanto… – ele cerrou os olhos, fazendo com que as lágrimas que guardou por tanto tempo subitamente parecessem pouco perto da libertação que sentia ao finalmente dizer aquelas palavras. – Tanto, … – continuou, sendo surpreendido pela forma como o choro da mulher se tornou um soluço, no instante em que a mulher tirava a mão das suas, cobrindo os lábios. – Não faz isso. – implorou, erguendo os olhos para ela e captando no olhar dela uma dor tão sincera que fez seu coração se encolher.
, isso não… – negava insistentemente com a cabeça. – Isso não é verdade… – murmurava para si mesma, e diante do silêncio dele, seus olhos foram do desespero ao choque pensando no quanto machucara uma das pessoas que mais amara, por todo aquele tempo. – Por que nunca me disse? – perguntou, num sussurro, sentindo que seu coração se afundava dentro do peito. – Por que agora, ? – ela se levantou da cama, abraçando o próprio corpo numa tentativa falha de se consolar. – Por que…
– Eu não sei. – respondeu com sinceridade, adiantando-se na direção dela. – , me desculpa… – murmurou, esfregando o rosto com as mãos, amaldiçoando-se por ter cedido a seus impulsos sem pensar no caos que aquilo poderia causar a ela, tendo que consolar o ‘melhor amigo rejeitado’ na véspera do casamento. – Eu não queria… –seus dedos finalmente alcançaram a pele quente de , trazendo-a para um abraço que buscava recolher os cacos de ambos, remendando-os.
A verdade é que por mais que o fizesse, ele sabia, tudo estaria fora do lugar, parecendo-se em nada com o que eram antes daquele momento.
O corpo de estremecia sob seu toque, ao ritmo do choro, e quando ela ergueu os olhos para gritar com ele por ter transformado sua mente em uma bagunça sem precedentes, toda a força de sua força foi drenada pela intensidade do olhar de sob o seu. Seus dedos se fecharam em punhos contra o peito dele, e a mulher cerrou os olhos quando colou os lábios no topo de sua cabeça, lágrimas grossas ainda cobrindo seus olhos.
Sem racionalizar qualquer uma de suas atitudes seguintes, subiu as mãos até a nuca dele, surpreendendo com o toque de seus dedos em seus cabelos no instante em que puxou o rosto dele até o seu, moldando seus lábios com a urgência que reconhecem aqueles que se encontram atrasados demais no amor. Pressa essa que foi deixada de lado no instante em que seus corpos encontraram seu próprio ritmo, descobrindo-se pela primeira e amando-se pela última vez.

11 horas atrás

– Puta que pariu. – a voz de seguida da porta do quarto se fechando apressadamente foi o que fez com que e fossem tragados de volta dos sonhos para a realidade, deparando-se com o amigo encarando-os no mais completo choque, enquanto corria os dedos pelos cabelos. – Mas que porra…?
ergueu as cobertas, ainda que não tivesse seu corpo exposto, e então as lembranças da noite anterior a atingiram com a intensidade de um furacão: os lábios de nos seus, as mãos dele em seu corpo, a forma como ela sentira o amor emanando dele para ele em ondas que a aqueciam, envolviam e arrebatavam.
E então, tão rápido quanto aquelas memórias vieram, a expressão no rosto de fez com que recordasse o verdadeiro sentido do que fizera: não era amor. Era traição.
… – se sentou no instante em que a mulher pulou da cama, vestindo as próprias roupas em um ritmo frenético que denotava seu desespero para fugir daquele pesadelo.
O que tinha feito? Aquilo não era apenas uma traição, era deslealdade a e a em iguais proporções, e aquele pensamento fez com que precisasse correr para o banheiro, sendo seguida por , que chegou a tempo de segurar seu rosto enquanto ela tentava vomitar ainda que seu estômago não tivesse o que expulsar. Não que ele fosse realmente de expurgar o que ela precisava, sua culpa.
, calma… – ele implorou, tirando os cabelos da mulher do rosto coberto de suor frio. – Vai ficar tudo bem.
, só… – ela deu dois passos para trás, e o modo como se afastou de seu toque fez o olhar do rapaz se quebrar. – Eu sinto tanto… Mon Dieu, , o que eu fiz? – implorou, cambaleando até a porta sem olhar para uma segunda vez, parando apenas quando a alcançou, segurando seu pulso num gesto de franco desespero que não chegava nem mesmo perto de traduzir a dor de ser arrancado do sonho que vivera na noite anterior apenas para vê-la partir.
… – ele murmurou, e as palavras lhe fugiram, parecendo sempre menos do que gostaria ou mais do que deveria dizer.
– Eu tenho que ir. – uma lágrima escapou dos olhos dela, enquanto se desvencilhava lentamente dos dedos dele, como se soubesse que aquela era a última vez.
Enquanto a assistia, sentindo o rasgo irremediável que se abrira em seu peito, teve certeza de que estivera errado em suas suposições devaneadas na noite anterior, e por isso deixou que seu punho fosse de encontro à parede, buscando uma dor física que superasse a que sentia: havia algo pior do que ver escapando por seus dedos sem que ela nunca tivesse sequer sido sua. E isto era vê-la ir depois de tê-la tão, tão sua.

Agora

A tranquilidade que tomou conta de cada célula do corpo de se assemelhava a um entorpecimento, exceto pelo fato de que ele nunca se sentira tão consciente em toda a vida. Se antes as palavras lhe escapavam, naquele momento ele soube exatamente o que dizer: as três palavras que sumarizavam toda aquela experiência de alegria e dor que fora uma vida ao lado de .
Tu me manques.
Assim que as palavras elas deixaram seus lábios, ele soube pelo olhar de que ela o compreendia, e quando ela cerrou os olhos, deixando uma lágrima solitária escorrer pelo rosto, soube que ela também se sentia exatamente como ele: sem parte de si.
Tu me manques, do francês: você falta em mim. Você é parte de mim. Como um órgão, ou sangue. Eu não posso viver sem você. Tu me manques.

FIM

 

NOTA DA AUTORA:
Eu acho que vocês não conseguem nem imaginar o meu arrependimento por ter pego essa música no ficstape na época, depois que comecei a história. Eu tô com o coração dolorido, e ainda não consigo acreditar que realmente não encontrei um viés pra dar um final feliz a esse casal que se tornou tão querido ao meu coração.
Quem me conhece sabe o quanto eu sou adepta das fofuras e do amorzinho, então esse drama foi um desafio e tanto pra mim, por isso espero de coração ter conseguido transmitir aqui todo o amor desse pp, a personalidade encantadora dessa garota, e a dorzinha desse amor não realizado.
Por favor, me contem aqui embaixo o que acharam! E muitíssimo obrigada por ficar comigo até o fim!
Beijinhos, Belle.