The Ballad of Barry Allen

  • Por: Ruby Lecter
  • Categoria: Flash | Séries
  • Palavras: 6752
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Sinopse: Eu tenho tempo para pensar sobre o meu passado enquanto eu desvio das balas. Como a minha vida era tão excitante antes de eu ficar assim… E quanto tempo faz? Agora eu nunca sei explicar pelo relógio que está na torre ou naquele que está no meu cérebro! E vou estar lá antes que você saiba. Eu estarei fora antes que você me veja. E eu adoraria poder te conhecer, mas você está falando devagar demais… E eu sei que você quer me agradecer, mas eu nunca fico por perto, porque o tempo continua se arrastando… E se arrastando, e se arrastando… (The Ballad Of Barry Allen – Jim’s Big Ego)
Gênero: Ficção
Classificação: 12
Restrição: Contém spoilers da terceira temporada
Beta: Rosie Dunne

 

Parte I – Melancolia

 

19 de março de 2027

 

Hoje é meu aniversário de 38 anos. Estou no laboratório com as mesmas pessoas de sempre: Cisco, Caitlin, Wells e . E, novamente, me fizeram uma festa surpresa. Que, de novo, foi interrompida por algum acontecimento maior que me forçou a correr para impedir que o mau ganhasse o dia. E cá estou eu novamente, assim, no mesmo parágrafo, de volta a minha festa surpresa, que eu já sabia que iria acontecer.

 

É assim que minha vida tem se passado: o que deveria estar escrito em um livro, está armazenado em uma única página; e, às vezes, em um mísero parágrafo. Cansei de contar, literalmente, as batidas de asa de beija-flores – apenas para o tempo passar mais rápido, nem que fosse um segundo sequer. Porque, para mim, segundos eram horas. Horas eram dias. Dias eram meses. Meses eram anos. Anos eram décadas. E essa última década com esses poderes, foi um verdadeiro século. Quantos séculos eu teria que viver?

 

Salvar pessoas passou de dever para obrigação. Eu não tinha mais escolha: todos contavam comigo, eu era o único dotado de poder extraordinário e consciência benigna naquela cidade. Os outros eram apenas suporte, que me auxiliavam naquilo que se tornou meu fardo. Eu vivia para aquilo e não tinha direito a férias nem mesmo reconhecimento dos queridos cidadãos, que agora, depois de tanto tempo de minha serventia à cidade, me viam como prestador de serviços integral.

 

Tudo se resumia em salvar uma mulher na ponte, ela dizer um “obrigado” por educação e Cisco dizer no ponto qual minha próxima parada. Nem ao menos ameaças reais eu combatia mais. Nada de organizações criminais, alienígenas, pensadores, cientistas enlouquecidos, vilões de outras dimensões… nada. Tudo se resumia em assaltos, tentativas de homicídio, roubo a bancos. Eu estava fazendo o trabalho que a polícia não queria fazer, por estar acomodada demais com minha eficiência – que eu estava profundamente arrependido de ter me deixado mostrar.
E não adiantava tentar reverter a situação com minha equipe, pois sempre que eu tentava tocar no assunto, eu era o errado. Eu estava distorcendo a realidade, vendo com um ponto de vista errôneo ou, pior ainda: “Barry, outro flashpoint?!” Então tudo que eu fazia era desempenhar o papel que eu tinha recebido: correr – salvar – correr de volta – esperar acontecer de novo.

 

Aliás, minha equipe, já não era essa há muito tempo. Já havia adotado outra há cerca de dois anos, quando a minha passou a não se comunicar comigo e apenas a fazer tudo a encargo de consciência: salvar a cidade de todo o mal que pudesse estar a ameaçando ou que viesse a ser uma possibilidade. Como um adolescente que estava furtando uma loja de roupas no mês passado. Eu havia virado uma piada e eles nem sequer se deram conta disso, porque, simplesmente, não conseguiam lidar com a ideia de que o mundo não é de todo bom, nem de todo mal. E tem de haver um equilíbrio nisso. O garoto furtou uma camisa porque era uma aposta entre os amigos e o Flash tinha que ir até ele para dar uma lição de moral? Não, eu apenas corri, peguei a camisa de sua mão, a coloquei de volta no cabide e corri de volta para o laboratório, onde ninguém sequer me olhou, meramente continuaram olhando para seus computadores, a procura de mais um malfeitor para o Flash impedir seus atos impiedosos.

 

Eu havia me tornado uma marionete, um boneco moldado sem sentimentos. Cisco construía roupas cada vez mais tecnológicas para seu Ken favorito, a Barbie tinha a casa perfeita, Wells fazia experimentos com seu ratinho de laboratório quando bem entendesse e até mesmo a Caitlin havia virado sua assistente fiel. Gostaria de lembrar a última vez que uma opinião minha foi válida nesta equipe. Pelo menos um salário eu recebia. Não era escravidão, mas era quase. Já que no meio da noite eu era acordado pela mulher que um dia já fui apaixonado, para salvar alguém.

 

Salvar já tinha sido minha palavra favorita, aliás, há muito tempo atrás, quando eu ainda me sentia uma pessoa sortuda por ter sido atingido por aquele raio que foi premeditado para me atingir. Hilário. Por anos me senti sortudo por ter sido parte do plano de alguém tão medíocre e malévolo e que me trouxe poderes que, outrora, experienciei de forma tão feliz e que, agora, vivencio de maneira tão amargurada. Já salvei tantas pessoas, tantas cidades, tantos países, tantos mundos e dimensões… mas eu nunca tentei me salvar. Salvar de quê afinal?

 

O que me levou a ficar assim? A demora da fazer o café da manhã todo santo dia? Enquanto eu a observo, mexer os ovos em câmera lenta, enquanto minha barriga implora por comida e eu lembro que ela está no tempo normal e eu que estou acelerado? Ou quando transamos e eu gozo cinco vezes esperando ela gozar uma? Ou quando quero fazer mais vezes, no meu maldito tempo, e ela quer fazer no tempo dela que é em câmera lenta? Não, espera, é no tempo normal. Ou será que foi quando todos começaram a dizer que eu sempre estava errado quando dizia que a polícia poderia fazer o que eu estava fazendo, que não haveria problemas em tirar férias? Ah, claro, não poderia faltar, quando eles falam quase todos os dias que eu deveria agradecer pelos incríveis poderes que eu tive a sorte de receber?

 

E olhar eles aqui, fazendo essa festa de aniversário surpresa conseguia me deixar extremamente triste e puto ao mesmo tempo, por saber que era algo forçado e já era a quarta seguida. Porquê eles faziam isso? Pra minha felicidade que não era. Pois tudo que eu fazia era dizer “obrigado” por imposição daqueles olhares julgadores; e seguíamos comendo um pedaço de bolo enquanto eles falavam sobre qualquer coisa que não me interessava e não percebiam que eu não abria a boca.

 

– Barry, quer mais? – me perguntou, olhando e apontando para o bolo.

 

– De infelicidade? – respondi em tom de pergunta, sem nenhuma expressão no rosto.

 

– O que disse? – finalmente tirou os olhos do maldito bolo e me olhou, parecendo perplexa. Consegui exprimir uma reação da Barbie, quem diria.

 

– Me faz um favor, quando tiver um delito horrível, como um assalto, chama o seu pai pra resolver. Afinal, essa é a porra do trabalho dele. – sorri falso, tirei a roupa do meu personagem Flash e coloquei minha própria. Todos na sala ficaram me olhando boquiabertos e com olhos esbugalhados. O pau mandando Barry Allen tinha enlouquecido?

 

– Barry, Barry! – Cisco correu até meu lado. – O que nós fizemos ontem à noite?

 

– Alguma coisa com você me mandando fazer algo que eu com certeza não estava com a mínima vontade de executar. Não é assim que você gosta de chamar? Executar seus planos? – ri, debochado. – E não, Cisco, não sou do futuro nem do passado. Sou eu do presente. – respirei fundo e torci a boca.

 

– Barry… – Caitlin chamou, com sua voz que perdera a doçura há muito tempo atrás. Hoje só carregava cansaço e superioridade. – Por quê está nos tratando assim?! Com que direito?

 

Respirei fundo, para não responder com uma enxurrada de agressividade e olhei uma última vez para meu bolo partido. Queria que ele significasse algo bom, verdadeiramente alegre e festivo, mas hoje ele representava o marco da minha transgressão. E quando olhei de volta para Caitlin, depois para , para Wells e, por último Cisco, cada um tinha no olhar algo que continha um misto de desprezo, preocupação e raiva. Porém não me abalei com isso: já era algo que vinha me habituando, com pequenas doses diárias.

 

Saí em disparada, sem olhar para trás para saber a reação de cada um naquela sala que de repente havia ficado tão pequena para nós cinco. Tudo que eu mais queria fazer era ficar o mais longe possível daqueles que se diziam meus amigos e minha esposa. Correr até tudo ficar tão lento e simplesmente parar.

 

Mas nada parou. O que vi no segundo depois foi eu mesmo correndo ao meu lado – correndo em direção ao meu apartamento. Ele olhou para mim, em primeiro momento assustado, mas depois riu, e parou a alguns metros. Parei ao seu lado e ele acenou com a cabeça para mim, em cumprimento. Apenas o observei. Pelo visto esse era um Barry do passado. Ainda divertido, com uma expressão leve e com uma roupa pouco tecnológica.

 

– Então esse é meu cabelo do futuro, ein? – levantou as sobrancelhas, enquanto ainda continuava com o sorriso idiota.

 

– Então esse era o eu idiota do passado, ein? – retruquei, sem muita expressão.

 

– O que deu em você, cara? – me olhou com uma careta, querendo rir.

 

– Não fique muito feliz, Barry. Sua mulher não te ama mais e o team Flash é só team. Você é bem excluído.

 

– Ok, você veio aqui avisar? – pareceu curioso. – Valeu, vou dar um jeito disso não acontecer.

 

– Acredite, nós tentamos. Eu e você. – neguei com a cabeça, cansado. – E eu vim parar aqui por acaso. Nem sei em que ano estamos.

 

– 2019. Um ano bem feliz, pra ser sincero. – como se eu fosse me lembrar. Um ano feliz era o que eu tinha passado com meus pais, antes da minha mãe morrer.

 

– Ta. Agora deixa eu voltar pro meu aniversário infeliz de 2028. – me preparei para correr de volta, mas senti ele segurar meu braço. Feliz e impertinente.

 

– Calma, cara. Por quê não fica e lembra como eram as coisas antes disso tudo acontecer? – sugeriu.

 

De fato eu não lembrava de como a era há nove anos atrás. Nem como era a dinâmica do team Flash. E se eu pudesse concertar tudo? Mas iria alterar a linha do tempo, e criar um flashpoint não era uma opção… Além do mais, a questão da minha equipe ou de era uma peça no quebra-cabeças que era o meu problema. Ia muito mais além… A questão central eram as merdas dos meus poderes.

 

– Foi mal, Barry, mas agora já é tarde. Vou voltar pra lá e continuar com a vida de merda que to levando… – e, novamente, antes que eu pudesse atingir a velocidade necessária para atravessar o tempo, ele me alcançou e me impediu.

 

– Espera, espera! – ficou na minha frente, com as mãos sobre meu peito. – Porquê tá tão infeliz? O que aconteceu de tão trágico assim pra eu estar desse jeito?!

 

– A vida. Minha vida. – disse simples.

 

– Minha vida? Como minha vida pôde resultar nisso? Em um amontoado de melancolia e desgosto? – franziu a testa e as sobrancelhas, claramente não fazendo ideia do que poderia vim a acontecer, já que hoje sua vida ainda era um mar de raios laranjas que jurava serem incríveis.

 

– Eu não vou sentar e bater um papo com você. – respirei fundo, impaciente.

 

– Só me diz o que aconteceu. Eu tenho o direito de saber! Ou você quer simplesmente chegar aqui, jogar na minha cara que eu vou ser um cara de meia idade infeliz no trabalho, no casamento e comigo mesmo, e vai ficar por isso?

 

– Ok, se você quer tanto saber o real motivo, eu vou te dizer, Flash.

 

Parte II – Pulsão

 

24 de dezembro de 2019

 

Enquanto corríamos para o meu apartamento, vi pisca-piscas enfeitando terraços e plantas, árvores de natal dentro das salas de estar e famílias chegando nas casas com comidas em mãos e desejando um Feliz Natal. Meu outro eu não parecia estar muito preocupado com esta data, já que não mencionou sequer uma vez uma possível desistência.
Quando entramos no apartamento, a sala estava decorada apenas com uma árvore de natal com algumas bolas vermelhas e azuis e um pisca-pisca branco. Lembro que usamos essa mesma decoração durante anos. Só não me recordo porquê. Talvez não desse tempo de comprar novos enfeites de Natal com tanto criminoso por aí.
Ao olhar em volta, reparo também que as fotos do nosso casamento ainda estavam espalhadas pelos cômodos da casa, inclusive o corredor. Fotos de Joe, do Team Flash, dos meus pais, e até de mim como Flash. Eram tantas, mais de 40 fotos espalhadas pela casa em molduras alegres… E, entrando no meu quarto, me deparo com uma foto que a cerca de nove anos não vejo: Eu e , na varanda do apartamento, no dia em que nos mudamos. Nesse dia eu sei que estava feliz e sinto falta de ter essa sensação tomando conta de mim novamente…

 

– Essas fotos te trazem muitas lembranças? – comentou, logo atrás de mim, me tirando dos pensamentos, enquanto eu segurava minha foto e de .

 

– Lembranças… são poucas as que tenho antes de tudo se tornar um grande painel cinza, do qual eu não consigo acrescentar cores ou rasgar para descobrir se há algo fora dele. Minha memória se foca em vestir tudo que é ruim e pesado, e eu tomo como um fardo minha própria existência. – eu não mais olhava a foto, mas através dela, mergulhado num mar de recordações desagradáveis.

 

– Quer me contar o que houve? – senti certa impaciência em seu tom de voz. – Vamos lá pra sala. – e em seguida, sem esperar minha resposta, se dirigiu com pressa para a sala de estar. O segui, sem muito ânimo ou escolha.
– Você não tinha que estar na casa do Joe? – revirei rapidamente os olhos. Minha própria casa e sempre tive que passar datas comemorativas lá, por causa da .

 

– Nunca vi problema nisso. – arqueou uma sobrancelha.

 

– Você tem sua própria casa. Qual o problema de passar um Natal, pelo menos, aqui? Não é menos digno.
– Ninguém nunca disse que não era. – continuou com ar de desconfiado.

 

– Não com essas palavras. Mas ela vai te dizer que “não é a mesma coisa”, “a casa do meu pai é o melhor lugar” “nossa casa ainda não é nada sem filhos”.

 

– Não é nada sem filhos?! – se alterou. – Ela quem não quer ter filhos agora.

 

– Ela não te ama mais, Barry. Talvez seja por isso que a gente nunca teve filhos…

 

– Eu não… – perdeu a voz. – Eu não tive filhos?

 

– Não. Como se tem filhos sem transar? – ri debochado.

 

– O que eu fiz?! – passou a mãos pelos cabelos, beirando o desespero.

 

– Pois é, deixei de me fazer essa pergunta. Eu não sou o culpado de tudo nessa vida, Barry.

 

– Eu não pedi pra um raio me atingir, eu não pedi pra tudo que aconteceu comigo ter sido planejado por outra pessoa. Eu nunca tive o controle da minha vida, até quando achei que finalmente estava tendo! – o olhei nos olhos. – Ou você acha que tem livre arbítrio no Team Flash? Experimenta dizer “hoje não”, “estou cansado”, “preciso de férias”, “isso é trabalho da polícia”. Tudo virou sua obrigação, tudo. Não reparou ainda que a cidade te vê como um prestador de serviços 24h? Você não dorme, não tem vida social, não escolhe, não é prioridade nem da . Você é propriedade.

– Não, não, não, não… Não! – gritou, por último, levantando-se. – Você enlouqueceu? Está vendo tudo distorcido, é isso…

– Não, Barry… você que está. Eu não aguento mais receber ordens! De ninguém! – gritei, também me levantando. – Não aguento mais ter que fazer o trabalho de todos, enquanto ninguém dá a mínima pro idiota aqui! Ter que aguentar viver em câmera lenta 98% do meu dia porque ninguém tem a porra da minha velocidade? Me diz, Barry, você gosta disso?!

– Não, mas…

– Mas o quê?! Quantas vezes você não correu e correu e correu, só pra ver se o tempo passava nem que fosse um segundo mais rápido? É deplorável como eu tento viver conforme as outras pessoas e tudo que eu consigo é me decompor mais.

– Quer saber? – em milésimos, estava na porta de entrada. – Volte pro futuro, por favor. – me olhou cansado.
– Eu vou. Já não tenho nada pra fazer aqui. Você ainda é irredutível. – antes que eu pudesse sair, para atingir a velocidade ideal para voltar para o futuro, ele segura meu braço.

– Só um conselho: antes de você fazer qualquer coisa, volte e veja quem era a verdadeira , o verdadeiro Joe, Cisco, Wells, Caitlin… eles não são esses vilões que você acha que são.

Ele respirou fundo e me soltou. Corri e em poucos segundos um portal havia se formado, me permitindo voltar para o ano de 2027. Parei na porta de entrada do STAR Lab e percebi correndo para me alcançar. Olhei no monitor de segurança próximo a um dos elevadores e a data e hora marcavam 19 de março de 2017, 19:32:27. Haviam se passado exatos três segundos desde que eu havia voltado para 2019.

 

Parte III – Paradoxo

 

19 de março de 2027

 

– Barry! – ela gritou antes de me alcançar e segurar meu braço. Apenas a olhei de lado, surpreso por ter voltado exatamente para cá.

Eu estava pensando em alguns momentos antes, quando estavam cantando parabéns para mim e eu tive que sair para salvar alguma pessoa aleatória. Eu só não queria ter que encarar eles por mais algum tempo.

– O que foi aquilo, Bar? – uau, fazia muitos anos que ela não me chamava assim. Eu que pergunto agora: o que foi isso, ? – O que houve?

– Bar? Sabe há quanto tempo você não me chama assim? 9 anos. Nove anos, . Por que me chamar assim agora? – respirei pesado, impaciente.

– Porque estou preocupada. Você nunca falou desse jeito com a gente. – tocou meu rosto com a ponta dos dedos. – Eu sei que não somos mais aquele casal que costumávamos ser no início do casamento… – seus olhos marejaram. – Mas eu não sei onde foi que eu errei. Você se distanciou de mim há tanto tempo, que… depois de tantas tentativas eu acabei desistindo de me reaproximar de você, Barry. E tudo que restou foi nosso trabalho.

Vê-la daquela forma, com lágrimas escorrendo nas bochechas e pingando em sua blusa me deixavam, querendo ou não, com o coração apertado. Culpa dela, da equipe ou minha, agora não importava mais. Eu só sabia que era muito para se viver com. E o que eu faria agora? Pedir perdão não adiantaria. Não eram nove semanas de brigas, ressentimentos e mágoas. Eram nove anos. Nove anos que eu havia pego desgosto pela vida, pelas pessoas e por mim. E tudo acumulou e culminou a um ponto que ver a chorar dessa forma e dizer que tentou se reaproximar, quando eu nunca percebi, só me faz me odiar ainda mais.

– Eu não sei o que aconteceu com você ou com a gente, Bar, mas depois daquele natal de 2019 nada foi o mesmo… – ela chamou o elevador, cabisbaixa e eu não consegui dizer nada. Meu olhar estava fixado no vazio, na lembrança do que eu acabara de fazer.

Então o culpado de tudo isso, havia sido eu mesmo? Eu tinha plantado a semente da amargura que não parava de enraizar dentro de mim? Mas como eu havia chegado a estes pensamentos, a esta conclusão de que a minha vida não vale a pena? Eu deveria ter começado a refletir sobre isso antes de 2019 ou… antes de hoje! Eu não sei! Quando? Quando? Quando?

Se eu voltar no tempo e reiniciar a linha temporal, eu vou ter consciência de que o fiz e lembrarei de tudo. Tudo estará diferente, mas para melhor ou pior? Eu não posso arriscar, porque não estarei mexendo apenas com minha vida! Aaah!!! O que eu faço?! Simplesmente continuo aqui, desisto de ser o Flash e vejo o caos se instalar? E de bônus todos que estavam comigo todos esses anos virarem as costas e me abandonarem?

– Barry, precisa de alguma coisa? – ouvi a voz de Cisco no alto falante próximo ao elevador. Provavelmente estranhou o tempo que fiquei parado encarando o nada depois que foi embora. Mas agora eu já sabia o que fazer e do que precisava.

Estava na hora de fazer algo que há muito tempo eu vinha planejando, só não havia encontrado coragem suficiente ainda para executar.

 

24 de dezembro de 2019

 

Voltei para o momento em que meu eu de 2019 estava me colocando para fora de seu apartamento. Ele me olhou com um misto de raiva e compreensão e deu passagem para que eu adentrasse a sala novamente.
– Eu preciso de um favor. – sentei no sofá.

– Você não está numa posição muito favorável no momento… – negou com cabeça, me olhando da porta.

– Antes de eu ir embora você disse que antes de qualquer coisa que eu fosse fazer, eu voltasse e visse quem era a verdadeira , Caitlin, Cisco, Joe e Wells… e aqui estou eu. – tentei forçar um sorriso verdadeiro.

– E por que você veio justamente pra hoje? – arqueou a sobrancelha.

– Porque eu quero criar uma lembrança boa depois de tudo que houve hoje. E natal é sempre bom. – sorri, dessa vez sincero.

– Ok. Mas com esse cabelo aí, creio que vai ser complicado. – e, num piscar de olhos, como sempre, ele estava na minha frente com uma tesoura e um pente. Respirei fundo, me preparando psicologicamente para ter novamente aquele corte de cabelo medonho.

Quando ele terminou eu estava praticamente igual a ele. Genética boa de células que demoram a envelhecer também – ótimo. Eu conseguiria me passar pelo Barry de 2019 de maneira com que ninguém percebesse o erro na matrix.

– Você vai ficar me devendo essa. – sentou-se no sofá e ligou a televisão, me olhando de lado.

– Vou pagar bem. – acenei com a cabeça e corri até a casa de Joe.

 

Quem abriu a porta para mim foi Caitlin. Ela carregava o olhar meigo e inocente que há tanto eu não via. Sorriu e me abraçou forte, como sempre fazia ao me ver em qualquer ocasião. Retribuí seu abraço o mais forte que pude, tentando não a machucar. Beijei sua bochecha e fiquei lhe encarando por alguns segundos, lembrando daquele olhar doce e carinhoso ao qual eu recorria quando não sabia o que fazer ou dizer. Então eram assim que eles eram há nove anos atrás…

Depois Cisco veio, todo animado, me trazendo uma xícara de café gelado que disse que havia preparado. Me deu um abraço de lado, que deveria ser breve, mas coloquei a xícara em cima da primeira coisa que achei e lhe abracei apertado também. Ele murmurou alguma coisa que não dei atenção e continuei a abraçá-lo por mais um tempo, até que o soltei, o encarando sorrindo. Ele tinha um semblante divertido e um sorriso abobalhado que não dividia comigo também há muito tempo. Como eu sentia falta dessa nossa cumplicidade!

Wells se colocou no meio de nós dois e me abraçou, dizendo que também merecia um abraço caloroso como aquele. E de fato merecia. Ele me apertou tanto que, por um breve momento, pensei que soubesse quem de fato eu era. Mas seu sorriso brincalhão entregou seu ciúme para com Cisco. Então só aproveitei o momento e o abracei novamente, curtindo sua parte extrovertida.

Na cozinha estava Joe, preparando um macarrão. Segurei minha vontade súbita de chorar. Há alguns meses eu não o via devido a uma briga. E o ver dessa forma, preparando o jantar, confraternizando com os amigos e a minha espera… eu não sabia que poderia ser tão bom sentir isso novamente.

Caminhei em passos lentos até ele. Assim que me viu, exclamou meu nome e tirou as luvas de forno para me abraçar. Novamente segurei as lágrimas. Ele não iria entender o por quê delas. Apenas fiquei no conforto e segurança de seus braços pelo tempo que consegui, o ouvindo dizer que o macarrão estava uma delícia e que eu iria adorar.
Seguimos para a sala e ficamos no sofá conversando e bebendo café gelado e whisky por alguns minutos. Eu queria perguntar onde estava, mas se o outro Barry já soubesse poderia levantar suspeitas. Então apenas esperei ansiosamente.

Esta espera não durou muito, cerca de cinco minutos depois, desce as escadas, com um dos suéteres que eu havia lhe dado dentre tantos natais juntos. Meu coração acelerou – ela estava linda! Todas as lembranças de nós dois juntos, felizes, vieram à tona. Nosso casamento, nossos planos, nossa infância. Como eu havia conseguido estragar tudo isso? E a todo momento eu me questionava: quando?

Ela estava perto de mim e eu levantei para abraçá-la. Ela me beijou e eu não consegui não parar o tempo naquele momento. Eu precisava de mais . Eu precisava de mais nós dois. O cheiro dela era maravilhoso, o cabelo macio, a pele lisa… ela irradiava perfeição. Não havia nada que eu pudesse dizer o contrário.
O problema estava puramente em mim. E eu transformei eles no problema.

Voltei ao tempo normal e ela separou seus lábios dos meus, me olhando fixo nos olhos. Me perguntou o que havia acontecido por entre os dentes, para que ninguém percebesse ou ouvisse eu apenas neguei com a cabeça. Em seguida, sentamos no sofá e voltamos para o assunto onde havíamos parado antes dela chegar.

A noite seguiu bem, aproveitei cada milésimo da presença deles. Não me perguntava mais tanto quando. Apenas curti a única noite que me foi proporcionada para ficar junto daqueles que eu um dia amei e que um dia me amaram.
Antes de voltar para casa, no ano de 2027, dei uma última olhada para o Team Flash. Como eu pude ter os substituído por beija-flores? Havia uma licença poética, mas ainda assim, patética. Eu acha que eles pudessem me acompanhar com seu bater de asas. Mas agora, com a mente mais sã do que nunca, posso ver que eu estava apenas me sentido só, abandonado.

 

19 de março de 2027, 19:45:26

 

Deixei minha família para trás e voltei para o ano de 2027. Corri para meu apartamento, onde não estava. Provavelmente estava na casa de Joe, para onde sempre ia quando brigávamos. Tomei um banho gelado e comi algumas coisas que encontrei na geladeira.

Estava na hora de fazer algo para o bem maior.

Por isso mesmo, eu não estava tão nervoso. Haviam picos de ansiedade, onde meu coração acelerava, mas eu sabia que não deveria estar sentindo aquilo, pois eu não estava fazendo isso por mim apenas. Estava fazendo, principalmente, por aqueles que amo. Eles merecem uma vida melhor. Uma vida sem caos.

Peguei um papel e uma caneta e puxei uma cadeira para me sentar à mesa. Respirei fundo antes de começar a escrever o que tinha a dizer ao Team Flash.

 

19 de março de 2027, 21:35:48

 

Entrei no Star Lab e só estavam lá Cisco e Wells. Pedi para que chamassem Caitlin, Joe e , pois precisava falar algo importante. Eles hesitaram por alguns minutos, por pura implicância, mas os chamaram. Todos chegaram cerca de dez minutos depois, com caras impacientes, exceto .

Antes de começar a falar, respirei fundo três vezes, afim de que a coragem voltasse. Ver aqui desmanchava minha autoconfiança. Mas, ainda assim, segui com tudo que havia planejado.

Tirei do bolso a carta que havia escrito e coloquei à minha frente, para começar a ler em voz alta. Antes que eu começasse a ler, pude reparar na mudança de feição de cada um deles: de impaciência para surpresa. E de , para preocupação.

– Peço que me escutem. Eu estive errado sobre vocês por muitos anos. Mas eu não estive errado sobre mim. Me perdoem por ter agido como agi com vocês durante todos esses nove anos. Há uma explicação para isso. Mas infelizmente eu não vou poder me defender. A culpa disso tudo é minha e somente minha. Vocês são a melhor equipe que alguém poderia ter. Fizeram parte de muitos momentos felizes e eu devo muito a vocês. Mas também fui eu quem trouxe desgraça e caos a vida de cada um que está presente aqui hoje. E também foi por minha causa que muita gente está morta. E esta carta é uma pequena explicação que consegui dar sobre como eu me sinto.
Estavam todos cabisbaixos. Eu não sabia dizer se estavam concordando ou só sendo educados em me ouvir porque eu havia pedido. Mas eu não conseguia mais controlar as lágrimas. Eu tinha feito de tudo para segurá-las no começo da minha fala, mas a cada palavra, a cada constatação do meu destino marcado por tragédias, era mais difícil de contê-las. E, ao vê-los em silêncio, esperando que eu lesse a carta, mesmo depois de ter dito coisas horríveis sobre mim mesmo, só assinava meu termo de culpa.

Novamente respirei fundo, tentando segurar, pelo menos um pouco, o choro que já afetava minha voz, para seguir e ler a carta que havia escrito com tanto pesar.

Eu tenho tempo para pensar na beleza de umas milhares variações das batidas de uma asa de um beija-flor suspenso no pequeno mundo movendo mais lento que melado. Enquanto estou indo pegar a garota que está caindo da ponte… E estou lá antes que ela perceba.
Eu vou ter ido embora antes que ela me veja.
Coloco minha mão envolta da cintura dela e a puxo de volta em segurança. Até o momento que ela perceber o que está acontecendo, haverá mais alguém que precisa de mim. Porque o tempo continua se arrastando
E se arrastando, e se arrastando, e se arrastando…
Eu tenho tempo para pensar sobre o meu passado enquanto eu desvio das balas.
Como a minha vida era tão excitante antes de eu ficar assim!
E há quanto tempo faz? Agora eu nunca sei explicar pelo relógio que está na torre ou por aquele que está no meu cérebro!
E vou estar lá antes que você saiba. Eu estarei fora antes que você me veja…
E eu adoraria poder te conhecer. Mas você está falando devagar demais… E eu sei que você quer me agradecer, mas eu nunca fico por perto.
Porque o tempo continua se arrastando
E se arrastando, e se arrastando…
E você diz que o tempo passa correndo, mas para mim parece tão lento! E você vê um borrão voando envolta de você. Mas leva tempo demais; parece tão lento para mim.
Eu queria nunca ter entrado no meu laboratório para fazer um experimento aquela noite antes do raio brilhar em minha volta e o tempo mudar a velocidade…
Agora eu tenho que tentar ser tão paciente até a calamidade atacar.
Porque quando as coisas mudam num instante, é quase rápido o suficiente para mim…
Você acha que você pode imaginar alguma coisa mais solitária?
Porque o tempo continua se arrastando.
E se arrastando, e se arrastando…
E você diz que o tempo passa correndo, mas parece tão lento para mim.
E eu quero estar envolta quando você rir ou chorar, mas leva tempo demais…
Parece tão lento…
O tempo continua se arrastando…

 

Quando olhei para cima novamente, todos estavam chorando. me olhava com os olhos inchados, sem dizer nada. Até Cisco, o rei das piadas, estava chorando e consolando Caitlin. Joe estava apoiado na bancada, com a cabeça baixa, tentando não mostrar que estava em prantos.

– O que você quer dizer com isso, Bar? – se aproximou, aos soluços.

– Que eu vou livrar vocês dessa vida, meu amor. – lhe beijei, afagando seus cabelos.

– Barry… – Cisco toca em meu ombro. Ele de repente fica estático. Provavelmente está tendo uma visão. E, de repente, volta a me olhar com os olhos esbugalhados. – Barry! O que você…

– O que você viu, Cisco?! – grita desesperada.

– Eu… me vi trabalhando em outro laboratório, Caitlin trabalhando com a mãe dela… com um filho… de outro homem! E onde está você, Barry?! – ele me chacoalhou, parecendo indignado.

– Vocês estão livres. – sorri, tentando os acalmar e me acalmar. estava imóvel, me olhando fixamente, sem muita expressão e aquilo doía…

Olhei para cada um deles uma última vez. Infelizmente com expressões tristes, mas era para o próprio bem deles. Fechei os olhos e imaginei o dia e o local que meu pai costumava me falar que conheceu minha mãe – sempre que passávamos por lá ele fazia questão de contar a mesma história. Me preparei para correr e abrir o portal e antes de ir para o passado, ouço gritar meu nome num timbre de desespero, o qual eu nunca ouvira antes.
Tarde demais. Eu já havia chegado ao meu destino final.

 

15 de abril de 1980

 

Lá estava ele. Tão sereno.

Ele estava esperando o ônibus na mesma parada no mesmo horário de sempre. E ela estava no ônibus que havia pego por engano: o qual meu pai iria pegar. A história original deveria ser de que os dois iriam se conhecer dentro do ônibus, com meu pai a ajudando a chegar no restaurante que ela desejava. Mas nesta linha do tempo isto não vai acontecer. E espero que em todas as linhas do tempo isto não aconteça.

É preciso que eu não nasça para que milhares de vidas sejam poupadas e centenas sejam menos infelizes. Há tantos problemas no mundo, eu não preciso ser mais um.

E assim, com um aperto enorme no coração, eu sento ao lado do meu pai e inicio uma conversa. Ele acha que sou um total estranho; eu acho um presente poder conversar com ele novamente.

– Qual ônibus você está esperando? – início a conversa, com um misto de felicidade e tristeza.

– Para o centro da cidade. – responde simpático.

– Você tem filhos?

– Não, por que? – ele me olhou com a testa franzida, segurando um riso.

– Nada. Só acho que seu filho teria orgulho de ter um pai como você. – sorri.

– E por que acha isso? – virou-se para mim, curioso.

– Meu pai se parecia muito com o senhor. E ele foi o melhor pai de todas as terras. – ri ao lembrar de todos os Henrys que eu havia conhecido. – E seja lá qual filho você tenha e com quem, ele vai ter muita sorte.

– Você é estranho, rapaz. – ele semicerrou os olhos. – Mas obrigado.

– E seu destino também será muito melhor. Pode ter certeza. – era um alívio saber que ele não seria preso e morto por minha causa. Ele teria uma vida feliz.

Ele sorriu, parecendo não saber se era o certo ao se fazer, mas ainda assim continuou sorrindo para mim. Vi seu ônibus se aproximar e o abracei. Ele me retribuiu sem jeito no início, mas ao notar que me demorei muito, tentou se desvencilhar. Só o soltei quando o ônibus passou direto do ponto.

Ele olhou para mim sem entender o que havia acabado de acontecer e eu apenas sorria para ele. Mas em questão de segundos meu sorriso foi sendo tomado por lágrimas.

Levantei e me despedi. Segui caminhando sem rumo até ver algo como um portal surgir em minha frente. Era cinza e vinha em minha direção sem pressa. Então este era meu fim. Meu fim e o começo de todos os outros que estiveram em minha vida.

Eu iria morrer com boas lembranças daqueles que amei. Iria morrer com a consciência de que fiz isso pelo bem daqueles que não mereciam uma vida miserável ao meu lado. Com a consciência de que eu também não precisava e nem merecia viver desta forma, que eu tinha o direito de escolha. Mesmo que, no final, doesse tanto escolher.
Mas eu preciso partir sozinho.

 

FIM?

 

Nota: Escrevi essa história em abril de 2018, quando eu vivia e respirava Barry Allen hahaha. Eu acredito que a história tenha alguns furos, por isso peço que me avisem para que eu possa consertar ou que possamos discutir nos comentários! Como o título da última parte sugere, essa história é para ser um paradoxo. Se você conhece a história de Flash, sabe das possibilidades de múltiplos universos e como ele pode influenciar nele mesmo de acordo com que vai e volta no tempo. Enfim, não vou falar muito, porque a história foi criada para pensarmos sobre as possibilidades. Ficaria feliz se vocês dissessem nos comentários suas teorias 😊 Beijos e obrigada por ler!