My Salvation

Sinopse: Senti o aperto em meu pescoço aumentando ofeguei, segurei e tentei arranhar o braço que me segurava me dando conta que era um braço mecânico.
Com a pouca luminosidade mal conseguia enxergar o meu agressor misterioso foquei no braço mecânico e vi uma estrela vermelha pintada. Uma única pergunta veio na minha cabeça antes de começar a perder a consciência, como raios eu tinha terminado em um galpão abandonado com o Soldado Invernal?
Gênero: Romance, Drama
Classificação: 12
Restrição: Nenhuma
Betas: Alex Russo
Status: Shortfic

 

Parte 1.

 

“As noites mais escuras produzem as estrelas mais brilhantes.”

 

Antes.

Senti minha cabeça latejar e o sangue misturado com bile subir minha garganta.
— Podíamos ter ido pelo meio fácil… – o cretino que me interrogava voltou a falar ao se afastar e pegar um lenço para limpar o sangue das mãos. – mas você não me deu outra opção.
Me limitei a encará-lo e respirar fundo, ignorando a dor que sentia. Olhei ao redor registrando cada centímetro daquele quarto, desde as janelas fechadas com tábuas, o gancho pendurado balançando devagar, a corrente jogada no chão, até a cadeira quebrada próxima a porta, qualquer coisa que me ajudasse a sair dessa.
— Detesto estragar um rosto bonito… – ele voltou a falar fazendo sinal para o idiota na porta que se aproximou e começou a desamarrar as cordas que me prendiam. – Mas você não é muito falante, então acho melhor termos uma conversa mais severa.
Respirei fundo, esperando a primeira oportunidade de escapar. Assim que as cordas foram soltas senti meu braço ser puxado com violência e levantei, fingindo tropeçar.
— Nada de fazer cena. – o idiota que me segurava disse, apertando meu braço. Dei dois passos e o empurrei, me abaixando e pegando a corrente.
— Nem pense nisso!
Segurei a corrente o mais firme possível, tentando manter os dois na minha linha de visão, respirei fundo sentindo a adrenalina em meu sangue aumentar antes que eles pudessem avançar e girei a corrente, acertando um deles no rosto por pura sorte, sorte essa que não durou muito enquanto um recuava o outro avançou tentando me acertar. Fiz o melhor que pude para desviar e, por puro reflexo, consegui acertá-lo. Desviei novamente, soltando a corrente e então lhe dei uma rasteira, jogando-o no chão.
Levantei, pegando a cadeira onde estava amarrada e a quebrando em cima dele. Senti o outro muito próximo, mal consegui me defender dos dois primeiros golpes, mas consegui desviar de fato no terceiro, torci seu braço e o segurei nas costas em um ângulo perigoso, até ouvir um estalo e um grito de dor.
O empurrei para longe e consegui desviar por pouco do outro cara, que já tinha se recuperado. Quase lhe acerte um jab, mas consegui acertá-lo com um chute no estômago, que o afastou o suficiente de mim para que eu corresse para a porta. Abaixei atrapalhada e peguei uma das pernas da cadeira então sai o mais rápido possível da sala e corri. Ouvi os dois xingando e abri a porta com violência, corri para a rua que, para meu desespero, estava deserta.
— Droga!
Continuei correndo, olhei para trás uma única vez para constatar que os cretinos continuavam me seguindo. Tentei acelerar, mas a adrenalina estava diminuindo.
Virei em uma esquina cheia de galpões e depósitos e respirei fundo, tentando recuperar o fôlego. Ao ouvir os dois virando a esquina xinguei razoavelmente alto e empurrei a porta o máximo que pude, fazendo mais barulho do que gostaria, entrei e corri no escuro, tentando desviar da melhor maneira das caixas e máquinas. Me abaixei atrás de algumas caixas empilhadas, deixei o pedaço da cadeira ao meu lado, tentando recuperar o fôlego e me acostumar ao escuro enquanto tentava também ouvir se eles tinham me seguido galpão adentro.
A única coisa que eu conseguia ouvir era meu coração batendo acelerado. Fechei os olhos tentando me acalmar o suficiente para pensar em uma estratégia.
— Ela entrou aqui, tenho certeza… – ouvi um sussurro próximo demais, levantei em um pulo, pegando minha arma improvisada.
— Essa vadia vai ter o que merece. – o outro disse e ouvi um gemido de dor.
Pelo som de suas vozes presumi que estavam vindo pelo lado direito comecei a recuar para a esquerda. A melhor coisa que podia fazer era dar a volta nessas caixas e sair o mais silenciosamente possível.
Parei escondida, por meus olhos já terem se acostumado com a escuridão consegui distingui-los ao passarem reto, mal olhando para os lados. Suspirei aliviada.
Recuei mais um pouco, batendo em algo ou mais especificamente em alguém, senti o medo rastejando de volta e forcei a respiração. Comecei a me virar quando senti o golpe. Minhas costas bateram nas caixas me deixando sem ar senti minha arma cair inútil ao chão. A única coisa que ouvi foi o som de algumas caixas caindo, abri os olhos no momento em que senti outro soco no meu estômago, e antes que eu pudesse começar a me recuperar ele me segurou e me jogou contra outras caixas. Tentei levantar, se isso continuar desse jeito estaria perdida… Escutei passos, o que deve ter feito meu agressor hesitar, me dando tempo para, pelo menos, tentar recuperar o fôlego.
— Mas que merda…
O clique inconfundível de uma arma o fez parar de falar.
Se ele está armado, por que não atirou antes?
— Ei vamos com calma… – o outro disse. Olhei de relance vi os dois recuando devagar. – Só queremos pegar a garota e…
Antes que ele pudesse continuar a falar o estranho atirou duas vezes: ouvi apenas o som dos corpos caindo no chão.
Comecei a me levantar quando ele me pegou pelo pescoço e me empurrou contra uma das máquinas. Senti algo pontudo cutucando minha coluna.
— Por favor… – tentei dizer, segurando sua mão para me livrar do aperto. – Eu não…
Senti o aperto no meu pescoço aumentando e ofeguei, segurei em seu braço e tentei arranhá-lo, me dando conta, então, que era um braço mecânico.
Com a pouca luminosidade mal conseguia enxergar o meu agressor misterioso, foquei no braço mecânico e vi uma estrela vermelha pintada. Uma única pergunta veio na minha cabeça antes de começar a perder a consciência: como raios eu tinha terminado em um galpão abandonado com o Soldado Invernal?

Depois.

 

Acordei em um quarto abafado, senti minha garganta arranhar e olhei ao redor, tentando entender o que tinha acontecido e onde estava.
O quarto era pequeno: uma cama de solteiro, um armário aparentemente vazio e uma mesa pequena próxima da cama, com uma garrafa e alguns papéis.
Me levantei para ver o que poderiam ser, afastei a garrafa e prestei atenção em alguns recortes de jornais. Pisquei, tentando me concentrar. Todos os recortes eram sobre a S.H.I.E.L.D. ou sobre o Capitão América.
Franzi as sobrancelhas: onde eu estava e por que esses recortes de jornal estavam aqui?
Respirei fundo, tentando ignorar a dor de cabeça e todas as outras dores enquanto os acontecimentos recentes voltavam a minha mente, como eu posso estar viva? O soldado estava me enforcando, quem poderia ter me ajudado? Ouvi passos e me virei para a porta, antes que eu pudesse voltar a deitar e fingir que ainda dormia, a porta abriu e um homem um pouco mais alto que eu, cabelos escuros na altura dos ombros, calça Jeans e um moletom preto entrou.
Ele parou na porta, com a mão direita segurando a maçaneta e a esquerda no bolso, e ficou me olhando como se esperasse alguma coisa. Respirei fundo, prestando atenção em todos os movimentos dele, me preparando para lutar ou o que fosse.
Ele avançou um passo tirando a mão do bolso, obviamente tentando não me assustar, o que não deu certo quando me dei conta que sua mão era de metal.
— Você é… – soltei, recuando um passo e batendo na mesa atrás de mim.
— Calma. – ele disse baixo, sem avançar e parecendo razoavelmente ansioso.
Tentei manter a respiração controlada e engoli em seco.
— Não quero machucar você… – ele voltou a dizer sem se mexer.
— Não quer me machucar? – perguntei baixo avançando dois passos, senti uma pontada de irritação sobrepondo meu medo. – E tentar me enforcar?
Ele respirou fundo e chegou a abrir a boca para falar, mas não dei tempo para que sequer pensasse, avancei pronta para acertá-lo com um jab seguido de um cruzado, que ele desviou como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
Quando me dei conta, estava contra a parede e ele me segurava pelos braços.
Grunhi tentando me soltar, o que foi em vão. Ele obviamente era mais forte.
— Por favor… – ele começou, agora a ansiedade clara no seu tom de voz. – Se acalme.
Parei de tentar me soltar, levantei a cabeça, olhando-o nos olhos. Para o meu constrangimento estávamos próximos, próximos demais, conseguia sentir sua respiração em meu rosto. Não consegui continuar a encará-lo e acabei desviando o olhar ao concordar com um aceno. Ele hesitou um instante, e então me soltou, recuando um passo.
— Você ficou um bom tempo desacordada, é melhor comer alguma coisa. – disse saindo do quarto, sem olhar na minha direção.
Hesitei, mas se ele fosse realmente me matar já o teria feito, certo? Sai do quarto e segui por um corredor curto até a sala-cozinha, o Soldado Invernal estava de costas, mexendo em algo na pia.
Me sentei a mesa, observando os poucos móveis, uma geladeira pequena, o fogão, armário e duas caixas próximas a mesa.
— Você… – comecei, mas parei, pensativa. Ele virou a cabeça minimamente na minha direção. – O que estava fazendo naquele depósito?
Ele permaneceu em silêncio, pela tensão em seus ombros devia estar pensando no que devia ou não me contar.
— Eu estava seguindo uma pista… – ele finalmente respondeu, virando e vindo na minha direção. Colocou um prato com pão e uma caneca com café na minha frente.
— Pista…? – sondei, tentando captar algo na sua expressão.
— HYDRA.
Abri a boca, mas vacilei, então mudei o rumo da conversa.
— Como eu posso te chamar? – perguntei de uma vez antes que me arrependesse. – Quero dizer, qual é o seu nome? Não posso chamá-lo de soldado invernal…
Parei de falar, ansiosa, ele abriu a boca, me parecendo confuso, então franziu as sobrancelhas, sério.
— Eu… Pode me chamar de… De James. – respondeu, senti uma pontada de dúvida, como se não tivesse certeza do que dizia.
— Meu nome é .
Ficamos em silêncio tomei um gole do café sem encará-lo.
Será que ele sabia que os caras que me sequestraram eram da HYDRA? Provável. Olhei discretamente para ele e o peguei me observando, desviei o olhar novamente e peguei o pão.
— Você sabe por que eles te sequestraram? – perguntou ao pousar a xícara de café na mesa.
Fiquei encarando minha própria xícara, considerando.
— Acredito que seja por causa da minha ligação com a S.H.I.E.L.D. – comecei, voltando a encará-lo. – Agora que ela caiu e os arquivos foram parar na rede… – suspirei preocupada. – Bom, parece que os antigos inimigos querem vingança.
Ele assentiu pensativo e continuei a observá-lo, tentando entender o que se passava na cabeça dele, mesmo estando sério consegui encontrar sinais de angústia e ansiedade.
— Por que você não me matou? – perguntei olhando-o nos olhos. – Não que eu esteja reclamando, mas por quê?
Ele desviou o olhar e não respondeu, apenas se levantou, indo até a pia.
— Vou tentar conseguir uma troca de roupa para você e te deixo em algum lugar movimentado. – ele disse, colocando a caneca na pia e virando na minha direção. – Acha que consegue ficar escondida até as coisas se acalmarem?
— Tenho alguns contatos confiáveis. – respondi, tentando esconder o incômodo pelo pergunta ignorada.
Ele concordou com um aceno, subiu o capuz do moletom e saiu.

Parte 2.

“Cada cicatriz que temos é a confirmação de que uma ferida sara. Cicatrizes são marcas de superação que só um verdadeiro guerreiro possui.”

 

Alguns meses depois

 

Cheguei em casa, joguei as sacolas de compras em cima do balcão e comecei a arrumar a bagunça na cozinha, quanto antes eu terminar, mais rápido posso ir dormir.
Um mês e meio tinha se passado desde toda confusão em Triskelion e a redescoberta da HYDRA. Eu ainda tentava me recuperar da queda da S.H.I.E.L.D, do sequestro, em suma de tudo o que aconteceu e odeio admitir, mas não está sendo exatamente fácil, encarei meu reflexo na janela e percebi como perdi peso, assim como notei as olheiras, que não conseguia mais disfarçar. Se continuasse desse jeito, poucas pessoas conseguiriam me reconhecer. Minha avó com certeza ficaria horrorizada com a minha aparência atual, deixar meu cabelo escuro tão comprido, caindo em ondas em volta do meu rosto magro seria quase um crime para ela. Suspirei, ainda dóia pensar nas pessoas que perdi e os pesadelos constantes não ajudavam muito.
Não podia continuar a me esconder por muito tempo. Teria que pedir ajuda em algum momento e, apesar de ter um bom dinheiro guardado, estava na hora de começar a me mexer e decidir o que fazer da minha vida.
Suspirei novamente.
A única coisa que precisava no momento era um bom banho e cama. Terminei de guardar as compras e subi para o quarto, quando notei os primeiros sinais de que algo estava errado.
O tapete do corredor estava torto, e a porta do meu quarto estava entreaberta. Tinha certeza que fechei antes de sair. Peguei a arma escondida embaixo da mesinha do corredor e fui andando devagar até o quarto, abri a porta com o pé, bem devagar, evitando fazer qualquer barulho que pudesse me denunciar.
Entrei segurando a arma firmemente, esperando qualquer coisa, menos encontrar o Soldado Invernal quase desmaiado e sangrando na minha poltrona.
— Ai, meu Deus! – sussurrei, surpresa. O único sinal de vida que ele deu foi abrir os olhos e me encarar. – Droga. – voltei a falar, baixando um pouco a arma. E se ele não estiver sozinho?
Hesitei por mais alguns segundos antes de deixar a arma em cima da cama. Se tivesse mais alguém na casa, presumo que a essa altura eu já saberia, então corri para o banheiro para pegar meu kit de primeiros socorros.
Coloquei tudo que precisava em cima do criado mudo, então virei na direção dele.
— Hmm… Vou precisar da sua ajuda. – comecei, me aproximando. – Não aguento carregar você até a cama.
Ele concordou com um aceno, apoiei seu braço de metal nos meus ombros e passei meu braço pela sua cintura para dar um pouco de apoio. Ele não deu um pio de dor, mas percebi a careta que fez quando sentou na cama.
— Além do braço você tem algum outro ferimento? – perguntei, abrindo um pacote de gaze e os potes com remédios caseiros.
— Costas. – ele respondeu baixo, respirando fundo. Senti meu rosto ficando quente, droga, isso que dá fazer parte da burocracia.
— Preciso que você tire a camisa. – disse, desviando o olhar. Ele tirou a camisa e virou pra que eu pudesse ver o estrago feito nas costas. – Ok o ferimento no braço é o mais perigoso, vou cuidar dele primeiro.
Ele não disse nada, apenas concordou com um aceno.
Ok nada de conversa então.
Peguei gaze e álcool para limpar o buraco da bala que, por sorte, no caso dele, acredito que tenha sido habilidade, foi praticamente de raspão. Sentei ao seu lado na cama e limpei bem o ferimento, peguei um dos potes de pomada quando senti sua mão segurar meu pulso.
— O que é isso? – perguntou, sério.
— É uma pomada cicatrizante caseira. – respondi, olhando para sua mão. Ele hesitou, mas me soltou dando permissão. – Vou passar um pouco e dar uns pontos apenas por garantia.
Ele voltou a ficar em silêncio. Esperando, suspirei, frustrada.
Apliquei um pouco de pomada, então me concentrei em preparar a agulha e a linha. Ok, não vou conseguir ficar quieta.
— Então… – comecei, olhando de relance em sua direção. – O que exatamente aconteceu? Como você me encontrou?
Parei de falar, tentando evitar ficar tagarela. Ele não respondeu, até que eu desse o último ponto, cortei a linha e coloquei a agulha em cima do criado mudo.
— Eu estava atrás de algumas pistas quando encontrei uma base da HYDRA parcialmente abandonada. – ele começou, seu tom neutro. Levantei e peguei as coisas para limpar suas costas. – Acabei descobrindo que estavam tentando rastrear alguém enquanto procurava… Enquanto procurava algumas coisas, e acabei achando os seus arquivos, mas fui descoberto enquanto apagava os dados da rede.
Permaneci em silêncio enquanto trabalhava nas costas dele, se ele viu meus arquivos será que ele descobriu quem eu sou? E porque ele tinha vindo atrás de mim? Quero dizer talvez eu seja a única pessoa que pudesse ajudá-lo, já que ele me salvou e ajudou a fugir, mas ainda sim parece que falta alguma coisa, alguma informação que ele não quer me passar.
— Vou passar a mesma pomada que passei no seu braço, não vai precisar tomar pontos. – eu disse, voltando a realidade. Terminei de fazer os curativos e levantei. – Vou pegar roupas limpas para você. – disse ao sair do quarto.
Enquanto eu fechava a porta, o ouvi sussurrar algo em russo.
— Danke¹.

Enquanto James se recuperava, comecei a preparar as coisas para nos mudarmos, coloquei em duas mochilas apenas o necessário, peguei todo o dinheiro que tinha guardado e embalei parte da comida que tinha.
Se a HYDRA ainda estava no meu rastro, eu não podia ficar aqui por muito tempo, pela lógica talvez seja melhor permanecermos juntos, isso se ele quiser.. Não tinha pensado nisso… E se ele quiser seguir sozinho?
Parei no meio da garagem, provável que ele prefira seguir sozinho já que isso ajuda a manter a descrição… Voltei a realidade ao ouvir uma tossida, virei na direção da porta e James estava parado, parecendo cansado e desconfortável.
— Você devia estar descansando. – tentei não deixar a preocupação transparecer em meu tom de voz. – Tem que pelo menos…
— A casa está sendo vigiada. – ele me cortou, avançando dois passos.
— Vigiada? Tem certeza? – perguntei, largando a bolsa térmica, ele assentiu sério. – Merda!
Parei um minuto tentando me reorganizar, metade das coisas que precisaríamos já estava no carro. Calma, eu preciso manter a calma.
— Ok, no armário do corredor tem uma caixa com documentos falsos… – ele concordou e voltou para dentro.
Peguei a bolsa térmica e reorganizei junto das mochilas no porta-malas, então fui até o armário próximo à porta, tirei o fundo falso e peguei armas, munição e outro kit de primeiros socorros.
Ouvi o click da trava da arma, virei devagar e bem próximo um dos agentes da HYDRA – considerando o símbolo em seu colete – estava com a arma apontada para a minha cabeça. Com o rosto totalmente coberto por uma máscara ele mal parecia humano, engoli em seco, tentando ficar o mais imóvel possível.
Antes que eu pudesse ter qualquer reação, James apareceu, pegando o agente em uma chave de braço e com um movimento rápido, quebrou seu pescoço.
Soltei a respiração, minhas mãos tremeram ao pegar a arma caída.
— Obrigada. – sussurrei, pegando as coisas que faltavam e colocando no carro.
Ele me entregou a caixa e pegou uma das armas indo para o banco de passageiro.
Para bom entendedor, um gesto basta. A partir de agora, estávamos juntos nessa.


Eu corria pelos corredores da base procurando, eu precisava encontrá-lo, ter certeza que estava bem…
Me aproximei de uma das salas de monitoramento, com cautela. Até agora não encontrei nenhum dos agentes duplos, o que tornava tudo ainda mais estranho e perigoso, desde que o Capitão se comunicou esse lugar virou um inferno e admito, até agora me sai razoavelmente bem por pura sorte.
Verifiquei se minha arma estava carregada pelo que me pareceu a décima vez e abri a porta com um chute. Entrei e ela estava vazia, franzi as sobrancelhas, onde raios os agentes da HYDRA se enfiaram?
Fechei a porta, me aproximei de um dos monitores e comecei a procurá-lo pelas poucas câmeras que ainda funcionavam.
— Onde você está? Vamos… Por favor, esteja bem… – murmurei, procurando. O pânico começando a crescer.
— Talvez você não esteja olhando perto o suficiente. – alguém disse as minhas costas, virei com tudo e o encontrei parado, encostado na porta fechada.
Levantei e ameacei me aproximar, mas hesitei. Ele estava totalmente relaxado, como se nada de errado estivesse acontecendo, como se o nosso mundo não tivesse virado do avesso e explodido em caos.
— Ches? Onde você estava? Quer me matar de preocupação? – perguntei cruzando os braços sem largar a arma, o que o fez erguer uma sobrancelha, questionador.
— Você se preocupa demais, irmãzinha. – ele retrucou revirando os olhos.
— É claro que me preocupo! Você é meu irmão e é irresponsável por nós dois. – disse, o medo dando lugar para a irritação.
— Sou seu irmão mais velho, eu que tenho que cuidar de você, não o contrário. – ele resmungou, desviando o olhar.
— Somos irmãos, um cuida do outro, lembra? – eu disse me aproximando dois passos. – Foi isso que o ‘vô nos ensinou…
— Ah claro, não podemos esquecer os ensinamentos do grande Chester Phillips². –ele me cortou a voz transbordando ironia, seu rosto tão parecido com o meu se contorcendo em uma careta.
— Ches, não fala assim… – comecei, suspirando. Quando ele ia superar isso?
— Esqueci que estou falando com a fã numero um… – ele resmungou ao desencostar da porta, quando ela ameaçou abrir.
Apontei a arma na direção da porta, mas Ches fez sinal para que eu ficasse tranquila enquanto ele mesmo a abria e dava passagem para dois agentes entrarem.
— Você a encontrou! – um dos agentes disse e reconheci a voz por baixo da máscara Louis, melhor amigo do Chester.
— É… – meu irmão disse, olhando fixamente para mim, recuei um passo.
— Ches… – chamei ficando ansiosa, sua expressão mudou completamente e pela primeira vez na vida fiquei com medo do meu irmão.

Acordei assustada e suando, pisquei confusa, olhando ao redor e percebendo o desconforto que sentia por estar deitada no banco do carro. Respirei fundo, tentando me acalmar e olhei para o banco de trás. James estava deitado de costas para mim, dormindo, a respiração estável. O alívio me atingiu por ele não ter acordado e me visto nesse estado, refiz meu rabo de cavalo e virei para o outro lado, decidida a não cair no sono de novo. Tentando entender por que pela primeira vez acordei antes da pior parte, fiquei então totalmente alheia a presença do meu companheiro de viagem.

Fiz o café o mais forte possível e sentei próxima a janela. Depois do segundo susto que tomamos ao ter a última casa onde estávamos escondidos invadida, todo cuidado era pouco.
Peguei o jornal que comprei hoje quando sai para pegar algo para comermos e coloquei a caneca no peitoril. Olhei de relance para James, que estava deitado no sofá, aparentemente dormindo, suspirei e abri o jornal, lendo rapidamente as colunas de política e esportes então pulei para a parte das tirinhas e palavras cruzadas.
Levantei e peguei a caneta, que estava em cima da mesa, perto dos recortes de jornal, e voltei para perto da janela. Comecei a fazer as palavras cruzadas, pouco concentrada. Não conseguia parar de olhar pela janela, atrás de algo suspeito. Odiava me assustar por qualquer coisa, mesmo na atual situação acho que eu estava levando até muito bem.
Ouvi James se virando no sofá, olhei em sua direção apenas para verificar se estava tudo ok. Acabei por ficar observando-o, ele parecia tão angustiado e ansioso quando está acordado, mesmo dormindo ele não relaxava. Conseguia ver toda a tensão em seus ombros, ele voltou a se mexer ainda de olhos fechados e começou a murmurar alguma coisa, franzindo as sobrancelhas.
— Bucky? Quem… Não… Eu não…
Larguei o jornal e levantei avançando dois passos, James começou a ficar mais agitado.
— A missão… Importante… Quem é ele? HYDRA…
Sua expressão ficou mais ansiosa e sofrida, obviamente ele estava tendo um pesadelo. Me aproximei com cautela e toquei em seu ombro.
— James? – chamei, receosa. – James! Você está tendo um pesadelo… James!
Chamei mais alto, balançando seu ombro, tentando acordá-lo. Ele acordou com um pulo e eu recuei assustada quando ele ameaçou avançar na minha direção, antes de parar razoavelmente próximo, piscando confuso.
— O que…? – ele fechou os olhos e levou as mãos a cabeça, como se sentisse dor.
— James?
Ele recuou e sentou na beirada do sofá a cabeça enterrada nas mãos, tremendo um pouco. Sentei ao seu lado, em silêncio.
O que eu faço? Ai, meu Deus! Ok, calma, muita calma.
Coloquei minha mão em seu ombro tentando passar algum conforto esperando. Aos poucos a tremedeira foi passando e ele respirou fundo.
— Eu… – ele começou, com a voz rouca, então parou pensando melhor. – Você chegou a ver todos os arquivos vazados da S.H.I.E.L.D.?
Pisquei surpresa e abri a boca para responder, mas não disse nada ao entender o que ele queria dizer.
— Se… Se está se referindo aos seus arquivos, eu não cheguei a ver muita coisa.. – eu respondi, tirando a mão do seu ombro, seus ombros voltaram a ficar tensos. – Depois que você… Anh, me ajudou, eu tentei procurar, mas achei melhor não correr o risco de ser descoberta.
Ele me olhou de esguelha, esperando.
— Se alguém tivesse descoberto o que aconteceu no galpão, imaginei que estariam ou procurando pelo meu corpo ou de olho nos arquivos vazados. – murmurei, desviando o olhar.
Voltamos a ficar em silêncio e antes que eu pudesse perguntar algo, ele voltou a falar.
— Você sabia que fizeram uma espécie de lavagem cerebral em mim, certo?
Balancei a cabeça negando. O que raios a HYDRA tinha feito com ele?
— Eu… Eu ainda não consigo lembrar de todo o meu passado, nem de todas as missões que fui obrigado a executar e às vezes… – ele hesitou, como se não soubesse como e por que devia me contar. – Às vezes, tudo se mistura quando estou dormindo, tenho flashes de tudo e nada parece realmente concreto…
Ele voltou a ficar em silêncio, sua respiração acelerou e voltei a observá-lo. Ele encarava a parede, concentrado.
— Na maior parte do tempo, não sei quem eu sou de verdade, se sou James ou apenas o Soldado. – ele fechou os olhos, a angústia sobressaindo. – Depois de todos que cacei e matei eu não… Eu… Tenho medo de não acordar mais de… De voltar a ser apenas o soldado…
Ele parou de falar, ainda de olhos fechados. Soltei a respiração que segurei inconscientemente.
Toda a culpa, medo e tristeza ficaram estampados em seu rosto, eu conseguia ver e sentir. Respirei fundo, me sentindo estremecer e minha garganta se fechando de emoção.
Abri a boca para tentar dizer algo, mas hesitei o que eu poderia dizer que poderia ajudá-lo? Nada, nada faria com que a culpa e o medo fossem embora. Respirei fundo, tentando criar coragem e o abracei deixando o silêncio reinar e ficamos ali madrugada adentro, apenas apreciando a companhia um do outro.

Passei as semanas seguintes observando James e refletindo sobre o que ele tinha me confidenciado e apesar de querer perguntar sobre algumas coisas me contive, eu bem sabia como era querer não pensar em determinadas coisas, mal me sentia preparada para pensar no que aconteceu durante a queda da S.H.I.E.L.D., quanto mais falar sobre.
Estacionei o carro duas ruas atrás do apartamento onde estávamos escondidos, peguei a sacola com as compras e sai do carro, olhando atentamente ao redor para ter certeza que não tinha sido seguida. Fui o mais rápido e discretamente possível até os fundos do prédio subi pelas escadas de emergência até o terceiro andar antes de entrar pela janela dei três batidas rápidas para avisar que tinha chegado e que era seguro.
Abri a janela e entrei, coloquei as sacolas em cima da mesa. Esse esconderijo novo se resumia a um apartamento minúsculo com uma cozinha-sala, um banheiro e um quarto pequeno.
Nenhum sinal de James, guardei as poucas coisas que comprei nos armários e fui para o quarto esconder a munição extra que consegui assim que passei pela porta fui atingida por um soco no estômago, que me fez largar a munição e recuar dois passos. Pisquei tentando me situar vendo James avançando na minha direção voltei a recuar em pânico. O que diabos estava acontecendo?
— James? – chamei incerta, ele continuou a avançar tentando me acertar. Desviei por pouco de um chute e senti o impacto ao recuar demais e bater na parede. Nesse cubículo de esconderijo, eu não tinha chance de me defender. – James? Sou eu… – tentei de novo, mas o que quer que esteja acontecendo, não funcionou, ele me encarava como se nunca tivesse me visto na vida.
Ele voltou a avançar, me pegou pela cintura antes que eu pudesse desviar e me jogou contra a mesa, que com meu peso somado ao impacto quebrou, antes que eu pudesse levantar ele me pegou pelo pescoço com a mão de metal e me segurou no alto. Senti meus olhos ficando úmidos.
— James… Por favor… – tentei novamente, engasgando ao sentir o aperto aumentar.
Ele me encarava como se eu não passasse de um inseto, algo insignificante.
— Por… Por favor… Bucky…
Senti o aperto diminuir e tossi.
— Como? – ele perguntou a voz rouca. – Onde ouviu esse nome?
— E-eu…
— Responda! – ainda me segurando pelo pescoço. Ele me empurrou contra a parede.
— Você estav… estava resmungando… – segurei seu braço, tentando afastá-lo. – J-James sou e-eu a , por f-favor..
Ele ficou me encarando, então piscou confuso. Senti o aperto voltando e tão rápido quanto voltou, sumiu, quando ele me soltou, segurando a própria cabeça.
Cai em cima do que sobrou da mesa, tossindo, e tentando me levantar. Quando consegui me colocar em pé, ele recuou ainda com as mãos na cabeça como se sentisse dor.
— James? – perguntei tentando me aproximar, uma das mãos massageando o pescoço dolorido.
— Não… – ele murmurou, esticando uma mão, me fazendo parar. – Não se aproxime…
— James, me deixa te ajudar.
— Eu não… – ele voltou a recuar, fechando os olhos.
— Respira fundo e conte as respirações. – instrui, sem me aproximar, para não assustá-lo.
Ele começou a fazer o que eu disse, ainda de olhos fechados e, aos poucos, foi controlando a própria respiração, consequentemente foi se acalmando. Esperei alguns minutos, apenas observando.
Ele finalmente abriu os olhos, parecendo mais calmo. Me encarou, o arrependimento e a culpa estampados em sua expressão.
— Você não tem culpa… – comecei, olhando de volta sem medo.
— Não tenho? – ele sussurrou. – Eu podia ter te matado!
— Mas não matou. – retruquei séria, sem desviar o olhar.
— Eu podia ter te matado. – ele repetiu, devagar, como se eu não tivesse entendido da primeira vez.
— Como eu disse, mas não matou. – quase rosnei de volta, ficando irritada. – Você é uma vítima da HYDRA o que eles fizeram com você… – minha voz falhou um pouco. – A f-forma como violaram sua mente é imperdoável, mal tem dois meses que tudo aconteceu, que você recuperou parte da sua consciência, é completamente normal você…
— Matar pessoas? – ele me cortou irritado, e percebi que ele precisava despejar toda a raiva, angústia e culpa de alguma forma por isso deixei que ele falasse, por mais que me doesse ouvir em silêncio. – Ser um monstro? Ser exatamente tudo o que eu mais abominava a quase setenta anos atrás? O que me tornei vai contra tudo pelo que lutei e acreditei ou pelo que eu acho que lutei… – ele continuou, ofegante, desesperado para colocar para fora. – Coisas ruins aconteceram, mas isso não justifica minha fraqueza em permitir que fizessem tudo isso em deixar que me mudassem a ponto de fazer mal a pessoas inocentes…
— Fraqueza? Se acha fraco por, supostamente, permitir que fizessem algo desse nível com a sua mente? – não consegui me segurar diante disso. – James, eles quase destruíram sua mente, manipularam você e o transformaram em outra pessoa! Se estivesse consciente, teria feito alguma dessas coisas? Teria executado alguma dessas missões? –
perguntei ainda olhando-o nos olhos, eles desviou o olhar, voltando a tentar controlar a própria respiração. – Pelo que sei a resposta é não, se isso fosse verdade eu não veria toda a culpa e arrependimento que você carrega… Toda essa angústia, você não falaria nos poucos momentos em que consegue dormir. – ele recuou um passo como se fosse demais ouvir tudo isso, mas eu ignorei os sinais e avancei. – Acha que eu não escuto? Você murmurando enquanto dorme? Sobre missões e tempos perdidos? Que não vejo as olheiras e o peso que carrega?
Antes que eu pudesse entender ou piscar, ele avançou ficando muito próximo me olhando nos olhos.
— Não é da sua conta. – ele disse baixo, a voz rouca. – Você fala como se não tivesse feito e visto coisas, acha que é a única que observa? Que percebe as coisas? E quanto aos seus pesadelos? A sua recusa em admitir que as coisas não estão bem, que o que quer que tenha acontecido está te matando por dentro?
Foi minha vez de recuar, o coração batendo rápido, tão rápido que poderia abrir meu peito e cair rolando pelo chão, expondo cada pedaço destruído e amargurado.
— N-não quero falar sobre isso… – sussurrei desviando o olhar. – E-eu não…
— Não quer falar sobre isso? – ele disse, a raiva dominando seu tom de voz. – Mas quer falar sobre mim, como se soubesse de alguma coisa… Como se soubesse alguma coisa sobre mim, como se tivesse passado por um terço de tudo que passei ou suportei…
Ele parou, a respiração novamente fora de controle, nos encaramos por alguns segundos e pela primeira vez, desde que tudo aconteceu, consegui admitir para mim mesma o quanto estava destruída por dentro. Começava a enxergar o tamanho das minhas cicatrizes e sentia medo.
— Tem razão. – sussurrei, sentindo meus olhos úmidos. É a única coisa que consigo dizer antes de me afastar, entrar no quarto, fechar a porta e finalmente desabar.

Os dias foram passando e não tocamos mais no assunto, eu fingia que nada tinha acontecido e James, depois de hesitar, acabou por seguir o mesmo caminho, mesmo fingindo ainda remoia internamente tudo que ele tinha dito e depois de deixar a realidade me atingir não tinha como voltar atrás e apagá-la.
Por algum motivo, nossa discussão fez os pesadelos regressarem com tudo, ainda piores do que no começo, agora não sonhava apenas com o que aconteceu naquele dia em Triskelion, mas com flashes de momentos com meu avô, com James observando o que aconteceu naquela sala, o que eu fiz, vendo o monstro que eu começava a me transformar e, de alguma forma, isso fazia com que as cicatrizes internas doessem ainda mais. No pouco tempo depois do incidente, ninguém me pressionou quanto ao que tinha acontecido, ninguém me forçou além do limite, me fez encarar ou jogou as coisas na minha cara dessa forma. Escolhi não falar sobre e fingir que nada tinha acontecido, porque se eu fizesse isso teria que admitir o que tinha feito, e ficaria ainda mais sozinha do que me sentia.


Sentia meu corpo sendo carregado e mesmo a droga qualquer que fosse que tinham usado em mim não era suficiente para diminuir a dor que eu sentia, tanto física quanto emocional. Paramos e pelo que pude distinguir, entramos em um dos elevadores e começamos a descer. Tentei mexer as mãos, mas a sensibilidade delas ainda não tinha retornado. Soltei um soluço de medo e raiva.
— Não precisa ficar nervosa, irmãzinha… – Ches disse e senti o sorriso em seu tom de voz, uma coisa pequena que antes me traria conforto e segurança.
O elevador parou e ouvi as portas abrindo, entramos em um laboratório, percebi melhor os detalhes quando ele me deitou na maca e me prendeu com cordas.
— Ches… – chamei baixinho. – Por f-favor, não…
— Shiiu, quietinha. – ele me cortou, passando a mão pelos meus cabelos. – Vai ficar tudo bem, vou fazer o que nosso avô não teve coragem de fazer.
Como raios ele podia estar tão tranquilo? Tinham milhares de pessoas lutando a sabe Deus quantos andares a cima e ele agindo como se nada estivesse acontecendo como se ele, a HYDRA, já tivessem vencido.
— Por quê? – eu tinha que saber, e tinha que distraí-lo agora que a sensibilidade estava retornando.
— Porque nosso amável e estúpido avô nos negou e limitou a vida toda, ele podia ter nos transformado nos melhores e mais fortes. – ele disse ao me encarar e vi algo próximo a insanidade brilhando em seu olhar. – ele podia ter nos dado o verdadeiro poder, mas como sempre preferiu cuidar de algo que julgasse mais importante do que os próprios filhos ou netos.
Permaneci em silêncio, a respiração acelerando quando vi Louis se aproximar com um carrinho cheio de aparelhos.
— Chester, o que você…
— Não se preocupe irmã, isso vai doer um pouco, mas quando terminarmos você não vai se lembrar de nada. – ele disse, pegando algumas agulhas ligadas a um aparelho e as aproximando do meu rosto.
Senti o choque quando a primeira descarga de energia me atingiu então comecei a gritar.

Acordei gritando e me debatendo, rolei na cama de solteiro e cai no chão, chutando as cobertas. Olhei ao redor, focando no quarto pequeno e escuro, a realidade me atingindo quando James quase derrubou a porta ao entrar e acender a luz, uma arma na mão, olhando em volta a procura de alguma ameaça.
Pisquei, percebendo as lágrimas que caíam e minha respiração já acelerada aumentou ainda mais, não me deixando segurar os soluços que vieram. Abracei minhas pernas sem segurar o choro pela primeira vez em muito tempo, levantei a cabeça no susto quando senti braços me cercando, um abraço desajeitado e estranhamente confortável.
Ficamos assim por longos minutos até que consegui me acalmar, continuamos abraçados fechei os olhos tentando guardar essa sensação mal contive um suspiro quando ele levantou e se afastou.
Eu ainda estava no chão com o olhar perdido quando ele voltou com uma caneca com algo quente. Pisquei e o encarei, sem enxergá-lo de fato pegando a caneca no automático, quase derrubando seu conteúdo. Ele me ajudou a firmar a caneca para que não caísse, acenei em agradecimento ao encostar a cama. Ele sentou ao meu lado e tive uma sensação de dejavu.
O silêncio continuou por mais alguns instantes e acabei perguntando sobre o que me incomodava há dias.
— Por que não foi embora? – questionei, olhando para a caneca em minhas mãos. Ele ponderou por um instante antes de responder.
— Porque eu precisava de você da mesma forma que você precisa de mim. – ele começou e criei coragem para olhar em seus olhos. – Acho que soube no do dia em que nos conhecemos.
— Eu… – comecei a falar, mas parei. Como criar coragem pra dizer o que venho pensando há dias? Como contar o que aconteceu? – Desculpe por pressioná-lo aquele dia… Eu não… N-não tinha intenção de soar leviana… Eu só queria que você entendesse que a culpa não é sua. – minha voz ficou mais firme enquanto eu finalmente colocava tudo para fora. – As coisas que você fez não foram conscientes, não foi uma escolha sua
— Ok, eu entendi o seu ponto. – ele me cortou, desviando o olhar ficando desconfortável.
— Não, não entendeu. – murmurei colocando a caneca no chão. – Se tivesse entendido, teria ido embora. – ele começou a dizer algo, mas o interrompi. – Eu o matei… Matei meu irmão… – pela primeira vez, disse isso em voz alta, as lágrimas voltaram com tudo. – E-ele teria sobrevivido, mas e-eu… Eu peguei a-aquela barra de ferro e o apunhalei – minha visão ficou embaçada e eu mal conseguia ver seu rosto, mas sentia sua atenção em tudo que eu dizia. – Tudo aconteceu tão rápido, e-eu nem desconfiei quando o encontrei, nem sei como consegui me esconder da HYDRA quando tudo aconteceu. Recebi treinamento, é claro, mas nunca fui uma agente de campo e acho que por causa disso foi tão fácil para eles me derrubarem. Quando percebi, estávamos em um laboratório muitos andares a baixo e meu i-irmão estava tão estranho quando ele c-começou a.. – minha voz falhou ao lembrar da dor. – antes que pudéssemos perceber o teto estava d-desmoronando, os outros dois devem ter morrido soterrados… No pouco espaço que nos sobrou, nós rolamos e-então… E-eu… Ele estava vindo para cima, ele ia.. Ia… Então, eu estava com aquela barra de ferro nas mãos e quando vi tinha acertado ele… – parei de falar, o choro ficando mais intenso. Voltei a abraçar minhas pernas, escondendo o rosto.
Ele voltou a me abraçar, dessa vez mais seguro do que estava fazendo antes. Senti uma de suas mãos passando de leve pelas minhas costas, um gesto tranquilizador, que me ajudou a parar de chorar. Fui novamente me acalmando aos poucos.
Dessa vez ele não se afastou, mas me abraçou mais apertado como que me passando forças.
— Você acha que é uma pessoa ruim por escolher se defender. – ele começou e estremeci com seu tom de voz baixo, tão próximo. – Por ter sobrevivido ao que tentaram fazer e por contra atacar e lutar para continuar viva, realmente acha que depois de passar por essas coisas e ajudar alguém que tentou te matar faz de você uma pessoa ruim? Acredita nisso?
Não respondi e acredito que tenham sido perguntas retóricas, pois ele não esperou qualquer resposta antes de voltar a falar.
— Uma das lembranças que mais me atormenta é de uma missão que executei, não consigo me lembrar quando. As lembranças ainda estão muito confusas, lembro de fazer o carro bater… De pegar o homem que tinha saído rastejando do carro pelo pescoço, de reconhecer vagamente seu rosto e mesmo assim bater nele até que parasse de respirar.. Ir até o banco do passageiro e ouvir a voz da mulher implorando… – sua voz falhou por um momento antes de continuar. – Não me importava o suficiente então também a matei. – ele parou, senti que escolhia as palavras certas. – E-ele era um velho amigo, nos conhecemos durante a guerra por causa do… Do meu m-melhor amigo… E em algumas das lembranças nítidas que tenho eu o vejo rindo conosco, vivo… E eu o matei e sequer sei o motivo…
Me contorci um pouco até conseguir retribuir o abraço, apoiei a cabeça em seu ombro e fechei os olhos.
— Sinto muito… – era a única coisa em que conseguia pensar. – James, eu…
— Não… – ele me interrompeu. – Não James, acho… Acho que prefiro Bucky…
— Bucky? – questionei baixinho, testando.
— Era assim que me chamavam antes… – sussurrou.
— Certo… Bucky…
Continuamos abraçados por um longo tempo e não soube dizer qual de nós mais precisava de conforto e entendimento.

Confessar o que tinha feito me trouxe um alívio maior do que eu esperava e vi o mesmo efeito nas ações e expressões de Bucky, mesmo que em uma escala bem menor que a minha, mas de qualquer forma eu conseguia ver a mudança e ela não me parecia ruim.
Algo definitivamente tinha mudado ou começado a mudar, nosso convívio parecia mais natural, nossas ações e pensamentos mais sincronizados. Me dei conta disso ao escaparmos facilmente de uma emboscada.
Olhei de relance em sua direção e ele estava concentrado na estrada, desviei o olhar. Ele quase não falou depois do que aconteceu, não que ele fosse de falar muito, acho que deixa isso por minha conta, mas eu percebi a aproximação e a preocupação. Não que eu esteja reclamando, no entanto, isso tem me deixado ansiosa, uma ansiedade que não sinto há algum tempo.
Balancei a cabeça tentando afastar os pensamentos e mudei de posição no banco. Contive um suspiro, faziam exatamente três horas que estávamos na estrada e eu sentia minha bunda começando a ficar quadrada pelo tempo. Acabei suspirei, irritada.
Olhei de esguelha na direção do Bucky. Como ele consegue estar tão confortável depois de todo esse tempo?
Bufei, olhando para fora e observando a estrada quase vazia e escura.
— O que foi? – Bucky perguntou.
— Nada. – respondi, o tédio claro em minha voz.
— Tem certeza?
— Tenho… – respondi.
O silêncio voltou.
— Não aguento mais ficar sentada… – soltei por fim, cruzando os braços.
Ele suspirou e não disse nada.
Algum tempo depois ele diminuiu a velocidade e parou em um posto de gasolina. Segurei o sorriso.
— Obrigada. – disse quando ele parou, soltei o cinto e sai do carro me espreguiçando.
Ele arrumou o boné e saiu para encher o tanque resolvi ir até a loja pegar algo para me distrair durante o caminho já que não vou dirigir.
Olhei meu reflexo na porta de vidro e arrumei o capuz da minha blusa para confirmar que meu cabelo está escondido, então entrei, olhando ao redor. O caixa acenou em comprimento, retribui o gesto apenas para não parecer muito suspeito e virei na direção das revistas e jornais.
Olhei atrás de alguma notícia referente aos vingadores ou algum outro herói e não encontrei nada, continuei procurando algo que chamasse minha atenção, mas desisti quando encontrei a terceira matéria sobre a mesma celebridade.
— Tanta coisa importante acontecendo e as pessoas se preocupando com a vida dos outros. – resmunguei irritada.
Fui para perto das revistas com jogos, atrás de uma revista de palavras cruzadas.
— Hm…
— Palavras cruzadas? – Bucky perguntou, não me assustei com a proximidade, o que foi estranho e confortável.
— Algum problema? – perguntei franzindo as sobrancelhas.
Ele balançou a cabeça, olhando de relance para os jornais.
— Se alguém perguntar digo que é pro vovô aqui. – soltei sem pensar e não consegui segurar a risada quando ele olhou na minha direção, a expressão quase incrédula, expressão essa que sumiu quando o sino na porta tocou. Ameacei virar quando Bucky me pegou pelo braço e me puxou para baixo.
— Passo o dinheiro do caixa, idiota. – alguém disse e ouvi o barulho de uma arma sendo destravada.
— Serio? – sussurrei olhando para Bucky. – Quão azarados podemos ser?
Ele fez sinal para que eu ficasse quieta obedeci, olhei pela prateleira tentando ser discreta, mas Bucky me puxou de novo. Olhei para ele, questionando, e ele respondeu apenas mexendo os lábios.
— Dois. – Eles estão em dois? Para assaltar um posto de gasolina no meio do nada? Serio?
Ele fez sinal e fui abaixada por um lado das prateleiras enquanto ele foi pelo outro, peguei minha arma que estava escondida no cós da calça e a destravei. Foi quando a confusão começou.
— Nem pense nisso. – um deles disse e ouvi um tiro e alguém caindo. Levantei preocupada, apontando a arma para encontrar o outro cara de costas apontando a arma para o Bucky, olhei de relance para o caixa e o atendente tinha sumido, atirei no ombro do que tinha Bucky na mira e virei na direção do outro quando senti minha perna direita sendo atingida.
Recuei com uma mão na perna e tentei mirar com a outra, entretanto não me atrevi a tentar atirar quando Bucky avançou o desarmando e lhe jogando contra a maquina de refrigerante do outro lado, o cara caiu no chão e não levantou.
— Você está bem? – Bucky veio na minha direção.
— O outro… – comecei, tentando olhar pela prateleira e falhando.
— Desmaiou. – ele disse passando o braço pela minha cintura para dar apoio.
Fechei os olhos com a pontada de dor que senti, fomos para o carro e Bucky me colocou no banco de passageiro, empurrando o banco um pouco para atrás para que eu pudesse esticar a perna.
— O cara do caixa…? – perguntei, tirando minha blusa de manga comprida e amarrando em volta do ferimento para tentar estancar o sangue.
— Saiu correndo, deve ter ido ligar para a polícia. – respondeu ao ligar o carro e acelerar.

— Você não pode dormir ainda. – Bucky disse e abri os olhos, sonolenta.
— Eu não estou dormindo, estou descansando os olhos… – resmunguei, tentando ignorar a ardência na perna enquanto ele mexia nela para tirar a bala.
Ele bufou e não disse mais nada, pisquei tentando afastar o sono e comecei a observá-lo.
Senti uma fisgada forte na perna quando ele tirou a bala, colocando ela em cima da caixa ao lado da cadeira. Pegou a agulha, linha e começou a prepará-los para costurar.
— Onde você encontrou essa anestesia? – perguntei, desviando o olhar e focando na porta do galpão onde nos escondemos. – Não é das melhores, mas melhor que nada.
— Estava na sua mochila, junto com outras pomadas. – ele respondeu.
— Na minha mochila? – perguntei tentando lembrar do que tinha pego quando arrumei nossas coisas. – Ah é verdade.
— Não dorme. – ele repetiu.
— Não ‘tô dormindo. – retruquei. – Ai.
— Desculpe.
Voltamos a ficar em silêncio e voltei a observá-lo, desde os ombros largos e os braços musculosos ao cabelo quase chegando nos ombros, e a barba por fazer, as sobrancelhas franzidas por preocupação, o tom dos olhos… Desviei o olhar, sentindo meu rosto quente. Eu não devia estar reparando nele dessa forma.
— Acho que você está com febre. – ele disse, a preocupação óbvia em seu tom de voz. – Está suando e um pouco vermelha.
Ele levantou e colocou a mão na minha testa, sentindo minha temperatura. Eu não diria que meu rosto vermelho tinha outros motivos, então permaneci de boca fechada.
— Vou pegar um remédio para dor e algo para febre. – ele se afastou alguns passos, então voltou com algo nas mãos.
— O que..? – perguntei, olhando para a revista de palavras cruzadas. – Quando você…
— Sou rápido para alguém da minha idade. – ele respondeu, me entregando a revista.
Fiquei encarando a capa e não sei o que me deixou mais surpresa, ele ter se importado o suficiente em conseguir aquela revista ou com a piadinha sobre sua idade.
Voltei a olhar para ele e o peguei me observando, além de preocupação também vi alguma coisa a mais, o que me fez sentir nós de ansiedade se formando em meu estômago e, consequentemente, minha ficha cair.
Eu estou começando a gostar, romanticamente, dele!
Cortei o contato visual, fechei os olhos e encostei a cabeça na parede. Como foi que isso aconteceu?

Beber tanto definitivamente não tinha sido uma boa ideia, principalmente quando ainda estou tomando remédios para dor. Respirei fundo e fechei os olhos.
? – Bucky me chamou, acho que ouvi uma risada. – Você está bem?
Abri os olhos e olhei para ele, piscando e tentando não ver dois Bucky.
— Estou ótima! Por que não estaria? – perguntei, arrumando minha postura.
Olhei ao redor tentando analisar a situação. Estávamos sentados no meio da sala, um de frente para o outro, ele encostado ao sofá e eu encostada a mesinha de centro que tínhamos arrastado mais cedo.
— Tem certeza? – ele voltou a perguntar, olhei para o rosto dele e isso definitivamente era um sorriso.
— Árra! Você sabe sorrir – eu comecei, rindo. – um sorriso lindo diga-se de passagem.
— Sorriso lindo? – ele disse com um sorriso ainda maior.
Espera, eu disse isso em voz alta? Senti meu rosto ficando quente.
— Por favor, alguém me diga que não disse isso em voz alta. – choraminguei voltando a fechar os olhos. Por que eu tinha que inventar de beber com alguém que não consegue ficar bêbado? Droga , sua burra!
— Hmm… – Bucky disse, ficando sério subitamente.
— O que? – perguntei, voltando a olhar para ele.
— Estou pensando em como me aproveitar da situação. – ele começou a falar, cruzando os braços.
— Aproveitar? – ok, eu admito, pensei besteira, tanto que senti meu rosto esquentando ainda mais. Devia estar muito vermelha. , não olhe para os músculos dele, não olhe.
Ele sorriu, obviamente captando meus pensamentos. Bucky, querido, não é hora de ser perceptivo.
— Não esse aproveitar. – ele começou a dizer. – Mas quem sabe não consigo algumas informações extra-oficiais.
— Informações extra-oficiais?! – repeti confusa, senti minha cabeça rodando. Eu não me lembrava de ficar bêbada tão fácil.
— Apesar de no começo achar fácil interpretar suas ações, não consegui descobrir muita coisa sobre você. – ele disse, observando o apartamento.
Fiquei olhando para ele. Eu entendi certo? Ele quer saber sobre mim? Me conhecer?
— Certo… O que exatamente você quer saber? – perguntei, respirando fundo, tentando me segurar para não falar demais.
— Hm… Você tem família viva? Você se enfiou nessa confusão toda, me ajudando… – ele começou e apesar de ainda estar meio zonza por causa da bebida, percebi que ele estava começando a ficar um pouco ansioso.
— Não cheguei a conhecer meus pais, por um tempo fui criada por uma tia que morreu quando eu tinha uns nove anos e depois meu avô paterno assumiu nossa guarda… – parei, não queria tocar nesse assunto novamente.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— Mais alguma pergunta? Achei que teria perguntas mais esquisitas. – comecei a tagarelar.
— O que você fazia na S.H.I.E.L.D.? Digo, pelo que eu entendi quando li seus arquivos você não era agente de campo. – ele perguntou e além da curiosidade senti alguma outra coisa em seu tom, mas no meu atual estado não consegui identificar.
— Bom… Eu cuidava dos dados na base… – respondi. – Quero dizer por um tempo cuidei dos dados da base, sabe Deus como acabei como uma das comandantes da Hill.. Algo sobre meu QI ser acima da média… – minha voz foi diminuindo.
— Por que a surpresa?
— Bom… Sou eu, entende? Quero dizer, não que eu seja burra, mas sou só eu… –
eu retruquei e deixei o ceticismo em minha voz sobressair.
— Ele ficou me olhando como se procurasse alguma coisa.
— O que foi? – perguntei tentando manter contato visual, mas como sempre acabei desistindo por causa da intensidade do olhar dele.
Bucky não disse nada. Olhei para ele e voltei a desviar o olhar quando constatei que ele ainda me observava, suspirando ele levantou e sentou ao meu lado.
— Você sabe que se subestima muito, certo? – ele perguntou por fim.
Voltei a olhar para ele e pisquei, surpresa.
— Eu… – comecei, mas ele me deixou ainda mais surpresa.
Ele me beijou.

Corri o mais rápido que pude para o apartamento e mesmo assim cheguei tarde demais. Os vizinhos estavam em pânico, estava tudo destruído, bagunçado e vazio, terrivelmente vazio. Andei pelo apartamento, olhando tudo e sentindo meu coração apertar, parei no meio da cozinha segurando as lágrimas.
Bucky tinha sumido.
E depois de tudo que passamos juntos, me senti perdida.
Alguma coisa vinha me incomodando a dias e eu ignorei meus instintos. Não devia ter deixado ele sozinho. O que eu vou fazer?
Segurei um soluço.
— Ok calma, tenho que manter a calma. – disse, andando de um lado para o outro, tentando controlar minha respiração.
Comecei a recolher as poucas coisas que não tinham sido destruídas nem confiscadas, fui até o quarto empurrei a cama e levantei a tampa do esconderijo graças aos céus não o encontraram. Tirei as duas mochilas e a arma reserva. Voltei a cama para a posição original e comecei a tirar tudo que tinha dentro delas.
Munição, roupas extras, dinheiro, mais uma arma e facas, reorganizei tudo em uma mochila coloquei uma das armas bem escondida por baixo da jaqueta quando ouvi passos no corredor.
— Merda…
Me aproximei da porta, tentando ver quem estava entrando no apartamento, me encostei próxima, deixando a mochila no chão e a mão na arma.
Ouvi a pessoa, quem quer que seja, dando mais alguns passos, entrando no apartamento. Passou pela porta entreaberta na direção da cozinha.
Abri a porta com cuidado e fui atrás, apontando a arma para sua cabeça.
— Não se mexa. – disse quando ela virou, me surpreendendo.
— Natasha?
? – Perguntamos em uníssono.
Abaixamos as armas e nos encaramos, sérias.
— O que você está fazendo aqui? – voltamos a perguntar juntas, revirei os olhos.
Ela se limitou a franzir a sobrancelha, mais curiosa do que qualquer coisa.
, você sabe o que estou fazendo aqui. Vim para ver se deixaram passar algo, principalmente porque soubemos que o Soldado Invernal não estava se escondendo sozinho. – ela disse séria, me analisando quando me mantive em silêncio. A compreensão tomou sua expressão. – Você? É você que está ajudando o…
— Não! Quero dizer sim… Nat, ele não fez nada, estou ajudando ele a fugir da HYDRA, estávamos juntos quando fizeram aquele atentado.
Ela parou, voltando a me analisar, procurando por alguma mentira.
… – Ela começou, um tanto hesitante. – O que exatamente aconteceu?
Pensei no que dizer e antes que eu pudesse perceber, ou me barrar, estava contando para ela. Tudo que aconteceu nos últimos dois anos e, apesar de lutar contra as lágrimas, não consegui segurá-las por muito tempo.
— Você o ama. – Natasha disse. Não era uma pergunta.
Sequei as poucas lágrimas que escaparam e concordei com um aceno.
Ela suspirou e disse, séria:
— Nesse caso, vamos tentar dar um jeito nessa situação.
E eu sabia que ela faria o que pudesse para me ajudar, mesmo que isso causasse problemas para ela, daríamos um jeito.
E qualquer que fosse o desfecho, eu seria eternamente grata por sua ajuda.

Parte 3.

 

“Nunca é tarde pra pegar uma velha história e escrever um novo final.”

 

Dois anos e meio depois.

 

Depois de toda a confusão, resolvi me aposentar da vida de agente. Abri uma pequena livraria e tentei seguir com uma vida tranquila, a única coisa que me tirava o sono era a falta que sentia de Bucky. Ainda não conseguia aceitar que ele tinha escolhido entrar naquele sono/coma induzido, mesmo depois de tudo o que tínhamos conversado e passado juntos, ele escolherá se castigar eu tinha compreendido a vontade do castigo e o medo de perder o controle, tinha conversado com Steve e ele me deixara claro os motivos, mas não conseguia aceitar.
Sai dos meus pensamentos e voltei a prestar atenção no que estava fazendo, terminei de arrumar as últimas prateleiras e me virei para minha única funcionária.
— Jess, hoje vou embora mais cedo, você pode fechar a loja para mim? – perguntei, enquanto me aproximava do balcão.
— Claro, , sem problemas. – ela disse sorrindo, terminando de fazer algumas anotações sobre o caixa.
— Obrigada! – retribui o sorriso.
Fui para os fundos da loja pegar minha bolsa, me despedi da Jess, e assim que pisei fora da loja ouvi meu celular tocando dentro da bolsa.
Olhei no identificador e o nome do Steve piscava, suspirei e atendi.
— Steve, tudo bem? – perguntei, entrando no carro e jogando a bolsa no banco detrás ao lado da cadeirinha do Jimmy.
Estou bem, , e você como está? – Steve perguntou e percebi que ele estava sorrindo.
— Estou bem… Bom, tirando o stress de cuidar da loja e… – me segurei e respirei fundo. Ficamos em silêncio por alguns minutos eu tentando achar algo para disfarçar o meu deslize e ele tentando fingir que não percebeu.
Hmm… Eu queria saber se vocês vão estar em casa hoje, queria ir ver meu afilhado. – Steve voltou a falar, animado.
— Vamos sim, você fica para o jantar? – perguntei, ligando o carro e colocando o celular no viva voz. – Estou indo pegar algo para comer e depois vou buscar o Jimmy na escolinha.
Se quiser posso ir pega-lo para você. – Steve começou me parecendo ansioso. – a chave reserva está em baixo de qual vaso?
— Não vai te atrapalhar ir buscá-lo? – perguntei, prestando atenção no caminho. –
Está embaixo do vaso azul.
Bobagem, aproveito e fico mais tempo com ele. Tem quase um mês que não consigo ir ver vocês. – ele retrucou.
— Bom, se você diz que não tem problema, vou passar no restaurante e vou direto para casa. – eu disse.
Combinado! Até mais tarde, . – Steve disse e desligou.
Respirei fundo.
Melhor começar a melhorar o meu ânimo, não quero que Steve perceba e fique preocupado. Parei em um restaurante de comida caseira, comprei três lasanhas e um mousse de chocolate de sobremesa, peguei um pouco a mais de comida já que teria a companhia do Capitão América.
Entrei no carro e tive que voltar parte do caminho para evitar pegar trânsito, o que acabou me atrasando um pouco. Acelerei o máximo que pude e logo me vi em casa. Estacionei perto da moto, em frente a uma pequena casa com jardim e assim que comecei a pegar as sacolas, a porta da frente abriu e Steve saiu sorrindo para me ajudar.
— São poucas sacolas, posso dar conta. – eu disse, revirando os olhos.
— Não me custa nada ajudar. – ele retrucou, pegando todas as sacolas e me deixando apenas com a bolsa.
Suspirando, tranquei o carro e fui atrás dele. Parei na porta ao ouvir um latido e a risada de Jimmy, fui para sala devagar, rezando para que Steve não tivesse feito o que eu achava que ele fez.
— Steve, por favor, me diga que você não tro… – parei de falar assim que entrei e vi Steve sentado no sofá sorrindo, um filhote de labrador pulando na minha direção e Bucky brincando com Jimmy. James Buchanan Barnes brincando com o Jimmy. – O que..?
Todo o nervosismo que senti na voz do Steve fez sentido, a ansiedade em buscar Jimmy na escolinha, fazer questão de vir… Olhei na direção dele, que me observava e vi em sua expressão a felicidade por finalmente poder nos reunir. Voltei a olhar na direção dos dois, tão concentrados.
Bucky mal parecia acreditar, vi a admiração e o orgulho em seus olhos enquanto observava Jimmy pegando seus brinquedos favoritos e levando até ele para lhe mostrar.
Deixei a bolsa cair e fiquei olhando desacreditada, até que Bucky e Jimmy percebessem minha presença. Jimmy veio engatinhando na minha direção, animado com o filhote correndo em volta. Me abaixei para abraçá-lo, sem tirar os olhos de Bucky.
— Como..? – tentei falar, mas parei ainda sem acreditar no que via, senti meus olhos enchendo de lágrimas enquanto me agarrava ao Jimmy.
— Ei. – Bucky disse, sorrindo ao levantar e se aproximar.
— Você… Eu… – voltei a tentar falar, mas parei sentindo as lágrimas saindo e um soluço se formando.
Ele parou próximo, também se abaixando e me encarou. Eu o vi refletido em seus olhos tudo o que eu senti enquanto estávamos separados. Ele me abraçou. Jimmy ficou no meio, bem quietinho, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo.
— Desculpe. – ele sussurrou, nos abraçando um pouco mais. – Eu não podia correr riscos em relação a sua segurança.. Perder o controle e machucá-la…
— Seu… – comecei, mas parei, tentando parar de chorar. – Nunca mais faça algo assim.. Nunca mais…
— Eu prometo. – ele concordou.

Danke¹ – Obrigado em russo.
Chester Phillips² – Um dos fundadores da S.H.I.E.L.D