Interlude

Sinopse: A trama gira em torno da vida de Greta Albuquerque, brasileira cuja vida nunca foi fácil, mas que acreditou em seu primeiro amor e acabou parando em Daegu, sozinha com uma filha pequena. Ela luta para sustentar a menina, agora adolescente, e conseguir terminar a faculdade de Química para poder finalmente pagar os gastos de uma vida mais confortável. Quase não tem tempo para si mesma, mas vez ou outra é arrastada pela melhor amiga para um lugar chamado Porão, onde todo fim de semana há uma rinha de rap, seu gênero musical favorito. Uma bela noite alguém que ela acredita cantar no Porão todos os fins de semana entra na lojinha 24 horas onde ela trabalha. Suga nunca imaginou que pudesse existir alguém em Daegu que não soubesse quem ele é, mas se encanta por aquela estranha e sua inocência.
Gênero: Romance
Classificação: +16 anos
Restrição: Fala de racismo
Beta: Thalia Grace

Capítulos:

1. It doesn’t matter
“Voltar a Daegu talvez tenha sido um erro” — pensou pela quinta vez naquele dia. Estava parado em frente à sua antiga casa, quando era apenas um garoto mala querendo dinheiro, quando percebeu que estava sendo seguido. Juntou irritação ao combo “ansiedade e melancolia” do dia. Queria um pouco de sossego para poder terminar uma música em específico e quase sempre visitar sua cidade ajudava, mas dessa vez não.

Dessa vez tinha sido seguido por algum jornalista iniciante que queria seu momento de glória cavando algum furo sobre o BTS. Passou o dia desviando do dito jornalista e da própria melancolia de não poder ir em paz a lugar nenhum na própria cidade. A paz chegou apenas tarde da noite, quando, cansado de ter apenas fotos iguais o dia todo, o jornalista desapareceu. Desconfiou desse desaparecimento repentino, então começou a usar rotas que só um morador conhecia mesmo, reencontrando o jornalista – com roupa diferente – a dois quarteirões de distância de onde havia dobrado a esquina. Estava escondido atrás de uma placa grande anunciando soju, enquanto o rapaz passava reto por aquele beco e entrava mais fundo no bairro. Decidiu que até aquele cara sumir do bairro, teria que ficar ali.

Puxou a carteira para acender um cigarro – hábito que estava tentando evitar fazia algum tempo, mas que voltava de vez em quando – e percebeu que estava sem nenhum. Procurou um chiclete. Nenhum. Olhou o anúncio de soju e esboçou um sorriso ao ver um amigo Idol todo sorridente segurando a garrafinha verde. Soju não seria ruim a essa altura do dia bosta que tinha tido. O sinal de néon à porta da lojinha indicava que estava aberta. De seu esconderijo, Suga andou no interior da loja para ver se havia muitos clientes que pudessem reconhecê-lo e percebeu que havia apenas a menina do caixa. Ela dormia abertamente com o rosto apoiado na mão e um livro enorme aberto sobre o balcão. Com sorte, ela estaria sonolenta demais para reconhecê-lo se entrasse para pegar uma bebida e um maço de cigarros. Na pior das hipóteses era uma pessoa só para pagar pelo silêncio. Tateou os bolsos da jaqueta e da calça e encontrou uma quantidade razoável de dinheiro.

Olhou para a moça novamente, estudando se valia a pena o risco ou não. A cabeça dela começou a pender para a frente. Aquele livro deve ser bem ruim para ela estar dormindo assim, pensou fascinado com a cena. Não sabia dizer o que mais chamava atenção na moça, se era o cabelo laranja, os brincos enormes, o sono solto ou a etnia dela. Não era sempre que encontrava negros em Daegu. Em Seul sim, turistas em sua maioria, mas ali era bem mais difícil. E ela com certeza não era turista.

A cabeça balançou perigosamente e ele se viu entrando de supetão na loja, fazendo barulho à porta para que ela acordasse antes que se machucasse.

— Bem-vindo! — ouviu ela gritar enquanto ele ia direto para o fundo da loja, rindo da cara de susto e do grito. O bom-humor acabou quando a rádio da loja começou a tocar Cypher e ele ouviu a voz melódica e cheia de sotaque da moça cantando. Abaixou o boné o máximo que conseguia e voltou a tatear os bolsos a procura da sua máscara infalível, exceto que ela não estava ali mais.

Bufou irritado, olhando à sua volta no chão, cogitando até sair da loja sem nada, mas lembrou-se do jornalista e ele seria pior do que uma fã. Esticou o pescoço para ver o que a moça estava fazendo e a encontrou olhando num espelho pequeno ao lado do computador, cantando verso por verso a parte de RM. Para uma não-coreana, até que ela mandava bem no rap. Pegou duas das garrafas verdes e um fardo da primeira cerveja que reconheceu, indo para o caixa com a cabeça abaixada, tentando evitar as câmeras que haviam ali.

Deu de cara com a moça fazendo careta durante o refrão da música. Franziu a sobrancelha, confuso, colocando suas compras sobre o balcão, preparado para o momento de reconhecimento.

— Desculpe, eu as vezes me empolgo com a música. — falou a guisa de desculpas. Ele apenas puxou a gola da jaqueta para cima, tentando não dar muita importância ou aproveitar aquela
abertura para elogiar o coreano dela, mesmo cantando rap. Abaixou o boné mais um pouco e resmungou qualquer coisa.

— Só isso?

— E um maço de cigarros. — respondeu disfarçando a voz e apontando o balcão atrás dela, com cigarros de muitas marcas e isqueiros de todos os tipos. Deveria pedir um também, mas não ia realmente fumar já que estava tentando parar. Ia apenas colocar na boca e matar aquela vontade psicológica sem que seu pulmão sofresse no processo. Desviou o olhar para fora, lembrando de repente do jornalista.

— Olha, se for me assaltar, tem como você não fingir que vai pagar por tudo isso e só pedir o dinheiro? Sério, eu não vou ligar para a polícia, só não me faz perder tempo, sabe. — ele soltou a gola da blusa e a olhou espantado, finalmente a encarando de frente.

— O que? Não, eu não vou te assaltar! Vou pagar! Quanto deu?

Mas ela não parecia muito confiante disso. Se viu através do pequeno espelho ao lado dela e se deu conta de que parecia um maluco mesmo. Eram só os dois na loja, não precisava bancar o esquisito por medo dela reconhecê-lo. Ela o olhava com atenção, franzindo a testa e os olhos e se esticando toda no balcão para tentar ver de mais perto. “Pronto, agora ela me reconheceu” – pensou.

— Eu tenho a impressão que te conheço…

— Não, não conhece. Quanto deu, moça? — cortou antes dela concluir o próprio raciocínio. Podia ouvir claramente as engrenagens da mente dela começando a funcionar naquela madrugada, totalmente desperta.

Ela estava disposta a se lembrar de onde ela conhecia aquele rosto e aquela voz. Bateu a mão no balcão com força, se lembrando e, consequentemente, assustando-o. Ele deu um pulo no mesmo lugar, soltando um suspiro. Ia precisar ir embora sem bebida, sem cigarro e, provavelmente, sem dinheiro.

— Você é o cara que canta rap lá no Porão, não é?

— Porão?

— É! Na esquina com a treze? — perguntou, distraída demais para ver o desespero dele de ir embora. — É sim! AUGUST, NÃO É?

— August? — perguntou confuso. Jurava que ela ia reconhecê-lo do BTS. Quem diabos era August? O nome do alter ego era Agust! E o que raios era Porão? — Moça, olha, só me dá logo o cigarro e pega o dinheiro, eu to meio com pressa. Não preciso nem levar a bebida.

— Ah, desculpa, desculpa. Eu deveria me comportar. Desculpa. É que eu me empolgo. Desculpa mesmo, eu achei que você era um desses malucos que aproveitam a madrugada para roubar qualquer lojinha de conveniência aberta. Não é todo dia que alguém do Porão vem aqui, sabe? É o mais perto que vou chegar de uma celebridade, entende? Mesmo que seja uma celebridade nível Porão. — explicou, passando as bebidas e o cigarro no leitor do caixa.

— Eu não sei do que…

— Certo. Finge que eu não falei nada. Sábado a gente se vê no Porão. — falou sorrindo. — São $22. — concluiu.

— Só?

— Só. — respondeu com simplicidade. — Achou que eu ia te extorquir? Vou fingir que você não é o melhor rapper do Porão, fica tranquilo. — A cara de espanto e incredulidade que ele lhe deu em resposta arrancou um sorriso sincero. — Até sábado! — completou assim que ele saiu.

Quinze minutos depois ele ainda olhava a fachada da loja pelo lado de fora. Tinha voltado ao seu esconderijo atrás do anúncio de soju e observava a moça lá dentro. Ela parecia mais empolgada do que nunca, cantando mais um rap do grupo em alto e bom som. Tinha certeza absoluta de que ela o reconheceria como Suga, mas ao invés disso o chamara de August.
August? Desviou os olhos dela para ver o próprio reflexo na mesma vitrine por onde olhava.

Não chegava nem perto de como ficava caracterizado quando cantava como Agust D, então não era o alter ego que ela havia mencionado. Olhou de novo para ela, sorrindo sozinha e se pegou sorrindo também. Havia alguém no mundo, corrigindo, alguém em Daegu, que não sabia quem ele era. Ou quem Agust D era. A não ser que aquele August fosse algum sósia usando seu nome e sua imagem sem que a empresa soubesse.

Abaixou-se imediatamente, assustado porque ela tinha acabado de olhar em sua direção enquanto cantava e dançava sozinha. Seu coração batia acelerado, provavelmente com medo de que ela achasse que ele era um stalker qualquer. Mas ela nem parecia tê-lo visto, estava falando ao telefone.

— Você não sabe quem eu acabei de atender na loja. — começou, sorrindo para o nada. Yoongi sorriu junto com ela sem perceber. — Não! Depois você dorme, você é rica! FOCO KANG YUN HEE! O que? Tá… prometo. Tá! Mas só porque foi alguém de lá. — respondeu parando de costas para a porta da loja, distraída. — É, é alguém que você conhece. Adivinha? Ele canta rap, é bonito e fala mais rápido que nós duas juntas. — continuou. — Não!! Não é o King. Aquele cara não canta nada! Tá, você é péssima. Atendi o August. — completou. Ficou quieta um tempo e depois jogou a cabeça para trás numa gargalhada que arrancou outro sorriso de seu espião. — Agora você acordou, né? Pois quem quer ir ao Porão agora sou eu. Sábado. Leva aquela jaqueta preta estilosa? Tá. Beijo. Boa noite. — desligou.

Yoongi ficou ali mais um tempo, esperando ela se distrair de novo para poder sair de seu esconderijo. A moça voltou para o livro enorme que estava lendo no começo e torceu o nariz para ele antes de voltar a folheá-lo. Foi a oportunidade perfeita para ele sair dali. Por segurança pegou outro caminho para voltar ao apartamento que tinha na cidade, mas não viu sinal do tal jornalista. Vir a Daegu não tinha sido uma completa perda de tempo, pelo visto. Agora ele tinha um lugar para conhecer e se tivesse problemas era só dizer que tinha a ver com música, porque no fim das contas tinha mesmo.

***

Como sempre, chegou em casa depois das duas da manhã. Estava morrendo de sono, mas ainda tinha alguns mecanismos de reação para concluir antes de ir para a cama. Sentiu o cheiro de bacon dobrando a esquina do quarteirão onde o prédio pequeno em que morava ficava. Micha estava acordada, tinha certeza. Seu estômago respondeu assim que parou à porta e o cheiro de bacon ficou mais forte.

— Eu espero que a senhorita tenha uma explicação muito boa para estar fora da cama a essa hora. – falou assim que entrou e tirou os sapatos. — E outra para estar fritando bacon de madrugada. Quer que a senhora Kim nos expulse? — seguiu o cheiro de bacon pela pequena cozinha que também fazia as vezes de sala e deu de cara com a filha de costas, nas pontas dos pés, tirando uma omelete de uma frigideira gigante. O cabelo caía comprido abaixo da cintura, com cachos bem mais definidos do que Greta jamais sonharia em ter.

Micha desceu do tablado e se virou para a mãe segurando a frigideira ameaçadoramente. De onde ela havia puxado aquela marra?

— Eu espero que a senhora tenha terminado sua lista de exercícios. — respondeu usando o mesmo tom de Greta, desviando o olhar e servindo a omelete num prato grande já guarnecido com mais bacon e uma porção grande de arroz branco.

— Faltam só dois exercícios. Consigo terminar am..

— Se você disser “amanhã” eu vou jogar esse ovo no lixo. — respondeu ela. Greta fechou a boca e um zíper invisível com medo da própria filha.

— Ok.

— Você comeu?

— Não deu tempo. — respondeu, tirando a jaqueta e se sentando à mesa para comer. — Hoje eu conheci uma pessoa famosa! — contou. Era quase como se estivesse esperando para contar aquilo. Micha revirou os olhos.

— Famoso? Em Daegu? Só se for o Suga.

— Quem é esse mesmo?

— Mãe! É um dos que cantam Cypher! — respondeu indignada. Greta riu.

— Não é ele, mas me lembrou da música também, porque ele também faz rap. Ele canta lá no Porão.

— Onde a tia Yun Hee te leva para ver se arruma um namorado?

— É! — respondeu automaticamente, mas se corrigindo logo em seguida —- EI! EU NÃO ESTOU A PROCURA DE NAMORADO!

— Tanto faz, mãe. Coma um pouco e termine seu exercício. Tem outro prato desses na geladeira, caso a fome seja maior do que você. — respondeu dando de ombros.

— Nossa, não vai nem perguntar se tirei foto com o cara…

— Você tirou?

— Não. Mas…

— Você nunca tira, mãe. Vive dizendo para respeitar a vida particular deles, por isso que eu não perguntei. Eu sabia que não tinha tirado. Nem se fossem todos os meninos do BTS, eles mesmos, você não tiraria a foto. Imagine um cara que canta no Porão. — falou em tom de cansaço. Greta fez um biquinho e comeu um pedaço minúsculo de bacon, deixando a filha com peso na consciência. — Ele é legal, pelo menos? — perguntou.

— Mais ou menos, estava com um pouco de pressa e ficou escondendo o rosto o tempo todo. Teve uma hora que eu achei até que ele ia roubar a loja, de tanto que ele evitava a câmera. Acho que a fama meio que já subiu, sabe?

— Isso porque ele só é famoso em Daegu. Ainda bem que não tirou, então.

Greta ficou encarando a filha de onze anos, impressionada. Passou a mão de leve no cabelo solto da filha e sorriu.

— Você é maravilhosa, sabia? — sentiu o coração aquecer com o sorriso que recebeu. — Eu sou muito sortuda de ter você como filha, não sou? Você não está cansada? Deveria estar dormindo, tem escola amanhã.

— A primeira aula é Ciências, tá tranquilo. — respondeu tirando o pesado livro de Orgânica da bolsa da mãe e abrindo-o para conferir se ela tinha mesmo resolvido os exercícios. — Esses dois que você deixou? — perguntou, apontando dois exercícios circulados a lápis. Greta concordou com a cabeça, a boca cheia de comida. — Não são da lista. Sua professora só pediu até esse… — apontou um exercício na página anterior. — Dele em diante não precisava fazer. Muito bem, dona Greta, já adiantando os estudos. Estou orgulhosa.

Greta sorriu, fingindo importância e encheu a boca de arroz, segurando a vontade de agarrar a filha e apertá-la num abraço sufocante. Desde que ela completara onze anos não deixava mais, dizendo que já não era criança, então ela se segurava. Em resposta, surpreendendo as duas, Micha se aproximou e abraçou a mãe pelo pescoço.

— Agora que você comeu e estudou, vou dormir. Te amo.

— Também te amo, pequena. Obrigada pela comida. Amanhã quero a mocinha dormindo quando eu chegar, ok?

— Ok. Boa noite. — concordou com a cabeça e beijou o rosto da mãe. Não conseguia evitar de querer esperá-la, quase como se precisasse daquele contato para considerar o dia completo.

Deitou-se na cama de casal que dividiam e suspirou. Queria ter o próprio quarto. Queria não ter que gastar o tempo destinado ao segundo período na igreja por não ser aceita em clube nenhum. Queria não ter que fazer as horas do segundo período lá, assim não precisaria esperar a mãe até às duas da manhã para vê-la e muito menos bancar a mãe dela por causa da faculdade. Queria poder viver a idade que tinha. Colocou fones de ouvido e deixou a mente ir embora ao som de Mikrokosmos. Tudo ia melhorar assim que a mãe se formasse, ela tinha certeza. Riu ao imaginar Greta surtando sem poder tirar foto com o pseudo-famoso que havia encontrado na lojinha e pegou no sono pouco antes de imaginá-la conhecendo o BTS.

2. 2 cool 4 skool
— Tá tudo bem, Michelle-ssi? — a menina fingiu não ouvir a pergunta da irmã Sarah por conta dos fones de ouvido. Estava de olhos fechados pensando em como sua vida seria diferente se a mãe tivesse voltado para o Brasil depois que o pai dela a abandonou grávida em Seul.

Gentilmente a freira colocou uma mão no ombro da menina para que ela acordasse. Micha finalmente abriu os olhos e tirou os fones de ouvido. Odiava passar aquele período na igreja.

Deveria estar na escola participando de algum dos inúmeros clubes que agora poderia fazer parte por conta da idade. Mas também odiava a escola porque era onde mais pensava nesse pai invisível que nunca a quis.

— Aconteceu alguma coisa, Micha? — perguntou a freira de novo, usando o nome coreano da menina. — Você anda muito quieta ultimamente. Nem ficou feliz com a notícia de que um dos garotos do BTS estava em Daegu.

— Não é nada, irmã Sarah. Estou com sono…

Mas a freira percebeu as unhas roídas e os pés balançando nervosamente sob a mesa que usavam para que as crianças fizessem o dever de casa. Ficou quieta fingindo que continuava sua leitura, observando a menina de canto de olho. Micha era uma menina extrovertida na maioria das vezes, tinha conversa fácil e amava servir de guia e ajudante para as crianças novas, como se fosse muito mais velha do que realmente era. Ela sabia que isso era apenas um disfarce, um jeito de esconder a insegurança por ser diferente das outras crianças ali.

Apesar de não aparentar ser estrangeira, como a mãe, Micha chamava atenção pelo tom mais escuro da pele e os cabelos naturalmente cacheados contrastando com os olhos caracteristicamente coreanos. Depois de um tempo Micha soltou um suspiro alto, olhando para o teto, fazendo a freira sorrir. Ser apática não era da natureza dela e ela sabia que muito em breve a menina começaria a falar, só precisava de tempo para organizar as idéias.

— Queria que tivesse sido ele o cara que a minha mãe encontrou ontem.

— Quem?

— O Suga. — ficou quieta de novo, pensando na mãe e no tal “cara famoso” que ela tinha atendido na lojinha.

— O que houve, Micha?

— Irmã… — começou, ainda olhando para o alto. Não sabia como formular as inseguranças que vieram naquela manhã. Tinha dormido mal, sonhando com o tal cara famoso. No sonho, ele tentava conquistar Greta e levá-la embora, deixando Micha para trás porque ela era coreana demais para ser aceita na família brasileira e brasileira demais para ser aceita na família dele. Acordou suando frio, pensando que se o pai não tivesse sido um idiota, ela não precisaria se preocupar em proteger a mãe de outros homens e que se o cara famoso fosse o Suga, ela não precisaria se preocupar em ser deixada para trás, porque ele era um dos poucos homens que ela conseguia admirar sem se sentir insegura. — Acha que eu seria aceita numa família coreana? — perguntou finalmente encarando irmã Sarah, segurando um lado do foninho de ouvido entre os dedos, nervosa.
A freira se virou completamente para a menina, encarando os cabelos cacheados e os olhos escuros. Micha era uma menina muito bonita, mas não parecia coreana mesmo com aqueles olhos. Alguém de fora diria que ela era de alguma ilha próxima à Tailândia, mas não coreana. E as famílias coreanas costumam ser mais fechadas com relação a estrangeiros. Mais ainda se ela for mãe solteira como a mãe de Micha.

— Sua mãe arrumou um namorado? — perguntou.

— Não… — respondeu a garota com os pensamentos perdidos. — Ainda não…

— Mas ela conheceu alguém… que pode vir a ser um dia? — perguntou.

— Não sei… eu só… Deixa pra lá. — a menina abriu um sorriso grande para a freira. Era sempre assim, quando Micha começava a se abrir sobre seus medos e percebia que havia dito demais, voltava a se fechar e se esconder atrás de sorrisos e brincadeiras, aproveitando muito bem de ter o rosto angelical capaz de derreter qualquer coração adulto. — Posso ir embora mais cedo, hoje? Quero fazer uma surpresa pra minha mãe.

— Vou pedir ao Thomas para te acompanhar.

— Não precisa! — se adiantou. Não gostava de andar com Thomas, ele vivia lhe lembrando que era ainda muito nova. Como se ter treze anos fosse alguma vantagem para ele.

— É melhor. Sua mãe não gosta que ande sozinha.

Segurava a mochila com força, rezando para JiYoung não estar disponível para ir com ela para casa. Não que desgostasse do garoto, só estava cansada demais para as implicâncias dele por conta da idade dela e por sempre ser escalado para ajudá-la, mesmo sem ela ter pedido. Era a única na comunidade da igreja que não o chamava de Thomas, achava que o nome cristão não combinava em nada com ele.

Sua prece não foi ouvida e quinze minutos depois da irmã Sarah ter autorizado sua ida para casa, ali estava JiYoung com um sorriso convencido no rosto e a própria mochila nas costas. Micha sentiu vontade de pedir para a mãe mudar de prédio, assim não teria que fazer aquele caminho com ele nunca mais, mas não tinham dinheiro e ela sabia disso, então apenas se conformava.

— Por que precisa ir mais cedo? — JiYoung perguntou depois de ter certeza que estavam longe demais para a irmã Sarah ouvi-los.

— Não te interessa.

— É por causa do BTS?

— O que tem eles? — perguntou Micha curiosa a contragosto.

— Uau, é a única army em Daegu que não sabe que o Suga está na cidade? — perguntou com ares de importância. Parou por um tempo e tirou o celular da mochila, mas teve que correr para alcançar Micha porque ela continuou andando. — Aqui… saiu no jornal e tudo. — mostrou um vídeo no celular com uma foto aleatória de Suga e a manchete sobre sua presença na cidade.

— Isso não quer dizer nada. Essa foto nem é atual. — desdenhou ela.

— Ah, então acho que pensei errado. Achei que tivesse mentido pra irmã Sarah porque ia vê-lo em frente ao restaurante do irmão dele… Ouvi dizer.. EI, MICHA! — gritou, vendo ela correr a frente, a mochila balançando loucamente as costas. — Droga! — e correu para alcançá-la.

* * *

— Pode me fazer um favor, Gleta?

— É trabalho?

— É.

— Paga bem?

— Paga.

— Então posso.

Foi assim que ela foi parar ali naquele restaurante aleatório no centro. O lugar estava absolutamente abarrotado de pessoas a porta, como se do nada toda a cidade precisasse comer ali.

Saiu do vestiário amarrando o avental às costas, pronta para receber as instruções do supervisor junto aos outros funcionários. Mais um bico em meio a tantos apenas para conseguir mais um pouco de dinheiro para conseguir pagar a faculdade e a escola de Micha.

— …Se perguntarem, vocês não sabem nada sobre o assunto. Entenderam? — chegou a ouvir. Era o final do discurso.

— O que a gente não sabe? — sussurrou para HyeJin quando se aproximou da moça. Se conheciam da faculdade e eram as únicas que trabalhavam para poderem se sustentar. Foi ela que arrumou aquele bico no restaurante.

— Se o cara do BTS veio ou não comer aqui.

— Tem um cara do BTS que viria aqui? — perguntou surpresa. Micha ia amar ouvir isso quando contasse. HyeJin a olhou indignada.

— Nem parece que você tem uma filha army. — respondeu estalando a língua desacreditada. — O dono do restaurante é irmão do Suga. — completou em tom conspiratório.

— Aaaahh. — respondeu.

— Você não faz idéia de quem seja, né? Tudo bem, não precisa mesmo. Quanto menos souber, melhor. Vamos trabalhar.

Greta prendeu o cabelo e deu exatos sete passos até o setor de mesas que deveria cuidar quando alguém parou a sua frente impedindo-a de atender a única mesa com cliente.

— Onde vai? — perguntou o supervisor.

— Atender aquele clien..

— Não precisa. Você deveria ficar na cozinha, achei que tivesse deixado claro. — interrompeu.

Parecia determinado a não deixar que ela fosse atender o cara sentado sozinho, de costas para ela e o resto do restaurante. Greta o encarou e entendeu o olhar dele melhor do que gostaria. Ele a olhava da cabeça aos pés, parando o olhar no cabelo preso num coque laranja e depois no rosto dela por mais tempo do que ela acharia saudável.

— Cozinha… Sei. — respondeu com um olhar de nojo igual para ele. Com raiva ela desamarrou o próprio avental, tirou o elástico do cabelo e jogou na cara do garoto. O cabelo imediatamente assumiu a forma natural dele, os cachos se armando como se respondessem ao sentimento de raiva dela. — Eu não preciso dessa merda!

— Aonde você vai!? — perguntou HyeJin quando passou por ela.

— PRA PUTA QUE PARIU! — gritou em português.

Vivia na Coreia há pelo menos dez anos e mesmo assim não conseguia se acostumar com situações parecidas que vez ou outra aconteciam com ela. No começo era ainda pior, mas aos poucos as pessoas no bairro onde ela morava, na faculdade e até perto dos empregos fixos se acostumaram com a sua presença. Não era o caso das pessoas no centro da cidade, menos ainda daquele supervisor.

— Cozinha… fala sério. — sussurrou, sentindo os olhos arderem, mas se recusando a chorar.

HyeJin a alcançou quando já estava fechando o armário.

— O que aconteceu?

— Nada. — respondeu. A moça não tinha nada a ver com o assunto, mas naquele momento estava com raiva até dela por ter sugerido aquele bico. — A gente se fala na aula amanhã. — completou, dando um sorriso forçado e saindo. Não reparou na briga entre o cliente e o supervisor quando saiu.
Ainda tentava segurar as lágrimas.

3. Adult Child

Micha queria ver o Suga. Por isso corria até o restaurante que ela sabia pertencer ao irmão dele. Estava acostumada a receber notícias falsas da imprensa de Daegu, porque eles viviam tentando um furo jornalístico dele ou de Taehyung. Mas ver JiYoung falando dele como se soubesse mais do que ela a fez correr para conferir.
A primeira coisa que viu foi Greta saindo do restaurante do outro lado da rua. Depois sentiu JiYoung trombando consigo por não conseguir parar a tempo quando a alcançou finalmente. Micha não sabia se atravessava a rua e ia falar com a mãe ou se escondia em meio a multidão porque estava onde não deveria num horário que normalmente estava na igreja. Antes que tomasse uma decisão, no entanto, um rapaz muito bem vestido saiu do restaurante atrás de Greta. Pelo uniforme e elegância a menina imaginou que fosse o chefe dela, mas não a alcançou, mais por não querer do que por ter tentado de verdade. Foi isso que fez a menina se decidir e ir atrás da mãe.
— Aquela é a sua mãe? — perguntou JiYoung parando ao lado dela e tentando recuperar o fôlego. Não teve tempo de muito mais coisa, Micha saiu logo em seguida para alcançar a mãe. — EI, MICHA, OLHA É O SUGA! — gritou ao ver o rapper saindo do restaurante pouco depois do outro cara. Mas Micha não ouviu, estava quase alcançando a mãe.
Greta sentia a vontade de chorar ganhando proporções maiores do que gostaria. Ainda teria que ir trabalhar na lojinha a noite e não tinha estudado nada. Quanto mais pensava, mais raiva sentia de ter topado aquele bico no centro. Se não fosse a certeza de que aquele trabalho ia pagar bem, nem teria aceitado o convite, mas pensava em Micha e na vontade de ter um quarto só para si, um computador só para si, uma vida de adolescente normal só para si.
Parou na esquina, tentando recuperar o ar e a sanidade e sentiu alguma coisa trombar em suas costas.
Virou-se a tempo de ver o cabelo cacheado da filha ocupando todo o campo visual quando ela a abraçou.
— Micha! O que houve? — olhou para trás dela, em direção ao restaurante e viu JiYoung correndo para alcançá-las.
— Oi, ahjumma. — cumprimentou quase sem ar.
— Por que não estão na igreja? — perguntou olhando dele para a filha e esquecendo completamente que estava prestes a começar a chorar.

— A irmã Sarah me deixou sair mais cedo. Queria te fazer uma surpresa. — respondeu com um sorriso brilhante. Greta não resistiu e sorriu de volta.
— Surpresa? Mas por que veio para o centro?
— Ela veio ver o Suga, ahjumma. — respondeu JiYoung. Micha o encarou com raiva, desejando que ele engolisse a própria língua antes de falar mais do que deveria.
— Fica quieto. — sibilou. — Eu vim ver a senhora, mãe. — Você ia trabalhar naquele restaurante?
— Não. — mentiu. — Vim ver uma amiga que vai trabalhar ali hoje. Se veio pelo Suga, sinto em lhe dizer mas ele não estava lá… eu entrei no restaurante. Só tinha cliente normal… — explicou. Micha duvidou que a mãe reconheceria o cantor mesmo que ele aparecesse de frente para ela e puxasse conversa, mas sorriu assim mesmo.
— Qual era a minha surpresa? — perguntou curiosa.
— Eu ia fazer brigadeiro. — mentiu Micha. Greta sabia que era mentira, mas fingiu acreditar assim mesmo. Passou o braço pelo ombro da filha e a puxou para andarem juntas. — Então vamos para casa comer brigadeiro. Thomas, vem com a gente? — chamou. O menino parecia indeciso entre voltar para o restaurante e conferir se era verdade que Suga não estava lá ou ir com elas.
— O que é bligade-lo? — perguntou, andando atrás das duas.
— É o melhor doce do mundo. — respondeu Micha.
— É um doce lá da minha terra. Você vai gostar. Não existe criança no mundo que vá achar brigadeiro ruim.

***

— Vai direto para casa depois?
— Direto para casa, fazer a lição e dormir. Prometo.
Greta esticou o dedinho para a filha e as duas selaram a promessa com os dedinhos cruzados e os dedões se tocando. As duas balançaram a cabeça em concordância, como se aquilo colocasse um fim na questão. Micha tinha ido com Greta até a lojinha de conveniência depois de passar o resto do dia andando atrás da mãe onde quer que fosse, como se sentisse que ela precisava dela mais do que nunca.
Para Greta aquilo foi um bálsamo inesperado num dia doloroso. Tinham passado a tarde de “folga” comendo brigadeiro e rindo das tentativas de JiYoung de cantar rap antes de ir para a própria casa. Depois viram um filme juntas e se arrumaram juntas para o segundo turno de trabalho da moça. Um dia raro em meio a muitos onde se viam apenas de manhã antes de Micha ir para a escola e Greta para a faculdade.
— Tranque a porta por mim, qualquer coisa eu digo que estava no banheiro. — sussurrou para a filha enquanto virava a câmera do caixa para um ângulo menos comprometedor e prendia o próprio cabelo, colocando um boné preto e uma jaqueta que caberiam duas dela. Foram até o fundo da loja, de onde podiam ver a janela grande que emoldurava as mesas vazias naquele horário, mas pouca gente conseguiria ver de fora caso estivesse de passagem.
A batida começou antes mesmo da menina voltar, o que fez a mais velha sorrir porque significava que a loja já estava trancada. Cypher pt. 3 começou e Micha apareceu por entre as prateleiras ao mesmo tempo que as linhas de RM começavam. Num coreano de dar inveja, a menina imitou o cantor, usando um vidro de catchup como microfone. Greta dançava no mesmo lugar, fazendo pose de rapper e gingando junto com a filha. Ela deixou a parte de J-Hope para descansar e recuperar o fôlego, cantando apenas um verso ou outro, mas assim que o refrão começou as duas cantaram juntas.
Na parte de Yoongi foi a vez de Greta usar uma garrafa de soju vazia como microfone. Fechou os olhos e se deixou levar pelo rap acelerado, balançando o corpo no mesmo ritmo até chegarem de novo ao refrão que cantou com a filha aos gritos. Era um jeito ótimo de extravasar a raiva. Raiva por ser estrangeira num país racista. Raiva por ter se deixado enganar pelo pai de Micha antes de sair de São Paulo. Raiva por saber que se era ruim na Coreia, pior ainda no Brasil. Raiva por ter que se submeter a sub-empregos para poder manter as duas. E acima de tudo, raiva dos racistas.
A música podia ser ouvida a quase um quarteirão de distância, mas ela não estava se importando muito. O lado bom de trabalhar num horário com poucos clientes era que podia se dar a esse luxo de vez em quando. E se fosse repreendida, diria que o botão emperrou enquanto ela tinha ido ao banheiro. Já tinha funcionado uma vez.
Do lado de fora da lojinha, escondido atrás de um anúncio de soju, estava Suga, ali era o único ponto que permitia ver o que estava acontecendo dentro da loja. Combinando com um gorro de lã que lhe cobria o cabelo e as orelhas, ele usava sua máscara infalível dessa vez e sorria balançando o corpo junto com as duas.
Ficou impressionado com o fato de ambas conseguirem repetir palavra por palavra dos raps cantados. Tinha reconhecido o cabelo laranja assim que a moça xingou no restaurante. Entendia o por quê delas terem escolhido justo aquela música para extravasar a raiva. Em sua defesa, quando percebeu o que havia acontecido, já era um pouco tarde.
— O que aconteceu? — perguntou ao maitre depois de ouvir o grito enfurecido da moça saindo. Apesar do uniforme do restaurante, ele reconheceu o cabelo assim que o viu.
— Nada, senhor. Só um mal entendido entre os temporários.
— Que mal entendido? — perguntou o irmão de Yoongi, aparecendo por conta da comoção.
— Uma funcionária que deveria ter ido para a cozinha e acabou se confundindo e indo para o restaurante, senhor.
— Na cozinha? Por ordem de quem? — perguntou. — Não pedi auxiliares na cozinha, pedi apenas um reforço entre os garçons.
Ele e Yoongi cruzaram os braços de modo semelhante e encararam o maitre, curiosos. O garoto ficou visivelmente nervoso e passou a gaguejar desculpas incoerentes e aleatórias para justificar ter mandado Greta para a cozinha. Para Yoongi ficou claro que o rapaz havia decidido por conta própria — e por um motivo inaceitável — colocar a moça na cozinha ao invés de atendê-lo. Era o setor onde ele estava sentado que ela deveria atender.
— Acho que houve um erro de comunicação, senh…
— Chame a moça de volta. Vou ser atendido por ela. — interrompeu Yoongi. A cor do rosto do rapaz, que ele escondia muito bem com bastante base mais clara, sumiu.
— Eu… eu… ela.
— Ela o que?
— Ela foi embora, senhor. — se intrometeu HyeJin sem poder se conter. Estava ouvindo de longe.
Observando a moça ali, horas depois, cantando Cypher a plenos pulmões com uma garotinha, ele entendia a raiva dela. Ia pedir desculpas em nome do irmão e do restaurante, era o mínimo que poderia fazer.
Desde que ela o reconhecesse.
As duas dançavam e cantavam sincronizadas, como se já tivessem feito aquilo muitas vezes e quando ele percebeu, estava dançando no mesmo lugar junto com as duas. Pensou em entrar e participar, mas viu o símbolo do BTS na blusa que a garotinha usava. Ela com certeza o reconheceria, mesmo que a mais velha milagrosamente não conseguisse, então resolveu esperar mais um tempo. Já estava anoitecendo, eventualmente ela iria embora.
Dentro da loja, depois de cantarem pela última vez o refrão, Greta e Micha gritaram juntas o verso final e se abraçaram rindo. Micha apertou a cintura da mãe e afundou o rosto em seu colo, feliz por terem passado aquela tarde juntas, mesmo que com a companhia de JiYoung por um tempo. Fazia séculos que não comia brigadeiro e mais tempo ainda que não cantava nada com a mãe. Serviu para aliviar sua ansiedade e tinha certeza que tinha feito a mãe esquecer o que quer que a tivesse magoado naquele restaurante.

— Ta melhor? — perguntou em português. O trato era falarem português só dentro de casa, mas estavam sozinhas e num momento de intimidade, não conseguia não falar naquela língua.
— To sim, Pequena. Obrigada. — respondeu Greta acariciando o cabelo cheio da filha e sorrindo. Micha era o melhor presente que Deus havia lhe dado, tudo valia a pena desde que elas estivessem juntas. — Mas agora a senhorita tem que ir direto para casa. Vou te pedir um táxi.
— Mas são três quarteirões! E a gente não tem dinheiro!
— Não quero a senhorita andando sozinha pela cidade. Ou você prefere que eu ligue para o Thomas?
— Taxi! Vou de táxi. — exclamou soltando a mãe e guardando o vidro de ketchup no lugar.
Depois que a menina foi embora Greta ficou com vontade de fechar a loja mais cedo e encher a cara.
Mas tinha dois problemas: um — a loja não era sua; dois — ainda tinha algumas horas até poder fechar mesmo.
Assim que a menina saiu e o sinal da lojinha voltou a indicar que estava aberto, ele entrou. Não sabia o que comprar para usar como desculpa, mas continuava curioso sobre aquela moça. Ela não parecia saber nada sobre ele, no entanto sabia cantar Cypher parte 3 — a parte dele, ainda por cima — palavra por palavra e isso o intrigava ainda mais do que qualquer outra coisa.
Greta estava distraída no caixa quando ele entrou, tirava o boné e ajeitava o cabelo num coque lateral porque agora o cabelo estava quase sem cachos por conta do acessório. Manteve o blusão e a pose hip hop para continuar na vibe da música que ela e a filha haviam cantado. Passar o dia com Micha foi o lado bom de ter passado pela situação constrangedora de mais cedo. Era ela que fazia cada um dos obstáculos que superou valerem a pena. Tinha decidido ficar na Coreia por não ter uma situação muito melhor em São Paulo. Por mais que lamentasse ter se envolvido com o pai de Micha a ponto de largar tudo e mudar de continente, a vida que levava ali ainda era um pouquinho melhor que a que tinha antes. Ganhava pouco, mas o suficiente para mandar pelo menos um pouco de dinheiro para a mãe e as três irmãs menores que ficaram para trás no Brasil. E homem era um animal escroto em qualquer lugar do mundo, ia sofrer independente do país.
Yoongi andou pelos corredores estreitos da lojinha pensando no que pegar para finalmente poder ir ao caixa. Espiava Greta por cima do ombro, esperando um sinal de que ela o vira entrar, mas ela continuava distraída com o celular. Dali ele viu as caretas de indignação que ela lançava para o aparelho, provavelmente lendo alguma coisa. Ficou inseguro se deveria ou não se aproximar.

HyeJin: vc deveria ter ficado, deu briga depois que saiu.
Greta: briga? pq?
HyeJin: pq o dono do restaurante percebeu que o cara tinha feito merda. o cliente que vc ia atender pediu para ser atendido por vc, mas já era tarde.

Greta soltou um muxoxo em voz alta, revirando os olhos. Uma promessa que havia feito no dia que Micha nasceu era que não ia se submeter a situações humilhantes nunca mais. Mesmo que fosse contratada efetivamente, não voltaria àquele restaurante. Nem que o próprio dono pedisse.

Greta: pois é. Agora é tarde.

Colocou o celular de lado e passou a mão no rosto algumas vezes, suspirando cansada. Timidamente Yoongi saiu de um dos corredores carregando dois pacotes de lámen e foi até o caixa. Não tirou a máscara, mas também não tentou esconder o rosto com o gorro como na primeira vez. Qualquer army saberia quem ele era e queria ver se aquela moça ia ser assim.
— Boa noite. Quer aproveitar a promoção e levar um pacote de… — os olhos dos dois se cruzaram e ela parou de falar, franzindo o cenho.
“É agora.” — pensou Yoongi.
— Voltou rápido! Ainda vai cantar sábado no Porão? — perguntou abrindo um sorriso.
Ele ficou mudo, sem saber o que responder. Ainda não tinha descoberto o que diabos era Porão e muito menos quem era esse cara com quem ela vivia confundindo.
— Gostei dos brincos, dão um ar mais artístico… — comentou apontando para as jóias dele. Falou o valor do que ele havia comprado e ficou observando os olhos dele, única parte que conseguia ver por conta da máscara. Suga pagou sua compra e continuou mudo, parado no caixa encarando aquela moça peculiar.
Apesar do sorriso aberto e bonito que ela dava, percebeu a tristeza e o cansaço em seu olhar. Não sabia como se desculpar pelo ocorrido no restaurante, nem como contar que ele não era exatamente quem ela achava que era. Greta, por sua vez, arqueou as sobrancelhas, curiosa do por que aquele cara continuava ali, parado a sua frente sem dizer nada. Quanto mais ela olhava, mais familiar ele lhe parecia.
— Ok, então… — murmurou fingindo que ia fazer outra coisa.
— Você está bem? — perguntou Yoongi se supetão. — Parece cansada…
— Ah, trabalho, né? Mas vai passar. Uma hora passa. — respondeu vagamente, sorrindo de novo. — Precisa de mais alguma coisa?
Sem saber o que dizer, ele pegou a sacola e saiu da loja. Não deveria ter entrado. Tinha se arriscado por nada, ela continuava sem reconhecê-lo e por mais que tivesse perguntado, era óbvio que ela não ia dizer o que se passava para um estranho. Soltou um suspiro e ajeitou a máscara antes de dobrar a esquina. Deu de cara com a garotinha e estava bem claro que ela havia reconhecido.

 

4. Dope
— Ahjussi, espera um pouquinho? Esqueci uma coisa. — falou depois de revirar a mochila pela terceira vez. Micha tinha esquecido o celular entre os vidros de ketchup quando pegara um deles para usar de microfone. O motorista do táxi concordou com a cabeça, soltando um suspiro porque sabia que aquela corrida não ia valer a pena por conta da proximidade. — Vou deixar a mochila aqui. É rápido. — murmurou Micha antes de bater a porta do carro e correr em direção à porta da loja. Fez menção de entrar, mas parou com a mão espalmada na porta de vidro. Lá dentro ela viu ninguém menos que Suga em pessoa conversando com sua mãe. Fechou as mãos em concha ao redor dos olhos para poder ver o interior do lugar sem a interferência do reflexo de fora. Era mesmo ele, tinha certeza absoluta.

Em vez de entrar e pegar seu celular, ela ficou do lado de fora observando os dois. Não demorou muito para Suga sair com uma sacolinha pequena e dar de cara com ela. Micha usava sua camiseta favorita do BTS, com o refrão de Mikrokosmos escrito na frente e os nomes dos meninos nas costas. Ficou parada encarando Suga em silêncio.

Ele via os olhos da menina indo de seus olhos para o gorro, dele para os brincos, para os olhos de novo, o tronco, os sapatos, voltavam para os olhos. Cada parada um movimento a mais nas engrenagens mentais dela e um aumento considerável no tamanho dos olhos. A boca dela abriu em algum momento em choque e ele se viu pedindo para ela não gritar.

Micha não conseguia acreditar. Era mesmo o Suga! Tinha imaginado ele entrando na lojinha que a mãe trabalhava e ali estava ele, em carne, osso e gorro de duende olhando diretamente para ela sem nenhum segurança.

— Por favor, não grite. — pediu colocando as mãos a frente do corpo e implorando.

— Não vou gritar. Você é o Suga. — não era uma pergunta.

— Sou.

— Tipo… Min Yoongi.

— É.

— E está em Daegu.

— Isso.

— Sem segurança.

— Er…. então…

— Comprando… — ela olhou para a sacola que ele segurava. — … Lámen?

— Eu posso explicar…

Mas Micha não queria entender. Pouco se importava com o lámen. Olhou para dentro da lojinha e viu a mãe pegando os produtos de limpeza para começar a limpar os corredores entre as prateleiras apenas para se manter ocupada. Olhou novamente para Suga e, segurando no cotovelo dele como se fossem íntimos, o puxou para longe da porta ou do campo visual de quem estava lá dentro.

— O que veio fazer numa lojinha dessas? — perguntou de surpresa.

Yoongi não sabia o que fazer, hipnotizado pelo carisma e olhos grandes daquela garotinha. Era uma criança, mas os olhos eram de alguém que se preocupava muito com quem ela amava e, pelo visto, isso significava a moça lá dentro.

— Eu…

— Não tinha comida no hotel? Você está hospedado num hotel? Esteve no restaurante do seu irmão mais cedo? O que está fazendo em Daegu? Os outros meninos também vieram?

Era uma pergunta atrás da outra quase sem espaço para respirar entre elas. Havia mais uma pergunta que a menina queria fazer, mas estava sem coragem por ser relacionada à mãe. O taxista, cansado de esperar, apertou a buzina do carro, olhando dentro da loja para ver se a menina estava lá.

— Espere aqui, tenho que pegar um negocio lá dentro. — murmurou segurando as duas mãos dele e apertando para ter certeza que era real.

Soltou as mãos dele e correu como se sua vida dependesse disso. Empurrou a porta da loja com força e correu para o corredor dos condimentos onde havia deixado seu celular. Greta chamou seu nome, mas ela apenas sorriu sem jeito.

— ESQUECI MEU CELULAR, MAS JÁ VOU INDO! TCHAU! — gritou em português mesmo e saindo na mesma velocidade que havia entrado. Ignorou o táxi que ainda buzinava impaciente e foi direto para onde havia deixado Suga. Ia pedir pelo menos uma foto, um autógrafo ou qualquer coisa que ela
pudesse guardar como lembrança por ter encontrado com ele ali, na mesma loja onde a mãe trabalhava. Quais eram as chances?

As mãos dela caíram soltas ao lado do corpo ao perceber que ele já não estava ali. Suga havia desaparecido. Olhou em todas as direções, procurando um sinal do gorro de lã ou dos olhos de gato, mas não viu em lugar nenhum. O taxista voltou a buzinar e dessa vez Greta estava do lado de fora segurando um esfregão e procurando Micha com os olhos.

— Onde você estava?! Por que ele continua buzinando? — perguntou quando ela voltou.

— Mãe, você viu quem você atendeu?

— Ah, você o viu? Aquele é o cara que canta no Porão que eu comentei outro dia… Acho que percebeu que ser famoso só em Daegu não significa que vai ser assediado…

— O que? Porão? Não mãe… — Micha olhava indignada para a mãe. Ela não tinha percebido que aquele era o Suga e não o tal cara do Porão. A não ser que… — Deixa. Tô indo. Te amo.

— Liga quando chegar em casa.

— Ok! — gritou entrando no táxi e fingindo que não via a cara de bravo do motorista.

***

Yoongi soltou um suspiro de alívio ao ver o táxi indo embora com a menina dentro. Se mais alguém descobre que ele estava mesmo em Daegu, demoraria meia hora — se tivesse sorte — para os jornalistas fofoqueiros do Dispatch encontrá-lo também. E então o plano dele de saber mais sobre aquela moça iria por água abaixo. Ficou ali um tempo ainda, esperando Greta entrar na lojinha para que ele pudesse seguir o próprio caminho e então o celular começou a tocar e ele quase teve um ataque do coração.

— Tá aonde? — ouviu a voz de Hoseok vindo de longe por conta de uma ligação ruim.

— Daegu.

— Vai ficar aí até quando? Esqueceu a agenda?

— Não… não esqueci. Fico até domingo, se tudo correr bem?

— Tudo o que?

Greta saiu da posição que estava enquanto observava o táxi parando no prédio onde morava e entrou segurando a vassoura. Yoongi sorriu como se soubesse algum segredo.

— Umas paradas aí. Vou conhecer uma rinha de rap.

— Uma rinha?! Quando?

— Sábado.

— Posso ir?

— Pode. — respondeu automaticamente antes de se lembrar de quem ele e Hoseok eram. — O que? Não! Você não tem compromisso já? — questionou.

Mas ele já tinha desligado. Enfiou o celular no bolso do blusão e suspirou frustrado. Depois ele pensava nisso. Primeiro ia ter que descobrir onde era esse Porão e se era mesmo uma rinha como ele pensava.
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5 – HipHop Lover

— Com quem você deixou a Micha? — perguntou Nari depois que Greta abriu a porta do pequeno apartamento para que a amiga entrasse.

O sábado havia chegado mais devagar do que ela precisava, verdade, mas ali estavam as duas fingindo que não tinham problemas da vida real para lidar. Nari já chegou pronta, mas trazia uma mala de roupas dela para emprestar a Greta. As calças não serviriam, as duas sabiam disso, mas mimar sua amiga era a única coisa que Nari sabia fazer.

A amizade delas tinha começado sem querer, dentro de uma loja de conveniência muito parecida com a que Greta trabalhava. Nari tinha sido drogada numa festa que acontecia num bar próximo, desses que somente gente com muito dinheiro entrava, não dizia coisa com coisa, mas tinha tido o bom senso de se esconder ali, com medo de alguém que Greta felizmente não descobriu quem era, ou teria sido deportada para o Brasil por assassinato. Isso já tinha, pelo menos, seis anos e daquele dia em diante nunca mais deixaram de confiar uma na outra.

— Ela tem um retiro espiritual com o pessoal da igreja. Volta só amanhã à noite.

— Sabe o que isso significa? — perguntou Nari com um olhar malicioso.

— O que?

— Que hoje a noite precisa render. E por render você sabe muito bem o que eu quero dizer. – Greta enrubesceu violentamente e jogou uma blusa branca de seda no rosto da amiga. — Ei! Por favor, sem estragar minha maquiagem porque eu demorei horas fazendo, obrigada.

Fingindo que não via o vermelho no rosto da amiga se intensificando, Nari foi até a geladeira e a abriu. Havia pouca coisa ali, arroz, ovos, um pote de kimchi que ela mesma havia dado
para Greta, duas garrafas de soju, vários saquinhos de suco de frutas e um pote de sorvete que ela sabia que tinha feijão porque Greta nunca perdia essa mania.

— Meu Deus, quando foi a última vez que fez compras?

— Tem macarrão no armário. — respondeu a brasileira como se aquilo colocasse um fim na conversa. — Tem roupa aqui que está até com etiqueta, Nari, eu pedi emprestado alguma coisa que não fosse mais usar.

— Mas não vou mais usar essas… pode ficar. As que não servirem você guarda pra Micha.

Mas as duas sabiam que iam servir, porque Nari não perdia a mania de comprar coisas para as duas. Era um jeito de se desculpar por todos os coreanos babacas que já haviam passado pela vida delas, dificultando ainda mais a vida já dura. Como Greta se recusava a aceitar dinheiro, era desse jeito que ela ajudava. Pegou uma das garrafinhas de soju e serviu dois copinhos para elas.

— Tem certeza que o cara vai? Como ele chama mesmo? August?

— Acho que sim… não cheguei a perguntar diretamente, mas ele foi dois dias seguidos na lojinha… algo me diz que ele vai. – respondeu Greta parando de mexer na mala de roupas e virando sua dose de soju depois de brindarem. Fez uma careta involuntária e colocou o copinho de lado.

— Você gosta dele? — perguntou Nari de surpresa.

— O que? Ainda é meio cedo, não acha?

— Ah, não sei… você mesma disse que é fã dele… que acha a voz dele bonita… nada te impede.

— Não estou procurando um namorado, obrigada. — respondeu Greta ficando vermelha de novo. – Só sou fã do jeito que ele faz rap… e realmente acho a voz dele bonita, até quando conversa e…

— Eu sabia! Você gosta dele.

— A última coisa que eu preciso agora é um namorado coreano… já alcancei minha cota, obrigada.

—Você não precisa casar com ele! Só curtir a noite! Aproveitar que ainda é jovem, bonita e
sua filha não está em casa…

* * *
A fila virava o quarteirão quando elas chegaram, mas Nari passou reto e puxou Greta consigo. O lugar não era exatamente uma boate como as que ela estava acostumada antes de conhecer a brasileira, mas, ainda assim, enchia como se fosse.

O Porão, como era conhecido, nada mais era que um galpão de fábrica abandonado. A decoração consistia em vigas amostra, andaimes e barras de metal em todas as direções, quase como um depósito industrial. No meio do que era um pátio para as máquinas da antiga fábrica, ficava um palco de 360o com uma mesa onde ficavam os controladores e mixers usados pelos DJs responsáveis pela batida da noite. O resto era com os rappers. Um tema era dado e os duelistas sorteados entre os inscritos. Nos cantos mais afastados do palco, ficavam os bares e os banheiros montados em contêineres enormes e grafitados, completando o ar hip hop do lugar.

Toda vez que Greta entrava ali, ficava impressionada com os contatos da amiga e com a capacidade que as pessoas tinham de transformar qualquer lugar em ponto de encontro. Nari puxou a amiga até o segurança e o cumprimentou de leve, enfiando uma nota alta entre os dedos do cara e sorrindo meigamente. Deveria ser atriz, mas se contentava apenas em ser rica e mimar quem ela amava. O segurança prontamente abriu caminho para as duas entrarem.

Se a fila do lado de fora estava grande por causa da quantidade de pessoas, lá dentro a quantidade era ainda maior. Greta e Nari sorriram uma para a outra, já movendo o corpo na batida tocada pelo DJ, reproduzindo um rap americano enquanto a rinha ainda não começava. Nari usava um vestido preto curto, combinado com meias arrastão e brincos enormes – cortesia de Greta – por baixo do cabelo cortado em estilo Channel. Greta, por sua vez, usava um jeans desbotado e rasgado em partes estratégicas, combinando com coturno preto de amarrar e uma blusa curta que deixava parte da barriga amostra. Por cima de tudo isso ela usava um casaco oversize caído no ombro esquerdo. O cabelo laranja ia solto e armado, combinando perfeitamente com as argolas enormes que havia escolhido especialmente para aquela noite.

Yoongi viu quando Greta passou por ele. Estava na fila há, pelo menos, vinte minutos, fingindo que era um cidadão comum. Ficou impressionado com como a moça estava diferente sem o uniforme da loja de conveniência. Conseguiu reconhecê-la pelo cabelo, único naquele lugar, mas ficou impressionado mesmo foi com o estilo dela e da amiga. A moça que a acompanhava era exatamente igual todas as coreanas que já havia visto em Seul, rica e bem de vida, mas ficou impressionado com as duas juntas formavam um par único que fazia vários pescoços virarem ao passarem. Olhou para o relógio, tentando calcular quanto tempo mais ficaria naquela fila até finalmente poder entrar e encontrar as duas. Tinha certeza que o lugar estava lotado lá dentro tanto quanto do lado de fora. Como que respondendo a sua frustração sentiu o celular vibrar no bolso da calça.

— Ta aonde? — ouviu a voz de Hoseok. A ligação estava bem melhor que a outra que havia recebido alguns dias antes.

— Em Daegu.

— Eu sei que você tá em Daegu. Quis dizer onde em Daegu? Você não ia na tal rinha?

— Ia, mas ainda não consegui entrar.

— Como não? Estou aqui dentro faz tempo já! — respondeu Hobi com uma risada alta.

— Como? — perguntou Yoongi surpreso e repentinamente com medo. E se ele tivesse revelado quem era? Será que tinha usado sua influência como idol para passar pela fila? Ele é louco?

— Foi só molhar a mão do segurança… — respondeu Hobi. — Calma, eu não contei que eu sou eu… — completou interpretando o silêncio de Yoongi corretamente.

— Ninguém te reconheceu?!

— Não… ninguém nem olhou duas vezes na minha cara. Tá tranquilo, pode vir…

— Acho que não vou me arriscar… quando eu entrar te dou um toque.

Greta e Nari passaram por Hobi bem quando ele tirou um dedo do ouvido para poder desligar o telefone. Teve a impressão que conhecia aquele cara de algum lugar. Cutucou Nari com o cotovelo e apontou o coreano com a cabeça, numa pergunta silenciosa se ela sabia quem era.

— Gato… nunca vi aqui. – respondeu Nari abrindo seu melhor sorriso quando o olhar do rapaz passou pelas duas antes dele se afastar. Virou-se para Greta abrindo mais ainda o sorriso e os olhos, impressionada. — Meu Deus, se você não se der bem hoje eu vou tentar. Que homem é aquele?

Greta riu jogando a cabeça para trás. Sentia falta de poder agir como a própria idade pedia. Graças a Nari ela conseguia ter esses momentos de vez em quando. Não que não amasse ser mãe de uma garotinha incrível, mas às vezes sentia falta de não precisar se preocupar o tempo todo com dinheiro, escola, faculdade, racismo.

— Depois você tenta falar com ele, antes a gente precisa esquentar. Estou com sede. – comentou agarrando o braço da amiga e puxando-a para longe do moço bonito, em direção ao bar mais próximo.

6- ON

Nari não conseguia mais desgrudar os olhos do rapaz ao telefone. O tempo todo ele sorria para o aparelho e digitava, mandando mensagem para alguém que ela esperava sinceramente que não fosse uma namorada. Onde ele ia, ela arrastava Greta para não o perder de vista. A brasileira, por sua vez, procurava August com os olhos, aproveitando aquela movimentação toda de Nari atrás do moço bonito para poder escanear o lugar com atenção.

Estavam já na segunda caneca de cerveja quando ela o viu. Para variar, estava rodeado de amigos e rappers, afinal de contas ele era o maior campeão daquele ano. Era difícil acompanhar as rimas rápidas e inteligentes que ele usava em suas batalhas, então as pessoas tentavam a todo custo serem o mais próximo dele, tentando de alguma forma absorver o talento que ele naturalmente exalava.

Cutucou Nari com o cotovelo de novo, fazendo a amiga desviar o olhar de Hobi por algum tempo, e apontou August com a cabeça.

— Achei!

— É ele? – perguntou Nari finalmente desviando o olhar do outro rapaz para olhar na mesma direção que Greta. – Meio diferente do que eu imaginei quando me falou… Imaginei de cabelo mais escuro… Não sei por quê.

Greta olhou com mais atenção e, realmente, ele parecia um pouquinho diferente do que ela se lembrava da loja, mas atribuiu isso à máscara e aos outros acessórios que ele usava no outro dia.

Dessa vez ele não tinha nenhum deles, estava apenas com uma jaqueta jeans por cima de um moletom claro de alguma grife coreana que ela não conhecia. Ficou olhando até ter certeza, mas seus olhares se encontraram antes disso e ela se viu sorrindo e acenando abertamente para ele. Teve a impressão de que ele não a reconheceu sem o uniforme da loja, mesmo assim continuou sorrindo e acenando até ele finalmente responder com uma erguida leve do próprio copo na direção dela.

— Acho que ele é míope, amiga. — comentou Nari começando a se incomodar com a resposta super discreta do rapper.

— Acho que ele não me reconheceu sem o uniforme… — tomou um longo gole da própria cerveja, tentando se decidir se tentava contato agora ou depois das batalhas. — Devo ir lá? O que acha?

Mas Nari já estava distraída com Hobi de novo. Devagar ele ia se aproximando de onde elas estavam enquanto falava ao telefone. Olhava em todas as direções como se estivesse procurando alguém. Tentou chamar a atenção de Greta para o rapaz, mas ela estava perdida nos próprios pensamentos de indecisão.

— Como ela é? — perguntou.

— Não muito mais baixa que eu, tem os cabelos cacheados e laranja. Ah e ela não é coreana. — descreveu Yoongi, preso exatamente no mesmo lugar da fila. Ainda. — Ela não está sozinha, tem outra moça com ela, de cabelo mais curto, acho que é preto, mas também pode ser azul-escuro….

— Mano, o cabelo não importa. Como ela tá vestida? — perguntou andando a esmo pelo Porão. Passou por uma moça que lhe sorria, mas não deu atenção.

— Ela tá usando um vestido escuro e tem pernas bonitas dentro de um par de meias arrastão. Melhorou?

— Pernas bonitas? — Hobi parou e voltou a olhar na direção da moça, os olhos descendo
pelo corpo dela até as coxas grossas.

Nari sorriu de novo e tentou não ficar com o ego muito inflado ao ver o olhar do rapaz descer dos olhos pelo corpo. Abençoada a hora que ela havia decidido se inspirar no funk brasileiro e colocar aquelas meias para sair. Tinha ouvido a última parte da conversa do cara e não conseguiu evitar de dar um passo na direção dele.

— Achei! Como elas se chamam? — perguntou. — Alô? Hyung? Yoongi?

Yoongi não sabia responder aquela pergunta. Não sabia o nome, ou qualquer outra coisa que permitisse que Hobi puxasse conversa e pedisse que ela esperasse. Não sabia mais o que fazer e só percebeu que seu plano era muito raso quando se deu conta que ele ia até ali, encontrar a moça no tal Porão. E depois? Quando ligou para Hobi para pedir ajuda e achar a moça não tinha pensado na segunda parte do plano. Ficou com um enorme espaço branco na mente, sem saber o que fazer.

Teria que improvisar.

— Fique de olho nelas… Já vou entrar. — respondeu se decidindo finalmente a “molhar” a mão do segurança.

Tateou os bolsos atrás da carteira. Era contra seus princípios, mas momentos urgentes pedem medidas urgentes e ele precisa passar mais do que dez minutos com aquela moça e saber mais sobre ela. Não sabia bem o motivo disso, também, mas sabia que tinha que ser feito. A fila andou um metro no mesmo momento que ele achou a carteira. Ao contrário da primeira vez que tinha se encontrado com Greta, dessa vez sua carteira tinha apenas duas notas pequenas e os cartões de crédito.

— Puta que pariu… — murmurou enfurecido. — Não é possível que eu seja tão burro. — O telefone começou a tocar de novo e ele atendeu com raiva. — O que foi?

— Nossa, sou eu, calma. — respondeu Hobi percebendo o tom imediatamente.

— Desculpa… — Yoongi suspirou enfiando a carteira de volta ao bolso com raiva. Ia ter que esperar na fila de qualquer jeito.

— Então…

— O que? —

— Elas estão se aproximando, o que eu faço?

— Que?

— É, a mina de cabelo laranja e a amiga dela estão vindo na minha direção. O que eu faço?— Hobi não conseguia mais desprender os olhos das pernas da tal amiga, eram realmente bonitas.

— Ah, caralho… Eu.. Alô? — a ligação havia caído. Yoongi suspirou de novo, enfurecido. Olhou para a entrada e não havia sinal de que a fila ia andar cedo.

Nari estava determinada a conseguir, pelo menos, o telefone daquele cara. Não conseguia desgrudar os olhos dele e depois dele comentar no telefone sobre suas pernas, ficou com vontade de testar como seriam aquelas mãos grandes nelas. Greta ainda não havia se decidido sobre se aproximar ou não de August, mas sua demora fez com que a amiga decidisse por ela. Sentiu a mão de Nari agarrando a sua e puxando na direção contraria.

— O que foi?

— Eu tenho que fazer um negócio… é rápido. Prometo.

A moça nem olhava para ela, presa no olhar de Hobi e só quando ela viu a cara de espanto que o moço fazia para as duas foi que percebeu o que era o tal “negócio”.

— E você vai falar o que para ele?

— Vou começar com um “oi”, depois eu improviso.

Greta não teve tempo de perguntar o que seria esse tal improviso, a rapidez com que Nari andava – e a puxava – fez com que chegassem a ele logo. Virou o resto de cerveja de seu copo, apenas para ter uma desculpa para puxar Nari para longe caso o cara fosse um babaca, mas sorriu involuntariamente ao perceber que apesar do espanto os olhos dele pareciam bondosos.

— Boa sorte… — sussurrou para Nari, ficando de lado e observando o palco. As luzes já começavam a mudar de cor, indicando que a rinha começaria a qualquer momento.

* * *

— É sério, cara, eu preciso entrar logo. Deixa eu passar. Só dessa vez? — pedia Yoongi ao segurança que nem se deu ao trabalho de olhá-lo mais do que uma vez.

— Tem que entrar na fila, cara. O lugar tem lotação limite. — falou descruzando os braços apenas para deixar um grupo de garotas risonhas entrar.

— Mas é urgente! Eu preciso mesmo entrar logo.

— Todo mundo, cara. — respondeu cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha para o rapaz.

Yoongi bufou. Maldita hora que tinha saído sem dinheiro vivo. Ia ter que usar sua última carta, apesar de não querer. Ia gerar muito mais treta do que ele precisava? Provavelmente. Hobi entraria nessa com ele? Quem quis vir de Seul a Daegu do nada foi ele. Ia contar quem era.

— Deixa eu entrar cara… — pediu de novo, ficando nas pontas dos pés e se aproximando conspiratriamente do ouvido do segurança. — Sou o Suga do BTS. — contou.

07 – Friends
— Mentirosa! — gritou uma das meninas, jogando um travesseiro fofo em Micha.

Estava na cama de baixo de um dos dois beliches do quarto que ia pernoitar durante o retiro espiritual. Não conseguia pensar ou se concentrar em mais nada que não fosse o fato de que tinha falado e tocado em Min Yoongi e que ele era o cara que ia à lojinha onde sua mãe trabalhava.

Acabou deixando essa informação escapar quando uma das meninas com quem dividia o quarto zombou de outra notícia sobre a presença dele em Daegu.

— É verdade! Ele estava usando aquele gorrinho azul que faz ele parecer uma mistura de gato com duende! Juro pela minha mãe que era ele!

— E por que ele estava no seu bairro comprando lámen quando poderia estar num apartamento enorme com a família dele no centro ou em Seul? Não faz sentido nenhum, Michele, para de ser mentirosa, é pecado. — argumentou Izabel.

Todas deveriam usar os nomes cristãos que tinham ganhado ao serem batizadas. Micha era a única que tinha sido batizada na igreja católica ainda bebê, então Greta havia escolhido um nome que funcionasse tanto em português quanto em coreano. As outras meninas, no entanto, haviam sido batizadas mais tarde, então tinham dois nomes, um coreano e um cristão, assim como JiYang, e ali tinham que se referir entre si por esses nomes.

Micha não soube responder o argumento de Izabel. Realmente não fazia sentido Suga estar ali no seu bairro naquele horário. Ela bem sabia que o BTS tinha compromissos de todos os tipos o tempo todo e duvidava que ele pudesse faltar assim, quando queria. Mas nenhuma das perguntas que tinha feito a ele naquele dia tinha sido respondida, então não fazia ideia do por que ele estava ali naquele dia. Não que se importasse muito, seu coração expandia e vibrava sempre que se lembrava de que ele e a mãe tinham se visto duas vezes seguidas e se dado bem.

O medo de a mãe começar a namorar um coreano aleatório e desconhecido tinha sido substituído pela expectativa dela e Suga pelo menos ficarem amigos e a mãe parar de se preocupar com coisas demais.

— Você não tentou tirar foto, Michele-ssi? — perguntou Maria do outro beliche. Era a única ali que era army além dela mesma. Estava embaixo da coberta, olhando Micha lá de cima como se fosse uma corujinha de olhos puxados.

— Tentei… mas na hora eu tinha esquecido meu celular dentro da loja, daí quando voltei ele já tinha sumido. — respondeu com um sorriso, feliz por ter alguém do seu lado.

— Então está explicado, foi miragem. Sonhou com ele. – concluiu Izabel, determinada a desacreditar Micha e sua história. – Tudo isso porque o noticiário disse que o Suga tinha ido ao restaurante do irmão dele no centro…

— Cale a boca, Yun Seo, ou vou ser obrigada a te bater. — falou Olivia para Izabel. Era a mais velha ali naquele quarto e a única quieta desde que aquela conversa havia começado. Não admitia, mas amava o BTS tanto quanto Maria e Micha a ponto de contrabandear um celular durante o retiro.

— Onde você conseguiu esse celular? – perguntou Izabel mudando de assunto para não precisar brigar.

— Eu tenho dois. Um eu dei para a irmã Sarah, esse eu trouxe para o quarto. – respondeu dando de ombros.

— Mas não pode.

— O que, vai me dedurar? Está mesmo se esforçando para apanhar hoje, hein… – respondeu fazendo uma careta para a outra. Micha riu. — Ei, Micha-ssi, acha que os outros membros do Bangtan vieram para Daegu também? — perguntou olhando para a menina.

— Não sei… eu perguntei, mas ele não me respondeu. – falou chateada. — Na verdade ele estava mais preocupado em eu não gritar do que em me responder… deve ter pensado que eu era uma dessas idiotas que fica seguindo eles aonde vão.

— Vai dizer que se pudesse não seguiria? — perguntou Maria de sua cama.

— Ah, não sei… a minha mãe vive dizendo que artista é igual a gente, tem vida, tem família… acho que eu não teria coragem, sabe. — falou abraçando o travesseiro que tinha sido jogado nela.

— Se a minha mãe deixasse, eu seguiria. — respondeu Maria. — Meu sonho poder abraçar o Jungkook-oppa apertado. — completou abraçando a coberta e fechando os olhos.

— Mas por que pergunta, Olivia? — emendou Micha.

— Porque acabou de sair uma notícia de que o J-Hope foi visto no bairro do Suga hoje de tarde… — respondeu mostrando o celular.

Todas as meninas gritaram ao mesmo tempo, indo para a cama de Olivia e se amontoando para lerem a notícia juntas. Não era mentira, aquela foto de Hoseok era nova e ele claramente estava em Daegu, mais lindo do que nunca. As outras meninas olharam para Micha de novo, todas mais favoráveis a acreditar na história dela.

— Como você consegue encontrar seu bias e não pegar um autógrafo pelo menos? — perguntou Izabel.

— Não deu tempo!!

— Será que ele vai voltar na lojinha de novo?

— Acha que a sua mãe vai ficar brava se a gente for lá semana que vem depois da igreja?

— Não sei… ainda tem a irmã Sarah… — respondeu Micha, insegura se queria que as amigas vissem Suga lá com sua mãe.

Bastou dizer o nome da freira para ela aparecer na porta do quarto. A primeira coisa que viu foi que nenhuma delas estava na própria cama. A segunda foi o celular na mão de Olivia.

— O que ainda fazem acordadas? — perguntou. Fechou a porta atrás de si e cruzou os braços encarando a cara de culpada das quatro. Micha correu para a própria cama, se enfiando sob a coberta e sorrindo inocentemente dali. — Hoje era dia de cumprir Silêncio. Sabem o que isso significa?

— Sim, irmã Sarah. — responderam em coro.

Micha tentou a todo custo não revirar os olhos para a freira. Conhecia o sermão que viria depois daquela pergunta de trás para a frente, tanto quanto sabia cada uma das letras do BTS. Deveriam ficar em silêncio, tentando se conectar com Deus e pedirem perdão e orientação para a vida naquele ano. A única coisa que ela gostava naqueles retiros era a oportunidade de ficar com outras crianças da sua idade sem ser julgada, diferente da escola. Mas o preço era ouvir os salmos, louvores e momentos de estudo da Bíblia. Não que não gostasse ou não se sentisse tocada por elas, mas sentia que era perda de tempo ficar aqueles dois dias rezando e em um deles em silêncio absoluto. E foi exatamente sobre o silêncio que a irmã Sarah falou.

Explicou a importância de usarem aquele momento para se conhecerem como Deus as conhecia, no mais profundo íntimo de seu ser, sem a interferência externa do mundo. Micha tentou não rir quando seu olhar encontrou com o de Olivia na cama de baixo do beliche ao lado.

— Além disso… — continuou a freira — …vou levar seu celular, Olivia-ssi. — concluiu esticando a mão. Todas as meninas gemeram em coro, fazendo com que a jovem freira sentisse uma vontade louca de rir antes de apertar cada uma daquelas bochechas.

— Mas irmã… que celular? A senhora já pegou o meu quando eu cheguei. — argumentou a menina.

— Esse daí enfiado em baixo do seu travesseiro. Anda. — falou, dando um passo na direção dela.

— Isso é muito injusto, sabia…

— Amanhã quando sua avó vier te buscar eu devolvo a ela. Boa noite, meninas. – apagou a luz e saiu.

— Eu disse que não podia… — sussurrou Izabel no escuro.

— Eu vou matar essa menina. – foi a última coisa que ouviram Olivia dizer antes de jogar o travesseiro em cima dela.

 

08 – Base line

Nari tentou não parecer pretensiosa demais, ou oferecida demais, mas seus quadris se moveram um pouquinho mais do que o normal quando andou até onde Hoseok estava. Não conseguia pensar em nada que não fosse aquele homem, suas mãos grandes e sua voz repetindo o tempo todo a frase “pernas bonitas”. Não era sempre que tinha essa sorte no Porão, geralmente ela e Greta bebiam, dançavam, cantavam e fingiam se inscrever na rinha apenas para ganhar bebida de graça de algum imbecil iludido. Dessa vez era diferente, sua sorte tinha sido encontrar um cara de fora, com cara de quem estava mais perdido do que nunca e que não se importava tanto com o status provocado por cantar ou não num dos duelos.

Hoseok, por sua vez, não conseguia desgrudar os olhos dela, espantado com aquelas pernas e com a atitude da garota. Não estava acostumado com garotas de atitude, geralmente elas se faziam de tímidas e recatadas. Percebeu que não era o caso daquela moça. Ela vinha em sua direção quase que seguindo o ritmo da batida da música que tocava no lugar e que só então ele havia reparado. Os olhos dela eram hipnotizantes tanto quanto o movimento daqueles quadris. Sentiu a garganta secar, ansioso.

— Oi. — falou Nari parando ao lado dele e olhando para o palco. As luzes mudavam, diminuindo de intensidade, indicando que em pouco tempo as primeiras batalhas começariam. — Vai se inscrever? – perguntou apontando o palco.

— O que? No que? — perguntou Hobi esquecendo como gostava daquele tipo de evento.

— Nas rinhas, bobo. — respondeu Nari sorrindo e o encarando.

— Ah, não… vim só ver como é… — a bem da verdade, ele mal tinha reparado que o grande evento da noite ia começar a qualquer momento e que era aberto para qualquer pessoa.

— Eu sabia! — falou ela rindo e dando um gole na cerveja longo o suficiente para acabar com a bebida. — Ganhei. Vai ter que me pagar uma bebida.

— Oi? Ganhou? Não estou…

— Sim… sabia que nunca tinha vindo ao Porão.

Ficaram em silêncio. Ele sem saber o que dizer, ela começando a achar que ele ainda não tinha entendido que aquilo era uma desculpa, bem pobre, verdade, para ele poder pagar a bebida e depois beijá-la. Viu que ele ainda a olhava então encarou a própria caneca, fazendo um biquinho e virando ela para baixo. Quem sabe ele não era mais do tipo visual?

— Ah, certo. Quer outra?

Nari abriu seu melhor sorriso ao ouvir a pergunta. Hobi sentiu que alguma coisa havia mudado naquela conversa e ele ainda não tinha conseguido entender, mas ficou sem rumo com aquele sorriso. Era amplo, feliz e absolutamente lindo. Pegou a caneca dela e começou a andar em direção do bar, mas parou e voltou porque nem o nome dela ele sabia ainda.

— Como se chama?

— Nari. Kang Nari.

— Ok. — respondeu ainda anestesiado por aquele sorriso.

Greta se aproximou assim que ele saiu para pegar a bebida e o seguiu. Não podia arriscar de alguém colocar alguma coisa na bebida de Nari de novo, como quando elas haviam se conhecido.

Por mais que os olhos dele fossem bondosos, ele era um homem e ela não gostava de se arriscar. Mas Hobi simplesmente trocou a caneca por uma nova, cheia e voltou para perto de Nari sem reparar em Greta. Estava hipnotizado demais a ponto de ignorar o celular vibrando no bolso.

Aproveitando que ele estava de costas para ela, Greta fez sinal de ok com a mão para a amiga. Estava super aprovado, o moço tinha sido honesto. Olhou para a direção onde tinha visto August e perdeu o ânimo ao se dar conta de que ele não estava mais lá. Soltou um suspiro, cansado, não foi dessa vez. Virou-se para o bar para abastecer a própria caneca e aproveitar o resto da noite como sempre fizera, curtindo as batalhas e dando risada com Nari.

— A gente se conhece de onde mesmo?

Parado bem ali ao lado dela, estava August. Usava uma jaqueta imitando estilo militar, com remendos estratégicos por cima de um moletom claro de grife. O cabelo estava dividido de modo que mostrava a testa e realmente era mais claro do que ela se lembrava. Ela sorriu aliviada, finalmente ia conseguir conversar com ele longe do trabalho, num momento de pura descontração, sem precisar se preocupar com nada além de manter a conversa. O melhor de tudo é que ele estava sem sua comitiva de puxa-sacos.

* * *

— Você, o Suga?

Ele percebeu que tinha perdido ali, naquela pergunta. O segurança finalmente o olhou com mais atenção, parando no boné, nos tênis e nas correntes que ele havia colocado no pescoço por cima da blusa preta de lã. Podia ver a veia da testa do cara pulando. “Ou eu apanho, ou ele acreditou.” — pensou ele. Mas o segurança não fez nem uma coisa nem outra, ele explodiu numa gargalhada que fez com que muita gente parasse para olhar e ficou rindo até pequenas lágrimas lhe saírem dos olhos.

Yoongi ficou ali, se sentindo meio ridículo e um pouco aliviado por ele não ter acreditado assim de primeira. Seu maior medo era que isso chamasse atenção desnecessária. Bom, já estava tendo, mas não do jeito que ele mais tinha medo, com sensacionalismo. Esperou pacientemente o cara parar de rir e o encarou.

— E aí, posso entrar?

— Você só pode estar de brincadeira! — o cara recomeçou a rir. Yoongi olhou a volta, vendo as pessoas começarem a olhar para ele mais de uma vez. Pensou em Greta e na confusão dela com o tal de August, então teve uma idéia e fingiu rir junto com o segurança.

— Te peguei!!! Achei que não ia conseguir me reconhecer com essa roupa…

— Como assim?

— Sou eu, cara, August. Já é quase minha vez… descola essa, vai?

O segurança parou de rir na hora. Foi a vez de Yoongi sorrir levemente. Será possivel que havia mais gente além da moça que o confundiria com o tal August? O cara devia ser muito parecido com ele mesmo e isso só o deixava mais ansioso ainda para entrar. Deixou que o segurança o analisasse de novo, dessa vez com mais cuidado e pensou ter visto um lampejo de reconhecimento e rezou para ser como August e não como Suga.

— Está atrasado. — falou o segurança finalmente, fazendo com que o sorriso de Yoongi se ampliasse.

— Fiquei enrolado com uma mina, daí já sabe, né…

— Sei… — o segurança puxou a corrente, abrindo caminho para ele entrar. — Devia ter contado que era você logo de cara. Suga… Piada boa, vou contar pro meu filho depois. — completou voltando a rir.

* * *

De alguma forma Greta se viu em meio ao grupo grande de amigos de August na ala vip do Porão, solo que nunca havia tentado, ou querido, explorar. Ele sorria e a apresentava para todo mundo, como se se conhecessem há muito tempo, e ela se sentiu um pouco incomodada com isso, apesar de sorrir e ser educada com todos. Ela já não estava pagando a própria bebida há algum tempo, mas o cara não deixou seu copo ficar vazio nenhuma vez sequer, encantado com uma fã estrangeira.

A moça procurou Nari com os olhos, mas ela ainda estava entretida pelo moço sorridente a poucos metros, no limite entre a área vip e o resto do lugar. Sorriu para Greta quando seus olhares se cruzaram e fez sinal de boa sorte ao perceber onde a amiga estava, mal percebendo o desconforto dela com toda aquela gente ao seu redor.

— Você faz rap também? — perguntou o rapper sentando ao lado dela.

— Ah, só em casa sozinha. — “com a minha filha”, completou em pensamento, mas não verbalizou com medo do julgamento dele.

— Em que língua? Qual a língua que falam no Blasil? — perguntou ele realmente interessado. Estava encantado com o fato de alguém além daquele bando de puxa-saco ir até ali apenas por ele. Mais encantado ainda por ela ser estrangeira e muito mais bonita do que todas as coreanas comuns ali naquela noite. Não conseguia despregar os olhos dela.

Greta sorriu e tomou um gole da própria bebida antes de responder, ganhando tempo. Se fossem só eles dois, ela estaria mais à vontade, mas havia muita gente prestando atenção. Ficou com vontade de perguntar sobre o look diferente que ele estava usando naquela noite, nada parecido com o que tinha visto na lojinha, mas preferiu ficar quieta. Talvez ainda não fosse a hora.

— Falamos português… mas eu sei fazer rap em coreano também… Moro em Daegu há nove anos, já.

— Não?! Oh, Gleta-ssi, você é audaciosa! Quanto mais converso com você, mais gosto da sua atitude… quer participar da rinha comigo?

— O que?

— É, preciso de alguém para “abrir” a batalha principal? Topa?

 

09 – Burning up (fire)
A pergunta ficou ecoando infinitas vezes na mente de Greta antes dela entender tudo o que ela significava. Ficou encarando August lhe sorrindo esperançoso e pensou em como estava se sentindo incomodada apenas por estar em meio àquela quantidade de pessoas que sempre ficavam ao redor dele. A partir do momento que subisse ao palco, sabia que tudo ia mudar e ela não seria mais anônima, pelo menos não no Porão. Ia ter muita gente ao redor dela mesma e ela sabia que não estava preparada para esse tipo de atenção.

— Por favor, noona. — pediu August com um olhar esperançoso que a lembrou muito o de um filhote de gato.

Sorriu sem jeito, pensando em Micha e em como as duas gostavam desses momentos cantando rap juntas, sejam dos meninos do BTS, seja de outros artistas coreanos e brasileiros e balançou a cabeça. Não, ainda não era o momento. Rap era uma coisa entre ela e a filha e dividir isso com todos aqueles desconhecidos seria se arriscar por muito pouco.

— Outro dia eu tento, prometo. — respondeu com um sorriso triste. — Quem sabe não podemos fazer isso sem a pressão do espetáculo… — argumentou.

— Qual é, unnie, tá com medo? — falou uma das amigas dele presente no grupo.

— Não é medo… não quero ofuscar a grande estrela da noite. — brincou. Riu com a reação do grupo, como se ela tivesse acabado mesmo de vencer uma batalha.

August não se deu por vencido, quanto mais tempo ele passava com aquela moça, mais encantado e curioso ficava. Quando a viu sorrindo e acenando do outro lado do salão, perto dos bares, ficou intrigado porque não se lembrava de jamais ter visto uma mulher como aquela. O cabelo cacheado e laranja contrastava com a pele escura e os olhos amendoados, grandes e redondos, fazendo um conjunto muito bonito de olhar. Bastava olhar para ela para perceber que aquela mulher era puro hip hop e não era apenas pelos brincos grandes e o batom escuro marcando os lábios grossos. Era todo o conjunto e foi isso que fez com que ele decidisse por se aproximar.

Agora, a ouvindo falar um coreano quase sem sotaque, sobre conhecer o trabalho dele, gostar e ainda fazer rap em português e coreano, ele sentiu que não podia desistir assim tão fácil.

— Por favor, noona. Nem que seja aqui, entre nós… — pediu com carinha de pidão. Sabia muito bem da semelhança que tinha com um cantor de k-pop e começara a usar um nome parecido com o do alter ego dele de propósito. Funcionava com os espectadores do Porão e muitas vezes com as mulheres.

— Outro dia… hoje eu só quero curtir a noite, esquecer meus problemas e continuar sendo apenas uma fã de rap. — concluiu ela em um tom maternal que usava apenas com Micha, mas que sempre funcionava para encerrar qualquer discussão.

***

As luzes no palco piscavam e rodavam anunciando o início das batalhas iniciais quando Yoongi finalmente entrou. A pouca luz e a quantidade de pessoas indo em direção ao palco dificultava muito a busca dele por Hoseok e a mudança de cor dessas luzes dificultava a busca por um certo cabelo colorido. Assim como o amigo havia dito, ninguém olhava para ele mais do que uma vez, desviando dele sempre que parava quando tinha a impressão de ter visto o cabelo laranja ou o amigo, sempre um alarme falso.

Parou ao lado dos controladores de som, atento ao movimento do lugar e tentou mandar mensagem para Hobi. As três últimas ainda não tinham sido lidas, então desistiu. Teria que procurar no modo antigo mesmo. Foi só enquanto olhava ao redor para encontrar Hoseok ou a garota que reparou no Porão como um todo. O lugar era amplo e transmitia aquela atmosfera hip hop como se tivesse sido planejado nos mínimos detalhes. O palco, no centro do salão, era aberto para que qualquer pessoa em qualquer ponto do lugar pudesse assistir às rinhas e suspenso acima dele ficava um telão onde ele supunha que seria lançado o tema da batalha.

Alguém que provavelmente seria o apresentador do evento subiu ao palco agitando o público. Por algum tempo Yoongi se esqueceu do motivo de ter insistido tanto para entrar naquela festa, entretido com o duelo que começou em seguida. A batida era variada e muitas vezes os rappers ainda acrescentavam um novo flow conforme rimavam. Instintivamente ele se pegou formando versos e rimas mentalmente como se ele estivesse participando da rinha também. Como seria se sugerisse isso aos irmãos e eles fizessem algo parecido em casa? Namjoon e Hoseok com certeza topariam, Jungkook muito provavelmente também, mas e os outros.

Deixou o olhar vagar perdido pelas pessoas na festa até que a viu. Não precisava mais apelar para ver o cabelo colorido, naquela luz baixa e constantemente mudando era bem difícil reparar nas cores dos cabelos, mas a reconheceu pelo olhar. Estava rodeada por um grupo grande dessa vez e ele não viu sinal da amiga nem de Hoseok. Mesmo assim ele se viu andando e abrindo caminho na multidão para ficar mais perto dela. Antes que finalmente chegasse ao grupo, o apresentador anunciou a batalha de August, o cara que ela achava que era ele.

Saindo do meio do grupo e puxando Greta pela mão, August subiu ao palco sorrindo e acenando para todas as direções com a mão livre. A moça parecia deslocada, mas não tentou puxar a mão da dele, provavelmente com medo de como seria julgada caso fizesse. Yoongi não conseguiu reparar no cara, apesar dele parecer muito familiar assim de primeira, estava atento ao olhar perdido da moça.

— Oh, August, vejo que trouxe uma companhia! — falou o apresentador com um sorriso grande que não lhe chegava aos olhos.

— É meu amuleto da sorte! Quero que ela escolha o tema dessa vez, pode ser?

— Claro! O que o nosso campeão pede, nós damos, não é mesmo? — o público aplaudiu com entusiasmo, incentivando ainda mais a presença da moça ali.

— Merda.

***

Nari estava rindo alto das tentativas dela e do moço do sorriso bonito – que se apresentou simplesmente como Hope – de adivinharem os temas das batalhas que estavam acontecendo. Nenhum dos dois acertou nenhuma, mas aquela meia hora falando sobre música fez com que Hoseok finalmente ficasse mais à vontade com aquela moça. Tinha se esquecido quando foi a última vez que saiu com uma garota sem se preocupar se ela estava interessada nele como Hoseok ou como J-Hope, e Kang Nari parecia não se importar com nada além da presença dele ao seu lado. Foi só quando eles ouviram a risada do apresentador – que quase nunca falava nada além do tema e os nomes dos participantes – que ela reparou em Greta no meio do palco. Apertou a mão de Hoseok involuntariamente, séria de repente.

— Droga.

— O que foi, noona?

— Vamos ter que nos separar, lindo. Tem alguém precisando de mim mais do que eu de você. — respondeu Nari com um olhar triste para ele. Enfiou a caneca de cerveja ainda pela metade na mão dele e ficou nas pontas dos pés para dar-lhe um beijinho no rosto. — Eu amei te conhecer. Por favor, não esquece meu nome e venha me procurar. — completou transformando o beijo no rosto num selinho rápido e saindo em direção ao palco.

Ele ficou ali, parado sem saber o que fazer em seguida. Pensou em ir atrás da moça, mas antes que o fizesse viu Yoongi passar por onde ele estava e decidiu ir atrás dele. Deixou a caneca em cima de uma caixa de som perto de onde estava e seguiu Suga abrindo caminho pelas pessoas.

Pensou em chamá-lo, mas lembrou de que ninguém ali parecia saber quem eles eram e talvez fosse melhor continuar desse jeito, então o seguiu em silêncio, alcançando-o pouco antes dele chegar à entrada da área vip. De alguma forma Nari já estava lá dentro e não pareceu ver nenhum dos dois.

— Hyung! Onde vai?

— Hobi! — não conseguiu ficar feliz com o encontro, ainda tinha que ajudar Greta a sair do palco. Percebeu de longe que ela não era esse tipo de pessoa e estava extremamente desconfortável ali, em baixo de tantas luzes e tanta atenção. Nem todo mundo gosta de ser famoso. — A gente precisa tirar ela de lá.

— Quem? De onde?

— A moça no palco. Era ela que eu queria que você procurasse, lembra? Achei que tivesse de olho nela e na amiga.

— Mas eu estava e… — o rosto dele ficou vermelho, mas ele não desviou o olhar. — Achei que ela estivesse perto da gente. Não vi quando se afastou. — justificou. — Mas como assim tirar ela de lá, por que?

— Depois eu te explico. Primeiro a gente tem que passar para aquele lado da festa. — falou apontando para a corda que separava a área vip. Yoongi soltou um suspiro, já tinha visto aquela cena. — Tem dinheiro aí? — perguntou esticando a mão para o irmão.

— Tenho, mas… — Hobi abriu a carteira enquanto falava, mas não teve tempo de completar o raciocínio. Yoongi tirou todo o dinheiro de dentro dela e enfiou na mão do segurança.

No palco Greta procurou Nari com os olhos e a viu se aproximando com pressa. Viu claramente quando ela enfiou todo o dinheiro que tinham trazido na mão do segurança que ficava no final da escada para o palco. Como ela havia passado pelo outro segurança, da área vip, ela não fazia ideia, mas não conseguiu desprender os olhos da amiga. August tentou chamar sua atenção, mas ela já não queria mais ficar ali perto dele. Talvez num outro momento, mas não agora. Tudo o que queria fazer era voltar para casa.

— Vem, Noona, é tranquilo. Confie em mim. — falou segurando a mão dela. Greta olhou para a própria mão e depois para o rapaz e tudo pareceu ficar em câmera lenta de repente. Olhou para escada e Nari já estava quase chegando a ela. Olhou para August e ele tinha um olhar esperançoso no rosto, como se precisasse se afirmar em frente à toda aquela gente para garantir que ela ia gostar dele. Nunca sentiu tanta pena de alguém como naquele momento. Viu-se segurando a mão dele com a outra e empurrando-a para baixo.

— Eu disse que não ia participar, porra. — falou em português, o mundo entrando na velocidade normal de novo.

— O que? Pode repetir em coreano?

— Ela não fala coreano. — interrompeu Nari segurando a mão, agora livre, de Greta e a puxando para a escada. O público começou a vaiar, porque a moça não fizera questão de fazer aquela afirmação longe o suficiente do microfone e agora August era o centro das atenções por ter convidado uma estrangeira que sequer falava a língua deles para fazer rap. Como iam considerar isso justo em meio a uma batalha?

— Noona! — elas ouviram ele gritar de onde estava.

— Oh, parece que alguém acabou de levar um fora! — começou o apresentador. — E é justamente esse o tema dessa batalha. Vamos aplaudir o segundo participante… — mas as duas pararam de ouvir o que acontecia no palco, desviando das pessoas e saindo da área vip sem nenhuma intenção de voltar. Passaram por Hobi e Yoongi e sem realmente vê-los. Nenhum dos dois tentou pará-las, ambos impressionados com a rapidez com que Nari alcançou a amiga e a tirou do palco.

— Você está bem? — perguntou quando elas finalmente pararam. Estava bem longe do palco e da bagunça e mais ninguém prestava atenção nelas.

— Estou. — respondeu Greta com um suspiro, arrumando o cabelo.

— O que aconteceu?

— Achei que ia só até o limite da escada, mas quando me toquei já estava lá no meio. Me lembre de nunca mais aceitar elogio de homem nenhum. — respondeu emburrada.

— Por que você não me pediu ajuda? Era só fazer nosso sinal!

— Amiga, eu não achei que fosse precisar, entende? Estava tudo sob controle, até eu abrir minha boca e contar que gosto tanto de rap que faço alguns com a Micha.

— Você contou da Micha?

— Não. Só do rap. Mas por causa disso ele queria de todo jeito que eu cantasse antes dele, tipo em dupla, sabe? Tem gente que simplesmente não sabe ouvir “não”. — concluiu frustrada.

Estava tudo indo bem de fato, até ela contar demais sobre si mesma. Nunca falava tanto assim de si mesma num primeiro encontro, mas não considerava aquele exatamente o primeiro, então acabou se deixando levar. Ficou se lamentando por não ouvir a própria intuição, enfurecida por ter se deixado levar por um sorriso fofinho e um olhar de gato pidão.

— Me lembre de nunca mais ser legal com cliente nenhum. — pediu colocando as mãos na cintura e finalmente olhando para o palco.

August e seu oponente faziam suas rimas num ritmo rápido e difícil de acompanhar e, pela primeira vez, ela não teve vontade nenhuma de tentar. Gostava muito de rap, mais ainda do que aquele cantor fazia, mas estava se sentindo estranha. Quase como se tivesse voltado doze anos e saído com o pai de Micha novamente. A lembrança lhe provocou um arrepio na espinha, como um mau agouro.

— E o seu moço? Como ele chama? — perguntou tentando ignorar aquela sensação.

— Ah, depois eu te conto. Primeiro vamos comer alguma coisa. Cansei desse lugar.

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Vocabulário:

Hyung (형) = Homens falam para homens mais velhos

Noona (누나)= Homens falam para mulheres mais velhas

Unnie (언니)= Mulheres falam para mulheres mais velhas

 

10 – Good day
A semana passou como que em câmera lenta. Nem Greta, nem Micha e nem mesmo Nari conseguiam se concentrar em nada por conta dos acontecimentos da semana anterior. A cada barulho da sineta na porta da loja, a brasileira levantava a cabeça na esperança de ver August entrando para pedir desculpas. Mas isso nunca aconteceu. A única coisa boa que a sineta lhe trouxe naquele dia, e nos anteriores, foi a entrada de Micha.
Dessa vez estava com as amigas da igreja, num grupinho de quatro meninas da mesma idade, todas usando roupas sugestivamente army. Isso porque até onde ela sabia apenas Micha e Maria se declaravam abertamente fãs do BTS, as outras duas diziam ser fãs de outros grupos populares, mas hoje também usavam camisetas com letras de músicas e personagens da animação BT21 como se esperassem algo.

Greta não conseguiu evitar sorrir quando as quatro levantaram a cabeça ao mesmo tempo quando a sineta da porta anunciou mais um cliente. Estavam todas sentadas numa das duas únicas mesinhas reservadas para que os clientes comessem ali. Fingiam estudar alguma coisa que havia sido passado durante o retiro, mas ela percebeu de longe que nenhuma delas tinha sequer começado o dever

— Tem certeza que era ele, Micha? Será que não era alguém muito parecido? — cochichou uma das meninas ao ver um senhor muito mais velho do que quem elas esperavam passar pelo corredor de doces.

— Tenho… eu falei, era ele com aquele gorrinho que eu mostrei na foto outro dia…

— A sua mãe não lembra dele?

— Provavelmente não…

— Não me lembro de quem? — perguntou Greta, curiosa sobre quem seria essa pessoa que elas estavam esperando desde o começo da semana. Todo mundo deu um pulo no mesmo lugar provocando uma crise interna em Greta. Podia sentir as lágrimas de riso se formando enquanto ela usava todas as forças para não cair na gargalhada na frente delas.

— Ninguém, mãe! A gente só veio ver se aqui era um bom lugar para evangelizar. – respondeu Micha com o rosto mais vermelho do que nunca.

— É, ahjumma, é só pesquisa. — respondeu uma das outras meninas com o rosto tão vermelho quanto.

— Sei… e por acaso tem a ver com esse uniforme army por baixo das blusas? — perguntou apontando a prova do crime das quatro.

— Foi coincidência!

— Sei…

Voltou para o caixa com o ouvido ligado nas meninas. Por precaução abaixou mais ainda o volume do aparelho de som da loja e deixou uma das câmeras apontadas para as meninas. Algo lhe dizia que de alguma forma aquilo tinha a ver com August, mas não sabia ainda como.

Pensou no fracasso que havia sido aquele fim de semana com a ida ao Porão. Ao invés de curtir e se divertir com a amiga, passou a noite em meio a gente que não conhecia sendo coagida a participar de uma coisa que se reservava a fazer apenas com a filha. Claro que ela já tinha pensado muitas vezes em participar das batalhas femininas do Porão, mas nunca teve coragem. Sabia que sua aparência, seu estilo de se vestir e o fato de ser estrangeria daria alguma espécie de diferença na reação do público e não estava preparada para se sentir desconfortável num dos únicos lugares naquela cidade onde ninguém se importava com a cor da pele dela.

A sineta da porta tocou de novo, anunciando mais um cliente e fazendo com que Greta e as meninas levantassem a cabeça ao mesmo tempo para ver quem era. Thomas entrou com sua mochila e um pacote de picolé pendurado na boca, olhando em todas as direções. Quando finalmente viu as meninas, elas começaram a fingir que não o tinham visto.

— O que estão fazendo? — perguntou parando ao lado de Micha e conferindo a mesa cheia de cadernos em branco.

— Não é da sua conta.

— Por que tá todo mundo vestida com roupa do BTS? — perguntou fingindo que não tinha ouvido a grosseria de Micha. Em resposta todas as meninas o encararam com cara de raiva, como se ele já estivesse fazendo muito apenas por estar ali.

Devagarinho, sem fazer muito barulho, Greta foi se aproximando do grupo de novo, fingindo que repunha produtos no corredor ao lado para que elas não a vissem. Thomas estava de costas para ela, sendo o foco da atenção – e da raiva – de todas as meninas.

— Espera… Não me digam que estão aqui achando que o Suga vai aparecer milagrosamente? — perguntou segurando a risada.

Greta arqueou a sobrancelha. Suga? Ali? Do nada? De onde ele tirou essa ideia? Por mais que gostasse das músicas dos meninos tanto quanto a filha, duvidava muito que qualquer um deles pudesse dar o azar – porque seria muito azar ter que comprar coisa ali com tanta loja melhor e mais condizente com eles no centro – de aparecer ali.

— Cale a boca, JiYoung. Você não tem nada com isso. — respondeu uma das meninas.

— É! E de mais a mais, a Micha o viu aqui sim, no mesmo dia que falaram que ele ia ao restaurante do irmão dele. Não foi, Micha? — falou outra.

— Foi. Eu vi com meus próprios olhos. Segurei a mão dele e tudo.

— Duvido! Aposto que você sonhou com isso.

— Era ele sim!! Ele até conversou com a minha mãe. — respondeu ela a contragosto, surpreendendo Thomas e a própria Greta.

Não se lembrava de ter visto Suga. Tinha certeza que se lembraria disso caso tivesse essa sorte. Qualquer um em Daegu se sentiria sortudo por atender um dos melhores rappers da Coreia e isso a incluía. Ficou pensando nos dias em que Micha havia ido à lojinha e lembrou-se da última vez que August esteve ali. Será que a filha havia confundido o rapaz com Suga? Justo Micha, uma army assumida?

— Chame ela então! Duvido que a sua mãe o atendeu. — respondeu ainda naquele tom duvidoso.

— Atendi quem? — Greta saiu do corredor e parou ao lado da mesa, atrás de Thomas. Todas as meninas abaixaram a cabeça, desviando o olhar, somente Micha e o garoto a encararam, meio em choque, meio felizes por ela ter interferido antes que eles começassem uma briga desnecessária.

— Ahjumma, a Micha disse que você atendeu ao Suga aqui na semana passada. É verdade? — perguntou o garoto.

Micha faltou pular no pescoço dele e enfiar o punho inteiro naquela matraca ambulante. Mas se controlou. Sabia o que a mãe diria e não a culpava por isso. Ela não tinha tempo para mais nada além de ouvir música quando estavam juntas em casa. Não tinha tempo para ver vídeos na internet, programas de variedade na tv, muito menos procurar saber quem era quem no BTS. Claro que não reconheceria Suga ali, nem que ele aparecesse milagrosamente na loja de novo. O único jeito dela reconhecer o cantor seria se ele cantasse ao vivo, mas era meio impossível disso acontecer, mesmo que ele viesse.

— Eu adoraria ter atendido ao Suga aqui… mas acho meio difícil ele vir justo a essa lojinha, mesmo que estiver em Daegu, não acham? — comentou. Thomas pareceu satisfeito com a resposta, enquanto as outras meninas apenas resmungaram chateadas. — Mas é verdade que eu atendi uma pessoa famosa aqui… — continuou ela. O sorriso no rosto de Thomas desmanchou
imediatamente, enquanto as meninas levantaram as cabeças, esperançosas. Apenas Micha continuou séria.

— Ele não é famoso, mãe.

— É sim! Todo mundo da minha idade o conhece nessa cidade. E ele também faz rap. Por isso que você o confundiu, filha. — contou. — Eu o vi de novo sábado enquanto vocês estavam no retiro. Somos amigos, agora. — mentiu.

Encarou o rosto curioso das crianças e a cara de descrente da própria filha e suspirou. Não era nem para eles estarem ali, para começo de conversa. Muito menos esperando um idol que todo mundo sabia que não podia aparecer livremente em público sem ser perseguido. Estava falando a toa ali.

— Já está na hora de irem para casa.

Todo mundo resmungou ao mesmo tempo.

— É isso mesmo. Para casa todo mundo. Thomas, você acompanha a Micha até em casa? – perguntou se dirigindo ao menino.

— Claro, ahjumma.

— Ah não, mãe! Deixa eu ficar mais um pouco!! — protestou a menina.

— Nada disso. Para casa. E não pense que não vou ficar esperando você entrar daqui. Anda, para casa, mocinha. — falou pegando as coisas dela e enfiando na mochila. — Vocês também, meninas. Quando chegarem me mandem mensagem para eu poder saber que chegaram.

Esperou uma a uma refazer a mochila e sair. Não cedeu a nenhum dos resmungos delas e muito menos de Micha, feliz por Thomas estar ali para poder acompanhá-la até em casa. Mas não conseguiu esperar que a filha e o garoto entrassem no prédio como havia prometido.

Havia clientes na lojinha e ela precisava trabalhar. Depois de atender ao último senhor que havia entrado antes das meninas saírem, pensou em conferir a portaria do prédio se Micha havia chegado, mas não teve tempo. A sineta da porta voltou a tocar, lembrando-a de que tinha que trabalhar e ali, meio perdido e meio curioso, estava August.

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Vocabulário:
Ahjumma (아줌마): mulheres mais velhas geralmente nos seus 35-50 anos.

11 – Agust D
Micha deixou JiYoung ir na frente no caminho que consistia em três quarteirões até o prédio onde eram vizinhos. Quando passaram pelo primeiro quarteirão, ela dobrou a esquina e o deixou ir sozinho, dando a volta no quarteirão e voltando para a lojinha. Escondeu-se atrás de um anúncio grande de soju do lado de fora, de onde podia ver quase a loja toda sem ser vista por quem estivesse lá dentro.

Já que a mãe não a deixava esperar por Suga abertamente, ela esperaria escondida. Problema resolvido. Viu a mãe voltando para o caixa onde terminou de atender o senhor que havia entrado quando ela e as amigas ainda estavam lá dentro. Viu também quando ela fez menção de ir até a porta e ser interrompida pela entrada de outro cliente. Dali onde estava Micha teve certeza de que aquele rosto não lhe era estranho. Apertou os olhos, tentando ver melhor por baixo do boné preto que ele usava.

— Parece demais… será que? — sussurrou apertando o rosto contra o vidro, com as mãos em concha ao redor dos olhos.

— Será que o que?

Ela deu um pulo no mesmo lugar e tapou a própria boca para não gritar de susto. Bem ali ao seu lado estava JiYoung, abaixado para ficar na altura dela, espiando dentro da loja para saber o que tanto ela olhava ali. Como reflexo ela deu um soco no ombro dele, furiosa pelo susto.

— Ai! Isso dói!

— É para doer mesmo!! Nunca mais me assuste desse jeito!! — xingou.

— O que você está fazendo? — perguntou voltando a espiar dentro da loja. — Quem é aquele?

— É isso que eu quero descobrir, seu intrometido. — respondeu ela empurrando-o para o lado e entrando em sua frente para voltar a espiar. Como JiYoung era mais alto que ela, ficaram daquele jeito, ela vendo de baixo, ele de cima, quase na mesma posição.

— Ele parece o Suga… — murmurou o garoto.

— Humpf.

— Parece ué… — e então o garoto finalmente entendeu. — Foi ele que você viu quando achou que fosse o Suga, não foi?

— NÃO! — protestou ela. — Era o Suga mesmo! Eu perguntei até o nome real dele e ele confirmou. Não tem nada a ver com esse cara.

***
Ficaram um longo tempo se encarando depois que ele entrou. Ela sem saber se o que sentia era felicidade ou raiva ao vê-lo ali, sorrindo. Ele feliz por finalmente ter encontrado a loja onde ela havia dito que trabalhava. Greta estava ainda mais bonita, se é que isso era possível, vestida com o uniforme de trabalho do que arrumada como estava quando se conheceram no Porão. Não sabia explicar, mas algo no olhar dela o atraía como uma lâmpada atrai qualquer mariposa que passasse. Ela era a lâmpada e ele queria se queimar.

— Oi.

— Em que posso ajudá-lo? — respondeu Greta, sendo formal. Vê-lo a lembrou de como odiava ser o centro das atenções e de como ele havia deliberadamente colocado ela numa encruzilhada ao levá-la para o palco naquela noite.

— Hmmm.. er… eu vim te ver, Noonim. — respondeu ele desviando o olhar e apertando os dedos ansioso.

Queria se desculpar. Por vaidade, tinha achado que Greta seria como todas as outras mulheres que o procuravam no Porão, superficiais e em busca de toda a atenção que precisassem. Havia se enganado e só percebeu isso quando ela soltou sua mão em frente a todo o público do lugar sem se importar com o vexame que isso seria para ele. Ficou encarando a moça, tentando organizar as ideias e as palavras de modo que pudesse realmente começar de novo.

— Estou trabalhando. — respondeu ela friamente. — O que você quer?

— Me desculpar…?

Greta arqueou uma sobrancelha. Esteve esperando por esse pedido de desculpas a semana inteira, ansiosa por vê-lo entrar pela porta da lojinha do mesmo jeito que fizera das outras vezes. Mas de alguma forma não era igual. Sentia que não sabia nada daquele homem e quanto mais o olhava, mais ela achava que as outras vezes em que ele esteve ali foram boas apenas para ela. Foi até o caixa, sendo seguida de perto por ele, determinada a voltar a trabalhar e esquecer aquilo.

— Tudo bem… está desculpado. — respondeu ao perceber ele ainda por perto. — Precisa de mais alguma coisa? — perguntou.

A frieza dela o pegou desprevenido mais uma vez. Por mais que já tivesse encontrado vários tipos de mulheres em sua juventude, aquela era completamente imprevisível. Tinha ido ali com a intenção de convidá-la para um encontro, onde pediria desculpas mais apropriadamente, explicando que não era o completo babaca que fingia ser quando encarnava o personagem que cantava no Porão. Mas a frieza dela dificultava muito as sinapses em seu cérebro, fazendo com que ele parecesse um completo inexperiente diante de uma mulher adulta.

— Podemos começar de novo? — perguntou tirando o boné e ajeitando o cabelo, nervoso.

— Sou Park Min Su, também conhecido como August. Sou músico, mas não muito famoso… trabalho mais informalmente do que profissionalmente na área. — se apresentou esticando a mão para ela educadamente.

***
— Eu disse que não era o Suga. — cochichou JiYoung do lado de fora, o queixo apoiado na cabeça de Micha

— Shiu, eu quero ouvir o que eles estão falando. — sussurrou ela, cutucando-o com o cotovelo.

Por mais que tentassem nenhum dos dois conseguia ouvir nada da conversa lá dentro. A única coisa óbvia foi que ele realmente não era o Suga. Parecia muito, verdade, mas ao mesmo tempo ela podia ver claramente que não era. O cabelo era mais claro, ele era um pouco mais alto e mais magro, além de não ter o sorriso gentil que apenas Suga conseguia dar. Se a mãe passasse mais do que um minuto olhando qualquer um dos vídeos que Micha vivia tentando mostrar ela também perceberia que os dois não tinham nada a ver um com o outro.

— O que ele veio fazer aqui, afinal de contas? — murmurou mais para si mesma do que para o amigo.

— Eu acho que ele gosta da sua mãe… — respondeu ele sem perceber que ela não estava falando com ele. — Será que você vai ganhar um pai parecido com o seu bias?

— Cale a boca! — gritou ela empurrando-o para longe. Só de pensar na possibilidade da mãe começar a namorar, sentia o estômago revirar. Claro que ela desejava a felicidade da mãe. Ela era uma mulher bonita, jovem ainda, inteligente e no auge. Queria muito que ela fosse feliz. Mas era egoísta, porque tinha medo dessa felicidade significar que ela ficaria de lado.

O pensamento a deixou triste e ela agachou abraçando os joelhos e abaixando a cabeça. Achou que Deus continuaria ouvindo suas preces depois de descobrir que Suga tinha mesmo ido ali. Tinha rezado tanto para que a mãe percebesse que tinha atendido ao Suga e não aquele cara seboso dentro da loja. Mas aparentemente só se tem sorte em orações uma vez. Sentiu os olhos arderem, mas segurou a vontade de chorar para não mostrar fraqueza para JiYoung.

Por um tempo o garoto continuou olhando dentro da loja, observando Greta e o homem parecido com Suga. Não parecia a ele que a mãe de Micha sentisse alguma coisa minimamente parecida com o que aquele homem sentia por ela, mas ela parecia também curiosa. Olhou para trás e viu Micha toda encolhida, parecendo uma bolinha de lã castanha. Aproximou-se devagar e agachou ao lado dela, passando um dos braços pelo ombro da menina gentilmente.

— Vai ficar tudo bem, Micha… — sussurrou, passando a mão de leve nas costas dela.

— Oppa…

Oppa? Você me chamou de oppa? — perguntou confuso, achando que tinha entendido errado. Micha levantou a cabeça, jogando os cachos da franja para o lado e encarando JiYoung.

Oppa! — repetiu ela. Confuso, o garoto colocou a mão na testa dela para ver se estava com febre. — Você me ajuda a afastar esse cara dela? — pediu. JiYoung fechou a expressão.

— Sabia que não estava me chamando de oppa de graça. — respondeu balançando a cabeça negativamente, se levantando. Micha se levantou também.

— Ah, Oppa!

— Não me chame assim, é estranho. — começou a andar para casa. Micha o seguiu, chamando-o de Oppa o caminho inteiro, esquecendo temporariamente que tinha ido espionar a própria mãe sendo paquerada por um cara que ela não conhecia.

***
August, ou Park Min Su, como era seu nome real, saiu da lojinha de conveniência com um sorriso bobo no rosto. Tinha percorrido quase todas as lojas de conveniência de Daegu durante aquela semana só porque tinha ouvido Greta dizer que trabalhava numa dessas a noite. Podia-se dizer que era um especialista nessas lojas, agora que tinha percorrido quase todas atrás dela.

Lembrou-se do alívio que sentiu ao reconhecer a moça antes mesmo de abrir a porta de vidro e o impacto de vê-la ali, na vida real, rodeada de crianças, com as mãos na cintura fez com que ficasse muito feliz de ter conseguido. Não esperava que ela fosse receptiva, afinal de contas ele tinha mesmo exagerado ao tentar conquistá-la no Porão, mas também não esperava que ela fosse tão fria. Ajeitou o boné indo para casa a pé e pensando naquele breve encontro fora do seu ambiente.

— Não quis te ofender naquele dia, Gleta-ssi. — falou depois de se apresentar. — Quando estou no Porão, às vezes acabo caindo na ilusão de que sou famoso. E muita gente entra nessa comigo. Peço desculpas por te incluir neste grupo. Fiquei lisonjeado por ter uma fã como você e acabei exagerando. Nunca tive uma fã estrangeira, quase sempre são meus amigos exagerando na demonstração de afeto. Sinto muito. — completou com uma leve mesura.

Não se atreveu a olhar diretamente nos olhos dela enquanto falava, com medo de ver mais repulsa e raiva do que havia visto naquele dia. Mas sentiu um alívio imenso quando a ouviu suspirar pensativa.

— Tudo bem, August-ssi. — ela não sorria quando ele finalmente a encarou, mas também não demonstrava mais tanta frieza. — Eu também exagerei querendo te impressionar. Não imaginei que fosse querer a prova quando contei que também gosto de fazer rap. Foi um erro meu. Sinto muito.

— Tudo bem… eu gosto quando tenta me impressionar. — falou por impulso, sorrindo.

— O que?

— O que? — perguntou finalmente se tocando do que havia dito. — Er… Eu quis dizer que… – não sabia como sair dessa. – Quer sair um dia desses, tomar uma cerveja ou apenas conversar? — convidou de surpresa. Voltou a sentir o aperto da ansiedade quando ela ficou quieta, olhando-o sem responder. Daria qualquer coisa para saber o que se passava na cabeça dela enquanto o encarava daquele jeito. Mais uma vez teve a sensação de que quanto mais tempo passava com aquela mulher, mais precisava conhecê-la.

— Tudo bem… Eu te ligo quando tiver livre…

Dobrou mais uma esquina, sorrindo como bobo ao se lembrar disso. Esperava de verdade que ela ligasse. Não tinha ideia de onde a levaria, mas sabia que tinha que ser longe do Porão, longe dos bajuladores de sempre e num lugar onde ela se sentisse confortável o suficiente para se abrir.

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VOCABULÁRIO:

Oppa (오빠)= Mulheres falam para homens mais velhos.

Noonim = Uma versão formal de Noona

 



12 – Dream, Reality
O que aconteceu com aqueles dois? — perguntou Jin entrando na cozinha e dando de cara com Yoongi e Hoseok com os olhares perdidos e a mente longe, sentados cada um de um lado da mesa com pratos intocados de comida. Namjoon balançou a cabeça, sem desviar os olhos dos dois.
Não faço ideia. Estão assim desde que voltaram de Daegu, domingo. — falou. Estava apoiado na bancada da cozinha encarando os dois há bastante tempo, confuso com aquela apatia fora de hora.

Você também foi para Daegu, Hobi? — perguntou Jin se servindo de um copo de água e apoiando na bancada ao lado de Namjoon para encarar os dois.

Hoseok estava perdido na própria memória, não ouviu nada da conversa dos irmãos. Ainda podia sentir o toque delicado dos lábios de Kang Nari na própria boca. Devia ter tido mais atitude, assim teria um beijo de verdade e não um selinho para se recordar. Se fechasse os olhos, era capaz de rever a moça ali, com aquele sorriso radiante e aqueles quadris malditos mexendo de um lado ao outro no ritmo da música que tocava naquele lugar.

Queria seguir a sugestão dela e procurá-la, mas tinha medo. Ficou com a impressão de que ela não havia percebido quem ele era, mas não tinha certeza. Ela parecia conhecer cada um dos raps cantados antes das batalhas começarem naquele dia e, para a alegria dele, alguns eram dele e dos outros caras. Se ela sabia do rap, sabia quem ele era, não é? Abriu a boca para verbalizar essa pergunta para Yoongi, mas desistiu ao ver o estado de torpor dele do outro lado da mesa.

A mente do rapper estava em Daegu, mais exatamente no Porão no momento em que Nari tirou Greta do palco e elas passaram por eles sem sequer vê-los. Tinha perdido outra chance de conversar com ela e agora não tinha ideia de quando isso seria possível. A agenda do grupo estava cada vez mais apertada com as divulgações do álbum, havia músicas novas a serem gravadas, produções que aguardavam sua atenção a mais tempo do que deveriam, viagens que não queria fazer mas precisava. Quando teria chance de ir a Daegu de novo? Pior, quando teria chance de ir até aquela bendita lojinha apenas para fingir que era outro cara? Olhou para Hoseok e o encontrou encarando-o de volta.

Precisamos voltar a Daegu. — falou. Hobi concordou com a cabeça, aliviado por entender certo aquele olhar perdido de Yoongi.

Espera, como assim irem a Daegu? — perguntou Jin ainda assistindo os dois ali, naquele diálogo silencioso. Foi como se uma lâmpada se acendesse num quarto escuro e só naquele momento os dois percebessem a presença de Jin e Namjoon ali. – O que diabos aconteceu em Daegu esse fim de semana para deixar vocês dois assim? – perguntou.

Uma rinha de rap. — respondeu Hoseok.

Namjoon imediatamente ficou interessado, colocando a xícara de café que segurava na bancada e cruzando os braços, atento. Jin olhou para ele em choque.

Uma rinha de… e por isso vocês ficaram assim?

E foi legal? – perguntou Namjoon.

HYUNG! — gritou Jin indignado.

Você é o hyung. É o mais velho. — respondeu Namjoon fingindo que não percebia como ele estava começando a se irritar. Puxou uma cadeira e se sentou ao lado de Yoongi, encarando Hoseok com interesse.

Você é o líder, deveria lembrar todo mundo dos compromissos! — protestou Jin. O outro fingiu não ouvir essa chamada e olhou de Yoongi para Hoseok, mais interessado do que nunca.

E então?

O que? — perguntou Yoongi ainda perdido nos próprios pensamentos.

Essa rinha! Foi evento único? Vocês foram como convidados? Acharam por acaso?

Participaram? Como assim não me chamaram?

EI, KIM NAMJOON! — gritou Jin tentando fazer os três voltarem ao plano terrestre e real da vida deles. Os três ignoraram o mais velho.

Ah, o Yoongi descobriu essa rinha, não foi? — começou Hoseok. Não queria contar sobre Nari, achava que o líder do grupo aceitaria bem menos a ideia deles irem para Daegu sem motivo se ele contasse que queria reencontrar uma mulher.

Tem um lugar novo que tem batalhas de rap quase toda semana… — começou. — Descobri por acaso. — mentiu sem olhar para Hoseok. Tinha medo de que se o fizesse ia acabar se entregando.

E vocês foram assim? Na cara e na coragem? — perguntou Jin, curioso a muito contragosto.

Ninguém nem olhou duas vezes para mim. — respondeu Hoseok. Essa parte era verdade.

É mesmo? — perguntou Namjoon se dirigindo a Yoongi.

Bom, no meu caso repararam sim. Mas porque tem um cara lá que dizem parecer comigo.

Você tem um sósia? E ele faz cover seus? — Jin sentou-se ao lado de Hoseok, completamente interessado agora.

Não. Ele canta raps originais. Mas usa um nome que lembra Agust D.

E acharam que você era ele?

Foi.

Isso é surreal. — respondeu Namjoon. — Duvido que teríamos a mesma sorte se fossemos nós três. — completou.

EI, E EU? — gritou Jin.

Ué, não era você que estava até agora tentando me lembrar das nossas responsabilidades?

argumentou Namjoon.

Mas eu não sou o líder, você é. — retrucou.

Certo. — respondeu balançando a mão como se espantasse uma mosca particularmente irritante. — Quando vamos a Daegu? — perguntou.

Hoseok e Yoongi trocaram um olhar entre si e sorriram satisfeitos. Só precisavam inventar uma desculpa ou um compromisso que não interferisse no cronograma deles. Quatro cabeças pensam melhor do que duas e uma delas era o maior Q.I. do grupo. Seria moleza.

* * *

Ela estava terminando de arrumar a bandeja de brigadeiros perto do caixa quando Nari entrou no restaurante. Arqueou uma sobrancelha. Nunca recebia visita da amiga naquele emprego, era sempre na lojinha porque a coreana ficava ansiosa por não entender o que diziam ali dentro.
O restaurante Sabor Brasileiro era o segundo emprego de Greta. Trabalhava ali em dias alternados e sempre no horário de almoço, logo depois de sair da faculdade. Era mais um lugar onde se sentia confortável em Daegu, já que tinha ficado muito amiga do casal dono do restaurante. Além do fato de poder falar português com mais pessoas além de Micha. Estranhou a entrada de Nari ali, já que ela estava quase sempre de dieta e quase nunca resistia à bandeja de brigadeiros no caixa.

Aconteceu alguma coisa? — perguntou Greta preocupada. Reparou que a amiga usava um conjunto de terninho e saia pretos, completamente diferente da personalidade expansiva e radiante que ela tinha. – Morreu alguém?

O que? — perguntou Nari confusa.— Não! Credo! Nem brinca!

Por que está vestida assim, então? — perguntou apontando o look “mulher de negócios”.

Sua mãe te obrigou a assumir a loja de Daegu? — brincou.

Nari ficou muda. Era exatamente o motivo de estar ali vestindo aquela roupa. Enquanto tentava descobrir mais coisas sobre o tal Hope, acabou entrando em conflito com a mãe e agora estava sendo obrigada a assumir a loja principal da franquia da qual sua família era dona. A única parte boa de ser da família Kang era não precisar trabalhar e poder mimar quem ela quisesse com o dinheiro que tinha. Agora tudo ia por água abaixo porque a mãe havia decidido se mudar para Seul para usufruir do dinheiro acumulado por todos os anos trabalhando para o conglomerado da família. Greta ficou séria de repente diante do silêncio da amiga.

Foi isso? Vai ter que trabalhar?

Nari não respondeu. Fez um biquinho que nem mesmo Micha seria capaz de deixar tão fofo, mesmo sendo uma criança, e fungou deixando o nariz franzir. Estava se sentindo péssima. Como ia encontrar o futuro pai de seus filhos agora que tinha que trabalhar? Como ia paparicar Greta e Micha com todas as roupas que comprava, ganhava e pegava na loja? Bom, talvez essa parte ainda seja possível fazer. Mas como ela ia ter tempo para procurar o tal Hope?

Unnie, me ajude! — murmurou.

Que jeito?! Eu mal dou conta dos meus empregos, imagine ajudar com uma loja que eu não sei nada!

Por favor, me ajude a convencer minha mãe que isso é um erro! Eu preciso encontrar minha esperança!!

Oi? — perguntou Greta confusa. E então se lembrou do moço do sorriso bonito. — Ah! Gostei do trocadilho. — riu. – Parece o trocadilho que a Micha e as meninas fazem com o J-Hope.
respondeu voltando a dar atenção aos brigadeiros. — Por que sua mãe decidiu isso assim, do nada? – perguntou.

O silêncio se instalou e só depois de muito tempo ela percebeu que Nari não prestava atenção nela. Estava com o celular na mão, de queixo caído, olhando para a tela.

Nari? — mas a moça estava em outro universo. Ouvir o nome J-Hope foi como ligar uma chave em sua mente e ela só parou depois de jogar aquele nome no site de busca. Será que era possível? O cara era bonito mesmo. E tinha porte e jeito de idol. Mas será que ela seria assim tão sortuda a ponto de se interessar justamente por um? E ele nem ser notado pelo resto do mundo num evento de rap? Deus existe?

Ei, Kang Nari! — Greta agitava a mão em frente ao olhar perdido da amiga, confusa com aquela mudança brusca de comportamento.

Amiga… — começou Nari. — Acho que gastei toda a minha sorte no Porão. — o olhar ainda estava perdido dentro das próprias memórias. Bastou ver o resultado da busca para confirmar, sim, ela tinha dado um selinho em ninguém menos de J-Hope do BTS.

Oi? — ela virou o celular para Greta, onde havia uma foto promocional de Hoseok depois de lançar Ego. – Ei, não é aquele… — a voz da brasileira foi morrendo ao ler o termo que Nari havia usado para fazer aquela busca. — Espera… você…

Aham.

No Porão?

Aham!

Com o cara do BTS?AHAM!

PUTA QUE PARIU! — exclamou Greta cobrindo a boca com a mão e olhando para os lados porque ali dentro todo mundo entendia muito bem o que ela tinha acabado de gritar em português. Voltou a olhar para o celular e numa das fotos estava J-Hope com os outros membros do grupo. Parado ao lado dele, sorrindo com seus dentes pequenos e olhos de gato, um cara idêntico à August.

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VOCABULÁRIO:
Hyung (형) = Homens falam para homens mais velhos