Naturally

Naturally

Sinopse: Poucas pessoas tem a sorte de encontrar sua alma gêmea. Aquela pessoa que de cara encaixa naturalmente, com quem temos a liberdade de sermos nós mesmos, de coração aberto, sem medo de qualquer julgamento. Na escolha de almas gêmeas eu fui privilegiada, porque minha alma gêmea era Byun Baekhyun.
Fandom: SuperM
Gênero: Comédia romântica, ficção
Classificação: 18
Restrição: Byun Baekhyun é personagem fixo.
Betas: Alex Russo

Capítulos:

 

Capitulo 1
Naturally

Há quem diga que ser uma mulher bem sucedida aos 27 anos é uma missão impossível, mas impossível mesmo era ser a mais velha de cinco irmãs, em uma família onde “bem sucedida” significava casar e ter filhos antes da primeira ruga aparecer.
E quando ele vai te pedir em casamento, unnie? – minha irmã soava cheia de manha ao telefone, que eu segurava com o ombro enquanto usava as duas mãos para cortar a carne em meu prato – Vocês estão juntos há quatro anos, não é possível que ele nunca tenha mencionado casamento. Ele nunca te deu nem um anel de compromisso, isso não é normal, eu acho que ele está te enrolando.
– Eu acho que você devia cuidar da sua vida… – resmungo, enchendo a boca de comida.
É o que estou fazendo. Papai disse que só podemos casar depois que nossa irmã mais velha desencalhar. Então por favor, pare de ser egoísta, tenha consideração pelas suas irmãzinhas que querem ter uma família e viver uma vida normal, e dê uma dura em Seojun, se ele não te quiser procure quem queira.
– Por que a pressa?
– Dylan propôs. – ela diz rápido, e eu a conheço o suficiente para saber que ela está sorrindo para o celular nesse momento. Dylan é seu namorado estrangeiro, em quem eu não confio nem um pouco. – E eu aceitei, mas não podemos nos casar se você não se casar primeiro. Nenhuma de nós pode.
– Azar o seu, maninha. Quem não tem coragem para confrontar o papai quanto a essas regras ridículas são vocês. Eu sei que estão todas ouvindo, então aqui vai meu conselho de irmã mais velha: – suspiro, largando meu garfo e me concentrando no que vou falar. – Quando eu saí de casa, decidi que nunca mais seria controlada por ninguém, nunca mais dependeria de homem nenhum. Se a escolha de vocês é realmente casar e formar uma família, eu não posso mudar a mente de ninguém, mas a vida é mais do que isso, meninas. A vida é muito maior do que um papel dizendo que você pertence a um homem, e uma existência de servidão onde sua personalidade vai ser pouco a pouco apagada, dando lugar a uma dona de casa sem voz e sem vontade própria. Eu não vou pressionar Seojun a me pedir em casamento, muito menos agora que estou quase embarcando para Tóquio.
Seu emprego é mais importante que sua família? – ouço a voz da minha irmã caçula gritar longe do aparelho.
– Minha família não paga minhas contas, nem a roupa que eu uso, nem a comida que me alimenta. Sinto muito meninas, mas vocês que se virem com o papai e essa palhaçada sobre casamento. Meu horário de almoço está no fim, preciso ir. – desligo antes mesmo que elas respondam, sem vontade de continuar aquela conversa pavorosa.
Desde que me conheço por gente, carrego o peso de ser a irmã mais velha. O peso foi ficando cada vez maior conforme mais irmãs foram chegando, e ficou insustentável quando minha mãe faleceu, quando eu tinha dezessete anos. Da forma mais tradicional possível, a missão de vida do meu pai se tornou arrumar um marido para todas nós, assim nenhuma acabaria desamparada quando ele morresse também.
Seus métodos nunca foram muito ortodoxos e eu sempre fui contra tudo aquilo, porque meus sonhos, por mais secretos que fossem, não envolviam matrimônio. Quando completei dezoito anos ele tentou me obrigar a casar com um homem quatro anos mais velho, foi a gota d’água. Despejei toda minha frustração em forma de palavras duras para cima do meu pai e fugi de casa feito uma marginal. Trabalhei em três lugares ao mesmo tempo para conseguir me sustentar e correr atrás do meu sonho de ser uma mulher independente e bem sucedida.
Após quebrar a cara inúmeras vezes, passar todo tipo de dificuldade que se pode imaginar e ver que nada na vida é fácil, finalmente organizei meus passos, planejei meu futuro e tenho tudo sob controle.
Hoje em dia eu sou exatamente o que eu queria ser: dona de mim. Infelizmente, para a minha família isso é a maior desgraça que poderia me acontecer, uma mulher sem um marido é uma afronta a tudo que eles consideram certo perante a sociedade e Deus. Para mim, uma mulher sem um marido é como um peixe sem uma bicicleta.
– Problemas? – questiona, ao voltar do banheiro e me encontrar terminando de comer, bufando de frustração. Seguimos juntas para fora do restaurante.
– Dramas familiares, – reviro os olhos – você tem irmãs, ?
– Não, sou filha única.
– Agradeça a todas as entidades superiores que acreditar então, porque eu sou a irmã mais velha de cinco irmãs, em uma família tradicional, e posso afirmar que é o inferno na terra. Meu pai tem essa regra estúpida que minhas irmãs só podem se casar depois que eu me casar também. Fala sério, não estamos no século vinte e um e eu não sou personagem de um livro da Jane Austen – solto o ar com raiva, fincando as unhas na palma das minhas mãos – Mesmo eu sendo a desertora da família, continuo sendo pressionada de todo lado pra que isso aconteça, mas só nos sonhos do meu pai que eu vou me casar tão cedo.
– Mas você não tem um namorado? – ela questiona, diante da minha risada amarga.
– Tenho. Seojun é um anjo perfeito inclusive, tão diferente de todos os homens que já conheci. Por isso mesmo o escolhi para ser meu parceiro na vida, mas isso não quer dizer que precisamos casar. Estou focada demais no meu trabalho e ele na sua carreira como jornalista – sorrio, lembrando do quão sexy eu achava a profissão do meu namorado – Se for com ele, eu posso até cogitar me casar um dia, mas será quando eu quiser, não quando minha família me obrigar!
Após meu momento de revolta terminar, voltamos ao prédio da SM Entertainment onde trabalhamos juntas fazia quase um ano. Apesar de ela estar na empresa há muito mais tempo que eu, ela nunca deixou seu cargo superior impedir de nos aproximarmos. Ela foi minha primeira amiga dentro da SM, e agora era fora dela também.
Em algumas horas partiríamos para Tóquio, onde a turnê do SuperM teria inicio e eu estava quase explodindo de animação. Seria a primeira vez que eu faria parte de uma equipe em uma turnê mundial com um grupo tão grande.
“Nosso vôo sai às 16h e acho que chegamos antes das 19h. Eu mal aguento de ansiedade. Amor, nós sempre planejamos ir a Tóquio juntos, então da próxima vez eu te levo comigo ❤.” Eu ás 13h51.
Digito a mensagem para Seojun com um sorriso bobo nos lábios. Era incrível que mesmo depois de tantos anos juntos, ele ainda tinha aquele efeito sobre mim, aquele frio na barriga, que se instalava sempre que eu aguardava por sua resposta cheia de amor.
“Ok. Boa viagem.” Seojunie<3 14h19.
Ok, confesso que essa não era a resposta que eu esperava. Ele não costumava ser um cara de poucas palavras, eu normalmente tinha que dizer para ele se controlar porque ele passava dos limites e falava pelos cotovelos.
– Que cara é essa? – Heejin, uma das mulheres que trabalhavam comigo, perguntou por cima da bancada que dividia nossas mesas, ao me ver encarando o celular por tanto tempo.
– Seojun está estranho… – respondo, mesmo em dúvida.
Meus colegas de trabalho já me ouviram falar sobre meu namorado tantas vezes, que o conheciam quase tão bem quanto eu.
– Estranho como? – foi a vez de Bill perguntar do outro lado. Seus olhos praticamente duplicando de tamanho, farejando a fofoca, cheio de interesse.
– Estranho tipo respondendo uma mensagem fofa de três linhas com apenas duas palavras. Ele nunca fez isso.
– Isso me cheira a término.
– Quê término, o quê, Heejin? – Bill joga uma caneta na direção da garota, que desvia quase caindo da cadeira. – O que você entende de relacionamentos? O único beijo que deu na vida foi no seu primo.
– Também teve aquele entregador de pizza…
– Você estava bêbada e tentou pagar pela pizza com sua língua. Você agarrou o coitado a força, não conta. – exagerado como só ele, Bill fingiu ficar arrepiado e fez cara de nojo para a lembrança.
– Mas eu já assisti vários romances, tá? – ela pareceu ofendida.
– E quer o que, mocoronga? Um parabéns? – debocha, ajeitando o cabelo perfeitamente dividido ao meio – Eu vou te dizer, , minha querida. Quando caras como Seojun agem dessa forma, de duas uma, ou ele está te traindo…
Eu nem espero que ele termine a frase, explodo numa gargalhada que faz com que seja a minha vez de quase cair da cadeira giratória.
Aquelas cadeiras são um perigo.
– Seojun jamais me trairia. – continuo rindo sem controle. A ideia é simplesmente inconcebível, tanto que jamais me passou pela cabeça sequer cogitá-la. – Fala sério, estamos falando do Seojun, o cara que me pede perdão quando olha para uma mulher bonita na televisão.
– Então, se não é traição, a outra opção é – ele se estica por cima da mesa, fazendo uma pausa dramática. Tanto Heejin, quanto eu, nos esticamos em sua direção, curiosas. – Ele está planejando te pedir em casamento.
– O que?! – a pergunta sai de nós duas ao mesmo tempo.
– É assim que funciona, meus xuxus. Eu sei do que estou falando, foi assim nos meus três pedidos de casamento. – ajeitou a gargantilha que usava, suspirando. – Eles sempre ficavam estranhos por uns dias, distantes, parecia que as coisas tinham esfriado e eu ficava preocupado achando que não era mais amado, que estava tudo terminado e então, PLAU! Uma aliança brilhando bem na frente dos meus olhos. – balançou os dedos no ar, perdido em lembranças. Uma enorme aliança dourada pesada em seu anelar.
Minha mente ficou silenciosa por um segundo e então voltou a funcionar de forma muito barulhenta.
– Não pode ser. – solto, quase sem ar, negando com a cabeça.
– Não só pode como vai. Você sentiu que ele tentou esconder algo de você nos últimos dias? – Bill questiona e me esforço pra lembrar alguma situação específica.
Infelizmente, me lembro de uma semana atrás, quando encontrei a nota fiscal de uma compra feita numa loja de joias, no bolso de uma blusa que peguei emprestada. Quando perguntei o que era, ele se apressou em responder que havia comprado um par de brincos para a mãe. Eu não desconfiei de nada, porque ele jamais mentiria para mim.
– Meu Deus! – levo minhas mãos até minha boca, que está escancarada.
– Ou talvez ele esteja planejando algo especial para o pedido… – Bill continua e agora é mais fácil ainda lembrar.
Dois dias atrás, quando cheguei ao apartamento de Seojun, ele estava tomando banho e seu notebook estava aberto em uma página de Resorts para alugar em Jeju. Sua explicação havia sido que ele estava escrevendo uma matéria sobre o turismo na ilha, mas agora, parando para pensar, não fazia o menor sentido.
– MEU DEUS! Seojun já comprou as alianças e está planejando me propor em casamento numa viagem a Jeju! – a declaração sai da minha boca antes que eu consiga controlar minha língua.
– O quê? – quando procuro a fonte da pergunta, encontro parada encostada na porta de vidro que dava acesso ao nosso escritório, nos olhando como se fossemos alienígenas.
– Amiga, eu vou enfartar! – arrasto a cadeira em sua direção e a olho de baixo, com os olhos quase lacrimejando. – Você lembra o que conversamos no almoço, e agora Seojun está todo estranho. Após um detalhado estudo, cheguei a conclusão de que ele vai me pedir em casamento.
– Como você sabe disso? – ela olha desconfiada na direção de Bill e Heejin, que rapidamente voltam aos seus afazeres.
– Tenho certeza, vi a nota fiscal da joalheria e ele procurando reservas de resort em Jeju. Ele sabe que eu sempre sonhei em conhecer Jeju. Por que ele é assim? Eu não estou preparada para isso, mas é tão lindo… – digo, chorosa, imaginando a maldita cena daquele maldito homem perfeito se ajoelhando em minha frente e abrindo uma caixinha de alianças, com um cenário de tirar o fôlego atrás.
Como eu negaria um pedido desses?
– Não quero minha equipe desfocada nessa turnê, então aproveita que nosso vôo foi adiado e vai resolver isso. Eu te cubro aqui. – ela sorri em minha direção, tão compreensiva e bonita que eu tenho vontade de abraçá-la. – Vamos sair as 18h20.
– Obrigada, chefe! – afirmo, mesmo que ela não seja minha chefe.
Saio às pressas do prédio da SM, procurando por um táxi na rua movimentada. Seojun vai me pedir em casamento e não sei o que pensar dessa informação. Não é como se eu não quisesse aceitar, ele sem dúvida é o homem da minha vida, mas talvez o momento não seja certo. Eu não havia previsto nada daquilo, cada passo da minha vida era previamente avaliado e planejado para que nada desse errado e eu nunca sabia lidar quando as coisas não aconteciam como eu antecipei.
E por que diabos ele está planejando isso logo agora, que estou saindo numa turnê com a equipe do trabalho? Talvez ele esteja planejando esperar a turnê acabar, pra viajarmos daqui alguns meses. Essa é a conclusão mais óbvia, mas só penso nela depois que o táxi já parou na frente do prédio residencial onde ele morava.
Mesmo assim não consigo controlar a felicidade gigantesca que toma conta do meu peito de saber que ele planeja o futuro dele comigo. Talvez sonhar em ter uma família e envelhecer ao lado de alguém não seja tão ruim assim, desde que seja alguém que você ama. E eu o amo tanto.
Pago a corrida com um sorriso enorme no rosto, atravesso o hall de entrada e subo os três lances de escadas em direção ao apartamento tão conhecido por mim, afinal frequento ele faz quatro anos. E é por esse motivo mesmo que tenho a chave reserva da porta, e é pelo mesmo motivo que nem me preocupo em bater, apenas a uso pra entrar e fazer uma surpresa pra Seojun.
Minha vida é uma grande piada de mau gosto, porque no final quem é surpreendida sou eu. Abro a porta silenciosamente, com um sorrisinho bobo que desaba tão rápido quanto meu coração se quebra em mil pedacinhos. Meus olhos se arregalam ao encontrar Seojun, sem camisa, girando uma mulher seminua no meio da sala de estar. Seu cabelo está bagunçado de forma sugestiva, ela usa apenas uma lingerie vermelha e um colar de pedras enormes, que toca com a mão livre e sorri.
Oppa, eu amei. Deve ter sido um absurdo! – a voz dela é estridente e me petrifica no lugar. Me sinto tonta como se tivesse levado uma paulada na cabeça.
– Tudo pela minha garota. – ele solta a mão dela e segura seu rosto, a traz para perto e beija sua boca carinhosamente, do jeito que costuma me beijar. Sinto meu almoço se revirar perigosamente no meu estômago. – Suas malas estão prontas?
Então, tão claro como a luz ofuscante do sol que queima meus olhos, tudo passa a fazer sentido. É tão, mas tão doloroso que não consigo evitar e coloco para fora tudo que há em meu estômago, ali mesmo, na porta de entrada do apartamento do meu namorado.
Bem, ex namorado.

O mundo não para só porque você está com o coração partido. Por mais que esteja doendo tanto que você mal consegue respirar, a vida continua acontecendo impiedosamente a sua volta. Descobri isso quando precisei embarcar naquele avião rumo a Tóquio mesmo me sentindo despedaçada por dentro.
Sequer tive tempo de chorar. Talvez a ficha não tenha caído ainda e por isso, após vomitar em sua porta e sair correndo sem dizer nada, sigo meus afazeres obrigatórios em um estado robótico.
“Heejin estava certa, nós terminamos” foi o que eu informei ao encontrar , Bill e Heejin novamente no escritório da empresa, aguardando pela minha atualização. Não disse mais nada e agradeci mentalmente quando eles não perguntaram, respeitando meu claro estado de luto. Acho que a minha cara dizia tudo.
Eu categorizada minha tristeza em três estágios:
Estágio 1, aquela tristeza que sinto quando alguma coisa boba dá errado, como quando o casal que eu shippo não fica junto em um dorama, ou quando derrubei meu o celular novinho dentro da privada. Dói, mas da pra ignorar e seguir com a vida (as vezes rola uma choradinha para aliviar).
Estágio 2, a tristeza que sinto quando algo muito importante dá errado, que faz com que eu me sinta no fundo do poço, como quando precisei fugir de casa e viver uma vida miserável por um tempo até me reerguer. Aquele sentimento que aperta o peito e me obriga a fazer piada com minha própria desgraça, porque sei que rir é melhor que desabar num choro que pode durar dias.
E por fim, o temido estágio 3, quando a tristeza atinge níveis tão catastróficos que não tenho humor nem mesmo pra fazer piadinhas depreciativas que salvam minha sanidade mental, mas tão pouco consigo chorar porque a situação é tão ruim que nem parece real.
Naquele momento eu estava vivendo o auge do estágio 3 e me perguntando se não era hora de adicionar uma quarta categoria.
– Seremos colegas de quarto no hotel, espero que não se importe – sorri gentilmente ao anunciar – Acho que não é uma boa ideia você ficar sozinha. Podemos pedir frango frito, assistir um filme onde os homens se ferram no final e eu sempre tenho uma garrafa de whisky pra emergências.
Eu apenas concordo com um aceno e tento sorrir de volta, sem me importar com a careta que aquilo deve ter parecido para ela.
Havíamos acabado de desembarcar com a equipe de produção, e a van seguia para o Hamacho Hotel, onde ficaríamos hospedados por três dias. O show seria no dia seguinte e eu teria trabalho o suficiente para me ocupar e não pensar em… nele.
Fizemos exatamente o combinado àquela noite, e acho que foi quando meu laço com se tornou mais profundo. Entre uma asinha de frango apimentada e outra, desabafei toda a minha frustração e tristeza pelos anos que perdi acreditando que Seojun era o amor da minha vida.
Quando ela abriu a garrafa de whisky, ao som de Done, da CL, teve a brilhante ideia de me fazer imaginar ela era meu ex namorado, e dizer tudo que estava preso em minha garganta. Nas primeiras doses eu achei a ideia ridícula, mas logo que o álcool fez efeito as palavras cheias de raiva começaram a sair de mim como tiros e quando eu quase agredi minha colega de quarto com tapas que na verdade eram direcionados a Seojun, foi que concluímos que era hora de ir dormir.
Eu me sentia um pouco melhor, mas ainda não havia soltado nenhuma lágrima. Sentia que tudo estava preso dentro de mim por uma represa prestes a romper, e quando acontecesse seria devastador.
Por sorte, minha colega de quarto era uma profissional exemplar e pontual, então antes mesmo da hora marcada nós já estávamos prontas para seguir com a equipe de produção para o Tokyo Dome, onde aconteceria o show de estréia da turnê do SuperM.
Eu nunca fui uma funcionária tão exemplar como naquele dia. Eu estava focada em executar todas as minhas tarefas de forma impecável, me voluntariei para todos os trabalhos extras que precisavam ser feitos, até mesmo os que não tinham absolutamente nada a ver com minha função.
Tudo pra manter minha mente ocupada e longe dos pensamentos que eu não tinha forças para lidar naquele momento.
Ainda não é hora de desabar, eu repetia pra mim mesma a cada dez minutos.
, preciso de você no camarim terminando de vestir os membros, agora. – aponta para o corredor dos camarins, sem tirar os olhos do seu tablet. Tira a caneta que prendia seus cabelos e começa a morder a ponta, nervosamente – Faltam 20 minutos para o show começar e a estilista simplesmente sumiu. Desapareceu. As pessoas são pagas para quê nessa empresa? Eu vou ter um AVC, , eu tô sentindo.
Eu entendia a pressão que ela estava sofrendo naquele momento. era a única mulher a liderar uma equipe, a única a chegar onde só homens chegaram antes dela. Era o primeiro show do grupo e nada podia dar errado, ou achariam alguma forma de apontar a incompetência feminina como causadora da falha.
Por isso nem questiono suas ordens, e já sabendo o que fazer corro para o camarim sem nem respirar direito no processo. Abro a porta pesada com dificuldade, que bate atrás de mim com um estrondo muito alto e vou logo em direção aos cabides onde estavam separados por nomes as últimas peças do primeiro figurino dos membros. Esses, que por sua vez estavam recebendo os últimos retoques no cabelo e no equipamento.
Ajudo cada um a se vestir, focada no que faço e alheia ao que eles conversavam entre si. Me certifico duas vezes de que cada botão está em sua casa, nenhuma franja está embolada e não havia sequer um fiapo branco nos tecidos escuros.
Caramba, eles estão tão lindos que eu ficava triste de olhar, porque eu devia estar um trapo ainda pior perto daqueles homens magníficos.
– Dez minutos, SuperM! – alguém berra da porta do camarim, saindo em seguida com mais um baque estrondoso. Aquela porta precisava de conserto, urgente.
A nuvem escura que pairava sobre a minha cabeça naquele dia não me deixou sequer suspirar aliviada em ver todos eles seguindo para a porta de saída. Algum desmiolado achou que seria uma boa ideia deixar um enorme copo de suco pela metade na beirada da prateleira alta, que ficava a lado da porta.
Prevendo a merda que aconteceria no momento em que o distraído que liderava o grupo abrisse a porta problemática, me movimento até ele muito rápido, quase orgulhosa de meus reflexos, e me jogo em sua frente.
– Cuidado! – minhas mãos seguram os ombros de Baekhyun e o empurro para trás sem nenhuma gentileza.
Fecho os olhos com força, a tempo de sentir o copo batendo contra minha nuca, a bebida gelada caindo nas minhas costas, molhando meu cabelo e escorrendo pela minha bunda. Me contorço involuntariamente, com a pior sensação do mundo.
Quando volto a abrir meus olhos, procuro rapidamente algum sinal de que a bebida havia respingado na roupa dele. me mataria se aquilo acontecesse. Para sorte de Byun Baekhyun, e meu completo azar, meu corpo havia absorvido tudo.
Evitando o contato visual a todo custo, porque a essa altura meus olhos já estavam marejados e eu sentia a represa que segurava minha enxurrada de lágrimas muito perto de se romper, aproveito que logo os outros membros da equipe o cercam para ver se está tudo bem, e me afasto.
Praguejando baixinho, entro no primeiro banheiro que encontro e foi preciso apenas me olhar no espelho para a primeira lágrima escapar, seguida por inúmeras outras, e alguns soluços doloridos. Eu mal reconhecia a pessoa refletida ali. Nunca havia visto meus olhos tão sem vida, meu cabelo que eu nem tinha penteado aquela manhã, agora estava molhado e grudento, e até mesmo minha pele parecia amarelada e doente.
Que desgosto.
A sensação da camiseta fria colada ao meu corpo me agonia, mas eu não tinha outra peça pra colocar no lugar então teria que ficar daquele jeito até o final do show. Maravilha. Foi o estopim que faltava para tudo desabar e vez.
Tudo que consigo pensar é: o universo me odeia.
A vida não cansa de me espancar mesmo quando já estou caída no chão. Eu quero me desfazer em lágrimas até não sobrar nada de mim, mas sou obrigada a parar de chorar e lavar o rosto quando ouço alguém bater na porta. Para minha surpresa não era ninguém querendo utilizar o banheiro que eu estava interditando fazia sei lá quantos minutos.
Uma das maquiadoras da equipe está parada ao lado da porta, e quando me vê estende a peça de roupa que segura em suas mãos, meio sem jeito.
– Pediram para te entregar. Ficar com a roupa molhada pode causar um resfriado – sorri gentil.
Agradeço fraca demais para questionar qualquer coisa e volto a me trancar no pequeno cômodo. Aperto a camiseta em minhas mãos e faço uma careta quando as lágrimas voltam com força. Ela é preta, com pequenos detalhes prateados nas mangas, e quando a coloco, depois de me limpar com vários lencinhos umedecidos do banheiro, sinto um cheiro reconfortante vindo do tecido.
– O universo me da um soco, depois me faz um carinho… – murmuro cheia de ironia, com o nariz enfiado no meu próprio ombro.
Seja lá quem usou essa camiseta antes de mim, tinha um perfume muito bom, porque depois de cheirá-la por vários minutos eu percebo que parei de chorar e me sinto calma o suficiente pra voltar lá para fora.
Consigo manter a compostura até o final do show, que me distrai o suficiente para não voltar a chorar. Descobri então que o SuperM no palco é capaz de me distrair até mesmo de um apocalipse rolando o meu redor.
A energia daquele grupo, as músicas contagiantes, os passos elaborados que me faziam questionar se eles eram mesmo humanos, para conseguir mexer o corpo daquela forma. Era tudo mágico. Nem parecia que aquele era o primeiro show oficial deles juntos, havia uma conexão ali que era difícil de explicar, mas tão visível quanto aqueles visuais destruidores.
A vibe incrível do show durou exatamente até chegarmos ao Hamacho Hotel. Meu peito voltou a apertar tão dolorosamente que era difícil pensar em outra coisa. Parei no hall de entrada, vi toda a equipe se despedir e subir para seus quartos, e então mudei meu rumo para o bar do hotel.
– Quantas garrafas de soju acha que cabe nessa bolsa, senhor? – pergunto para o barman, abrindo a bolsa que estava pendurada em meu ombro e retirando o moletom que carregava lá dentro. Ainda bem que eu não era o tipo de mulher que carregava muitas coisas.
O homem de meia idade e avental preto na cintura olha para mim, depois pra a bolsa e então de volta pra mim, com a sobrancelha arqueada. Provavelmente se perguntando se eu estava falando sério ou tirando uma com a cara dele. Eu mantenho meu rosto inexpressivo esperando a resposta porque minha pergunta foi séria.
– Umas nove, se arrumar direitinho.
– Então me vê dez garrafas de soju, por favor – ele arregala os olhos, coça o queixo, mas não diz nada.
Espero até que ele traga as garrafas e vou guardando todas em minha bolsa, até sobrar apenas uma que vou levar na mão. O objeto fica pesado em meu ombro e entorta minha postura.
– Precisa de um copo? – ele pergunta estranho, quando devolve meu cartão de crédito.
– Não, vou beber no bico mesmo. Obrigado e boa noite – faço uma reverência rápida e viro as costas antes que possa ver sua reação.
Ele deve estar me julgando agora, pela minha figura deplorável, meu desespero por encher a cara e esquecer tudo de uma vez ou pelo barulho de garrafas batendo que minha bolsa faz enquanto caminho entre as mesas e saio do bar, em direção ao terraço.
Escolho o lugar cuidadosamente para beber, porque sei que aquela hora ninguém subiria ali. Estavam todos cansados demais depois do show e provavelmente ocupados demais para notar meu sumiço. O vento gelado bate em meu rosto assim que abro a porta de ferro, me fazendo estremecer. Agradeço mentalmente por ter colocado um moletom na bolsa naquela manhã e o visto, continuando a sentir frio, mas não me importo porque assim que a primeira garrafa de soju é esvaziada eu não sinto mais o vento cortante.
O objetivo é não sentir mais nada.

 

– Então, acho que nunca me senti tão… patética em toda a minha vida. E olha que uma vez eu tive que ir a escola vestindo meu cosplay de Sakura do Naruto, porque eu não tinha outra roupa limpa e fui a chacota do mês. – suspiro, pegando a segunda garrafa de soju, em meio a muitas lágrimas. Olho para a pobre criatura que ouve meus lamentos e sorrio, amarga. Me levanto do chão de concreto já meio tonta, mas sóbria o suficiente para caminhar até a beirada do prédio e me debruçar sobre o parapeito. Muitos andares abaixo, Tóquio se estendia iluminada e esplendorosa. Meu ouvinte me segue com seus pequenos e afiados olhos. – Eu que sempre me considerei uma mulher tão suficiente, independente, nunca gostei de seguir regras. Como fui chegar a esse ponto? Como acabei caindo na lei mais filha da puta do universo? Traição. Que palavra ridícula.
Abro a garrafa de com os dentes e viro mais alguns goles. Ainda queima, mas já não tem gosto tão ruim quanto os primeiros. Minha mente já está nublada, finalmente estou chegando onde quero. Embriaguez total.
– Humanos não são confiáveis, eu não sei onde eu estava com a cabeça para confiar logo em um macho dessa espécie – continuo meu monólogo, ainda tendo sua atenção sobre mim – Por um segundo eu pensei que fossemos casar e ter filhos bonitinhos com seus olhos e meus cabelos, sabe, ele tinha olhos lindos num ângulo perfeito e… Agora tudo que eu quero é arrancá-los com uma colher. – não sei se soluço por estar chorando ou por estar bêbada.
Só quero que a dor em meu peito suma, assim como aqueles pensamentos embaralhados que tomam conta da minha mente.
– Pelo menos, eu vomitei na porta daquele filho da mãe e deixei lá para ele limpar, porque eu saí correndo. – dou uma risada quase orgulhosa de mim mesma por essa pequena vingança, mas a sensação ruim ainda é esmagadora – Como pude ser tão burra? É tão vergonhoso como me iludi ao pensar que ele tinha comprado uma aliança e estava planejando me pedir em casamento. Meu Deus, eu dediquei quatro anos da minha vida aquele canalha. Quantas vezes eu deixei de cuidar de mim para cuidar dele, deixei de fazer o que eu gostava para ficar presa naquele maldito apartamento assistindo ele escrever aqueles artigos horríveis. Não acredito no quanto me humilhei por alguém que não merecia. Eu lavei aquelas cuecas encardidas, paguei as contas atrasadas que ele provavelmente não conseguia pagar porque estava gastando dinheiro com aquela… aquela… AAAHH!
Meu grito revoltado e desafinado assusta meu ouvinte, que se joga do parapeito do terraço onde nos encontramos e sai voando madrugada adentro.
Nããão! Volta aqui! – choramingo feito uma criança em direção a pomba branca e gorda que já sumiu na escuridão. – Volta, eu não quero ficar sozinha.
É patético, eu sei. Não ter ninguém pra conversar num momento como esse e ser obrigada a desabafar com um pássaro, que minutos antes quase cagou na minha cabeça.
Me viro sem muita delicadeza e minhas costas se chocam contra a mureta que cerca o terraço. Escorrego dramaticamente até cair sentada no chão novamente, está frio o suficiente para eu já ter perdido a sensibilidade na bunda. Meu choro ganha força e caramba, eu devo estar tão ridícula agora.
O melhor a se fazer é beber mais.
– Posso te fazer companhia, se quiser… – ouço e espirro todo o líquido que está em minha boca, assustada.
Para minha sorte, a fonte da voz está longe o suficiente para não se molhar.
– Caralho, achei que fosse a pomba me respondendo! – falo, sem o menor controle da minha língua, mas não é a pomba.
Sei que é um homem pela sua voz bonita e melodiosa, mas não consigo ver seu rosto. Metade de seu corpo está coberto por um moletom rosa gigantesco, seu rosto é parcialmente ocultado por uma máscara e o capuz faz sombra onde já está escuro pela falta de iluminação do lugar.
Sei que devo pedir desculpa por quase cuspir soju nele, mas naquele momento eu não estou nem aí. Eu nem sei se ele não é algum tipo de maníaco que está ali pra me matar, mas isso também não me importa. Para minha surpresa o escuto prender uma risada.
– Você é tipo o Dr. Dolittle? Normalmente conversa com animais?
– Só quando estou me sentindo tão miserável que a companhia humana não faz mais sentido – respondo melancólica, mas é dolorosamente sincero.
Tomo outro gole da bebida em minhas mãos, enquanto ele me responde sem se aproximar.
– Ouch! – ele coloca a mão sobre o peito, como se eu o tivesse atingido com minhas palavras. – Isso foi uma indireta para eu ir embora? Por que eu escutei claramente você falando que não quer ficar sozinha, um minuto atrás.
– Não quero ficar sozinha, mas também não quero ninguém me olhando com pena, ou me julgando. Aquela pomba maldita já estava me julgando o suficiente. – aponto debilmente para onde o pássaro estava pouco tempo atrás.
– Eu percebi. Posso ficar se eu prometer te julgar menos do que a pomba?
– Hã? Ficar? – o que ele falava estava fazendo algum sentido? Talvez eu só estivesse alterada demais para entender. – Por que você quer ficar, afinal? Você é algum tipo de psicopata? Está planejando me matar, depois jogar meu corpo daqui de cima e fazer parecer suicídio ou coisa do tipo? Porque se estiver, vou logo te avisando que… que…– eu penso rapidamente em uma ameaça, mas só consigo gemer feito uma demente – eu consigo chorar tão alto e irritante que você vai desejar nunca ter chegado perto de mim.
Sua reação a minha ameaça é gargalhar alto e algo naquela risada é muito familiar, como se eu já tivesse ouvido muitas vezes antes. Talvez em algum sonho?
– Não é nada disso, não se preocupe. – ele finalmente se aproxima sem o menor receio e senta ao meu lado no chão gelado, deixando um espaço de segurança entre nós. É frustrante não conseguir ver seu rosto enquanto ele consegue ver claramente o meu inchado, vermelho e molhado. – Só preciso beber, também.
– Ah, então seu interesse é em roubar minha bebida? Essa é definitivamente a pior fase da minha vida; bêbada, traída, abandonada, conversando com pássaros e sendo roubada por estranhos. Acho que usei a cruz de poledance na minha vida passada, e olha que eu nem sou religiosa. Desculpa Jesus, mas não precisava ser tão vingativo assim. – balbucio as reclamações para o céu noturno, sem nem prestar atenção nas bobagens que estou falando.
– Não sou um estranho – ele responde. Pega uma das garrafas de soju que deixei largadas no chão, abaixa suavemente a máscara e toma um gole generoso. Por fim, completa: – Nós trabalhamos juntos.
Tento olhar seu rosto a menos de um metro de mim, mas o conjunto de altas doses de álcool embaçando e duplicando minha visão, a má iluminação do terraço àquela hora da madrugada e aquele maldito capuz não me permitia enxergar nada além de um maxilar marcado.
Ok, era um belo maxilar.
– Você é aquele esquisito do RH que fica me mandando foto dos pés “sem querer” no Kakaotalk? Olha, cara, eu não curto essas coisas… – novamente sua resposta é gargalhar e negar com a cabeça. O som parece milhares de sinos tintilando ao mesmo tempo. Eu tenho certeza que já ouvi isso antes, mas não consigo lembrar – Porra, quem é você afinal? – a pergunta sai numa lufada de frustração. Não estou com paciência pra joguinhos.
Com um movimento impulsivo e desajeitado, me viro para ficar de joelhos, me esticar e alcançar seu capuz, mas antes que eu possa retirá-lo, apoio minha mão na beirada de uma garrafa vazia de soju que rola para o lado e me faz perder totalmente o equilíbrio que já não tenho por causa da bebida.
Com um gritinho esbaforido, meu corpo vai para frente e meu rosto se choca contra o peito do desconhecido, que tomba para trás com o impacto, me levando junto. A parte boa é que meu plano de tirar seu capuz, no fim das contas funcionou, quando ele bateu contra o chão. A parte ruim, e talvez ruim fosse um eufemismo sem tamanho, é que o rosto revelado por baixo do capuz era de Byun Baekhyun.
Eu o reconheceria mesmo estando a beira de um coma alcóolico.
Ele estava certo, nós trabalhávamos juntos sim. Eu era manager do grupo mundialmente famoso onde ele era o líder. Trabalhamos juntos, em duas extremidades opostas da hierarquia da SM e por isso eu provavelmente seria demitida depois disso.
Nunca duvide, a vida sempre consegue piorar.
Enquanto eu pensava nisso, continuava deitada sobre o peito de Baekhyun, com o rosto tão próximo do dele que eu podia ver cada detalhe de seu rosto. Seus olhos arregalados de surpresa, sua boca entreaberta e molhada de soju. Como diabos alguém podia ser tão bonito?
Era uma injustiça com os outros seres humanos.
– Você tem um cheiro muito bom. – isso saiu da minha boca? Por que eu disse isso? Ah, é. Eu ‘tô bêbada. – Porra, eu sinto muito. Em minha defesa, o cheiro é realmente bom, seu perfume deve ser caro e…
– Eu não estou usando perfume. – ele responde, e sua voz é mais grave do que antes.
Demoro em perceber que na nossa posição atual, suas duas mãos me sustentam pela cintura num aperto contido. Nossos olhos estão conectados e assim, tão pertinho, eu tenho todo o foco que o álcool havia me tirado. Subitamente me sinto mais sóbria do que nunca.
Ele é lindo.
E eu estou fodida.
– Por favor, não me demita! – tento me afastar, mas minha mão desajeitada pressiona forte seu peito e ele faz uma careta de dor, apertando minha cintura em reflexo – Meu Deus, eu sinto muito, eu…
Ele começa a aproximar seu rosto do meu e por um segundo eu fico paralisada. O que ele está tentando fazer? Apertando minha cintura dessa forma, colocando nossos lábios tão perigosamente próximos, me olhando nos olhos assim. Ele quer me beijar?
– Êpa! Que isso? – cubro sua boca com a minha mão e o empurro de volta para o chão antes que ele consiga completar o que planeja fazer e ele arregala os olhos – Não te dei essa intimidade, não – ele fala algo contra minha mão, mas não consigo entender, não quero tirar a mão e correr o risco dele tentar me beijar de novo.
Quem ele pensa que é? Só porque é um idol famoso e lindo, não quer dizer que pode sair beijando mulheres bêbadas por aí.
Sinto algo molhado e frio se mexer contra a minha mão e sou obrigada a retirá-la de sua boca.
– Eca, que nojo, você lambeu minha mão! Olha só, ta toda babada.
– Você que tampou minha boca sem motivo algum.
– Você ia me beijar. – aponto, ofendida.
Ele pisca os olhos por alguns segundos, parecendo confuso e então solta um riso pelo nariz. É minha vez de ficar confusa, mas antes que eu possa expressar minha confusão, Baekhyun me segura firme pela cintura, me afasta um pouco e levanta o tronco. Volta a ficar sentado num movimento rápido e junto me coloca de volta no meu lugar anterior.
– Eu não ia te beijar, só queria levantar devagar para não te machucar. Você está bêbada. – ele se explica, e eu não estou nem aí.
– Estou mesmo, descobri que a bebida alcóolica é o leite com biscoito dos adultos. – dou de ombros, retomo minha garrafa de soju e dou mais um gole. Ele por sua vez imita meu gesto, bebendo uma quantidade maior e fazendo uma careta em seguida. – E se quiser me demitir também, vai em frente. Eu nem me surpreenderia, o universo me odeia.
– Eu não vou te demitir. – declara, como se fosse óbvio – Sei que tem motivos para estar assim.
– Sabe? E o que você sabe, espertinho?
– Eu ouvi sua conversa com a pomba.
– Ah, maravilha. A conversa toda? – ele assente – Até a parte sobre o cosplay de Sakura e as cuecas encardidas do meu ex? – assente novamente, e eu estou entre cavar um buraco no chão e me esconder dentro, ou acertar a cabeça dele com aquela garrafa e torcer para ele acordar com amnésia. – Agora seria uma ótima hora para aparecer um psicopata, me matar e me jogar daqui de cima.
Me levanto com dificuldade, solto um soluço vergonho e volto a observar a vista da cidade do parapeito do terraço, querendo fugir de seu olhar invasivo.
– Eu não vou te julgar, já me humilhei bastante por alguém que não merecia também. Conheço a sensação, – se levanta e se debruça ao meu lado, tomando mais um gole – então se quiser conversar.
– Por que você precisa beber? – fujo do assunto de propósito, mas ele parece sincero ao responder.
– Me sinto decepcionado com o show de hoje. Todos trabalharam tanto, se esforçaram e se saíram tão bem, mas eu podia ter feito melhor. Como líder eu preciso fazer melhor, preciso ser o exemplo o tempo todo, mas eu não acho que sou um bom exemplo de nada. – despeja as palavras sem pensar muito.
– Eu assisti o show e, sinceramente, você estava ótimo. – dou de ombros, não me achando qualificada o suficiente para aconselhar alguém.
– Ótimo não é suficiente, estou nessa estrada a tempo suficiente para saber disso. Qualquer deslize e pode ser o fim da linha para um grupo. – seus olhos se fecham com força, como se ele lembrasse algo doloroso e novamente, vira a garrafa em seus lábios.
– O SuperM está apenas começando, vocês já tem uma base de fãs sólida o suficiente para não precisar se preocupar tanto com isso. Só está sendo paranoico e se cobrando demais, nenhuma das duas coisas vai te levar a lugar nenhum. – não acredito que estou aconselhando Byun Baekhyun. Bêbada.
– Eu sei, por isso preciso beber e esquecer isso por enquanto. Faz parte do seu trabalho, então me ajude, por favor.
Seu olhar é tão profundo e desesperado que me pega desprevenida. Sua cabeça tomba para o lado e o vento noturno bagunça seus cabelos azuis. Era eu que precisava de ajuda naquele momento, não planejava ajudar outra pessoa, mas talvez fosse a distração que eu necessitava para esquecer toda minha desgraça particular.
– Vamos fazer o seguinte, – balbucio embolado, num rompante de energia – já que nós dois precisamos esquecer tudo essa noite, vamos beber e fingir que eu não sou , a mulher que acabou de ser traída pelo namorado e você não é Byun Baekhyun, o astro que está duvidando de si mesmo sem motivo algum, ok?
– Ok – ele aceita tão rápido que até me surpreende – Precisamos de codinomes para nossas novas as personalidades. Hm, eu vou chamá-la de Pomba.
– Odiei – digo, mas não é exatamente uma reclamação – Vou chamá-lo de Bebe.
– Por quê?
– Porque é derivado de Baekhyun, você parece um bebê nesse moletom rosa e com esse biquinho fofo, e porque estou bêbada e não consigo pensar em nada melhor. Eu não questionei a Pomba, você não questiona o Bebe. Apenas aceite.
– Achei super idiota. Ok, Pomba.
Nos encaramos sérios por alguns segundos, até explodirmos numa gargalhada que começou e terminou ao mesmo tempo. Aquela situação boba parecia tão familiar, mesmo que eu nunca tivesse vivido nada parecido.
Voltamos a encarar as luzes da cidade lá embaixo, num silêncio confortável que é cortado apenas pelo som das nossas garrafas sendo esvaziadas. Logo ele está quase tão alterado quanto eu.
– Bebe, já que você não é famoso nem tem que se preocupar com nada, o que gostaria de estar fazendo nesse momento? – a pergunta sai natural, como se eu conversasse com um amigo de longa data.
Aquela história de novas personalidades ia me subir a cabeça, eu podia prever.
– Gostaria de estar bebendo em um bar, – responde sem precisar pensar muito. Fecha os olhos e inclina a cabeça para o céu ao começar a narrar – queria sentar em qualquer cadeira, tomar cerveja até ficar me achando o cara mais invencível do mundo, aí eu começaria uma briga com uns homens tatuados e com cara de mal que estão no canto rindo de mim. Ia apanhar provavelmente, mas pelo menos ia acertar alguns socos e terminar a noite sendo expulso do estabelecimento com um olho roxo e o lábio cortado. – seus lábios se abrem num sorriso de satisfação enorme – E o melhor de tudo, no dia seguinte eu não precisaria me preocupar com isso aparecendo na mídia, porque eu sou apenas uma pessoa comum, fazendo coisas de pessoa comum.
– Você anda assistindo filmes demais, pessoas comuns não saem por aí caçando briga em bares, meu querido. – o encaro indignada.
Que pirado!
– Você está me julgando, Pomba?
– Claro que não, Bebe. A vida é sua, saia caçando a briga que quiser, mas saiba que se eu estivesse nesse bar com você quando começasse a brigar, eu ia procurar alguém que quisesse apostar comigo que você ia terminar a luta sem um dente e pedir uma porção de amendoim para comer enquanto te assisto apanhar. – afirmo rindo, imaginando a cena em minha mente.
– E você? Se pudesse fazer qualquer coisa, ir pra qualquer lugar nesse momento…
– Eu entraria em um táxi e diria “motorista, siga aquele carro!” e apontaria para um carro aleatório que estivesse passando, só pra ver onde eu iria chegar.
– Você não pode estar falando sério.
– Falou o cara que quer arranjar briga com caras tatuados num bar – reviro os olhos, prendendo o riso – Eu queria, só uma vez deixar a vida seguir um curso aleatório e ver no que vai dar. Não ter cada passo da minha existência previamente planejado, porque isso claramente não deu certo até aqui. Tirando os últimos dias, não costumo ser uma pessoa muito impulsiva, nunca fiz nada muito emocionante. Só por um instante eu gostaria que o universo me surpreendesse com algo bom.
O suspiro sai junto com uma lágrima, eu não consigo controlar nenhum dos dois. Limpo rápido porque não quero parecer dramática e melancólica logo agora que estamos rindo e esquecendo os nossos problemas mesmo que por meros minutos.
– Vamos, então. – ele chama, se afastando do parapeito do terraço.
– Para onde? – questiono sua frase e sua sanidade.
– Pegar um táxi para você dizer “motorista, siga aquele carro” e ver onde vamos parar. Agora eu estou curioso também. – ele começa a caminhar em direção a porta de metal que leva de volta ao hotel, mas eu não me movo.
– Você tá brincando, certo? – ele nega minha pergunta com a cabeça e meus pés me impulsionam em sua direção. Não tenho muito controle sobre meus movimentos. – Baekhyun, você não pode sair assim, como sua manager eu…
– Ainda bem que nesse momento não sou Baekhyun, e sim Bebe, uma pessoa comum. – ele recoloca a máscara sobre o rosto e sobe o capuz, escondendo praticamente tudo, mas ainda posso ver seus olhos se tornarem duas linhas e sei que ele está sorrindo.
– Não sei quem é mais maluco, você por propor isso ou eu por concordar.
– Definitivamente você, já que a ideia é toda sua. Só vou colocá-la em prática.
Aquilo me pegou desprevenida. Eu sempre fui cheia de ideias malucas, mas raramente elas as[iam do campo das ideias, fosse por medo das consequências de executá-las e dar tudo muito errado, ou por não ter quem me incentivasse e embarcasse junto nas minhas maluquices.
Seojun não era um cara muito aventureiro. Na verdade, nunca havíamos feito nada fora da nossa zona de conforto durante todos aqueles anos que estivemos juntos. Como ele foi meu primeiro namorado, – aquele meliante, que namorei por um mês aos 20 anos e acabou roubando tudo que eu tinha e fugido, não conta. – Baekhyun era a primeira pessoa que decidia, por livre e super espontânea vontade, colocar uma ideia sem pé nem cabeça minha em prática.
Aquilo era inédito.
Em um momento normal, em que eu não estivesse alcoolizada, tropeçando nos meus próprios pés enquanto caminhávamos rindo baixinho em direção a recepção, eu até pensaria melhor. Nós mal nos conhecíamos. Eu era sua manager, devia me portar profissionalmente e cuidar dele. Aquela era uma ideia perigosa, mas meu senso de preservação era quase inexistente naquele momento.
Eu estava embriagada pelo álcool e pelo sentimento alucinante de adrenalina de estar fazendo algo impulsivamente.
Detalhe muito importante: eu o estava fazendo com Byun Baekhyun, igualmente bêbado e impulsivo.
Aquilo não fazia o menor sentido, nem parecia verdade, mas minha vida nos últimos dias parecia uma grande obra de ficção, então eu decidi que a partir dali não questionaria mais nada. Sem planejamento, sem pensar demais no futuro. Eu viveria espontaneamente o momento presente ao máximo e deixaria as águas do destino me levar para onde o universo quisesse.

Nota da autora:
Hey! Tô feliz demais por finalmente poder compartilhar minhas histórias com vocês, pra gente boiolar em conjunto. Espero que gostem e não se esqueçam de comentar pra eu chorar de amor e emoção.
Essa fanfic é dedicada as GalaxyKpopperas, o melhor grupo de todo o whatsapp, o melhor presente que o kpop me deu, se não fosse pelo apoio e incentivo de vocês essa história não existiria!

 

O universo não estava pra brincadeira quando colocou Baekhyun em meu caminho, mas eu demoraria a descobrir isso, até ser tarde demais.
Após distrair o recepcionista do hotel, com as piores piadas de bêbado que eu conseguia pensar naquele momento, Baekhyun passa agachado pelo balcão, cutucando minha panturrilha no caminho e corre para a porta.
– E aí o bêbado disse “pelo menos amanhã eu tô curado, e você que é feio?” – eu caio na gargalhada, porque mesmo que não tenha sido engraçada, a cara que ele faz é hilária. – É isso, espero que um dia você vá assistir meu show de stand up um dia, Michael. Boa noite.
Corro porta a fora o mais rápido que meus pés descoordenados conseguem e encontro Baekhyun encostado na grade que circula o prédio, a alguns metros. Pelo movimento de seu corpo, sei que ele está rindo feito um maluco, mas eu estou exatamente igual então não posso julgá-lo.
– É meia noite e meia. – eu checo rapidamente em meu celular, ignorando as notificações. Caminhamos lado a lado até a avenida que fica duas ruas acima do hotel onde estamos hospedados. – Ainda tem movimento nas ruas, nosso plano vai dar certo.
– Ali, um táxi! – ele aponta para o carro amarelo que está passando lentamente.
– TÁXI! – eu grito muito alto e saio correndo em sua direção, sem a menor noção do que estou fazendo. Para minha sorte, Baekhyun me acompanha de perto.
O carro freia ao ouvir meu grito, fazendo um som derrapado alto e parando perto da calçada. Abro a porta e me jogo no banco de trás, apressada, e no segundo seguinte Baekhyun já está ao meu lado. É então que anuncio, muito alto e teatral:
– Motorista, siga aquele carro! – me enfio entre os bancos e aponto para o sedan preto que acabou de passar ao nosso lado.
Nihonjin no mi. – ele diz, negando com a cabeça.
– Porra, esqueci que estamos no Japão. – bato em minha testa, indignada comigo mesma pelo vacilo. – Untenshu, sono kuruma ni shitagatte kudasai! – repito a frase em japonês, com a mesma entonação de antes.
O motorista arregala os olhinhos enrugados por um segundo, então afirma com a cabeça e arranca cantando pneu, saindo em disparada atrás do carro preto escolhido aleatoriamente.
Alguma lei da física que não consigo lembrar no momento faz com que meu corpo seja lançado para trás, pra variar perdendo o equilíbrio e acabo caindo quase no colo de Baekhyun. Ele segura a lateral dos meus ombros com firmeza antes que nossos corpos colidam, me ajuda a sentar de volta em meu lugar, mas permanece com o braço descansando no encosto do banco atrás da minha nuca.
– Não acredito que você teve mesmo coragem. – suas palavras saem num sopro baixinho, porque nossos rostos estão muito próximos. Sinto o cheiro de soju em seu hálito e naquele momento é simplesmente delicioso.
– Você não fez isso só porque estava duvidando de mim, não é? – me afasto um pouco, mas ainda fico próxima o suficiente para que nossas pernas se toquem. É inacreditavelmente confortável ficar próxima a ele.
– Claro que não, você não parece o tipo de mulher de quem se deve duvidar. Estou realmente curioso para saber o desfecho dessa corrida, Pomba.
– Senhorita, ele está indo para Asakusa. – o motorista anuncia em japonês, prestando muita atenção na estrada.
Talvez seja presunção minha, mas ele parece estar curtindo muito a vibe perseguição. Ele desvia dos carros com habilidade, mesmo que nunca ultrapasse o limite de velocidade. Seu corpo está inclinado para frente e ele aperta o volante com tanta força, que os nós de seus dedos estão brancos.
– Não o perca de vista! – comando, continuando minha atuação, e nem preciso me segurar pra não rir. Na minha mente estamos mesmo perseguindo alguém importante.
Quando paramos em um sinal vermelho, observo Baekhyun sem o menor pudor enquanto penso em como melhorar nossa camuflagem. Ainda tenho o mínimo de consciência me alertando que não devo deixar que ninguém o reconheça ou estaremos enrascados. Eu ainda mais, pois provavelmente serei demitida.
– Troca de blusa comigo – peço, já pronta pra tirar a minha.
– O que?!
– Bebe, você com esse moletom rosa e esse cabelo azul é quase um letreiro iluminado, que diz: “Olá, eu sou Byun Baekhyun.” – gesticulo a frase, para que ele entenda onde quero chegar. – Vai chamar menos atenção usando o meu, e eu sou mulher, nesse mundo sexista passo despercebida se estiver usando rosa.
Ele pondera por alguns segundos antes de finalmente aceitar e tirar seu moletom, trocando comigo. O meu é praticamente idêntico, sendo diferente apenas na cor, que é preto e simples, e no preço, que deve custar um terço do seu moletom rosa de marca chique.
Colocar o moletom de Baekhyun é como tomar mais uma garrafa de soju inteira. Seu cheiro é inebriante, me deixa tonta, e mesmo que ele diga que não está usando perfume nenhum, eu pagaria qualquer preço num frasco que viesse com aquela fragrância dentro.
– Camiseta legal. – com um sorrisinho suspeito, ele aponta para a peça que estou prestes a cobrir com o moletom. – Tenho uma igual.
– É bonita, não é? Mas não é minha, uma moça da equipe de maquiagem me emprestou porque a minha molhou e…
– Eu sei. Fui eu que pedi para ela te entregar. Se puder me devolver depois, ficou bonita em você, mas eu gosto muito dessa camiseta. – ele diz tão naturalmente que a princípio me sobressalto.
Eu sequer havia cogitado a possibilidade dele ter dado importância ao incidente do suco, afinal eu só estava fazendo meu trabalho, o que qualquer um naquela sala com reflexos melhores poderia ter feito. Agora descubro que Baekhyun, prestes a entrar no palco, se preocupou em pedir pra alguém me entregar sua própria camiseta para que eu não ficasse com a roupa molhada? Era um gesto tão singelo, mas parecia surreal.
Então o cheiro dele, que já era maravilhoso, passa rapidamente a ser meu cheiro favorito no mundo todo. Ganha até mesmo do cheirinho de cebola e alho fritando, que até o presente momento estava no pódio. Foi seu cheiro que me acalmou quando eu estava à beira de um surto, então abraço meu próprio corpo para sentir ainda mais das duas peças de roupa de Baekhyun que uso.
– Você é um anjo! – digo, comovida. Até mesmo pisco os olhos rapidamente, com a mão sobre o coração, mas por estar bêbada acho que o gesto pareceu meio ridículo. – Obrigado pela camiseta, mas é minha agora. Ela é linda e você é rico, pode comprar outra igual.
– E se eu comprar e nós dois usarmos elas no mesmo dia? Vamos parecer um par de vasos ambulantes. – rebate ultrajado, me surpreendendo ao não negar que eu fique com a camiseta.
– A gente combina que dia cada um pode usar. Você só pode usar a sua nas segundas, quartas, sextas e domingo. Eu fico com os outros dias.
– Ei, eu quero o sábado para mim. Essa sempre foi minha camiseta de sábado.
– Não seja egoísta, Bebe. Eu deixei você ficar com um dia a mais e agora quer o sábado também? Porque você é assim?
Enquanto discutimos sobre a guarda compartilhada do nosso par de camisetas iguais, que ainda nem existe, continuamos a perseguição pelas ruas iluminadas de Tóquio. O motorista permanece com os olhos fixos na rua, vidrado.
– Finalmente está acontecendo. – ele comemora em um determinado momento, acelerando.
– Como é? – volto minha atenção pra ele por um momento.
Paro pra prestar atenção e ele é um senhor franzino, de meia idade, com várias rugas no rosto, mas com uma expressão doce e, no momento, determinada.
– Esperei quinze anos para alguém entrar em meu carro e dizer isso, senhorita. A vida de motorista é muito chata, as mesmas ruas, as mesmas leis de trânsito todo dia, nada acontece… Essa é a maior aventura que estou vivendo desde que minha ex-mulher me perseguiu com um facão por todo nosso bairro porque achou que eu a estava traindo com a irmã. – ele conta, sorrindo. – Não sei quem estão perseguindo, mas vou dar o meu melhor para que consiga alcançá-lo.
– O senhor está… gostando disso? – pergunto, incerta.
– Ah, sim, sim. Isso é tão emocionante – ele acelera ainda mais. Estamos apenas um carro atrás do sedan que seguimos as cegas.
Baekhyun parece completamente chocado, ainda tentando entender o diálogo que acabei de ter com o motorista do táxi. Seus olhinhos vão dele para mim, arregalados.
– Quem você acha que estamos seguindo? – pergunto num tom baixo, mesmo que o motorista não entenda nosso idioma.
– Pelo carro, hm, eu acho que é um mafioso indo cobrar alguém que está devendo pra ele. Talvez alguém da Yakuza?
– Eu aposto que é um CEO famoso que vive uma vida dupla secreta, e nós vamos descobrir que ele é uma gueixa em alguma boate, nas horas vagas. – dou meu palpite.
Olho pela janela e observo as luzes coloridas das ruas passarem como um borrão sem sentido, que se embaralha ainda mais por causa do meu estado alterado.
– O plano era apenas ver aonde chegaríamos, e agora já estamos querendo perseguir a pessoa e descobrir seus segredos obscuros. Acho que você tem algum probleminha, Pomba.
Nós temos, Bebe. Não se esqueça que está no mesmo barquinho que eu aqui, então se inclua em todas as acusações que fizer. – eu sorrio atrevida e toco de leve a ponta de seu nariz por cima da máscara.
O ato é tão estranhamente natural, que passa despercebido por nós dois. Acabei de tocar o nariz de alguém que conheço há poucas horas como se tivéssemos toda a intimidade do mundo e, pasmem: não ficou um climão depois.
É como se, tanto eu, quanto Baekhyun estivéssemos totalmente a vontade com aquela situação. Talvez fosse o efeito álcool, que agora lentamente saia do meu sistema, ou talvez fosse alguma conexão cósmica que nossas almas tinham desde o momento em que nascemos e resultou nesse exato momento…
Nah! Era só o álcool mesmo.
– Chegamos – o motorista anuncia, quando paramos a meia quadra de distância do sedan preto.
Com as cabeças espremidas uma contra a outra para caber no espaço limitado entre o banco do motorista e do carona, Baekhyun e eu esperamos em silêncio, cheios de expectativa para ver quem desceria do carro que seguimos.
Nenhuma das nossas teorias está correta e quem desce do carro, para nossa surpresa, é um monge careca vestindo uma túnica vermelha e laranja que cobre todo seu corpo. Ele faz uma reverência educada para o motorista do carro e segue para o lado oposto. Só então percebo que estamos estacionados em frente a um gigantesco templo budista, que ocupa toda a quadra.
– Eu nunca confiei nesses carequinhas. – o motorista diz, apontando o nariz para o monge e estreitando os olhos, desconfiado.
– Nunca confie em gente que consegue meditar por horas como se não existisse nada em suas mentes. – aconselho, de forma séria. Sem dar a chance de Baekhyun se pronunciar eu pago a corrida rapidamente, guardo o troco e quando já estamos do lado de fora do carro, me inclino pela janela do carona para finalizar meu teatro. – Muito obrigado pelos seus serviços, senhor. E para a sua própria segurança, não conte sobre isso a ninguém. Se homens de terno preto aparecerem na sua porta, é só usar o código Pomba Bebe, entendeu? – ele afirma freneticamente com a cabeça, e eu me viro para sair satisfeita com meu desempenho.
Baekhyun por outro lado, parece meio atordoado por tudo que acabou de acontecer. Quando o táxi finalmente está longe o suficiente, ele desfaz sua pose e se dobra numa gargalhada que quase o faz ir ao chão. Meus joelhos estão fracos também, mas é por um conjunto de sentimentos vibrantes que nunca tive antes. Aquilo é adrenalina?
– Hollywood está perdendo uma grande atriz aqui. – ofega entre risos.
– Finalmente tive a chance de colocar meus dons em uso, onde está meu Oscar?
Apesar de haver algumas poucas pessoas pelas ruas, a longa entrada do templo estava deserta. Era tão iluminada pelas fachadas das lojinhas já fechadas que se estendiam por toda a lateral da estrada até a porta, e tão bonita em todas as direções que olhávamos, que ficamos um tempo parados, apenas observando os detalhes reluzentes com cuidado.
O chão da rua refletia as luzes amarelas, as cores quentes da decoração asiática davam um toque muito aconchegante e pacífico a tudo. No fim da rua, o teto do templo principal se erguia colossal em extremidades pontiagudas e irregulares que apontavam para o céu estrelado.
Era simplesmente magnífico.
Fizemos o longo caminho de pedras até a escadaria, impressionados demais para pronunciar qualquer palavra, mas quando chegamos lá percebemos que o templo está fechado. Já passava da meia noite, era óbvio que estaria fechado para visitação.
– O universo dá, o universo tira – resmungo dramaticamente, olhando decepcionada para a as portas de padrões vermelho e dourado, trancadas. Começo a caminhar em volta, passando as mãos pelos detalhes da parede e dos pilares – Então nosso destino misterioso foi Seonsoji, o mais antigo templo de Tóquio,huh? Eu li sobre esse lugar na internet quando planejava minha viagem para o Japão com o Seo…
– Já que estamos aqui, vamos conhecer tudo. Vem! – Me interrompe e sem esperar minha resposta, Baekhyun agarra meu pulso e sai me puxando todo empolgado para explorar a lateral do templo.
Nesse momento estou completamente sem reação, apenas olhando para onde sua pele encosta na minha. A cena é familiar mais uma vez, mas agora é porque normalmente sou eu do outro lado, arrastando as pessoas pelo braço. Tenho consciência de que essa é uma mania minha e é extremamente novo ser a pessoa que é arrastada.
– O que é isso? – ele para em frente a uma enorme caixa de madeira, laminada a ouro, que fica entre duas estátuas de pedras com o dobro da nossa altura. Pendurado acima da caixa estava a maior lanterna de papel que eu já havia visto na vida, vermelha e cintilante.
– Acho que são Fujin e Rajin, as deusas do vento e trovão. Ficam aqui na entrada para afastar maus espíritos e purificar os visitantes. Pelo menos era isso que dizia na internet. E essa é uma saisenbako, uma caixa de doações – aponto, recuperando com dificuldade as poucas informações que eu lembrava em meu cérebro alterado.
Ele imediatamente começa a procurar em seus bolsos por algo, mas acaba decepcionado quando não encontra nada. Eu sorrio e retiro o troco do táxi do bolso do meu jeans, estendo uma moeda de 100 ienes para ele e mantenho uma entre meus dedos. Quando ele está pronto para jogar a moedinha dentro da caixa, eu seguro sua mão.
– Não é assim que funciona, você não pode apenas jogar de qualquer jeito – nego com a cabeça e explico – você deve jogar a moeda para o alto, bater duas palmas e fazer um pedido. O importante é a moeda fazer barulho quando cair na caixa. Assim, olha.
Faço uma demonstração do que eu disse, jogo a moeda pra cima fecho os olhos e bato duas palmas rápidas. Quanto ao pedido, minha mente se encarrega de fazê-lo sem a minha permissão.
Desejo que Baekhyun não se esqueça de mim amanhã.
Abro os olhos a tempo de vê-lo fazer o mesmo, e permanecer de olhos fechados por mais alguns segundos.
– O que você desejou?
– Que eu possa ser o Bebe com você mais vezes! – Baekhyun responde sem hesitar. Seus olhinhos se fecham por conta de um sorriso que eu sei que está em seus lábios por baixo da máscara, e eu não sei como reagir, mas meu coração bate tão desregulado em meu peito que posso ouvir ressoar em meus ouvidos. Será que estou tendo um AVC? – E você?
– Não vou contar, ou não realiza.
– Yah! Você não me avisou sobre isso. Agora vou ter que fazer outro pedido, me empresta outra moeda. – estica a mão em minha direção apressado, mas em resposta eu apenas a seguro com a minha e é minha vez de arrastá-lo para nosso próximo destino.
– Eu estava brincando, nós podemos facilmente realizar seu desejo. É só você não se esquecer de mim amanhã. – as palavras escapam da minha boca antes que eu possa pensar direito no que estou revelando.
– Seria impossível md esquecer de você – pigarreia. – Nós trabalhamos juntos.
– Eu sou só uma das centenas de staffs que trabalham junto com você todo dia.
– Mas nenhum deles me chamou de psicopata, me fez criar outra personalidade, perseguir um carro aleatório, me arrastou para um templo budista no meio da madrugada, tudo isso depois de várias garrafas de soju. Estou esquecendo alguma coisa? – fingiu contar nos dedos nossas desventuras.
– Você diz me arrastou como se você não estivesse todo empolgado com a ideia também. E eu não estou mais bêbada, estou super sóbria, até sei o nome das divindades do templo, tenho plena clareza em tudo que faço e falo – a mentira é tão evidente em minhas palavras meio embriagadas, que eu caio na gargalhada e ele me acompanha.
– Sabe, é? Então quem é aquele? – aponta para mais uma estátua ao longe, no centro de um jardim. Observo a divindade com sua enorme e saliente barriga, sua cara redonda e simpática, e seus lóbulos da orelha exageradamente grandes.
– É o Buda antes da dieta – respondo convicta.
Nós estamos parados, lado a lado, no centro de um pavilhão aberto para o céu, cercado de diversos templos anexos menores, mas tão magníficos quanto o principal. A arquitetura do lugar faz com que nossas gargalhadas em conjunto ecoem para todos os lados em um som distorcido, o que nos faz rir ainda mais e gritar algumas palavras aleatórias ao vento.
Não demora até que o monge que estivemos seguindo até ali apareça de supetão atrás de nós, com sua feição inexpressiva, e sem a menor delicadeza nos expulse dali. “Monges também precisam dormir” é o que ele diz, nos empurrando em direção a saída: “Da pra ouvir a risada de vocês lá do topo da pagoda” e aponta para uma edificação de cinco andares ao longe.
Pedimos desculpas e nos curvamos várias vezes, mas não conseguíamos parar de rir. Estar frente e a frente com o monge que havia nos levado até ali, sem que ele sequer suspeitasse de nada, nos fazia trocar olhares cúmplices e falhar em prender o riso várias vezes.
Nos distanciamos do templo, caminhando tranquilamente, presos em nossa própria bolha de felicidade, leveza e assuntos aleatórios animados. E é isso. Me sinto feliz, com o peito ardendo em um sentimento bom e suave que talvez eu nunca tenha sentido tão intensamente em minha vida ordinária. Esqueci completamente dos problemas que me afligiam até poucas horas atrás, me sinto livre como um pássaro.
Pela primeira vez na vida fiz algo impulsivo, deixei tudo por conta do destino e acabou sendo uma aventura divertida.
Talvez o universo não me odeie completamente.
– Sabe que ainda estamos de mãos dadas, né? – Baekhyun questiona numa voz arrastada, mantendo seu olhar no caminho desconhecido que fazíamos juntos.
– Sei – suspiro. – Você quer soltar?
– Não.
– Eu também não.

Nota da Autora:
Como estamos meus anjos? Completamente boiolinhas pelo Baekhyun? Então ta tudo certo AUHEUHAEUHAE
Esse capítulo é um ponto chave para como eles vão lidar com tudo que vão viver depois (e ele é mencionado na minha outra fanfic, Duality, que acontece no mesmo universo).
Comentem, saber o que estão achando faz meu coração mais feliz ❤ até a próxima!

Byun Baekhyun é uma pessoa esquisita. Ele fala muito rápido quando está empolgado, ri de todas as coisas bobas que eu digo, gesticula com o corpo todo quando se expressa, o que de alguma forma consegue ser fofo e sexy ao mesmo tempo.
Para sua sorte, eu também não sou lá muito normal, então nossa conexão através da esquisitice foi instantânea e agora é irreversível. Pelo menos é essa a conclusão que chegamos ao tentar entender como foi que acabamos a noite de mãos dadas, passeando na beira do Rio Sumida, poucas horas depois de nos conhecermos.
Sua presença é tão confortável para mim, que mesmo agora que não existe mais resquício algum do efeito do álcool em meu sistema, eu continuo me expressando sem medo como jamais aconteceu antes, falando tudo que me vem à mente sem medo de ser julgada. E o mais estranho de tudo isso é que ele parece fazer o mesmo.
Conversamos sobre a vida, o universo e tudo mais. Falamos por horas, um tópico parece puxar o outro. Conversamos tanto que tenho certeza que tenho informações pessoais de Baekhyun que poderiam enriquecer páginas de qualquer revista de fofoca, mas conforme compartilhamos mais e mais fatos aleatórios sobre nossas vidas e opiniões sobre os mais diversos assuntos, numa conversa que parece nunca ter fim, eu sequer me lembro que ele é uma figura famosa e que se alguém o reconhecesse nesse momento, nós estaríamos enrascados.
Ele é apenas Bebe, o cara normal com quem vivi uma aventura incrível. E agora preciso dizer adeus.
– Não estou preparada para voltar a ser a ) – murmuro desanimada, quando paramos bem no meio da iluminada Ponte Azuma, que corta o rio impiedoso que corre abaixo de nós, e nos debruçamos sobre o muro de proteção.
O vento frio bagunça meus cabelos para todos os lados e preciso levantar o capuz do moletom para me proteger. Ao longe somos agraciados pela imagem reluzente da Sky Tree Tower, um dos maiores edifícios de Tóquio. Retiro o celular do bolso e desbloqueio rapidamente para ver a hora, voltando a bloquear sem me atrever a olhar mais nada na tela. Já passa das 4 da manhã e nós precisamos voltar para o hotel antes que amanheça.
- Não precisa voltar.
Como estamos sozinhos numa ponte quilométrica no meio da madrugada, ele abaixou sua máscara até o queixo, então posso ver os cantinhos de seus lábios levantados.
- E como vou explicar para todo mundo no trabalho amanhã que a partir de agora me chamo Pomba e meu novo hobby é viver aventuras impulsivas? – eu questiono, séria. Me viro de frente pra ele, que solta mais uma de suas risadas gostosas em resposta.
Gosto mais do que devia da sensação de saber que sou a responsável por seu riso tão espontâneo.
- Não foi isso que eu quis dizer, Pomba. – Beakhyun da um passo em minha direção, ficando muito próximo. Estamos frente a frente, com apenas centímetros nos separando, mas não me sinto intimidada ou constrangida. Tudo que sinto é um leve nervosismo na boca do estômago, como se algo flutuasse ali, mas é bom e de alguma forma parece certo. – Eu só tenho a sensação de que nossas vidas não serão mais as mesmas daqui pra frente. Depois de tudo que vivemos e compartilhamos essa noite, sei que vou acordar alguém diferente amanhã.
- Você vai falar comigo amanhã? – Não me controlo e pergunto, me sentindo meio boba pelo meu tom quase infantil.
- Eu quero falar com você todos os dias, a partir de hoje. – ele diz, sem um segundo de hesitação. Nossos sorrisos nascem e crescem ao mesmo tempo.
- Então eu acho que também vou acordar alguém diferente. – dou mais um pequeno passo em sua direção.
É como se seu corpo fosse um ímã para o meu. Não entendo porque, mas quero ficar cada vez mais próxima dele e entendo menos ainda porque ele parece corresponder da mesma forma, igualmente afetado. Estamos a um palmo um do outro, conectados de uma forma que não entendemos.
- Se eu tentar te beijar agora, você vai cobrir minha boca de novo? – A pergunta feita aos sussurros me pega de surpresa, mas minha reação não podia ser mais natural.
Como se eu já tivesse feito isso milhares de vezes antes, me inclino em sua direção e colo nossos lábios por uma fração de segundos. É um toque suave e gelado pelo frio da madrugada, mas é o suficiente para eu sentir todo meu interior se aquecendo como se os fogos de artifício tivessem saído do controle e incendiado todo meu peito. É uma sensação maravilhosa.
Não passa de um leve toque de lábios – e que lábios macios, senhoras e senhores – e já é o suficiente para me deixar com o coração tão acelerado, que se estivesse assim em qualquer outro momento eu ficaria preocupada com minha saúde, mas estou com Baekhyun, então não me preocupo com mais nada.
- Estou arrependida de não ter te deixado me beijar naquela hora, foi um ótimo beijo. Se um de nós fosse um sapo teríamos sérias consequências aqui. – apesar de todas as coisas maravilhosas que sinto, é isso que digo, enquanto permaneço de olhos fechados sem saber qual é sua reação.
Ouço sua risada e sem nem perceber estou sorrindo também.
- Quando eu entrei naquele táxi, juro que não imaginava que fossemos terminar a noite assim. Não sei se o universo te surpreendeu como queria, mas eu, com certeza, estou surpreso. – ele continua muito perto dos meus lábios.
- Eu entrei completamente sem expectativas, não imaginei nenhum cenário para essa noite. – solto seu moletom, que não lembro quando segurei em meus dedos e gesticulo em minha defesa, sem me afastar. Eu não seria nem louca de me afastar dele agora. – Mas se tivesse imaginado, acho que esse seria o final perfeito.
- Me beijar foi o ponto alto da noite, né? – brinca, com uma expressão convencida.
- Óbvio que não, o ponto alto foi sermos expulsos do templo pelo monge que perseguimos. – corrijo, e a lembrança recente nos faz cair na gargalhada.
Sem quebrar a conexão entre nossos corpos, ele dá a volta e me gira suavemente no lugar, ficando atrás de mim. Suas mãos circulam minha cintura e ele me abraça por trás, tão firme e ao mesmo tempo tão suave que meu coração dispara mais uma vez. Apoia o queixo em meu ombro na mesma hora que coloco minhas mãos gelada sobre as dele, que estão quentinhas. Nossos corpos parecem ter um encaixe confortável em qualquer posição.
É incrível como ficamos em silêncio sem ficar estranho. Isso nunca havia acontecido, eu costumava me sentir desconfortável perto de pessoas que não falam muito, por isso sempre fui a tagarela que está sempre dando seu melhor para não ficar aquele climão chato. Mesmo sem uma palavra proferida, não há climão com Baekhyun.
Ficamos vários minutos naquela posição gostosa e quentinha, às vezes ele apertava mais os braços ao meu redor e essa era a melhor parte. Era quando eu tinha a estranha sensação de ter meus pedacinhos internos sendo colados pouco a pouco. Admiramos o rio que se estendia até o horizonte, cercado e reluzindo as luzes dos prédios e construções altas. Nenhum pensamento ruim cruzou minha mente por tanto tempo que eu considerava aquilo meu tempo record sem pensar merda.
- Esse é um daqueles momentos em que tudo é tão maravilhoso que parece que nada vai ser tão bom assim outra vez. – sinto um arrepio descer pelo minha nuca quando suas palavras chegam ao meu ouvido.
Suspiro em concordância, porque sou tomada por um sentimento tão gostoso que não quero que termine nunca. E é simplesmente inacreditável que ele, que provavelmente já viveu mais momentos incríveis na sua carreira do que vou viver minha vida toda, pense dessa forma com relação a uma noite ao meu lado, mas consigo sentir a sinceridade em suas palavras. Infelizmente sabemos que é hora de voltar. Em pouco tempo vai amanhecer e quando acordassem, dariam conta do nosso sumiço.
- Provavelmente vão achar que eu te seqüestrei. – digo, já dentro do táxi a caminho do hotel.
- O que não é mentira – murmura, sonolento. Baekhyun encosta a cabeça em meu ombro e se ajeita no banco. Eu solto o ar indignada, até balanço o ombro para ele levantar e deixar de ser folgado, mas não adianta. – Ninguém vai acreditar se contarmos a verdade sobre essa noite, de qualquer forma.
- Ela vai existir apenas em nossas lembranças. – reflito teatralmente, mas ele não reage. Um ressonar baixinho me faz acreditar que ele dormiu, então apenas permaneço naquela posição, quietinha.
Ele teve um ensaio pela manhã, depois performou um show de duas horas, e ainda teve energia para passar a madrugada toda acordado, andando pelas ruas vazias de Tóquio ao meu lado. Calculei seu nível de exaustão e por isso me partiu o coração ter que acordá-lo quando chegamos ao hotel.
O arrastei até seu quarto, parecendo dois zumbis perambulando pelos corredores desertos, me certifiquei que ele deitasse na cama e não no tapete fofinho onde ele tentou se jogar assim que atravessamos a porta e ainda rindo de suas reclamações manhosas, cheguei ao meu quarto tão exausta quanto.
Dormir nunca foi uma tarefa tão fácil. Chutei os tênis pra fora dos meus pés, deitei minha cabeça no travesseiro, sem forças nem para trocar de roupa e apaguei instantaneamente. O cheiro de soju misturado com o cheiro de Baekhyun era a certeza de que aquela noite havia mesmo acontecido.
Mas na manhã seguinte, quando acordei com a sensação horrível de que havia dormido demais e descansado de menos, eu já não tinha mais certeza de que a noite anterior havia mesmo acontecido, e se aconteceu, havia sido mesmo da forma maravilhosa que eu lembrava?
Tudo parecia não passar de um sonho lindo causado pelo excesso de soju.



As memórias da noite anterior ficavam voltando como flashs indistintos, mas eu não conseguia chegar a uma conclusão concreta sobre o que houve. Nada tão bom jamais aconteceu em minha vida pacata e sem graça, então é difícil acreditar que tudo que lembro foi verdade.
Talvez eu tenha bebido demais, desmaiado e sonhado com a aventura que vivi com Baekhyun. Parece muito mais plausível.
Ainda estou vestindo seu moletom, mas agora já não cheira tão bem quanto eu lembro. Muito provavelmente esse é meu cheiro por ter dormido sem tomar banho depois de um porre. Tudo não deve passar de um delírio da minha mente.
O único que pode confirmar isso é o próprio Baekhyun, mas quando desço para o café da manhã do hotel, após um longo banho, ele não está junto com os outros membros do SuperM. Não posso perguntar para eles o motivo, já que não tenho intimidade alguma para tal, mas quando sento ao lado de na mesa dos staffs, não consigo controlar minha língua e ela nem parece notar minhas intenções por trás da frase.
– Por que o líder não está com o grupo?
– Baekhyun não estava se sentindo bem e pediu para tomar o café da manhã no quarto – ela da de ombros.
– Ele está bem? – torço para minha preocupação não parecer nada além de profissional, e parece funcionar. Ou é muito lerda.
– Aparentemente é só uma dor de cabeça. Deve ter bebido além da conta com os meninos ontem. O que é estranho porque, quando o Baekhyun está cansado, costuma não se importar com mais nada no mundo além de ir direto para cama, e ele estava exausto quando chegamos ao hotel – ela bate o indicador no queixo, pensativa – Por falar nisso, onde a senhorita se meteu depois do show, hein? Eu fiquei preocupada.
Demoro algum tempo para responder, colocando uma grande quantidade de comida na boca de propósito, me dando tempo de raciocinar o que eu havia acabado de ouvir.
Se Baekhyun era mesmo daquela forma quando está cansado, as chances da noite de ontem ter mesmo acontecido eram ainda menores. Ele devia estar exausto do show, provavelmente me ajudou, me emprestou seu moletom e então foi direto para cama, enquanto eu ficava delirando com uma noite perfeita ao seu lado.
– Eu comprei umas garrafas de soju e fui beber no terraço do hotel. A vista era linda e eu precisava de um tempo sozinha para colocar os pensamentos em ordem – não é uma mentira, eu apenas ocultei algumas informações.
– Ficou bebendo até que horas? Acordei três e pouco da madrugada e você ainda não tinha voltado. Eu te mandei várias mensagens e você nem visualizou.
– Desculpa, eu não queria ter te deixado preocupada. Eu só não queria olhar meu celular e… você sabe. Estou evitando. – Dou de ombros.
Minha cara triste a faz não insistir no assunto e até parecer meio arrependida. É a primeira vez que lembro de Seojun e meu infortúnio desde a noite passada, e ainda dói pra caramba. Não tive coragem de entrar no aplicativo de mensagens, em partes por medo de ele ter falado alguma coisa que me machucaria ainda mais, mas havia outra parte que tinha medo de ele não ter dito nada, nem ter se preocupado em vir atrás. Eu não sabia dizer qual das duas opções me deixaria pior.
Apesar de ser domingo, o trabalho da equipe do SuperM não parava. Diferente de nós, eles tinham a manhã livre, mas a tarde teríamos algumas gravações. A equipe que os acompanharia seria reduzida, mas eu estava inclusa. Odiava com todas as minhas forças trabalhar no domingo, mas naquele em especial eu até me ofereceria pra ir junto sem ganhar extra, porque eu queria ver Baekhyun. Eu precisava vê-lo.
Para o meu total desespero, quando finalmente o vi, não havia nada de diferente de todas as outras vezes. A não ser o fato de que pela primeira vez desde comecei a trabalhar para a SM, eu o via como um ser humano, um inacreditavelmente lindo inclusive, e não mais como apenas um idol.
Quando estávamos no mesmo ambiente não tivemos sequer uma oportunidade de conversar. Eu sabia que ele estava ocupado e precisava focar no grupo, então foquei em meu próprio trabalho também, mas não custava nada ele manter o contato visual por mais de 3 segundos, para eu poder ler sua expressão. Aquele olhar significava “ontem a noite foi incrível e não vejo a hora de repetir” ou significava “não acredito que tive que cuidar de você bêbada”?
Eu sabia do meu limite profissional, então esperei até todos os compromissos do dia terminarem para pensar em qualquer tipo de aproximação, mas quando isso aconteceu ele sequer se deu ao trabalho de olhar em minha direção. Subiu direto para seu quarto junto com os outros membros, todos parecendo exaustos. Considerei aquele um claro sinal de que não devia me aproximar, e segui quietinha na minha.

Já era noite, eu havia acabado de jantar – por pura obrigação – no quarto com e estava deitada em minha cama olhando para o meu celular desligado. Suspirava de tempos em tempos, com a mente perdida em pensamentos terríveis.
– Sabe que não pode ficar sem conferir suas mensagens para sempre, não é? – ela me incentiva da outra cama, agarrada com seu tablet. Essa mulher viciada não parava de trabalhar um minuto.
Solto um gemido sofrido, pois sei que ela tem razão. Pego o aparelho na mão, desbloqueio e vejo que um dos meus medos se concretizou. Meu coração afunda um pouco mais quando percebo que Seojun não veio atrás, sequer mandou uma mensagem falando o óbvio, que havíamos terminado e eu devia buscar minhas coisas em sua casa o mais rápido possível. Ele provavelmente estava aproveitando Jeju com sua amante.
Eu signifiquei tão pouco assim para ele?
Não tive muito tempo para me aprofundar em pensamentos depressivos sobre isso, porque havia uma mensagem no topo das outras que chamou minha atenção.
“Pomba Bebe!” Desconhecido 19:56
Levantei uma sobrancelha, curiosa. As teorias que passavam pela minha cabeça eram que, ou meus delírios eram reais e o motorista do táxi de ontem havia conseguido meu número e precisava da minha ajuda com caras engravatados que apareceram mesmo em sua porta, ou Baekhyun tinha contado sobre aquela cena ridícula pra alguém que agora estavam me zoando.
Nunca imaginei que quase meia hora depois, quando ainda encarava a tela do celular pensando em como, e se deveria responder aquela mensagem que eu nem sabia de quem era, alguém bateria na porta do quarto e eu me surpreenderia tanto.
precisou sair para uma reunião de emergência sobre o voo que faríamos no dia seguinte para a Tailândia, então estou sozinha no quarto, mas imaginei que quem quer que estivesse batendo provavelmente procurava por ela.
Eu usava meu pijama, que consistia em uma enorme camiseta laranja do Naruto, que cobria o shorts de flanela e uma meia listrada que subia até meus joelhos. Eu estava pensando o que meu colega de trabalho – quem eu imaginava ser o autor da batida na porta – diria quando me visse naquela roupa, mas não era nenhum dos colegas de trabalho que eu imaginava.
Quem está parado em minha porta é Byun Baekhyun. Com a cabeça inclinada para o lado e a franja azul caindo em seus olhos.
– Por que você não me respondeu? – ele vira o celular para mim e na tela está uma mensagem enviada para um contato chamado “Pomba”. É a mensagem que recebi minutos atrás e estive encarando até agora.
Pisco algumas vezes, meio aturdida.
– Foi você?!
– Quem mais poderia ser? Você contou o código secreto para mais alguém?!
– Claro que não, eu não seria louca a esse ponto. Até achei que fosse o motorista do táxi. – nós acabamos trocando um sorriso divertido por um segundo, talvez por lembrarmos ao mesmo tempo da cena.
– Então por que não me respondeu?
– Eu nem imaginei que podia ser você, afinal você é… – gesticulo em sua direção, para que ele entenda que me refiro a celebridade parada em minha porta. – E não tenho seu número salvo, não respondo desconhecidos.
– Agora que sabe, pode salvar meu numero, e coloque um emoji idiota do lado. – aponta para o celular que tenho em minhas mãos e, sem pedir permissão, vai entrando no quarto. – Quando eu usar nosso código é porque quero te ver, achei que estaria explícito depois de ontem.
– Depois de ontem? – questiono categoricamente, demorando para entender onde ele quer chegar com aquilo. Parecia presunção demais achar que ele queria me ver porque gostou da minha companhia? – Você queria me ver?
– Sim, por isso tive que descobrir o número do seu quarto e vir até aqui te chamar. Não me diz que estava tão bêbada que não se lembra de ontem a noite?
– Não! Claro que lembro. Eu só… – hesito, sem saber direito como abordar o assunto. Solto um suspiro e volto a me sentar na cama, na sua frente. Por fim decido ser sincera e se o que aconteceu ontem foi verdade, tudo daria certo. – Eu não tinha certeza se tinha acontecido de verdade. Ou se havia sido mesmo tão incrível quanto eu lembrava. Ou se você ia querer me ver depois de… você sabe. Achei que talvez fosse delírio do álcool. Pareceu meio surreal de tão bom, coisas assim não acontecem na minha vida.
– Ontem aconteceu, – afirma incisivo, olhando fundo nos meus olhos – e se para você foi metade do quão incrível foi para mim, então eu sei que foi inesquecível para nós dois. E você lembra o que eu disse ontem? Era verdade quando falei que quero pelo mesmo conversar com você todo dia, se não puder te ver. Então trate de responder minhas mensagens daqui para frente. Achei que estivesse brava, ou algo assim.
– Por que eu estaria? – depois de ouvir o que ele disse, me pergunto se um dia vou conseguir ficar brava com ele. Baekhyun dá de ombros em resposta, se reclinando muito confortável em minha cama. – Eu que achei que não falaria comigo, você me ignorou o dia todo.
– Ei, eu não te ignorei, só não podia perder o foco. Toda vez que te olhava eu começava a lembrar da noite de ontem e queria rir, queria correr até você e perguntar se você se lembrava também para rirmos juntos, mas não podia. Quando temos algum compromisso, preciso me concentrar em ser um bom líder e não decepcionar os membros, mas agora, nesse momento, eu só quero saber se você pode vir até meu quarto para eu ser o Bebe um pouquinho. Preciso da minha Pomba.
Sua pergunta me faz piscar rápido algumas vezes. Ele quer ser o Bebe comigo de novo. Ele me chamou de minha. Meu coração está tão disparado que ele deve estar ouvindo.
– Só se tiver soju. – respondo.
– Você ainda aguenta beber? Aquelas garrafas de ontem acabaram comigo.
– Você é fraquinho, lhe falta ódio – dou uns tapinhas de consolo em seu ombro quando me levanto. – Vou só trocar de roupa e te encontro no seu quarto. Eu sei qual é.
– Sabe?
– Sou sua staff, é claro que sei. Se duvidar tenho até a chave extra da sua porta. Agora vai, não quero ter que explicar para minha colega de quarto porque o líder do SuperM está deitado na minha cama feito um folgado.
– Não precisa trocar de roupa – ri, indo em direção a porta – gostei da camiseta. Achei que tivesse parado de gostar de Naruto depois do incidente com o cosplay da Sakura.
– Não existe parar de gostar de Naruto. Naruto é algo que levamos para vida. – reviro os olhos, como se fosse óbvio. Devia ser.
É incrível como qualquer pessoa comentando sobre meu gosto por animes me deixa irritada e muitas vezes constrangida, afinal tenho 27 anos, por algum motivo com essa idade as pessoas esperam que você só goste de documentários sérios e música clássica. Ridículo. Mas quando é Baekhyun falando, sinto que não existe maldade nenhuma por trás de suas palavras. Ele parece até mesmo admirado.
– Otaku – ele provoca, fechando a porta logo em seguida e me deixando sozinha.
Sozinha, com pensamentos que parecem estar apostando corrida dentro da minha mente.
Sozinha, com o coração tão acelerado que me deixa confusa.
Aconteceu mesmo.
Baekhyun se lembra e foi tão incrível para ele quanto foi para mim, agora eu tenho certeza disso. O mesmo sentimento de familiaridade que senti na noite anterior esteve presente em meu peito enquanto conversava com ele agora.
Seja lá que tipo de conexão nós tivemos ontem, continua firme e forte.
Demoro tanto tempo perdida em pensamentos, que volta de sua reunião e me encontra parada ao lado da minha mala, olhando para o nada.
– Por que está sorrindo assim?
– Quem está sorrindo? – me sobressalto. Percebo que minhas bochechas estão doloridas porque estive sorrido desde que Baekhyun saiu do quarto.
– Você, e nem tente negar. Eu saí faz uma hora e você estava toda encolhida na cama, olhando para o celular com cara de quem ia chorar a qualquer momento. Fiquei até preocupada. Agora está sorrindo para o nada com cara de quem ganhou na loteria. O que houve?
– Acho que ganhei mesmo na loteria – sorrio ainda mais – Não precisa me esperar acordada, até depois.

Nota da Autora:
Olá, leitores, como estamos? Boiolas o suficiente eu espero KKAUAHAKAIAHAUAK Diabéticos cuidado, a partir de agora as cenas com o Baek terão um alto nível de açúcar, pois esse casal é um docinho. Ah, pra quem não sabe, Naturally inicialmente era pra ser um spin off de outra fanfic minha, que inclusive acabou de receber o primeiro capitulo do crossover entre as duas, apesar de uma não interferir na outra, quem quiser ler Duality também eu fico muito feliz.
Até o próximo capítulo!