Naturally

Naturally

Sinopse: Poucas pessoas tem a sorte de encontrar sua alma gêmea. Aquela pessoa que de cara encaixa naturalmente, com quem temos a liberdade de sermos nós mesmos, de coração aberto, sem medo de qualquer julgamento. Na escolha de almas gêmeas eu fui privilegiada, porque minha alma gêmea era Byun Baekhyun.
Fandom: SuperM
Gênero: Comédia romântica, ficção
Classificação: 18
Restrição: Byun Baekhyun é personagem fixo.
Betas: Alex Russo

Capítulos:

 

Capitulo 1
Naturally

Há quem diga que ser uma mulher bem sucedida aos 27 anos é uma missão impossível, mas impossível mesmo era ser a mais velha de cinco irmãs, em uma família onde “bem sucedida” significava casar e ter filhos antes da primeira ruga aparecer.
E quando ele vai te pedir em casamento, unnie? – minha irmã soava cheia de manha ao telefone, que eu segurava com o ombro enquanto usava as duas mãos para cortar a carne em meu prato – Vocês estão juntos há quatro anos, não é possível que ele nunca tenha mencionado casamento. Ele nunca te deu nem um anel de compromisso, isso não é normal, eu acho que ele está te enrolando.
– Eu acho que você devia cuidar da sua vida… – resmungo, enchendo a boca de comida.
É o que estou fazendo. Papai disse que só podemos casar depois que nossa irmã mais velha desencalhar. Então por favor, pare de ser egoísta, tenha consideração pelas suas irmãzinhas que querem ter uma família e viver uma vida normal, e dê uma dura em Seojun, se ele não te quiser procure quem queira.
– Por que a pressa?
– Dylan propôs. – ela diz rápido, e eu a conheço o suficiente para saber que ela está sorrindo para o celular nesse momento. Dylan é seu namorado estrangeiro, em quem eu não confio nem um pouco. – E eu aceitei, mas não podemos nos casar se você não se casar primeiro. Nenhuma de nós pode.
– Azar o seu, maninha. Quem não tem coragem para confrontar o papai quanto a essas regras ridículas são vocês. Eu sei que estão todas ouvindo, então aqui vai meu conselho de irmã mais velha: – suspiro, largando meu garfo e me concentrando no que vou falar. – Quando eu saí de casa, decidi que nunca mais seria controlada por ninguém, nunca mais dependeria de homem nenhum. Se a escolha de vocês é realmente casar e formar uma família, eu não posso mudar a mente de ninguém, mas a vida é mais do que isso, meninas. A vida é muito maior do que um papel dizendo que você pertence a um homem, e uma existência de servidão onde sua personalidade vai ser pouco a pouco apagada, dando lugar a uma dona de casa sem voz e sem vontade própria. Eu não vou pressionar Seojun a me pedir em casamento, muito menos agora que estou quase embarcando para Tóquio.
Seu emprego é mais importante que sua família? – ouço a voz da minha irmã caçula gritar longe do aparelho.
– Minha família não paga minhas contas, nem a roupa que eu uso, nem a comida que me alimenta. Sinto muito meninas, mas vocês que se virem com o papai e essa palhaçada sobre casamento. Meu horário de almoço está no fim, preciso ir. – desligo antes mesmo que elas respondam, sem vontade de continuar aquela conversa pavorosa.
Desde que me conheço por gente, carrego o peso de ser a irmã mais velha. O peso foi ficando cada vez maior conforme mais irmãs foram chegando, e ficou insustentável quando minha mãe faleceu, quando eu tinha dezessete anos. Da forma mais tradicional possível, a missão de vida do meu pai se tornou arrumar um marido para todas nós, assim nenhuma acabaria desamparada quando ele morresse também.
Seus métodos nunca foram muito ortodoxos e eu sempre fui contra tudo aquilo, porque meus sonhos, por mais secretos que fossem, não envolviam matrimônio. Quando completei dezoito anos ele tentou me obrigar a casar com um homem quatro anos mais velho, foi a gota d’água. Despejei toda minha frustração em forma de palavras duras para cima do meu pai e fugi de casa feito uma marginal. Trabalhei em três lugares ao mesmo tempo para conseguir me sustentar e correr atrás do meu sonho de ser uma mulher independente e bem sucedida.
Após quebrar a cara inúmeras vezes, passar todo tipo de dificuldade que se pode imaginar e ver que nada na vida é fácil, finalmente organizei meus passos, planejei meu futuro e tenho tudo sob controle.
Hoje em dia eu sou exatamente o que eu queria ser: dona de mim. Infelizmente, para a minha família isso é a maior desgraça que poderia me acontecer, uma mulher sem um marido é uma afronta a tudo que eles consideram certo perante a sociedade e Deus. Para mim, uma mulher sem um marido é como um peixe sem uma bicicleta.
– Problemas? – questiona, ao voltar do banheiro e me encontrar terminando de comer, bufando de frustração. Seguimos juntas para fora do restaurante.
– Dramas familiares, – reviro os olhos – você tem irmãs, ?
– Não, sou filha única.
– Agradeça a todas as entidades superiores que acreditar então, porque eu sou a irmã mais velha de cinco irmãs, em uma família tradicional, e posso afirmar que é o inferno na terra. Meu pai tem essa regra estúpida que minhas irmãs só podem se casar depois que eu me casar também. Fala sério, não estamos no século vinte e um e eu não sou personagem de um livro da Jane Austen – solto o ar com raiva, fincando as unhas na palma das minhas mãos – Mesmo eu sendo a desertora da família, continuo sendo pressionada de todo lado pra que isso aconteça, mas só nos sonhos do meu pai que eu vou me casar tão cedo.
– Mas você não tem um namorado? – ela questiona, diante da minha risada amarga.
– Tenho. Seojun é um anjo perfeito inclusive, tão diferente de todos os homens que já conheci. Por isso mesmo o escolhi para ser meu parceiro na vida, mas isso não quer dizer que precisamos casar. Estou focada demais no meu trabalho e ele na sua carreira como jornalista – sorrio, lembrando do quão sexy eu achava a profissão do meu namorado – Se for com ele, eu posso até cogitar me casar um dia, mas será quando eu quiser, não quando minha família me obrigar!
Após meu momento de revolta terminar, voltamos ao prédio da SM Entertainment onde trabalhamos juntas fazia quase um ano. Apesar de ela estar na empresa há muito mais tempo que eu, ela nunca deixou seu cargo superior impedir de nos aproximarmos. Ela foi minha primeira amiga dentro da SM, e agora era fora dela também.
Em algumas horas partiríamos para Tóquio, onde a turnê do SuperM teria inicio e eu estava quase explodindo de animação. Seria a primeira vez que eu faria parte de uma equipe em uma turnê mundial com um grupo tão grande.
“Nosso vôo sai às 16h e acho que chegamos antes das 19h. Eu mal aguento de ansiedade. Amor, nós sempre planejamos ir a Tóquio juntos, então da próxima vez eu te levo comigo ❤.” Eu ás 13h51.
Digito a mensagem para Seojun com um sorriso bobo nos lábios. Era incrível que mesmo depois de tantos anos juntos, ele ainda tinha aquele efeito sobre mim, aquele frio na barriga, que se instalava sempre que eu aguardava por sua resposta cheia de amor.
“Ok. Boa viagem.” Seojunie<3 14h19.
Ok, confesso que essa não era a resposta que eu esperava. Ele não costumava ser um cara de poucas palavras, eu normalmente tinha que dizer para ele se controlar porque ele passava dos limites e falava pelos cotovelos.
– Que cara é essa? – Heejin, uma das mulheres que trabalhavam comigo, perguntou por cima da bancada que dividia nossas mesas, ao me ver encarando o celular por tanto tempo.
– Seojun está estranho… – respondo, mesmo em dúvida.
Meus colegas de trabalho já me ouviram falar sobre meu namorado tantas vezes, que o conheciam quase tão bem quanto eu.
– Estranho como? – foi a vez de Bill perguntar do outro lado. Seus olhos praticamente duplicando de tamanho, farejando a fofoca, cheio de interesse.
– Estranho tipo respondendo uma mensagem fofa de três linhas com apenas duas palavras. Ele nunca fez isso.
– Isso me cheira a término.
– Quê término, o quê, Heejin? – Bill joga uma caneta na direção da garota, que desvia quase caindo da cadeira. – O que você entende de relacionamentos? O único beijo que deu na vida foi no seu primo.
– Também teve aquele entregador de pizza…
– Você estava bêbada e tentou pagar pela pizza com sua língua. Você agarrou o coitado a força, não conta. – exagerado como só ele, Bill fingiu ficar arrepiado e fez cara de nojo para a lembrança.
– Mas eu já assisti vários romances, tá? – ela pareceu ofendida.
– E quer o que, mocoronga? Um parabéns? – debocha, ajeitando o cabelo perfeitamente dividido ao meio – Eu vou te dizer, , minha querida. Quando caras como Seojun agem dessa forma, de duas uma, ou ele está te traindo…
Eu nem espero que ele termine a frase, explodo numa gargalhada que faz com que seja a minha vez de quase cair da cadeira giratória.
Aquelas cadeiras são um perigo.
– Seojun jamais me trairia. – continuo rindo sem controle. A ideia é simplesmente inconcebível, tanto que jamais me passou pela cabeça sequer cogitá-la. – Fala sério, estamos falando do Seojun, o cara que me pede perdão quando olha para uma mulher bonita na televisão.
– Então, se não é traição, a outra opção é – ele se estica por cima da mesa, fazendo uma pausa dramática. Tanto Heejin, quanto eu, nos esticamos em sua direção, curiosas. – Ele está planejando te pedir em casamento.
– O que?! – a pergunta sai de nós duas ao mesmo tempo.
– É assim que funciona, meus xuxus. Eu sei do que estou falando, foi assim nos meus três pedidos de casamento. – ajeitou a gargantilha que usava, suspirando. – Eles sempre ficavam estranhos por uns dias, distantes, parecia que as coisas tinham esfriado e eu ficava preocupado achando que não era mais amado, que estava tudo terminado e então, PLAU! Uma aliança brilhando bem na frente dos meus olhos. – balançou os dedos no ar, perdido em lembranças. Uma enorme aliança dourada pesada em seu anelar.
Minha mente ficou silenciosa por um segundo e então voltou a funcionar de forma muito barulhenta.
– Não pode ser. – solto, quase sem ar, negando com a cabeça.
– Não só pode como vai. Você sentiu que ele tentou esconder algo de você nos últimos dias? – Bill questiona e me esforço pra lembrar alguma situação específica.
Infelizmente, me lembro de uma semana atrás, quando encontrei a nota fiscal de uma compra feita numa loja de joias, no bolso de uma blusa que peguei emprestada. Quando perguntei o que era, ele se apressou em responder que havia comprado um par de brincos para a mãe. Eu não desconfiei de nada, porque ele jamais mentiria para mim.
– Meu Deus! – levo minhas mãos até minha boca, que está escancarada.
– Ou talvez ele esteja planejando algo especial para o pedido… – Bill continua e agora é mais fácil ainda lembrar.
Dois dias atrás, quando cheguei ao apartamento de Seojun, ele estava tomando banho e seu notebook estava aberto em uma página de Resorts para alugar em Jeju. Sua explicação havia sido que ele estava escrevendo uma matéria sobre o turismo na ilha, mas agora, parando para pensar, não fazia o menor sentido.
– MEU DEUS! Seojun já comprou as alianças e está planejando me propor em casamento numa viagem a Jeju! – a declaração sai da minha boca antes que eu consiga controlar minha língua.
– O quê? – quando procuro a fonte da pergunta, encontro parada encostada na porta de vidro que dava acesso ao nosso escritório, nos olhando como se fossemos alienígenas.
– Amiga, eu vou enfartar! – arrasto a cadeira em sua direção e a olho de baixo, com os olhos quase lacrimejando. – Você lembra o que conversamos no almoço, e agora Seojun está todo estranho. Após um detalhado estudo, cheguei a conclusão de que ele vai me pedir em casamento.
– Como você sabe disso? – ela olha desconfiada na direção de Bill e Heejin, que rapidamente voltam aos seus afazeres.
– Tenho certeza, vi a nota fiscal da joalheria e ele procurando reservas de resort em Jeju. Ele sabe que eu sempre sonhei em conhecer Jeju. Por que ele é assim? Eu não estou preparada para isso, mas é tão lindo… – digo, chorosa, imaginando a maldita cena daquele maldito homem perfeito se ajoelhando em minha frente e abrindo uma caixinha de alianças, com um cenário de tirar o fôlego atrás.
Como eu negaria um pedido desses?
– Não quero minha equipe desfocada nessa turnê, então aproveita que nosso vôo foi adiado e vai resolver isso. Eu te cubro aqui. – ela sorri em minha direção, tão compreensiva e bonita que eu tenho vontade de abraçá-la. – Vamos sair as 18h20.
– Obrigada, chefe! – afirmo, mesmo que ela não seja minha chefe.
Saio às pressas do prédio da SM, procurando por um táxi na rua movimentada. Seojun vai me pedir em casamento e não sei o que pensar dessa informação. Não é como se eu não quisesse aceitar, ele sem dúvida é o homem da minha vida, mas talvez o momento não seja certo. Eu não havia previsto nada daquilo, cada passo da minha vida era previamente avaliado e planejado para que nada desse errado e eu nunca sabia lidar quando as coisas não aconteciam como eu antecipei.
E por que diabos ele está planejando isso logo agora, que estou saindo numa turnê com a equipe do trabalho? Talvez ele esteja planejando esperar a turnê acabar, pra viajarmos daqui alguns meses. Essa é a conclusão mais óbvia, mas só penso nela depois que o táxi já parou na frente do prédio residencial onde ele morava.
Mesmo assim não consigo controlar a felicidade gigantesca que toma conta do meu peito de saber que ele planeja o futuro dele comigo. Talvez sonhar em ter uma família e envelhecer ao lado de alguém não seja tão ruim assim, desde que seja alguém que você ama. E eu o amo tanto.
Pago a corrida com um sorriso enorme no rosto, atravesso o hall de entrada e subo os três lances de escadas em direção ao apartamento tão conhecido por mim, afinal frequento ele faz quatro anos. E é por esse motivo mesmo que tenho a chave reserva da porta, e é pelo mesmo motivo que nem me preocupo em bater, apenas a uso pra entrar e fazer uma surpresa pra Seojun.
Minha vida é uma grande piada de mau gosto, porque no final quem é surpreendida sou eu. Abro a porta silenciosamente, com um sorrisinho bobo que desaba tão rápido quanto meu coração se quebra em mil pedacinhos. Meus olhos se arregalam ao encontrar Seojun, sem camisa, girando uma mulher seminua no meio da sala de estar. Seu cabelo está bagunçado de forma sugestiva, ela usa apenas uma lingerie vermelha e um colar de pedras enormes, que toca com a mão livre e sorri.
Oppa, eu amei. Deve ter sido um absurdo! – a voz dela é estridente e me petrifica no lugar. Me sinto tonta como se tivesse levado uma paulada na cabeça.
– Tudo pela minha garota. – ele solta a mão dela e segura seu rosto, a traz para perto e beija sua boca carinhosamente, do jeito que costuma me beijar. Sinto meu almoço se revirar perigosamente no meu estômago. – Suas malas estão prontas?
Então, tão claro como a luz ofuscante do sol que queima meus olhos, tudo passa a fazer sentido. É tão, mas tão doloroso que não consigo evitar e coloco para fora tudo que há em meu estômago, ali mesmo, na porta de entrada do apartamento do meu namorado.
Bem, ex namorado.

O mundo não para só porque você está com o coração partido. Por mais que esteja doendo tanto que você mal consegue respirar, a vida continua acontecendo impiedosamente a sua volta. Descobri isso quando precisei embarcar naquele avião rumo a Tóquio mesmo me sentindo despedaçada por dentro.
Sequer tive tempo de chorar. Talvez a ficha não tenha caído ainda e por isso, após vomitar em sua porta e sair correndo sem dizer nada, sigo meus afazeres obrigatórios em um estado robótico.
“Heejin estava certa, nós terminamos” foi o que eu informei ao encontrar , Bill e Heejin novamente no escritório da empresa, aguardando pela minha atualização. Não disse mais nada e agradeci mentalmente quando eles não perguntaram, respeitando meu claro estado de luto. Acho que a minha cara dizia tudo.
Eu categorizada minha tristeza em três estágios:
Estágio 1, aquela tristeza que sinto quando alguma coisa boba dá errado, como quando o casal que eu shippo não fica junto em um dorama, ou quando derrubei meu o celular novinho dentro da privada. Dói, mas da pra ignorar e seguir com a vida (as vezes rola uma choradinha para aliviar).
Estágio 2, a tristeza que sinto quando algo muito importante dá errado, que faz com que eu me sinta no fundo do poço, como quando precisei fugir de casa e viver uma vida miserável por um tempo até me reerguer. Aquele sentimento que aperta o peito e me obriga a fazer piada com minha própria desgraça, porque sei que rir é melhor que desabar num choro que pode durar dias.
E por fim, o temido estágio 3, quando a tristeza atinge níveis tão catastróficos que não tenho humor nem mesmo pra fazer piadinhas depreciativas que salvam minha sanidade mental, mas tão pouco consigo chorar porque a situação é tão ruim que nem parece real.
Naquele momento eu estava vivendo o auge do estágio 3 e me perguntando se não era hora de adicionar uma quarta categoria.
– Seremos colegas de quarto no hotel, espero que não se importe – sorri gentilmente ao anunciar – Acho que não é uma boa ideia você ficar sozinha. Podemos pedir frango frito, assistir um filme onde os homens se ferram no final e eu sempre tenho uma garrafa de whisky pra emergências.
Eu apenas concordo com um aceno e tento sorrir de volta, sem me importar com a careta que aquilo deve ter parecido para ela.
Havíamos acabado de desembarcar com a equipe de produção, e a van seguia para o Hamacho Hotel, onde ficaríamos hospedados por três dias. O show seria no dia seguinte e eu teria trabalho o suficiente para me ocupar e não pensar em… nele.
Fizemos exatamente o combinado àquela noite, e acho que foi quando meu laço com se tornou mais profundo. Entre uma asinha de frango apimentada e outra, desabafei toda a minha frustração e tristeza pelos anos que perdi acreditando que Seojun era o amor da minha vida.
Quando ela abriu a garrafa de whisky, ao som de Done, da CL, teve a brilhante ideia de me fazer imaginar ela era meu ex namorado, e dizer tudo que estava preso em minha garganta. Nas primeiras doses eu achei a ideia ridícula, mas logo que o álcool fez efeito as palavras cheias de raiva começaram a sair de mim como tiros e quando eu quase agredi minha colega de quarto com tapas que na verdade eram direcionados a Seojun, foi que concluímos que era hora de ir dormir.
Eu me sentia um pouco melhor, mas ainda não havia soltado nenhuma lágrima. Sentia que tudo estava preso dentro de mim por uma represa prestes a romper, e quando acontecesse seria devastador.
Por sorte, minha colega de quarto era uma profissional exemplar e pontual, então antes mesmo da hora marcada nós já estávamos prontas para seguir com a equipe de produção para o Tokyo Dome, onde aconteceria o show de estréia da turnê do SuperM.
Eu nunca fui uma funcionária tão exemplar como naquele dia. Eu estava focada em executar todas as minhas tarefas de forma impecável, me voluntariei para todos os trabalhos extras que precisavam ser feitos, até mesmo os que não tinham absolutamente nada a ver com minha função.
Tudo pra manter minha mente ocupada e longe dos pensamentos que eu não tinha forças para lidar naquele momento.
Ainda não é hora de desabar, eu repetia pra mim mesma a cada dez minutos.
, preciso de você no camarim terminando de vestir os membros, agora. – aponta para o corredor dos camarins, sem tirar os olhos do seu tablet. Tira a caneta que prendia seus cabelos e começa a morder a ponta, nervosamente – Faltam 20 minutos para o show começar e a estilista simplesmente sumiu. Desapareceu. As pessoas são pagas para quê nessa empresa? Eu vou ter um AVC, , eu tô sentindo.
Eu entendia a pressão que ela estava sofrendo naquele momento. era a única mulher a liderar uma equipe, a única a chegar onde só homens chegaram antes dela. Era o primeiro show do grupo e nada podia dar errado, ou achariam alguma forma de apontar a incompetência feminina como causadora da falha.
Por isso nem questiono suas ordens, e já sabendo o que fazer corro para o camarim sem nem respirar direito no processo. Abro a porta pesada com dificuldade, que bate atrás de mim com um estrondo muito alto e vou logo em direção aos cabides onde estavam separados por nomes as últimas peças do primeiro figurino dos membros. Esses, que por sua vez estavam recebendo os últimos retoques no cabelo e no equipamento.
Ajudo cada um a se vestir, focada no que faço e alheia ao que eles conversavam entre si. Me certifico duas vezes de que cada botão está em sua casa, nenhuma franja está embolada e não havia sequer um fiapo branco nos tecidos escuros.
Caramba, eles estão tão lindos que eu ficava triste de olhar, porque eu devia estar um trapo ainda pior perto daqueles homens magníficos.
– Dez minutos, SuperM! – alguém berra da porta do camarim, saindo em seguida com mais um baque estrondoso. Aquela porta precisava de conserto, urgente.
A nuvem escura que pairava sobre a minha cabeça naquele dia não me deixou sequer suspirar aliviada em ver todos eles seguindo para a porta de saída. Algum desmiolado achou que seria uma boa ideia deixar um enorme copo de suco pela metade na beirada da prateleira alta, que ficava a lado da porta.
Prevendo a merda que aconteceria no momento em que o distraído que liderava o grupo abrisse a porta problemática, me movimento até ele muito rápido, quase orgulhosa de meus reflexos, e me jogo em sua frente.
– Cuidado! – minhas mãos seguram os ombros de Baekhyun e o empurro para trás sem nenhuma gentileza.
Fecho os olhos com força, a tempo de sentir o copo batendo contra minha nuca, a bebida gelada caindo nas minhas costas, molhando meu cabelo e escorrendo pela minha bunda. Me contorço involuntariamente, com a pior sensação do mundo.
Quando volto a abrir meus olhos, procuro rapidamente algum sinal de que a bebida havia respingado na roupa dele. me mataria se aquilo acontecesse. Para sorte de Byun Baekhyun, e meu completo azar, meu corpo havia absorvido tudo.
Evitando o contato visual a todo custo, porque a essa altura meus olhos já estavam marejados e eu sentia a represa que segurava minha enxurrada de lágrimas muito perto de se romper, aproveito que logo os outros membros da equipe o cercam para ver se está tudo bem, e me afasto.
Praguejando baixinho, entro no primeiro banheiro que encontro e foi preciso apenas me olhar no espelho para a primeira lágrima escapar, seguida por inúmeras outras, e alguns soluços doloridos. Eu mal reconhecia a pessoa refletida ali. Nunca havia visto meus olhos tão sem vida, meu cabelo que eu nem tinha penteado aquela manhã, agora estava molhado e grudento, e até mesmo minha pele parecia amarelada e doente.
Que desgosto.
A sensação da camiseta fria colada ao meu corpo me agonia, mas eu não tinha outra peça pra colocar no lugar então teria que ficar daquele jeito até o final do show. Maravilha. Foi o estopim que faltava para tudo desabar e vez.
Tudo que consigo pensar é: o universo me odeia.
A vida não cansa de me espancar mesmo quando já estou caída no chão. Eu quero me desfazer em lágrimas até não sobrar nada de mim, mas sou obrigada a parar de chorar e lavar o rosto quando ouço alguém bater na porta. Para minha surpresa não era ninguém querendo utilizar o banheiro que eu estava interditando fazia sei lá quantos minutos.
Uma das maquiadoras da equipe está parada ao lado da porta, e quando me vê estende a peça de roupa que segura em suas mãos, meio sem jeito.
– Pediram para te entregar. Ficar com a roupa molhada pode causar um resfriado – sorri gentil.
Agradeço fraca demais para questionar qualquer coisa e volto a me trancar no pequeno cômodo. Aperto a camiseta em minhas mãos e faço uma careta quando as lágrimas voltam com força. Ela é preta, com pequenos detalhes prateados nas mangas, e quando a coloco, depois de me limpar com vários lencinhos umedecidos do banheiro, sinto um cheiro reconfortante vindo do tecido.
– O universo me da um soco, depois me faz um carinho… – murmuro cheia de ironia, com o nariz enfiado no meu próprio ombro.
Seja lá quem usou essa camiseta antes de mim, tinha um perfume muito bom, porque depois de cheirá-la por vários minutos eu percebo que parei de chorar e me sinto calma o suficiente pra voltar lá para fora.
Consigo manter a compostura até o final do show, que me distrai o suficiente para não voltar a chorar. Descobri então que o SuperM no palco é capaz de me distrair até mesmo de um apocalipse rolando o meu redor.
A energia daquele grupo, as músicas contagiantes, os passos elaborados que me faziam questionar se eles eram mesmo humanos, para conseguir mexer o corpo daquela forma. Era tudo mágico. Nem parecia que aquele era o primeiro show oficial deles juntos, havia uma conexão ali que era difícil de explicar, mas tão visível quanto aqueles visuais destruidores.
A vibe incrível do show durou exatamente até chegarmos ao Hamacho Hotel. Meu peito voltou a apertar tão dolorosamente que era difícil pensar em outra coisa. Parei no hall de entrada, vi toda a equipe se despedir e subir para seus quartos, e então mudei meu rumo para o bar do hotel.
– Quantas garrafas de soju acha que cabe nessa bolsa, senhor? – pergunto para o barman, abrindo a bolsa que estava pendurada em meu ombro e retirando o moletom que carregava lá dentro. Ainda bem que eu não era o tipo de mulher que carregava muitas coisas.
O homem de meia idade e avental preto na cintura olha para mim, depois pra a bolsa e então de volta pra mim, com a sobrancelha arqueada. Provavelmente se perguntando se eu estava falando sério ou tirando uma com a cara dele. Eu mantenho meu rosto inexpressivo esperando a resposta porque minha pergunta foi séria.
– Umas nove, se arrumar direitinho.
– Então me vê dez garrafas de soju, por favor – ele arregala os olhos, coça o queixo, mas não diz nada.
Espero até que ele traga as garrafas e vou guardando todas em minha bolsa, até sobrar apenas uma que vou levar na mão. O objeto fica pesado em meu ombro e entorta minha postura.
– Precisa de um copo? – ele pergunta estranho, quando devolve meu cartão de crédito.
– Não, vou beber no bico mesmo. Obrigado e boa noite – faço uma reverência rápida e viro as costas antes que possa ver sua reação.
Ele deve estar me julgando agora, pela minha figura deplorável, meu desespero por encher a cara e esquecer tudo de uma vez ou pelo barulho de garrafas batendo que minha bolsa faz enquanto caminho entre as mesas e saio do bar, em direção ao terraço.
Escolho o lugar cuidadosamente para beber, porque sei que aquela hora ninguém subiria ali. Estavam todos cansados demais depois do show e provavelmente ocupados demais para notar meu sumiço. O vento gelado bate em meu rosto assim que abro a porta de ferro, me fazendo estremecer. Agradeço mentalmente por ter colocado um moletom na bolsa naquela manhã e o visto, continuando a sentir frio, mas não me importo porque assim que a primeira garrafa de soju é esvaziada eu não sinto mais o vento cortante.
O objetivo é não sentir mais nada.

 

– Então, acho que nunca me senti tão… patética em toda a minha vida. E olha que uma vez eu tive que ir a escola vestindo meu cosplay de Sakura do Naruto, porque eu não tinha outra roupa limpa e fui a chacota do mês. – suspiro, pegando a segunda garrafa de soju, em meio a muitas lágrimas. Olho para a pobre criatura que ouve meus lamentos e sorrio, amarga. Me levanto do chão de concreto já meio tonta, mas sóbria o suficiente para caminhar até a beirada do prédio e me debruçar sobre o parapeito. Muitos andares abaixo, Tóquio se estendia iluminada e esplendorosa. Meu ouvinte me segue com seus pequenos e afiados olhos. – Eu que sempre me considerei uma mulher tão suficiente, independente, nunca gostei de seguir regras. Como fui chegar a esse ponto? Como acabei caindo na lei mais filha da puta do universo? Traição. Que palavra ridícula.
Abro a garrafa de com os dentes e viro mais alguns goles. Ainda queima, mas já não tem gosto tão ruim quanto os primeiros. Minha mente já está nublada, finalmente estou chegando onde quero. Embriaguez total.
– Humanos não são confiáveis, eu não sei onde eu estava com a cabeça para confiar logo em um macho dessa espécie – continuo meu monólogo, ainda tendo sua atenção sobre mim – Por um segundo eu pensei que fossemos casar e ter filhos bonitinhos com seus olhos e meus cabelos, sabe, ele tinha olhos lindos num ângulo perfeito e… Agora tudo que eu quero é arrancá-los com uma colher. – não sei se soluço por estar chorando ou por estar bêbada.
Só quero que a dor em meu peito suma, assim como aqueles pensamentos embaralhados que tomam conta da minha mente.
– Pelo menos, eu vomitei na porta daquele filho da mãe e deixei lá para ele limpar, porque eu saí correndo. – dou uma risada quase orgulhosa de mim mesma por essa pequena vingança, mas a sensação ruim ainda é esmagadora – Como pude ser tão burra? É tão vergonhoso como me iludi ao pensar que ele tinha comprado uma aliança e estava planejando me pedir em casamento. Meu Deus, eu dediquei quatro anos da minha vida aquele canalha. Quantas vezes eu deixei de cuidar de mim para cuidar dele, deixei de fazer o que eu gostava para ficar presa naquele maldito apartamento assistindo ele escrever aqueles artigos horríveis. Não acredito no quanto me humilhei por alguém que não merecia. Eu lavei aquelas cuecas encardidas, paguei as contas atrasadas que ele provavelmente não conseguia pagar porque estava gastando dinheiro com aquela… aquela… AAAHH!
Meu grito revoltado e desafinado assusta meu ouvinte, que se joga do parapeito do terraço onde nos encontramos e sai voando madrugada adentro.
Nããão! Volta aqui! – choramingo feito uma criança em direção a pomba branca e gorda que já sumiu na escuridão. – Volta, eu não quero ficar sozinha.
É patético, eu sei. Não ter ninguém pra conversar num momento como esse e ser obrigada a desabafar com um pássaro, que minutos antes quase cagou na minha cabeça.
Me viro sem muita delicadeza e minhas costas se chocam contra a mureta que cerca o terraço. Escorrego dramaticamente até cair sentada no chão novamente, está frio o suficiente para eu já ter perdido a sensibilidade na bunda. Meu choro ganha força e caramba, eu devo estar tão ridícula agora.
O melhor a se fazer é beber mais.
– Posso te fazer companhia, se quiser… – ouço e espirro todo o líquido que está em minha boca, assustada.
Para minha sorte, a fonte da voz está longe o suficiente para não se molhar.
– Caralho, achei que fosse a pomba me respondendo! – falo, sem o menor controle da minha língua, mas não é a pomba.
Sei que é um homem pela sua voz bonita e melodiosa, mas não consigo ver seu rosto. Metade de seu corpo está coberto por um moletom rosa gigantesco, seu rosto é parcialmente ocultado por uma máscara e o capuz faz sombra onde já está escuro pela falta de iluminação do lugar.
Sei que devo pedir desculpa por quase cuspir soju nele, mas naquele momento eu não estou nem aí. Eu nem sei se ele não é algum tipo de maníaco que está ali pra me matar, mas isso também não me importa. Para minha surpresa o escuto prender uma risada.
– Você é tipo o Dr. Dolittle? Normalmente conversa com animais?
– Só quando estou me sentindo tão miserável que a companhia humana não faz mais sentido – respondo melancólica, mas é dolorosamente sincero.
Tomo outro gole da bebida em minhas mãos, enquanto ele me responde sem se aproximar.
– Ouch! – ele coloca a mão sobre o peito, como se eu o tivesse atingido com minhas palavras. – Isso foi uma indireta para eu ir embora? Por que eu escutei claramente você falando que não quer ficar sozinha, um minuto atrás.
– Não quero ficar sozinha, mas também não quero ninguém me olhando com pena, ou me julgando. Aquela pomba maldita já estava me julgando o suficiente. – aponto debilmente para onde o pássaro estava pouco tempo atrás.
– Eu percebi. Posso ficar se eu prometer te julgar menos do que a pomba?
– Hã? Ficar? – o que ele falava estava fazendo algum sentido? Talvez eu só estivesse alterada demais para entender. – Por que você quer ficar, afinal? Você é algum tipo de psicopata? Está planejando me matar, depois jogar meu corpo daqui de cima e fazer parecer suicídio ou coisa do tipo? Porque se estiver, vou logo te avisando que… que…– eu penso rapidamente em uma ameaça, mas só consigo gemer feito uma demente – eu consigo chorar tão alto e irritante que você vai desejar nunca ter chegado perto de mim.
Sua reação a minha ameaça é gargalhar alto e algo naquela risada é muito familiar, como se eu já tivesse ouvido muitas vezes antes. Talvez em algum sonho?
– Não é nada disso, não se preocupe. – ele finalmente se aproxima sem o menor receio e senta ao meu lado no chão gelado, deixando um espaço de segurança entre nós. É frustrante não conseguir ver seu rosto enquanto ele consegue ver claramente o meu inchado, vermelho e molhado. – Só preciso beber, também.
– Ah, então seu interesse é em roubar minha bebida? Essa é definitivamente a pior fase da minha vida; bêbada, traída, abandonada, conversando com pássaros e sendo roubada por estranhos. Acho que usei a cruz de poledance na minha vida passada, e olha que eu nem sou religiosa. Desculpa Jesus, mas não precisava ser tão vingativo assim. – balbucio as reclamações para o céu noturno, sem nem prestar atenção nas bobagens que estou falando.
– Não sou um estranho – ele responde. Pega uma das garrafas de soju que deixei largadas no chão, abaixa suavemente a máscara e toma um gole generoso. Por fim, completa: – Nós trabalhamos juntos.
Tento olhar seu rosto a menos de um metro de mim, mas o conjunto de altas doses de álcool embaçando e duplicando minha visão, a má iluminação do terraço àquela hora da madrugada e aquele maldito capuz não me permitia enxergar nada além de um maxilar marcado.
Ok, era um belo maxilar.
– Você é aquele esquisito do RH que fica me mandando foto dos pés “sem querer” no Kakaotalk? Olha, cara, eu não curto essas coisas… – novamente sua resposta é gargalhar e negar com a cabeça. O som parece milhares de sinos tintilando ao mesmo tempo. Eu tenho certeza que já ouvi isso antes, mas não consigo lembrar – Porra, quem é você afinal? – a pergunta sai numa lufada de frustração. Não estou com paciência pra joguinhos.
Com um movimento impulsivo e desajeitado, me viro para ficar de joelhos, me esticar e alcançar seu capuz, mas antes que eu possa retirá-lo, apoio minha mão na beirada de uma garrafa vazia de soju que rola para o lado e me faz perder totalmente o equilíbrio que já não tenho por causa da bebida.
Com um gritinho esbaforido, meu corpo vai para frente e meu rosto se choca contra o peito do desconhecido, que tomba para trás com o impacto, me levando junto. A parte boa é que meu plano de tirar seu capuz, no fim das contas funcionou, quando ele bateu contra o chão. A parte ruim, e talvez ruim fosse um eufemismo sem tamanho, é que o rosto revelado por baixo do capuz era de Byun Baekhyun.
Eu o reconheceria mesmo estando a beira de um coma alcóolico.
Ele estava certo, nós trabalhávamos juntos sim. Eu era manager do grupo mundialmente famoso onde ele era o líder. Trabalhamos juntos, em duas extremidades opostas da hierarquia da SM e por isso eu provavelmente seria demitida depois disso.
Nunca duvide, a vida sempre consegue piorar.
Enquanto eu pensava nisso, continuava deitada sobre o peito de Baekhyun, com o rosto tão próximo do dele que eu podia ver cada detalhe de seu rosto. Seus olhos arregalados de surpresa, sua boca entreaberta e molhada de soju. Como diabos alguém podia ser tão bonito?
Era uma injustiça com os outros seres humanos.
– Você tem um cheiro muito bom. – isso saiu da minha boca? Por que eu disse isso? Ah, é. Eu ‘tô bêbada. – Porra, eu sinto muito. Em minha defesa, o cheiro é realmente bom, seu perfume deve ser caro e…
– Eu não estou usando perfume. – ele responde, e sua voz é mais grave do que antes.
Demoro em perceber que na nossa posição atual, suas duas mãos me sustentam pela cintura num aperto contido. Nossos olhos estão conectados e assim, tão pertinho, eu tenho todo o foco que o álcool havia me tirado. Subitamente me sinto mais sóbria do que nunca.
Ele é lindo.
E eu estou fodida.
– Por favor, não me demita! – tento me afastar, mas minha mão desajeitada pressiona forte seu peito e ele faz uma careta de dor, apertando minha cintura em reflexo – Meu Deus, eu sinto muito, eu…
Ele começa a aproximar seu rosto do meu e por um segundo eu fico paralisada. O que ele está tentando fazer? Apertando minha cintura dessa forma, colocando nossos lábios tão perigosamente próximos, me olhando nos olhos assim. Ele quer me beijar?
– Êpa! Que isso? – cubro sua boca com a minha mão e o empurro de volta para o chão antes que ele consiga completar o que planeja fazer e ele arregala os olhos – Não te dei essa intimidade, não – ele fala algo contra minha mão, mas não consigo entender, não quero tirar a mão e correr o risco dele tentar me beijar de novo.
Quem ele pensa que é? Só porque é um idol famoso e lindo, não quer dizer que pode sair beijando mulheres bêbadas por aí.
Sinto algo molhado e frio se mexer contra a minha mão e sou obrigada a retirá-la de sua boca.
– Eca, que nojo, você lambeu minha mão! Olha só, ta toda babada.
– Você que tampou minha boca sem motivo algum.
– Você ia me beijar. – aponto, ofendida.
Ele pisca os olhos por alguns segundos, parecendo confuso e então solta um riso pelo nariz. É minha vez de ficar confusa, mas antes que eu possa expressar minha confusão, Baekhyun me segura firme pela cintura, me afasta um pouco e levanta o tronco. Volta a ficar sentado num movimento rápido e junto me coloca de volta no meu lugar anterior.
– Eu não ia te beijar, só queria levantar devagar para não te machucar. Você está bêbada. – ele se explica, e eu não estou nem aí.
– Estou mesmo, descobri que a bebida alcóolica é o leite com biscoito dos adultos. – dou de ombros, retomo minha garrafa de soju e dou mais um gole. Ele por sua vez imita meu gesto, bebendo uma quantidade maior e fazendo uma careta em seguida. – E se quiser me demitir também, vai em frente. Eu nem me surpreenderia, o universo me odeia.
– Eu não vou te demitir. – declara, como se fosse óbvio – Sei que tem motivos para estar assim.
– Sabe? E o que você sabe, espertinho?
– Eu ouvi sua conversa com a pomba.
– Ah, maravilha. A conversa toda? – ele assente – Até a parte sobre o cosplay de Sakura e as cuecas encardidas do meu ex? – assente novamente, e eu estou entre cavar um buraco no chão e me esconder dentro, ou acertar a cabeça dele com aquela garrafa e torcer para ele acordar com amnésia. – Agora seria uma ótima hora para aparecer um psicopata, me matar e me jogar daqui de cima.
Me levanto com dificuldade, solto um soluço vergonho e volto a observar a vista da cidade do parapeito do terraço, querendo fugir de seu olhar invasivo.
– Eu não vou te julgar, já me humilhei bastante por alguém que não merecia também. Conheço a sensação, – se levanta e se debruça ao meu lado, tomando mais um gole – então se quiser conversar.
– Por que você precisa beber? – fujo do assunto de propósito, mas ele parece sincero ao responder.
– Me sinto decepcionado com o show de hoje. Todos trabalharam tanto, se esforçaram e se saíram tão bem, mas eu podia ter feito melhor. Como líder eu preciso fazer melhor, preciso ser o exemplo o tempo todo, mas eu não acho que sou um bom exemplo de nada. – despeja as palavras sem pensar muito.
– Eu assisti o show e, sinceramente, você estava ótimo. – dou de ombros, não me achando qualificada o suficiente para aconselhar alguém.
– Ótimo não é suficiente, estou nessa estrada a tempo suficiente para saber disso. Qualquer deslize e pode ser o fim da linha para um grupo. – seus olhos se fecham com força, como se ele lembrasse algo doloroso e novamente, vira a garrafa em seus lábios.
– O SuperM está apenas começando, vocês já tem uma base de fãs sólida o suficiente para não precisar se preocupar tanto com isso. Só está sendo paranoico e se cobrando demais, nenhuma das duas coisas vai te levar a lugar nenhum. – não acredito que estou aconselhando Byun Baekhyun. Bêbada.
– Eu sei, por isso preciso beber e esquecer isso por enquanto. Faz parte do seu trabalho, então me ajude, por favor.
Seu olhar é tão profundo e desesperado que me pega desprevenida. Sua cabeça tomba para o lado e o vento noturno bagunça seus cabelos azuis. Era eu que precisava de ajuda naquele momento, não planejava ajudar outra pessoa, mas talvez fosse a distração que eu necessitava para esquecer toda minha desgraça particular.
– Vamos fazer o seguinte, – balbucio embolado, num rompante de energia – já que nós dois precisamos esquecer tudo essa noite, vamos beber e fingir que eu não sou , a mulher que acabou de ser traída pelo namorado e você não é Byun Baekhyun, o astro que está duvidando de si mesmo sem motivo algum, ok?
– Ok – ele aceita tão rápido que até me surpreende – Precisamos de codinomes para nossas novas as personalidades. Hm, eu vou chamá-la de Pomba.
– Odiei – digo, mas não é exatamente uma reclamação – Vou chamá-lo de Bebe.
– Por quê?
– Porque é derivado de Baekhyun, você parece um bebê nesse moletom rosa e com esse biquinho fofo, e porque estou bêbada e não consigo pensar em nada melhor. Eu não questionei a Pomba, você não questiona o Bebe. Apenas aceite.
– Achei super idiota. Ok, Pomba.
Nos encaramos sérios por alguns segundos, até explodirmos numa gargalhada que começou e terminou ao mesmo tempo. Aquela situação boba parecia tão familiar, mesmo que eu nunca tivesse vivido nada parecido.
Voltamos a encarar as luzes da cidade lá embaixo, num silêncio confortável que é cortado apenas pelo som das nossas garrafas sendo esvaziadas. Logo ele está quase tão alterado quanto eu.
– Bebe, já que você não é famoso nem tem que se preocupar com nada, o que gostaria de estar fazendo nesse momento? – a pergunta sai natural, como se eu conversasse com um amigo de longa data.
Aquela história de novas personalidades ia me subir a cabeça, eu podia prever.
– Gostaria de estar bebendo em um bar, – responde sem precisar pensar muito. Fecha os olhos e inclina a cabeça para o céu ao começar a narrar – queria sentar em qualquer cadeira, tomar cerveja até ficar me achando o cara mais invencível do mundo, aí eu começaria uma briga com uns homens tatuados e com cara de mal que estão no canto rindo de mim. Ia apanhar provavelmente, mas pelo menos ia acertar alguns socos e terminar a noite sendo expulso do estabelecimento com um olho roxo e o lábio cortado. – seus lábios se abrem num sorriso de satisfação enorme – E o melhor de tudo, no dia seguinte eu não precisaria me preocupar com isso aparecendo na mídia, porque eu sou apenas uma pessoa comum, fazendo coisas de pessoa comum.
– Você anda assistindo filmes demais, pessoas comuns não saem por aí caçando briga em bares, meu querido. – o encaro indignada.
Que pirado!
– Você está me julgando, Pomba?
– Claro que não, Bebe. A vida é sua, saia caçando a briga que quiser, mas saiba que se eu estivesse nesse bar com você quando começasse a brigar, eu ia procurar alguém que quisesse apostar comigo que você ia terminar a luta sem um dente e pedir uma porção de amendoim para comer enquanto te assisto apanhar. – afirmo rindo, imaginando a cena em minha mente.
– E você? Se pudesse fazer qualquer coisa, ir pra qualquer lugar nesse momento…
– Eu entraria em um táxi e diria “motorista, siga aquele carro!” e apontaria para um carro aleatório que estivesse passando, só pra ver onde eu iria chegar.
– Você não pode estar falando sério.
– Falou o cara que quer arranjar briga com caras tatuados num bar – reviro os olhos, prendendo o riso – Eu queria, só uma vez deixar a vida seguir um curso aleatório e ver no que vai dar. Não ter cada passo da minha existência previamente planejado, porque isso claramente não deu certo até aqui. Tirando os últimos dias, não costumo ser uma pessoa muito impulsiva, nunca fiz nada muito emocionante. Só por um instante eu gostaria que o universo me surpreendesse com algo bom.
O suspiro sai junto com uma lágrima, eu não consigo controlar nenhum dos dois. Limpo rápido porque não quero parecer dramática e melancólica logo agora que estamos rindo e esquecendo os nossos problemas mesmo que por meros minutos.
– Vamos, então. – ele chama, se afastando do parapeito do terraço.
– Para onde? – questiono sua frase e sua sanidade.
– Pegar um táxi para você dizer “motorista, siga aquele carro” e ver onde vamos parar. Agora eu estou curioso também. – ele começa a caminhar em direção a porta de metal que leva de volta ao hotel, mas eu não me movo.
– Você tá brincando, certo? – ele nega minha pergunta com a cabeça e meus pés me impulsionam em sua direção. Não tenho muito controle sobre meus movimentos. – Baekhyun, você não pode sair assim, como sua manager eu…
– Ainda bem que nesse momento não sou Baekhyun, e sim Bebe, uma pessoa comum. – ele recoloca a máscara sobre o rosto e sobe o capuz, escondendo praticamente tudo, mas ainda posso ver seus olhos se tornarem duas linhas e sei que ele está sorrindo.
– Não sei quem é mais maluco, você por propor isso ou eu por concordar.
– Definitivamente você, já que a ideia é toda sua. Só vou colocá-la em prática.
Aquilo me pegou desprevenida. Eu sempre fui cheia de ideias malucas, mas raramente elas as[iam do campo das ideias, fosse por medo das consequências de executá-las e dar tudo muito errado, ou por não ter quem me incentivasse e embarcasse junto nas minhas maluquices.
Seojun não era um cara muito aventureiro. Na verdade, nunca havíamos feito nada fora da nossa zona de conforto durante todos aqueles anos que estivemos juntos. Como ele foi meu primeiro namorado, – aquele meliante, que namorei por um mês aos 20 anos e acabou roubando tudo que eu tinha e fugido, não conta. – Baekhyun era a primeira pessoa que decidia, por livre e super espontânea vontade, colocar uma ideia sem pé nem cabeça minha em prática.
Aquilo era inédito.
Em um momento normal, em que eu não estivesse alcoolizada, tropeçando nos meus próprios pés enquanto caminhávamos rindo baixinho em direção a recepção, eu até pensaria melhor. Nós mal nos conhecíamos. Eu era sua manager, devia me portar profissionalmente e cuidar dele. Aquela era uma ideia perigosa, mas meu senso de preservação era quase inexistente naquele momento.
Eu estava embriagada pelo álcool e pelo sentimento alucinante de adrenalina de estar fazendo algo impulsivamente.
Detalhe muito importante: eu o estava fazendo com Byun Baekhyun, igualmente bêbado e impulsivo.
Aquilo não fazia o menor sentido, nem parecia verdade, mas minha vida nos últimos dias parecia uma grande obra de ficção, então eu decidi que a partir dali não questionaria mais nada. Sem planejamento, sem pensar demais no futuro. Eu viveria espontaneamente o momento presente ao máximo e deixaria as águas do destino me levar para onde o universo quisesse.

Nota da autora:
Hey! Tô feliz demais por finalmente poder compartilhar minhas histórias com vocês, pra gente boiolar em conjunto. Espero que gostem e não se esqueçam de comentar pra eu chorar de amor e emoção.
Essa fanfic é dedicada as GalaxyKpopperas, o melhor grupo de todo o whatsapp, o melhor presente que o kpop me deu, se não fosse pelo apoio e incentivo de vocês essa história não existiria!

 

O universo não estava pra brincadeira quando colocou Baekhyun em meu caminho, mas eu demoraria a descobrir isso, até ser tarde demais.
Após distrair o recepcionista do hotel, com as piores piadas de bêbado que eu conseguia pensar naquele momento, Baekhyun passa agachado pelo balcão, cutucando minha panturrilha no caminho e corre para a porta.
– E aí o bêbado disse “pelo menos amanhã eu tô curado, e você que é feio?” – eu caio na gargalhada, porque mesmo que não tenha sido engraçada, a cara que ele faz é hilária. – É isso, espero que um dia você vá assistir meu show de stand up um dia, Michael. Boa noite.
Corro porta a fora o mais rápido que meus pés descoordenados conseguem e encontro Baekhyun encostado na grade que circula o prédio, a alguns metros. Pelo movimento de seu corpo, sei que ele está rindo feito um maluco, mas eu estou exatamente igual então não posso julgá-lo.
– É meia noite e meia. – eu checo rapidamente em meu celular, ignorando as notificações. Caminhamos lado a lado até a avenida que fica duas ruas acima do hotel onde estamos hospedados. – Ainda tem movimento nas ruas, nosso plano vai dar certo.
– Ali, um táxi! – ele aponta para o carro amarelo que está passando lentamente.
– TÁXI! – eu grito muito alto e saio correndo em sua direção, sem a menor noção do que estou fazendo. Para minha sorte, Baekhyun me acompanha de perto.
O carro freia ao ouvir meu grito, fazendo um som derrapado alto e parando perto da calçada. Abro a porta e me jogo no banco de trás, apressada, e no segundo seguinte Baekhyun já está ao meu lado. É então que anuncio, muito alto e teatral:
– Motorista, siga aquele carro! – me enfio entre os bancos e aponto para o sedan preto que acabou de passar ao nosso lado.
Nihonjin no mi. – ele diz, negando com a cabeça.
– Porra, esqueci que estamos no Japão. – bato em minha testa, indignada comigo mesma pelo vacilo. – Untenshu, sono kuruma ni shitagatte kudasai! – repito a frase em japonês, com a mesma entonação de antes.
O motorista arregala os olhinhos enrugados por um segundo, então afirma com a cabeça e arranca cantando pneu, saindo em disparada atrás do carro preto escolhido aleatoriamente.
Alguma lei da física que não consigo lembrar no momento faz com que meu corpo seja lançado para trás, pra variar perdendo o equilíbrio e acabo caindo quase no colo de Baekhyun. Ele segura a lateral dos meus ombros com firmeza antes que nossos corpos colidam, me ajuda a sentar de volta em meu lugar, mas permanece com o braço descansando no encosto do banco atrás da minha nuca.
– Não acredito que você teve mesmo coragem. – suas palavras saem num sopro baixinho, porque nossos rostos estão muito próximos. Sinto o cheiro de soju em seu hálito e naquele momento é simplesmente delicioso.
– Você não fez isso só porque estava duvidando de mim, não é? – me afasto um pouco, mas ainda fico próxima o suficiente para que nossas pernas se toquem. É inacreditavelmente confortável ficar próxima a ele.
– Claro que não, você não parece o tipo de mulher de quem se deve duvidar. Estou realmente curioso para saber o desfecho dessa corrida, Pomba.
– Senhorita, ele está indo para Asakusa. – o motorista anuncia em japonês, prestando muita atenção na estrada.
Talvez seja presunção minha, mas ele parece estar curtindo muito a vibe perseguição. Ele desvia dos carros com habilidade, mesmo que nunca ultrapasse o limite de velocidade. Seu corpo está inclinado para frente e ele aperta o volante com tanta força, que os nós de seus dedos estão brancos.
– Não o perca de vista! – comando, continuando minha atuação, e nem preciso me segurar pra não rir. Na minha mente estamos mesmo perseguindo alguém importante.
Quando paramos em um sinal vermelho, observo Baekhyun sem o menor pudor enquanto penso em como melhorar nossa camuflagem. Ainda tenho o mínimo de consciência me alertando que não devo deixar que ninguém o reconheça ou estaremos enrascados. Eu ainda mais, pois provavelmente serei demitida.
– Troca de blusa comigo – peço, já pronta pra tirar a minha.
– O que?!
– Bebe, você com esse moletom rosa e esse cabelo azul é quase um letreiro iluminado, que diz: “Olá, eu sou Byun Baekhyun.” – gesticulo a frase, para que ele entenda onde quero chegar. – Vai chamar menos atenção usando o meu, e eu sou mulher, nesse mundo sexista passo despercebida se estiver usando rosa.
Ele pondera por alguns segundos antes de finalmente aceitar e tirar seu moletom, trocando comigo. O meu é praticamente idêntico, sendo diferente apenas na cor, que é preto e simples, e no preço, que deve custar um terço do seu moletom rosa de marca chique.
Colocar o moletom de Baekhyun é como tomar mais uma garrafa de soju inteira. Seu cheiro é inebriante, me deixa tonta, e mesmo que ele diga que não está usando perfume nenhum, eu pagaria qualquer preço num frasco que viesse com aquela fragrância dentro.
– Camiseta legal. – com um sorrisinho suspeito, ele aponta para a peça que estou prestes a cobrir com o moletom. – Tenho uma igual.
– É bonita, não é? Mas não é minha, uma moça da equipe de maquiagem me emprestou porque a minha molhou e…
– Eu sei. Fui eu que pedi para ela te entregar. Se puder me devolver depois, ficou bonita em você, mas eu gosto muito dessa camiseta. – ele diz tão naturalmente que a princípio me sobressalto.
Eu sequer havia cogitado a possibilidade dele ter dado importância ao incidente do suco, afinal eu só estava fazendo meu trabalho, o que qualquer um naquela sala com reflexos melhores poderia ter feito. Agora descubro que Baekhyun, prestes a entrar no palco, se preocupou em pedir pra alguém me entregar sua própria camiseta para que eu não ficasse com a roupa molhada? Era um gesto tão singelo, mas parecia surreal.
Então o cheiro dele, que já era maravilhoso, passa rapidamente a ser meu cheiro favorito no mundo todo. Ganha até mesmo do cheirinho de cebola e alho fritando, que até o presente momento estava no pódio. Foi seu cheiro que me acalmou quando eu estava à beira de um surto, então abraço meu próprio corpo para sentir ainda mais das duas peças de roupa de Baekhyun que uso.
– Você é um anjo! – digo, comovida. Até mesmo pisco os olhos rapidamente, com a mão sobre o coração, mas por estar bêbada acho que o gesto pareceu meio ridículo. – Obrigado pela camiseta, mas é minha agora. Ela é linda e você é rico, pode comprar outra igual.
– E se eu comprar e nós dois usarmos elas no mesmo dia? Vamos parecer um par de vasos ambulantes. – rebate ultrajado, me surpreendendo ao não negar que eu fique com a camiseta.
– A gente combina que dia cada um pode usar. Você só pode usar a sua nas segundas, quartas, sextas e domingo. Eu fico com os outros dias.
– Ei, eu quero o sábado para mim. Essa sempre foi minha camiseta de sábado.
– Não seja egoísta, Bebe. Eu deixei você ficar com um dia a mais e agora quer o sábado também? Porque você é assim?
Enquanto discutimos sobre a guarda compartilhada do nosso par de camisetas iguais, que ainda nem existe, continuamos a perseguição pelas ruas iluminadas de Tóquio. O motorista permanece com os olhos fixos na rua, vidrado.
– Finalmente está acontecendo. – ele comemora em um determinado momento, acelerando.
– Como é? – volto minha atenção pra ele por um momento.
Paro pra prestar atenção e ele é um senhor franzino, de meia idade, com várias rugas no rosto, mas com uma expressão doce e, no momento, determinada.
– Esperei quinze anos para alguém entrar em meu carro e dizer isso, senhorita. A vida de motorista é muito chata, as mesmas ruas, as mesmas leis de trânsito todo dia, nada acontece… Essa é a maior aventura que estou vivendo desde que minha ex-mulher me perseguiu com um facão por todo nosso bairro porque achou que eu a estava traindo com a irmã. – ele conta, sorrindo. – Não sei quem estão perseguindo, mas vou dar o meu melhor para que consiga alcançá-lo.
– O senhor está… gostando disso? – pergunto, incerta.
– Ah, sim, sim. Isso é tão emocionante – ele acelera ainda mais. Estamos apenas um carro atrás do sedan que seguimos as cegas.
Baekhyun parece completamente chocado, ainda tentando entender o diálogo que acabei de ter com o motorista do táxi. Seus olhinhos vão dele para mim, arregalados.
– Quem você acha que estamos seguindo? – pergunto num tom baixo, mesmo que o motorista não entenda nosso idioma.
– Pelo carro, hm, eu acho que é um mafioso indo cobrar alguém que está devendo pra ele. Talvez alguém da Yakuza?
– Eu aposto que é um CEO famoso que vive uma vida dupla secreta, e nós vamos descobrir que ele é uma gueixa em alguma boate, nas horas vagas. – dou meu palpite.
Olho pela janela e observo as luzes coloridas das ruas passarem como um borrão sem sentido, que se embaralha ainda mais por causa do meu estado alterado.
– O plano era apenas ver aonde chegaríamos, e agora já estamos querendo perseguir a pessoa e descobrir seus segredos obscuros. Acho que você tem algum probleminha, Pomba.
Nós temos, Bebe. Não se esqueça que está no mesmo barquinho que eu aqui, então se inclua em todas as acusações que fizer. – eu sorrio atrevida e toco de leve a ponta de seu nariz por cima da máscara.
O ato é tão estranhamente natural, que passa despercebido por nós dois. Acabei de tocar o nariz de alguém que conheço há poucas horas como se tivéssemos toda a intimidade do mundo e, pasmem: não ficou um climão depois.
É como se, tanto eu, quanto Baekhyun estivéssemos totalmente a vontade com aquela situação. Talvez fosse o efeito álcool, que agora lentamente saia do meu sistema, ou talvez fosse alguma conexão cósmica que nossas almas tinham desde o momento em que nascemos e resultou nesse exato momento…
Nah! Era só o álcool mesmo.
– Chegamos – o motorista anuncia, quando paramos a meia quadra de distância do sedan preto.
Com as cabeças espremidas uma contra a outra para caber no espaço limitado entre o banco do motorista e do carona, Baekhyun e eu esperamos em silêncio, cheios de expectativa para ver quem desceria do carro que seguimos.
Nenhuma das nossas teorias está correta e quem desce do carro, para nossa surpresa, é um monge careca vestindo uma túnica vermelha e laranja que cobre todo seu corpo. Ele faz uma reverência educada para o motorista do carro e segue para o lado oposto. Só então percebo que estamos estacionados em frente a um gigantesco templo budista, que ocupa toda a quadra.
– Eu nunca confiei nesses carequinhas. – o motorista diz, apontando o nariz para o monge e estreitando os olhos, desconfiado.
– Nunca confie em gente que consegue meditar por horas como se não existisse nada em suas mentes. – aconselho, de forma séria. Sem dar a chance de Baekhyun se pronunciar eu pago a corrida rapidamente, guardo o troco e quando já estamos do lado de fora do carro, me inclino pela janela do carona para finalizar meu teatro. – Muito obrigado pelos seus serviços, senhor. E para a sua própria segurança, não conte sobre isso a ninguém. Se homens de terno preto aparecerem na sua porta, é só usar o código Pomba Bebe, entendeu? – ele afirma freneticamente com a cabeça, e eu me viro para sair satisfeita com meu desempenho.
Baekhyun por outro lado, parece meio atordoado por tudo que acabou de acontecer. Quando o táxi finalmente está longe o suficiente, ele desfaz sua pose e se dobra numa gargalhada que quase o faz ir ao chão. Meus joelhos estão fracos também, mas é por um conjunto de sentimentos vibrantes que nunca tive antes. Aquilo é adrenalina?
– Hollywood está perdendo uma grande atriz aqui. – ofega entre risos.
– Finalmente tive a chance de colocar meus dons em uso, onde está meu Oscar?
Apesar de haver algumas poucas pessoas pelas ruas, a longa entrada do templo estava deserta. Era tão iluminada pelas fachadas das lojinhas já fechadas que se estendiam por toda a lateral da estrada até a porta, e tão bonita em todas as direções que olhávamos, que ficamos um tempo parados, apenas observando os detalhes reluzentes com cuidado.
O chão da rua refletia as luzes amarelas, as cores quentes da decoração asiática davam um toque muito aconchegante e pacífico a tudo. No fim da rua, o teto do templo principal se erguia colossal em extremidades pontiagudas e irregulares que apontavam para o céu estrelado.
Era simplesmente magnífico.
Fizemos o longo caminho de pedras até a escadaria, impressionados demais para pronunciar qualquer palavra, mas quando chegamos lá percebemos que o templo está fechado. Já passava da meia noite, era óbvio que estaria fechado para visitação.
– O universo dá, o universo tira – resmungo dramaticamente, olhando decepcionada para a as portas de padrões vermelho e dourado, trancadas. Começo a caminhar em volta, passando as mãos pelos detalhes da parede e dos pilares – Então nosso destino misterioso foi Seonsoji, o mais antigo templo de Tóquio,huh? Eu li sobre esse lugar na internet quando planejava minha viagem para o Japão com o Seo…
– Já que estamos aqui, vamos conhecer tudo. Vem! – Me interrompe e sem esperar minha resposta, Baekhyun agarra meu pulso e sai me puxando todo empolgado para explorar a lateral do templo.
Nesse momento estou completamente sem reação, apenas olhando para onde sua pele encosta na minha. A cena é familiar mais uma vez, mas agora é porque normalmente sou eu do outro lado, arrastando as pessoas pelo braço. Tenho consciência de que essa é uma mania minha e é extremamente novo ser a pessoa que é arrastada.
– O que é isso? – ele para em frente a uma enorme caixa de madeira, laminada a ouro, que fica entre duas estátuas de pedras com o dobro da nossa altura. Pendurado acima da caixa estava a maior lanterna de papel que eu já havia visto na vida, vermelha e cintilante.
– Acho que são Fujin e Rajin, as deusas do vento e trovão. Ficam aqui na entrada para afastar maus espíritos e purificar os visitantes. Pelo menos era isso que dizia na internet. E essa é uma saisenbako, uma caixa de doações – aponto, recuperando com dificuldade as poucas informações que eu lembrava em meu cérebro alterado.
Ele imediatamente começa a procurar em seus bolsos por algo, mas acaba decepcionado quando não encontra nada. Eu sorrio e retiro o troco do táxi do bolso do meu jeans, estendo uma moeda de 100 ienes para ele e mantenho uma entre meus dedos. Quando ele está pronto para jogar a moedinha dentro da caixa, eu seguro sua mão.
– Não é assim que funciona, você não pode apenas jogar de qualquer jeito – nego com a cabeça e explico – você deve jogar a moeda para o alto, bater duas palmas e fazer um pedido. O importante é a moeda fazer barulho quando cair na caixa. Assim, olha.
Faço uma demonstração do que eu disse, jogo a moeda pra cima fecho os olhos e bato duas palmas rápidas. Quanto ao pedido, minha mente se encarrega de fazê-lo sem a minha permissão.
Desejo que Baekhyun não se esqueça de mim amanhã.
Abro os olhos a tempo de vê-lo fazer o mesmo, e permanecer de olhos fechados por mais alguns segundos.
– O que você desejou?
– Que eu possa ser o Bebe com você mais vezes! – Baekhyun responde sem hesitar. Seus olhinhos se fecham por conta de um sorriso que eu sei que está em seus lábios por baixo da máscara, e eu não sei como reagir, mas meu coração bate tão desregulado em meu peito que posso ouvir ressoar em meus ouvidos. Será que estou tendo um AVC? – E você?
– Não vou contar, ou não realiza.
– Yah! Você não me avisou sobre isso. Agora vou ter que fazer outro pedido, me empresta outra moeda. – estica a mão em minha direção apressado, mas em resposta eu apenas a seguro com a minha e é minha vez de arrastá-lo para nosso próximo destino.
– Eu estava brincando, nós podemos facilmente realizar seu desejo. É só você não se esquecer de mim amanhã. – as palavras escapam da minha boca antes que eu possa pensar direito no que estou revelando.
– Seria impossível md esquecer de você – pigarreia. – Nós trabalhamos juntos.
– Eu sou só uma das centenas de staffs que trabalham junto com você todo dia.
– Mas nenhum deles me chamou de psicopata, me fez criar outra personalidade, perseguir um carro aleatório, me arrastou para um templo budista no meio da madrugada, tudo isso depois de várias garrafas de soju. Estou esquecendo alguma coisa? – fingiu contar nos dedos nossas desventuras.
– Você diz me arrastou como se você não estivesse todo empolgado com a ideia também. E eu não estou mais bêbada, estou super sóbria, até sei o nome das divindades do templo, tenho plena clareza em tudo que faço e falo – a mentira é tão evidente em minhas palavras meio embriagadas, que eu caio na gargalhada e ele me acompanha.
– Sabe, é? Então quem é aquele? – aponta para mais uma estátua ao longe, no centro de um jardim. Observo a divindade com sua enorme e saliente barriga, sua cara redonda e simpática, e seus lóbulos da orelha exageradamente grandes.
– É o Buda antes da dieta – respondo convicta.
Nós estamos parados, lado a lado, no centro de um pavilhão aberto para o céu, cercado de diversos templos anexos menores, mas tão magníficos quanto o principal. A arquitetura do lugar faz com que nossas gargalhadas em conjunto ecoem para todos os lados em um som distorcido, o que nos faz rir ainda mais e gritar algumas palavras aleatórias ao vento.
Não demora até que o monge que estivemos seguindo até ali apareça de supetão atrás de nós, com sua feição inexpressiva, e sem a menor delicadeza nos expulse dali. “Monges também precisam dormir” é o que ele diz, nos empurrando em direção a saída: “Da pra ouvir a risada de vocês lá do topo da pagoda” e aponta para uma edificação de cinco andares ao longe.
Pedimos desculpas e nos curvamos várias vezes, mas não conseguíamos parar de rir. Estar frente e a frente com o monge que havia nos levado até ali, sem que ele sequer suspeitasse de nada, nos fazia trocar olhares cúmplices e falhar em prender o riso várias vezes.
Nos distanciamos do templo, caminhando tranquilamente, presos em nossa própria bolha de felicidade, leveza e assuntos aleatórios animados. E é isso. Me sinto feliz, com o peito ardendo em um sentimento bom e suave que talvez eu nunca tenha sentido tão intensamente em minha vida ordinária. Esqueci completamente dos problemas que me afligiam até poucas horas atrás, me sinto livre como um pássaro.
Pela primeira vez na vida fiz algo impulsivo, deixei tudo por conta do destino e acabou sendo uma aventura divertida.
Talvez o universo não me odeie completamente.
– Sabe que ainda estamos de mãos dadas, né? – Baekhyun questiona numa voz arrastada, mantendo seu olhar no caminho desconhecido que fazíamos juntos.
– Sei – suspiro. – Você quer soltar?
– Não.
– Eu também não.

Nota da Autora:
Como estamos meus anjos? Completamente boiolinhas pelo Baekhyun? Então ta tudo certo AUHEUHAEUHAE
Esse capítulo é um ponto chave para como eles vão lidar com tudo que vão viver depois (e ele é mencionado na minha outra fanfic, Duality, que acontece no mesmo universo).
Comentem, saber o que estão achando faz meu coração mais feliz ❤ até a próxima!

Byun Baekhyun é uma pessoa esquisita. Ele fala muito rápido quando está empolgado, ri de todas as coisas bobas que eu digo, gesticula com o corpo todo quando se expressa, o que de alguma forma consegue ser fofo e sexy ao mesmo tempo.
Para sua sorte, eu também não sou lá muito normal, então nossa conexão através da esquisitice foi instantânea e agora é irreversível. Pelo menos é essa a conclusão que chegamos ao tentar entender como foi que acabamos a noite de mãos dadas, passeando na beira do Rio Sumida, poucas horas depois de nos conhecermos.
Sua presença é tão confortável para mim, que mesmo agora que não existe mais resquício algum do efeito do álcool em meu sistema, eu continuo me expressando sem medo como jamais aconteceu antes, falando tudo que me vem à mente sem medo de ser julgada. E o mais estranho de tudo isso é que ele parece fazer o mesmo.
Conversamos sobre a vida, o universo e tudo mais. Falamos por horas, um tópico parece puxar o outro. Conversamos tanto que tenho certeza que tenho informações pessoais de Baekhyun que poderiam enriquecer páginas de qualquer revista de fofoca, mas conforme compartilhamos mais e mais fatos aleatórios sobre nossas vidas e opiniões sobre os mais diversos assuntos, numa conversa que parece nunca ter fim, eu sequer me lembro que ele é uma figura famosa e que se alguém o reconhecesse nesse momento, nós estaríamos enrascados.
Ele é apenas Bebe, o cara normal com quem vivi uma aventura incrível. E agora preciso dizer adeus.
– Não estou preparada para voltar a ser a ) – murmuro desanimada, quando paramos bem no meio da iluminada Ponte Azuma, que corta o rio impiedoso que corre abaixo de nós, e nos debruçamos sobre o muro de proteção.
O vento frio bagunça meus cabelos para todos os lados e preciso levantar o capuz do moletom para me proteger. Ao longe somos agraciados pela imagem reluzente da Sky Tree Tower, um dos maiores edifícios de Tóquio. Retiro o celular do bolso e desbloqueio rapidamente para ver a hora, voltando a bloquear sem me atrever a olhar mais nada na tela. Já passa das 4 da manhã e nós precisamos voltar para o hotel antes que amanheça.
- Não precisa voltar.
Como estamos sozinhos numa ponte quilométrica no meio da madrugada, ele abaixou sua máscara até o queixo, então posso ver os cantinhos de seus lábios levantados.
- E como vou explicar para todo mundo no trabalho amanhã que a partir de agora me chamo Pomba e meu novo hobby é viver aventuras impulsivas? – eu questiono, séria. Me viro de frente pra ele, que solta mais uma de suas risadas gostosas em resposta.
Gosto mais do que devia da sensação de saber que sou a responsável por seu riso tão espontâneo.
- Não foi isso que eu quis dizer, Pomba. – Beakhyun da um passo em minha direção, ficando muito próximo. Estamos frente a frente, com apenas centímetros nos separando, mas não me sinto intimidada ou constrangida. Tudo que sinto é um leve nervosismo na boca do estômago, como se algo flutuasse ali, mas é bom e de alguma forma parece certo. – Eu só tenho a sensação de que nossas vidas não serão mais as mesmas daqui pra frente. Depois de tudo que vivemos e compartilhamos essa noite, sei que vou acordar alguém diferente amanhã.
- Você vai falar comigo amanhã? – Não me controlo e pergunto, me sentindo meio boba pelo meu tom quase infantil.
- Eu quero falar com você todos os dias, a partir de hoje. – ele diz, sem um segundo de hesitação. Nossos sorrisos nascem e crescem ao mesmo tempo.
- Então eu acho que também vou acordar alguém diferente. – dou mais um pequeno passo em sua direção.
É como se seu corpo fosse um ímã para o meu. Não entendo porque, mas quero ficar cada vez mais próxima dele e entendo menos ainda porque ele parece corresponder da mesma forma, igualmente afetado. Estamos a um palmo um do outro, conectados de uma forma que não entendemos.
- Se eu tentar te beijar agora, você vai cobrir minha boca de novo? – A pergunta feita aos sussurros me pega de surpresa, mas minha reação não podia ser mais natural.
Como se eu já tivesse feito isso milhares de vezes antes, me inclino em sua direção e colo nossos lábios por uma fração de segundos. É um toque suave e gelado pelo frio da madrugada, mas é o suficiente para eu sentir todo meu interior se aquecendo como se os fogos de artifício tivessem saído do controle e incendiado todo meu peito. É uma sensação maravilhosa.
Não passa de um leve toque de lábios – e que lábios macios, senhoras e senhores – e já é o suficiente para me deixar com o coração tão acelerado, que se estivesse assim em qualquer outro momento eu ficaria preocupada com minha saúde, mas estou com Baekhyun, então não me preocupo com mais nada.
- Estou arrependida de não ter te deixado me beijar naquela hora, foi um ótimo beijo. Se um de nós fosse um sapo teríamos sérias consequências aqui. – apesar de todas as coisas maravilhosas que sinto, é isso que digo, enquanto permaneço de olhos fechados sem saber qual é sua reação.
Ouço sua risada e sem nem perceber estou sorrindo também.
- Quando eu entrei naquele táxi, juro que não imaginava que fossemos terminar a noite assim. Não sei se o universo te surpreendeu como queria, mas eu, com certeza, estou surpreso. – ele continua muito perto dos meus lábios.
- Eu entrei completamente sem expectativas, não imaginei nenhum cenário para essa noite. – solto seu moletom, que não lembro quando segurei em meus dedos e gesticulo em minha defesa, sem me afastar. Eu não seria nem louca de me afastar dele agora. – Mas se tivesse imaginado, acho que esse seria o final perfeito.
- Me beijar foi o ponto alto da noite, né? – brinca, com uma expressão convencida.
- Óbvio que não, o ponto alto foi sermos expulsos do templo pelo monge que perseguimos. – corrijo, e a lembrança recente nos faz cair na gargalhada.
Sem quebrar a conexão entre nossos corpos, ele dá a volta e me gira suavemente no lugar, ficando atrás de mim. Suas mãos circulam minha cintura e ele me abraça por trás, tão firme e ao mesmo tempo tão suave que meu coração dispara mais uma vez. Apoia o queixo em meu ombro na mesma hora que coloco minhas mãos gelada sobre as dele, que estão quentinhas. Nossos corpos parecem ter um encaixe confortável em qualquer posição.
É incrível como ficamos em silêncio sem ficar estranho. Isso nunca havia acontecido, eu costumava me sentir desconfortável perto de pessoas que não falam muito, por isso sempre fui a tagarela que está sempre dando seu melhor para não ficar aquele climão chato. Mesmo sem uma palavra proferida, não há climão com Baekhyun.
Ficamos vários minutos naquela posição gostosa e quentinha, às vezes ele apertava mais os braços ao meu redor e essa era a melhor parte. Era quando eu tinha a estranha sensação de ter meus pedacinhos internos sendo colados pouco a pouco. Admiramos o rio que se estendia até o horizonte, cercado e reluzindo as luzes dos prédios e construções altas. Nenhum pensamento ruim cruzou minha mente por tanto tempo que eu considerava aquilo meu tempo record sem pensar merda.
- Esse é um daqueles momentos em que tudo é tão maravilhoso que parece que nada vai ser tão bom assim outra vez. – sinto um arrepio descer pelo minha nuca quando suas palavras chegam ao meu ouvido.
Suspiro em concordância, porque sou tomada por um sentimento tão gostoso que não quero que termine nunca. E é simplesmente inacreditável que ele, que provavelmente já viveu mais momentos incríveis na sua carreira do que vou viver minha vida toda, pense dessa forma com relação a uma noite ao meu lado, mas consigo sentir a sinceridade em suas palavras. Infelizmente sabemos que é hora de voltar. Em pouco tempo vai amanhecer e quando acordassem, dariam conta do nosso sumiço.
- Provavelmente vão achar que eu te seqüestrei. – digo, já dentro do táxi a caminho do hotel.
- O que não é mentira – murmura, sonolento. Baekhyun encosta a cabeça em meu ombro e se ajeita no banco. Eu solto o ar indignada, até balanço o ombro para ele levantar e deixar de ser folgado, mas não adianta. – Ninguém vai acreditar se contarmos a verdade sobre essa noite, de qualquer forma.
- Ela vai existir apenas em nossas lembranças. – reflito teatralmente, mas ele não reage. Um ressonar baixinho me faz acreditar que ele dormiu, então apenas permaneço naquela posição, quietinha.
Ele teve um ensaio pela manhã, depois performou um show de duas horas, e ainda teve energia para passar a madrugada toda acordado, andando pelas ruas vazias de Tóquio ao meu lado. Calculei seu nível de exaustão e por isso me partiu o coração ter que acordá-lo quando chegamos ao hotel.
O arrastei até seu quarto, parecendo dois zumbis perambulando pelos corredores desertos, me certifiquei que ele deitasse na cama e não no tapete fofinho onde ele tentou se jogar assim que atravessamos a porta e ainda rindo de suas reclamações manhosas, cheguei ao meu quarto tão exausta quanto.
Dormir nunca foi uma tarefa tão fácil. Chutei os tênis pra fora dos meus pés, deitei minha cabeça no travesseiro, sem forças nem para trocar de roupa e apaguei instantaneamente. O cheiro de soju misturado com o cheiro de Baekhyun era a certeza de que aquela noite havia mesmo acontecido.
Mas na manhã seguinte, quando acordei com a sensação horrível de que havia dormido demais e descansado de menos, eu já não tinha mais certeza de que a noite anterior havia mesmo acontecido, e se aconteceu, havia sido mesmo da forma maravilhosa que eu lembrava?
Tudo parecia não passar de um sonho lindo causado pelo excesso de soju.

As memórias da noite anterior ficavam voltando como flashs indistintos, mas eu não conseguia chegar a uma conclusão concreta sobre o que houve. Nada tão bom jamais aconteceu em minha vida pacata e sem graça, então é difícil acreditar que tudo que lembro foi verdade.
Talvez eu tenha bebido demais, desmaiado e sonhado com a aventura que vivi com Baekhyun. Parece muito mais plausível.
Ainda estou vestindo seu moletom, mas agora já não cheira tão bem quanto eu lembro. Muito provavelmente esse é meu cheiro por ter dormido sem tomar banho depois de um porre. Tudo não deve passar de um delírio da minha mente.
O único que pode confirmar isso é o próprio Baekhyun, mas quando desço para o café da manhã do hotel, após um longo banho, ele não está junto com os outros membros do SuperM. Não posso perguntar para eles o motivo, já que não tenho intimidade alguma para tal, mas quando sento ao lado de na mesa dos staffs, não consigo controlar minha língua e ela nem parece notar minhas intenções por trás da frase.
– Por que o líder não está com o grupo?
– Baekhyun não estava se sentindo bem e pediu para tomar o café da manhã no quarto – ela da de ombros.
– Ele está bem? – torço para minha preocupação não parecer nada além de profissional, e parece funcionar. Ou é muito lerda.
– Aparentemente é só uma dor de cabeça. Deve ter bebido além da conta com os meninos ontem. O que é estranho porque, quando o Baekhyun está cansado, costuma não se importar com mais nada no mundo além de ir direto para cama, e ele estava exausto quando chegamos ao hotel – ela bate o indicador no queixo, pensativa – Por falar nisso, onde a senhorita se meteu depois do show, hein? Eu fiquei preocupada.
Demoro algum tempo para responder, colocando uma grande quantidade de comida na boca de propósito, me dando tempo de raciocinar o que eu havia acabado de ouvir.
Se Baekhyun era mesmo daquela forma quando está cansado, as chances da noite de ontem ter mesmo acontecido eram ainda menores. Ele devia estar exausto do show, provavelmente me ajudou, me emprestou seu moletom e então foi direto para cama, enquanto eu ficava delirando com uma noite perfeita ao seu lado.
– Eu comprei umas garrafas de soju e fui beber no terraço do hotel. A vista era linda e eu precisava de um tempo sozinha para colocar os pensamentos em ordem – não é uma mentira, eu apenas ocultei algumas informações.
– Ficou bebendo até que horas? Acordei três e pouco da madrugada e você ainda não tinha voltado. Eu te mandei várias mensagens e você nem visualizou.
– Desculpa, eu não queria ter te deixado preocupada. Eu só não queria olhar meu celular e… você sabe. Estou evitando. – Dou de ombros.
Minha cara triste a faz não insistir no assunto e até parecer meio arrependida. É a primeira vez que lembro de Seojun e meu infortúnio desde a noite passada, e ainda dói pra caramba. Não tive coragem de entrar no aplicativo de mensagens, em partes por medo de ele ter falado alguma coisa que me machucaria ainda mais, mas havia outra parte que tinha medo de ele não ter dito nada, nem ter se preocupado em vir atrás. Eu não sabia dizer qual das duas opções me deixaria pior.
Apesar de ser domingo, o trabalho da equipe do SuperM não parava. Diferente de nós, eles tinham a manhã livre, mas a tarde teríamos algumas gravações. A equipe que os acompanharia seria reduzida, mas eu estava inclusa. Odiava com todas as minhas forças trabalhar no domingo, mas naquele em especial eu até me ofereceria pra ir junto sem ganhar extra, porque eu queria ver Baekhyun. Eu precisava vê-lo.
Para o meu total desespero, quando finalmente o vi, não havia nada de diferente de todas as outras vezes. A não ser o fato de que pela primeira vez desde comecei a trabalhar para a SM, eu o via como um ser humano, um inacreditavelmente lindo inclusive, e não mais como apenas um idol.
Quando estávamos no mesmo ambiente não tivemos sequer uma oportunidade de conversar. Eu sabia que ele estava ocupado e precisava focar no grupo, então foquei em meu próprio trabalho também, mas não custava nada ele manter o contato visual por mais de 3 segundos, para eu poder ler sua expressão. Aquele olhar significava “ontem a noite foi incrível e não vejo a hora de repetir” ou significava “não acredito que tive que cuidar de você bêbada”?
Eu sabia do meu limite profissional, então esperei até todos os compromissos do dia terminarem para pensar em qualquer tipo de aproximação, mas quando isso aconteceu ele sequer se deu ao trabalho de olhar em minha direção. Subiu direto para seu quarto junto com os outros membros, todos parecendo exaustos. Considerei aquele um claro sinal de que não devia me aproximar, e segui quietinha na minha.

Já era noite, eu havia acabado de jantar – por pura obrigação – no quarto com e estava deitada em minha cama olhando para o meu celular desligado. Suspirava de tempos em tempos, com a mente perdida em pensamentos terríveis.
– Sabe que não pode ficar sem conferir suas mensagens para sempre, não é? – ela me incentiva da outra cama, agarrada com seu tablet. Essa mulher viciada não parava de trabalhar um minuto.
Solto um gemido sofrido, pois sei que ela tem razão. Pego o aparelho na mão, desbloqueio e vejo que um dos meus medos se concretizou. Meu coração afunda um pouco mais quando percebo que Seojun não veio atrás, sequer mandou uma mensagem falando o óbvio, que havíamos terminado e eu devia buscar minhas coisas em sua casa o mais rápido possível. Ele provavelmente estava aproveitando Jeju com sua amante.
Eu signifiquei tão pouco assim para ele?
Não tive muito tempo para me aprofundar em pensamentos depressivos sobre isso, porque havia uma mensagem no topo das outras que chamou minha atenção.
“Pomba Bebe!” Desconhecido 19:56
Levantei uma sobrancelha, curiosa. As teorias que passavam pela minha cabeça eram que, ou meus delírios eram reais e o motorista do táxi de ontem havia conseguido meu número e precisava da minha ajuda com caras engravatados que apareceram mesmo em sua porta, ou Baekhyun tinha contado sobre aquela cena ridícula pra alguém que agora estavam me zoando.
Nunca imaginei que quase meia hora depois, quando ainda encarava a tela do celular pensando em como, e se deveria responder aquela mensagem que eu nem sabia de quem era, alguém bateria na porta do quarto e eu me surpreenderia tanto.
precisou sair para uma reunião de emergência sobre o voo que faríamos no dia seguinte para a Tailândia, então estou sozinha no quarto, mas imaginei que quem quer que estivesse batendo provavelmente procurava por ela.
Eu usava meu pijama, que consistia em uma enorme camiseta laranja do Naruto, que cobria o shorts de flanela e uma meia listrada que subia até meus joelhos. Eu estava pensando o que meu colega de trabalho – quem eu imaginava ser o autor da batida na porta – diria quando me visse naquela roupa, mas não era nenhum dos colegas de trabalho que eu imaginava.
Quem está parado em minha porta é Byun Baekhyun. Com a cabeça inclinada para o lado e a franja azul caindo em seus olhos.
– Por que você não me respondeu? – ele vira o celular para mim e na tela está uma mensagem enviada para um contato chamado “Pomba”. É a mensagem que recebi minutos atrás e estive encarando até agora.
Pisco algumas vezes, meio aturdida.
– Foi você?!
– Quem mais poderia ser? Você contou o código secreto para mais alguém?!
– Claro que não, eu não seria louca a esse ponto. Até achei que fosse o motorista do táxi. – nós acabamos trocando um sorriso divertido por um segundo, talvez por lembrarmos ao mesmo tempo da cena.
– Então por que não me respondeu?
– Eu nem imaginei que podia ser você, afinal você é… – gesticulo em sua direção, para que ele entenda que me refiro a celebridade parada em minha porta. – E não tenho seu número salvo, não respondo desconhecidos.
– Agora que sabe, pode salvar meu numero, e coloque um emoji idiota do lado. – aponta para o celular que tenho em minhas mãos e, sem pedir permissão, vai entrando no quarto. – Quando eu usar nosso código é porque quero te ver, achei que estaria explícito depois de ontem.
– Depois de ontem? – questiono categoricamente, demorando para entender onde ele quer chegar com aquilo. Parecia presunção demais achar que ele queria me ver porque gostou da minha companhia? – Você queria me ver?
– Sim, por isso tive que descobrir o número do seu quarto e vir até aqui te chamar. Não me diz que estava tão bêbada que não se lembra de ontem a noite?
– Não! Claro que lembro. Eu só… – hesito, sem saber direito como abordar o assunto. Solto um suspiro e volto a me sentar na cama, na sua frente. Por fim decido ser sincera e se o que aconteceu ontem foi verdade, tudo daria certo. – Eu não tinha certeza se tinha acontecido de verdade. Ou se havia sido mesmo tão incrível quanto eu lembrava. Ou se você ia querer me ver depois de… você sabe. Achei que talvez fosse delírio do álcool. Pareceu meio surreal de tão bom, coisas assim não acontecem na minha vida.
– Ontem aconteceu, – afirma incisivo, olhando fundo nos meus olhos – e se para você foi metade do quão incrível foi para mim, então eu sei que foi inesquecível para nós dois. E você lembra o que eu disse ontem? Era verdade quando falei que quero pelo mesmo conversar com você todo dia, se não puder te ver. Então trate de responder minhas mensagens daqui para frente. Achei que estivesse brava, ou algo assim.
– Por que eu estaria? – depois de ouvir o que ele disse, me pergunto se um dia vou conseguir ficar brava com ele. Baekhyun dá de ombros em resposta, se reclinando muito confortável em minha cama. – Eu que achei que não falaria comigo, você me ignorou o dia todo.
– Ei, eu não te ignorei, só não podia perder o foco. Toda vez que te olhava eu começava a lembrar da noite de ontem e queria rir, queria correr até você e perguntar se você se lembrava também para rirmos juntos, mas não podia. Quando temos algum compromisso, preciso me concentrar em ser um bom líder e não decepcionar os membros, mas agora, nesse momento, eu só quero saber se você pode vir até meu quarto para eu ser o Bebe um pouquinho. Preciso da minha Pomba.
Sua pergunta me faz piscar rápido algumas vezes. Ele quer ser o Bebe comigo de novo. Ele me chamou de minha. Meu coração está tão disparado que ele deve estar ouvindo.
– Só se tiver soju. – respondo.
– Você ainda aguenta beber? Aquelas garrafas de ontem acabaram comigo.
– Você é fraquinho, lhe falta ódio – dou uns tapinhas de consolo em seu ombro quando me levanto. – Vou só trocar de roupa e te encontro no seu quarto. Eu sei qual é.
– Sabe?
– Sou sua staff, é claro que sei. Se duvidar tenho até a chave extra da sua porta. Agora vai, não quero ter que explicar para minha colega de quarto porque o líder do SuperM está deitado na minha cama feito um folgado.
– Não precisa trocar de roupa – ri, indo em direção a porta – gostei da camiseta. Achei que tivesse parado de gostar de Naruto depois do incidente com o cosplay da Sakura.
– Não existe parar de gostar de Naruto. Naruto é algo que levamos para vida. – reviro os olhos, como se fosse óbvio. Devia ser.
É incrível como qualquer pessoa comentando sobre meu gosto por animes me deixa irritada e muitas vezes constrangida, afinal tenho 27 anos, por algum motivo com essa idade as pessoas esperam que você só goste de documentários sérios e música clássica. Ridículo. Mas quando é Baekhyun falando, sinto que não existe maldade nenhuma por trás de suas palavras. Ele parece até mesmo admirado.
– Otaku – ele provoca, fechando a porta logo em seguida e me deixando sozinha.
Sozinha, com pensamentos que parecem estar apostando corrida dentro da minha mente.
Sozinha, com o coração tão acelerado que me deixa confusa.
Aconteceu mesmo.
Baekhyun se lembra e foi tão incrível para ele quanto foi para mim, agora eu tenho certeza disso. O mesmo sentimento de familiaridade que senti na noite anterior esteve presente em meu peito enquanto conversava com ele agora.
Seja lá que tipo de conexão nós tivemos ontem, continua firme e forte.
Demoro tanto tempo perdida em pensamentos, que volta de sua reunião e me encontra parada ao lado da minha mala, olhando para o nada.
– Por que está sorrindo assim?
– Quem está sorrindo? – me sobressalto. Percebo que minhas bochechas estão doloridas porque estive sorrido desde que Baekhyun saiu do quarto.
– Você, e nem tente negar. Eu saí faz uma hora e você estava toda encolhida na cama, olhando para o celular com cara de quem ia chorar a qualquer momento. Fiquei até preocupada. Agora está sorrindo para o nada com cara de quem ganhou na loteria. O que houve?
– Acho que ganhei mesmo na loteria – sorrio ainda mais – Não precisa me esperar acordada, até depois.

Nota da Autora:
Olá, leitores, como estamos? Boiolas o suficiente eu espero KKAUAHAKAIAHAUAK Diabéticos cuidado, a partir de agora as cenas com o Baek terão um alto nível de açúcar, pois esse casal é um docinho. Ah, pra quem não sabe, Naturally inicialmente era pra ser um spin off de outra fanfic minha, que inclusive acabou de receber o primeiro capitulo do crossover entre as duas, apesar de uma não interferir na outra, quem quiser ler Duality também eu fico muito feliz.
Até o próximo capítulo!

 

Visto um cardigã qualquer e enfio meus pés nas minhas pantufas, sem conseguir controlar o sorriso crescente. Estou indo ver Baekhyun e não preciso me preocupar com a roupa que estou usando, porque ele me faz sentir livre para vestir minha camiseta velha e desbotada do Naruto sem vergonha alguma.
Saio do meu quarto saltitante e estou no elevador quando recebo outra mensagem.
“Se não chegar logo vou ser obrigado a dar o posto de minha pomba pra outra pessoa” Bebe às 21:16
“Você não se atreveria, ninguém mais é qualificado para esse cargo. Estou no seu corredor” Eu às 21:17
Segundos após a mensagem ser visualizada, vejo a segunda porta do corredor acarpetado ser aberta. Sei que é o quarto dele e também não peço permissão para entrar. Direitos iguais.
– Você gosta de bolo, Pomba? – ele pergunta de forma boba, logo que fecho a porta atrás de mim. Seu quarto é um pouco maior que o meu, ou talvez seja o fato de haver apenas uma cama de casal bem no meio do cômodo e não duas de solteiro. Seu celular toca alguma música baixinho, em cima da única poltrona no cômodo, perto da janela, que tem uma vista linda da cidade.
– Que tipo de pergunta é essa? É tipo perguntar se eu gosto de respirar. Se gostar de bolo é errado, eu não quero estar certa nunca. Passa isso para cá! – respondo no mesmo tom.
Sento em sua cama, me sentindo mais confortável que eu meu próprio quarto. É tão aconchegante que eu poderia facilmente morar ali.
Baekhyun está de costas pra mim, mexendo em alguma coisa no pequeno frigobar que há em todos os quartos, cantarolando a melodia que vem do aparelho, mas fica muito mais bonita em sua voz. Sua camiseta branca parece um vestido enorme em seu corpo, mas continua tão lindo que chega dar raiva. Ele se vira para mim segurando um enorme pedaço de bolo de chocolate com várias cerejas em cima, com um sorriso brincalhão em seus lábios.
– Quais são suas intenções? Não é possível que me chamou aqui só porque queria minha companhia para comer bolo – questiono, enfiando uma garfada do bolo na boca. Ele senta em minha frente na cama, cruzando as pernas, fazendo com que seu shorts suba e os músculos de suas coxas fiquem expostos. Cubro minha boca cheia com a mão antes de completar – Não que eu esteja reclamando do bolo, caramba isso ta delicioso.
– Como assim ‘intenções’? Eu não posso simplesmente ter te convidado para uma visita amigável ao meu… – Meu olhar desacreditado faz com que ele pare no meio da frase – Ok, eu tenho segundas intenções, mas juro que são inocentes. Encontrei alguns DVDs antigos escondidos ali na estante e quero assistir, mas são todos de filmes de terror e…
– E você tem medo de assistir sozinho.
– Não é isso. É que não tem graça assistir filme sozinho e nenhum dos outros membros gosta de filme de terror e… – continuo com o mesmo olhar desacreditado, até ele finalmente ceder – Tá bom, eu tenho medo de assistir sozinho, ok? Satisfeita?
– Muito. – Sorrio, enfiando mais uma garfada de bolo na boca. O doce do chocolate contrasta com o leve cítrico da cereja e explode deliciosamente em meu paladar.
– Você é tão sem graça, não posso nem fingir que sou corajoso.
– Você não precisa fingir nada para mim, bebê. – Levanto meus olhos até encontrar os dele, porque quero que saiba que falo sério. Quando ele abre um sorriso bobo eu sei que ele entendeu. – Onde estão os DVDs?
Pego um último pedaço do bolo e ainda segurando o talher com os dentes, levanto da cama e sigo até a estante em frente a cama. Me sento no chão aquecido, abro a porta que ele indicou e encontro uma pilha empoeirada lá no fundo.
– Eu nem sabia que ainda existia DVD no mundo. Alguém deve ter esquecido aqui sabe-se lá há quanto tempo. – comento sozinha.
– Ei, . – Baek me chama, enquanto procuro entre os títulos algo interessante.
– Hm?
Satanás está te ligando – anuncia, com um tom incerto. Me viro e vejo o nome que eu mais odeio ver no display do meu celular, que vibra com a chamada indesejada.
– Ah, é meu pai. Pode desligar na cara dele.
– Eu não vou fazer isso – responde ultrajado.
Reviro os olhos, antes de me esticar por cima da cama e deslizar o botão vermelho eu mesma. Volto minha atenção para os DVDs, sem dar a mínima importância ao acontecido.
– Você prefere assombrações ou psicopatas?
– Psicopatas, e seu pai está ligando de novo.
– Mas que inferno – praguejo, soltando o ar com força. Pego o celular e desligo todo o aparelho, sem a mínima paciência.
– Por que não atende?
– O nome do contato é auto-explicativo. Ele provavelmente descobriu sobre o término e quer dar uma de pai do ano, mas sei exatamente o que ele vai falar e não estou com a mínima vontade de escutar sermão machista hoje. Vamos assistir A Casa de Cera. – Levanto o DVD vencedor no ar e volto para a cama num pulo.
– Esse filme é horrível – reclama, mas coloca o disco na entrada do notebook. – E ele não pode ser uma pessoa tão ruim assim, afinal ele é seu pai.
– Não reclame do filme, os outros eram bem piores. E se isso era para ser um elogio, não deu certo. Meu pai é uma das piores pessoas que conheço, e olha que meu ex está nessa lista também. Tenho sorte de estar em outro país, senão ele provavelmente já teria aparecido na minha porta pronto para tentar me chantagear e jogar na minha cara que estou arruinando a minha vida sendo quem sou. – Reviro os olhos. Me aconchego ao seu lado nos travesseiros, pronta para voltar minha atenção para a tela, mas ele ainda não parece satisfeito.
– Isso já aconteceu antes?
– Acontece pelo menos uma vez a cada seis meses, desde que saí de casa. Faz oito anos que saí de casa, faça as contas. Mas não se preocupe, já estou acostumada e sei como remediar a situação. É só Ignorar completamente a existência – concluo, usando a mão pra cortar o ar num gesto decidido.
Para o meu alívio, ele finalmente decide não prolongar o assunto, mas sei que ele ainda quer saber mais. Da play no filme, coloca o notebook sobre a cama, no meio de nós dois e finalmente começamos a assistir. Sei que assistir aquilo é apenas uma desculpa para ele relaxar e distrair a mente, porque não conseguimos parar de conversar e reclamar da má qualidade do filme em nenhum momento.
– Olha esses efeitos especiais, eu consigo fazer melhor no paint. Parece amoeba, que horror!
– Não acredito que ela vai entrar na casa mesmo. Corre daí doida!
– Foge, foge! Ah, como protagonista de filme de terror é burro. Essa merece morrer.
– Olha essa atuação, que decadência. Até você conversando com o taxista ontem estava melhor.
– Ei, minha atuação foi impecável. Aquele senhor realmente acreditou, deve estar até agora esperando algum engravatado bater na porta dele atrás da gente. – Baek cai na gargalhada e voltamos a reviver os melhores momentos da noite anterior, esquecendo totalmente do filme.
Era tão fácil perder a noção de tempo ao lado de Baekhyun. As letrinhas dos créditos finais subiam na tela enquanto uma música agitada toca, mas estamos muito ocupados com nossa discussão sobre os piores filmes que já assistimos e temos vergonha de admitir que gostamos. Acabamos combinando de apresentar nossos piores filmes favoritos um para o outro sempre que tivermos chance. A conversa logo evolui para porque Naruto é a melhor obra de ficção já criada e, eu não faço ideia de como, chegamos a nossas maiores decepções na vida.
Talvez fosse porque eu comentei como achava a evolução da Sakura pobre, enquanto o desenvolvimento dos outros personagens é melhor construído, mas Baekhyun não concorda.
– Mas então ela fica incrivelmente forte, quase invencível no final. Desce a porrada em todo mundo, praticamente supera a Tsunade.
– Mas continua tendo a história girando em torno do amor dela pelo Sasuke, correndo atrás dele feito um cachorrinho, isso me irrita. Já não basta o Naruto obcecado por aquele otário – reviro os olhos. Estamos deitados um de frente para o outro na mesma posição, apoiados no cotovelo enquanto nossas cabeças descansam na palma da mão. – Odeio como sempre fazem protagonistas femininas histéricas e apaixonadas, que fazem tudo pra ficar com o cara no final. Nem todas as mulheres sonham com esse final feliz, isso é lavagem cerebral para meninas crescerem submissas.
– Isso me cheira a birra pessoal. – Com um sorrisinho enviesado, ele cutuca minha canela com a ponta do pé e eu o cutuco de volta, começamos uma batalha boba que termina com nossas pernas emboladas e nossos corpos mais próximos.
– Não vou nem me dar ao trabalho de negar. – Solto um suspiro e desabafo sem nem me dar conta – Sempre tive aversão a essa regra estúpida de que o futuro das mulheres é casar, ter filhos e cuidar da casa. Enquanto os homens podem sair por aí, vivendo altas aventuras e sendo os heróis de todas as histórias. A ideia de não ser a protagonista da minha própria vida me apavora.
– Você é uma mulher com o pensamento bem incomum. Não que isso seja ruim, pelo contrário, é admirável. Acho que mais mulheres deviam pensar assim. Todas as que eu conheço, até mesmo as com uma carreira promissora, sonham com casamento e filhos.
– Acho que só sou frustrada amorosa e sexualmente mesmo. Vou virar uma daquelas solteironas amarguradas e cheias de gatos – largo meu corpo na cama, virando de barriga pra cima e encarando o teto branco pronta pra entrar em um assunto delicado. Meu corpo ocupa a cama na diagonal porque a perna de Baekhyun ainda está sobre as minhas e eu não quero que ele se afaste – Tudo com Seojun só parecia bom porque eu o amava e achava que era recíproco, mas agora olhando para trás eu vejo que não era tão bom assim. Nem sei como aguentei aquilo por quatro anos. O sexo era tão comum que chegava ser entediante, uma vez até cantei a abertura de Dragon Ball mentalmente enquanto transavamos, para passar o tempo. Ele nunca nem me beijou como eu queria ser beijada.
– E como você queria ser beijada? – O ouço questionar suavemente, mas não quero deixar que ele veja meus olhos marejados pelas lembranças ruins que aquilo me traz, então continuo encarando o teto por um tempo antes de responder.
– Com intensidade, sabe? Aquele beijo que começa lento e inocente, e vai ganhando força até parecer uma avalanche dentro de mim – fecho os olhos, imaginando. – Queria que segurassem meu rosto com carinho, daquele jeito que faz meu coração disparar e eu me sentir nas nuvens. Queria sentir os dedos escorregando até minha nuca e segurando meu cabelo firme, para que eu sinta o quanto a outra pessoa não quer se afastar de mim. Um beijo que se expressasse com o corpo todo, e não apenas com a boca. E quando estivéssemos completamente sem fôlego, terminasse distribuindo vários beijinhos pelo meu rosto – abro os olhos e espero pelo constrangimento de ter falado tudo aquilo em voz alta, mas ele não vem. Viro meu rosto para o lado e o encontro inexpressivo, completamente focado em mim – Queria sentir o mundo todo parando ao meu redor só por causa de um beijo… mas acho que isso é só algo que os filmes de romance clichê colocaram na minha cabeça.
Nós continuamos nos encarando pelo que pareceu ser uma eternidade, mas o passar do tempo nunca foi tão confortável. O único movimento visível é do meu peito que sobe e desce lentamente, e seu pé que faz um carinho lento e gostoso em minha perna. Baekhyun tem os olhos mais brilhantes que eu já vi, e são tão bonitos que sinto vontade de suspirar. Seu rosto todo é com uma obra de arte, tão harmoniosa que nem parece real.
– Eu posso te beijar assim se quiser – as palavras saem como veludo de sua boca, tão claras e macias que meu coração erra uma batida ao entender o que elas significam. – só para você saber como é.
– Eu quero – respondo num sussurro embargado.
Nem preciso pensar muito na resposta. Beijar Baekhyun parece certo, mesmo que eu não saiba o que isso signifique. Dentro de mim existe apenas um enorme sentimento desconhecido que me impulsiona cada vez mais em sua direção.
Baekhyun se aproxima lentamente, apoia um cotovelo ao lado da minha cabeça e eu prendo a respiração em expectativa. Corre os dedos pelos cabelos, os jogando para trás e afastando de sua testa, mas eles logo caem de volta ao mesmo lugar. Nossos olhos nunca perdem a conexão e seu rosto está tão próximo que posso ver todos os minúsculos detalhes ali. Ele passa a língua pelo lábio inferior atraindo minha atenção por um segundo, porque o ato é bonito demais para não ser admirado. Posso sentir sua respiração e ela é quente e doce como o bolo que comemos algum tempo atrás.
Ele leva a mão livre até meu rosto, passeando a ponta dos dedos por toda a lateral com uma ternura palpável. Com os olhos atentos no que está fazendo, desce da minha testa, passando pela minha têmpora, faz todo o contorno do meu maxilar até espalmar em minha bochecha. Seu polegar continua um carinho calmo ali, deslizando minimamente sobre a minha pele. É morno e macio, me faz fechar os olhos pra poder aproveitar ao máximo a sensação que domina toda minha mente.
– É assim? – pergunta numa voz rouca. Balanço minha cabeça num movimento pequeno, que parece estar em busca de mais contato com sua mão e solto um gemido baixinho em confirmação – Preciso que me diga exatamente o que você quer.
– Me beija – peço baixinho, voltando a sustentar seu olhar. – Me beija até eu sentir o mundo parando ao meu redor.
E ele atende meu pedido.
Ainda com a mão em meu rosto, ele roça os lábios nos meus me fazendo estremecer sem nem ter começado o beijo. Movimenta a cabeça de um lado para o outro, numa carícia delicada que mistura nossas respirações e me faz ansiar por mais. Finalmente captura meu lábio inferior com os seus, num movimento singelo, mas que me desmonta por completo. Sua boca é aveludada e tem a pressão certa para me deixar inteiramente entregue.
Após o primeiro beijo ele se afasta minimamente e então repete o ato agora com lábio superior, demorando um pouco mais dessa vez. Eu correspondo sempre na mesma intensidade que ele, subindo minhas mãos pelo seu peitoral até parar no pescoço. Não tenho forças para demonstrar tudo que quero pois todo meu cérebro está ocupado prestando atenção em cada sensação nova que nossos lábios se movendo juntos me causa. É algo puro, sem malícia, mas ao mesmo tempo está carregado de tanto desejo que me faz ter certeza que Baekhyun quer esse beijo tanto quanto eu.
Sei que pedi pra que começasse suave, mas pra mim aquilo já estava intenso, mesmo que eu sequer tivesse sentido sua língua. E quando senti, por deus, achei que estivesse delirando.
O encaixe das nossas bocas parece coisa de outro mundo, mas quando sua língua toca a minha pela primeira vez eu duvido que qualquer beijo antes desse tenha realmente existido. É como provar do melhor doce já criado pelos deuses. Conforme vai ficando mais e mais intenso, posso sentir o suave sabor do bolo de chocolate com cerejas misturado com seu sabor único. É meu novo gosto favorito.
As coisas tomam proporções gigantescas muito rapidamente quando suas mãos descem para a minha cintura num aperto certeiro, sua boca avança na minha tão faminta quanto eu retribuo e os sons da nossa troca de saliva começam a ficar cada vez mais altos. Ainda assim parece nunca ser suficiente. Cada segundo do beijo de Baekhyun deixa um gostinho de quero mais, sinto que posso facilmente beijá-lo por horas.
Ele parece ter perdido totalmente o controle, já eu sei que não o tive em momento algum.
Meu corpo está em chamas, minhas roupas me incomodam porque quero sentir seu toque por toda minha pele. Agora minhas mãos passeiam pelos braços de Baekhyun conhecendo cada curva, sobem até seus ombros onde eu enfio minhas unhas sem me preocupar com as marcas que posso causar em sua pele. Qualquer centímetro de distância entre nossos corpos parece errado, eu o puxo cada vez mais para perto, assim como ele pressiona cada parte possível da minha carne, explorando e descobrindo todos os meus pontos sensíveis.
Ele rola para o lado, me levando junto e me deixando por cima, com os joelhos dobrados ao lado de seu corpo. Ele ainda domina indiscutivelmente o beijo, mas estar sentada sob seu quadril me da algumas vantagens. Sinto suas mãos entrando por baixo da minha blusa, e numa nova onda de arrepios deliciosos ele arranha minha pele.
Estamos absolutamente ofegantes, o quarto se encheu com os sons dos nossos gemidos abafados a cada novo movimento que descobrimos ser prazeroso e soa como uma sinfonia aos meus ouvidos. Ele levanta o tronco até estar sentado, comigo em seu colo. Suas mãos sobem para o meu pescoço, quase desesperadas, embrenha os dedos em meus cabelos e me puxa ainda mais para perto. Sinto que nossos corpos vão se fundir numa confusão de línguas, saliva e uma necessidade ardente por prolongar aquele momento.
A forma com que nos desfazemos nos braços um do outro, num rompante absurdo de desejo me faz entender que, mesmo que ele estivesse me segurando pelos cabelos como eu disse que queria, o sentimento presente é verdadeiro. Baekhyun não quer se afastar.
Por mim o beijo podia durar o resto da noite, mas nossos pulmões não aguentam mais os míseros momentos que perdemos em busca de ar, e nós somos obrigados a parar. Sinto como se tivesse corrido quilômetros, meu peito sobe e desce com a respiração descompassada e o homem que segura meu rosto delicadamente também. Baekhyun une sua testa a minha, encosta a ponta de nossos narizes e ficamos daquela forma por alguns segundos, até a respiração normalizar.
Então ele deixa um beijinho fofo na ponta do meu nariz e eu abro um sorriso instantaneamente, porque já nem lembrava mais que aquilo era um dos pré requisitos do meu beijo perfeito. Enquanto ele distribui mais um monte de beijinhos estalados por todo meu rosto, sorrindo entre eles, chego a conclusão óbvia de que aquele foi o melhor beijo da minha vida. Não havia nem comparação. Eu podia beijar meio mundo, mas nenhum superaria aquele.
Havia sido perfeito, mas não porque seguiu o script que eu criei de como sempre sonhei em ser beijada, mas porque ele conseguiu despertar um sentimento verdadeiro dentro de mim. Não havia sido forçado, como se ele estivesse seguindo tudo o que eu desejei. Foi tão genuíno e natural que eu sabia que aquele era simplesmente o beijo dele.
Baekhyun havia conseguido superar todos os meus melhores sonhos, criado um patamar novo e inalcançável de beijo perfeito.
– Espero que tenha sido tudo do jeito que você sempre quis – ele diz, simplista, cruzando as mãos atrás da minha cintura e se afastando só o suficiente para me olhar. Sua boca vermelha e inchada está aberta num sorriso enorme, que faz seus olhinhos se apertarem enquanto ele fala.
– As definições de beijo perfeito foram atualizadas com sucesso – forço uma voz robótica e nós dois rimos de como soou idiota. – Foi muito melhor do que eu esperava.
– Acredita nos filmes românticos clichês agora?
– Você provou que os clichês estavam certos e é possível sim beijar alguém até perder a noção da realidade, parabéns. O problema real é que agora eu vou querer que todos os meus beijos sejam assim. Droga.
– E por que isso é um problema? Posso te beijar assim sempre que quiser, é só pedir. – Sua resposta rápida me faz parar para refletir algo que até agora estava deixando de lado.
– O que isso significa, Baekhyun? – Meu tom se torna um pouco mais sério, mas não é o suficiente para mudar o clima agradável entre a gente. Ele me questiona com o olhar e eu explico. – Não que eu não queira te beijar de novo, eu quero muito, várias vezes inclusive, só quero entender o que é isso que existe entre nós para não deixar espaço para mal entendidos.
– Como assim?
– O que nós temos?
– Uma química inegável? Uma atração indescritível um pelo outro? Um desejo mútuo de nos atracarmos num beijão violento de tirar o fôlego? – responde brincalhão. Eu aproveito que minhas mãos estão em seus ombros e deixo um tapa estralado ali, mesmo que esteja sorrindo porque adoro ouvir aquelas coisas.
– Eu tô falando sério, mesmo que nada do que você falou seja mentira. Só quero esclarecer as coisas como adultos conscientes da responsabilidade emocional que precisamos ter. Não temos mais 18 anos e tempo para joguinhos, então não me leve a mal. – Respiro fundo antes de continuar. – Espero que não seja presunção minha, mas… por mais que a Pomba adore te beijar, e acredite, ela adora muito te beijar, e queira continuar te beijando até esquecer o próprio nome, a acabou de sair de um relacionamento de quatro anos que só trouxe decepções, ainda está com o coração partido e não quer se envolver emocionalmente com alguém tão cedo. Sem contar toda a coisa de Byun Baekhyun ser um idol mundialmente famoso e se alguém descobrir o que estamos fazendo minha vida já era.
– Ninguém precisa descobrir – ele sorri de volta, travesso. – O idol Byun Baekhyun está focado na própria carreira, acabou de debutar em um grupo novo mesmo depois de uma década no EXO, e não tem tempo para pensar em se envolver com alguém. Todas as complicações que um relacionamento traz, querendo ou não, atrapalham a carreira. Então concordo plenamente em não se envolver emocionalmente. Mas como Bebe, confesso que não quero me afastar de você, mesmo que isso signifique não te beijar mais. Ah, odeio esse pensamento, apague a última frase que eu disse, por favor, eu quero te beijar sim – ele solta uma risadinha, fechando os olhos antes de terminar sua resposta a minha preocupação – Faz tanto tempo que estou focado na minha profissão que nem me lembro a última vez que permiti alguém novo entrar na minha vida. Ainda mais alguém com uma conexão tão forte e rápida como a nossa, nem parece que nos conhecemos oficialmente não faz nem uma semana.
– É tão bom saber que não sou a única a sentir isso. – Coloco a mão no peito, aliviada. – Nunca me senti tão a vontade com alguém assim. E foi tão rápido que chega ser bizarro. É como se fossemos amigos há anos, não quero perder isso.
– Podemos tentar algo simples e direto, então. Sem sentimentos românticos, livre de apego emocional ou qualquer tipo de cobrança. Que tal uma… amizade colorida secreta?
– Interessante. Como isso funcionaria?
– Quando formos Pomba e Bebe, como agora, somos livres para fazer e falar tudo que tivermos vontade um com o outro. Seja completamente sincera comigo sobre tudo e eu prometo que também serei, assim nenhum de nós sai magoado. Estou te dando total liberdade para me beijar quando e o quanto quiser, eu jamais vou reclamar. Liberdade pra todas as outras coisas você já sabe que tem, não preciso nem dizer. Confiança, diálogo e liberdade, esses serão os pilares da nossa relação, ok? – ele faz uma pausa, olhando no fundo dos meus olhos em busca da certeza de que eu estou acompanhando seu raciocínio, após um aceno fraco ele continua – Quando formos e Baekhyun, nossa relação é profissional, colegas de trabalho com uma relação amigável. Sem envolvimento emocional, sem corações partidos, sem nenhuma das partes ruins que estragam qualquer relacionamento. A parte mais importante de tudo isso é…
– Acho que sei exatamente o que você vai dizer – o interrompo, já rindo por esperar ouvir o maior clichê de todos.
– Está pensando o mesmo que eu? Estamos tão conectados assim?
– Vamos dizer juntos no 3. 1, 2…
– É proibido se apaixonar! – nossas vozes saem uma por cima da outra, mas a frase é a mesma.
Caímos numa gargalhada tão espontânea que preciso encostar minha testa em seu ombro para conseguir parar de rir. A ideia de me apaixonar por alguém tão rápido assim, quando o corpo do falecido traidor ainda nem esfriou no caixão do nosso relacionamento destruído, é totalmente inconcebível. Até mesmo desrespeitoso com meu coração partido.
– Rá! Como se isso fosse possível isso acontecer. Acabei de sair de um relacionamento traumatizante e você é um idol que precisa estar focado na sua carreira. Nos apaixonarmos está totalmente fora de questão – digo, satisfeita com o conclusão que chegamos.
– Promete me dizer se em algum momento começar a criar sentimentos por mim?
– Prometo – levanto o mindinho no ar, entre nossos corpos. – Prometa também.
– Eu prometo – ele enrola seu dedinho no meu e unimos nossos polegares num aperto firme, que me passa a certeza de que ele jamais quebraria aquela promessa.
– Amizade colorida secreta, então?
– Amizade colorida secreta!
– Fala sério, a gente é muito conectado – ele levanta a palma da mão no ar e trocamos um hi Five animado. Rapidamente dobro o pulso pra trás e estralo os dedos, achando o gesto bobo super descolado. Ele faz o mesmo gesto logo em seguida, como um reflexo até da minha expressão facial e é impossível não encher o quarto com mais gargalhadas.
Estar com Baekhyun é divertido, revigorante para a minha mente cansada. Afasta os pensamentos ruins e me enche de sensações boas e leves. Byun Baekhyun é exatamente o que eu precisava naquele momento da minha vida.
– Preciso confessar uma coisa – diz num sussurro, voltando a aproximar sua boca da minha. Meu coração reage instantaneamente. – Eu não tenho medo de filme de terror, eu só queria sua companhia. E dessa vez eu realmente esperava que terminasse com um beijo, mas o universo me surpreendeu mais uma vez.
Não tenho chance de responder sua confissão, em parte porque minha mente está entorpecida pelos sentimentos bons que ouvir aquilo me trazem, mas principalmente porque logo em seguida ele me cala com mais um beijo, que consegue ser inacreditavelmente melhor que o primeiro.
O universo definitivamente não me odeia.

Talvez o universo me odiasse um pouquinho sim, eu precisava admitir.
Haviam se passado quase dois meses desde que Baekhyun e eu começamos com aquele negócio de amizade colorida secreta, e por incrível que pareça estava funcionando perfeitamente bem. Conforme passávamos mais e mais dias na companhia um do outro, as coisas davam cada vez mais certo.
Quando ele estava carente, precisava dar uns beijos para esquecer os problemas ou simplesmente queria minha companhia para comer e discutir trivialidades que acabavam virando discussões complexas sobre nossa forma de ver o mundo, era preciso apenas uma mensagem. O mesmo valia para mim, mesmo que acontecesse com menos frequência já que a turnê exigia muito do meu tempo, mas estar disponível para ele fazia parte do meu trabalho e eu me aproveitava disso às vezes.
Havíamos reduzido o número de caracteres do nosso código secreto. Agora bastava os dois emojis de pomba e bebê, e sabíamos exatamente o que fazer. Não haviam cobranças ou desconfianças, não haviam reclamações do tipo “porque você está demorando para me responder?” ou pensamentos negativos como “ele está me ignorando, aposto que ele não gosta mais de mim e está enjoado da minha cara e vai me trocar por alguém melhor”.
A melhor parte era que eu não precisava me preocupar com ele me traindo, porque nós não tínhamos nada. Éramos completamente sinceros um com o outro, sobre tudo, até sobre coisas mais desnecessárias como uma espinha gigante que saiu na minha bunda e não me deixava sentar direito, ou a dor de barriga por causa do nervosismo que deu nele antes da primeira entrevista em solo norte americano.
Eu conhecia a rotina corrida e exaustiva dele, assim como ele conhecia a minha. Estávamos sempre perto um do outro, mas nem sempre podíamos estar juntos. Isso fazia ser ainda melhor quando nós finalmente nos encontrávamos a sós, após um longo dia de trabalho onde conseguimos trocar apenas alguns olhares que diziam tanto, mas não duravam o suficiente para não levantar suspeitas.
Eu adorava aquela nossa dinâmica.
Nossa relação era preto no branco, o mais espontâneo e íntimo xadrez que eu já havia visto. Era muito raro, mas se algo em nossa relação me incomodava eu dizia a ele sem receio algum e o mesmo acontecia se algo não o agradava. Após alguns minutos de diálogo nós sempre chegávamos a uma conclusão satisfatória para ambos de como melhorar o que estava nos atrapalhando e tudo voltava a perfeita harmonia caótica que era seja lá o que nós tínhamos.
Normalmente logo após isso, nós nos beijávamos até ficar com a boca dormente, então fazíamos piada com a situação e riamos até a barriga doer.
Nossa amizade colorida dava certo e era só o que importava.
Porém, como eu disse em algum momento da minha vida, o universo não tava pra brincadeira. Eu considerava uma birra pessoal, porque não podia acreditar que a sequência de coisas dando errado, como acontecia comigo de tempos em tempos, era apenas uma coincidência causada pela aleatoriedade da vida. Alguma entidade superior não ia com a minha cara.
Sempre que eu passava muito tempo vivendo em perfeita calmaria, era de se esperar uma tempestade destruidora logo em seguida. Minha tempestade particular naquele dia veio em forma de uma ligação de um número desconhecido.
Eu estava esticada na poltrona do quarto do Baekhyun, esperando ele sair do banho para pedirmos algo para comer. Já passava das 8 da noite e eu me ocupava em atualizar a lista de filmes ruins que já havíamos assistido juntos, em minha agenda sobre a mesa.
Seguro o telefone com uma mão, enquanto uso a outra pra rabiscar no cantinho da folha várias formas indistintas.
– Alô, falando – eu até tento, mas não consigo controlar meu tom de “eu odeio atender ligações”.
Boa tarde, senhorita . Estou ligando do escritório do senhor Choi Tan.
– Nunca ouvi falar.
Choi Tan, seu pai? – a voz, que creio ser de uma de suas secretarias que mais parecem robôs, soa meio incerta.
Cogito fingir que ela havia ligado para o número errado, mas conhecendo aquele velho desgraçado como conheço, sei que ele não descansaria enquanto eu não jogasse meu celular fora, me mudasse para o México e trocasse meu nome para Juanita Gonzales.
– Alto, sempre de terno e com meia dúzia de fios de cabelo lambidos para trás? Ah sim, eu lembro agora. Prossiga.
O senhor Choi gostaria de marcar um encontro para tomar um café com a senhorita. Amanhã as 14 horas está bom?
Às 15, Karen. Às 14 tenho uma web conferência com os investidores japoneses, você devia saber disso – ouço a voz grave e inexpressiva ao fundo da ligação.
Largo a caneta sobre a mesa, depois de riscar freneticamente a folha ao ouvir aquelas palavras. Fecho os olhos com força, esfrego a mão na testa, me controlando pra não surtar.
– Isso foi meu pai, né? Passe o telefone para o senhor Choi, por favor.
Mas, mas…
– Entrega o telefone para ele, minha querida, ou eu desligo na sua cara. Vamos lá – a apresso da forma mais suave que consigo, usando meu último fio de paciência para não ser mal educada com quem não merecia.
– Ela quer conversar com o senhor – a ouço balbuciar, afastada do aparelho.
Diga que conversaremos amanhã, no café – sua voz é ríspida e, por um segundo, fico com dó da coitada que aceitou trabalhar para esse carrasco.
Eu tentei, senhor. Não funcionou.
Você é paga para marcar meus encontros, Karen.
– PEGA LOGO ESSA PORRA DE TELEFONE! – Grito tão alto, que tenho certeza que ele pode ouvir do outro lado.
, olá. Vejo que seu vocabulário continua grosseiro e vulgar. – responde após alguns segundos. Sua voz retraída faz com que eu saiba exatamente que expressão ele está fazendo nesse momento.
Toda vez que é contrariado, Choi Tan crispa os lábios finos, fecha os olhos e esfrega o dedo médio na testa enrugada. Sei disso porque herdei a mesma maldita mania, por mais que eu odeie admitir.
– Você tava sentado ao lado dessa mulher enquanto ela falava comigo? – ignoro suas palavras e questiono, incrédula.
Ela é minha secretária, logo, é paga para isso – ele é sempre muito formal, o que me irrita profundamente – E onde estão os honoríficos? Além de tudo, perdeu o respeito pelos mais velhos?
– Você está sentado bem aí, tem mãos pra segurar o telefone e uma boca para falar, e ainda assim pede pra outra pessoa fazer esse trabalho, como se fosse um fardo enorme falar comigo. Quer mesmo falar sobre respeito?
Eu não vou discutir com você pelo telefone. Está disponível amanhã ou não?
– Para quê? – pergunto num tom tedioso, mesmo que jamais vá aceitar sua oferta.
Há algo que preciso conversar com você.
– Estamos conversando agora.
Agora eu não tenho tempo.
– Faz dois minutos e meio que estamos nessa ligação – confiro na tela do meu celular, cheia do mais puro deboche – Para um homem ocupado como você é tempo suficiente para discutir qualquer assunto pendente entre nós. Sendo assim, temo que não possa aquiescer ao seu pedido. Minha resposta é não, senhor Choi, mais alguma coisa?
Você é inacreditável, . Parece que estou conversando com uma criança teimosa de 12 anos. Poderia deixar de ser uma pirralha imatura e birrenta, que só pensa em si mesma e esquece que faz parte de uma família que a ama, por um mísero segundo e usar as boas maneiras que sua mãe lhe ensinou uma vez na vida? – e aquela foi a gota d’água.
Aguento no máximo 1 minuto de diálogo com aquele homem, antes de meu cérebro entrar em alerta vermelho, até que durei bastante dessa vez. Meu quase minúsculo fio de paciência se rompe violentamente. Meu punho se choca contra a mesa, produzindo um som alto e machucando meus dedos. Mencionar minha mãe é sempre sua cartada final, quando ele percebe que seu joguinho de manipulação não vai funcionar e ele precisa apelar.
– Não. Você não merece a educação que minha mãe me deu, nem por um mísero segundo. E mesmo que eu quisesse ser educada, eu estou em Miami nesse momento e sou muito grata ao oceano gigantesco que nos separa nesse momento. Não posso nem vou dar a volta ao mundo só para tomar café com você. Parafraseando meu querido pai, agora eu não tenho tempo.
Ok. – não consigo identificar seu tom de voz tão breve e logo ouço o bipe indicando que ele havia desligado na minha cara.
Canalha desprezível.
Minha primeira reação é jogar o aparelho longe, num rompante de raiva que logo se transforma em arrependimento, já que se eu quebrasse aquele celular não teria dinheiro para comprar outro. Não fazia nem um ano que eu havia derrubado o antigo na privada e ainda pagava as parcelas desse.
Após pegar ele do chão, onde caiu depois de rolar pela mesa, me certifico de que não há nenhum arranhão na tela e ele continua inteiro, graças ao tapete peludo do quarto do hotel. Então algo em vem a cabeça tão rápido que fico meio desnorteada, parada no meio do quarto, encarando o nada por um tempo.
Meu pai jamais aceitaria o que acabei de falar, de forma tão afrontosa, apenas com um ok. Ele nunca concordou com nada desde que me conheço por gente, as coisas tem que ser sempre do jeito dele, não importa com quem ele esteja lidando ou o que precisa fazer para chegar no resultado que ele deseja. Ele nunca respondeu ok para absolutamente nada do que eu digo, e não começaria agora que nossa relação está cada vez pior. Se é que ainda existia.
Então o que aquele ok quer dizer?
Eu sei que ele está planejando algo e um arrepio corre pela minha espinha até o topo da minha nuca ao pensar nas possibilidades.
– Você está pálida, aconteceu alguma coisa? Escutei uns gritos. – Baekhyun me tira do torpor causado pela minha imaginação.
– Aconteceu – me viro em sua direção, mas ainda mantendo meu olhar fixo no nada eu digo meio avoada – acabei de falar com meu pai e estou com um mal pressentimento. Qual a chance dele usar de meios legais para me arrastar de volta para a Coréia e me forçar a voltar com o Seojun? Ou pior, me forçar um casamento arranjado com um CEO velho e pelancudo pelo bem da empresa dele?
Finalmente movo meus olhos preocupados até ele, sem deixar passar despercebido o fato e que ele está sem camisa e algumas gotinhas de água escorrem por seu abdômen até se perderem no cós de seu moletom. Seus olhos, no entanto, são compreensivos e seu sorriso bonito me acalma como nenhum outro conseguiria.
– Zero. Nenhuminha. Você só está sendo paranóica, pompom. Eu jamais deixaria algo assim acontecer com você – nossos apelidos haviam evoluído também, e a forma com que seus lábios faziam um bico fofo para pronunciar aquela palavra me fazia adorar um pouquinho mais cada vez que ele me chamava.
Ele se aproxima e afaga meus braços com carinho, subindo até meus ombros e me segurando com firmeza.
– Pode parecer estranho, mas às vezes eu esqueço que você é uma pessoa rica e influente no mundo todo, pode acabar com alguém num estalar de dedos. Ah, me sinto protegida do mundo quando estou com você, bebe – brinco numa voz afetada, mas no fundo é verdade. Com ele eu sinto que posso enfrentar qualquer coisa sem medo porque ele vai estar lá por mim.
Concluo que o melhor a se fazer é deixar isso para lá, seja lá o que meu pai esteja planejando eu posso lidar no futuro, então não toco mais no assunto.
– Como você é idiota – seu sorriso se alarga ao que ele se aproxima pra depositar um beijo molhado em minha bochecha, para o qual eu faço uma cara de nojo fajuta – Mas é sério, se precisar de ajuda, por você estou pronto pra esconder um corpo a qualquer momento. É só ativar nosso código secreto para emergências.
– Nós temos isso?
– Não, mas já passou da hora de criarmos.
– Ok, Alan Turing, você tá ficando obcecado com essa coisa de códigos – deixo um leve peteleco na ponta de seu nariz e me afasto, vendo seu olhar se tornar confuso e um novo bico nascer em seus lábios. Fofo. – Não acredito que você não entendeu a referência. Alan Turing, de O Jogo da Imitação? – ele nega com a cabeça e eu me solto de seus braços pra conseguir demonstrar minha indignação – O cara que criou o computador, a inteligência artificial, desvendou o código dos nazistas na Primeira Guerra Mundial? – ele continua negando, cada vez mais confuso – Foi interpretado pelo Benedict Cumberbatch no filme?
– Aah! Por que não disse logo? É claro que eu sei quem é, aquela atuação é inesquecível.
– Ele inteiro é inesquecível. Eu sou completamente contra matrimônios, mas com o Cumberbatch eu juro que faria uma exceção.
– Não posso nem te julgar, porque se eu pudesse também casaria e teria filhos com aquele homem – ele se joga na cama, usando o braço dobrado para apoiar a cabeça. Pega o celular e desbloqueia, voltando a bloquear logo em seguida.
Enquanto isso estou perdida em pensamentos, observando seus traços naturalmente lindos, sem maquiagem alguma para esconder as imperfeições mais encantadoras que alguém poderia ter.
– Estou imaginando um filho de vocês dois – faço uma careta com a terrível mistura das duas feições na minha cabeça – Não. Não daria certo, escolha outra pessoa para ter filhos ou me faça tirar essa imagem da mente, por favor.
– Escolho a segunda opção, vem cá – ele me chama com a mão e quando estou perto o suficiente pra ele me puxar pelo pulso, perco o equilíbrio e caio por cima dele na cama. Levo minhas mãos ao seu peito nu e a essência natural que exala de sua pele quente, em conjunto com o banho recém tomado, me faz querer lambê-lo por inteiro.
Seja lá o que eu estava pensando antes, eu não faço mais ideia do que seja porque toda a minha mente agora está focada no quanto eu quero beijar os lábios que estão a centímetros dos meus, entreabertos e úmidos. Baekhyun consegue ser sexy sem o mínimo esforço.
Se tem uma coisa na qual somos bons é em esquecer de todo o mundo ao nosso redor com um simples toque, tanto eu quanto ele encontramos um no outro uma fuga da realidade perfeita. Então quando suas mãos quentes invadem minha camiseta e tocam possessivamente minha pele. Antes mesmo de nossas bocas se alcançarem, eu já não saberia nem mesmo dizer qual meu nome.
Me sinto intoxicada pelas melhores sensações que meu cérebro pode me proporcionar.
Cada beijo é repleto de expectativa, como se eu estivesse esperando para ser beijada pela primeira vez. E de fato, sempre se parece com a primeira vez. Traz algo novo e inesperado cada vez que acontece, desperta cada dia mais sensações e eu gosto de cada uma delas.
Suas mãos passeando sem o menor pudor pelas minhas costas, me arranhando. Nossas respirações que se chocam nos milésimos de segundos que separamos nossas bocas para em seguida grudá-las com ainda mais vontade, seus lábios devorando os meus num gesto tão devasso que me faz soltar vários gemidos, que não faço mais questão alguma de segurar. Tudo é um conjunto de estímulos excitantes que me faz perder o juízo. Só consigo pensar no quanto o quero mais e mais, porque parece nunca ser suficiente.
Minhas mãos agarram os cabelos de sua nuca em busca de alguma sustentação, porque estou tão excitada que me sinto tonta, inebriada. Minhas pernas dobradas se firmam ao redor de seu quadril, suas mãos fortes descem até a minha bunda e num momento de completo desejo, eu rebolo em seu colo com sensualidade. É dele que arranco um gemido dessa vez, e não tenho palavras para descrever o quanto adoro esse som. Adoro saber que o causador dele é minha bunda se esfregando na ereção que começa a se formar.
Mas é justamente sua ereção que me traz de volta para a realidade.
Eu não estou pronta. Não consigo fazer isso, não consigo ir a diante. Não sei como eu sei, só sinto que não é o momento e enquanto eu não me sentir a vontade para fazer isso, eu não vou me forçar a nada.
Diminuo visivelmente o ritmo do nosso beijo, e não precisa muito para ele entender o recado. A essa altura, Baekhyun conhece meu corpo quase tão bem como eu mesma. Sabe o que cada reação minha significa, então quando me afasto suavemente e deixo um beijinho em seu queixo, seguido de outro na pontinha do seu nariz, suas mãos sobem rapidamente para o meu rosto num carinho cheio de ternura.
Seu sorriso é compreensivo e me diz “tudo bem, eu posso esperar”, como já o ouvi dizer algumas vezes antes. Eu não poderia ser mais grata a Baekhyun por isso. Aquela não é a primeira vez que eu recuo antes das coisas ficarem excitantes demais para parar, e tem sido cada vez mais difícil.
– Hoje é seu dia de escolher o cardápio e o filme da noite – solta as palavras contra meu ombro, onde ele afunda o rosto e respira fundo algumas vezes.
Seus braços voltaram pra baixo, mas agora estão em volta da minha cintura e ele me mantém presa num abraço tão confortável que por mim jamais terminaria. Mas meu estômago ronca tão alto que nós caímos na risada e nos separamos.
– Eu quero um cheeseburger enorme, com acompanhamento de cheeseburger, e vou ver se eles podem fazer uma vitamina de cheeseburger para mim também, estamos nos Estados Unidos afinal. E nós vamos assistir O Jogo da Imitação, preciso te ver babando pelo mesmo homem que eu pelo menos uma vez na vida.

Nota da autora:
ATUALIZAÇÃO DUPLA PARA VOCÊS ME PERDOAREM PELA DEMORA!!! Os macho escroto dessa fanfic ainda vão dar muito trabalho para nossa protagonista, ainda bem que temos um Baekhyun em nossas vidas né? Enfim, me contem o que estão achando, suas teorias e expectativas, e nos vemos na próxima atualização (que eu prometo que não vai demorar 3 meses dessa vez!) <3

O bom de ser uma pessoa observadora é que você pega muitas coisas no ar, coisas que as outras pessoas ao redor deixam passar facilmente.
Naquela manhã ensolarada de sexta-feira, por exemplo, a primeira coisa que reparei ao me juntar à equipe para repassar o cronograma pré show, foi que havia cortado o cabelo, estava usando maquiagem e parecia mais radiante que o normal. A segunda coisa foi que, enquanto ela explicava os detalhes das gravações que os membros fariam a tarde, Taeyong não tirava os olhos dela, mas quando seus olhares se encontravam os dois desviavam rapidamente.
Eu sabia que havia algo ali desde o primeiro momento.
era linda, competente e exalava uma confiança e sensualidade natural da qual não parecia se dar conta, sempre preocupada demais com o trabalho. O olhar admirado de Taeyong deixava explícito que ele também percebia isso.
– Posso saber qual é a ocasião especial para tanta produção? – a questiono quando finalmente tenho a chance.
Estamos indo em direção a van que nos levaria até o Watsco Center, local do primeiro show do SuperM nos Estados Unidos.
– Deu para perceber? Tá muito forte? – questiona alarmada, esfregando as bochechas pra tirar o blush, o que só deixou ainda mais vermelha.
– Não, você tá linda, para. E não foi só eu que percebi. – solto no ar, mas nem dou tempo dela questionar – Só fiquei curiosa, você não costuma se arrumar assim, ainda mais em dia de show.
– Você repara demais em mim, pare com isso – ela estreita os olhos. – E eu tenho um encontro na hora do almoço, só isso.
– Como assim só isso? Como é que você arrumou tempo para namorar no meio da turnê?
– Eu não arrumei tempo, apenas aceitei esse almoço porque houve muita insistência da outra parte. Ele que não se atreva a bagunçar meu cronograma, preciso estar de volta às duas horas, temos ensaio às três e meia, passagem de som logo em seguida, e os membros precisam gravar as entrevistas individuais para o reality. Tenho que garantir que tudo ocorra como o planejado.
– Fica tranquila, qualquer coisa eu assumo seu lugar. Mas me conta, quem é o felizardo que vai almoçar em sua companhia?
– Um fotógrafo que conheci quando ainda estávamos na Coréia, e por um acaso ele está aqui em Miami a trabalho também.
– Isso me cheira a sessão de fotos sensuais de graça! – comemoro como se fosse para mim, mas ela só me repreende com um tapinha no braço. – Quero saber de tudo depois, se me esconder qualquer detalhe sórdido eu vou saber. Boa sorte no seu encontro.
E como um inseto que fica voando em volta da luz, irritante e insistentemente, meus pensamentos não desgrudaram mais daquele tópico.
Encontro…
A palavra parecia estranha.
Mesmo horas depois, quando eu almoçava junto com o resto da equipe, porém em silêncio, já que com quem eu normalmente conversava não estava presente, minha mente ainda flutuava em volta da palavra e da sensação que ela me trazia.
Eu não conseguia lembrar quando foi a última vez que eu havia tido um encontro. Sequer lembrava se no começo da minha relação com Seojun ele havia me levado a um. Nós nos conhecemos quando eu fui procurar emprego na revista onde ele trabalhava, trocamos telefones, conversamos por dias e quando nos vimos de novo já estávamos namorando. Não houve sequer um pedido oficial e definitivamente não houve um encontro.
Por algum motivo parecia algo tão importante, como um rito de passagem da vida humana, e eu estava perdendo porque ao final da minha recapitulação de memórias românticas, cheguei a conclusão de que nunca havia tido um encontro de verdade com alguém.
Ninguém nunca me chamou pra um jantar romântico, me deu flores, abriu a porta do carro para mim, depois andamos de mãos dadas olhando as luzes e fiquei nervosa para saber se no final ia rolar um beijo ou não. Apesar dessa última parte parecer muito com o que eu vivi com Baekhyun na noite em que nos conhecemos, aquilo não foi um encontro, então não conta.
Sinto meu celular vibrar e sou obrigada a sair da minha posição de pensamento profundo (queixo apoiado na mão e olhar perdido no mais puro nada) para responder.
“Que cara é essa, pompom? Ta olhando pro nada faz meia hora, sua comida até esfriou. Se alimente direito ou te demito!” Bebe às 12:48
Levanto os olhos rapidamente e procuro por Baekhyun no meio dos inúmeros staffs, infelizmente é gente demais bloqueando minha visão.
“Eu só me perdi em pensamentos, eu acho. Normalmente é minha companhia durante o almoço, mas hoje ela teve um ~encontro~ com um carinha aí, então só me resta conversar com as vozes na minha cabeça” Eu às 12:50
está em um encontro? Como ela consegue namorar no meio da correria que é a vida dela com nossa turnê? E como ela tem coragem de trocar 7 idols maravilhosos por um carinha aí?” Bebe às 12:51
“Você tá com ciúme da , Baekhyun? ㅋㅋㅋㅋ Eu perguntei a mesma coisa para ela, mas ela também não sabe. Acho que ela tem uma forma de voltar no tempo e poder estar em vários lugares ao mesmo tempo, tipo a Hermione em Prisioneiro de Azkaban” Eu às 12:52
“Não é ciúme, estou apenas cuidando das minhas managers, ok? E era sobre isso que você estava tão absorta em pensamentos?” Bebe às 12:54
Demoro alguns minutos olhando para a tela, me perguntando se devia contar meus questionamentos internos ou não. Parecia bobo demais reclamar porque nunca fui a um encontro, sendo que abomino as várias formas que os clichês românticos nos manipulam para acreditarmos que, se sua relação não é daquela forma, vocês tá se relacionando errado.
Não existe certo ou errado, apenas formas diferentes de se relacionar. Colocar um formato no amor é que é errado…
Ok, essa discussão precisa ser compartilhada e acho que a única pessoa que conseguiria acompanhar meu raciocínio seria Baekhyun. Decido então responder a verdade, mas o horário de almoço está acabando e as câmeras voltando a ser posicionadas, não posso entrar em detalhes agora.
“Não, era sobre encontros. É algo complexo e profundo, te conto melhor quando tivermos tempo. Agora larga esse celular, eles vão voltar a gravar” Eu às 12:58
Guardo meu celular de volta no bolso da calça e olho minha comida, quase intocada. Fecho tudo disfarçadamente, torcendo para Baekhyun não estar vendo, ou ele ameaçaria me demitir de novo. Vivo em constante ameaça, se eu não durmo direito, se não me alimento direito, se eu tenho qualquer pensamento depreciativo, Baekhyun abusa de seu poder como líder e me “coloca na linha” como ele diz.
Estou apenas cuidando das minhas managers.
A frase fica presa em minha mente e é impossível não voltar ao trabalho sorrindo.
– As câmeras vão na frente e quando vocês chegarem lá já vai estar tudo montado. Vamos entrar pelos fundos porque aparentemente já há uma aglomeração de fãs na frente do local, vocês são muito populares, huh? Mesmo esquema de sempre, vamos fazer as entrevistas primeiro, passagem de som, ensaio e aí depois vocês podem descansar até a hora do show – eu explico para o SuperM o que me foi passado minutos atrás, para que não tenha erro e nosso tempo seja aproveitado da melhor forma possível.
– Precisamos seguir algum script nas entrevistas? – Jongin pergunta, e posso sentir um incômodo em suas palavras.
– Ele quer saber se podemos ser sinceros sobre como inglês é um idioma muito difícil, Miami é quente demais e nós queremos ir à praia, tirar a camisa e mergulhar no mar? – Baekhyun completa o questionamento, me fazendo prender o riso.
– Sem script dessa vez, podem ser espontâneos, mas sugiro não reclamar do idioma e do calor nesse tom de crítica, senão podem cancelar o passeio a Miami Beach amanhã – termino a frase aos sussurros, já que eles ainda não sabiam sobre os planos para o dia seguinte.
– Nós vamos à praia amanhã? – Taeyong tem os olhos brilhando, mas por cima de seu ombro eu vejo se aproximando e sua expressão não é das melhores.
– Praia? Que praia? Ninguém aqui disse nada de praia. , minha querida, como foi seu “almoço”? – faço as aspas com os dedos nada discreta, mas ela nem parece notar.
– Foi horrível. Ele me deu o bolo, a comida era nota 5 e eu não quero mais falar sobre isso – seu olhar repreensivo deixa claro que se eu insistir ela vai enfiar a caneta que prende seus cabelos nos meus olhos.
Me comunico com Baekhyun apenas com um olhar que não dura nem 3 segundos, como sempre fazemos quando estamos em grupo, mas é o olhar de Taeyong que diz tudo. Seus enormes e redondos olhos estão presos na figura irritada e triste de , que repassa o que acabei de dizer para o grupo numa entoação muito mais desanimada. Sei que ele está preocupado e também sei que ele quer conversar com ela, mas não tem coragem de se aproximar.
Preciso fazer algo quanto a isso.
Trabalhar com naquele humor para baixo era muito chato. Ela era uma das poucas pessoas que costumavam rir das minhas piadas bobas, mas naquele dia ela nem riu quando eu falei sobre como me embolei nas palavras em inglês e chamei o entregador de comida de delícia invés de delivery.
– Ah, como é difícil ter senso de humor na Coréia do Sul – reclamo sozinha, quando ela me dá as costas depois de não rir de mais uma de minhas piadas para tentar animá-la.
– O que houve? – Parecendo preocupado, Taeyong se aproxima para pegar uma água que está na mesa ao meu lado, mas seus olhos estão disfarçadamente na figura atravessando o camarim movimentado.
Baekhyun está logo atrás, com o cabelo azul desbotado perfeitamente arrumado e cheio de laquê e o olhar perdido na tela de seu celular. Faltam pouco menos de duas horas para o show e eles finalmente tem um tempo livre.
– Eu estou apenas sendo dramática. É o que eu faço de melhor – suspiro, encostando meu quadril na beirada da mesa e cruzando os braços – É com a que estou preocupada, ela é sempre tão animada em dia de show que chega ser irritante, mas olha para ela hoje. Esse negócio de ter levado o bolo daquele babaca deve ter mexido com ela de verdade, nenhuma mulher gosta de ser deixada esperando, mas ela, especialmente, não merece isso. Queria fazer algo para ajudá-la – solto mais um suspiro profundo e percebendo que tenho toda a atenção de Taeyong sobre mim, decido colocar meu plano em prática – Eu queria tanto ter tempo de levar um suco de melancia para ela agora, é o que sempre a anima, sabe? – Conto a Taeyong como se fosse um segredo – Infelizmente não posso parar tudo que estou fazendo e ir comprar o suco favorito dela, para fazê-la sorrir de novo. De melancia, bem gelado…
Alguns segundos se passam. Observo Taeyong abrir uma garrafinha, dá um longo gole na água e a coloca de volta na mesa, com os olhos desfocados e perdidos no nada.
– Baek hyung, , ahn… eu já volto – e ele sai em disparada para a porta.
Eu sou foda!
Baekhyun levanta os olhos da tela do celular e me encontra sorrindo orgulhosamente para onde Taeyong acabou de sumir.
– O que você aprontou? – pergunta, com o olhar suspeito sobre mim, tentando entender o que acabou de ouvir.
– Eu só plantei a sementinha da amizade, agora cabe a ele regar e cultivar.
– Você acabou de manipular o garoto para ele comprar suco para ?
– Não é minha culpa se ele é inocente e influenciável. E em minha defesa, eu sei que ele estava querendo se aproximar dela faz tempo, só não sabia como. Eu só dei um empurrãozinho.
Quase uma hora depois, vejo entrar de volta no camarim ao lado de Taeyong. Seu rosto está iluminado por um sorriso genuíno e em suas mãos segura um copo enorme de suco de melancia pela metade. O garoto parece estar radiante, olhando para ela com devoção e carinho.
Nasce aqui uma linda amizade, graças a meu poder de manipulação.
Satisfeita com meu trabalho, me apresso em ir na direção oposta, porque não quero que ele perceba que eu vi o que ele fez, ou temo que ele vá ficar constrangido, nem quero que saiba que fui eu que dei a dica de como se aproximar dela. No caminho deixo um leve chute no pé de Baekhyun ao passar, e quando seus olhos encontram os meus, indico o casal feliz perto da porta e saio, sorrindo.
O show daquela noite foi completamente lendário. A energia da platéia ocidental era algo espantoso, os gritos, os fanchants, a aclamação vindo da cada canto daquela arena lotada me fazia sentir um orgulho imenso de trabalhar com aquele grupo. Ao mesmo tempo, era palpável a exaustão dos membros quando voltaram para o camarim.
– Eles parecem acabados, como vou contar que eles precisam gravar o fechamento do reality antes de voltarem para o hotel? – me questionou pesarosa, aos sussurros.
– Ainda bem que isso é trabalho seu, minha amiga – dou um sorrisinho encorajador, levantando o punho no ar e passo a entregar as toalhas para os membros largados no sofá e no chão.
Meu celular vibra em meu bolso e eu tenho o desprazer de ver que é meu pai, de novo. Insistente e teimoso feito uma mula, ele não aceita que eu não vou atendê-lo, nem sair para tomar café e conversar como se fossemos bons amigos. Pretendo continuar ignorando até vencê-lo pelo cansaço.
Tão exausta quanto o resto da equipe, eu chego ao hotel e vou direto ao meu quarto, que dessa vez tenho só para mim, desejando apenas um banho demorado e uma massagem nos pés. Para essa segunda necessidade, meu plano é mandar mensagem para Baekhyun e fazer o maior drama até ele concordar em massagear meus pés cansados, e depois retribuir, é claro. Mas nem preciso mandar mensagem alguma, antes mesmo de eu entrar no banho ele aparece na minha porta, ainda com a roupa que saímos do local do show.
– Eca, você tá fedendo a 2 horas de performance frenética – faço uma careta assim que vejo seu cabelo duro de suor e laquê passar pra dentro do quarto e fechar a porta.
Em reação ele ri, tenta me abraçar e esfregar o cabelo em mim, mas eu fujo para o outro lado do quarto o mais rápido possível, desfazendo minha cara de nojo em uma das risadas que ele me arranca fácil.
– Nós já temos intimidade o suficiente para você me ver sem ter tomado banho, vem cá – tenta me alcançar ao redor da cama, com os braços abertos, mas eu pulo por cima dela até o outro lado.
– Isso não quer dizer que eu goste, seu fedido, sai pra lá. Depois não quer que o fandom acredite na sua fama de quem não toma banho.
– Você também não tomou banho ainda, sinto seu chulé daqui – torce e abana o nariz empinado.
– Ei! Eu não tenho chulé – reclamo fingindo estar irritada – Vou te fazer cheirar minhas meias até retirar o que disse, abusado!
Retiro rapidamente minhas meias listradas e é minha vez de correr até ele, mas diferente de mim, ele não foge. O encura-lo no canto ao lado da cama e tento alcançar seu nariz com minha mão, mas ele me impede tão facilmente que nem parece que estou tentando. Segura e levanta meu pulso antes que eu consiga atingir meu objetivo, o tirando do caminho e me fazendo ir de encontro ao seu peito.
Solto um som abafado de surpresa com o ato, me preparando para reclamar da aproximação, mas num movimento inesperado ele gira meu corpo e me joga na cama sem nenhuma delicadeza. Caio com a cara enfiada entre os travesseiros, usando minha mão livre para diminuir o impacto, mas não consigo mais me levantar. Baekhyun cola seu corpo ao meu logo em seguida, busca meu outro pulso perto do meu rosto e prende os dois nas minhas costas.
Meus joelhos estão na beirada da cama e ele ainda está de pé, mas seu peito está pressionado nas minhas costas, nossos quadris roçando um no outro perigosamente próximos. A posição me imobiliza, mas nem se eu pudesse eu sairia dali.
– É você quem vai retirar o que disse – sua voz é tão suave e melodiosa quando ele sussurra próximo a minha orelha, que faz a primeira onda de arrepios se alastrar pelo meu corpo como fogo. Seu nariz desliza suavemente pela pele do meu pescoço até a minha nuca, seus movimentos ali são delicados em contraste com o aperto firme de sua mão, que me mantém refém – Quero ouvir você dizer que eu sou a pessoa mais cheirosa que você conhece, aí eu te solto.
Eu não diria aquilo nem se eu tivesse condições de raciocinar, coisa que eu não tinha naquele momento. Eu choraria se ele se afastasse agora, porque tão rápido como brasa na palha, eu sou dominada por um tesão latente e não consigo pensar em mais nada a não ser Baekhyun me prendendo contra a cama.
Nunca havia sentido nada igual, talvez porque eu nunca havia feito nada remotamente parecido com aquilo. Era delicioso, fazia meu interior se contorcer e latejar. Saber que estou presa, a mercê do que ele quiser fazer comigo, não deixa outra opção a não ser provocá-lo para prolongar aquela sensação. Se ele quer jogar, vou entrar no joguinho dele e vamos ver quem vence.
– E se eu me recusar, vai fazer o quê? – Minha voz sai abafada contra o colchão e nem preciso me esforçar para soar sexy, o teor do momento faria qualquer piada parecer cheia de malícia.
Empino minha bunda até estarmos completamente colados e então rebolo contra ele sem pudor algum. Minhas intenções estão explícitas na minha cara e nos meus atos, e as dele também porque ele corresponde a minha rebolada pressionando ainda mais seu quadril contra mim e soltando todo o ar do seu pulmão contra minha nuca num gemido rouco.
– Se você se recusar – ele se afasta um pouco e então volta a roçar seu quadril contra minha bunda, num movimento ondular que simula uma estocada e rouba o ar dos meus pulmões. Sua mão livre sobe pelo meu pescoço até se embrenhar em meus cabelos, onde ele segura com firmeza – vou ter que me esforçar mais para te convencer – volta a dizer perto da minha orelha.
Então ele repete o ato mais uma vez, agora com mais força, fazendo o impacto certeiro subir pelo meu corpo até sair pela minha boca na forma de um gemido sôfrego.
É quando eu perco completamente a linha.
Já nem lembro porque estamos nos esfregando, mas está tão gostoso que não importa mais, só quero sentir mais daquele movimento lascivo contra minha bunda. Sua ereção já é notável, mas dessa vez não me faz querer recuar, pelo contrário. Agora, a cada rebolada, conforme vou sentindo-o cada vez mais duro contra mim, cada vez me prendendo com mais força, mais eu quero levar aquilo até o fim.
Baekhyun estreita o aperto em meus cabelos, enterra o rosto em minha nuca e seu hálito quente me causa novos tipos de arrepios que meu cérebro ainda está tentando processar. Sua língua desliza pela minha pele e passa a explorar o local com beijos cheios de luxúria.
Suas mãos me soltam ao mesmo tempo em que seu peito se afasta das minhas costas, instantaneamente sinto falta do seu aperto, mas ele continua próximo. Suas mãos descem para os lados da minha cintura, onde ele enterra os dedos e me segura firme antes de investir mais uma vez, com força. Me sinto delirar com aquele simples movimento. Nossas respirações ofegam juntas, me agarro no lençol abafando ali os gemidos que não consigo conter, continuo rebolando contra ele porque preciso de mais e ele parece estar na mesma situação necessitada.
Eu preciso sentir suas investidas contra mim sem aquelas roupas entre nós, eu preciso dele dentro de mim como preciso de ar para respirar naquele momento.
Então, como se soubesse da minha decisão influenciada pelo tesão explosivo que sinto naquele momento, o universo me sabota mais uma vez e o telefone do quarto toca, alto e irritante.
Baekhyun para os movimentos, mas não se afasta. Seu corpo cai mais uma vez sobre o meu, seu rosto pressionado contra meu ombro e nós bufamos frustrados ao mesmo tempo. Tento normalizar minha respiração sem fazer o mínimo movimento, porque não quero sair daquela posição confortável nem deixar de sentir Baekhyun duro entre minhas pernas, mas o telefone continua tocando me chamando de volta para a realidade.
– Acho melhor eu ir tomar um banho. Gelado de preferência – murmura a contragosto, se apoiando no colchão e saindo de cima de mim. É automático e incontrolável a sensação de vazio que fica quando nossos corpos se afastam.
Abafo outro gemido frustrado contra o travesseiro, sem esconder minha irritação por ter sido interrompida naquele momento tão crítico, mas concordo com um aceno. Estou completa e vergonhosamente molhada, nem consigo sair do lugar, me sinto desestabilizada de tão excitada e nós nem fizemos nada.
– Pode tomar banho aqui se quiser, não vai ser legal você perambulando pelo hotel de pau duro – aponto para a sua ereção super evidente na calça preta e ele olha para baixo, pressionando os lábios numa linha fina, fazendo covinhas fofas aparecerem em suas bochechas.
Ele ser tão lindo nesse momento é uma puta injustiça.
– Tem alguma roupa minha aqui?
– Aham, ali na mala – aponto distraidamente para minha mala aberta ao lado da porta do banheiro, ao que me estico para alcançar o telefone sem sair da cama, mas quando atendo a ligação já caiu.
Resmungo mais algumas palavras sem sentido algum, me revirando na cama. Escuto o som do chuveiro ligando, esfrego meu rosto com as duas mãos e quase arranco meus cabelos, pensando no que acabou de acontecer.
Se o telefone não tivesse tocado, eu provavelmente não teria me controlado e nós acabaríamos transando. Não é como se eu não quisesse aquilo, por Deus, eu queria tanto transar com Baekhyun que chegava doer fisicamente em mim o fato de que eu não conseguia. Ele era uma pessoa especial, e por mais que nossa relação fosse puramente casual, não seria justo com nenhum de nós se eu me deixasse levar pelo momento sem me sentir realmente pronta para aquilo.
Eu culpava duas coisas por aquele sentimento. A primeira delas era Seojun, meu maldito e traidor ex namorado. Fazia apenas dois meses que nós havíamos terminado e depois que você passa 4 anos transando com uma mesma pessoa, para então descobrir que nesse meio tempo essa pessoa não transava apenas com você, é difícil se entregar para alguém novo.
A segunda coisa que pesava em minha consciência e me deixava desastrosamente nervosa toda vez que eu lembrava, era o fato de que eu não tinha muita experiência sexual. Antes de Seojun, eu só havia transado com o cara que tirou minha virgindade, e foi uma experiência horrível. Minha vida sexual com meu ex namorado também não era lá muito ativa, nem inovadora. Sempre ficamos bem no básico, hoje em dia sei o verdadeiro motivo da sua falta de libido constante, mas na época eu achava que transar uma vez por mês, duas quando eu tinha sorte, era algo normal em um relacionamento.
Eu sabia que eu gostava de sexo, mas não conhecia praticamente nada das minhas preferências sexuais. Não sabia do que eu gostava, não conhecia direito meu corpo, e é claro que Baekhyun estava ciente de tudo isso. Nós já havíamos conversado várias vezes sobre, e ele se colocou a total disposição para me ajudar a me conhecer, descobrir o quê e como eu gosto, mas no meu próprio tempo. Deixou claro que não se importava em esperar até eu estar pronta, e quando eu estivesse, ele estaria lá de braços abertos e pau duro pra me ajudar, palavras do próprio.
Mas essa coletânea de impedimentos psicológicos, somados ao fato de Baekhyun devia ser muito mais experiente que eu nesse quesito e eu morria de medo de descobrir que transava mal, fazia com que meu corpo travasse na hora. Só que dessa vez eu não travei, estava maravilhosamente molhada e na hora eu faria qualquer coisa para continuar, mas agora parando para pensar, eu não queria que minha primeira vez com Baekhyun fosse assim, com nós dois sujos e exaustos de um dia infernal de trabalho.
Não que eu sonhasse com algo super especial, com velas e música romântica tocando ao fundo, qual é, eu era realista. Eu só não queria que nossa primeira transa fosse um fracasso porque ambos estamos cansados demais para aguentar meia hora, desejava poder aproveitar ao máximo desse momento. Não era minha intenção delinear cada passo como a maníaca do planejamento antecipado que eu era, mas queria no mínimo estar certa de que estou preparada, de que meu corpo não vai me trair.
Sou puxada com força para fora dos meus devaneios ao ouvir o som de alguém batendo na porta. Levanto da cama arrastada e ainda estou tão imersa em meus debates internos, que abro a porta distraída e só me dou conta de estar cara a cara com uma das pessoas que menos desejo ver naquele momento quando já é tarde demais.
– Pai?


– Olá, – diz o homem à minha frente e automaticamente sinto vontade de vomitar.
Ele é pelo menos quinze centímetros mais alto que eu, usa um terno preto que se alinha perfeitamente em seus ombros largos, e seu cabelo grisalho está impecavelmente penteado para trás deixando as linhas duras de sua face mais evidentes.
Está exatamente da mesma forma que me lembro, cada ruga em seu rosto que expressa um leve desgosto toda vez que me vê, cada mínimo detalhe em sua figura opressiva está ali, mas meu cérebro não consegue processar rápido o suficiente o fato de que ele está parado em frente a minha porta, quando devia estar na Coréia do Sul.
– O que você tá fazendo aqui? – Questiono debilmente, com os lábios entreabertos de surpresa e desagrado.
– Mal educada demais para sequer usar os honoríficos com o próprio pai – ele leva a mão direita até a testa e esfrega o dedo do meio ali, fechando os olhos por um segundo. – Eu vim para tomarmos café juntos. Já que não pode deixar o trabalho e dar a volta ao mundo para aceitar meu convite, resolvi facilitar as coisas para você, essa parece ser a única forma de conversarmos. Não vai me convidar para entrar?
Sou atingida pela conclusão de que era isso que aquele ok significava. Aquelas duas letras significavam que eu havia dado a ele exatamente o que ele precisava, a minha localização. Depois de eu abrir minha boca enorme e deixar escapar que estava em Miami, deve ter sido fácil para ele fazer algumas ligações, mover alguns pauzinhos e descobrir exatamente onde estávamos hospedados. Como eu pude ser tão burra?
– Achei que não atender suas ligações durante todo esse tempo deixava claro que eu não tenho nada para conversar com você. E não, eu não vou convidá-lo para entrar, estou num quarto de hotel pago pela empresa para a qual trabalho, e não na minha casa. E se eu tivesse em casa, provavelmente não convidaria também – termino a frase com o meu sorriso mais falso, exalando puro escárnio.
– Não acho prudente discutirmos no corredor do hotel – ele ignora completamente tudo o que eu disse, e entra no quarto mesmo sem permissão.
Sinto meu interior ferver de ódio, aperto minhas mãos em punhos apertados e respiro fundo uma vez antes de me virar. O encontro olhando tudo ao redor, sem disfarçar o julgamento até sobre a arquitetura do quarto onde estou hospedada.
– Achei que essa empresa tivesse condições de pagar um quarto melhor para os funcionários. Bem, talvez os funcionários inferiores fiquem com esses quartos menores – comenta casualmente, e eu preciso me controlar mais uma vez para não responder a altura. Conheço o joguinho dele, e não posso deixá-lo entrar na minha mente.
– Sei que não vai embora enquanto não falar o que ensaiou, então vá direto ao ponto, Tan – o acelero com um gesto, do jeito que sei que ele odeia e continuo parada no mesmo lugar, com medo do que posso acabar fazendo se me mover para mais perto.
– Quero que tome café comigo. Amanhã, às dezesseis horas – seu olhar incisivo deixa claro que aquilo não é um convite, é uma intimação, mas ele está muito enganado se acha que me assusta.
– Não posso, estarei trabalhando nesse horário e em qualquer outro horário eu também posso, porque não quero. Pronto, resolvido. Você pode, por favor, ir embora agora? Eu não tenho absolutamente nada para conversar com você.
– Então é esse o tratamento que seu progenitor recebe, depois de meses sem vê-lo – ele suspira, sem se exaltar pelas minhas palavras ácidas.
– Por mim seriam anos – resmungo.
– Eu cancelei compromissos, deixei a empresa e dei a volta ao mundo para nos encontrarmos, na ilusão de que tomaríamos um café e conversaríamos como dois adultos civilizados. Vejo que mais uma vez eu a superestimei, esqueci que não é nem adulta e menos ainda civilizada. Sinceramente, às vezes é difícil de acreditar que é minha filha.
– Eu conheço seu joguinho, senhor Choi Tan. Convivi com ele por muitos anos, sua manipulação não funciona mais comigo, então pode parar de gastar sua saliva tentando me convencer de algo que não quero. Suas palavras deixaram de me influenciar faz muito tempo.
– Como sempre me pintando como o vilão da história. O ser humano terrível que manipula e usa as pessoas. Quando vai aceitar que o problema sempre foi você e a sua teimosia? Julga um pai que não mede esforços para se aproximar da filha, quando sequer atende minhas ligações preocupadas, não se importa mais com suas irmãs, com sua família. Você continua uma ingrata, . Desde que veio ao mundo, tudo que você me deu foi ingratidão e desgosto. Tudo o que eu te peço é um café para tratarmos assuntos pendentes e você consegue transformar tudo em uma tempestade ridícula, se fazendo de vítima sofredora nas mãos do vilão malvado que eu sou.
Fecho os olhos e respiro fundo ao ouvir aquelas palavras. Não é como se fosse novidade, o discurso muda, mas o teor e a intenção são sempre os mesmos.
– Se já disse tudo que tinha para dizer, por favor, se retire – eu uso minha voz controlada, até monótona, porque sei que qualquer demonstração de sentimento pode ser minha ruína se ele resolver usar contra mim. Gesticulo para a porta, mas rapidamente recolho a mão pra que ele não veja que estou tremendo.
Ouço o som baixinho do chuveiro sendo desligado e meu coração dispara desesperadamente. Baekhyun não pode sair daquele banheiro agora de jeito nenhum. Não, por favor, agora não.
– Não, . Eu ainda não disse tudo, então você vai me ouvir – ele engrossa a voz, estufa o peito e eu sei que lá vem chumbo grosso, mas estou mais preocupada com a porta do banheiro – Eu aguentei essas suas palhaçadas por tempo demais. Aguentei anos da sua falta de respeito, sua ingratidão, todas as suas escolhas erradas, que parece ser a única coisa na qual você tem sucesso na vida. Desde que sua mãe morreu, você tem cometido erro atrás de erro e se orgulhado deles como se viver como uma indigente fosse algo bonito. Você me envergonhou de tantas maneiras que eu poderia escrever um livro. Não só a mim, suas irmãs também sentem vergonha de dividir o mesmo sangue que você, elas só são educadas demais para dizer isso na sua cara. Ano após ano esperei que essa sua insanidade, seu delírio ridículo de brincar de casinha chegaria ao fim, você tomaria juízo e voltaria pra casa. E agora, como se não bastasse todas as burrices que cometeu na vida, você acaba com a única coisa que prestava em toda essa sua existência humilhante. Minha última esperança era que você se casasse e se redimisse dos pecados que cometeu, mas o que você fez? Terminou com o Seojun!
Bingo! Eu sabia que era isso que ele queria falar desde a primeira ligação insistente após o término. Quase deixo escapar um sorrisinho, mas o gosto amargo em minha garganta me impede de expressar qualquer coisa.
Ele dá um passo em minha direção, sempre com movimentos comedidos e queixo erguido em minha direção, tentando fazer eu me sentir pequena. Eu não deixaria aquilo acontecer.
– Imagine a minha surpresa o dia que o encontrei no clube, e ele me disse que não estão mais juntos. E para piorar, contou que você perdeu a cabeça e terminou com ele sem motivo algum, deixando o coitado arrasado e indo viajar com essa bandinha. Finalmente um homem decente aparece na sua vida, um que pode abrir seus olhos e te colocar na linha, consertar essa sua mente estragada, e o que você faz? Arruína tudo, como a pirralha insatisfeita e imatura que sempre foi. Estraga sua oportunidade de ser feliz num matrimônio estável que te daria um futuro decente. Você tem ideia de como sua mãe estaria decepcionada se estivesse aqui agora? Consegue conviver com o fato de que, mesmo morta, ela não deve estar em paz porque você não deixa?!
Meu peito vibra dolorosamente por conter tantos sentimentos e tantas palavras que querem apenas explodir. Minhas mãos estão tremendo e eu não consigo mais disfarçar, minha cabeça parece que vai entrar em erupção a qualquer momento. Sei que tenho que manter minha boca fechada para o meu próprio bem, mas eu transbordo de ódio e as palavras escapam da minha boca.
– As vezes eu me pergunto se a mulher que foi minha mãe, e a que foi sua esposa, eram a mesma pessoa. Se ela está se revirando no túmulo agora, é porque você, senhor Choi, desonra a imagem dela falando essas atrocidades – cuspo as palavras em sua direção com nojo, com o dedo apontado a centímetros de encostar em seu peito – Minha mãe jamais me obrigaria a nada, foi ela que me ensinou a correr atrás dos meus sonhos, foi a minha mãe que me ensinou a não abaixar a cabeça para homem nenhum. Ela nunca abaixou para você e por isso tinham um casamento tão infeliz, você a fez infeliz a vida toda. Se ela encontrou paz foi em morrer e se ver livre de você!
O som do tapa estrondoso que eu recebi após proferir essas palavras vai ficar guardado em minha cabeça para sempre. Todo o lado direito do meu rosto lateja, mas a dor física é esquecível porque é sobreposta com a dor psicológica que me soterra por inteiro, de forma desesperadora. Por mais longe que fossem nossas brigas, ele jamais levantou um dedo para mim e por isso eu nunca o temi. Mas nesse momento, quando viro meu rosto dolorido em sua direção novamente, eu sinto medo.
Meus olhos transbordam e não reconheço mais o homem parado em minha frente, me fulminando com o olhar.
Toco meu rosto, e ele arde ainda mais, como se tivesse pegando fogo. Eu não sei o que meus olhos transmitem, mas sua expressão não vacila em nenhum momento. Sei que ele não está arrependido. É quando chego a conclusão de que ele é simplesmente uma pessoa ruim. Algumas pessoas ficam ruins com o tempo e as circunstâncias, mas ainda podem mudar. Não ele. Choi Tan sempre foi e sempre será uma pessoa desprezível e má.
Para piorar, nesse momento que a porta do banheiro se abre, mas eu não tenho forças para reagir. Estou petrificada, meus joelhos estão tremendo tanto que sinto que vou cair a qualquer momento, enquanto as lágrimas escorrem pela minha bochecha, que pulsa e lateja, provavelmente ostentando a marca dos cinco dedos ali.
– O senhor tem trinta segundos para sair por aquela porta antes que os seguranças cheguem aqui – Baekhyun aponta para a saída com o celular em sua mão, mas eu não consigo ver direito porque meus olhos estão embaçados – ou prefere que eu chame a polícia?
Eu nunca havia escutado Baekhyun usar aquele tom de voz. Ele era sempre tão melodioso, caloroso e suave, mas agora soava rasgado, enfurecido, várias oitavas abaixo da sua voz normal. Aquilo me apavorava, aquele tom frio era horrível de ouvir porque eu sabia que significava que ele não estava nada bem.
– Nós ainda não terminamos! – aponta pra mim ameaçadoramente, e agora seu olhar consegue exatamente o que pretendia. Me sinto pequena como jamais me senti antes. – Eu não vou deixar você arrastar nosso sobrenome para sarjeta que é a sua vida. Se você preza por esse seu empreguinho, é bom você me ouvir e não fugir a próxima vez que eu te procurar. E você – aponta para Baekhyun – seja lá quem for, é bom ficar fora do meu caminho.
Ouço o som da porta batendo e sei que ele foi embora, mas sua presença ainda me sufoca a ponto de eu permanecer sem reação. O ar não passa direito pela minha garganta. Meus olhos estão perdidos no nada, minhas pernas estão a um passo de perderem as forças e eu desabar no chão do quarto, como me sinto desabar por dentro.
Sinto os braços de Baekhyun me segurarem e não sei se ele está me amparando, ou apenas me abraçando. Me sinto destruída, de uma forma que nada pode consertar agora. Aquele tapa havia quebrado o escudo que eu tinha construído ao longo dos anos e que me blindava contra suas palavras tóxicas, e agora tudo o que ele havia dito me atingia de uma vez.
Era como ser alvejada por vários tiros, que atravessam meu corpo e deixam uma ferida aberta para trás.
A dúvida, a culpa, a dor angustiante, tudo me imobiliza, torna o ar doloroso de respirar e as palavras não fazem mais sentido. Eu só consigo chorar. E chorei, chorei de soluçar por muito tempo, encharcando a camiseta a qual me agarrava como se minha vida dependesse disso, mas em nenhum momento o abraço de Baekhyun perde a força. Seus braços se mantiveram firmes ao meu redor, sua boca sussurra palavras contra meus cabelos na intenção de me acalmar, mesmo que eu não conseguisse processar o que ele estava dizendo.
Eu só percebo que estou tendo um ataque de pânico quando Baekhyun segura meu rosto em suas mãos, chama meu nome várias vezes e eu não consigo reagir. Eu sei que é meu nome, mas minha cabeça está barulhenta demais para ouvir. O ar entrando e saindo é tão difícil e doloroso que eu desejo não respirar mais.
Ele estava certo. Eu sou mesmo uma vergonha, minha mente é estragada. Olha para mim agora, é claro que tem algo errado comigo. Eu também teria vergonha de mim, se fosse ele. Eu também me odiaria.
– Respira, – a voz soa longe, como um milhão de sinos harmoniosos me acordando de um sonho – Vamos lá, respira comigo.
Meus olhos gradualmente ganham foco, vejo o rosto de Baekhyun próximo ao meu, mas tudo ao redor parece bagunçado. Seus cabelos estão molhados, seus olhos me imploram para obedecê-lo, mas é tão difícil controlar meus próprios atos. Meu corpo está inerte, me sinto entorpecida como se fosse perder a consciência a qualquer momento e isso me assusta. Não tenho noção do que acontece ao meu redor. Quero reagir, quero me mover e sair desse torpor, mas me sinto sendo puxada para um lugar escuro.
Sinto o medo se espalhando em cada fibra do meu corpo, não consigo respirar, estou perdendo o controle e é apavorante.
– Você não tá sozinha, eu to aqui com você e não vou a lugar nenhum. Escuta a minha voz – as palavras repetidas e o toque de Baekhyun em meus cabelos, naquele momento, são como uma corda me puxando pouco a pouco pra longe da escuridão – Só respira, foca na sua respiração e vai ficar tudo bem. Eu prometo.
Eu confio em Baekhyun. Confio nas suas palavras me dizendo que vai ficar tudo bem, e por isso encontro forças para respirar fundo um, duas, três vezes. Ele conta e respira comigo, fazendo um carinho em meus cabelos cada vez que solto o ar. Demora, mas aos poucos consigo respirar de novo, meu peito já não dói como antes, ainda que seja difícil reagir.
Quero abraçá-lo e agradecer por ter me salvado daquele lugar horrível que minha mente estava prestes a entrar, mas não consigo mandar o comando para o meu cérebro. Não consigo fazer nada.
– Preciso de um banho – digo tão fraco e baixinho que nem sei se ele ouviu, mas não tenho forças pra repetir – Me ajuda.
Ele demora alguns segundos, me avaliando talvez para ter certeza de que ouviu certo. Consigo prestar atenção a alguns detalhes agora, como o fato de que já estamos no banheiro, mas não sei desde quando. Ele me colocou sentada sobre a tampa da privada e está com uma máscara que está abaixada até seu queixo, que provavelmente usou pra não ser reconhecido quando saiu. Aquilo acalma um pouco meu coração e finalmente consigo parar de chorar.
– Tudo bem, só me diga se eu passar de algum limite, ok? – Baekhyun pede, com mansidão, antes de se aproximar e tocar a barra da minha camiseta.
Levanto meus braços com dificuldade, num incentivo para que ele tire logo a peça. Me sinto suja, como se algo podre houvesse encostado em mim, e preciso de inúmeros banhos para me limpar daquilo.
Ele finalmente tira minha blusa, me deixando apenas com o sutiã, nunca desviando os olhos dos meus no processo.
– Preciso que fique de pé, por favor.
Suas palavras são tão calmas e reconfortantes que consigo ajudá-lo a se livrar da minha calça e ele me segura pela cintura, até eu estar embaixo do chuveiro. Paciente, ele me avisa antes de ligar a água, e quando o faz, continua na minha frente, atendo, como se tivesse medo que eu caísse a qualquer momento.
Ele tira a própria camisa num movimento rápido, a jogando em algum lugar que não molhe e então ele me dá banho.
A água quente relaxa cada um dos meus músculos travados e doloridos, enquanto Baekhyun esfrega a espuma tão suavemente em meu corpo que sinto como se ele estivesse me fazendo um carinho. Lava meus cabelos com calma, limpa meus braços, cada um de meus dedos cuidadosamente e então se agacha em minha frente, pronto pra fazer o mesmo com minhas pernas, mas eu o paro com um gesto mínimo, que o faz levantar instantaneamente.
– Acho que consigo agora – anuncio, ainda sem força.
– Tudo bem – ele diz, mas não se afasta. Leva suas mãos até meu rosto, passa tão delicadamente em minhas bochechas que eu mal sinto seu toque, seus olhos estão atentos a cada movimento. Quando termina, se aproxima ainda mais, beija minha testa sem se importar em entrar embaixo da água para isso, e então se afasta de vez – Se precisar de qualquer coisa, vou estar do lado da porta.
Quando ele sai, tiro as peças íntimas que ainda estavam em mim e termino o banho como posso. Deixo a água quente caindo sobre minha nuca por mais algum tempo, tentando colocar minha mente de volta nos trilhos. É tudo tão difícil e doloroso, que nem me preocupo em me secar direito. Me enrolo na toalha e saio do banheiro.
Baekhyun está me esperando ao lado da porta, como prometeu. Sem dizer nada, ele pega uma roupa em minha mala, que pra minha sorte ele já conhece como se fosse parte de seu próprio guarda roupa, me entrega com cuidado, se afasta e vira de costas para que eu possa me trocar.
Eu quero rir de como ele está sendo bobo, todo cuidadoso como se eu fosse uma criança, mas o canto dos meus lábios parece pesar, o comando de sorrir parece ter desaparecido do meu cérebro. Eu apenas visto o pijama folgado que ele escolheu para mim e o puxo pela mão em direção a cama sem dizer nada, até estarmos deitados de frente um para o outro.
Meu corpo se encolhe automaticamente, como se eu quisesse me fechar e me proteger de algo que ainda pode me machucar. Baekhyun continua pertinho, incansavelmente fazendo carinho em meus cabelos.
– Sinto muito que teve que ver tudo isso – solto, sem conseguir disfarçar a tamanha tristeza em minha voz.
– Eu é que sinto muito por você ter passado por isso – ele fecha os olhos e uma ruguinha se forma entre suas sobrancelhas – , me desculpa por não ter saído do banheiro antes e impedido aquilo. Eu ouvi vocês conversando e achei que…
– Shh! – Cubro seus lábios com meu polegar, ao que espalmo meus dedos em sua bochecha macia – Você nem devia ter saído do banheiro, seu idiota. Se ele te reconhecesse, nem quero imaginar o tamanho da merda que seria. Isso foi totalmente perigoso e imprudente, mas… obrigado por ter saído.
– Não precisa agradecer. Eu vou sempre proteger a minha garota.
Queria reagir às suas palavras, perguntar o que aquilo significava, mas eu não conseguiria iniciar uma conversa no estado entorpecido e sonolento que eu me encontrava. Apenas me aproximei mais, até estar encostada no aconchego de seu peito. Nossas pernas estavam entrelaçadas como sempre, um braço seu me segurava ternamente pela cintura enquanto o outro continuava ocupado me fazendo um cafuné que aos poucos me levava ao estado de inconsciência.
– Ah… sobre o assunto do almoço – balbucio as palavras com lentidão, abafadas contra seu peito, já quase embarcando no mundo dos sonhos. Inalo seu cheiro calmante, me sentindo melhor a cada respiração – Eu ia reclamar sobre nunca ter ido a um encontro, mesmo odiando clichês, mas agora isso parece tão pequeno e patético. Vou só esquecer… Me ajuda a esquecer, Baek.
Se ele respondeu algo depois disso, eu não saberia dizer. Nós nunca havíamos dormido juntos, por mais que a gente perdesse a noção do tempo, sempre voltávamos para nossos respectivos quartos antes de dormir por questões de segurança. Por isso, quando peguei no sono agarrada ao seu corpo, desejei profundamente que ele estivesse ali quando eu acordasse, mas eu sabia que ele não estaria.