Sorte no Azar

Sorte no Azar

Sinopse: Sua vida era baseada em uma coletânea de eventos desafortunados, em seu caminho só apareciam pessoas malucas e sua maré infinita de azar tornava cada passo uma inesperada, e hilária, desventura, até conhecer seu amuleto da sorte, o dono do sorriso mais lindo da Coreia do Sul.
Fandom: Seventeen
Gênero: Comédia romântica, ficção, aventura
Classificação: 18
Restrição: Nenhuma.
Beta: Alex Russo

Capítulos:

 

Capítulo 1 – Pessimista não, amaldiçoada!

– Carregador portátil, ok. Meu celular tá com 100% de bateria, mas esse maldito é traiçoeiro, não dá para confiar. Lencinhos umedecidos. Maquiagem pra retocar assim que eu chegar lá. Protetor solar? – olhei pela janela só para constatar que estava iniciando mais um dia ensolarado e sem nenhuma nuvem no céu, do jeitinho que eu odiava. – É, vou precisar. Guarda-chuva também, ok.
– Pra que guarda-chuva, doida? Tá o maior sol lá fora, não existe previsão nenhuma de chuva, só se for pra surtar igual a Britney Spears em 2007 e sair agredindo as pessoas na rua. – Jin soltou mais um de seus comentários brincalhões, devia ser o décimo naquela manhã. Revirei os olhos, sem me dar ao trabalho de lhe direcionar o olhar.
A bicha folgada estava deitada confortavelmente em minha cama, esparramada como se fosse dona e ainda abraçava a minha vaca de pelúcia. Seu cabelo rosa estava espetado para todos os lados, numa bagunça que se assemelhava a um ninho, usava o pijama rosa de ursinhos carinhosos que dei a ele em seu último aniversário e exalava bom humor muito cedo para minha mente acompanhar. Ele me observava arrumar todos os itens na bolsa que escolhi para usar hoje, com olhos pequenos e sonolentos.
– Com o azar que eu tenho, sei que assim que eu pisar para fora do prédio o tempo vai fechar e vão cair raios e trovões diretamente na minha cabeça. Contatos de emergência, band-aid, pomada para queimadura…
– Lá vem você com essa história de azar de novo, desencana demônia –
bateu a mão no colchão, revoltado. – Você precisa parar de ser sempre tão pessimista e achar que tudo vai dar errado.
– As coisas sempre dão errado para mim, você é meu amigo há tempo o suficiente para saber que é verdade. Lembra semana passada, quando eu falei que ia começar a me exercitar e no minuto seguinte torci o pé? Ou quando comprei aquela pizza maravilhosa que eu queria comer fazia dias, e derrubei o copo de coca dentro da caixa antes mesmo de pegar um pedacinho? Ou talvez quando finalmente criei coragem de elogiar o cabelo novo do vizinho e o cachorro dele me atacou, e eu rolei escada abaixo engalfinhada com um chihuahua? Essas coisas não são coincidência, minha vida é uma maré infinita de azar.
– Isso é tudo reflexo do seu mau humor, que é reflexo da falta de um namorado, ou namorada…
– Lá vem você de novo com essa história de que eu estou encalhada.
– Mas você está encalhada – me olhou como se fosse óbvio e eu o ameacei com o punho fechado.
– Jin, lembra mês passado, quando combinei de encontrar aquele cara gatinho do cabelo cacheado no shopping, e quando o vi dei de cara na porta de vidro? Eu quase tive traumatismo craniano e trinquei o vidro do shopping. Ainda bem que não quiseram cobrar, ou eu estaria ainda mais quebrada.
– Isso não quer dizer nada…
– Teve aquela vez com seu primo também, lembra? Minha calça rasgou na bunda, no meio da nossa sessão de amassos no cinema. Bem no dia que eu estava usando aquela calcinha vergonhosa de panda, que só coloco quando já desisti da vida. Querida, eu não sou pessimista, eu sou amaldiçoada.
– Você tem a maldição de atrair as coisas que mentaliza, apenas. Você repetiu tanto isso para si mesma que realmente acredita que é verdade. Pensa que vai dar tudo certo, foca nisso…
– Sai daqui com esse seu papo de bichagoodvibes! – fechei o zíper da bolsa e soltei um longo suspiro, me controlando para não jogar a primeira coisa que encontrar pela frente na cara dele. – Isso não funciona para mim, nada funciona. Já tentei mentalizar todos os unicórnios coloridos e felizes que você vive falando, e mesmo assim continuo azarada. Eu tenho certeza que é uma maldição, é a única explicação.
– Se você não acredita em mim, vou te levar a alguém que acredite. Vamos a uma cartomante hoje, depois da sua entrevista. Talvez se alguém desse ramo místico que você acredita te disser que você não é amaldiçoada merda nenhuma, você acredite e pare com essa bobagem. Seu pessimismo já ta me afetando, vou até fazer máscara de argila – começou a abanar o rosto, como se pudesse espantar meu azar antes que o contaminasse.
– Tá maluco? Eu não tenho dinheiro para pagar uma cartomante, mal tenho dinheiro para pagar o aluguel. Você vai ter que dizer adeus a sua maravilhosa roomate e melhor amiga se eu não conseguir esse emprego hoje. Tira o pé, coisinha! – empurrei o pé do folgado que estava em cima da última peça de roupa que faltava pra completar meu visual.
Observei minha imagem refletida no espelho pela milésima vez, para checar se não estou deixando passar nada. Minha entrevista será para uma revista de moda renomada da Coréia do Sul, a NStyles, e se o cantinho da gola do meu sobretudo vermelho estivesse errado sei que já não teria chance. Precisava estar impecável, então todo cuidado é pouco.
– Eu pago, sua penosa, é um presente. – Eu não fazia ideia de onde ele tirava aqueles apelidos, Jin devia ter seu próprio dicionário. – Vou ficar enchendo o saco até você aceitar, e sabe como eu sou insuportável quando quero alguma coisa, então aceite logo de uma vez.
– Seokjin… – soltei mais um suspiro, contando até dez mentalmente. Não queria me estressar antes da entrevista e arriscar borrar a maquiagem perfeita que acordei às seis para fazer.
– Me manda uma mensagem assim que sua entrevista terminar. Passo lá te buscar e pago seu almoço! – o dissimulado mandou três beijinhos em minha direção e pulou pra fora da cama, me deixando sozinha no pequeno cômodo que chamo de meu quarto.

Kim Seokjin era teimoso e irritantemente alegre, sempre esbanjando bom humor, animação e sorte em tudo que se dispõe a fazer, tudo que eu odeio por ser meu completo oposto, nem sei como ele acabou virando meu melhor amigo. Prefiro não discutir e apenas aceitar que ele vai me arrastar para essa cartomante por bem ou por mal. Apesar de conviver comigo desde que me mudei pra Seul, Jin não acredita em sorte ou azar, mas diferente dele eu sei que há algo errado comigo.
É por isso que, apesar de morar no sétimo andar, sempre desço pelas escadas. Evito elevadores porque já tive experiências o suficiente com eles parando, apresentando mal funcionamento, ou simplesmente despencando três andares comigo dentro. Sei que entrar em uma caixa metálica que fica pendurava a muitos metros do chão, com o meu azar, é como assinar meu atestado de óbito.
Assim que cheguei ao térreo limpei meu pé com um lencinho e coloquei meu sapato de volta. Seria impossível descer 14 lances de escada com aquele salto fino de 11 centímetros sem cair e quebrar a perna. Passei pelo porteiro sem cumprimentá-lo. Eu nunca sabia se ele está dormindo ou acordado, ele apenas continuava na mesma posição com a cadeira inclinada para trás, as mãos cruzadas sobre sua enorme barriga e o chapéu cobrindo os olhos. Talvez estivesse até morto, jamais desconfiaríamos.
Observei os dois lados da calçada antes de descer os três degraus que levavam a saída do prédio. Estava cedo e o bairro é tranquilo, então quase não havia pessoas ou carros na rua. Agradeci mentalmente por isso, pois era menos elementos para me preocupar.
Infelizmente não andei nem uma quadra em direção ao metrô e já tive o primeiro sinal de que eu estou certa, sou mesmo amaldiçoada. O tempo, até então limpo e ensolarado, fechou de uma hora para a outra e os primeiros pingos irritantes de chuva molharam meus cabelos antes que eu conseguisse tirar o guarda chuva de dentro da bolsa.
Praguejando furiosa, travei uma batalha contra o botão para abrir o objeto que parecia emperrado. Chacoalhando para todo lado freneticamente, continuei caminhando o mais rápido que meus saltos me permitiam. Quando finalmente consegui apertar o botão, a parte que devia me proteger da chuva simplesmente saltou para longe e eu fiquei segurando apenas o cabo do guarda-chuva.
– Argh, porcaria! Nunca mais compro nada em camelô! – esbravejei para o céu, para o nada, porque não sei qual a causa da minha constante falta de sorte para colocar a culpa.
Não tinha outra escolha senão tirar meu sapato novamente e correr as duas quadras que faltavam para chegar ao metrô. Quando atravessei a catraca e finalmente me livrei da chuva, toda a minha produção já estava arruinada. Meu cabelo estava armado, minha maquiagem escorrendo e eu pisara numa pedra no caminho, o que tornava meu sapato extremamente desconfortável de usar.

Queria me jogar no chão e chorar de ódio, mas não podia, precisava desesperadamente daquele emprego. Como eu já sabia que esse tipo de coisa podia acontecer – sempre acontece -, sempre saio de casa muito tempo antes do meu compromisso, para dar tempo de arrumar as desgraças que eu atraia pelo caminho.
Sob olhares julgadores de todas as pessoas pelo caminho, entrei no banheiro fedido do metrô e arrumei minha maquiagem em tempo recorde. Penteei meu cabelo e prendi a parte armada com uma presilha bonita, que combinava com meu look e me dava um ar mais jovem.
Entrei cuidadosamente no vagão, encontrei um lugar para sentar e finalmente posso respirar aliviada. Estava 90% inteira, e já estava na metade do caminho. Nas outras entrevistas de emprego que tentei fazer nos últimos meses o fiasco havia sido bem pior, eu chegava nelas uns 60% inteira normalmente. Até vomitei sem querer no sapato caro de um dos entrevistadores, porque havia comido algo estragado na noite anterior.
Achava que dessa vez ia conseguir… Mas como sempre, sou traída pelo meu próprio pensamento. Quando cheguei a estação na qual precisava descer e estava pronta para levantar, o bebê que estava no colo da mulher ao meu lado faz o grande favor de derrubar a papinha verde que estava comendo em meu sobretudo.
– Ai, moça! Eu sinto muito, ele é um desastradinho mesmo. – a mãe da criança disse, mas podia ver em seu olhar que ela não sentia coisa nenhuma. Ainda fez um carinho na bochecha do mini praga babona.
– Sorte sua que você é só um bebê. – murmurei ameaçadoramente, apontando o dedo para carinha do meliante, que ainda teve a capacidade de dar uma risada desdentada para mim.
Desci do vagão bufando de raiva e fui direto ao banheiro mais uma vez. Limpei o máximo que consegui com água e mais alguns lencinhos umedecidos, mas a mancha escura não saia de jeito nenhum.
É por isso que eu odeio crianças.
– O que eu faço? O que eu faço?
Ainda faltavam 40 minutos para a entrevista, mas não era tempo suficiente para eu voltar e trocar de roupa. Também não tinha dinheiro para comprar outro casaco, afinal estava tão quebrada que se eu voltasse de táxi não teria dinheiro para almoçar por uma semana.
– Não deixe o desespero tomar conta! Você já passou por situações piores e saiu viva, , isso não é nada. – falei para o meu reflexo no espelho com toda a determinação que me restava. Quase nada.
A única solução que encontrei foi segurar a bolsa bege que carregava em meu ombro, de forma que ela cobrisse a mancha na lateral da minha roupa. Eu só tinha que me lembrar de permanecer segurando ela o tempo todo.
Me sentia patética, mas pensando positivamente ainda estava 85% inteira. Talvez ainda tivesse alguma chance, se as outras candidatas estivessem piores que eu.
Observei o céu mais uma vez antes de voltar a caminhar na calçada. O tempo abriu novamente, as ruas estavam molhadas, mas os raios de sol voltaram a dar as caras. Parecia um bom presságio.
Eu precisava apenas atravessar um pequeno parque e chegar a avenida do outro lado, onde ficava o prédio da NStyle, a revista onde sonhava trabalhar. Eram só algumas centenas de metros, grama, árvores e bancos de madeira. Havia apenas uma aglomeração de pessoas e câmeras no caminho, deviam estar gravando algo para algum programa de televisão, se eu caminhasse rápido passaria por eles sem ser notada.
– Você consegue fazer isso, ! Você consegue! – levantei meu punho no ar, tentando mentalizar toda a força positiva que existia dentro de mim. Era bem pouca, se quer saber.
Meu plano era ir a passos rápidos e firmes pela lateral do gramado do parque, onde havia um caminho de pedras que separava a grama verdinha e úmida do asfalto da rua, eu passaria a alguns metros da aglomeração e daria tudo certo.
Infelizmente, meu azar tinha outros planos.
Eu estava na metade do caminho, de queixo erguido e concentradíssima em caminhar sem tropeçar, quando um carro passou muito rápido por uma enorme poça e toda a água espirrou diretamente em mim como um jato. Meu rosto ardeu pela violência que os pequenos pedregulhos do asfalto me acertaram, a água suja escorreu para os meus olhos e entrou na minha boca entreaberta de surpresa. Em questão de milésimos de segundos, eu estava cambaleando sem direção.
Molhada, suja e desesperada, usava o que sobrou da minha dignidade para tentar limpar meu rosto e enxergar direito, soltando todos os palavrões que eu conseguia lembrar. Antes que eu conseguisse me recuperar, algo acertou a lateral da minha cabeça com muita força, o impacto me jogou para o lado e eu caí no chão feito um saco de batatas.
Des-mai-ada.

 

Capítulo 2 – Expulsos da cartomante

Eu morri.
É isso, finalmente meu azar atingiu seu auge, eu levei uma paulada na cabeça e morri. Eu vou pro céu ou pro inferno? Tenho certeza de que se existe um Deus, ele não ia me querer no paraíso ou era capaz de eu botar o lugar abaixo.
Mas então, se não morri e fui para o céu, por que quando abri meus olhos a primeira coisa que vi foi um anjo? Ele era magnífico. Sua aura branca e cintilante reverberava por todo meu campo de visão, tão brilhante que meus olhos ardiam com a claridade repentina. Minha cabeça latejava e meu corpo pesava como se algo estivesse me prendendo ao chão.
Demorei alguns segundos para me acostumar com a sua luz.
– Você está bem? – a voz do anjo era um dos sons mais bonitos que já ouvi na vida, mesmo que ainda soasse abafada e distante. Só faltava as trombetas ao fundo.
– Não. – resmunguei grogue. – Seu sorriso está me cegando.
Finalmente a dor me trouxe de volta a realidade. Percebi que estava deitada na grama do parque e havia um homem se inclinando sobre mim. Seu rosto vacilava entre um olhar preocupado e um sorriso tão enorme e brilhante que eu precisava cobrir meus olhos para que minha retina não queime.
Por que ele está sorrindo afinal?
– Por favor, não se mexa. Já chamamos uma ambulância, eu sinto muito por…
– Ambulância? O que?! Não, eu não preciso de ambulância, eu tô bem. Meu Deus, minha entrevista de emprego! Eu preciso ir. – sem delicadeza alguma, o empurrei para fora do meu caminho e usei todas as minhas forças pra levantar.
Havia uma pequena aglomeração ao meu redor, além do dono do sorriso, e várias delas tentavam me convencer a continuar parada, mas não tinha tempo para convencê-los de que eu estava bem.
– Desculpa, eu preciso muito desse emprego! – gritei, curvando meu corpo desajeitadamente, quando já estava a alguns passos de distância deles.
Quando cheguei a porta giratória do prédio da NStyles percebi o estado de calamidade no qual me encontrava. Observei meu reflexo no vidro e quase chorei de desgosto. Eu parecia a Samara de “O Chamado”, vinda direto das profundezas do poço. Havia grama e pequenas folhas por todo meu cabelo, que estava tão bagunçado que eu parecia ter acabado de levar um choque. Toda a lateral do meu sobretudo estava suja de terra, assim como minha perna e meus sapatos.
Ah, meus caríssimos Jimmy Choo, me perdoem!
A pior parte era a gigantesca marca vermelha e inchada que se estendia da minha têmpora esquerda até metade da minha testa. Quando a toquei senti toda minha cabeça latejar. Não existia maquiagem no mundo que conseguisse esconder aquilo.
Estava no máximo 25% inteira.
Mesmo assim, engoli todo meu orgulho e entrei no edifício. Conferi quanto tempo tenho antes da entrevista, para saber se conseguiria arrumar pelo menos minha maquiagem borrada, mas para meu completo desespero constatei que já estava atrasada.
A recepcionista, que mais parecia uma boneca Barbie asiática, me olhou da cabeça aos pés enquanto eu me aproximava, e eu quis muito socar aquela cara claramente plastificada quando a mocréia torceu o nariz em minha direção ao que perguntei sobre a entrevista.
– Todas as entrevistas já começaram.
– Eu sei! Estou atrasada, mas não é minha culpa. Eu peguei chuva, machuquei o pé, uma criança derrubou papinha em mim e alguém me deu uma paulada! – apontei para a marca em minha cabeça, sem conseguir controlar minha voz que saiu alta e esganiçada. – Tudo para conseguir esse emprego. Por favor, moça, eu preciso muito desse emprego!
– Isso eu posso perceber. – ela me olhou da cabeça aos pés novamente, deixando explícita sua cara de nojo dessa vez. – Por favor, controle seu tom de voz. Você está atrasada e não toleramos atrasos, peço que se retire e tente outra vez quando estiverem contratando novamente. Talvez… para vaga de zeladora?
Ok, aquele era meu limite. Eu vou matar essa Barbie do capeta e vai ser agora!
– Não toleram atrasos, mas toleram recepcionistas mal educadas e grosseironas? – avancei feito um Pitbull raivoso em direção a bancada que nos separava com meu dedo bem no meio da cara dela – Você escolheu a pessoa errada no dia errado para provocar. Eu vou entrar nessa entrevista ou vou desfigurar essa sua cara botocada todinha, sua rata…
– SEGURANÇA!
E simples assim, fui arrastada para fora do edifício por dois brutamontes, que me seguravam pelos braços enquanto eu esperneava de ódio. Não consigo sequer passar da recepção, antes de ser jogada de volta na rua.
Azarada, desempregada, imunda e triste. Eu era o retrato da derrota, sentada no meio fio, chorando e sendo julgada pelas pessoas bem vestidas que entravam e saiam da NStyles.
Que um raio caia sobre elas!
Após alguns minutos, acho que já foi humilhação demais ficar daquele jeito, pego o celular do bolso do casaco e digito com uma mão, enquanto limpo as lágrimas remanescentes, e um pouquinho da gosma que escorria pelo meu nariz, com a outra.
“Vem me buscar, e não faça perguntas :(” Eu ás 09h45
“’Tô chegando… o que aconteceu?” Jinnie ás 09h57
“Por favor, leia o final da primeira mensagem de novo. E como assim chegando, vai vim de tele transporte?” Eu ás 09h58
– Ui grossa, eu tava numa cafeteria a aqui perto. – ouvi sua voz, e quando levantei a cabeça lá estava Seokjin, dentro do seu fusca amarelo esperando por mim a alguns metros. Ele havia parado no meio da rua bloqueado o tráfego da avenida, então os carros que vinham atrás buzinaram e desviaram com violência. – NÃO BUZINA PARA MIM NÃO, SEU ANIMAL! NÃO VÊ QUE EU TÔ RECOLHENDO UMA INDIGENTE AQUI DA CALÇADA! – Gritou com a cabeça para fora da janela, apontando na minha direção.
– Indigente é a senhora sua…
– Ei, não fale mal da minha santa mãezinha. ‘Tá fazendo o que largada ai no meio fio, feito uma derrotada?
Levantei da calçada desajeitada, joguei minha bolsa no banco de trás do fusca e afundei ao lado do motorista. Ele acelerou e o veículo barulhento arrancou com força, voltando para o fluxo de carros.
– Sem perguntas, ou eu vou começar a chorar de novo. – murmurei, olhando para o teto.
– Não conseguiu o emprego?
– Eu nem cheguei a fazer a entrevista, Jin! – Pronto, eu já estava chorando de novo. – Sei que você não acredita nessa droga de azar, mas se eu te contasse às coisas que aconteceram pelo caminho você me chamaria de louca.
– Mas eu já te chamo de louca.
– Eu fui chutada para fora do prédio da revista pelos seguranças. – ignorei seu comentário e continuei meu desabafo desenfreado. – Olha o estado da minha roupa, do meu cabelo, eu levei até uma paulada na cabeça e desmaiei.
– Não fica assim, amiga. Vão ter outras entrevistas.
– Você não entende, Jin… – funguei, limpando o nariz na manga do meu sobretudo, afinal já estava digno de ir pro lixo. – Eu não tenho dinheiro pra pagar o próximo mês de aluguel, eu nem tenho dinheiro para comprar comida mês que vem. Eu ‘tô completamente quebrada, pobre, miserável. Esse emprego era minha última esperança, agora tudo o que me resta é voltar para a casa dos meus pais com o rabo entre as pernas e recomeçar todo o meu sonho de abrir minha própria grife. É inacreditável quão derrotada eu me sinto nesse momento.
– Isso bebê, bota tudo para fora. – Jin dava uns tapinhas nas minhas costas, sem desviar o olhar da estrada.
– Tudo por culpa… dessa merda… de maldição… – intercalei minhas palavras furiosas com os soquinhos que eu dava no painel do carro.
– Ei, não desconte na Fuskátia. – tirou a mão das minhas costas e acariciou o veículo onde eu havia batido. – Não precisa se preocupar, nós estamos chegando à cartomante, logo você vai ver que isso não tem nada a ver com azar. Ou pelo menos compramos uns 10 amuletos da sorte pra você se sentir mais segura.
– Para quem não acredita em misticismo, você tá realmente confiando nessa cartomante, hein?
– Eu li muitos reviews ótimos sobre ela na internet, é a melhor da cidade. Ela previu a traição de um CEO super famoso, a mulher dele estava saindo com o motorista e ela viu tudinho no tarô. Saiu até numa revista.
– Jin, você acredita muito fácil nas coisas que lê na internet. Se eu chutar aquela árvore cai três esposas de CEOs que traem o marido com o motorista, essa até eu conseguiria prever.
– Vamos aguardar e ver quem quebra a cara, mulher de pouca fé. Agora me conta uma coisa.
– O que?
– Como assim você levou uma paulada na cabeça e desmaiou, doida? Eu ‘tô vendo sua testa vermelha, achei que estivesse nascendo um chifre, mas lembrei que você é uma encalhada… – bicha maldita, ainda tinha a pachorra de rir da minha cara.
– Eu não sei se foi uma paulada, mas doeu tanto quanto uma. E você sabe muito bem que eu conheço a dor de levar uma paulada, foi você mesmo que deu da última vez.
– Eu já disse que foi sem querer, como eu ia adivinhar que era você entrando pela janela no meio da madrugada porque tinha perdido a chave, e não um ladrão?
– Voltando ao assunto principal, eu estava atravessando aquele parque entre o metrô e a avenida, quando um carro passou numa poça d’água e me deu um banho, aí logo em seguida algo acertou minha cabeça muito forte e eu caí durinha no chão. – expliquei, gesticulando exageradamente para passar veracidade, como sempre acontecia quando eu contava as coisas bizarras que viviam me acontecendo.
– E não foi assaltada? Conferiu se estava com todos seus pertences? Se bem que com o tanto de coisa que você carrega nessa bolsa estaria conferindo até agora.
– Hoje você ta pedindo para levar um soco, né, sua palhaça? – ameacei com o punho fechado perto da fuça daquele dissimulado, que só continuou rindo da minha cara como se nada tivesse acontecido. – E não, eu não fui assaltada. Quando voltei a mim havia umas pessoas ao meu redor falando sobre chamar uma ambulância, mas eu estava atrasada para entrevista então só levantei e fui embora correndo.
– Não deviam chamar uma ambulância, deviam chamar o carro do manicômio. Como que você levanta e sai correndo depois de algo te acertar tão forte na cabeça a ponto de você desmaiar? Depois quando eu te chamo de maluca…
Conforme nossas discussões calorosas foram acontecendo, o que era comum entre Jin e eu, chegamos a entrada da loja da cartomante. A vitrine era coberta por uma cortina roxa com detalhes dourados e as portas de vidro quando se abriam, dividiam ao meio um desenho do sol e da lua interligados por vários fios prateados. Logo acima, na fachada estava escrito em letras brilhantes: “Madame Namu, vidente especialista em: amarrações, problemas amorosos, homem brocha e kimbap”.
– Tem certeza que esse é o lugar? – questionei incerta, ao atravessarmos a porta de vidro.
Um sino soou ao mesmo tempo em que meus cabelos esvoaçavam pra trás e uma nuvem de fumaça se alastrou pelo chão, subindo até nossos joelhos em espirais. A luz amarelada e as decorações em cores quentes e vivas davam ao estabelecimento um ar totalmente místico. Pelo menos até o ventilador ligado em cima da bancada da recepção, que continuava fazendo meus cabelos esvoaçarem, dispersar todo o ar ao redor e eu ver a máquina de fumaça no canto da loja.
– Olá, eu marquei um horário com a Madame Namu. – Jin anunciou, ainda olhando o ambiente ao redor.
– Seokjin e , certo? – a voz forte e máscula respondeu.
Observei a pequena figura saltar para cima da cadeira giratória e se debruçar sobre a bancada para nos olhar mais de perto. Quando digo pequena, eu quero dizer pequena mesmo. O recepcionista era um anão vestindo uma túnica vermelha cheia de penduricalhos que faziam barulho quando ele se movia.
– Como você sabe? – Jin perguntou, com a boca entreaberta.
– Você me disse seu nome no telefone uma hora atrás, docinho, sou apenas o recepcionista sem poderes mágicos, a Madame está aguardando vocês no fim do corredor, atrás da cortina. – sorriu educadamente, saltando para cima da bancada nos fazendo recuar um passo assustados. Caminhou com suas perninhas curtas tranquilamente até a ponta, onde gesticulou para o corredor numa reverência exagerada e um sorriso diabólico. – Por aqui, por favor.
Agarrei o braço de Seokjin conforme caminhávamos pelo corredor vermelho e estreito, de luz baixa. Aquele lugar bizarro me dava calafrios. Ao fim do corredor havia uma cortina de veludo roxo, que se estendia do teto ao chão. Quando levantei a mão até o tecido, incerta se devia apenas atravessar, afinal era impossível bater na cortina para anunciar minha chegada, mas nem foi preciso. Uma voz envolvente ecoou:
– Entrem, por favor. Sem medo.
Mas como é que eu não vou sentir medo de uma voz dessa vindo do nada? Dei um pulinho, me agarrando ainda mais ao braço de Seokjin. Foi ele que tomou a iniciativa de abrir a cortina e entramos na sala da Madame Namu.
A figura a poucos metros de nós era difícil de descrever. Grande, de ombros largos cobertos por várias camadas de uma túnica roxa com vários desenhos bordados a ouro, longas madeixas negras com uma trancinha de cada lado, ambas adornadas com pequenos anéis. Haviam várias pedras preciosas desciam em linha reta pelo centro de um enorme turbante dourado, e a última estava colada bem no meio da testa da figura estranha. Seu rosto ostentava uma maquiagem muito pesada, que levantava os cantos de seus olhos de forma misteriosa, que me causava um frio na espinha.
Quando fizemos o primeiro contato visual, senti como se ela pudesse enxergar minha alma.
– Sejam bem vindos, sentem-se, por favor. – apontou a mão cheia de pulseiras e anéis para as duas cadeiras almofadadas, no lado oposto da mesa redonda onde ela se encontrava.
Retirei meu sobretudo, tentando amenizar a sensação de abafado daquele lugar antes de nos sentarmos junto a ele. Observei a enorme bola de vidro luminosa no centro e não pude controlar minha curiosidade.
– Isso é uma bola de cristal de verdade? – apontei.
– Oh, não, é só minha luminária. – Madame Namu segura o globo brilhante pelas laterais e afasta para o lado, sorrindo sem mostrar os dentes, mas fazendo uma enorme covinha aparecer em sua bochecha. No processo a cartomante quase derrubou a luminária da beirada da mesa, se Jin não tivesse reflexos muitos bons e nos salvado de um pequeno desastre. – É para dar um clima.
Quanto mais a observava, mais achava que havia algo errado, e não era apenas o fato dela parecer meio desastrada e esquisita. Seu rosto esguio tinha traços firmes, seu maxilar era muito bem delineado, ela era bonita, mas havia algo estranho ali.
– Vamos direto ao assunto, o que os traz aqui?
– Ué, não era para você saber, Cartomante?
– Não é assim que funciona, minha filha. Nós adivinhamos coisas específicas, precisamos saber o que busca com essa consulta. – cruzou as mãos abaixo do queixo, esperando por mais informações.
– Nós? – questionei.
– Eu e as forças que me guiam – disse numa voz afetada levantando as mãos para o teto. Logo voltou a me olhar, com um sorriso esperto. – Mas se quer o trabalho completo, por mais trinta mil wons eu adivinho até a cor da sua calcinha.
– Essa eu quero ver. – Jin respondeu rápido, pegando a carteira no bolso e batendo as notas na mesa, com o olhar fascinado na cartomante.
– Ok, então vamos ver o que as cartas de tarô nos revelam sobre você – ela pegou a pilha de enormes cartas roxas e começou a embaralhar com agilidade. Era a primeira coisa que eu a via fazer algo de forma ágil, a coitada era muito desajeitada. – Coloque a mão sobre a pilha, as cartas precisam sentir sua energia. – ela esticou o braço em minha direção, com as cartas sob a palma da mão.
Levei a mão até ela sem muita certeza do que estava fazendo, mas assim que depositei minha palma cobrindo o baralho, ela fechou os olhos, tremeu o corpo todo e então voltou a me encarar.
– Menina, que energia pesada da porra! – arregalou bem os olhos, assustada.
– Viu! – retirei a mão e me voltei pra Seokjin ao meu lado – Eu te falei Jin, sou amaldiçoada.
– Ela disse energia pesada, não quer dizer que é necessariamente uma maldição…
– É uma maldição sim, sinto muito – a Madame nos interrompeu, abrindo o baralho em um semicírculo perfeito sobre a mesa em mais um movimento rápido e habilidoso. – Sua energia negativa é tão forte que minhas cartas quase saíram correndo por aquela porta quando as tocou. Esse é o motivo de sua consulta, certo? – afirmo com a cabeça. – Passe a mão sobre as cartas lentamente dessa forma, vamos descobrir mais sobre essa maldição.
Imitei seu gesto e passei a mão direita sobre as cartas, a milímetros de distância, mas sem tocá-las. O bizarro foi que uma carta simplesmente foi atraída pela minha mão e grudou na minha pele suavemente. Olhei assustada na direção da cartomante, mas ela apenas pegou a carta da minha mão e virou na mesa.
– A Roda da Fortuna está de ponta cabeça, hm interessante. A Roda da Fortuna normalmente significa que as recompensas virão de acordo com o que foi plantado, ou talvez a repetição de um ciclo até que a lição seja aprendida? –
coçou o queixo. – Mas de ponta cabeça ela é perigosa. Tire outra, por favor – fiz o que ele pediu e logo outra carta estava grudada em minha mão sem eu tê-la tocado. – O Enforcado, como eu imaginei. Essas duas cartas juntas significam que você passa por um período de aflição e angústia há muito tempo, sem entender direito o motivo. Continue – incentivou.
Enquanto ela avaliava a carta da Roda da Fortuna mais atentamente, como se ela fosse dizer alguma coisa, quatro cartas se elevaram ao mesmo tempo em direção a minha mão. Ela pegou as quatro sem surpresa e virou uma de cada vez.
– Oito de Espadas. Essa carta é um dos arcanos menores, enquanto os arcanos maiores nos dizem sobre sua vida num aspecto geral, os menores são mais voltados para os detalhes do cotidiano. Esse Oito de Espadas significa perigo, menina você vive em constante perigo, como ainda está viva? – dou de ombros, pois me perguntava a mesma coisa todos os dias. Ela virou as outras cartas em minha mão. – Oito de Copas, fracasso. Cinco de Copas, frustração. Nove de Espadas, sofrimento.
– Fracasso, frustração e sofrimento, parece até que você está narrando um dia qualquer da minha vida. – reviro os olhos, pois eu já sabia de tudo aquilo. – Só falta agora sair A Morte.
Dito e feito, a cartomante vira a carta seguinte e dou de cara com A Morte.
– Amiga se você morrer me deixa sua coleção de sapatos de grife de herança, por favor.
– Para que você quer meus sapatos, Jin? Você calça 5 números a mais que eu.
– Vou vender, óbvio. Com o dinheiro de dois pares de sapato seus eu consigo reformar a Fuskátia todinha.
– Olha só, que maravilha – a cartomante parecia feliz com alguma coisa, talvez com o fato da minha desgraça pagar seu salário. – Essa carta pode ser meio assustadora pelo desenho da pessoa em estado de putrefação, mas na verdade ela é muito positiva para você. Significa que algo logo vai chegar a um fim definitivo na sua vida, e como, pelo que as cartas me mostraram até agora sua vida é uma coletânea de desgraças, só pode ser o fim desse ciclo de azar.
– Meu azar vai acabar? – pergunto, animada de verdade com a ideia. Estava inclinada em sua direção, com os olhos arregalados de interesse e a boca entreaberta. Eu devia estar parecendo o Smeagol vendo o Precioso, pela reação da Madame Namu.
– Continue tirando, as cartas ainda estão conversando. – obedeci, dessa vez com empolgação. – É, eu estava certa novamente, o Rei de Ouros significa que finalmente terá sucesso em algo que deseja muito. Ás de Copas é felicidade plena. Algo precisa morrer na sua vida, para que você tenha um novo recomeço que será bem sucedido e trará felicidade.
– Espera, quando é que passamos de fracasso, sofrimento e morte para sucesso e felicidade plena? Eu me perdi um pouco na explicação geral. – Jin gesticulou para as cartas viradas na mesa.
– Tudo bem, vou recapitular pra vocês. – a Madame suspirou pesadamente, antes de começar a falar. – Algo muito forte está interferindo na sua vida, forte o suficiente para colocar sua Roda da Fortuna de ponta cabeça. Quer dizer que você não está colhendo algo que plantou, com o tanto de desgraça que lhe acontece só colheria isso se tivesse vivido três vidas seguidas de transgressões hediondas, espancado uma velhinha e amarrado bombinha no rabo de um gato. Sua falta de sorte está ligada a algo externo e muito poderoso, logo podemos concluir que é uma maldição mesmo. Sem saber quem e porque colocaram em você fica difícil quebrarmos a maldição.
– Viemos até aqui para descobrir que vou ser amaldiçoada para sempre, é isso?
– Não, você esqueceu a parte da morte?
– Ah, sim, eu também vou morrer no processo… – resmungo amargamente, sem lembrar direito o que aquela carta tinha significado. Eram tantas cartas e tantos nomes que eu estava confusa.
– Não, sua burra – Madame Namu se exaltou, mas logo respirou fundo e deu um sorriso amarelo ao continuar. – Quer dizer, não minha querida. Você vai ter uma mudança brusca em sua vida, talvez… – ela observou duas cartas ao mesmo tempo, com curiosidade. – Talvez essa mudança já tenha começado a acontecer. Aconteceu algo hoje que mudou tudo. Você encontrou um amuleto da sorte poderoso.
– Será que foi aquela pedra esquisita que eu chutei ali na entrada da loja? – questionei a Jin, que parecia tão confuso quanto eu.
– Não, não foi uma pedra – Madame revirou os olhos, depositando as carta de volta na mesa. – Tire mais uma carta, quero conferir uma coisa.
Mais uma vez fiz o que ela mandou, e dessa vez além de grudar na minha mão, a carta também pareceu esquentar rapidamente em contato comigo.
– O Sol! – a cartomante bizarra anunciou, como se fosse a coisa mais empolgante do mundo. Até caiu na gargalhada depois disso, jogando a cabeça para trás e deixando o pescoço exposto.
Foi nessa hora, com essa cena que a minha ficha caiu. Era tão óbvio que me sinto até burra por ter demorado tanto para perceber o que tinha de esquisito nela.
– O Sol significa que só vou ter sorte durante o dia?
– Ou talvez que você vai torrar até a morte, me lembra de não te levar junto quando eu for me bronzear. – Jin completou, e respondi com um soco em seu braço.
– O Sol significa sucesso e glória, mas no contexto em que estamos conversando, significa que seu amuleto da sorte é uma inesgotável fonte de luz, veio a você em forma de algo brilhante e intenso.
– Eu falei para você que eu devia ter comprado aquele anel de brilhante, Seokjin, por que você nunca me escuta?! – me virei em sua direção, pronta para mais uma sessão de agressões físicas. – Agora provavelmente alguém já deve ter comprado meu amuleto da sorte e eu vou continuar azarada.
– Eu vou te colocar na terapia a força, sua mocréia gastadeira. – ele rebateu em tom de ameaça, estufando o peito em minha direção. – Você é pobre, , quer o que com um anel de brilhantes? Todo mundo vai achar que é falsificado, comprado naquele camelô que você frequenta.
– Ei, eu não frequento camelô coisa nenhuma! É mentira, não acredite nele Madame Namu. – me defendi, envergonhada de ter sido exposta como consumista de camelô.
– NÃO É UM ANEL! – ela se exaltou, eu podia ver pelas suas narinas dilatadas de raiva que ela estava se controlando para não nos expulsar dali. Isso acontecia frequentemente nos estabelecimentos que eu e Jin íamos juntos. – Tira a última carta, por tudo que é mais sagrado, eu tenho mais clientes para atender.
Assim que a carta me escolheu, ela pegou e olha tão rapidamente que é como se já soubesse o que viria. Logo virou a carta na minha direção e quase esfregou na minha cara sem paciência.
– Os Amantes, viu? Seu amuleto da sorte é uma pessoa, não é uma pedra, nem um anel. É um ser humano! Preciso desenhar, ou está claro agora?
– E o que eu preciso fazer? Matar ele e fazer um chaveiro com a mão? – dessa vez Jin caiu na gargalhada e isso enfureceu ainda mais Madame Namu. Eu não fazia por mal, meu questionamento era genuíno.
– Eu não vou te ajudar com isso garota, sinto muito, mas há limites na nossa amizade.
– Você não vai precisar fazer nada, o destino já se encarregou de tudo, ok? – ela nos interrompeu, acelerada. – Você conheceu alguém e vai se relacionar com essa pessoa, querendo ou não. O caminho de vocês já está entrelaçado. Ela será seu amuleto da sorte enquanto estiver ao seu lado, mas ela será uma fonte de luz tão forte em sua vida escura que pode te ofuscar, então você precisa olhar com cuidado.
– Eu conheci alguém? Eu não conheci ninguém não, a não ser que meu amuleto da sorte seja um daqueles seguranças marombas que me expulsaram da NStyles mais cedo. – gesticulei, pensativa.
– CHEGA! Acabou a consulta, se quiserem gastar mais o meu tempo, vão ter que pagar mais. – Madame Namu se levantou possuída de raiva pelas nossas interrupções, bateu os dois braços na mesa e nos fulminou com o olhar.
Era nossa deixa para ir embora, eu que não ia querer despertar a fúria da cartomante. Ou talvez quisesse, já que não pude controlar minha língua.
– Espera! – me virei de volta para a vidente, quando já estávamos indo em direção a cortina. – Nós pagamos pelo trabalho completo, mas você não adivinhou a cor da minha calcinha.
Eu achei que ela fosse arremessar a bola de cristal em mim, mas simplesmente respondeu.
– É azul.
Minha boca escancarou em surpresa, porque eu estava de fato usando minha calcinha azul da sorte. Que nunca funcionou, é claro.
– Caralho, você é mesmo vidente.
– Na verdade é que sua calça rasgou na bunda – apontou.
– Ah não, mais uma? – reclamei, imediatamente começando a girar no meu próprio eixo, esticando o pescoço para tentar ver o rasgo.
– Para com isso, você parece um cachorro tentando pegar o próprio rabo. – Jin me segurou pelos ombros, pegou meu sobretudo e amarrou em minha cintura, escondendo minha vergonha. Então se virou em direção da cartomante e fez uma reverência rápida. – Muito obrigado, Madame Namu, foi tudo muito esclarecedor. Voltaremos em breve.
– Infelizmente. – resmungou rabugenta em resposta, voltando ao seu lugar na mesa.
Saímos às pressas do lugar, Jin ainda fez questão de comprar um amuleto da sorte e um kimbap de carne com o anão antes de irmos embora. Ele colocou o colar comprido no meu pescoço e observei a pedra verde de perto, torcendo com todas as minhas forças pra que ele funcionasse.

 

Capítulo 2 – Destruídora de Restaurantes

Quando já estávamos dentro da Fuskátia, permanecemos em silêncio alguns segundos, digerindo as informações que havíamos recebido da Madame Namu, até irrompermos numa discussão calorosa e muitos decibéis acima do necessário, falando os dois ao mesmo tempo sem entender bulhufas.
– Então você conheceu um gostosão hoje e não me contou nada?! Sua safada, eu achei que fossemos melhores amigos, carne unha, alma gêmea – quando finalmente nos acalmamos ele deu partida no fusca, que roncou alto como se concordasse com o dono.
– Deixa de ser idiota, Seokjin, eu não conheci ninguém, te contei todos os detalhes do meu dia e não deixaria algo importante assim de fora. Nós fomos enganados por aquela cartomante duma figa. – soquei minha própria mão, com raiva. – Não acredito que você gastou seu dinheiro com aquela charlatã.
– Dinheiro não é problema para mim.
– Para mim também não, a falta dele é que é. Não jogue na minha cara que você é rico.
– E não chame a Madame Namu de charlatã, ela foi muito precisa na leitura das cartas. Acertou em cheio toda a parte de sua vida ser uma coletânea de fracasso, frustração e sofrimento.
– Isso qualquer um pode adivinhar só olhando meu estado e minha cara de derrotada. – gesticulei para mim mesma, ainda suja e descabelada. – Aquela mulher é uma farsa, inclusive não sei se você sabe, mas mulheres não têm pomo de adão.
– O que?!
– É verdade, só os homens têm po…
– Disso eu sei, doida, mas o que você quer dizer com isso?
– Que a cartomante é homem, foi bem óbvio quando ela riu e havia uma bolota gigante no meio do pescoço dela.
– Pode ser faringite, ué.
– Faringite não se mexe, Jin. – revirei os olhos, explicando o óbvio. – Madame Namu é um homem e nós fomos enganados. Aceite de uma vez e vamos comer, eu não esqueci que você prometeu pagar meu almoço.
– Ai que horror, o que eu fiz para merecer uma melhor amiga pobre? – Jin bufou exageradamente, enquanto se inclinava contra o volante da Fuskátia e olhava para o céu. A cena engraçada me fez soltar uma risada fraca, a primeira do dia, e provavelmente a ultima.
Não haviam muitas coisas que me faziam sorrir na minha vida, o fato de tudo sempre dar terrivelmente errado ao meu redor era um dos fatores de eu quase nunca estar com humor para uma risada verdadeira. Então, quando acontecia, como naquele momento, Jin sempre olhava para mim todo orgulhoso por saber que ele havia conseguido o que era quase impossível: me fazer rir.
Eu era uma velha rabugenta presa num corpinho bonito, essa era a real.
A mãe de Jin tinha um restaurante, era modesto e eles mantinham apenas por prazer, já que a família tinha dinheiro suficiente para viver confortavelmente sem precisar trabalhar. Era lá que almoçamos toda vez que ele dizia que ia pagar para mim. A bicha era esperta, sabia que a mãe nunca cobrava seu almoço então não era como se ele fosse realmente gastar dinheiro com a minha comida. Ele sabia que eu odiava que gastassem dinheiro comigo.
Quando chegamos a porta do restaurante ainda pouco movimentado, tropecei no último degrau e adentrei ao local caindo de quatro no chão de madeira, bem no meio dos clientes.
, minha querida. Que bom te ver! – a senhora Kim gritou animada de onde estava, dando a volta no balcão e vindo em minha direção com os braços abertos.
Levantei do chão, como se nada tivesse acontecido e a abracei de volta, sobre os protestos de Jin. Ela exalava o mesmo bom humor radiante do filho, sempre com um sorriso enorme e brincalhão no rosto.
– Oi pra senhora também, mãezinha, desculpa eu não ter nascido com um par de peitos no lugar das bolas, mas será que eu poderia receber um abraço com essa mesma empolgação? Ou finalmente resolveu me trocar por essa aí? – ele a alfinetou.
A mulher me soltou e invés de abraçá-lo, usou o pano de prato que carregava na cintura para bater nele.
– Isso aí, tia, desce o braço! – incentivei.
– Isso é coisa que se diga na frente dos clientes, Jin? Foi essa a educação que eu te dei? – Apesar das palavras duras, eu podia ver que os dois estavam prendendo o riso.
– Preciso mesmo responder?
– E quem precisa de peitos quando você já chama atenção o suficiente com esse algodão doce na cabeça? Quando é que você vai parar de pintar o cabelo, hein? Quando ficar careca? Toda semana uma cor diferente.
– Estou com a mesma cor das últimas duas vezes que vim aqui, francamente mulher, como você ainda diz que é minha mãe? – E então eles finalmente trocaram o abraço que Jin tanto queria. Aquela era a dinâmica da família Kim, afeto e agressões físicas – Está ficando rabugenta feito a vovó – Jin murmurou, ainda a prendendo num abraço, que a mulher logo desfez e voltou a agredir o filho com o pano.
– Nem diga uma coisa dessas. Inclusive, é melhor ficarem longe dela, hoje ela acordou com a dentadura virada – avisou, enquanto nos levava até uma mesa vazia.
A avó de Jin era uma senhora endiabrada, que havia perdido toda a parte do afeto da família Kim durante algum dos 300 anos que ela já viveu, e agora era movida apenas e ódio e agressões físicas. Nós detestávamos uma a outra com todas as nossas forças, da parte dela começou quando Jin contou que eu não era a namorada que o faria deixar de ser gay, da minha parte começou logo após essa declaração de Jin, quando ela me expulsou a vassouradas da casa dos Kim.
A velha era biruta e violenta, uma péssima combinação.
Fizemos nossos pedidos e ficamos aguardando, ainda conversando sobre a cartomante e suas previsões. Quando nosso almoço chegou, servido em recipientes de plástico e metal, porque a senhora Kim já sabia por experiência própria que não era uma boa ideia deixar qualquer coisa que quebre perto de mim, finalmente ficamos em silêncio. Coisa rara entre Jin e eu.
Estávamos brigando pelo último pedaço de barriga de porco grelhada, mesmo que estivéssemos quase explodindo de tanto comer, quando fomos interrompidos por um estrondo vindo da cozinha. Desviamos nossa atenção rapidamente para a porta do local, e eu aproveitei a distração do meu amigo para capturar rapidamente o último pedaço de carne e enfiar na boca antes de voltar a olhar o lugar de onde vinham mais estrondos.
– SOCORRO, ESSA VELHA VAI ME MATAR! – o funcionário gritava, fugindo aos tropeços da cozinha.
– Ah… – Jin e eu murmuramos ao mesmo tempo, já entendendo o que estava acontecendo.
Peguei minha coca e me virei no assento almofadado para observar melhor o desenrolar da cena. Logo atrás do funcionário apavorado vinha a velha Kim, possuída pelo demônio. Ela continuava cada vez mais baixinha e carrancuda, sempre com um lenço cobrindo os cabelos brancos e agora segurava um cutelo enorme na mão.Se aquilo fosse uma animação, daria pra ver fogo saindo pelos olhos dela.
– EU VOU TE ENSINAR A RESPEITAR OS MAIS VELHOS! – ela ameaçava, apontando a lâmina para o pobre homem.
Todos os clientes ao redor pararam de comer para assistir o espetáculo.
– Eu só pedi pra senhora me alcançar o sabão – ele choramingou, andando de costas em direção a saída.
– E POR ACASO VOCÊ NÃO TEM DUAS MÃOS? EU NÃO ADMITO FUNCIONÁRIO PREGUIÇOSO NO MEU RESTAURANTE! SE PREFERE PEDIR PARA UMA POBRE SENHORA PEGAR ALGO QUE É CAPAZ DE PEGAR SOZINHO, TALVEZ NÃO PRECISE TER MÃOS! – ela se preparou para lançar o cutelo na direção do homem, mas a mãe de Jin se aproximou e retirou o objeto calmamente das mãos da senhora antes que uma desgraça maior acontecesse.
O homem correu porta afora, gritando coisas como “velha louca” e “manicômio” e então os clientes voltaram a comer como se nada tivesse acontecido. Aquele tipo de cena era comum aos frequentadores assíduos do restaurante dos Kim, quase como a sobremesa grátis.
– Mãe, eu vou colocar a senhora num asilo, já é o terceiro esse mês! – A senhora Kim reclamou, usando o cutelo para ameaçar a velha.
– Eu não tenho culpa se você escolhe funcionários igual escolhe suas calcinhas. Todas beges! Todos inúteis! É por isso que você não arruma um namorado e é por isso que esse lugar não vai para frente! – ela voltou para a cozinha ralhando e soltando xingamentos ao vento.
A senhora Kim veio até nossa mesa e se jogou ao lado do filho, suspirando desanimada.
– Eu não sei mais o que fazer com ela, ela disse que vai se matar de tanto desgosto se eu a mandar pra um asilo. Vamos acabar sendo processados por um dos trinta e sete funcionários que ela já ameaçou. Sinceramente não sei qual das duas coisas é pior.
– Calma, se alguém fosse processar vocês já teria acontecido. Acho que estão planejando coisa pior. – comentei casualmente, tomando meu refrigerante. Eu realmente achava que processo era pouco para aquela senhora demente.
tem razão, mãe. Não a parte da coisa pior, mas não acho que vão processar o restaurante por causa de uma velha caduca, fica tranquila. – a consolou, afagando as costas da mulher debruçada sobre a mesa.
– E agora quem vai fazer o trabalho dele? Não tenho tempo para entrevistar novos funcionários, daqui a pouco vai ser horário de pico no movimento, já estamos trabalhando no limite…
– Olha só que sorte, mãe. Minha amiga aqui está procurando um emprego.
– O que?! – Me engasguei com a coca.
Nunca era bom quando colocavam meu nome e a palavra sorte na mesma frase.
– Você está desempregada, vai passar a tarde se afundando em doramas depressivos e sorvete, que eu sei. Assim nós matamos dois coelhos com uma paulada só.
– Jin, de pauladas eu já estou farta por hoje – apontei para a minha testa, irritada.
Ele realmente achava uma boa ideia me colocar em uma cozinha, cheia de coisas que quebram?
– Sério? Você poderia me ajudar com isso, querida? – Eu estava pronta para resistir aos seus olhos pidões, mas então ela concluiu – Eu pago bem.
Como eu estava desesperada por dinheiro, acabei aceitando a oferta, mesmo tendo um péssimo pressentimento. Já havíamos terminado de comer, então Jin ficou ajudando no caixa enquanto a senhora Kim me arrumou um avental, amarrei meu cabelo e entrei na cozinha que eu já conhecia por frequentar aquele restaurante há anos.
– O que essa garota desequilibrada está fazendo aqui? – Foi a primeira coisa que a velha Kim disse ao me ver, quase me perfurando com o olhar raivoso ou talvez com a faca que segurava em uma mão.
Fala sério, quem é que deixa essa maluca ter acesso a objetos cortantes?
– Ela vai nos ajudar, no lugar do funcionário que a senhora acabou de afugentar. É bom a senhora se comportar ou eu escondo sua dentadura amanhã! – A mãe de Jin ameaçou, ao passar por ela. Aquela família vivia na base da ameaça.
– E aí, múmia – cumprimentei a velha coroca, que respondeu com um rosnado, pronta pra me atacar – Oh, perdoe minha falta de educação, eu quis dizer e aí senhora múmia.
– Ora, sua malcriada. Eu tenho pena dos seus pais por terem tido esse desastre em forma de filha. Eu não preciso de ajuda, você não ouse me ajudar…
– Ou o que? Vai jogar as dez pragas do Egito pra cima de mim?
As dez pragas ela não jogou, mas a tupperware que estava na bancada ao seu lado voou em direção a minha cabeça, por um milagre não foi a faca que estava na outra mão. Consegui desviar e o pote acertou a parede atrás de mim, explodindo em kimchi pra todo lado.
E assim o expediente se passou, entre provocações, ameaças e agressões físicas de baixo nível. Ajudei a repor o buffet, anotei alguns pedidos quando o restaurante lotou e cheguei ao final do almoço sem nenhum acidente muito grande. Botei fogo num pano de prato, mas consegui apagar a tempo, derrubei uma panela de ferro no pé da velha Kim – talvez tenha sido de propósito, mas ninguém tem provas -, tropecei apenas quatro vezes e só quando não estava segurando nada.
Eu considerava aquilo uma vitória.
Mas, como sempre minha mania de comemorar antes da hora me pegou desprevenida. Já era quase três da tarde quando os últimos clientes estavam indo embora, Jin ajudava a senhora Kim a fechar o caixa, os outros funcionários estavam recolhendo as mesas e a velha doida estava sentada com gelo no pé que eu machuquei – sem querer, sempre bom lembrar -, fiquei encarregada da tarefa mais perigosa, pelo menos para mim: lavar a louça.
Sem alternativa, respirei fundo e comecei a lavar peça por peça, cuidadosamente. Eu provavelmente levaria horas para terminar naquela velocidade, mas pelo menos não quebraria nenhum prato. Fui colocando a louça pra secar no escorredor enorme que ficava preso na parede como uma prateleira, bem em cima da pia, que por sua vez era tão grande que poderia ser usada como banheira por uma pessoa. Talvez uma que não tivesse nojo dos restos de comida que boiavam na água.
Quando finalmente cheguei a última peça, quase três horas depois, com o maravilhoso placar de apenas um copo trincado, tirei as luvas e o avental, sorrindo pronta pra deixar a cozinha. Foi nessa hora, colocando o avental no gancho da parede, que eu escorreguei em um pedaço de sabão que estava no chão ao lado da pia e me agarrei na primeira coisa que consegui pra não cair. Para o meu completo desespero, essa coisa foi a beirada do escorredor de louça preso na parede, que tombou para frente com o peso extra, fazendo os pratos deslizarem pelo outro lado e se espatifarem no chão um após o outro.
Eu tentei correr para salvar as louças que ainda não haviam caído, mas na afobação acabei tropeçando e indo ao chão para valer dessa vez, levando junto uma forma com restos de algo caramelizado que escorreu direto para o meu cabelo.
O barulho atraiu todos que ainda estavam no restaurante, e quando Jin e sua mãe me encontraram eu estava estirada e caramelizada no chão da cozinha, rodeada por pelo menos 30 pratos quebrados.
– AGORA EU VOU TE MATAR! – A velha veio pra cima de mim totalmente ensandecida, para completar o cenário caótico, e começou a me agredir com a bolsa de gelo. Eu ainda tentei fugir, mas ela corria atrás de mimpor todo o restaurante feito o satanás manco, gritando xingamentos que eu não tenho nem coragem de repetir.
Quando finalmente a senhora Kim conseguiu segurar e trancar a mãe em seu escritório, eu fui dispensada. Até me ofereci pra ajudar a arrumar a bagunça que eu havia causado e até a vir trabalhar outros dias pra compensar o prejuízo, mas ela recusou prontamente, provavelmente com medo de eu colocar fogo no estabelecimento. Não julgo, eu faria o mesmo.
Jin ficou pra ajudar a mãe, então eu teria que voltar pra casa de ônibus feito a pobre coitada que eu sou. Era fim de tarde, o céu começava a ficar escuro e foi atravessando a rua, completamente cabisbaixa por não aguentar mais aquele tipo de situação na minha vida, que eu escutei uma buzina alta e quando me virei, uma luz muito forte me cegou.
Ela será uma fonte de luz tão forte em sua vida escura que pode te ofuscar, então você precisa olhar com cuidado. A voz da cartomante ecoou em meus ouvidos.
A última coisa que lembro é o barulho da freada violenta que fez os pneus cantarem contra o asfalto. Sequer lembro se tentei me proteger ou se senti o impacto do carro contra meu corpo, simplesmente apaguei, pela segunda vez naquele dia infernal.

Nota de Autora:
Oi! Como estamos, meus azarados? Mais um capítulo de puro desastre e confusão (eles vão ser muito comuns), mas juro que é super importante pro desenvolvimento da história. Essa vai ser uma daquelas personagens que vai se foder muuuito pra aprender, sabe? Tentem sempre lembrar que na vida dela nada nunca dá certo, então ela tem motivo pra ser como é, então, por favor, tenham paciência com a bichinha. Próximo capitulo finalmente eleaparece, lindo e maravilhoso pra iluminar nossa vida, até lá!


Capítulo 4 – Maluco-Que-Me-Deu-Uma-Paulada-De-Manhã-E-Me-Atropelou-A-Noite, também conhecido como

Acordei em um quarto muito claro e silencioso. Primeiro achei que tivesse morrido de vez e aquela era a sala de espera para ir pro céu ou pro inferno, mas logo percebi que eu estava em um hospital. Fiquei ainda mais desesperada, preferia a sala de espera da vida após a morte. Odiava hospitais com todas as minhas forças.
Eu sobrevivi de novo? Isso era sorte ou azar?
– Você finalmente acordou! – alguém disse e eu tive que me revirar com dificuldade na cama pra descobrir quem era, porque eu não conhecia ninguém com uma voz bonita daquela.
Meu corpo estava entorpecido, provavelmente do remédio que eu recebia, cheia de agonia, direto na veia, mas aparentemente eu não havia quebrado nada. Apenas meu raciocínio estava mais lento que o normal, e o normal já era quase parando.
A pessoa em questão, que estava sentada na poltrona próximo a minha cama, levantou e veio em minha direção graciosamente, apertando um botão ao lado da cama. O homem é um desconhecido, alto, bem vestido, cabelo castanho, um rosto comprido e bonito demais para ser uma pessoa comum. Devia ser um modelo ou algo do tipo. Nada disso explicava o porquê dele parecer tão aliviado e feliz em me ver.
– Como você se sente?
– Como se tivesse sido atropelada. – respondi sinceramente e ele sorriu. Um sorriso enorme, que se espalhou pelo seu rosto rapidamente até chegar aos seus olhos. Os olhos eram bonitos também, que sacanagem.
Por que ele está sorrindo? Por que tenho impressão que já vi esse sorriso antes?
– Antes de qualquer coisa quero que saiba que eu já conversei com o médico, ele me garantiu que todos os arranhões são superficiais, nenhum dano sério foi causado. Você está dormindo há algumas horas por causa dos remédios, mas está perfeitamente bem, não precisa se preocupar com nada. Todas as despesas hospitalares estão pagas também, e qualquer tratamento que precisar por conta do que aconteceu. – explicou com muita calma.
– Ok…Muito obrigado pela informação, mas quem é você?
– Sou a pessoa que te atropelou.
– E por que você tá sorrindo ao dizer isso? – Eu queria adicionar um “seu maluco” no final da frase, mas achei meio falta de educação.
– Porque também sou a pessoa que te fez desmaiar hoje de manhã! – Seu sorriso se alargou.
É oficial, ele é maluco. Para o inferno com a educação, estou cercada de gente maluca, como é que vou ser educada?
– Ok – concordei lentamente, processando as informações que eu tinha. Era por isso que seu sorriso parecia conhecido, foi ele que vi rapidamente hoje de manhã, quando abri os olhos e sai correndo logo em seguida para a minha entrevista. – Eu ainda não entendi porque você tá sorrindo. Isso é algum tipo de pegadinha? Ou por acaso é algum fetiche seu fazer as pessoas desmaiarem?
– Não! – Seu sorriso se fechou rapidamente, dando lugar a uma carinha confusa de olhos arregalados, que o deixou ainda mais encantador. Espera, eu disse encantador? Eu devia mesmo estar sob o efeito de remédios muito fortes, provavelmente alucinógenos – Só achei muita coincidência nos encontrarmos duas vezes no mesmo dia, ainda mais depois de você sair correndo sem deixar que eu me desculpasse devidamente pelo que aconteceu. Sinto que é o destino.
– Você chama de destino quase me matar duas vezes em menos de vinte e quatro horas?! – indaguei, porém, parei para pensar por um segundo e concluí: – Se bem que, do jeito que é minha vida, bem provável que seja destino mesmo.
Nosso diálogo estranho foi interrompido pelo som de seu celular tocando, e ele observou a tela antes de falar num tom preocupado.
– É o meu agente… Ai caramba, é o meu agente! Ele provavelmente vai me matar. Meu deus eu atropelei alguém! Estou arruinado! Eles vão me matar! – Ele pareceu só se dar conta daquilo naquele momento, quando pediu licença todo educado e saiu do quarto para atender.
Agente? Então eu estava certa, ele devia ser mesmo um modelo. Droga, onde eu fui me meter? Atropelada por um possível famoso, que agora vai ficar no meu pé.
O médico entrou logo em seguida, ao lado de uma enfermeira, e pela cara dos dois parecia que eu ia receber a notícia de que tinha apenas um mês de vida.
– Boa noite. Como a senhorita está se sentindo? Alguma dor, ou incômodo? – ele questionou com um tom estranho, enquanto a enfermeira conferia minha pressão.
– Tirando esse negócio enfiado no meu braço e um pouco de tontura, estou bem.
– A tontura é por causa dos remédios, em breve o efeito vai passar. – ele diz num tom condescendente que parece quase fúnebre. – Eu gostaria de ter boas notícias, mas infelizmente os resultados do exame de sangue não são nada bons.
– Como assim? O que tem de errado com meu sangue? – Já comecei a me desesperar, seu olhar dizia que a coisa era séria.
Não era possível, o estranho que me atropelou disse que o médico garantiu que eu estava bem. Como é que um atropelamento podia causar algo em meu sangue?
– Os exames apontam um crescimento anormal das células precursoras dos glóbulos brancos. Está em um estágio muito avançado, é até estranho, nós nunca vimos isso em um paciente que não apresenta nenhum sintoma.
– Ei, ei, ei! Espera aí, você está dizendo que eu tenho câncer?! – As palavras saíram engasgadas, porque nem eu podia acreditar que as estava dizendo.
– Eu sinto muito… Ainda precisamos estimar quanto tempo tem de vida…
– O que? Não! Isso é impossível! – Neguei várias vezes, tentando convencê-lo de que havia algo errado. – Eu sou uma pessoa saudável, doutor, sempre cuidei direitinho da minha alimentação, tomo a quantidade certa de vitamina D todo dia caminhando no sol até o ponto de ônibus, eu sou meio relapsa com exercícios físicos, mas a vida já me faz correr demais atrás dos meus sonhos. Tirando quando eu me machuco, o que acontece bastante, mas não vem ao caso, eu nunca fui para o hospital por ficar doente. Isso é um absurdo, eu não posso morrer! Sem chance!
– O que? – O maluco que me atropelou voltou para o quarto, pegando exatamente o final da minha frase desesperada, se aproximou da cama, trocando olhares confusos entre mim e o médico.
– Ah, meu deus, eu sinto muito senhorita! Sinto muito mesmo! Eu sou novo aqui, me perdoe pelo equívoco. – ele começa a ler as folhas na prancheta em suas mãos, totalmente sem jeito. – Me entregaram o prontuário errado, esse é da senhora do quarto ao lado, olha que coincidência engraçada, ela tem o mesmo nome que você… – ele solta uma risada.
– Não vi graça nenhuma. – resmunguei, tentando voltar a respirar normal, ainda abalada com a doença seríssima que quase tive por alguns segundos.
– O seu é esse aqui. – virou a folha e sorriu sem mostrar os dentes. – Ufa, você tem razão, está realmente saudável. Todos os resultados dos exames foram bons, tirando alguns arranhões, você está perfeitamente bem. Assim que terminar o soro, receberá alta, com alguns cuidados que eu vou passar quando retornar. Até lá descanse e qualquer coisa é só pressionar a campainha.
Ele apontou para o botão, se desculpou mais algumas vezes pelo ocorrido e se retirou, resmungando “Não fui preparado para isso na faculdade”.
– Só me acontece bizarrice – comentei baixinho, indignada. Eu precisava de Seokjin, só ele poderia me ajudar – Por acaso você sabe onde está meu celular? – questionei ao meu atropelador.
– Ele quebrou com o impacto, sinto muito. Já pedi para comprarem um novo. – respondeu na maior naturalidade. Uau, que rico! – Sei que não é o melhor momento e me pediram para não fazer isso porque pode piorar a situação, mas preciso conversar com você antes que os outros cheguem.
– Outros?
– Meu agente e provavelmente os advogados da companhia. Eles vão oferecer um acordo, vão tentar convencê-la de toda forma…
– Me convencer do que?
– De não vender informações sobre o acidente para a imprensa. – ele se aproximou, ficando bem ao meu lado, juntou as duas mãos em frente ao peito e eu podia sentir a sinceridade em suas palavras, ele parecia ser alguém muito transparente. – Eu sinto muito pelo que aconteceu, juro que jamais me envolvi em acidente algum, nunca nem levei uma multa. Não é essa imagem que quero que guarde de mim, faço qualquer coisa pra compensar pelo meu erro sem precisarmos recorrer a meios legais. Sei que não tenho direito nenhum de pedir isso, mas se contar a imprensa sobre o que aconteceu será o meu fim e pior, será o fim do Seventeen e eu jamais vou me perdoar por…
– Ei, vai com calma. Seventeen? Vender informações? Meios legais? Eu não tô entendendo nada. Eu acabei de acordar, estou recebendo drogas direto na veia, quase tive uma doença terminal e achei que fosse morrer por alguns segundos, eu nem mesmo sei seu nome. O mundo precisa girar mais devagar, eu tô ficando tonta. – dramatizei, com direito a mão na testa e tudo mais.
– Você não sabe quem eu sou?
– É o maluco que me deu uma paulada de manhã e me atropelou a noite, mas esse apelido é muito grande para eu te chamar assim, então vou ter que saber seu nome.
– Lee , ou , pode me chamar do que quiser. – ele abre aquele sorriso novamente, eu até pisco algumas vezes atordoada. Eu devia é chamá-lo de holofote. – Sou de um grupo chamado Seventeen, você já deve ter ouvido falar da gente.
Neguei com a cabeça, o nome não é totalmente desconhecido para mim, mas eu não acompanhava mais grupos de pop coreano porque todos que fui fã deram disband e eu considerava aquilo culpa do meu azar.
Descanse em paz meu amado 2NE1!
Ulgosipjianha… – ele cantarolou todo empolgado, me olhando em expectativa, e fiquei espantada por um segundo em como a voz dele era linda.
Bonito e com uma voz daquela, chegava ser uma injustiça com os outros homens do mundo.
– Eu também não quero chorar, mas a vida não colabora sabe…
– Não, essa é uma música do nosso grupo.
– Ah – processei e guardei a informação em meu cérebro, sem saber como proceder – Olha,… Eu não pretendo contar a imprensa, te processar, nem nada disso. Estou desesperada por dinheiro, mas não a esse ponto. Minha vida já é ruim demais para eu lidar com o karma de ter estragado a vida de… seu grupo tem dezessete membros?
– Treze.
– Então por que o nome é Seventeen? – Ele abriu a boca para responder, mas o interrompi rapidamente – Bem, isso não importa agora, o que importa é que pode dizer para os seus advogados ficarem tranquilos, foi um acidente, você já pagou pelas despesas do hospital e por um celular novo… na verdade nem sei se posso aceitar o celular, ele provavelmente quebraria nas próximas semanas de qualquer forma. Quer me ajudar de verdade, use sua influência como idol pra me conseguir um emprego, – pedi na cara de pau mesmo, o desespero do desemprego me fazendo perder a pouca vergonha na cara que me restava – afinal, perdi minha entrevista de emprego essa manhã por causa da paulada que me deu.
– Considere-se empregada! Espera, paulada? Mas eu te acertei com uma bola.
Precisei piscar mais algumas vezes bem rápido para entender o que ele havia falado
– Minha vida toda é uma mentira… – grunhi indignada mais uma vez por ter acreditado o dia todo que havia levado uma paulada, quando a realidade era muito mais humilhante: eu havia desmaiado com uma bolada na cabeça. – Mas você nem perguntou qual é minha área, vai que eu sou uma física nuclear, você tem contatos na NASA por acaso?
– Com todo respeito, você não tem cara de quem é física nuclear.
– Você tá dizendo que eu tenho cara de burra, é isso?! Sorte sua que eu não posso levantar daqui, senão ia te mostrar só… – Até tentei soar ameaçadora, mas ele caiu na risada. Por que ninguém levava minhas ameaças a sério? E por que ria de tudo? – Pra sua informação eu trabalho com moda, mas poderia muito bem ter feito faculdade de física, ok? Só não fiz porque odeio números e essas coisas de encontrar o X. A não ser que o X marque o tesouro no mapa, aí eu encontro fácil.
– Isso é perfeito! – Seu sorriso radiante, que eu achei que já estava no máximo, se alargou ainda mais, transformando seus olhos em duas meia luas com ruguinhas fofas na beiradas. – Nossa designer se demitiu essa manhã, nosso produtor está desesperado atrás de alguém, olha que sorte! Com uma indicação minha esse empregoé todinho seu.
Estranhamente, aquilo era realmente sorte. Eu e sorte na mesma frase só acontecia quando “não tem nenhuma” estava entre as duas palavras.
Comecei a estranhar a situação aí, mas antes que eu pudesse responder alguma coisa, o quarto foi invadido por vários homens engravatados. Ah, que maravilha, mais desconhecidos!
Passei quase uma hora tentando convencer os advogados de uma empresa chamada Pledis que eu não iria contar nada a imprensa, mas parecia que eles não estavam me ouvindo. Eu repetia a mesma coisa várias vezes, e eles ficavam falando difícil com aquela lábia de quem se formou em direito e acha que consegue manipular as pessoas.
Eu havia assistido muitas séries policiais, eu sabia muito bem como aquilo funcionava. O que me faltava em noção, me sobrava em esperteza, tá pensando o que?
Por fim, foi preciso Seokjin chegar e expulsar eles de lá aos berros, para eu finalmente receber alta ir para casa.

Nota da Autora:
QUEM AGUENTA ESSE HOMEM TODO FOFO E PREOCUPADO ME DIZ QUEM???? Então, o que acharam da primeira aparição do nosso prota perfeito? Espero que estejam se divertindo lendo tanto quando eu me divirto escrevendo, até as próximas loucuras