Stigma

Stigma

Sinopse: “O Mundo não se divide em gente boa e comensais da morte, todos temos luz e trevas dentro de nós, o que importa é o lado no qual decidimos agir, isso é o que realmente somos” (Sirius Black).
Fandom: Kpop/BTS
Gênero: Drama
Classificação: 18
Restrição: Contém violência física/violência verbal/sexo/palavrões e conteúdo sobre automutilação.
Beta: Rosie Dunne

Capítulos:

Prólogo

O homem em frente ao espelho do banheiro estava apavorado, encarando suas mãos cobertas pelo vermelho forte. Já não sabia qual sangue era seu e qual sangue pertencia ao seu pai. tremia dos pés a cabeça, tentava buscar em sua cabeça os fatos, mas não conseguia. Os poucos momentos que vinham em sua mente eram distorcidos: o soco que o pai havia lhe dado, a garrafa quebrada em sua mão e ele partindo em cólera pra cima.
só tinha recobrado a consciência após o grito do seu irmão. Mas já era tarde. Assim que percebeu o que tinha acontecido, ele estava encostado na parede em prantos, enquanto a garrafa quebrada ainda estava em suas mãos, já ensanguentada. Seu pai em sua frente, sem reação pelo golpe que o filho mais novo havia aplicado nele. O velho mantinha as mãos pressionando o machucado em sua barriga. O caos definia os três naquele cômodo. Ainda olhando para o pai ferido, pensava atônito:
Ele era o culpado por aquilo?
Nenhum músculo do seu corpo o obedecia, o homem continuava sentado no chão, sem conseguir sair do lugar. Só então ele percebeu o irmão mais velho, Rhyu, correr para acudir o pai que estava morrendo na frente de ambos. A vida se perdia lentamente pelos olhos do homem. E seus olhos eram sombrios. Seong, mesmo morrendo, fazia questão de olhar fixo para o filho caçula, enquanto se debatia nos braços do seu primogênito. Ele queria que soubesse que a culpa era dele.
Ele era o culpado por aquilo?
Ver aquilo era apavorante. conseguiu forças suficientes para levantar e sair do cômodo em que estava. Nunca pensou que a raiva que sentia pelo pai chegaria a esse extremo. Trancou-se no lavabo que tinha próximo ao escritório. Ele tinha que lavar suas mãos, tirar toda aquela sujeira que havia feito.
Olhando para seu rosto no espelho, lembrou-se de todas as vezes que o pai o chamou de sujo, e agora entendia o porquê dele dizer aquilo. era sujo, mesmo que dissessem o contrário.
Seu pai era tinha começado a carreira como pequeno agricultor de morangos, e hoje a fazenda da família distribuía as frutas para o país inteiro. A reputação da família era importante, pois era isso que mantinha a imagem de Seong intacta para os negócios. A família perfeita, diziam.
Em Daegu, cidade de origem do clã, sempre fora visto como o homem ideal. Constantemente saía nas mídias de fofoca por causa do status de sua família na cidade. Sempre fora reservado quanto aos seus relacionamentos, mas isso nunca impediu que fosse idealizado como o par perfeito.
Mas, estavam longe da perfeição.
Por trás das histórias publicadas, o cenário era diferente: Seong batia constantemente no filho caçula por achar que o jeito dócil e sensível do garoto era indícios de que ele fosse gay. Um filho homossexual Seong nunca conseguiria aceitar. E não aceitou. Sempre batia no filho quando tinha a oportunidade, pois achava que assim “consertaria” o filho.
Por outro lado, a senhora , mãe de sempre fora omissa ao tratamento do marido ao filho. A mulher se ocupava apenas em manter o vício nos medicamentos enquanto estava em casa. Por sorte tinha seu irmão mais velho, que era seu único laço de afeto com a família. Os dois eram melhores amigos desde sempre.
Ainda no banheiro, esfregou as mãos com força para agilizar o processo de limpeza. O sangue o incomodava. Ele realmente não se lembrava de nada que havia acontecido, mas sabia que tinha sido ele quem atacara o pai. Os blackouts era comuns para ele já.
evitava ao máximo reagir às provocações, pois sabia que ficava agressivo quando descontava a raiva sobre algo, mesmo que depois não lembrasse de nada que fizera. Foi assim quando quebrou o braço do colega de classe, no ensino fundamental.
A dualidade, como Rhyu gostava de chamar.
, em maior parte do tempo era um homem que sorria, que era paciente e sensível. Tanto que havia escolhido viver da sua arte ao invés de administrar a fazenda junto com o irmão. Na pintura, Tae conseguia expressar seus sentimentos melhor do que em qualquer outra ocasião.
Mas, tinha aquela parte dele que era cheia de raiva e rancor. A sombra, que geralmente era controlada mais fácil e dificilmente aparecia. Mas, às vezes era tomado por esse lado sombrio e, quando isso, acontecia perdia o controle. E fora assim hoje, com seu pai, naquele escritório.
As batidas fortes na porta trouxeram de volta ao presente, ainda estava encarando seu reflexo. Eles estava pálido e sua respiração era bastante ofegante.
– ouviu o irmão chamar por seu nome do outro lado, a voz do mais velho era trêmula– , ele está morto!
sentiu o peito apertar ao ouvir a confirmação de seu ato impulsivo. Não conseguia chorar, mas sentia a aflição do momento. Cansado, ele encostou a cabeça na porta, deixando seu corpo pesar sobre a madeira. O rapaz poderia jurar que o irmão tinha feito o mesmo. Eram melhores amigos, e um sempre sabia como o outro reagiria a certas situações.
– Hyung, chame a polícia!

1.

“Mais profundo, sinto que estou morrendo
todos os dias. P
or favor, deixe-me ser punido.
Por favor, me perdoe pelos meus pecados”
(Stigma).

’s POV
O gosto amargo do café não me incomodava mais, eu aprendi a gostar da bebida durante a licença prolongada que tinha sido obrigada a tirar após os últimos acontecimentos. Pousei a xícara na mesa enquanto degustava o líquido em minha boca. O refeitório do hospital, naquele momento, era o meu esconderijo.
Hoje tinha sido meu primeiro dia de trabalho depois de tudo e já não estava suportando os olhares de preocupação e as constantes perguntas sobre como eu me sentia. Mas, eu precisava fingir que não me importava com aquilo, já que não suportaria mais um dia presa em casa. Eu gostava do meu trabalho, desde o estágio na época da graduação à finalização do curso de Psicologia, eu nunca tinha trabalhado em outro lugar que não fosse no Hospital Psiquiátrico Sook.
A instituição era famosa por defender a humanização no tratamento de pessoas com doenças mentais. Eu sabia que a ideologia do Sook era realmente levada a sério por seus gestores, mas infelizmente o hospital ainda era uma instituição de luxo, poucos tinham acesso àquele tratamento. Em sua maioria, os pacientes do Sook era de famílias ricas, por isso, mesmo localizado em Bath, na Inglaterra, a instituição recebia pessoas de todos os lugares do mundo.
Como psicóloga, minha função no Sook era fazer atendimentos individuais e cuidar dos atendimentos em grupo. Mesmo não tendo muitos anos de formada, eu era muito respeitada na instituição, considerando que estava lá desde o meu estágio, no meio do curso.

Bebi o último gole do meu café. Olhei para o relógio em meu pulso, só para constatar que ainda tinha tempo considerável de descanso antes da próxima sessão de grupo.
– E aí sumida?! – estava escorado na porta me observando e sorrindo – Ainda dá tempo de tomarmos um café juntos?
Afirmei com um gesto de cabeça, enquanto sorria, estava aliviada por ser ele e não outra pessoa entrando no refeitório. e eu éramos melhores amigos tanto no Sook, quanto em Bath. Nosso vínculo começou assim que nos encontramos, já que tínhamos algo em comum: e eu éramos os estrangeiros do hospital – eu do Brasil e ele da Coréia do Sul. Ambos havíamos entrado na mesma época para a equipe. era psiquiatra e eu psicóloga, nossos trabalhos se completavam. Não só no Sook, mas fora do hospital também. Mesmo que no último mês eu tenha me isolado de por um tempo.
Eu tinha me isolado de todos, na verdade.
Com a garrafa de café em mãos ele serviu o líquido em minha xícara para depois repetir o gesto com sua própria caneca. Sorri ao levantar o copo simulando um brinde entre a gente. fez o mesmo gesto. Em minha cabeça, o brinde era por ter alguém como ele ao meu lado naquele momento, mas na cabeça de o brinde era por eu ter voltado ao trabalho.
– Duvido que as pessoas já te perguntaram como você está hoje. – sempre que ria suas bochechas levantavam, espremendo levemente seus olhos, deixando-os menores do que de costume.
– Não duvide, até porque você foi o único a não me perguntar – arqueei a sobrancelha para ele – ainda.
– E como você está ? – a pergunta veio, mas com cuidado.
Respirei fundo e encarei a fumaça que saia de dentro da xícara indicando que a bebida continuava quente. Eu não saberia explicar ao meu amigo qual a sensação que estava sentindo no momento. Não ali, sentada no refeitório do hospital, a poucos minutos de começar uma próxima sessão.
Mas, se eu tivesse que definir o que passava na minha cabeça, naquele momento seria com uma palavra: confusão.
Há pouco mais de um mês eu tinha descoberto que Liam, meu ex-noivo, estava me traindo com sua colega de trabalho: Maria tinha cansado de ser amante e dois dias antes do meu casamento apareceu na porta do meu apartamento para me contar sobre o caso que tinha com meu noivo. Ela tinha provas em seu celular da traição. Liam e Maria eram amantes há 2 anos, de acordo com a mulher. E eu e Liam estávamos juntos há 5 anos.
Ele tinha sido meu primeiro e único namorado, além de ser o único homem por quem me apaixonei de verdade. Com meus pais morando no Brasil, eu achava que Liam era a única pessoa próxima a família que eu poderia ter em Bath. Ele era meu porto seguro. Era em Liam que eu mais confiava. Mas tudo tinha sido quebrado depois que Maria havia batido em minha porta.
Além do choque em descobrir sobre a traição eu tive que lidar com o cancelamento do casamento, o comunicado aos convidados sobre o fim do relacionamento e com o encerramento da festa. Sozinha, já que Liam se recusava a contribuir comigo nessa etapa.
No dia que seria o do nosso casamento, eu senti muitas dores abdominais a ponto de ser levada para o hospital. Todos achávamos que seria algo psicológico por causa da data, mas assim que comecei a sangrar esse pensamento fora deixado de lado: eu estava tendo um aborto espontâneo. Estava grávida de dois meses, mas só soube disso quando estava perdendo o meu filho.
Mesmo que eu não soubesse da gravidez, perder o bebê tinha sido devastador.
– Pronta para trabalhar. – foi tudo que respondia a assim que voltei do meu devaneio.
sabia que aquela resposta vaga escondia muita coisa, mais do que eu queria falar de verdade. Ele era um bom profissional, percebia a minha omissão sem dificuldades. Mas, como um bom amigo ele me daria o tempo necessário até que eu pudesse falar sobre tudo confortavelmente.
bebeu um pouco do seu café, mas ainda mantinha o olhar fixo em mim. Eu apertei meus braços ao redor do meu corpo, me encolhendo sutilmente. Às vezes, quando me olhava, eu me sentia intimidada.
– Você já foi atualizada sobre o quadro de pacientes?
Ele mudou de assunto, assim como mudou de postura. Era para que não ficasse incomodada com a situação. Agora estávamos falando sobre assuntos do trabalho, o que me deixava mais tranquila. Relaxei meu corpo na cadeira porque esse era um assunto que me mais me acalmava ultimamente.
– Temos paciente novo? – falei interessada, não era sempre que o quadro de pacientes atualizava no Sook, considerando o valor da internação.
– Temos – apontou o dedo pra ele e depois pra mim – Eu e você – de repente o homem ficou sério demais antes de retornar a falar – . O diretor acha que por ele ser sul-coreano eu tenho mais chances de fazer com que ele se sinta confortável aqui – então passou a mão em frente ao seu rosto sinalizando os seus traços faciais.
Fiz uma careta demonstrando o quão desagradável era aquela fala. Eu sentia muito por todas as vezes que já tinha escutado alguma piada ou algo desagradável por causa de sua nacionalidade. Infelizmente, isso ocorria mais vezes eu poderia imaginar.
– E porque eu fui escolhida como psicóloga dele? – perguntei.
– Porque eu indiquei – ele deu seu sorriso de lado – Nós somos uma boa dupla aqui no hospital – ele deu de ombros – Além disso, é um caso interessante. Tenho certeza que você vai gostar.
– Por que ele está aqui ?
– Trauma pós morte do pai – ele rolou os olhos – Pelo menos, é que devemos divulgar.
“O que devemos divulgar?”
A última frase tinha me deixado curiosa, e eu sabia que tinha feito de propósito. Trabalhar no Sook era aprender a lidar com os segredos de muitas pessoas, nenhuma família da elite, fosse de onde fosse, gostava de expor publicamente os seus “defeitos”. Por isso, a maioria dos pacientes do hospital estava ali mais para serem escondidos do que tratados.
Com o recém chegado não poderia ser diferente, o tom de ao mencionar o rapaz me fazia supor que tinha algo a mais do que a família gostaria de mostrar. Levantei sutilmente o canto superior dos meus lábios, eu sempre fazia isso quando estava curiosa, e conhecia essa mania tão bem que não precisou que eu pedisse para que ele continuasse a falar.
– A verdade – eu o incentivei a continuar quando assenti com a cabeça – matou o pai em um acesso de fúria. O próprio pediu para chamar a polícia para se entregar, mas a família, de certa forma, escondeu o caso da mídia coreana e alegou insanidade mental, para que pudesse ser internado aqui – movimentou-se na cadeira buscando uma posição mais confortável – Desde então o rapaz não fala com ninguém. Não abriu a boca desde que chegou ao Sook – ele arfou – O irmão contou que não se lembra de nada sobre quanto o ataque ao pai.
Mordi os lábios, ansiosa para ler a ficha de , olhar os detalhes do caso. O Sook ainda não tinha recebido casos como aquele. “Os judiciais”, como chamávamos na faculdade. Até então o paciente mais perigoso que eu havia atendido era Adam, o esquizofrênico que até hoje achava que estava preso por ter matado uma barata no banheiro de sua casa.
– A família do rapaz é influente na Coréia, os maiores produtores de morango do país, eu acho. – comentou – O próprio estava fazendo seu nome com pintor profissional. Pesquisei por suas obras no Google, e ele tem talento. Escolheram o Sook por estar longe o bastante da casa da família. Uma distância suficiente para manter a mentira de forma segura.
Sorri para o homem em minha frente sabendo que não seria julgada por me estar empolgada com o paciente novo. Assim como eu não julgava meu amigo por estar feliz em atender aquele caso. Repassei as informações que tinha acabado de ouvir, até que algo prendeu minha atenção:
– Você disse que ele não se lembra de ter atacado o pai?
– O irmão disse que essa foi a última coisa que disse: que não se lembrava do momento de agressão ao pai.
– Dissociação – sussurrei mais para mim do que para , mas isso não impediu que ele ouvisse o que eu tinha acabado de falar.
– Sabe o que é mais interessante? – ele me perguntou arqueando a sobrancelha – Dissociação de personalidade – ele sorriu ao ter minha atenção toda para ele – O irmão disse que apresenta esse tipo de ruptura desde criança: acesso de raiva , comportamentos impulsivos e a falta de lembranças. Ele ainda completou dizendo que essas crises tornam o irmão caçula diferente de quem ele realmente é.
– Os blackouts – confirmou com a cabeça – Mas, mesmo tendo essas crises na infância, nunca o levaram ao psicólogo ou ao psiquiatra?
– E ter a chance de mostrar ao mundo que o caçula da família é defeituoso? – ele bufou e eu rolei os olhos – A mãe de não veio nem para a internação do filho, ao invés disso escreveu uma carta que sutilmente ameaçava o diretor caso a história real vazasse…
olhou para o relógio em seu pulso e eu fiz o mesmo. Eu estava atrasada, e aparentemente o meu amigo também. Ambos levantamos com pressa das cadeiras em que estávamos. Eu tinha perdido cinco minutos da minha sessão de grupos. Sem precisar mencionar o atraso ou o fim da conversa, andou apressado em direção a porta de saída e eu fiz o mesmo.
Andei pelo jardim com calma, mesmo que estivesse atrasada. Alguns minutos de atraso não faria mal e eu sempre compensava no final da sessão. Passei levemente a mão por um arbusto cheio de margaridas, minhas flores preferidas, respirei fundo inalando o leve odor que elas espalhavam pelo ambiente. Era primavera em Bath.
O meu destino estava próximo, e agora a ansiedade por estar atrasada dava lugar a ansiedade do atendimento. Sempre acontecia, já que eu nunca sabia o que esperar em cada sessão. Mas, antes de chegar a sala que atenderia, avistei o ambiente reservado para as oficinas de arte: a sala de vidro, como os pacientes do Sook gostavam de chamar.
O cômodo fora projetado com paredes de vidro em todos os cantos, permitindo que a luz natural entrasse pelo ambiente inteiro. Para que nenhuma sombra atrapalhasse o processo criativo de quem fazia aquela atividade.
Diminui o passo para que pudesse observar melhor. Não era a beleza do cômodo que me chamava atenção, mas sim o ocupante solitário que está lá.
Sentado no chão, ao lado de um cavalete e uma tela em branco estava um homem. Ele vestia um conjunto solto de linho branco – no Sook os pacientes não usavam uniforme –, os pés se mantinham descalços. O cabelo negro do rapaz era volumoso e sua franja ondulada quase cobria os seus olhos.
O olhar!
De longe eu não conseguia ver com precisão, mas sabia que os olhos eram escuros. Do formato dos de uma raposa, e seguiam meus movimentos. Era um homem jovem e bonito. Um dos mais belos que eu já havia visto. Um rosto marcante, mas com detalhes delicados. Os traços orientais.
Ele não se intimidava comigo o olhando, pelo contrário, fazia questão de manter seus olhos em mim. O olhar era pesado, e eu sentia o efeito deles em um corpo. O calafrio que sentia subir nos meus braços não era causado pelo vento leve que batia nas folhas. Nem toda sua beleza do rapaz aliviava a sombra que aqueles olhos carregavam. Ele me deixava nervosa por alguma razão.
Continuei o meu caminho tentando não olhar mais para a sala em que ele estava. Mas eu sentia o peso dos seus olhos estreitos sobre mim. Respirei fundo, tentando mudar meus pensamentos. Mas era difícil. Então ali estava ele, e mesmo que ninguém tivesse me apresentado, eu sabia quem ele era:
.

2.

Eu escrevi o nome da minha sombra: hesitação.
Ela nunca hesitou depois de se tornar aquilo
ela continua aparecendo sob o palco ou sob
as luzes continua me encarando, abrasadora,
como se fosse uma onda de calor.
(Intro: Persona)

Apertei o pincel com força em minha mão, podia sentir a raiva aflorar por mim, nem que eu tentasse conseguiria pintar algo, respirei fundo porque sabia que a fúria poderia me transformar em outra pessoa. A tela em branco que reluzia em minha frente, nada mais era do que um reflexo do que eu era hoje: um nada. Pisquei para o cavalete, que parecia zombar da minha incapacidade, , o promissor artista sul coreano, agora era só um criminoso potencialmente louco.
Balancei a cabeça com expectativa que aquilo fizesse o pensamento se tornar outro. Tentei concentrar em lembranças que eram boas para mim: recordei do dia que Rhyu me levou para correr nos campos de morango em nossa fazenda em Daegu, não lembrava minha idade mas não passava dos dez anos. Naquele dia, eu tinha levado uma surra do meu pai, por dizer que gostava de dançar, e o homem só havia parado de me bater porque minha mãe tinha pedido. Não porque se importava, mas porque o meu choro estava fazendo sua enxaqueca piorar.
Rhyu me tirou de casa para que eu não escutasse mais as palavras de ódio que meu pai proferia sobre mim para minha mãe. Meu irmão era três anos mais velho que eu, mas sempre fora a pessoa com maior esmero por mim. Rhyu desde novo aprendera que era ele que tinha que me proteger, considerando que meus pais não tinham capacidade para o mesmo. Então, naquele dia, o hyung tinha me levado para correr no campo de morangos, pois sabia que aquilo me deixava feliz, sempre. Eu gostava de comer as frutas do meu pai escondido, era uma forma de me vingar secretamente, já que ele odiava que tanto eu quanto Rhyu mexêssemos em suas plantações.
Mesmo que aquele dia tivesse começado de forma ruim, eu sempre me recorria a ele como lembrança boa, pois foi quando eu e meu irmão fizemos o nosso pacto de sangue, no qual juramos nunca deixar que qualquer pessoa fizesse mal a um de nós. Desde então, ele era a pessoa que eu mais confiava, além de ser a única pessoa que eu poderia contar em quaisquer circunstâncias.
Olhei para a tela novamente, em busca de inspiração assim que resgatei a memória que me fazia sentir bem. Nada. Molhei levemente o pincel em minha mão com a tinta vermelha, mas em vão, pois, ao invés de pensar em morangos como acreditei que aconteceria, lembrei-me do sangue jorrando pelo corpo do meu pai no dia em que o matei.
Senti a dor de cabeça chegar. Forte e aguda como sempre acontecia, a dor sempre vinha como um lembrete para eu deixar de pensar em coisas boas, os flashes disparavam por minha mente, eu já não conseguia pensar nas plantações de morango mais. As imagens vinham rápidas e mudavam com a mesma intensidade. Não era minha imaginação, eram os fatos daquele dia. Fechei meus olhos e coloquei as mãos sobre eles, com a intenção de parar a dor que sentia naquela região.
Percebi meu corpo tombar, me fazendo ficar de joelhos enquanto a dor aumentava, agradeci por não ter ninguém na sala além de mim, a cena devia ser patética. Mesmo que eu não quisesse as lembranças insistiam em me perturbar, como se pedissem espaço para invadir minha mente. Não era o tipo de memória que gostaria de ter mas, se não permitisse pensar sobre, aquilo me atormentaria por um longo tempo:
Flashback on
Virei a maçaneta com cuidado para não fazer barulho, já que isso denunciaria que eu não havia passado a noite em casa. Era quase meio dia, mas eu duvidava que alguém tivesse sentido minha falta no café da manhã, além de Rhyu. Porém, meu irmão sabia que eu tinha passado a noite com Hana, minha colega de trabalho, por quem eu estava me apaixonando mais rápido do que imaginava. Eu não queria ser questionado sobre com quem eu dormia ou não, já tinha deixado de dar satisfações aos meus pais há muito tempo e gostaria de manter minha vida daquela forma.
Andei com cuidado até o segundo andar da casa, mas não havia sinal de qualquer pessoa no ambiente. Caminhei mais um pouco com intenção de chegar ao meu quarto, eu precisava tomar banho antes de ir para a galeria, já que tinha saído apressado da casa de Hana. Mas, antes que eu conseguisse chegar ao cômodo ouvi as vozes alteradas vindo do escritório do meu pai. Com a porta entreaberta eu consegui distinguir que uma das vozes era de Rhyu, o que me deixou em estado de alerta, parei para escutar melhor a conversa e ponderar se seria preciso intervir ou não na situação.
– Já está decidido Rhyu – ouvi a voz embaralhada do meu pai, provavelmente já estava bêbado e aquilo não era um bom sinal.
– Mas, pai, isso não é certo o… – em seguida a voz do meu irmão mais alterado do que o habitual.
– Eu já disse que essa será a minha decisão, não seja insolente com seu pai – agora o mais velho gritava.
No impulso abri a porta e entrei no escritório, fazendo com que os dois olhassem para mim com expressão de surpresa. Meu pai sorriu com seu jeito sarcástico, era o seu modo de zombar de mim toda vez que me encontrava. Respirei fundo contendo a vontade de sair de perto dele, eu não entendia o medo que sentia daquele homem, mas eu não iria deixar meu irmão sozinho com o cara que não se importava com a família.
– O príncipe resolveu se juntar a nós. – meu pai não escondia a ironia ao falar sobre mim – Bom que você está aqui, temos assuntos importantes a tratar. Assunto de homem – ele me olhou de cima a baixo – Se é que você me entende.
O homem deu um passo em minha direção, mas cambaleou quase caindo, fora salvo pela mesa que serviu como apoio para seu corpo. Estava completamente bêbado. Senti minha respiração fatigar pelo perigo que aquela situação representava para mim.
– Está tudo bem aqui, hyung? – perguntei ao meu irmão, ignorando a risada do homem que tentava se equilibrar em minha frente.
, não se preocupe. São assuntos de negócio, vai ficar tudo bem – Rhyu dizia agora com a voz calma, mas eu sabia que era só uma forma dele tentar me tirar dali.
– Dois incompetentes que se juntam para me ferrar. – meu pai tinha conseguido dar alguns passos e se encontrava mais perto de Rhyu do que de mim – Dois bostas que eu tenho que chamar de meus filhos.
– Seu porco bêbado. – ouvi Rhyu gritar para ele – Você não merece a família que tem.
As palavras de Rhyu me assustaram, nós nunca fomos desrespeitosos com nossos pais, mesmo que eles não fossem as melhores pessoas do mundo. Mas, de repente meu irmão mais velho estava gritando com ele, dizendo coisas que o deixariam ofendido. A partir dali, as coisas aconteceram rápido demais: vi meu pai empurrar o corpo do meu irmão para trás, o fazendo cair sobre a mesa, mesmo bêbado e sem equilíbrio o homem conseguia, de alguma forma, ter forças.
O medo tomou conta de mim. Raramente eu reagia quando apanhava do meu pai, mas vê-lo partir para cima de Rhyu despertou um senso de segurança que eu não tinha por mim mesmo. Percebi a ira no rosto do velho, ele continuava a gritar, mas eu já não ouvia as suas palavras. Rhyu erguia o braço sobre o seu rosto como forma de proteção, mas meu pai socava suas costelas. Era uma cena horrível: ver meu irmão ali, em sua forma mais frágil. Rhyu chorava.
Olhei ao redor procurando algo que pudesse usar. Eu estava com raiva do meu pai, e tudo o que queria era machucá-lo. Avistei o mini bar, nele a garrafa de vodca que ele gostava de exibir por ser uma bebida cara. Corri até ela, bati com ela na parede, mesmo que tenha voado alguns cacos de vidros em meu rosto eu não me importei. E logo em seguida parti para cima do homem que surrava meu irmão mais velho.
Flash back off
Senti a cabeça doer mais assim que retornei ao presente, daquele ponto em diante eu nunca conseguia lembrar mais nada que tivesse acontecido no escritório. A frustração tomou conta de mim, soquei o chão com uma das mãos, havia doído mas eu não me importava. Apertei o pincel, que ainda estava em minha mão com força, como se o objeto fosse uma proteção contra os pensamentos ruins.
Ainda de joelhos, arrastei meu corpo para perto da parede, minhas pernas doíam. Sentei, me obrigando a encostar as costas na superfície lisa, me forçando a olhar para o jardim em minha frente. Sorri ao pensar que qualquer um que estivesse lá fora poderia ter visto a crise que eu acabara de ter. Maldita sala de vidro. Juntei os joelhos perto do meu corpo, me encolhendo e me protegendo de qualquer pessoa que quisesse me ver além daquilo.
Mentia sobre querer me proteger dos outros, mas sabia que a única pessoa que poderia me fazer mal era eu mesmo. Não só para mim, mas eu era ruim com os outros, o exemplo disso era o fim que eu tinha dado ao meu pai. Desde que tinha chegado ao Sook prometi me fechar mais ainda para o mundo, para que assim eu pudesse proteger quem quer que quisesse chegar perto de mim e do mal que me habitava. Por isso não conversava e não interagia, minha estratégia era afastar qualquer um que quisesse entrar em minha vida.
Senti a raiva querer tomar conta de mim novamente, não a ponto de perder o controle, mas por precaução fiz o que o doutor havia me pedido para fazer quando sentisse que estava ficando furioso: inspirei e expirei. Respirei fundo com intenção de fazer o movimento dez vezes seguidas. Minha respiração era pesada e meu peito ardia. Minha cabeça ainda insistia em retornar para a lembrança que eu acabara de ter, e isso me deixava com receio. Respirei uma vez, enchendo o meu peito o máximo possível com ar, mas antes de soltar com calma a respiração eu a vi.
Ali no jardim, andando em frente a mim, eu vi meus olhos se fixarem nela.
A moça que tocava cuidadosamente as margaridas que compunham o jardim, ela tinha um olhar doce para as flores. Eu sempre achei que margaridas eram sem graças, mas o olhar dela para as pequenas flores brancas me convencia do contrário. Eu nunca tinha visto aquela mulher no Sook antes, e ela era linda.
Os cabelos castanhos dançavam no ritmo do vento leve que passava por ela. Meus olhos ainda parados sobre ela perceberam o momento em que ela virou para me encarar também, eu não disfarcei, não desviei o olhar e ela também se manteve firme a mim. Desejei estar mais próximo a ela, para poder ver a reação dos seus olhos nos meus, pois eu sabia que os meus não estavam normais.
Sem me importar acompanhei a mulher até o seu destino final, e ela não tirava os olhos de mim também. Percebi que ela carregava um crachá em seu pescoço, mesmo que não pudesse ler seu nome no objeto, eu sabia que ela era funcionária do hospital. Os crachás eram as coisas que diferenciavam os pacientes dos funcionários no Sook.
Acompanhei seu andar até a sala que seria seu destino final: a sala de terapia em grupo. Engoli a seco ao perceber que estava me arrependendo de rejeitar as tais sessões em grupo, só porque eu não poderia observá-la mais de perto agora. Assim que ela sumiu do meu campo de visão, abaixei a cabeça e ri: engraçado o quanto eu me sentia atraído por mulheres, mesmo que meu pai tivesse duvidado disso a sua vida toda.
Com um pequeno impulso subi meu corpo e andei até o cavalete. Deixei o pincel sujo de vermelho ao lado dos outros e peguei um que estava limpo, mergulhei o objeto delicadamente na tinta amarela para em seguida levá-lo ao quadro branco. Não demorou muito até que eu finalizasse o desenho, que era pequeno e não exigia muita complexidade. Encarei mais uma vez a pequena margarida na tela, era a primeira vez que eu conseguia desenhar algo desde o assassinato e, mesmo que fosse aquela pequena flor, eu me sentia satisfeito.

3.

Até a escuridão que vemos é tão bonita
Por favor, acredite em mim
Estou olhando diretamente para você
Para que você não vá a lugar algum (Your Eyes Tell)

.
A sala do diretor Henry tinha um cheiro engraçado, não ruim, mas diferente dos outros ambientes no Sook. Tanto eu quanto tínhamos curiosidade em saber qual o incenso que o homem usava em seu escritório e sugerir que trocasse a fragrância para algo que fosse menos parecido com naftalina. Henry era um senhor de meia idade, poderia parecer antiquado a primeira vista, mas era um psiquiatra reconhecido pelos seus meios diferentes de abordagem, não era a toa que estava no comando do hospital atualmente.
Ajeitei-me um pouco mais na poltrona de couro da sala do chefe, ele tinha me chamado para uma conversa particular depois de três dias que eu havia retornado ao trabalho, já desconfiava qual assunto que seria abordado e, por isso, me preparava para dizer o rotineiro “estou bem, fico melhor quando estou trabalhando”. Henry era astuto e saberia se eu estivesse mentindo para ele.
– Prontinho – o mais velho adentrou ao ambiente com duas xícaras em mãos – O nosso chá está pronto!
Ele disse sorrindo, me entregando a primeira xícara, tomei um gole do líquido que ainda estava muito quente, constatando que era chá de camomila. Eu odiava chá, mas Henry insistia que beber café o dia inteiro não seria bom para minha saúde e que eu só tinha que acostumar meu paladar ao gosto da erva. Tentei ser discreta, mas a careta em meu rosto denunciou que o gosto que acabara de experimentar não me agradava em nada, ouvi a risada dele, que já estava sentado em minha frente.
– Costume, . – ele disse tomando o seu próprio chá – Tudo é questão de adaptação.
– Eu passo, Henry.
Depositei a xícara na mesa de centro entre nós, e olhei ao redor buscando a cafeteira que o homem mantinha em sua sala, mas ela já não estava mais ali. Olhei com indignação para Henry, não precisei dizer nada para ele soubesse o que estava procurando.
– Você sabe o porquê te chamei aqui, não é ? – ele colocou as mãos sobre as pernas cruzadas me fazendo ficar ansiosa quanto aquele cenário.
Henry me lembrava dos tempos em que frequentava o psicólogo, era hipocrisia da minha parte, mas eu não gostava de ser analisada. Talvez tivesse seguido para psicologia justamente por pensar que se pudesse entender as técnicas poderia cuidar de mim mesma, mas ninguém tinha me avisado que não era assim que funcionava. Toquei levemente a barriga, sendo o mais cautelosa possível para que ele não visse meu movimento, queria sentir a cicatriz recém feita, mas não queria que ele notasse minha intenção.
– Eu sei Henry – disse por fim para quebrar o clima – E para poupar nosso tempo, eu já te digo que estou bem, não tem nada que me impeça de voltar a trabalhar agora.
A minha relação com Henry permitia que eu fosse menos formal com ele. Todos no Sook já sabiam que tanto eu quanto éramos os protegidos do diretor: por sermos os mais novos e por sermos os discípulos da metodologia “henriana”: acreditávamos em métodos mais humanizados, assim como pregava a ideologia da instituição, e por inúmeras vezes apoiamos e replicamos as técnicas diferentes do diretor.
, não precisa mentir para mim – ele tombou levemente a cabeça para o lado – Você perdeu duas coisas que amava: o seu relacionamento e o seu. – ele fez uma pausa – Bom, o bebê!
Engoli a seco a última menção dele, remexi inquieta na poltrona, me sentindo desconfortável com o assunto. Na verdade, Henry era mais que nosso chefe no Sook, a proteção do mais velho para comigo e com se estendia além dos muros do hospital. Ele acolhera os dois forasteiros como filhos, e tanto eu quanto acreditávamos que o amor do velho com a gente se devia a falta que ele sentia da esposa e do filho, mortos em um acidente de carro há 10 anos. O afeto do homem tinha sido transferido para os estrangeiros, e nós não reclamávamos, porém tentávamos não transparecer o vínculo dentro do ambiente de trabalho.
– Henry eu não tive tempo de conhecer essa criança.
Minha voz estava embargada, não queria admitir, mas eu me sentia mal com aquele assunto. Ser mãe sempre fora meu sonho, e me doía, mesmo que não tivesse dado tempo de curtir a gestação, ter me despedido tão prematuramente daquele bebê.
, ainda assim era seu filho – eu sentia os olhos arder com a chegada das lágrimas – E ele foi tirado de você – pressionei meus lábios como sempre fazia quando precisava segurar o choro, mas percebi uma lágrima descer por minha bochecha – O luto , – a voz dele era cuidadosa – ele precisa ser vivido da forma correta, e você perdeu um…
– Sim, eu perdi um filho – cortei o assunto antes que eu não conseguisse continuar a ouvir – Me doeu, mas eu passei um mês em casa e agora eu estou bem – busquei o lenço de papel na mesa em minha frente com intenção se secar as lágrimas que se formava em meus olhos – Eu vivi meu luto Henry, mas se vocês me lembram a todo tempo sobre isso, eu não vou conseguir seguir. Eu preciso ocupar minha cabeça com algo, e o trabalho me faz bem, não quero voltar para meu apartamento e encarar as paredes de novo.
Tinha sido o mais sincera possível, de verdade eu tentava superar o acontecido, o que Henry não precisava saber é que em meio a minha dor eu tinha voltado a me cortar, hábito que tinha adquirido na infância e perdido há 5 anos. Mas, naquele último mês era o alívio que me ajudava a pensar melhor. Com a ponta do dedo rocei o corte por baixo da blusa, sabia que ele estava ali e minha vontade era de fazê-lo arder novamente.
Os olhos de Henry desceram até os meus dedos, que involuntariamente cutucavam uma parte de minha barriga por cima da roupa. Olhei para o local que ele encarava e então pude ver que havia uma pequena mancha de sangue em minha camisa branca, eu tinha aberto a ferida sem perceber. Encolhi-me afastando a mão do local que outrora ela estava, olhei surpresa para o homem em minha frente, que mantinha os olhos semi cerrados em minha direção. Desconfiava de algo, mas não me questionaria sobre isso ainda.
– Eu tenho um segundo assunto para tratar com você – ele bufou sem se importar em esconder a impaciência que estava sentindo comigo naquele momento – É sobre o trabalho, e agora eu quero falar como seu diretor – foi minha vez de cerrar os olhos para ele – me disse que você recusou a presença dele em sua sala durante as consultas com .
– Sim, e achei que fosse óbvio que eu recusaria – dei de ombros – As sessões são particulares e, por mais que seja o psiquiatra de , ele não deve estar em nossa consulta a não ser que eu o convide como profissional – rolei os olhos – Eu não preciso de vigia Henry.
– ele tinha descruzado a perna para jogar o corpo para frente, em minha direção. A sua postura demonstrava que aquele assunto era sim de cunho pessoal e não somente entre diretor e funcionária – é um homem instável, isso pode ser perigoso. Manter você sozinha em uma sala com ele não pode ser seguro.
– Tem certeza que esse assunto é sobre o hospital Henry? – disse ríspida a ele, não aceitaria que dessem palpite em meus atendimentos – Qualquer paciente do Sook é potencialmente instável e, por consequência, perigoso – cruzei minhas pernas satisfeita com o rumo que o assunto estava levando – não é diferente, e por não ser diferente não irei tratá-lo de forma desigual aos meus outros pacientes.
– Ele é perigoso – a preocupação de Henry beirava ao sentimento paterno.
– Quem te disse isso Henry? Até onde sei, ele não abriu a boca em nenhum momento desde que chegou ao hospital – o homem engoliu em seco – Eu, como psicóloga de , não posso considerar nada sobre ele que tenha vindo por terceiros. Você já deveria saber disso e inclusive estou envergonhada por você, profissional da saúde, não pensar como eu.
– Eu estou levando uma grande lição de uma pirralha!! – ele riu abertamente e eu o acompanhei – Eu que deveria estar envergonhado.
Cruzei os braços sobre o peito enquanto recostava minhas costas na poltrona, saboreando o gosto da mini vitória que tinha acabado de ter sobre Henry. Não era sempre que eu deixava o homem sem graça, mas toda vez que acontecia eu me sentia orgulhosa.
– Tudo bem , eu nunca vou questionar seus métodos – ele bateu com as palmas das mãos em suas coxas, sinalizando que sabia que tinha perdido aquela discussão – Mas, se em algum momento você perceber que pode ser um risco, nós vamos voltar a ser cautelosos quanto às sessões, tudo bem?
Meneei a cabeça sinalizando que concordava com o acordo, mesmo que soubesse que esse dia poderia não chegar, de fato. Em três dias eu já tinha pesquisado sobre a vida de , mesmo que não tivesse contado a ninguém sobre. O pouco que tinha achado sobre ele na internet não era condizente com o homem que relatavam ter dado entrada ao Sook. A mídia coreana tratava como um cara encantador e um artista talentoso e, no entanto, no Sook, ele era visto como o homem mais perigoso internado no hospital até o momento.
E isso me incomodava, não sei como, mas sabia que não era o homem ruim que todos ali acreditavam que fosse.
– Bom, reunião encerrada – Henry chamou minha atenção novamente, sua postura estava mais descontraída agora – Então, o que acha de um jantar lá em casa para comemorar sua volta ao trabalho? Eu, você e o ?
– Claro, papai!
Sorri, provocando Henry, papai era o jeito que eu e o chamávamos em segredo, justamente pela forma com que ele nos tratava longe do hospital. Ele rolou os olhos, fingindo indignação com o apelido que eu acabara de dizer em voz alta, mas eu sabia que ele gostava quando o tratávamos dessa forma.
Mas, antes que Henry pudesse dizer o horário do nosso encontro ouvimos um grito seguido por outras vozes do lado de fora de sua sala. Alguma confusão estava acontecendo em algum canto do Sook, o que fez com que nós dois saíssemos em direção ao barulho.
No corredor dos quartos, que era próximo ao escritório de Henry, podíamos ver alguns pacientes aglomerar ao redor de um homem e uma mulher, que puxavam uma boneca de pano. Reconheci Jennie, a boneca mascote do Sook, ser disputada por Joe e Ema, e isso não era incomum, já que ambos sempre brigavam por ciúmes do sentimento da boneca um com o outro. O barulho era pior do que a cena de fato, e os gritos de Joe dizendo que Jennie amava mais a ele do que a Ema tinha chamado atenção dos pacientes que ocupavam os quartos naquele momento. O corredor estava cheio, mas felizmente ninguém apresentava sinais de alteração com o que presenciavam.
Observei dois enfermeiros correr em direção a dupla, por ser uma situação corriqueira no Sook eu sabia que não seria necessário minha intervenção no momento. Deixei que os enfermeiros acalmassem os dois como sempre faziam, e ao ver Henry tomar Jennie para si, fingindo dar mais bronca nos dois barulhentos por terem machucado a boca decidi que era a hora de voltar a minha sala e organizar minhas consultas da tarde.
Girei meu corpo para seguir direção ao consultório, mas parei assim que meus olhos encontraram os olhos escuros de . O homem estava parado na porta de seu quarto. Sua postura era calma, e suas mãos estavam escondidas nos bolsos de sua calça de linho bege, que fazia um par perfeito com sua bata branca. Os cabelos desgrenhados não escondiam os olhos, que ainda estavam inchados denunciando que ele tinha acabado de acordar.
não observava a cena de Joe e Ema, ele olhava para mim, sem desviar seus olhos dos meus. Respirei fundo absorvendo a sensação que o olhar de causavam em meu corpo. Era intimidador. Porém, algo em me prendia em sua expressão de tédio. O vi molhar os lábios inferiores com a língua e pressionar levemente os lábios, para em seguida sair do meu campo de visão. tinha voltado para o quarto, fechado a porta atrás de si. Tão rápido quanto havia chegado, ele tinha ido embora.
Percebi que estava parada no corredor encarando um espaço vazio, assim que Henry bateu em meu ombro me mostrando a boneca rasgada. Sorriu para mim, seria a quinta vez que Jennie teria que ser costurada por ele, eu balancei a cabeça em sua direção fingindo que escutava o que dizia. Comecei a andar, seguindo para o meu destino inicial antes de encontrar com no corredor, mas ainda me sentia impactada com aquele breve encontro entre a gente.
Passei a mão por meus cabelos, tentando afastar os pensamentos que ocupavam a minha mente, mas o movimento não surtiu efeito: os olhos de era tudo o que eu conseguia pensar daquele momento em diante.

4.

Uma floresta só para nós, mas você não estava lá

Eu esqueci a rota pela qual vim

Eu até mesmo esqueci quem eu era

(FAKE LOVE)

.
Pisquei algumas vezes antes de pegar o que estava entregando a mim, o caderno de couro em suas mãos continha anotações de vários momentos da minha vida. Todos pessoais. Encolhi com a possibilidade de ter lido o que eu havia escrito. Ao mesmo tempo, eu estava intrigado, sem saber como o objeto havia parado ali, no Sook, nas mãos do meu psiquiatra.
Deslizei meus olhos entre as mãos do homem e sua face, queria questionar a sobre a situação, mas não tinha vontade de conversar com ele. Sabia que estava me provocando, ele ainda tentava me fazer falar mas, de novo: eu não tinha interesse. Suspirei impaciente, enquanto pegava o caderno, descobriria depois como ele havia saído da Coréia. Do outro lado, suspirou derrotado enquanto afastava as mãos de perto de mim.
– Seu irmão pediu para que eu o entregasse o caderno – ele disse ajeitando os óculos sobre o nariz – Rhyu disse que você escreve muito quando está chateado, então, quem sabe não te ajuda enquanto estiver aqui.
Franzi o cenho ao ouvir o homem dizer o nome do meu irmão, era como se tivesse encontrado com Rhyu. Olhei meu caderno, ainda fechado pela corda que rodeava sua estrutura, estava receoso sobre quem tinha lido o que continha nas folhas. Eram momentos muito íntimos e ficar exposto daquela forma a estranhos me deixava mais inseguro do que o normal. Mordi os lábios inferiores como sempre fizera quando percebia a situação desconfortável.
chamou minha atenção para ele novamente – Eu não li nada do que tem aí, sou só a ponte entre você e seu irmão – ele cruzou as pernas antes de continuar a falar – Rhyu está em Bath, acho que você poderia considerar autorizar as visitas do seu irmão. Pode te fazer bem.
Sorri de lado, ao ouvir o médico dizer o que poderia me fazer bem ou não. não tinha noção do que me faria bem, ele só achava que sabia. E encontrar meu irmão naquele momento não seria agradável, eu não queria olhar na cara dele, não depois de ter matado nosso pai. Rhyu deveria me odiar, eu era um assassino. Ele tinha que me odiar. Porém me senti satisfeito ao saber que ele estava em Bath, Rhyu odiava sair de Daegu e só de estar em outro país significava muito. Então eu era, de fato, importante para ele.
Encarei o homem com firmeza, era a forma de eu dizer que não cederia a nada que ele dissesse. E tinha entendido o recado, visto que havia soltado outro suspiro, mas dessa vez era de impaciência. Eu ri debochado, não me importava com o que o outro achava sobre mim. Eu não gostava de , achava que ele só me suportava pelo trabalho e, por isso, não me importava em ser simpático com o médico, mas eu nunca tinha visto perder a postura de acolhimento, mas naquele momento ele não era mais o psiquiatra e sim o cara que não tinha paciência para as minhas vontades. Mas, ele deveria manter a pose profissional, por isso, ao ver eu que tinha percebido sua atitude, ficou incomodado. O que me agradou novamente.
– Como está a medicação? – ele tossiu disfarçando o clima na sala, anotava algo em sua planilha também, mas, de novo, eu não respondi – Você poderia balançar a cabeça confirmando se sente melhor com o remédio , só para que eu saber se preciso mudar sua medicação .
Arqueei a sobrancelha direita provocando o médico. Provocar era meu esporte favorito no Sook e algo me dizia que ainda teríamos um longo caminho pela frente com aquelas brincadeiras. Mas, antes que ele decidisse por conta própria a mudar minhas pílulas, balancei a cabeça confirmando que os remédios me faziam bem. Era mentira.
Eu não tomava a medicação como deveria, sempre escondia em minha boca quando a enfermeira me entregava. Antes que eu começasse a tomá-los havia me explicado que eram ansiolíticos, que me ajudariam quanto ao controle da raiva e por consequência dos lapsos. Mas, eu não queria sofrer interferência de nada enquanto estivesse em um lugar estranho, o Sook era um hospital, mas eu cresci sabendo que não deveria confiar em ninguém. A regra não mudava ali.
– Ótimo – ele anotou mais uma vez algo no papel – Sei que você não tem ido as sessões de terapia em grupo – ele olhou novamente para mim – Elas não são obrigatórias, e não vou forçá-lo a ir – continuamos a nos encarar – Mas, quanto a sessão individual, aqui no Sook elas são exigidas em seu tratamento – ele falava com firmeza – E elas começam essa semana. Suas sessões estão marcadas para às sextas-feiras e sua psicóloga é a parou de falar assim que percebeu meu interesse ao ouvir o nome.
Eu sabia quem era a dona daquele nome, mesmo que ainda não a tivesse encontrado. Ficar em silêncio tinha me feito ficar mais observador e atento as palavras dos outros, então, mesmo que eu não interagisse com os demais pacientes eu poderia escutar suas conversas. , a psicóloga que tinha tirado licença antes na mesma época em que eu havia sido internado. A mulher que todos, ou quase todos, os pacientes amavam. A mulher das margaridas.
Olhei novamente para o psiquiatra, e agora ele me encarava com olhar intimidador, não se preocupava em disfarçar. Havia entendido a mensagem: não toque em . E eu não tocaria na mulher, mas estava interessado em vê-la de perto, a imagem dela caminhando pelo jardim persistia em minha mente desde então. Porém, eu não tinha nenhum interesse que não fosse a curiosidade por ela, e poderia ficar tranquilo quanto a isso.
Coloquei o caderno junto ao meu tronco, protegendo o conteúdo de qualquer pessoa que cruzasse meu caminho. Levantei sem pedir permissão, as consultas com geralmente não demoravam, nem eu e nem o médico tínhamos ânimo para continuar com a sessão naquele momento. Caminhei determinado até a porta e, antes que eu pudesse sair, vi esfregar as têmporas com o indicador. Estava apreensivo, mas não comigo. A apreensão do médico era com por causa de .
Andei apressado pelo hospital, o ambiente, por mais que tentasse, não me deixava calmo, queria chegar o mais rápido ao meu quarto, que eu agradecia por ser individual. Os olhares dos outros pacientes e dos funcionários do Sook me incomodavam diariamente. E eles não preocupavam em disfarçar quando me viam. Fechado em meu quarto me sentia preservado.
Respirei fundo, ainda com o caderno em mãos, sentei com cuidado na cadeira próxima à janela, sabia que Rhyu era mais esperto do que pensava e ele, provavelmente, tinha colocado alguma mensagem dentro do diário para mim. Folhei as primeiras páginas não encontrando nada, além do que eu já tinha escrito. Sem paciência virei o caderno de cabeça para baixo, balançando o objeto até que dele caísse uma foto.
Na fotografia eu via Rhyu, Hana e eu abraçados em frente ao karaokê. Hana mantinha o microfone em mãos, sorria de canto a canto. Ela cantava mal, mas ficava feliz em ser a vocalista do trio, por isso, permitíamos que cantasse. Tinha sido a nossa última saída antes de tudo acontecer, estávamos os três felizes. Rhyu e Hana haviam se tornado bons amigos desde o dia em que apresentei ela ao hyung, a convivência dos dois me agradava, já que ela era a mulher que eu queria que estivesse ao eu lado.
Era.
Não era justo que Hana perdesse tempo com alguém que estava preso em um hospital psiquiátrico. Eu a manteria afastada o quanto pudesse. Ela precisava achar alguém melhor que eu para amar. Arfei com a lembrança. O coração tinha apertado ao ver a foto de Hana, eu realmente estava apaixonado por ela.
“Sinto sua falta! – Hana”
Li a frase ao virar a foto, a caligrafia perfeita dela saltava no verso. Era uma mensagem simples, mas ler aquelas palavras mexia comigo. Coloquei a foto entre o peito, como em um abraço: eu também sentia falta dela. Rhyu sabia, por isso tinha mandando aquela foto como mensagem. Ele sabia o que a mulher estava começando a significar para mim.
Senti a energia sair do meu corpo, mesmo que a intenção de Rhyu tivesse sido boa, a foto acabara por me deixar triste e com sentimento de culpa, pensando o quanto eu tinha estragado meu futuro. Arrastei meu corpo para a cama. Dormir tinha se tornado minha atividade preferida no último mês. Sem demora fechei os olhos e me entreguei ao sono.
Poucos minutos se passaram até que eu ouvisse os barulhos vindo do corredor, acordei com a sensação de choque até que minha cabeça me lembrasse de onde eu estava e pudesse me acalmar novamente. No Sook, gritos nem sempre eram sinais de emergência. Coloquei as mãos sobre os olhos, massageando até que eles se acostumassem com a claridade, o objetivo era ignorar as vozes do lado de fora do quarto, mas como estavam ficando mais insistentes me vi sendo obrigado a levantar.
A cena era patética, mas já tinha acontecido outras vezes, no meio do corredor estava Ema e outro homem, que eu não fazia ideia do nome, brigando por uma boneca de pano. Suspirei entediado com a situação, encostando minhas costas ao batente da porta, queria ver como aquilo se desenrolaria. A essa altura o corredor já estava cheio, mas ninguém se mostrava agitado com o movimento da dupla. Possivelmente acostumados àquelas brigas.
Percebi dois enfermeiros correr em direção aos dois briguentos, ao mesmo tempo, vi o diretor Henry se aproximar de Ema e Joe, alguém tinha dito o nome do rapaz em voz alta. No momento em que decidi voltar ao quarto e me excluir daquele movimento, meus olhos pousaram na mulher que estava um pouco mais a minha frente.
Era ela: .
Eu poderia reconhecê-la de costas!
No mesmo instante em que meus olhos pousaram sobre ela, a vi virar, com a intenção de ir embora daquele ambiente. Assim que o fez, nossos olhos se encontraram. Seus olhos amendoados eram lindos, mas tristes. Sua postura tinha mudado assim que ela pensou não ter ninguém com o olhar sobre ela. Ela sustentou o olhar sobre o meu, o que me deixava sem graça, mas não desconfortável. Desviei levemente os olhos para a ponta da blusa, a mancha vermelha era pequena, mas eu sabia que era sangue. Franzi o cenho.
Não sei quanto tempo duramos no olhar um do outro, mas era intenso, como se pudéssemos ler o que o outro era a partir daquilo. Não era normal, mas por toda minha vida me senti fora de padrões. Mas, ali, encarando aquela mulher eu consegui ver que sofria também.
Perceber aquilo sobre ela, me fez pensar o quanto aquilo poderia estar sendo invasivo com . Outra vez me sentindo culpado, mesmo que não fosse minha culpa me sentir hipnotizado por aqueles olhos. Molhei os lábios inferiores em desconforto com o momento. Sem saber como reagir à situação decidi por virar as costas a mulher e me trancar novamente no quarto.
Observei o ambiente, reparado o quanto o cômodo era sem graça, assim como minha vida atualmente. Me tornar alguém desinteressante era um medo que, infelizmente, tinha se tornado real. Olhei para foto em que eu estava com Rhyu e Hana, ela estava caída ao chão, não tinha visto que havia derrubado a fotografia. Olhei com mais atenção e, um pouco mais a direita da foto, escondido entre a mesa e a parede, estava a tela que eu havia pintado há dias atrás. O desenho da flor saltava a meus olhos. Ao ver a margarida pintada, minha mente voltou-se para outra vez. A mulher que eu encontraria nas sextas, a partir daquela semana.
Balancei a cabeça tentando afastar meus pensamentos, não queria pensar em ninguém naquele momento mais. Olhei para a cama, convidativa, aceitei o cansaço e me joguei novamente por cima dos lençóis, já bagunçados. Novamente permiti que o sono tomasse conta de mim, mais uma vez agradecido por conseguir me desligar das coisas que me rodeavam.

Nota da autora:
Oii! Como vocês estão? Obrigada a quem veio aqui para ler mais um capítulo da fic. Como eu disse, a história tende a ser mais lenta no começo, mas eu tô deixando dicas de como ela vai desenrolar ao longo do caminho. Também vou alternar entre um capítulo com visão da pp e o outro na visão do pp, mas se dessa forma for cansativa ou massiva, me avisem por favor.

6.

Nada disso é uma coincidência
Estou apenas seguindo o fluxo o mundo está diferente do que era ontem apenas, com sua alegria.

(Serendipity)

Olhei ao redor da pequena mesa redonda e percebi os dois homens ao meu lado sorrindo de algo bobo que Henry dissera, acompanhei a risada, mesmo sem prestar atenção ao assunto. Não estava rindo pelo que tinha escutado mas sim pelo conforto que ambos me causavam. firmou seus olhos aos meus arqueando as sobrancelhas de um jeito brincalhão, me provocando, o que me fez sorrir mais, agora sabendo o motivo de minhas risadas.
Tínhamos acabado de comer a massa que Henry comprara, já que ninguém do trio tinha habilidade suficiente para fazer o próprio macarrão, a segunda garrafa de vinho estava quase no fim, eu já me sentia leve. Era bom estar entre amigos, mesmo quando sentia necessidade de me afastar da maior parte das pessoas que me rodeavam. Balancei o líquido vermelho escuro que restava em minha taça, ponderava sobre beber mais ou não. Senti a mão de encostar sobre a minha, me fazendo parar o movimento, ele me olhava curioso, assim como Henry, franzi a testa ao ver reação de ambos.
– Você ouviu o que te perguntei? – me questionou, acariciando levemente meus dedos abaixo dos seus.
– Não… – ri baixo, sendo sincera quanto ao que ele tinha me perguntado.
– Eu perguntei se você quer deixar a louça só por minha conta hoje?
tirou devagar sua mão de cima da minha, inclinei minha cabeça para o lado, intrigada com a proposta. Em nossos jantares a bagunça sempre ficava por conta minha e de arrumar, já que Henry era o que sempre pagava pela comida e pela bebida. Cerrei os olhos para o homem em minha frente, desconfiada do por que ele estar sendo gentil, considerando que ele odiava lavar vasilha. Olhei para Henry, do outro lado da mesa, que, por sua vez, apenas jogou o guardanapo na superfície em nossa frente, levantando-se para sair da cozinha.
– Eu não me importo quem vai lavar ou secar os pratos, mas eu sei que não serei eu – ele andou rumo a sala sem olhar para trás, iria ver qualquer séria na Netflix, como sempre fazia aos finais da noite.
Assim que Henry passou pela porta atrás de nós, percebi levantar e juntar os pratos que estavam sujos ao nosso redor, apressei-me a acompanhá-lo, deixando claro que ele não ia fazer o trabalho por mim, eu não estava doente e ser poupada me estressava. Puxei com firmeza as louças que ele segurava, fechando minha expressão quando ele ousou dizer algo a respeito.
limitou-se a rir da cena, mas me acompanhou até a pia enquanto eu empilhava os pratos antes de lavá-los. Joguei o pano para ele, que pegou prontamente o objeto no ar. Ele encostou o corpo no balcão, ficando ao meu lado, pronto para entrar em ação assim que eu lhe passasse os primeiros talheres limpos. Agradeci mentalmente por a pilha em minha frente não ser tão grande, já que meu trabalho teria que ser feito de forma manual, considerando que Henry nunca tinha comprado uma lava louças.
De relance, observei levar a taça que ainda tinha em mãos à boca, acompanhei o movimento prestando atenção ao homem que estava próximo a mim. era bonito. Não bonito, ele era lindo. Percorri os olhos por ele, tentando ser o mais discreta possível, enquanto percebia que o suéter colorido combinava perfeitamente com o homem que o vestia. O cabelo preto caído sobre a testa dava o ar descontraído ao rosto de , que harmonizava melhor com sua personalidade que o jaleco branco do trabalho.
Percebi que ele me olhava assim que viu o quanto eu o analisava, o corpo agora virado em minha direção, enquanto as mãos se mantinham em sua cintura em uma postura descontraída de quem estava se divertindo com o momento. O sorriso contido de fazia com que suas covinhas, uma em cada canto da boca ficassem em evidência.
No impulso de ter sido pega no flagra, voltei minha atenção para a água que escorria em minhas mãos. Engoli a seco antes de continuar a lavar o garfo que havia pegado da pia. Eu senti o rosto queimar, sabia que estava ficando vermelha, o que me fez ter menos coragem para voltar os olhos para o homem ao meu lado, ouvi rir, claro que tinha percebido minha reação a ele.
? – falei na intenção de mudar o assunto, ele murmurou algo enquanto tomava seu último gole de vinho – Por que você nunca namorou?
– Por que você acha que eu nunca namorei, ? – ele me olhou com curiosidade enquanto colocava a taça na pia junto aos outros itens que eu teria que limpar.
– Porque você nunca falou sobre alguém nesse sentido para mim.
Ele arfou, mas de um jeito divertido, e eu senti meu rosto corar novamente, não era típico nosso discutir essas coisas. Na verdade, não era típico meu, já que sempre se mostrara interessado e disposto a ouvir sobre meu relacionamento com Liam. Encolhi ao perceber o quão egoísta eu tinha sido quanto a nossa amizade, ou o quanto eu havia me fechado na bolha do meu relacionamento fracassado.
– Porque esse assunto agora? – ele disse enquanto secava os talheres que eu acabara de passar para ele.
– Porque você é um homem bonito – disse pausadamente, não era mentira, mas falar aquilo em voz alta era, de certa forma estranho para mim – Não deveria desperdiçar sua vida sozinho – baixei o volume da minha voz ao dizer a última frase
O escutei rir outra vez, antes de guardar os objetos que havia acabado de secar na gaveta em sua frente. O som da risada dele tinha causado um efeito novo em mim, parei por um instante a tarefa que eu estava fazendo, para observar as minhas novas reações diante do meu amigo: nada que eu soubesse explicar naquele momento.
Senti o frio na barriga subir, não sabia se era algo causado pelo vinho ou pelo medo do que estava acontecendo. Acabara de perceber que alguns detalhes de me intimidavam, no sentindo bom, e isso nunca tinha acontecido antes entre a gente. Pela primeira vez, ao lado de , me sentia acanhada e nervosa com sua presença, eu culpava o vinho por aquele comportamento, óbvio, já que, em todos os anos de nossa amizade, nunca tinha me sentido tímida ao lado dele.
– Você me acha bonito?
A fala arrastada do homem tinha ligado o sinal de alerta em meu corpo, eu nunca havia percebido a voz de tão sexy quanto naquele momento. Senti um calafrio por meu pescoço, mas ainda culpava o vinho por tudo aquilo. Concentrei-me em limpar a taça em minhas mãos, tentando ignorar a aproximação do homem ao meu lado. Mesmo que tivesse frio naquela noite, eu senti o calor subir por minhas costas, mas ainda assim culpava o vinho e não o corpo de que estava mais próximo ao meu agora.
Dei de ombros, sem responder diretamente o que ele perguntava, não queria me expor mais do que já estava. Mas sim, eu achava bonito, mesmo que não tivesse percebido o quão bonito ele era antes. Lavei rapidamente as louças que restavam abaixo de mim, as entregando com agilidade para , sem permitir que ele tivesse tempo de pensar para continuar a conversa de antes.
Assim que entreguei a última peça a ele, me inclinei em sua direção depositando um beijo em sua bochecha para logo em seguida sussurrar um tchau com minha boca entre sua pele morna. Eu iria embora sem esperá-lo dessa vez. Vi os olhos de abrirem em surpresa, o que eu suspeitava ser por eu estar saindo tão de repente ou, talvez, pelo beijo em sua bochecha, já que eu nunca fora de demonstrar carinho daquela forma por ele.

Alguns dias depois.
Os dias de sessões individuais eram os meus preferidos no Sook, era o que de fato eu gostava de fazer. Considerando minha ausência no último mês a minha agenda estava lotada, mas eu não me importava com a correria, pelo contrário, gostava de manter minha cabeça ocupada.
Olhei o relógio em meu pulso verificando as horas, para confirmar que o próximo paciente entraria em cinco minutos. Coloquei as anotações sobre a sessão anterior na pasta a qual elas pertenciam, tinha esquecido de verificar todos os atendimentos do dia, por isso, não tinha ideia de quem entraria na sala por agora, já que no Sook quem montava os horários não era eu. Corri os olhos pelas paginas a minha frente, com a caneta marquei todos os que eu já havia atendido, até parar em cima do nome que pertencia ao meu próximo paciente: .
Antes que eu pudesse pensar, ouvi a batida na porta, seria Christian, o enfermeiro, para avisar que estava a meu aguardo. Levantei alisando a roupa, escondendo um nervosismo de principiante: sentia-me tola por estar ansiosa com aquele momento. Autorizei Christian a abrir a porta, para em seguida vê-lo fazer uma referência com mão, indicando a quem estava atrás dele tinha a licença de entrar.
Os movimentos de eram lentos, o segui em cada passo que dava até seu corpo estar totalmente dentro da sala. Assim que o paciente tinha entrado, Christian movimentou a cabeça como sinal de que nos deixaria sozinhos pelos próximos minutos. Logo que fechou a porta voltei minha atenção ao homem que se matinha parado próximo à porta.
tinha as mãos escondidas em seus bolsos, os olhos não eram intimidantes quanto antes, estavam observando o ambiente, mas mesmo assim, se mantinham desinteressados ao que estava a sua volta. Não queria admitir, mas me sentia frustrada por ele não se interessar por mim naquele momento. Pigarrei para chamar sua atenção, ao me ouvir, o olhou rapidamente para mim.
Sem que eu o convidasse ele rumou para o divã, jogando o corpo despretensiosamente na poltrona. Acompanhei o homem, sentando a sua frente, me apoderando da prancheta com o papel em branco que cobria o objeto, cruzei a perna, percebendo que o homem mantinha os olhos em suas mãos, ainda desinteressado com o que estava a sua volta.
– Eu sou – ele ainda estava entretido com suas mãos – Sou sua psicóloga, vou poupar o constrangimento e dizer que já sei o seu nome, – rabisquei o sobrenome e o nome do homem no papel que tinha apoiado a prancheta – ele tinha parado de movimentar as mãos, de alguma forma eu tinha chamado sua atenção – Vamos achar um jeito de aproveitar nossas sessões, mesmo que seja em silêncio.
Olhos escuros encontraram com os meus, tinham mais energia do que antes. Quis sorrir, mas mantive a imparcialidade sendo o mais profissional possível no momento. Finalmente eu tinha a atenção dele em mim.

Nota da autora:
Talvez eu tenha enrolado um pouco sobre o primeiro encontro cara a cara deles, mas eu vou narrá-lo no próximo capítulo, pela perspectiva do pp. Capítulo dessa vez foi mais leve do que de costume, mas não deixa de ser importante, porque as coisas acontecem nas entrelinhas dele. Em Stigma, muita coisa acontece nas entrelinhas.
De verdade, espero que tenham gostado! Muito obrigada a quem leu a atualização!! É muito bom saber que alguém lê minha história.