Zero O’Clock

Sinopse: Quebrar barreiras culturais nunca foi uma dificuldade para o BTS como grupo. Mas talvez seja para seus membros individualmente. Anja é uma bailarina fora do padrão, contratada para ajudar Jimin a criar um estilo totalmente novo de dança, usando ballet clássico e contemporâneo como linguagem universal. Mas preconceitos, choque cultural e inseguranças estão sempre no caminho, deixando Jimin e Anja em situações que nenhum dos dois esperava viver, dando espaço para a verdadeira admiração e amor criado pela dança.
Gênero: romance
Classificação: +16 anos
Restrição: fala de gordofobia
Beta: Thalia Grace

01 – Dream Glow
— Está pronta, Anja? Faltam cinco minut… tudo bem?
Anja limpou o rosto e o rímel borrado a tempo, mas os olhos vermelhos eram difíceis de esconder. De que adiantava ter a pele linda se não era capaz de esconder nenhum sentimento? Sorriu triste através do reflexo no espelho e balançou a cabeça concordando. Estava bem. Ia superar. Ia sobreviver. Sempre sobrevivia.
Passou o batom mais uma vez, retocando a maquiagem que havia se desfeito por causa do choro, e sorriu para si mesma. Ajeitou o cabelo ruivo e o prendeu melhor no coque. Pelo menos estava bonita. Podia não ter… Como ele disse? “Corpo de bailarina”, mas sabia que era e dançava como uma, e que o sucesso do grupo se devia ao fato de ser o ato diferente dos padrões de ballet nele.
Se tudo desse certo, e ela dançaria como se fosse a última vez para garantir isso, essa seria sua última apresentação no corpo de ballet daquele cretino. Depois disso, a pessoa que havia exigido uma audiência particular a levaria dali junto com seu irmão e nunca mais pisaria em Moscou de novo. Anja era a irmã do meio entre três irmãos. O mais velho havia morrido de frio durante um dos piores invernos russos, numa época que nem ela e nem o outro irmão conseguiam fazer nada além de chorar por leite — Que não tinham. — e pedir carinho — Que também não tinham. A pobreza durante a infância a fez se tornar uma mulher dura na vida adulta e a carência a fizera se tornar uma mulher dependente. Mas isso não vinha ao caso, aquele fracasso que ela chamava de relacionamento havia finalmente chegado ao fim e ela estava a uma dança de conquistar sua liberdade.

Quando entrou no palco, a música, as luzes e o ritmo a fizeram esquecer todas as suas preocupações. Podia não ter mesmo um corpo de bailarina, estava longe de ser magra e alta como a maioria delas, mas sua dança era incomparável. Era responsável por quase todos os prêmios que a companhia carregava e os levaria consigo para onde fosse. Na platéia havia apenas dois empresários e um cantor assistindo. Estavam ali para avaliar se ela realmente cabia no cargo que queriam criar junto ao grupo deles.

O mais jovem — E único que estava ali única e exclusivamente pela dança. — conhecia o nome de Anja Wang apenas de boca e pela fama. O fato de ela não ter nenhum vídeo online, em nenhuma mídia, e ainda assim muitos prêmios e muitas críticas positivas deixaram curioso para ver aquela performance ao vivo. Ficou surpreso ao ver que a bailarina em questão era gorda e não era chinesa como havia imaginado pelo sobrenome, era russa. O cabelo vermelho dela se destacava mesmo daquela distância, assim como a brancura da pele se confundindo com a da roupa. Parecia uma fada, o corpo gordinho combinando perfeitamente com o figurino, a música e a coreografia. Quando ela começou a dançar, porém, foi como se ela se transformasse numa deusa etérea e tudo isso fizesse parte da coreografia. Era um anjo que podia voar para qualquer parte do mundo apenas com um passo clássico do ballet.
O corpo se movia perfeitamente através da melodia escolhida, como se ela fosse a música e a música fosse ela. Sem que percebesse, estava totalmente inclinado para frente, as mãos apoiadas na poltrona diante de si, maravilhado com Anja.
— Eu disse que ela era boa. — Ouviu a empresária falando quando apoiou o rosto nas mãos e ficou admirando a apresentação como uma criança diante de uma vitrine de brinquedos. Sorriu concordando em silêncio, incapaz de desviar os olhos daquela moça.
***
Um buquê de rosas amarelas a esperava no camarim quando saiu do palco. Não havia prestado atenção na plateia, mas ouvira o boato de que um deles havia chorado e aplaudido de pé quando ela terminou. Imaginou que as flores fossem dele, mas sua esperança morreu assim que abriu o cartão.

Espero que nossa amizade não seja afetada por causa da sua saída do grupo. Ainda te amo. Andrey.

Sentiu vontade de vomitar lendo aquele cartão e estava prestes a lançar o buquê longe quando entraram no camarim. Abrindo o cortejo, estava um rapaz em quem ela identificou a postura de um bailarino imediatamente. Estava com os cabelos descoloridos e usava maquiagem e várias jóias. Ficou parada encarando o rapaz enquanto ele fazia o mesmo. Viu quando ele a mediu da cabeça aos pés, parando milésimos de segundo no corpo que ela aprendeu a conviver, mas que ainda assim detestava, para depois fixar-se nos olhos verdes dela. Ele sorria de um jeito que a fazia se lembrar de um anjo — Asiático, mas ainda assim um anjo. — com os olhos apertados, quase fechados por conta dos olhos pequenos. Não sabia definir se gostava ou não desse anjo, já havia sido enganada por vários ao longo de sua vida.
— Oi…? — Falou. Não tinha certeza se ele havia entendido, ela com certeza não havia entendido a resposta dele.
— Acho que vamos precisar de um intérprete… — Ele comentou, olhando para os lados, juntando as mãos à frente do corpo e esperando que os empresários aparecessem logo com um antes que ele começasse a bancar o fã.—– Bonitas flores. Queria ter trago algumas, você com certeza merece. Amei sua apresentação.— Ele falava apenas para não ficar preso num silêncio constrangedor, mas o olhar de incógnita dela era pior, então ele ficou quieto.
Anja por sua vez ficou analisando aquele homem andrógino o tempo todo enquanto ele falava coisas que ela não entendia. Estivera a um passo de jogar as flores na cabeça dele e ainda bem que não o fizera, percebeu que isso causaria um desconforto diplomático se tivesse feito. Sorria o tempo todo, querendo muito entender o que ele dizia, parecia importante. Pouco depois uma mulher, um homem e Alyona entraram, todos sorrindo muito. Anja olhou para a amiga, querendo uma resposta, mas ela apenas negou rapidamente com a cabeça, num gesto discreto, antes de voltar a sorrir e falar muito rápido misturando inglês e a língua daquelas pessoas. Foi só então que as coisas começaram a fazer sentido para a bailarina, aqueles eram os caras da tal empresa coreana que queria contratá-la por um ano.
Seu sorriso se ampliou e ela teve vontade de finalmente apertar a mão do primeiro rapaz que havia entrado e se apresentar formalmente. Dizer que ele ia ser o príncipe encantado que resgata a princesa do calabouço do feiticeiro mau em todas as danças que fizesse e que representasse algum conto de fadas.
— Anja, esses são os representantes da Big Hit. — Falou Alyona, sorrindo. Fazia as vezes de empresária da amiga e, junto com ela, faziam um par que confundia qualquer um. Ela com um nome russo e um rosto asiático e Anja com um sobrenome asiático e rosto russo, culpa da proximidade que a maioria das pessoas subestimava entre a China e a Rússia.
— Como eu pronuncio o nome dela? — Perguntou Jimin, interrompendo o resto da explicação que Alyona ainda queria dar.
– Anya. — Respondeu. — Se escreve Anja, mas o jota é pronunciado com som de y.
— Anya-ssi, sua dança foi a coisa mais linda que eu já vi na vida. — Falou Jimin e foi prontamente traduzido por Alyona.
— Esse é Park Jimin, Anja, é membro daquele grupo que eu comentei com você outro dia, o BTS. Interrompeu as férias dele apenas para ver você dançando.
Anja sorriu, finalmente colocando o buquê de lado e esticando a mão para o rapaz. Queria agradecer por oferecer aquele emprego, por oferecer sua passagem e sua liberdade, mesmo que fosse num país completamente diferente do seu. Jimin sorriu fechando os olhos e apertando a mão dela com entusiasmo.

— Espero que possamos nos dar bem durante esse ano de trabalho. — Falou. — Você foi incrível. Mal posso esperar para mostrar o que vimos aqui para o resto dos caras. Eles com certeza vão ficar surpresos. — Falou.
O sorriso de Anja esmoreceu um pouco ao ouvir isso. Lá vinha de novo a insegurança que sempre a acompanhava quando alguém se dizia surpreso. Ninguém esperava que uma mulher gorda dançasse como ela. Ainda mais se essa dança fosse o ballet clássico. De repente ficou com medo de conhecer “o resto dos caras” e ser julgada. Por mais que tivesse alguns anos e vários prêmios de sucesso na carreira, ainda tinha que lidar com a Síndrome de Impostor que a acompanhava. Culpa de seis anos de um relacionamento conturbado com Andrey. Lembrar do cretino a fez ficar séria de novo, deixando que Alyona resolvesse tudo com aqueles três.
***
— Você não vai ficar emburrada assim só porque o garoto disse que os amigos iam ficar surpresos com você, ficou? Pelo amor de Deus, Anja, ele estava falando da sua dança! — Protestou Alyona, digitando freneticamente no celular enquanto as duas iam para casa depois da apresentação. Aqueles seriam os últimos dias delas em Moscou.
Anja não disse nada, estava pensativa. Ainda não tinha certeza sobre o combinado entre eles e o grupo formado por ela, o irmão e Alyona. Acompanhariam Jimin no resto das férias dele, mostrando Moscou e a beleza da Rússia nesses poucos dias que restavam do descanso dele.
Para Anja isso seria uma tortura. Tinha imaginado que bastaria assinar o contrato e iriam para Seul viver longe de tudo de ruim que aquele país gelado lembrava. Em outras palavras, longe de Andrey.
— Eu não ligo para o que seis meninos vão dizer, Aly. Só achei que íamos embora logo… Por que você tinha que inventar de me colocar de babá desse menino? Ele tem o que? Quinze anos? — Perguntou emburrada.

— É por isso que está assim? Então eu acho que te conheço menos do que esperava. — Respondeu ela, largando o celular por alguns segundos para encarar a amiga. — Não gostou dele?

— Não é isso…
— O que foi então?
Mas Anja não sabia explicar. Como colocar em palavras que ficou sem jeito com a admiração com que aquele garoto a olhava depois da apresentação? Por curiosidade tinha ido procurar vídeos dele dançando e ficou surpresa com a qualidade da dança dele. Não havia muito o que ensinar, não entendia o motivo de contratarem-na para isso, uma vez que ele e o resto do grupo, eram excelentes dançarinos.
— Acha mesmo que vou ser útil? — Perguntou, insegura.
— Como assim?
— Alyona, você não precisa ficar de rodeios, eu sei muito bem que você só arranjou esse encontro porque é fã dos caras.
— Sou ué, nunca escondi isso! — respondeu a empresária, na defensiva. — Só achei que seria uma oportunidade maravilhosa para que você crescesse e saísse um pouco da sua bolha. Eles não dançam o clássico como você, misturam tantos estilos que acabaram criando um estilo novo. E a sua dança me lembra muito isso, por mais que seu ballet pareça não ter nada a ver com o que eles apresentam.
Foi o suficiente para calar a boca da bailarina. Ficou mais um tempo em silêncio, imaginando o que faria para distrair Jimin nesses poucos dias que ainda ficariam na Rússia.
— E quanto à barreira linguística? Vai ficar de babá da gente o tempo todo?
— Não vou precisar… descobri que o Jimin é fluente em japonês. Você não vai precisar fingir que sabe inglês e ainda vai poder praticar seu hobby favorito. Até que ser otaku não foi tão inútil assim, hein? — Provocou. — Isso, agora sim é a Anja que eu conheço. Anda, desmancha esse bico e sorria mais. Ganhamos hospedagem até irmos para a Coreia. Não vai precisar ficar mais nenhum dia sob o mesmo teto daquele cretino do Andrey.
Anja olhou de novo para Alyona, virando o pescoço tão rápido que acabou sentindo uma fisgada. Agora sorria abertamente, feliz.
— Se tivesse começado por essa informação, eu não teria ficado de cara feia todo esse tempo. O que vamos fazer primeiro?

02 – Crystal Snow
Jimin queria sentar logo na primeira fileira, para ver em detalhes cada passo dado naquela apresentação de dança, mas, por segurança, ele e os empresários que o acompanhavam tiveram que sentar no fundo. Estava de férias e qualquer coisa que fizesse era motivo para aparecer nos tabloides
Coreanos ou não.
então evitava mostrar onde ia ou com quem estava.
Tinha ouvido falar de Anja Wang antes mesmo de ser famoso. O nome dela repercutia no meio, seja do ballet clássico ou no contemporâneo, não apenas pelos prêmios que ela já colecionava, mas também pelo mistério por trás de seu nome. Eram poucos os conhecidos que haviam de fato visto ela dançar, e menos ainda os que conseguiram algum contato com ela. Não havia vídeo, foto, entrevista, quase nada divulgado na mídia, mesmo assim o nome dela era dito com exclamações de admiração onde quer que fosse dito.
Sua expectativa era grande para aquele encontro e se sentia privilegiado por poder assistir uma apresentação praticamente exclusiva. Quando ela entrou no palco, ficou esperando que mais gente entrasse, pois achou que aquela bailarina baixinha, ruiva e fora do padrão fosse uma dançarina auxiliar do espetáculo. Ela era muito bonita e o cabelo dela se destacava de longe, mas ele esperava uma bailarina chinesa e, bem… Alta e talvez um pouco mais magra do que aquela. Mas mais ninguém entrou no palco e logo a música começou a tocar.

A transformação foi imediata e Jimin entendeu a presença daquela bailarina ruiva. Ela era Anja Wang. Quando ela começou a dançar, foi como se ele fosse transportado para outra dimensão junto com ela. Anja se movia pela música como se fossem uma coisa só, se complementando a cada novo passo, a cada novo gesto. A delicadeza e precisão dela eram fantásticas. Jimin se pegou inclinando-se para frente, querendo ver de perto tudo o que ela fazia, mas impossibilitado pela distância onde haviam sentado.
Ela não precisava de cenário ou bailarinos auxiliares, bastava Anja e a música para que o espetáculo estivesse perfeito. O coração dele vibrava quando ela saltava e encolhia quando a música e a dança mostravam o sofrimento guardado em seu coração. Ele percebeu ali que a dança era a alma de Anja e ficou maravilhado e um pouco decepcionado porque acabou muito rápido. Não conseguiu evitar se levantar e aplaudir com entusiasmo quando ela terminou.
Você está chorando?
Perguntou o empresário, aplaudindo com o mesmo entusiasmo que ele.
Não!
Mentiu. Riu em seguida, secando as lágrimas apenas para continuar aplaudindo.
Quero falar com ela, Hyung. Posso?
Viemos para isso.
Assim, vinte minutos depois Jimin estava se sentindo um fã sem jeito do lado de fora do corredor dos camarins. Pensou nos fãs que passavam horas no sol esperando para verem o show do grupo e sorriu. “Então é assim que eles se sentem”, pensou.
Um garoto cheio de sardas passou por ele no corredor e bateu à porta de Anja. Carregava um buquê grande de rosas amarelas e entrou sem aguardar resposta, deixando as flores e saindo em seguida. Poucos minutos depois ele ouviu o gemido dela. Ficou em dúvida se era de felicidade ou frustração, mas decidiu que era hora de mostrar que estava ali esperando para bancar o fã. Bateu a porta e entrou em seguida, sem esperar pela resposta, assim como o garoto havia feito.

Anja segurava as flores acima da cabeça, pronta para lançá-las longe. Se ele não fosse tão obviamente coreano, ele tinha certeza que era na cabeça dele que ela jogaria o buquê. Sentiu o impulso de começar a rir do choque estampado no rosto bonito da moça, mas se controlou.
Bonitas flores. Queria ter pensado em trazer algumas. Você com certeza merece… mas eu traria rosas vermelhas, combinam mais.
Falou sorrindo. Como ela não respondia nada, imaginou que não entendia nada de hangul.
English?
Silêncio.
Certo. Vamos ter que esperar pela intérprete então. Uma pena porque eu queria muito poder te dizer como gostei do que vi. Do que estou vendo. Mas provavelmente não vai entender nada, mesmo que eu disser.
Colocou as mãos a frente do corpo, balançando-se no mesmo lugar, esperando que alguém que falasse russo e coreano entrasse logo no camarim. Quanto mais ele ficava ali, mais queria conversar e mais frustrante isso era, porque ela não entenderia nem metade do que ele tinha que dizer. Novamente teve aquela sensação estranha de que provavelmente é isso que uma parte de seus fãs passa durante o show quando ele e os irmãos decidem conversar com o público e esquecem que não estão na Coreia. Sorriu sem jeito, determinado a parar de falar, mas sem conseguir.
Queria tanto que me entendesse antes de mais gente entrar aqui… Seria tão legal falar o quanto eu gostei do jeito que dança. É puro e cru, como se você e a música se fundissem… ah, eles chegaram.
Ficou finalmente quieto com a chegada dos dois empresários e da moça que seria a intérprete. Ao contrário de Anja, ela parecia asiática, mas falava aquela língua acelerada que só de tentar pronunciar imitando já dava um nó na língua dele.
Como a moça apontava para ele e os outros dois, deduziu que estava sendo apresentado. Entendeu quando ela disse o nome da empresa, então se inclinou num cumprimento formal deduzindo que seu nome seria mencionado depois.
Como se pronuncia o nome dela? Não quero falar errado.
Perguntou.
Anya.
Respondeu a moça, sorrindo. Explicou como se escrevia o nome e ele ficou surpreso com o coreano quase sem sotaque daquela moça.
Anya-ssi…
Decidiu falar o que realmente achara da dança e foi prontamente traduzido conforme falava. Mas não era a mesma coisa, queria que ela tivesse entendido na primeira vez que ele disse, quando não havia tantos olhos e ouvidos por perto. Estava bancando o fã e se sentindo como um, com vontade de demonstrar todo o seu apreço ali, em palavras, mas impossibilitado pela vergonha de se abrir completamente em frente a tantas pessoas.
Continuou falando, no entanto, incapaz de conter seu entusiasmo em saber que trabalhariam juntos dali em diante. Mas o sorriso dela foi diminuindo conforme ele era traduzido e ficou curioso para saber qual parte do que dissera tinha sido mal interpretado.
***
Quando vou poder ensaiar com ela?
Mas não era você que estava de férias e não queria pensar em trabalho?
Perguntou a empresária, que avaliava alguns documentos no carro a caminho do hotel.
Ah, sim, mas eu não preciso estar trabalhando para ensaiar alguns passos de dança, principalmente se for com Anja Wang. Você viu como ela dançou?!
Perguntou, incapaz de esconder a admiração.
Vai ter a oportunidade de falar mais com ela hoje ainda, se quiser.
Comentou a mulher. Levantou o contrato com um gesto para Jimin.
Eles fizeram questão de colocar no contrato que pagaríamos a hospedagem dela, do irmão e da empresária nos mesmos lugares que ficarmos até finalmente voltarmos para Seul.
Explicou.
Isso significa que ela vai me acompanhar durante minhas viagens?
Se for tudo bem para você… O contrato ainda não foi assinado. Posso reescrever essa parte e despachá-los para Seul antes. Acha que os outros vão recebê-la bem sem você?
Jimin ficou pensativo. Não tinha planejado viajar com uma estranha, o que dizer de três. Muito menos envolver o trabalho nisso. Era a primeira vez que tirava férias de verdade e não queria perder essa chance de viajar sem nenhuma preocupação
Ou quase nenhuma, na medida do possível.
Se eu disser que tudo bem…
Parou, ainda sem olhar para a empresária
Significa que minhas férias acabaram e já vou ter que ensaiar?
Não. Significa apenas que vai ganhar três companhias a mais na sua viagem. Tenho certeza que nenhum deles vai te incomodar. Só um deles te conhece como “o Jimin do BTS”.
É mesmo? Qual deles?
Não queria, mas acabou demonstrando na voz a esperança de que fosse Anja.
A empresária dela. Foi ela que arranjou nossa audição particular.
Ah…
O que foi?
Nada.
Voltou a ficar em silêncio, pensando nas consequências de aceitar aquela condição dada por eles em seu contrato. Se fosse apenas Anja, ele diria sim imediatamente, mas havia esse irmão que ele não conhecia e a empresária que, no fim, ficaria como intérprete deles.
Pelo visto nunca poderia dizer o que achava da dança dela sem que tivesse testemunhas.
E quanto ao obstáculo linguístico? Ela consegue falar ainda menos de inglês do que eu…

Bom, a empresária dela me garantiu que ela sabe japonês. Pelo menos vão poder conversar um pouco, talvez?
Falou.
Isso significa que aceitou?
Não sei ainda. Temos algo planejado para hoje a noite? Acho que primeiro preciso conhecer os três melhor.
Eles querem te levar para uma festa de despedida da Anja. Quer ir? O Min Ho pode ir com você, se se sentir mais seguro.
Ok. Pode ser, então.
***
Estava usando uma máscara preta, parado num canto com o segurança, enquanto esperavam a chegada de Anja. Ainda estava confuso com o momento em que decidiram ir direto para a tal festa surpresa ao invés de voltarem ao hotel primeiro, mas sentia que tinha parte da culpa nisso. Ainda conseguia sentir a empolgação no coração sempre que se lembrava da dança que havia visto. As luzes foram apagadas e em algum momento alguém fez “Shh” próximo a porta. Foi a única coisa que ele entendeu em toda conversa naquele ambiente. Ficou contente porque ninguém pareceu se incomodar com a presença de dois coreanos cobertos por máscaras, era quase como se ele não fosse mais famoso e isso, de alguma forma, foi reconfortante. Não queria estragar aquele momento tendo que correr atrás de revistas, jornais e perfis no twitter para impedir que fotos fossem vazadas. Aparentemente ninguém ali se importava com ele.
Involuntariamente se viu nas pontas dos pés, tentando ver a chegada de Anja tanto quanto os outros. Certamente gritou com eles quando as luzes foram acesas e ela entrou, sentiu as palmas das mãos arderem com o entusiasmo com que aplaudia e sorria como nunca. Infelizmente ela não o viu ali, em meio a tanta gente, mas ele notou ânsia dela de sair para um lugar mais vazio. Não perdeu a bailarina de vista, acompanhando a reação dela a cada cumprimento que recebia por onde ia. Até que chegou nele e no segurança.

– Anya-ssi. Você está bem?
Perguntou em japonês. Ela arregalou os olhos verdes e sorriu genuinamente pela primeira vez desde que havia chegado.
Consegui te entender finalmente!
Respondeu num japonês carregado de sotaque e pouco uso. Os dois ficaram assim, sorrindo um para o outro enquanto seguravam as mãos.
Anja, tem mais gente querendo te ver!
Chamou um rapaz ruivo se aproximando.
Ah, Alex! Venha cá, antes quero te apresentar alguém.
Jimin ficou olhando de um para o outro sem entender absolutamente nada do que diziam, seu sorriso congelado no rosto.
Jimin, esse é meu irmão, Alexandre. Alex, se for mais fácil. Ele também ama dança contemporânea, me disseram que é sua especialidade, não é?
Apresentou ela. Repetiu a apresentação para o irmão que olhava Jimin da cabeça aos pés, muito interessado naquele rapaz com rosto de anjo asiático. Ele estendeu a mão para o coreano que a apertou relutantemente.
Muito prazer em te conhecer. Você é muito gato.
Falou Alex.
ALEX!
Exclamou Anja.
Ele disse que é um prazer também. Com licença.
Explicou para Jimin sem traduzir a última parte da fala do irmão e o empurrando para longe. Continuou cumprimentando as pessoas até finalmente desaparecer por uma porta e deixar Jimin com uma sensação estranha de que havia sido ignorado.

3. Outro: Does that make sense?
Tudo o que Anja queria naquele momento era tomar um banho quente e demorado para depois dormir feito pedra. Apesar de o dia ter terminado com notícias boas para ela, ainda havia alguns obstáculos que ela tinha que tirar do caminho antes de sair de vez da Rússia e viver feliz para sempre consigo mesma. Uma pedra em particular estava atolada entre seus dedos e era justamente a pedra que ela não queria ver nunca mais.
Estranhou o silêncio de Alyona assim que chegaram ao prédio onde ela ainda vivia com Andrey — Que com a luz divina estava “dormindo na casa de um amigo” desde a última discussão.
— Será que eu devo perguntar? — Falou enquanto separava a chave do apartamento.
— Oi?
— Você ficou quieta de repente… Que tanto você manda mensagem nesse celular?
— Nada não. — Alyona bloqueou o celular e o colocou no bolso de trás da calça, abrindo bastante os olhos e sorrindo para Anja como se estivesse tudo bem. A bailarina apertou os olhos, a mão posicionada na maçaneta da porta.
— Você está esquisita ultimamente. Não sei não essa coisa de você trabalhar com a empresa dos “seus meninos”. Acho que não vai te fazer bem. — Comentou Anja, desconfiada.
— Como assim? Eu sei separar trabalho de surto de fã, se é isso que está dizendo. — Respondeu ela, olhando dos olhos da amiga para a mão dela na maçaneta. — Estou com fome, o que vamos comer?
— Não faço ideia. Provavelmente não tem nada na gelad… — Anja se distraiu o suficiente para finalmente entrar no apartamento enquanto falava. Ao ligar a luz, no entanto, deu de cara com toda a companhia de ballet esperando por ela em seu apartamento.

— SURPRESA!!! — Gritaram ao mesmo tempo, assim como Alyona gritou da porta, estourando um desses rojões de papel em cima da cabeça da bailarina.
— Eu sabia que você estava estranha e não era a toa! —Exclamou ela.
Sentiu-se ser puxada para dentro do apartamento por várias mãos. Passou a meia hora seguinte abraçando, sendo abraçada e recebendo presentes de despedida ou de parabéns pelo emprego novo. O sorriso engessou no rosto enquanto ela cumprimentava todos, tentando abrir caminho até seu quarto.
— Obrigada… Obrigada… — Murmurava pelo caminho. Alguém enfiou um copo de vodca com gelo em sua mão e um chapéu comemorativo sobre o cabelo ruivo.
Apoiou-se na porta fechada assim que finalmente chegou ao quarto. Não estava preparada para uma festa. Uma festa cheia de gente que a queria ver pelas costas. Trancou a porta, suspirando e bufando sem saber se deveria se sentir feliz ou triste por se ver longe de muitos ali. Decidiu que ia se sentir feliz. Virou o copo de vodca num gole e passou os minutos seguintes se arrumando para a própria festa.
Assim que saiu, sentiu-se ser puxada para outro cômodo antes de realmente participar de sua festa de despedida.
— Mas que…
— Anjo da minha vida — começou Alex, usando nome da irmã como trocadilho. —, quem é o moço que você me apresentou? — Perguntou muito interessado. Anja sorriu.
— Bonito, né? É com ele que vamos trabalhar no próximo ano. Podemos dizer que é meu anjo da guarda nesse momento. — Respondeu. — Por tabela é seu anjo também.
— Queria que ele fosse outra coisa…
— Alex!

— O que? Se você não pensou, penso eu. O cara é lindo demais, bem vestido demais… Nossa! Me fogem as palavras.
— Ridículo. — Riu ela. — Vê se se comporta e não assusta o menino, porque ele vai tirar a gente desse buraco e me salvar de ver a cara azeda do Andrey por pelo menos um ano.

— Me comportar? Mas eu sou um anjo! — Respondeu ele indignado. — Ok, você vai ser minha intérprete, vê se não some. — Pediu.
— Você quem manda.
— Anjinho. — O sorriso de Anja morreu assim que ouviu o apelido. Estavam saindo do corredor, em direção à sala onde a festa acontecia, e deram de cara com Andrey.
— É agora que eu desapareço. Se precisar você grita, maninha. — Comentou Alex. Não suportava ficar perto de Andrey, por mais que quisesse ficar ao lado da irmã para protegê-la.
***
— O que você quer, Andrey? Pensei ter te ouvido dizer que só voltaria para cá depois que eu tivesse saído. — Tinham ido para a varanda. Alguns amigos conversavam por perto, fingindo não ter interesse na conversa do ex-casal.
— Anjinho…
— Não me vem com essa de anjinho. Eu preferia não ter que ver sua cara antes de ir embora.
— Não vai me perdoar nunca?
— Por qual parte? — Perguntou ela, encarando o ex-noivo pela primeira vez desde a última briga. Ele usava um paletó branco feito sob medida, de grife, a barba se destacando em contraste com a roupa dele. Ela não queria, mas tinha gostado da combinação porque destacava os olhos azuis e o sorriso sacana que a fazia perder o ritmo das pernas quando estavam assim próximos, mas precisava se lembrar de todas as vezes que ele foi um cretino lembrando-a que “era um favor” ele gostar dela, que o corpo dela não era o de uma bailarina profissional, que ela precisava perder peso, usar salto, se vestir com mais cuidado para esconder as curvas. Fora todos os sinais de que ele estava dormindo com a bailarina reserva — Porque era isso que ela era — enquanto ela se matava ensaiando.
— Nunca quis te magoar, Anja. Eu só quis te mostrar os motivos por não ganharmos a última premiação. Nem sempre a dança é a única avaliada e…
— Não tente colocar a culpa em mim, Andrey. Muito menos minimizar os dez anos que minou minha autoestima. Nossa última discussão foi só a cereja do bolo.
— Não foi inten…
— Não importa. Acabou. Já não te amo. Deixei isso bem claro ontem.
— Não mesmo? Já esqueceu todas as noites que…? — Perguntou, se aproximando perigosamente. Falava baixo e usava gestos contidos, ensaiados, como se quisesse mostrar a todos ao redor como o relacionamento dele com Anja estava bem, mesmo que os boatos dissessem o contrário. Não podia perder Anja, não aceitava isso. Era sua galinha dos ovos de ouro, uma bem gorda, e não podia abrir mão dela para um chinês com gostos duvidosos. Anja cruzou os braços e deu um passo para trás, tentando manter a própria integridade e dignidade.
— Não me toque. Podem não gostar.
— Quem? Aquele chinês com cara de criança?
— Ele é coreano.
— Grande coisa, duvido que ele tenha algum interesse real em você, Anja. Cai na real. Vai te usar como todo mundo tenta fazer. Eu sou o único que te aguen…

— Anya-ssi? — Jimin interrompeu Andrey. Estava pronto para ir embora, constrangido pelas inúmeras tentativas de Alex se comunicar com ele em vão. Percebeu que a moça estava desconfortável no mesmo instante que a viu sendo abordada por aquele homem loiro. Achou ele comum, como a maioria dos russos, e não se sentiu intimidado pela altura ou pelas roupas caras. Viveu tempo demais com Namjoon e Taehyung para se intimidar com essas coisas.
— Jimi! Que bom que chegou. — Exclamou a ruiva em japonês, envolvendo o braço dele com o seu, fingindo uma intimidade que não tinha.
— Está tudo bem? — Ele perguntou olhando para o braço dela preso ao seu e depois para o rosto dela tão próximo. Sentiu o rosto arder, mas não desfez o contato.
— Entra no jogo, por favor. Me ajude só essa vez? — Pediu ela. Usava um tom íntimo, apenas porque sabia que Andrey não entendia nada de japonês, pelo contrário, vivia desdenhando do hobby dela.
— O que? Vai me dizer que tá saindo com esse garoto? Jurava que ele era namorado do Alex. – desdenhou Andrey. O sangue de Anja começou a ferver de ódio. Quanto mais ele falava, mais ela tinha certeza que havia feito a escolha certa em terminar aquele relacionamento.
O sexo era bom, verdade, mas era a única coisa boa em uma pilha de coisas ruins. Deu graças a Deus que Jimin não entendia nada de russo, tinha certeza que ele ficaria furioso se tivesse entendido, não sem motivo.
— O que ele disse, Anya-ssi? — Perguntou. Realmente não tinha entendido as palavras, mas o tom ele entendeu muito bem. Desfez o contato que tinha com ela pelo braço e a puxou pela cintura. Eram quase da mesma altura, ela sendo apenas alguns centímetros mais baixa do que ele, os dois muito mais baixos que Andrey.
— Não importa, Jimi. Acho melhor sairmos daqui antes que eu perca a compostura e mate alguém.— Respondeu ela com nojo do ex.
Foi o suficiente para Jimin. Fez uma mesura contida para Andrey e puxou Anja para outro lugar, se enfiando entre os convidados sem soltar da mão dela em momento algum. Pararam do outro lado da varanda enorme do apartamento, os dois ainda sem saber direito o que fazer depois disso.
— Obrigada. — Murmurou Anja.
Olhou para trás e viu Andrey ainda com aquele sorriso debochado de quem sabia que aquilo era apenas uma mentira inventada por ela. conhecendo-o como ela conhecia, deduziu que ele achava que aquilo tudo era apenas para fazer ciúmes. Revirou os olhos e voltou a encarar Jimin.
— Perdoe-me por te colocar nessa situação. Queria que tivesse conhecido a mim, meu irmão e Alyona numa situação menos constrangedora.
— Quem é aquele cara? Por que ele se incomoda tanto com o fato de que vai trabalhar comigo?
— O problema não é trabalhar com você… — Murmurou, desviando o olhar. — Não importa. Você me ajudou muito hoje. Obrigada. Por tudo. — Completou.
Jimin ficou sem jeito, desviando o olhar e esboçando um sorriso sem jeito.
— Não foi nada. Achei ele estranho, só isso. Estava vindo me despedir e… — Seu olhar cruzou com o de Andrey que gesticulava para ele, fazendo sinais sobre o corpo de Anja e sobre ele. Aquilo fez seu sangue ferver. – Anya-ssi.
— Sim?
— Minha vez de pedir perdão.
— Por quê…? — Antes de completar o questionamento, Anja sentiu os lábios de Jimin tocando os seus num beijo tímido. Aquilo a pegou de surpresa, mas correspondeu assim mesmo.
Era como se estivesse sendo beijada por um anjo. Os lábios dele eram macios e suculentos, e em poucos segundos ela se viu abraçada a ele, os olhos fechados, sentindo como se estivessem dançando em uma nuvem. Jimin, por sua vez, sentia o coração batendo acelerado, como se tivesse numa maratona. Nunca tinha sido ousado desse jeito, bom, não assim, abertamente e com uma desconhecida. Mas ainda estava sob efeito do frenesi de estar bancando o fã admirador e quanto mais ele sabia sobre Anja, mais queria que ela fosse com ele para onde quer que fosse. Não era para ter passado de um selinho, mas quando ela correspondeu, percebeu que não tinha mais como voltar atrás, então a puxou pela cintura, apoiando as duas mãos nas costas macias dela, sentindo-a se abrir como uma flor enquanto a língua dele se movia de encontro a dela. Em algum momento sentiu como se estivessem dançando e então música acabou.

4. Dimple
O impacto de ver Anja sendo beijada por aquele baixinho pegou Andrey de surpresa. Não esperava que o garoto realmente tivesse algum interesse na moça, achava que, assim como a maioria dos bailarinos do meio, o garoto fosse gay. Mas pelo jeito havia interpretado errado o visual, as jóias, a maquiagem. Isso ou Anja estava mesmo fingindo aquele encontro apenas para irritá-lo. Queria mesmo acreditar nessa segunda opção, mas não podia controlar a raiva que sentiu vendo aquela cena se desenrolando de longe.
Empurrou as pessoas enquanto abria caminho até os dois. Tinha a intenção de ensinar aquele garoto como um homem era de verdade. Mas foi interceptado por Alex no meio do caminho. O rapaz, ao contrário da irmã, era alto e forte como qualquer bailarino, mais até do que Andrey, e não tinha intenção de deixar aquele cretino estragar mais ainda a festa de despedida de Anja.
— Onde pensa que vai? — Perguntou assim que Andrey esbarrou em seu peito, quase caindo no processo.

— Não se meta, Alex! — Bufou, tentando empurrá-lo para o lado como havia feito com os outros convidados no caminho até ali. O rapaz não se moveu um centímetro.
— Eu odeio ter que bancar o macho alfa aqui, Andrey, mas sua cota chegou ao limite. — Falou descruzando os braços e empurrando o loiro para longe.
Andrey caiu longe, fazendo com que a festa toda ficasse em silêncio repentinamente apenas para assistir ao espetáculo de vê-lo apanhando. Melhor, apanhando de Alex, de quem ele fazia questão de zombar sempre que podia por causa dos gostos pessoais do rapaz e do fato dele ser irmão de Anja.
— Já chega. — Interrompeu Anja, se aproximando de Alex e se segurando em seu braço. — Andrey, acabou. Não é bem-vindo entre meus amigos. Por favor, vá embora. — Falou olhando para ele. A sensação de vê-lo no chão fez com que um leve sorriso fosse esboçado no rosto bonito da bailarina. Isso não passou despercebido pelo homem.
Olhou ao redor, pela primeira vez sendo o foco da atenção de uma forma negativa, e se levantou batendo algumas vezes no terno branco que usava.
— Não terminamos ainda. — Sibilou perigosamente, apontado o dedo para Alex e depois para Anja.
— Terminou sim. Some daqui, cretino. — Falou Alyona, finalmente dando as caras na festa. Estava acompanhada de um segurança russo e o segurança particular de Jimin. Andrey fingiu que não viu nenhum dos três e saiu da festa.
— ACABOU A FESTA, GALERA! — Gritou ela assim que viu a porta se fechando atrás de Andrey. Ouviu alguns lamentos, alguns “eu sabia” e várias despedidas, mas ficou contente que ninguém teimou em ficar.
***

O dia seguinte chegou a muito custo, na opinião de Anja. Não tinha conseguido dormir direito, seu sono havia alternado entre pesadelos onde Andrey a prendia numa gaiola apertada e em sonhos nada permitidos para crianças em que ela e Jimin dançavam nus e terminavam se pegando. Nenhum dos dois era uma opção viável, então amanheceu com olheiras escuras e profundas no dia seguinte.
— Credo, nem parece que vai para Paris! — Exclamou Alyona assim que chegou para irem juntas em direção ao aeroporto. Ao contrário da amiga, ela estava deslumbrante. Usava seu melhor conjunto “mulher de negócios”, combinado com brincos que de longe pareciam fios de luz devido aos cristais enfileirados numa correntinha.
— Como você faz para continuar linda logo cedo?
— Eu sempre fui linda, amiga. Nasci assim. — Respondeu, lançando uma piscadela de olho e um beijinho discreto.
Do lado de fora do prédio, Alex às esperava numa conversa animada com o motorista contratado pela Big Hit para levá-los. Anja tratou de esconder os olhos atrás de um par de óculos bem escuros e entrou sem mais conversas. Tinha decidido evitar o irmão — Pelo menos no começo da viagem. — Com medo do que ele diria sobre o beijo. Não tinha certeza se ele havia visto, e agora se sentia culpada por tê-lo feito mesmo depois dele ter deixado bem claro seu interesse no coreano. Se dependesse dela, ia usar essa viagem para se redimir e aproximar os dois.
Deu uma última olhada ao prédio onde vivera muitos anos com Andrey. Gostava de morar ali, tinha criado muitas boas memórias naquele lugar, fora que o conforto e o luxo eram dignos de uma rainha, mesmo sendo proporcionado por um lixo humano. Mas as memórias ruins superaram as boas, então tudo o que fez ao ver o edifício se afastando foi levantar o dedo do meio.

Dasvidaniya, filho da puta. — Murmurou, se virando para frente e tentando não dormir no pequeno trajeto até o aeroporto.
Sentiu o corpo sendo sacudido pelo irmão vinte minutos depois. Sorriu sem graça, tinha acabado de sonhar que Jimin e ela se apresentavam juntos pelo mundo todo, com direito a Andrey morrendo de ódio na platéia. Precisava parar de associar o menino a situações de salvamento, ou esquecer o beijo, isso já ajudaria muito.
Esqueceu todas as suas preocupações no instante que chegaram à área de embarque e encontraram Jimin, seus empresários e seu segurança. Assim como ela, o rapaz usava grandes óculos de sol. Dessa vez ele não parecia um anjo, mas sim um ícone de moda, usando calças escuras e despojadas combinando com um suéter listrado e um gorro cinza que fazia seu rosto ficar ainda mais destacado, permitindo que ela reparasse pela primeira vez na discreta covinha que se formava quando ele sorria. Estava absolutamente lindo e pelo suspiro que ela ouviu, não era a única impressionada. A empolgação de Alex a lembrou de seu lugar e apenas respondeu aos cumprimentos com um aceno de cabeça. Não fazia ideia de como agir depois de tudo o que havia acontecido na noite anterior e estar em meio a tanta gente serviu perfeitamente como desculpa para se isolar.
— Pronta para conhecer Paris? — Perguntou Alyona empolgada, se sentando ao lado de Anja e colocando o cinto de seguranças. Tinha um pouco de medo de aviões, era verdade, mas estava tão empolgada dessa vez que não conseguia sentir nada além da excitação pelo novo, por trabalhar com os artistas que admirava, mesmo que indiretamente.
— Finalmente caiu a sua ficha, hein? — Provocou Anja, ao invés de responder.
— Como assim?
— De que vai trabalhar com “seus meninos”. Já contou ao Jimi que sabe de cor as letras das músicas dele?
— É Jimin. — Corrigiu automaticamente — Quê? Não! Ficou louca? Ele ia acabar desistindo de nos deixar viajar com ele. Fique quietinha e beije meus pés porque vamos a Paris e ao Havaí com tudo pago pela empresa dele. Se não fosse minha “mania de fã”, como você diz, ainda estaria presa a Andrey, mesmo que seu relacionamento com ele tenha acabado. — Respondeu irritada.
— Nossa! Desculpe, eu estava só brincando. Não precisava cutucar a ferida assim, tão cedo.
— Tudo bem… Vamos a Paris afinal de contas! Está animada? — perguntou de novo, recobrando a empolgação.
— Não sei ainda. Minha ficha não caiu. Talvez só depois que virmos a Torre Eiffel ou o Arco do Triunfo. Mesmo assim tenho medo de acabar dando de cara com aquele cretino. Acho que só vou relaxar quando não estivermos mais na Europa. — Murmurou a bailarina, se aconchegando. — Mas uma coisa é certa, alguém aqui está mais empolgado que nós duas. — Apontou Alex com a cabeça, sentado ao lado de Jimin com um dicionário russo-coreano nas mãos, tentando se comunicar.
Pacientemente Jimin aproveitou a oportunidade — E o dicionário na mão do rapaz — para tentar conhecer melhor o rapaz. Em vão. Apesar da boa vontade e do esforço, Alex não tinha passado do “olá” e agora folheava o livrinho que segurava enquanto soltava palavras aleatórias na direção de Jimin.
Gentilmente ele abaixou a mão de Alex e começou a apontar as coisas e nomeá-las na própria língua. Esperou o loiro repetir junto com ele e sorriu quando ele conseguiu dizer sem maiores problemas tudo o que estava ao redor para depois dizê-las em russo. Jimin aproveitou para aprender um pouco da língua também e em pouco tempo estavam rindo e conversando por gestos como se fossem velhos amigos. Alyona olhou para Anja, impressionada.
— Acho que ele tá indo melhor que você com a língua.

— Melhor assim, daí não preciso bancar o cupido japonês e você a intérprete salvadora.
— Cupido? Não sei sobre isso… — Respondeu pensativa, encarando Jimin. Sabia dos boatos sobre a sexualidade dele, tinha, inclusive, até uma pasta secreta em seu celular com fotos dele com Anja com interações que o fandom considera suspeitas, mas daí a considerar isso verdade era outra coisa. Ficou mais um tempo observando ele com Alex para ver se captava alguma coisa, mas a única coisa que percebeu foi que Jimin era realmente uma pessoa especial e gentil, porque só assim para aguentar as próximas três horas vendo-o apontar coisas e dizer seus nomes em coreano e russo.
— Eu andei fazendo umas pesquisas… — Anja interrompeu os pensamentos da moça, chamando sua atenção para si — O que é “bias”?
— Basicamente é o membro favorito num grupo. — Respondeu.
— Quem é o seu bias? No grupo do Jimi.
— O líder do grupo. RM.
— O nome dele é RM?
— Não, o nome dele é Namjoon, mas o nome artístico é RM. Mas por que tantas perguntas?
— Porque eu quero ver de perto sua reação quando finalmente encontrar com ele. Ainda não me convenci que me arrumou esse emprego por pura bondade no seu coração.
— Olha, sem condições você hoje, viu. Tirou o dia para me atacar, foi? Quer que eu comece a falar do beijo de ontem?
Anja finalmente desfez o sorriso maldoso que tinha nos lábios. Achava que pouca gente havia visto aquela cena. Desviou os olhos e encarou Jimin. Foi surpreendida por um sorriso quando os olhares se encontraram.

— Acho que vou dormir um pouco. Não consegui dormir nada ontem. Boa noite.

 

VOCABULÁRIO:
*Dasvidaniya: significa adeus em russo.

 

5 – Something
Ele ainda podia sentir os lábios formigando horas depois do beijo que havia dado em Anja. Era para ter sido um selinho simples, apenas para que aquele cara todo de branco parasse de fazer sinais obscenos sobre o formato do corpo dela ou sobre a sexualidade dele, mas então ela correspondera e ele não teve alternativa a não ser prolongar ao máximo aquele beijo. Passou os dedos pelos lábios delicadamente, perdido naquela memória quando o grupo russo finalmente chegou ao aeroporto. Sorriu sem jeito quando os cumprimentou. Aproveitou que Anja parecia tão constrangida quanto ele para observá-la de longe. Usava óculos de sol grandes, escondendo os olhos, mas dando um ar de elegância que combinava perfeitamente com o cabelo solto em cascata por cima do casaco branco que ela usava. Estava muito bonita apesar de parecer bem cansada.

— Olá, meu nome é Alex. — Se apresentou o irmão dela algum tempo depois, já acomodados dentro do avião. Jimin sorriu empolgado ao perceber que ele estava falando coreano.

— Muito prazer, Alez. Finalmente podemos nos apresentar formalmente, então. — Respondeu sorrindo. Mas foi só isso o que conseguiu do rapaz. Ele sorria sem jeito porque não sabia mais nada de coreano além do que havia dito e foi só nesse momento que Jimin percebeu o dicionário que ele segurava discretamente. Deu uma risada discreta, sem saber o que fazer dali em diante.
Decidiu que a melhor saída era ensinar Alex um pouco de hangul e aprender um pouco de russo no processo. Começou a apontar para o que estava em volta, as poltronas, os travesseiros, o cinto de segurança, a janela, um copo de água, os sapatos que usava, o livrinho que o rapaz segurava. Cada vez que apontava alguma coisa, dizia seu nome em coreano e esperava Alex repetir. Este por sua vez, entendendo a dinâmica e a estratégia do coreano, repetia as palavras em russo para que ele também aprendesse.

Como os objetos foram acabando, decidiu apontar para si mesmo e partes do próprio corpo e dizer seus nomes em coreano. Depois apontou para as pessoas ao redor deles, fazendo a mesma coisa.

— Alex-hyung. — Apontou para o rapaz. — Hyung. Brother. — Repetiu, tentando explicar o que aquela palavra significava. Alex entendeu imediatamente, levemente decepcionado por já ser taxado como irmão ao invés de algo a mais. Sorriu sem jeito e concordou com a cabeça. Depois Jimin apontou para Anja.

— Bonita. Beautiful. — Alex concordou. Apontou para a irmã também.

— Bailarina. Diva. Rainha. — Falou em russo e esperou Jimin repetir.

Anja olhou para os dois naquele momento, pegando-os no flagra falando dela, mas sem ouvir exatamente o que. Jimin e Alex arregalaram os olhos ao mesmo tempo, caindo na gargalhada em seguida.

— Aposto que ela está tentando adivinhar do que estamos falando.

— Será que ela percebeu que estamos falando dela? — Respondeu Jimin, esquecendo completamente que nenhum dos dois entendia a língua do outro. De alguma forma, no entanto, havia entendido o que Alex havia dito e pelo sorriso do rapaz, achou que ele também tinha entendido. Foi só então que ficou confortável em viajar com ele também, ansioso por aprender mais palavras que pudesse dizer para Anja mais tarde sem passar vergonha.
***
Anja apenas relaxou realmente quando desfez as malas numa suíte privada num hotel que ela nem sabia que existia. Aparentemente ela era a única criatura na face da terra que não tinha visto Jimin antes do dia em que se conheceram. Reparou em como as pessoas paravam e apontavam discretamente para o garoto. No hotel — Que mais parecia uma mansão alugada apenas para ele e seus convidados — o tratamento era para com um príncipe. Onde ia, os empregados e funcionários estavam prontos para atendê-lo sem que realmente precisasse dizer muita coisa.
Por serem convidados dele, o tratamento especial do hotel se estendia a ela e Alex. Alyona decidira ficar num hotel a parte, cuidando dos pormenores do contrato e da chegada a Seul quando as férias de Jimin finalmente acabassem. Passava o dia fora, falando ao telefone e comprando coisas para o apartamento que havia alugado para eles, enquanto Anja passava o dia passeando por Paris.

Amava museus, teatros e galerias de arte. Passava o dia indo de uma a outra, até que finalmente encontrou Jimin por acaso numa galeria restrita. Era uma exposição de esculturas representando a dança, e um conhecido dela havia indicado por conta do ballet russo. Jimin não parecia o tipo que gostava de galerias de arte e museus, tinha quase certeza de ouvir Alyona dizer que isso era um hobby de outro membro do grupo dele. Não esperava encontrar o garoto ali, sozinho, observando a escultura de um casal em posição de fish dive –Qquando o parceiro segura a bailarina pela cintura, que depende completamente desse suporte para executar o passo, enquanto o próprio bailarino também participa da dança.*

— Jimi! — Chamou, se aproximando dele e da escultura. Assim como nas outras vezes, ele estava vestido como um ícone fashion.

Secretamente ela amava reparar em como ele ia se vestir sempre que saía para andar pela cidade. Não tinha reparado ainda no figurino daquele dia, mas ficou impressionada do mesmo jeito. Ele usava uma camiseta vermelha com listras pretas por baixo de uma jaqueta de couro que ela já havia visto usando ainda quando estavam em Moscou, combinava com as calças pretas e despojadas e botinas da mesma cor. O rosto estava escondido numa daquelas máscaras que ele amava, assim como os olhos continuavam ocultos por óculos de sol grandes. Ao ouvir o próprio nome, Jimin se virou para Anja e ela sentiu que por trás de todo aquele esconderijo ele lhe sorria.

— Anya-ssi!

— Você gosta de galerias? — Perguntou sem poder se conter. — Veio sozinho? — Completou ao não ver o segurança ou os empresários em lugar nenhum.

— De vez em quando eu gosto de dar uma olhada em algumas exposições. Não é sempre, mas acontece… Essa galeria é um dos poucos lugares onde posso ir sem que saibam quem sou. — Comentou. Tirou os óculos de sol e abaixou a máscara alguns centímetros, mostrando o rosto bonito. Era a primeira vez que ela o via sem nenhuma maquiagem. — Normalmente eles esperam RM-Hyung, então não me reconhecem.

— Deve ser difícil passar as férias tendo que se preocupar o tempo todo, não é?

— No começo achei que ia ser, sim… — Respondeu, mexendo no cabelo várias vezes, colocando-o para trás e desviando o olhar do dela sempre que o fazia. — Mas os fãs têm me respeitado muito… Até agora ninguém tentou tirar fotos ou me provocar…

— É por isso que eu não deixo me filmarem ou fotografarem quando danço. — Respondeu ela, se imaginando rodeada de todo aquele assédio e invasão que alguns fãs conseguiam fazer. Era isso e o medo de ser julgada por não ter exatamente o corpo que uma bailarina normalmente tem.
— É por isso? Uma pena, queria ter visto você dançando mais vezes… Não foi por falta de tentativa. — Confessou ele voltando a encarar a escultura. Antes de Anja aparecer, ele havia imaginado como seria dançar ballet clássico e realizar todas aquelas posições e passos num palco com uma plateia clássica, sem nada que envolvesse o pop. Deu alguns passos até a próxima escultura, sendo seguido de perto pela bailarina.

— É sério? Procurou mesmo? — Perguntou insegura. Estavam em frente a uma escultura representando a posição attitude devant*. A peça retratava perfeitamente, em mármore, todo o alcance da bailarina que havia servido como modelo, os músculos da perna de base perfeitamente desenhados, assim como a delicadeza das mãos e da outra perna, suspensa no ar. Anja teve que se controlar para não imitar a posição apenas para mostrar que podia, mesmo sendo gorda.

— Sério mesmo. Já ouvi seu nome antes mesmo de ser famoso. Infelizmente não tinha condições de ver uma apresentação sua ao vivo, então procurava no YouTube sem nunca encontrar nada além de pessoas que copiaram suas coreografias. — Respondeu indo para a escultura seguinte. — Como você nunca se apresentou na Coreia, minha única chance foi alguns dias atrás, quando nos conhecemos.

Anja parou e o encarou por muito tempo em silêncio, tentando decidir se acreditava nele ou não. Por algum tempo Jimin achou que ela admirava a escultura, mas como ela não dizia nada, voltou a encará-la. Ficou um pouco sem jeito pela maneira como ela o encarava, mas não desviou o olhar, sustentou o contato visual em silêncio enquanto as pessoas passavam por eles admirando todas as esculturas.

— Tem medo de que, Anya-ssi? Não acha que o mundo merece ver o quão fantástica é? — Ele perguntou dando um passo discreto na direção dela.

Os olhos dela se encheram de lágrimas pensando em todos os motivos pelos quais decidira não aparecer em mídia nenhuma, independente de quão boa fosse dançando. Para que Jimin não visse, ela seguiu para a escultura seguinte, secando as lágrimas discretamente enquanto se escondia atrás dela ,esperando pelo garoto. Assim que ele se aproximou, ela sorriu abertamente.

— No começo foi uma ideia de Andrey… — Falou depois de algum tempo. — Ele dizia que as pessoas não iriam ao teatro se soubessem o que os esperava. Dizia que a surpresa era a melhor “estratégia”. — Havia mágoa e um pouco de rancor nas palavras dela, mas ela mal percebera. Era a primeira vez que dizia aquilo em voz alta.

Jimin ficou quieto, fingindo que não a havia visto secando as lágrimas e esboçando aquele sorriso congelado, quase forçado e que não lhe chegava aos olhos.

— Depois me acostumei com a ideia de não me ver em nenhum cartaz. As pessoas iam aos espetáculos pelo meu nome e não pela minha aparência e… — Delicadamente ela passou os dedos pela mão da escultura até que ela mesma ficasse na mesma posição, congelada para sempre numa lembrança ruim do passado. Desfez a pose assim que viu Jimin sorrindo triste.

— Mas o que importa é que mesmo assim você foi me assistir dançando. Talvez não estivéssemos aqui hoje se não fosse assim, não acha?

— Talvez. — Respondeu pensativo, voltando sua atenção para a escultura seguinte. Era novamente um casal em uma posição em conjunto. Pareciam concentrados na dança, mas só isso. Não havia paixão, magia ou qualquer outro fator que fazia da dança a arte completa que era. No fim era apenas uma escultura, numa galeria qualquer, onde ele não podia exatamente ser ele mesmo.

— Quer sair daqui? Tomar alguma coisa? — Perguntou de repente, pensando que começava a ficar entediado em apenas ver aquelas esculturas congeladas sem completar os movimentos representados ali.
***
— Há quanto tempo você dança, Jimi?
Estavam tomando sorvete na varanda de um prédio histórico em frente à Torre Eiffel. Anja olhava para as pessoas andando despreocupadas na rua, observando alguns mais atrevidos olhando mais de uma vez para Jimin quando percebiam quem era. Ficou a uma distância segura, sabendo que se se aproximasse mais, ele seria vítima de algum tipo de assédio. O segurança os acompanhava dessa vez, um pouco afastado, sentado a duas mesas enquanto fingia ler um jornal de ponta cabeça.
— Como assim? Dançar profissionalmente?
— É. Já fez ballet?
— Não sei se conta como formação mesmo, mas fiz dança contemporânea na época da escola. E você, Anya-ssi? Dança há quanto tempo?
— Desde sempre, eu acho. Quando era mais nova, minha família tinha muito pouco, então minha mãe nos colocou numa escolinha de ballet comunitário perto de casa. Era uma distração, mas funcionou bem para mim e Alex. Hoje nós dois temos a dança como profissão.
— Alex-hyung também dança? — Perguntou surpreso. Não fazia ideia de nada sobre o rapaz além de que ele se esforçava muito para passar mais tempo com ele, mesmo sem saber falar coreano, inglês ou japonês.
— Ele anda te perturbando tanto que nem contou isso? — Perguntou Anja, abrindo um sorriso sincero pela primeira vez.
— A única coisa que conversamos são nomes de objetos aleatórios. Não sei se algum dia vou conseguir conversar de verdade em russo ou em coreano com ele. — Os dois riram.
— O que gosta de fazer quando viaja? Quais lugares gosta de ir? Mas de verdade, sem ser porque era a única opção onde você podia ser você mesmo? — Perguntou Anja, curiosa.
— Tomar sorvete? — Respondeu, dando risada. Ele sempre fechava os olhos quando ria, fazendo com que Anja risse junto com ele, os dois se curvando de leve.
— Só isso?
— Hmm… ver Anya-ssi rindo e se divertindo?
— Ah, não vale! Quero aprender mais sobre você.
— É sério! — Respondeu rindo de novo, mal percebendo que o sorvete estava prestes a cair. Só se deu conta disso quando ele de fato caiu em um pedestre muitos metros abaixo da varanda onde estavam apoiados. Imediatamente os dois se abaixaram para se esconder, rindo mais ainda no processo.
— Toma, fica com o meu.
— Só se for na base da divisão. Não posso deixar que fique sem.
— Não, pode ficar. Já estou satisfeita.
— Não, vamos dividir.
Ficaram nesse debate até que ambos decidiram lamber o sorvete ao mesmo tempo, ali, agachados como duas crianças travessas.

6 – Skit: Hesitation and Fear
— Seul? Amanhã? Mas a gente não ia para o Havaí? — Perguntou Anja, confusa. Em frente a ela estava uma Alyona muito empolgada e nada discreta, sugerindo que fizessem uma viagem relâmpago para a Coreia antes do previsto. — Pensei que a gente fosse para lá só depois das férias dele. Aconteceu alguma coisa? O que ele vai fazer lá no meio das férias?
— É aniversário do Jungkook!
— Quem?
— Um dos outros meninos do grupo. Foco, Anja!
— Tá, mas ele também não está de férias? Ele não viajou?
Alyona fechou os olhos frustrada, cansada de tentar explicar para a amiga que aquela era uma chance única. Bem, mais para ela do que para Anja, verdade, mas ainda assim uma chance única.
— Você não poderia fazer isso por mim uma vez na vida?

— Qual seu interesse nisso, afinal de contas? — Perguntou a ruiva, apertando os olhos.
Puxou o copo com um drink colorido típico de turistas em Paris para perto e analisou o rosto de Alyona com atenção.
— Ah!!! É só porque o grupo todo vai estar junto, não é? Seu bias vai nessa festinha?
O rosto de Alyona ficou vermelho imediatamente, fazendo com que ela mesma desviasse o olhar e ganhasse tempo dando um gole em uma bebida parecida com a de Anja.
— Mas me explica uma coisa… É só um dia de viagem? Tipo, Seul um dia, curte a festa e depois Havaí?
— Isso. — Ela finalmente encarou Anja do outro lado da mesa. Piscou os olhos várias vezes, fazendo cara de carente, esperando que aquilo derretesse o coração de gelo da melhor amiga. — Por favor! — Pediu.
— E o Alex? Ele vai sozinho para o Havaí encontrar com a gente lá? — Perguntou.
— Bem… O convite era só para nós duas. Acho que ele nem vai reparar que ficamos um dia fora. Ultimamente ele anda dando muita atenção ao segurança do Jimin, já reparou?
— Oi? Mas e o próprio Jimi? Meu irmão mudou de crush e nem me contou? Não, difícil, o crush dele é o próprio Jimi, não delira, Aly. — Balançou a cabeça, descrente. — Enfim, o que eu ganho se disser sim? Porque ficou bem óbvio que você quer ir só para poder bancar a fã e eu sou só a desculpa.
— Prometo deixar você escolher sozinha o que vai dançar ou deixar de dançar durante seu contrato com o BTS.
— Mas isso eu já faço! — Protestou a bailarina. Olhou para Alyona em silêncio por um tempo. De fato, as decisões mais importantes e que sempre faziam com que a bailarina se destacasse mais eram feitas por Alyona e sempre haviam sido motivo para brigas, porque nunca concordavam com quase nada nesse quesito. Apertou os lábios num bico teimoso e desviou o olhar. — Ok, mas isso não te livra de dar opinião. Gosto de quando a gente discute essas coisas.
— Oba!! Eu te amo, amiga, prometo que vou ser boazinha! — Gritou Alyona, se levantando e dando a volta à mesa para abraçar Anja.
***
Seul era uma cidade diferente de tudo o que Anja havia imaginado. Era agitada, grande, confusa e muito mais rápida do que ela esperava. Ainda tentava se recuperar do impacto que era poder fazer uma viagem daquele tipo, de um dia, para outro país, como se fosse a coisa mais rotineira do mundo. Estava acostumada com os luxos que o dinheiro podia trazer — Afinal era uma bailarina de sucesso. —, mas não naquele nível.

— Quem é o aniversariante? — Perguntou para Alyona depois de já terem aterrissado e se acomodado numa van toda preta reservada para Jimin.

— Jungkook. O mais novo do grupo.

— Mais novo? Tem gente mais nova que ele neste grupo?! — Perguntou impressionada, apontando para Jimin. Ele sorria pensativo e encarou Alyona, esperando que ela traduzisse o que Anja havia perguntado. — Quantos anos ele está completando? — Ela perguntou, dessa vez em japonês, incluindo o rapaz na conversa.

— Vinte e dois. — Respondeu ele.

Anja ficou olhando para o garoto, impressionada com a diferença de idade entre ela e esse aniversariante que ainda não conhecia. De repente ficou curiosa com a idade de Jimin, porque ainda achava que ele tinha menos de vinte anos e se o mais novo estava fazendo vinte e dois, significava que ele era mais velho do que ela esperava.

— Quantos anos você tem, Jimi?

— Faço vinte e quatro no mês que vem. — Respondeu sorrindo. A bailarina ficou olhando para o garoto, estupefata. Era quase dez anos mais velha do que ele. – Pareço mais velho? — Perguntou ao reparar na cara de choque dela.

A pergunta fez com que Anja começasse a rir discretamente, evoluindo rapidamente para uma gargalhada alta e constrangedora. Só percebeu que estava constrangendo todo mundo quando levou uma cotovelada no estômago e uma careta de Alyona.

— Hm.. desculpa. — Pigarreou. — Você parece bem mais novo, anjinho. Bem mais novo. — Completou sem jeito, assumindo um tom de vermelho quase idêntico a cor do próprio cabelo.

— Quantos anos você tem, Anya-ssi?

O tom de vermelho do rosto dela aumentou exponencialmente, provocando uma crise de tosse descontrolada. Jimin riu junto com Alyona, enquanto Anja tentava a todo custo pensar em outro assunto para não precisar contar o quão mais velha que ele era.

— Ela tem a minha idade, Jimin-ssi. — Respondeu Alyona em coreano, com medo da reação da amiga caso descobrisse que ela estava contando que ela já tinha trinta anos.

— Então vou começar a te chamar de noona, posso? — Perguntou ele, se dirigindo a Anja.
***
— Um fliperama, Aly? Você me fez viajar meio mundo, literalmente, por um dia para ir num fliperama? Tem certeza que ele está completando vinte e dois? Tem certeza que não é dezesseis?

— Dá para ser menos sarcástica e simplesmente curtir? Você nem conheceu ele ainda e já está me irritando com seus julgamentos. — Respondeu a empresária, se irritando.

Ao contrário da amiga, estava impressionada por eles conseguirem fechar um lugar como aquele para que JK celebrasse seu aniversário com seus amigos e familiares sem ser incomodado. Jimin tinha sumido de vista, procurando Jungkook para dar seu presente, deixando as duas ali na entrada sem saber o que fazer.

— Vão ficar paradas aí ou vão entrar? Tem mais gente querendo chegar, sabe. — A voz fez com que ambas se virassem para a entrada do lugar e dessem de cara com Seokjin. Anja ficou muda sem entender o que aquele cara tinha dito, mas extremamente impressionada com a beleza, a altura e a largura dos ombros dele. Alyona por sua vez teve que controlar o faniquito, porque bem atrás dele estava Namjoon. Curvou-se e puxou Anja consigo.

— Olá, sou Alyona Volkov e essa é Anja Wang.

— Any-a Wang? Não era para ela ser chinesa? — Perguntou Jin baixinho, achando que ninguém tinha ouvido. Alyona se fez de surda e não traduziu para a amiga. — JUNGKOOK-AH! — Gritou antes que ela respondesse, desviando das duas e seguindo para dentro do lugar.

— Você é a bailarina russa que vai nos ensinar um pouco de balé? — Perguntou Namjoon, se dirigindo a Anja em inglês. Para a infelicidade dos dois, ela não entendeu nada do que ele disse, então Alyona traduziu para o russo, chamando a atenção do rapaz.

— Sim, sou eu. Era para ser uma surpresa, mas o Jimi decidiu que devíamos vir ao aniversário também. — Respondeu Anja, sendo prontamente traduzida por Alyona. A empresária ficou muda depois. Ficou tanto tempo esperando para conversar com seu “bias” que agora estava sem palavras quando finalmente ficou frente a frente com ele, mal reparando em Jin ou nos outros membros que foram chegando em seguida. Só acordou mesmo quando Anja lhe deu um cutucão.

— Ah, certo. Então, muito prazer. — Respondeu Namjoon, se inclinando levemente e seguindo Jin.

— Vai ficar parada aí em choque até que horas? Vamos para a festa. — Falou Anja, puxando a moça para onde Jimin estava, já que era o único que ela conhecia. — Espero que tenha bebida de adulto, pelo menos.
— ANYA-SSI! — Gritou o garoto, empolgado, quando elas se aproximaram. Segurou a mão da bailarina e a levou para perto de JK, Taehyung e J-Hope. Os três gritavam para uma máquina onde dois deles pisavam com força, numa tentativa de dança baseada num jogo. Anja ficou impressionada com a rapidez dos passos dos dois que dançavam, sem saber exatamente como funcionava aquele jogo. — Esses são V, Jungkook, também conhecido como aniversariante, e Hobi-hyung. — Apresentou ele, apontando para cada um conforme dizia seus nomes.

Ao ouvir os próprios nomes, Taehyung e J-Hope pararam de dançar para cumprimentar as convidadas de Jimin.

— Você fala japonês? — Perguntou Hobi, segurando a mão da bailarina com as duas depois de reparar que Jimin estava conversando naquela língua.

— Um pouquinho…? — Respondeu ela sem jeito.

— Hyung, ela é a bailarina que eu comentei. — Falou Jimin, empolgado.

Mas Anja se retraiu quase imediatamente, puxando a mão levemente ao perceber o olhar super discreto que J-Hope lançou a ela depois de ouvir que ela seria a pessoa que ensinaria um pouco de balé a eles. Alyona também percebeu e foi logo se intrometendo na conversa.

— E eu sou Alyona, a melhor amiga e empresária dela. Tudo bem? — Se apresentou em coreano. Dirigiu-se a JK em seguida, exibindo seu melhor sorriso de fã. — Feliz aniversário, Golden Maknae. — Falou. Todos os garotos arregalaram os olhos, surpresos por ela saber daquele apelido.

— Oh, essa aqui é army! — Falou J-Hope, rindo. —Muito prazer, noona!

Enquanto Alyona e os meninos se entendiam e distraíam uns aos outros por conta do presente que ela e Anja haviam comprado — Luvas de boxe novas e com os símbolos do BTS e do ARMY — Jimin se aproximou de Anja, que agora olhava para a máquina com o jogo de dança muito atentamente.

— Já dançou num desses, noona? — Perguntou ele, pegando-a de surpresa.

— O que? Ah, não. Acho que não.

— Quer tentar? — Perguntou ele levantando as sobrancelhas e sorrindo. Anja percebeu que ele realmente estava confortável ali, mais até do que na galeria onde haviam passado um tempo juntos. — Eu jogo com você. — Completou ele, subindo no brinquedo e estendendo a mão a ela. — É só confiar em mim. Vou escolher uma música fácil, prometo.
Assim que a música começou, Anja soube que ia perder. Era muito rápido. Não conseguia acompanhar as luzes dos pedais e do jogo, muito menos o ritmo. Começou a sentir falta do doce e clássico balé, onde ela mesma fazia a marcação e não precisava correr para acompanhar a música, mesmo que fosse acelerada. Mal percebeu que estava apoiada numa espécie de corrimão atrás de si, tentando acompanhar o ritmo.

Jimin por sua vez pulava e dançava com extrema facilidade e ela queria assistir. Não sabia se olhava para a tela ou para o oponente, sabia apenas rir como não ria há muito tempo. O garoto puxou uma de suas mãos e pediu a outra com um gesto, convidando-a a dançar com ele, acompanhando os passos dele.
— Não sei se consigo! — Gritou ela rindo. Ele apenas sorriu e balançou a cabeça, apontando para os próprios pés e pisando tranquilamente nos pedais que acendiam conforme o jogo pedia. Anja tentou se concentrar neles e não na música, mas perdeu o equilíbrio várias vezes. E ria, ria como uma criança num parque de diversões. Não se lembrava de ter um dia divertido assim há anos.
Os outros meninos trataram de levar Alyona para outros brinquedos, descobrindo que a empresária era na verdade muito competitiva. Parecia com eles quando jogavam qualquer coisa nas gravações de Run. A não ser que o oponente fosse Namjoon, daí ela ficava sem jeito e sem palavras, tímida como nunca havia sido e perdendo qualquer jogo. Depois de algum tempo, sentada assistindo Taehyung numa disputa de basquete com Yoongi, uma caneca de cerveja foi colocada em sua mão.
— Toma. Vai te ajudar quando ficar perto dele. Quando não souber o que dizer, toma um gole e lembre-se de mim. — Falou Jin, sentando-se ao lado dela. — Ele é bem tranquilo, na verdade. Não precisa ficar nervosa, sabe. — Completou, olhando dos meninos para ela.
Como resposta ela deu um gole na cerveja, olhando para ele de modo significativo.
— O que? Eu também te deixo nervosa? Por quê? — Perguntou ele entre o surpreso e o divertido. Ela deu outro gole na cerveja, fingindo que não tinha resposta. — Ah, você é má. Agora vou passar o resto da festa tentando adivinhar por que te deixo nervosa. Achei que o RM fosse seu bias.

— E é.

— Uau, você fala!

Alyona riu. Mal podia acreditar que estava em Seul, numa festa de aniversário com todo o seu grupo favorito reunido e na companhia da sua melhor amiga. Bem, por companhia ela queria dizer só presença mesmo, porque ela estava distraída testando o jogo de dança com Jimin e J-Hope há horas e ainda não havia conseguido sair do nível zero, se é que isso é possível.

— Você colocou soju nessa cerveja, não colocou?

— Já tinha tomado?

— Desse jeito, não. Mas é que está com um sabor diferente.

— Bom?

— Bom. — Respondeu sorrindo.

— Vem, vamos jogar alguma coisa enquanto o seu nervosismo não volta e você me conta como é ser army e trabalhar com o BTS. — Falou ele, esticando a mão para ela ao se levantar.

— Prefiro ficar aqui.

— Vai trocar o cara mais lindo do mundo para ficar assistindo o Taehyung perdendo no
basquete??

— Isso.

— Uaaah! Você é realmente má.

— Além disso… — Começou ela, desviando o olhar e cruzando as pernas, ganhando tempo. — Tem gente mais bonita que você aqui hoje. — Completou.

— Quem?

Em resposta ela tomou outro gole de cerveja, ainda sem encarar o rapaz. Ele riu alto com aquele atrevimento, de modo que ela deu outro gole para não ter que responder. Estava falando de si mesma.

 

7 – Dionysus
Estava flutuando. Sentia que estava flutuando. “Provavelmente isso é um sonho” — pensou, se mexendo nesse universo fluído onde se encontrava. Sentiu que, onde quer que estivesse, estava sendo massageada em vários pontos do corpo e isso fez com que sorrisse feliz.
— Isso é gostoso. — Murmurou dormindo e se virando para o lado. Sentiu a boca tocando alguma coisa macia, diferente do resto desse universo fluído onde seu corpo se encontrava. Era macio, carnudo, gostoso. Esticou os lábios mais um pouco, explorando essa textura macia e decidiu se arriscar com a língua, e o que quer que fosse que estivesse lambendo se abriu e se mostrou um lugar quente e mais macio ainda. “Espera, isso parece…” — moveu a boca e sentiu uma língua tocando a sua, provocando ondas de prazer involuntário. Abriu um olho e o fechou em seguida, em pânico, se afastando.
— O que você pensa que ta fazendo, seu tarado? — Perguntou completamente desperta. Bastou um olhar em volta para perceber que tinha bebido demais e dormido na piscina de bolinhas.
Olhou à volta procurando Anja, mas ela não parecia estar em lugar nenhum. Aparentemente tinha ido parar ali sozinha, ou melhor, com Seokjin.
— O que eu estou fazendo? Você que começou a me beijar, doida! — Exclamou ele, sentando-se.
Tinha o rosto um pouco inchado e os olhos estavam menores do que nunca, porque tinha acabado de acordar. Esperava ser acordado com um beijo daqueles? Não, mas mesmo assim tinha e não tinha conseguido evitar retribuir. Ainda assim achou um absurdo o tom de acusação de Alyona sendo que ela mesma tinha começado tudo aquilo. Não tinha previsto que beber um pouco a mais de soju enquanto brincavam na piscina de bolinhas ia resultar em dormirem ali. Olhou à volta procurando os outros, mas aparentemente estavam sozinhos.
— Eu não te beijei! Foi um acidente.
— Certo, chame do que quiser. Para mim pareceu um beijo e um beijo bem… — Suspirou frustrado, arrependido de ter beijado de volta. — …deixa pra lá. — Completou, cansado. Levantou-se da piscina e esticou a mão para ajudar Alyona, recebendo um tapa em resposta.
— Tire essa mão imunda daí. Eu me levanto sozinha. — assim como ele, Aly estava furiosa consigo mesma.
Nunca se soltava tanto, nunca perdia o controle de si mesma e, no entanto, ali estava ela, depois de uma noite na piscina de bolinhas — podia até imaginar a risada de Anja quando soubesse — com um membro do BTS (o membro errado, diga-se de passagem) depois de tê-lo beijado. Sentia os lábios quentes e as pernas fracas, mas nunca admitiria em voz alta que tinha gostado do beijo.
Tentou se levantar, mas suas pernas não respondiam aos comandos do seu cérebro. Bastou uma tentativa para cair espalhando bolinhas coloridas para todo lado. Jin já estava com uma perna fora da piscina.
— Ei! Não vai me ajudar?
— Minha mão é imunda, longe de mim sujar uma princesa. — Respondeu ele sem olhar para trás, saindo da piscina e batendo as mãos na roupa para o caso de ter alguma bolinha perdida num dos bolsos do blusão que usava.
Alyona rosnou mais irritada ainda, porque realmente tinha sido uma cavala com o garoto e agora não conseguia se levantar de uma simples piscina de bolinha. Tentou mais uma vez e caiu mais uma vez, se jogando para mais fundo nas bolinhas, querendo morrer ali mesmo. Bateu as pernas e os braços com ódio de si mesma, querendo gritar.
— Precisa de ajuda? — Parou na hora, sem saber o que fazer diante daquela voz. Sentou-se a muito custo, com o cabelo todo bagunçado e tentou dar seu melhor sorriso, mas tudo o que conseguiu foi uma careta que Namjoon fingiu não ver. Ele estendia uma mão para Alyona, uma das pernas fora da piscina, a outra dentro, pertinho dela. Se pudesse, a empresária teria virado uma bolinha roxa ali mesmo, mas simplesmente esticou o braço e apertou a mão de seu bias com força, que a puxou com muita facilidade.
— Obrigada.
— Você está bem? Está todo mundo te procurando… — Falou ele. Ele desviou o olhar delicadamente enquanto ela se arrumava o melhor que podia, ajeitando o cabelo para trás e tirando as bolinhas coloridas de dentro do casaco e da blusa soltinha eu usava.
— Eu… faz tempo que eu sumi? — Perguntou sem jeito.
— Umas duas horas. Sua amiga tentou te ligar, mas você atendia e desligava.
— Como me achou?
— Jin disse que parecia ter te visto vindo para cá.
— Ah, Jin. Certo. — Murmurou. Sua pele ganhou um tom de rosa que faria Anja rir mais do que nunca. — Obrigada.
***
— Se eu dançar mais alguma coisa, é capaz das minhas pernas caírem, Jimi! — Anja se jogou num banco perto dos jogos e pensou seriamente em jogar as pernas para o lado e se deitar ali mesmo. Mas estava usando vestido e ainda tinha um restinho de dignidade guardado dentro de si.
Sorriu quando Jimin se sentou ao seu lado, tão cansado quanto ela, mas extremamente feliz.Vê-lo assim fez com que a bailarina o admirasse um pouco mais.
— Obrigada por nos convidar, sabia? — Comentou.
Fazia muito tempo que não se sentia confortável perto de homem nenhum, mas ali estava ela, extremamente confortável em meio a um, dois, três, quatro, cinco, seis caras. Espera, não eram sete? Olhou a volta e contou os meninos mentalmente mais uma vez até perceber que faltava o moço de ombros largos e sorriso fácil que haviam conhecido assim que tinham chegado.
— Vocês são minha companhia nessas férias, não poderia vir sem vocês. Aliás, cadê a noona? — perguntou de repente, também contando as pessoas ao redor.
— Deve ter ido buscar alguma bebida. Faz tempo que pedi uma para ela. — Respondeu Anja, olhando a volta e percebendo que realmente Aly não estava por perto.
— Jimi, eu sou péssima com nomes, me diz de novo o nome de cada um?
— Aquele ali dançando com o Hobi-hyung é o Jungkook. Ali, dançando do lado e assistindo eles jogarem é o Taehyung, mas pode chamar de V, acho que vai ser mais fácil. — Falou, apontando para os meninos. — Ali, discutindo se jogam ou não mais uma partida de basquete ou de corrida estão Namjoon, ou RM, e Yoongi.
Anja acompanhava cada um que Jimin apontava com interesse, mas prestou atenção mesmo quando ele apontou Namjoon e Yoongi, chegando a conclusão que Alyona não estava com seu “bias” como ela havia imaginado.
— E o desaparecido é Seokjin-hyung, mas acho que ele deve ter ido buscar alguma coisa para comer. — Completou Jimin, despertando Anja de suas suspeitas.
— Qual deles é o melhor dançarino? — Perguntou ela curiosa de repente. Ainda não conhecia completamente o trabalho do grupo, mas aquelas poucas horas com eles tinham servido para começar a criar um perfil de como seria seu trabalho quando as férias terminassem.
— Não sabe ainda!? — Perguntou Jimin, fingindo surpresa e choque para depois exibir um sorriso grande que o obrigava a fechar os olhos. – Claro que sou eu, noona!
Anja riu com ele, concordando internamente com aquela afirmação. Já tinha percebido que de todos ali, ele era o que tinha a melhor postura para um bailarino clássico. Ele e Hobi, o resto tinha potencial, mas precisariam trabalhar nisso um tempo.
— Noona, quando vai dançar para nós? O Jimin fica fazendo inveja dizendo que dançou só para ele. — Gritou Taehyung de longe, prestando atenção nela e em Jimin falando sobre dança. Anja sorriu sem jeito.
— Falou para eles de mim?
Em resposta Jimin sentiu o rosto arder de vergonha e decidiu não responder. Ao invés disso, se levantou e puxou Anja consigo, segurando as duas mãos dela e indo até um espaço relativamente aberto em meio aos jogos.
— Mostra para eles um pouco do que me mostrou em Moscou, noona. — Pediu.
— Aqui? Assim? Depois de ter bebido?
— É. Mostra como você é incrível. — Falou ele, sério de repente. Realmente tinha se gabado de ter assistido Anja Wang com exclusividade porque todos os outros conheciam o nome dela como bailarina, mas nenhum tinha tido a oportunidade de assistir. E achava, ou melhor, sabia, que ela seria tão incrível no improviso tanto quanto havia sido em seu último espetáculo na Rússia.
Instintivamente, ainda segurando as mãos de Jimin e sem desviar os olhos dos dele, Anja assumiu a mesma postura que tinha quando ia começar a dançar. Sua coluna ficou completamente alinhada e seus braços ficaram na primeira posição do balé enquanto andava até onde ele a levava. Assim que pararam seus pés imediatamente se posicionaram na terceira posição. Alguém colocou música clássica para tocar e bastou uma olhada de lado para flagrar Taehyung com o celular na mão, sorrindo encorajador.
— Se precisar eu estou aqui. — Sussurrou Jimin, soltando as mãos dela delicadamente.
Anja fechou os olhos. Pensou na última vez em que havia dançado puramente por prazer e a única coisa que se lembrou foi de momentos antes de conhecer Andrey. A música escolhida tinha uma batida mais alegre, apesar de em cena ser representada numa cena triste. Decidiu que daria a própria interpretação para aquele mini-espetáculo e chamaria de “O resgate”, porque era exatamente como se sentia com relação àqueles meninos, mesmo que eles não soubessem.
Deixou a música percorrer toda a sua alma antes de esticar uma das pernas e finalmente começar a dançar. Não podia fazer ponta por estar sem sapatilhas apropriadas — e também por ter bebido um pouco mais do que deveria – mas conseguia fazer a maioria dos passos com certa tranquilidade. Até que começou a dar piruetas. O sorriso que se abriu em seu rosto foi automático e a música começou a crescer gradualmente junto com a dança. Estava dando piruetas ao redor de Jimin, só conseguia ver ele, na verdade, que sorria daquele jeito gentil, fazendo com que seus olhos desaparecessem e fazendo com que o coração dela ficasse involuntariamente mais leve. Seu cabelo parecia uma chama ao redor da pele branca, acompanhando os movimentos conforme ela rodopiava majestosamente ao redor do rapaz. Nunca se sentira tão bonita como naquele momento.
Dançou, dançou e dançou como nunca, até que a música acabou e ela perdeu o equilíbrio por se esquecer que estava sem sapatilha e tentar fazer uma manobra com as pontas dos pés. Jimin a amparou bem a tempo, como se aquilo fizesse parte da coreografia improvisada que ela acabara de executar.
— Te peguei! — Murmurou ele, o rosto a centímetros do dela. Em resposta ela sorriu e o abraçou carinhosamente, ficando em pé finalmente e voltando à realidade com o aplauso dos outros membros do grupo.
— Isso foi… Isso foi incrível! — Murmurou J-Hope, aplaudindo com entusiasmo. O único que não aplaudia era Jungkook e assim que Anja olhou para ele, percebeu que ele segurava uma câmera discreta, apontada diretamente para ela. Os olhos dele estavam tão arregalados e surpresos quanto os dos outros, mas não podia aplaudir por estar ocupado registrando tudo e quebrando o encanto daquele momento. Deu conta disso só depois de Anja avançar em sua direção e arrancar a câmera de suas mãos a força.
— Eu não disse que podia filmar! — Rosnou ela em russo, jogando a câmera no chão com força.
Era o fim da festa.

8 – Danger (Japanese version)

— ANJA!

Alyona chegou bem a tempo de ver, em uma câmera lenta bem dolorosa, Anja surtando e jogando a câmera de Jungkook no chão, quebrando-a em várias partes. Aquilo doeu de tantas formas que elas teriam sorte se não virasse uma briga enorme, ou pior, um processo. Ela viu o choque começando a virar raiva nos olhos de alguns membros então correu na direção de Anja, segurando-a.

— Ficou doida?

— Ele me filmou dançando. Pensei que tivesse deixado bem claro que não queria que me filmassem quando aceitei essa sua ideia, Alyona!

— E deixou! Não foi de propósito. Ele nem sabia! ANJA! CONTROLE-SE.

— VOCÊ CONTROLE-SE. — Gritou em resposta, ainda furiosa. Se Alyona não tivesse aparecido, Anja com certeza teria dançado trepak* sobre o que sobrou da câmera, tamanha era sua fúria naquele momento.

Jungkook ainda estava em choque com tudo. Não sabia exatamente como reagir, mas alguns dos outros garotos já começavam a se irritar com Anja e seu temperamento, Taehyung principalmente. Tudo o que o aniversariante queria era deixar registrado um dos melhores presentes que havia recebido, uma dança exclusiva de Anja Wang, mas não esperava que ela fosse reagir daquele jeito quando percebesse.

Não tinha tido más intenções. Não ia publicar, afinal de contas, era um membro do maior grupo do momento, sabia muito bem como aquilo repercutiria caso chegasse a público. Mas Anja não tinha dimensão de como e do que era o BTS, muito menos de que nada daquela festa seria revelado além de uma foto do aniversariante com o bolo.

— Onde você estava afinal de contas?! — Perguntou finalmente, ao encarar Alyona que ainda a segurava de ir para cima do que havia sobrado da câmera. O rosto da empresária logo assumiu um tom vermelho de quem se sentia culpada pela reação dela e por não estar ali na hora certa. — Quer saber? Deixa para lá. Vamos embora.

Anja deu uma última olhada de ódio em direção a Jungkook e saiu sem se despedir de ninguém. Jimin não sabia o que fazer. Ficou parado tão chocado quanto os outros. Sabia que ela não gostava de ser filmada ou fotografada, mas nunca havia passado por sua cabeça que a reação fosse ser essa ao ser filmada de surpresa. Olhou para Jungkook e levantou os ombros.

— Você está bem? — Perguntou sem realmente dizer em voz alta. Tinha medo da reação da bailarina, caso visse falando alguma coisa sobre ela. O garoto simplesmente levantou os ombros sem saber responder.

Olhou para os estilhaços da câmera e pegou o cartão de memória intacto.

— Noona. — Chamou, se dirigindo a Anja.

Ela não entendeu que era com ela e, de fato, já estava a meio caminho da porta, quando Alyona a segurou pelo braço e a fez parar. Com uma corridinha rápida, JK chegou à ela e enfiou o cartão de memória na mão dela, fechando os dedos sobre ele e se inclinando completamente.

— Sinto muito. Eu não sabia que não podia. Achei que fosse seu presente de aniversário para mim. Sinto muito, mesmo. — Ele sabia dizer aquilo em japonês, mas o fez em coreano mesmo, para que a outra noona traduzisse.

Alyona o fez prontamente e ainda acrescentou:

— Ele nem precisou entender russo para saber que você ficou brava com a filmagem. Peça desculpas, Anja!

A bailarina abriu a mão e viu o pequeno cartão de memória ali, intacto e dela para que fizesse o que quisesse. Olhou dele para o garoto e sentiu-se mal imediatamente. Estava sendo uma cretina. Tinha quebrado a câmera do menino sem razão, quando podia simplesmente ter pedido o cartão de memória e avisado que filmagens eram proibidas desde sempre.

Olhou dele para Jimin e viu que ele ainda estava chocado. Não havia mais a admiração de alguns minutos atrás, quando ela havia se sentido a mulher mais linda do mundo por poucos minutos, havia apenas choque e um pouco de decepção.

— Eu sinto muito. — Murmurou em russo. Antes que a amiga traduzisse, no entanto, ela mesma repetiu o pedido em coreano – foi a primeira palavra que aprendeu naquelas poucas horas com aqueles garotos, porque eles a repetiam o tempo todo em coreano e japonês. Queria dizer mais e sabia que precisava, mas não sabia como e nem por onde começar. Vir até Seul antes da hora tinha sido errado. — Dasvidanyia. — Falou se inclinando levemente, como JK acabara de fazer e saindo sem maiores explicações. Restou a Alyona pedir desculpas em nome de Anja.
— Eu não sabia que ela ia fazer algo desse tipo. Devia ter contado que ela odeia ser fotografada ou filmada e que isso fazia parte do contrato. Não pensei que hoje, num dia de comemoração, fosse precisar me apoiar num contrato, mas é dela que estamos falando. Peço que não avaliem a pessoa que ela é só por esse incidente. — falou olhando para todos e em especial para Taehyung e Jin que pareciam os menos simpáticos a um pedido de desculpas.

— Espero que aceite uma câmera nova como pedido de desculpas, porque é o mínimo que podemos fazer. — Continuou, se dirigindo a JK que, apesar de tudo, não parecia tão chateado com o aparelho, mas sim com a situação. — A Anja é uma pessoa incrível quando consegue se abrir e já passou por muita coisa que a levaram a ter pânico de câmeras de qualquer tipo, por mais que estejamos num mundo moderno com câmera em tudo. Sinto muito por termos estragado a festa de vocês. Espero poder compensar isso quando finalmente trabalharmos juntos.— Pediu, se curvando totalmente e olhando para os próprios pés enquanto terminava de falar.

9 – Sea
— Anja! Acorda, mulher! Precisamos conversar. — A batida na porta era insistente, mas ela simplesmente se virou para o outro lado da cama e afundou a cabeça no travesseiro.
— Me deixe dormir, Aly! Já pedi desculpas por ontem e queria aproveitar esse resto de férias para descansar.
— Já dizia Kim Namjoon, “A gente descansa quando morrer.”! Anda! Posso passar o dia aqui batendo na porta. — Respondeu Alyona. Usava um vestido branco soltinho por cima do biquíni azul que havia guardado para aquele tipo de ocasião. Não era sempre que podia usar um biquíni ou ir a praia. Morava na Rússia, quando teria essa oportunidade de novo? — Anjaaaaaa – Chamou, batendo com as duas mãos.
— Está tudo bem? — Uma voz baixa fez com que ela parasse e recolhesse as mãos com vergonha.
— Jimin! Bom dia! — Se curvou completamente, cumprimentando o rapaz e escondendo o rosto vermelho atrás do cabelo comprido que formou uma cortina protetora.
— Anya-ssi está doente? — Perguntou. Tentara ouvir a conversa das duas antes de anunciar sua presença, mas continuava entendendo quase nada de russo. A única coisa que havia entendido era o nome de RM e mais nada.
— Não, ela está bem. Eu… — Respondeu Alyona, levemente nervosa. — Peço desculpas de novo por tudo o que houve ontem. — Completou, se curvando de novo para poder esconder a vergonha. Era a primeira vez que ficava sozinha com Jimin.
Dentro do quarto, Anja reconheceu imediatamente a voz do garoto. Não entendeu nada do que ele e Alyona conversaram, mas a possibilidade de que estivessem falando dela fez com que se levantasse da cama num pulo. Correu ao banheiro para fazer uma higiene básica, tentando ser o mais rápida que conseguia. O cabelo não estava lá essas coisas, mas lavá-lo levaria muito tempo, então apenas o prendeu numa trança lateral.

Analisou a própria imagem no espelho, tentando decidir se colocava uma peça inteira ou um biquíni. Nenhuma das opções lhe era agradável. A ideia de mostrar mais do que deveria numa praia, para pessoas além dela mesma, Alyona e o irmão a aterrorizava, mas a risada da amiga com Jimin no corredor a fez se apressar. Colocou um maiô assimétrico que segurava bem as “ partes sobressalentes”, como ela mesma chamava, mas deixava um dos ombros a mostra.
— Pareço uma salada de palmito com azeitonas e tomate. — Murmurou por conta da combinação de cores entre sua pele, o maiô e o cabelo.
No corredor Alyona continuava se desculpando, mesmo que Jimin dissesse que já estava tudo resolvido e que os outros meninos haviam aceitado o pedido de desculpas ainda naquele dia. Ela já havia enviado a câmera nova para JK junto com flores e mais um pedido de desculpas, mas involuntariamente ainda se sentia culpada por não ter avisado ninguém que Anja tinha pânico de câmeras de qualquer tipo.
Olhou emburrada para a porta do quarto da bailarina, pensando em todos os problemas que havia se metido por conta do temperamento dela e se arrependendo principalmente por ter aceitado a ideia de irem para Seul por um dia.
O quarto estava silencioso. A empresária tinha certeza que a bailarina tinha começado a se arrumar assim que ouviu que ela não estava sozinha, então decidiu ganhar tempo com Jimin e, por tabela, se desculpar e tentar se redimir.
— Jimin-ssi, ainda não tivemos a oportunidade de nos conhecermos totalmente. Sou Alyona. — Falou, se curvando de novo sem saber o que dizer depois disso. Jimin deu uma risadinha com a apresentação dela, lembrando-se de como ela fizera a mesmíssima coisa em Moscou antes dele dizer que gostaria de conversar com Anja.
— Eu sei, Alyona-ssi. Já até me permitiu te chamar de noona, lembra?
— Como posso me desculpar totalmente por ter estragado seu generoso convite para irmos a Seul comemorar o aniversário de JK?

— Poderia parar de ser formal comigo, para começar. — Respondeu ele, começando a ficar constrangido com tantos pedidos de desculpas. Também tinha ficado em choque e, francamente, passara a noite inteira se desculpando por não ter explicado nada sobre suas visitas, mas já tinha aceitado em seu coração que ficar remoendo aquilo pioraria ainda mais a situação. — Até voltarmos a Seul, eles vão esquecer o mal-entendido e tudo vai dar certo. Tenho certeza. — Concluiu ele, fechando os olhos e sorrindo fechado.

Tinha dúvidas sobre Taehyung e Jin, mas se o próprio Jungkook havia perdoado, quem eram os outros para continuarem guardando rancor? Anja desejou de todo o coração entender coreano.

Estava com o ouvido colado à porta havia cinco minutos, tentando entender o que Alyona e Jimin falavam. Sabia que era sobre ela, porque afinal de contas ela tinha sido uma babaca na noite anterior e agora não sabia como consertar a situação, mas não entendia nada do que diziam e se sentiu frustrada por não saber exatamente como começar a se redimir com seu príncipe salvador. Tinha passado a noite remoendo a possibilidade de ter que voltar para Moscou com o rabo entre as pernas porque tinha estragado tudo antes de começar. Só de imaginar a cara de satisfação de Andrey ela já começava a passar mal.
Contou até três. Depois contou até cinco. Não tinha coragem de sair e encarar Jimin de frente depois de tudo. Soltou um suspiro contra a porta, esperando que Alyona desistisse, mas quase caiu para trás quando a amiga recomeçou a bater na porta.
— Anda, Anja, sai logo! — Chamou.
A bailarina contou até dez e saiu, ciente de que seu rosto devia parecer um pimentão vermelho de tanta vergonha, mas Alyona já estava sozinha de novo. Exibia um sorriso de “bem feito”‖ que irritou Anja mais do que nunca, fazendo com que a bailarina fechasse a cara.
— O que? Esperava que ele ficasse aqui te esperando depois do que fez ontem?
— Cala a boca. — Resmungou, fechando a porta do quarto e saindo em direção ao corredor que levava ao jardim.

Dessa vez estavam numa casa – numa mansão, mais precisamente – alugada exclusivamente para eles. O lugar era além de qualquer coisa que Anja já tivesse visto em se tratando de casas em lugares paradisíacos. Havia uma grande mesa posta na varanda enorme da casa e logo depois uma piscina que parecia se juntar ao céu e ao mar por conta da borda infinita. Era realmente o paraíso que o dinheiro poderia comprar, mas só seria perfeito se Anja conseguisse finalmente se redimir com Jimin.
Alex e Jimin estavam à mesa, tomando um café da manhã diferente cada um. Havia tudo o que Anja mais amava no café-da-manhã russo: ovos, mingau de semolina, blini, sopa e uma variedade enorme de geleias e chás. Havia também coisas que ela deduziu pertencerem à dieta coreana, como peixe, arroz e uma espécie de ensopado que a bailarina não conhecia. Podia passar a manhã toda àquela mesa e mesmo assim não provaria tudo o que havia nela. Deixou o encanto do cenário de lado ao perceber que Alex e Jimin conversavam como se se entendessem completamente. Até riam de piadas internas que com certeza não faziam sentido nenhum.
— Recolhe o queixo, amiga. Alex está a anos-luz de você. — Sussurrou Alyona, acompanhando de perto cada reação da amiga. Anja fechou a cara de novo, sentando-se ao lado do irmão e se servindo de chá de maçã em silêncio. Não sabia mais como começar uma conversa.
— Jimin-ssi, que mesa maravilhosa! — Exclamou Aly em coreano.
A contragosto, Anja começou a cogitar a possibilidade de tomar aulas de inglês e de coreano, por odiar se sentir excluída.
— Eu não sabia o que vocês comiam de manhã no país de vocês, então pedi que fizessem tudo o que aparecesse no google com a pesquisa “café da manhã russo”. — Respondeu ele em japonês, sorrindo para Alyona e desviando o olhar diretamente para Anja. Sorriu para ela, com uma leve inclinação do corpo. — Dormiu bem, noona?
A bailarina sentiu o rosto esquentando imediatamente, forçando-a a desviar o olhar. Então ele ainda a considerava “noona”, isso era um bom sinal, não era? Tentou não sorrir, mas se sentiu extremamente mais feliz depois disso.

— Do que estavam rindo antes de chegarmos? — Perguntou para Alex. Ele e Jimin trocaram um olhar de cumplicidade que a deixou mais curiosa ainda.
— Nada de mais. Acho que finalmente comecei a aprender coreano. — Respondeu ele, empolgado. —Jimin estava comentando sobre o aniversário ontem. Você dançou com ele?
Anja olhou com espanto para o irmão e depois para Jimin que, apesar de ter ouvido todo o diálogo entre os russos e não ter entendido palavra por palavra, sabia que falavam sobre ele e a bailarina terem dançado. Secretamente ele e o irmão dela estavam usando um aplicativo novo de tradução simultânea e agora finalmente podiam ser amigos.
— E como foi que você aprendeu coreano em dois dias? — Perguntou ela, fingindo que não tinha ouvido a parte sobre ela e o coreano dançarem. Falar disso traria a necessidade de falar sobre a câmera do aniversariante e o fato que ela era uma grosseirona quando se tratava de seus medos internos.
— Segredo, anjinho. Um dia te conto. — Respondeu Alex, trocando mais um olhar de cumplicidade com Jimin.
***
— Promete para mim que hoje você vai curtir o dia sem surtar de novo. — Pediu Alyona baixinho quando subiram num iate luxuoso. Fingiam ouvir um instrutor de mergulho explicando onde eles iriam parar e o que fariam naquela manhã. Anja não tinha planos de mergulhar, mas tampouco tinha intenção de estragar o resto daquela viagem, então apenas deu de ombros, sem responder a amiga diretamente.
— Por favor, Anjinha… faça isso por mim, sim? — Implorou.
— Aly, já me desculpei ontem. Até quando vai me fazer me sentir culpada?
As duas exibiam sorrisos engessados, ensaiados e completamente mascarados. Não queriam brigar, mas se continuassem naquele clima brigariam com certeza. E se Anja era chata brigando sozinha, conseguia provocar o verdadeiro caos quando a briga envolvia sua melhor amiga. Nenhuma das duas tinha um temperamento digno de orgulho, mas ambas tinham aquela competitividade que fazia com que uma discussão simples virasse uma tempestade.
— Se quando voltarmos para a Coreia eles continuarem nos odiando, nunca vou te perdoar, entendeu? — Rosnou Alyona.
— Então eles são mais importantes para você do que nossa amizade?
— Pelo amor de Deus, Anja, quando é que vai permitir que eles entrem no seu coração e mostre como você é incrível? Foi isso que eles fizeram comigo, então sim, são mais importantes, sim. — Respondeu, colocando um ponto final naquela discussão e indo para perto de Jimin, Alex e o instrutor, deixando a bailarina presa nos próprios remorsos.
Ela estava assistindo Alex e Jimin saindo da água quarenta minutos depois, ainda absorta em todos aqueles sentimentos novos que aquele trabalho estava lhe proporcionando. Não percebeu o sorriso ou ouviu as perguntas do rapaz quando ele a encarou. Pensava no que Alyona havia dito sobre ele ter mudado a vida dela. Realmente a moça estava bem mais confiante de si mesma nos últimos anos. Estava sempre muito bem arrumada e consciente da própria beleza, usando o que bem entendesse e trabalhando como sempre quisera, livre. Não havia percebido essa mudança, apesar dos anos de amizade, por estar presa aos próprios medos e problemas. Continuava encarando Jimin sem realmente vê-lo, enquanto ele se aproximava e se sentava ao seu lado. O cabelo estava molhado e caído no rosto, dando nele um novo aspecto, ao invés de anjo ou ícone fashion, agora e parecia um deus grego – ou coreano, no caso.
— Ainda preocupada com o que houve ontem? — Perguntou ele, interpretando erroneamente a expressão dela. Anja teve que voltar à si com aquela pergunta. Estava pensando em como ele era bonito e tinha versões das mais variadas, provocando reações de mesmo nível sempre que ela prestava atenção. — Não se preocupe. Vou proteger você, se precisar, noona. — Continuou ele. Anja permaneceu quieta. Seus olhos iam do cabelo para os olhos, depois para os lábios e de volta aos olhos, às mãos dele e aos braços apoiados nos joelhos, para depois irem para o cabelo, arrumando-o despretensiosamente. — Estou bonito?
— Muito… — Murmurou distraída. De repente percebeu o que havia feito e pigarreou. — O que? Está se divertindo? — Perguntou, desviando o olhar e assumindo aquele tom rosado de timidez que encantava Jimin.
— Muito… Não vai curtir a água um pouquinho?
— Oi? Não… gosto mais da segurança do barco. — Respondeu sem jeito, ajeitando o vestido.
— Não sabe nadar?
— Sei… Alex me ensinou e…
— Então, vamos!
Jimin esticou a mão para ela, sorrindo daquele jeito de lado, assumindo uma nova persona de novo e deixando-a sem jeito. Como explicar que não queria tirar o vestido e mostrar as pernas, os braços, bom, o corpo todo?
— Faz de conta que está entrando no palco. — Sussurrou, lendo o pensamento dela.
Foi esse sussurro, mais do que qualquer outra coisa, que deu a segurança que ela precisava. Jimin pulou no mar primeiro, dando espaço para ela se acostumar com a ideia de tirar o vestido soltinho que usava por cima do maiô verde-escuro. Anja suspirou, vendo-o se transformar mais uma vez, cada hora numa persona diferente, sempre deixando-a surpresa com sua versatilidade.
— São férias, Anja. Curta o momento. — Sussurrou para si mesma, passando o vestido pela cabeça e indo até a borda a plataforma do iate. Jimin sorriu e comemorou quando ela finalmente mergulhou. De longe Alyona observava, aliviada por ver a amiga finalmente se deixando levar pelo momento e curtindo o melhor que aquelas férias poderiam oferecer. Esperava que aquele clima leve continuasse dali a dois dias, quando tudo virasse trabalho.

10 – I need you (Japanese version)

Ao contrário do que Alyona e Anja haviam previsto, assim que as férias do grupo acabaram não começaram os ensaios e o treinamento de balé que haviam imaginado. Os meninos mal haviam chegado e partiram para seus compromissos para com a empresa. Uma viagem a Nova Zelândia fez com que ambas ficassem duas semanas por conta própria, preparando a sala especial dada pela Big Hit.

Preparar uma sala de dança quando se tem todos os recursos necessários foi tão simples que Anja ficou entediada já no segundo dia. Precisou de muita força de vontade para não abraçar o membro da staff que pediu para conferir junto com ela se estava tudo de acordo com a imensa lista preparada por Alyona para deixar a sala do jeito que queriam. Usou aquilo como desculpa para ensaiar, porque sem isso ficaria louca enquanto esperava pela volta do grupo.

A sala era ampla e bem iluminada, com janelas grandes que permitiam a entrada de bastante luz
natural, preferível para as russas em relação à artificial. Duas paredes estavam completamente revestidas de espelhos que refletiam a sala de todos os ângulos. Um armário estava escondido por um desses espelhos e guardava sapatilhas, fitas, o equipamento de som e barras de alongamento desmontáveis que poderiam ser usadas caso precisassem. Alyona tinha se empenhado em transformar uma simples sala de dança num estúdio de balé de primeira categoria.

Assim que entrou, Anja sentiu como se estivesse em casa, ignorando o cara do staff e indo direto para a barra, se preparar para dançar. Estava toda de preto, com exceção das sapatilhas brancas. O cabelo estava solto, mas isso não a incomodava de modo algum, se importava apenas em dançar. Ligou o celular no equipamento de som e sorriu satisfeita quando a melodia começou a tocar de todos os lados da sala por conta da disposição das caixas de som espalhadas no teto.

— Ela vai dançar com a gente aqui? Pensei que ela fosse assistente também…- cochichou o assistente do staff, que deu de ombros. Se pudesse, ficaria ali no máximo os cinco minutos que precisava para ver se tudo estava funcionando, mas a bailarina começou a dançar no instante em que ele começou a juntar suas coisas para sair, hipnotizando os dois rapazes instantaneamente.

Anja se movia como uma pequena fada pela sala, flutuando na música como se ela fosse as notas musicais que a compunha. Esqueceu completamente que não estava sozinha. Desde o incidente de aniversário que ela não dançava e sentia que seu corpo estava definhando a cada hora de espera por aquele momento. Estava livre finalmente. Não tinha mais Andrey para controlar que tipo de música dançaria, que tipo de roupa usaria ou que tipo de música teria como opção. Não. Agora podia dançar como e o que quisesse, como seu coração sempre havia pedido. Voltou à realidade com o aplauso tímido, mas honesto, dos dois funcionários da empresa.
— Foi… foi lindo, senhora. — Falou o mais novo, mas Anja continuava não entendendo nada de coreano, então apenas sorriu e agradeceu como faria se estivesse num palco.

***

Esticou os pés sobre a poltrona da frente com um suspiro longo, sentindo seus dedos formigarem doloridos pelo ensaio intenso a que tinha se submetido com a desculpa de que deveria testar a sala de dança. Estava agora numa sala com um projetor. Planejava aprender mais sobre seus novos alunos antes que eles voltassem de “sabe-se-lá-o-que-estavam-fazendo-na-Nova-Zelândia”.
Tinha acesso a qualquer conteúdo do BTS ali dentro da empresa e pela primeira vez se sentiu privilegiada por isso. Não sabia muito sobre eles além do que Alyona dizia, tampouco teve interesse em procurar, mas agora tinha que construir uma confiança que havia destruído antes mesmo de ter chance e podia fazer isso baseada na quantidade absurda de conteúdo produzido por eles.
Começou sua pesquisa levando em consideração a idade dos meninos, começando do mais novo ao mais velho.
— Sendo mais novo, provavelmente tem menos coisa, certo? Então vamos começar pelo garoto do aniversário. — Murmurou, abrindo uma pasta com o nome dele no computador ligado ao monitor que dominava a sala. Passou os olhos por vários ensaios de dança, várias gravações dele em episódios de um programa de variedades, tudo sem entender nenhuma palavra do que era dito.
Até que chegou a uma pasta intitulada G.C.F. e decidiu dar play. Logo de cara havia um vídeo sobre Jimin e uma viagem que haviam feito por Tóquio. O vídeo era único. Bem editado, com uma música linda de fundo e tanto amor por Jimin que Anja terminou de assistir chorando. Passou aquele dia e os seguintes assistindo tudo o que achou sobre aqueles meninos.
Logo a notícia se espalhou pela empresa e além dos vídeos que a própria Big Hit havia disponibilizado, ela tinha acesso aos de outros funcionários e trainees. Depois de duas semanas, estava completamente rendida ao BTS. Entendia completamente como Alyona se sentia e os motivos dela insistir em trabalhar com o grupo, mesmo que aparentemente balé e o estilo de dança deles não fizesse sentido juntos.
Passou os dias entre ensaiar com a desculpa de que precisava continuar “testando” a sala de balé que eles lhe deram e entre assistir tudo. Quando finalmente acabou, decidiu que estava pronta para assistir o vídeo gravado por Jungkook quando se conheceram. Ainda tinha medo de ver a si mesma de outra perspectiva que não fosse a própria, mas estava disposta a se arriscar depois de ter aprendido e se apaixonado pelo trabalho daquele grupo.
Esperou ficar completamente sozinha e colocou o pequeno cartão de memória no computador. Haviam muitas fotos das férias do garoto, muitos vídeos íntimos dele com a família e os amigos. Um verdadeiro tesouro que fez com que ela se sentisse mais culpada por ter quebrado sua câmera, com certeza ele não tinha passado nada daquilo para outro dispositivo. Mesmo assim havia dado a ela como pedido de desculpas por ter quebrado o acordo que ela tinha com a empresa de nunca ser filmada, mesmo em momentos de descontração.
Quando finalmente chegou ao aniversário, teve que se segurar para não chorar. Havia registro dela dançando com Jimin no brinquedo de dança, dela e Alyona rindo de alguma coisa que haviam visto, dos meninos jogando entre si e, finalmente, dela dançando balé. Ficou surpresa que o tempo todo JK tivesse focado em seu rosto e em seus pés e em mais nada. Esperava ver a si mesma enorme, com o vestido que usava caindo errado em seu corpo grande e deixando-a horrível em vídeo. Mas o que via mostrava que a visão do menino sobre ela era fantástica e poética. Começou a chorar sem que percebesse.
Aqueles dois minutos de vídeo dela dançando balé reviveram traumas e lembranças que ela acreditava ter enterrado há muito tempo. Lembrou-se do dia que conheceu Andrey. Tinha ido fazer a audição para o grupo de balé dele e, por ser gorda, havia sido dispensada antes mesmo de dançar. Em teimosia, ligou um rádio a pilha e entrou no palco sem nada além de si mesma. Os outros jurados já haviam saído, restando apenas o palco vazio, um cenário ainda sendo construído e Andrey.
Tinha dançado a mesma música que os meninos haviam colocado no aniversário de JK porque era uma de suas favoritas e do mesmo jeito que havia feito no aniversário, fez naquela audição, dançando com o coração, como se não tivesse mais nada, além disso, em sua vida. De fato não havia. Era uma garota de família pobre, sem um curso superior de dança, tendo que ajudar a mãe a sustentar ela e o irmão também desempregado. A única diferença é que naquela primeira vez estava usando todo o aparato de balé, com direito a collant, cabelo preso e sapatilhas de ponta.
Havia sido aplaudida com entusiasmo por Andrey do mesmo jeito que havia sido pelos meninos. A diferença é que naquela época tinha todos os sonhos ainda no coração e, apesar do diretor tê-la aceitado na companhia naquele mesmo dia, pouco a pouco ele foi minando os sonhos e esperanças dela. Não foi a principal bailarina logo de cara, porque era gorda. Quando virou, não foi divulgada em larga escala como deveria, por ser gorda. E depois de um tempo acostumou-se com isso e se deixou levar.
Lembrou-se da vez em que Andrey postou uma foto dela dançando para testar o público porque iam se apresentar fora da Rússia pela primeira vez. Os comentários iam de “absurdo ela ser Anja Wang” para muitos ingressos que já estavam vendidos há meses sendo devolvidos porque era impossível aquela bailarina baixinha e gordinha ser a grande Anja Wang. Era uma visão totalmente diferente daquela exposta no vídeo que ela estava vendo naquela noite.
Deu pausa no vídeo no mesmo instante em que caía e era amparada por Jimin. Viu em si mesma aquele brilho bonito de expectativa e felicidade pela dança e começou a chorar. Chorou por si mesma, por ser tão insegura, por não ter confiado na intuição de Alyona em juntar ela e os meninos, por nunca se achar suficiente, mesmo tendo o nome tão grande no meio. Chorou por não saber o que fazer dali em diante, porque agora ficaria nos bastidores e não no centro do palco e isso era tão assustador quanto confortador.
Chorou por ter perdido anos da própria vida acreditando em Andrey e no amor doentio que ele dizia ter por ela. Não percebeu quando a porta da sala onde estava se abriu e Jimin entrou. Tinha ouvido falar sobre sua maratona tentando assistir e aprender tudo o que podia sobre o grupo e decidira ver por si mesmo esse esforço. Não esperava encontrá-la encolhida na poltrona, chorando diante da imagem pausada deles dois no aniversário. Silenciosamente ele foi até ela e se sentou ao seu lado, abraçando-a delicadamente enquanto ela ainda chorava.
Ao perceber quem era que estava lhe abraçando, o choro de Anja virou pranto e ela se agarrou no garoto como um náufrago se agarra a qualquer coisa flutuando no mar.
— Está tudo bem, noona. Tudo bem… — Murmurou de encontro ao cabelo cheiroso dela, passando a mão de leve em suas costas, consolando-a como podia. — Tudo bem… tudo bem…

11 – So far away
Estava tudo bem. Ela precisava daquele choque de imagem que foi a visão que um completo estranho tinha dela. No dia ela lembra de ter se sentido a mulher mais linda do mundo, agora se sentia a bailarina mais privilegiada e talentosa do mundo ao se ver pelos olhos do garoto. Jimin já havia ido há algum tempo, mas ela continuou ali com a desculpa de que havia muito para arrumar antes de ir para casa. Teve isso como argumento para ficar na empresa esperando o mais novo do grupo terminar sua agenda de compromissos na Big Hit.
Ficou do lado de fora do estúdio que ele usava, andando de um lado ao outro. Dançando coisas aleatórias. Cantarolando músicas que aprendera a gostar mesmo sem entender a letra. Sorriu sem jeito quando uma das maquiadoras passou por ela e entrou no estúdio com a maior naturalidade do mundo. Tentou ver qual senha ela usava para abrir a porta, mas tudo o que conseguiu foi um olhar desconfiado antes dela entrar. Voltou a andar de um lado ao outro, esperando. Passaria a noite esperando, se preciso. Mas tinha que conversar com Jungkook.
— Você precisa de alguma coisa? — Anja estava encostada na parede próxima a porta do estúdio, pensando se deveria fazer aquilo mesmo ou não. Cogitando a possibilidade de que JK fosse dormir ali e ela precisasse voltar outro dia. Assustou-se quando a maquiadora apareceu falando um japonês perfeito.

— Eu… é Júlia, né? Você fala japonês também? Como…?

— Os meninos me contaram… mas posso tentar em inglês, se preferir. — respondeu a moça com um sorriso gentil. Segurava uma maleta que parecia pesada de maquiagem que fez Anja se questionar se dali JK iria para algum evento.

— É que eu preciso entregar algo ao JK, mas não quero atrapalhar… Ouvi dizer que ele está trabalhando numa mixtape… — desviou o olhar da maquiadora quando ela pareceu soltar um suspiro, perdida nos próprios pensamentos.
— Só um minuto… — ela voltou para dentro do estúdio e saiu dois minutos depois e fez sinal para Anja entrar.

A bailarina esperava tudo, menos ter que entrar no estúdio, nunca havia feito isso na vida e de repente se sentiu insegura sobre o assunto. Não era assim tão importante. Poderia muito bem deixar com Jimin e esquecer aquela questão para sempre. Hesitou por um tempo ainda no corredor, batendo um dos pés várias vezes no chão com o nervosismo. Julia voltou a colocar a cabeça para fora e sorriu.

— Pode entrar. Ele não vai te morder… — falou. Anja suspirou e seguiu a moça para dentro do lugar.
A sala era maior do que ela imaginava, e estava dividida em dois cômodos por um vidro escuro. A sala onde estavam era cheia de equipamentos que ela não conhecia, caixas de som, fones de ouvido, botões de várias cores e sempre na penumbra. Questionou-se pela segunda vez se Julia conseguia mesmo maquiar alguém ali dentro, mas ficou quieta ao reparar que JK continuava sem maquiagem apesar do tempo ali. O outro cômodo ela já havia visto pelo menos em fotos, tinha alguns microfones, alguns instrumentos e ela tinha certeza que as coisas na parede permitiam que a sala tivesse o som totalmente isolado.
— Queria falar comigo, noona? — perguntou Jungkook, tirando Anja de sua contemplação daquele lugar. Como recém-fã ela começou a se sentir extremamente privilegiada por estar ali. Sorriu sem jeito.
— Desculpa, é que eu nunca entrei num estúdio desse tipo antes… — admitiu. Julia entendeu a dica e saiu de fininho, lançando uma piscadela na direção da bailarina e um olhar ameaçador para JK. Assim que ela saiu, Anja sentiu a garganta seca, ansiosa. — Eu sei que já passamos muito tempo desde aquele dia… — começou sem olhar nos olhos do garoto.
– Que d…?
– Obrigada. — interrompeu ela, esticando a mão gordinha para ele e colocando o cartão de memória na mão dele. Jungkook olhou para o pequeno objeto sem entender, depois olhou para Anja mais uma vez e finalmente entendeu que cartão de memória era aquele. — Eu assisti a filmagem que fez aquele dia… eu… nunca… — suspirou. — Nunca havia me visto com outros olhos que não o do medo. Eu não deveria ter quebrado sua câmera ou me exaltado. Não te conhecia e nem tinha noção do que estava fazendo e meu medo não justifica minha atitude. Mas assisti e… obrigada. Obrigada por me deixar ver isso. Não posso ficar com ele. É seu e… a dança aquele dia foi mesmo um presente improvisado, eu não tenho o direito de ficar com isso. Peço desculpas.
Anja falava o mais rápido que conseguia, deixando o sotaque russo sobressair no que dizia, mas sentia que precisava fazer aquilo para poder seguir em frente. Finalmente entendia o que Alyona sempre dissera sobre gostar de trabalhar com o BTS e agora realmente sentia isso, mas precisava criar um laço com todos os meninos para continuar seu trabalho sem entrar numa crise de ansiedade e JK era a chave para isso. Arregalou os olhos quando o garoto sorriu e recolocou o cartão de memória em sua mão.
— É seu, noona. É um presente meu para você. — falou.—– Vamos trabalhar muito tempo juntos e vou poder ver você dançando mais vezes, se me deixar. — continuou. — Quer que eu filme, quando esse dia chegar?
A bailarina teve que segurar a emoção e a vontade de chorar enquanto olhava para aquele menino. Era tão jovem e tão… maduro. Sabia que não podia, mas ficou com vontade de abraçá-lo bem apertado, como se fosse seu irmão mais novo.
— Vai ter que me perguntar de novo quando esse dia chegar, mas acho que sim. Obrigada, zólattse mayó*. — respondeu. Os olhos estavam marejados de emoção, mas conseguiu se conter. JK sorria gentil, feliz por ver que ela finalmente havia assistido o vídeo que havia feito e, quebrando todo o protocolo — provavelmente porque Julia havia pedido para ser legal com Anja – se levantou e abraçou a moça tímida e rapidamente.
— Estou ansioso para aprender um pouco do seu estilo de dança, noona. — falou, deixando Anja tão emocionada que teve que sair sem dizer mais nada porque não aguentaria muito mais tempo sem chorar.

***

— O que vocês estão usando? — perguntou depois que Jungkook e Jimin finalmente se juntaram ao grupo na sala de balé. Anja analisava abertamente a roupa que eles usavam e balançava a cabeça negativamente, mesmo diante da cara feia que alguns membros insistiam em manter para ela. Já havia se perdoado por suas falhas para com o grupo todo, não ia mais se deixar abalar pela expressão de poucos amigos de Taehyung.
— Peguei a primeira coisa que vi. Ficou bom, não ficou? — falou Jin, quebrando o silêncio e surpreendendo Anja. Ainda achava que ele a detestava, mas em consideração a declaração não-verbal de trégua, sorriu.
— Você é lindo mesmo — começou em russo.—–, mas sua roupa não é adequada para o tipo de dança que vamos ter hoje. — continuou em japonês para que a entendessem já que todos eram fluentes naquela língua. — Muito menos os sapatos que estão usando. Vão ter que tirar a roupa.
O sorriso no rosto de alguns deles se desmanchou imediatamente, com exceção de Yoongi, que sorriu de lado como se soubesse de alguma piada interna que mais ninguém conhecia. O silêncio se instalou na sala e todos ficaram se encarando, até que alguns, assim como Yoongi, começaram a sorrir como se aquilo fosse uma grande piada. Anja manteve o silêncio com o semblante intacto até que todos eles estivessem sorrindo uns para os outros e finalmente lembrassem que ela estava ali.
— Estou falando sério. Tirem as roupas!
Dessa vez até Yoongi ficou sério, em choque. Foi só então que Anja caiu na gargalhada, sem poder se conter por muito mais tempo. Apontou para o espelho atrás deles e das barras de alongamento, rindo a ponto de sentir os olhos úmidos com pequenas lágrimas.
— Não… hahaha.. não precisam ficar pelados na.. hahahaha.. minha frente!!! — conseguiu dizer ainda rindo. — Tem roupas e sapatos mais adequados naquele armário. Alyona deixou tudo preparado para vocês! — falou, caindo na risada de novo logo em seguida.

***

Vinte minutos depois estavam todos posicionados ao lado das barras, uma mão apoiada num lado e a outra em diversas posições, desde mão na cintura até solta ao lado do corpo acompanhando uma cara de indignação por estarem usando calças mais justas, um suporte para proteger o corpo do constrangimento e dos movimentos e sapatilhas. Anja teve que se segurar para não rir de novo, tendo que se lembrar o tempo todo que ela os conhecia, mas o inverso ainda não tinha acontecido para eles — com exceção de Jimin.
— Vocês estão lindos! — exclamou, sorrindo. Também estava vestida como bailarina para deixá-los mais confortáveis, mas obviamente não tinha funcionado muito bem. Taehyung tentava se ajeitar discretamente, incomodado com o suporte que teve que colocar por dentro da calça e provocando questões improprias na mente de Anja. Ela sabia que ele ia ser o mais difícil de trazer para o seu lado depois de ter surtado no aniversário de JK, então foi até ele primeiro. Colocou a mesma música que ele havia escolhido naquele dia.
— Taehyung-ssi — começou, usando a terminação formal em coreano para ganhar terreno. — Pode ser meu modelo? — perguntou timidamente, se aproximando do garoto e parando atrás dele também posicionada na barra. — Minha intenção é ajudá-los com a postura e ver até onde sabem o básico do balé clássico.
Ela segurava uma vara de madeira idêntica à que sua professora havia usado quando era apenas uma criança rechonchuda tentando perder peso e não ser um problema para a família pobre. Não tinha intenção de usar da mesma maneira que era usada na Rússia, mesmo assim achou que seria útil para não precisar passar dos limites físicos de contato com eles sem que permitissem. Colocou a ponta da vara nas costas do garoto, forçando-o a endireitar a coluna, depois deu uma leve batida com ela nos joelhos, para que se aproximassem e ele finalmente ficasse na primeira posição com os pés.
— Essa é a primeira posição. — explicou. Logo todos os outros copiaram a pose. Anja andou entre eles, arrumando a postura e a posição dos pés. Parou em Jimin e sorriu.
— Posso? — ela perguntou, dando sinal de que ia usar ele como modelo para a posição dos braços. De perto, ela reparou que ele parecia um pouco inseguro, mas deixou que ela o tocasse assim mesmo. Anja ficou atrás, tirando vantagem de terem quase a mesma altura e segurou um dos braços dele. — Os braços devem ficar desse jeito, na primeira posição. — as horas seguintes foram alternadas entre balé e hip hop e muita dança entre ela e os meninos.

***

Aquele era o quinto café de Alyona. Ou seria o sexto? Ela não tinha mais certeza. Sabia apenas que estava viciada no café oferecido na Big Hit e usava as mudanças de fuso feitas durante as férias com Jimin como desculpa para continuar bebendo. Estava dando um gole longo e particularmente sedento quando Jin entrou na pequena copa. Usava uma das leggings especiais que ela e Anja tinham escolhido para as “aulas” de balé, fazendo com que a empresária babasse todo o café na tentativa de não cuspir tudo para o ar.
— O que é isso?! — ela falou, apontando para as pernas torneadas do rapaz dentro das calças justas. Fingiu não reparar na saliência evidente provocada pelo suporte que ele usava por baixo da calça, mas não conseguiu esconder o rosto vermelho com muito sucesso.
— Oi para você também. Já vi que descobriu o armário de café e de lanchinhos. Por favor, não toque nos salgadinhos de camar… — ele fechou os olhos vendo o pacote aberto ao lado do copo de café dela na bancada.
— Ah, era seu? Desculpe, achei que todo mundo pudesse só pegar o que quisesse… Foi o que me… — a voz dela foi morrendo vendo que ele realmente estava chateado pelo salgadinho — Desculpa… — falou. Pegou o pacote e avaliou o quanto tinha comido. Nem tinha sido muito, ainda tinha mais da metade do pacote. — Olha, se te anima, ainda tem bastante. Quer dividir?
Ela se lembrava muito bem de como tinham se separado na última vez que haviam se visto. Sabia que ele também se lembrava e, a ver pela cara dele, ainda estava com um pouco de raiva dela.
— Er… desculpa. — repetiu. Dessa vez se referia ao beijo, ao surto e à grosseria.
— Pelo…? Ah, você fala daquele dia? — perguntou, indo até ela e se servindo do salgadinho. Ela não se afastou nem um pouco, mas teve que fingir frieza para esconder o nervosismo que aquela aproximação repentina causou. Ficaram parados se encarando, ele comendo o salgadinho que ela havia deixado aberto na bancada, e ela tentando se limpar discretamente do café que havia babado.
Não teve muito sucesso, pois Jin desviou o olhar dos olhos escuros de Alyona para a camisa manchada, subindo dolorosamente devagar para o rosto e depois de volta aos olhos.
— Ta sujo aqui. — falou, limpando o canto da boca dela com o polegar e depois limpando-o em sua blusa. — Pelo jeito acabou o nojinho, né, princesa? — perguntou ele sorrindo de lado.
Alyona estava sem palavras, o coração batendo desesperadamente no peito sem que ela soubesse se era pelo toque dele em seu rosto ou pelo tom debochado que ele usava e lhe fervia o sangue. Antes que ela respondesse, no entanto, ele se afastou e pegou uma garrafinha de água na geladeira e saiu sem dizer mais nada.
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VOCABULÁRIO:
*zólattse mayó: meu tesouro (no diminutivo) em russo.

 

12 — No More Dream

Os dias passaram rápido depois da volta do grupo para a Coreia. Anja passava os dias entre ensaiar com eles e aprender coreano, com uma agenda tão apertada quanto a dos próprios garotos. Aos poucos começava a descobrir que era tão apaixonada pelo BTS como um todo quanto Alyona dizia que seria, mas ainda não tinha tido coragem de admitir isso. Foi só quando Jimin e, surpreendentemente, Jungkook apareceram com um convite para que ela, Alyona e Alex assistissem ao último show da turnê do ano que se permitiu sentir a excitação correr em seu corpo.

Para Alex o convite foi um pouco diferente, apesar de ser relacionado ao show em si. Havia sido convidado para fazer parte do corpo de bailarinos que acompanhava o BTS na turnê, de modo que Anja quase não viu o irmão depois de ter sido convidado. Passava os dias — e algumas vezes, as noites — dançando e ensaiando hip hop. Tivera bem mais facilidade do que ela com aquele estilo de dança, mas ela continuava insistindo, tendo ensaios semanais com Jimin. Apesar da agenda apertada, tinha conseguido uma hora do tempo dele para aprender o básico.

Ao final do que ela chamou de aula, Anja estava deitada no chão tentando recuperar o fôlego. Hip Hop não devia nada ao balé. Era rápido, agitado, cheio de movimentos complicados e técnicos que fizeram com que a bailarina se sentisse recomeçando no mundo da dança.

— Isso foi… nossa! — falou, apontando para o teto e fechando os olhos alguns segundos para tentar pensar com a cabeça e não com o corpo cansado.

— Para quem não sabia hip hop você foi ótima, noona. — falou Jimin, rindo e se deitando ao lado dela, o corpo numa posição invertida, mas com a cabeça alinhada a dela.

— Como você conseguiu fazer aquele negócio… — começou ela, girando o dedo no ar representando o garoto. — …aquele do giro no ar, sabe? Onde você aprendeu aquilo?

— Aprendi quando fazia artes marciais… muuuito tempo atrás. — respondeu. Ainda estava de olhos fechados, sorrindo, perdido nas lembranças do passado. Anja olhou para ele e ficou perdida naquele sorriso, em silêncio. Isso o despertou de seu devaneio e o fez se virar na direção dela.

— Me ensina?

— O que?

— Um pouco de luta.

— Sério? — respondeu arregalando os olhos, esquecendo completamente que ela não falava coreano.

— Sério. — repetiu ela, também em coreano, fazendo com que ele arregalasse mais ainda os olhos, surpreso, fazendo com que ela risse alto.

Ele desviou o olhar, voltando a encarar o teto da sala de dança, pensando se conseguiria incluir mais aquela tarefa na sua imensa lista. Balançou a cabeça concordando com algo que só ele sabia, decidido a fazer o possível por ser Anja Wang.

— Certo. Primeiro preciso ver se consegue fazer uma coisa. — falou, se levantando num único pulo, assustando a bailarina. — Levante-se. — continuou, esticando uma mão para a ruiva. Mas ela decidiu não se apoiar nela, tentando imitar o movimento que ele acabara de fazer e falhando completamente, provocando a risada do garoto. — Não era isso!! — riu alto das tentativas dela.

— Eu sei! Mas eu quero… ahh… — tentou de novo. — Deixa quieto. — desistiu.

Quando ela finalmente se levantou — usando a mão dele como apoio, apesar dele tremer enquanto ainda ria dela — sorriu empolgada. Nunca tinha tido a chance de aprender a lutar nada, sua vida havia sido o balé e a família desde muito cedo e depois acabou se prendendo a Andrey por mais tempo do que deveria.

— Não sei se sou a melhor pessoa para te ensinar isso. Acho que o Jungkook ia ser melhor professor do que eu. — falou constrangido, coçando o nariz e olhando para baixo para desviar o olhar do de Anja. Mas ela percebeu um ar de riso no rosto dele e um brilho de expectativa no olhar, mesmo que não a encarasse diretamente.

— Será que ele ia topar? Posso pedir para ele depois, se quiser… sei que tem ensaiado muito para as premiações do final do ano.

— Não! — respondeu ele rápido demais. — Eu ensino… é que…sei lá… — a voz dele foi morrendo conforme ele falava, até que ficou quieto sem realmente responder Anja. Ficou assim, sem saber o que fazer dali em diante, enquanto ela o olhava atentamente, esperando que ele decidisse se ia mesmo ensinar ou não.

— Certo… — começou a bailarina. — Não precisa, se não quiser… — falou.

Aquele silêncio a fez questionar se realmente precisava aprender a lutar ou não. E então lembrou-se de todas as vezes que brigou com Andrey, mas não fez nada por não poder, por ser mulher e não saber como se defender se precisasse. Jimin de alguma forma percebeu o olhar inseguro da moça e se aproximou, decidido.

— Vamos ver se tem o básico primeiro. — falou, esticando a mão para o lado do corpo. — Consegue acertar minha mão com o pé?

Anja se posicionou e esticou a perna com facilidade, acertando a mão dele tranquilamente.

— Nessa altura é fácil. — respondeu. Estava em posição de luta involuntariamente, as mãos fechadas em punho ao lado do corpo, os braços flexionados e colados na cintura. Jimin riu da pose e mudou a altura da mão, subindo-a no ar até a altura da própria cintura. — E agora?

Anja ajustou a própria posição e acertou a mão dele de novo, ainda com facilidade.

— Moleza, querido.

— E agora? — continuou ele, tentando não rir. Levantou a mão até a altura do ombro e de novo a bailarina tocou sua mão com um dos pés.

— Qual é? Achei que isso ia ser um desafio!

Em resposta Jimin levantou a mão acima da cabeça, perpendicular ao chão, de modo que sua altura e o comprimento do braço deixassem sua mão muito mais alta do que Anja. Ela apertou os lábios e estreitou o olhar, dando um passo para trás para poder usar todos os anos de alongamento que havia aprendido com o balé. Jimin riu discretamente ao reparar que ela estava mostrando a língua para extravasar o esforço que faria.

Mas ela não era alta o suficiente e seu pé tocou apenas o cotovelo de Jimin, fazendo com que ela fizesse um espacate vertical, impressionando-o. Ela sorriu sem jeito e o encarou vitoriosa. A intensidade e o orgulho que ele exibia no olhar a fizeram hesitar e ela perdeu o equilíbrio depois de exatos três segundos naquela posição. Jimin rapidamente tentou segurá-la pela cintura, mas foi tudo muito rápido e os dois caíram rindo. Ela da posição ridícula que se encontrava, uma perna totalmente apoiada no ombro dele, e ele de todo o conjunto da coisa.

— Você me desconcentrou!

— Mas eu não fiz nada!! Foi você que acertou meu cotovelo e não minha mão!

— Mas eu achei que isso fosse só para saber o quanto eu conseguia me alongar! — falou desviando o olhar dele e apontando para o próprio joelho no ombro dele. — Já ficou bem claro que eu tenho alcance, não acha?

Foi só então que ele reparou na posição em que estavam. Sentiu o coração bater acelerado de repente, mas não soltou a cintura dela.

— Você está bem? — ela perguntou, percebendo finalmente que havia caído por cima dele e se sentindo repentinamente insegura por conta do peso. Tentou se ajeitar para levantar, mas o máximo que conseguiu foi colocar a perna no lugar, Jimin não deixou que ela se levantasse, então ela apoiou uma das mãos no peito dele e a outra no chão, ao lado de sua cabeça. Ao invés de permitir que ela saisse de cima dele, Jimin a segurou pela cintura com mais firmeza com uma das mãos, puxando-a repentinamente, de modo que o nariz dela tocou o dele. Anja arregalou os olhos verdes e tentou se mover, mas Jimin a puxou de volta, sério.
— Estou ótimo. — respondeu beijando-a suavemente.

Pela segunda vez ela se viu surpresa com a delicadeza com que ele a beijava. Era como se estivesse beijando um anjo. Os lábios de Jimin eram carnudos e macios e se moviam com precisão sobre a boca dela, forçando-a a abrir e permitir que suas línguas se tocassem. A bailarina continuou de olhos abertos, sentindo o corpo amolecendo e relaxando aos poucos por conta daquele beijo, até que se tocou do que estava fazendo e o interrompeu.

— Espera.

Afastou o rosto e encarou Jimin de perto. Podia ver todas as pintinhas e sardas que ele escondia com a maquiagem perfeita que a empresa fornecia. Perscrutou os olhos castanhos dele, insegura. Aquele era um Jimin que ela não esperava ver. Tinha consumido tanto conteúdo sobre o BTS e, em especial, sobre ele, que havia interpretado errado todos os sinais que ele lhe dava. Achava que Jimin não gostasse de mulheres, mas agora não entendia de onde tinha tirado essa conclusão. Tinha crescido com Alex, um homem bem decidido sobre a própria sexualidade e que mesmo assim não deixava de ser vaidoso e cheio de estilo, assim como Jimin. Mas aquele beijo a fez questionar o quanto o conhecia. Pensou em como ele e Jimin haviam ficado amigos mesmo com a barreira linguística e se apegara a isso como sinal de que se gostavam. Sentiu vergonha de si mesma por pensar tão pequeno e se limitar a preconceitos que ela atribuía a pessoas como Andrey.
Comparar-se a ele fez com que sentisse nojo de si mesma e se afastou do garoto levantando com facilidade.
— Ta tudo bem? — perguntou Jimin se levantando também.
Estava confuso com a mudança do clima de repente. Beijou Anja porque achou que ela estivesse na mesma sintonia que a dele. Não estava entendendo mais nada.
— Eu fiz… — ia perguntar se tinha feito alguma coisa errada, mas mudou de ideia. Era óbvio que não deveria tê-la beijado daquele jeito. Onde estava com a cabeça? – Me desculpe. — falou.
Anja estava mais confusa do que ele. Tinha correspondido ao beijo. Gostado. Mas naquele momento se odiava por ter criado um Jimin completamente diferente daquele em sua mente perturbada. Quem deveria pedir desculpas era ela.
— Não. Eu que peço desculpas… confundi tudo… Sinto muito, Jimi. — e sem mais palavra, saiu da sala de dança.

13 – Tonight

Estava entediada. Sabia que isso aconteceria desde o instante em que começou a se entupir do café caro servido na empresa. Sem a agenda agitada de Anja com concertos e apresentações pela Rússia, o que lhe restava? Apenas assistir o trabalho dela com os meninos. Não previra que a falta de uma agenda pública fosse deixá-la sem quase nada para fazer.

Estava com fones de ouvido grandes, sentada na terceira poltrona da quinta fileira do auditório privado da Big Hit ouvindo Mono no último volume. Sempre que ficava entediada e, consequentemente, deprimida por não poder trabalhar, ela ouvia o álbum de Namjoon. A voz rouca e o rap lento fazia com que ela se imaginasse dentro de um clipe qualquer, numa história que não fosse sua apenas por estar. Involuntariamente imaginou Anja dançando balé ao som de BTS. Não seria exatamente balé, seria uma mistura do clássico com o contemporâneo, usando roupas mais confortáveis do que o tradicional combo collant + saia de tule.

Fechou os olhos e imaginou uma apresentação ao som de um piano. Se ela fosse a diretora, montaria um espetáculo simples com os solos e as músicas mais melódicas do grupo, como Serendipity, Epiphany, Euphoria ou até mesmo Fake Love. Anja não precisaria de mais nada além do piano e de si mesma, confiava assim no trabalho da amiga. Mas ela não era diretora. O máximo que fazia era tocar piano.

Abriu os olhos e encarou o palco deserto. Estava sozinha há horas e nenhuma alma havia aparecido para tocar o piano deixado no canto. Era um piano de cauda, branco, coberto por um plástico transparente. Provavelmente era o mesmo piano que Jin tocava nos shows. Devagar, ao som de Young Forever, ela se endireitou e olhou a sua volta. Continuava sozinha e muito provavelmente ficaria assim até o fim do expediente de Anja.

Não teria problemas se esticasse os dedos naquele piano, teria? Fazia meses que não tocava, mas de repente sentiu aquela necessidade absurda de pelo menos sentir aquelas teclas com as próprias mãos. Sentiu um frio na barriga, se questionando se Jin realmente tocava aquele piano ou estava ali apenas para ensaios. Seu lado army dizia que deveria se arriscar, então ela tirou os fones de ouvido e subiu no palco. Tinha certeza absoluta que aquele auditório era todo isolado acusticamente, não seria ouvida do lado de fora, mesmo assim sentiu medo ao se sentar na banqueta.

Descansou os fones no pescoço, lançando mais um olhar a volta antes de puxar o plástico que protegia o piano. Bem pequeno no suporte para partitura, viu o portão que agora era símbolo do BTS. Sentiu aquela onda de prazer que só uma fã saberia explicar e olhou de novo a volta. Levantou a tampa do piano e foi como se o mundo ganhasse aquela cor mágica que só o BTS conseguia dar, e nem tinha começado a tocar.

Tirou o celular do bolso da jaqueta que usava e fechou o aplicativo de música, abrindo um com partituras e colocando-o no suporte. Respirou fundo, hesitante, mas alongou os dedos assim mesmo, enquanto olhava por cima do ombro uma última vez.

— Mal não vai fazer… — murmurou, esticando as mãos sobre as teclas. Tocou a primeira nota e…

— Eu não faria isso se fosse você.

A voz fez com que se assustasse de tal forma que a tampa do piano fechou em uma de suas mãos na tentativa de se levantar, machucando o dedinho e o anelar, fazendo-a ver estrelas.

— Puta que pariu! — xingou em russo, enfiando a mão na boca e se afastando do instrumento.

— Eu disse para não fazer. — Jin apareceu pela lateral do palco, saindo por detrás de uma cortina pesada, as mãos nos bolsos da calça social que usava. Claramente não estava ensaiando como ela havia imaginado. Ele se aproximou dela com calma e puxou a mão machucada. Aly ainda tentou puxar a mão, mas ele a segurou com firmeza, puxando-a para um ponto de luz para poder ver melhor. Esticou delicada e gentilmente os dedos vermelhos e lentamente fez um carinho neles, enquanto verificava se haviam quebrado.

— Está tudo bem… não quebrou. — murmurou, dando um sorriso de lado e soltando a mão dela.

— Não quer dizer que não estejam doendo! — reclamou ela, segurando a mão com a outra e avaliando por si mesma o estrago causado pela própria burrice.

— Considere um castigo por ter usado meu piano sem permissão. — falou.

— Você sente prazer em me irritar?

— Sinto prazer em te lembrar que fica pegando as coisas sem permissão. — falou indo até o piano e passando a mão delicadamente no tampo dele. — Meu piano, meu salgadinho… — continuou, passando um dedo pelas teclas e deixando o som preencher todo o auditório. — meus lábios…

Alyona arregalou os olhos. Ainda era sobre isso? Soltou um riso sarcástico, parada no mesmo lugar ainda segurando a mão no peito, com dor.

— Nunca pensei que meu beijo fosse impactar tanto alguém assim. Não vai deixar passar em branco, não é?

— Agora sim, vou sim. — respondeu ele, levantando os olhos para ela e tocando algumas notas no piano.

— O que…?

— Eu só precisava que admitisse que foi um beijo. — respondeu ele, baixando o olhar e tocando inconscientemente a introdução de Tonight. — Se me lembro bem, e eu tenho uma memória perfeita, você disse que não tinha sido um beijo. — levantou os olhos para ela.

Alyona sentiu que havia perdido ali, naquele olhar. Abraçou a mão com mais força para esconder que estava tremendo, de raiva e de alguma outra coisa que não sabia definir. Talvez soubesse, só não queria admitir. “Droga! Por que ele tem que ser assim?” – pensou, com raiva de si mesma. O silêncio se instalou entre eles, pesando naquela distância como se o mundo tivesse parado. E então Jin sorriu abertamente para Alyona, batendo a mão de leve na banqueta onde ele estava sentado, num convite silencioso para que ela o acompanhasse. Só então ela percebeu que estava segurando a respiração.

— Eu quero ver o que sabe tocar. — falou gentil.

“Eu vou virar as costas e ir embora. Simples assim. É só se virar e sair do auditório, Aly.” – pensou, mas seus pés a traíram e ela se viu indo devagar e obedientemente até o piano, sentando-se ao lado do rapaz.

— O que ia tocar? — ele perguntou. A garganta de Alyona ficava cada vez mais seca ao perceber como ele olhava fundo dentro de seus olhos. “Por que ele tem que ser assim?” – pensou de novo, sem dizer nada. Apontou para o celular, ainda posicionado no suporte para partitura.

Jin desviou o olhar do dela e de novo ela sentiu que estava se libertando de alguma espécie de transe. Aproveitou aquele intervalo entre o olhar dele e sua mente delirante para se ajeitar na banqueta e ficar de frente para as teclas do piano. Olhou novamente para o símbolo do BTS gravado no piano, como que buscando coragem. Ia tocar piano com um dos meninos! Isso por si só já era motivo para ficar ansiosa, mas o fato de ser alguém que a desestruturava daquele jeito fez com que as mãos dela suassem.

Voltou ao transe ao ouvir a risada rasgada de Jin ao perceber que ela tinha escolhido uma de suas músicas. Não conseguia olhar para nada além do perfil dele olhando para seu celular. Quando ele a encarou ela engoliu seco.

— Era isso que ia tocar?

— Era. — conseguiu murmurar.

— É difícil essa… Demorei muito tempo para conseguir no violão, imagine no piano. — falou com sinceridade, voltando a encarar a partitura na tela do celular.

— Eu já a toquei uma vez… — ouviu a si mesma dizer.

— É mesmo? Desde quando toca piano? — a pergunta ajudou a moça a sair do torpor que ele lhe provocava mesmo que a contragosto. Lembrou-se de como havia conhecido Anja e Alex na escola comunitária do bairro. De como havia sido forçada a tocar o piano para os alunos do balé porque era a única aluna de piano e da amizade que criara com os dois dali em diante. Isso fez com que sorrisse e finalmente conseguisse colocar os dedos sobre as teclas do piano, tocando uma ou duas notas para acalmar o próprio coração.

— Desde quando Anja aprendeu a dançar.

Sem dizer mais nada, ela começou a tocar a música de Jin. De fato, já havia tentado aquela partitura antes, por isso havia encontrado ela tão fácil no aplicativo. Poderia ter tentado qualquer uma das músicas do álbum de Namjoon, tinha tentado todas, mas se sentia segura com Tonight, só não sabia bem o porquê. Quando chegou ao refrão, percebeu que Jin cantava baixinho ao seu lado.

Olhou para ele entre surpresa e o chocada. A voz dele fazia com que a pele dela se arrepiasse toda. Jin percebeu, mas continuou cantando, assim como ela continuou tocando. Ele fechou os olhos, entregue à música e fazendo-a desviar o olhar de volta para as teclas do piano e a partitura. Quando a música chegou na parte em que ele apenas a sussurrava, Alyona sentiu o ar quente no pescoço e quando ela olhou naquela direção, sentiu os lábios dele no vão entre o ombro e o maxilar. Parou de tocar, fechando os olhos e inclinando, sem perceber, a cabeça, abrindo caminho para que Jin a beijasse ali.

 

14 – Epiphany

[Aviso: É HOT. NÃO LEIA SE FOR SENSÍVEL.]
O fone de ouvido estava atrapalhando. Embora ela tivesse o pescoço longo o suficiente para poder ser beijada mesmo com ele ali, ela se sentiu incomodada. Puxou o aparelho com força e jogou por cima do piano. Jin sorriu vencedor.
— A princesa quer mais espaço…? — sussurrou contra a pele do pescoço dela. Percebeu o arrepio involuntário que provocou em Alyona e sorriu.
A empresária respirava com certa dificuldade, apenas com as sensações provocadas pelo ar quente que saía da boca dele contra sua pele. Fechou os olhos, sofrendo com a expectativa dele finalmente continuar beijando um de seus pontos mais fracos. Mas Jin ficou ali, encarando-a, observando toda e qualquer reação.
Ela reabriu os olhos, finalmente caindo em si. Estava dentro da Big Hit, cedendo a um impulso porque não conseguia resistir à voz de Seokjin. De repente voltou a sentir a dor nos dedos, como se o transe que ele lhe provocava tivesse finalmente acabado junto com aquela risada baixa. Levantou-se tão rápido que surpreendeu o rapaz ao empurrar a banqueta onde estavam sentados para trás. Passou a fingir que nada tinha acontecido – de novo – enquanto se esticava por sobre o piano para alcançar seus fones de ouvido.
Quando se virou para sair, no entanto, ali estava Seokjin, a encarando daquele jeito profundo de novo, sério.
— Vai fugir do óbvio?
— Que óbvio?
— Que gostou… não só hoje, mas naquele dia também.
— Não sei do que está falando. — respondeu, desviando o olhar e pegando o celular de cima do suporte. Tentou desviar do coreano, mas ele fechou o caminho com um dos braços. Tentou o outro lado, mas ele repetiu o gesto, impedindo-a de sair. Estava presa entre ele e o piano. Soltou uma risada sarcástica, jogando o cabelo comprido para trás.

— Todos vocês aprendem isso na escola? Essa coisa do clichê? — perguntou lançando um olhar de desdém para o braço dele e fazendo menção de tirá-lo do caminho. Mas o braço nem se moveu com a tentativa dela, muito menos Jin se abalou com o sarcasmo forçado.
— Se sabe do clichê, sabe o que vem depois, não sabe?
Ele levantou a cabeça e a encarou, aproximando o rosto do dela perigosamente, enquanto ela tentava se afastar o máximo que podia dentro daquele espaço minúsculo. Sentiu as costas batendo no piano. Apoiou uma das mãos nas teclas e a outra no tampo do instrumento. Se precisasse subir nele para fugir com dignidade, o faria sem hesitar. Mas não conseguia mais desviar os olhos da boca de Jin. Ele sorriu triunfante, lendo corretamente suas reações.
— Sabe, não sabe?
— Não delira, gar… — mas ficou muda antes de continuar. Não conseguia manter o ar de desdém daquela distância. Ele continuou se aproximando e ela se afastando. As mãos dele finalmente se afastaram do piano e seguraram Alyona pela cintura.
Quando ela se deu conta disso, já era tarde demais, estava sentada no tampo do instrumento, como se ele tivesse lido seu pensamento. Jin diminuiu a distância entre eles e puxou as pernas dela em sua direção, prendendo-as sob os braços e encaixando o próprio rosto entre os seios dela. Alyona era o tipo de mulher bem decidida que quase nunca usava sutiã, ele tinha reparado isso no dia em que se conheceram no fliperama e agora podia constatar isso pelo toque deles em seu rosto, mesmo sob a roupa dela.
Os dois fecharam os olhos ao mesmo tempo, cada um perdido nos próprios pensamentos. Alyona tentava manter a cabeça no lugar, com medo das consequências de ceder à própria vontade, Jin tentando não se perder completamente naquele sentimento que só crescia a cada encontro casual que tinha com aquela mulher pela empresa. Beijou um dos seios dela por cima da blusa mesmo,sem poder se conter. De onde estava, conseguia ouvir o coração dela batendo acelerado contra seu rosto, respondendo com o corpo o que a boca não podia dizer. Afastou-se alguns centímetros, levantando o rosto para encarar a moça.
Ela estava de olhos fechados, mordendo os lábios, perdida em algum pensamento malicioso. Percebeu que ele havia parado pouco depois, abaixando a cabeça e encontrando o olhar dele no seu. Jin sorriu, vencedor. Em resposta, ela viu as próprias mãos indo até o cabelo dele, afundando os dedos ali num carinho sincero. Suspirou.
— Vou ficar louca. — murmurou para si mesma, puxando o rosto dele para si, enquanto abaixava até finalmente beijá-lo conscientemente. O cabelo comprido dela caiu em cascata ao redor dos dois, mas Jin não se afastou, deixou-se ser beijado, sentindo a timidez dos lábios dela se abrindo para uma necessidade crua que ele correspondeu na mesma medida.
Sentiu os braços dela se afastando pouco antes dela afastar a boca da dele, o rosto vermelho pela excitação e pelo calor que começava a sentir. A jaqueta que ela usava foi jogada longe e ele pode ver com clareza os braços sob a blusa de seda que ela usava por baixo. Os seios marcavam a blusa, provocando-o. Lendo as reações dele, Alyona tirou a blusa e sentiu o ar gelado tocando sua pele, provocando uma onda de arrepios completamente diferente das que sentiu assim que ele os beijou.
Voltou a pousar as mãos no cabelo macio dele, puxando-os de leve conforme ondas de prazer vinham da boca dele em seu seio até seu cérebro. Estava ficando louca e seu corpo respondia sozinho. Deixou-se levar, afastando aqueles breves segundos de sanidade para longe, passando a pensar somente com o corpo. O som das teclas do piano voltou a ocupar o auditório todo, conforme ela apoiava os pés neles. As mãos de Jin subiram lentamente pelas pernas dela, levantando a saia que usava e alcançando a calcinha dela. Com facilidade ele a puxou para si, jogando a peça por cima do piano junto com a blusa de seda e a jaqueta.
Instintivamente ela afastou as pernas e aproximou o quadril dele. Sem precisar de outro sinal, Jin afastou a boca de um dos seios de Alyona e fez o caminho todo em beijos até alcançar sua parte mais sensível. A moça deitou o corpo para trás, perdida na língua de Seokjin tocando-a daquele jeito. E ele chupou. Como se fosse uma fruta suculenta que ele quisesse há muito tempo e era rara e cara demais para conseguir de forma simples. Movia a língua com destreza, como se soubesse exatamente o que fazer para que aquela mulher nunca mais o esquecesse.
Em resposta, as mãos dela bagunçavam seu cabelo, externando junto com os gemidos, todo o prazer que estava sentindo. Não demorou muito para ela alcançar o orgasmo, chamando-o pelo nome. Vitorioso, ele se afastou e a encarou com um sorriso. Era tarde demais para voltar atrás, puxou-a para si de novo e fez com que ela descesse do piano, sentando-a no próprio colo enquanto ele se sentava na banqueta.
— Aposto que esse clichê você não previu.
— Fica quieto. — murmurou ela, beijando-o com força, se encaixando no colo dele e sentindo a ereção evidente que a calça que ele usava segurava. Começou a se movimentar assim mesmo, sem se importar com aquele obstáculo e provocando-o como ele jamais previra. Sentiu o gemido dele entre suas bocas e sorriu. — Vai tirar ou o que? — perguntou. Sem que ela precisasse sair de cima de suas pernas, ele abriu o zíper da calça e afastou a cueca, puxando-a de uma vez e a penetrando com força.
Alyona gemeu, sentindo todo o alcance dele dentro de si. Chegou a pensar na falta da camisinha, mas agora era tarde demais para voltar atrás. Moveu os quadris lentamente, consciente do poder que tinha sobre ele ali, naquela posição. Jin gemeu e tentou beijá-la, mas ela afastou a boca, aumentando o ritmo dos movimentos do quadril, fazendo com que ele perdesse o controle. Afundou os dedos nos ombros largos dele, usando-os como impulso para aumentar ainda mais o ritmo, começando ela mesma a se perder no prazer que ele lhe provocava.
Na impossibilidade de beijá-la, ele voltou a focar em um dos seios dela, sugando-o na mesma intensidade em que ela o cavalgava. Não demorou muito para que os dois gozassem juntos, ambos sem ar e sem nada na cabeça além de um ao outro. Não tinha mais volta, ele era dela.

15 – A supplementary story: you never walk alone
— Onde você estava? — perguntou Anja quando Alyona finalmente apareceu na recepção da empresa.

Estava esperando a empresária há pelo menos quinze minutos, andando de um lado ao outro, desesperada para ir embora logo. Ok, tinha dado por encerrado o dia mais cedo do que esperava, mas havia sido pega de surpresa por um sentimento que fingia não conhecer. Fora o fato de estar acostumada a ser esperada e não a esperar.

Alyona apareceu com o rosto corado, o cabelo preso — coisa rara — e vestindo a jaqueta, mas Anja mal reparou no rosto afobado da amiga, muito menos no sorriso que ela exibia vez ou outra quando passava pelas fotos dos meninos espalhadas pela Big Hit.

— O que houve? Quem morreu?! — perguntou parando finalmente em frente à bailarina e reparando que ela ainda estava usando as roupas de dança. — Aconteceu alguma coisa no ensaio? Saiu direto? — completou apontando para o corpo da amiga.

Foi só nesse momento que Anja se tocou de como devia parecer uma maluca, vestida daquele jeito longe da sala de dança. Lendo a reação — e o possível surto —, Alyona tirou a jaqueta de novo, exibindo os braços nus e uma blusa de seda totalmente amassada, mas entregando-a para a amiga. Anja ignorou a jaqueta e olhou por cima do ombro antes de puxar a amiga pelo braço para um canto mais afastado da recepção. Foram parar sob um mural em tamanho natural do BTS, Jimin e Jin lado a lado.

Alyona olhou para a foto e apertou os olhos.

— O Universo às vezes é muito sem graça. — murmurou para si mesma.

— Oi? Como assim?

— Nada, não é com você. O que houve?

— Amiga, posso te perguntar uma coisa sem ser julgada?

— Sempre pôde. Estou começando a ficar preocupada, Anja. Aconteceu alguma coisa no ensaio?

Em resposta a bailarina ficou vermelha e desviou o olhar, dando de ombros. Não queria contar do beijo, não para a única pessoa que ainda a lembrava do primeiro que havia acontecido. Como Anja não dizia nada, Alyona cruzou os braços e a encarou, entrando no campo de visão dela sempre que tentava desviar o olhar.

— Aconteceu alguma coisa! — não era mais uma pergunta.

— Não! Quer dizer… — soltou um suspiro. — Ah, Aly, não sei!

— O que quer perguntar?

— Você acha que sou uma pessoa ruim? Tipo o Andrey? — perguntou insegura. Não queria, mas estava se comparando a ele por achar até poucas horas atrás que Jimin fosse gay só por ser a pessoa mais gentil e delicada que ela já conheceu na vida.

— Jamais!! O Andrey é a pior espécie de homem que existe. Graças a Deus você caiu na real a tempo, amiga! Nunca será igual a ele, mesmo que tente. — respondeu. Colocou as mãos nos ombros da bailarina e se abaixou um pouco para que ficassem na mesma altura e se olhassem nos olhos. — O que aconteceu, anjinho? — perguntou gentilmente.

Os olhos de Anja se encheram de lágrimas, aliviada por pelo menos uma pessoa não achar que ela fosse como o cretino do ex-noivo.

— Eu sou péssima, Aly! — exclamou, respirando fundo algumas vezes para segurar o choro. — O Jimi, ele…. ele é tão lindo, tão gentil!! — falou, desviando o olhar da amiga para a foto do garoto bem ao lado delas.

— Eu sei, amiga, eu sei… — Aly segurou a vontade de abraçar Anja ali, em meio a todo mundo, mas não o fez. Sabia que assim que demonstrasse o carinho que tinham um pela outra, a bailarina desabaria em lágrimas.

— A gente estava ensaiando e… eu só pedi para ele me ensinar aquele salto que ele dá em algumas coreografias, sabe?

— Sei.

— Daí eu caí e… — respirou fundo de novo, voltando a encarar os olhos escuros de Alyona.

— E…?

— E ele… a gente… — olhou a volta, percebendo finalmente onde estavam. — E a gente se beijou… — sussurrou para Alyona, esquecendo que ninguém ali além das duas falava russo. Aquilo tirou um sorriso sincero da empresária, feliz por finalmente ver a amiga admitindo que gostava de Jimin. Ela havia percebido isso no dia da festa de despedida, mas cada um tinha seu tempo e sabia como Anja conseguia ser lenta nesse tipo de assunto.

— E por que isso te fez achar que era uma pessoa como o Andrey?

— PORQUE… — gritou exasperada, soltando todo o ar dos pulmões e chamando a atenção das pessoas que entravam e saiam da empresa naquele horário.

— Shiu!! Mais baixo!

— Desculpa. — soltou um suspiro alto. — Porque eu achei que o Jimi fosse… você sabe…. — falou desviando o olhar, envergonhada de dizer aquilo em voz alta, tão ridículo que soava.

— Gay? — completou Alyona.

— Bem… é!

— Mas ele já tinha te beijado antes.

— Sim, mas aquele dia foi para deixar o Andrey irritado, dessa vez a gente… ai, Aly, me sinto péssima por achar isso só por causa do jeito gentil dele! — exasperou-se.

Alyona sorriu e estalou a língua algumas vezes, passando as mãos nos ombros da amiga num carinho sincero, como que querendo aquecê-la.

— Não precisa se comparar ao Andrey só por ter pensado isso, anjinho. Te garanto que você não foi a primeira e nem vai ser a última pessoa a achar isso dele… tem muita gente, incluindo fãs que o acompanham desde o começo da carreira, que acham isso. Não dá para saber nada só com o material que eles divulgam, muito menos com a gentileza de alguém. — ponderou ela. — Você é um exemplo perfeito disso. Quem nunca te viu acha que você é chinesa por causa do seu nome, e quem te viu não acha que é bailarina por causa desse padrão estúpido criado pela indústria. Eu também sou, quem nunca falou comigo acha que sou chinesa também. As pessoas criam estereótipos sobre os outros apenas com a informação que tem, mas nem sempre é verdade.

Pensou em si mesma e nos julgamentos que havia feito sobre Jin. Antes de conhecê-lo pessoalmente, achava que ele era o que tinha menor probabilidade de se envolver com alguém. Chegou a acreditar que ele até namorasse secretamente e que as piadas de tio fossem uma máscara para esconder isso. Mas ali estava ela, surpreendida pela solteirice e charme dele, completamente envolvida. Sorriu ao ver o biquinho que Anja fez enquanto segurava para não chorar. Era exatamente a mesma menina insegura de quando se conheceram, se apoiando na amiga e o irmão para conseguir seguir em frente sem perder a sanidade com seus medos.

— Você nunca… NUNCA! Vai ser como o Andrey, Anja. Entendeu?

A bailarina apenas balançou a cabeça, em silêncio, começando finalmente a se acalmar.

— Mas e ai…?

— O que?

— O beijo! — Anja ficou mais vermelha que o próprio cabelo. — Foi bom?

Ela apenas concordou com a cabeça, escondendo o rosto com as mãos, finalmente admitindo para si mesma que tinha gostado do beijo tanto quanto tinha gostado do ensaio de dança. Alyona sorriu vitoriosa, colocando a própria jaqueta sobre os ombros da amiga e a abraçando.

— Vamos, acho que precisamos de uma bebida. Também tenho uma coisa para te contar.

***

A dose de soju que Anja tomava voou longe quando ela ouviu o que Alyona tinha para contar.

— VOCÊ O QUE?

— Shiu, fale baixo! — pediu Alyona servindo o copinho da amiga de outra dose da bebida de arroz que os coreanos bebiam como se fosse água.

Era a primeira vez dela e de Anja tomando aquela bebida e o faziam num restaurante tradicional do outro lado da rua do apartamento que alugaram para morar durante seu trabalho em Seul. Ainda estavam muito próximas da Big Hit, poderiam muito bem ser vistas e reconhecidas caso algum outro funcionário da empresa resolvesse ter um jantar ali. Então conversavam em código, usando nomes de ex-namorados para falarem sobre os meninos. Anja cobriu a boca por alguns segundos, limpando o resíduo do soju e arregalando os olhos para a amiga.

— Você e ele… — arregalou os olhos para não ter que repetir o que havia acontecido — No piano?! — perguntou em choque.

Alyona apenas balançou a cabeça, concordando, e virou o copinho num único gole, se servindo de outro e repetindo o gesto em seguida. Quando levantou os olhos para Anja, sorriu surpresa ao ver um pouco de admiração ao invés da censura.

— O que? Não vai me passar sermão? — perguntou sorrindo.

— De jeito nenhum! Pelo contrário, vou pagar mais uma bebida. Você é minha nova heroína. O cara é simplesmente lindo, talentoso e você… Eu esperaria algo assim do Alex, de mim mesma, mas nunca da centrada e super-inteligente Alyona Volkov!

— Ridícula. — protestou ela, rindo abertamente.

— Não! Estou falando sério, Aly! Você é sempre tão focada no seu trabalho, na sua carreira e nas conquistas que procura, achei que não tivesse interesse em um relacionamento.

— E não tenho! — respondeu. — Não tinha, acho… ah não sei, Anjinho. Não sei o que sentir. Meu coração dispara só de lembrar do piano! Ao mesmo tempo que ele me irrita demais!

— Irrita por quê? Porque faz você perder o controle? — perguntou. — Você parece apaixonada.

— Apaixonada nada, não delira. — respondeu com uma careta. Mas não podia negar, seu coração estava disparado desde que saíra do auditório e não importava o que fizesse, só conseguia pensar em Jin desde então.

— Mas e você?

— O que? — perguntou Anja balançando a garrafinha verde vazia para a dona do restaurante. Tinha visto isso na televisão, geralmente eles traziam outra garrafa e ela não precisava fingir que já tinha conseguido aprender coreano naquelas poucas semanas na Coreia. Alyona esperou a senhora trazer a garrafa de soju fechada antes de continuar.

— O beijo. O que vai fazer?

— Não sei… deixei o menino lá plantado, sem nenhuma explicação. Com que cara eu olho para ele amanhã? — a pergunta era retórica, ela teria que usar cara de pau. — E para ajudar amanhã é aquele show que eles nos convidaram. Tenho medo de estragar se encontrá-lo antes do show começar.

— Eu tenho certeza que ele vai continuar sendo o mesmo de sempre com você. — respondeu Alyona. Estava virando as fatias de carne que grelhavam na churrasqueira entre elas. — É só você não bancar a esquisita. Ou você quer que ele seja diferente?

— Como assim?

— Ah sei lá, você gosta dele?

Anja ficou sem saber responder. Gostava da amizade de Jimin, gostava da companhia dele, de como ela se sentia bem sendo quem era quando estava com ele. Gostava de como ele dançava e a admirava dançando. De como ele a respeitava. De como era gentil com todo mundo, independente do cargo que possuía na empresa. Mas não sabia definir se isso era o tipo de gostar que Alyona queria dizer.

— Não sei…

— Mas você gostou do beijo…

— Gostei… mas… sei lá, Aly. Ele é mais novo que o Alex!

— E daí?

— Como “e daí”? Tem uns oito anos de diferença entre nós! Fora que ele é ele e eu… — apontou para si mesma, para seu corpo e deixou implícito todos os seus medos.

— Você é uma mulher linda, Anja. Quando vai perceber isso?

— Posso até ser, mas ele é ele… Um dos caras mais desejados do mundo! Ouvi a notícia outro dia. Ele, o Taehyung, Jungkook e o Jin estão entre os caras mais bonitos do mundo. Você e o Senhor Piano formam um casal lindo. E eu?

— Você é uma das maiores bailarinas de 2019!

— E gorda.

— Não quer dizer que seja feia!

Anja ficou quieta. Bebeu mais um pouco, pensando. Era verdade que se sentia a mulher mais linda do mundo quando estava com Jimin. Ele a fazia se sentir poderosa, capaz de qualquer coisa. Gostava de si mesma quando estava com ele, porque era uma versão com menos preocupações e medos. Mas seria isso suficiente? E tinha mesmo o problema da idade. Era muito mais velha do que ele, será que seria capaz de tentar outra coisa além daquele beijo?

— Eu acho que meus relacionamentos anteriores acabaram com a minha capacidade de julgar se posso ou não posso me interessar por um homem. — falou depois de algum tempo. Estava começando a se sentir levemente embriagada.

— No singular, amiga. Quem estragou tudo foi aquele cretino do Andrey. Se não fosse por ele, você seria ainda mais famosa do que é. E veria a fila de homens que te admiram de longe porque você não deixa ninguém se aproximar. Jimin é só o primeiro da fila, você que não vê. — respondeu Alyona, fechando os olhos por alguns segundos, bem mais bêbada que a amiga. — Cadê meu celular?

Ouviram o aparelho vibrando em algum ponto dentro da jaqueta da empresária, jogada numa cadeira entre as duas. Anja foi mais rápida e pegou o aparelho e viu o identificador.

— Quem é Príncipe Cretino? — perguntou. Alyona tentou pegar o telefone da mão dela, mas não foi rápida o suficiente.

— Me dá!

— Alô?

— Noona? — ouviu a voz de Jin do outro lado. Deu risada. Amava como os coreanos chamavam qualquer mulher um pouco mais velha de “noona”, era fofo.

— Oi, lindo! Ouvi dizer que gosta de tocar pi… — estava falando em russo, mesmo assim não conseguiu terminar o que ia dizer. Alyona arrancou o aparelho de sua mão e desligou o telefone na cara do rapaz.

— Não era para atender! Vamos embora, já bebemos demais.

16. Fake Love (Japanese version)

Era a primeira vez de Anja num show de k-pop. Para Alyona já era a terceira vez num show desse tipo e a terceira sendo do BTS. Tinha ido aos shows em Londres e Paris, mas ver o show ali, na terra natal deles tinha um sabor diferente. Jimin tinha conseguido ótimos ingressos para as duas, de modo que ficaram logo na frente do palco, com uma visão privilegiada, pois não precisaram ficar em nenhuma fila e mesmo assim conseguiram um lugar excelente.

Mas nada se comparava ao lugar que Alex tinha conseguido. Ele mexia nos dedos nervosamente, tentando lembrar-se de todas as coreografias que havia aprendido. Era um dos poucos dançarinos não-coreanos ali e, por ter sido convidado pessoalmente por Jimin, tinha enfrentado certa resistência por parte dos outros. Mesmo assim estava ali, sentindo aquele frio na barriga que sempre sentiu antes de entrar no palco. Não era um bailarino do hip hop, era um bailarino clássico, tinha tido dificuldades com alguns dos passos de Idol, mas achava que era capaz.

Podia ouvir claramente o público crescente do lado de fora e desejou de todo coração conseguir ver Anja assim que aparecesse no palco, assim esqueceria do resto e faria daquela, mais uma apresentação de balé.

Hyung! – acordou do transe ao sentir as mãos de Jimin em seus ombros. Não tinha percebido que o coreano estava a sua frente há pelo menos cinco minutos. Sorriu. – Você está bem?

Jimin falava devagar e pronunciando corretamente todas as sílabas, sabia que Alex tinha aprendido bastante coisa do coreano, mas ainda tinha um pouco de dificuldade, principalmente quando ficava nervoso – e ele estava visivelmente nervoso. Alex concordou com a cabeça, sem conseguir dizer nada, porque achava que se tentasse vomitaria ali mesmo, estragando o belo figurino de Jimin.

– Vai dar tudo certo. É só fazer o que ensaiamos. Na pior das hipóteses, improvise. Ninguém vai reparar. – sorriu e deu um tapinha no ombro do russo antes de sair para fazer o próprio aquecimento. O coração de Alex falhou uma batida ao ver o sorriso de Jimin, mas controlou os próprios sentimentos. Desde o beijo na despedida de Anja que ele sabia que havia perdido aquele crush e a irmã merecia ser feliz.

Voltou a perder o olhar em qualquer coisa, ansioso, até que seus olhos encontraram os do segurança pessoal de Jimin. O mesmo que havia viajado com eles durante as férias. O moço sorriu sem jeito e fez uma mesura na direção de Alex. O bailarino, sem saber se era mesmo para ele ou não, olhou algumas vezes para trás, provocando o riso do rapaz que tomou coragem de se aproximar.

– Espero que tenha uma ótima estreia, Alex. – falou num russo perfeito, surpreendendo o bailarino.

– Você fala russo? Desde quando?

– Desde antes de nos conhecermos. – respondeu com um sorriso modesto, assumindo alguns tons de rosado, por timidez. – Fui naquela viagem como intérprete e não como segurança. – completou a guisa de explicação.

O queixo de Alex caiu um pouco, surpreso. Se soubesse disso antes tinha sofrido bem menos durante aquela viagem, com certeza. Abriu a boca para dizer isso, mas o sinal de que entrariam no palco em dois minutos o fez ficar nervoso de novo. O rapaz fez menção de que ia sair, mas Alex o segurou pela camisa.

– Como se chama?

– Min Ho. – respondeu com seu melhor sorriso antes de sair e deixar Alex ainda mais estupefato.

Do outro lado do palco, Anja e Alyona se arrumavam em seus lugares para poderem finalmente assistir aquele show.

– Onde foi que arranjou esse monte de coisa? – Anja perguntou ao reparar que Alyona usava uma camiseta do grupo, segurava um light-stick e um colar escrito BTS, totalmente inserida no universo ARMY, enquanto ela usava calças jeans e uma camiseta simples.

– Tá na chuva, tem que se molhar. Toma, comprei para você. – respondeu com um sorriso radiante, entregando uma army bomb para a bailarina e ligando o aparelho para mostrar como funcionava.

As duas não tiveram muito tempo depois disso, logo as luzes se apagaram e a introdução de Dionysus começou a tocar dando início ao show. Para Anja foi como começar a viver um sonho que não esperava, mas que gostava muito. Sorriu ao ver Alex entre os dançarinos e agitou sua army bomb recém-adquirida para ele, sem ter certeza se tinha sido vista ou não.

Seu coração perdeu um compasso quando os meninos vieram para perto de onde ela e a amiga estavam ganhando um sorriso grande de Jimin quando ele se aproximou. Ficou um pouco em transe, sem saber o que pensar daquela versão do rapaz, todo sensual, confiante e cheio de atitude.

Sentiu as pernas levemente mais fracas quando ele performou Baepsae e mais leve quando ele surgiu dentro de um globo transparente, como um bibelô angelical.

– Não dá para negar, ele é um excelente bailarino. – seu sangue gelou instantaneamente ao ouvir aquela voz.

Arregalou os olhos para Jimin, que ainda dançava e cantava no palco e se viu obrigada a desviar o olhar dele para descobrir que seu sonho tinha acabado de virar um pesadelo.

– Oi, anjinho.

O mundo, tão colorido e cheio de som, ficou escuro e silencioso ao reconhecer Andrey ali, parado ao lado dela. Exibia um sorriso triunfante de quem tinha conseguido o efeito exato que queria, o choque dela.

– Achou que ia se livrar tão fácil de mim?

Ao invés de responder, Anja acertou um tapa no rosto dele, para ver se era real mesmo ou se era uma alucinação. Sentiu o toque suave daquela pele em sua mão e depois viu as marcas de seus dedos ficando vermelhas no rosto branco. Mas Andrey não pareceu se importar, apenas passou a mão de leve onde havia apanhado e sorriu.

– Que bela recepção. Mal vejo a hora de ver o resto quando souber das novidades.

– O que está fazendo aqui, Andrey?

No palco, Jimin percebeu quando os olhos da bailarina desviaram dele. Tentou se concentrar na música, mas cada vez que olhava na direção em que sabia que ela estava, perdia o cabelo vermelho de vista. Deu um jeito de a coreografia o direcionar para mais perto daquele lado do palco e o que viu o fez perder levemente o equilíbrio. Tentou sorrir, mas tudo o que conseguiu foi uma careta que ele esperava que mais ninguém percebesse, voltando a se concentrar em Serendipity na base do profissionalismo.

Anja gargalhava diante de um Andrey sorridente. O diretor viu Jimin olhando para eles do palco e sorriu mais abertamente ainda, fazendo um carinho no cabelo da bailarina, apenas por fazer.

De onde estava, o coreano não podia imaginar a briga que estava acontecendo naquele grupo.

– TIRE A MÃO DE MIM! – Anja gritou, parando de rir imediatamente.

– Anja, calma. – Alyona tentou puxar a amiga para si, mas a bailarina evitou o toque dela com um gesto bruto do braço.

– CALMA NADA! Você sabia disso, Aly?

– Tanto quanto você.

– Eu explico… – começou Andrey com um sorriso malicioso. – Mas não agora. No momento quero terminar de assistir o show, sim?

Anja bufou frustrada e largou ele e Alyona ali, saindo do show antes mesmo dele acabar.

Estava furiosa, consigo mesma, com Andrey, com a vida. Não podia abrir nenhuma brecha e a vida vinha logo lhe trazendo problemas que achava ter resolvido para sempre. Como foi que Andrey a encontrou em Seul, no meio de 45 mil pessoas? Passou pelo mural dos meninos, todos sorrindo e vestidos como príncipes e sentiu-se mais chateada ainda.

“Por você eu sorriria mesmo quando estivesse triste
 

Por você eu não demonstraria dor mesmo que estivesse machucado”
Cada vez que os olhos de Anja batiam em alguma foto de Jimin pelo caminho até a saída, ela sentia uma pontada de dor. Lembrou-se de toda a jornada que teve com Andrey desde bem novinha.

Tinha conseguido muitos trabalhos como bailarina, mas sempre no fundo dos grupos, quase escondida. Uma vez até interpretou uma pedra, porque ninguém mais podia – ou aceitava – usar uma roupa que os deixassem redondos. Mas ela já era redonda – e divertida, levava tudo na brincadeira – podia muito bem interpretar uma pedra. Mesmo que fosse para ficar parada o espetáculo inteiro, apenas para ter o nome lá.

E então a companhia de dança onde Andrey era diretor abriu uma vaga para o papel de Pássaro de Fogo no espetáculo de mesmo nome. Não havia nenhuma restrição a quem poderia ou não se candidatar e, incentivada por Alyona, Anja participou da audição. Era a última a se apresentar para o famoso diretor e sua equipe, então teve que assistir todos os outros bailarinos – incluindo seu irmão – se apresentando.

“Queria que todas minhas fraquezas pudessem ser escondidas
Eu plantei uma flor que não pode florescer em um sonho que não pode se tornar real”
Quando entrou no palco, se viu como o Pássaro de Fogo das lendas, porque conseguir aquele papel significava nunca mais ter que ser a pedra, as flores, as empregadas ou qualquer outro papel coadjuvante que aparecia apenas por dois minutos do espetáculo todo.

– Próxima. – a memória lhe trouxe a voz rouca de Andrey do passado. Ela mal pisara no palco e ela já estava chamado a próxima. Sentiu o sangue ferver e os olhos arderem de vontade de chorar, mesmo assim ficou no palco. A equipe dele começou a juntar as coisas e a se levantar para sair, então ela ligou seu radinho de pilha e começou a dançar. Dançaria mesmo que fosse apenas para si mesma. Tinha passado semanas ensaiando aquele ato, dançaria para as paredes se fosse preciso. Mas Andrey ficou. E depois a procurou. E lhe deu o papel. E a convidou para sair.

“Te amo tanto te amo tanto

Que construo uma mentira bonita para você

O amor é tão louco, o amor é tão louco

Que tento me apagar e me tornar seu boneco”
– Quando começa a divulgação do espetáculo? – perguntou semanas depois, sonolenta, sentindo ainda as ondas de prazer que ele havia lhe proporcionado. Andrey apertou sua bunda com força.

– Você é a coisa mais preciosa que entrou na minha vida, sabia? – respondeu, puxando-a para si e a enchendo de beijos. Anja riu. Nunca havia se sentido tão feliz assim antes.

“Estou tão cansado desse
 

Amor falso, amor falso, amor falso”
– Você lembra que eu existo? – ouviu a voz de Alyona, também vinda do passado.

– Claro que lembro, não seja ridícula.

– Por que está me evitando? Esqueceu que sou sua empresária?

– Mas agora já tenho uma companhia, Aly. Não precisa mais se preocupar comigo. Andrey cuida de mim.

– Posso ir aí te ver?

– Hoje não vai dar, vamos para uma sessão de fotos no teatro. Finalmente vamos começar a divulgação!

Mas a sessão se restringiu ao cenário. Toda a propaganda planejada usava o cenário como imagem. Contrataram um artista para fazer uma escultura do pássaro de fogo como um pássaro mesmo. Não havia figurino, nem maquiagem, muito menos luzes para uma modelo viva.

– Não vou fotografar? – perguntou vendo o fotógrafo guardando tudo.

– Você é quem, querida?

– Vou fazer o Pássaro de Fogo!

Passou pelo portão de acesso à área que o ingresso dela e de Alyona levava. Podia ouvir a risada escandalosa do fotógrafo ainda ali, anos depois. Se fechasse os olhos, era capaz de conseguir ver o rosto e a expressão de deboche no rosto dele. E o mesmo olhar e sorriso no rosto de Andrey, que entrou logo em seguida ao breve diálogo deles.

Lembrou-se da renovação do contrato firmando aquele espetáculo na companhia por mais um ano. Dessa vez a arte da divulgação usava apenas o nome dela. Podia se ver questionando.

– Você é a GRANDE Anja Wang! Não é incrível que as pessoas venham só pelo seu nome?

– Mas…

– Confie em mim, anjinho. Vai ser o suficiente. Não queremos que eles façam como nossa equipe, que quase te perdeu porque não esperava uma bailarina como você. – completou beijando- lhe o rosto e dando um beliscão em uma das dobrinhas que tinha nas costas.

“Você diz que eu não sou aquele
 

Que você conhecia tão bem
 

Como assim, não? Estou cego
 

Amor? O que diabos é o amor? (É tudo amor falso)”
Esticou o braço fazendo sinal para um táxi em frente ao estádio. O lado de fora estava vazio, mas ela ainda conseguia ouvir as vozes dos meninos cantando lá dentro junto com todo seu army. Sentiu uma onda de tristeza encher-lhe o peito, mas segurou a vontade de chorar. As memórias continuavam vindo, mesmo que sem permissão. Murmurou o próprio endereço para o motorista do taxi e apoiou a cabeça no vidro do carro.

– COMO ASSIM É A MINA QUE VAI DANÇAR EM PARIS? – entrou de surpresa no escritório de Andrey, de modo que ele se levantou num salto, arrumando a calça e a camisa. – O que estava fazendo?

– Tirando um cochilo. Me pegou no flagra. – respondeu ele colocando uma das mãos grandes que ela tanto amava em seu ombro e a virando em direção à porta. – Vamos conversar. Que tal um jantar?

Naquele dia ela não havia dado atenção ao fato de que ele vivia olhando para trás enquanto os dois saiam do escritório. Muito menos ao fato de que Nina saiu logo em seguida, mesmo que ela não a tivesse visto lá dentro quando entrou. Deixou-se levar por Andrey e seu plano para um novo espetáculo que nunca aconteceu. Lembrou-se das inúmeras ligações de Alyona que foram ignoradas nos primeiros anos. Sentiu as lágrimas se acumularem atrás das pálpebras fechadas, mas manteve os olhos fechados, para evitar que caíssem.

“Te amo tanto, te amo tanto
 

Que construo uma mentira bonita para você
 

Amor é tão louco, amor é tão louco
 

Que tento me apagar e me tornar seu boneco”
Sentiu um toque suave no braço e se forçou a abrir os olhos para ver um lenço de papel sendo colocado no seu campo de visão.

– Aqui, senhorita. Use isso. – falou o motorista do táxi. Só então percebeu que ainda não tinham saído do lugar.

– Obrigada. – murmurou baixinho, com medo de pronunciar errado a palavra e pegando o lenço.

O motorista só se deu por satisfeito depois que ela secou os cantos dos olhos e sorriu.

– Dia difícil? – perguntou. Mas ela ainda não entendia muita coisa em coreano então apenas concordou com a cabeça, torcendo para não ser uma pergunta que precisasse de uma resposta elaborada. O motorista concordou com a cabeça e finalmente começou a dirigir, deixando-a se perder nas memórias de novo.

– QUEM DEIXOU VOCÊ DANÇAR COM O CRETINO DO NICOLAI? – Andrey gritava e jogava as coisas por onde passava, alucinado de raiva. Era a primeira vez que Anja e Alyona assinavam um contrato desde que ela entrara para a companhia. Queria o papel oferecido a ela
como presente. Nicolai era diretor de uma companhia amiga que vivia fazendo parceria com o grupo deles, não viu problema. Mas aparentemente Andrey sim.

– Calma, amor. É uma apresentação única, não vai afetar a nossa.

– NÃO VAI…? VOCÊ TEM UM CONTRATO DE EXCLUSIVIDADE COMIGO, ANJA! – gritou.

– Mas Nicolai é nosso amigo, como eu poderia dizer não a ele?

– DIZENDO! ACHO BOM DAR UM JEITO NISSO, OU VOU TER QUE CANCELAR NOSSO ESPETÁCULO.

– Mas…

Antes que ela completasse, Andrey a alcançou com dois passos longos, segurando-a pelo braço e a apertando. Puxou-a para a sala de estar do apartamento, parando em frente à estante com os prêmios que ela já havia acumulado.

– Isso não foi conquistado sem esforço! Acha que Nicolai se importa com a sua carreira? Ele quer isso! Nunca que ele contrataria uma bailarina gorda sem motivo! – gritou, soltando o braço dela e se afastando. – DÊ UM JEITO NISSO!

“Queria que todas minhas fraquezas pudessem ser escondidas
 

Eu plantei uma flor que não pode florescer
 

Em um sonho que não pode se tornar real”
E agora ele estava ali de novo. Não sabia os motivos, na verdade não queria saber. Estava cansada de lutar. Nem nos momentos mais felizes ela tinha paz. O beijo do dia anterior parecia ter acontecido num sonho, assim como a primeira parte do show que ela acabara de abandonar. Pensar nele a deixou mais triste ainda. Havia acabado de perder a chance de dizer a Jimin que sentia muito por ter estragado o momento do beijo deles, de contar o quão apaixonada estava e como havia percebido isso enquanto ele cantava The Truth Untold com Jungkook, Taehyung e Jin. Não ia poder fazer isso enquanto não conseguisse encerrar de vez toda e qualquer ligação que tivesse com Andrey.

17. Go Go (Japanese version)

Alyona decidiu que era melhor não ir atrás de Anja quando ela foi embora. Assistiu a amiga se distanciando entre as pessoas até perdê-la de vista, só então se virou para Andrey. Ele exibia um sorriso irônico, atento aos meninos dançando e cantando Fake Love no palco.

– O que diabos está fazendo aqui, Andrey?

– Depois do show te conto. – foi a resposta dele. Em momento nenhum dirigiu o olhar para a empresária, estava realmente interessado no grupo como um todo. Desde a partida de Anja ele tinha dedicado seu tempo a descobrir mais sobre eles e, assim como ela era sua galinha dos ovos de ouro, o BTS era a galinha da Big Hit. Podia ser um cretino, mas reconhecia o talento de longe e podia farejar a oportunidade de ganhar mais dinheiro a quilômetros de distância.

Passou as semanas pesquisando e planejando um jeito de se enfiar nesse contrato arranjado por Alyona e então a oportunidade caiu em seu colo como que por mágica na forma de um convite para dirigir Anja. Como o contrato da bailarina dava exclusividade à empresa coreana e ela nunca havia se apresentado em solo asiático antes, a empresa uniu o útil ao agradável, convidando Andrey para dirigir um espetáculo da bailarina no país.

Alyona não foi a única a imaginar a amiga dançando as músicas dos meninos e foi assim que eles decidiram entrar em contato com Andrey. Ele sorria, cinicamente, ciente de que aquilo ia desestabilizar Anja e Alyona num único golpe, de modo que agora bastava administrar o plano para fazer com que a bailarina voltasse para sua companhia de dança.

O show perdeu um pouco seu brilho dali em diante e quando acabou, Alyona esperou o público começar a sair para poder se dirigir aos bastidores. Tinha trazido um presente para Alex e precisava explicar para Jimin porque Anja não estava com ela.
Posicionou seu crachá sobre a camiseta do grupo e estava prestes a passar quando um segurança a impediu.

– Somente pessoas autorizadas. – falou sem olhar diretamente para ela.

– Mas eu sou autorizada! – mostrou o crachá.

– Esse crachá não serve de nada, moça.

– Ela está comigo. – Andrey parou ao lado dela, exibindo um crachá parecido, mas obviamente com mais benefícios que o dela. – Por favor, traduza, Aly.

– Para você é senhorita Volkov, cretino. – rosnou.

– Ela está comigo. – repetiu Andrey, ignorando a empresária e esperando que ela traduzisse. À contragosto ela o fez e os dois passaram para a área restrita do show. – Aparentemente vai ter que ser legal comigo, Aly. – disse o diretor com um sorriso malicioso no rosto. Andava como se fosse dono do local e de fato, assim que as pessoas viam seu crachá, paravam e faziam uma reverência até que ele passasse.

Jimin foi o primeiro a ver Alyona se aproximando. Abriu seu melhor sorriso, procurando Anja atrás dela, mas deu de cara com Andrey segurando um buquê de rosas amarelas. Irônico, se não fosse trágico. O diretor entregou as flores justamente para Jimin e exibiu seu sorriso mais brilhante.

– Parabéns pelo show, vocês foram incríveis! – ele disse. Alyona traduziu sem muito entusiasmo, procurando Alex com os olhos.

– Noona, quem é esse? – perguntou Taehyung parando ao lado de Jimin e analisando Andrey da cabeça aos pés sem nenhum constrangimento. Alyona amou o menino mais ainda por isso e exibiu um sorriso sarcástico.

– Esse é o lixo humano Andrey Orlov, diretor da companhia de dança que Anja fazia parte.

Andrey entendeu apenas o próprio nome e interpretou aquilo como a apresentação de Alyona dele para com os rapazes. Esticou a mão para Taehyung, mas ele apenas a encarou e saiu de perto dele, provocando um acesso de riso na empresária, que logo disfarçou com uma tosse forçada ao ver a expressão do diretor.

– Peça para todos se juntarem, sim? O que tenho a dizer é importante para o grupo todo. – falou sem olhar diretamente para a moça. Alyona chamou todos para perto. Jin lhe lançou um olhar preocupado, mas ela discretamente balançou a cabeça dando sinal de que estava tudo bem.

– Como devem saber, eu sou o diretor da companhia russa FireDream. Anja Wang é minha bailarina principal há alguns anos. – começou. Alyona traduziu corrigindo o verbo para o passado.

– Há alguns meses ela veio trabalhar com vocês para que planejassem juntos as coreografias das premiações e do próximo álbum, certo? – olhava para todos os meninos, sério, ciente de que aquela conversa determinaria o futuro dele com a Big Hit.

– A empresa de vocês teve a brilhante ideia, e quero reforçar que a acho fantástica, e mal vejo a hora de colocar em prática, de montar um espetáculo exclusivo onde Anja Wang dança algumas de suas músicas. E me convidou para montar e dirigir esse espetáculo com vocês.

Alyona traduziu aquilo e, assim como os meninos, olhou em choque para Andrey. O diretor sorriu satisfeito, era exatamente esse o efeito que queria. Uma pena que Anja não estava presente para receber aquela notícia também, estava ansioso para ver como ela reagiria quando soubesse que teriam que trabalhar juntos por conta daquele espetáculo.

– Espera, como assim? Ninguém me falou nada. Sou a empresária dela, deveria ser notificada, não?

– Olhe seu e-mail, querida. Aquele que você provavelmente mandou para a caixa de spam sem ler. Eu te escrevi tem umas duas semanas.

A contragosto a empresária pegou o celular e conferiu a caixa de spam. Havia três e-mails falando sobre aquilo. Sua ideia ao piano não tinha sido exclusividade sua.

– Acho que se distraiu demais vivendo seu sonho, não foi? – falou lançando um olhar para ela e depois para os meninos atrás dela. Jin não entendeu o que ele disse, mas sentiu uma vontade tremenda de se intrometer.

– Ok, ok, então vamos todos dançar balé esse ano! – falou passando pelos irmãos e Alyona e ficando a frente dela, protetoramente. – Por que bailarinas dançam nas pontas dos pés? – Olhou para todos os presentes e sorriu para Alyona, esperando que ela traduzisse a pergunta para o russo. – Porque assim não acordam o tio chato que dormiu no ponto. – caiu na risada logo em seguida. Alguns dos meninos riram discretamente, para que a situação não ficasse ainda mais esquisita do que já era. Sem dizer mais nada, Jin saiu da sala, seguido de perto por Jimin e Taehyung. Namjoon se aproximou de Andrey e apertou sua mão com mais força do que precisava.

– Espero que seja um trabalho produtivo. – falou em inglês, seguindo os outros para fora da sala que ocupavam. A equipe deles o seguiu junto com o restante dos membros, deixando o diretor sozinho com Alyona e Alex.

– Gostaram da novidade? – perguntou abrindo os braços como se fossem amigos de velha data.

– Se tocar um dedo na minha irmã, eu mato você, entendeu? – rosnou Alex, passando por Andrey e batendo o ombro no dele com força antes de sair.

****

O celular de Anja começou a tocar exatamente uma hora depois de ter saído do show. Ignorou as ligações de Alyona e hesitou nas ligações de Alex, mas sentiu mesmo foi quando o identificador mostrou o número de Jimin. Pensou seriamente em ignorar as ligações dele também, mas imaginou que àquela altura dos acontecimentos ele já soubesse da presença de Andrey em Seul.

– Anya-ssi. Você está bem? – perguntou Jimin antes mesmo que ela dissesse alô.

– Jimi! Você estava incrível no show hoje!

– Por que foi embora? – ele perguntou logo de cara, fazendo com que ela enrubescesse imediatamente, mesmo que estivessem apenas ao telefone.

– Tive um imprevisto… perdi o melhor lugar do show… sinto muito. Queria poder te dar um presente, mas não consegui.

– Pode me dar agora, se quiser.

– Mas já vim para casa e… – começou, mas foi interrompida pela campainha. – Só um minuto. – completou indo até a porta. – Quem é? – perguntou, torcendo para ser Alyona e não Andrey.

– Sou eu, noona.– Anja congelou, sem ação. Esperava qualquer coisa, menos uma visita de Jimin pouco depois do show terminar.

– Jimi?

– Isso.

Anja correu para o primeiro espelho que viu, tentando ajeitar o cabelo. Estava usando um suéter grande demais para poder usar fora de casa, mas perfeito para fazer as vezes de pijama. Cogitou vestir uma calça antes de abrir a porta, mas a blusa era grande o suficiente para parecer um vestido, então decidiu não demorar muito. Sorriu nervosa para o próprio reflexo, rezando para que ele não a achasse atrevida demais, ou pior, desleixada demais. Soltou um suspiro e abriu a porta.

– Jimi!

18. Serendipity

[Atenção: Este capítulo contém cenas de sexo. Leia por sua conta e risco.]
Uma coisa que Jimin tinha certeza era que cada vez que aquele russo esquisito aparecia, ele tinha vontade de ser menos passivo e usar o que sabia sobre luta. Havia alguma coisa naquele cara que o incomodava e não era o cavanhaque brega que ele usava ou a mania de se vestir de branco.

— Hyung, ele pode fazer isso? Forçar a Anja a fazer esse espetáculo? — perguntou a Namjoon assim que todos saíram para o camarim, deixando o diretor e Alyona para trás.

— Não foi você que disse que adoraria vê-la dançando Promise? — perguntou Namjoon.

— Sim, mas isso não vem ao caso. Não achei que fossem chamar justo ele para dirigir. — respondeu desviando o olhar.

— Eu também não fui muito com a cara dele… — murmurou o líder do grupo, pensativo.

— Não é? Eu achei que tivesse sido o único. — respondeu Jimin.

Pensou no beijo que havia dado em Anja no dia anterior. Em como ela estava se abrindo aos poucos, sorrindo mais e se divertindo com ele e os outros caras com mais frequência do que antes. Lembrou-se de vê-la indo em direção à saída, com a impressão de que ela estivesse chorando. Não era uma coisa boa aquele cara aparecer em Seul.

— Ei, aonde você vai? Tem a foto do grupo e…

Mas Jimin já havia saído logo depois de tomar banho e trocar a roupa do show. Não se sentia bem por ter visto Anja saindo daquele jeito e ele sem poder fazer nada. Usou pela primeira vez o motorista que ficava a disposição para qualquer coisa que os membros do grupo precisassem e apenas sorriu gentil quando viu a expressão de espanto do homem.

Chegar ao apartamento foi mais fácil do que entrar sem ser visto por nenhuma das câmeras que havia no caminho. Mesmo com o boné e a máscara, tinha medo de como repercutiria depois caso fosse visto. Desligou o celular assim que ouviu a tranca da porta se movendo. Sorriu aliviado ao ver o rosto de Anja mais espantado do que triste, como se um aperto invisível se desmanchasse apenas com aquela visão.

— Jimi! — sorriu e entrou antes que ela o convidasse e a abraçou com força, concentrado no toque suave que o cabelo dela fazia em seu rosto quando ela se movia.

— Ta tudo bem? — ouviu-a perguntar.

Afastou-se um pouco sem jeito, encarando os olhos verdes de perto, procurando algum indicio da antiga Anja, aquela que tinha medo até de dançar numa festa com desconhecidos.

— Por que foi embora? — sussurrou. Viu o olhar indagador passar pelo triste e raivoso em segundos, amando como ela era uma pessoa transparente e não conseguia esconder os próprios sentimentos.

— Podemos não falar disso? — ela sussurrou de volta. Qualquer coisa que dissesse ia estragar aquele abraço. Tudo o que mais precisava naquele momento era aquilo, aquele abraço apertado, aqueles olhos que a admiravam sem barreira nenhuma, apenas por ser quem ela era.

— Então… — ele começou, sem se afastar. — E meu presente?

Anja não precisou de mais do que isso para sorrir. Jimin sorriu de volta, feliz por ver o verde dos olhos dela assumindo aquele tom de felicidade que o aquecia.

— Seu presente…

Anja sentiu o coração batendo desesperadamente no peito. Não sabia se tinha coragem de dar o presente assim, tão de repente. Desfez-se do abraço e o puxou pela mão até o sofá.

— Aqui, sente-se aqui e feche os olhos. Vou pegar seu presente.

Jimin sorriu e obedientemente sentou no sofá com os olhos fechados. O sorriso no rosto denunciava a ansiedade e a expectativa de ver o que seria esse tal presente. Anja, por sua vez, fez uma careta, insegura sobre o que queria fazer a seguir. Andou de um lado para o outro, balançando as mãos nervosa, se xingando mentalmente por ter decidido se declarar justo naquele dia. Mas era isso ou perder a chance de vez com a presença de Andrey na Coreia. Respirou fundo algumas vezes, contando mentalmente até dez para criar coragem.

— E então…? — perguntou Jimin, arqueando uma sobrancelha, rindo de lado, mas ainda com os olhos fechados, esperando.

— Calma. Estou criando coragem.

— Nossa, agora que eu fiquei curioso. — brincou. — Ta, vou ficar quieto.

Anja soprou o ar em silêncio, ajeitou o cabelo e deu uma conferida no hálito, decidida a sair daquele medo de uma vez por todas.

— Ok. Pronto?

— Desde que cheguei.

— Certo.

Devagar, ela se aproximou do sofá, passou as mãos algumas vezes no suéter enorme que usava para ter o último suspiro de coragem e então subiu e se sentou no colo de Jimin.

— Não abra os olhos. — sussurrou, olhando de perto o rosto dele. Estava sem maquiagem, com os cabelos um pouco úmidos do banho, mesmo por baixo do boné preto que ele usava. Retirou o boné e jogou longe, passando os dedos de leve no cabelo dele. Em resposta, ele pousou as mãos na cintura dela, passando a língua nos lábios algumas vezes, ansioso. A bailarina sorriu, sentindo o corpo dele responder antes mesmo dela fazer alguma coisa. Talvez devesse usar aquela blusa grande mais vezes.

E então ela aproximou o rosto do dele e o beijou um lado do rosto e depois o outro.

— Não consigo mais esconder o que sinto por você, Jimi. — sussurrou. O garoto sorriu, sentindo o próprio coração batendo acelerado contra o corpo dela, colado ao seu naquela posição. E então Anja beijou-lhe os lábios, devagar. Sentiu a maciez e a insegurança dela dando espaço para o desejo quando deixou que a língua dela tocasse a sua. Era um beijo lento, calmo, cheio de desejos secretos que ele não conseguia mais esconder de modo algum. Estava apaixonado por ela desde o começo e agora não podia mais conter a felicidade de saber que era correspondido.

As mãos dele escorregaram para as pernas dela, alcançando a barra do suéter que mais parecia um vestido de lã. Lentamente ele foi subindo as mãos por baixo dele, sentindo a pele dela se arrepiando no processo. Anja suspirou na boca dele, sentindo os mamilos endurecerem de expectativa. Quando uma das mãos dele alcançou as costas dela, por baixo do vestido, usou a outra para apoiar a perna dela e a deitar no sofá. Anja gritou de susto e começou a rir imediatamente.

— Jimi!

— Meu presente, posso fazer o que quiser com ele, não posso?

— Por exemplo…? — perguntou ela, sorrindo.

— Feche os olhos. — ele pediu, sorrindo e beijando a boca dela rapidamente.

Anja gargalhou com aquela frase, mas obedeceu prontamente. Jimin beijou o queixo dela, depois o pescoço, sentindo o cheiro do perfume dela misturado ao da pele dela, ficou um tempo ali, aproveitando os braços dela ao redor de si, querendo prolongar ao máximo aquele presente. Voltou a beijar Anja na boca, de repente sedento por aquela mulher. Involuntariamente a perna de Anja envolveu o corpo dele, em busca de maior contato com a excitação evidente que ela podia sentir contra sua perna. Queria ele dentro dela.

As mãos de Jimin voltaram a descer pelo corpo da bailarina até a barra de sua roupa, alisando sua pele até chegar à lateral da calcinha. Era fininha e delicada e com um único puxão ele desmanchou aquela costura delicada, abrindo caminho para sua mão.

— Jimi!

— Shhhh. Nem comecei ainda. — ele sussurrou voltando a beijar-lhe os lábios com desejo, mas deixando a mão no mesmo lugar, sentindo o calor da pele dela aumentar aos poucos. Quando a tocou, Anja se abriu como uma flor, gemendo baixinho contra os lábios dele. Torturantemente devagar ele começou a mover os dedos, sorrindo ao perceber que ela movia os quadris no mesmo ritmo imposto por ele. Com a mão livre ele começou a acariciar um dos seios fartos da bailarina, provocando um gemido mais alto dela que ele entendeu como permissão para introduzir um dedo e aumentar o ritmo.

Anja foi perdendo consciência de si mesma ali, sentindo o corpo responder sozinho conforme se aproximava do orgasmo. Nunca achou que fosse sentir prazer assim, com beijos e dois dedos dentro de si, era sempre ela a responsável pelo prazer, nunca a receptora. Fechou os olhos, inclinando o corpo para cima e deixando a mente se perder num plano dimensional além do explicável.

Jimin não deu tempo dela se recuperar do orgasmo, puxou-a para si, levantando aquele blusão e tirando-o do caminho finalmente. Anja parou e o encarou, sentindo o rosto ficar vermelho ao perceber como estava vulnerável diante do olhar dele. Não havia preconceito nenhum, havia só um desejo que ela nunca havia visto nos olhos de ninguém, um carinho e respeito. Sentiu-se a mulher mais linda do mundo e amou Jimin por proporcionar esse sentimento novo apenas com o olhar intenso. Puxou-o para si e o beijou de novo, devagar, tentando demonstrar todo o amor que agora ocupava todos os cantinhos escuros de seu coração.

Sentiu o corpo dele responder de novo, como se sua boca tivesse esse poder incrível de deixar aquele homem excitado. As mãos foram para o volume evidente da calça e o acariciaram devagar. Foi a vez de Jimin gemer contra a boca dela.

— Minha vez…

O coreano apoiou uma das mãos nas costas da bailarina e se recostou no braço do sofá, puxando-a para perto conforme trocavam de posição. Anja se ajoelhou no sofá, se concentrando em abrir o cinto e a calça dele, sorrindo quando viu o tamanho de sua excitação. Sentiu a boca encher de água com aquela visão e sem esperar mais o cobriu com os lábios, fechando os olhos e se entregando àquele momento.

A cabeça de Jimin pendeu para trás, perdido nas sensações provocadas pela boca e a língua de Anja. Não imaginou que chegaria a esse ponto ao ir para a casa dela, mas não estava nada arrependido. Estava prestes a se soltar completamente na boca dela quando ela parou. Reabriu os olhos para encontrar os dela fixos nos seus com um sorriso.

— Ainda não. — ela falou antes de voltar a subir no colo dele. Encaixaram-se imediatamente e no mesmo instante a bailarina começou a rebolar. O coreano a puxou para mais perto, seguindo o ritmo dela e dando vários beijinhos no colo e no pescoço de Anja, os dois de olhos fechados, perdidos naquele mundo etéreo que haviam criado juntos. A respiração dos dois foi ficando cada vez mais pesada até que nenhum dos dois aguentou mais, atingindo o ápice de sensações juntos.

Anja afundou os dedos no cabelo macio de Jimin, enquanto ele afundava o rosto no colo volumoso e macio da bailarina, querendo ficar ali naquele momento eternamente, os corpos suados e ofegantes. Devagar, ele afastou o rosto dos seios dela e o levantou para olhar em seus olhos. Anja sorriu, acariciando-o de leve, gentilmente.
— Noona, saranghae. — ele murmurou antes de voltar a beijá-la. Ela não entendeu a palavra, mas repetiu em voz alta, apaixonada pela sonoridade e pelo toque gentil daquele homem.

Estava perdidamente apaixonada por ele.

19. Boy with luv

O telefone começou a tocar em algum ponto da sala, longe demais para ser atendido rapidamente, alto demais para impedir que Jimin acordasse. Anja abriu um olho e voltou a fechar, sorrindo ao sentir os braços dele ao redor de si. Acabaram dormindo juntos no sofá, aconchegados nos braços um do outro. Podia sentir claramente o cheiro do perfume dele se misturando ao próprio perfume. Acariciou de leve o cabelo dele, ignorando completamente o toque do telefone.

Jimin sorriu com o rosto apoiado nos seios fartos da bailarina, mas não os abriu, afundando mais ainda o rosto naquele colo macio, memorizando todas as nuances de cheiros e toques. Eventualmente o telefone dela parou de tocar, dando lugar aos toques incessantes do telefone dele. Jimin resmungou irritado, mas não moveu um músculo. Foram cinco ligações seguidas até que um dos dois se movesse.

— Não! Fique aqui… por favor. — Anja resmungou quando Jimin tentou sair do sofá. Ele sorriu e voltou a se deitar ao lado dela, dando beijinhos breves em todo pedaço de pele que conseguia alcançar, até chegar à boca e ser impedido por ela. Delicadamente ela cobriu a própria boca, sorrindo por entre os dedos.

Alyona continuou ligando para os dois repetidamente. Não tinha notícias de Anja desde a aparição de Andrey e Jimin havia sumido pouco depois. Tinha certeza de que eles estavam juntos, mas como nenhum dos dois havia dado notícias, isso era apenas uma especulação pessoal dela.

— Puta merda, Anja, atende logo esse telefone… — xingou em russo, baixinho.

— Algum sinal? — perguntou Namjoon parando ao lado dela. Como sempre, Alyona sentiu as pernas derreterem um pouco com a presença de seu bias, mas manteve o lado profissional em evidência, balançando a cabeça negativamente. O rapaz decidiu ele mesmo ligar para Jimin. Em algum ponto na sala de reuniões, os outros membros faziam a mesma coisa, cada um com uma preocupação diferente, nenhum deles suspeitando de onde ele poderia estar, ou com quem.

No apartamento, Jimin desejou que o mundo parasse e ele pudesse ficar ali para sempre, aconchegado com Anja, ignorando qualquer outra coisa que não fosse o toque da pele dela na dele. Mas o mundo pedia pelo Jimin do BTS e ele sabia que quanto mais ele demorasse, pior seria. Antes que pudesse dizer qualquer coisa para a bailarina, a campainha tocou.

— Está esperando alguém?

— Deve ser a Alyona, tenho certeza que é ela que está ligando sem parar. — respondeu a ruiva, olhando para o teto. Se fosse mesmo Aly, ela sabia que devia ser problema. A amiga nunca a interrompia quando sabia que podia estar com alguém, e ela tinha certeza que Alyona sabia sobre Jimin estar ali com ela. Sempre sabia de alguma forma o que se passava na vida de Anja.

Por imaginar que fosse Alyona, a bailarina não se moveu. A empresária sabia a senha da porta, não precisava exatamente tocar a campainha para entrar. Cobriu a si mesma e a Jimin e esperou com um sorriso travesso no rosto. Mas a senha da porta não foi colocada e a campainha continuou tocando. Jimin pulou do sofá e vestiu a própria calça, indo até a porta.

— Quem é? — perguntou Anja ao ver que ele olhava para o pequeno monitor que mostrava quem estava do outro lado. como ele não dizia nada, ela se levantou do sofá, cobrindo o corpo como podia e se sentindo a mulher mais linda do mundo quando Jimin a encarou. Seu sorriso desmanchou ao ver que ele estava sério.

— Quem é? — repetiu a pergunta, dessa vez em russo.

— Sou eu, anjinho.

Ela e Jimin se encararam, em choque. Será que nunca teriam um momento de paz? A bailarina empurrou Jimin para trás da porta, a fim de protegê-lo e a abriu daquele jeito mesmo, com a manta enrolada no corpo nu, queria que aquele cretino visse que ela tinha passado a noite fazendo amor.

— É muita cara de pau você vir até a minha casa, Andrey. — ela falou assim que abriu a porta. Ignorou as flores e o chocolate que ele segurava, só conseguia sentir nojo.

Andrey não ouviu nenhuma palavra do que ela havia dito. Estava concentrado na visão dos ombros nus e do colo quase a mostra por baixo de uma manta que escondia a óbvia nudez da bailarina. Era a primeira vez que a via assim, tão à vontade consigo mesma quando não estava dançando. Estava linda.

— Que bela recepção! — falou impressionado. E então ele viu Jimin saindo por detrás da porta, apenas com uma calça de moletom. Os dois se encararam por um longo tempo, em silêncio, e só interromperam o contato visual quando Anja percebeu que Jimin havia saído do esconderijo.

— Jimi! — ela tentou empurrá-lo de volta para trás da porta, mas Andrey passou rapidamente por ela e entrou no apartamento para ver de perto o que ele achava que estava vendo. Bastou um olhar no sofá para perceber que eles haviam passado a noite juntos. Olhou de volta para Anja, que acabara de fechar a porta, e depois para o coreano e soltou um sorriso sarcástico.

— Como sempre você é muito rápida, não é?

O tom da voz dele fez o sangue de Jimin ferver de raiva. Não precisava saber russo para entender a conotação que o diretor usava. Mas Anja estava a frente dele. Olhava para o ex-noivo com nojo, irritada pela audácia dele de aparecer assim como se ainda tivesse alguma influência na vida e nas escolhas dela.

— O que veio fazer aqui, Andrey?

— Vim tentar uma reconciliação, mas acho que cheguei tarde. Achou um trouxa mais rico que eu, não foi?

Ela ignorou a provocação. Sabia que se caísse nela entraria numa espiral destrutiva que terminaria com ela chorando e Andrey conseguindo exatamente o que queria. Estava cansada de entrar nessa espiral, não conseguia mais se ver sofrendo e sendo feita de idiota por homem nenhum, muito menos aquele.

— O que veio fazer aqui, Andrey? — repetiu a pergunta. Por “aqui” ela queria dizer Seul e sabia que ele havia entendido logo de primeira.

— Bem, vim te contar a novidade, vamos trabalhar juntos. A empresa desse “japinha” aí me contratou para dirigir um espetáculo seu. — falou apontando Jimin com desprezo. — Queria te contar isso com todo o amor e carinho que merece, mas acho que perdi meu momento. Devia ter feito isso no show. — respondeu sarcasticamente.

A conversa não fazia sentido nenhum a Jimin, mas aos poucos ele começava a entender que Andrey estava ali para provocar Anja e ele de alguma forma. Tentou não se irritar com o tom de voz e as expressões faciais que ele usava cada vez que olhava para os dois, mas não conseguia esconder expressivamente. Sua vontade era usar todo e qualquer golpe de luta que soubesse, mas isso também significava um escândalo para ele e o resto do grupo. Tinha que ser cauteloso. Duas pessoas podiam jogar o jogo do sarcasmo e ele era um especialista nisso. Sorriu fingindo animação e foi até o diretor, pegando as flores e o chocolate da mão dele.

— Ah, esse filho da puta nos trouxe chocolate! Que gentil da parte dele, não acha?

— Ji-Jimi?

— Pode fazer algumas traduções para mim, noona? — pediu passando uma mão protetoramente pela cintura dela e olhando para o diretor. Ainda exibia seu melhor sorriso, mas ele não lhe chegava aos olhos. — Diz a ele que apesar da empresa nos obrigar a trabalhar juntos, eu nunca mais vou deixar que ele se aproxime de você.

Anja olhou para ele dividida entre ficar em choque e ficar feliz com aquela frase. Decidiu entrar na onda e traduziu apenas uma parte do que o garoto havia dito.

— Ele diz que espera que o espetáculo seja bom o suficiente para nunca mais termos que trabalhar juntos.

— Diz a ele que é exatamente o que eu espero, você e eu vamos voltar juntos para a Rússia.

— Ele acha que vai conseguir me levar de volta para casa. Coitado. — traduziu ela rindo. Jimin riu também, bem alto, jogando a cabeça para trás e fechando os olhos. O fato de não entender o que eles diziam e de presenciar a cumplicidade que compartilhavam depois de terem tido uma noite de sexo irritou Andrey mais do que qualquer outra coisa. E os dois riram mais ainda ao perceber isso.

O diretor fez menção de avançar na direção deles, mas Anja o parou antes que conseguisse. Estava com a perna esticada ao máximo, tocando o pescoço de Andrey com o pé, ameaçadoramente.

Ainda não sabia lutar, verdade, mas ele não sabia disso e tinha dançado o suficiente para conseguir fingir que aquela pose de luta era real.

— Se der mais um passo eu te mato. — sibilou.

Andrey levantou os braços, rendido, e sorriu maldoso.

— Vamos ver quem mata quem. — sussurrou com um olhar malicioso para a perna da bailarina e voltando de costas em direção à porta. Depois que ele saiu, tudo o que Anja conseguiu fazer foi se encolher e chorar.

***

— Ele o que?! — Alyona sentia o sangue fervendo em suas veias ao ouvir sobre a visita de Andrey.

Anja finalmente havia aparecido na empresa, duas horas depois de ter atendido ao telefone e ter dito que havia se perdido em Seul depois de ter saído do show. Claro que a amiga não acreditava nessa história, até porque, coincidentemente Jimin apareceu quase no mesmo horário que a bailarina atendeu aos telefonemas. Era tudo muito suspeito. Mas Alyona deixou isso passar quando ouviu sobre a “visita” surpresa de Andrey.

Ela queria esganar aquele cretino com todas as suas forças, mas não podia fazer nada com relação ao contrato, ele era válido. Depois de ler e reler o contrato, viu que não tinha cogitado a possibilidade da Big Hit querer sediar um espetáculo onde Anja fosse o centro das atenções e não exatamente o BTS. Mas era uma empresa afinal de contas e ela deveria ter previsto essa possibilidade por Anja Wang ser quem era.

Os olhos da bailarina estavam vermelhos, mas secos. Tinha prometido a si mesma não deixar que Andrey afetasse sua vida nunca mais, e a Jimin que não ia ceder a nenhuma provocação do ex. Mesmo assim estava furiosa, se sentindo incapaz por não poder fugir daquele maldito contrato. De salvadora a empresa tinha se tornado mais um obstáculo entre ela e sua liberdade.

— Anja, mesmo que tenhamos que trabalhar com aquele cretino, eu vou fazer meu melhor para que essa seja a última vez. Prometo. — disse Alyona. Estava determinada a terminar com essa sanguessuga nojenta que era aquele cara. — Ele é o diretor, mas vamos montar um espetáculo que foque em você e nos meninos de uma forma tão óbvia que não vai precisar de direção. Topa?

— Você consegue isso?

— Bom, diretora eu nunca fui, mas depois de todos esses anos tocando piano para você e Alex acho que consigo alguma coisa. Tenho uma conhecida que pode montar um roteiro simples e genial, mas precisa confiar em mim e… — e só então ela reparou que estivera conversando em russo todo aquele tempo com todos os meninos presentes. Eles a olhavam de forma interrogativa, alguns revirando os olhos e outros — mais exatamente Seokjin — balançando a cabeça negativamente.

— Desculpe eu…

— Tudo bem, noona, a gente entendeu que você está brava, mas será que dá para traduzir qual a sua ideia? — perguntou Namjoon apoiando os braços na mesa e cruzando os dedos diante do corpo, parecendo o líder que era.

— Minha ideia é minimizar qualquer coisa que aquele cretino… — pigarreou ao ver a cara de espanto de alguns porque estava falando com eles como falava com Anja, como se fossem muito amigos. — Desculpe. — pediu dando um sorriso amarelo e voltando a assumir a expressão séria que tinha quando falava sobre negócios. — Minimizar qualquer coisa que aquele filho de uma boa mãe tentar fazer para prejudicar a Anja ou vocês. Precisamos de um diretor fantasma.

Anja estava de novo perdida nos próprios pensamentos. Apesar de sua ameaça ser meramente ilustrativa, tinha medo de Andrey concretizar a dele. Sabia do que ele era capaz quando se tratava de sua ambição e, no momento, Jimin e ela eram o maior obstáculo entre ele e a montanha de dinheiro que era aquela parceria com a Big Hit.

Os olhares dos dois se encontraram e discretamente Jimin pousou a mão na perna da bailarina sob a mesa. Acariciou de leve, tentando tranquiliza-la, mas querendo muito que aquela reunião terminasse para que pudessem continuar de onde pararam. Não podia e nem queria perder mais nenhum minuto longe dela.

— Eu posso tentar, se quiser… — ouviram alguém dizer.

O silêncio que se instalou na sala era quase palpável. Tinha sido tão baixinho e tão tímido que Alyona não tinha certeza de quem havia dito aquilo, mas Anja olhava diretamente para Jungkook, espantada e admirada com ele mais do que nunca. Ela sorriu para ele, grata. Finalmente ele ia poder mostrar para o mundo exatamente o que ele havia visto no dia do próprio aniversário.

— Quem…?

— Você tem certeza? — perguntou a bailarina, se dirigindo a ele. Só então todo mundo entendeu o que Jungkook havia acabado de oferecer.

— Tenho… acho que consigo. — falou. Ele agora sorria abertamente para Anja. — Posso te filmar, noona?

— Pode. Você pode tudo, Kookie. — respondeu ela sorrindo feliz.

— Está decidido então! — exclamou Alyona, batendo a mão na mesa com força, como se fosse uma juíza definindo a sentença de alguém. Andrey seria descartável e ela ia fazer o possível para que isso acontecesse o mais rápido possível.

 

20. For you
Essa história de Andrey aparecer na Coreia estava deixando Alyona mais estressada que o normal. Se antes não tinha o que fazer, agora tinha até demais. Detestava ter que trabalhar com o diretor, mas o contrato era claro, Anja tinha mesmo que aceitar as decisões da Big Hit com relação à dança dela durante aquele ano. E se isso significava dançar um espetáculo na Coreia, a empresa definiria que tipo de espetáculo seria.

Restava a Alyona mediar essa guerra entre titãs. Naquele dia, pediu que um piano fosse colocado na sala de dança para o primeiro ensaio da bailarina com as músicas do grupo. Um dos produtores havia garantido que eles conseguiriam um pianista para ajudar, mas por via das dúvidas ela mesma foi conferir se estava tudo em ordem. Já no corredor ela ouviu alguém tocando o instrumento.

— Ué, mas eu não pedi para ninguém afinar o piano. — olhou no relógio de pulso e fez uma careta. Era muito cedo pra ter alguém além dela ali. Entrou sem bater e quase deixou sua bolsa e suas coisas caírem. Sentado ao piano, usando óculos de grau e exibindo seu melhor sorriso, estava Jin.

— Que bom que a princesa é do tipo que acorda cedo, estava me perguntando até que horas ia me fazer esperar.

— Eu… er… o que está fazendo aqui a essa hora?

— Tocando piano.

— Certo, eu sei. Mas por quê?

— Eu queria muito ver uma pessoa, mas ultimamente é mais difícil do que conseguir uma entrevista com o maior grupo de kpop do momento.— começou, ainda dedilhando o piano.— Já ouviu falar do BTS? Então…— sorriu — Daí tinha um piano, um pouco de tempo livre e partituras… mal não ia fazer, não foi o que disse naquele dia? — completou.

Alyona se aproximou devagar, meio hipnotizada e meio sem jeito e deixou as coisas por cima do piano. Diferente do instrumento que ficava no auditório — e secretamente ela tivera esperanças de ser o que usaria nos ensaios — aquele era um piano vertical, preto, que quase não ocupava muito espaço na sala de dança. Perfeito para ser tocado num ensaio como os que teriam dali para frente. Jin continuou tocando até que ela parasse ao lado dele.

— Quer tocar um pouquinho?

— Não…

— Vem, sente-se aqui. — falou ele esticando a mão e puxando Alyona para seu colo quando ela aceitou. Devagar Jin puxou o cabelo dela para o lado e pousou o queixo no ombro da empresária. As mãos ele passou por baixo dos braços dela e a enlaçou pela cintura. — Aqui. Assim está melhor.

Ficaram assim, ele abraçado na cintura dela, sentindo uma mistura de cheiros que envolvia o xampu dela, o perfume e a pele e desejando mais do que nunca que não estivessem na empresa. Alyona, de novo, não sabia realmente o motivo de ser tão passiva quando se tratava de Seokjin.

Gostava dele? Achava que sim, mas quando não estavam juntos conseguia racionalizar isso melhor e avaliar os riscos de se envolver com um idol do patamar dele. Mas quando juntos… ela perdia completamente o rumo de si mesma e virava uma donzela em perigo, do tipo que não faz nada sem seu príncipe. Soltou um suspiro.

— O que foi? — perguntou ele, gentilmente, a voz bem baixinha perto de seu ouvido.

— O que é isso que temos? — perguntou. Seus olhos estavam fixos na porta fechada, mas sua mente toda estava concentrada nas partes em que Jin a tocava. Sentiu o corpo dele tensionar sob o seu, mas ele ficou quieto um tempo antes de responder.

— Precisamos mesmo definir?

— Você gosta de mim?

— Estamos de novo no clichê dos dramas, então? — brincou.

Alyona não respondeu, estava perdida nos próprios pensamentos. Uma parte de si queria que ele dissesse que não, não gostava dela, estava apenas querendo se divertir um pouco. Era mais fácil lidar com sexo casual do que com sentimento — e fazia muito tempo que sua vida amorosa era só isso. Mas outra parte, a parte sonhadora, fã de BTS e de filmes românticos, queria que ele dissesse que sim, sentia algo por ela e não conseguia esconder. Ouviu Jin suspirar contra seu pescoço, concentrado nos próprios pensamentos.

Para ele não era tão simples definir o que sentia. Não podia se envolver com ninguém por mais que quisesse. Mas também não queria ceder mais esse pedaço de si mesmo para a profissão que havia escolhido. Fechou os olhos e puxou o ar, inundando a si mesmo daquele cheiro de pele limpa que Alyona tinha. Gostava dela. Sabia disso desde o momento em que percebera que Namjoon era o favorito dela no grupo. Estranhamente não sentia ciúmes. Algo lhe dizia que o sentimento dela por seu irmão era puramente de fã, nada comparado ao que ela demonstrava por ele.

Em resposta suas mãos foram para baixo da blusa dela, alcançando os seios pequenos que responderam imediatamente. Sorriu ao ouvir o suspiro dela quando apertou um dos mamilos, provocativo.

— O que você sente por mim? — devolveu a pergunta.

— O que você sente por mim? — devolveu a pergunta.

“No momento, tesão” – pensou sentindo o corpo todo responder com aquela carícia. — Vai fugir do assunto com sexo? — perguntou apoiando as mãos no piano e fechando os olhos ao sentir a ereção dele sob si. Não ia sofrer sozinha ou ficar forçando uma conversa séria que obviamente ele não queria ter, então começou a se mover lentamente no colo dele. Ele soltou um suspiro sofrido ao perceber o que ela estava fazendo e parou sua carícia.

— Não é justo! — voltou a enlaçar a cintura dela com os braços e afundou o rosto nas costas dela, deixando que o cabelo comprido de Alyona cobrisse seu rosto.

— Não é justo eu querer uma conversa séria pela primeira vez e você me provocando desse jeito. — ela responde, ainda rebolando no colo dele. Jin suspirou. Gostava de Alyona, gostava muito dela. Mais do que era capaz de compreender, mas pensar nisso implicava em tantas coisas além da capacidade dele.

Queria poder se dedicar como qualquer outra pessoa, comprar flores, levá-la para seus lugares favoritos, apresentá-la aos irmãos — os de sangue e os do grupo — e aos pais, viajar com ela, conhecer sua família. Era tanta coisa que não podia se dar ao luxo de sonhar, porque isso significava mexer na vida de muitas outras pessoas além dele mesmo. Podia se envolver com alguém? Com o BTS, o alistamento militar, a fama e o sucesso em seu caminho?

Apertou ainda mais os braços ao redor dela, puxando-a contra si e forçando-a a parar. O coração dos dois batendo mais acelerado do que nunca, numa conversa silenciosa que ia além do desejo sexual que tinham um pelo outro. Ela ouviu ele soltar um suspiro baixinho enquanto esfregava o rosto contra o cabelo dela.

— Não queria sentir isso… — começou.

— “Isso”? O que seria “isso”?

— Não sei! Eu gostei de você no minuto que te vi toda sem jeito diante do Joonie. Gostei de ver sua desenvoltura falando inglês, coreano e russo. Deus! Você fala mais línguas do que o próprio Namjoon. — continuou com a voz abafada. — Gostei de você naquele dia no auditório. Gostei quando te vi cantando baixinho com os fones de ouvido, sem perceber que eu estava ali desde antes de você entrar… Gostei quando tocamos piano.

— Nós chegamos a tocar? — Aly perguntou, tentando diminuir um pouco a tensão.

— Tsc. Não era você que queria conversa séria? — respondeu ele estalando a língua indignado.

— Desculpa, foi brincadeira…

— Como eu ia dizendo… — virou-a de lado, para que pudesse olhar nos olhos dela. Ficou ali, encarando-a em silêncio um tempo. Refletindo se deveria se declarar assim abertamente. — Eu não gosto de você… Eu…

Mas antes que completasse seu raciocínio a porta da sala foi aberta e várias pessoas entraram conversando. Num reflexo ele empurrou Alyona para que ela levantasse de seu colo, ao mesmo tempo que ela mesma pulava dali para fingir normalidade, mas quase caiu no processo. Olhou furiosa para Jin, sem entender a última frase que ele disse.

— Que bom que já chegaram! Aly, imagino que o piano esteja afinado. — falou Andrey sem perceber o que havia interrompido. Conversava com o roteirista que havia trazido com ele, ignorando completamente as outras pessoas que chegavam logo depois dele.

— Hyung, você vai tocar? — perguntou Taehyung parando atrás do piano e encarando Jin, mal reparando nas orelhas vermelhas ou no jeito sem graça do irmão.

— Não. Estava só conferindo… — respondeu se levantando da banqueta e indo se juntar aos outros membros.

— Aly, explique a eles que não precisam participar do ensaio, vai ser um espetáculo com a Anja apenas. — pediu Andrey.

— É Alyona. — corrigiu ela com raiva — E arrume um intérprete, eu não sou obrigada a traduzir para você. Vou procurar a Anja. — respondeu com raiva, saindo da sala o mais rápido que conseguia.

***

Anja estava esgotada. Pela primeira vez na vida chegou atrasada sem ser de propósito. Tinha passado os últimos três dias ensaiando madrugada adentro com Jungkook e Jimin, seguindo o roteiro e a direção que eles conseguiram, tudo para não precisar seguir ordem nenhuma de Andrey quando o ensaio oficial chegasse. Encontrou Alyona no corredor, furiosa com alguma coisa que ela não conseguiu entender.

— Aly? — chamou antes de ver a amiga chutar uma lixeira sem motivo. — O que houve?

Alyona estava com a perna no ar, pronta para chutar, quando percebeu onde estava e que não estava sozinha. Abaixou a perna e soltou um suspiro longo, balançando a cabeça negativamente.

— Nada. Coisa minha. — falou jogando o cabelo para trás e ajeitando a blusa. — Pronta?

Anja deu de ombros. Nunca estaria pronta para trabalhar com Andrey de novo, mas não tinha escolha. Estava muito cansada, mas faria exatamente o que Jungkook tinha pedido. Já tinham o repertório de músicas escolhidas pela equipe de Andrey — pego por Namjoon que decidiu ajudar usando seu privilégio como líder do grupo — já tinham ensaiado algumas das músicas, bastava agora executar com perfeição suficiente para que o diretor não precisasse fazer absolutamente nada.

Apesar do cansaço, a bailarina exibia um ar de saúde de dar inveja em qualquer um e isso não passou despercebido de Alyona. A empresária ficou encarando o rosto de Anja, mudando o ângulo em que a olhava, impressionada.

— Que maquiagem perfeita é essa?

— Gostou? Uma amiga fez. — respondeu a bailarina sorrindo.

— Amiga? E você outra amiga na Coreia além de mim? Quem?

— Namorada de um amigo meu.

— Quem?

— Outro dia te conto. É segredo que não é meu. Vamos, preciso matar um leão e é por isso que estou toda maquiada e produzida.

Assim que entraram a sala ficou em silêncio. De um lado estavam todos os meninos do grupo e Alex, esperando para assistir ao ensaio em primeira mão. Do outro estava Andrey, uma moça baixinha que deveria ser a roteirista, e um coreano que elas imaginaram ser da Big Hit. Alyona fingiu não ver os meninos e foi direto ao piano, enquanto Anja passava por eles e recebia palavras de incentivo em sussurros. Sorriu ao cruzar os olhos com Jimin e ele lhe lançar uma piscadela. Isso não passou despercebido por Andrey.

— Finalmente nossa estrela chegou. Anjinho, você recebeu o roteiro que te enviei? — perguntou. A bailarina revirou os olhos e respondeu em japonês.

— Aly, pode dizer ao diretor que eu já sei o que fazer? — pediu. Alyona fez cara de interrogação, sem entender o motivo da bailarina estar conversando em japonês, no que Anja apenas respondeu com uma careta e um levíssimo balançar de cabeça. Se pudesse evitar, e ela ia dar seu melhor para isso, ia falar o mínimo com Andrey.

— Vai ser assim, então? — perguntou Andrey depois de ouvir a tradução da empresária.

Anja decidiu ignorar, colocou suas coisas sobre o piano onde a amiga já estava sentada e começou a se aquecer. Alyona focou no piano e não se deu ao trabalho de olhar na direção de Jin, ainda tentava mentalmente desvendar que resposta era aquela que ele havia dado antes de serem interrompidos, tentando decidir se ele gostava ou não dela. Preparou as partituras e alongou os dedos, os olhos indo de Andrey para Anja, e dela para Alex. Desde a primeira apresentação de Anja, ela sempre tocava pelo menos no primeiro ensaio, até mesmo na época em que a bailarina a evitava por conta do noivado com Andrey.

Com um sinal da amiga, ela começou a tocar Lie. No repertório de Andrey, a primeira música que ela dançaria seria Idol por conta do conceito quase totalmente oriental, onde a dança dela conversaria com a tradição do país que a estava acolhendo. O diretor folheou o roteiro confuso quando Anja começou a tocar a música escolhida por ela mesma.

— Mas… — começou, ficando quieto em seguida, hipnotizado pela coreografia escolhida por Anja.

 

21. Intro: Ringwanderung

A sala de dança estava escura e vazia àquela hora. Mais um ensaio madrugada adentro com o intuito de diminuir a necessidade de Andrey no espetáculo. Anja soltou a bolsa com suas coisas ao pé da porta e ligou a luz. Uma a uma as lâmpadas foram se acendendo até chegar à lâmpada acima do piano, revelando a presença do diretor. Ele mal piscou, apenas sorriu com o choque que provocou na bailarina.

— Te assustei? — perguntou sarcástico.

Anja levou a mão ao coração, de susto. Não contava seus horários a ninguém para que não fosse perturbada enquanto ensaiava. Sempre foi assim, desde quando entrou para a companhia de dança do ex.

— Precisamos conversar.

— Não, não precisamos. Qualquer coisa que queira me dizer, pode dizer a Alyona e ela me dirá. — respondeu já pegando a bolsa do chão. Não ia ensaiar com ele ali.

— Vou te contar uma historinha e vamos ver se vai se lembrar do que houve. Era uma vez uma bailarina alta e esguia, talentosa e rica, que tinha tudo para roubar o lugar de bailarina do ano de uma outra moça, gorda, baixinha e comum. Um belo dia essa bailarina alta e bonita apareceu doente. Na semana seguinte ela foi internada às pressas pois vomitava sangue. Pouco depois ela anuncia sua aposentadoria precoce e aquela bailarina baixinha e gorda ganha mais uma vez como bailarina do ano. Lembra-se desse prêmio?

Anja lembrava. Assim como também se lembrava de Frederika, a bailarina em ascensão daquele ano. Ficou horrorizada com a descoberta de uma doença rara e a aposentadoria repentina da moça. Chegou mesmo a enviar flores e presentes para Frederika no hospital, sem entender o motivo de ter recebido tudo de volta no dia seguinte. Andrey podia ouvir as engrenagens trabalhando a todo vapor e somando as informações. A bolsa voltou a cair ao chão com um estrondo.

Andrey sorria quando se levantou do piano e foi até a bailarina. Adorava o efeito que provocava nela desde o dia em que se conheceram. Podia se lembrar perfeitamente do choque ao ver aquela bailarina gorda entrando no palco para o teste. Quando leu na ficha que ela estava ali pelo papel principal, achou tudo muito engraçado e ao mesmo tempo corajoso, mas não tentou impedir sua equipe de sair. Afinal de contas, ninguém podia imaginar que ela dançava como dançava. E depois o jeito como ela se tremia toda na presença dele, como se qualquer migalha de atenção fosse capaz de acender o maior dos incêndios dentro dela. Gostava desse efeito.

Era algo parecido com o que via nela agora, furiosa com a possibilidade dele machucar seu novo mascote. Os olhos verdes dela ardiam de ódio e, estranhamente, isso o deixava excitado. Podia sentir o aperto da calça e da cueca com requintes de crueldade, mas também gostava desse efeito novo que aquela mulher lhe provocava. Fazia com que a vontade de a ter de volta fosse ainda maior.

— Você não seria capaz! — murmurou levando a mão à boca, em choque.

— Não? Tem certeza? Não seria coincidência demais se o pobre James, ou sei lá que nome esquisito aquela criança tem, apresentasse os mesmos sintomas? Há quanto tempo ele não canta? Será que ele vai conseguir sorrir para as câmeras até chegar aos eventos de premiações? Soube que você e ele ensaiaram uma coreografia bonita com lenços e balé contemporâneo… seria uma pena se ele tivesse que canc…

O tapa o acertou em cheio, mas ele não saiu do lugar. Levou a mão ao rosto e encarou Anja em silêncio por um longo tempo.

— Cuidado. Posso me apaixonar de verdade dessa vez. — sussurrou.

— O que você quer? — perguntou ela entredentes.

— Você sabe muito bem… — passou as costas da mão pelo ombro dela, descendo até que segurasse a mão gordinha e pequena. — Você é meu anjo da guarda, não lembra. É, e sempre vai ser, minha.

Anja levantou o braço novamente e ganhou impulso para o segundo tapa, apenas para ser parada antes de alcançar o rosto de Andrey de novo. Ele apertou o pulso dela com força e a puxou para perto, encarando-a. A porta da sala de dança voltou a abrir, mas antes que Anja olhasse para ver quem era, o diretor a puxou para um beijo forçado.

Aquele beijo provocou uma gama nova de coisas nos dois. Em Anja, foi como beijar uma parede particularmente suja. Para Andrey, foi como provar sua sobremesa favorita depois de anos em jejum. Mal podia esperar para descobrir qual seria a sensação nova de tê-la em seu colo. A bailarina sentiu a língua dele contra a sua e a única coisa que conseguiu pensar foi em uma serpente maligna tentando se infiltrar em sua vida.

Os dois se separaram logo em seguida, a bailarina com nojo e Andrey com a boca ensanguentada, com um esgar no lugar do sorriso e um brilho perigoso nos olhos azuis.

— Nunca. Mais. Encoste. Em. Mim. — pontuou a ruiva cuspindo no chão e se virando para a porta, mas já não havia ninguém.

— AINDA NÃO TERMINAMOS, ANJINHO! AINDA TEM MUITA COISA PARA VOCÊ SABER. — ouviu Andrey gritar de dentro da sala de dança.

Não deu ouvidos, apenas correu. Um pressentimento ruim lhe dizia que tinha pouco tempo com Jimin. Sabia do que Andrey era capaz e com quem ele tinha conseguido os “presentes” da bailarina em Moscou e dos meninos ali. Sentiu medo por si mesma, por Jimin, por Alex. Jogou a bolsa no caminho e tentou correr mais rápido, mas as lágrimas deixavam sua visão turva. Tinha que resolver isso logo, sem que ninguém se machucasse. Mas como?

— Anja! — gritou Alyona quando a amiga passou por ela correndo, quase derramando o sexto café dela no processo.

Assim como Anja, a empresária agora passava a maioria das madrugadas dentro da Big Hit tentando intermediar as discussões entre a bailarina, Andrey e a empresa. E como ela passava a maior parte das noites dançando, era mais útil ficando ali para o caso de terem algum problema, do que em casa esperando alguma ligação. Mas pelo visto o problema tinha chegado antes dela.
Ficou dividida entre ir atrás da amiga ou ir até a sala de dança conferir se estava tudo em ordem. Mas sua intuição dizia que não deveria fazer nem um, nem outro, deveria procurar Jimin.

 

22-Save me (japanese version)

O pressentimento de que havia sido Jimin quem tinha entrado na sala quando Andrey a beijara fazia com que tudo parecesse ainda pior do que já era. Seguiu os passos – ou o som deles até uma saída de emergência e se viu numa das varandas mais altas do prédio, diante de Seul toda iluminada a noite. A vista era espetacular e dali ela podia claramente ver praticamente a cidade toda. Forçou-se a desviar o olhar e encontrar sua testemunha.

— Até que você foi rápida. — falou Julia. Estava apoiada na sacada, de costas para a vista incrível, esperando Anja de braços cruzados. Não parecia julgar ou acusar a bailarina, parecia apenas cansada e preocupada, como se já tivesse passado por coisas difíceis tanto quanto Anja.

— Eu achei que…

— Achou que tivesse sido o Jimin. Eu sei. O que teria feito se fosse?

Anja não soube responder. Não sabia mais o que fazer ou como agir dali em diante. Acreditava, até poucas horas antes, que tinha tudo sob controle. Em breve Andrey seria chutado da Big Hit e ela viveria aquele ano como deveria viver, junto de um novo amor, tendo que lidar apenas com a burocracia de esconder isso do público, muito mais fácil e simples do que ter que protegê-lo de seu ex-namorado psicopata. Pensou nas palavras do diretor e na ameaça que elas eram para a vida de Jimin.

— O Jimin é o melhor de todos nós. O que pretende ficando com ele e seu ex ao mesmo tempo? — Julia interrompeu o fluxo de pensamentos da bailarina, trazendo-a para a realidade.

— Não estou. — começou ela, se aproximando de Julia e da beirada da sacada para se apoiar ali também. Soltou um longo suspiro antes de continuar. — Terminamos há meses. Antes mesmo de eu ter qualquer sentimento por Jimin.

Seu olhar se perdeu na paisagem. Nunca havia imaginado que teria uma vida cheia de altos e baixos como a que tinha. Quando fizera seu teste para o papel principal do espetáculo de Andrey, quase dez anos atrás, tudo o que buscou foi o reconhecimento por todos aqueles anos dançando e se esticando e sendo fora do padrão que o mundo queria de uma bailarina. Cada prêmio, cada dedo sangrando, unha arrancada, sapatilha ensanguentada era menos do que nada comparado ao medo que estava sentindo. Trocaria tudo isso para ver Jimin vivo, saudável e feliz com o maior prazer. Mas o preço era outro e ela não sabia se era generosa o suficiente.

— Também acho que o Jimi é o melhor de todos nós aqui. — murmurou muito tempo depois, interrompendo o silêncio que se instalara entre as duas.

— Mas…?

— Sem “mas”, é isso mesmo. Jimin é a melhor pessoa que eu conheci. — falou com simplicidade. — Andrey e eu vivemos muita coisa juntos. E ele me machucou muito também. O Jimin é completamente o oposto. Ele me conforta sem perceber. O sorrisinho de olhos fechados que ele dá, os aplausos entusiasmados quando consigo fazer uma nova manobra de hip hop, a cabeça jogada para trás quando ri… cada uma dessas coisas me ajuda a sair de um buraco que eu mesma cavei e que Andrey ajudou a aprofundar.

Julia continuou quieta, pensando nos próprios problemas. Também tinha passado por muita coisa até chegar ali. Nada comparado a um relacionamento abusivo, claro, mas, ainda assim, conseguia sentir empatia pelo que a bailarina contava. Jimin era como seu irmão mais querido, o mais gentil e frágil entre todos os meninos e também o que tinha maior poder de cura entre os sete.

— Você o ama. — não era uma pergunta. Olhou para Anja e a flagrou secando algumas lágrimas.

— Amo. Mas tenho muito medo desse amor. É diferente de qualquer outra coisa que já senti. E o Andrey, ele… — sentiu o pranto vir junto com as lágrimas, se perdendo nas palavras em japonês, sem conseguir continuar. –— Andrey vai matá-lo por causa desse amor. — completou em russo.

— O que? — perguntou Julia. Anja não conseguiu explicar. Tinha medo de contar aquilo a qualquer pessoa e ela automaticamente se tornar vítima de Andrey. Sentiu os braços de Julia ao redor de si e chorou mais ainda. O encontro com Jimin tinha lhe dado mais do que jamais pudera imaginar, confiança, felicidade, um amor e agora mais uma amizade além de Alyona.

***
— Noona? — a voz de Jimin trouxe Anja de volta à realidade. Fazia dois dias que não conseguia dormir direito pensando nas ameaças de Andrey. Desconfiava de tudo e de todos, evitando consumir qualquer coisa que não tivesse sido comprada diretamente por ela ou Alyona. Nem de Alex ela aceitava nada, com medo do que pudesse estar escondido ali. Tinha acabado de dar um tapa na garrafa de água que Jimin acabara de abrir, jogando-a longe e o assustando.

— Desculpe, eu…

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele, colocando as mãos protetoramente nos ombros dela e tentando fazer algum contato visual. Mas os olhos verdes agora sempre fugiam de seus olhos, com medo de alguma coisa que ele não conseguia entender.

— O que?

— Você ouviu o que eu perguntei?

— Desculpa. Não aconteceu nada. Só estou cansada… não me lembrava de como era cansativo ensaiar todos os dias para um espetáculo. — mentiu.

Jimin a olhou intrigado. Sabia que era mentira, podia ver isso de longe, mas não queria ser invasivo. Não depois de todos aqueles dias sem se verem. Era a primeira vez que conseguiam um tempo juntos, sozinhos e sem que ele passasse metade do tempo preocupado com uma tosse que não se curava nunca.

— Quer descansar?

— Quero… — respondeu sorrindo pela primeira vez. Seus olhos desviaram dos olhos de Jimin e encontraram os de Andrey, do outro lado da janelinha de vidro da porta. Sorria como se soubesse de algo que mais ninguém sabia, algo cruel e maligno. Anja sabia bem o que era. Afastou- se automaticamente de Jimin, colocando uma distância considerável entre si.

— O que foi? — ele fez menção de olhar na mesma direção que ela, mas ela o abraçou com

força.

— Vamos fugir. — sussurrou em seu ouvido, ainda encarando os olhos malignos de Andrey.

— Não se esqueça do que eu te contei… — viu-o murmurar, sem som, do outro lado da
porta.

— Fugir? Por que? Noona, você está bem? — Jimin se afastou um pouco, observando Anja de perto. Ela estava com olheiras profundas, os olhos vagos e bem mais magra do que ele se lembrava. Mas não era nada que ele considerasse saudável. Estava com cara de doente. — Você comeu? Está fazendo alguma dieta? Pode me contar, sou especialista nelas…

— Dieta? Não, eu… Por que? Acha que estou gorda? — perguntou na defensiva.

— Não, eu… Você anda estranha, Noona. Dispersa. E agora fala em fugir…

— Fugir? Sim! Vamos fugir. Vamos voltar ao Havaí!

Anja não dizia nada com nada. Seus olhos não focavam em nada por mais do que alguns segundos e ela realmente sentia que estava prestes a desmaiar. Mas tinha que aproveitar aqueles minutos junto de Jimin. Ainda não tinha descoberto uma maneira de protegê-lo, então precisava aproveitar cada segundo desse tempo precioso juntos.

Colou o corpo ao de Jimin e fechou os olhos, se afogando no cheiro doce do perfume dele. Quando reabriu os olhos se viu deitada num sofá confortável. Estava numa sala que não conhecia ainda dentro da empresa, mas era um ambiente relaxante, percebeu que havia sido decorado e preparado para situações como aquela. Tentou se sentar, mas alguém a segurou e a forçou a se deitar de novo.

— Calma, Anjinho. Qualquer movimento brusco pode fazer você desmaiar de novo.

Anja fechou os olhos com raiva. Não era aquela voz que esperava ouvir. Mas a conversa chamou a atenção de mais gente na sala e logo ela sentiu as mãozinhas de Jimin ao redor da sua.

— Noona.

Abriu os olhos. Esperava qualquer coisa, menos Jimin e Andrey juntos acudindo ela.

— O que aconteceu?

— Você me abraçou e acabou desmaiando. O diretor ajudou a te trazer para cá. — respondeu ele prontamente. Anja gemeu frustrada. Podia ser qualquer pessoa. Qualquer uma. Mas o destino quis que fosse justamente Andrey.

— Seu amigo James não hesitou em pedir ajuda. Sorte a nossa que eu estava por perto, não é mesmo?

— Cadê a Alyona ou o Alex? — perguntou em japonês. Não queria falar com Andrey, independente dele ter ajudado ou não. Nenhuma ajuda vinda dele era gratuita.

— Estão vindo. Liguei para eles assim que chegamos aqui. — respondeu Jimin sorrindo. Parecia mais pálido do que ela se lembrava, como se na verdade ele fosse a pessoa doente e não ela. Queria sair dali logo, ficar o mais longe que pudesse de Andrey, mas nem ele e nem Jimin deixavam que ela se movesse ou levantasse do sofá.

— Eu quero ir para casa.

— Primeiro vamos esperar o médico… Já pedi que um viesse… depois disso vamos embora. Prometo. — respondeu Jimin.

— Ele não é fofo? — começou Andrey, usando um tom de voz controlado, como se estivesse prestes a agradecer a Jimin por todo o apoio que ele dava a Anja sempre. Mas a bailarina sabia que vinha algo a mais, esse tom era o mais perigoso de todos, era o mesmo que fez com que ela entrasse no jogo dele por tantos anos. — Uma pena que o veneno já esteja correndo nas veias dele… quase me arrependo, mas olha como ele já está pálido. Tsc, já não tem mais volta… — falou com pena.

— O que ele disse, Noona? — perguntou Jimin olhando de Andrey para Anja. Assim como o diretor, ele sorria de modo gentil, mas da parte dele era sincero e a bailarina sabia disso.

— Anda, Anjinho, conte a ele o que eu disse. — falou o russo antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. Tinha deduzido o que o garoto havia dito apenas pelo tom de voz dele. As pessoas eram muito previsíveis, principalmente quando se tratava sobre o amor.

Anja não conseguia dizer nada. Ela sentia seu coração batendo acelerado no peito e o ar escapando muito rapidamente de seus pulmões. Estava prestes a ter um ataque de pânico e não podia dizer nada além de mentiras. E se contasse a Jimin sobre o que Andrey acabara de dizer? E se ele não acreditasse? E se fosse taxada de louca? Deus sabe como ela parece com uma agora.

— Noona, respire! — Jimin falou sentando ao lado dela e passando o braço pelos ombros protetoramente. Ela não conseguia desviar o olhar dele. De perto, ele realmente estava mais pálido, com um rostinho abatido, mas antes achava que era culpa das horas de ensaio e compromissos do grupo. Agora começava a acreditar em Andrey. Apertou os dedos dele entre os seus, ansiosa, querendo juntar forças e tirá-lo do caminho do diretor.

— Não se preocupe, acho que se eu não mandar mais nenhum presente, ele ainda pode se salvar. — falou o russo, ainda naquele tom doce e gentil, como se estivesse dizendo exatamente a mesma coisa que Jimin. De fato, foi essa a interpretação que o coreano fez. — É só me prometer cumprir nosso acordo… ele não precisa passar pelas mesmas coisas que a pobre Frederika passou, não acha? Comecei a me afeiçoar a ele.

O pânico foi tomando conta do corpo e da mente da ruiva, sem conseguir dizer nada. Sentia o ar faltando e apertava cada vez mais a mão de Jimin no processo, olhando de ele para o diretor desesperada.

— Jimi! Jimi! Eu vou morrer! Não consigo respirar! Socorro! — pediu, subindo e descendo o peito numa tentativa vã de puxar mais ar. Antes que tivesse uma síncope nervosa, o médico entrou com Alex e Alyona.

— Todo mundo para fora. — falou o médico, sendo traduzido prontamente por Alyona.

— Jimi! — Anja gritou, segurando a mão dele, mas o médico tinha sido enfático. A última coisa que a bailarina viu antes de receber uma injeção de calmante foi Jimin sorrindo e murmurando que tudo ia ficar bem. Não ia.

 


23. Tear

Chegar para depois ser colocada para fora, logo em seguida não estava nos planos de Alyona. Queria segurar na mão de Anja, garantir que estava tudo bem, que tinha tentado investigar quais as intenções de Andrey e que não tinha descoberto nada. O espetáculo estava a uma semana de distância, e o comeback dos meninos ia começar assim que as datas dos shows tivessem sido definidas, a agenda de todo mundo ia ficar um caos. Não conseguia conceber como Anja ficaria quando isso acontecesse. Conhecia aquele surto da bailarina, tinha a ver com cansaço e ansiedade, mas desconfiava que havia bem mais e que ela não quisesse contar.

Sentiu uma vontade absurda de fumar um cigarro, depois de anos sem ao menos sequer comprar um, mas ficou ali no corredor com Jimin, Alex e Andrey, todos esperando que o médico saísse e desse seu diagnóstico. Jimin explicou para ela o que havia acontecido, contou sobre as falas desconexas, o olhar perdido e os pedidos para fugirem.

Enquanto ele falava, a empresária focou sua atenção no diretor, que andava de um lado ao outro no corredor, parecendo genuinamente preocupado com sua estrela, apesar do sorrisinho sacana que vez ou outra se formava em seus lábios finos quando os olhos passavam por Jimin e Alex.

Jimin continuou falando, mas Aly não conseguia mais desviar o olhar do empresário. Sua intuição dizia que aquilo tinha a ver com ele. Todas as vezes que Anja tinha uma crise de ansiedade forte como aquela, a culpa era dele. Foi assim que elas se afastaram no passado, tinha certeza que tinha o dedo podre dele nisso para tentar afastá-la de Jimin. E ela queria fumar. Não tinha um maldito cigarro por perto. E aquele sorrisinho sacana. Não aguentou.

— O que você fez? — perguntou empurrando Andrey contra a parede e apoiando o braço no pescoço dele, ameaçadoramente. O ataque pegou todo mundo de surpresa, incluindo o russo, que já não sorria.

— O que foi, garota? Perdeu a noção? — perguntou em choque, mas não conseguiu sair do aperto da moça. Desde quando Alyona era tão forte?

— Calma, noona. Ele ajudou. — falou Jimin tentando puxá-la para longe, sem muito sucesso. Alex foi o único que não tentou nada. Se dependesse dele, Andrey estaria morto desde o instante que pisara na Coreia, mas ele não era um assassino – nem conhecia nenhum – então tudo o que lhe restava era sonhar.

— Ele é o culpado, Jimin-ssi. — falou Aly entredentes. — Tenho certeza que ele é o culpado. — falou em coreano. Voltou a encarar Andrey de perto, furiosa. — Eu sei que tem seu dedo podre nas crises da Anja. Antes de você chegar ela estava muito bem, obrigada. Foi só você aparecer para as crises voltarem também. O QUE VOCÊ FEZ, FILHO DA PUTA? — gritou, assustando todo mundo de novo.

— OPA, OPA, OPA! O que eu perdi? — interrompeu Jin, aparecendo no corredor com um buquê grande de lírios e uma cesta de frutas. Colocou os presentes nas mãos de Alex e foi até a empresária. — Solte-o, noona.

Alyona nem se moveu. Estava furiosa há muito tempo, com muita coisa, não conseguia mais segurar aquele sentimento dentro de si sem uma válvula de escape. Calhou dessa válvula ser o pescoço de Andrey.

— Estou curiosa, qual foi seu argumento dessa vez? Da outra vez você disse a ela que eu era… como foi que disse mesmo? — começou ela ameaçadoramente, desviando o olhar fingindo que tentava se lembrar. — “Rebelde demais. Ia afundar a carreira dela”? Não foi? — Sibilou. — Que foi? Achou que ela não me contaria? O que foi dessa vez? O que disse sobre os meninos? — perguntou.

Andrey estava em choque, não esperava que Alyona fosse tão “física” em sua raiva e, claro, muito menos que ela soubesse das coisas que falou a Anja sobre ela e Alex. E se ela sabia sobre si mesma, também sabia sobre o bailarino. Mesmo assim ficou parado no lugar, um sorriso brincando nos lábios finos, esperando que ela perdesse a cabeça e saísse de sua vida por si mesma como consequência. Desviou os olhos dos dela e encarou a platéia. Jin, Jimin e Alex pareciam ver a empresária pela primeira vez, em choque.

— Continue, Aly… Estamos todos esperando o segurança e eu não vou precisar fazer mais nada… — sussurrou ele.

Antes que ela reagisse, Alex cutucou Jin e fez sinal com a cabeça para que ele interferisse.
Prontamente o rapaz colocou a mão no ombro da empresária.

— Aly-ssi. — chamou. Ela não sabe se foi o tratamento formal, a delicadeza ou o fato dele não chamá-la de noona que tirou aquela nuvem vermelha de ódio de seus olhos. Afrouxou o aperto no pescoço de Andrey e obedeceu quando Jin a afastou dele. Sentiu uma vontade absurda de se agarrar nele e chorar, mas continuava com ódio demais até para isso. Prevendo que ela recomeçaria se ficassem ali, Jin a puxou para longe, dando um olhar significativo para Jimin. O médico abriu a porta da sala em que estava com Anja pouco depois, mas nem ele e nem Alyona viram ou ouviram o que tinha a dizer.

Dobraram um corredor e entraram numa sala aleatória. Quando ligaram a luz, se descobriram numa sala cheia de figurinos antigos ou pouco usados. Por precaução, Jin trancou a porta antes de finalmente encarar Alyona. Ela já não parecia tão brava ou violenta, estava frágil e cansada.

— O que aconteceu? — perguntou se encostando na porta.

— Muita coisa. Você não entenderia.

Alyona evitou o olhar dele, admirando a sala em vez de assumir que queria muito que ele saísse da porta para ela poder ver como Anja estava. Jin a observava atentamente, ela parecia, além de obviamente estressada, cansada, triste e com raiva de alguma coisa.

— Aquilo tudo foi só porque a noona desmaiou ou tem mais alguma coisa? — o tom da pergunta dele finalmente fez com que ela o encarasse. Parte da culpa era dele, por nunca explicar o que havia dito ao piano semanas atrás. Ainda não sabia definir o que sentia por ele ou o que ele sentia por ela e isso, mais do que qualquer coisa envolvendo seu trabalho, a estressava mais ainda.

— Você quer mesmo saber?

— Quero!

— Aquilo lá foi só uma parte da raiva que estou sentindo. — começou ela, gesticulando e andando de um lado para o outro, desviando o olhar dele para não começar a chorar de raiva. — O Andrey é a pior espécie de homem que existe e ele tem um padrão destrutivo que sempre leva Anja e quem tiver por perto para o buraco. Conheço os sinais, ele está usando o poder que tem sobre ela para estragar tudo. Para ajudar, acho que ela não vai ter condições de continuar com o contrato, mas isso é só a minha intuição. E ai… — ela parou para respirar, de costas para ele. — Aí tem você.

— Eu? O que tem eu?

— Você! Você não se decide. Nunca sei o que está pensando, sentindo… nunca sei o que esperar de você! — falou olhando finalmente para ele. Sentiu os olhos arderem, mas não derramou nenhuma lágrima. — E eu estava no meu melhor momento ali no corredor e vem você com flores e frutas para a Anja e em vez de me apoiar me tira de lá! Por que me tirou de lá?!

— Era para você. — interrompeu ele. Alyona parou de gesticular.

— O que?

— As flores… Eram para você. As frutas, sim, eram para a noona. Mas as flores eram para você. — falou baixinho, arrependido de ter deixado o buquê para trás com Alex e Jimin. Ficaram em silêncio se encarando. Ela esperando que ele se explicasse, porque estava cansada de tentar desvendar aquele homem, ele criando coragem para finalmente se declarar como havia planejado desde o minuto em que comprara as flores.

Muito tempo depois, ele se afastou da porta e foi até ela, olhando-a minuciosamente. Passou às mãos de leve no cabelo comprido que ele tanto amava, colocando-o atrás da orelha e acariciando seu rosto. Ela não conseguia desviar o olhar dos dele, sentindo seus dedos passarem de leve pelas têmporas, bochecha e lábios.

— Eu gosto muito de você, noona. Muito. — sussurrou finalmente. — Gostei de você no instante que te vi nervosa traduzindo tudo para os caras aquele dia no fliperama. Gostei de você quando me beijou sem querer na piscina de bolinhas. Deus, amei você quando se intrometeu na briga entre Anja-ssi e Jungkook por causa da filmagem! — falou fazendo uma careta típica que a fez sorrir pela primeira vez em muito tempo. — Amei te ver tocando piano. — esticou a mão grande espalmada na mão dela, admirando os dedos longos e finos que tocavam tão bem o instrumento. — Amei provar dos seus beijos e seu temperamento. — continuou, desviando o olhar da mão dela para os lábios. — E amo, simplesmente amo, como fica frágil quando está comigo, porque vejo que apesar de ser durona, você é extremamente gentil e fofa e, acima de tudo, humana. — completou encarando os olhos escuros dela. — Eu te amo, Alyona.

O coração dela havia parado junto com a respiração. Quando ele finalmente acabou de falar, ela não sabia como reagir. Sentia que o mundo tinha dado uma volta inteira ao redor daquela sala. Soltou o ar lentamente pelos lábios, se controlando para não chorar diante daquela declaração. Mas Jin não havia terminado ainda. Lentamente ele abaixou a cabeça, se aproximando dela, como que pedindo permissão. Ela continuou no mesmo lugar, hipnotizada por aquele homem. Quando faltava poucos milímetros para que os lábios dele se tocassem, ela perdeu a paciência.

Fechou os olhos, sentindo a maciez dos lábios dele contra os seus, se abrindo lentamente para uma infinidade de sensações que ela nunca havia experimentado antes. A língua dele era quente e macia e se movia com calma, como se quisesse prolongar ao máximo aquele momento e ela se deixou levar por esse ritmo. Deixou a mente se afastar dos problemas, se concentrando nos ombros largos, nos braços longos e no perfume de Kim SeokJin. Seu coração batia forte contra seu peito e ela tinha a impressão de que ele estava sentindo, pois a abraçou com mais força, puxando-a para si.

***

Alex e Jimin foram os primeiros a receber o médico quando ele abriu a porta da sala onde Anja agora repousava. Pareciam ansiosos, mas o médico se dirigiu a Andrey.

— Ela já está mais calma. Pediu para falar com o senhor. — falou o médico em coreano. Alex e Jimin entenderam o que ele havia dito, mas não entenderam ela ter pedido justamente por Andrey e não por eles.

— O que ele disse? — perguntou o diretor para Alex.

— Ela quer te ver. — traduziu o bailarino.

— Tem certeza, doutor? Ela não pediu para me ver? — perguntou Jimin, confuso.

— Tenho. Ela pediu claramente para falar com ele. — repetiu o médico.

Andrey passou por eles com ar de soberba e fechou a porta atrás de si, deixando Jimin mais confuso ainda. Mas ele não teve tempo de ir atrás, assim que a porta se fechou o médico recomeçou a falar.

— A paciente apresenta sinais de esgotamento severo. Apliquei uma injeção que vai ajudá-la por algumas horas, mas ela precisa de alguns dias de descanso continuo. Quis levá-la ao hospital, mas ela se recusa. Foi então que pediu para falar com o diretor. — explicou.

Você acha que ela vai conseguir se apresentar? — perguntou Alex.

—Vai. Ela só precisa de no máximo dois dias. Mas a partir de agora vou acompanhar os preparativos com a equipe. — falou com simplicidade. Como nenhum dos dois se deu por satisfeito ele continuou: — Foi ela mesma que pediu.

Os dois concordaram com a cabeça ao mesmo tempo e depois cumprimentaram o médico quando ele se retirou. Alex olhou para a porta fechada e para Jimin.

— Por que justo ele? — perguntou apontando a porta com a cabeça.

— Não sei, hyung. Se ele não sair em dois minutos, vou invadir a sala. — respondeu Jimin determinado. Mas a porta se abriu logo em seguida e o diretor saiu com um ar de satisfação ainda maior.

— Senhores. — murmurou antes de ir embora.

Os dois não esperaram e entraram logo em seguida. Anja estava mais pálida do que nunca, o cabelo parecendo fogo contra papel ao contrastar com a pele dela. Mas os olhos pareciam lúcidos e bem mais calmos. Ela sorriu para os dois assim que entraram e fechou os olhos, cansada. Queria dormir, mas não ali.

— Podemos ir para casa, agora?

— Claro. Vou chamar o motorista.

— Cadê a Aly?

— Você não vai acreditar, mas ela precisou ser retirada do corredor. Quase matou o Andrey na pancada. — respondeu Alex, segurando na mão fria da irmã. Queria muito saber o que ela e o diretor haviam conversado, mas sabia que ela não queria, por isso tinha pedido para ir embora. Jimin não conseguia parar de pensar que havia feito alguma coisa errada. Chamou o motorista do Bangtan e não o da empresa, ansioso por se fazer ser notado, mas Anja parecia cada vez mais distante dele. O que havia acontecido naqueles minutos?