A meu favor tenho o verde secreto dos teus olhos

A meu favor tenho o verde secreto dos teus olhos

Sinopse: Amante de poesias, Joshua Hong narra neste capítulo um episódio passado em relação ao amor. Partilhando de diversas emoções durante uma narrativa simplificada ele traz o leitor ao seu mundo de reflexões e experiências.
Gênero: Romance
Classificação: Livre
Restrição: Não tem
Beta: Thalia Grace

 

Já quis saber qual a sensação de voar. Seria doce como a imaginação pueril de que nuvens parecem algodão doce? Mas no dia em que senti alcançar voo pela primeira vez, eu desabei no chão porque estava amando. Foi daquele dia em diante que eu decidi não amar mais, para que meu coração não fosse partido por nenhum algo-que-nunca-aconteceu. Até que, não amando, cai no chão do mesmo jeito e quebrei o nariz, e no dia seguinte o dono de uma farmácia, quando me viu olhando o céu no estacionamento do shopping, perguntou:

— O que houve, querido?

Fiquei envergonhado.

— Foi um acidentezinho em casa — Respondi. — Nada demais. — Para minha surpresa ele riu, e enquanto ria seus olhos pequenos ficavam cada vez menores, apertados como a cabeça de uma agulha. Então ele respondeu:

— Não, não com seu nariz. Com seu coração. Quando a gente olha assim para o céu, desse jeito como se desejasse ser absorvido pela imensidão, quiçá já não tenha sido, tem sempre alguma coisa ocorrendo na caixinha torácica.

Apesar de tudo, o homem não esperou por nenhuma resposta minha, provavelmente já sabia que não teria uma. Assim que deu dois tapinhas nas minhas costas foi embora como se esperasse que eu perguntasse a mim mesmo: não há nada além de meu nariz que esteja machucado? Se eu tivesse a leveza de um pássaro não haveria quedas, contudo se eu a tivesse seria necessário amar. Não posso dizer que o homem mentiu, pois, todas as vezes em que encarei o céu não foi simplesmente porque ele é surpreendentemente lindo, mas porque eu buscava respostas para alguma coisa, qualquer coisa. Desde por que faço parte da espécie até como explicar o desejo absurdo em não desejar algo. Teve uma só vez em que olhei para o céu por ele ser bonito e vi um arco-íris com tons de cores fortíssimos, podia jurar que não enxerguei apenas sete cores. Ou, quem sabe, eu desejara ter inventado alguns novos tons.

Com o passar dos minutos, o estacionamento ficou cada vez mais cheio. Precisei ir embora. Precisei abandonar o céu que se deformava na primeira tarde de outono. Precisei perder o que mais meu coração tinha por bater ao léu. Minhas mãos metidas nos bolsos da calça ficaram aquecidas pelo pano no interior, e, enquanto eu caminhava, meu destino final dividiu-se em voltar para casa ou observar mais um pouco do céu, o qual aos poucos ia perdendo sua luminosidade dando cara a um céu com estrelas já mortas e Lua crescente. The funniest thing was (a coisa mais engraçada foi): meus pensamentos não resultaram em nada, pois a biblioteca do bairro ainda estava aberta.

— Boa noite, Joshua! — A recepcionista me cumprimentou assim que me viu passar pela porta de vidro. Pareceu que ela me vira desde o outro lado da rua, indeciso. — E esse nariz?

— Boa noite — Disse e sorri com um pouco de vergonha — Ah, eu caí. Enfim, não irei bagunçar nada hoje. O.k? Sinto muito por aquele dia, não sou muito bom em organizar tantos livros.

— O menino de L.A não muda, hein? — Ela deu uma risadinha com simpatia — Está tudo bem, é só colocar o livro que pegar no mesmo lugar em que estava, senão terei que ficar aqui até mais tarde, longe dos meus pequenos.

A biblioteca não estava muito cheia, o que não era, de certa forma, o usual. Lembrei de como ficava cheia nos dias de semana quando os universitários passavam horas estudando ali e eu ia lá passar horas vendo livros novos de poesia. Esse hábito começou em meus 19 anos, quando senti um conforto tão abstrato adentrar meu corpo no mesmo dia em que meu coração fora partido em mil pedacinhos por ela. Não seria estranho dizer que palavras compreendem tudo muito bem?

Caminhei até o fundo da biblioteca, lugar onde minhas seções preferidas ficavam: literatura portuguesa e brasileira, inglesa e americana, e coreana, somente de poesias. Peguei um dos primeiros livros que vi na seção de literatura portuguesa, um novo do acervo: No Reino da Dinamarca, por Alexandre O’Neill. Um autor que, sendo bem sincero, nunca li nada sobre. Olhei o verso e lá estava: importante poeta do movimento surrealista português. Sentei-me à mesa mais próxima, sozinho, e como de costume sorteei uma página aleatória para ser lida.

A meu favor

A meu favor

Tenho o verde secreto dos teus olhos

Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor

O tapete que vai partir para o infinito

Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor

As paredes que insultam devagar</em

Certo refúgio acima do murmúrio

Que da vida corrente teime em vir

O barco escondido pela folhagem

O jardim onde a aventura recomeça.

Reli o poema três vezes imaginando como seria lê-lo em voz alta, inspirando ar para os pulmões e expirando-o junto às palavras. A cada vez experimentei meu coração arder de um jeito diferente durante os versos. Na primeira vez, “a meu favor tenho o verde secreto dos teus olhos“, senti como se eu a amasse de novo. Se eu voasse, ainda que tão baixo, eu poderia tocá-la, não poderia? Porque eu a tocaria com o vento nas minhas asas e veria, do alto, o brilho de seus olhos verdes. A meu favor não teria apenas palavras de ódio, mas as de amor também, principalmente elas. A meu favor “o tapete que vai partir para o infinito esta noite ou uma noite qualquer“. Senti-me emocionado, porque infinito era uma de minhas palavras favoritas, exatamente pela imensidão que tem. Fez-me lembrar do céu que vi há tão pouco tempo. Infinito. Logo, a meu favor “o jardim onde a aventura recomeça“. O que havia com meu coração eu não sabia. Só sabia que estava experimentando a melhor aventura humana na terra, a de me sentir acolhido por palavras que nunca foram minhas. Deleitei-me em verdade, e com puro carinho, percebi que aquelas novas palavras exalavam amor. Sei lá, deve ser coisa de gente com sensibilidade a mil. Deve ser, sorri.
Se eu pudesse ao menos voar ainda que com o coração quebrado… é que não havia sinal de nenhuma cola para juntar os pedaços. Pois amar era isso então, não ter respostas, nem cola, nem ligações, e ter sim um coração que escuta.

📚

Não tive tanto tempo para observar o céu no caminho de volta a casa. Vez ou outra inclinei o pescoço para enxergar aquela escuridão, todavia muitas estrelas já não são visíveis há anos e é por isso que o céu noturno nunca me atraiu. Adoraria poder ver constelações completas. Meu método tem sido, portanto, ver imagens na internet, as quais eu não posso saber se são reais ou se têm algum efeito que possivelmente lhes tiram a beleza natural. Existiria alguém tão próximo de mim que já tenha visto uma constelação? Tem gente que diz ser possível ver constelações no olhar de uma pessoa apaixonada. É justo dizer isso. Jeonghan, quando se apaixonou no terceiro ano do ensino médio, me disse que enxergava tantas estrelas nos olhos, não nos olhos de quem ele amava, mas nos dele. Não sei se em meus olhos surgiram estrelas dançantes no momento em que os coloquei sobre ela, mas quem pode dizer se tais “estrelas dançantes” não dançaram e fizeram muita festa no meu coração. Tanta festa para eu sentir o sabor da felicidade mesmo que a curto prazo, mesmo que só. E se a festa acabou, foi por ter sido tudo rápido demais. Até minha queda anterior a esse nariz quebrado foi rápida demais.

Tiveram dias em que olhei o horizonte pela janela, e o vento de fora entrava para passear em meus cabelos pretos. Alguns de meus amigos diziam: observar o horizonte é o que te dá mais desse espírito poético, é sempre bonito e silencioso. Nesses momentos eu olhava para o céu com o coração apertado e percebia meu desgosto ao pensar que várias pessoas poderiam se identificar com o mesmo que eu. Ao mesmo tempo me dava um alívio imenso ao pensar que eu não podia ser tão único assim.

A meu favor tenho o jardim onde a aventura recomeça.