A Song Written Easily

A Song Written Easily

  • Por: Amy
  • Categoria: Kpop | NCT 127
  • Palavras: 18141
  • Visualizações: 271

Sinopse: Mark Lee jamais imaginou que ao concordar em visitar o Mega Aquarium com o amigo, mesmo contra sua vontade, sua vida e tudo que acreditava ser real mudariam para sempre.
Gênero: Romance, ficção, aventura, fantasia
Classificação: Livre
Restrição: O fofíssimo Mark Lee é fixo.
Beta: Alex Russo



A história é dividida por músicas que me inspiraram a escrever cada cena, então para melhor imersão nessa aventura, eu recomendo ouvir essa playlist playlist, as músicas estão em ordem, é só ir pulando conforme as cenas mudam.

– Hyuck, eu já falei que não curto essas coisas. Animais presos em vidros e obrigados a viver confinados fora de seu habitat natural não é exatamente a minha praia para um dia de folga. E eu quero tentar terminar aquela música.
– Ah, vamos Mark, a gente não faz nada juntos longe das câmeras faz tempo. E é dia de folga, não é para pensar em trabalho. Você precisa relaxar para recuperar a inspiração. – Puxou o caderno onde Mark batia a caneta fazia mais de meia hora sem escrever palavra alguma.
– Pede pro Doyoung, ele tá querendo sair de qualquer forma.
– Eu já jantei com o Doyoung hyung ontem, preciso dar atenção a todos os meus amigos ou vão me acusar de favoritismo. Por favor, por favor. Prometo que vai ser divertido. – o mais novo o olhou, ainda com dúvida no olhar, até o amigo completar – Eu te pago um sorvete.
– Tá bom, Lee Donghyuck, eu aceito. Não precisa apelar tão baixo. –
Mark não pôde deixar de rir do jeitinho que Haechan batia palmas, animado por tê-lo feito aceitar. – Vamos, antes que eu mude de ideia. E eu vou escolher o sorvete mais caro que eu encontrar, prepare a carteira.
Os amigos seguiram no carro fornecido pela empresa para sua própria segurança na companhia de dois guarda costas. Às vezes incomodava o fato de que precisava sempre estar acompanhado e raras eram as oportunidades de estar realmente a vontade em um ambiente, mas Mark Lee considerava aquele um preço muito pequeno a se pagar por todas as coisas boas que aquela vida o proporcionava.
Pelo menos daquela vez, com a ajuda de um chapéu e uma máscara, os dois puderam entrar no MegaAquarium que havia sido inaugurado a algum tempo em Seul sem a companhia dos seguranças. O local não estava muito movimentado de qualquer forma, seria difícil serem reconhecidos.
Compraram os ingressos e entraram já admirados com a grandiosidade do lugar. Mesmo que fosse contra, Mark não podia negar que era uma visão deslumbrante. O mar sempre foi algo que o fascinava.
As paredes de vidro do corredor de entrada, repletos de diversas e coloridas formas de vida, convivendo em harmonia e sincronia era algo de tirar o fôlego, e assim que chegaram ao fim do corredor, Haechan não pôde deixar de provocar:
– Para quem nem queria vir, seus olhinhos estão brilhando demais.
– Cala a boca – o garoto o empurrou pelo ombro, e voltaram a andar por um dos lados do aquário gigantesco, cheio de salas para visitação – É realmente um lugar lindo aos olhos, mas é meio melancólico.
– Melancólico é você com esse papo, credo. Vem, olha que bonito o peixe palhaço – o amigo apontou para o vidro, rindo.
– Quantos Nemo será que tem aí no meio, perdidos, longe da família, passando frio e fome…?
– Mark Lee, eu vou te dar um soco! – o outro ameaçou, mas ambos estavam rindo.
Ele não confessaria em voz alta, mas estava feliz de ter aceitado o convite. Realmente sentia falta de estar com o amigo, apesar de passarem praticamente todos os dias juntos. Ali, só entre eles, tinham a liberdade de ser eles mesmos.
O lugar ficava cada vez mais confuso, os corredores pareciam todos iguais, as placas de sinalização desorganizadas e eles já estavam andando fazia mais de uma hora, sem ter certeza de que tinham explorado todo o local para fazer valer o preço da entrada.
– Mas eu tenho certeza de que tem um tanque de tubarões e um de passar a mão em raia, estava escrito no panfleto. Eu não saio daqui sem tocar numa raia.
– Meus pés estão cansados, eu não vim com calçado de fazer uma caminhada de cinco quilômetros em círculos. A gente passou pelo corredor do aquário de peixe-leão tantas vezes que eles devem estar rindo da nossa cara, preciso descansar um pouco. – apontou para um dos bancos que ficava em frente a um aquário iluminado e bonito, mas que não tinha nenhum peixe aparente.
– Tudo bem se eu continuar procurando?
– Não se preocupe, pode ir e quando achar compartilhe sua localização comigo que eu te procuro pelo GPS do celular.
– A tecnologia nos permite fazer isso?
– Sim, pode ir. Se não encontrar e resolver desistir eu vou estar aqui nesse banco, tomando a minha coca-cola esperando meus pés pararem de latejar.
– Obrigado! – o menino sorriu tão grande, que parecia que o fato de Mark ter concordado em não terminar aquele passeio tão cedo era algo muito importante.
Ah, se ele não gostasse tanto de ver o amigo feliz daquele jeito…
A sessão em que ele resolveu descansar estava vazia, podia ouvir vozes e passos ecoando nas outras salas próximas, mas estava sozinho ali e respirou aliviado por isso sem nem perceber. Retirou os fones de ouvido do bolso e os colocou, escolhendo uma música boa pra aquele momento e guardando o celular de volta no bolso do casaco.
Escolheu A Song WrittenEasily, do ONEUS, e fechou os olhos, apreciando a letra tão bonita soltando murmúrios baixinhos e melódicos.
O sentimento que a música trazia era tão certeiro que o garoto observou os aquários ao redor com o peito vibrando numa emoção estranha, a de saber que havia tanta vida no mundo, que a sua era praticamente insignificante. Não era necessariamente um sentimento ruim, apenas a percepção de ser pequenininho perto de algo tão maior que você, mas que o fez se sentir abençoado por poder presenciar algo tão glorioso.
Conhecia tão bem aquela sensação, que foi automático aproveitar aquele segundo de silêncio entre uma música e outra para abaixar a cabeça e em uma reverência contida, agradecendo a Deus por ser quem era. Por fazer parte de algo maior, mesmo que às vezes se sentisse um daqueles peixes no aquário ao seu redor, longe de casa e sendo observado por pessoas o dia todo.
Era aquele era o tipo de sentimento que só música podia despertar nele. Era por isso que a música era tão importante na sua vida. Ela dava sentido às coisas, o fazia sentir abençoado por estar vivo, trazia o melhor que havia dentro de si para fora, e era isso que Mark Lee buscava ser a cada dia. Alguém melhor, alguém digno e grato por ser um dos peixinhos naquele aquário tão aterrorizante quanto magnífico que era sua vida como parte do NCT.
Foi nesse momento que viu um vulto passar ao fundo do aquário turvo a sua frente, que até o momento pensava estar vazio. Era grande demais pra ser um peixe, será que estivera o tempo todo em frente ao aquário do tubarão que Haechan tanto procurava?
O problema era que, até onde sabia, Mark tinha quase certeza de que não existiam tubarões com brilho holográfico, então movido pela curiosidade da descoberta, levantou do banco e caminhou até perto do vidro, procurando a causa daquele vulto.
Após alguns segundo, viu novamente, e dessa vez não tinha como achar que era coisa da sua cabeça. A criatura se aproximava calmamente, saindo da parte escura do aquário e ele tentou buscar em seu cérebro algum peixe que pudesse ter aquele tamanho e brilho, e quando estava quase desistindo, o vulto finalmente chegou perto o suficiente para que ele visse o que era.
Para sua total surpresa não era um peixe, muito menos um tubarão. Era uma garota! Uma muito bonita, porém com uma longa cauda coberta de escamas holográficas, que oscilavam entre o roxo, rosa e turquesa. Estava nadando calmamente, completamente imersa, com os cabelos negros flutuando ao redor de seu rosto, contrastando com seus olhos muito claros.
Ele deu um passo pra trás com o susto, a encarando com seus pequenos olhos arregalados por algum tempo. Retirou a máscara que cobria metade de seu rosto como se isso fosse ajudá-lo a ver melhor, e após passado o choque inicial, ele finalmente se deu conta, com um riso consternado.
Provavelmente estava na sessão onde normalmente ficava alguém vestido de sereia para tirar foto com os visitantes e entreter as crianças. Aquele aquário era realmente de alta qualidade, não havia um único defeito na fantasia daquela sereia.
Se aproximou ainda mais e observou em completa admiração cada escama da garota que flutuava na diagonal virada em sua direção, cada barbatana que ondulava ao redor de seu quadril, parecendo ter vida. A parte em que a fantasia terminava, pouco abaixo do umbigo dela, era um mesclado perfeito de pele humana e pequenas escamas cada vez mais claras que iam desaparecendo a cada centímetro. Era impossível dizer onde o tecido terminava.
Era muito bem feito, chegava ser hipnotizante.
Ela se aproximou rápido, tocou o vidro com as duas mãos e tomou impulso, nadando de volta para o fundo turvo do aquário até desaparecer, provavelmente para respirar sem ser notada, pra não perder a magia, Mark não pode deixar de comentar baixinho:
– Sua equipe de maquiagem deve ser muito boa – e riu sozinho, imaginando quanto tempo de trabalho levava para fazer aquilo e garantir que ficasse impermeável.
Por algum motivo que ainda não entendia, ele continuou parado no mesmo lugar, aguardando em expectativa o momento em que ela voltaria a aparecer. Seu coração ainda batia um pouco alterado, e a música em seus ouvidos o embalava, enquanto procurava qualquer sinal da garota.
Ela voltou a se aproximar, nadando em espirais lentas e controladas, observando o garoto. Mark tinha que admitir, ela sabia nadar muito bem, não se lembrava de já ter visto alguém fazer aqueles movimentos com tanta naturalidade. Flutuando submersa, inclinada em direção ao garoto que ela observava com uma curiosidade divertida nos olhos. Com sua barbatana na extremidade de sua cauda quase encostando ao fundo arenoso do enorme aquário, a garota deixou que uma de suas mãos tocasse o vidro na altura da cabeça do garoto a sua frente.
O contato visual com aqueles olhos gélidos fez com que os pelos da nuca de Mark de eriçassem. Cada centímetro de seu rosto parecia ter sido esculpido para ser assustadoramente hipnotizante, ele sentia que jamais iria querer desviar o olhar porque era uma visão deslumbrante e qualquer segundo sem vê-la seria desperdício. Quanto mais admirava, mais sentia que ela era a garota mais bonita que ele já havia visto. Talvez fosse o efeito desacelerado de estar submersa e ter uma bela produção por trás, mas seja lá o que fosse fez com que ele desse o último passo que o separava do vidro e levar lentamente a mão até ficar exatamente sobre a dela. Apenas o vidro separava seu toque, mas seus olhos pareciam ter se encontrado e estar tão conectados, era como se não houvesse nenhuma barreira entre eles.
Quando finalmente se deu conta do que estava fazendo, e começara a se sentir ridículo por ter agido no impulso e agora estar parado na frente de um vidro cheio de água, encenando um momento daquele pra qualquer um que passasse por ali, fez menção de se afastar.
A garota, no entanto, calmamente apontou para a esquerda com o dedo, como quem queria dizer algo. Mark olhou na direção que ela apontava e não viu nada além de outro tanque de água aparentemente vazio, na parede lateral.
– Aquele aquário? – questionou, apontando para o mesmo lugar e ela fez que sim com a cabeça, fazendo com que seus cabelos balançassem para frente e pra trás – o que tem ele?
Em resposta, ela apenas apontou novamente, com um aceno firme de cabeça, de quem mais parecia estar tentando se convencer de alguma coisa, então se virou e nadou novamente para a parte escura da água, até sumir do campo de visão de Mark. Ele olhou para onde ela apontava e de volta para onde segundos atrás ela havia o hipnotizado com sua beleza descomunal.
Quanto tempo havia se passado durante aquela cena? Como ela conseguia prender a respiração por tanto tempo?
Ela devia ser realmente profissional, constatou admirado.
Quando repetiu o ato de virar a cabeça pela quarta vez, a viu emergir da água, mas agora não havia um vidro os separando. O topo alto do tanque lateral era aberto, só agora ele se dera conta. Sem parecer precisar respirar pesadamente em busca do ar que ficou tanto tempo privada por estar submersa, ela se debruçou suavemente sobre a beirada de madeira escura, que ficava a uns três metros do chão, espirrando um pouco de água pela cerâmica lustrada da enorme sala.
Ele se aproximou, se sentindo meio enfeitiçado pela visão, até parar a alguns passos do vidro, com a cabeça inclinada para cima. Não conseguia desviar os olhos dela, e ela não parecia fazer questão nenhuma de quebrar o contato visual intenso.
– Você canta bem – foram as palavras doces que saíram pela boca da garota fantasiada e Mark sentiu o estômago flutuar de um jeito totalmente novo. Estava acostumado com elogios a sua voz, mas aquele em específico, parecia muito diferente.
Talvez fosse porque sua voz tinha um timbre que Mark jamais havia escutado, e considerando seu trabalho no ramo da música, aquilo era algo no mínimo peculiar. Ela soava como uma melodia vibrante, quase como se a garota-sereia tivesse um sintetizador na voz. Eles não podiam forjar até aquilo, não é? Aquela era mesmo a voz dela?
– Quando foi que me ouviu cantar? – ele perguntou, mas no segundo seguinte se arrependeu por perceber que era uma pergunta burra.
Você é um idol de um grupo famoso, seu idiota, é claro que ela já te ouviu cantar. Ela deve ter te reconhecido, ou até mesmo ser uma fã, ele pensou.
Porém, ao contrário do que seus pensamentos concluíram, a garota respondeu na mesma voz calma e envolvente:
– Agora pouco, sentado ali no banco – ela apontou para onde o garoto estava descansando até poucos minutos atrás e então se debruçou sobre os braços, tombando a cabeça para o lado. Seus cabelos escuros, até então penteados para trás pela água, agora caiam pela beirada do vidro. – Desculpa ter ficado espiando, você estava de olhos fechados, mas cantava tão bonitinho que eu não resisti.
– Como foi que me ouviu? Eu estava praticamente sussurrando? – se preocupou. Lembrava de cantar o mais baixinho possível, com medo de que alguém o visse e achasse que era um daqueles esquisitos fica cantando em público quando estava de fone de ouvido, o que de fato era mesmo, mas infelizmente não conseguia resistir.
– Eu tenho um ouvido muito bom – ela apontou seu dedo para a própria orelha, com um sorrisinho pequeno e esperto. – E aqui é muito tedioso, raramente aparece algo que capture a minha atenção assim.
– Deve ser um trabalho meio chato, com todo respeito.
– Trabalho?
– É, ficar nadando para lá e para cá o dia inteiro, todo dia, tendo que tirar foto com as pessoas, forçando sorrisos quando no fundo você só quer ir para casa. – falou, mas sentia que já não falava exatamente dela.
A garota-sereia, por sua vez, sem saber que o garoto fazia praticamente um desabafo pessoal, levantou a cabeça assustada com o que ouviu.
– Você sabe quem eu sou? – ele podia jurar ter visto os olhos da garota brilharem num flash que durou milésimos de segundos, e piscou confuso.
– Não devia ser eu a fazer essa pergunta? – rebateu, meio atordoado.
– Essa conversa está muito esquisita, vamos tentar de novo. Qual seu nome, garoto da voz bonita?
Ele a encarou, como se esperasse que fosse uma brincadeira, mas ela aguardava a resposta, séria. Ele estava sem máscara, não era comum que as pessoas falassem consigo sem reconhecê-lo. Não querendo parecer mal educado, ou prepotente, ele respondeu, mesmo estranhando ela não saber quem ele era.
– Mark Lee – ele abaixou a cabeça numa pequena e educada reverência, que fez a garota soltar um risinho – E o seu?
– Pode me chamar de… – ela concluiu, como se estivesse escolhendo o nome naquele momento. – Agora me diga, por que disse aquilo sobre forçar sorrisos quando no fundo eu só quero ir para casa?
– Eu só… – ele desviou os olhos até os pés, enfiando as mãos nos bolsos da calça e procurando pelas palavras certas para não soar ingrato – Conheço bem esse sentimento. Minha rotina as vezes é pesada e cansativa, até mesmo repetitiva, e eu só quero ir para casa, cair na minha cama e dormir por 18 horas.
– Ah… – parecia decepcionada com a resposta, afundou o rosto nos braços debruçados e bateu a cauda na superfície da água atrás de si, respingando água para todo lado. – Eu pensei que… ah, deixa pra lá. E por que você não pode ir para casa e dormir por 18 horas, Mark Lee?
A forma que o nome de Mark vibrava na voz da garota fez o estômago dele flutuar mais uma vez, soava mais bonito do que qualquer outra vez que tenha ouvido alguém lhe chamar.
– Tenho uma vida corrida, preciso continuar seguindo o cronograma mesmo cansado, não sei se você tem isso aqui, mas é bem chato às vezes. Só posso ir para casa quando todos os eventos do dia estiverem concluídos – ele deu de ombros, sendo o mais sincero que podia sem nem compreender porque havia dito algo tão pessoal para alguém que acabou de conhecer.
– Pensa pelo lado bom, você sabe que sempre pode ir para casa no fim do dia. Nem todo mundo pode. – o sorriso que ela direcionou ao garoto, apesar de bonito, era melancólico.
Aquele foi o sorriso que despertou em Mark a curiosidade em saber mais sobre a garota-sereia. Ele sentia um toque de mistério genuíno em tudo que ela dizia, o que o deixava instigado a mergulhar cada vez mais fundo naquela conversa, naquele ser estranhamente envolvente. Porém seu celular apitou, o fazendo desviar a atenção por alguns segundos lendo a mensagem de Haechan.
“Não encontrei 🙁 desisto da caça às raias por hoje, me encontre na saída, quero sorvete de consolação :(” Hyuck às 16:19
– Eu preciso ir – anunciou quase como quem pede desculpas.
– Tudo bem, eu não deveria ficar tanto tempo fora da água de qualquer forma – ela levantou a cabeça e se apoiou na beirada de borracha com as mãos, tirando todo o tronco para fora da água. Mark mais uma vez observou admirado onde a pele da barriga de se transformava em escamas, mas logo desviou o olhar, não querendo parecer desrespeitoso.
– Você está aqui sempre? – ele perguntou, com mais interesse do que deveria, apontando para o grande aquário onde havia lhe pela primeira vez.
– Todos os dias. – ela garantiu com um aceno firme – Forçando sorrisos e querendo ir para casa… – e lá estava novamente o tom misterioso e o sorriso melancólico que fazia o interior de Mark ferver com um sentimento desconhecido.
– Então eu volto outro dia para continuar nossa conversa esquisita – ele disse abrindo um sorriso e apontando os dois indicadores na direção da garota-sereia, que respondeu com um sorriso repleto de ternura e uma batida de cauda empolgada na água mais uma vez.
– Volte, por favor.
– Eu volto, prometo. – repetiu sorrindo, com mais firmeza dessa vez. Só então percebeu que continuava parado no mesmo lugar, parecendo um idiota, achando a coisa mais difícil do mundo se despedir de .
– Eu vou estar esperando, Mark Lee. – sorriu grande, fazendo com que suas íris azuis quase sumissem. Mark sentiu como se seu coração estivesse derretendo.
Então, sem respirar fundo nem nada, ela jogou o corpo para trás e voltou a submergir num mergulho perfeito, que espirrou mais água pra fora do tanque. Ele precisou de alguns segundos para se recuperar da última visão que tivera da garota-sereia, então finalmente conseguiu ir sair do lugar.

RINI – Oceane ft. Olivia Escuyos

Enquanto caminhava para saída do lugar, a única direção bem indicada pelas placas no caminho, ficou observando a mancha dos respingos de água em sua camiseta. Eram os únicos indícios de que aquilo havia mesmo acontecido. Seu coração custava a voltar a bater normalmente, o que havia sido tudo aquilo?
Tentou de toda forma prestar atenção no que o amigo dizia enquanto tomavam sorvete, voltando para o dormitório. Haechan reclamava sobre não ter conseguido passar a mão nas raias, nem ver o tubarão que viu no panfleto e queria voltar outro dia tentar de novo, mas a mente de Mark continuava voltando para a imagem da garota nadando graciosamente. Dos detalhes perfeitos de seu rosto e seu sorriso melancólico e misterioso.
Por dias se perguntou várias vezes porque não conseguia esquecer aqueles olhos azuis tão claros e profundos, nem o brilho daquelas escamas. Quando precisou usar uma jaqueta holográfica para uma gravação, passou praticamente o tempo todo olhando para os braços e tendo que segurar um sorriso bobo.
Quanto mais o tempo passava, mais precisava estar sempre ocupando a mente, pois era ter um tempo livre e as memórias voltaram como uma inundação que apertava seu peito. Parecia até… saudade. Ele não podia estar com saudade de alguém que viu apenas uma vez e trocou meia dúzia de frases, podia?
Se sentia meio ridículo com tudo aquilo, então preferiu não contar para ninguém sobre a experiência, mas havia amigos que o conheciam tão bem que simplesmente sabiam que havia algo atormentando os pensamentos do garoto fazia tempo.
Nakamoto Yuta era um desses amigos. Por isso, no intervalo do ensaio daquele dia, o mais velho se jogou no chão ao lado do amigo e perguntou direto.
– O que ‘tá pegando?
– Hã? – Mark saiu de outro de seus devaneios num pulo.
– Não se faça de desentendido, sei que tem algo se passando nessa sua mente faz dias, estava esperando que fosse passar ou que você fosse me chamar para conversar, mas você parece cada dia mais perturbado. Bota pra fora.
– Está tão na cara assim?
– Mark, você errou a coreografia que fazemos praticamente desde o debut. E tem essa ruguinha no meio das suas sobrancelhas toda vez que você olha para o nada. É muito fácil ler você depois de todos esses anos, então vai abrir o jogo ou…
– Eu conheci alguém…
– Hm, meu garoto está apaixonado, é isso? – Yuta levantou as sobrancelhas, sugestivo.
– O que?! Não! Não é esse tipo de conhecer, hyung! Só nos conhecemos mesmo, e conversamos por tipo, 10 minutos. Foi no dia em que o Hyuck e eu fomos naquele MegaAquarium, mas é complicado.
– Nossa, isso não foi há, sei lá, um mês atrás? E por que é complicado, além de você ser um idol que não pode assumir um relacionamento? – riu, como se aquilo fosse a coisa mais ridícula do mundo.
– Ela é uma sereia – o garoto mais novo soltou rápido, não sabendo como explicar aquilo direito sem se enrolar. Yuta o encarou como se esperasse que ele falasse que era uma brincadeira, mas o garoto continuou sério – Ela trabalha como uma daquelas sereias de aquário que ficam nadando em um tanque de água e tirando foto com as crianças, sabe? E você tinha que ver, a fantasia dela era impecável nos mínimos detalhes, era tão real que chegava ser assustador.
– Wah! É uma profissão bem… diferente. Mas o que foi que aconteceu nesses 10 minutos que o deixou abalado por tanto tempo?
– Aí é que ‘tá o problema, eu não sei. Já é estranho o suficiente eu dizer que ela é uma sereia, se eu falar que ela me enfeitiçou e não consigo parar de pensar nela desde aquele dia mesmo que nós só tenhamos trocado algumas palavras sem sentido, você vai me chamar de maluco.
– Vou mesmo, maluco! – ele riu, achando a situação muito única. Nunca se imaginou dando conselhos a Mark sobre estar interessado em alguém, muito menos uma sereia. – mas então o problema é que você não consegue parar de pensar nela? É por isso que não consegue se concentrar nos ensaios? – ele assentiu, envergonhado. – Você se interessou de verdade por uma garota, Mark Lee, é meio apavorante na primeira vez, mas não é tão complicado assim. Devia voltar lá e pedir o número dela, talvez pelo menos role uma amizade.
– Eu prometi a ela que voltaria, mas já se passou um mês e fui engolido pela rotina de ensaios e promoções que estamos tendo, não tive tempo de cumprir minha promessa. Mas não é só isso…
– Espera, você chegou a fazer uma promessa a ela, Mark?! Foi realmente tão intenso assim? O que mais?
– Eu não sei, não tenho como explicar. Só havia alguma coisa naquela garota que… eu nunca senti isso, não sei como pôr em palavras hyung.
– Ah, eles crescem tão rápido – Yuta fingiu limpar uma lágrima imaginária, tocando o ombro do mais novo com orgulho – Escute o conselho do hyung, ok? Tire um tempinho, vá até o aquário e fale com a garota. Eu te ajudo se precisar de qualquer coisa. Vá, peça o número dela, depois a chame para sair, nós damos um jeito de vocês se encontrarem sem perigo, assim você vai descobrindo o que é isso que está sentindo. Se não for nada, pelo menos você ganha uma amiga. Se for algo a mais, sinta de coração aberto. Não se prive de sentimentos por nada, Mark.
– Nossa, às vezes parece que você tem 90 anos de pura sabedoria, praticamente um sábio japonês que vive no topo de uma montanha e tem um bigode fininho – brincou, e recebeu um soquinho na coxa em resposta. – Eu vou fazer isso, hyung. Da próxima vez que tivermos uma pausa eu vou dar um jeito de cumprir minha promessa.
– Esse é meu garoto corajoso! Fighting! – levantou o punho no ar, ficando em pé num pulinho. – Agora vamos, precisamos terminar esse ensaio, se fizermos corpo mole de novo o Taeyong vai ficar careca de nervoso.
Viu o amigo se levantar e voltar para o meio da grande sala espelhada, no meio de seus outros companheiros de grupo, mas antes de se levantar juntou as mãos discretamente, abaixou a cabeça e murmurou num fio de voz, de olhos fechados.
– Deus, me dê forças para tirar isso da minha mente e ter foco para terminar esse ensaio sem decepcionar meus parceiros. – pediu, simples e sincero, como era sua relação com Deus.
Mark não precisava falar muito, tinha fé que Deus conhecia seu coração, todas as suas vontades e pensamentos. E Mark confiava que tudo acontecia por algum motivo, então estava decidido a descobrir qual o motivo de sua vida ter se encontrado com a de .

Sigh of the Times – Woosung, Lee Chansol (COVER)cronograma? – ela perguntou, brincando com a palavra.
– Mais do que nunca. E é por isso que não posso demorar muito.
– Ah – ela tombou a cabeça nos braços debruçados na beirada do tanque de água, não fazendo questão nenhuma de esconder sua chateação.
– Mas eu tenho alguns minutos, então eu queria saber se… – respirou fundo, apertando o celular no bolso do casaco. – Você não quer me passar seu número para gente conversar?
– Meu número?
– É, talvez se você quiser, eu queria saber… – retirou o celular do bolso e o chacoalhou no ar com um sorriso sem graça, se amaldiçoando por sentir que suas orelhas estavam vermelhas. – Queria saber se não gostaria de sair tomar um café e ter mais uma daquelas conversas esquisitas comigo.
– Oh, entendo. – ela piscou algumas vezes, parecendo finalmente compreender que ele a estava chamando para sair. – Sinto muito, mas não tenho… um número. Um celular, quero dizer.
Mark juntos as sobrancelhas, tentando compreender o que havia acabado de ouvir.
– Ah, é porque você é uma “sereia”, né? – ele tentou falar aquilo sem parecer um desrespeito com a… profissão da garota. – E sereias não têm celular, entendi – ele soltou uma risada baixa e ela apenas sustentou o mesmo olhar. – Tudo bem, eu não quero sair com a sereia, quero sair com a garota. Apesar de querer conhecer as duas melhor.
– A garota também não tem celular – ela deu de ombros, como se não fosse algo relevante.
– Você ‘tá falando sério? – Mark perguntou chocado. Aquilo não estava em seus planos, achava que se fosse levar um fora seria mais direto.
– Sim.
– Oh – ele afirmou com a cabeça, ainda tentando se convencer de que aquela não era apenas uma desculpa da garota para não sair com ele. Observou rapidamente ao redor, ainda estavam sozinhos na sala, mas podia ouvir várias vozes se aproximando.
– Mas isso não quer dizer que eu não queira te ver de novo, Mark Lee. Eu quero, mais do que consigo compreender. Não sei como vocês hu… homens lidam com isso, mas não é da minha natureza ser capaz de mentir. Então por favor, acredite quando digo que eu quis te ver de novo desde o primeiro minuto que se passou depois que foi embora aquele dia, e adoraria que essa não fosse a última vez que vamos nos ver, mas… é complicado nos encontrarmos fora do Aquário.
– Quer dizer que se eu quiser te ver de novo, terá que ser aqui? – perguntou, contrariado.
– Eu sinto muito, mas sim. – e foi aquele sorriso sincero e melancólico que fez Mark dizer as palavras seguintes.
– Tudo bem por mim! Se só podemos nos encontrar aqui no aquário, eu venho te visitar de novo… Se você quiser, claro.
– Eu quero! – ela respondeu rápido, abrindo um daqueles sorrisos animados e espirrando água com a cauda. Às vezes, enquanto se distraia com a forma bonita que as palavras saiam daquela boca, ele esquecia que um pouco mais para baixo estava um enorme rabo de peixe escondendo as pernas da garota, até ela fazer aquilo de batê-lo contra a superfície. – Oh, Mark, você viria mesmo? É realmente entediante aqui, você é como um sopro de vitalidade para a minha rotina sem graça.
– Por incrível que pareça, você também é. – deixou as palavras saírem e quase se arrependeu no segundo seguinte.
Por que estava sendo tão sincero quanto aos seus sentimentos? Era apenas a segunda vez que eles se viam, as coisas não estavam indo um pouco rápido demais? E por que, para a garota, aquilo parecia não importar?
– Parece realmente incrível. – ela suspirou, sorrindo. – Tão incrível que nem parece real.
As vozes na sala ao lado agora estavam realmente perto, o suficiente pra fazer virar os olhos para a origem do som e então levantar a cabeça.
– Eu preciso voltar para a água, mas eu vou estar aqui esperando Mark Lee. Se e quando quiser vir me ver, sabe onde me encontrar, prometo estar exatamente aqui. Mas se decidir não vir tudo bem também, já foi mais que incrível te ver outra vez. – e então ela mergulhou sorrindo, antes que o garoto pudesse dizer mais alguma coisa. Acenou de dentro da água agitada e então sumiu, nadando entre as bolhas de ar.

Daft Punk ft. Julian Casablancas – Instant Crush

As vozes ecoando dentro da grande sala azul foi o que despertou Mark daquele torpor inexplicável e ele caminhou para fora do aquário com a cabeça fervendo. Se ela parecia tão sincera sobre o que sentia, por que ela não aceitou seu convite pra sair? Era a primeira vez que ele se interessava por alguém em muito tempo, e ela parecia ter sentido a mesma coisa que ele, e se assim fosse, ambos sabiam que aquela ligação era no mínimo estranha e digna de um café e uma conversa pra entender o que eram todos aqueles sentimentos malucos.
Então, por quê?
Aquela pergunta assombrou a mente de Mark pelos dias seguintes, e apesar de mais concentrado no trabalho, eram necessários apenas 15 minutos descanso pra começar a lembrar das palavras da garota-sereia, procurando entre elas alguma mensagem escondida que explicasse por que ela havia feito aquilo.
Quando contou a Yuta sobre o segundo diálogo esquisito, em busca de uma luz de sabedoria sobre os pensamentos confusos, até mesmo o mais velho precisou de um tempo para assimilar tudo que havia escutado, rolando até estar de barriga pra cima na cama de Mark, que o observava da cadeira giratória logo ao lado.
– Talvez ela tenha medo de te encontrar em um lugar público porque sabe do risco de sair com uma celebridade, sei lá.
– Ela não parece saber quem eu sou, hyung. É raro, mas pode acontecer as vezes de alguém não conhecer o NCT.
– É realmente raro, por isso me preocupa o fato de que ela pode estar fingindo para se aproximar de você.
– Ela parece realmente sincera sobre isso, de qualquer forma não é como se ela pudesse fazer algo estando com aquela roupa, dentro da água. A gente só conversa…
– Mas você queria mais, não é? – Yuta provocou, com um sorriso travesso.
– A essa altura não faz sentido algum eu negar – Mark respondeu levantando os ombros, despreocupado – Eu estou estranhamente atraído por uma sereia. Jamais pensei que fosse dizer essas palavras.
– Tem certeza que não está hipnotizado pelo canto da sereia e vai atrás dela, se jogar na água e morrer afogado? Você viu como funciona em Piratas do Caribe.
– Cala a boca, hyung! – Mark chutou seu pé que estava para fora do colchão, rindo – Se bem que às vezes ela parece tão envolvida ao personagem, que eu podia realmente acreditar que ela é uma sereia. Ela prende a respiração por muito tempo, e você devia ver como ela nada…
– Ok, eu já estou ficando enojado com essa conversa melosa. Vou falar com o Haechan que aceito ir lá com ele passar a mão nas raias, para ele parar de me encher o saco sobre isso, aí você vem com a gente e vê sua sereia. Agora vai dormir, moleque, foi um dia agitado e seus olhos estão vermelhos de sono.
E mesmo tentando, Mark não conseguiu parar de pensar naquilo até dormir. Cada detalhe que lembrava sobre , desde sua pele de porcelana, seus diversos, mas sempre inexplicavelmente sinceros, sorrisos, até mesmo as diferentes cores de sua cauda e como elas pareciam dançar na água.
Era um pensamento ridículo, mas admitir que estava apaixonado pela garota, mesmo tendo visto ela apenas duas vezes em dois meses, também era ridículo e mesmo assim era impossível negar. Todos os sinais estavam ali e Mark sabia identificá-los.
Pensar nela fazia seu coração acelerar numa alegria sem explicação, um sorriso brotava em seus lábios toda vez que lembrava como ela dizia seu nome, como se fosse algo precioso. Se ele se concentrasse bem, podia ouvir claramente a voz envolvente da garota, e perdeu a conta de em quantos cenários imaginou os dois.
Queria buscá-la quando ela saísse do trabalho, levá-la para jantar e depois andar de mãos dadas pelas ruas iluminadas de Seul. A levaria para algum lugar com uma vista bonita, emprestaria seu casaco quando ela reclamasse de frio, a abraçaria, faria piadas para ver tantas vezes quanto possível aquele sorriso bonito, diria a ela o quanto ficava encantadora sob a luz da lua e então a beijaria.
Sonhava acordado com esse beijo, mesmo tentando com todas as suas forças não criar expectativa. Ele sabia que a chance daquilo acontecer era nula, mesmo que ela aceitasse o encontro fora do aquário. Ele ainda era uma figura pública, além do mais havia assinado um contrato que não o permitia assumir relacionamentos amorosos.
Todos os seus pensamentos realistas o diziam que não fazia o menor sentido continuar vendo a garota, jamais poderia ter nada daquilo com ela, e ainda havia um vidro e muitos litros d’água os separando. E mesmo assim, mesmo atormentado por todas as dúvidas, lá estava ele novamente, caminhando cheio de alegria em direção ao aquário de , depois de dar uma desculpa qualquer para Yuta e Haechan. Mal conseguindo conter o próprio coração no peito de vontade de vê-la.

Jason Mraz feat. Colbie Caillat – Lucky

E assim foi pelos vários meses seguintes, mesmo que as visitas fossem raras e às vezes com um intervalo de mais de 30 dias entre uma e outra, a cada novo encontro que Mark conseguia encaixar em sua agenda ocupada, tinha mais certeza de que estava perdidamente apaixonado e de que era completamente recíproco. A ligação entre os dois era intensa, escondida nas profundezas de cada frase que os permitia mergulhar mais dentro do coração um do outro.
havia lhe contado quais eram os dias e horários com menos movimento, e isso permitia que as vezes eles tivessem 20 minutos para conversar, um pouquinho mais quando tinham sorte. Enquanto acontecia, e eles se perdiam nas palavras e nos sorrisos cúmplices, parecia que o tempo havia parado, mas quando acabava e Mark precisava voltar a sua vida agitada sem saber quando a veria de novo, ele se dava conta de que era dolorosamente pouco tempo.
Havia se acostumado com o jeito que eles funcionavam, tanto que o fato dela estar sempre fantasia já passava despercebido. Agora ele falava mais que ela, sempre encostado na lateral do tanque com o queixo erguido para sustentar aquele olhar cheio de segredos. Ela, por sua vez, sempre misteriosa, se debruçava sobre a beirada de borracha do tanque gigantesco, com a cabeça tombada para o lado. Parecia estar sempre descobrindo um mundo novo a cada opinião e fato que Mark compartilhava. Assim como ela parecia ter um vasto conhecimento sobre os mistérios do oceano, que tanto encantavam Mark, ele sentia que sua vida era igualmente fascinante para ela.
– E como você sabe que está fazendo a coisa certa? – a garota perguntou, em uma determinada tarde em que compartilhavam seus pensamentos.
– Eu não sei se existe isso de certo ou errado quando se diz respeito a essa vida, é relativo para cada pessoa, sabe? Eu não posso negar os lados ruins, mas acredito no fundo do meu coração que meu trabalho pode ser inspirador pras pessoas, de uma forma positiva. Sinto que estou fazendo o exatamente o que nasci para fazer. Então eu tento passar essa mensagem nas músicas, também porque não quero sentir que faço isso só pelo dinheiro, mas é uma profissão então entendo quem pensa diferente.
– E se chegar ao fim da sua vida e descobrir que não era isso? Descobrir que esteve enganado esse tempo todo, que… viveu errado? Essa dúvida não te assusta?
– Me apavora, na verdade – abriu um sorriso receoso – Mas eu tenho fé. E para mim fé é isso, o banimento de toda dúvida. Se eu chegar ao fim da vida com minha fé intacta, sei que fiz o meu melhor.
– Eu gostaria de ter… fé. Mas as vezes é difícil acreditar nas coisas boas, quando você não tem muitas delas na sua vida. – Ela soltou um suspiro pesado, mas mudou o rumo da conversa muito rapidamente. – Você é uma das coisas boas da minha vida. Um dos raros momentos em que sentir meu coração acelerar é agradável e me faz acreditar que não estou vivendo errado. Eu tenho fé em você, Mark Lee.
Aquelas palavras o fizeram desencostar do vidro e se virar totalmente em direção a garota. De onde estava, abaixo dela, podia ver a parte do corpo que ficava imersa na água, flutuando e balançando a cauda para lá e para cá tranquilamente. Ele tinha a impressão de que quando chegou as escamas eram azuis, mas agora elas estavam rosas. Tinha certeza de que ela não havia saído pra se trocar, então como era possível?
– E é por isso que preciso te dar a triste notícia de que vamos fechar para os feriados de fim de ano, só vamos voltar a nos ver daqui muito tempo.
– Não precisa ser assim, a gente podia… sabe… se encontrar nesse meio tempo. Acho que terei alguns dias de férias, podemos finalmente ter uma conversa de mais de uma hora sem sermos interrompidos por nenhum visitante – ele tentou, movido pelo súbito aperto no peito ao saber daquilo.
– Não, não podemos. Eu sinto muito, mas é…
– Complicado, eu sei. – o garoto interrompeu, com um sorriso contrariado. – Mas por você posso tentar descomplicar, do jeito que precisar. Logo vai fazer um ano que nos conhecemos, e eu ainda não sei se você tem pés feios, para eu finalmente encontrar um defeito seu.
– Infelizmente você não vai descobrir isso tão cedo. – a garota soltou uma risada, como se falasse de algo que só ela sabia.
– Então eu aposto em pés muito feios, depois de tanto tempo é o único motivo que consigo pensar para não querer sair comigo.
– Tente pensar no impossível, num motivo que jamais pensaria em circunstâncias normais, talvez se aproxime mais da resposta certa.
, sua fantasia muda de cor? – Não conseguiu controlar a curiosidade, soltando a pergunta do nada.
– Fantasia? Ah, minha cauda? – balançou as barbatanas dentro da água enquanto ria, como se quisesse se mostrar. – Não, eu nunca… troco.
– E como é possível ela as vezes estar roxa, outras vezes azul ou prateada?
– Você acreditaria se eu te dissesse que ela muda conforme o que estou sentindo? – a garota disse numa voz divertida.
– Como aqueles anéis do humor, que oscilam de cor de acordo com a temperatura corporal de quem ta usando?
– Se é assim que prefere pensar, então sim, como anéis do humor. – ela confirmou, mas havia algo mais ali.
Mark as vezes tinha dificuldade em entender os mistérios contidos nas palavras de , e isso só o instigava mais a descobrir.
– E o que esse rosa significa? – apontou para a cor que reluzia holográfica conforme ela se mexia.
– Significa que eu estou apaixonada. – confessou tranquilamente, como se contasse um segredo sussurrado.
Mark não conseguia lembrar se algo em sua vida já havia feito seu coração disparar daquela forma, tão deliciosamente consumidora, como se espalhasse pequenos fogos de artifício por suas veias, ao invés de sangue. Queria responder que também estava apaixonado, queria colocar para fora todas as coisas que transbordavam em seu peito quando a via, quando pensava nela, mas não teve tempo. O som de pessoas se aproximando tirou os dois de sua bolha e ela se apressou a se afastar da borda.
– Eu vou sentir sua falta, Mark Lee. Espero que sinta a minha também, e que venha me visitar quando o aquário abrir novamente, eu vou sempre estar te esperando. – e como acontecia toda vez, sem esperar pela resposta, pois detestava despedidas, segundo ela mesma, sumiu as águas turvas do tanque.
Naquele momento Mark fez uma promessa em silêncio, de que não importava quanto tempo passasse, sempre voltaria para vê-la.

Bill Withers – Ain’t No Sunshine

Durante os quase três meses que ficaram sem se ver, por causa dos eventos de Natal e ano novo, e o tão esperado comeback do NCT 127, não houve um dia sequer em que Mark não pensara na garota. Em como ela estava, o que estaria fazendo, com quem passaria o Natal afinal não sabia nada sobre a família da garota além de que moravam muito longe e ela ficava triste sempre que o assunto surgia. Constantemente se questionava se ela estaria pensando nele também, se não havia esquecido, afinal parecia fazer uma eternidade desde a última vez que a viu.
Por isso, quando pisou em solo coreano de volta, após uma longa agenda de compromissos por toda a Ásia, implorou a ajuda do amigo para conseguir visitar o MegaAquarium naquele mesmo dia.
– Mark, está ficando complicado te acobertar, os meninos já me perguntaram várias vezes aonde você vai quando some assim, e você sempre volta todo sorridente depois, é óbvio que eles vão desconfiar que tem algum romance envolvido. Sem contar que se continuar frequentando tanto o mesmo lugar, logo a imprensa vai descobrir e os paparazzis estarão na sua cola.
– Eu sei, hyung. Mas eu preciso vê-la, vou tomar cuidado, prometo.
– Eu juro que não quero te deixar triste, mas como um amigo que te ama eu preciso te dizer isso. Talvez devesse repensar se essa relação faz bem para você, quero dizer, não é estranho? Você vê essa garota faz mais de um ano e até agora não sabe nem o sobrenome dela, onde mora, nunca nem a viu fora da água. Ela não tem celular, nem rede social, e eu não confio em quem não tem nenhuma rede social hoje em dia. É quase como se ela fosse um fantasma que só você conhece, ou pior, como se fosse uma sereia de verdade, e você está caidinho pelos encantos dela. – ele riu, achando a ideia engraçada.
– Foi você mesmo que me disse para viver esse sentimento de coração aberto, e foi o que eu fiz.
– Eu sei, mas agora começo a achar meu conselho meio inconsequente porque jamais me passou pela cabeça que duraria tanto tempo.
– Nem eu imaginei, mas durou e eu não consigo ignorar isso martelando dentro do meu coração, hyung. Vou vê-la de qualquer forma, mas seria bem mais fácil e seguro se você me ajudasse. – disse com determinação.
– Olha só, Mark Lee colocando as garrinhas de fora – provocou – Tudo bem, o que você me pede sorrindo que eu não faço chorando, moleque? Mas você precisa ser rápido, ok?
Ele concordou com um sorriso grande e cheio de vida, como não fazia a dias por causa da rotina esgotante. Esse sorriso durou até que estivesse em frente ao aquário de mais uma vez. Bateu cinco vezes no vidro, no ritmo do código que haviam inventado muitos encontros atrás e de alguma forma, fazia com que a garota soubesse que ele estava ali. Ela tinha um bom ouvido debaixo da água, como sempre dizia.

A Soulmate Who Wasn’t Meant to Be – Jessica Benko

Porém, quando finalmente apareceu na superfície do tanque e apoiou a cabeça na beirada do vidro, Mark sabia que havia algo terrivelmente errado. Seus olhos estavam escuros e sem vida, pareciam mais exaustos que os dele que estiveram em uma rotina de poucas horas de sono e muitas horas de ensaios e compromissos por um bom tempo. Sua cauda reluzente que sempre ficava dançando de um lado para o outro na água, agora jazia imóvel e quase sem brilho algum. Ainda assim, quando o viu ela sorriu, sem o mistério dessa vez, apenas a melancolia.
– Eu senti mais a sua falta do que achei que poderia aguentar. – disse, direta, num fio de voz.
– Você não foi a única – ele tentou soar calmo, mas a preocupação falou mais alto – Aconteceu alguma coisa? Você não parece nada bem.
– Aconteceu, e apesar de querer com todas as minhas forças te contar, eu não posso.
– Por que não?
– Porque não é justo com você, não posso te machucar também. É por isso que você precisa saber que essa é a última vez que vamos nos ver. – ela mantinha a voz mansa, tranquila, como se tivesse medo de dizer aquelas palavras.
– O que? Por que está dizendo isso?
– Porque eu não vou ficar aqui por muito tempo, e se essa despedida doer em você metade do que vai doer em mim, é um sofrimento que eu não posso deixar você sentir. Sabe, eu odeio muito despedidas. – respondeu pesarosa, sem nunca alterar seu tom calmo.
, do que está falando? Você foi demitida, é isso? Tudo bem, você pode conseguir outro emprego e eu posso dar um jeito de te ver lá…
– Não. – interrompeu, sorrindo triste, e Mark não sabia se seus olhos estavam molhados da água do aquário ou de lágrimas. – Eu não posso conseguir outro emprego, nem vou para um lugar aonde você vai possa ir me visitar.
– Você tá começando a me assustar. Por favor, , me conta o que está havendo. Eu posso ajudar de alguma forma, eu posso…
– Não pode, Mark, me perdoa. Você nem mesmo acreditaria se eu te contasse.
– Tenta! Prometo manter minha mente aberta a seja lá o que for, mas não é justo você me afastar assim, totalmente no escuro. , por favor, não faz isso. Eu confio em você, confia em mim também e me deixa te ajudar.
A garota continuou imóvel, olhando no fundo dos olhos de Mark. Naquele momento ele sentiu que estava sendo avaliado tão minuciosamente que ela podia até mesmo ler seus pensamentos, sentir seus sentimentos e procurar a verdade dentro dele. E era só isso que ela encontraria, verdade.
Eu sou uma sereia, Mark Lee – contou, por fim, soltando as palavras lenta e claramente. – Uma sereia, não uma atração para crianças num aquário, vestindo uma fantasia estúpida. Isso não é um emprego, é uma prisão onde eu sou obrigada a viver dia após dia fingindo ser uma mentira, uma aberração, para entreter os visitantes. Existem pessoas ruins no mundo, que exploram os outros por dinheiro, e eu não sabia o que era isso até conhecer o seu mundo. Ganância, egoísmo, maldade, são sentimentos humanos que eu nunca vou conseguir compreender, sentimentos que vem me matando lentamente.
– O que isso quer dizer? – ele questionou alarmado, completamente confuso, tentando encontrar uma forma de aquela confissão fazer sentido em sua cabeça. Ela estava sendo explorada pelo dono do aquário, era isso?
– Que se eu não voltar para o mar logo, vou morrer feito um peixe fora d’água. – ela riu fraquinho do que acabara de dizer. – Que comparação horrível. Mas é isso, eu sou uma sereia e você provavelmente não vai acreditar, eu nunca precisei contar isso a ninguém então acho que não fiz da forma certa, mas não há esperança para mim, então que diferença faz você saber ou não, acreditar ou não?
– Prova. – a palavra escorregou para fora da boca de Mark, sem que ele conseguisse acreditar que estava mesmo falando aquilo.
Por Deus, aquilo era ridículo, impossível.
– O que?
– Eu preciso saber se é verdade, por favor. Eu quero acreditar em você, , mas como se todo o meu cérebro diz que não faz o menor sentido? Minha racionalidade sabe que é impossível.
– Eu também achava impossível me apaixonar por um humano, e olha só para mim agora, querendo prolongar esse momento só para poder te admirar por mais um tempinho. – cantou as palavras com um sorriso verdadeiro, com toda a energia que pôde reunir, e então submergiu.
Escorregou rente ao vidro até estar na mesma altura do garoto do outro lado da barreira, e assim ficou, flutuando a poucos centímetros do chão arenoso, quase imóvel. Nos primeiros minutos, Mark achou que ela estava apenas fazendo o que havia dito, o admirando, e não pôde deixar de fazer o mesmo. Desejava com todas as suas forças que não existisse aquele vidro, que ele pudesse tocar seu rosto, segurar sua mão e a levá-la para longe daquele lugar.
Conforme os minutos foram passando, e ela apenas piscava, ele começou a se preocupar. Ele havia pedido uma prova, e ela isso que ela estava fazendo. O recorde humano de tempo sem respirar era uns 20 minutos e feito por um nadador profissional, Mark tinha essa informação guardada em algum canto da mente, depois disso o cérebro humano podia apresentar danos irreversíveis. Foi por isso que após quinze minutos daquela brincadeira, ele não pôde controlar o pânico que começava a se formar em seu peito.
– O que você tá fazendo? Você é maluca? – questionou, se aproximando mais do vidro.
Merda, aquela era uma péssima hora para ouvir um grupo de pessoas se aproximando.
A garota apenas sorriu, deixando uma bolha de ar sair pelo canto dos lábios e subir até se perder na superfície, parecendo não se incomodar sequer um pouquinho com todo aquele tempo submersa.
, você está tentando se matar? Você precisa de ar, agora! – Foi impossível não alterar a voz, quando sua vontade era socar aquele vidro, entrar naquele maldito aquário e tirar a garota de lá com suas próprias mãos.
Foi quando notou algo no ombro da garota, descoberto pelo cabelo que flutuava para todos os lados. Havia um machucado lá, um corte que parecia recente, começando na base do pescoço e se perdendo até a parte de trás do ombro, mas isso nem era a parte mais assustadora. O sangue que saia dele e se diluía aos poucos na água parecia prata líquido, era como ver mercúrio se espalhando em bolhas cada vez menores até sumir completamente.
Mark deu um passo para trás em choque, ao que a garota levou a mão até o ombro e seu rosto se contorceu numa careta de dor. As pessoas que se aproximavam finalmente chegaram a sala e no segundo seguinte havia desaparecido para o interior escuro do aquário.

Sasha Sloan – Too Sad To Cry

Mark caminhou trêmulo de volta para onde Yuta o esperava, dentro do carro. Com os olhos arregalados em espanto e mal conseguindo puxar o ar para os pulmões, se sentou no banco do carona e colocou o cinto sem dizer nada.
– Você demorou, deixa eu adivinhar, vocês brigaram? – Mark negou muito lentamente com a cabeça, com os olhos fixos no nada. – Ela terminou com você? – Outra negativa – Poxa cara, meu próximo chute é que você descobriu que ela na verdade é um homem.
– Ela é uma sereia, hyung – deixou escapar num sussurro, e depois de ter colocado para fora não achou que conseguiria voltar atrás. Precisava contar para alguém, ou aquilo custaria sua sanidade. Precisa ter certeza de que já não estava completamente louco.
– Disso você já sabe desde a primeira vez que a viu lá…
– Não, ela é uma sereia, tipo uma de verdade. Yuta não faz o menor sentido o que eu vi, eu acho que estou enlouquecendo. Ela ficou submersa por muito tempo, mais tempo do que um humano normal consegue aguentar, e quando meu cérebro já estava trabalhando em teorias de que ela devia ser algum humano super treinado para aguentar tanto tempo sem ar, ela sangrou. Sangrou prateado, hyung! Havia um machucado no ombro dela e o sangue que saiu de lá não era humano…
– Mark, primeiro se acalma. Isso tudo que você está me contando realmente não faz sentido algum. Deve ter sido algum efeito holográfico do aquário, hoje em dia existe tecnologia para tudo.
– Yuta, eu sei o que eu vi! – se exaltou, em completo desespero. – Quer dizer, eu não sei, mas eu vi! Eu tenho certeza de que vi, mas não pode ser real.
– Não mesmo, que bom que sabe disso. Então agora respira fundo, toma aqui, ainda tem um pouco. – estendeu o grande copo do líquido verde que tomava. Mark segurou o copo com as duas mãos e engoliu praticamente todo o chá gelado que restava de uma vez só e então soltou o ar pesadamente – Mais calmo? – questionou o amigo, desviando por um segundo o olhar da estrada e recebeu um aceno positivo mínimo. – Estamos chegando ao dormitório, aí você vai me contar detalhadamente o que houve e nós vamos chegar a uma conclusão racional, ok?
Mark afirmou novamente, tentando se apegar às palavras do amigo. Precisava acreditar que havia uma explicação para tudo aquilo, mas quando terminou sua narrativa realmente detalhada, Yuta tinha os olhos arregalados.
– Ok, eu não consigo achar uma explicação racional para isso. – confessou, chocado. – Vamos ser sinceros, quais são as chances de isso ser verdade, ela ser mesmo uma sereia e tudo que conhecemos por realidade e ficção estar errado?
– Eu não consigo nem calcular isso. E também não consigo achar uma razão para ela ter mentido para mim, ela estava convicta de que aquela seria a última vez que nos veríamos.
– Mas não vai ser, não é?
– Óbvio que não, hyung. Eu preciso voltar lá, preciso tirar essa história a limpo ou não vou ter paz. Sem contar que ela parecia realmente estar… doente.
– Talvez ela só não queira mais te ver, ou talvez ela esteja mesmo doente e não quer te fazer sofrer, e por isso falou essas coisas, para te afastar.
– Ela podia só ter dito isso, e ela sabe que eu teria me afastado. Ou não, mas isso não explica todo aquele tempo submersa, nem o sangue e o machucado… Por Deus, se aquele machucado é mesmo real ela deve estar com tanta dor, e talvez ficar dentro da água não ajude. Eu preciso fazer alguma coisa!
– E lá vai o desesperado mais uma vez… – Yuta respirou fundo e se levantou. – Escuta, mesmo que queira fazer alguma coisa, e, por favor, não faça sem me avisar primeiro, não há nada que possa ser resolvido imediatamente. Não vou pedir para tentar não pensar nisso porque eu sei que vai ficar fritando nesse assunto até não aguentar mais, mas, por favor, faça isso deitado na sua cama, descansando seu corpo. Voltamos de viagem hoje, estamos todos esgotados, posso ver no seu rosto que está para lá de exausto. Não vai poder fazer nada para ajudá-la se estiver nessas condições.
– Tudo bem, eu vou tentar. Obrigado, hyung. Sei que estava cansado e mesmo assim foi lá comigo e ficou me escutando até agora. Você também merece uma boa noite de sono.
Mas isso foi exatamente o que Mark não conseguiu nas horas que se passaram, uma boa noite e muito menos sono. Durante toda a madrugada repassou a cena tantas vezes em sua mente, com os olhos fechados mesmo na penumbra do quarto, que achou que sua cabeça fosse explodir.
Não sabia dizer exatamente em que momento começou a chorar, baixinho, para ninguém no andar o escutar. As lágrimas só começaram a cair, uma atrás da outra, transbordando tudo que estava em seu peito. O desespero de estar em uma situação onde não encontrava solução. A angústia de não saber no que acreditar. O medo apavorante de se deparar com algo que sua racionalidade não consegue assimilar. Mas acima de tudo isso, a dor de pensar que nunca mais veria .
Sereias não existiam! Criaturas místicas, passadas de geração em geração através de lendas, histórias para criança, nada daquilo era real. Não no mundo em que Mark Lee vivia. Então, o que era aquela garota?
Mark sabia reconhecer os sinais do que sentia, assim como sabia reconhecer o sentido por trás de cada frase misteriosa que ela havia dito durante aquele um ano. Agora tudo parecia fazer sentido, apesar de não fazer sentido algum e isso o deixava tão desesperado que não conseguia conter os soluços que tomaram seu choro.
Recorreu então a sua fonte de força quando sentia que não conseguia mais continuar, aquele que sempre esteve ao seu lado nos piores momentos, mesmo sendo uma presença invisível. Rezou em silêncio, com devoção e sinceridade, implorando por uma luz. E foi no meio de sua prece que se deu conta de algo.
Seu Deus não existia para muita gente, muitos que não tinham religião, ou até mesmo acreditavam em outras coisas, mas isso não o fazia menos real para Mark. Mesmo sem ver com seus próprios olhos, sem poder tocar com sua mão, ele acreditava sem dúvida alguma que Ele era real. Sentia em cada célula do seu corpo a presença quente e reconfortante que o guiava sempre que estava perdido e sem esperança. Aquilo era fé.
Se ele podia acreditar em algo sentia apenas em seu coração, ele podia acreditar no que havia visto. Podia ter fé em e nos seus sentimentos pela garota.

Oh Wonder – I Wish I Never Met You

Foi isso que o levou de volta ao aquário alguns dias depois, com determinação e coragem de enfrentar o que quer que o esperasse por lá, e com uma ajudinha de Yuta mais uma vez. Porém quando chego a sala onde ficava, encontrou seu aquário completamente vazio. Apenas uma caixa de vidro vazia, com as luzes desligadas.
Sentiu uma pontada tão forte em seu coração que precisou sentar cambaleante no banco onde uma vez parou para descansar e conheceu a garota que mudou sua vida. Não podia ser verdade, aquele aquário vazio e escuro não podia significar o que ele achava que significava. Ela não podia estar…Sequer conseguia terminar aquele pensamento.
Sentia que um tsunami de lágrimas estava muito perto de irromper por seus olhos, e ele precisava sair dali antes que acontecesse. Porém assim que se levantou, deu de cara com uma mulher baixinha, de cabelos castanhos e curtos, rosto parcialmente coberto por uma máscara preta e olhos pequenos e ávidos protegidos pela grossa lente de seus óculos. Ela o encarou de cima a baixo e então perguntou baixinho:
– Você é o amigo da , não é? Mark?
– Sim! – exclamou afobado, se aproximando da garota. Observou o uniforme azul do MegaAquarium que ela usava e sequer pensou que aquilo poderia ser algum tipo de golpe, estava desesperado demais por respostas. – Você sabe onde ela está? Ela está bem?
– Sim, mas há câmeras aqui agora, então por que não conversamos enquanto damos uma volta? – ela levantou os olhos até o canto da parede do outro lado da sala, Mark seguiu seu olhar e encontrou o pequeno pontinho vermelho característico das câmeras que ele estava mais do que acostumado, então aceitou o convite e caminhou para longe daquela sala. – me falou muito sobre você, sei que se veio aqui depois do que aconteceu da última vez é porque quer ajudá-la tanto quanto eu. Você acredita, Mark? Ela me disse que te provou, mas acha que não vai acreditar nela mesmo assim.
O garoto levou alguns segundos para raciocinar e entender o que a mulher queria dizer.
– Eu não sei… Eu quero acreditar, mas… Você acredita?
– Não tenho como não acreditar, faço parte da equipe que a capturou.
– Espera, você… – ele apontou horrorizado, fazendo menção de se afastar, mas ela o impediu.
– Me escuta primeiro, depois pode decidir o que fazer – a mulher mantinha as mãos atrás do corpo, enquanto andava – Eu não me orgulho disso, quando a capturamos nós achávamos que ela era como um peixe, sem emoções e sem consciência. O resto da equipe ainda acha e eu não tenho influência alguma para convencê-los do contrário, sou só um peão nesse tabuleiro. Com o tempo fui ganhando sua confiança, e a cada conversa eu me aproximava mais dela, percebia a criatura magnífica que ela é. Uma mente preciosa, inocente, completamente alheia a toda a maldade humana. E quanto mais eu me dava conta disso, mais eu percebia que mantê-la em cativeiro era errado.
– E por que a mantém aqui, se sabe de tudo isso?
– É mais complicado do que imagina. Como eu disse, sou apenas um peão, num jogo de xadrez perigoso, que envolve pessoas com dinheiro e poder suficiente para me manter calada por todo esse tempo. Mas a está morrendo, Mark, e eu jamais vou me perdoar se isso acontecer. Eu estou de mãos atadas, mas você não, você pode ajudá-la.
– O que eu preciso fazer?
– Primeiro de tudo você precisa saber que vai ser perigoso e…
– O que eu preciso fazer? – repetiu a pergunta, determinado, quase rude.
– Posso levá-lo até ela e depois garantir uma rota segura para que a tire daqui, mas não com essas roupas. – ela gesticulou em sua direção – Na cabine interditada do banheiro atrás de você, há um uniforme do Aquário, vista, coloque a máscara e me encontre no final daquele corredor, a esquerda, entendeu? – Ela apontou com o queixo discretamente na direção de corredor sinalizado com uma placa de “Apenas pessoas autorizadas”.
Mark assentiu minimamente e entrou no banheiro. Foi direto até a última cabine e assim como a mulher havia dito estava interditada. Abriu a porta com cuidado e encontrou sobre a tampa da privada uma sacola preta.
Seu coração batia tão rápido que ele achava que poderia ter um AVC a qualquer momento. Aquilo era muita loucura, o que ele estava fazendo? Ele nem sabia se aquela mulher estava falando a verdade. Enquanto vestia o uniforme azul e substituía sua calça jeans clara por uma calça preta e larga, repassava mentalmente suas escolhas com cuidado. Aquilo podia ser um plano muito bem arquitetado de alguém que sabia quem ele era. Elas podiam ser sasaengs com mentes malignas e ele estaria caindo direitinho no plano das duas.
Então por que não conseguia parar? Por que não deu meia volta, colocou sua roupa novamente e seguiu para o carro onde Yuta esperava, mas sim seguiu exatamente o caminho que a mulher havia lhe dito?
Talvez, por mais clichê que possa soar, estivesse seguindo seu coração, mas ele nem sequer se deu conta disso. Parou em frente a mulher que o esperava, com as mãos tremendo em nervosismo e adrenalina.
– Eu peço que tudo o que ver aqui, mantenha em segredo. A vida de muitas pessoas dependem disso, inclusive da minha família. – ela pediu, antes de abrir as três fechaduras que trancavam a porta de ferro e a empurrar.
Nada na vida de Mark o havia preparado para um momento como aquele. Parecia cena de filme, estava em algum tipo de laboratório, com diversos equipamentos que ele não fazia ideia do que eram e para que serviam, mas o que atraiu sua completa atenção foi a sereia deitada dentro de um tanque de água que devia ter o mesmo tamanho de uma banheira de hotel.
! – correu até ela, ignorando todo o resto ao seu redor.
Não existia laboratório, não existia aquela mulher estranha, nem mesmo o perigo que estava correndo simplesmente por estar ali. Existia apenas , e seu pequeno e precioso sorriso quanto o viu.
– Eu sabia que viria, mesmo que demorasse e eu estava certa! – balbuciou a frase já conhecida, com uma voz fraca e rouca.
– Eu prometi, não foi? – respondeu a mesma coisa que disse mais de um ano atrás, quando voltou para ela pela primeira vez. A diferença é que agora ele podia tocá-la ao dizer isso, o tanque onde ela se encontrava devia ter pouco mais de um metro de altura, e ele precisou até se inclinar um pouco quando finalmente segurou o rosto que desejou por tanto tempo e encostou sua testa na dela.
A pele dela era gelada e úmida, mas tão macia quanto ele havia imaginado tantas vezes. Sentiu as mão dela envolverem as suas, que ainda segurava o rosto da criatura mais encantadora que já havia visto, então fechou os olhos e se permitiu por um mísero segundo se sentir aliviado. Ela estava ali, ela estava viva e era tudo que importava naquele momento.
– Odeio estragar o momento do casal, mas temos pouco tempo até que alguém perceba que há algo de errado com as câmeras. Vocês precisam se apressar.
– O que eu faço? – Mark perguntou, finalmente afastando o rosto de e notando que seu estado era ainda pior que da ultima vez que a viu. – Como eu vou te carregar para fora daqui sem que ninguém perceba?
– Vou esvaziar o tanque, , você sabe o que fazer. – a mulher no uniforme azul anunciou, e afirmou com um aceno.
– Eu posso andar, só nunca tentei. – ainda seguravam a mão um do outro quando ela disse a Mark, conforme o nível da água abaixava e revelava sua enorme cauda escamosa, agora completamente opaca e sem cor. Assim, tão de perto, Mark podia ver ainda melhor os detalhes que agora sabia serem reais. – Sem contato com a água eu perco minha cauda, sei disso, mas nunca passei pela transformação. Não sei como vai ser, nem se vou saber andar.
– Se não souber eu te ensino, ou te carrego nas costas. – ele tentou sorrir encorajador, mas a situação ainda era apavorante.
Aguardou menos de um minuto até que toda a água do tanque houvesse sido esgotada e observou a cauda ansiosamente, junto com as outras duas. Poucos segundos fora da água e as escamas começaram a tremer e enrugar, até colarem na pele e sumirem completamente. As barbatanas deram lugar a dois pés, que definitivamente não eram feios, e lentamente a parte inferior de seu corpo se dividiu em duas pernas humanas.
Mark desviou o olhar rapidamente quando notou que a garota estava nua.
– Como você se sente? – ouviu a mulher perguntar a .
– Arde um pouco, é como se estivessem arranhando minhas escamas.
– Consegue se levantar?
E Mark permaneceu de costas enquanto apenas ouvia a mulher ajudar a sair de dentro do tanque, com certa dificuldade, esperando pacientemente até que pudesse vê-la.
– Por que está de costas, Mark? – ouviu a garota perguntar, confusa, mas foi a mulher que respondeu por ele.
– Nós humanos não costumamos olhar para outro humano nu.
– Ah, é por isso que está colocando isso em mim?
– Exato. Pode virar agora, Mark.
Quando ele finalmente pôde vê-la, ela vestia um uniforme igual ao seu, e estava em pé, sob duas pernas trêmulas, bem na sua frente. Aquela era a maior loucura que já havia vivido, mas finalmente estava ali, frente a frente com ela, sem um aquário de vidro os separando.
– Consegue andar? – Se aproximou cuidadosamente dela, com os braços esticados prontos para ampará-la ao menor vacilo.
– Vou precisar de ajuda. – respondeu dando um passo incerto, e Mark prontamente passou um braço pela sua cintura servindo de apoio.
– Eu vou com vocês até a saída, quando o guarda perguntar o que houve você diz que ela está passando mal e precisa levá-la a um hospital. Vou autorizar a saída com meu crachá, o que significa que assim que eles notarem que você fugiu vão saber que a ajudei, quando isso acontecer, vocês precisam estar bem longe daqui.
– Quanto tempo? – Mark perguntou, ajudando a garota a caminhar até a porta.
– Uma hora, duas no máximo.
– E quanto a você? – parou de andar e se virou para ela, com a voz cheia de temor, soltando de Mark para se equilibrar com o ajuda da mulher. – O que vai acontecer com você quando descobrirem?
– Eu não sei. – ela soltou um riso consternado e sem humor. – Mas seja lá o que aconteça, eu mereço. Eu sinto tanto por tudo que você passou , se eu pudesse voltar no tempo e…
– Tudo bem, doutora Kwon. O perdão foi uma das coisas mais bonitas que vocês humanos me ensinaram. Eu a perdoo por tudo que aconteceu, então, por favor, não se culpe mais. – e a puxou para um abraço apertado, ao terminar. – Obrigado por tudo que fez por mim, eu jamais vou esquecer.
– Ok, ok, agora vamos antes que eu comece a chorar e estrague todo o nosso disfarce.
As duas se separaram e eles saíram do laboratório. Caminharam a passos tensos e vacilantes até a saída, e quando estavam quase chegando o celular de Mark tocou em seu bolso.
– Hyung?
Você tem 5 minutos para sair desse lugar, Mark, ou eu vou entrar e te trazer para fora na porrada! – a voz de Yuta estava furiosa.
– Fica com o carro preparado para levar a gente o mais rápido possível para longe desse lugar, chego em 1 minuto. Por favor, confia em mim.
A gente? Do que você tá falando, moleque? – mas Mark desligou antes de responder.
– O que houve? – o guarda questionou, observando desconfiado a garota de cabeça baixa, apoiada contra o corpo de Mark.
– Ela está passando mal, vou levá-la ao hospital. – Mark afirmou com tanta convicção, que até ele mesmo podia acreditar naquelas palavras.
– Estou autorizando, podem ir. – a mulher entregou o crachá e enquanto o segurança se afastava para verificar ela completou. – Espero que tudo dê certo e você fique bem.

BangYeDam – WAYO

Mark assentiu e quando pisou com para fora das paredes azuis daquele aquário, segurando a garota firme em seu braço, finalmente pôde respirar aliviado. Chegou ao carro onde Yuta o esperava, a ajudou a entrar no banco de trás e entrou logo atrás.
– Ei, ei, espera aí! Que merda é essa, Mark Lee? Essa é a famosa ? – virou o corpo completamente para trás – Você tá sequestrando a garota?
– É mais um resgate, hyung. Agora você pode, por favor, dirigir para longe desse lugar o mais rápido possível? Temos pouco tempo.
– Pouco tempo? No que diabos você se meteu? Quer saber? Eu nem quero que me responda, sinto que vou me arrepender amargamente de ter concordado em te ajudar. – ele arrancou com o carro, seguindo para a primeira via rápida que encontrou. – Para onde vamos? Ela tem para onde ir ou vai deixá-la em algum hotel? Por favor, por tudo que é mais sagrado, não me diga que está pensando em levar a garota para o nosso dormitório.
– Claro que não, hyung. – Mark respondeu e Yuta suspirou aliviado cedo demais. – Vamos levá-la para o mar.
– Você tá maluco?! Mark Lee, você perdeu toda a sanidade que te restava, é isso? Sabe que o mar mais próximo fica em Incheon, a mais de uma hora de viagem, não sabe?
– Sei, então mete o pé nesse acelerador porque é caso de vida ou morte!
Yuta aproveitou o sinal fechado para encarar pelo retrovisor o mais novo no banco de trás. Conhecia Mark o suficiente para saber que ele não costumava fazer nada impulsivamente, sem pensar duas, até três vezes antes. Era até irritante o quão racional ele podia ser, então era difícil entender porque ele estava fazendo aquilo.
– Você está falando mesmo sério, não está? – perguntou, voltando a dirigir com sua atenção no trânsito.
– Estou, hyung! Nunca falei tão sério em toda a minha vida, então, por favor, dirija de uma vez para Incheon ou me deixe chamar um táxi, sei lá. – brandou, irritado.
– Ok, ok! Mas sabe que esse carro é rastreado né? Em pouco tempo a empresa vai saber onde estamos e vão querer satisfações. Se eu me meter em encrenca por sua causa…
Enquanto discutiam, permanecia quieta, imóvel no banco. Sua respiração ruidosa deixava clara a falta de costume em usar os pulmões daquela forma. Colocando toda sua racionalidade de lado, Mark imaginou o quão assustador aquilo devia parecer para ela e sem pensar duas vezes entrelaçou seus dedos nos dela, ignorando completamente a outra presença no carro.
– Como ‘tá se sentindo? – questionou preocupado, observando o rosto pálido da garota-sereia, que por sua vez admirava cheia de curiosidade suas mãos entrelaçadas sob o banco.
– Me sinto estranha, como se algo se revirasse dentro de mim quando você me toca, mas é bom. – ela finalmente levantou os olhos até os dele. – É assim sempre que humanos se tocam?
– Só quando estão apaixonados. – a voz brincalhona de Yuta que respondeu, chamando atenção dos dois. A garota virou o rosto para encará-lo, cheia de curiosidade, enquanto Mark o fuzilava com o olhar. – Ainda não fomos devidamente apresentados, sou Nakamoto Yuta. Você deve ser , de quem ouvi tanto falar.
– Eu mesma. – ela sorriu, mantendo o olhar incisivo de Yuta por todo o tempo através do espelho do retrovisor. Ele usava seu melhor olhar intimidador, aquele que as pessoas normalmente não conseguiam encarar por muito tempo, mas a garota parecia achá-lo fascinante.
– Então você é uma sereia? – ela assentiu – Com todo respeito, mas onde está o seu rabo de peixe?
– Hyung! – Mark o repreendeu, mas a garota ao seu lado gargalhou com a pergunta.
– Desculpa, mas eu esperava um pouco mais de… escamas, sabe?
Mark estava pronto para repreendê-lo novamente, mas foi distraído por uma carícia singela que o polegar de começou a fazer no dorso de sua mão.
– Tudo bem, eu também esperava que vocês humanos tivesse um pouco mais de pêlos pelo corpo, mas acabei descobrindo que tem a pele lisinha. – ela explicou sorrindo fraco, dando continuidade ao carinho. – Não seria muito prático para a minha fuga estar com a minha cauda, então fiquei fora d’água até que minhas escamas secassem e sumissem, e no lugar ganhei esse par de pernas humanas. Já tinha ouvido falar da transformação, mas não imaginava que fosse ser tão… incomoda.
– E você viu essa… transformação? – dirigiu a pergunta a Mark, que assentiu com uma aceno. – Ok…
Yuta já havia assistido animes o suficiente para saber lidar melhor com aquele tipo de situação, mas enquanto dirigia rumo a Incheon, continuava se perguntando se o amigo não havia sido enganado e eles estavam indo em direção a uma grande enrascada.
Mark, por sua vez, apenas retirou os fones de ouvido do bolso com a mão livre, colocou um em seu ouvido e outro no da garota, e ligou baixinho uma das músicas que ele sabia que ela gostava.
– Respira pelo nariz e solta pela boca, assim – demonstrou para a garota ao seu lado, que respirava cada vez mais pesadamente pela boca. – Vai ajudar.
Ela imitou o ato, puxando o ar profundamente pelo nariz e em seguida soltando pelos lábios entreabertos.
– Você deve ter algumas perguntas para me fazer. – ela murmurou, entre uma respiração e outra.
– Várias, mas não quero te assustar.
– Tudo bem, você não me assusta, pode perguntar. – o sorriso de encorajamento dela foi o suficiente para o garoto irromper em perguntas.
E assim Mark passou a próxima hora a questionando todos os detalhes possíveis sobre a sua vida no mar. Havia desistido de tentar encontrar uma resposta racional, e apenas aceitava que tudo que havia visto era verdade. era uma sereia, que de acordo com as informações que ela compartilhou, havia nadado para longe de casa movida pela curiosidade pelo mundo dos humanos.
Acabou sendo capturada e mantida em cativeiro por dois anos, constantemente levada de um lugar para outro. Deu detalhes das torturas que havia passado nas mãos de seus captores, com a maior naturalidade, como quem conta sobre o clima. O estômago de Mark embrulhou de uma forma inexplicável, ele sentia tanta raiva que era capaz de colocar aquele aquário abaixo.
– Mas tudo bem, eu entendo que é apenas a natureza humana. Nós também fazemos algumas coisas que aos seus olhos seriam consideradas hediondas. – deu de ombros.
– E qual o nome do seu… sabe… povo? Não sei se é isso, tudo que sei se sereias eu aprendi em filmes, então não sei se tá certo…
– Sim, meu povo – ela concordou, com um sorriso de quem estava achando incrivelmente fofa a falta de jeito de Mark em fazer perguntas que nem ele mesmo compreendia. – Eu não sei se tem uma palavra equivalente na sua língua natural, no idioma humano, mas nós chamamos de – e então ela soltou um som, uma melodia de três notas, que não parecia com nada que Mark já havia ouvido na vida, mas se pudesse descrever diria que se assimilava com o canto de uma baleia solitária sintetizada por um efeito sonoro que nem em seus vários anos na música havia conhecido.
O som sobre-humano foi o suficiente pra Yuta frear o carro bruscamente.
– Caralho, o que foi isso?!
– Me desculpa, eu não sabia que soaria assim para vocês. – a garota cobriu a boca, assustada com as reações.
– Esse é o seu… idioma? – Mark perguntou, ainda impressionado.
– Sim, apesar de soar bem diferente embaixo d’água. Nós não precisamos usar muito as… palavras, nos entendemos em um nível diferente.
Mark se perguntou se era por isso que, desde a primeira vez que se viram, parecia conhecê-lo tão bem. Parecia saber exatamente o que e quando dizer sem que ele precisasse se explicar muito, o fazendo se sentir a vontade o tempo todo com tanta naturalidade.
Estavam entrando em Incheon, e então a percepção de que o tempo estava acabando acertou o peito de Mark com força. Automaticamente, apertou a mão de , que sorriu para ele como se soubesse exatamente o que ele estava sentindo. E talvez realmente soubesse.
Pararam o carro num estacionamento quase vazio, ao lado de uma loja de conveniência fechada, de frente para o mar em Dong-gu e assim que a ajudou a descer, Mark a viu respirar profundamente. Ele mesmo respirou da mesma forma, porque o cheiro do mar também o acalmava, e naquele momento ele precisava muito de calma.
Caminharam em direção ao píer de madeira que começava a alguns metros em encontro com o chão de concreto do calçadão e a areia da praia. Mark ainda a sustentava pela cintura, mesmo que talvez ela já conseguisse andar sozinha, ele simplesmente não conseguia se afastar.
– Aproveita que a praia está vazia. Eu vou dar um tempo para vocês… se despedirem. – Yuta murmurou, se afastando com um aceno.

BTS – Spring Day

Seus caminhos divergiram e enquanto via Yuta ir em direção ao píer, mudou seu rumo em direção a praia, soltando a cintura da garota apenas para segurar sua mão. Utilizou todo o fim de sua coragem para levá-la até uma das diversas vigas de madeira escura que sustentava o píer acima deles e a puxar para um abraço quase desesperado.
Seus braços trêmulos apertavam os ombros de , pressionando seu ouvido contra o peito, e em resposta a garota se agarrava as laterais de sua camiseta.
– Seu coração esteve batendo muito rápido desde que saímos do aquário, mas agora está tão acelerado que não sei se é saudável para um humano. Você está bem?
– Eu não sei, . Eu não faço ideia de absolutamente nada nesse momento. Todo o meu mundo foi virado de cabeça para baixo nos últimos dias, e eu não vou mentir, é meio assustador. – Apertou ainda mais a garota em seus braços, afundando seu nariz nos cabelos escuros, tentando gravar aquele cheiro que sabia que nunca mais sentiria em outro lugar. – Eu estou sentindo tantas coisas ao mesmo tempo, parece que meu corpo vai explodir e a única forma de eu não permitir que isso aconteça é te abraçando. Por isso é tão injusto que essa seja a única vez que vou poder te abraçar.
Sem que percebesse, ele deixou as lágrimas começarem a rolar durante o desabafo e sabia que agora seria impossível impedi-las de continuar saindo. , assim que ouviu as palavras do garoto, se afastou bruscamente quebrando o abraço, deixando Mark sem entender por um segundo, até que ela voltou a abraçá-lo dessa vez passando os braços delicados ao redor da cintura do mais alto.
– Pronto, agora aquela não foi a única vez que você pôde me abraçar. – explicou e Mark soltou um risinho soprado entre o choro. se afastou um pouquinho, sem quebrar o contato dessa vez e subiu as mãos pelo peito quente de Mark, até terminar em seu maxilar, acariciando suas bochechas com o polegar. – Por favor, não chore.
– Eu esperei mais de um ano por esse momento, eu o imaginei antes de dormir tão claramente, tantas noites, de tantas maneiras diferentes que eu achava que estava preparado para qualquer cenário, mas eu estava enganado. Não estou preparado para te dizer adeus logo agora que finalmente a tenho, é tão injusto.
– Você não me… tem, Mark. Para mim não existe o seu sentimento de posse, porque nós nunca realmente temos algo. Todas as coisas podem ser tiradas da mim a qualquer momento, então seria tolice possuir algo, – ela deu um sorriso como quem pede desculpa – mas se eu conhecesse esse sentimento, eu gostaria que você pudesse possuir meu coração. De alguma forma eu sinto que ele te pertence.
Observaram juntos cada detalhe um do outro, fazendo exatamente a mesma coisa sem perceber, gravando cada centímetro do que viam para eternizar aquela cena em suas mentes.
– Sabe, quando abandonei minha vida no fundo do oceano, eu fugi movida pela curiosidade de conhecer o que eles chamavam de a maior fraqueza dos humanos. O amor é a fraqueza, Mark, foi atrás de amor que eu saí quando me capturaram. Eu não fazia a menor ideia do que era, mas parecia algo tão grandioso, sabe? Meu povo não conhece os sentimentos humanos, pensávamos que não tínhamos a capacidade de sentir essas coisas, mas eu descobri que não é verdade. O primeiro sentimento humano que eu conheci foi o ódio. Quando me prenderam, eu passei muito tempo odiando esse sentimento, o amor, porque foi por causa dele que eu acabei naquela situação. Era um sentimento corrosivo, que me machucava, me adoecia dia após dia, e eu pensei que se os sentimentos humanos fossem daquela forma eu não queria sentir mais nada. Até que eu conheci você, até que eu conheci o amor e entendi porque ele é chamado de a maior fraqueza dos humanos. Ele é tão poderoso que mesmo com todas as coisas ruins que eu passei você apareceu e fez tudo vale a pena, dissipou todo o ódio, substituiu por essa coisa inexplicavelmente boa que eu sinto toda vez que penso em você. Amor é uma fraqueza muito nobre e eu agradeço por ter me permitido sentir isso, Mark. É muito mais do que eu poderia sonhar conhecer.
– Quando sentimos isso por alguém, nós dizemos uma frase muito bonita que pode resumir tudo, eu não sei se tem uma equivalente no seu idioma, mas nós chamamos de eu te amo. – ele declarou, e apesar da brincadeira nunca havia falado tão sério. Nunca havia sido tão fácil falar aquelas palavras.
Então, sem aguentar mais, segurou o rosto de entre seus dedos, da mesma forma que ela ainda fazia, e colou seus lábios. Entre lágrimas salgadas, Mark jamais pôde descobrir que sabor tinha o beijo de uma sereia. Talvez tivesse aquele sabor mesmo, molhado e salgado como o oceano.
E assim como o oceano, as sensações causadas por aquele beijo eram gloriosas. Um simples mover de lábios, mas que possuíam o poder de uma onda quebrando contra as pedras. Assustadoramente intenso, eletrizante e ao mesmo tempo pacífico. Mark sentiu que podia desfalecer em puro deleite naqueles lábios, enquanto seu peito, seu coração, sua mente, tudo nele explodia no mais perfeito e delicioso caos.
Era magnífico, mas acabou cedo demais.

Lady Gaga, Elton John – Sine From Above

Ela afastou o rosto minimamente, e Mark a puxou novamente até estarem com as testas coladas e a pontinha dos narizes se encostando. Como mágica, seu peito não estava mais pesado como antes e as lágrimas haviam cessado, havia apenas todo o sentimento devastadoramente bom que aquele beijo havia causado e ainda não queria se afastar.
– Graças a você eu descobri que sereias também são capazes de amar. Talvez o amor não seja fraqueza dos humanos e sim a fraqueza universal, mas eu me sinto abençoada por ser fraca por você – e com uma última carícia suave em seu rosto, ela se afastou. – Está na hora, eu preciso ir Mark.
– Tudo bem, vamos encontrar o Yuta hyung – levantou os olhos úmidos para o píer acima deles e achou a figura muito rapidamente, debruçada sobre a madeira com o olhar perdido no horizonte, a uns cem metros deles, e podia jurar que ele estava sorrindo.
De mãos dadas, sem serem capazes de quebrar aquela conexão, o casal deu a volta na areia e caminhou até onde ele estava. Vendo mais de perto, antes mesmo de chegar a ele, Mark podia notar claramente o sorrisinho sugestivo que ele tinha no canto dos lábios e, então, sabia que o amigo tinha visto toda a cena ali de cima.
– Finalmente! Eu acabei de atender uma ligação e mentir pelo menos umas cinco vezes para o nosso manager sobre o porquê viemos a Incheon sem avisar ninguém. – anunciou.
deixou Mark a alguns passos e foi em direção ao outro garoto.
– Obrigado pela ajuda, Nakamoto Yuta. Eu serei eternamente grata e prometo que jamais o esquecerei! – Ela avançou rápido contra o garoto de cabelos brancos e o prendeu pela cintura em um abraço.
– Por que é que eu realmente acredito que não vai mesmo? – ele perguntou sem saber o que fazer com os braços, sem jeito com a sinceridade inesperada.
Sem responder, ela se afastou alguns passos, voltando a sustentar o olhar intimidador de Yuta sem o menor receio.
– É, você tinha razão, quando humanos se tocam só é daquele jeito quanto estão apaixonados. – sorriu gentilmente, então se virou e voltou a caminhar em direção a Mark, que havia parado no lugar no momento em que ela soltou sua mão.
– Sei o quanto você odeia despedidas, então não quero tornar esse momento ainda mais difícil. – Mark falou, de mansinho, voltando a segurar ambas as mãos da garota, que concordou com a cabeça.
– Antes de ir eu preciso que me prometa uma última coisa. Prometa que não vai me esquecer, mas também que não vai ficar me esperando, porque eu não posso voltar. Prometa que vai viver sua vida ao máximo e ser feliz a cada dia, porque só assim eu posso viver feliz também.
– Eu prometo! – ele respondeu, sem hesitar, e sabia no fundo do seu coração que cumpriria aquela promessa.
– Eu realmente odeio despedidas, então eu vou apenas dizer algo que resume tudo o que estou sentindo agora. – ela se aproximou os centímetros que os separavam, ficando na ponta dos pés para que seus olhos estivessem na mesma altura. – Eu te amo, Mark Lee.
E então ela colou seus lábios novamente nos dele por um segundo, suavemente, e dessa vez tinha gosto de despedida. Ainda assim, era uma sensação tão esplendorosa que Mark fechou os olhos instantaneamente e quando voltou a abrir, sentindo a rápida falta dos lábios da garota, a viu soltar sua mão e caminhar para o fim do píer.
Yuta se aproximou do amigo e ambos acompanharam, hipnotizados, a garota se afastando até chegar a extremidade da estrutura de madeira, que ficava alguns metros adentro no mar. Ao longe, Mark viu a garota tirar a camiseta azul que vestia, e diferente do amigo que, surpreso com a cena, cobriu os olhos com as mãos, ele continuou olhando. Não desviou nem mesmo quando ela retirou a calça larga ficando completamente nua.
Não havia malícia alguma em seu olhar, ele simplesmente admirava a cena sem a capacidade de desviar. Queria gravar em sua mente cada segundo dela que pudesse, porque sabia que seria a última vez. Ela virou o pescoço e o observou por cima do ombro por alguns segundos e mesmo tão longe aquele olhar dizia tanto. Mark sentiu seu peito ser inundado por aquele sentimento novamente, o de ser abençoado por ser pequenininho diante de algo tão grandioso quanto o que estava vendo, e então ela mergulhou graciosamente no mar.
O som do corpo se chocando contra a água fez com que Yuta tirasse as mãos dos olhos, em completa confusão.
– Ela…? Para onde ela foi?
– Para casa, hyung. – Mark respondeu ao amigo, depois de levar vários segundos para se recuperar.
Yuta ainda em choque, continuou olhando para o amigo e em seguida para o fim do píer, tentando entender o que havia acontecido. Ele só entendeu de fato quando viu a sereia irromper a superfície da água e saltar no ar por alguns segundos, com seus braços esticados e sua cauda que brilhava de todas as cores possíveis, antes de mergulhar novamente no mar. Era uma visão mágica, celestial.
– Ca… ralho. Ela é mesmo uma sereia. – ele declarou, perplexo e maravilhado ao mesmo tempo.
Os dois soltaram uma risada atônita ao mesmo tempo, boquiabertos por motivos diferentes. Yuta passou o braço pelos ombros do amigo e eles apenas ficaram lá, observando o mar por mais alguns minutos antes de voltar para casa também.
Yuta se preocupou em perguntar várias vezes se o outro estava bem, e ele foi sincero ao responder que sim, estava. Se sentia plenamente feliz. A garota estava de volta onde pertencia, livre. Havia vivido a experiência mais intensa dos seus 20 anos e sabia que jamais viveria algo remotamente parecido outra vez. Aquele era um dos momentos na sua simples existência humana que ficaria marcado para sempre. O choque entre dois mundos, que mudou para sempre a vida de quem o viveu.
E com ela havia dito, o amor era algo tão poderoso que mesmo com todas as coisas que haviam acontecido até ali, ele foi capaz de dissipar todos os sentimentos ruins e fazer tudo valer a pena. Para Mark Lee havia sido suficiente, ele havia conhecido algo divino, no mais profundo sentido da palavra, vivido fisicamente um encontro de almas. Ele tinha fé que aquilo havia sido o mais perto de Deus que já esteve um dia, então estava em paz.

FIM

Nota da Autora:
Como estamos, leitores? Muito choro por aí? AHUAHAUAHAU
Essa história surgiu pra mim como um insight no meio do banho, enquanto eu ouvia A Song Written Easily, e foi uma epifania tão colossal que primeiro eu chorei escorregando pela parede do banheiro teatralmente imaginando as cenas e os sentimentos causados por elas, depois sai correndo pela casa, pelada e ensaboada, só pra escrever logo e não perder nenhuma ideia. Mark Lee tem uma alma tão pura e bonita que eu precisava escrever algo que mostrasse exatamente isso, o ser humano precioso que ele é.
É a primeira história que eu termino em muitos anos (e terminei em 5 dias), escrever FIM na última página foi tão libertador que me sinto inspirada como não sentia ha muito tempo, espero que ela desperte em quem ler os mesmos sentimentos magníficos que senti escrevendo. Obrigado por ter chegado até aqui, não sei escrever pouco nem nas notas, não se esqueça de deixar um comentário pra me fazer feliz e até a próxima!

Nota da Beta:
Oi! Pedi a permissão da Amy pra invadir um pouquinho o espaço dele, pois sabia que não ia conseguir descrever com precisão tudo que senti com essa história mais de uma vez. Que o fizesse aqui, agora, com o peito ainda martelando forte com as emoções tão intensas que me surgiram lendo isso aqui.
Queria contar pra vocês algumas coisas sobre mim enquanto falo aqui, tudo bem? Se não quiserem ler, tudo bem, não vou me magoar, mas sinto que preciso falar.
Esse ano me aproximei muito de Deus, mas do que jamais fiz antes e é, com certeza, a coisa pela qual tenho sido mais grata todos os dias. Tenho aprendido muito com Ele, sabe? Assim, minhas expectativas pra essa história, assumo, já eram altas, pois já sabia que Mark é um menino de muita fé. Amy, é claro, conseguiu superar monstruosamente cada uma dessas expectativas, e então eu me dei conta. Quando a conheci, quando recebi sua primeira história, a menos tempo do que parece, senti algo bom em relação a ela. Admiração por sua escrita, uma familiaridade gostosa por sua paixão, mas mais ainda, algo que não sabia explicar. Hoje, acho que sei. Essa história me tocou de inúmeras maneiras, exatamente no dia em que eu precisava ser tocada dessa forma. Entendi o que Deus faz, pois posso dizer com propriedade que ele agiu aqui, colocando Amy em minha vida, para tanto com sua arte quanto com sua amizade, me ensinar tanto, e me dando essa história de presente. Meu coração está profundamente tocado, comovido e apaixonado por tudo que li aqui. Senti amor, senti coragem, senti força e precisava tanto sentir essas coisas hoje.
Obrigada, Amy. Obrigada por sua paixão e dedicação em descrever aqueles que ama com tanta fidelidade, por ter trazido Mark Lee para mais perto do meu coração e, acima de tudo, por ter trazido Deus para mais perto de mim também. Arrisco dizer que me sinto tão leve quanto Mark nos últimos instantes da história e a sensação é tão, tão gostosa. Reitero aqui o que tenho dito desde a primeira vez que li algo seu: Você é talentosa, talentosa demais. Espero que nunca pare de escrever, o mundo é grande, mas você é tão grande quanto ele, amiga.
Muito obrigada mesmo por esse presente. Eu chorei demais, mas foi bom. Foi choro de amor.
Beijos!
Deixem comentários pra Amy, pessoal.