Flower

Flower

  • Por: Lola Boudeaux
  • Categoria: Kpop | Seventeen
  • Palavras: 5626
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Sinopse: Eles se encaixavam perfeitamente bem, brigavam por um motivo diferente a cada segundo que se passava e no final davam risada, sabendo o que os mantinha ali. Ele fazia cócegas nela que tentava fugir, numa brincadeira que acabava em um pega-pega infantil, eles eram o mais perfeito par. Uma manhã na piscina, uma tarde no parque e uma noite no quarto. Sabiam de tudo que poderiam ser juntos um dia e dentre todas os sorrisos e lágrimas as maiores verdades surgiam no silêncio. Seus corações chamavam um pelo outro, era o mais puro amor, aquele que nas músicas e filmes de romance costumavam terminar com um “felizes para sempre”… Mas por que o deles acabara diferente?
Gênero: Drama, romance.
Classificação: 10 anos.
Restrição: Sem restrições.
Beta: Alex Russo.

 

Seus cabelos se espalharam pela fronha cinza quando se jogou na cama, cansado demais para se esforçar a pensar em qualquer coisa que exigisse muito de sua mente ou algum sentimento mais profundo que pudesse vir de dentro de si. suspirou ao encarar o relógio pendurado na parede, passara horas e horas ensaiando, dançando por tempos intermináveis e movimentos incontáveis, apenas para ver se aqueles pensamentos saiam de sua cabeça.
Já era difícil o suficiente conciliar sua rotina corrida com o grupo, a ida dela só tornara tudo mais complicado, fizera com que ele perdesse a noção de tempo e espaço e seus dias agora eram baseados em isolamento e horas de ensaios cansativos.
Perdera a noção do tempo que passara repetindo a mesma coreografia, buscando a perfeição de cada passo e cobrando o dobro de si a cada movimento, não aceitaria menos que a perfeição em sua dança. Suas pernas estavam doloridas e seus pés formigavam, até mesmo o colchão causava dor quando tocava seu corpo, e todos os centímetros de seu corpo doíam, todos os músculos gritavam e tudo parecia pedir um tempo de paz.
Foi apenas quando seu estômago roncou que percebeu que não comera o dia todo.
levantou-se da cama, espreguiçando e alongando o corpo por completo, podia sentir as pontadas espalhadas pelo corpo e os efeitos do exercício em excesso, precisava de descanso, o sono lhe atingia e lhe chamava. E ele sabia que quando caísse nos braços de Morpheu, seria atacado com lembranças que viriam em formato de sonhos. Seu subconsciente parecia querer lhe castigar e maltratar, mas ainda assim precisava de descanso e sono.
Mas antes precisava se alimentar, vestiu o casaco que se encontrava no encosto de sua cadeira e o vestiu a caminho da porta, calçou seu habitual par de tênis e saiu de casa, fechando a porta com cuidado para não acordar os amigos que já estavam dormindo.
Dezembro tinha chegado e as ruas já demonstravam a chegada do inverno em Seoul, as folhas das árvores caiam aos poucos, as limpando por completo e soube que elas logo estariam cobertas por neve, o vento gélido batia em seu rosto, o fazendo desejar voltar para dentro de seu quarto e pedir um delivery qualquer para comer debaixo de suas cobertas, mas parou e pensou novamente, precisava de ar para refrescar a mente e colocar seus pensamentos em ordem.
Entrou no restaurante de sempre, como de costume as luzes amarelas estavam acesas, assim como a lareira que tornava o lugar quentinho naquele começo de inverno. O garoto logo se direcionou as habituais poltronas de canto, em frente a grande janela. Aquele era seu lugar preferido, os sofás de couro marrom ao redor das mesas de madeira e as grandes almofadas espalhadas pelos mesmos tornavam o lugar acolhedor e agradável, como a casa de um amigo.
sentou-se e logo a atendente se aproximou para anotar seu pedido, voltando pouco depois com seu bibimbap*, o moço sorriu e logo começou a comer.
Ele estava com fome, mas era como se a comida se prendesse em sua garganta, não sentia vontade de comê-la ou desejo pela mesma, sua única vontade era gritar, gritar até que ela voltasse. Ele afastou o prato e levantou-se para pagar a comida que não tinha consumido.
Quando passou pela porta, a chuva caía do lado de fora, e seu peito apertou com aquela dor. Virou na rua sem saída que tinha ao lado do restaurante, apoiou a testa na parede sentindo as lágrimas escorrerem e então pensou “isso é saudade?”, ele queria que não fosse, queria ter certeza que podia viver sem ela e provar a si mesmo que ficaria bem de qualquer jeito. Foi duro consigo mesmo, limpou as lágrimas do jeito mais forte que conseguiu, balançou a cabeça e disse a si mesmo que aquilo ia passar.
De um jeito ou de outro, andou em passos firmes de volta para casa.


entrou em seu apartamento, soltando os cabelos ao mesmo tempo que tirava os tênis, massageou o couro cabeludo para aliviar o incômodo por passar o plantão inteiro com o rabo de cavalo. Só então parou para analisar a correspondência que pegara antes de subir ao apartamento, deixou de lado algumas cartas de cobrança e foi quando o envelope amarelado e pesado chamou sua atenção, suas mãos já tremiam antes mesmo de abri-lo e sentou-se no sofá, encarando o brasão vermelho da Médecins sans Frontières*, sentia-se ansiosa e não conseguia lidar com aquilo sozinha, como poderia encarar seus sonhos ali de frente e ter coragem o suficiente para saber se eles estavam perto ou longe?
Como se pressentisse que ela precisava da sua presença, ouviu a senha ser colocada na fechadura digital e logo entrou pela porta, tirando o tênis e o casaco e os colocando no local reservado, abriu seu sorriso favorito quando a viu ali no sofá.
— Ainda bem que você chegou, trouxe Rabokki*! — exclamou levantando a sacola e indo direto para a cozinha, como se estivesse em casa. — Como foi seu dia? — perguntou a olhando sobre a parede da cozinha americana, enquanto pegava os pratos e talheres no armário.
… — Chamou com a voz baixa, o rapaz a olhou, preocupado com seu tom de voz e correu para a sala estranhando o comportamento dela, sentou-se do seu lado e observou o envelope que ela segurava.
— Ah, chegou o resultado? — perguntou sorrindo amarelo, repentinamente nervoso — E aí?
— Não sei… — suspirou e entregou o envelope para ele. — Não consigo. — ele sorriu, abrindo o envelope e encontrando a palavra já esperada em meio a muitas outras.
Ela fora aprovada.
Os abraços que se seguiram das lágrimas dela não eram suficientes para expressar tamanha felicidade, para ele, porém, não foi uma surpresa, sabia da capacidade da namorada e que ela conseguiria tudo o que quisesse. Infelizmente, nunca se sentiu tão triste por estar certo, e o egoísmo daquele sentimento bateu na sua cara, como se ele fosse a pior pessoa do mundo.

entrou em casa, tirou o tênis na porta e direcionou-se ao seu quarto, seus companheiros de casa ainda dormiam. era muito grato aos amigos, que estavam tentando ao máximo lhe dar seu espaço e deixar que se recuperasse no seu tempo. Eram os melhores amigos que podia pedir um dia, mas sequer aquilo lhe consolava, existia um buraco gigante em seu coração, era como um buraco negro que sugava e enchia de sofrimento e dor em tudo que tocava.
Seguiu direto pro banheiro, tirando a roupa e entrando debaixo do chuveiro na maior temperatura que podia suportar, podia sentir a pele reclamar do quão quente a água estava, mas acostumou-se aos poucos com isso. Era como a dor que sentia, não passava, mas se acostumaria e daria um jeito de suportá-la.
Ele sentia uma saudade terrível do cheiro dela, tanto que podia senti-lo naquele momento, e do seu sorriso e de todas as coisas que ela o fazia sentir, sentia falta das coisas mais ridículas possíveis, como da vez que foram acampar e passaram a noite acordados brigando com os mosquitos que os incomodavam, ele não conseguia parar de rir um segundo sequer, e ela lhe acompanhava, vê-la rir era como uma droga para seu corpo, principalmente naquela época, quando os exames tomavam tanto do seu tempo que seus sorrisos se tornaram escassos, assim como seu tempo, convencê-la a ir naquela viagem fora uma das melhores coisas que fizera naqueles dias.
Lembrava-se das vezes em que chegara ao apartamento dela devastado por algo que acontecera na agencia, e mesmo que o dia dela no hospital tivesse sido terrível também, ela engolia o choro e deixava para reclamar da residência depois, fazia de tudo para que ele sorrisse e só parava quando seu humor melhorava.
Ele podia ver seu sorriso ali todas as vezes que fechava os olhos, ela sorria com uma delicadeza e não demonstrava se importar muito com nada, e se irritou, por seu sorriso estar tão presente, mesmo quando ela estava tão longe. Desligou o chuveiro e saiu do banho, logo se enfiando em roupas quentinhas e debaixo das cobertas. O peito ainda doía e parecia vazio a cada segundo que se passava, com um gosto amargo na boca, um gosto de saudade, desejando ligar para ela e ouvir sua voz, dizer que precisava do seu abraço, pois entre eles sempre fora assim, um abraço consertava tudo… mas não era mais.
disse para si mesmo não desejaria mais que estivesse lá, mas foi dormir olhando as fotos no celular e lembrando do quanto era feliz com seu sorriso.


— O que te faria feliz agora? — perguntou, brincando com os dedos dele. Estavam ambos sentados no chão da sala dela, as costas apoiadas no sofá, encarando a televisão desligada. As lágrimas de ambos já haviam parado de cair a alguns minutos e restava só o silêncio. — O que te faria parar de chorar e começar a sorrir? — não respondeu, estava com medo de dar sua resposta egoísta e aquilo se tornar um término desastroso, quando se tratava dele, a resposta era sempre . Apenas ela poderia fazê-lo feliz, fazer com que parasse de chorar e começar sorrir, ela era a resposta das suas perguntas, quando ela estava feliz, quando ela sorria, algo bom acontecia dentro de seu peito. E se, no momento, ela encontrava sua felicidade na França, fazendo o bem e praticando sua profissão para ajudar outras pessoas… Como ele poderia ser contra isso?
não respondeu, pois não queria contar a ela que segundos antes quando a abraçou e chorou em seu colo, sem lhe contar o porquê, o motivo era medo. Medo de vê-la indo embora e machucar a ambos, medo de não aguentar vê-la ir em uma direção oposta a dele. Teve medo de dar aquelas respostas egoístas que passavam por sua mente, pois naquele momento a única coisa que o faria ser feliz, era ela ao seu lado. Engoliu em seco e respondeu a primeira coisa que passou em sua cabeça:
— Chocolate. — ela riu, dando-lhe um beijo leve nos lábios e levantando-se em seguida. Ele guardou aquele sorriso na lembrança, como tudo aquilo que guardaria para sempre em seu coração.

encarou aquele papel em branco em sua frente, as palavras rabiscadas não faziam sentido e não conseguia escrever sequer uma estrofe decente que pudesse um dia se tornar uma música e fazê-lo superar aquilo, como tantas outras situações em que tinha superado toda a dor com um hit de sucesso. Amassou o papel, jogando-o em direção a lixeira no canto do quarto, o mesmo bateu na borda e caiu no chão. E mesmo aquela simples derrota lhe afetou. Sabia que estava sensível a tudo, e que cada passo era como se tudo estivesse prestes a explodir, cada palavra que ouvia de consolo era como se estivesse prestes a destruir tudo o que tinha por dentro, como se toda aquela confusão não tivesse sido nada, quando no seu mundo tinha sido tudo. Sentia-se vazio, incompleto, como aquele papel em branco que arremessara na lixeira e acabara sozinho no canto da parede. Sentia-se sem cor, sem graça, sem nada.
A chuva batia na janela, o rapaz jogou-se na poltrona no canto do quarto, apoiando a cabeça, sentindo as lágrimas caírem no mesmo ritmo da chuva, querendo que aquilo lavasse todo aquele sentimento, mas sabia que mesmo a maior das ventanias, o pior dos temporais ou qualquer outro fenômeno natural que pudesse ser nomeado, nada conseguiria tirar aquilo dele. Ele estava seco, vagando tristemente por um caminho que jamais imaginaria seguir, as lembranças dela vinham a sua mente, o deixando no chão frio e áspero. Como se tivesse em uma trilha escura e essas lembranças o guiassem para a felicidade como pontos de luz, mas eram só pontos, aquilo jamais poderia ser real novamente, e aquelas luzes brilhantes que se apegara por tanto tempo sumiam como todas as outras, simplesmente deixavam de brilhar enquanto as lágrimas caiam.
Sentia-se culpado, mal, e aquilo durava boa parte do dia. Ela estava feliz, por que não conseguia ficar feliz por ela? Não era assim que diziam que o amor devia funcionar?

As pessoas passavam ao redor, mas ele só conseguia focar nela. Seus amigos se despediam e a abraçavam com felicidade, mas ele só ficara ali no canto, observando a sua felicidade e querendo estar tão feliz por ela, mas não conseguia. Ela se aproximou, andando lentamente e guardou na mente cada um dos seus detalhes, os olhos, os cabelos e a boca com seu sorriso preferido no mundo. Ela o olhou e eles não falaram, palavras não eram necessárias, ele a abraçou e apertou seu corpo contra o dele, como se aquilo fosse diminuir a dor.
suspirou com os olhos cerrados, sentido já a dor da saudade que viria, quando ouviu o anúncio de ultima chamada para seu vôo. Ele não queria soltá-la, sabia que aquilo não seria mais assim, mas lutou contra seus braços e os abaixou, sentiu seu cheiro, aquele cheiro bom e o guardou na memória,desejou que o tempo não tivesse passado, que ela ainda fosse a simples estudante de medicina que tinha um sonho distante de trabalhar para o MSF e que aquilo não tivesse passado tão rápido para que ela pudesse ficar mais tempo ao seu lado.
Percebeu que algumas coisas sempre voltavam a ser como antes, que os medos do começo do relacionamento eram os mesmos que sentia agora no fim dele.
Sempre que olhava para ela, sentia uma dor tão grande que o entristecia, sentia vontade de gritar com ela por abandoná-lo, ao mesmo tempo que tinha vontade de a incentivar a continuar e crescer cada vez mais, vontade de nunca mais falar com ela ao mesmo tempo em que fazia tudo para protegê-la, de soltá-la, ao mesmo tempo em que queria nunca partir aquele abraço.
lhe deu um ultimo beijo carinhoso nos lábios, sem se importar com as pessoas presentes e aquilo o machucou mais do que se ela tivesse deixado de se despedir.
— Vá. — sussurrou, partindo o beijo. — Eu te amo. — Aquela vontade de mandá-la ir embora, torcendo para que ela decidisse ficar.
Mas ela o ouviu.

Aquilo tudo parecia uma chuva forte e sem fim, quando ele achava que estava conseguindo seguir, quando a dor dava uma pausa, percebera que se encontrava em um ciclo: ele achava que estava passando, a esperança de parar de doer o alimentava, ele sorria e brincava, sentia-se bem por algum tempo, e então algo idiota o fazia lembrar dela, lembrar-se que seu lugar era no canto da parede, junto com a bolinha de papel que caíra fora do lixo. Estava cansado, desiludido e desanimado.
. — ele levantou a cabeça para olhar para que se aproximava e sentava-se ao seu lado na sala de estar. — Como você ‘tá? — o mais novo deu de ombros e suspirou. — Você precisa ficar bem, de verdade. Não só pelos nossos fãs, mas todos estamos preocupados com você, . Eu entendo que está doendo, mas… — riu irônico e olhou para a parede.
— Você nunca vai entender, hyung, de verdade eu espero que você nunca sinta o que estou sentindo. Vocês nunca vão enxergar e nunca vão perceber o que está acontecendo, porque só dói em mim. Para todo mundo vai ser sempre uma farsa, um exagero, mais um drama do … Mas em mim? Vai ser sempre essa dor insuportável, esse vazio que eu não aguento mais e essa saudade que eu não consigo mais lidar. Tudo o que tenho agora é esse sorriso forçado e essa vontade imensa de sumir. — ele limpou as lágrimas que escaparam e deixou o mais velho sem palavras, que só pôde então colocar as mãos nos ombros do amigo, enquanto se inclinava para frente para falar olhando em seus olhos:
— Você está certo, eu não entendo. Sinto muito por isso, mas você precisa ser forte, eu prometo que um dia vai passar.
— Eu sei que tenho que ser forte sempre, hyung, mas e se eu não conseguir? — sentiu a dor nas palavras do amigo.
— Estaremos lá pra te ajudar, . — Ele respondeu a única coisa que veio a sua cabeça, mas também era a mais verdadeira.
Infelizmente, o amigo parecia não estar escutando.
— Estou com medo de não conseguir, . Dessa vez o que me mantinha de pé está me jogando para baixo, e o que eu faço agora? Vou ter que continuar sorrindo como se nada doesse? — as palavras ditas mais para si mesmo do que para doeram no amigo e ele não sabia como responder, a não ser o abraçando.
estava ali com frio, esperando que o amigo lhe dissesse algo que o fizesse acreditar que valeria a pena segurar aquela barra todo aquele tempo. Mas ele não falou, e tinha certeza que continuaria naquele ciclo de sorrisos vazios, lágrimas frias e suspiros secos.


puxou a alça de sua mala em direção a saída do Aeroporto Charles de Gaulle, entrou no primeiro táxi disponível no caminho e passou o endereço localizado no centro de Paris para o motorista. Entrou no prédio hesitante e tocou o interfone com o número do apartamento de , seu coração estava aquecido pela primeira vez em tempos, era bom saber que a pessoa que amava estava a apenas alguns metros de distância e que logo aquela saudade seria apartada.
— Qui est-ce? — a voz da moça soou através do interfone e mesmo estando metálica e falada naquele idioma que não sabia sequer dar “oi”, ela aqueceu seu peito e doeu depois de tanto tempo sem ouvi-la, quando todos os contatos era feitos através de mensagens escritas em aplicativos.
— Uma surpresa. — Respondeu em coreano, sabendo que ela reconheceria sua voz de imediato. Sem receber uma resposta, porém, o portão se abriu e subiu as escadas em velocidade recorde, precisava vê-la de uma vez. Precisava dela e dos seus toques, dos seus beijos e simplesmente ouvir o som de sua risada, ela entenderia aqueles sentimentos que o abalavam nos últimos meses, entenderia a dor que ele estava sentindo e o faria feliz novamente.
a observou abrir a porta, ansioso quando ele bateu, observou seu sorriso, seus olhos expressivos e seu rosto cansado, mas com uma felicidade imensa e sem dizer sequer uma palavra a abraçou, a tirando do chão e a enchendo de beijos, que correspondeu a cada um deles.
Ela o ajudou a carregar a mala para dentro e a colocou ao lado do sofá, sentando-se nele em seguida, se direcionou e sentou na poltrona que ficava logo a frente, sem conseguir um segundo de parar de sorrir e feliz por ver a felicidade no rosto dela. Foi só quando ela deixou de sorrir e uma expressão preocupada tomou seu rosto que ele entendeu:
— O que faz aqui, ? — o sorriso saiu de sua face quando também entendeu, ela não estava feliz por ele estar lá, ela, simplesmente, estava feliz.
Poderia parecer egoísmo da sua parte, e, talvez, realmente fosse, mas aquilo o machucou de tal forma que se arrependeu de estar ali. Talvez ele realmente quisesse que sentisse sua falta, não por maldade, só por carência mesmo, por amor. Queria chegar ali e ver seu sorriso por vê-lo, ouví-la dizer da saudades que sentiu e da dor que a machucava todos os dias como o machucava.
Talvez ele fosse um idiota, mas, a falta daquelas coisas acabaram com tudo o que sobrara por dentro. E ficou ali, parado, com aquele sorriso, que além de dentes, não mostrava nada.

não conseguia desistir, seu corpo cansado já desistira a tempos, quando mais uma vez chegara a exaustão buscando a perfeição, sentado no chão em um canto qualquer no estúdio que usavam para ensaiar as coreografias, ele percebeu que queria desistir. Mas não conseguia, não conseguir ir embora e ser tão forte quanto gostaria. Seu coração implorava pela voz dela, seu corpo por aquele simples abraço e sua alma por um momento sequer de conforto ao seu lado. Naquela última noite, ele pensou que não olharia mais para trás, pensou que fosse simplesmente seguir, pensou que fosse fácil.
Mas agora, mais do que nunca, via que não conseguia esquecer, e que talvez nunca conseguiria, que algumas lembranças tenderiam a assombrá-lo. Sentia-se vazio, vulnerável, como um saco plástico voando pela ventania, sozinho. E deixou as lágrimas escorrerem mais uma vez, não ia impedi-las, queria que seus olhos derramassem junto com elas toda a aflição que existia dentro de si e treinava horas e horas para que a dor externa superasse a dor em seu peito, mas aquilo não era possível, obviamente seu corpo não era capaz de suportar o peso do vazio que existia dentro de si.
Queria voltar e correr na chuva, igual fizera naquele dia, sentindo que talvez estivesse livre, e dessa vez ter a certeza de que ela lavaria seu interior, de que ela seria mais forte que seu choro e fizesse a agonia cessar. Olhou para si mesmo no espelho e sussurrou:
— Você precisa ser forte, por você, por seus amigos, por seus fãs. Não desiste tão depressa, você precisa conseguir. — mas ao mesmo tempo em que sussurrava, sua consciência lhe respondia, o mandando se calar: “você sabe que não vamos conseguir, não somos fortes e isso não vai passar. Você sabe que nos afundamos mais e mais a cada passo e que essas mentiras não nos confortam mais.”.
Tentou manter as mentiras na mente, dizer pra si mesmo que ia conseguir, mas por fim, ambas as vozes se silenciaram, a sua e a sua própria consciência, que naquele momento, era sua inimiga, as lágrimas escorreram e ele as ignorou, com medo ao perceber que não podia mais contê-las.


estava cansado. Passara boa parte da sua licença em Paris, os primeiros dias foram os mais perfeitos da sua vida, sempre achava uma forma de encaixá-lo, a felicidade era constante e o amor presente, porém conforme o tempo passou, ele percebeu que não seria daquela forma para sempre.
Ela se tornara obcecada em trabalho, chegava em casa de madrugada e saia cedo durante a manhã, nos dias que não tinha plantão no hospital estava trabalhando na sede do MSF, ele podia ver o brilho dos seus olhos se apagando aos poucos, podia ver seu sorriso constante sendo substituído por uma carranca cansada, eles mal se viam, e não conversavam sequer por um segundo no dia.
A garota dos seus olhos havia se tornado uma grande médica, e ele estava orgulhoso dela, mas percebera também que não tinha espaço para ele em sua vida.
Seu coração se partira no momento que entrara no apartamento dela e percebera que eles não sentiam aquilo da mesma forma, mas corações mesmo quando partidos funcionam. Também sentem, também amam, sonham e desejam, e ele o fez por cada segundo que estivera ao lado dela, a amou com cada caco do seu coração, incluiu ela em todos os seus sonhos e a desejou da forma mais intensa que um homem poderia desejar sua amada. A diferença de fazer tudo isso com um coração partido? Doía. A cada passo, a cada tentativa desgastante, a cada vez que falhava, e principalmente, quando nada acontecia. Doía a todo momento.
Fechou sua mala, separou o passaporte e conferiu sua documentação, gravou cada pedaço do apartamento onde fora feliz por dias e infeliz por muitos outros, e sentia a leveza de, ao menos, ter tentado. Saiu para a rua, sabendo que aquela era a escolha certa, estava na hora de voltar pra casa, sua verdadeira casa, sabia que iria doer, como doeu por tanto tempo antes, mas conseguiria seguir em frente.
Não se importou com a chuva que caía, a deixou molhar seus cabelos, um táxi parou em frente ao prédio e ele sorriu aliviado pela sorte, o passageiro anterior desceu e o encarou:
? —ela encarou a mala em sua mão e os cabelos molhados da chuva. — Aonde está indo?
— Estou indo pra casa, . — a moça o encarou.
— Ia embora sem falar comigo? — riu irônico, sentindo a dor dentro de si transformar-se em raiva.
— Eu não consegui agendar um horário pra conversar com você. — respondeu irônico, dando de ombros, e a moça o olhou magoada, a chuva engrossara e ambos pingavam naquele momento.
— Por que está fazendo isso? — perguntou.
— Porque está doendo, , por isso! — ela cerrou os lábios antes de responder:
— E você acha que só dói em você? Acha que não sei o quanto isso machuca? — O rapaz arqueou a sobrancelha e riu irônico.
— Acho — Respondeu simplesmente, ela o olhou sem acreditar e ele sentiu os olhos arderem, agradeceu pela chuva, assim ela não poderia ver as lágrimas que escorriam do seu rosto enquanto a fazia entender o que sentia. — Se você soubesse o quanto dói, , acredite, daríamos um jeito de ficar juntos. — Ele se afastou dela — Se você soubesse o que a saudade está fazendo com o meu peito, tenho certeza, que daria um jeito de apartar isso. — ele tocou o peito e continuou: — Se você fizesse a mínima ideia do vazio que estou sentindo, teria medo de ver a bagunça que estou por dentro. — engoliu em seco ao soltar o restante do que estava preso em sua garganta, mas já começara e teria que ir até o fim — Se eu pudesse fazer qualquer coisa, se eu tivesse opção de escolha, não me lamentaria por isso, acabaria de vez com essa aflição, te tiraria da minha cabeça e seguiria em frente.
— O que você quer de mim, ? — Ela perguntou aumentando o tom de voz. — Você quer que eu desista dos meus sonhos pra ficar com você? — Ele ficou chocado que ela chegara a cogitar que aquilo era um desejo dele.
— Nunca te pedi isso, . Eu jamais desistiria dos meus sonhos, mesmo se fosse por você. — Ela o olhou sem entender — Mas você sequer uma vez pensou em me incluir na sua vida? Em me deixar fazer parte dos seus sonhos? — A moça suspirou, sentindo seu coração doer, mas ele não sentia nada, estava anestesiado, sentia aquele gosto conhecido na boca, o gosto de saudades e solidão, e sabia que logo aquilo voltaria a ser frequente. — Porque eu te inclui em cada um dos meus, sabe? Tentei conciliar nossos sonhos na minha mente, imaginar como poderíamos ser, e sabe… existiam tantas formas de isso acontecer, nós poderíamos ser muito felizes um dia, . — diante da falta de resposta, deu as costas, virando-se para dar sinal a um outro táxi que passava ali, o motorista parou e ele colocou a mala dentro do porta malas. E então ele sentiu.
Sentiu o impulso de um corpo que batera contra suas costas, sentiu os braços dela envolta dele e a ouviu chorar.
— Sussurrou o apertando contra seu corpo, e ele quis naquele minuto desistir de tudo e tentar novamente, acreditar em qualquer desculpa que fosse dada e aguentar todo o sofrimento, só para estar ao lado dela.
Mas não faria aquilo de novo. Passou os braços por cima dos dela, fez um carinho leve em seus dedos e soltou seus braços finos de seu corpo. Era o fim.
— Adeus, . — Ele a beijou na testa, e sequer tentou limpar as lágrimas que ela derramava em sincronia com as dele, apenas entrou no táxi, sem deixar de olhar para a mulher que amava.
Ele tentou respirar fundo, dizendo a si mesmo que tinha feito a coisa certa, mas o que poderia fazer quando faltava o ar? Ela era seu chão, seu teto e todas as suas escolhas estavam envolvidas com ela. Ele só precisava seguir, mesmo que agora estivesse sem um rumo. Ele precisava tentar.

Aos poucos parou de se lamentar, ainda doía, mas ele estava acostumado com a dor. Preferiu levar consigo a parte boa, as lembranças felizes e sorrir pela época perfeita que viveram juntos. Ele passou boa parte de seus dias chorando, até que as lágrimas, enfim secaram, até que se cansou de se perguntar o porquê a vida era injusta daquela forma, se condenando por ser egoísta, reprimindo seus sentimentos. Sobreviveu a cada dia, sentindo a dor do amor que sentia dentro de si, mas por fim, entendeu. Chorar não a traria de volta, reclamar não faria parar de doer e descobriu que a única coisa que amenizava a dor era seguir em frente.
Porque, afinal, algumas pessoas nasceram para se amar pelo resto da vida.
Mas não nasceram para ficarem juntas.

Fim…?

 


*Bibimbap: Bibimbap é um prato popular da cozinha coreana. Literalmente, significa “arroz mesclado” ou “comida mesclada”. Consiste basicamente em arroz branco, vegetais e carne misturados e preparados em tigela de pedra vulcânica.
*Médecins sans Frontières: Médicos sem Fronteiras, é uma organização internacional, não governamental e sem fins lucrativos que oferece ajuda médica e humanitária a populações em situações de emergência, em casos como conflitos armados, catástrofes, epidemias, fome e exclusão social. É a maior organização não governamental de ajuda humanitária do mundo, na área da saúde.
*Rabokki: prato coreano que mistura o tteokbokki (rolinhos de arroz macio e molho doce de pimenta vermelha) com ramyeon (versão coreana do lámen).

Nota da Autora:
AI NOSSA, NÃO ME XINGUEM! Quero começar essa N/A pedindo perdão a todos que acharam que essa história teria um final feliz. Em minha defesa: tá falando na sinopse que não ia ter (pra quem realmente quer final feliz pra ela, a continuação se chama Miss You e muito em breve entra aqui no site)! Olha, fazer o meu solzinho sofrer foi muito sofrido pra mim, viu? Mas eu adoro essa história. Espero que vocês gostem também. Aqueles agradecimentozinhos de sempre ao meu Squad, amo vocês ♥ e pra você que leu e deixou esse comentário maravilhoso aqui em baixo (NÃO COMENTOU? COMO ASSIM? COMENTE AGORA! QUE ABUSO ISSO DE LER MINHA FIC E NAO COMENTAR!).