Goya

Sinopse: Goya, do urdu: a suspensão da descrença que faz parte de uma boa história.
Ele nunca poderia imaginar que o instante em que teve nas mãos aquele livro antigo com uma dedicatória assinada simplesmente como “Uma Leitora” daria início a sua própria história de amor.
Gênero: Romance
Classificação: Livre
Restrição: Escrita originalmente com o Wonwoo. Pode ser lida com qualquer pessoa.
Beta: Alex Russo

Capítulos:

 

PRÓLOGO

Estava na página 193. Não tinha ideia da razão pela qual sua mente se agarrou àquela informação inútil, mas o fato é que se lembrava.
Recordava-se também perfeitamente do que lia no instante em que foi abordado pela senhora simpática que comandava o estabelecimento onde ele passava as tardes de quinta-feira absorto entre as páginas de seus preciosos livros e goles de café forte demais. Era seu primeiro Salinger, e ele não precisava nem mesmo ter terminado a leitura para saber que aquele seria um de seus livros favoritos: havia muito de Holden Caulfield em si, era o que acreditava. O protagonista sarcástico do romance ilustre, O Apanhador no Campo de Centeio, fazia com que se sentisse reavivado por aquela rebeldia juvenil. Uma parte dele, no entanto, acreditava que talvez aquilo fosse muito pretensioso de sua parte.
— Deixaram isso para você, criança. – o sorriso da senhorinha era esperto ao lhe entregar o pacote simples em papel pardo, quase como se aqueles olhos antigos demais enxergassem algo para o qual ele era cego.
Tomou o embrulho entre os dedos, incerto.
Um livro – ele soube antes mesmo que seus dedos rasgassem o papel: “O sol é para todos”, dizia a capa. Franziu o cenho, estudando-a, e quando ergueu os olhos para questionar a Sra. Kim acerca do que acreditava ser um engano, ela já havia se retirado. O rapaz deixou os dedos percorrerem a edição antiga, sentindo a textura do couro em seus dedos, examinando o amareladodas páginas e experimentando o relevo das letras na lombada, como um amante a descobrir sua musa.
Abriu o livro com uma curiosidade quase infantil, de quem não tem ideia do que esperar, e foi surpreendido por uma caligrafia bem desenhada em caneta esferográfica azul. Uma dedicatória, falando diretamente com ele:


“Caro Leitor,
Com o seu histórico de leituras, muito me admira que pareça tão envolvido por um rebelde sem causa feito Holden Caulfield.
Eu esperava mais de você, honestamente!
Peço que perdoe a intromissão, mas espero que Atticus lhe ensine algo sobre a verdadeira rebeldia: essa, que move o mundo.
Com afeto,
uma Leitora.”

Os olhos escuros do rapaz se ergueram de imediato, vasculhando o ambiente por detrás dos óculos de aro redondo, ávidos por encontrar quem teria lhe enviado o presente, mas sem ter a menor ideia do que procurar. Entre a estranheza e a curiosidade, seus lábios deixaram escapar um sorriso enviesado, e fechou o livro como se aquele fosse um segredo precioso demais para ser compartilhado com quem quer que fosse. E era.
Naquela noite, deixou Holden de lado para se aventurar pelas primeiras páginas daquela história que peregrinara até suas mãos, num presságio do que dissera o próprio Salinger, em uma das passagens de sua obra, agora preterida: “não é tão mau assim quando tem sol, mas o sol só aparece quando cisma de aparecer”.
Naquele dia, em um café escondido no centro da cidade, o Sol se fez – para todos, afinal.

 

I. O Sol é Para Todos, Harper Lee


“Coragem é fazer uma coisa mesmo estando derrotado antes de começar,
e mesmo assim ir até o fim,apesar de tudo.
Você raramente vai vencer,mas às vezes vai conseguir.”

Era quinta-feira, e sentia como se tivesse se arrastado pelo restante da semana até finalmente chegar até ali. O que era curioso, visto que não era de sua natureza aquela ansiedade – ao menos de forma não tão incontida. Não se culpava, entretanto: pela primeira vez em algum tempo, ele tinha algo completamente novo pelo que esperar – e não apenas por aquela folga breve na agenda apertada, como toda semana.
O rapaz sempre se considerou um leitor veloz mas, com a rotina pesada do trabalho, era surpreendente o fato de ter demorado apenas um par de dias para terminar a leitura do romance que chegara até ele de forma misteriosa – e era precisamente por isso que mal podia esperar pela quinta-feira. Ao fim do livro, sentiu uma vontade inédita de retornar ao início, e não apenas porque a leitura foi uma das mais prazerosas de sua vida, mas porque sentiu que talvez tivesse passado rápido demais por aquele que era, de fato, um dos personagens mais cativantes que já conhecera: Atticus Finch.
Ele não conhecia a pessoa por trás da caligrafia prática e bem desenhada da dedicatória do livro – ainda que tivesse passado um número vergonhoso de horas vasculhando o pequeno recado e todas as páginas depois dele em busca de algo que lhe desse algum sinal da dona daquelas letras – e ele negaria isso até a morte, se preciso. não fazia ideia de quem era ela, mas de uma forma curiosa e que não conhecia explicação lógica, a conhecia.
Ou parte dela. Aquela parte que passaram a ter em comum, algo precioso e único. Tinham a paixão por uma história. E no instante em que conheceu e se aproximou daqueles personagens, sentiu-se de alguma forma mais próximo da autora da dedicatória, a quem até então conhecia apenas pela forma como sua tinta marcava o papel.
Quando exauriu suas possibilidades com o exemplar que tinha em mãos, decidiu aprofundar suas pesquisas acerca da obra. Com uma busca breve sobre a autora do romance, descobriu que ela só tinha aquele livro publicado em vida e o fato, apesar de surpreendente, pareceu-lhe fazer muito sentido: aquela era a obra-prima pela qual artistas anseiam durante uma vida inteira, e Harper Lee cumprira sua missão de forma brilhante. Gostaria que não fosse uma pretensão grande demais desejar o mesmo.
Não era nem mesmo seu hábito riscar livros, por deus! Mas naquele caso foi irresistível. Enquanto lia, o rapaz carregava o entre os dentes uma caneta esferográfica, grifando e anotando seus apontamentos página sim, página não. Ao fim da leitura, tinha ali seu volume mais ricamente aproveitado, desde a dedicatória até seus pensamentos finais, rabiscados na última página do livro. Pensamentos estes que lhe torturavam por não serem compartilhados com ninguém, visto que nenhum de seus amigos conhecia a história de Scout, e Jem, e Dill, e Atticus.
O que era mais uma razão pela qual ele ansiava tanto pelo fim daquela semana anormalmente longa, até o momento em que – com sorte – encontraria a pessoa que lhe apresentara a eles.
estava de volta ao café, enfim. O rapaz era extremamente metódico no trabalho, e acabava carregando o mesmo comportamento para a vida pessoal. Seguiu sua rotina de forma quase ensaiada: cumprimentou a Sra. Kim no caixa, para então tirar o sobretudo pesado, pendurando-o no cabideiro. Passou pelo balcão, e bastou um aceno ao barista para que ele confirmasse seu pedido com um sorriso polido: o mesmo latte macchiato de sempre. Tudo seguia o curso habitual, até o momento em que se dirigiu à mesa que tomava por hábito, no cantinho menos exposto do local, escondido de olhos curiosos e flashes indesejados. Naquela tarde, ao invés de tomar o assento de costas para a porta, como de costume, sentou-se de frente.
Bastava o sino no alto da porta soar, e os olhos de se erguiam atentos, para então caírem novamente em direção à mesa, miúdos de desapontamento: primeiro foi uma família com duas crianças, então um grupo de três garotos, e por fim um casal de meia idade. Nada que se parecesse com sua leitora – o que quase o fazia rir, visto que não fazia ideia de como ela se pareceria. O relógio já cumprira seu caminho preguiçoso até a marca das quatro e meia quando enfim tomou coragem de verbalizar sua curiosidade, chamando a dona do café até a mesa.
— Sra. Kim… – gesticulou respeitosamente, aguardando que ela se aproximasse para prosseguir, num tom baixo que se devia parte à educação tão correta, parte à vergonha que sentia de sua ansiedade infantil. – A senhora sabe quem deixou o livro na semana passada? – apontou para o volume de capa dura sobre a mesa. – Sabe se ela vem? – terminou e, dado o sorriso nos lábios encarquilhados da mulher, seu tom aparentemente denunciava o que buscara ocultar.
— Oh, criança… – ela checou o relógio brevemente – Ela deve estar chegando, não é tão pontual quanto você. – soltou uma risada gostosa antes de se virar, deixando para trás um tantinho mais esperançoso, ainda que sua expressão se mantivesse neutra como de costume. É claro que havia a hipótese de que ela não aparecesse, mas ele preferia não pensar nisso, ou teria que imaginar formas de processar aquela leitura sozinho.
Decidiu que esperaria. Esperaria até a noite, se fosse preciso. Abriu outro livro sobre a mesa,e em alguns minutos estava distraído demais para se dar conta da passagem do tempo. Ou, aparentemente, de qualquer outra coisa, como da garota parada diante dele, encarando com um sorriso esperto a ruga de concentração entre suas sobrancelhas.
Ele sempre fazia aquilo quando demorava demais numa página, ela já havia notado.
— Teoria da composição musical…? – a moça empurrou delicadamente a pontinha do livro com um dedo, a fim de ler o título – Uau, você é músico! – exclamou, com um sorriso de admiração: não teria imaginado aquilo, à primeira vista.
Não era como se tivesse passado tanto tempo assim o analisando, não exatamente, ao menos. Mas era uma observadora por natureza, e muitas vezes os apontamentos a carregavam pelos caminhos da imaginação, traçando histórias por detrás de estranhos que encontrava pelo caminho e que, por alguma razão, lhe despertavam a atenção. Era o caso dele. O rapaz que não podia ser muito mais velho que ela, mas que assim parecia quando se escondia detrás das páginas dos livros, absorto em literatura e café, apertando os óculos na ponte do nariz de quando em quando, nos momentos em que parecia um tanto mais menino.
E ele ficava bonito, assim. Com os olhos pequenos a devorar o mundo que tinha entre os dedos.
observou com cautela enquanto a jovem tomava a cadeira a sua frente, com uma naturalidade confortável que morava em seus olhos expressivos e no sorriso fácil que ela lhe entregava sem ressalvas.
— E então, você gostou? – a garota perguntou, dando um gole em seu café sem tirar de cima dele aqueles olhos que cintilavam de expectativa. Vendo-o demorar a responder, soltou uma risada divertida, que o tornou mais ciente ainda de sua presença com mais um de seus sentidos, que já pareciam tão cheios dela – Do livro, pabo! – cutucou o exemplar rabiscado de O Sol é Para Todos sobre a mesa, e o som discreto do tecido deslizando sobre a madeira fez com que enfim se desse conta da própria estupidez.
— Foi você? – os olhos dele se arregalaram um pouquinho durante a pergunta que era obviamente retórica. É claro que sim: o tom graciosamente atrevido da dedicatória era exatamente o mesmo da garota à sua frente.
De nada. – ela piscou com um meio sorriso, antes de apontar para o nome escrito em uma caligrafia apressada – .
. – ele lhe entregou o cumprimento com uma mesura tão formal que a fez sorrir – ? – testou o nome, de sonoridade incomum.
— Você se acostuma. – ela sorriu novamente, ao que o rapaz precisou fazer o mesmo, naquele que era apenas um presságio do modo como os sorrisos dele seriam sempre a chave a abrir o seu. No momento em que sua mente passou a procurar por metáforas para o modo como o rosto dela pareceu se iluminar enquanto sorria, ele repreendeu o pensamento. Talvez estivesse lendo demais, e buscou afastar a ideia apertando a ponte do nariz.
— Então… – cruzou as mãos sobre a mesma, as sobrancelhas se arqueando de uma forma que brincava entre uma arrogância inocente e uma curiosidade indomável, como se previssem a resposta para sua pergunta e mal pudesse esperar para ouvi-la – O que achou do livro?
Simples assim.
Uma única pergunta que para outros incitaria alguns minutos de conversa superficial, para eles significou horas inteiras. contava a ela suas impressões sobre os personagens e devolvia com a análise de quem já relera a obra meia dúzia de vezes. Ela citava seus trechos favoritos, e o rapaz se admirava ao abrir o livro e encontrá-los marcados também por ele. Compartilhavam, inclusive, do sabor particular que tinha a leitura: para ela, estudante de Ciências Sociais, aquele era um modo de pensar a sociedade sobre o olhar do outro. Para ele, músico, cada personagem permitia um novo ponto de vista que lhe rendia uma infinidade de temas e eu – líricos distintos. Livros eram, para ambos, uma extensão de si.
— Eu acho que uma das coisas que mais me encantam é a narrativa partir da Scout. – ponderou, apoiando o rosto em um dos punhos – Nós conhecemos uma história de tribunal sob a ótica de uma criança de seis anos, é genial… – sorriu, e havia ali tanta admiração pela genialidade da autora, que era algo particularmente bonito de se ver.
— Você acha que ela tinha dimensão de quem era o pai dela? – questionou, sem de fato aguardar uma resposta. aguardou que ele concluísse seu pensamento, e o rapaz tateou as palavras em busca de algo que definisse Atticus, para ele – Que ele é o maior herói da literatura… O maior que eu já li, pelo menos. – completou, baixando os olhos e encolhendo os ombros de um modo que fez o sorriso da garota despontar no cantinho dos lábios, esperando que ele voltasse a lhe encarar antes de responder.
— Acho que esse é um privilégio só nosso. –elasorria, e fez o mesmo enquanto acenava pequenininho, não precisando de palavras para que soubesse o quão grato era por ela ter lhe presenteado com aquela história.
Nenhum dos dois notou a noite se aproximando do lado de fora ou o café se esvaziar, pouco a pouco. Foi só quando a Sra. Kim se aproximou da mesa com um sorriso condescendente que notaram, com desapontamento visível, que era chegada a hora de ir.
— Eu me diverti muito, . – foi a primeira a dizer, enquanto caminhavam lado a lado até a porta. A garota ajeitou a alça da bolsa sobre o ombro, encarando as próprias botas antes de erguer o rosto para ele novamente, os olhos brilhando com algo que ele não reconheceu de pronto, mas que era o mesmo motivo pelo qual ele se demorava ao pegar o casaco no cabideiro: não queria partir.
— Eu também… – o rapaz concordou, com sinceridade, finalmente se dando conta de que nem por um instante lhe passaram pela cabeça as restrições do trabalho, e o fato de que passara a tarde na companhia de alguém que não seus companheiros de grupo, falando sobre literatura.
Perguntou-se por um momento se conhecia aquele que ele mostrava ao mundo, mas o questionamento logo pareceu torpe demais: ele podia dizer certamente que não, pelo modo despretensioso e gentil como chamava seu nome, pelos olhos que o observavam com um quê de descoberta, como os dele provavelmente se pareciam ao olhar para ela. Mas conhecera muito dele, na fresta estreita das entrelinhas que seus modos introspectivos lhe deixavam entrever. Tanto quanto lhe mostrara de bom grado sobre si mesma, na brecha de seus sorrisos fáceis.
—Eu… – o rapaz murmurou, ao vestir o casaco e sentir o objeto que trazia no bolso interno. Enfiou uma das mãos, pegando o pequeno objeto e o observando por alguns instantes, antes de entrega-lo a – Isso é pra você.
! –a garota exclamou com um sorriso tão bonito que iluminou com satisfação cada linha seu rosto, e soube ali, tão cedo, que nunca haveria para um presente melhor que uma história – Você não precisava… – admirou a capa, a lombada e o título, sentindo cada partezinha com os dedos, num duplo perfeito dos gestos dele ao receberem seu presente, na semana anterior – Cem anos de solidão.
— Você vai gostar. – ele garantiu, com um sorriso confiante e quase preguiçoso, que ela passaria a apreciar profundamente no futuro. Quando escolheu o título naquele dia pela manhã, o fez apenas porque havia algo sobre autores latinos que o cativava profundamente e que parecia combinar com o tom cativante da autora da dedicatória. Agora, conhecendo , ele mal podia esperar para passar um dia inteiro falando com ela sobre o realismo mágico de Gabo – Está um pouco gasto… – desculpou-se, coçando a nuca, ao reparar que a menina mexia em uma pontinha da orelha no livro, que se soltava.
— Eu gosto quando eles têm defeitinhos. –confessou, com um sorriso culpado. Humanizar livros era um hábito peculiar, mas que de alguma forma ela se sentia à vontade para dividir com ele – Esse com certeza viveu bastante. –sorriu, passando pela porta aberta que segurava para ela.
— Cuide bem dele, então. –o rapazreplicou, e o silêncio que se instalou entre os dois pelo primeiro minuto nas últimas horas não foi em nada desconfortável, já que eles não precisaram de palavras para que levassem dali com uma certeza: teriam muito que conversar na próxima quinta. E em todas depois daquela.

 

II. O Velho e o Mar, Ernest Hemingway


“Tudo que nele existia era velho, como exceção dos olhos,
que eram da cor do mar, alegres e indomáveis.”

Aish! exclamou, maneando a cabeça em descrença – Como você prefere “Por quem os sinos dobram”? Nem o próprio Hemingway preferiria, se você perguntasse! – completou, arrancando uma gargalhada de : ele parecia adorável quando começava a argumentar com base apenas no emocional. A garota tomou um gole de café calmamente, aproveitando a cena com um sorriso enviesado.
— Já que não podemos perguntar, a não ser que você consiga algum contato com o além… – ela fez o sinal da cruz, arrancando um revirar de olhos rabugento do rapaz, mas já não escondia sorrisos, não dela– Eu fico com a minha opinião. – deu de ombros, despreocupada. Adorava quando compartilhavam das mesmas ideias, mas era igualmente divertido discordar de apenas para ver como as orelhas dele se ruborizavam proporcionalmente à sua indignação, ou o modo como ele afundava ainda mais os óculos no rosto, como buscasse enxergar melhor qualquer argumento que pudesse lhe trazer a vitória em uma discussão.
— Você ficaria com ela mesmo que ele te dissesse o contrário. – suspirou, resignado: ainda que se conhecessem há poucos meses, ele podia afirmar aquilo com certeza sobre . A garota era um verdadeiro paradoxo, no qual a delicadeza do exterior se chocava com uma tenacidade invejável quando o assunto era defender suas opiniões e ideais. E, céus, ele adorava aquilo… Cada dia mais. – Você pelo menos leu “O velho e o mar”? – lançou seu último argumento.
— Ainda não, mas pretendo ler. – respondeu, erguendo os braços defensivamente, sem dar chance para que iniciasse ali uma nova argumentação, dessa vez com fundamentos – Aigoo! Eu vou ler, prometo! – garantiu, e o sorriso desconfiado no rosto do rapaz lhe parecia um desafio – , se eu não tiver lido até quinta que vem, você pode pedir o que quiser. – propôs, e o sorriso nos lábios do rapaz se alargou de modo a fazê-la se esquecer, por um momento, do que acabara de fazer.
Honestamente, não era justo que ele parecesse tão bonito, de forma tão despretensiosa. Dos cabelos discretamente desalinhados ao suéter grande demais, em cujas mangas ele escondia as mãos para se livrar do frio que vinha junto do outono, quase parecia feito à imagem dos romances do século passado. Impassível e impecável. Mas havia aquela vivacidade em seus olhos, a sagacidade mordaz de seus comentários, a rebeldia velada que se mostrava de quando em quando… E ela via a sua frente algo ainda mais encantador do que a Literatura já lhe apresentara.
— Feito. – concordou, e era sua vez de saborear a própria vitória com um gole de café. Que lhe pareceu particularmente doce, dessa vez.



Uma semana depois, o rapaz chegou ao café seguindo sua nova rotina: depois de deixar seu casaco próximo à porta e trocar algumas palavras gentis com de a Sra. Kim, seguiu até o balcão e pediu, além do clássico lattemacchiato, um expresso duplo. Um sorriso secreto tomou conta dos lábios do rapaz enquanto caminhava até a mesinha de canto onde, compenetrada demais na leitura, lhe aguardava. Os olhos dela corriam rápido de uma ponta à outra da página, e bastou uma espiada na capa do livro para que compreendesse o motivo pelo qual a garota tinha os olhos marejados. Aquele livro também lhe tocara as emoções profundamente.
— Parece que alguém não cumpriu o combinado… – cantarolou, enquanto se sentava diante de , deixando o café dela ao alcance de suas mãos. A garota ergueu os olhos de pronto, e o movimento fez com que uma pequena lágrima escapasse, deslizando por sua bochecha apenas por um segundo, já que a varreu rapidamente com o dorso de um dos dedos.
— Aigoo! – a moça protestou, deixando o indicador dentro do livro a fim de marcar a página em que estava, e mostrar a ele a pequena fatia do livro que faltava para que terminasse. Fora uma semana cheia na faculdade, mas ela se havia se esforçado para cumprir o prometido – Eu estou quase acabando!
— Mas não acabou. – declarou a própria vitória, espreguiçando-se na cadeira preguiçosamente, desfrutando do momento. – Eu disse que não terminaria…
— O prazo era essa semana, não até as… – checou as horas no relógio que trazia no pulso, ainda que soubesse desde o início que aquela argumentação era falha. vencera. – 16h23 da quinta feira, então…
— Sem desculpas! – rindo, levou dois dedos até os lábios da garota, selando-os fechados, sem se dar conta do próprio gesto. Foi um instante breve, mas o modo como se encararam fez com que ambos tivessem plena ciência do toque. Ele afastou a mão rápido demais para que passasse despercebido, desviando os olhos por um momento para tentar reorganizar os pensamentos.
— O que você vai querer? – perguntou, depois de limpar a garganta discretamente, levando a mão até o café que ele lhe trouxera, ocupando-se com aquilo para evitar pensar no formigamento que os dedos dele haviam deixado em seus lábios – Pela aposta.
— Primeiro me diz o que achou do livro. – o rapaz pediu, trazendo o assunto de volta àquilo que conheciam, ao campo em que se sentiam confortáveis. sorriu, e havia ali um misto de alívio e agradecimento. Ela também parecia precisar respirar.
— É incrível! – soltou, dando vazão a tudo o que queria dizer sobre a obra que ainda tinha nas mãos – Eu realmente choro fácil, mas nossa… – quando ela começou, apoiou o queixo em uma das mãos, deixando que tagarelasse à vontade. Ele adorava o modo como a voz dela subia uma oitava quando estava empolgada, e o modo como chegava a atropelar algumas palavras, como se não quisesse deixar escapar pensamento algum. Céus, ele passaria horas só ouvindo o que tivesse a dizer – Você nem tá me escutando mais, está? – a garota riu, a certo ponto, notando que ele ainda não tinha dito uma só palavra.
— Estou. – sorriu, bebendo um gole de seu café – Você estava comparando com Moby Dick, acho que faz bastante sentido… – completou, e abriu um sorriso bonito: uma vez lera um poema breve, que falava sobre como o mundo era repleto de especialistas em oratória, mas que poucos eram aqueles dispostos à arte da “escutatória”*. a escutava, sempre. – Qual foi sua parte favorita?
— Bem, eu gostaria de poder dizer que é o final, mas alguém ainda não me deixou chegar lá! – resmungou, e o rapaz riu baixo, aceitando sua culpa – Mas tem uma parte… – ela folheou a edição, em busca do trecho desejado, encontrando-o marcado com uma grande chave e três efusivos pontos de exclamação. sorriu, porque de alguma forma já conhecia os códigos sob os quais dialogava com seus livros, e aquele era o ápice de sua empolgação. – “Alguns dos pescadores mais novos (…), ao falarem do mar dizem ‘el mar’, que é masculino. Falam do mar como de um adversário, de um lugar ou mesmo de um inimigo. Entretanto, o velho pescador pensava sempre no mar feminino e como se fosse uma coisa que concedesse ou negasse grandes favores; mas se o mar praticasse selvagerias ou crueldade, era só porque não podia evitá-lo. A lua afeta o mar tal como afeta as mulheres”. – leu, embalando naquele tom de voz que não buscava esconder um sorriso. – É incrível, não é? – admirou-se, fechando o livro e afagando a capa inconscientemente.
— É lindo. – concordou, reconhecendo a beleza do trecho e, mais ainda, do impacto que ele tinha sobre ele quando lido por ela – Já podemos colocar Santiago na nossa lista de heróis, junto com Atticus? – perguntou, os olhos se estreitando da mesma forma como os lábios se apertavam em um sorriso de canto.
— Sem dúvidas! – deu uma risada gostosa, aproveitando aquele sentimento tão raro: quantas pessoas podiam dizer que compartilhavam não só de gostos, mas de seus próprios heróis?
— E onde fica “por quem os sinos dobram” nessa lista? – provocou, arrancando um resmungo exasperado de . É claro que ele não se esqueceria do que os havia levado ali, em primeiro lugar – Admita, esse é o melhor Hemingway que já leu…
— Na verdade, eu ainda não terminei, para ter uma opinião. – a garota tentou desviar do assunto, mas o olhar de lhe dizia que não escaparia tão fácil assim – Argh! Tire esse sorrisinho do rosto, ou eu não vou dizer. – cruzou os braços diante do tronco, rendendo uma risada gostosa ao rapaz. Ele ria baixo, mas com o corpo todo. Era algo bonito de se assistir assim de perto.
— Vai sim… – moveu uma das mãos, dando pouca importância aos protestos da garota – Anda, eu quero ouvir… – ergueu a sobrancelha daquela forma que deveria irritá-la, mas que de alguma forma lhe fazia sorrir.
— É o melhor. Eu admito. – suspirou, vencida, revirando os olhos para a satisfação expressa no rosto dele para então bater de leve com o livro na cabeça do garoto – Não faça com que eu me arrependa…
— Viu? Não doeu. Você fica bonita quando concorda comigo. – comentou com naturalidade, admirando o modo como a expressão contrariada da garota não interferia em nada em sua beleza. Pelo contrário, os lábios dela, quando protraídos em descontentamento, despertavam ainda mais sua atenção.
— E você fica mais bonito de boca calada. – ela devolveu, fazendo com que o sorriso de se alargasse de forma a transformar seus olhos em fendas pequeninas, e ridiculamente adoráveis.
É, ele ficava ainda mais bonito assim.

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— Uau! – exclamou assim que saiu da cafeteria, na companhia de . A garota observava o céu noturno com pescoço totalmente inclinado para trás, o que fazia com que ela parecesse ainda menor em comparação a ele – Olha como a noite ‘tá linda! – exclamou, abrindo um sorriso que parecia combinar com as estrelas que, acima dela, poderiam sorrir de volta.
— Eu gosto das noites de outono. – comentou enfiando as mãos nos bolsos, adotando uma postura relaxada enquanto observava a mulher a sua frente – É minha estação favorita.
— Combina com você. – enfim deixou de olhar para o céu para focar o rapaz a sua frente que, com a combinação da fraca iluminação urbana e a noite clara, parecia ainda mais bonito que o normal. Definitivamente, combinava com ele: era feito brisa fresca depois de um dia quente, feito chegar em casa e se enrolar no conforto da sua coberta preferida. Era como um bom livro e uma xícara de café. Como mansidão serena do outono. –Eu acho que vou andando, – pigarreou, sem dar espaço para que ele pudesse questionar a comparação – é um desperdício pegar o metrô com uma noite dessas.
acenou com a cabeça, incapaz de discordar. O rapaz cobriu a distância de dois passos que o separava de , colocando-se ao lado dela para então espiar também o céu por um momento, imerso em seus pensamentos e – por que não? – sentimentos. Ele não deveria fazer aquilo, sabia que não. Mas a ideia de prosseguir a noite naquele ‘normal’ tão confortável que lhe proporcionava era simplesmente irresistível demais, por isso sorriu.
— Vamos? – perguntou, com um meio sorriso de quem já tem sua resposta. Ou de quem não aceitaria outra contrária.
Cobriram o caminho curto até a casa da garota compartilhando risadas e observações divertidas sobre aleatoriedades esquisitas que só faziam sentido naquela sintonia fina que em que se ajustavam – ‘você sabia que quando você fala para si mesmo enquanto lê, essa voz interior é acompanhada de movimentos da laringe?” ou “um gato quase nunca mia para outro gato, apenas a humanos”. Mais rápido do que o previsto, estavam diante da porta vermelha do pequeno prédio espremido entre dois gigantes comerciais.
— Eu fico aqui. – a garota apontou, subindo o primeiro degrau que levava à porta – Obrigada ela companhia. – sorriu, ajeitando os cabelos por não saber o que fazer com as mãos, numa inquietação que era nova na presença dele.
— Não foi nada… – abanou a ideia no ar – Nos vemos quinta que vem? – perguntou, uma das sobrancelhas erguidas em um gesto involuntário. Não era como se fosse preciso reafirmar aquilo, já que aquela rotina já parecia incorporada à vida dos dois, mas ainda assim ele perguntava todas as vezes, porque gostava de ouvir. Gostava do modo como ria, acenando com a cabeça mais vezes do que o necessário. Gostava de como ela às vezes batia em seu ombro, como se a pergunta fosse idiota demais. Gostava dela, um pouquinho mais a cada dia.
Como se lesse seus pensamentos, riu enquanto lhe batia de leve, concordando uma dúzia de vezes antes de parar por um momento, fugindo então do roteiro.
— Você quer subir? Podemos comer alguma coisa… – perguntou, mordendo o interior dos lábios com uma incerteza que não lhe era familiar, tão paradoxal à naturalidade com que fluíra a pergunta.
A resposta veio em seguida, na forma de um aceno sem qualquer hesitação. O sorriso foi a chave para que a garota também sorrisse, ocupando-se enfim de abrir a porta, dando passagem ao rapaz que a seguiu. Os dois subiram as escadas até o terceiro andar, onde ficava o pequeno apartamento que dividia com uma colega da faculdade. Não era grande e não tinha luxo algum, mas a garota era simplesmente apaixonada por aquele lugarzinho que era tão seu. Assim que entraram, deixando os sapatos ao lado da porta, sorriu: havia em cada canto dali.
— Não é nada demais, mas… – ela encolheu os ombros, compartilhando do calor do sorriso dele.
— É demais! – a interrompeu, sem perceber, tirando o casaco visto que ali dentro a temperatura se fundia aos tons quentes do ambiente – Uau… – murmurou assim que seus olhos pousaram na estante que ocupava uma parede inteira, do lado oposto da sala. – São todos seus?
— A maior parte… – sorriu de modo a mostrar suas covinhas – coleciona DVDs. Eu já disse pra ela quão anos 2000 isso é, mas acho que faz parte do charme… – riu sozinha, espiando que ainda observava a estante, maravilhado – Vá em frente! – empurrou o ombro dele com uma risada – Vou estar na cozinha. – avisou, deixando-o livre para explorar.
— Você já leu a obra completa de Shakespeare? – eleergueu as sobrancelhas, correndo os dedos pelos livros na estante, já distraído demais para dar importância a qualquer coisa que fosse.
— As tragédias, sim. – a garota respondeu, alto o suficiente para que ele a escutasse. Não notou que sorria, ainda que estivesse sozinha na cozinha americana esquentando kimchi e arroz, e não pudesse lhe ver.
O rapaz continuou a espiar os títulos, soltando um murmúrio abismado ao se deparar com uma coleção de cânones orientais em capa dura e encadernação clássica que, ele tinha certeza, já não estava mais em circulação. Continuou sua excursão por aquele parque de diversões com olhos atentos, que buscavam absorver tudo o que viam.
, isso é incrível! – exclamou, no instante em que a garota retornou à sala com dois bowls coloridos em mãos.
— Eu sei! – ela devolveu, sorridente como uma mãe orgulhosa de seus filhotes, e se virou para mostrar o sorriso largo em seu rosto no momento em que puxou da estante o exemplar de Vestígios do Dia – Eu adoro Kazuo Ishiguro, já leu algo dele? – perguntou, recebendo uma negativa do rapaz.
— O que houve com você…? –ele perguntou baixinho enquanto examinava a capa enrugada do livro com atenção, só então reparando o que fazia ao tratá-lo por “você”.
— Ele sofreu um acidente. – sorriu, e algo naquele sorriso comunicava que ela também tinha notado o pequeno deslize de – Derrubei minha garrafa de café nele… – a garota trazia uma expressão teatralmente trágica no rosto – Vem, vamos comer… – chamou, e ele aceitou o pote que ela lhe estendia, deixando o livro de lado para seguir a garota com curiosidade quando ela se afastou da mesa de jantar, andando até uma pequena varanda.
— Woah… – exclamou, admirando a vista e o quão aconchegante aquele lugar parecia, com tapetes coloridos no chão e uma pequena horta na parede. Estava tão distraído que perdeu o sorriso de : ela era capaz de gastar horas inteiras sentada ali com uma xícara de chá e a mente vazia, e se alegrava sempre que alguém também se sentia acolhido naquele cantinho.
— A noite está bonita demais pra comermos lá dentro. – sentou-se de pernas cruzadas, aguardando que o rapaz fizesse o mesmo.
— Você tá certa. – ele concordou, para então mastigar um pouco de kimchi, soltando um murmúrio de satisfação antes de pegar um tanto mais.
— Eu estou sempre certa, pabo. – mordeu um sorriso, começando a comer em seguida, olhando para o belo quadro que eram as luzes da cidade, ainda que a vista mais bonita da noite estivesse, e ela se perdoaria por aquele clichê, bem ao seu lado.



— Ninguém prefere Enigma do Príncipe, , cala a boca. – bateu de leve no ombro do rapaz que ria, deitado ao seu lado, parte pela indignação dela, parte pelas garrafas de soju empilhadas no canto da varanda.
— Snape é o melhor personagem. Enigma é sobre ele. Logo, Enigma melhor livro. Ponto. – ele encadeou seus argumentos de forma quase preguiçosa, com uma expressão despreocupada que fazia querer arrancar o sorriso nos lábios dele.
— Sirius é o melhor personagem. Prisioneiro de Azkaban é sobre ele. Logo, Prisioneiro melhor livro. Ponto. – devolveu, virando o rosto na almofada que dividiam para encará-lo melhor. Os dois se encararam em silêncio por alguns segundos
— Você fica bonita quando tá brava. – comentou, tão despretensiosamente quanto parecia fazer tudo na vida, e ouvir aquilo já seria muito se estivessem a uma distância decente. Ali, no entanto, podia ver cada detalhe dos olhos dele e do contorno dos lábios, além de sentir com cada partezinha de seu corpo o calor que vinha dele. Respirou fundo, tentando se livrar da sensação de que estava suspensa em um momento, arrependendo-se no instante em que o cheiro de tomou conta dela, tão real que ela tinha certeza de que ele podia ver suas pupilas dilatadas, e ouvir a forma ridícula como seu coração batia mais alto, mais forte, por ele.
… – murmurou, quando os olhos dele caíram até seus lábios, demorando-se ali de forma deliciosa demais para que ela conseguisse se manter calada – Essa é a parte do livro em que você me beija.
As palavras dela pairaram por alguns instantes entre eles, até quebrar o silêncio com um sorriso que fez os ouvidos de tilintarem. Tudo o que se seguiu ocorreu devagar o suficiente para que a expectativa se tornasse pura estática entre eles, enquanto o rapaz tocava os lábios dela com o polegar sem pressa, movendo-se um pouquinho mais para perto. Quando sua respiração já estava próxima o suficiente para alcançar os lábios de , fazendo com que a garota se arrepiasse, ele sorriu.
— Shhh… – pediu, encarando-a e encontrando seu reflexo no escuro dos olhos dela. –Não estraga meu roteiro, esse era o meu pedido. – explicou, e o sorriso permaneceu em seus lábios até que ele encerrasse a distância que os separava dos de , beijando-a de um modo que era digno de cada metáfora que já haviam lido. Ou mais ainda.

* Trecho de “A escutatória”, de Rubem Alves

 

III. Ratos e Homens, John Steinbeck


“Eu tenho você pra cuidar de mim
e você tem a mim pra cuidar de você.
É por isso.”

— Do que você ‘tá rindo? – perguntou, ele próprio abrindo um meio sorriso enquanto secava os cabelos em uma toalha de rosto, num gesto cuja naturalidade dizia muito sobre a relação construída com a garota que, da cama, lhe observava com um sorriso.
— Eu estou sorrindo, é diferente. – corrigiu, pousando sobre o abdome o livro que lia antes de ver o namorado entrar no quarto apenas para se apaixonar, mais uma vez.
Era bem ridículo, na verdade: ver sobre o palco era uma experiência única e ela era capaz de reconhecer a mágica do ‘efeito idol’ que transformava aqueles garotos em seres de beleza quase etérea. A questão é que ela ainda não havia descoberto uma versão do rapaz que lhe encantasse mais do que aquela. Porque com os cabelos molhados do banho, vestindo um moletom enorme que tinha seu cheiro e pronto para dormir ao seu lado a noite inteira, tinha ali o cara mais lindo do mundo inteiro. E, por Deus, como o amava.
— E porque está sorrindo, então? – a voz do rapper ao imitá-la não escondia o sorriso, apenas para arrancar uma risada de , o que não foi difícil. Nunca era, entre eles. caminhou até a cama, deixando os óculos na mesa de cabeceira antes de encontrar ao lado da namorada aquele lugar que já era tão seu, jogando-se sobre o travesseiro com um suspiro: depois de um dia exaustivo, era reconfortante ter aquela redoma de aconchego para onde retornar.
— Porque amo você assim. – respondeu baixinho, afastando alguns fios de cabelo da testa dele, sem tirar os olhos dos de , que sempre lhe pareceram a parte mais bonita daquele rosto assombrosamente perfeito. Eram pequenos e estreitos, e à primeira vista poderiam parecer entregar pouco de sua essência, mas bastava observar com cuidado, com carinho, e estavam ali as janelas de uma alma sensível e profundamente encantadora.
— Eu também. – murmurou, cerrando os olhos sob o carinho que ela fazia em seus cabelos, arrancando uma risada da garota diante da resposta – Amo a gente assim, você entendeu. – ele abriu os olhos apenas para revirá-los, rindo de canto – De verdade, . – sentiu necessidade de reforçar, entrelaçando seus dedos e admirando por um momento suas mãos unidas, já que até as menores coisas sobre eles não falhavam em levar sua mente a devaneios de inspiração – Eu adoro morar com os meninos, você sabe disso. Mas quando eu chego aqui é diferente. Eu sinto tanta saudade de você que é como… É como se ficasse mais fácil respirar, entende? – ele se esforçou para explicar o que sentia sem erguer os olhos, já que aquele tipo de declaração ainda escapava arranhando sua garganta, pela falta de hábito. Música era tão simples, comparada ao ato de expressar em palavras o que sentia ao olhar nos olhos de .
— Entendo, amor. – garantiu, abrindo um sorriso que atraiu os olhos de novamente para seu rosto, e ela lhe encarou por um momento antes de buscar seus lábios para um beijo manso, que fazia seus corações se aquecerem naquela sensação gostosa do primeiro amor.
— Além disso, – o rapaz sorriu entre os lábios dela, beliscando o inferior com os dentes – os garotos não têm o seu cheiro… – murmurou, migrando os beijos lentamente até o pescoço da namorada, sentindo o perfume suave que vinha da pele dela, e parecia despertar sua memória afetiva para as melhores lembranças que guardava na vida.
— Ah, é? – ergueu uma sobrancelha, divertida, acariciando de leve os cabelos da nuca do rapaz, apreciando o modo como seus dedos corriam entre os fios um pouquinho mais crescidos que o habitual – Nem ? – questionou, pela diversão, sentindo os lábios de se abrirem em um sorriso contra sua pele.
— Ok, talvez ele. – o garoto ergueu os olhos com um sorriso arteiro, entrando na brincadeira sobre o melhor amigo. A relação adorável entre e era, honestamente, uma das coisas que mais alegravam seu coração. Eram duas de suas pessoas favoritas no mundo, tão parecidas na leveza que traziam para sua vida, afinal.
— Aigoo, essa concorrência injusta! – soltou uma gargalhada gostosa, e rolou sobre a namorada, tirando o livro do caminho e alinhando seu rosto ao dela para espelhar em seus lábios o sorriso que preenchia os da garota.
— Ele é mais alto. – brincou, beijando o biquinho que ela fez diante daquela constatação irrefutável – Mas você é mais bonita, não se preocupe. – abriu um sorrisinho, antes de beijá-la mais uma vez – E inteligente. – pontuou com outro beijo, dessa vez no queixo – E incrível. – seguiu pela mandíbula da garota, a voz soando tão grave que precisou se encolher, odiando que seu corpo se arrepiasse sob os dedos dele, tirando ali a credibilidade de qualquer argumentação.
— Eu vou ter que contar isso pra ele. – riu, trazendo os lábios de até os seus, beijando-os lenta e intimamente, naquele ritmo preguiçoso que era tão deles e que dizia mundo inteiro que esperasse enquanto desfrutavam da presença um do outro.
— Eu digo que é mentira. – murmurou contra os lábios dela, arrancando uma risada da garota, que o empurrou de cima dela, revirando os olhos.
— Aish, você é ridículo. – murmurou, pegando o livro que caíra no chão, sem esconder um sorrisinho.
— Você me ama. – ele devolveu com um sorriso despreocupado, afundando-se entre os travesseiros e passando uma das pernas sobre as da garota.
— Mas não deveria! – suspirou, resignada, olhando para ele e se deparando com um sorriso largo que fez seu coração se apertar de amor. O riso logo se transformou em um bocejo e olhos apertadinhos de sono – Você… – ela tocou a ponta do nariz do rapaz com o indicador – Precisa descansar.
— Eu posso esperar você… – murmurou, ainda que a maciez dos travesseiros, o cheiro de casa, e o som da respiração de tranquila a seu lado fossem tudo o que precisasse para uma noite de sono.
— Não precisa… – afastou a ideia com um gesto – Eu tenho que terminar esse rapazinho pra um trabalho. – apontou para a capa do livro que tinha nas mãos, onde leu “Ratos e Homens”. A garota estendeu a mão até o interruptor, apagando as luzes para acender um abajur de luz tênue logo depois – Boa noite. – ela virou o rosto, tocou os lábios de com os seus levemente, naquela sensação deliciosamente familiar – Sonhe comigo.
— Sempre. – ele murmurou, já de olhos fechados, passando os braços em torno da cintura da garota e se aconchegando a ela, como era sua posição favorita de dormir.
abriu o livro, segurando-o com a mão esquerda, enquanto com a direita embalava, num cafuné, os sonhos de – nos quais ela era sempre a protagonista.



não soube ao certo o que fez com que despertasse: o som baixinho que vinha de , ou o balanço discreto do corpo dela sob o seu. O rapaz abriu os olhos devagar, acostumando-se à luminosidade fraca do quarto, mas no instante que os pousou sobre a namorada, viu-se completamente desperto. chorava. Era um pranto silencioso e dolorido, com os olhos cerrados e a expressão magoada, e fez com que o garoto sentisse seu coração de afundar dentro do peito.
, o que foi? –perguntou, sentando-se e a puxando para seu peito.
— E-eu… E-eu não queria te acordar… – ela fungou, escondendo o rosto na curva do pescoço dele e deixando um soluço escapar. – Me desculpa.
— Ei, para com isso… – segurou o rosto da garota entre as mãos, com a expressão torturada de preocupação – O que aconteceu? – perguntou, examinando o corpo dela com os olhos e encontrando o problema entre seus dedos: apertava o pequeno livro de bolso contra o peito, tão apertado que os nós dos dedos ficaram brancos – Meu amor… – a expressão dele abrandou, e ele beijou a testa da garota com um sorriso carinhoso, tirando o livro das mãos dela e o colocando sobre a mesa de cabeceira.
— É tão triste. – se deixou abraçar, extravasando a dor que sentira se abater sobre ela nas últimas páginas da história, pegando-a completamente de surpresa. Não havia preparação para aquele fim, e talvez fosse esse o motivo pelo qual ela sentisse o estômago revirado e o coração dolorido. – Meu Deus, é como se… Como se eu estivesse quebrada por dentro… – completou, apertando os braços em torno de ainda mais forte, sentindo as lágrimas verterem ainda mais facilmente de seus olhos agora que se sentia acolhida para isso.
a recebeu com carinho em seu peito, deixando que a garota chorasse até que o pranto secasse. Apesar de partir seu coração vê-la assim, essa era uma das coisas mais apaixonantes sobre : ela era capaz de sentir tão intensamente a própria dor quanto a dor alheia. Bem como vibrava com a as alegrias dos outros tanto, ou ainda mais, do que valorizava suas próprias.
— Você quer falar sobre isso? – ele perguntou, tirando do rosto dela alguns fios que haviam se grudado sobre as bochechas molhadas de lágrimas. maneou a cabeça negativamente, e ele concordou com um sorriso pequenininho, respeitando-a – Eu vou pegar algo pra você beber, sim? – avisou, deixando um beijo leve sobre a cabeça da garota antes de se levantar da cama. Tão logo saiu do quarto, deparou-se com a figura de , a companheira de apartamento de .
— Ei… – a garota coçou os olhos de sono – Tá tudo bem? – perguntou, soando preocupada.
— Sim. – garantiu, com um sorriso brando – Ela terminou um livro, ficou um pouco emocionada. – explicou, e a garota sorriu em compreensão. Pelo menos agora havia quem cumprisse seu papel – Vou fazer um chá pra ela… Você quer também? – perguntou, andando até a pequena cozinha do apartamento.
— Obrigada… – agradeceu, bocejando – Boa noite pra vocês. – acenou, enquanto girava nos calcanhares para voltar até seu quarto.
esperou que a água fervesse por alguns minutos antes de abrir a lata que continha os sachês de chás de , deixando aquela mistura de aromas invadir o ambiente antes mesmo que começar a infusão. O rapaz procurou pelo de ameixa japonesa, que sabia ser o favorito da namorada, e assim que o colocou na água quente, senti o cheiro exótico e tão familiar que sempre associava a ela.
O rapaz voltou ao quarto, encontrando sentada na cama, abraçada aos próprios joelhos. Ela ergueu os olhos para ele e receber assim tanto cuidado fez com que sorrisse, ainda com os olhos molhados.
— Obrigada… – agradeceu baixinho assim que ele lhe entregou a xícara, depois de enxugar o choro nas mangas do pijama.
— Bebe, você vai se sentir melhor… – ele garantiu, repetindo o que ela sempre lhe dizia quando fazia aquilo por ele. E era verdade: o chá, quando carregado de tanto carinho e preocupação de , sempre foi capaz de lhe abrandar as aflições. Ele esperava que agora fizesse o mesmo por ela.
O rapaz tomou seu lugar na cama e trouxe para perto o corpo da namorada, recostando-a em seu peito para que a abrigasse em seus braços. ainda não atingira o mesmo nível de empatia de , e talvez nunca viesse a chegar lá. Quando se tratava dela, no entanto, ele sentia como se cada uma das emoções da garota refletisse profundamente nas suas, e naquele momento só queria que ela se sentisse aconchegada e protegida, segura para sentir.
Enquanto tomava o chá, sentiu suas emoções se aquietarem, alinhando-se novamente pelo calor da bebida e dos braços de . O casal permaneceu quieto por longos minutos, num daqueles seus silêncios confortáveis dos quais eram feitos, e enquanto se ocupava de um carinho leve na garota, ela se concentrava na respiração dele e buscava limpar a mente para se concentrar na sensação de tranquilidade que a preenchia sempre que o tinha por perto.
— Pode dormir… – beijou os cabelos de quando viu as pálpebras dela pesarem. O rapaz a trouxe para ainda mais perto de seu peito, aninhando-a em perto de seu coração – Eu tô aqui, amor… – garantiu, e a garota se limitou a beijar a mão dele que estava próxima de seu rosto, deixando escapar uma lágrima. De felicidade, em seu estado mais puro, dessa vez.
— Eu amo você. – murmurou, tão sinceramente que sentiu uma dorzinha gostosa no peito.
Eles não diziam aquilo com frequência, ao contrário do podia parecer pelo modo como agiam. Talvez fosse essa a questão: apesar de serem amantes das letras, o amor, para eles, dificilmente passava por elas. Ao contrário, estava nas longas tardes que perdiam conversando sobre literatura, bem como nas manhãs preguiçosas em que disputavam a posse do controle remoto. Nas ligações insistentes de para ter certeza de que ele comia direito em suas viagens, e no fato de sempre trazer os doces preferidos dela quando voltava de uma turnê. Estava na dedicação dela em ser também uma boa amiga para , e no esforço dele para vencer a introspecção e se aproximar de . Amor, para eles, era um abraço que servia de casa e uma xícara de chá numa madrugada fria.

 

IV. O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry


“Só se vê bem com o coração.
O essencial é invisível aos olhos”

“O amor é a única coisa que cresce à medida que se reparte” leu no exato instante em que ouviu o som discreto da chave eletrônica do quarto, seguida do clique quase silencioso da porta se abrindo e então se fechando. era discreto até mesmo naquele aspecto e isso a fez sorrir, porque a tornava mais que atenta aos detalhes que faziam dele quem era.
Não era a primeira vez que se deparava com aquela frase – além de se tratar de uma releitura, tinha plena certeza de já tê-la visto em algum lugar, talvez estampando uma camiseta… ou seria uma caneca? Mas havia algo sobre a obra aclamada de Antoine de Saint-Exupéry que fazia com que cada vez que a lesse, descobrisse novos significados para a história singela de um pequeno príncipe de um planeta distante, a descobrir o amor.
Aos 8 anos, sob a luz do didatismo dos pais, compreendera repartir o amor como algo próximo ao sentido bíblico, da prática da caridade. Aos 16, quando seu o material escolar era decorado com as famosas aquarelas temáticas do livro, escrevia aquela frase com olhos apaixonados voltados para o colega de classe por quem suspirava de paixão adolescente.
O que sentia aos 23, contudo, era muito diferente. Imersa na água quente da banheira daquele luxuoso hotel de Jakarta, lendo a obra em seu idioma original e ouvindo os sons discretos que anunciavam a presença de no cômodo ao lado, compreendia, enfim, o amor expansivo que parecia crescer muito além dela, desde que o conheceu. Desde que partilharam da primeira forma de amor – aquela que nutriam pelas histórias.
— Achei que tivesse fugido. – escorou um dos ombros na porta, sua voz deixando transparecer o cansaço, mas também a satisfação de chegar de um dia feito aquele e se deparar com ela lendo na banheira, o corpo envolto em espumas aromáticas e vapor quente. Era uma exceção absolutamente rara – drástica, até – que permitissem a presença da namorada no hotel. Mas após os últimos acontecimentos durante a turnê, considerando o bem-estar e a saúde de todos, algumas concessões foram feitas: era a sua. Seu ponto de paz e reequilíbrio físico e emocional.
— Pra onde eu fugiria? – a garota abriu um sorriso divertido, apoiando o livro sobre a pequena mesa de mármore ao lado da banheira para indicar que ele tinha sua atenção plena. se aproximou, abaixando-se o suficiente para tocar os lábios dela com os seus por um instante demorado, que terminou com um suspiro longo.
— Não sei. – respondeu em um meio sorriso, a testa ainda colada à dela – Só estou feliz por estar aqui. – completou, a voz ainda mais grave como sempre que falava tão baixo.
— Eu também, meu amor. – deixou um carinho no rosto dele, sentindo-o fechar os olhos sob seu toque, flagrantemente sentindo falta daquilo – Como foi seu dia? –perguntou quando ele se sentou na beirada da banheira, com uma das mãos brincando com a espuma espessa que envolvia o corpo dela. Ela o conhecia o suficiente para saber que às vezes precisava de algum estímulo para dizer o que se passava detrás daqueles olhos, especialmente quando a maré mansa se transformava em noite tempestuosa, como era o caso.
— Bom. – respondeu, sucinto, e apenas aguardou em silêncio que prosseguisse. O rapaz sorriu de canto, levando o indicador até o nariz da garota, sujando-o como retaliação àquele superpoder irritante dela, de lhe arrancar qualquer verdade com nada além de um piscar daqueles olhos afetuosos – Foi cansativo. Bem cansativo. – confessou, respirando fundo: o afastamento do líder do grupo no meio da turnê, as entrevistas que giravam apenas em torno disso, a mudança em todas as performances para cobrir a falta dele, a insegurança… Tudo era exaustivo, e o deixava a flor da pele. – Os ânimos estão começando a melhorar, ao menos. – ponderou com um sorriso tristonho, que fez a namorada entrelaçar os dedos aos seus.
— Que bom, meu amor. – sorriu, afagando o dorso da mão do rapaz com o polegar, e o sorriso que recebeu de volta foi um tanto mais leve. Ela sabia que aquela era uma ferida que sararia de dentro para fora e que sua presença ali era muito menos importante do que a dos outros garotos que compartilhavam da mesma dor que ele. Mas não deixava de se sentir melhor apenas por poder estar ali também – Ele vai ficar bem. E vocês também vão. – assegurou, recebendo um aceno discreto em resposta, que lhe dizia que ele ainda não acreditava plenamente naquilo, mas se esforçaria para tentar.
-hyung mandou um beijo pra você. – se lembrou de dizer, mudando o foco da conversa inconscientemente, e respeitou a mudança no tom, especialmente porque aquilo iluminava os olhos dele, desfazendo a ruguinha insistente que ele vinha cultivando entre as sobrancelhas nos últimos dias – E queria passar aqui mais tarde, mas eu disse que não.
! – ralhou dando um peteleco na água, mas sem deixar de sorrir quando o rapaz apenas deu de ombros, sorrindo sem culpa – Você é mau com ele.
— Eu sou ótimo. – ele sorriu, descarado, apoiando o corpo na parede e dobrando as pernas sobre a borda da banheira, mantendo uma das mãos sob a água quente, num carinho delicado sobre o joelho da garota.
— Quer entrar? A água tá quente, ainda… – ela perguntou, mas afastou a ideia com um gesto. Ele não gostava de banheiras, de toda forma. adorava aquele ritual, e apreciava cada segundo dele, por estar junto dela. Mas preferia o chuveiro, rápido e prático – Eu já saio, então… – a garota ameaçou se levantar, mas a manteve no lugar segurando de leve nos ombros, sorrindo sem perceber enquanto reparava no modo como alguns fios de cabelo escapavam do nó bagunçado que ela tinha no topo da cabeça, colando-se ao pescoço.
— Fica… – pediu, baixinho, porque algo na presença dela ali, exatamente como estava, era tudo o que ele precisava naquele momento: uma paz quase utópica, exceto pelo fato de que era tão real – O que você tá lendo? – perguntou, pegando o livro sobre a mesa de apoio, e rindo pelo nariz ao ver o título – O Pequeno Príncipe? Sério? Achei que não gostasse de auto-ajuda. – implicou, sorrindo para as sobrancelhas franzidas da namorada.
— Não é auto-ajuda… – resmungou, mas não ousaria tirar aquele sorriso do rosto dele, mesmo que a irritasse – Resolvi reler por causa do francês, meu professor sugeriu. É uma edição bilíngue, e como eu já li outras vezes, teoricamente é pra ser mais fácil… – explicou, e dessa vez as sobrancelhas de se ergueram em admiração, mas a verdade é que ela ainda se atrapalhava bastante, precisando recorrer ao texto em coreano mais vezes do que gostaria.
— Le Petit Prince. – leu, devagar, fazendo um sorriso brotar dos lábios de a cada palavra que ele arranhava com um floreio – Aish, é muito difícil! – franziu o cenho, lutando com a pronúncia do nome do autor – Como se fala isso? Exu… Exupér-
— Exupéry. – corrigiu, mal cabendo em si diante do quão adorável ele parecia com os olhos apertadinhos detrás dos óculos, esforçando-se para ler. A garota pegou o livro das mãos dele e folheando até a dedicatória, que era uma de suas partes favoritas, além de ser provavelmente a única que conhecia quase de cor–Aqui, eu adoro essa parte: “Je demande pardonaux enfants d’avoirdédiéce livre à une grande personne. J’ai une excusesérieuse: cette grande personne est lemeilleur ami que j’aiaumonde.”*
Havia um quê de hipnótico no modo como os lábios de se moldavam ao idioma francês, brincando com sons exóticos aos quais seus ouvidos eram desacostumados. E, naquele instante, ele a amou tanto.
era feito a prosa dinâmica e mordaz de Hemingway, com notas da poesia libertadora de Harper Lee. Trazia o realismo mágico de Gabo em seus sorriso-cura, e o carregava por mundos de fantasia sem precisar de qualquer encanto. Era prosa-poética, poesia cantada, letra vivida. cerrou os olhos os olhos enquanto ela continuava a falar naquela língua secreta, desejando por um segundo que a vida se resumisse a isso, a eles.
— O começo significa ‘eu peço perdão às crianças, por dedicar esse livro a um adulto’. Lembro de quando li isso quando era pequena, e de como fiquei feliz. – sorriu, meneando a cabeça, mergulhada em suas próprias memórias – Você nunca leu?
— Minha mãe leu pra mim. – pegou o livro com mais carinho dessa vez, passando rapidamente pelas aquarelas que o ilustravam, viajando também para as próprias lembranças em que ele e o irmão ouviam atentamente à história contada na hora de dormir. – Mas não me lembro de muita coisa. Só que o principezinho tinha uma flor. E uma raposa chata.
— Chato é você. – lhe mostrou a língua, teatralmente ofendida – Tem um significado diferente, sabe?Lendo depois de adultos. É uma história bonita, não é feita só de frases de efeito… – completou, sabendo que era essa a causa da implicância do namorado com o livro, e não conteve um sorriso quando crispou os lábios, desconfiado – Que tal essa: a rosa e o príncipe são, na realidade, metáforas para a esposa do autor e ele mesmo. Ele se assusta com a intensidade do que sente por ela, por perceber que o amor pode se transformar em sofrimento quando pensa em perdê-la e…
—E resolve sair numa expedição interplanetária, aproveitando o melhor de cada lugar? – ergueu uma sobrancelha, e havia um tom cômico em seu ceticismo que tornava praticamente impossível argumentar com ele sem ceder a uma risada – Bem romântico, parece um ótimo plano.
— Idiota. – riu, odiando a sagacidade dele tanto quanto se encantava por ela. – Mas ele volta para ela, no fim. – deu de ombros, sem querer se desfazer da memória afetiva que guardava da história.
— Sabe o que é melhor que voltar? – ele segurou o rosto da garota com uma das mãos, roubando um beijo estalado. – Não ir embora, pra começo de conversa. – piscou, e a namorada revirou os olhos, com um sorriso – Só por aí já podemos dizer que eu sou melhor que eu seu Antoine sei-lá-das-quantas, e o Príncipe dele. – completou, com aquela pretensão divertida que usava apenas para fazê-la rir. Às vezes desejava que ele, de fato, se visse só um pouquinho mais com aqueles olhos gentis, e não duvidasse tanto de si.
— Você é mesmo. –concordou, pegando-o de surpresa, e usando das palavras já que não podia lhe emprestar seus olhos para que ele se enxergasse como ela – É a pessoa mais incrível que eu conheço, .
nunca admitiria isso em voz alta, mas quando a beijou novamente, uma lágrima discreta se infiltrando entre as gotas do banho, algo nos recantos mais secretos de sua mente sussurrava a frase célebre do tal livro, o maior clichê que já lera em toda a vida: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.

* Peço perdão às crianças por dedicar este livro a um adulto. Tenho uma boa razão: este adulto é meu melhor amigo no mundo.

 

V. Goya


do urdu: a suspensão de descrença que ocorre em uma boa história; uma história que parece realidade.

— Olá, crianças! – saudou, parando diante da pequena horta vertical que se projetava na direção do Sol refletindo os mais diferentes tons de verde – Ugh, vocês me enchem de orgulho, lindas assim… – murmurou, fazendo um carinho nas folhas da hortelã, antes de começar a regar cada um dos vasos, cantando baixinho qualquer música que ouvira na rádio aquela manhã.
Um pequeno sorriso se abriu nos lábios da garota quando percebeu que aquela era mais um hábito que adquirira simbioticamente de . Enquanto ela conversava com seus livros, ele, além de sempre aparecer com uma nova muda para a horta, perdia um longo tempo conversando com as plantinhas, admirando o modo como elas resistiam feito um sopro de vida em meio ao concreto. E talvez fosse este traço da personalidade de ambos – o fato de encontrarem graça e beleza em coisas tão pequenas – que tornasse seu vínculo tão raro, tão leve ao coração.
— Ei, você… – a garota franziu as sobrancelhas para a muda de alecrim que, escondida no vaso mais próximo da sombra, encontrava-se menos vibrante que as demais – Não ouse, senhorita! – ralhou, tirando-a do lugar para colocá-la mais perto do Sol – me mata se voltar e algo tiver acontecer com você! – sussurrou, regando o vaso com cuidado, quase como num afago – Vejo vocês amanhã! – despediu-se, deixando um último olhar às plantinhas antes de voltar para a sala.
Com os pés descalços e uma roupa confortável, se preparava para seu primeiro Dia Branco com , justamente no dia em que ele retornava da turnê que os mantivera distantes por tanto tempo. havia saído com o namorado há um par de horas, e estava tão bonita e elegante que parecia uma mãe orgulhosa querendo tirar fotos da amiga. Quanto a ela, esperava por para o que seria mais um de seus encontros em casa, longe dos olhos do mundo.
Já fazia semanas desde que se encontraram pela última vez, em Jakarta, antes que ele partisse para a América para o restante da turnê. tanta falta dele que não fazia ideia do que dentro dela saudade e o que era ansiedade, aquele friozinho que seu estômago ainda não aprendera a deixar de sentir sempre que estava prestes reencontrá-lo depois de algum tempo. Assim, precisou se ocuparde uma série de bobagens a fim de se distrair e fazer com que o tempo passasse mais rápido.
Depois de cuidar das plantas, foi a vez de mudar de lugar as polaróides espalhadas pela estante da sala, e a garota não pôde conter um sorriso ao rever as fotos: distraída comendo rámen, as duas espremidas em um frame com sorrisos enormes e olhos pequeninos, deitado na varanda lendo qualquer coisa que lhe deixara com uma ruguinha entre as sobrancelhas, segurando um de cada lado em um abraço de urso, dormindo – havia um par dessas, as preferidas de … Naquele momento, por um breve instante breve, sentiu uma emoção gostosa preencher cada pedacinho de seu corpo: era feito uma gratidão enorme à vida, que se derramou na forma de uma única lágrima que correu por seu rosto até encontrar seu sorriso.
O som da campainha fez com que a garota tivesse um pequeno sobressalto, tal qual fazia seu coração dentro do peito. correu até a porta e, ainda que soubesse que ele a esperava, gastou um instante perdida naquele sorriso que a aguardava do outro lado, como se pedisse outro em troca. Aquele era um pedido irrecusável, e no mesmo instante em que seus lábios obedeceram, seus braços envolveram , abraçando-o tão apertado que seus corpos oscilaram por um momento, fazendo com que o rapaz soltasse uma risada grave na curva do pescoço da namorada, entre seus cabelos, que ele afagava com carinho.
— Olá pra você também… – ele murmurou, segurando o rosto de entre as duas mãos e correndo os olhos por cada partezinha dele, como se quisesse se certificar de que tudo estava exatamente do jeitinho que deixara: os olhos grandes e repletos de sonhos, o nariz delicado que se franzia sempre que ele a encarava por tempo demais, a pintinha charmosa que decorava a bochecha direita, os lábios em formato de coração que pareciam verdadeiros ímãs para os seus – Meu Deus, – ele a abraçou mais apertado ainda, murmurando o restante contra a boca dela, que já tomara para si – que saudade!
não conteve o riso – e Deus sabe o quanto amava quando ela sorria dentro de um beijo – antes de puxá-lo, enfim, para dentro de casa. chutou a porta para fechá-la detrás deles, mais ocupado em aproveitar aquela sensação para o qual a literatura ainda não inventara metáfora acurada o suficiente.
— Achei que não fosse voltar nunca mais! – quebrou o contato para reclamar, manhosa, mas sorriu de olhos fechados quando os lábios de se encostaram em sua testa, deixando ali um beijo cheio de afeto.
— Eu vou te recompensar. – ele sorriu pequenininho, sentando-se no braço do sofá e trazendo a garota para perto por uma das mãos, encaixando-a entre suas pernas, e algo no tom dele deixava ciente de que diria algo sério a seguir – Sinto muito por não poder te levar em algum lugar legal hoje, para comemorarmos… – lamentou com um afago no rosto da namorada, e o fato de ele estar sentado deixou seu rosto na altura dos olhos de , fazendo com que ela visse perfeitamente o lampejo de melancolia que cintilou detrás daquelas íris escuras e profundas. Ele se magoava com aquilo um tanto mais que ela, como fato de não poderem ter um relacionamento como todos os outros. A verdade é que eles não eram como todos os outros em nenhum outro aspecto, e talvez isso fizesse parte do que havia de mais bonito entre os dois.
— Ei, ei… – segurou o rosto de , maneando a cabeça uma dúzia de vezes como sempre que queria enfatizar muito alguma coisa, e aquilo por si só já fez um sorriso discreto surgir nos lábios do rapaz – Minha casa é um lugar super legal! – protestou, apenas para ver o sorriso dele se alargar, ainda que revirasse os olhos diante de sua tentativa de conforto – Você sabe que não me importo com isso… É um detalhe tão insignificante perto de todo o resto, meu amor. – completou, encarando-o por tempo o suficiente para que ele enxergasse ali a verdade em suas palavras.
— Eu devo ter feito algo muito bom pra merecer você. – riu baixo, trazendo-a para perto admirar melhor o sorriso nos lábios dela, e o modo como eles atingiam seus olhos, deixando-os em festa.
— Você faz, todos os dias. – sorriu, tranquila, e aquele era provavelmente o motivo pelo qual buscava sempre ser quem ela merecia: ainda não descobrira algo no mundo que lhe deixasse mais feliz do que fazê-la sorrir. respirou fundo, trazendo lentamente o rosto dela para perto mais uma vez, sem desconectar seus olhos até que seus lábios se encontrassem em um beijo que não tinha pressa alguma para terminar – Além do mais, estou com tanta saudade que se saíssemos eu provavelmente ia querer voltar logo. – murmurou, e desta vez precisou rir, lembrando-se de que a imprevisibilidade era só mais um dos motivos pelos quais era apaixonado por aquela garota.
— É melhor eu buscar seu presente, então, antes que você me distraia. – argumentou, abrindo um meio sorriso que fez o estômago de se revirar em expectativa. A menina franziu o cenho ao vê-lo sair do apartamento para ir até o carro, retornando alguns minutos depois com as mãos escondendo algo tão pequeno que ela foi capaz de ouvir seu presente antes mesmo de vê-lo. E o modo como seu rosto se acendeu na mais pura alegria, foi algo que jamais seria capaz de apagar de suas retinas.
! – ela exclamou, correndo até o rapaz e espiando dentro das mãos dele, que abrigavam um gatinho preto e tão pequeno que fez o coração de se encolher de amor. O animal ergueu para ela um par de olhos amarelos e curiosos, ronronando baixinho quando a garota o segurou, trazendo-o para perto do peito – Eu não acredito! – exclamou, sentindo os braços dele em torno dela, abrigando-a daquela forma que aquecia seu corpo inteirinho.
— Eu fico longe por muito tempo… – começou a explicar a lógica do presente, quase envergonhado, e não deixou que ele terminasse, abraçando-o de volta com cuidado para manter o gatinho entre eles.
— Eu te amo tanto. – ela destinou ao namorado um olhar carregado de encantamento, e ele não conteve o sorriso em seus lábios quando a abraçou, beijando seus cabelos.
— Eu sei. – sorriu, e não precisava dizer de volta pois havia amor em cada pedacinho de seu rosto enquanto admirava o sorriso de – Vem, vamos mostrar a casa pra ele.
Em poucos minutos, os jovens que já eram pais cuidadosos de uma coleção de livros e de uma pequena horta, precisavam aprender a cuidar de um filhotinho real. A sala de tinha brinquedos espalhados por todos os lados – providenciara um verdadeiro exagero de itens para gatos – e o pequeno corria de um ao outro com empolgação que colocava os dois humanos que o observavam com respirações ofegantes e sorrisos idênticos no rosto.
— Você precisa escolher um nome pra ele. – pontuou, sorrindo quando o filhote descobriu um novelo de lã, batendo nele de forma adorável.
— O que você acha? – mordeu a parte inteira das bochechas, apoiando os cotovelos no chão para ver melhor o gatinho – Eu gosto de Sirius.
Aish! – o rapaz revirou os olhos, rindo da obsessão da garota pelo personagem – Sirius é um cachorro!
— Essa é a graça! – protestou, cutucando suas costelas antes de começar a brincar com o gato, oferecendo o dedo para que ele tentasse alcançar – Você gosta de Sirius, bebê? – perguntou, fazendo o rapaz segurar um sorriso pela voz fina que usava – Gosta? – continuou, e dessa vez o gato a alcançou com uma mordidinha enfezada – Ai! Ok, Sirius não.
— Eu gosto de Gato. – deu de ombros, vendo a garota revirar os olhos teatralmente.
! Eu me recuso a fazer referência a Alice, sabe que eu detesto esse livro esquisito, fora o autor que é um louco. –protestou, vendo o namorado rir ao erguer os braços em rendição. Continuou pensativa por alguns instantes, partindo-se em um sorriso quando o gatinho andou até ela, parecendo mais carinhoso do que era de se esperar – O que acha de Salem?
— Deve ser o nome de 97% dos gatos pretos desse mundo todo. – o garoto revidou, rindo quando lhe mostrou a língua por não estar ajudando em nada – Que tal Santiago? –propôs, e assistiu com prazer ao modo como os olhos de brilharam em compreensão quando ela reconheceu o nome de um dos protagonistas de O Velho e o Mar.
— Santiago. – ela testou, e seu sorriso dizia que já estava feito – Você gosta, Santi? – e o filhote ronronou baixinho, fazendo com que os dois rissem – Ele gosta. – sorriu, satisfeita – Olha seu filho um pouco que agora eu vou buscar seu presente. – completou, sentindo seu estômago se apertar em expectativa, abrindo um sorriso ansioso diante das sobrancelhas franzidas de .
— A tradição não era eu te dar um presente? – ele questionou, mas a menina já partira em direção ao quarto.
— A tradição é idiota! – gritou, e uma risada escapou dos lábios de .
— Ela é legal, eu prometo… – sussurrou baixinho para Santiago, pegando um dos brinquedinhos para atrair o filhote para perto, distraindo-se o suficiente para só notar a presença de quando ela se sentou novamente ao seu lado, escondendo algo detrás do corpo.
— O que você aprontou? – ele estreitou os olhos, estranhando o fato de morder um sorriso, as bochechas se colorindo em um tom de rosa que ele dificilmente conseguia arrancar dela, mas que adorava.
— Não é um presente, presente. – ela começou a falar, atropelando um pouquinho as palavras, aumentando a curiosidade do rapaz – Não é nada demais, na verdade… É só uma coisa que eu já tinha feito há algum tempo, e… Aish, eu não sei nem porque estou fazendo isso…
. – se virou de frente para a garota para vê-la melhor, colocando Santi no chão – O que é? – perguntou, com um sorriso doce, e a menina cerrou os olhos, escondendo a vergonha detrás das próprias pálpebras quando lhe entregou um encadernado fino com uma única palavra na capa, quatro letras cujo significado ainda eram um mistério para Goya? O que é isso?
— Significa “a suspensão de descrença que ocorre em uma boa história”. – ela abriu um sorriso pequenininho, amando cada vez mais aquela palavra que descobrira em um feliz acaso – É como uma história que, de tão boa, parece real. – completou, e os lábios dele se partiram em um sorriso largo, apaixonando-se tão profundamente quanto ela pelo significado.
Demorou um segundo, mas pôde perceber perfeitamente o momento exato em que ele compreendeu o que tinha entre as mãos, e o que viu nos olhos de foi tão indescritível que ela gostaria de guardar eternamente aquele momento como seu favorito em toda a vida: a história deles, escrita por ela. Os dedos de foram rápidos em procurar confirmasse suas suspeitas, e a garota assistiu com o lábio inferior preso entre os dentes o momento em que ele chegou na segunda página, encontrando uma pequena dedicatória naquela caligrafia que conhecia tão bem, e que lhe arrancou um sorriso nostálgico e perdidamente apaixonado:
A , por ser o meu final feliz.

NOTA DA AUTORA:
Eu não sei nem explicar o quanto eu amo essa história. Acho que é, de tudo o que eu já escrevi, a história que carrega mais de mim, justamente por representar uma espécie de declaração de amor tanto a este pp, quanto a alguns dos livros que fizeram parte da construção de quem eu sou.
Espero, do fundo do coração, que tenha te arrancado um sorriso. Acho que é pra isso que essa história foi feita: pra trazer um quentinho ao coração.
Muito obrigada por ter chegado até aqui,
Com amor, Belle.
Livros citados:

O apanhador no campo de centeio, J. D. Salinger
O sol é para todos, Harper Lee
Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez
Saga Harry Potter, JK Rowling
O velho e o Mar, Ernest Hemingway
Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway
Moby Dick, Herman Mellville
Os vestígios do dia, Kazuo Ishiguro
O pequeno príncipe, Antoine de Saint-Exupéry
Ratos e Homens, John Steinbeck
Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll
Goya, Belle C. <3