On Repeat

On Repeat

  • Por: M. Angeli
  • Categoria: Kpop | Super Junior
  • Palavras: 10645
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Sinopse: Preso em um loop diário, onde todos os dias eram o mesmo dia, ele buscava uma forma de sair dali. Uma forma de fazer com que os dias finalmente parassem de se repetir.
Gênero: Drama, Romance
Classificação: 12 anos.
Restrição: Escrita com Siwon, mas pode ser lida com qualquer um.
Beta: Alex Russo

 

Capítulo Único

Com as mãos no bolso da calça, caminhava pelas ruas já tão conhecidas do bairro. O sol brilhava do céu, forte, e ele sabia dizer com precisão a temperatura que fazia naquele exato momento, mesmo sem buscar a informação em lugar nenhum.
Sem olhar para os lados ou vacilar, atravessou a rua com o farol aberto. As pessoas ao seu redor, que esperavam o semáforo fechar para os carros, o olharam com certo espanto, mas ele não precisava parar para conferir quem o havia xingado pela loucura, pois já sabia. Sabia, inclusive, o nome e sobrenome de todos os desconhecidos que estavam ali, independente de nunca ter trocado uma só palavra com eles.
Ou pelo menos, eles não se lembrariam de ter trocado se perguntassem.
A questão toda era aquela afinal. Aquelas pessoas também não se lembrariam daquilo no dia seguinte, se voltasse para atravessar aquela mesma rua naquele mesmo horário, as encontraria ali novamente, e seria como a primeira vez.
estava preso em um loop diário. Todos os dias eram o mesmo dia, e por isso conhecia todas as pessoas ali, por isso que ele sabia o momento que o farol abriria e também quais carros passariam por ali. conhecia a rotina de cada um dos habitantes daquele bairro, sabia até mesmo de seus segredos mais profundos, daqueles que nunca contaram para ninguém. Tinha descoberto tudo que poderia descobrir, visitado cada lugar, revistado cada casa, apenas buscando uma possibilidade de sair dali, uma pista, mas nunca conseguiu nada. Ele estava mesmo preso, e tentava viver seu dia da melhor forma para mascarar seus verdadeiros sentimentos sobre aquilo. Por fora, quem olhasse diria que ele estava conformado, mas estava apenas cansado, sem idéias e principalmente, rendido. Havia desistido, aceitado que não havia como sair, mesmo que todos os dias, assim que abria os olhos, se perguntasse que espécie de castigo estava pagando para ter que viver daquela forma, fadado àquilo.
Ele queria pelo menos entender o motivo, se é que existia algum. Talvez apenas estivesse louco, não deveria existir nada como aquilo, viver o mesmo dia repetidas vezes, mas todas as formas que havia pensado para provar que era mentira deram errado.
Se ele se machucava, doía. Se ele sangrava, podia sentir o sangue quente escorrer. Mas ainda assim, não importava o que fazia, no dia seguinte ainda estaria vivendo aquele mesmo dia e sim, ela já havia tentado de tudo.
sempre foi um homem religioso. Criado por uma família católica e pai rígido, sempre respeitou todos os costumes que a crença pregava. Com o tempo, aprendeu que alguns pensamentos mais fechados deveriam mudar para manter a mensagem principal, a que mais valorizava, de “amar o próximo”, e tentava espalhar esse amor sempre que possível, mas foi ali, vivendo aquela tortura todos os dias, que passou a questionar se havia mesmo feito tudo certo, se em algum momento, não havia errado.
Alguns dias depois, no entanto, passou a questionar também sua própria fé. Se era um teste, foi reprovado, e depois de perder aquela parte importante de si, tentar tirar sua própria vida não foi tão difícil.
Mas tudo que conseguiu foi acordar mais rápido, para um novo dia igual a todos os outros.
Suspirando, olhou para cima, para o céu. Ele gostava de admirar as nuvens, fazia com que ele se lembrasse de casa e lhe trazia certo conforto. Olhar para as nuvens fazia com que seu coração se aquecesse, com que ele se sentisse abraçado e sabia que havia um motivo específico para isso, embora alguma peça do quebra cabeça faltasse e ele não conseguisse juntar as peças para entender.
Era apenas mais uma das coisas que ele não podia compreender.
parou na esquina, e olhou para os lados. Não precisava daquilo para saber o que tinha em cada direção, mas o fez mesmo assim, perguntando-se que caminho seguiria hoje para, em vão, tentar mudar. Eram muitas possibilidades, na verdade. Era o mesmo dia, mas cada pessoa fazia uma coisa, seguia a sua rotina. Em cada lugar um acontecimento diferente que ele poderia presenciar, embora fosse se repetir no próximo dia porque, mesmo com sua interferência, tudo dava sempre no mesmo lugar e ele continuava ali.
― Panquecas, ou rosquinhas? ― perguntou para si mesmo, optado pela forma mais imatura de decidir o que fazer. Não havia solução, estava cansado de lutar, decidiu então ao menos escolher o que queria comer. Não teve tempo responder sua própria pergunta antes que algo, do outro lado da rua, chamasse a sua atenção.
Imediatamente, congelou onde estava, sentindo seu coração vacilar ao ver a mulher passava por ali. Ela andava tranquilamente entre as pessoas, sem esbarrar com ninguém apesar do fluxo intenso de pedestres na avenida. Outro ponto que ele não pôde deixar de notar foi o fato de ninguém, absolutamente ninguém, se virar para olhá-la, mesmo sendo tão linda ou estando com uma roupa tão antiquada para o centro da cidade em pleno inverno. A mulher usava um vestido branco, longo e leve. O tecido voava como se a brisa o tocasse, mesmo que não houvesse brisa nenhuma, ou qualquer espécie de vento. Podia se dizer que ela parecia muito com um anjo, e o pensamento caiu sobre como um estalo. Ser um anjo faria sentido quando ninguém a via, quando era tão perfeitamente linda e principalmente por nunca ter estado ali antes. E ele tinha certeza disso, de que nunca a tinha visto antes.
Imediatamente, se colocou a seguir naquela direção, na da mulher, mas ela apenas continuou andando sem notá-lo, desviando das pessoas com facilidade quase sobre-humana. Não conseguindo cogitar a possibilidade de perdê-la depois de finalmente encontrar qualquer coisa ou, no caso, alguém diferente, era insuportável e ele então decidiu chamá-la, mesmo que não soubesse seu nome.
― Senhorita?! ― falou ele, na esperança de que olhasse, mas ela não o fez, obrigando-o a apertar o passo. ― Por favor, um minuto! ― voltou a pedir, mas não conseguia desviar das pessoas como ela fazia e sentia-se ficando para trás. – ! ― ele gritou então, e parou de correr no mesmo segundo, ao notar que a chamava pelo nome. Um nome que ele nem imaginava de onde tirara, ou porque. nunca havia conhecido nenhuma , ele nunca havia visto aquela mulher, e sentiu-se confuso ao não ser capaz de entender nenhuma daquelas coisas, mas, a parte mais curiosa disso tudo, era o fato de que ela também havia parado. Ser chamada pelo nome de fato surtiu algum efeito e ela muito lentamente se virou, até estar finalmente de frente para ele.
A mulher lhe encarou diretamente nos olhos, e sentiu todo o ar fugir de seus pulmões. Ele nunca antes havia visto alguém tão bela, mas seu olhar ainda era o que mais chamava atenção, que literalmente prendia sua atenção. se viu focado neles, como se pudesse ver além das simples órbitas castanhas, e de fato havia algo mais ali, sentia que sim, mas era como se fosse apenas mais uma parte da brincadeira de mal gosto que era a repetição daquele dia. Ele sabia, do fundo de sua alma, que significava alguma coisa, mas ele era incapaz de entender, mesmo ciente de que precisava.
― Você consegue. ― ela falou sem nenhum som, apenas mexendo os lábios, e ele levou um susto ao entender. Por algum motivo não esperava que ela falasse, mas “o que” ela falou também era um ponto, especialmente quando parecia responder exatamente ao que ele pensava. ― Você pode juntar as peças. ― ela insistiu, falando da mesma forma, e ele agora sentiu a ansiedade tomar conta de seu corpo.
― Você… você sabe o que eu estou pensando? ― questionou, e sentiu seu coração se aquecer quando ela sorriu.
― Sempre soube. ― respondeu, de uma forma que obrigou a, novamente, buscar por ela em sua mente, qualquer memória que pudesse encontrar, mas nada veio a tona, nunca vinha. Nada de seu passado antes daquilo.
― Quem é você? ― perguntou, tentando buscar respostas diretamente dela já que sua memória não ajudava, mas ela apenas sorriu mais uma vez, agora com certa melancolia.
. ― disse apenas, mas bastou que desse mais um passo para frente para que fossem interrompidos.
Ele jamais saberia dizer o que era, mas uma sobra escura pairou sobre ela. Uma sombra que não tinha de lugar nenhum. Ela olhou ara cima, e acompanhou seu olhar, mas esse mero segundo foi o suficiente para que ele a perdesse. Quando olhou novamente para ela, não estava mais lá e a dor que sentiu por isso foi quase física. tentou mais uma vez seguir naquela direção, alcançar o lugar onde ela estava mesmo que em si não estivesse mais lá, mas foi então que notou que a dor quase física não era apenas “quase”. O passo que deu foi doloroso, como se fosse espetado por diversas agulhas gigantescas e surpreso por isso, gritou, não conseguindo controlar seus joelhos antes que vacilassem e o fizessem cair ajoelhado no chão.
― Mas o quê…? ― ele começou, confuso, mas então a mesma dor atingiu seu peito, lhe roubando todo o ar para em seguida ir para a cabeça, escurecendo sua visão. ― O que é isso…? ― tentou perguntar, mas a dor se intensificou, mais e mais gradativamente até que ele não fosse mais capaz de suportar. gritou outra vez, agora sentindo todo seu corpo ser tomado e, no instante seguinte, mais nada. Ele apenas perdeu a consciência e fechou de uma vez os olhos, revendo mentalmente a imagem da mulher antes de se deixar vencer.

+++

acordou no mesmo lugar onde sempre acordava, na cama de uma casa qualquer na rua vinte e dois. Se a casa tinha morador, ele não sabia, mas imaginava que sim. Independente do local onde aquela “realidade” se passava, bom, pelo menos durante aquele dia específico, no qual ele estava preso, eles não voltavam para a casa, mas era um quarto de casal, com roupas femininas e masculinas no cabide, todas devidamente passadas e organizadas no closet.
Ele já havia se cansado de buscar por pistas lá também, mas em sabe-se lá quanto tempo ele nunca havia encontrado nada. Sua melhor pista, desde que aquilo começara, havia sido a mulher de branco no cruzamento e pulando da cama, ele decidiu procurá-la novamente.
, quem era ? E por que o nome parecia familiar quando ele nunca o havia escutado ali? tinha a sensação de que ela falara como se ele fosse reconhecer o nome, como se devesse soar familiar, mas não soava e isso o enlouquecia ainda mais.
Apressado, saiu do quarto, deixando a porta aberta atrás de si, e desceu as escadas o mais rápido que pôde. Ele seguiu imediatamente até a porta, mas parou assim que passou pelo relógio digital na cozinha.
Quando saiu de casa aquela manhã, era 9h do dia 23 de outubro, mas agora ele marcava 8h do mesmo dia. E aquele relógio nunca errava ou quebrava. vivia sempre o mesmo dia afinal, logo, qualquer coisa que quebrasse durante um dia, voltava a ficar intacto no próximo. Ali, se algo estivesse fadado a quebrar, nada poderia ser feito para impedir e o mesmo valia para o contrário. Se algo estava fadado a dar certo, nada podia impedir que desse.
buscou em sua mente o que havia acontecido, e só então se lembrou da dor que sentiu quando a mulher de branco sumiu. Para acordar em um novo dia, a dor provavelmente o havia matado e agora ele se perguntava o motivo. Uma espécie de punição? Outra punição? Por ela ter aparecido? Quem era ela afinal? E com todas essas perguntas em mente, ele saiu porta a fora, apressando os passos a fim se seguir para o mesmo local onde a havia encontrado da primeira vez.
se lembrava exatamente onde estava e o que pensava quando a viu, mas nem mesmo repetir a frase que havia dito no momento surtiu efeito. Não que ele acreditasse, de verdade, que surtiria. Era bobo, dificilmente tinha relação com a aparição da mulher, mas ele era um homem totalmente desesperado.
― Você saiu de casa uma hora mais cedo. ― observou para si mesmo, ao relembrar de súbito daquele detalhe. ― Se os dias se repetem, ela só vai passar aqui no mesmo horário que passou ontem. ― voltou a falar, mas não tinha certeza de que daria certo, não estava confiante simplesmente porque não era a primeira vez dele ali. Ele já teria visto aquela mulher alguma vez se ela fosse dali, mas nunca tinha visto. Era outra coisa, ela fugia dos padrões do lugar, e justamente por isso estava tão empenhado. Ela era a única coisa que não havia se repetido durante todos os dias, mas o problema era que, se não repetia, ele também não sabia como encontrá-la novamente.
andou até o muro, e sentou-se sobre ele para esperar. Se ela era sua única esperança, ele esperaria, mas as horas se arrastaram e nada aconteceu. Nenhuma mulher de branco apareceu.
8h30m, nada.
9h, nada.
9h10m, tempo o suficiente para que ele chegasse ali saindo de casa às 9h, mas nada também.
levantou no muro, olhou para os dois lados, procurou, mas não viu nenhuma mulher de vestido branco.
9h20m, ele já sentia certa raiva da situação, raiva de si mesmo por se permitir ter esperança, raiva daquele lugar e raiva por não entender nada do que estava acontecendo. E nunca fez o estilo de pessoa que sentia raiva. Ele era calmo, companheiro. Uma companhia que tranquilizava as pessoas e não o contrário, mas ele não conseguia mais se manter daquela forma. Ele não aguentava mais a calma, pois tudo naquela cidade onde estava preso, era calmo.
chutou a lata de lixo na rua, e todos ao redor olharam para ele, mas não importava, nem ao menos se lembrariam dele amanhã. xingou, mesmo que isso jamais fosse do seu feitio e ele olhou no relógio novamente apenas para constatar que já passava das 9h30m.
Talvez fosse coisa da sua cabeça, talvez aquele mulher nunca existiu, mas foi então que viu novamente, o mesmo vestido branco, voando da mesma forma com a brisa. Estava longe, de costas, mas teve certeza que era ela e por isso correu, sem se importar com os carros.
quase foi atropelado duas vezes para atravessar a rua, e seria péssimo acordar novamente em um novo dia agora, mas ele não conseguiu pensar sobre isso enquanto se jogava no meio dos carros na esperança de encontrá-la. Ele precisava disso, precisava saber quem ela era e como estava passando ali em um horário diferente hoje.
Mas bastou ele se aproximar para ver que não era o mesmo vestido. Era branco também, mas não era igual o do dia anterior. O cabelo também não parecia igual, era mais longo, mas mesmo tendo reparado em tudo isso, ele ainda a chamou, gritou por seu nome porque, se ela conseguia passar em outro horário, talvez pudesse também trocar o vestido, ou porque talvez ele poderia ter imaginado um cabelo diferente, mas no fundo sabia a verdade, que não era ela.
A mulher não atendeu pelo nome, não atendeu por , e quando finalmente a alcançou, tocando seu ombro para fazê-la virar, sentiu seu coração se afundar na decepção de que não, não era mesmo ela.
― O senhor precisa de ajuda? ― a mulher perguntou. Seu nome era Catlin, e ela morreria mais tarde naquele mesmo dia, em um acidente de carro enquanto seguia para a casa de seu namorado, um rapaz britânico com descendência árabe. vivia sempre mesmo dia e ela a vivia sempre a mesma morte. Um destino terrível, mas pelo menos ela não se lembrava, diferente dele. Ninguém também chegava a saber sobre a morte dela para sofrer, pelo menos não descobriam até o dia acabar e voltar a ser o mesmo, onde ela vivia para morrer somente mais tarde.
Como se não a conhecesse, como se não soubesse sua história, sorriu, e a soltou, fingindo não estar sendo consumido por uma enorme decepção naquele mesmo instante. Como se não acabasse de ter tido todas as suas esperanças cruelmente esmagadas.
― Desculpa, eu te confundi com alguém. ― falou cordialmente, a cumprimentando com um aceno de cabeça antes de dar as costas, olhando uma última vez para os lados.
Podia ter imaginado tudo aquilo, ou apenas visto Catlin e imaginado outra história. Podia ser sua mente lhe pregando peças, podia ser seu desespero criando histórias ou, na pior das hipóteses, ela existia mesmo, mas ele nunca mais fosse capaz de encontrá-la ou entender aquela aparição, assim como não era capaz de entender absolutamente nada ali.

+++

Não seria a primeira vez que, abatido pelo desanimo, se deixava ficar na cama até o dia acabar e o próximo se iniciar. Ele estava preso ali, e não conseguia manter relações amigáveis com ninguém, mesmo se tentasse. Ele até podia conhecer as pessoas a fundo, ele podia escolher alguém para conversar todos os dias, mas essa pessoa não se lembraria dele no dia seguinte, seria como se nada tivesse acontecido, e ele não conseguia viver assim. Seria sempre um desconhecido para as pessoas, estava sempre fadado a solidão, então que ficasse ali, jogado na cama enquanto esperava mais um dia passar.
Nunca parou para pensar se ali, ele envelhecia, se pelo menos daquela forma, pela velhice, teria paz para morrer. Mas morrer de verdade, e nunca mais acordar porque seu corpo simplesmente não aguentaria. Não sabia se podia adoecer, visto que acordava no outro dia sempre que morria. Se ficasse doente, acordaria curado? Meses ali e ainda não sabia nada, mas apenas suspirou, obrigando-se a não pensar em nada pelo menos uma vez.
teve a impressão de ouvir uma risada, e mesmo sem abrir os olhos, franziu o cenho, tão confuso quanto poderia estar. Nada podia ser diferente ali e ele tinha certeza absoluta que nunca havia escutado aquela risada ao acordar.
― Eu sei que você já está acordado. ― ouviu, seguido por outra risada baixa, e abriu os olhos imediatamente, assustado, ao mesmo momento em que a mulher, dona da voz, apoiava o rosto sobre seu peito, entrelaçando uma de suas pernas com a dela para ficar de frente para ele e encará-lo. ― O que foi? ― perguntou, notando sua expressão de completo pânico, mas sem deixar o sorriso morrer passou uma das mãos pelos cabelos dele, organizando os fios que haviam se bagunçado enquanto dormiam.
Mas ele só conseguia pensar que reconhecia aquela mulher, reconhecia aquele rosto, reconhecia aquela voz.
… ― falou, ainda perplexo. Era a mulher do vestido branco.
― Está se sentindo bem? ― ela quis saber, agora parecendo ligeiramente preocupada, e saiu de cima dele para se sentar, encarando-o. ― Por que está me olhando assim? O que houve, ?
Ainda confuso, ele se sentou também, de frente para ela, mas ao invés de olhar para a mulher olhou ao redor. Ele ainda estava na mesma casa, no mesmo quarto. Tudo era igual. Cortinas, lençóis da cama, as toalhas penduradas na porta do banheiro… A única diferença, além da mulher ao seu lado, era a porta do banheiro e do closet aberto, com o vestido branco pendurado a vista. O mesmo do outro dia.
? ― a mulher entrou na sua frente, obrigando-o a encará-la, e tocou sua testa como se tentasse conferir se ele não estava febril. ― Fala comigo, o que está acontecendo? ― perguntou, mas sua cabeça estava em outro lugar. Sentia como se tudo estivesse em branco, como se sua mente fosse um espaço vazio, totalmente tomada pelo caos de ter coisas demais acontecendo, coisas demais que ele era incapaz de compreender. Era como se, com tantas informações, sua mente simplesmente desligasse em um curto circuito, recusando-se a trabalhar com tantos dados conflitantes ao mesmo tempo.
― Que dia é hoje? ― ele perguntou apenas, conseguindo focar em uma única coisa de cada vez. Sua cabeça parecia cansada, pesada, e ele duvidava que conseguiria compreender qualquer outra coisa, além da data, que ela pudesse falar.
Mas sem entender, ela apenas estreitou os olhos.
― Que pergunta é essa agora, ? ― questionou, mas ele ignorou sua fala. Seu cérebro não absorvia.
― Você não se lembra de ter me visto ontem, mas por que está aqui? ― perguntou ao invés disso. Ele não esperava encontrá-la de novo no mesmo lugar, mas ao seu lado na cama? Aquilo fazia ainda menos sentido do que o fato dos dias se repetirem. ― Como? Quem é você?
― Você está ensaiando falas do seu dorama de novo, não está? ― ela riu, como se não acreditasse que havia caído naquilo outra vez. ― Você realmente me assustou. ― disse ela, o estapeando de leve, mas voltou a estreitar os olhos quando ele não respondeu nada.
― Dorama? ― perguntou, tão confuso quanto ela. Na vida que costumava ter, onde os dias passavam normalmente, uma das ocupações de era aquela. Ele fazia muitas coisas na verdade, as pessoas se perguntavam as vezes como ele conseguia. Ser cantor exigia dedicação, ensaios, dias de gravação em estúdio, dias dedicados a composições e tempo para turnê. Como ator, precisava decorar falas, gravar cenas incontáveis vezes até que tudo ficasse bom e ele ainda era embaixador da UNICEF.
Mas aquilo tudo já fazia tanto tempo, que ele nem lembrava mais onde tinha parado. Sequer sabia dizer como ou quanto aquilo tinha começado, que dirá o que fazia antes de começar. lembrava de informações gerais sobre ele e sua vida, mas lembranças de fazer essas coisas eram confusas, como se tudo fugisse de sua mente quanto ele tentava pensar sobre elas.
Só que ela estava perguntando. Como se tudo estivesse normal mesmo que ele não lembrasse de nada, e sua expressão se suavizou com a possibilidade que lhe veio a mente.
Não era possível que da mesma forma repentina como tudo tinha começado, acabara. Era? Mas se fosse isso, como começou? Como acabou? Por qual motivo? Como poderia evitar que se repetisse?
― Que dia é hoje? ― insistiu em perguntar, para comprovar suas suspeitas. ― Me diz, que dia é hoje?
, eu estou confusa… ― ela começou dizendo, mas sem esperar por resposta dessa vez, ele levantou. Havia um notebook inútil sobre a mesa em frente a cama. Inútil porque o tinham esquecido ligado. Na tela de bloqueio, marcava dia e hora, mas não conseguia sair dali porque estava travado. Mesmo que ele tentasse digitar a senha, as letras não apareciam. E nem era como se ele soubesse qual era de qualquer forma. Se desligava, o equipamento não ligava novamente até o dia seguinte, quando ele acordava outra vez.
Mas pelo menos marcava dia e hora. Nunca antes pensou que isso iria ajudá-lo de alguma forma.
Apressado, ele levantou a tela do computador com o coração prestes a sair pela boca. Não sabia o que era maior, a ansiedade ou o medo.
Mas então, quando olhou para a tela, o choque maior. Dia 24 de outubro. Não era mais o mesmo dia.
Com uma das mãos na boca, deu um passo para trás e abalado com aquele novo acontecimento, literalmente caiu quando tentou dar mais um passo. Era como se a emoção não lhe permitisse mais sentir as pernas e comovido, ele se deixou cair. Sentia coisas demais, junto com a confusão. Passara meses preso sabe-se lá onde e saíra da mesma forma. Tinha medo de voltar para aquela realidade, mas ao mesmo tempo sentia um alivio tão absurdo invadir seu peito que tinha vontade de chorar, ou, talvez, de gritar.
! ― se levantou imediatamente, abaixando-se ao seu lado e, novamente, checando a temperatura, mas ele só tinha olhos para a tela do computador. ― O que está acontecendo? Você está me assustando! ― disse ela, em um tom claramente exaltado, mas ele não conseguia dar total atenção a isso. ― O que você está sentindo?
― É dia 24. ― ele respondeu apenas, sentindo uma lágrima escorrer de seus olhos tamanha a emoção. O dia havia passado. E a mulher ao seu lado provava que as coisas tinham sim mudado. O castigo havia terminado? Como? ― É dia 24. ― ele repetiu, virando-se para encará-la.
― Sim, . Que importância tem isso, pelo amor de Deus? ― perguntou, mas ao invés de respondê-la ele voltou a levantar, movendo o ponteiro do mouse pela tela do computador. Travado, o ponteiro nunca mexia, e soltou uma exclamação baixa em satisfação por notar que agora ele fazia isso.
― A senha, você sabe? ― perguntou, virando-se para ela mais uma vez, e a mulher apenas suspirou, jogando os braços para o alto como se desistisse de tentar entendê-lo.
― Vinte e sete de outubro, . Desse ano. ― ela respondeu. ― Você também sabe, você escolheu.
― Eu? ― ele perguntou, mas já se voltava para a tela, digitando os números que ela havia falado. ― É tudo numeral, certo? ― questionou, mas antes que ela tivesse oportunidade de responder, a tela desbloqueou. Não era surpresa que desbloquearia na verdade, visto que agora os pontinhos de senha apareciam, mas o plano de fundo sim o deixou em choque novamente. Eram os dois, ele e , abraçados enquanto ele segurava uma criança nos braços. Era uma menina vietnamita, seu nome era Binh e ela tinha três anos. Havia conhecido a menina, órfã, no trabalho que havia feito no país dela com a UNICEF assim que saiu do exército. Ele sabia de tudo aquilo, estava na sua memória, mas ele não se lembrava de nenhum dos acontecimentos daquele dia, ou daquela missão. Ele não se lembrava de ter brincado com a menina, não se lembrava de ter tirado a foto e, principalmente, não se lembrava de apesar dela, assim como ele, vestir uma camiseta da UNICEF na foto.
. ― o chamou, parando atrás dele e tocando seu ombro. ― Você realmente não lembra? ― ela perguntou, mas a preocupação em seu tom deixava claro que ela já sabia da resposta para a pergunta. Quase não soava como uma pergunta, na verdade. Estava mais para uma afirmação, mas ele negou mesmo assim. ― Dia vinte e sete, adiantamos nosso casamento para adotar a Binh.
Ele congelou onde estava imediatamente, sentindo todo o calor fugir do seu corpo. Casamento, adoção. Por que não lembrava de nada? Era parte do que quer que tivesse acontecido com ele? Ou ele só tinha enlouquecido? Será que era isso? Havia ficado louco?
― Eu lembro dela, e de ter estado lá. ― ele falou, sem tirar os olhos da tela. Seu tom de voz era vazio, como se tudo tivesse sido tirado dele e de fato, sentia-se assim com a falta de todas as suas lembranças. ― Eu… Eu lembro desse dia, mas não lembro do que aconteceu. Não lembro de interagir com ela, não lembro…
― De mim? ― o interrompeu. ― Você não se lembra de mim, lembra?
a encarou, sem responder, mas a resposta estava bem explícita em seu olhar. se afastou, e seguiu imediatamente para o closet sem dizer mais nada até se perder entre as peças.
― Eu sabia que deveríamos ter ido para o hospital ontem. ― ela falou enquanto ele esperava qualquer coisa que ela tivesse ido buscar lá, mesmo que não fossem muitas opções, visto que era um closet.
― Hospital, por quê? ― ele quis saber, mas ela voltou a falar como se ele não tivesse dito nada.
― Mas… Mas não deve ser sério, né? Você está se sentindo bem, então não pode ser permanente. Pode ser só uma perda de memória temporária, por causa da batida. ― ele continuou, ainda de dentro do closet, onde não conseguia vê-la.
― Batida, que batida? ― perguntou, sem tirar os olhos da porta por onde ela havia sumido.
― Se fosse sério você não estaria de pé, ou falando, você… ― ela saiu do closet então, com um vestido azul florido tão meigo que de alguma forma ele sabia que não combinava com ela. Era mais uma daquelas sensações que ele tinha sem saber explicar, de uma parte da memória que ele não conseguia acessar. ― Você se sente bem, não é? Não está mentindo para não me assustar, está?
― Eu me sinto… confuso.
― Ótimo. ― ela disse, juntando os cabelos em um rabo de cavalo no topo da cabeça antes de dar as costas para ele, a fim de se checar rapidamente no espelho.
― Ótimo? ― perguntou em um riso totalmente nervoso. Definitivamente não tinha nada de ótimo naquilo, mas ela ignorou sua fala, apenas entrando mais uma vez no closet e voltando dali com uma camisa para ele. jogou a peça sobre ele, e abriu a primeira gaveta da mesa onde estava o computador. já havia vasculhado aquela gaveta, mas nunca encontrou nada útil ali. Agora, quando abriu, tirou de lá uma carteira masculina, a dele, e pegou sobre a mesa as chaves do carro que nunca antes estiveram ali. ― O que você está fazendo? ― perguntou, mas ela já seguia para sua bolsa sobre a cadeira. Uma outra mudança sutil na qual não havia se apegado quando abriu os olhos pela primeira vez naquela manhã. Agora, olhando ao redor novamente, percebeu outras pequenas mudanças. Chinelos aos pés da cama, um celular na mesinha ao lado. A porta do banheiro, sempre fechada, estava aberta e ele podia ver uma jaqueta jogada sobre um cesto de roupas suja que agora, estava cheio, mas todos os dias estava vazio. ― As coisas… Estão diferentes. Por que estão diferentes?
― Nada está diferente, . ― ela respondeu, parando de frente para ele. ― Você está mesmo falando sério? Não é uma brincadeira? Se for eu juro que vou te matar. ― e mais uma vez sendo tomado pelo reconhecimento inexplicável, ele não duvidou disso, como se aquela ameaça combinasse mais com ela do que o vestido florido e fofo. ― Nós estamos indo para o hospital, agora. ― o segurou pela mão, e mesmo que ele ainda não tivesse vestido a camisa, o arrastou para fora do quarto, mas não antes que ele tivesse um último vislumbre do vestido branco na porta aberta do closet.
Não era um vestido, era uma espécie de camisola. Nupcial, e ele arregalou os olhos ao se dar conta, porque agora fazia sentido, depois que ela falou sobre casamento. O deles, que estava marcado.
― A camisola, ela… ― começou, enquanto era arrastado escada abaixo, e ela parou no mesmo instante, fazendo com que ele se chocasse contra ela.
― Lembra da camisola? ― perguntou, e ele mordeu o lábio inferior como se estivesse se sentindo culpado por ter que negar.
― Eu… deveria? ― perguntou, e ela bufou, voltando a andar.
― Estragou minha surpresa bisbilhotando e ainda não se lembra. Eu juro que vou meter a mão em você quando sua memória voltar.
― Estraguei…? ― perguntou, mas então, ele lembrou. Não de sua vida, ou de conhecê-la, lembrou do segundo dia 23 que viveu, o dia que vasculhou toda a casa em busca de pistas e encontrou aquela mesma peça em uma caixa, escondida. Quem parou dessa vez onde estava, foi ele, e ela fez o mesmo, preocupada apesar das ameaças.
Aquela casa, onde ele acordava todos os dias, era a casa onde vivia com ela. Estava tudo organizado, sem pertences que os identificavam porque eles não estavam. “Batida”. “Deveríamos ter ido para o hospital”. Haviam sofrido um acidente de carro e desde então os dias se repetiam. Algo deveria ter acontecido com ele.
Estava… Morto?
deu um passo para trás, sentindo seu coração disparar novamente. Não, ele não podia ter morrido, aquilo não era a morte. O que ele tinha feito de tão terrível na vida para merecer aquela angustia de viver preso no mesmo dia, isolado?
― Mas se eu tivesse morrido, isso não estaria acontecendo, esse dia. ― falou consigo mesmo, e cuidadosamente, como se tivesse medo que ele fugisse, deu um passo para frente, em sua direção.
, por Deus. Do que é que você está falando agora?
― O que aconteceu, o que mudou? Por que o dia simplesmente mudou? Eu não entendo… ― questionou mais uma vez, para si e não para ela, e então lhe ocorreu que talvez, pudesse ser um sonho. E se fosse delírio após bater a cabeça? Um pesadelo?
E então algo pior veio a sua mente. Algo muito pior.
E se isso fosse um sonho? E se o dia 24 que não existisse?
Sua mente entendeu o recado, e desapareceu de um segundo para o outro. estava de volta para a cama, e seu coração se afundou na mais completa tristeza ao notar. Sem que pudesse controlar, e sem tentar, sentiu as lágrimas escorrerem, mesmo de olhos fechados, e chorando copiosamente, se deixou consumir pelas lágrimas, ainda deitado. Quando o choro ficou muito alto, e a dor muito forte, se sentou, e olhou ao redor. não estava ali, não havia chave de carro, bolsa ou celular. A porta do banheiro e do closet, estava fechada e ele sabia que não teria nada na primeira gaveta. Ele levantou, mesmo contra a sua vontade, mesmo com toda a angustia em seu peito, e foi até o computador, abrindo a tela apenas para chorar mais ao comprovar o que já sabia, era dia 23 e, seguindo então para o closet, foi direto até o lugar onde lembrava de ter encontrado a camisola de .
Era uma sacola sem marca escondida entre roupas no fundo do closet, e pegando a peça em mãos, se deixou cair no chão, chorando abraçado a ela.
Ele havia morrido. Dias antes do seu casamento, havia morrido.
Ele estava morto.

+++

Há três dias, a única rotina de era acordar na cama, levantar e seguir até o closet, onde retirava a camisola da sacola e se encolhia agarrado a ela, em um canto qualquer no chão. As vezes, chorava, mas se mantinha ali até adormecer pelo cansaço, apenas para acordar no dia seguinte e fazer o mesmo.
Não que fizesse muita diferença afinal, todos os dias eram o mesmo, então ficar ali, de qualquer forma, não interferia em muita coisa.
Durante os meses que ficara ali, por diversas vezes se perguntou se a vida estava continuando sem ele. Podia não lembrar muito bem de outras pessoas além do seu grupo, mas sabia que tinha. Outros amigos, família… Ele não sabia o que estava acontecendo, então podia ser sua mente presa em algum lugar. Talvez o tempo parecesse passar apenas para ele. tinha esperança disso, de não ter perdido meses de sua vida, mas agora que sabia a verdade, que estava morto, sabia também que a vida das outras pessoas tinha continuado e se perguntava como. nunca foi egoísta. Se a sua hora havia chegado, tudo o que podia e tudo o que desejava era que seguissem sim com suas vidas. Se existisse alguma forma de fazer com que as pessoas que ele amava não sofressem por isso, ele faria, mas se perguntava sobre tudo o que tinha deixado inacabado para trás, interrompido.
Se nunca se casou com , ela nunca pôde adotar Binh e se não o fez, a menina ainda estava sozinha no Vietnã, sem um lar. Pior ainda, era novamente uma órfã depois de terem dado a ela esperança de não ser mais, de ter um lar, uma família, um pai e uma mãe que a amariam incondicionalmente. E tinha perdido os dois, ele e a filha, antes mesmo de ser sua filha.
E a sua agenda, compromissos? Não que isso se comparasse com e Binh, mas organizar tudo sem ele traria um trabalho gigantesco para pessoas demais. Isso porque ele ainda evitava pensar no grupo. , Binh, agenda, equipe… Ele sabia que existiam, mas não se lembrava muito bem disso, diferente do grupo. Ele se lembrava do grupo, e doía ainda mais de tê-los deixado para trás. Doía porque ele sabia o quão devastado cada um deles ficaria.
Já com as lágrimas de volta aos olhos ao pensar em tudo aquilo, , mais uma vez, se levantou da cama. Mais um dia para se agarrar ao vestido. Mais um dia para sentar e esperar que o sono lhe derrubasse para ter algumas horas de tranquilidade.
Ele caminhou até o closet, e seguiu até o local onde estava a sacola com a camisola nupcial. Ele a puxou pela alça, mas a sacola dessa vez caiu, e ele suspirou quando tudo foi ao chão, como se aquele fosse apenas mais um fracasso em sua vida. então se deixou cair ali, sentado, para apenas puxar a peça para si, mas assim que o fez, um pequeno pedaço de papel voou, um que ele nunca havia visto antes. Mesmo que sempre estivesse estado ali, ele apenas pegava a camisola, nunca pensou em olhar dentro da sacola.
se esticou para pegar o papel, e reconheceu sua própria caligrafia ali:


“Desculpe, amor. Queria estar em casa para te receber, dois dias é muito tempo, mas precisei sair cedo demais.
Fiz reserva para dois às 20h no Leveshi, espero que compense. Te pego no escritório para irmos, não devo voltar para a casa antes disso.
Ah, e me lembre de contar o motivo, você vai adorar saber o que o está aprontando junto com o .

P.S: Pare de reclamar do bilhete. Eu sei que podia ter avisado por mensagem de texto, mas não teria a mesma graça. Bilhetes escritos a mão são mais românticos.
E eu sei que está sorrindo agora, apesar de reclamar que é cafona. ”

sorriu de forma melancólica para o papel em suas mãos. Suas suspeitas estavam certas sobre afinal. E já gostava de tudo que havia conseguido descobrir sobre ela. Mesmo sem se lembrar da mulher, entendia porque havia escolhido ela para amar, e mais uma vez lamentou o fato de não ter lembranças sobre isso, qualquer lembrança.
Ele voltou a dobrar o bilhete, mas não se preocupou em guardá-lo novamente. Amanhã ele de qualquer forma apareceria no mesmo lugar, então estava tudo bem porque jamais o perderia.
Mas foi então que algo importante lhe ocorreu, e ele parou pensativo encarando o nada. Aquele restaurante ficava há meia hora dali, era um local que ele tinha acesso. Era só chegar lá no horário certo e a veria novamente. E talvez até uma outra versão de si mesmo, quem sabe. Seria uma pista incrível se ele ainda acreditasse que pistas o tirariam dali, mas ainda não existia uma forma de ressuscitar os mortos.
limpou mais uma lágrima de seus olhos, mas ao contrário do que havia pensado até então, levantou-se de onde estava. Ele estava preso ali, não tinha o que fazer, nenhum plano, nenhuma forma de escape. Podia ir vê-los e voltar para sofrer tudo de novo amanhã. Podia tentar conhecer mais de , ter mais lembranças para lhe fazer companhia. não sabia muito bem, na verdade, o que o motivou ao desejo de levantar para ir até o restaurante, mas mesmo sendo cedo demais, ele foi. Tempo não era um problema de qualquer forma e ele podia esperar.

+++

Já se passava das 20h quando decidiu que estava certo, eles nunca chegariam. Eles nunca chegaram. O acidente ocorreu antes do restaurante. Saber naquilo não mudava sua condição, ele ainda estava morto e preso ali, mas ainda era triste saber disso, entender o que havia acontecido e saber que não tinha mais volta.
Esperava que ao menos tivesse ligado para ela durante o dia, dito que a amava ao invés de deixar apenas o bilhete. não lembrava das coisas, dos momentos juntos, mas de alguma forma sentia que a amava, que aquilo era real.
Cansado de esperar por um casal que não viria, ele olhou mais uma vez para o bilhete em suas mãos, havia levado consigo sem nenhum motivo aparente. Pensou em procurar o local do acidente, mesmo sem ter ideia do que esperava encontrar lá, e arregalou os olhos ao se dar conta de que, na verdade, ele já sabia onde havia acontecido. Sempre soube.
Catlin, o acidente que matara a garota.
correu de volta para o carro, e deu partida imediatamente, dirigindo até o cruzamento onde a menina havia morrido. Era um dos mais perigosos da cidade, precisava de atenção redobrada, e ela não havia tido. já tinha estado lá, viu quando Catlin ultrapassou o farol vermelho e capotou o carro, não antes de bater em outros dois e prejudicar um terceiro. Catlin causou o acidente, e conhecendo a família dela descobriu que fazia uso de medicamentos controlados que a deixavam sonolenta demais. Ele nunca foi atrás das outras vítimas, pois nunca descobriu quem eram e tampouco achou relevante na época, mas de uma coisa ele sabia, um detalhe importante.
Ninguém além dela havia morrido naquele dia.
Acelerando o carro, ele rumou até o local onde tudo tinha acontecido, mas quando chegou, tomou uma atitude diferente do que a que planejava. não parou o carro ali, já tinha visto tudo da vez anterior e sabia também que aquela hora, as vítimas não estavam mais lá. Nenhuma outra pessoa além de Catlin que ficou presa entre as ferragens, necessitado de mais tempo para o resgate. As outras vítimas, vivas, tinham sido levadas para o hospital mais próximo e , apenas se deixando ter um vislumbre do local do acidente, do sangue na pista e carros amassados, seguiu direto para lá, sentindo novamente a esperança crescer em seu peito mesmo que não soubesse dizer muito bem o motivo, explicar como ou o que esperava encontrar no hospital.
A desculpa mais plausível para o que estava vivendo era a morte. E não era porque ele não tinha morrido no local do acidente que não poderia morrer no hospital, passando por uma cirurgia, por exemplo.
Mas ele não podia controlar seu coração, e, no momento, era aquilo que ele sentia. Sentia demais, e acabou estacionando o carro de qualquer jeito por isso, saído dele antes mesmo de parar totalmente o que ainda o fez bater de leve em um outro estacionado a frente. Algumas pessoas, obviamente, o xingaram, mas que importância tinha? Amanhã ambos os carros estariam intactos então mesmo , não se preocupou com isso. Ele correu para dentro do hospital e eufórico, seguiu direto para a recepção.
. ― perguntou por si mesmo, já que não tinha o nome completo de . ― Ele deu entrada hoje, está vivo? Como está, onde o encontro? ― disparou as perguntas para a mulher, que levantou-se da cadeira para tentar acalmá-lo.
― Senhor… Preciso pedir que se acalme…
― Eu vou me acalmar quando me passar a informação. ― pediu novamente, mal podendo conter a si mesmo. não agia assim com as pessoas. Ele costumava ser excessivamente educado, calmo e gentil, mas estava passando por coisas demais para conseguir se lembrar da educação.
Desistindo de tentar lidar com ele, a mulher voltou a se sentar, suspirando ao digitar o nome informado. Não levou nem um minuto, e ela voltou a falar.
― Ahn, … Ele está no quarto noventa e três, no segundo andar.
― Ele está vivo?! ― perguntou em um tom exageradamente alto, culpa da surpresa. Esperava uma informação diferente, esperava estar morto, mas a mulher, por sorte, interpretou isso apenas como preocupação.
― Ele está no quarto, então sim. ― respondeu, o encarando com certa pena.
― E ele está bem? Tem risco de morrer?!
― Senhor, eu não sou médica, você precisa perguntar a ele. ― disse a mulher, com toda a educação que não estava tendo com ela, e fez com que ele se sentisse até mesmo um pouco culpado, mesmo que não fosse o momento para isso.
― Certo. ― atendendo a instrução da mulher, deu as costas e correu em direção ao elevador, mas não antes que ela gritasse com ele pela atitude.
― Senhor, não pode ir assim! Preciso do seu nome, cadastrar sua ficha! – gritou, mas ele não parou até estar dentro do elevador que, por sorte, já estava parado naquele andar. ― Seguranças! ― ainda teve tempo de ouvi-la gritar, mas o elevador se fechou rapidamente, seguindo para o próximo andar.
Assim que o elevador parou, desceu apressado, e correu pelo corredor do lado indicado na placa que havia ali, bem na porta. O quarto que procurava ficava do lado esquerdo e ele correu para lá sem olhar para trás. Se a mulher havia mesmo chamado os seguranças, podia dizer onde encontrá-lo, em que quarto, então ele precisava chegar antes.
Quarto oitenta e nove;
Noventa;
Noventa e um, dois.
sentia seu estomago se embrulhar um pouco mais a cada quarto que passava. Assim que chegou na porta do noventa e três, foi capaz de ouvir um choro baixinho vindo lá de dentro, pela porta fechada, e respirou fundo, colocando a mão sobre a maçaneta pronto para abri-la. Antes que pudesse girá-la, no entanto, ele parou no lugar. Era o quarto onde ele deveria estar, internado. O que aconteceria se ele entrasse ali e além do sobre a cama, tivesse outro também de pé? As pessoas ali, naquela realidade ou o que quer que fosse aquele lugar, o viam e falavam com ele. também o veria.
Mas e se fosse essa a questão? E se aquele fosse o evento para acabar com tudo, com aquela repetição? E o que aconteceria se acabasse? Se ele estava morto e aquilo era o seu inferno então o que significava acabar?
― E se não for o final ainda? ― perguntou a si mesmo, no instante em que aquilo lhe ocorreu. E se ele estivesse apenas perdido, preso ali por ela? E se ela fosse a chave? E se ele precisasse daquilo, se despedir?
ouviu os seguranças se aproximarem, pelas escadas, mas não teve pressa ao girar a maçaneta e abrir a porta. Ele entrou no quarto, e viu ali, sentada ao lado da cama, segurando uma das mãos dele enquanto chorava baixinho, com a outra mão na boca.
― Por favor, volta. ― pediu, com a voz embargada pelas lágrimas, e olhou para os aparelhos ao redor. Mesmo que não fosse formado em medicina, podia dizer com tranquilidade que aqueles sons significavam que ainda estava vivo. ― Estão considerando te deixar ir, . Eu não posso te deixar ir, eu preciso que você volte. ― insistiu, caindo mais uma vez em lágrimas que a impediram de continuar falando. ― , por favor. Volta, ainda dá tempo. Ainda podemos adotar Binh, voltar de onde paramos, por favor. Já fazem três meses… ― sussurrou, e aquelas últimas palavras refletiram em sua mente, se repetiram.
prendeu a respiração, e então se permitiu analisar melhor o ambiente ao seu redor. Apesar de terem sofrido um acidente de carro, nenhum dos dois possuíam qualquer marca ou sequela do acidente, nenhuma cicatriz, curativo, absolutamente nada, nem mesmo . Mas seu cabelo estava mais cumprido do que costumava deixar, assim como a barba.
Três meses, não tinha como ele estar daquela forma por três meses se o acidente tinha acontecido naquela mesma noite, há no máximo uma hora atrás.
ouviu os seguranças, e se virou para a porta que havia deixado aberta. Um deles olhou para dentro, olhou de um lado para o outro, e só então se virou, notando a presença de alguém ali. pulou no lugar, preparando-se para o que viria a seguir. Ela ficaria assustada, confusa? Já nem ao menos conseguia entender a realidade onde estava para dizer que independente do que acontecesse, amanhã seria como se nada tivesse acontecido. Mas apesar de olhar em sua direção, ela não o viu, ela enxergou através dele como se nem estivesse ali e olhou diretamente para o segurança.
― O… o que houve? ― ela perguntou, secando as lágrimas, e o homem fez uma pequena reverência para se desculpar.
― Uma enfermeira nos informou que um estranho estava vindo para cá. Ele não quis se apresentar na portaria.
― Não tem ninguém aqui. ― ela respondeu enquanto , perplexo, permanecia no mesmo lugar, totalmente imóvel.
Eles não o viam, porque não o viam? E se não o viam, como a mulher na recepção havia visto para avisar que ele estava subindo? passou uma das mãos pelos cabelos, frustrado e desesperado. O que tinha mudado? O que estava acontecendo? Se ele estava em coma, como acordava? Como voltava para ? Se não morresse e nem acordasse, ficaria ali para sempre?
― Jozi, eu estou aqui. ― ele falou, parando a sua frente. Sua angustia era tão grande que ele sentia sua garganta fechar. ―
― Tudo bem, senhora. Desculpe incomodá-la. ― o homem pediu, e ela concordou, olhando-o pelas costas enquanto deixava o quarto.
! ― falou mais alto, ouvindo o som da porta se fechar, mas não se importou com esse detalhe. Ele precisava fazer com que ela o escutasse, que soubesse que estava ali, e que sentia muito. Sentia por estar torturando a ela daquela forma e sentia por não saber como acordar. Sentia pelo acidente, sentia por não se lembrar dela mesmo que os sentimentos fossem tão fortes dentro do seu peito. Ele queria voltar, mais do que tudo. Queria estar novamente com as pessoas que amava e então, em um súbito, a segurou pelos ombros, gritando seu nome em uma tentativa de fazê-la escutá-lo.
Dessa vez, a mulher pulou onde estava, e arregalando os olhos, se voltou para a cama onde ele estava imediatamente.
? ― perguntou, ela tinha escutado sua voz e voltou rapidamente para seu lado, as lágrimas que a pouco havia limpado, voltando para o lugar de origem, seus olhos e sentindo a mesma emoção por ter sido ouvido, deixou que as suas caíssem também. ― , disse… Disse algo? ―perguntou, olhando para as máquinas como se esperasse ver qualquer coisa ali.
― Você ouviu, eu estou aqui. ― ele insistiu, agora mais esperançoso. se abaixou ao lado dela e segurou seu joelho, apertando-o fraco, mas o toque não teve mais o mesmo efeito de antes, mesmo quando ele suplicou por sua atenção. ― , por favor.
― Fala comigo, . ― ela pediu, para o corpo deitado ali. ― Eu sei que ouvi, por favor. ― insistiu, olhando para o botão de chamada como se pensasse se deveria ou não notificar o médico. Como se pensasse se deveria acreditar ou se era apenas ilusão de sua mente, dando a ela o que mais queria.
― Eu estou aqui! ― ele exclamou, totalmente desesperado ao notar que ela já estava incerta. ― ! ― em um novo grito, a envolveu em um abraço, segurando seu corpo contra o dele e nesse instante foi como se uma luz se acendesse por todo o local. A sala ficou completamente branca, e a claridade cegou sua visão. ainda sentia em seus braços, sentia as lágrimas dela contra sua camisa, e sentiu, principalmente, os braços dela ao seu redor também, devolvendo o abraço. sentiu o ar fugir de seus pulmões, primeiro pela emoção de saber que ela podia senti-lo, tocá-lo, de que agora ela sabia que ele estava ali, mas em seguida notou que a falta de ar era porque tinha algo em sua garganta, literalmente descendo por ela. engasgou, e soltou para tossir. Estava se afogando, e levou uma das mãos até o pescoço. Ouviu gritos, de , mas não foi capaz de identificar o que diziam. A claridade ainda o impedia de ver, mesmo de olhos abertos. sentiu seus braços serem imobilizados, e em seguida, o que quer que estivesse em sua garganta simplesmente não estava mais lá. Ele puxou o ar, e pôde senti-lo. Seus sentidos, gradativamente, foram voltando e ele pôde ouvir chorar, agora mais forte, mais alto, entre soluços.
apertou os olhos fechados, e só então notou que estava deitado. Era uma cama, com colchão macio. Um lençol fino o cobria e tentando abrir os olhos mais uma vez, ele agora pôde enxergar.
estava a sua frente, um médico estava a sua esquerda e ele estava deitado sobre a cama de hospital. O médico sorriu para ele, de forma bondosa, e apertou de leve seu ombro, como se estivesse emocionado.
― Bem vindo de volta. ― disse ele enquanto chorava, e , sem entender o motivo da fala, franziu o cenho.
― De volta? ― perguntou, mas voltou-se para em seguida. ― ? ― ele a chamou, e a mulher, sem parar de chorar ou ao menos tentar parar, foi até ele, inclinando-se sobre a cama para abraçá-lo e ele, sem se opor, abraçou de volta, mesmo que ainda não fosse capaz de entender o que estava se passando.
Lembrava de ter sofrido um acidente de carro. Estava com , cantavam uma música estrangeira que tocava no som do carro. Ambos riam, mas apesar de manter os olhos na estrada, atento, só teve tempo de ver o outro carro sobrevoar o seu. Teria caído sobre eles, esmagando-os, então precisou desviar e bateu contra um poste. Não se lembrava de mais nada depois disso. Não se lembrava do resgate, não se lembrava de checar no banco ao lado porque simplesmente perdeu a consciência na hora, acordando então, ali.
recuperara todas as lembranças do passado, mas perdera a dos inúmeros dias repetidos que viveu enquanto não acordava. Ele afagou os cabelos de , chorando em seus braços, mas pulou de susto quando os fogos de artifício soaram do lado de fora, explodindo e iluminando o quarto onde estavam.
― “Feliz ano novo!” ― pôde ouvir do lado de fora do quarto, e assustado olhou para o médico. Lembrava o dia em que o acidente havia ocorrido. Lembrava devido a todos os preparativos para seu casamento.
― O que… Houve? Ano… Novo? ― verbalizou, não conseguindo reconhecer direito sua própria voz. Sua garganta arranhava, doía, provavelmente pelo fato de estar entubado.
. ― o chamou, levantando-se para pegar sua mão, e ele se voltou para ela, olhando em seus olhos molhados por tantas lágrimas. ― Você esteve em coma por três meses. ― explicou, visto que não tinha mais como esconder a informação depois dos fogos de artifício. Ele prendeu a respiração, e ela apertou sua mão com mais força antes de voltar a falar. ― Você voltou, no ano novo. ― ela sorriu, tentando tranquilizá-lo. ― Você voltou, está tudo bem, você voltou. É só isso que importa.
voltou a chorar, mas suas palavras ainda refletiam em sua mente. “Você voltou”. Ele não sabia dizer o motivo para a paz que elas trouxeram, o alívio gigantesco, quase como um sinal de liberdade, como se estivesse preso por meses e talvez, estivesse, dentro de sua própria cabeça. Não sabia dizer de onde vinha aquela sensação, mas apenar de ter perdido três longos meses de alguma forma ele simplesmente sentiu que sim, estava tudo bem. Ele sentiu da mesma forma como sentia as coisas que não podia explicar do outro lado, durante o coma. Provavelmente, nunca fosse ser capaz de lembrar o que aconteceu, ou o motivo, mas ele sabia que sim, estava tudo bem e no momento, aquilo bastou.
abriu os braços, e se aninhou entre eles mais uma vez.
Ele estava de volta, agora de verdade, e no início de um novo ano. Aquilo era um sinal, um bom sinal e simplesmente aceitou que tudo daria certo agora. Que estariam juntos e que poderiam continuar de onde haviam parado.

FIM

 

Nota da Autora:
Essa fic saiu como um presente de amigo secreto para Joziane Barbosa e corri para postar porque, bom, amei. Espero que tenham gostado também.
Vou deixar aqui meu grupo de leitoras e meu twitter caso queiram encontrar as outras fanfics que eu já escrevi. E não esqueçam de comentar, pls.

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