One’s Place

Sinopse: “Quando você passa muito tempo longe de casa, das coisas que são comuns, corriqueiras, das mais banais que preenchem uma rotina, você começa a procurar um pedacinho de lar em muitos lugares, até começar a procurá-los em algumas pessoas.”
Você pode percorrer o mundo e amar cada aventura vivida por onde quer que passe, mas nada jamais poderá ser comparado ao sentimento de estar em casa, na segurança do lar que pode chamar de seu e da certeza tranquilizante de que você tem um caminho de volta. Encontrar o seu lugar em um outro alguém, em quem se ama, é a certeza de que você terá seu refúgio no alcance de um abraço.
Gênero: Romance.
Classificação: Livre.
Restrição: Kang Daniel é o protagonista fixo.
Beta: Alex Russo.

Capítulos:

Epígrafe

“Quando entro em algum canto e sinto um cheiro forte, esta fica sendo a minha impressão. E muito embora isso seja raro, às vezes acontece de eu sentir, sem motivo algum, o odor daquele ambiente mesmo estando em outro lugar, o que sempre me vem de supetão. Foi o que se passou ali. Quando Minie abriu a porta e veio aquele perfume adocicado, lembrei das primeiras vezes em que estivemos juntos. O fato é que, pensando naquilo, sorri e não disse mais nada. Fiquei parado.”

O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos

01

“널 처음 봤던 순간
(Desde a primeira vez que te vi)
겁이 많은 나는 너에게
(Quis me apoiar em você)
기대고 싶었어
(Eu estava assustado)
이제 와 돌이켜 보면 우린
(Mas agora, olhando para trás)
결코 우연은 아니었어
(Percebo que nunca fomos coincidência)”

Por Daniel:
Ahjumma¹ Jung acenou para mim de dentro da doceria quando alcancei a calçada do pequeno prédio de dez andares na fronteira do centro comercial de Busan com sua área predominantemente residencial. Seus cabelos curtinhos balançaram conforme sua cabeça se agitava no momento em que a senhora de meia idade se ocupava em levantar os punhos e balançá-los igualmente, em um gesto adorável de apoio. Fighting!² Pude ler em seus lábios finos. Meu sorriso, que se esforçava para ser educado e não envergonhado, foi dado a ela enquanto repeti seu gesto animadamente, me curvando em agradecimento logo depois, antes de me dirigir até a porta lateral que me levaria aos elevadores.
O alívio que percorreu as partes descobertas de minha pele quando pude me abrigar do frio que fazia do lado de fora me permitiu retirar as luvas enquanto esperava que as portas de aço se abrissem para mim. Estávamos a poucos dias do início do Seollal³ e no quadro de avisos do pátio de entrada havia um pequeno cartaz colorido que perguntava: o que você deseja para o seu lar nesse novo ano? A indagação vinha ligada a vários balões que instruíam políticas de bom convívio no prédio, mas a frase interrogativa me deixou um tanto reflexivo quando adentrei o elevador e apertei o número cinco.
Era a primeira vez que voltava a Busan depois do fim do contrato com o grupo e o último mês havia sido de uma carga emocional tão avassaladora que tinha se tornado praticamente impossível até para mim – alguém habituado a engarrafar sentimentos que pudessem me tornar vulneráveis – a missão de permanecer minimamente estável. Era esse o motivo de até um simples cartaz de condomínio ser capaz de me deixar pensativo e se desdobrar em minha mente em inúmeras formas, concluí, rindo sozinho ao chegar em seu andar.
Nada que estar de volta não pudesse curar, porém. Por que nada era como estar em casa e essa sentença tão comumente repetida tinha ganhado dimensões novas e inesperadas para mim desde o último ano. Para alguém que havia tido o privilégio de estar em tantos novos e diferentes lugares, o lar havia se tornado mais do que um refúgio ou lugar de privacidade, aconchego e pertencimento. Estar em casa era agora como voltar no tempo, como revisitar minhas próprias ações e me reencontrar. Era como um lembrete de quem sempre fui para quem eu era no momento. Lar era como terapia.
Foi encarando o tapetinho de crochê em sua porta assim que cheguei ao seu corredor que meu coração pareceu me lembrar um importante significado de estar em casa que havia sido adicionado ao meu vocabulário. Quando você passa muito tempo longe de casa, das coisas que são comuns, corriqueiras, das mais banais que preenchem uma rotina, você começa a procurar um pedacinho de lar em muitos lugares, até começar a procurá-los em algumas pessoas. Eu tinha um fragmento de lar do outro lado daquela porta branca e pensar nela dessa forma fazia com que o topo de minhas bochechas e minhas orelhas se tornassem um pouco mais quentes que o resto do meu corpo, mas apesar da reação infantil que eu não controlava, aquela era uma de minhas verdades incontestáveis.
Sorri para o tapete que me saudava as boas vindas em hangul e foi como se minha mente lançasse feixes de memórias que havíamos construído no último ano e meio, mais especialmente dos últimos nove meses, desde o momento que corri para Busan em uma folga após voltar de um festival no Chile porque não conseguia tirar da cabeça que precisava dizer a ela como me sentia. Ainda me lembrava da sensação de meu coração esmurrando meu peito como se estivesse prestes a encarar um dome lotado no Japão, apenas por alguns segundos até ver seus lábios me presentearem com o sorriso mais lindo que já existiu, antes dela dizer que sentia o mesmo. Foi o momento em que ela me deixou entrar pra valer e me deixou fazer dela um lar diferente, mas não menos especial. Completaríamos um ano juntos em dois meses, mas já havia entrado em meu coração bem antes da última primavera e um riso se desprendeu de meus lábios ao recordar que eu demorara duas estações inteiras para deixar que ela soubesse que meu coração não me pertencia quando ela estava por perto e que ele só parecia se acalmar quando ela estava serena em meus braços, como se eu fosse o que ela era para mim: lar. Pensando nisso, percebi que já em nossa primeira troca de olhares eu tive pistas do rumo que ela traçaria até meu coração e, Deus, que sorte a minha que Peter correu dos meus braços naquele fim de verão maluco, porque sequer poderia imaginar como teria sido passar por tudo sem seu sorriso e sem seus cabelos se espalhando por meu tronco quando ela se abraçava a mim.

Junho, 2017
O mundo parecia estar girando em uma velocidade bem acima do normal e minha capacidade em passar pelos acontecimentos sem perder nada já havia se perdido pelo meio do caminho. Em duas semanas gravaríamos ao vivo a final do Produce 101, em sua segunda temporada, e o resultado da escolha do público naquela jornada insana ditaria meu destino pelo próximo ano. Eu estava em Busan para que um final de semana em casa pudesse me ajudar a colocar a cabeça no lugar e o coração nos eixos, mas meus dedos trêmulos e a ansiedade fervilhando na boca do estômago pareciam ignorar meus planos sem o menor remorso.
Como inúmeros outros garotos sul-coreanos da minha idade, eu vinha dedicando cada minuto de minha juventude a um sonho que, apesar de levar toda gota de suor que meu corpo produzia todos os dias, parecia inalcançável. Estava em uma corrida que parecia sem linha de chegada há uns bons anos, mas pela primeira vez desde as rodinhas de b-boying em Gwangalli eu parecia ver a marca de cal no chão que marcava o fim e tinha sentimentos confusos e opostos sobre isso.
A decisão de fazer os testes para o programa viera depois de muitas ponderações angustiadas. Estar em constante avaliação não era uma novidade para alguém que se cobrava tanto como eu, mas estar submetido a testes semanais diante de toda a Coréia e sob sua rigorosa avaliação sob pena de eliminação me causava um pavor absurdo. Não que essa não fosse a realidade de idols que já tinham seu espaço na indústria, mas ter seu processo até o provável debut exposto e a possibilidade de ter seu fracasso perpetuado em HD não me parecia nada divertido. Só que, ainda com todos os contras do mundo, aquela era a minha chance e poderia ser a única. Eu teria de engolir minha insegurança ou expelí-la de meu corpo, ou provavelmente jamais chegaria perto da linha de chegada que me levaria para o outro lado, para onde o meu sonho estava, para onde viver de música era uma realidade. Eu teria que saber usar cada experiência boa ou ruim e fazer valer a pena cada tentativa, apostando tudo que eu ainda tinha e faria isso da melhor forma possível. Eu devia isso a mim mesmo.
Quem visse onde eu estava, após tantas controvérsias, falhas que cometi, erros dos quais me desculpo todos os dias, mas especialmente pelas minhas pequenas vitórias até ali, diria que alguma coisa eu deveria ter acertado. Era o que eu tentava dizer para mim mesmo a todo segundo, como se eu pudesse assimilar por repetição: você deu o seu melhor, Kang Daniel. Ao menos uma vez tenha orgulho de você mesmo.
É claro que essas frases motivacionais de mim para mim mesmo duravam até que eu entrasse em qualquer lugar da internet onde se debatesse o programa.
Por que diabos nossa mente sempre se prende ao que nos diminui?
Eomeoni⁴ detestava que eu procurasse por comentários sobre mim na internet. Ela achava que as pessoas eram cruéis demais online e se eu quisesse ver alguma coisa, que procurasse fóruns e páginas de apoio, porque eu deveria me importar com quem se importava comigo. Naquele final de semana, porém, ela estava empenhada em me deixar o mais offline possível e era por isso que, depois de levarmos Peter ao veterinário juntos, coisa que não fazíamos desde o início do ano, ela me arrastou para a loja de sua melhor amiga a fim de me comprar livros novos – porque um músico precisa ler muito para ampliar seu vocabulário, ela dizia – e havia também alguma coisa sobre cadernos para colorir terapêuticos que me fizeram rir pela sua forma adorável de zelo.
Eu teria esperado no carro durante todo o tempo em que ela esteve na lojinha simpática de livros e cafés, se Peter não tivesse pulado pela janela no instante em que a abri. Ela sempre se entediava muito fácil e como eu não parava de atazaná-la por um segundo sequer, a gata escapou de mim na primeira oportunidade. Não contive a risada ao desligar o carro e puxar a máscara até o topo de meu nariz para sair e pegá-la de volta no momento em que ela atravessava a calçada em direção a loja, provavelmente seguindo os passos de eomeoni.
Antes que eu pudesse me abaixar para agarrá-la, porém, Peter se enroscou por entre pés calçados em sapatos pretos comuns e eu estava prestes a me desculpar com a pessoa em questão quando sua risada aberta me fez levantar o rosto em direção ao som esquisito e cativante. Onde esperava ver seu sorriso, vi uma cascata de fios que balançavam conforme ela se abaixava minimamente para deslizar seus dedos por entre as orelhas de Peter, que pareceu aceitar o carinho sem maiores resistências. Por algum motivo desconhecido para mim na época – que depois se mostrou apenas uma reação típica minha a sua risada sem filtro –, corei instantaneamente e me curvei para pedir desculpas, que ela imediatamente rejeitou em um hangul notadamente estrangeiro e em um tom tão despreocupadamente íntimo que não poderia ter vindo de nenhuma desconhecida sul-coreana.
– Não tem problema algum! – eu ainda não via seu rosto, mas era nítido que ela sorria – Ela é linda!
Por um segundo, a desconhecida pareceu que a pegaria no colo, mas como se lembrasse que poderia ser indelicado ou invasivo, a jovem mulher apenas se curvou em minha direção para me cumprimentar formalmente, o que me fez corar ainda mais. Sorri desconcertado ao imitá-la e pensei em pegar minha gata de imediato e sair dali, mas não consegui desviar os olhos de seu sorriso assim que ergui a cabeça em sua direção.
Os segundos que passei olhando-a e reparando no charmoso sinal que pintava sua pele bem abaixo dos lábios, não foram nenhum um pouco educados de minha parte, por isso, quando percebi o que fazia, me curvei novamente em sua direção e pedi desculpas, mentalmente perguntando se minhas bochechas vermelhas estavam visíveis para ela, o que só adicionaria mais itens estranhos para aquela primeira aproximação. Antes que a desconhecida pudesse me responder ou que eu pudesse dar meu próximo passo, que era agarrar Peter para sairmos dali, a voz de minha mãe desviou nossa atenção para o interior da loja.
– Peter! – ela a chamou, rindo quando ela se enroscou em seus calcanhares, como se me dedurasse por fazê-la chegar a última consequência e fugir de meu colo – Achei que vocês iam esperar no carro.
– Ela pulou a janela. – expliquei, coçando a nuca e fazendo mamãe rir.
– Você provavelmente não estava a deixando em paz… – riu novamente, fazendo a pessoa ao seu lado fazer o mesmo e foi só então que percebi que a Sra. Han lhe acompanhava e me adiantei para cumprimentá-la fazendo a mesura.
– Você está cada vez mais forte, querido. – Seu sorriso me cumprimentou de volta e era acolhedor como eu me lembrava, o que fez com que eu sorrisse em resposta, ainda que ela não visse –, ao menos isso significa que estão te alimentando bem em Seul. Você deve estar nervoso, não? – Seus olhos capturaram os meus como quem não precisava de resposta. – Já que estão todos aqui dentro, por que não tomamos alguma coisa juntos? Lá nos fundos, assim não corremos o risco de alguém reconhecer você aqui e perdermos o momento de tranquilidade. Você nos ajuda a arrumar uma mesa, -ssi⁵?
.
Meus olhos voltaram para ela no momento em que ela assentiu com um sorriso e involuntariamente tentei repetir a pronúncia de seu nome em minha mente, acostumando-me com a sonoridade divertida. Parecia combinar perfeitamente com o som de sua risada.
– Você está se adaptando bem aqui, querida? – minha mãe perguntou a ela e percebi que já se conheciam quando sorriu educada ao responder que sim, fazendo um carinho em Peter, que agora estava nos braços de eomeoni – Esse é Kang Daniel, meu filho.
Mamãe se virou para mim sorrindo e me virei para cumprimentar novamente, que imitou meus gestos automaticamente. Seus olhos pareceram percorrer meu rosto com certa curiosidade, mas como se novamente se lembrasse que não era muito delicado, ela desviou para Peter, que parecia realmente gostar de seu afago.
– Você o conhece, não? – Sra. Han perguntou, soando divertida – Da TV?
pareceu surpresa, porque voltou a me olhar rapidamente antes de virar para Sra. Han e negar com a cabeça, um pouco preocupada em ser sincera. Sorri, apesar de me sentir um pouco envergonhado. Ainda era uma situação um tanto estranha, mas encontrar alguém que não me conhecia ou que não recordava de meu nome de algum lugar, naqueles dias especialmente, era um tipo desconhecido de conforto.
– Não me espanta não saber do que estamos falando – Sra. Han riu ao abrir a porta e nos indicar a passagem para sua varanda dos fundos, que parecia abrigar uma espécie de jardim e local de descanso para seus poucos funcionários –, você estuda e trabalha demais, minha querida.
pareceu sem jeito com seu sorriso mínimo e se adiantou para nos indicar uma mesa à esquerda, com quatro lugares. Tive vontade de perguntar o que ela fazia, mas mamãe foi mais rápida, explicando quando se sentou ao meu lado.
veio do Brasil e está estudando aqui em Busan agora. Humanidades, não é mesmo, querida? – desviei meu olhar com curiosidade para ela, que juntou suas mãos em frente ao corpo, escondendo-as nos bolsos do avental verde musgo que usava – Algo a ver com fotografia, certo?
Ela assentiu, sorrindo e parecendo um pouco envergonhada, o que não pude deixar de achar um tanto adorável. Ela era linda e algo em seus olhos mornos, que pareciam mais claros ali com a luz do sol de verão nos atingindo, não me deixava desviar a atenção dela.
– Acho que vocês têm a mesma idade.
é um ano mais velha, tenho quase certeza.
Eomeoni e Sra. Han ainda falaram por algum tempo, mas meus sentidos apenas capturavam a imagem adorável de se abaixando para brincar com Peter novamente. Suas mãos a rodearam e ela parecia se divertir quando ela se irritava com algum carinho mais implicante. Só percebi que estava a encarando tempo demais quando ela se levantou ao chamado de minha mãe, que fizera os pedidos para nós. Limpando a garganta, abaixei o rosto para esconder meu embaraço, torcendo para que ela não tivesse me visto ser tão inapropriado.
Seu nome diferente rodeou minha mente pelos minutos que ela esteve na cafeteria da loja e quando ela voltou, o cheiro de café e baunilha que veio junto parecia combinar perfeitamente com ela e não pude deixar de sorrir. Abaixei a máscara ao agradecer e percebi seus olhos matando a curiosidade de antes. Em um pensamento nada maduro, desejei estar ao menos apresentável para ela, mas não tive coragem de checar sua expressão depois.
Antes dela sair novamente, mamãe pediu que trouxesse os livros que tinha escolhido para mim e enquanto comíamos, esperei que ela estivesse de volta. Mamãe e Sra. Han saíram para explorar o jardim e beberiquei meu chá com Peter no colo, quando ela voltou com uma pilha de livros nos braços. Imediatamente me levantei para ajudá-la, mas ela negou, colocando os livros sobre a mesa.
– Daniel-ssi, os livros que sua mãe escolheu. – Me curvei em agradecimento quando ela apontou – Nós não temos a última coletânea de Kim YongTaek, mas trouxe esse – ela pegou um livro na pilha e estendeu em minha direção –, acredito que possa interessar, já que é do mesmo autor.
Sorri para a capa conhecida e folheei o livro pequeno.
– Eu tenho esse – antes que ela pudesse recolher o objeto e se desculpar, no entanto, continuei –, mas não tem problema. Você conhece esse autor? – olhei para ela com curiosidade e apenas negou com a cabeça – Ele é bem famoso entre as pessoas de nossa idade e veja só, – indiquei um poema em especial quando o encontrei e a vi se colocar ao meu lado e inclinar a cabeça para visualizar a página; seus cabelos tinham cheiro de camomila e mel – esse é um de meus poemas favoritos.
Sem pensar muito em como aquilo poderia soar, limpei a garganta para ler para ela.

참 좋은 당신/ 김용택
(Você é tão adorável, por Kim YongTaek)
어느 봄날
(Em um dia de primavera)
당신의 사랑으로
(Por causa do seu amor)
응달지던 내 뒤란에
(Eu tive a agradável visão da luz do sol a brilhar)
햇빛이 들이치는 기쁨을 나는 보았습니다
(Em meu quintal sombrio)

어둠 속에서 사랑의 불가로
(Saindo das trevas em direção à luz da lareira do amor)
나를 가만히 불러내신 당신은
(Você gentilmente me chamou)
어둠을 건너온 자만이 만들 수 있는
(E sorriu tão puramente quanto uma flor silvestre)
밝고 환한 빛으로 내 앞에 서서
(De pé em minha frente sob a luz brilhante, brilhando)
들꽃처럼 깨끗하게 웃었지요
(Como somente uma pessoa que já passou pela escuridão pode fazer)

아,
(Ah)
생각만 해도
(Quando penso em você)

(Você)
좋은
(É)
당신
(Tão adorável)

– É lindo… – sua resposta em um suspiro fez com que minha nuca se arrepiasse e me esforcei para apenas sorrir amigavelmente antes de me virar em sua direção.
– Você deveria ficar com esse então – indiquei o livro para ela, que o pegou, receosa –, é por minha conta.
– Eu acho que eu não deveria-
– Por favor – a interrompi, ainda sorrindo –, tenho certeza que você vai gostar. Vou ficar curioso para saber qual será o seu favorito. A não ser que você não goste de poesia… – deixei a frase no ar, mas ela negou, rindo, o que me fez sorrir ainda mais abertamente.
– Eu adoro.
Só percebi depois que durante todo tempo em que esteve ali, em que pude ouvi-la e ver seu sorriso, minha mente se esvaziou daquilo que me angustiava e me deixava ansioso e quando voltei para casa naquela tarde, imediatamente pensei em quando podia voltar a vê-la e que esperava que não fosse demorar muito.

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¹Termo utilizado para se referir a mulheres mais velhas, na faixa do que chamamos de “meia idade” no ocidente.
²Para coreanos é uma palavra de encorajamento e ânimo, como se pudesse ser traduzida para “Você consegue!”, “Dê seu melhor!” ou “Vamos lá!”. Geralmente é dita junto com o ato de levantar as mãos em punho.
³Feriado de três dias em que se comemora o Ano Novo do calendário Lunar.
⁴Mãe em hangul.
⁵O sufixo ssi é um honorífico da língua coreana para se dirigir de maneira formal a alguém que você já conhece. Lê-se “shi”.

 

02

“늘 나의 마음을 말로만 전하지 못한
(Eu sempre achei difícil articular meus sentimentos)
수많은 날 이기적이었던 날
(Por diversos dias agi de forma egoísta)
곁에서 아무 말 없이
(Estando ao seu lado sem dizer uma palavra sequer)
얼마나 힘들었을까
(Quão difícil foi pra você?)”

Por :
A neve que havia caído durante grande parte da madrugada tinha cessado logo que o sol nasceu, mas pequenos blocos de gelo ainda permaneciam na varanda quando espiei a rua mais uma vez. Por conta dos poucos dias para as comemorações do Ano Novo Lunar, as calçadas contavam com grande movimentação, assim como as ruas. Pessoas iam e vinham se preparando para os três dias especiais e sorri ao perceber que seria meu segundo Seollal e que este seria ainda mais especial que o primeiro por uma série de fatores.
Com um suspiro de quem não consegue conter as memórias que vêm à tona, sentei-me na cadeira de balanço ao lado da porta de vidro que permanecia fechada e observei os tímidos raios solares começarem, com certo custo, a derreter a neve acumulada. Ao descansar o corpo no estofado, olhei em volta sem pressa, passando meus olhos pela decoração que preparara com muito esforço. Cada pedacinho daquele apartamento de três cômodos era como uma grande vitória pessoal porque era meu espaço, meu cantinho tão longe do que eu antes costumava chamar de casa, mas que já se tornara, definitivamente, meu lar.
Dentre tantas outras coisas que considero importantes, ter meu próprio espaço, sem qualquer intromissão alheia que pudesse tirar minha tão preciosa paz, tinha sido minha prioridade desde muito cedo. Era, portanto, um sonho realizado que eu pudesse olhar em volta e me ver em cada item de decoração, em cada quadro e em cada tapete decorado. Era ainda mais maravilhoso saber que meu esforço me levara até ali e que os sons da Busan viva do lado de fora não poderiam ser substituídos por nenhum outro som de fundo, porque era o que eu precisava e havia aprendido a amar.
Seria meu primeiro Seollal com um canto só meu na Coréia do Sul, já que no último ano ainda estava dividindo um apartamento com Jia e Bora; seria meu primeiro Seollal como quase mestre, já que teria meu título pela Pukyong National University no início do verão e seria meu primeiro Seollal com Niel.
Um sorriso escapou por entre meus lábios e olhei novamente a rua abaixo pela porta da varanda, ansiosa para vê-lo chegar.
No último final de semana, Wanna One havia feito seus últimos dois concertos como um grupo e desde então o disband era uma realidade não mais à espera. Se fechasse os olhos, ainda poderia ouvir a platéia do Gocheok Sky Dome lotado cantando cada uma das músicas ao vivo pela última vez e ainda sentia os pêlos de meus braços se eriçando com a memória que era uma das mais lindas e melancólicas que eu tinha deles. Estavam lindos e pareciam ter o próprio universo particular naquela arena, que parecia infinita de luzes e vozes. Ainda me lembrava dos olhos pequenos de Niel no backstage e de como eu não conseguia distinguir suas lágrimas de seu suor e como aquilo comprimira meu coração até torná-lo pequenino.
Apesar da montanha russa emocional daqueles dois dias e do último mês inteiro e de todas as lágrimas que já havia derramado junto com os onze, com a equipe e com suas famílias, não havia um minuto sequer em que eu não sentisse um estrondoso orgulho e um infinito amor.
Não era mais tão estranho falar de amor depois de quase um ano, percebi com um sorriso divertido nos lábios. Porque no início de tudo, eu resistira bravamente a ligar essa palavra e esse sentimento a Kang Daniel, mas conhecendo-o como conheço hoje, percebo que seria impossível resistir por muito mais e que eu havia sido apenas cautelosa demais e teimosa como sempre. Era impossível não amá-lo e amá-lo tanto a ponto de ficar ansiosa para tê-lo ali, no meu cantinho silencioso e precioso, porque ele já era parte do meu lar.
Jamais poderia mentir e dizer que havia sido fácil, porque Daniel transbordava e eu estava sempre tentando manter tudo em ordem; porque eu era cautelosa com meus sentimentos e tendia a racionalizá-los demais, quando ele parecia sentir tudo em dobro, ainda que quase nunca soubesse como dizer; porque ele tinha um mundo para lidar e eu tinha minha própria mente, que poderia ser ainda mais complexa que todo o resto. Sendo assim, levamos um tempo até encontrarmos nosso próprio código, até aprendermos a dizer como nos sentíamos um em relação ao outro e termos certeza de que nos importávamos e que queríamos tentar.
Vinha sendo uma jornada curiosa, mas eu não me arrependia de nenhuma aventura. Não quando eu podia vê-lo sorrir para mim ou quando ele me deixava deitar em seu abraço sem precisar dizer uma palavra sequer. Com um suspiro, fui atingida por uma de nossas memórias mais especiais, que para um espectador de fora poderia até não ter nada demais, mas foi a primeira vez que dormi em seus braços e foi a primeira vez que senti tão forte a sensação de estar em casa em um país tão diferente do meu.

Junho, 2018
Após o fim de I Promise You, os membros se reuniram para se despedir da platéia que lotava pela terceira noite consecutiva o Gocheok Sky Dome. Os três shows em Seul marcavam o início da primeira turnê mundial do grupo, que teria uma lista extensa de shows até o início de setembro. Eu tinha vindo de Busan junto da família de Daniel para assistir aos shows na capital, que também seriam gravados para serem exibidos no Wanna One Go: X-Con e em um futuro DVD.
Junto das inúmeras fãs ao meu redor, balancei o lightstick que tinha em mãos e os saudei antes das luzes se apagarem por completo, dando fim a última noite de shows. Com um sorriso enorme no rosto, virei para meu lado no momento em que as luzes foram religadas e Hyemin sorriu para mim, soltando um gritinho animado que me fez gargalhar. Em seguida, a namorada de Sungwoon estendeu os braços em minha direção e fiz o mesmo antes de compartilharmos um abraço cheio de significados.
Song Hyemin havia se tornado alguém muito especial desde que Daniel – e o Wanna One inteiro, por tabela – entrara em minha vida. Ainda que cada experiência fosse única e nossas trajetórias fossem bem diferentes, Hyemin conhecia o caminho das pedras que era namorar um idol, já que estava com Sungwoon desde muito antes daquela loucura que foi o programa acontecer na vida dele e tinha se tornado minha confidente e uma amiga muito querida. Procurar por seus cabelos coloridos nos backstage já tinha se tornado comum para mim e ter seus abraços calorosos depois daqueles momentos especiais era extremamente acolhedor.
– Vamos esperar mais um pouco antes de ir? – ela perguntou quando nos sentamos novamente em nossas cadeiras, na ala direita da arena – Quando estiver mais vazio a gente desce.
Assenti, tomando um pouco d’água na garrafinha que levava comigo. Nossos crachás especiais estavam escondidos por debaixo de nossas roupas e estávamos somente nós duas naquela parte da platéia. Uma das coisas que havia aprendido com Hyemin era sempre fazer o possível para passar por baixo do radar das fãs mais atentas e da imprensa especializada. No início, até mesmo antes de namorá-lo, normalmente sentava com a mãe de Daniel nas apresentações em que podia ir, mas certa vez Hyemin havia me dito que era melhor que eu não fizesse isso. “Eles conhecem as famílias”, ela havia me alertado. “Se você sentar com a Sra. Kang sempre, vão começar a ligar uma coisa a outra no futuro.” Como namorar publicamente não era algo que poderia ser discutido, eu seguia seus conselhos religiosamente e levando em conta que ninguém nunca nem chegara perto de saber sobre ela e Sungwoon, eu estava no caminho certo.
– Não acredito que amanhã não tem mais – suspirei ao virar em sua direção, acertando os óculos no rosto e provavelmente fazendo um bico contrariado, já que a fiz rir –, esses três dias passaram voando.
Um bocejo escapou por entre meus lábios, denunciando meu cansaço do final de semana intenso. Eu tinha passado por duas semanas de testes na Universidade, me desdobrando em horas extras no trabalho de meio período para que pudesse vir a Seul com folga e passara os últimos dias entre bater perna por cada canto da cidade e terminar minhas noites como qualquer Wannable enlouquecida. Não era de se espantar que estivesse louca por minha cama e uma noite de sono real.
– Eu encararia mais três dias desses, sendo sincera – ela riu, esticando as pernas para apoiar na poltrona vazia à nossa frente –, e se pudesse me escondia na mala de Sungwoon para vê-los nos Estados Unidos.
Franzi a testa em confusão ao ver sua carinha triste.
– Você não vai? Daniel tinha me dito que Sungwoon queria levar você.
Hyemin tinha uma rotina bem mais flexível que a minha. Ela trabalhava como maquiadora – foi sendo makeup artist do HOTSHOT que conheceu o namorado, inclusive – e também tinha um canal no YouTube sobre maquiagem e cabelo, o que lhe rendia até mesmo algumas campanhas publicitárias.
– A empresa não leva ninguém se não for família – ela deu de ombros, parecendo conformada –, e ele até queria me levar por conta própria, mas eu jamais deixaria que ele arcasse com um custo desses.
Assenti, compreendendo seu ponto e então levantamos para caminharmos até a entrada que nos levaria aos camarins. A arena já estava quase toda vazia, mas o backstage deveria estar uma bagunça completa e ri só de pensar. Eles deveriam estar exaustos depois de horas de show, mas sempre estavam mais elétricos do que nunca e era adorável de ver.
– Você volta amanhã, não é? – ela perguntou enquanto descíamos a rampa – Você vai cedo ou ainda podemos almoçar juntas?
– Aceito seu convite – sorri ao que nos abraçamos de lado –, só volto no final da tarde.
– Ótimo! – minha amiga sorriu, animada – Vou te levar em um restaurante ótimo em Hongdae, você vai amar. Se tivermos tempo, damos mais um passeio também, caso você não esteja muito cansada, é claro. Você teve uma semana cheia.
– Posso descansar quando estiver de volta a Busan. – sorri, encerrando aquele assunto quando chegamos a uma das portas laterais que davam aos bastidores.
Discretamente mostramos os crachás aos seguranças e adentramos o corredor pouco iluminado que passava por baixo do palco, caminhando pelo espaço que já conhecíamos das outras noites. Quando subimos as escadas que levavam para os corredores dos camarins, os staffs e as demais equipes de palco e da arena andavam para lá e para cá, a maioria sequer notando nossa presença. Grande parte da crew que trabalhava diretamente com o grupo já nos conhecia, mas eram poucos aqueles com quem tínhamos contato e Juyeon era uma dessas pessoas. Quando a manager surgiu no corredor com as mãos cheias de sacolas, nos adiantamos para ajudá-la, mas ela logo sorriu, negando.
– Não se preocupem, queridas. Estão gravando lá dentro – ela apontou com a cabeça para a porta, de onde um barulho enorme de falatório saía –, mas vocês vão poder falar com eles daqui a pouco, ok?
– Tem certeza que não quer ajuda, unnie¹? – Hyemin havia perguntado, mas a mais velha sorriu negando mais uma vez.
– Só não fiquem por aqui esperando para verem a cara feia da Eunjoo – Juyeon falou mais baixo, nos fazendo rir ao falar mal da manager que não era lá dona de nosso maior afeto –, podem esperar na última sala antes do banheiro, à esquerda. Se alguém perguntar, podem dizer que foi ordem minha.
Sorrimos em agradecimento e seguimos para onde ela indicou.
– Pobre Juyeon, carregando toda a Swing Entertainment nas costas. – brinquei, fazendo Hyemin rir quando entramos na salinha que parecia guardar os pertences dos staffs.
Nos acomodamos no meio da bagunça generalizada que havia naquele pequeno espaço e em algum momento enquanto checava na câmera as fotos que havia tirado, peguei no sono. Só acordei algum tempo depois, com os dedos de Niel mexendo em meu cabelo e seus lábios deixando beijinhos suaves por meu rosto. Ainda que pudesse ouvir sua risada baixa quando comecei a acordar e que seu carinho leve e gentil não fosse um incômodo de forma alguma, a vontade de continuar dormindo não me deixou muito amistosa.
… – ele chamou mais uma vez e resmunguei involuntariamente, apesar de querer sorrir pela forma como ele me chamara.
Daniel havia começado a usar aquele apelido um pouco antes de começarmos a namorar. Como a pronúncia de certos fonemas não era muito comum para ele, uma forma incorreta, porém adorável, acabava se repetindo mais vezes que a pronúncia correta de meu nome, então pareceu um apelido aceitável que somente ele usava por ali, já que a maioria das pessoas optava por . Era especial e único, como ele.
– Quê? – resmunguei quando ele insistiu em chamar e pude ouvir sua risada novamente.
– Não brigue comigo – ele pediu e tinha certeza que estava fazendo bico, mesmo que não pudesse ver –, ou você quer dormir sozinha aqui?
Comecei a abrir os olhos quando me lembrei de onde estava e seu rosto pertinho do meu, me encarando com a expressão esperta e carinhosa me fez sorrir. Ganhei um beijo no nariz assim que ele percebeu que eu estava acordada e logo abri meus braços para ele, abraçando-me ao seu corpo sempre tão quentinho. Uma coisa importante especial sobre Niel era como, não importava o que acontecesse, seu abraço era sempre daquele jeito, quente e aconchegante como nenhum outro. Sua envergadura me abrigava por completo e eu me sentia genuinamente à vontade em seus braços. O cheiro gostoso de sua loção de banho e do shampoo me mostraram que ele já tinha tomado banho e que eu provavelmente dormira por cerca de meia hora.
– Peguei no sono sem querer – expliquei a ele, que sorriu ao afastar nossos corpos minimamente –, dormi por muito tempo?
Ele negou com a cabeça, sentando-se ao meu lado quando eu arrumei a postura.
– Acabamos de ser liberados para sair. Hyemin está no nosso camarim com os outros – ele avisou ao perceber que eu olhara ao redor para procurar por ela –, vamos?
Aceitei sua mão estendida em minha direção e me levantei com ele ao meu lado, apoiando minha bolsa nos ombros enquanto saíamos da salinha para encontrar os demais. Nossas mãos unidas e a minha sendo completamente engolida pela dele, ainda sendo algo que fazia meu estômago flutuar. Não estávamos habituados àquele tipo de comportamento – porque não podíamos –, então ainda que eu não tivesse sido uma entusiasta de andar de mãos dadas em qualquer relacionamento anterior, com ele era completamente diferente, especialmente porque precisávamos aproveitar cada uma daquelas oportunidades e porque sua pele quente contra a minha era algo que eu jamais iria recusar.
– Você gostou do show? – ele perguntou em seguida, sorrindo para mim, que fiz o mesmo antes de responder afirmativamente.
– É claro! – reparei em como seus olhinhos ficavam menores quando ele sorria tão abertamente e meu coração adiantava uma batida sempre, incapaz de se acostumar a sua beleza – Foi completamente maravilhoso! Vocês foram incríveis. O seu solo foi perfeito! – dei ênfase, fazendo-o sorrir envergonhadamente e me deixar com uma vontade enorme de apertá-lo.
Queria tanto que Niel se visse como eu o via. Não fazia o menor sentido que ele não soubesse o quanto era incrível ou que duvidasse de que merecia qualquer tipo de elogio, ainda que mínimo como aquele que eu acabara de dirigir a ele.
– Você está linda. – ele retirou a atenção de si mesmo como costumava fazer e rolei os olhos, porque duvidava que estivesse muito apresentável, especialmente depois de tirar um cochilo inesperado.
Você é lindo. – inclinei-me para beijá-lo na bochecha e me deleitei com o modo como suas bochechas ganharam um tom mais rosado.
Ele era único mesmo.
Assim que chegamos a sala que abrigava os demais membros, Daniel abriu a porta e fomos envolvidos por uma gritaria sem fim, causada principalmente por Seongwu, Jaehwan e Sungwoon. Gargalhei antes de cumprimentar a todos e ser cercada por uma conversa que envolvia alguma história exagerada de Ong enquanto esperávamos que tudo ficasse pronto para que eles fossem embora. Sentada entre as pernas de Daniel, recebia um carinho em meus cabelos por suas mãos que me deixava sonolenta novamente, mas a cerveja que Jisung havia me dado tentava me deixar acordada enquanto ouvia Minhyun desmentir Seongwu sem qualquer remorso, o que nos fazia mergulhar em mais gargalhadas exageradas.
– Vou deixar você no hotel antes de voltar ao dormitório. – Niel sussurrou em meu ouvido, me deixando parte arrepiada pela sua voz grave tão perto e parte surpresa por ele ter tido permissão – Juyeon-noona² conseguiu esse presentinho pra gente hoje.
Virei-me para ele e sorri, feliz pela notícia de que teríamos mais um tempinho a sós. Juyeon era mesmo um ser humano incrível.
Não demorou muito para que viessem avisar que as vans estavam prontas e nos levantamos todos, catando as latinhas e os pacotes de salgadinho enquanto pegávamos nossas coisas para descermos até o estacionamento. Nos despedimos em meio a mais uma rodada de barulheira e entrei no carro particular com Daniel ainda aos risos e me aconcheguei em seus braços assim que o veículo começou a andar.
Estávamos oficialmente juntos há apenas três meses, mas me sentia tão à vontade daquele jeito, com meus braços ao redor de seu corpo e minha cabeça descansando em seu tronco, que parecia que tínhamos vivido aquelas intimidades há mais do que apenas cerca de noventa dias. Havia algo de único em como as batidas de seu coração me acalmavam e em como mais do que qualquer outra coisa ali na Coréia, estar em seus braços era como estar na tranquilidade de minha casa.
Havia pouquíssimos lugares em que eu podia descansar verdadeiramente, poucos espaços em que eu podia ser eu mesma, da forma mais estranha que fosse possível, e raros lugares em que eu me sentia serena daquela forma. Ocorreu-me naquele momento, enquanto sentia suas mãos fazendo carinho no topo de minha cabeça e em meus braços, que me sentir em casa, quando se travava de Niel, sequer necessitava de que eu estivesse em algum lugar específico. Eu poderia estar ali, cruzando alguma avenida de Seul, em seu quarto de infância em Busan ou em minha sala compartilhada com Jia e Bora, eu poderia estar em alguma cama de hotel em Manila ou em Hong Kong, mas desde que eu estivesse daquele jeito, descansando em seus braços, eu estaria em casa.
O impacto daquela reflexão silenciosa fez meu coração acelerar, porque sendo como eu era, aquilo era algo extremamente especial. Senti-me ainda mais pequena diante dele naquele momento e senti, pela primeira vez com força total, de que não tinha mais volta. Sequer queria que tivesse, para ser honesta. Não havia nenhum outro lugar em que eu quisesse estar.
Pensando dessa forma, apertei ainda mais meus braços ao redor dele e beijei seu tronco com carinho antes de esconder meu rosto entre seu casaco. Senti Niel me abraçar com mais força e beijar meus cabelos repetidamente, me fazendo sorrir, antes de sussurrar suas palavras de amor com uma docilidade que só poderia vir dele.
– Eu te amo.
Não era a primeira vez que ele me dizia aquela frase, porque Daniel sentia demais e desde que não fosse impedido de demonstrar por sua timidez volátil, eu era comumente atingida por demonstrações como aquela. Sorri novamente sem que ele visse e, meio sonolenta, respondi de volta:
– Eu te amo.
Senti-o apertar seus braços ao meu redor novamente e deixei que um suspiro cansado se desprendesse de meus lábios.
– Você pode dormir se quiser. Não vou largar você.
Sua promessa foi cumprida até chegarmos ao hotel em que eu estava hospedada em Seul e deixei seus braços apenas para colocar uma máscara e sair do carro ao seu lado, vendo-o fazer o mesmo e colocar um boné por cima dos cabelos descoloridos. Subimos pelo elevador em um silêncio confortável e ao chegarmos ao quarto, Niel esperou pacientemente que eu tomasse um banho quente e me preparasse para dormir. Vendo que ele não se levantou quando eu saí do banheiro, o indaguei com os olhos antes de me pronunciar.
– Você não precisa ir?
Daniel sorriu, puxando o edredom para se colocar sob ele antes de abrir os braços para mim.
– Posso ficar até você pegar no sono.
Sem esperar que seu celular – ou o meu – tocasse para lembrá-lo que ele precisava voltar, me joguei na cama ao seu lado, igualmente sorridente. Daniel retirou o casaco antes de se deitar ao meu lado e me deixar descansar em seus braços. Alinhei-me a ele e deixei que nossos olhos ficassem na mesma direção e me ocupei em esquadrinhar cada pedacinho de seu rosto, desde o sinal adorável abaixo do olho direito, até a forma extremamente fofa que seus dentinhos da frente ficavam expostos quando ele sorria.
– O quê? – ele sussurrou, com as bochechas já levemente avermelhadas e me adiantei até seus lábios, beijando-o rápida e docemente.
– Você é lindo. – Rocei nossos narizes quando ele riu, envergonhado, e senti arrepios subirem por minhas costas quando suas mãos grandes se espalharam em minha lombar, segurando-me perto dele.
– E sou seu.
E eu sentia que era, mas de uma forma bem diferente do que qualquer conotação que aquela frase pudesse tomar. Quando ele me beijou, fazendo aquilo tão lentamente como sempre fazia, pude sentir nossos corações alinharem as batidas e meu corpo ser preenchido de um torpor singular, que me fez sorrir quando nossos lábios se separaram.
– Durma bem, .
Suas mãos foram para meus cabelos e seus dedos longos deslizaram por entre os fios com delicadeza, espalhando arrepios gostosos por minha nuca e ombros e trazendo minha sonolência de volta. Aos poucos, meus sentidos foram enfraquecendo para que eu entrasse no estado de sono e pudesse descansar um pouco. Agarrei-me a ele pela segunda vez naquela noite e tive certeza de que estava certa sobre a reflexão no carro. Eu estava em casa em seus braços.
Milan Kundera estava certo, o sono compartilhado era mesmo o corpo de delito do amor e eu era a prova humana daquilo, porque naquela noite peguei no sono sabendo que eu tinha um amor e tinha encontrado meu lar na Coréia do Sul e que ele era tão caloroso quanto minha terra natal.

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¹É um honorífico utilizado por mulheres para se dirigir a mulheres mais velhas, mas ainda em sua faixa etária, com quem você tem certa intimidade.
²É um honorífico utilizado por rapazes para se dirigir às mulheres mais velhas, mas ainda em sua faixa etária, com quem você tem certa intimidade.

 

03

“시간이 지나도 항상 여기에 있을게
(Mesmo que o tempo passe, eu sempre estarei aqui)
언제라도 니가 쉴 수 있는 집이 되어 줄게
(Serei o lar onde você pode descansar a qualquer momento)”

Ainda que soubesse a senha exata para colocar no painel e destravar a porta, Daniel quase sempre apertava a campainha. Sabia o quanto prezava seu próprio espaço e jamais ousaria cruzar a linha de sua privacidade sem que ela o autorizasse verbalmente. Naquele dia em questão, porém, a mulher não se importaria nem um pouco se ele só entrasse de uma vez. Foi por isso que ela se levantou imediatamente assim que ouviu o barulho conhecido soar dentro do apartamento e abriu a porta apressadamente quando o namorado ainda abaixava a mão que acabara de apertar o botão.
Adiantou-se para seu abraço sem esperar que falassem qualquer coisa e assim que a sentiu envolver seu tronco, Daniel soltou o ar que nem mesmo sabia que estava prendendo. Era o que tanto precisava, afinal. Sentir seus braços pequenos o envolvendo com carinho e sentir sua bochecha pressionada contra seu peito enquanto ela soltava um grunhido adorável, como uma gatinha ronronando. Ele sorriu e finalmente passou seus braços pelo corpo dela, abraçando-a tão apertado que a tirou do chão por alguns segundos, fazendo-a rir.
o puxou para dentro sem se soltar dele por um centímetro sequer. Tinham se visto em Seul em menos de uma semana, mas ainda que estivesse com saudades dele, aquela sensação de que não podia largá-lo tinha mais a ver com o momento pelo qual ele estava passando do que com a falta que sentira dele nos últimos dias, desde que havia voltado para sua rotina em Busan.
Daniel teria uma jornada árdua dali em diante, que incluía seguir sua carreira sem os outros dez amigos que tinham o acompanhado desde o início daquela trajetória visceral com o grupo. O fim do contrato em dezembro, os últimos eventos juntos e por fim, os últimos concertos como Wanna One eram como um ritual de passagem para um novo momento em sua carreira, mas ninguém poderia dizer que seria fácil dizer adeus aos melhores momentos de sua vida como artista e como ser humano. Ele aprendera tanto, tinha crescido tanto, que um ano e meio se passaram como se fossem o triplo do que realmente eram. Tinha chorado inúmeras vezes, algumas de frustração, muitas de raiva e ansiedade, mas muitas de uma imensa alegria e um enorme orgulho que ele jamais pensou que seria capaz de sentir. Tinha recebido tanto amor, mas tanto amor, que ainda duvidava se era de fato merecedor de tanto apoio e cuidado de pessoas de todo o canto do mundo. Tinha aprendido a amar pessoas que sonhavam como ele, que passaram por cada dificuldade ao lado dele e quando pensava em pisar em um palco novamente sem essas outras dez pessoas, seu coração ganhava um rombo que parecia que não sumiria nunca.
sabia de tudo aquilo e foi por isso que deixou a bolsa dele em sua mesinha de centro e fez com que ele se deitasse em seu sofá, descansando a cabeça em suas coxas e ganhando um carinho gostoso de seus dedos por entre seus cabelos macios. Daniel fechou os olhos e sentiu uma forte vontade de chorar, mas resistiu a ela bravamente, deixando que seu coração se acalmasse conforme o cheiro de camomila que pairava sobre a sala fazia o trabalho de inebriar seus sentidos na mesma proporção que o toque da namorada o deixava alheio a qualquer outra coisa que existisse ao redor. Revirou-se de lado sobre o estofado e escondeu o rosto contra a barriga dela, abraçando-a de um modo um tanto desajeitado enquanto encolhia as pernas e curvava as costas. Parecia tão indefeso daquele jeito que sentiu seu coração apertar. Sabia que não havia nada que pudesse falar, aquele era um momento pelo qual ele precisava passar e estando o disband tão recente, seria muito impensável querer que ele estivesse um pouco melhor do que aquilo.
Ocupou-se em continuar o cafuné e deixou beijinhos leves por onde quer que seus lábios alcançassem até sentir que a respiração dele estava um pouco mais estável e que seu próprio coração estivesse menos angustiado. Passou os dedos novamente por entre os cabelos dele e deixou um beijo demorado em sua têmpora antes de falar pela primeira vez naquela tarde.
– Você não quer ir pra cama? – perguntou próximo ao ouvido dele, mas o viu negar com um movimento de cabeça e um murmúrio – Você está todo encolhidinho, Niel. Meu sofá não é grande o suficiente pra você e ainda que eu quisesse te carregar, jamais conseguiria.
sorriu por conseguir arrancar dele uma risada e então sentiu o coração se expandir um pouquinho quando ele virou em sua direção e a encarou com os olhinhos pequenos e sonolentos. Parecia apenas o Niel dengoso que ela conhecia e jamais seria um sacrifício para ela mimá-lo por uma tarde inteira, ainda mais naquelas condições específicas. Ela se sentia feliz e grata por ele escolher seu colo para descansar.
Cedendo a sua sugestão, Daniel se levantou a puxando consigo, encaixando-a em seu abraço ao colar as costas dela em seu tronco para caminharem juntos até o quarto. Miso e Lua, as gatinhas de , estavam esparramadas pelo colchão e Daniel riu ao ver Lua erguer o olhar na direção dos dois como se estivesse julgando demais os humanos que estavam prestes a tirá-la de seu sossego precioso. A mulher escapou de seu abraço apenas por tempo suficiente para puxar o edredom no lado onde costumava dormir, para se encolher com o namorado e não ter que expulsar as duas gatinhas. Daniel deitou por ali logo em seguida e Miso caminhou para seu lado sobre o colchão, roçando o nariz por seu rosto e o fazendo rir e retribuir o carinho ao fazer um afago por sua coluna. sorriu para a cena e viu o namorado se arrastar para o lado, dando espaço para que ela também se deitasse. Lua logo não resistiu e subiu pelas pernas de Daniel e descansou o corpo em parte de seu tronco, fazendo-o sorrir enquanto usava a outra mão para fazer um carinho por entre suas orelhas.
deitou ao seu lado por último e Daniel estendeu o braço esquerdo para que ela se aninhasse por ali e logo estavam todos embolados sobre a cama, com o colo de Daniel parecendo grande o suficiente para as três. Ele beijou o topo da cabeça de e sorriu, sentindo seu coração mais leve e sua mente menos pesada. Era o poder de estar em casa.
– Obrigado, – ele disse em um sopro, fazendo a mulher erguer o rosto para ele, que tinha os olhos fechados –, por tudo. Obrigado por seu meu lar tranquilo e silencioso para o qual eu sempre posso voltar. Obrigado por estar aqui agora.
sequer sentiu a vontade de chorar chegar antes de perceber seus olhos úmidos e sorriu para ele, sentindo-se igualmente grata. Seu coração parecia se expandir em seu peito e de repente ela era amor por inteiro.
– Não me agradeça quando você é o mesmo pra mim.
Ele sorriu também e a mulher se inclinou para unir seus lábios por poucos segundos, o suficiente para que aquele gesto falasse por seu coração.
Era assim que se sentia ao estar em casa, completa e em paz. Sem precisar de grandes coisas, ou grandes feitos. Só o silêncio, o aconchego, o pertencimento e o amor. Eles tinham todos os itens e ainda que não fosse sempre fácil ou que não estivessem sempre juntos daquele jeito, ambos sabiam que sempre podiam voltar para casa desde que estivessem a um passo um do outro. Era essa a vantagem de fazer do seu amor o seu lar.

Nota da Autora:
Essa estória foi escrita como um presente para minha amiga Gabi, que divide comigo o amor por essa pessoa tão especial e única que é o Daniel, e calhou de ser a primeira estória de série para comemorar o fim de um ciclo cheio de amor com Wanna One. Como Daniel disse que devemos encarar esse momento como uma graduação, nomeei essa a WANNA ONE Graduation Series, onde cada membro terá sua fanfic especial. Espero que acompanhem!
Clicando aqui vocês podem ter acesso à playlist feita pela Gabi com músicas que me inspiraram na escrita e que combinam com a fanfic. Espero que tenham gostado e não hesitem em deixar um recadinho pra que eu possa saber!
Para acompanhar meus escritos, é só participar do meu grupo no Facebook, clicando aqui.