Pray You Catch Me

Pray You Catch Me

Sinopse: Depois daquela noite, tudo mudou. Cada olhar, passo, ligação, conversa, risada, sorriso… Ela procurava pistas em cada detalhe. Doía não ter certeza de mais nada. Não ter certeza do amor que ele dizia sentir por ela. E em meio a tanta dor e confusão, ela só teve certeza de um único amor: o que sentia por si mesma.
E foi esse amor que a segurou quando o dele por ela deixou de existir.
Gênero: Romance, Drama.
Classificação: 10 anos.
Restrição: –
Beta: Alex Russo

Capítulos:

 


02 de março de 2017.

“O que você está fazendo (com o) meu amor?”

O relógio digital que ficava no móvel ao lado da cama marcava o horário de duas horas da manhã. encarou os números por alguns segundos, respirando fundo na mais pura preocupação com , que já deveria ter chegado em casa há, pelo menos, cinco horas.
Enquanto suspirava procurou por algum sinal de na tela do celular que estava ao lado do corpo dela… Nada.
Nenhuma mensagem recebida ou ligação perdida. Nada.
apertou os braços que estavam ao redor de suas próprias pernas, num abraço que deveria estar sendo dado por . Se ele estivesse em casa. O queixo repousava nos joelhos, os cabelos soltos por cima dos ombros tensos de preocupação.
não era do tipo que chegava em casa de madrugada, principalmente, quando ele e tinham que acordar cedo no dia seguinte pra trabalharem. Ele era um profissional responsável e que detestava se atrasar e causar problemas para os outros. E, além disso, ele também tinha uma responsabilidade emocional com . Afinal, ele mais do que ninguém sabia que a noiva só conseguia dormir tranquila quando ele estava ao lado dela, dividindo a cama e a abraçando. sabia descobrira isso não muito tempo depois que começou a namorar .
gostava de saber que se sentia segura e, por isso, mais confortável quando ele estava por perto. Sabendo disso, ele fazia questão de estar sempre por perto e de abraçá-la durante o sono, nunca reclamando de ser o travesseiro da, agora, noiva. amava saber que o tinha como seu porto seguro, assim como ela era o dele.
Ele a amava tanto.
O que mais afligia naquela noite de domingo, não era apenas a demora de em voltar para casa, e sim a ausência de notícias. Qualquer mensagem curta, ligação rápida ou sinal de fumaça, aceitava qualquer coisa. Ela só precisava de algum sinal de vida de que sempre avisava quando saia e iria chegar tarde em casa.
Entretanto, mesmo estando aflita e preocupada, se recusava a deixar que pensamentos negativos ocupassem sua mente. Ela não podia deixar que suposições, e se e lembranças de tragédias que ouvira no jornal tomassem sua mente e a deixassem mais ansiosa com a demora e falta de notícias de . Ela sabia que pensar negativamente não a ajudaria em nada. Era melhor se manter firme no pensamento de que estava bem, com seus amigos, feliz e distraído o suficiente para não se dar conta de que as horas estavam passando e que estava tarde demais. Era mais seguro pensar que não mandara noticias porque o celular descarregou e ele nem percebera – o que já tinha acontecido tantas e tantas vezes. Era melhor pensar que ele chegaria em casa em breve, a contaria como fora engraçado o encontro com os garotos na casa de , e juntos ririam.
Para o bem do emocional e psicológico de , era melhor pensar que estava são e salvo.

xxxx

conseguiu se acalmar um pouco e foi se deitar quando o relógio marcava duas e meia da manhã, após tomar uma xícara de chá. Precisava dormir. Se forçar a dormir.
Tinha trabalho no dia seguinte, não podia continuar acordada esperando por . Ou melhor, tinha uma reunião importante com seu chefe e um possível – e importante – novo cliente. Não podia se dar ao luxo de chegar atrasada na empresa do ramo de seguros que trabalhava como assistente do presidente e chefe de alguns setores. Não poderia acordar com o humor ruim por ter dormido tão pouco – o que já sabia que aconteceria, então, precisava dormir urgentemente.
Antes de fechar os olhos, encarou a tela do celular mais uma vez quando o colocou ao lado de seu travesseiro, e acabou por suspirar profundamente ao não encontrar nenhuma noticia de ou de algum dos garotos. Puxou a coberta para cima do corpo, cobrindo-se até o queixo, se encolheu e fechou os olhos. Tateou cegamente a cama em busca do travesseiro que ficava ao lado do seu, aquele que pertencia a , o abraçou enquanto pedia ao universo ou a alguma divindade que estivesse realmente bem.

xxxx

sempre tivera sono pesado, custava a acordar, mas, naquela noite estava tão preocupada que seu sono estava leve, o que era bom. Pois foi por estar com o sono leve que não demorou a acordar quando ouviu barulhos pelo quarto, passos, e logo a voz de reclamando de dor. Ele, muito provavelmente, batera o dedinho de um dos pés na quina do móvel que ficava ao lado da cama. De novo.
Ele estava em casa, afinal.
A preocupação e o cuidado de em não acordar , evitando acender a luz do quarto e tentando ser o mais silencioso possível, junto com o seu retorno para casa, foram o suficiente para acalmar o coração e todo corpo de que agradeceu aos céus por ter de volta. Por tê-lo perto de si novamente.
continuou quieta encolhida debaixo da coberta, esperando por que não demorou a subir na cama, afundando o colchão ao deitar-se ao lado da noiva que o esperava ansiosa.
esperou a noite toda pelo o que viera a seguir: levantando a coberta para se cobrir também, colocando em seguida o braço dele em cima do corpo da noiva puxando-a para perto de si, encaixando os corpos que pareciam terem sido feitos para ficarem juntos.
Só então ela pôde respirar tranquila, seu coração se acalmar e o mundo parar de girar tão rápido. Amanhã conversaria com , o questionaria sobre a demora e a falta de noticias, mas, por ora precisava dormir e preferia se acalmar e aproveitar o retorno dele.
Estava tudo bem. estava de volta. Ele a abraçava, a guardava naquele abraço tão bom. dormiria com mais uma vez, como sempre. Estava tudo bem.
Porém, como tudo em sua vida mudava drasticamente de um segundo para o outro, o humor de também mudara rapidamente: tudo porque o perfume que emanava do corpo de , e que vinha junto com fragrância da loção de banho que tinham no banheiro da suíte, não era compatível com nenhum perfume dela ou dele. Era doce e forte demais, enjoativo até, para ser de um deles dois. só usava perfumes amadeirados e usava os cítricos.
Porém, mesmo não usando aquele tipo de perfume sabia reconhecê-lo, identificar, e saber que se tratava de um perfume feminino. E estava forte demais para ter sido passado para apenas por um abraço ou cumprimento rápido. Ela sabia que precisavam de alguns toques a mais para que um perfume passasse de um corpo para o outro.
Toques mais intensos.

 


02 de junho de 2017.

odiava como observar os gestos, as atitudes e falas de tinha ganhado um novo significado há três meses. Ela odiava como deixara de observá-lo porque amava fazer aquilo e sim porque estava à procura de alguma pista, alguma falha dele.
Assim como odiou não ter conseguido acreditar em quando ele explicou seu atraso e falta de noticias meses atrás com “Você conhece o , amor, ele não sabe a hora de parar de beber e jogar”. Ela odiou ainda mais a forma que ele agia, como se não tivesse chegado em casa com um perfume feminino no corpo na madrugada de domingo para segunda-feira, enquanto ela estava aflita a espera de noticias dele.
A mulher odiava ter chegado naquele ponto em seu relacionamento com . Odiava não poder mais confiar nele, desconfiar de tudo que ele falava ou fazia. Odiava ver o olhar e o sorriso que ele dava para ela, o mesmo sorriso e olhar de antes: como se ainda fosse a única mulher da vida dele. Odiava a forma com que ele pegava em sua mão, contava como havia sido seu dia e logo depois perguntava como tinha sido o dela. Odiava como ainda parecia se importar com ela. Como se nada tivesse acontecido. Como se ele não tivesse feito nada de errado.
Mas, acima do ódio, também sentia dor.
Doía observar a procura de alguma confissão da parte dele. Ouvi-lo compartilhar momento de seus dias na esperança de ouvir, encontrar, qualquer deslize dele que deixaria escapar que ela não era mais a única mulher da vida dele. Doía ter que segurar e apertar a mão de mais forte do que o normal na tentativa falha de se convencer que estava tudo bem. Que ele ficaria ali com ela, que tudo não passava de um mal entendido. Doía não acreditar quando ele falava que estava indo encontrar com os garotos ou indo a um jantar de trabalho com os produtores da agência musical que ele fazia parte.
Doía não poder confiar em .
Doía um pouco mais quando ela percebia que ainda o amava. Que apesar de tudo, mesmo sabendo que não era mais totalmente seu, ainda o amava. E essa era a pior dor de todas, a mais aguda e persistente: Ela o amava, mas sabia que seu amor não havia sido o bastante para mantê-lo apenas para si. Seu amor não fora o suficiente para . Para o homem que a jurou amor eterno por tantas e tantas vezes.
– Quer um babador? – tomou um leve susto quando sentou ao seu lado, fazendo a pergunta em forma de brincadeira enquanto ria. – É sério, você precisa disfarçar um pouco esse amor todo. Você baba por ele, . Ew.
sorriu sem graça, com vergonha por ter sido pega no flagra encarando o noivo que naquele momento ria de alguma coisa junto com , e do outro lado da sala na casa de e . Eles estavam ali para mais uma das tantas reuniões que faziam na casa do casal, o que era costume deles.
– Vou tentar disfarçar da próxima vez. – prometeu, rindo junto com , sua melhor amiga de infância, que bebeu um gole da cerveja que segurava. – Mas, não é como se você pudesse me julgar tanto assim. Você também fica babando pelo .
– Ops, não nego. – estalou a língua no céu da boca, erguendo os braços em rendição.
– Tá vendo? Para de olhar pra ele e olha pra mim! – estapeou a amiga que riu ainda mais.
– Uh, tá com ciúmes meu amor? Vem cá, vem. Você ainda é o amor da minha vida uh, neném. – implicou, deixando a long neck que segurava cima da mesa de vidro da sala, abraçando que não conseguiu ter nenhuma reação contra o ataque.
– Ei! Me solta! – pediu entre risadas e tentativas inúteis de se soltar daquele abraço agressivo, mas, fofo. – ! Eu preciso respirar! – avisou a amiga que pouco se importou e continuou abraçando-a. A mais velha se jogou de vez em cima de , derrubando-a deitada no sofá, rindo da pequena-agressiva-e-carinhosa bagunça que faziam no estofado de dois lugares que parecia menor naquele momento. – ! Ai!
– Não adianta chamar por ele. Eu não vou te lagar tão cedo. Na verdade, acho que vou dormir um pouquinho aqui. – se virou em busca de uma posição melhor, deitando em cima de que já estava muito mal deitada no sofá e continuava resmungando. – Ai. Ei. Fica quieta.
– Sai! – Pediu mais uma vez e, mais uma vez, foi ignorada. – ! Me ajuda!
que estava deitada em cima da amiga, procurando uma posição confortável para si, não viu quando se aproximou de onde as duas estavam.
– Amor, deixa a . Desse jeito você vai acabar caindo e ela ficando sem ar. Seu cabelo está no rosto dela, . – ele pediu num tom de voz baixo e calmo, o tom que só aparecia quando estava falando com a namorada. Era um tom de carinho acima de tudo.
– Tira ela de cima de mim. – empurrou o corpo da amiga que se fazia de mole para dificultar ainda mais o trabalho da garota que estava embaixo de si. – !
– Eu estou muito bem aqui, obrigada. – os respondeu, não dando a mínima para o pedido de ou a tentativa de de tirá-la dali. – Garota, fica quieta.
– Amor, deixa a . Vem, vamos comer um pedaço da torta gelada que comprei pra você hoje de manhã.
– Não ‘tô afim. Eu te pedi mais cedo e você fez drama falando que era pra mais tarde, blábláblá. Sai daqui, me deixa. – o respondeu, soando como uma criança ofendida e gesticulando com as mãos para que o namorado saísse de perto.
– Você negou um pedaço de torta? Como pôde?! – perguntou a , incrédula com a atitude to homem que abriu a boca para se explicar e não conseguiu.
– Exatamente! – falou antes do namorado, ao sair de cima da amiga e ficar de pé diante dela. – Ele é ruim. E, bem feito que a sua consciência tenha ficado pesada. – apontou para o homem, encarando-o seriamente como se tivesse cometido um crime. – E, só por isso, agora vou comer aquela torta inteira sozinha. Tchau!
– Boa sorte. – desejou a enquanto se sentava no sofá, sentindo algumas partes do corpo lhe agradecendo por ter saído da posição desconfortável em que estava por culpa de .
– Obrigado. – ele agradeceu e riu junto com , antes de seguir o caminho que tinha feito até a cozinha.
e deixaram sozinha no sofá da casa em que moravam, sem que antes soubesse o verdadeiro motivo pelo qual a amiga encarava tão atentamente minutos antes. Não era por amor ou por babar por ele.
queria contar para o que estava acontecendo em seu relacionamento com , mas ainda não tinha encontrado coragem. Ela sabia que se contasse, muito provavelmente, questionaria sobre as atitudes de seu melhor amigo e ajudaria na busca por provas. não queria causar problemas entre os dois ou entre e , preferia continuar fazendo tudo do jeito que estava. Enquanto rezava para que o relacionamento de e não chegasse naquele ponto em que o dela e de estava.
conheceu através de , pouco depois que ele e começaram a namorar, mas só aceitou namorar com três anos depois. Isso tinha haver com traumas passados que fizeram com que construíssem um muro de resistência em volta de seus sentimentos. Muro este que foi derrubado por que, pouco a pouco, mostrou para a mulher que ele poderia ser diferente de todos os outros que ela havia conhecido antes dele. mostrou e continuava mostrando a que o amor valia a pena, enquanto a fazia se sentir a mulher mais feliz do mundo. era grata a pela maneira com ele tratava sua melhor amiga e como a amava.
Mesmo conhecendo como ninguém, ainda se questionava como a amiga reagiria se estivesse em seu lugar. E, muito provavelmente, jamais esperaria tanto tempo para questionar a que perfume era aquele que estava em seu corpo quando ele chegou de madrugada em casa. brigaria com o namorado até que ele confessasse toda a verdade e, então, ela o bateria nele e o expulsaria de sua casa e sua vida em menos de dez minutos após saber a verdade. sabia que jamais esperaria por provas, jamais aguardaria o belo dia em que contasse toda a verdade.
Entretanto, aguardava pelo dia em que fosse honesto com ela e com o relacionamento deles. Por isso, ela ficava nervosa sempre que ele a chamava para conversar com um tom de voz sério. Ela sempre esperava pela verdade. Porém, na maior parte das vezes, só estava brincando de assustá-la e a perguntava o que comeriam ou para onde iriam. Ele gostava daquelas brincadeiras desde sempre. também gostava de fazer aquilo com ele, as caras de sustos sempre rendiam risadas em ambos e tudo sempre terminava com alguns beijos, pedido de desculpas quando o susto ia longe demais. Era legal, apesar de bobo.
gostava daquilo, era uma das coisas deles dois.
Gostava. Hoje em dia, ela odeia.

 

 

02 de setembro de 2017.

estava quase chorando dentro do elevador do prédio em que morava. O dia havia sido tão estressante e ainda mais cansativo. Ela quase discutiu quatro vezes ao longo do dia com o chefe, pelo menos. E, pra completar, estava chovendo. Mayh não gostava quando chovia, principalmente quando ela não podia ficar em casa, enrolada numa coberta quentinha enquanto assistia a qualquer um de seus filmes favoritos ou a alguma série. Detestava não poder aproveitar o dia preguiçoso que o tempo chuvoso pedia, isso a desanimava.
Quando as portas do elevador se abriram mostrando a porta da casa de a sua frente, ela soltou um suspiro de alivio. Estar em casa era, definitivamente, a melhor parte daquele dia. Só a visão da porta de madeira escura era o suficiente para tirar o peso que tinha em seu corpo.
A mulher mal podia esperar para tomar um banho morno, vestir uma roupa folgada – de preferência apenas calcinha e alguma camiseta, e se jogar na cama sem ter hora para levantar. Dormiria por horas a fio. Afinal, era noite de sexta-feira e se recusava, agora mais do que nunca, a acordar cedo em pleno sábado depois da semana extremamente cansativa emocional e psicologicamente. Ela não acordaria cedo, não mesmo. Por nada e ninguém. E, se por acaso, a chamasse às seis horas da manhã dizendo que precisava lhe contar toda a verdade, se recusaria a escutá-lo. Ela o mandaria calar a boca e o faria esperar até o momento em que ela acordasse sozinha, afinal, quem esperou todos esses meses poderia muito bem esperar mais algumas horas.
soube que demoraria a dormir quando abriu a porta do apartamento e encontrou num dos sofás da sala, vestindo roupas sociais. Ela fechou a porta atrás de si, encarando confusa o homem que se levantara e caminhou com calma em sua direção. tinha nos lábios um sorriso que ainda mexia com o interior de .
Ela odiava o poder que ainda tinha sobre si. Era ridículo.
– Porque está vestido assim? – perguntou a ele que, quando já próximo o suficiente, pegou a bolsa de e a pendurou no suporte que ficava ao lado da porta.
– Hoje teremos um jantar especial.
, está chovendo – avisou, observando o homem se abaixar na sua frente para tirar dos pés de os saltos que ela usou durante o dia inteiro.
– Eu sei, e eu não disse que jantaríamos fora – comentou, erguendo o rosto para observar a face da mulher que observou o sorriso dele. – Eu fiz o jantar. Eu sei que a sua semana foi cansativa, reparei em você e no seu humor todos os dias… Como sempre faço. Então, hoje você não vai se preocupar com mais nada. Vai apenas relaxar e descansar.
odiava como ainda amava o olhar e sorriso de .
Deveria ser proibido que a traísse e continuasse olhando para como se Mayh ainda fosse a coisa mais preciosa de seu mundo, como se ela ainda fosse o porto seguro dele.
não podia agir como se nada estivesse acontecendo.

Como o prometido, não se preocupou com nada naquela noite. Ela apenas relaxou e descansou.
cuidou dos mínimos detalhes para que a mulher não precisasse fazer nada, nem mesmo puxar a cadeira para se sentar próxima a mesa de refeições para comerem juntos a refeição feita por ele e que estava uma delicia como todas as outras já feitas por . O vinho escolhido pelo homem era tão bom quanto à comida, e a sobremesa fora o sorvete preferido de .
Depois do jantar, Mayh fora tomar banho enquanto colocava as louças sujas na lava-louças e guardava o resto das comidas. E foi nesse momento, sozinha debaixo do chuveiro sentindo a água morna caindo em seu corpo, que se perguntou se sua mente não estava inventando toda aquela situação em que a traíra. Será que o perfume que ela sentiu emanar do corpo dele não era de alguma das mulheres que já conhecia e a abraçou como comprimento? Será que toda aquela certeza que tinha de que estava sendo traída não era fruto de sua imaginação? De sua insegurança? Afinal, não era possível que ele a traísse e continuasse lhe tratando tão bem, não é? não poderia estar vivendo um relacionamento com outra mulher ao mesmo tempo em que conseguia agir tão bem, tão naturalmente com , como se nada tivesse mudado.
Mayh não queria acreditar que o noivo fosse capaz de estar lhe enganando, e vivendo sua vida normalmente como se isso fosse a coisa mais natural e fácil para si.
A recepção, o jantar e os toques que a deu quando adentrou no banho dela, fazendo companhia a mulher que o olhava diretamente, depois de ter ajeito a cozinha da melhor maneira possível, somado a quantidade de vezes que ele sussurrou que a pertencia enquanto ambos estavam molhados, suspirando pesado ao que se tocavam, fizeram com que implorasse estar errada. Que todos aqueles pensamentos e o aperto que sentia no peito fossem fruto de sua ansiedade, imaginação, insegurança.
Porque, na verdade, não sabia o que fazer caso descobrisse toda a verdade e soubesse que conseguia sim lhe tratar feito uma rainha dentro de casa, enquanto também tratava como rainha a mulher que ele tinha na rua.Seria doloroso e decepcionante demais descobrir que sabia descer a um nível tão baixo como aquele e jogar tão sujo.

 

18 de dezembro de 2017.

estava sentada na cama com as costas encostadas na cabeceira enquanto tinha uma bacia com pipoca em cima de suas pernas que estavam dobradas. Ela ria de uma cena do filme que a fez se perguntar o que era mais idiota: a cena do filme de comédia idiota ou ela que estava rindo da cena, quando adentrou o quarto e foi direção ao closet.
esperou em silêncio pelo momento que saiu de dentro do lugar onde ficavam as roupas, sapatos e acessórios do casal. Esperou com o coração acelerado e a garganta ficando seca por saber que a movimentação de indicava que ele estava se arrumando para sair de casa.
E isso só poderia significar uma coisa.
– Vai sair? – questionou o homem que saiu do closet colocando a carteira e o celular no bolso da calça jeans que tinha vestido junto com um casaco de moletom que o deixava, infelizmente, adorável.
– Sim. me ligou. Parece que ele quer fazer alguma surpresa para a , e… Ei, não conta pra ela – riu quando deixou o segredo escapar, e piscou para ele lhe dando a certeza de que não contaria nada para . – Não demoro. É o tempo de eu conseguir acalmar aquele desesperado.
fez um aceno positivo com a cabeça e recebeu o beijo que deixou em seus lábios. Já fazia alguns meses que o beijo do homem havia ganhado gosto diferente. Que causava sensações diferentes em .
Sensações estranhas. Ruins.
Ela observou o homem calçar o par de tênis que pegou no closet, e respirou fundo algumas vezes. viu sair do quarto com uma pressa que ele não usaria se fosse se encontrar com .
! – o gritou saindo de dentro do quarto e parando no corredor. parou onde estava e se virou, dando toda atenção a noiva que sorriu ao que lhe fez um pedido: – Quando voltar traz aquele sorvete que vende perto da casa do ? Por favor. Estou com vontade.
– Claro – ele a respondeu com um sorriso. sentiu seu coração se apertar como na noite em que sentiu aquele perfume em . – O mesmo sabor?
– Sim, o mesmo sabor – o respondeu mordendo o interior de suas bochechas. Ansiosa.
– Claro, sempre o mesmo sabor. – Ele brincou como sempre fazia quando estavam falando da preferência de sobre sorvetes. Ela sempre pedia sabor chiclete, e sempre implicava com o fato dela não escolher qualquer outro saber que estava à disposição.
continuou parada olhando caminhar para fora do corredor, mas, não permaneceu parada nem dez segundos após ter escutado o barulho da porta principal do apartamento sendo fechada. Ela voltou para o quarto sentindo seu coração tão acelerado que poderia jurar que o órgão sairia de seu corpo sem a necessidade de uma cirurgia. Sua respiração estava acelerada e lágrimas deixavam sua visão turva quando adentrou o closet e começou a trocar suas peças de roupa.
Ela sabia que independentemente de para onde estivesse indo, ele voltaria para casa com o sorvete que lhe pediu. Então, ela precisava ter a certeza de que compraria o sabor correto.
Na verdade, precisava saber se iria fazer a compra sozinho. Ou, acompanhado. E se fosse acompanhado, ela sabia que ele não estaria com .
Afinal, já tinha informado à amiga que não estava na cidade naquele dia e nem estaria pela próxima semana porque ele tinha viajado a trabalho.

conseguiu estacionar o carro em um ponto estratégico que encontrou depois que passou em frente a sua loja de sorvete preferida, que de fato ficava próxima a casa de . Ela estava apreensiva dentro o veiculo que estava parado do outro lado da calçada, longe da visão de qualquer um que entrasse, estivesse ou saísse da sorveteria.
As pernas de não paravam de balançar, assim como as mãos não largavam o celular que os olhos encaravam de minuto em minuto cronometrando a quantidade de tempo em que estava ali. Tentando ignorar a aliança que estava num dos dedos da mão direita.
O mundo parecia girar tão devagar durante aqueles quarenta minutos em que estava ali que parecia um castigo ou um aviso divino. Talvez alguém não quisesse que ela descobrisse alguma coisa. Ou, talvez estivessem lhe castigando por duvidar do homem que vivia consigo há anos demais e que lhe jurava amor eterno.

Se há quarenta minutos o mundo parecia estar girando devagar, naquele momento ele estava parado.
O mundo, com certeza, havia parado enquanto observava adentrar a loja… Acompanhado de uma mulher.
passou as mãos nos olhos para observar melhor a cena sem que as lágrimas lhe atrapalhasse, para ter a certeza do que via. Ela precisava ver perfeitamente que segurava a mão da mulher loira a sua frente. Que ele ria junto com ela e que eles tinham praticamente a mesma altura.
precisava ver nitidamente o beijo que deixou nos lábios da mulher antes de adentrar a loja para, provavelmente, comprar o sorvete da mulher que os observava escondida dentro do carro e que, na mente de ambos, estava em casa esperando voltar pra casa após enganá-la, traí-la.

Talvez não precisasse dirigir tão rápido pelo caminho de volta para casa se tivesse saído de frente da loja antes de . Entretanto, ela escolhera ficar até o final e observar e a mulher desconhecida pra si saírem da sorveteria. precisou ver beijar a mulher mais uma, duas, três vezes antes de abrir a porta do carro dele para a loira que não deixara de sorrir em momento algum.
Doeu como o inferno, mas precisou ficar até o final de tudo aquilo para ter a certeza de que suas suspeitas não eram fruto de sua imaginação, ansiedade ou insegurança. era mesmo capaz de descer a um nível tão baixo como aquele e jogar tão sujo.

estava sentada no sofá com as pernas dobradas, uma coberta em cima de si, enquanto zapeava os canais da televisão com o controle remoto quando a porta do apartamento fora aberta, exatos vinte minutos após sua chegada.
– Voltei – a voz dele fez com que um enjoo subisse pela garganta de , acompanhado da vontade de chorar. Chorar de raiva. Decepção. – Trouxe o seu sorvete. Quase não consegui, esse era o último pote. Você precisa começar a gostar de outros sabores, amor.
Amor.
a chamou de amor.
riu baixo ouvindo o apelido que antigamente faria seu coração acelerar e borboletas voarem em seu estomago, tão diferente daquele momento.
– Me desculpe por te dar trabalho, amor – ela se desculpou tão falsa quanto todo aquele teatro que era capaz de fazer. observou o homem sorrir antes de deixá-la na sala e ir até a cozinha deixar o sorvete no congelador, antes de voltar e sentar ao lado dela.
– Sem problemas. Você nunca me dá trabalho – riu despreocupado, e ela continuou a observá-lo.
Era realmente decepcionante ver como conseguia agir normalmente com depois de ter estado com outra mulher.
Era decepcionante.
Doloroso.
Frustrante.
– Como o está? Conseguiu acalmá-lo? – o questionou tendo que pigarrear quando sua voz falhou ao pronunciar o nome do amigo que não tinha nada a ver com a traição de .
– Sim. Você sabe que eu sempre consigo acalmar aquele idiota – respondeu rindo, encarando a noiva. – Vou tomar banho, já volto e podemos assistir algum filme.
avisou e se levantou do sofá. Parou em frente à que sentiu uma lágrima escorrer de seus olhos, que estavam fechados, para sua pele, segundos após ter recebido um beijo nos lábios do noivo que a deixou sozinha em questão de segundos.
Do noivo que tinha o perfume de outra.

não soube identificar o que viu nos olhos de quando ele voltou para a sala alguns minutos depois, após tomar banho e vestir uma roupa larga. Ela não sabia descrever com palavras o que viu na expressão facial do homem quando os olhos dele viram as malas no meio da sala. não saberia dizer se foi surpresa unicamente, desespero disfarçado pelo sorriso que os lábios mostraram.
– Vamos viajar? – perguntou sorrindo enquanto olhava das malas para .
– Não – ela o respondeu ao deixar o copo de vidro que usara para beber água em cima da mesa de vidro. Caminhou a passos curtos e lentos em direção ao homem que deixou de sorrir e erguera as sobrancelhas. – Eu estou indo embora, amor.
– Embora? Que? Por quê? – abriu a boca em total surpresa e o odiou ainda mais, sentiu ainda mais nojo, ao ainda sentir o perfume doce enjoativo misturado com a fragrância do sabonete que tinham no banheiro. – Como assim?
– Eu cansei. – Deu de ombros como se nada fosse nada demais.
– Cansou? Do que? De mim? – questionou quase interrompendo a mulher que o observava atenta, séria, agora com os braços cruzados.
– Eu me cansei de sentir esse perfume doce, forte, enjoativo vindo de você. Cansei de ficar te esperando chegar em casa de madrugada com esse cheiro que me dá ânsia. Cansei de ser fiel sozinha a esse sentimento que, aparentemente, só eu sinto e dou valor. Eu cansei de amar sozinha, . E, principalmente, me cansei de ser feita de idiota. – Abriu os braços quando terminou de falar nem a metade das coisas que tinha guardado dentro de si, a língua estalou no céu da boca enquanto o coração batia acelerado.
– Do que você está falando?! – perguntou dando alguns passos na direção de que o parou ao erguer a mão na direção dele. – Amar sozinha? Eu te…
– Não! Não se atreva! – o interrompeu com gritos, erguendo o indicador diante do rosto dele que se assustara ao ouvi-la falando tão alto como nunca antes. – Não se atreva a dizer que me ama. Não se atreva a mentir na minha cara! Não se atreva!
– Eu não minto pra você!
– Então, me diz . Me responde com sinceridade – pediu mordendo o próprio lábio inferior ao respirar fundo e fechar os olhos por alguns segundos, pedindo forças aos céus para não chorar na frente do . Ele não merecia vê-la chorando, presenciar as lágrimas molhando seu rosto. – De onde você veio ainda agora? Pra onde você foi quando saiu daqui de casa? Me responde, – pediu novamente, encarando o homem que tremeu a sua frente de desespero por ter sido pego. – Como você estava com o , como disse que estaria, se ele viajou a trabalho e só volta daqui uns dias?

– Em menos de quatro horas você pegou um avião, foi até ele e voltou? – questionou ao interrompê-lo. – A surpresa que ele quer fazer pra é tão importante assim pra você? – ela riu irônica, com raiva. – Eu quero a verdade. Porque eu já sei a verdade, . Mas eu quero ouvir de você. Vamos, . Diga-me a verdade!
intercalou o olhar da mulher a sua frente e as malas próximas a ela. Ele tinha o coração acelerado, sentia-se contra a parede.
Um verdadeiro covarde.
– Eu preciso que você me escute – afirmou num tom tão baixo que ficou em duvida se sentia vergonha do que vinha fazendo, ou se ele era apenas um maldito de um covarde sujo que tentaria manipulá-la. E, bem, diante do quão bem ele atuara nos últimos meses… já sabia qual das duas opções era a correta.
– Eu quis te escutar, . Durante meses eu quis te escutar. confessou fazendo o homem entender que não, ela não queria e nem iria ouvi-lo. – Durante meses eu quis que você me contasse para onde sua mente ia quando você ficava quieto. Eu quis que você me chamasse para conversar, pra me contar tudo o que estava acontecendo. Os seus motivos. Porém, você não me chamou. Não me contou. E durante meses, MESES, eu senti o gosto da desonestidade em seu beijo, seus toques e palavras. No seu cheiro.
… Eu…
– Durante meses eu desconfiei das suas atitudes. De todas elas. Eu comecei a ver um motivo obscuro por detrás de cada uma delas, – ela o interrompeu novamente, a voz tremula infelizmente combinando com as lágrimas que começaram a molhar seu rosto. – Você mudou. Se tornou irreconhecível para mim. E nada… – suspirou, passando as mãos pelo rosto para secá-lo, suspirando ao encarar o homem diante de si que tinha os olhos avermelhados molhados de lágrimas. – Nada doeu mais do que o sorriso que eu tanto amava ver em seu rosto e que ficou apenas na minha memória. Você foi pra minha memória mesmo morando comigo, . Você mudou tanto. Eu não te enxergava mesmo tendo você na minha frente. Você se tornou alguém novo, desconhecido, diante dos meus olhos. E doeu como inferno não gostar desse novo . Doeu não ser verdadeira e inteiramente feliz com essa nova pessoa como antigo você me prometeu que seriamos.
– Me desculpe, por favor.
– Eu quis tanto que você me contasse! Eu quis precisar não te testar. Eu quis não te seguir. Eu quis tanto que você me contasse! Porra! – continuou falando, ignorando totalmente o pedido de que chorava diante de si. O choro do não doía em como deveria. Afinal, como ela dissera, aquele não era o que ela conhecia e amava. Aquele diante de si era o que sentia nojo e raiva. – Mesmo cansada de tudo isso, de te esperar, de me questionar se eu estava enlouquecendo, eu quis escutar de você. Eu mantive meus ouvidos atentos. Por vezes eu fingi que estava dormindo, quem sabe assim você me faria alguma confissão secreta. Eu rezei para te pegar sussurrando… Rezei para que você me flagrasse escutando. , eu rezei para que você me contasse a verdade, porque assim eu não precisaria vê-la com os meus próprios olhos depois de te seguir! Porque doeria menos! Porque eu confiava em você! Eu confiei na sinceridade que achei fazer parte de você! Mas, – parou para respirar fundo, com os estomago embrulhado. – podemos perceber nitidamente que todo e qualquer esforço que eu tenha feito fora em vão.
, ei. Amor. Ei, me escuta. Olha pra mim. Por favor.
chamou, implorou pela atenção de que o ignorava enquanto levantava e segurava as alças das duas malas pratas e caminhava em direção à porta do apartamento. Deixando-o para trás.
Ela precisava sair dali. Precisava sair daquele imóvel, da presença de . precisava respirar ar puro e não aquele pesado que sentia ali dentro. Ela precisava se sentir leve novamente e não continuar com a sensação de que tinha o mundo em cima de si, colocando-a cada minuto mais e mais para baixo. Sufocando-a.
, eu terminei com ela! – gritou desesperado quando conseguiu segurar uma das malas, puxando-a para que o encarasse e parasse de andar. – Dentro do carro! Antes de voltar! Eu juro por Deus! Eu terminei tudo com ela, ! Foi coisa passageira! Um erro infantil, eu sei! Eu terminei com ela!
encarou o rosto do homem por alguns segundos, em silêncio, procurando dentro de si algo que a fizesse ficar.
Ela sorriu quando não sentiu nada.
A mão de soltou a mala diante do olhar e sorriso de . Ele sabia que tinha perdido. Ele a observou voltar a andar em direção a porta.
tinha mudado, e sabia que não poderia, não conseguiria e jamais se obrigaria a conviver com um estranho. Um estranho que a causava repulsa. sabia que jamais conseguiria amar aquele homem que estava em seu campo de visão quando ela atravessou a porta do apartamento, parando no corredor do prédio.
– Tudo bem. Eu acredito em você. Eu acredito que você tenha terminado com ela – assegurou, orgulhando-se de si por perceber que era mesmo possível pegar algumas das manias do outro após algum tempo de convivência. Afinal, naquele momento, mentira perfeitamente como . – Mas, eu terminei com você.
retirou a aliança do dedo diante dos olhos de , e sorriu antes de jogá-la em cima dele junto com a chave do apartamento que tinha em seu chaveiro antes de puxar a porta e fechá-la.
A aliança, a chave e o homem que ficaram dentro daquele apartamento não tinham mais espaço na vida de . E ela sentia-se leve por isso.

FIM.

Nota da autora:
Essa fanfic foi inspirada na música “Pray You Catch Me” da rainha Beyoncé. Tenho muito orgulho dessa fic, espero que vocês gostem e consigam pegar a mensagem que tentei passar. E mulherada, não importa o que aconteça sempre tenham em mente que: Você pode mais. Você É mais! Você não merece menos do que tudo! E você não está sozinha, tenha certeza!
Por favor, não se esqueçam de comentar o que acharam. E, até a próxima! <3 xx
Meu twitter: @loeykwon