Prism

Prism

Sinopse: “Uma cor específica, um aroma peculiar e um amor capaz de revirar perspectivas. Para que juntos pudessem brilhar sob todos os espectros da luz, passo a passo ela foi capaz de colorir seu coração e de mudá-lo para sempre.”
Gênero: Romance.
Classificação: Livre.
Restrição: Os nomes Youngmin e Minwoo já estão em uso.
Beta: Alex Russo

Capítulo Único

O peculiar cheiro de chuva junto ao barulho constante das gotas d’água atingindo as vidraças das janelas havia lhe tirado mais cedo da cama naquela manhã preguiçosa de domingo. Apesar da precipitação típica de verão, o clima parecia completamente agradável, o que o fazia crer que logo o sol tomaria seu lugar em meio às nuvens passageiras. Contemplativo como sempre, sorveu mais um pouco do chá que preparara para si um pouco antes e apreciou a vista da cidade pela varanda do pequeno apartamento com Niels, um Coton de Tulear de pêlo branquinho e espesso, se movendo sob seus pés descalços em busca de carinho. A brisa fresca adentrava o lugar e acentuava o aroma de lavanda que ela tanto gostava e que estava por toda a casa desde que ela chegara para ficar.
A sinestesia acentuada de lhe levara a nutrir uma ligação muito especial com a última cor do espectro visível da luz. A violeta tem gosto de calmaria e me ajuda a não me perder em minha natural confusão de sentidos – ela lhe dissera certa vez. Por conta disto, a primeira coisa que fez ao se mudar para o apartamento dele fora acender um incenso de lavanda e perfumar todos os cômodos enquanto cantarolava Purple Rain, de Prince – uma cena adorável, por sinal, que ele gostava de revisitar em sua mente repetidas vezes –, o que permitiu a se acostumar com a essência da flor de lavanda lhe abraçando todos os dias desde que a ela entrara em sua vida.
Para , violeta possuía sabor, cheiro específico e textura molhada por garoa de verão e apesar de parecer confuso para no início, já que seu senso lógico o levava a encarar essa diferença com pouca naturalidade, ele aprendeu a apreciar a incongruência de suas captações sensoriais, descobrindo junto com ela a riqueza poética – e a beleza da poesia ele também aprenderia com a mulher – do que lhe fazia tão única, tão vibrante e tão brilhante e não somente aos olhos dele, mas diante de todos os seus sentidos, aqueles todos que pareciam ter se desenvolvido melhor depois dela, mas especialmente de seu coração.
Junto da brisa que reavivava o aroma preferido da mulher que amava, a mente de imediatamente revirou-se em uma de suas lembranças favoritas com ela: o dia em que se conheceram. Gostava de pensar naquele dia como um marco em sua existência. Sim, essa era a importância de em sua vida. Era tamanha que funcionava como um divisor de águas, porque o revirara de dentro para fora como um ideal revolucionário e colocara diante de perspectivas desconhecidas o homem pragmático e nada ousado que ele gostava de ser.
, porém, sentia apreço maior pela lembrança que flutuava em sua mente porque fora o dia em que ela lhe contara qual era a sua cor favorita, daquela sua forma excêntrica que parecia se equilibrar entre a malícia e a inocência e misturava bravura e cuidado em cada ação. Ele ainda se lembrava exatamente de como se sentira e fora apenas a primeira vez em que ela iria colorir seu coração com uma nova cor e com um novo significado.

◄ TRÊS PRIMAVERAS ANTES

Durante a primavera, o pico da montanha de Hwangmae se tornava uma ilha em meio ao mar de azaléias que floresciam ao seu redor. Este fenômeno natural apaixonante fora o que levara Youngmin e Minwoo a escolherem Hapcheon, na província de Gyeongnam, como local para celebrarem sua união em meio aos familiares e amigos. O resort ecológico muito mais adaptado a receber caravanas atléticas ou turistas aventureiros que buscavam a exploração das trilhas montanhosas estava com seu jardim aberto completamente ornamentado para o casamento. Após a cerimônia civil, os convidados se espalhavam pelo local em confraternização aos noivos e em um clima aconchegante e afetuoso.
No final da tarde, como resultado do intenso calor da manhã, uma breve e fina chuva caíra sobre a grama verdinha do jardim bem cuidado, fazendo com que os presentes corressem para se abrigarem na tenda central. Minutos depois, quando os ventos já sopravam as poucas nuvens mais carregadas em direção ao leste, todos puderam ouvir o exclamar emocionado da mãe de um dos noivos, chamando atenção para o céu onde o arco colorido começava a se formar graças ao retorno do sol. Parecia que a natureza estava presenteando os dois rapazes com aquele fenômeno tão comum em um dia tão especial. As cores do arco-íris coloriram o céu azul sob burburinhos emocionados, fazendo com que os dois rapazes fossem às lágrimas novamente, bem abaixo das lâmpadas coloridas que funcionavam como a representação da bandeira LGBT+, semelhantes às que estavam no firmamento naquele momento. Para Minwoo, o lado sempre mais espiritual do relacionamento, era como se as forças da natureza mostrassem para eles que estavam orgulhosas da coragem e da persistência em celebrarem o amor que teciam juntos, mesmo com as inúmeras adversidades que encontravam pelo caminho.
sorria solenemente para a cena à sua frente, enquanto a mãe de Youngmin insistia para que a fotógrafa da cerimônia encontrasse um jeito de enquadrar o arco-íris em um foto de seu filho e seu genro antes que ele desaparecesse do céu. Um pouco afastado de onde as pessoas estavam mais aglomeradas, o rapaz apenas apreciava o tom natural do lugar ao seu redor, que parecia ainda mais bonito após a chuva e que definitivamente trouxera até eles um aroma que ele ainda não sabia decifrar, mas que lhe parecia profundamente doce. Ele inspirou o ar um pouco mais profundamente a fim de forçar a memória a nomear o que seu olfato capturava, mas fora ela quem lhe dissera primeiro, quando parou ao seu lado silenciosa e graciosamente.
– São as azaléias. – sorriu sem lhe olhar, encarando as cores no céu como a maioria dos convidados ainda fazia. – Com a chuva e o vento, o aroma que toma as montanhas chega à planície mais próxima e perfuma toda a área ao redor.
abaixou seu olhar para a mulher ao seu lado, reconhecendo-a do altar, onde estivera como madrinha por parte de Minwoo, agora esposo de seu amigo Youngmin. Seus cabelos curtos continham respingos de chuva, mas ela parecia não se importar enquanto apertava os olhos para enxergar o céu com mais nitidez. Por um momento seus olhos se fecharam enquanto seu rosto ainda estava inclinado para cima e ela inspirou profundamente, como ele próprio fizera anteriormente. Quando voltou abrir os olhos, fitou-o e quase deu um passo para trás diante da intensidade que suas íris transmitiam. Parecia demais para uma mulher com as feições tão delicadas.
– Você estava tentando reconhecer o aroma, não? – ela sorriu ao perguntar, adivinhando que ele estava internamente indagando como diabos ela sabia aquilo – Desculpe, sou observadora demais. – sua risada foi curta, mas o suficiente para que o rapaz apreciasse a beleza dela – É incrível, não é? – seu indicador apontou para o céu e seguiu o arco colorido até onde seu fim apontava, no meio do mar de azaléias que cobriam as montanhas – Minha mãe costumava vir aqui para meditar e me trazia junto quando criança. Os mais antigos contam que Muhak, a monja budista que aconselhava o Rei Taejo de Joseon, também vinha meditar nessas montanhas. – o olhar dela percorreu os picos de terra e os seguiu, atentamente ouvindo seu monólogo – Eu trouxe Minwoo aqui pela primeira vez. Fico tão feliz que ele possa se casar neste lugar.
não conteve o riso nasalado que escapou e colocou as mãos nos bolsos da calça social enquanto sorria para , achando divertido como ela chegara ao seu lado e não parava de falar por um segundo sequer. amava o silêncio, mas descobriria amar ainda mais quando ela o interrompia, quando ela se expressava daquela forma tão espontânea e preenchia tudo ao seu redor com sua energia tão peculiar. Percebendo que fizera aquilo de novo, o acompanhou no riso antes de se explicar para ele.
– Desculpe – a mulher se curvou minimamente –, as palavras fluem de mim com uma facilidade absurda às vezes. É que você parecia tão sozinho aqui. Achei que não faria mal conversar. Você não pode ficar tão calado em festas.
Ela rira novamente, mas se perdeu um pouco em suas palavras. Não estava acostumado a ser observado por ninguém ou receber aquele tipo de atenção tão despretensiosa como a que parecia vir de . Algo se remexeu em seu estômago e parecia expectativa.
– Você estava me observando? – arqueou uma de suas sobrancelhas para ela, fazendo-a rir novamente.
– Seus olhos são lindos, . – ela deixou escapar, mas não se arrependeu, olhando para ele como se o conhecesse há anos. Seus olhos eram grandes e continham um brilho quase melancólico, o que para uma poetisa como ela era o mais clichê processo de inspiração. – Eu tive um vislumbre deles quando você chegou, então talvez estivesse arrumando uma desculpa para olhá-los de perto.
abriu a boca por três vezes, mas nada parecia inteligente o suficiente para ser dito como resposta. O elogio formigava de um jeito agradável em seu peito e apesar de não ser nada educado que ele viesse de forma tão direta como viera, ele não se importava. Parecia sincero e puramente um elogio. Nada além de algo que percebera e colocara para fora.
– Você não precisa dizer nada sobre isso – ela sorriu novamente e parecia ainda mais doce, como o aroma das azaléias –, juro que não foi uma tentativa de paquera.
Sua careta o fez rir abertamente e isso quase a fez voltar atrás no tópico sobre a paquera. Seus olhos eram absurdamente bonitos, mas olhando-o de perto e vendo como suas sobrancelhas grossas se franziam enquanto os lábios dele escancaravam um lindo sorriso, ela percebeu que tudo nele parecia intensamente bonito. O tipo de beleza que é capaz de capturar aos poucos, revelando a cada momento um novo elemento para ser admirado.
– Você é sempre tão direta assim? – suas palavras saíram entre risos e ela deu de ombros.
– Posso ser pior, então eu vou entender se você acenar e sair de perto. – vendo que ele ainda sorria e parecia refutar sua sugestão sobre rir embora e deixá-la falando sozinha, a mulher continuou – A propósito, sou . – apresentou-se informalmente – É um prazer conhecer você, .
O rapaz arqueou uma sobrancelha na direção dela novamente enquanto respondia seu cumprimento com a mesura, o que a fez rir, um pouco envergonhada dessa vez.
– Youngmin me disse o seu nome quando estávamos no altar e você chegou. – ela sorriu ao se justificar, encolhendo os ombros – Você deve estar me achando maluca, não é? – seu riso escapou novamente e ele a acompanhou.
– Na verdade, não. Você é divertida, – ele sorriu para ela, verdadeiramente gostando de sua companhia –, e acredite quando eu digo que não tenho muitas pessoas nessa lista.
– Sua fama de sério o precede – a mulher o encarou com os olhos espirituosos –, mas devo lhe avisar que a minha fama de dissipar cenários metódicos também é boa.
Antes que pudesse respondê-la, ergueu seus olhos para o céu novamente e um bico apareceu em seus lábios, fazendo com que ele virasse para a mesma direção que ela observava, vendo as cores do arco-íris perdendo intensidade, o que os fazia perceber apenas três cores ao invés das sete originais do espectro visível da luz.
– Ah, já está desaparecendo! – seu tom desanimado como o de uma criança o fez sorrir – Não é adorável que ele tenha aparecido justo hoje quando sequer tínhamos previsão de chuva? Foi realmente um presente.
nada respondeu, porque ele possuía razões práticas e científicas para a aparição do arco colorido no céu, mas não queria estragar o significado aparentemente místico que a maioria dava ao que ele comumente chamava de dispersão de luz branca quando estava em sala, ministrando Física Óptica para seus alunos do segundo ano do colegial.
– Qual sua cor favorita, ? – o rapaz quase riu para quão facilmente ela pulava de um assunto para o outro de uma forma totalmente aleatória em sua concepção, mas que para ela fazia o mais completo sentido.
Ele pensou um pouco antes de responder e a julgar pela maioria das cores de roupas em seu closet em um breve vislumbre em sua mente, ele podia chutar que era um tanto monocromático.
– Provavelmente branco. – deu de ombros, mas ela não pareceu satisfeita com a resposta, o que o fez rir novamente quando ela o encarou, desafiadora.
– E se eu pedir pra você escolher do outro lado do prisma? – ele sorriu quando ela se referiu ao objeto comumente utilizado para demonstrações da dispersão da luz em suas diferentes velocidades e frequências, o que significava escolher entre as cores do arco-íris, do vermelho ao violeta.
– Então seria amarelo – seus lábios se esticaram brevemente antes de explicar –, porque me remete ao calor e eu não gosto de frio.
Apesar da justificativa pouco elaborada, sorriu, parecendo completamente satisfeita pela resposta. Ele combinava com amarelo. Seus olhos eram cálidos como a cor e sua aura era atrativa, exatamente como qualquer tom de amarelo deveria ser. Era como lar. Ela quase podia sentir o cheiro de terra molhada e de grãos de girassol torrados ao olhar para ele e era tão bom quanto sentir a sua própria cor favorita.
– Você sabe qual a cor oposta ao amarelo no círculo cromático, eu imagino.
– É violeta. – ele riu, sem saber onde ela queria chegar com aquela conversa, mas não que estivesse incomodado com qualquer coisa, porque conversar com era fácil como aplicar uma velha fórmula matemática em uma equação simples.
Só que ela era tudo, menos simples.
– É minha cor favorita. – ela sorriu ao dizer, desta vez levando seus olhos para o lado oposto de onde o sol estava se pondo, olhando para as azaléias escurecidas pela sombra da noite que se anunciava – Eu acho que amarelo combina com você. Você acha que violeta combina comigo?
Violeta é a última cor do espectro visível da luz, com o menor comprimento de onda dentre as sete e com uma frequência relativamente alta. Após o violeta, a luz passa a não ser mais visível, tornando-se ultravioleta. Por ser a última, violeta ganhou um significado místico ao longo da história, sendo associada à noite e ao descansar da alma em um sentido de calmaria e remanso. Violeta pode ser a última etapa do desafio, porque ela é a ultima cor da luz que os humanos podem captar e após sua frequência talvez nada mais seja o mesmo.
definitivamente achava que violeta combinava com ela.

Sorvendo o último gole de seu chá, o homem sorriu para a rua, confortado pela lembrança tão viva daquele primeiro encontro, que a princípio não parecia fazer o menor sentido, mas que naquele momento ele sabia que poucos casais poderiam ter a sorte de um encontrar tão intenso e cheio de significados quanto o que tiveram. Por ser a primeira vez que a vira, ainda estava longe de ser o homem que era depois que suas vidas começaram a caminhar em paralelo. O homem que fora completamente revirado por .
Como suas cores favoritas no círculo cromático, os dois eram opostos e serviriam à filosofia popular que dizia que eram, portanto, perfeitos um para o outro. Exceto que não acreditavam em perfeições. Por motivos bem diferentes, é claro, mas ainda assim, refutavam a ideia. era físico e tornara-se professor após concluir os estudos universitários. A perfeição, em termos físicos modernos, só poderia consistir no mais pleno caos. Da mais íntegra desordem o universo se expandiu e quanto mais os homens tentassem racionalizar suas imperfeições, mais obstáculos eles encontravam. era poetisa e abandonara a universidade antes de concluir o quarto período. Não encontrara no curso de Letras o que queria para seus versos, que se encaixavam muito mais na bagunça dos poemas marginais do que nos escritos eruditos. A perfeição entediava . A perfeição não existia para . Não eram, portanto, o casal perfeito e amavam não ser.
Amavam o fato de que poderiam acrescentar à vida do outro sem a necessidade da completude. O mito de que ao se tornarem um casal se tornariam um só era para ambos apenas isso, um mito. Quando refletia sobre o quanto o mudou, ele não estava pensando no quanto ele mudou por ela ou para ela ou para que ela se sentisse bem ao seu lado ou para que o quisesse ao seu lado. O fato de o ter feito mudar tanto em alguns aspectos apenas queria dizer que ela lhe mostrou caminhos que ele antes não pensava em percorrer e que ficou feliz por ele escolher fazê-lo sozinho. O reverso também era uma verdade completa. aprendera a ordenar sua bagunça com ele e aprendera a bagunçar sua ordem e ambos o fizeram sem que precisassem abrir mão de suas individualidades e particularidades.
Quando ela se mudara para seu apartamento, depois de um dia exaustivo de mudanças, ele conseguia se lembrar de um dos momentos mais célebres que tiveram juntos. Ambos exaustos, deitados no chão da sala com Niels correndo de um lado para o outro querendo brincar, eles tiveram uma das conversas preferidas de . sempre falava pelos cotovelos e como era um bom ouvinte, ele sempre escutava suas divagações como quem assistia a suas aulas favoritas de física quântica. Nas primeiras vezes, ele tentava racionalizar a confusão de sentimentos que sempre brotava de seus monólogos, mas depois que aprendeu a decifrá-los, apenas os absorvia e aplicava em sua vida a seu próprio modo. Quando pensava nisso, brincava dizendo que era melhor em didática que ele.
Naquele dia em especial eles falaram sobre amor e sobre felicidade em um relacionamento e uma conversa de uma hora fez com que refletisse muito mais sobre os dois assuntos do que em toda a sua vida. Muito se fala sobre amor e sobre a felicidade que ele pode trazer, mas pouco se fala sobre o quanto essa busca só pode ser feita em um relacionamento quando as partes individuais estão plenas de si e era extremamente feliz por compartilhar a sua felicidade com a felicidade da mulher que amava.

◄ UMA PRIMAVERA ANTES

A noite já havia caído e tudo estava finalmente em seu devido lugar, exceto pelos dois corpos cansados largados no carpete da sala. A mudança de a princípio parecia pequena e fácil de adaptar ao apartamento do namorado, mas ambos descobriram depois que podia ser extremamente exaustiva. Quando tudo estava terminado, não conseguiam mover seus corpos do chão gelado, que no momento dava alívio para suas costas doloridas. Niels parecia o único com energia na casa e esfregava o focinho úmido nos dois como quem pedia por uma caminhada noturna pelo bairro que, definitivamente, não iria acontecer.
– Niels, não vai rolar, me deixa! – ela resmungou para o cachorro que a encarava em expectativa, o que apenas a fez rolar os olhos e se virar para o namorado, que ria da cena.
– Ele quer uma caminhada de boas vindas. – implicou, abraçando-a quando a mulher apoiou a testa em seu tronco úmido pelo suor.
– Dispenso essas boas vindas por hoje.
O resmungo saiu abafado pela forma como ele lhe abraçava e se aconchegou ainda mais a ele, entrelaçando suas pernas enquanto ele envolvia sua cintura com mais firmeza, mantendo-a segura e confortável em seu colo. Seu incenso de lavanda queimando na entrada da varanda lhe ajudava a relaxar e a fazia começar a sentir uma brisa fresca de chuva na nuca, mesmo que sequer estivesse chovendo e a temperatura estivesse um pouco mais elevada que o comum.
Aproveitando que ela começava a relaxar, passou a mover seus dedos sobre as suas costas, subindo e descendo pela curva de sua coluna em um carinho brando que ela recebeu de muito bom grado. Dali em diante estaria dividindo com aquela mulher sua vida e compartilhando sua rotina todos os dias. Era uma decisão importante e sabendo quem tinha nos braços, ainda possuía certo receio. Não em relação ao amor que sentia por ela – quanto a isso não existia dúvida alguma –, mas em ser quem ela merecia ao seu lado na jornada que planejava trilhar. Era incomum que homens em sua maioria tivessem ciência das mulheres incríveis que têm em seus braços, principalmente por conta da cultura sexista em geral, mas ele sabia a singularidade que deixava ser abraçada por ele naquele momento e para ela não poderia haver nada senão o melhor.
– ele a chamou quando sua mente se tornou barulhenta demais –, você acha mesmo que vamos fazer isso certo?
vagarosamente ergueu a cabeça para olhá-lo nos olhos, encontrando-os tão bonitos quanto da primeira vez. Só que naquele momento ela conseguia ver além, o que tornava aquelas íris brilhantes ainda mais especiais, mesmo que elas estivessem levemente nubladas por uma dúvida qualquer. O peito da mulher se tornava quentinho quando o olhava nos olhos e ela sempre acabava perdendo alguns segundos apreciando a sensação antes de respondê-lo.
– Isso o quê, meu amor?
Nós. – ele respondeu de imediato – Será que vou conseguir fazer você feliz?
O riso breve que escapou de seus lábios bonitos era doce e tentava atenuar a tensão visível na ruga insistente no meio da testa do homem que a encarava. levou suas mãos até o rosto dele, segurando suas bochechas para manter seus olhos alinhados e tendo a plena certeza de que amava cada pedacinho dele e que quando ele expunha para ela suas dúvidas e seus medos sem hesitar, só conseguia amá-lo ainda mais.
– Você não precisa me fazer feliz, . Assim como não preciso fazer você feliz. – a dúvida que ainda pairava sobre seu olhar fez que ela continuasse a explicar – Minha felicidade depende de mim, assim como a sua depende de você. Estamos juntos aqui, vamos dividir a mesma cama, rachar as contas do mês e alternar as caminhadas com Niels, mas ainda somos dois seres humanos independentes que sabem o que querem, certo? – sorriu para ele, vendo-o assentir devagar, como quem assimilava tudo com cuidado – Você já consegue me fazer bem, me fazer sorrir, fazer com que eu me sinta amada e isso tudo só funciona porque somos pessoas que sabem quais caminhos trilhamos para nossas próprias felicidades.
Era disso que se referia quando dizia que ela o revirava de todas as formas possíveis. Com ideias tão simples quanto revolucionárias, encaixava seu mundo no dele e fazia com que suas concepções sobre qualquer coisa fossem ampliadas, porque enquanto ele via, ela sentia e a estrada de mão dupla entre os dois fluía como nunca antes fluíra em qualquer outro relacionamento que tiveram.
– Lembra quando você decidiu voltar para a universidade para conseguir o título de mestre e conseguiu a bolsa integral? Lembra do quanto ficou feliz e como ficamos felizes juntos por isso? – ela sorriu ao lembrar a festa que fizeram e de como gritara na janela que tinha o namorado mais inteligente do mundo inteiro – Lembra quando eu consegui o contrato com a editora para três publicações? Lembra como eu chorei nos seus braços na banheira e você chorou junto? É disso que se trata. Eu não fiz suas provas e você não escreveu meus poemas, mas eu estava aqui pra você e você esteve aqui pra mim. É isso que importa. Não existe nada mais certo do que fazermos a nós mesmos felizes e podermos compartilhar essa felicidade com quem amamos.
piscou algumas vezes antes de dar a ela um de seus sorrisos mais lindos, aproximando seu rosto para unir seus lábios com carinho e a mais pura admiração. Amava tanto que queria poder ser capaz de compartilhar com ela todas as coisas boas da vida enquanto construíam suas carreiras, suas vidas e preenchiam-nas com aquilo que os fazia bem. O amor nunca foi sobre manter a lacuna vazia para que o outro a preencha e se pensava isso antes, lhe mostrou como era na prática.
– Eu te amo, sabia? – ele sorriu, olhando-a de pertinho e fazendo-a sorrir abertamente.
– Eu te amo igual.
– Obrigado por compartilhar tanto comigo. Eu me sinto tão feliz por ter você ao meu lado.
sorriu emocionada e seus olhos arderam em lágrimas de puro deleite. Desejava que todos pudessem ter um amor como o que construía com : sem amarras, sem pressões, onde ambos podiam apreciar suas frequências distintas se cruzando no interior do prisma, prontos para mostrarem ao mundo uma nova cor do amor sempre que aprendiam algo juntos.
– Não me agradeça por isso, meu amor – ela uniu seus lábios por breves segundos, antes de se afastar para concluir sua sentença –, porque eu me sinto igualmente feliz.

se sentia completamente orgulhoso de tudo que fora capaz de enxergar após compartilhar tanto com . Era como se juntos tivessem sido capazes de encontrarem novos significados para velhos conceitos em cada vez que ela coloria seu coração com um novo sentimento. Ele não era capaz apenas de olhar do outro lado do prisma agora, mas estava do outro lado e havia muito mais do que simples ouro no final do arco-íris.
Pensando nela, ele arrastou seus pés descalços pela madeira bem polida do chão em direção ao quarto onde ela ainda dormia. Seu corpo mal coberto estava esparramado pelo colchão e suas costas estavam expostas para ele, que sorriu para sua feição adormecida. Com cuidado, afastou as cortinas devagar, deixando que a luz do sol, que finalmente tomava conta do céu após a chuva, adentrasse o cômodo em um despertar natural agradável para ela. Na cama, seu corpo foi parcialmente iluminado e as gotículas d’água que ainda deslizavam pelo vidro da janela se ocuparam do trabalho de dispersar a luz que chegaria até ela, formando um mini arco-íris particular para a mulher que possuía mais nuances que a própria luz.
sorriu, capturando a beleza poética da cena a sua frente e apreciando como as cores tocavam suas costas na região lombar, dando a ela um cenário digno de fotografia. Vagarosamente, ele deitou ao lado dela, passando seus dedos por onde as luzes se separavam e dedilhando o carinho que a faria despertar. se remexeu sob o edredom e sons sonolentos escaparam de seus lábios antes que se virasse para ele, encontrando seus olhos sorridentes assim que abrira os seus.
You’re shining, baby².
Seu indicador foi em direção à barriga dela e apontou para o colorido que atingia sua pele. sorriu, ainda sonolenta, e esticou suas mãos para que elas fossem atingidas pelo arco-íris também, antes de entrelaçar seus dedos aos dele, juntando suas mãos sobre a luz, do vermelho ao violeta.
– Estamos brilhando juntos.
sorriu e nada nunca pareceu tão certo para ele como o que ela dissera.
– É como deve ser.
Ele piscou, aproximando-se para beijá-la nos lábios com carinho, momentaneamente se esquecendo da luz, do arco-íris e de todo o resto, porque desde que a tivesse em seus braços, nenhum item externo importava. era a própria luz. Sua própria luz. Não somente a violeta, mas o espectro inteiro e depois dela nada mais importava em ser visto e disso tinha a mais absoluta certeza.

¹Sinestesia é um processo cerebral em que a captação dos sentidos humanos está entrelaçada, involuntariamente levando o indivíduo a sentir, por exemplo, cheiro de cores, tocar sons ou saborear, de forma literal, emoções. Existem inúmeros tipos de sinestesias catalogadas, o apresentado aqui está relacionado ao cruzamento da visão – pela cor violeta em especial – com os demais sentidos e não segue rigor científico em sua totalidade.
²Você está brilhando, amor.

Nota da Autora:
Quando comecei a rascunhar essa estória, não imaginei que os personagens se tornariam tão profundos, especialmente quando minha inspiração foi a música Prism, do SHINee, que tem uma vibe bem mais animada e agitada, mas gostei tanto do resultado que é sempre uma alegria poder compartilhar ela. Espero que gostem e me contem o que acharam. Obrigada pela leitura!
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