Save Me

Sinopse: Ser uma mulher na Marinha não é uma tarefa fácil. Especialmente, quando você se apaixona pelo seu superior.
Gênero: Romance.
Classificação: Livre.
Restrição: Pode ser lida com qualquer pessoa.
Beta: Alex Russo.

Aos sete anos de idade, tudo o que queria era ser uma princesa. Aos dez, a realeza já não lhe encantava: princesa, só se fosse do pop – ‘mais famosa que a Britney, mamãe!’, era o que dizia. Aos treze, chorava pelo sonho de ser atriz de série de TV, ainda que beijar Chad Murray fosse a única motivação. Aos quinze, junto com o pai, foram-se os sonhos. Aos dezesseis veio a rebeldia e a vontade de se ver livre do fim de mundo onde nascera. Aos dezessete, a certeza de que nunca daria certo em coisa alguma. Aos dezenove, veio a Marinha. E com ela, .
Se fechasse os olhos, a mulher ainda conseguia se lembrar do modo como os olhos dele a estudaram com curiosidade quando se viram pela primeira vez – a expressão fechada que mantinha para todos, aparentemente, não tinha efeito algum sobre o Major encarregado de seu treinamento. Havia algo na figura de que impunha muito mais respeito do que gritos e força física jamais poderiam, e a pouca diferença de idade somada ao abismo de patentes entre ele e os recrutas deixava isso claro para todos, caso restasse alguma dúvida.
Ao pensar nas primeiras semanas de bootcamp, quase sentia vontade de rir: na época, ela não tinha dúvidas de que aqueles eram os piores dias de toda a sua vida. Havia um conceito, no entanto, que ainda aprenderia na Marinha: nada é tão difícil, que não possa ser um tanto mais. Os treinamentos físicos muitas vezes faziam com que chegasse à exaustão, mas era a pressão psicológica o que a deixava em pedaços.
. – chamou, depois de liberar a nova turma de recrutas, e ainda conseguia se lembrar do modo como seu estômago gelou naquele instante. Não do modo prazeroso, como ele faria com que sentisse muitas vezes no futuro. Naquele momento, o que sentia ao ser chamada por seu superior, sendo a única mulher em um grupo de cadetes, era algo muito próximo do pânico. Infelizmente, aquela também estava longe de ser a única vez que se sentiria assim naquele ambiente.
— Senhor. – aprumou-se, batendo uma continência que manteve até que ele a dispensasse com um gesto. O movimento ainda não era natural para ela, ele percebia. Havia na garota uma rebeldia velada que quase o fez sorrir: ele percebia pela forma como ela respondia às gracinhas dos colegas, e como fazia questão de chegar ao limite em toda atividade, como se não estivesse acostumada a perder – e não estivesse disposta a aprender.
— Por que você está aqui? – ele perguntou calmamente, o tom em nada semelhante ao que já havia ouvido de todos os oficiais com os quais tivera contato. Era uma pergunta simples, mas para ela soava como a resposta de todas as questões da humanidade.
— Para servir ao país, senhor. – respondeu de pronto, fazendo os cantos dos lábios de se ergueram minimamente, como se fosse exatamente aquilo o que ele esperava: uma resposta vinda diretamente das telas do cinema. Como se percebessem terem sido pegos na mentira, os olhos de se voltaram para o chão. – Você não tem a menor idéia, tem? – ele perguntou, examinando o rosto da jovem: sabia reconhecer uma pessoa perdida quando via uma. Ele fora uma, até chegar àquele lugar. maneou a cabeça minimamente, ainda sem encará-lo.
— Não, senhor. – corrigiu-se, lembrando-se de que deveria sempre responder diretamente a uma pergunta de um superior. E de seus colegas recrutas, segundo muitos deles pareciam acreditar, apenas por ser mulher. Uma semana, e a garota já havia se metido em discussões com meia dúzia deles, inclusive. Um ótimo começo.
— Então descubra. – maneou a cabeça, concordando, e não havia ali a rispidez que esperava: ele falava como se, de fato, desejasse aquilo. E desejava: não havia como sobreviver àquele lugar sem uma motivação clara, e algo na fúria mal contida de fazia com que ele se lembrasse muito de si mesmo, mais do que todos os garotos ao lado dela. – Dispensada.
voltaria àquela conversa tantas vezes durante o tempo, que era incapaz de contar. Descobrir a resposta para aquela pergunta tornara-se sua maior preocupação: o que fazia ali? A garota gostaria muito de ter um motivo nobre para ter desejado se juntar às Forças Armadas, isso é verdade. Não era muito confortável dizer que só havia se alistado porque a mãe insistia que fizesse alguma coisa da vida que não causar problemas e, honestamente, ninguém nunca esperou que ela sequer passasse do Campo de Treinamento. Nem mesmo ela. A cada semana que resistia àquele inferno, no entanto, a pergunta de parecia fazer mais sentido: por que estava ali? Àquele ponto, encontrar uma resposta se tornara uma questão de sobrevivência: a cada humilhação, falha e decepção, tinha mais certeza de que precisava descobrir um motivo. Era isso, ou desistir.
A revelação veio em um dia qualquer, quando ela voltava dolorida para o dormitório e percebeu que aquilo não fazia mais com que pensasse em desistir… Que chegara longe o suficiente para que desistir não fosse mais uma opção.
Aquela era a sua resposta.
— Eu sei. – ela arfava quando chegou à sala de , apoiando as mãos nos joelhos para se recuperar da corrida que a levara até ali. O homem a encarou com curiosidade, e se colocou de pé, batendo uma continência desajeitada tão logo se lembrou com quem falava – Senhor.
gesticulou para que ela abaixasse a mão e deixou de lado os papéis de avaliação física dos recrutas para, enfim, encarar a mulher a sua frente, aguardando que continuasse. Ela sorria, e ele tinha certeza de que nunca a vira sorrir antes, ou se lembraria.
— Eu estou aqui porque ninguém achou que eu conseguiria. – ela respondeu –
Porque eu não achei que conseguiria. – completou, encarando os coturnos assim que a confissão pareceu pessoal demais, motivo pelo qual não viu que os cantos dos lábios de se repuxaram em um sorriso: ele não se enganara, afinal. Eles eram movidos pelo mesmo ímpeto, o mesmo espírito. Não era sobre os outros. Era sobre si mesmos.
— Ainda não terminou, . – ele respondeu daquele modo tão próprio, que a desafiava discretamente. Nem mesmo alterava o tom de voz, mas a impulsionava como nada no mundo faria.
— Eu vou me formar, senhor. – ela respondeu, alargando o sorriso como se já esperasse aquele questionamento dele. Como se o desejasse. – Vou ser a melhor que esse lugar já viu. – completou, e foi a vez de sorrir diante daquele lampejo da petulância que ele costumava ver na garota que chegara ali meses atrás. Ela chegara uma menina, e se colocava diante dele uma mulher que despertara sua mais sincera admiração.
— Então você tem trabalho a fazer. – ele indicou a porta com um meio sorriso –
Não me decepcione, … – murmurou para si mesmo, voltando aos relatórios com o pressentimento de que daquele dia em diante uma conexão diferente se instalara entre eles. E, ainda que soubesse o quão perigoso era aquele presságio, não pôde deixar de sorrir.

+++

— Parabéns pela formatura, tenente. – cumprimentou, vendo o sorriso de se alargar ao uso da nova patente. Agora que ela fazia aquilo com frequência, a vida dele estava se tornando realmente difícil.
— Obrigada, senhor. – ela agradeceu, formalmente – Eu disse que conseguiria. – completou, incapaz de conter o atrevimento, ao que ele agradeceu mentalmente: não esperaria nada diferente de .
— Eu nunca tive dúvidas disso. – respondeu, sinceramente: a garota caía dez vezes e se erguia sempre com a mesma graça da primeira. Havia nela mais resiliência do que ele jamais compreenderia.
fitou o chão por um momento, mas o sorriso nunca deixou seus lábios enquanto ela pensava sobre o que seus lábios urgiam por dizer em seguida. Antes que pudesse pensar demais, e acabar desistindo, deixou que as palavras escapassem de uma vez.
— Nós vamos ao bar dos Fuzileiros, depois que acabar a cerimônia. – comentou, engolindo seco ao perceber o que fazia. – Acho que os outros oficiais também vão, seus amigos… – deixou a frase morrer, envergonhada demais para prosseguir. O que estava pensando?
— Eu… – vacilou, tão surpreso quanto tentado pela ideia: havia regras contra aquilo, ele tinha certeza. Não contra beber com os tenentes, é claro. Contra o que sua mente projetava diante do convite, certamente sim. – Eu vou tentar. – completou, e o silêncio constrangedor que se instalou entre os dois era indicativo de que ele não fora o único a imaginar um desfecho diferente para o fim da noite. – Aproveite a formatura, tenente. – acenou para , buscando outros alunos a quem cumprimentar a fim de afastar da mente aquelas ideias potencialmente problemáticas.
Como se fosse possível.
Em sua defesa, ele realmente pretendia passar o resto da noite em casa, bem longe das tentações. Sem que tivesse escolha, no entanto, seus amigos o arrastaram até o bar para a comemoração dos novos tenentes e, uma vez lá, não havia muito o que pudesse fazer. não foi difícil de encontrar: além de ser uma das únicas mulheres dentro do bar, a garota parecia irradiar a felicidade que sentia… Era algo bonito de se ver. Ela merecia aquilo.
— Você veio! – ela sorriu para ele, dessa vez, assim que seus olhos se encontraram dentro do bar lotado. Era tão estranho para ela não saudá-lo com uma continência, quanto era para ele vê-la de cabelos soltos e saltos.
— Ouvi dizer que vocês estavam pagando. – brincou, arrancando uma gargalhada da garota.
fez um sinal com a mão, pedindo que ele aguardasse, e retornou com duas cervejas, entregando uma ao rapaz.
— Saúde. – brindou, sorrindo, e levou a cerveja aos lábios tentando não encará-la por tempo demais. Os olhos de , contudo, pareciam infinitos nos quais ele se perdia com uma facilidade surpreendente.
! Foto da turma! – alguém chamou, e respirou aliviado ao vê-la se afastar. Ele só precisava vencer aquela noite.
Felizmente, havia gente demais ali para que passassem sozinhos tempo suficiente para que fizesse uma besteira e, assim que percebeu que o álcool começava a nublar sua mente, o rapaz resolveu ir para casa.
! – chamou, correndo atrás dele pelo estacionamento. – , espera! – gritou, e o homem respirou fundo uma última vez, antes de se virar: tinha o rosto corado de frio e os cabelos desalinhados. O ar se condensava diante de seus lábios e havia uma determinação nos olhos dela que fez o homem ter certeza de que aquela mulher seria a sua ruína. E ele não se via nem um pouco tentado a fugir disso.
— Você passou por isso tudo pra se formar e morrer de frio, garota? – ele revirou os olhos quando ela se aproximou, tirando o casaco para colocar em torno dos braços dela.
— Me escuta, por favor. – pediu, ignorando as preocupações de . Precisava dizer aquilo, ou toda a coragem iria embora junto com o teor alcoólico em seu sangue. – Obrigada. Por tudo. Eu… Eu só cheguei aqui por sua causa.
sorriu de canto, olhando por um instante para a noite completamente sem estrelas, antes de encarar de volta a mulher a sua frente. Se ela ao menos soubesse… lhe devolvera um sentimento tão nobre que era curioso que fosse ela a lhe agradecer, quando devia ser o contrário.
— Você chegou aqui por sua causa. – ele corrigiu, dando um passo à frente sem sequer notar. – Nunca deixe que lhe digam o contrário, ok? – perguntou, e os olhos da garota brilharam de lágrimas no instante em que ela concordou. Em um ambiente em que ela era constantemente julgada e questionada, era um ponto de paz.
o abraçou, e o modo como os braços de se fecharam em torno dela foi tão natural que não parecia justo que aquilo fosse errado. Uma das mãos do rapaz estavam em seus cabelos, e ele cometeu o erro grave de respirar fundo, fazendo com que o perfume de invadisse seus sentidos, transformando-a em algo tentador demais para ser real.
… – a voz dele era mais rouca que o habitual, e a mulher cerrou os punhos em sua camisa, tendo dificuldades em controlar o que sentia. Era feito dar vazão a algo que já se acumulara por tempo demais… – Nós não podemos… – murmurou, ainda que ela não houvesse insinuado nada. Estava na tensão tácita entre eles, em todo o não-dito.
— Você não é mais meu instrutor. – ela respondeu de pronto, e quase sorriu: ao menos ele não era o único a perder tempo pensando nas consequências daquilo.
— Eu sou seu superior, isso não mudou. – ele explicou, colocando os cabelos dela atrás da orelha apenas por ser um filho da mãe masoquista, porque o modo como os olhos da garota vasculhavam seu rosto e paravam em sua boca era algo espetacular.
— Então, eu acho que você vai ter que me repreender por isso. – murmurou um instante antes de moldar os lábios de aos seus, destruindo suas barreiras uma a uma, até que fosse ele quem buscasse os lábios dela com uma avidez que a fez suspirar. Se havia algo de repreensível no que sentiam, naquele momento eles se viam dispostos a pagar o preço.
Na manhã seguinte, concordaram que o melhor a se fazer era deixar aquilo pelo que era: um caso de uma noite, culpa de cervejas demais. Duas semanas depois, as embalagens de pizza e coca-cola que encontrou ao acordar na casa dele pela segunda vez deixavam claro que o álcool já não poderia ser uma desculpa. Ainda que soubessem que a situação era fadada ao fracasso. Ainda que fosse o maior erro da carreira de ambos. Ainda que houvesse muito em risco, era amor. Era amor, muito antes que admitissem. Era amor, ainda que ninguém jamais viesse a saber. Era amor.

+++

. – a voz de ao entrar em casa fez com que a mulher limpasse as lágrimas do rosto com força. Não importava quanto tempo se passasse, ela ainda não se acostumava à ideia de deixar que ele a visse demonstrando qualquer fraqueza.
— Nós sabíamos que isso ia acontecer. – disse de pronto, tentando convencer a si mesma de que não era nada além do esperado. – Merda, , nós sabíamos desde o começo… – ela sentiu os braços dele enlaçando sua cintura, e resistiu a aceitar o abraço em um primeiro momento, já que sabia o que viria a seguir: quando ele a segurou apertado, o corpo da mulher estremeceu em soluços.
Aquela era a única coisa em que ela era realmente boa nessa vida, e estava sendo arrancada de suas mãos, depois de tudo o que passara para conquistá-la.
Ela não mentia ao dizer que eles sempre souberam que aquilo terminaria assim. Escondiam de si mesmos, disfarçavam com sorrisos e planos sobre o futuro, mas a verdade era uma só: enquanto fossem dois oficiais na ativa, sendo subordinada a , aquele relacionamento era uma temeridade. Seu segredo ficou a salvo por muito tempo, na realidade, demorou quase dois anos até que tudo começasse: no início, eram piadinhas inconvenientes dos outros tenentes. Em seguida, começaram as reclamações formais acerca de supostos benefícios, e não tardou para que o que temiam acontecesse: foi chamada para uma reunião e informada de que suas atividades como Tenente da Marinha estavam suspensas devido a conduta inadequada, e que passaria por um processo administrativo.
, como era de se esperar, não seria punido.
… – ele beijou sua testa, afastando os cabelos do rosto da mulher com carinho – Você não vai a lugar nenhum. – murmurou.
— Do que você tá falando? – ela limpou o rosto, frustrada. – O general disse que não ia tolerar isso, que um de nós precisava sair.
— Eu saí. Trabalho burocrático, na inteligência. – revelou, tão subitamente que pensou não ter ouvido direito. Ele amava o trabalho de campo, ela sabia disso. O que não sabia, e que seu coração pulou uma batida ao constatar, é que a amava ainda mais do que a carreira. – Ver até onde chegaríamos, lembra? Esse era o objetivo. – ele sorriu, deixando claro que não havia arrependimentos na decisão. – Eu cheguei mais longe do que imaginava. É a sua vez. – concluiu. Não era certo que ela fosse afastada por ser mulher, ou por sua patente. Estavam juntos naquilo.
— Você é melhor que todos eles, sabia? – os olhos de brilhavam, transbordando orgulho do homem que tinha ao seu lado. Ela o faria se orgulhar dela também.
— Você é melhor. – sorriu, sentando-se a cama e abrindo os braços para que a mulher se aconchegasse. – Prove pra eles, ok? Por nós dois.

NOTA DA AUTORA:
Essa história é tão curtinha, mas tem um lugar tão especial no meu coração… Foi escrita para um desafio, em menos de 24 horas, então sinto muito por não ter desenvolvido o enredo da melhor forma possível. Mas espero, de verdade, que tenha te feito sorrir. 
Beijos, Belle.