Spin Up!

Spin Up!

  • Por: M. Angeli
  • Categoria: Kpop | Super Junior
  • Palavras: 12592
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Sinopse: Ela trabalhava demais, estava estressada e tinha um problema. Foi seu próprio reflexo no espelho que ganhou vida para ajudá-la (ou forçá-la) a resolver.
Gênero: Comédia Romântica.
Classificação: Livre.
Restrição: Escrita com Donghae, mas pode ser lida com qualquer um.
Beta: Alex Russo.

Capítulo Único

Exausta, chutou os saltos para longe dos pés, em um canto qualquer da sala, e sentiu aquele habitual alívio ao pisar descalça no chão gelado de seu apartamento. Era sexta-feira, mas apesar de ter se deixado convencer a sair com uma amiga naquele dia, agora, que ele finalmente havia chegado, só conseguia pensar em se jogar na cama e dormir, compensar todo o sono atrasado durante a semana. Não tinha ideia, na verdade, do que havia passado por sua cabeça para aceitar. Ela não bebia, era dura demais para dançar e não sabia paquerar, definitivamente. O que pessoas como ela faziam em baladas no meio da noite?
se jogou no sofá, e começou a trabalhar mentalmente em uma desculpa para furar com Lottie. Estava com ela até meia hora atrás, não dava para envolver doença ou indisposição. Conhecia a outra bem o suficiente para saber que ela provavelmente a odiaria por dispensá-la, mas as outras garotas provavelmente já esperavam por isso. Talvez esse fosse o motivo para que ela tivesse aceitado, afinal. Deixar de ser tão previsível, mas em casa, cansada e louca por um banho, ela já não tinha mais tanta certeza assim de que ligava pra essa coisa de ser ou não previsível.
Optando por dizer a verdade, confessar a amiga que estava apenas cansada, buscou o celular no bolso do jeans e resmungou ao não encontrá-lo. Havia deixado o aparelho na mesinha em frente ao espelho na entrada e suspirando contrariada se obrigou a levantar. Pegou o telefone e, ali mesmo, buscou pelo número de Lottie na agenda e apertando para discar. Ouviu o primeiro toque, distraída, mas ao ter a sensação de que algo havia se movido no reflexo do espelho, se endireitou, olhando para ele mais atentamente.
Foi quando seu próprio reflexo se mexeu. Mas não fazendo o mesmo movimento que ela, muito pelo contrário, ele revirou os olhos enquanto se inclinava para a peça. Quando, no susto, pulou para trás, seu reflexo apenas bufou como se achasse aquela reação no mínimo muito patética.
coçou os olhos, torcendo para que o cansaço a tivesse causado uma espécie de estado de delírio. Talvez tivesse dormido no sofá e isso agora fosse um sonho porque se não fosse, bom, já estava na hora de correr. Ela estava em um dilema entre morrer de medo e rir porque era cética o suficiente para acreditar que só podia estar maluca.
? – ouviu Lottie falar do outro lado da linha, no aparelho que ela nem reparou, mas ainda segurava contra a orelha. Não reparou porque, bom, o reflexo não segurava nada e ela arregalou os olhos, olhando de si mesma para o aparelho em suas mãos mesmo que sua imagem no espelho ainda não fizesse os mesmos movimentos que ela.
– Desliga logo isso. – seu reflexo falou, com sua voz, e ela deu mais dois passos para trás enquanto a imagem ainda se mantinha no mesmo lugar. Podia até ser loucura, mas agora estava verdadeiramente assustada porque mesmo que fosse delírio, perder o juízo daquela forma também era assustador. Será que o trabalho tinha finalmente lhe deixado completamente louca àquele ponto? Ela desligou o aparelho, obedientemente, mesmo que não fosse devido o pedido do seu próprio reflexo e sim para a situação em si. Todos os filmes de terror concordavam que aquele era o momento certo para correr. Aquele medo crescendo no fundo de seu peito também, mas apesar disso ela só conseguia olhar para seu próprio reflexo, movendo-se como se não fizesse parte dela. – E para com isso. Esse medo é ridículo. Eu não posso sair daqui. – como prova, o reflexo esmurrou o vidro pelo lado de dentro. – Está vendo? – perguntou. – Agora desliga isso. Você vai sair sim.
– O… o quê? – perguntou, agora mais chocada do que amedrontada. Seu reflexo havia ganhado vida para mandá-la para a balada na sexta a noite? Aquilo era pior do que ser atacada por ele, definitivamente. Ser atacada seria menos humilhante.
– Exatamente. – ela, ou si mesma, quem sabe, respondeu. Era confuso já que se tratava da sua própria imagem e mais uma vez coçou os olhos para ter certeza de que não estava alucinando. Será que tinham colocado algo a mais no seu café sem que ela visse? – Não. – o reflexo voltou a falar, deixando-a ainda mais confusa, se é que era possível.
– Ahn? – , a verdadeira, perguntou, sentindo o medo se esvair aos poucos conforme aquela conversa se mantinha apenas no sem sentido e não no perigoso. Tão sem sentido que chegaria a ser cômico se ela não estivesse falando com si mesma pelo reflexo do espelho.
– Eu sou você. – sua imagem respondeu enquanto se mantinha ali, sem nenhum movimento brusco e o reflexo suspirou. – Eu sei tudo que está pensando. – explicou, como se não acreditasse que si mesma pudesse ser tão burra. – Exatamente, eu ganhei vida para te mandar para a balada na sexta a noite. É isso que as pessoas normais fazem enquanto você se esconde em casa e deixa a vida passar. E não, não colocaram nada a mais no seu café, eu estou aqui mesmo e você não vai se livrar de mim até estar fora desse apartamento com aquela mini saia que sua irmã te deu no aniversário.
– Aquela que mostra a poupa da bunda? – perguntou desacreditada. Não sabia o que era pior, estar falando com seu reflexo ou o fato dele ainda lhe ditar dicas de moda.
E o reflexo ainda se achou no direito de revirar os olhos.
– Não mostra a poupa da bunda, mas sim, é essa mesmo. – respondeu e até esqueceu o medo para lhe encarar com certa descrença.
– Não vou usar aquela saia! – exclamou, como se aquele fosse o maior absurdo que já havia escutado. Depois de ter escutado que recebeu uma saia daquele tamanho de aniversário, claro.
– Ah, você vai sim. – o reflexo respondeu inabalável. – Nem sob o nosso cadáver eu vou te deixar ir para a balada de jeans.
– As pessoas vão para a balada de jeans. – respondeu o que para ela, era óbvio. Até porque, sim. Ela pretendia ir para a balada de jeans.
– Não as que precisam transar. – seu reflexo respondeu com um sorriso cínico. O mesmo que ela costumava direcionar as pessoas e foi naquele momento que ela entendeu porque a odiavam tanto no trabalho. Aquele sorriso cheio de si era mesmo odiável à níveis extremos. Também se odiou por ele agora que estava do lado que o recebia.
– Eu não preciso transar. – respondeu, mas emburrada, pareceu muito mais com uma criança do que com uma mulher adulta e fez careta por isso.
– Ah, nos poupe! – seu reflexo revisou novamente os olhos.
– Para de falar assim! – exigiu, perdendo a classe e ainda batendo um dos pés no chão para soar ainda mais infantil do que já vinha soando. A verdade era que aquele era um assunto delicado. Manter sempre a postura séria no serviço não dava muita abertura para os homens e não era como se ela fosse de sair muito para conhecê-los em outros lugares.
– Eu sou você, aceite. – seu reflexo insistiu. – Sou sua consciência e até sua consciência sabe que você precisa transar. Admita e vá para o banho.
– Eu… Não! – retrucou, mas a conversa foi interrompida pelo toque de seu celular e novamente, pulou onde estava. Era de se esperar que estivesse assustada, afinal, estava conversando com si mesma. Não ia parar de repetir essa loucura por algum tempo.
olhou para a tela e notou ser Lottie mais uma vez. Havia desligado na cara dela, afinal. No mínimo, ela queria saber o motivo da ligação.
– Ah, ela com certeza já sabe. – seu reflexo falou e antes que atendesse, se voltou para si mesma. – O que é? Você acha mesmo que ela não espera que a , a Sra. Entediante, cancele o compromisso? Você foge sempre que o assunto é diversão. Você é um saco e é só isso que as pessoas esperam de você. Que seja um grande saco.
– Você definitivamente sou eu. – respondeu, referindo-se a crueldade do seu próprio reflexo com si mesma.
Tudo que a imagem fez foi dar de ombros, o que comprovava o argumento.
– Claro que sim, querida. Agora atende logo isso e dê uma desculpa qualquer para ela, porque você vai sim. E digo mais, vai estar mais gostosa do que ela. – ponderou sobre aquilo. Lottie costumava fazer mais o estilo vulgar, mas os homens gostavam. não conseguia se imaginar sendo mais vulgar do que ela, mas seu reflexo chamou atenção ao bufar. – Eu disse “gostosa” e não “vulgar”. – ela falou, apontando em seguida para o aparelho que ainda tocava. – E vai logo com isso, pelo amor de Deus antes que eu mesma atenda!
– Você… Pode? – arregalou os olhos e seu reflexo jogou os braços para o alto inconformado.
– É claro que não! – exclamou. – Atende logo! – voltou a se assustar quando o reflexo aumentou o tom de voz, mas o fez imediatamente, levando o telefone até o ouvido para falar com a amiga.
– Alô? – atendeu a chamada, como se tudo estivesse absolutamente bem e ela não estivesse se sentindo intimidada com seu próprio reflexo. Céus, ela era um capeta assim com as pessoas diariamente?
, a ligação caiu. O que houve? – perguntou preocupada.
– Falsa, está só esperando que você desmarque. Não desmarque! – seu reflexo falou e se distraiu por isso, voltando-se para ela. – Responde a mulher! Ela não sabe que eu estou falando!
– Ah, eu… Nada, eu só… Ahn, queria uma dica do que vestir, talvez. – falou a primeira coisa que lhe surgiu em mente.
– Dica do que vestir?! – seu reflexo exclamou desacreditado enquanto Lottie, do outro lado, ria. – Você vai usar a mini saia, !
– Cala boca, você me pediu pra arrumar uma desculpa! – exclamou também para o reflexo, mas só depois de fazê-lo, ainda com o celular próximo a boca, que se deu conta de que Lottie acharia que era com ela.
? – Lottie perguntou confusa e voltou a arregalar os olhos.
– Ahn, esquece isso. – ela respondeu rapidamente, sem graça. Precisou se controlar para manter um tom de voz neutro e não o surtado que estava utilizando para o reflexo. Ainda tinha uma moral a manter. – Não foi com você. – se obrigou a achar uma desculpa melhor. – É minha irmã… No skype. – mentiu.
– Tudo bem, então… – Lottie respondeu, ainda deixado evidente que estranhara a fala.
– Obrigada pela ajuda, você vem às onze? – desconversou rapidamente, desesperada para se livrar daquele telefonema antes que se complicasse ainda mais e terminasse em uma clínica psiquiátrica.
– Mas eu não te ajudei. – Lottie ainda soava confusa e riu sem graça.
– Ah, é que minha irmã está insistindo que ela mesma pode fazer isso. Obrigada. – antes que a outra respondesse, desligou rapidamente, quase desesperada, e seu reflexo ao espelho acabou rindo.
– Pode ter certeza de que ela vai comentar com as outras de quão insegura você é por precisar de ajuda via skype para se vestir. Foi a pior desculpa que você poderia ter dado.
– Lottie apesar dos apesares é uma amiga, não precisa odiá-la tanto assim. – defendeu. – E só para deixar claro, se você não ficasse falando comigo, eu poderia ter pensado em algo melhor!
– Eu não teria falado se você não fosse tão ridícula. – sorriu cínica novamente e urrou em irritação dessa vez.
– Ah, eu?! – exclamou exaltada.
– Sim, você! – o reflexo devolveu no mesmo tom e deixou o queixo cair como se estivesse muito ofendida por isso.
– Vem cá, você vai me ajudar ou ficar me ofendendo?! – retrucou exasperada. Já nem sabia mais se ligava por estar parecendo uma criança surtada. Era ela mesma de qualquer forma, não fazia diferença o que pensava.
– Eu tenho todo o direito de te ofender, sou você! – reclamou, seguindo a mesma linha de raciocínio que havia utilizado, mas bufou quando esta lhe deu as costas. – Ei, volta aqui, eu não disse que não ia te ajudar!
– Então para de ser insuportável! – gritou, como uma louca.
– Eu sou você! – seu reflexo repetiu na mesma altura.
– O que está querendo dizer com isso?
– Você sabe!
– Argh! – exclamou, irritada, pronta para desistir daquilo, mas seu reflexo ergueu as mãos em sinal de rendição, mesmo que revirasse os olhos para deixar claro o seu descontentamento.
– Certo, parei, parei! – falou rapidamente apesar disso e , contrariada, cruzou os braços. – Sorte sua que a gente precisa muito transar.
– Não vou transar com ninguém. – falou emburrada, mesmo disposta a dar o braço a torcer e pelo menos aceitar a ajuda com a roupa.
– Ah, vamos ver. – respondeu o seu reflexo, em um comentário que , a original, preferiu ignorar.

+++

olhou ao se redor, procurando pelas amigas que a abandonaram assim que entraram onde quer que estivessem. Discretamente, pela décima vez, puxou a saia para baixo, com aquela sensação incômoda de que sua bunda estava a mostra. Isso nem era possível visto que estava sentada, mas estava acostumada demais com jeans e shorts para não estranhar o vento que entrava por baixo da peça e tocava partes que não deveriam tocar.
Ela ainda não tinha entendido o que diabos havia acontecido em seu apartamento, mas por pior que fosse a loucura, havia deixado que seu reflexo escolhesse suas roupas: Uma mini saia preta de couro, que havia ganhado de presente de sua irmã. Uma blusa regata preta com dizeres em branco, que colocou por dentro da saia de cintura alta e uma blusa aberta na frente da mesma cor, com mangas três quartos e toda trabalhada no glitter. Nem sabia de onde aquela peça havia saído, mas lá estava ela, a usando pela primeira vez.
Ah, e havia sido deixada influenciar também na maquiagem. Teve que procurar um tutorial no Youtube de como fazer um delineado de gatinho. Precisou refazer a maquiagem três vezes até acertar, enquanto seu reflexo gritava com ela de uns três espelhos diferentes no quarto. Ela definitivamente tinha enlouquecido.
Mais uma vez, puxou a saia para baixo, mas parou onde estava ao ouvir um bufar. Ela estreitou os olhos, e pulou de susto quando se ouviu dizer mentalmente:
“Para de puxar essa droga, daqui a pouco ela está no meio da sua bunda!”
– O quê? – ela perguntou, assustada, e a mulher sentada ao seu lado no bar a encarou como se fosse louca. Só estavam as duas lá afinal e, bom, a mulher não havia dito nada.
riu sem graça antes de virar o rosto para que ela não pudesse ver.
“Eu sou sua consciência, idiota. Você não precisa falar em voz alta para que eu te escute!”
“Então para de ser minha consciência!” – ela gritou mentalmente para si mesma, bufando inconformada o que chamou a atenção também do rapaz que acabava de parar ao seu lado do balcão para pedir uma bebida. Ele a encarou por isso e ela sorriu sem graça, afundando-se um pouco mais no banco para evitar a vergonha.
“Ele é muito gato. Deveria usar isso como desculpa para falar com ele”
“Cala a boca!”
“Caramba, ele está te olhando. Ele vai falar, vai falar, seja simpática.”
“Não, eu não quero que ele fale!”
! Não esperava te ver por aqui. – o rapaz falou de forma animada e ela foi obrigada a se voltar para ele, confusa, por saber seu nome. O olhou de cima a baixo, depois parou em seu rosto, mas mesmo após a análise minuciosa ela continuou sem saber quem ele era.
“Céus, você podia pelo menos disfarçar.” – seu reflexo, que nem era mais um reflexo, falou, e o que ela disfarçou foi o fato de literalmente ter uma voz falando em sua mente.
O rapaz, bom, ele riu de sua expressão. só não saberia dizer se o motivo foi a confusão que ela enfrentava por não ter ideia de quem ele era ou se o rapaz conseguia ver a insatisfação que ela sentia por estar dividindo sua própria mente com alguém, que, ironicamente também era ela.
– Não tem idéia de quem eu sou, né? – ele perguntou com um sorriso. Não parecia nem ligeiramente incomodado com o fato dela não saber de que lugar do mundo ele a conhecia. Também não parecia surpreso, o que não sabia dizer se era bom ou ruim.
“Ruim, definitivamente ruim” – a voz em sua mente respondeu de imediato e ela sorriu para disfarçar a vontade de revirar os olhos.
“Cala a boca” – ralhou mentalmente outra vez, enquanto fingia prestar nele mais atenção do que prestava realmente.
– Trabalhamos juntos há uns… – ele estreitou os olhos de forma teatral. – Três anos? – continuou, soando como se o fato dela não reconhecê-lo fosse muito mais engraçado do que ofensivo. – Normal não reconhecer. Quem reconheceria, não é mesmo? – provocou antes de deixar escapar uma risada e ela mordeu o lábio inferior, quase erguendo uma sobrancelha e perguntando a ele como conseguia fazer piada e não se sentir constrangido por não ser reconhecido. Não que se considerasse alguém de imensa importância, como o presidente dos Estados Unidos, mas… né. Se fosse ela no lugar do rapaz, certeza que estaria roxa de vergonha. – E nem tenta negar. Feio. – brincou, erguendo a mão para pedir uma bebida ao barman.
sempre fez o tipo desligada. Ela não reparava nas pessoas ao seu redor a menos que fosse totalmente necessário e precisasse falar com elas. Costumavam achar que era arrogância, mas na verdade ela era apenas péssima com fisionomia e a não ser que visse e falasse com a mesma pessoa todos os dias, não era capaz de se lembrar dela se aparecesse na sua frente novamente dois minutos depois.
E ninguém ria disso. Mesmo ela, que já estava acostumada a passar por situações constrangedoras como aquela. Quem riria ao não ser reconhecido por alguém com quem trabalha junto há anos? Era vergonhoso e estava quase se sentindo constrangida por ele, principalmente porque dessa vez a situação foi um pouco pior do que o normal, afinal, além de tudo, tinha aquela voz inconveniente gritando em sua mente.
“Agora eu entendi porque você não sai de casa. Céus, você é péssima.” – falou e se perguntou se também era assim tão chata. – “Ah, você é bem pior”. – a consciência respondeu e a odiou principalmente por não poder gritar com ela em voz alta.
Ela queria muito poder gritar em voz alta. Estava se contorcendo por dentro por não poder fazê-lo e ter que manter a pose era ainda pior.
– Tudo bem? – o rapaz perguntou quando ela simplesmente não o respondeu mais, apesar de ainda encará-lo, e xingou a si mesma por simplesmente esquecê-lo ali.
– Ahn, é… Sim. – ela respondeu sem graça, com um sorriso amarelo no rosto.
– Tem certeza? – ele questionou quando olhou para mão dela. batia as unhas conta o balcão com uma força um pouco maior do que o necessário. Ela imediatamente parou o que fazia, segurando a própria mão como se esta também tivesse adquirido vontade própria e ele ergueu uma das sobrancelhas de forma cômica.
– Sim, tenho. – ela garantiu, querendo convencer a ele e a ela mesma.
Mas agora ele já deveria achar que além de ter amnésia ela também era louca. Ótimo.
“Você é mesmo louca”
“Vai se fuder.”
contou até três mentalmente, e permitiu-se reparar no “estranho” pela primeira vez. Era melhor do que ignorá-lo enquanto falava sozinha.
“Definitivamente.” – sua consciência totalmente irritante comentou, o que ela preferiu ignorar, focando-se no rapaz. De fato, ele era muito bonito, pelo menos quanto a isso precisava concordar. Vestia jeans escuros e rasgados, uma camiseta branca estampada e um blazer preto. Uma mistura de rebelde e elegante que lhe caiu muito bem. Decidindo pelo menos manter a postura, optou por ignorar a voz e sorrir para ele, admitindo o erro de não reconhecê-lo realmente.
– Desculpa, eu não… – riu sem graça, erguendo ligeiramente os ombros e ele riu, como se aquilo nem fosse uma novidade de qualquer forma, e como se o fato dela ter demorado tanto para respondê-lo sobre se conhecerem não tivesse sido um problema.
, do marketing. – ele respondeu e ela concordou com a cabeça, repassando todas as vezes que trabalhou com aquele setor para tentar lembrar o rapaz. Como era possível que nunca tivesse reparado? – Tudo bem não lembrar, roupas de escritório não me favorecem em nada. – ele riu mais uma vez, sentando-se ao seu lado, mas com aquele porte ela precisou negar mentalmente o que ele havia dito. Podia apostar que qualquer roupa fosse vesti-lo muito bem. – Mas agora que já sabe, pode fingir que lembra pra parecer menos constrangedor, sabe?
“Agora você diz que sempre lembrou, que era só um teste, pra fazer graça, sabe?” – ouviu mentalmente e precisou contar até três para não xingar em voz alta. Era isso que ela queria dizer mesmo, mas só porque sua consciência sugeriu, já não queria mais. – “É o melhor a se dizer, qual é! Deixa de ser orgulhosa!”
“Eu não sou orgulhosa!”
“É sim! E responde logo que ele está esperando! Nunca vai transar com ele se continuar sendo ridícula.”
“Eu não quero transar com ele, trabalhamos juntos!”
“Tão juntos que nem ao menos conseguiu reconhecê-lo! Qual é!”
“É o mesmo prédio! Se transar com ele, vamos nos ver todo dia.”
“Ah, então você considerou?”
“Não! Eu só estou falando o óbvio!”
“Está sendo chata! E relaxa, eu sou sua consciência, sei o que quer de verdade e não vou te julgar”
“Eu não quero! – exclamou, prestes a perder a paciência.
“Quer sim!”
– Eu não quero transar com ele! – soltou de uma vez, em voz alta, e só depois se deu conta do que havia feito, arregalando os olhos enquanto ele lhe encarava com divertimento no olhar.
– Era só uma conversa, mas tudo bem… Se você está dizendo. – ele achou graça, por sorte. Não que isso tivesse feito com que fosse menos constrangedor porque nem de longe havia sido.
sentiu as bochechas corarem e por sorte o ambiente era escuro demais para que ele pudesse ver. Só não era escuro o suficiente para que cavasse um buraco no chão com as próprias unhas e se enterrasse lá dentro, infelizmente.
– Não era com você, eu só… Eu… – ela começou, mas não tinha exatamente o que dizer. Como explicar que estava falando com a consciência que mais cedo tomara vida em seu espelho? Jesus, ela devia estar enlouquecendo.
“Você acabou de desperdiçar tudo com esse bonitão. Dispensa e vai pra outro.”
“Inferno, me deixa em paz!”
“Estou tentando ajudar!”
“Não ajudou muito com ele, ajudou?”
“Não tenho culpa se você não consegue conversar com duas pessoas ao mesmo tempo.”
“Não consigo porque não posso! Você nem era pra estar aqui!” – tentando esconder a revolta, ergueu a mão para chamar o barman que veio até ela um instante depois. Precisava de alguma coisa com álcool para passar por aquilo, especialmente agora que tinha uma consciência com vontade própria.
O rapaz tentou conter uma risada, e enquanto o barman se aproximava, lançou a ele um olhar questionador e um tanto quanto insatisfeito que, como consequência, apenas o deu o incentivo necessário para rir de uma vez.
– Está rindo de mim? – questionou em tom acusatório, mesmo que não pudesse realmente acusá-lo de algo quanto a culpa de ser totalmente estúpida estava sendo realmente dela.
deu de ombros e ela ergueu uma das sobrancelhas.
– Talvez. – ele sorriu, parecendo realmente se divertir com toda aquela situação. – Eu sabia que você conseguia ser engraçada além de séria e focada no trabalho.
– Eu não sou tão séria assim no trabalho. E menos ainda sou engraçada. – se defendeu, mesmo que no fundo ela soubesse que realmente exagerava quando estava trabalhando e que, talvez por isso, as pessoas não se aproximassem dela no escritório.
– Ah, é sim. – se virou totalmente de frente para , erguendo a mão como se fosse fazer uma contagem. – Um: Nenhuma garota nunca gritou na minha cara que não queria transar comigo, mesmo que eu ache que você não estava falando diretamente comigo. Dois: Você tem um jeito tão avoado que chega a ser cômico, até porque, só estamos nós dois aqui e mesmo assim não parecia estar falando diretamente comigo. – numerou, e falou essa parte como se fosse uma pergunta, o que a fez corar ainda mais do que o item um que por si só. – E, três. – continuou, o que quase a fez pedir para morrer pelo simples fato de ter mais. – Você é sim séria no trabalho. Quando você chega na sala, as pessoas param de rir do que quer que estivessem rindo antes da sua entrada. – finalizou por fim, e ela preferiu focar no último item a comentar os dois primeiros:
– Você está dizendo que eu sou como uma nuvem negra no trabalho? – pergunto com o cenho franzido, mesmo que aquilo fosse meio óbvio.
– Não, eu estou dizendo que eu sempre soube que você é muito mais do que aparenta ser na empresa.
“Ele reparava em você. Ok, ainda há chances de transarmos essa noite.” – sua consciência voltou a falar, dessa vez parecendo bem mais animada do que antes.
Céus, ela queria matar aquele seu lado recém descoberto.
“Cala a boca” – respondeu, e ouviu a própria risada em retorno junto com um gritinho de empolgação. nunca odiou tanto a própria voz. Ou a si mesma, no caso.
– Você ia pra ficar me observando ou para trabalhar, afinal? – perguntou, arrependendo-se no instante seguinte simplesmente porque ainda não tinha bebido o suficiente para ter aquela conversa. – Preciso beber. – afirmou, em voz alta, antes de finalmente fazer o pedido ao barman, sob o olhar curioso de .
– Eu trabalhava e te observava também. – confessou e deu de ombros, como se não fosse grande coisa, como se aquela informação não tivesse feito com que se sentisse envergonhada por saber que havia sido observada por ele durante um tempo. Decidiu que, definitivamente, precisava beber muito mais do que havia bebido. Não tinha como passar por aquilo sóbria, quando ela fez o pedido, riu. – Tem certeza que já não bebeu o suficiente? – perguntou divertido, mas ergueu as mãos em sinal de rendição quando ela lançou a ele um olhar feio. – Amigo, amigo.
“Já que você não se ajuda a transar, podia me ajudar a transar, né? Parar de fazer isso com o cara seria muito útil”
– Eu só bebi coca-cola até agora. – ela respondeu, um tanto quanto emburrada e não querendo mais tocar no assunto de “observar a enquanto ela trabalha”, o que o fez rir novamente, de forma no mínimo fofa. Fofa o suficiente para fazê-la querer sorrir também e acabou desviando o olhar por isso. Era uma mulher adulta, madura e séria. Não fazia o tipo que se encantava facilmente por sorrisos bonitos.
Talvez fosse efeito da sua consciência. Será que ela podia influenciar nas emoções que sentia?
“Jesus, você é doente” – ela voltou a falar. – “Eu sou você, colega. Uma representação do que você quer de verdade”
“Perder a moral com os homens que trabalham comigo não é exatamente minha meta de vida.”
“A questão não é essa e sim que você precisa se permitir mais. Se permitir ter momentos de diversão, se permitir flertar com um cara bonito só porque ele é bonito e dormir com ele se quiser. Não é um pedido de casamento e nem te faz menos mulher. Também não tira o seu poder. Muito pelo contrário. Te faz uma mulher decidida e não uma medrosa.”
“Eu não vou transar com ele.” – acrescentou, porque sabia muito bem onde seu outro eu queria chegar. – “E, não transar com ele não faz de mim uma pessoa medrosa.” – repetiu mais uma vez, apenas para deixar claro, e ouviu sua própria risada soar novamente.
Era bizarro aquilo, ouvir sua própria voz soar em sua cabeça sem que fosse sua intenção rir. Mas ignorando isso, não podia negar que aquela sua consciência tinha um ponto.
“Bom, mas admito, você pode ser um pouco sensata, mesmo que seja surpreendente.” – falou, aceitando a bebida que o barman lhe trouxe.
– Pra onde você vai quando divaga? – perguntou de súbito e só então se deu conta de que, mais uma vez, distraiu-se conversando com si mesma e o esqueceu de lado. Ela colocou no rosto sua melhor expressão cínica ao levar a taça até a boca.
– Uhm? – se fez de desentendida enquanto ouvia sua consciência soar novamente, continuando a conversa:
“Querida, eu sou você. Claro que sou sensata. Mas é óbvio que eu sou melhor porque além de ter capacidade de me concentrar em duas coisas ao mesmo tempo, também consegui não ser chata de tão excessivamente sensata.” – devolveu, despertando novamente em aquela vontade de revirar os olhos. – “E só para constar, não transar com ele te torna uma medrosa quando você quer, sabe que quer, mas não vai porque tem medo do que vão falar ou do que ele vai achar. Você deveria parar de pensar mil vezes antes de decidir se vai ou não fazer algo. Quer fazer? Faz. Não quer? Não faz. Mas, pelo menos, seja sincera consigo mesma. E não seja uma medrosa.”
“Eu não sou medrosa!
“Tá bom, eu que sou medrosa. Eu qu- Ops, somos a mesma pessoa.” – sua consciência debochou e respirou fundo. Ela odiava deboche, principalmente quando ela era a vitima.
– Ah, cala a boca. – falou, sem se importar em fazê-lo em voz alta mesmo quando o rapaz lhe encarou. Dessa vez também era para ele, de verdade. Quando lhe encarou confuso, ela deu de ombros, pegando a bebida em uma mão para, em um súbito de coragem, pegar a dele com a outra.
Coragem talvez fosse até um termo forte demais. Raiva de si mesma por ter se chamado de medrosa, e por ter de certa forma concordado com aquilo, era o mais adequado, já que nunca lhe faltou exatamente coragem. Não era como se fosse uma mulher tímida, ou que não fazia o que queria. É que às vezes ela pensava demais para fazer. Mas, naquela noite ela iria provar a si mesma que conseguia fazer algo que queria sem pensar nas consequências ou no dia seguinte.
E, por Deus, ir pra cama com um cara bonito como só poderia ser ruim se ele fosse péssimo demais no sexo.
“É assim mesmo que eu gosto!
“O ‘cala a boca’ também foi pra você, linda.
“Eu sei, só preferi ignorar.”
“A partir de agora, também estou te ignorando.” – acrescentou por fim, antes de beber mais um gole de sua bebida. Não tinha como fazer nada do que pretendia enquanto prestava atenção na voz em sua cabeça afinal.

+++

Quando a luz do sol bateu em seu rosto, remexeu-se sobre a cama que nunca antes pareceu tão confortável. A mulher suspirou, e não se lembrando de ter escutado o despertador, não se importou em abrir os olhou ou tampouco levantar. Sentiu um perfume familiar nos travesseiros, mas que não era seu. Um perfume muito bom e sorriu brevemente antes de deixar que a inconsciência lhe tomasse mais uma vez. Foram apenas alguns segundos, na verdade, antes dela notar que estava nua e abrir os olhos subitamente, arregalando-os assustada.
Por que diabos ela estava nua?
Você pensa demais logo pela manhã” – ouviu em sua mente e viu, logo a frente, seu próprio reflexo no espelho. Não estava deitada como ela estava, na cama, estava de frente para ela, mas não deu a mínima. A voz de sua querida amiga não tão querida assim a fez lembrar de tudo o que havia acontecido na noite passada e, principalmente, com quem havia acontecido. – “Não precisa de tanto drama, pelo menos ele é bonito. Ele também foi gentil, mesmo bêbado. E educado. E usou camisinha. Essa parte é bem importante.”
quis gritar enquanto segurava o lençol com mais força contra o corpo e ouviu a risada da sua consciência soar em sua mente, divertindo-se com o desespero alheio. queria levantar e correr dali o quanto antes, mas no medo de acordá-lo, simplesmente congelou onde estava, vendo o reflexo do rapaz ao seu lado. Ele estava deitado atrás dela e virado em sua direção. A expressão era tranquila, seu rosto tinha algumas marcas da roupa de cama e seu cabelo estava bagunçado em várias direções diferentes.
Ele estava lindo. Mesmo daquele jeito, estava, o que só a deixou com ainda mais vergonha de acordá-lo. Ela também deveria estar uma bagunça, mas não de um jeito adorável, certamente.
“Olha, eu se fosse você não levantava não. Virava para o lado e aproveitava pra passar um pouco mais a mão.”
“Ah, sua…”
“Mas como eu não sou você apesar de ser…” – ela continuou, sem dar a mínima a intervenção do “eu” original. – “Diria para sair logo dai antes que ele acorde. Cada segundo é precioso. Tic-tac, tic-ta, tic-tac…”
“Argh eu te odeio tanto, tanto, tanto, tanto!” – exclamou inconformada, especialmente por ser obrigada a concordar com aquele fato. espiou por sobre os ombros como que para garantir que o reflexo no espelho estava dizendo a imagem correta (pelo menos a dele) e então, com todo o cuidado do mundo e certamente um cuidado que ela não tinha sendo tão totalmente estabanada, afastou o lençol de seu corpo e sentou-se na cama, buscando suas roupas com os olhos pelo quarto.
“Talvez, só talvez, vocês tenham começado pela sala.” – sua consciência deu a dica e ela fez uma careta ao lembrar. – “Para com isso. Você sabe que foi bom, não tem motivo para tanto drama”.
“Não estou dizendo que foi ruim, mas não é você que vai ter que vê-lo todos os dias no trabalho e se lembrar do que houve”
“Vai se lembrar de ótimos orgasmos”
– Argh, como eu te odeio. – ela falou, agora em voz alta, e se encolheu quando o ouviu se mexer na cama, colocando as mãos em frente aos seios descobertos enquanto cruzava as pernas.
“Dizem os boatos que ele já viu e também lambeu tudo que tem ai” – observou e riu quando a mandou calar a boca novamente, especialmente quando ela, na verdade, sentiu-se quente só de recordar a noite anterior. Quente e molhada, por mais que odiasse ter que admitir. – “Ai, … Você é uma piada.” – disse, mas optou por não responder, levantando-se lentamente para buscar a calcinha pouco mais a frente. se abaixou com cuidado e a vestiu, sem tirar os olhos do reflexo do rapaz no espelho antes de, nas pontas dos pés, sair a procura do sutiã. Lembrava-se de ter ficado sem ele apenas no quarto.
Se deu conta de que ele podia, muito bem, estar jogado do outro lado da cama e com um suspiro insatisfeito ela se colocou a dar a volta, repetindo mentalmente o pedido de que ele não acordasse, mesmo que a única pessoa ouvindo, aparentemente, fosse sua consciência que ria dela loucamente por isso.
“Inferno, eu já disse pra você calar a droga da boca!” – reclamou, ficando satisfeita por pelo menos ter lembrado de fazê-lo mentalmente. Ouviu o rapaz suspirar, no entanto, enquanto se remexia na cama, e sentiu o coração disparar com a possibilidade de que ele estivesse acordando. Ela prendeu a respiração e congelou onde estava. Um pé na frente, prestes a pisar no chão com os dedos e uma das mãos levantadas enquanto a outra escondia os seios. Ela fechou os olhos, torcendo para que ele só voltasse a dormir, mas soube que havia perdido quando escutou um riso fraco e sonolento vindo dele.
– Fugindo de mim? – ele perguntou, mas o tom divertido em sua voz rouca devido ao sono só colaborou com aquela vontade de repetir a noite. Não que fosse admitir isso algum dia.
– E… eu… não estou fugindo, eu só… Estou indo embora. – ela respondeu, tentando soar firme enquanto se baixava para pegar o sutiã encontrado. Ela deu as costas para ele para vesti-lo, fingindo não estar totalmente constrangida por estar só de lingerie na frente dele enquanto sentia o olhar de sobre ela.
– As duas coisas parecem a mesma coisa para mim. – ele respondeu depois que ela terminou, olhando ao redor a procura se sua saia. – Em cima da mesa. – ele ajudou, e ela corou ao lembrar do que haviam feito ali em cima. Céus, ela devia estar mesmo muito alterada.
foi até lá, vestindo a peça após recuperá-la e usou esse tempo de costas também para se recuperar do rubor em suas bochechas antes de respondê-lo.
– Se eu estivesse fugindo, já não estaria mais aqui.
– Só está aqui porque não está encontrando suas roupas e não pode sair pelada. – ele devolveu e ela lhe encarou como se dizer aquilo fosse um ultraje muito grande.
– Saiba que você está errado. – devolveu, e ele concordou com uma certa dose de ironia, deixado claro que não acreditava nenhum pouco naquilo. – Não fiz nada de errado para fugir. Ou me esconder.
– Está ai algo em que concordamos. – ele devolveu, passando uma das mãos pelos cabelos antes de se sentar preguiçosamente sobre a cama, bocejando no percurso.
o xingou por ser tão bonito logo pelas manhãs, até mesmo ao bocejar e desviou o olhar.
– O resto deve estar lá fora. – falou rapidamente, tentando cortar o rumo de seus pensamentos. – Não precisa levantar, eu acho o caminho até a porta.
– Não precisa ser tão ranzinza. – ele falou, rindo enquanto coçava os olhos dessa vez e ela quase brigou para que ele parasse de fazer aquele tipo de coisa, deixar atitudes simples com um ar um tanto quanto sexy. – Sua jaqueta ficou no meu carro. Se deixar eu me trocar, eu te dou uma carona e você pode recuperá-la.
Foi só então que ela se lembrou que havia ido para a festa de carona com Lottie e que só chegara lá de carona com e se xingou mentalmente por isso antes de pensar em uma solução.
– Posso muito bem pegar um taxi. – devolveu. – Pode ficar com a jaqueta.
– Meu sonho sempre foi ter uma jaqueta cheia de glitter, de verdade. – ele caçoou e ela revirou os olhos, o fazendo rir de novo. – Eu me visto em um minuto e te levo, não precisa correr.
– Eu tenho compromisso. – mentiu, dando as costas para se afastar.
– Nós dois sabemos que é mentira. – ele disse. – Mas tudo bem, eu entendo sua decisão. Só leva uma blusa minha então, está frio lá fora.
Ela ponderou aquilo por um instante. Estavam no inverno então de fato, mesmo com sol, muito provavelmente estaria frio do lado de fora e ela ainda precisaria esperar pelo taxi. Optando por não pegar uma pneumonia, ela simplesmente pegou o blazer dele sobre a poltrona próxima e ergueu para que ele visse antes de abrir a porta.
– Deixo pra você na recepção segunda.
– Você pode me entregar pessoalmente segunda, eu não mordo. – ele devolveu, rindo, mas ela já fechava a porta.
– Recepção. – repetiu apenas antes de finalmente sair do quarto, soltando a respiração aliviada por se livrar dele.
“Você definitivamente deveria entregar pessoalmente”
– Volta a ficar calada que eu não pedi sua opinião.
“Grossa”
– Desagradável. – resmungou, seguindo para a sala do rapaz em busca de sua última peça de roupa antes de dar o fora dali.

+++

A caminho de sua sala enquanto olhava para os lados, viu ao longe, com seu casaco em mãos, e virou imediatamente para o próximo corredor, entrando na primeira porta que viu. Por sorte, essa porta se referia ao banheiro e não a sala de outra pessoa. Ouviu passos se aproximarem ainda assim e afobada, correu imediatamente para o ultimo boxer, escondendo-se ali como se pudesse ser doido o suficiente de entrar no banheiro feminino do escritório.
“Quantas vezes eu já disse que você é ridícula? Eu sinceramente não acho que foi o suficiente ainda.”
– E quando você vai me deixar em paz e ir embora?! – exclamou, mesmo que falasse aos sussurros com medo de quem quer que estivesse se aproximando. Ouviu a porta se abrir e subiu na privada, cuidando de pisar apenas nas bordas mesmo com a tampa abaixada, pois, com sua sorte, certeza que cairia lá dentro se fizesse o contrário.
“Eu já disse que sou sua consciência, só vou embora quando você estiver bem consigo mesma.”
“Eu estou bem comigo mesma!” – exclamou inconformada enquanto ouvia risos femininos adentrarem ao recinto. Não era e ela suspirou aliviada por isso, mesmo que no fundo já soubesse que ele não entraria ali.
“Não está não porque não para de fugir do há dois dias só porque dormiu com ele. Podia enfrentar, pegar a blusa e fazer alguma piada sobre isso, mas preferiu se esconder.”
“Sim, até que ele desista!” – falou, reconhecendo a voz de Lottie e uma outra amiga das duas entre as pessoas que falavam lá dentro. Ambas eram de sua equipe.
“Mesmo que ele desista, vocês ainda trabalham no mesmo prédio e participam dos mesmos projetos. O seu trabalho depende do dele, vocês vão se encontrar o tempo todo. Não vai poder fugir dele pra sempre e enquanto o fizer, eu vou continuar aqui porque você também está incomodada com isso, por esse motivo tem me mantido perto.”
“Eu não tenho te mantido perto! Eu não te quero por perto. Eu te quero longe, muito longe!” – exclamou outra vez, mas parou de falar quando, na conversa que ouvia ali dentro, pôde ouvir o seu nome. Imediatamente, desligou-se de sua consciência e passou a prestar atenção em sua colega:
– Ela aparentemente dormiu com o e agora está fugindo dele igual o diabo foge da cruz. Sorte a dele, na verdade, mas sobra pra mim quebrar o galho dela. – Lottie reclamou da ajuda que havia pedido, como amiga. Nem era nada demais. Não era um por cento do que Lottie costumava pedir de favor. Era só levar uma pasta até a sala de e enquanto ouvia em silêncio, deixou o queixo cair sem saber qual sentimento era maior, a surpresa ou a decepção de ouvir aquilo. Sabia que Lottie não era perfeita, mas a considerava uma amiga.
, do Marketing? – Tracy, outra amiga, perguntou. Também fazia parte do setor que liderava e ela não pôde acreditar que estava ouvindo aquilo. Quer dizer, sabia que não era a melhor pessoa do mundo, longe disso. No trabalho costumava ser estressada demais e mal humorada demais às vezes, mas nunca obrigou ninguém a ser sua amiga. Precisavam apenas trabalhar juntas, isso não significava uma relação maior, como amizade. não se considerava amiga de todas as pessoas com quem convivia diariamente, mas era diferente com as duas. Lottie e Tracy eram as pessoas que considerava mais próximas e jamais poderia imaginar que estivesse tão enganada.
não era capaz de ver o que se passava, mas imaginou que Lottie tivesse concordado pois mesmo na falta de uma resposta verbal, Tracy voltou a falar:
– Eu sei que ela tem uma bunda sensacional, mas vale a pena? – perguntou e , além de traída, sentiu-se ofendida com o comentário. Sentiu nojo das duas e sentiu nojo de si mesma por ser resumida àquilo. – Caramba, ele devia estar muito bêbado.
– Ela é desprezível, podia ser a mulher mais bonita do mundo, ainda não valeria a pena. – Lottie concordou. A pessoa que ela tinha como amiga mais próxima. Sentiu a garganta se fechar por isso. Até tinha demorado, na verdade. Ela podia ser durona, mas ouvir aquilo de pessoas que considerava próximas doía independente da situação.
Se a odiavam tanto, porque diabos a chamaram para sair para inicio de conversa? Por que se esforçavam tanto? Ela facilitava para as amigas e por isso elas viam necessidade de se fingirem de amigas? Tentou pensar em vantagens que elas podiam estar tendo por isso, mesmo que a traição que sentia lhe fizesse querer chorar.
– Pra macho sempre vale. – outra mulher com elas disse, uma que ela não pôde diferenciar.
me decepcionou. – Tracy comentou. – Achava que ele era o tipo fofo, que não pega só por pegar.
– Ou pegou ou está louco. – Lottie completou, suspirando em seguida. – Vocês não sabem, ontem eu errei duas palavras bobas no artigo e ela me fez ficar depois do horário para arrumar. Eram só duas palavras, ninguém ia notar a diferença. Era só fingir que passou na revisão. Já tinha desligado o computador, mas ela me fez ficar. – falou e foi ai que teve a resposta que precisava. Ela favorecia sim as amigas e por isso eram suas amigas, afinal, quem fez a revisão foi ela, de casa, e enviou do e-mail da amiga, pois essa era sua tarefa e não dela.
sentiu o nó na garganta se intensificar e desligou-se da conversa. Não precisava ouvir mais do que aquilo. Já havia sido o suficiente para saber que na verdade, nunca teve amigas. Ela respirou fundo duas vezes e então desceu de onde estava. Passou a mão pelas roupas que vestia para desamassá-las, e usou a câmera do celular para ver seu reflexo e ter certeza de que não parecia prestes a chorar antes de sair do banheiro.
Nunca foi do tipo que demonstrava fraqueza, mesmo sentindo-se tão insegura como se sentia agora, ou triste, traída, e decepcionada. Não abaixava a cabeça, e não abaixaria agora, pelo menos não na frente delas. Podia chorar mais tarde, se lamentar e, principalmente, odiar a si mesma por ter confiado em quem não deveria, mas essa não era a hora, ainda não.
Podia fazer da vida delas o inferno dia a dia, mas elas precisavam saber o motivo e ela o faria assim, saindo do banheiro como se nada daquilo tivesse lhe afetado mesmo que, na verdade, tivesse.
“Você está ótima.” – sua consciência falou. – “Dê descarga e saia sem pressa. Não é necessário dizer nada, mas se quiser, pode apenas sorrir e cumprimentá-las. Vai ser o suficiente. Você é a chefe delas, é mais bonita do que elas e pegou o cara que elas admiravam de longe. Não precisa de mais nada.”
concordou, mesmo que fosse difícil e então fez exatamente o que lhe foi sugerido, pela primeira vez. Deu descarga, e a conversa parou no mesmo instante. Com calma, ela abriu a porta do boxer em seguida e sentiu o olhar de todas elas sobre si, mas não olhou nenhuma delas. Se sentia humilhada por ter sido feita de trouxa por tanto tempo. Por saber que suas amigas não eram suas amigas, apenas se aproximaram por interesse, mas andou sem pressa na direção onde estavam, em frente ao espelho, e se enfiou entre Lottie e Tracy para lavar as mãos. Fingiu só então notar as duas ali, sorriu enquanto encarava o reflexo de ambas pelo espelho e então fechou a torneira, chacoalhando as mãos antes de secá-las.
– Bom dia, meninas. – falou, dando as costas em seguida e ouviu um grito de sua consciência por ter soado firme. Mais do que esperava, definitivamente.
Ninguém respondeu nada enquanto pegava um pedaço de papel para secar as mãos e se dirigia a porta para sair. Apenas quando passou pela porta, fechando-a atrás de si, foi que se deixou derrubar uma lágrima que ela imediatamente limpou.
“Elas não valem suas lágrimas.” – sua consciência falou e até mesmo simpatizou um pouco mais com ela pela conclusão.
concordou sem dizer nada, mas não pôde evitar outra lágrima que escorreu quando se virou para voltar para sua sala. Queria fazê-lo antes que elas decidissem sair do banheiro também, mas assim que virou trombou justamente com , que ela não havia notado ali.
– Estava fugindo de mim? – ele perguntou com um sorriso cínico no rosto. – Eu estou… Está tudo bem? – ele se interrompeu quando viu a expressão em seu rosto e ela imediatamente concordou.
– Sim, estou. – respondeu, mal tendo tempo de se lembrar de que estava constrangida. – Eu só… Não é um bom momento agora, tudo bem? – falou e tentou passar por ele, mas o rapaz lhe segurou pelo braço, fazendo-a voltar.
– Não está não. – ele respondeu, limpando mais uma lágrima de seu rosto. – Não precisa me contar o que houve, mas posso te fazer companhia.
Ela abriu a boca para negar, mas antes que o fizesse ouviu a maçaneta da porta se mover e o pegou pela mão para afastá-lo dali em reflexo. O guiou até o próximo corredor e parou ali sem soltá-lo, mesmo sem notar que o fazia.
– Caramba, ela ouviu. – Tracy ria de se acabar. – O que será que ela vai fazer?
– Bom, ela não pode fazer nada se continuarmos fazendo nosso trabalho. – Lottie respondeu e negou com a cabeça, olhando para o chão enquanto as vozes se afastavam.
Mesmo depois que foram embora, ainda levou alguns segundos para que voltasse a si para fazer alguma coisa. Notando que ainda segurava a mão do rapaz, ela o soltou e olhou para ele brevemente, pensando em uma desculpa para se afastar.
– Está tudo bem. – disse, vendo o pesar em sua face. – Não tem que me olhar assim. Volte ao trabalho. – falou apenas, pegando seu casaco que ele ainda segurava antes de dar as costas.
, não vai. – ele chamou e ela parou onde estava, mesmo sem poder dizer o motivo para ouvi-lo. – Se dê um dia de folga, você precisa.
– Não tenho tempo para isso, . – ela respondeu. – E nem para me chatear com isso.
, antes de tudo, você é humana. Você pode não ter tempo para se chatear com isso, mas está chateada, é normal. Qualquer um estaria chateado no seu lugar.
– Certo, eu estou chateada, mas não é como se eu pudesse fazer alguma coisa. – confessou, virando-se para ele sem nenhuma real intenção de ouvi-lo.
– Com ela não, mas pode fazer por você. – ele devolveu, aproximando-se um passo. – Você pode se libertar, ter um dia de folga. – sorriu em incentivo.
, eu não posso só largar tudo e me dar folga.
– Você pode sim. – ele respondeu, aproximando-se mais alguns passos até estar perto o suficiente para pegar sua mão. – Mande-as fazer o próprio trabalho e vamos dar uma volta. – insistiu e ela apenas suspirou, sem tentar se soltar.
, pra onde poderíamos ir numa quarta de manhã? – perguntou, mas soava como alguém cansada de brigar mesmo que não estivessem brigando.
– Você vai se surpreender se vir comigo. – falou em tom de desafio e conseguiu arrancar uma risada fraca dela pela insistência. Ele sorriu por isso, largamente, e ela negou com a cabeça. – Não negue não, você está curiosa, sabe que eu já ganhei.
– Não ganhou não. Não é um jogo. – respondeu, mas ele apenas permaneceu sorrindo.
– E mesmo assim eu ganhei. – piscou, dando as costas para puxá-la com ele pela mão. Ela, por incrível que pudesse parecer não o impediu.

+++

, eu já falei pra tirar os saltos! – exclamou, rindo quando precisou segurá-la novamente para evitar que caísse. Ela olhou feio para o rapaz ao se afastar, como se não precisasse de ajuda para andar mesmo que, na verdade, precisasse. Pelo menos naquelas condições. Não tinha ideia de para onde ele a estava levando, mas já fazia pelo menos uns dez minutos que caminhavam no meio do mato, sobre diversos protestos da parte dela e acusações de sequestro. – Bebezona. – ele caçoou e ela controlou o impulso de lhe mostrar a língua, especialmente quando era, muito provavelmente, a décima vez que ele fazia aquela mesma piada. não era lá muito original e tampouco maduro. Foi fácil notar isso em meia hora de carro no caminho até ali. Ele despertava seu lado mais bobo e infantil também, mas era melhor do que o lado que, há pouco, estava triste e chorando.
– Não me chame de . – ela retrucou emburrada apenas para não dar o braço a torcer, equilibrando-se sobre o salto para voltar a andar quando ele fez o mesmo. Havia insistido para que ele não a ajudasse quando ofereceu ajuda e agora não podia mais voltar atrás mesmo que precisasse. Também não podia descer do salto, pois já havia dito que não o faria então restava aceitar a condição na qual se encontrava. – Não te dei essa intimidade. – falou, e sentiu as bochechas corarem quando ele parou onde estava para lhe encarar com aquele mesmo olhar divertido de criança boba que ele tinha no rosto, como se perguntasse se ela ia mesmo querer falar de intimidade depois do que já haviam feito. – Quieto. E não me olhe assim. – respondeu apenas, como se não tivesse ficado constrangida de verdade.
– Quieto? Mas eu nem falei nada! – ele exclamou, permanecendo no lugar enquanto ela lutava para alcançá-lo.
– Pensou tão alto que até daqui deu pra ouvir. – ela devolveu enquanto abria os braços para se equilibrar, evitando se humilhar ainda mais caindo de cara no chão ou tendo que agarrá-lo para não cair. Não sabia o que seria pior.
– Mentirosa. – respondeu ele, seguindo em sua direção para ajudá-la. – Bebezona e mentirosa. Como seu apelido pode ser diabo? – quando ela parou onde estava e lhe encarou perplexa, ele riu. – Vai me dizer que não sabia?
– Que me odiavam sim, mas diabo? – ela perguntou perplexa mesmo que não devesse ser uma novidade tão grande assim que ela tivesse um apelido ruim. Como já a acusara e ela já havia reconhecido, era séria demais no trabalho, e exigente. Devia ser de se esperar.
– Dizem que só falta os chifres porque já tem o rabo. – ele continuou, dando de ombros antes de se aproximar para lhe estender a mão.
não aceitou, deixando o queixo cair para sua fala e quando notou riu.
– Desculpa, foi desnecessário. – falou, mesmo que não estivesse nem mesmo ligeiramente culpado. E nem precisaria da gargalhada que ele soltou para dar a ela a certeza disso. – Eu podia ter ocultado essa parte.
– Com certeza! – ela exclamou chocada, empurrando sua mão para longe e fingindo estar muito mais abalada do que estava realmente.
– Ah, não fica assim. É uma bunda legal. – respondeu como se falasse do tempo e não da bunda de alguém que mal conhecia. Ela lhe encarou como se fosse completamente louco.
– Qual o seu problema? – perguntou, o deixando confuso.
– Uhm?
– Você sempre fala as coisas sem nenhum tipo de filtro? – continuou e ele riu antes de concordar sem ver nenhum problema naquilo, ou na crítica expressa em sua fala.
– Pensar muito tira a graça das coisas. – ele deu de ombros. – Agora tira esse sapato, ! – exclamou tão repentinamente que a assustou.
– Eu já disse que não! – ela devolveu no mesmo tom. – Não vou pisar no barro sem nem saber para onde estamos indo.
– Eu juro que você vai gostar. Por favoooooor! – juntou as mãos em sinal de prece e ela revirou os olhos.
– Me conta e eu penso no seu caso. – ela respondeu inabalável, cruzando os braços em frente ao peito.
– Se não tirar eu arranco. – ele respondeu com um sorriso um tanto quanto cínico que a fez estreitar os olhos. – Ou eu te levo nos ombros. Você decide.
– Você que não se atreva. – falou em tom de ameaça, mas como se levasse aquilo como um desafio pessoal, foi exatamente isso que fez. Sem vacilar, se abaixou aos seus pés e a segurou pelo pulso quando tentou se afastar. Com a dificuldade que vinha tendo para se equilibrar, precisou se apoiar nele para não cair de vez, em seus ombros, e com isso quem caiu foi ele, levando-a junto sem que fosse a intenção, afinal, ela estava dependendo dele para se manter em pé.
terminou deitado de costas na grama com ela por cima, rindo do gritinho que ela soltou no percurso, como se a queda fosse muito longa. Ele afastou seu cabelo do rosto enquanto ela mantinha os olhos fechados graças a queda e sorriu quando ela não tentou se afastar, mantendo-se ali com ambas as mãos espalmando seu peito sem deixar de encará-lo após abrir finalmente os olhos.
– É uma cachoeira. – ele disse sob seu olhar atento. – Mais uns dez minutos de caminhada apenas. Se ficar em silêncio, até dá para ouvir. – falou e ela concordou minimamente com a cabeça, não dizendo mais nada para tentar ouvir o que ele dizia. Levou apenas um instante, mas então ela foi capaz de escutar. Realmente estava ali, o som da cachoeira, e ela acabou sorrindo ao ouvi-la, o levando a repetir o gesto.
– Podia ter me dito antes. – ela respondeu, o fazendo mais baixo do que o seu tom de voz habitual como se não quisesse se sobressair sobre o som da água batendo nas pedras.
– Era pra ser uma surpresa. – explicou, tirando outra mecha de cabelo do seu rosto, esta que tinha voado com o vento soprado. – Uma surpresa e uma lição.
– Lição? – ela perguntou, confusa, e ele sorriu.
– Eu sabia que você surtaria por ter que entrar no meio do mato e imaginei que gritaria comigo durante todo o caminho, que não seria capaz de escutar a água. A lição era as coisas que pode descobrir se parar um pouco para respirar, se pensar fora da caixa, se você se permitir mais. Se der uma chance para o que é novo. –
explicou e ela lhe encarou por uns instantes sem saber o que dizer. A boa e velha , provavelmente gritaria com qualquer um que lhe dissesse aquilo, mas a falta de maldade nas suas palavras fez com que fosse mais fácil ouvir. Também tinha aquela voz em sua cabeça lhe dizendo com outras palavras exatamente aquela mesma coisa. havia soado como a própria voz em sua consciência, o que foi irônico e um pouco assustador. Mas, acima de tudo, foi bom. sabia que a sua consciência só queria o melhor para ela, afinal, se tratava dela mesma. Ouvir a mesma coisa de lhe fez pensar que ele tinha o mesmo objetivo e era bom saber que, depois de descobrir as reais opiniões de suas “amigas”, ainda tinha alguém no mundo que não tinha objetivo de fazer ainda mais mal. E, ok, poderia enganá-la e surpreendê-la de forma negativa no futuro, mas aqueles olhos dele… Aquele brilho que eles tinham, não diziam que mentia quando falava tudo aquilo para ela. não diria que estava pronta para confiar nele, mas ouvir aquilo, de certa forma, lhe fez sorrir e ela precisava daquilo, sorrir. – Quer dar uma chance e conhecer a cachoeira? – ele perguntou, voltando para o tom divertido de antes. – Vai ter que tirar os sapatos. Mas eu sei que a parte mais difícil ainda vai ser ter que sair de cima de mim.
voltou a corar, dando-se conta de que ainda estavam naquela posição inicial e o estapeou antes de se sentar no chão.
– Estúpido. – falou, fechando a expressão em um bico que apenas o fez rir antes de se voltar para os sapatos para finalmente se livrar deles.
– Ridícula. – ele respondeu, dando a língua quando ela olhou feio. – Para com isso. Eu te empresto meus sapatos se isso te fizer mais feliz.
– Não preciso dos seus sapatos.
– Tenho certeza que vai mudar de ideia quando pisar na grama.
– Já pisei na grama antes, não vou morrer. – devolveu, finalmente livrando-se dos saltos para se pôr de pé com mais firmeza. Suspirou de alívio por isso.
– Vai mesmo descalça?
– Era isso que você queria, não era? – perguntou. – “Permita-se mais”. – falou em tom de deboche, caçoando dele, que riu em seguida.
– Não era bem disso que estava falando, mas serve. – devolveu, estendendo uma das mãos para ela. – Vamos? – perguntou e ela concordou, dando o braço a torcer para aceitar sua mão.
– Vamos.

Exatamente como ele havia dito, levou mais dez minutos para que chegassem à cachoeira e de forma alguma se arrependeu de ter dado a ele aquela chance de mostrar o lugar.
Não era nada muito extravagante. Tampouco muito alta. A queda ficava do lado oposto ao que estavam de modo que, dali, conseguiam ter a visão completa da cachoeira. Abaixo deles, as pedras onde a água tão cristalina batia. Era surpreendente, de verdade, que houvesse um lugar como aquele ali, escondido da vista de todos e ela entendeu o ponto que ele queria apresentar simplesmente porque ela, que nunca saia de casa nem para comer fora vez ou outra, jamais encontraria um lugar como aquele ou teria o prazer de estar ali se não fosse literalmente arrastada.
“Eu também te incentivei a se permitir mais, lembra?”</strong. – sua consciência apareceu novamente depois de tanto tempo em silêncio e riu baixo, atraindo a atenção de que não disse nada apesar disso. Ele deduziu que ela estava rindo diante da beleza do lugar e de como foi boba em ter resmungado durante o caminho. Bem, ele não estava errado de um todo.
“Sim, eu sei.” – ela respondeu a si mesma enquanto olhava a água cair e bater nas pedras.
“Você entendeu tudo agora, então. Não entendeu?” ouviu a própria risada, e foi ridículo como se sentiu emocionada por ter entendido o lance de se permitir e de como, aquela última frase dita por sua consciência, soou como uma despedida. – “Sim, isso foi uma despedida. Mas, eu vou estar aqui de qualquer jeito… Eu sou você, lembra? É só você voltar a ser estúpida que eu reapareço. Por favor, não volte a ser estúpida, você dá trabalho.”
”Você também não foi uma maravilha de consciência.”
“Fui o suficiente pra te fazer mais livre. Foi o bastante.”
ouviu sua risada e sua voz em sua mente pela última vez. Naquele momento, ela soube que estava novamente sozinha, sem a sua consciência falando na sua cabeça o tempo todo ou dizendo o que ela deveria fazer. Mas, também sabia que sua consciência sempre estaria ali, porque afinal elas eram uma só e juntas formavam ela mesma. Confuso, mas profundo se fosse parar pra pensar, afinal, como não poderia ser profundo quando uma parte de precisou aparecer e gritar para que ela vivesse mais? Ok, profundo e cômico, no mínimo.
– Você vai não vai entrar? – perguntou, dando um leve susto em que se surpreendeu quando o olhou e o encontrou apenas de cueca. – Não é como se você nunca tivesse me visto assim. Na verdade, vo…
– Shi! – ela praticamente gritou, causando uma crise de risadas em , que deu de ombros e logo caminhou com cuidado sobre as pedras até que estivesse perto o suficiente para pular na água fria enquanto o olhava com um sorriso nos lábios. No fundo, embaixo de todas as implicâncias, ela gostava do jeito livre e sem filtros de . Não estava apaixonada por ele, não o conhecia o suficiente para isso, mas se um dia isso acontecesse que mal teria? Ele era bonito, bom de cama, era engraçado e estava se mostrando um companheiro. Ah! E claro, ele a levou até a cachoeira só para que ela esquecesse ou pelo menos parasse de pensar nas amigas de merda que tinha. Ele era um cara legal. E se eles tivessem que ficar juntos, eles iriam ficar e não iria se proibir de ficar com ele mesmo que tivesse apenas dez anos mentais.
Ela iria se permitir.
não iria se permitir apenas com , mais com tudo que a vida lhe oferecesse. A começar, por aquela cachoeira que em qualquer outro dia, jamais aceitaria entrar.
Com a água fria em seu corpo, seu queixo tremendo levemente e rindo junto com , que aparentemente era uma criança e não sabia ficar na água sem causar uma guerra, se sentia leve como há muito tempo não se sentia.
Rir de algo idiota era bom.
Se permitir era bom. Maravilhoso, na verdade.
estava pronta para se permitir pelo resto de sua vida e se um dia ela sentisse medo e quisesse desistir, bom… Ela ainda tinha a si mesma para lembrá-la do que ela era capaz.

FIM

Nota da Autora:
ESSA FIC FOI SIMPLESMENTE UM PARTO! Pensa num plot que NÃO QUERIA NASCER. Pois é, foi esse. E por isso que eu só tenho a agradecer a Joziane Barbosa por ser um anjo e literalmente salvar meu casal dessa fic. Jozi, um IMENSO obrigada pela ajuda.
Enfim, espero que tenham gostado e vou deixar aqui meu grupo de leitoras e meu twitter caso queiram encontrar as outras fanfics que eu já escrevi. E não esqueçam de comentar, pls.

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