Tua Fotografia Em Movimento

Tua Fotografia Em Movimento

Sinopse: Sobre uma garota que assiste a apresentação de dança do garoto considerado, por ela, a fotografia em movimento mais linda do mundo
Gênero: Romance
Classificação: 14
Restrição: Não
Beta: Alex Russo

 

Capítulo Único

 

 

❝Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta para te ver dançar.
E isso diz muito sobre minha caixa torácica. ❞
(O último poema do último príncipe, Matilde Campilho)

 

Os movimentos dele se tornaram bastantes fugazes, e, ainda assim, delicados, semelhante à queda das folhas durante o outono, trazendo à atmosfera a ilusão de que pudéssemos ter sentido a essência do vento soprar as últimas folhas secas das árvores lá fora enquanto a chuva caía. Isso quando o som do violino na música banhara todo o teatro em que estávamos produzindo um bálsamo através da única coreografia para o novo treinamento de .
Tal cena me lembrou a primeira vez que o vi dançando em um dos eventos da universidade, noite em que o céu passara nublado no decorrer da tarde, do lado de fora do campus, e eu soube que aquele garoto não sairia da minha cabeça, e, muito menos do meu coração. Seus movimentos não eram tão delicados naquela noite, na universidade, no entanto, a delicadeza estivera escondida no olhar tímido, mas extremamente adorável, como a pelugem macia de um gato dócil.
A todo momento ele me lembrara: não há poesia mais linda senão aquela em movimento.
Ele, o dançarino, acompanhava o som com seu próprio corpo, manifestando leveza como aquela que o coração deveria ter durante a passagem da alma feita por Anúbis1, e, da mesma maneira, a angústia conforme as melodias se alteravam para as mais agudas. Acreditei, portanto, estar enxergando um pássaro de asas longas prestes a alçar vôo — completamente diferente dos imensos aviões no céu —, sendo este o ajuste perfeito em relação a sua altura. Vi os braços aéreos se direcionando, com imensa sutileza, ao teto cujo preferi imaginar sendo o grande e deslumbrante céu, resultando na fotografia em movimento mais linda do mundo. já era, por si só, a fotografia mais linda do mundo. Os pés compridos e ágeis viajavam pelo chão quase que em disparada ao imenso universo acima de nós dois. Ah, se eu pudesse correr esta sala e te tocar agora mesmo, pensei, imaginando o próximo encontro de nossos lábios ao som de qualquer música da playlist romântica que escutávamos juntos.
De diferentes ângulos, compreendi a verdadeira poesia da sua vida atravessar o enorme teatro a passos largos, ainda que eu estivesse sozinha na plateia. Dali vi ao fundo, atrás do lindo bailarino, o cenário composto de algumas artes clássicas pregadas, como as de Monet, e outras contemporâneas, como as de Basquiat, mescladas umas sobre as outras, o que me deixara extremamente feliz pois eu sabia que a ideia não poderia vir a ser de ninguém além dele mesmo, que já tinha como hobby transformar artes antagônicas numa só união. Também, o fundo ora se acendia em vermelho ou amarelo claro; outrora a escuridão tomava conta do lugar, isso conforme o trecho da música e os complementos corporais mudavam. Não pude deixar de perceber que aquilo era tão ele: mutável, mas igualmente uno; sonoro, mas igualmente silencioso. A mistura do antagonismo poderia ser perfeita se tratando dele. Além disso, seu corpo esguio fazia da realização de saltos um balé perfeito. A fantasia surgida na imaginação foi vê-lo, por tanta doçura, pisar em teclas de pianos suspensas no ar, as quais podiam emitir sons completamente diferentes. Na queda livre, era o belo retorno do pássaro ao ninho distribuindo penas durante o trajeto, marcando o lugar onde esteve, fazendo da rua um véu, enquanto as gotas da chuva acalmavam certos corações urbanos.
Estava enxergando utopias a metros de distâncias, não somente atrás do horizonte coberto das pequenas folhagens, pequenas elevações, e o Sol.2
Observei que a regata usada durante a apresentação realçara os ombros nus um tanto bonitos — minha parte favorita de seu corpo, ele sabia disso — e a calça preta, tão solta e leve quanto seus gestos, contrastava seu cabelo, o qual tinha coloração mel. Desejei tocá-lo ali mesmo, no caimento dos fios frente aos seus olhos a fim de sentir a suavidade de cada mecha.
Desejei, na verdade, muito mais.
Quis me aproximar dele, acariciar seu rosto e separar fio por fio, retirando-os de sua testa, pelo tempo que demorasse, só para tê-lo frente a mim, sentindo também seu calor corporal se misturar com meu perfume floral, e, logo em seguida, evaporar-se no ar.
Ter seus lábios doces comigo.
Acompanhei com os olhos, marejados desde então, toda dinâmica, experimentando em meu peito a mais bela flor brotar fora da estação no instante em que lágrimas rebeldes decidiram escapar dos meus olhos por emoção, coisa que ele era capaz de me proporcionar através da arte e existência. Eu, já tão emotiva, cedi constantemente aos efeitos juvenis e serenos de tudo que experimentei em vida por causa dele. Mas, como se tudo tivesse acontecido somente em segundos, a música foi finalizada; e o painel do fundo apagado. Exausto, sentara-se no chão e passou os dedos finos da mão direita pelo comprimento dos fios claros, enquanto a outra mão se deitava no chão. Ainda imersa nos mais diversos sentimentos, enxuguei os olhos com as mãos, levantei-me do assento e o aplaudi pelo fim do espetáculo, escutando o barulho das pulseiras encostando umas nas outras.
Logo, direcionara seu olhar para o meu e deu um sorriso tímido, mas sincero.
Ele parecia cansado, visto as trilhas de suor caindo em seu rosto, e, ao mesmo tempo extasiado pela maravilhosa dança que fora capaz de realizar.
— Você sempre dança muito bem, .
Minha voz percorrera todo o ambiente já iluminado chegando até o menino que sorriu alegremente como uma criança, satisfeito e entusiasmado pelo elogio. Agradecera primeiramente em sua língua materna — como era de costume fazer por divertimento —, no entanto logo traduziu o sentimento em um “obrigado” acompanhado do finger heart, fazendo-me sorrir timidamente. Por fim, meu rosto deu indícios de que estava prestes a pegar fogo, da mesma maneira quando me apaixonei pela primeira vez durante a adolescência, uma sensação um tanto juvenil e vergonhosa, igualmente deliciosa se tratando de ser por ele.
Sem muita demora, atravessei o corredor entre os bancos para me aproximar dele. Com a pequena escada ali, subi no enorme palco, observando a quantidade de assentos presentes ali, agora na minha frente, e, enfim, pensando sobre o quão especial seria a sensação de assistir dançar para um enorme público. Fiquei imaginando, espontaneamente, o quão lindo seria vê-lo se apresentar em Paris, principalmente porque ele era um rapaz um tanto elegante em todos os sentidos. Paris o acolheria bem. Será que o público adoraria suas danças tanto quanto eu?
Tirando-me deste devaneio, ele se aproximara, dando-me um abraço por trás e posicionando sua cabeça em meu ombro direito, e declarou, próximo à minha orelha, com a voz baixa e suave, justamente como um doce morno de uma simples manhã acompanhado do cheiro externo de orvalho:
— Você está tão linda hoje. — segurou meu pulso direito, vendo o horário no relógio que marcavam 18h37min. Depois apertou um pouco mais meu corpo contra o seu, transferindo seu calor após a dança para mim. Lembrei dos minutos gastos me preparando para vê-lo, e ri porque eu explorei o conceito de saudade até mesmo enquanto ele estivera de frente para mim.
— Obrigada. — agradeci risonha ao pegar uma de suas mãos, começando a brincar com os dedos dela, e sentindo a textura de suas digitais tão exploradas por mim e as taças de vinho nas nossas noites de jazz. Recebi um beijo estalado no pescoço, o qual, pela proximidade, permitiu-me aspirar a sensação morna do seu corpo.
se virou para mim, desfazendo o abraço, e me estudou com o olhar durante alguns segundos. Percebi o brilho dos seus olhos criando uma rota desde as ondas escuras dos meus cabelos até a ponta da saia comprida. O sorriso roubado me fizera deduzir que alguma coisa ali o fizera feliz.
Uma de suas mãos se posicionaram em minha cintura, puxando-me para mais perto do seu tronco. Nossos olhares tão próximos permitiram que eu enxergasse a valsa das estrelas da Ursa Maior em seus olhos escuros. Mesmo sentindo imensa vontade de beijá-lo, observá-lo antes disso poderia ser tão saboroso quanto; pois eu poderia conduzi-lo a minha própria valsa a partir do reflexo de Alioth3 dos seus olhos nos meus, mantendo-o à mercê dos segredos contidos no meu âmago apaixonado.
— Obrigado por ter vindo. — agradeceu. Seus dedos pontilharam a região do meu pescoço, buscando o território mais sensível na minha nuca, produzindo arrepios espalhados à medida que suas mãos pareciam singrar um mar desconhecido, ainda que o tivesse explorado tantas vezes. O rosto dele preenchera meu campo de visão, e seus lábios ternos se ligaram aos meus, paciente, formando uma correnteza da qual eu almejava tê-la eternamente pelas tardes de todos os dias. Um sorriso brotara nos seus lábios, alertando-me sobre o fim do beijo; no entanto, outro fora depositado em minha testa. E dentro de mim, meu coração pulsava como se aquilo tivesse acontecido pela primeira vez, pois a magia do nosso encontro era marcada por algo mais forte e magnético, coisa da qual nós nunca teríamos controle.
A minha boca ainda tinha o gosto fresco do beijo, por isso um sorriso escapara do meu rosto, e eu disse:
— Você sabe que sou capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar, . — enquanto eu observava os fios do cabelo dele caídos sobre os olhinhos de maneira tão bonita, tive vontade retirá-los um por um, porém uma voz longínqua, vinda do microfone na parte alta e vermelha da sala, pronunciou que o estabelecimento iria fechar em poucos minutos.

+++

Àquela hora, no quarto iluminado somente pela luminária de mesa, a luz da lua já invadira meu quarto, acompanhada dos ventos da estação, trespassando o tecido da cortina branca, e cruzando o ambiente em direção ao móvel abaixo da pequena lousa que eu usava para anotar pequenos recados e grudar trechos de poemas e textos preferidos, principalmente se estes viessem de . Nela, algumas fotografias foram pregadas também, mas, durante a noite, apenas as bordas delas eram perceptíveis.
O barulho feito pelo celular noticiou uma nova mensagem recebida. Na aba de notificações o nome Bailarim♡ iluminara meu rosto, eu poderia até mesmo ousar competir com a lua sobre quem refletia mais brilho naquele momento. havia enviado uma foto sua; a cabeça deitada no sofá bege macio em que passamos certa noite juntos assistindo W depois de um longo dia no campus. Ele mantinha um sorriso de lábios absurdamente fofo, transmitindo a paz necessária como a visão de diversas borboletas voando no ar, as flores que o vento tirou para dançar4. Seu cabelo atirado para trás parecia mais claro por causa do reflexo da luz branca, e seus olhos aparentavam cansaço, diferentemente do olhar animado mais cedo.
Abaixo da foto, a mensagem de voz, de poucos segundos, perguntava se eu havia chegado bem à casa, desculpando-se por não ter enviado uma mensagem mais cedo, e agradecia novamente pela presença no teatro, à tarde. Respondi em breves linhas que seria impossível chegar mal, já que sua presença calorosa esteve ao meu lado enquanto caminhávamos entre um caminho de árvores; e após isto dividimos sorvete de passas ao rum caseiro na esquina. Não eram necessárias as desculpas.
“Tenha uma boa noite. Durma bem, meu amor”
Era o que o último áudio dizia, ele com a voz tão sonolenta.

+++

A janela aberta permitira a entrada do vento forte naquela noite que colidiu com os pequenos vasos de plantas, causando a queda de alguns deles. Minha mãe pedira que eu fechasse as janelas antes de dormir a fim de evitar que isso acontecesse, ou que eu pegasse algum resfriado, no entanto eu gostava de receber o frio durante meu repouso de um dia exaustivo, principalmente em noites de luar, porque, de alguma forma, a lua e a dança dos ventos davam-me uma porção de equilíbrio e, então, a meu ver, continha a saudade.
O vento também derrubou algumas fotos e papéis da lousa, arrastando-os até o centro do quarto. Mesmo neste barulho tão suave, minha mãe pediu novamente, com a voz próxima da porta, que eu fechasse a janela, utilizando-se do mesmo discurso:”você irá acordar com tudo no chão, ou irá pegar um resfriado forte”. Desta vez obedeci, depois de sentir a ventania gélida cortar a blusa da qual eu vestia, provocando arrepios por toda extensão do meu corpo, e depois de ouvir a queda de mais papéis da lousa, mesmo que estivessem muito bem pregados nela.
Em direção à janela, recolhi os vasos caídos, ciente de que no dia seguinte eu teria de limpar toda sujeira. Ainda, observei pela última vez, através da janela, a Lua cintilante no topo do céu, empurrando seu brilho àqueles que desejavam engoli-lo e se embeber de verdadeiro fulgor. Minha mão, enfim, deslizou o vidro de um lado para o outro, fechando a brecha na qual as bafejadas do vento adentravam pelo cômodo. Naquele momento, pude sentir o último sopro se bater contra o tecido da cortina, mas, num instante, o pano ficou estático, esbarrando no chão gelado. E um silêncio confortável apareceu no quarto, sem qualquer resto de barulheira externa.
Um suspiro escapara dos meus lábios, quando meu corpo esteve erguido frente à janela. Caminhei dois passos para trás, até então de costas, preservando a bela imagem da lua cheia, pensando também em . Será que ele dormia bem?
Senti um papel se grudar no calcanhar de um dos meus pés, e agachei-me rapidamente para que não houvesse perigo de amassá-lo sem querer. Percebi que era, na realidade, uma fotografia já vista por mim da Praia de Songjeong5 no período da manhã — sua areia limpa e o nascer do Sol criando o ar prazeroso do local, apresentando, também, o céu sombreado pelas aves passageiras —, assinada, no verso, por , entregue no dia seis deste mês, que dizia, na legenda, com sua caligrafia pequena e um pouco desordenada; mas, apesar disso, compreensível:

Estas palavras a seguir não teriam sentido se não fossem escritas para você, bem como esta fotografia não teria magia alguma se não fosse tirada para você. Passei aqui no dia cinco, de bicicleta, bem cedinho como dá para ver. Fiquei lá em torno de duas horas (eu acho?). Talvez o tempo tenha passado mais rápido porque eu estava pensando em você enquanto via alguns casais iniciando corridas matinais, e alguns surfistas pegavam onda sem sequer saber que, abaixo deles, uma sereia poderia estar passeando por lá, prestes a encantá-los… Mas não tenho muito a dizer agora porque a fotografia do céu me dá vontade de dançar; e ao mesmo tempo de ficar quieto, mirando a paisagem, testemunhando a mudança de cores no céu, sempre pensando em você.
Por enquanto é isto.

Com muito amor, X.

Sorri escorregando os dedos pela imagem como se eu pudesse absorver a energia de através dela — seu olhar bem estruturado para tirar uma foto que parecia se mover a cada passo meu, a cada segundo de admiração feita por mim. Uma foto que me fez lembrar da passagem de todos seus movimentos no teatro, proporcionando um estado de emoção desconhecido por mim. Não tinha dúvidas do quanto eu o amava— nem nunca tive porque, além daquela imagem, ele era, sim, a fotografia em movimento mais linda do mundo.

Nota da Autora:
1. Na mitologia egípcia, o coração do morto era entregue a Anúbis, guia dos mortos, para ser pesado; nisso, o coração bom era leve como uma pena.
2. Referência ao trecho”A utopia está lá no horizonte.”, do texto “Para que serve a utopia?” de Eduardo Galeano
3. Alioth: estrela principal da constelação Ursa Maior.
4. Referência ao trecho da música Sonho de uma flauta de O Teatro Mágico
5. Praia localizada em Busan.