Verão de 85

Sinopse: Em seu aniversário de 20 anos, ela recebe uma carta enviada por si mesma, diretamente do futuro.
O conteúdo – poucas linhas rabiscadas com pressa – mostrava apenas 3 endereços, acompanhados de um pedido “nunca visite”.
Mas ela era uma garota corajosa… E foi assim que conheceu o amor da sua vida.
Gênero: romance
Classificação: Livre
Restrição: Pode ser lida com qualquer pessoa.
Beta: Alex Russo

Capítulos:

02 de junho de 1985

— Jesus Cristo, você passou a noite inteira aí? – a garota desceu as escadas quase se arrastando, enquanto esfregava os olhos nas mangas do pijama com uma preguiça adolescente que se refletia no tom de voz.
— Você acha que vai demorar? – a outra ignorou a pergunta, esticando o pescoço entre as cortinas de estampa duvidosa, espiando a entrada de casa com olhos atentos pelo que era, provavelmente, a oitava vez nas últimas duas horas – Eles costumam passar antes das nove.
— Não no sábado. – A mais jovem revirou os olhos, espreguiçando-se longamente – Relaxa, garota…
À primeira vista, não havia semelhança óbvia entre as duas: os cabelos da mais velha eram alguns tons mais escuros e vários centímetros mais curtos, e o último inverno havia levado também seu posto como a filha mais alta. E não parava por aí: enquanto a caçula se vestia como uma mocinha de John Hughes, a primogênita preferia a protagonista de Dirty Dancing. Havia algo sobre como sorriam, contudo, que as identificava imediatamente como “as garotas : era um riso que vinha devagarinho no começo, e então de uma só vez, partindo-se em um sorriso aberto e característico.
— Você já esperou por 20 anos… – a mais nova deu de ombros, empoleirando-se no sofá ao lado da outra, recostando o rosto nela antes de bocejar – Feliz aniversário! – beijou o ombro da irmã, cerrando os olhos pronta para dormir só mais um pouquinho.
— Obrigada, . – a aniversariante agradeceu, mas o sorriso que abria congelou no instante em que ouviu o som discreto da bicicleta do carteiro. A garota saltou do sofá sem se preocupar com o modo como a irmã caiu sobre as almofadas com um “ouch” dramático – Chegou! – gritou em direção às escadas quando avistou o pai, que descia lentamente, ajeitando os óculos – Papai, chegou! – exclamou mais uma vez, partindo em direção à porta sem aguardar por uma resposta.
— Eu gostaria de vê-la empolgada assim com as cartas da Universidade, você não? – o pai sorriu divertido enquanto abraçava a esposa que acabava de se juntar a ele nos degraus, ao ver a garota correr porta afora sem importar com o fato de ainda estar de pijamas – Feliz aniversário, querida! – gritou, mas a primogênita não mais o ouvia.
! – a mãe exclamou, horrorizada, enrolando-se no robe cor de rosa ao ver a garota correr em direção ao carteiro, quase o atropelando no caminho – Meu Deus, essa garota, John… – apertou a ponte do nariz, mas o marido não lhe dava atenção, abrindo aquele sorriso com o qual presenteara suas garotas, o riso .
— O que acham que vai estar escrito? – se espremeu entre os pais na porta, a curiosidade tão aflorada que poderia facilmente ter corrido atrás da irmã se não estivesse tão desarrumada. Ela ainda tinha modos, por Deus…
— Nada de xeretar. – o pai apertou o nariz da caçula, observando com nostalgia o momento em que tomou sua carta nas mãos. A garota parou por um instante, observando os pais e a irmã como se contemplasse aquele marco, e quando voltou a andar, a euforia deu lugar ao receio de passos bem mais cuidadosos. A mãe sorriu de canto, enxergando-se na garota que parecia carregar nas mãos o peso de toda uma vida. Deus, parecia que ontem mesmo recebia a sua!
Mãe… apelou, mas a mãe passou um dos braços em torno da menina, trazendo-a para dentro de casa.
— Deixe sua irmã, sim? – beijou os cabelos desalinhados da caçula, que protestou com um resmungo, acostumada a conseguir apoio sempre que desejava – Me ajudem com o café da manhã, vamos, vocês dois… – chamou, mas o marido permaneceu onde estava, aguardando por .
Enquanto cobria o pequeno caminho de volta até a casa onde passara toda a vida, a jovem sentia o coração bater tão forte contra sua caixa torácica que o ar parecia escasso. Era a expectativa de toda uma vida bem ali entre seus dedos, tão trêmulos que ela poderia ter deixado cair a carta, se não a segurasse tão apertado.
— Sabe, quando você era pequena sempre assinava bilhetes para mim e para sua mãe assim: . – o pai segurou o rosto da menina entre as mãos, beijando a testa dela, que sorriu de canto como sempre que ele lhe chamava pelo nome completo – Como se exigisse ser levada a sério… É, essa é você, . – trovejou mais uma risada, que disfarçava os olhos marejados diante do inevitável: sua garotinha crescera – E o que quer que esteja escrito nessa carta não muda isso, sim?
— Sim, papai. – sorriu pequeno, aconchegando-se no abraço do pai até que seu coração voltasse a bater feito deveria, e não como se ela tivesse acabado de correr de Freddy Krueger por uma noite inteira.
John ! – a voz da esposa fez com que os dois rissem, abraçados, enxugando lágrimas teimosas dos cantos dos olhos – Cozinha! Agora!
— Panquecas de aniversário, minha especialidade. – John piscou, divertido – O dever chama. – acenou uma vez para a filha antes de entrar em casa, direto para a cozinha.
esperou que o pai entrasse para se sentar no primeiro degrau de casa, encarando a carta que tinha entre os dedos. Fantasiara durante anos sobre seu conteúdo, e agora sentia as mãos congeladas de expectativa: não sabia o que esperava. Mas esperava algo. Algo que mudasse sua vida, que lhe garantisse que havia algo pelo que esperar. Algo bom.
A garota leu seu nome no destinatário uma dúzia de vezes antes de ter coragem de virar o envelope, encontrando-se também no destinatário. . Soltou o ar com força, sua mente girando rápido demais para processar tudo aquilo: era real.
Uma carta da de 30 anos para ela, a de 20.
Não deveria ser nada especial, na verdade. Sabia bem como as coisas funcionavam: aos vinte anos, todos recebiam a sua… Uma carta enviada por si mesmos, diretamente do futuro. Uma única chance de mudar o passado, como eram conhecidas. Não deveria ser especial, mas era. Porque era um pequeno lampejo do futuro bem ali. Quase como… magia.
crescera ouvindo histórias de todo tipo: como a de seu pai, que advertiu a si mesmo sobre a escolha da universidade, e só por isso tinha sido tão bem sucedido no trabalho; ou sua mãe, que escrevera apenas para lhe assegurar que fizera um bom trabalho, e era muito, muito feliz – secretamente orava para receber uma dessas, mas conhecia seu próprio senso de humor para duvidar disso. E havia também aquele primo distante, que tentara evitar um acidente de carro e, bem, as coisas deram ainda mais errado. Não se devia mexer com a vida ou a morte, todos sabiam disso. Bem, ao menos ela recebera a carta… No ano anterior, um garoto duas ruas abaixo passou o vigésimo aniversário aguardando pela sua até concluir o óbvio: não chegara aos 30 anos.
— Vamos lá, … – murmurou para si mesma, rompendo o lacre da carta – Não me decepcione, garota. – implorou a si mesma, enquanto tirava do envelope uma folha de caderno sem nada especial.
No instante em que reconheceu a própria caligrafia, a garota franziu o cenho, incrédula. Aquela era sua carta, a que esperava por toda a vida? Um bilhete rabiscado em uma folha de caderno, com partes da tinta borrada?
— Mas que p…? – virou o papel, indignando-se ainda mais ao não encontrar nada no verso. Nada que desse algum sentido para aquela brincadeira de mau gosto, nada que explicasse aquela mensagem encriptada que não fazia sentido algum.
Releu a carta várias vezes, mal notando que algumas lágrimas do presente haviam se misturado às futuras, borrando ainda mais a tinta no papel. Ao final, já conhecia cada palavra de cor:


“02 de junho de 1997
,
Nunca visite:
12/06/85 – Cinema da Rua Elm
03/07/85 – Midnight Bell
17/08/85 – Casa da Árvore
.”

— Ei! – gritou-sussurrou, esgueirando-se para fora de casa longe dos olhos da mãe, os olhos brilhando de expectativa pela irmã – Você está famosa com seus livros? Conheceu o Rob Lowe? – continuou, com um suspiro sonhador, sentando-se ao lado da mais velha, ainda sem notar os olhos vermelhos da irmã – Desembucha!
— Aparentemente, eu não achei que isso era importante de ser mencionado… – resmungou, irônica, enxugando algumas lágrimas de frustração que lhe escapavam dos olhos. Entregou a carta à irmã, que a leu em silêncio, a empolgação desaparecendo de pouquinho em pouquinho, dando lugar à confusão – Incrível, não? , – repetiu o que lera uma dúzia de vezes nos últimos dez minutos – Sem nem um ‘querida’ antes. Ou um ‘oi, sei que não é fácil sair da adolescência, mas aguente firme!’ – resmungou, mais e mais irritada a cada instante.
— Parece que seu senso de humor não mudou… – concluiu, fazendo o mesmo que a irmã e checando cada ângulo da folha de papel até concluir que era aquilo, mais nada – Nem sua quedinha pelo drama, por Deus, … – riu baixo, maneando a cabeça em uma negativa divertida.
— Não tem nem uma despedida… – a mais velha choramingou, mas com a companhia da irmã ao menos já não se sentia tão mal. Era como seu pai dissera: era , e continuaria sendo, independente do que dissesse a carta idiota – Eu sou mal educada assim?
— Bem, – a mais nova limpou a garganta, sorrindo arteira enquanto passava os dedos pelas lágrimas da irmã, o que fez rir pelo nariz, descansando a cabeça no ombro dela, dessa vez – Da próxima vez que for mandar números aleatórios, que sejam da loteria, por favor.

12 de junho de 1985

podia ser chamada de muitas coisas, mas medrosa não era uma delas.
Ao menos era o que gostava de acreditar. Quer dizer, assistiu à trilogia Sexta-Feira 13 sozinha no cinema e nunca perdeu uma noite de sono sequer por isso – algo de que se orgulhava bastante, por sinal. Era sempre a primeira a topar qualquer aventura em seu grupo de amigos – não foi ela quem inventou um acampamento no meio do nada no último verão? – e sempre, sempre, dava risada das mocinhas de filmes de terror com seus comportamentos que iam contra todo e qualquer instinto de sobrevivência.
Então por que diabos sentia seus joelhos tremerem tanto e seu estômago dar cambalhotas ridículas enquanto rumava ao velho Cinema da Rua Elm?
— É sério isso? – encarou o próprio colo com uma expressão insatisfeita, forçando seus pés a pararem quietos nos pedais do carro pela força do ódio – Você não pode estar com medo disso, garota… – murmurou, encostando a testa sobre o volante e respirando fundo algumas vezes para se acalmar.
tinha passado os últimos dez dias repassando aquilo mentalmente centenas de vezes, buscando analisar todas as possibilidades: um maníaco com uma serra elétrica? Um incêndio no cinema? Não fazia ideia do que aquele código estúpido queria dizer – e se estapearia no futuro por aquela ideia idiota – mas sabia de uma coisa: não podia simplesmente obedecer, e nunca saber do que se tratava. Ela não tinha morrido, certo? Ou não teria nem mesmo enviado a carta… O que quer que fosse, não poderia ser tão ruim assim.
— Bem, -do-futuro, se queria mesmo que eu seguisse essa porcaria de ordem idiota… – continuou, irritada, porque era melhor ter raiva do que medo – Adivinha?! Deveria ter sido mais clara! – continuou sua briga consigo mesma enquanto chegava à rua do cinema, sentindo o coração se acelerar dentro do peito ainda mais do que ela fazia ao dirigir acima do limite de velocidade.
“Nunca visite”… Francamente.
A garota estacionou o velho Maverick da mãe bem diante do cinema, e não se permitiu mais um segundo sequer de hesitação antes de saltar do carro, olhando desconfiada para as portas fechadas do local. O sol começava a se pôr naquele entardecer de terça-feira e, como esperado, não havia sessões programadas para aquela noite – então o que diabos deveria fazer ali? Ou não-fazer ali? Sentia-se estrelando sua própria versão de Ghostbusters, mas os únicos fantasmas que procurava eram aqueles que assombravam seu futuro.
Um pôster enorme de Clube dos Cinco lhe encarava com rostos sorridentes, e não encontrou nem mesmo disposição para olhar um pouquinho mais para a figura de John Bender, seu mais novo amor platônico. Tinha negócios a tratar.
Um segundo olhar mais atento – aquela viga não parecia velha o suficiente para desabar e causar um acidente, certo? – e notou que a porta na realidade estava aberta. Fácil demais. Oh, Deus…
— Merda, merda, merda… – resmungou sozinha, porque se sentia exatamente como uma mocinha de um filme trash, fazendo exatamente o que não deveria. Estaria jogando pipocas TV, se estivesse assistindo à cena, para ser sincera.
Mas aquele não era um filme de terror.
Colocando um pé diante do outro e desejando intimamente não morrer usando um moletom velho do Hard Rock Cafe e os All Stars cor de rosa de – seria humilhação demais – a garota andou silenciosamente, seguindo o som que, enfim conseguia perceber, não se parecia com uma trilha sonora de filme de horror. Pelo contrário.


“I would say I’m sorry
If I thought that it would change your mind
But I know that this time
I have said too much
Been too unkind”

“Boys don’tcry” se tornaria a música deles a partir daquele instante, mas não tinha como saber disso. Como também não podia imaginar que, por mais bonita que fosse a voz dele naquele momento, jamais soaria tão bem quanto um tantinho mais rouca ou ligeiramente sem fôlego, bem próximo ao seu ouvido. Não tinha mesmo como saber que o garoto que cantava para uma plateia invisível, com o macacão jeans parcialmente desabotoado deixando aparente a camiseta do Led Zeppelin, era o amor da sua vida – ou seria, um dia.
Os olhos dele se abriram, encontrando os de imediatamente – não por magia ou algo do tipo, mas porque a garota parada na escadaria era a única viva alma dentro do cinema, além dele próprio. Então ele sorriu, não porque reconhecesse ali um grande amor, mas porque ela era a coisa mais bonita em que já colocara os olhos e, bem, ele era só um garoto. Um garoto apaixonado por bandas de rock progressivo, tênis coloridos, e garotas bonitas.
Talvez a verdadeira mágica tenha começado quando ele perguntou, um tanto surpreso, se ela gostava de The Cure. Ou quando ele conheceu o riso – porque, por favor, ela conhecia toda a discografia deles! – e lhe devolveu um sorriso que combinava aquela malícia despretensiosa que era tão sua com a inocência de um par de covinhas.
É possível que tenha sido quando ele pediu que ela ficasse – e ela ficou, por mais meia dúzia de músicas. Ou quando lhe contou o que fazia ali no cinema abandonado – caçava fantasmas, por assim dizer – e ele se ofereceu para ajudar, com olhos cheios de promessas de aventuras que, tão cedo, já faziam o coração corajoso dela se acelerar um pouquinho.
Talvez tenha começado muito antes, quando nasceram; ou muito depois, quando a -do-futuro escreveu a carta idiota, pedindo a si mesma que nunca fosse àquele cinema.
Por sorte ou azar, podia ser chamada de muitas coisas – mas medrosa não era uma delas.
E foi assim que, em 12 de junho de 1985, ela conheceu .

03 de julho de 1985

… – ele dizia o nome dela com um sorriso de canto, como se ele soasse muito divertido ou muito gostoso em seus lábios – Você está com medo? – a pergunta veio acompanhada de uma sobrancelha erguida e um sorriso cretino que sabia ser a chave para qualquer pedido, e quase o odiou por um momento.
Quase, porque se aprendera algo sobre no último mês, era que se manter irritada com ele era virtualmente impossível: havia algo extremamente cativante no garoto de sorriso fácil e olhos espertos que usava o velho cinema do tio como palco dos ensaios de sua própria caminhada rumo ao estrelato.
— Cala a boca. – a garota cutucou as costelas dele com o cotovelo no instante em que ele se adiantou e passou um dos braços em torno de seus ombros, trazendo-a para um abraço apertado – Eu não estou com medo, estou atenta. – explicou, afrouxando os braços do rapaz ao seu redor, um tanto menos afeita que ele àquelas demonstrações efusivas de afeto, e esta era só mais uma das coisas em que eram adoravelmente opostos.
amava filmes de terror; se assustava com o som de um escapamento de moto. Ela preferia o punk de The Police e ela tinha uma queda por The Smiths – mas de alguma forma encontravam consenso em The Cure. Ela, aspirante a escritora de livros de terror sem qualquer pretensão de holofotes; ele, nascido para as câmeras, a personificação de uma estrela – não das que ofuscam, das que iluminam tudo a sua volta. Ela ceticismo rebelde, ele malícia juvenil.
Em comum, tinham aquele verão, o último antes de serem arrebatados pela vida adulta. Um último verão, uma última aventura – caçar-fantasmas, brincar de desvendar o futuro e suas cartas misteriosas… Se apaixonar.
E era por isso que estavam no Midnight Bell naquela noite.
O bar buscava emular um pub europeu e ia bem até onde a cerveja chegava, mas falhava em manter o espírito quando chegava a temporada do futebol e decoração dava lugar a faixas do time local e homens de meia idade gritando para telas de TV. Aquele era o segundo lugar na lista de , e ela passou algum tempo relutando contra a ideia de ir ali naquela noite. Foi convencida – quem diria! – por , que podia não ser corajoso, mas encontrava nela uma vontade de ser: ofereceu-se como sidekick de sua aventura. Estaria com ela para caçar seus fantasmas. Para viver aquela aventura.
— Preste atenção em mim, então. – ele deu de ombros daquele modo peculiar, roubando uma das batatas fritas da garota e piscando, sem remorso algum, no instante em que a colocou na boca.
choramingou e, veja bem, ela nunca choramingava. Na verdade, tinha verdadeiro pavor da palavra – Você pode, por favor, focar no que estamos fazendo? – pediu, porque ainda que a presença dele a acalmasse, fazendo tudo parecer uma grande brincadeira, ainda sentia um medo primal do que poderia lhe aguardar naquela noite.
— Eu estou prestando, …. – ele suavizou o tom de voz, tocando o nariz da garota com o indicador e mostrando uma das covinhas – Não parece ter nada assustador aqui, além daquele barbudo esquisito ali… – deu mais uma olhada ao redor, sussurrando a última parte apenas para arrancar um sorriso fraco da garota – Você tem um guarda-costas, de qualquer jeito… – endireitou os ombros para parecer um pouco maior, e enfim soltou uma risada, escondendo o rosto em seu ombro.
— Por que está fazendo isso? – perguntou, sem erguer o rosto.
— Porque um dia você vai ser famosa escrevendo livros sobre isso, e eu quero estar neles… – ele respondeu com simplicidade, e não conteve um sorriso, ou o calor que tomou conta de seu coração com a ideia.
— Você já recebeu sua carta, por acaso, pra estar brincando de ler o futuro? – riu de canto, porque ainda tinha 19 anos, e aquele era um motivo constante de implicância entre eles.
— E por que eu falaria de você na minha carta, ? – ele ergueu uma sobrancelha, sugestivo, apenas pelo prazer de vê-la corar furiosamente. Segurou o punho que usava para lhe bater, admirando o modo como a expressão dela suavizou em uma risada, que cessou aos pouquinhos, conforme se davam conta da proximidade em que estavam.
— Hm… – pigarreou, colocando uma mecha dos cabelos detrás da orelha e aproveitando o gesto para se afastar um pouquinho, corando ainda mais diante da cena ridiculamente clichê que protagonizava naquele momento – Vem, não vamos passar a noite sentados… – colocou-se de pé, puxando pela manga da jaqueta jeans para que fossem para mais perto do palco.
— Esse cara nem sabe cantar, … – o rapaz resmungou, pegando suas cervejas e se arrastando atrás dela. Assim que chegaram mais perto das caixas de som, torceu o nariz para o ruivo que tomava o palco, esforçando-se para cativar uma plateia que não parecia muito mais empolgada que o próprio .
— Por que você não canta? – a garota perguntou, puxando sua jaqueta algumas vezes com a empolgação – O microfone é aberto! – animou-se com a ideia, abrindo um sorriso, esperando alguma resposta do rapaz, que a encarou em silêncio por alguns segundos, tomando um gole demorado de cerveja em seguida.
— Eu nunca cantei pra uma plateia de verdade antes. – confessou, sabendo que aquilo soaria como um absurdo. Ensaiava quase todos os dias em um cinema vazio, e ao mesmo tempo em que sonhava com uma multidão gritando seu nome, apavorava-se com aquela ilusão. Que tipo de pessoa sonhava com a fama, e tinha verdadeiro pavor do palco?
permaneceu em silêncio por alguns instantes com os olhos presos aos de , que lhe deixavam entrar e vislumbrar todo o receio que ainda havia naquele coração de garoto: medo do julgamento alheio, de não ser bom o bastante, de falhar.
— Você cantou pra mim. – ela disse, e havia um carinho tão grande em suas palavras que o sorriso de nasceu quase de imediato, erguendo seus lábios apenas o suficiente para que ela soubesse que ele também se lembrou daquela tarde no cinema – Pode fazer isso de novo, . – incentivou, maneando a cabeça em direção ao palco com um sorriso esperto.
sorriu largo dessa vez, sentindo mais uma vez aquele ímpeto de ser corajoso, como ela. Piscou, de volta a sua persona cativante e segura de si, respirando fundo e acenando uma vez antes de partir em direção ao palco, esperando que o cover mal feito de Bon Jovi terminasse sua canção.
A garota assistiu com o estômago repleto de expectativa o modo como caminhou até o microfone: tudo nele era tão bonito. Da linha bem marcada da mandíbula que ele tencionava pelo nervosismo aos ombros largos onde ele ajeitava a correia do violão. Ele enfim se postou sob o holofote do palco e sorriu: aquele era o seu lugar. Quando ergueu os olhos, o sorriso de o aguardava, e por um instante, como no cinema, só existia ela ali.
— Essa música é pra garota mais corajosa que eu conheço. – disse, com um sorriso de canto que se partiu em risada quando ergueu os braços, assoviando – Eu adoro caçar fantasmas com você.


“Let’s dance in style, let’s dance for a while
Heaven can wait we’re only watching the skies
Hoping for the best, but expecting the worst
Are you gonna drop the bomb or not?”

Aos primeiros acordes, o sorriso no rosto de chegou para nunca mais desaparecer, e quando a voz suave de cantou os primeiros versos, ela sentiu seu corpo inteiro se arrepiar. A música era feito uma homenagem àquele verão, às aventuras e desventuras que viviam na companhia um do outro. A eles.


“Forever young
I want to be forever young
Do you really want to live forever?
Forever, and ever.”

Durante toda a canção, o sorriso dela lhe injetava confiança – não aquela confiança vazia que ele já vestia com seus modos seguros de si, mas do tipo que lhe fazia acreditar verdadeiramente que nascera para aquilo, o que era corroborado pelo modo como foi aplaudido por sua voz e seu carisma tão peculiar.
Ao descer do palco, teve certeza de que era aquilo o que queria fazer pelo resto da vida: não só cantar. Cantar para .

17 de agosto de 1985

— Você não tá ansioso pra abrir?
espiava a carta entre os dedos de , mas o rapaz não parecia tão preocupado quanto ela. Talvez porque não acreditasse tanto naquela bobagem de carta, talvez porque estivesse plenamente feliz com seu presente para se preocupar tanto com o futuro. Os dois tinham se esgueirado pela portinha pequena da Casa da Árvore no quintal da casa da garota há mais de meia hora, sem fazer de fato o que combinaram de fazer ao pisarem ali.
completava 20 anos, e os dois tinham decidido que ele leria a carta no último local citado na carta de , para encerrar de vez aquele mistério sem fundamento que, agora a garota acreditava, não passava de uma piada de mal gosto dela para si mesma.
— Você quer ler? – ele perguntou, dando de ombros, e a garota revirou os olhos, irritada – Ok, ok, eu vou abrir. – cedeu, rompendo o lacre da carta.
— Eu nem devia estar aqui, sabe? – se adiantou em direção à porta, porque não de alguma forma não parecia certo que testemunhasse um momento tão pessoal.
, espera. – segurou seu braço, porque não queria fazer aquilo sozinho – Fica, por favor. – pediu, e demorou um segundo para que a garota concordasse, sentando-se de pernas cruzadas de frente para ele, observando atentamente cada movimento do rapaz que, só então ela percebia, tinha as mãos trêmulas – Tem algo que… – ele levou uma das mãos à nuca, abrindo um sorriso de canto quase envergonhado, que não era tipicamente seu, mas ainda assim parecia lhe cair bem – Independente do que essa carta idiota diga, eu queria dizer que… Você é a garota mais incrível que eu já conheci, . – seus olhos se espremeram pelo sorriso, bem como os dela faziam diante dele – E me apaixonei por você no segundo em que você entrou naquele cinema, e…
O que quer que fosse dizer foi interrompido pelos lábios de , que se chocaram contra os seus em um beijo carregado daquela energia adolescente que era tão deles. Beijavam-se com carinho e curiosidade, conhecendo um sentimento inteiramente novo que, começavam a entender, era a verdadeira aventura daquele verão.
— Eu não acredito que você transformou meu filme de terror em uma comédia romântica idiota… – murmurou contra os lábios dele, e o modo como riu ali tão pertinho era algo com que ela poderia se acostumar facilmente na vida.
— Sinto muito. – ele acariciou o rosto dela com os polegares, admirando o rosto da garota sobre a qual gostaria de cantar pelo resto da vida – Anda, vamos terminar com isso… – puxou para que se sentasse ao seu lado, enfim abrindo o envelope do futuro. Trocou um último olhar com a garota, antes de enfim começar a ler sua carta – “E aí, cara? Feliz aniversário!”
— Já começa ganhando pontos pela educação, ao contrário de mim… – resmungou, sendo calada por um olhar do garoto – Ok, desculpa, continua…


“E aí, cara? Feliz aniversário!
Esse ano foi animal, não foi? Tenho certeza de que não se arrepende de ter se mudado. E não deveria, mesmo… Foi uma das coisas mais importantes que fizemos.
Se minhas contas estão certas, a essa altura você já descobriu The Smiths, e te garanto que dez anos depois eles ainda são sua banda favorita. Você acreditaria se eu contasse que já abriu um show deles? Que bom que perdeu seu medo do palco, hm?
E se hoje é 17 de agosto de 85, isso significa que você contou a que a ama.
Eu não sei quanto do futuro devo revelar, nunca entendi bem o quanto essas cartas – que você achava idiotas, e eu sigo pensando o mesmo – impactam nas nossas escolhas. Mas dizem que é a nossa única chance, certo? Então acho que é importante que saiba disso: é o amor da sua vida.
O tempo vai passar e vocês terão problemas, como todo casal. Brigarão como nunca pensaram que poderiam algum dia, mas, por favor… Por favor, , nunca se esqueça do que sentiu nesse verão. Nunca deixe que ela se esqueça, também. Porque, honestamente, sucesso algum (e te garanto que você chegou lá!) vale a pena se não a tiver do seu lado.
Eu não sei o que disse a si mesma na carta dela, depois do modo como tudo acabou entre nós dois. Talvez ela queira tentar de novo. Talvez deseje nunca ter te conhecido.
Espero, de verdade, que você faça um trabalho melhor do que eu.
Seja feliz, sempre.
.”

17 de agosto de 1995

— Sabe, nós já estamos velhos pra isso…… – sorriu no instante em que conseguiu escalar a escadinha que levava até a casa da árvore do quintal de seus pais, onde passavam o fim de semana, e ela sabia que encontraria . O homem soltou uma risada, e ali dentro daquele lugarzinho tão particular, ela ainda tão soava como o riso moleque que ele tinha dez anos atrás. deu dois tapinhas na madeira ao seu lado, esperando que se esgueirasse até se sentar ali – Feliz aniversário. – ela desejou, com um sorriso, e ele selou seus lábios brevemente, murmurando um agradecimento.
Seu semblante pensativo e a carta que trazia nas mãos davam à mulher a certeza de que ele também pensava sobre o mesmo que ela: era o fim de um ciclo, e o começo de um novo. Um em que ninguém lhes diria o que fazer ou que caminho tomar – ou não tomar – mas que trilhariam juntos, como fizeram até ali.
— Acabou, amor… – ela murmurou, e ele maneou a cabeça uma vez, beijando os cabelos da mulher com carinho. Tinham conseguido.
— Acaba de começar. – tocou o nariz dela com o indicador, sorrindo – Ou você acha que vai se livrar de mim fácil assim? – franziu o cenho, estreitando os olhos de brincadeira, apenas pelo prazer de vê-la sorrir daquela forma que – graças a Deus! – transmitira aos filhos.
— Quem sabe? – deu de ombros, fingindo não se importar, mas soltando um gritinho agudo quando a agarrou pela cintura, prendendo-a contra o chão de madeira e a beijando demoradamente, tão diferente de quando fizeram aquilo pela primeira vez, bem ali. Havia tantas histórias escondidas naquele beijo… Histórias que embalaram canções, que se desdobraram em livros, que construíram quem eram.
Por um instante, foi como se estivessem numa fenda temporal: parcialmente no passado, revivendo o dia em que montaram o quebra cabeças acerca de seu futuro e se decidiram por jogar todas as peças para o alto, começando do zero e construindo uma nova figura.
Felizmente, o presente era tão bom que podiam vivê-lo com calma, sem ansiar pelo porvir. Porque este seria bom, sabiam que sim: ele estava em suas mãos.

Nota da autora:
Eu juro que esse plot era mais interessante na minha cabeça… hahahaha
Acho que não consegui desenvolver a história como gostaria, mas espero que tenha conseguido te arrancar um sorrisinho ou outro. Gosto muito dessa protagonista, e dele também, e tô torcendo pra que a história não tenha sido arruinada pela minha ideia idiota de criar uma ‘mitologia’ e não explicar direito hehe

Críticas e comentários são muito bem-vindos!

Beijinhos e até a próxima! Belle.