Forgotten

Sinopse: Percy Jackson esperava que qualquer coisa — qualquer coisa mesmo — passasse pela fronteira que separava o Acampamento Meio-Sangue do mundo mortal, mas nunca sequer cogitou a possibilidade de ver Nancy Bobofit cruzando o limite do pinheiro após ser reclamada como filha de Hermes.
Gênero: Aventura/Fantasia
Classificação: Livre
Restrição: Nenhuma
Beta: Rosie Dunne

1.Se algo tem chance de dar errado, vai dar errado.

O dia estava um tanto quanto estranho na colina do Acampamento Meio-Sangue e Percy não fora o único a notar o fato. A maioria dos campistas sentia que tinha algo acontecendo, mas era praticamente inexplicável, não sabiam dizer o porquê. Por algum tempo imaginaram se tratar de algum ataque que viria a acontecer no decorrer do dia mas, durante o café da manhã, Quíron, o diretor de atividades do acampamento e centauro em tempo integral, tranquilizou-os dizendo que tudo estava normal, que a sensação não passava disso: uma sensação.

Mas é claro que Percy não deixaria isso passar. Conhecia Quíron o suficiente para saber que o leve beliscão no queixo que havia dado durante seu comentário era de puro nervosismo e preocupação. Tinha algo acontecendo e seria Percy quem descobriria.

— Eu já disse que não há nada de errado, Percy. Pode ir se deitar tranquilo, nada vai acontecer. Faça como seus colegas. — disse enquanto trotava a caminho da Casa grande.

Percy tentava acompanhá-lo, mas claro que as pernas de cavalo eram rápidas até para um meio-sangue treinado.

— Você não me engana, não consegue mentir pra mim e muito menos para Annabeth. Você acha que não sei que você contou a ela o que está acontecendo? — falou enquanto finalmente paravam e Percy podia respirar.

— Ela te contou algo? — Quíron subia os degraus.

— Não, me falou que não está acontecendo nada.

— E é o que está acontecendo. Boa noite, Sr. Jackson. — Quíron sorriu misterioso, como sempre, e fez um aceno de cabeça que indicava que a conversa havia terminado ali. Percy dormiria com a dúvida na cabeça aquela noite.

Respirou fundo e enfiou a mão no bolso da calça sentindo sua fiel amiga, Contracorrente, no lugar de sempre. Começou a andar em direção ao Chalé 3 um pouco mais despreocupado e apenas cansado, afinal os treinos eram sempre puxados. Olhou bem o lago atrás do acampamento vendo as águas calmas de sempre. Realmente não parecia estar acontecendo nada, talvez Quíron e Annabeth não estivessem mentindo e no fim das contas fosse só coisa de sua cabeça devido aos acontecimentos recentes e recorrentes desde que se descobrira semideus. Estava sempre desconfiado.

Respirou profundamente sentindo bem no fundo do seu olfato o cheiro da plantação de morangos e finalmente resolveu se preparar para dormir. Não se preocupou em se trocar aquela noite, apesar de ter desistido da ideia de que algo aconteceria, não se sentia seguro o suficiente para vestir o pijama azul que a mãe lhe deu no início do verão.

A noite estava passando como de costume, as harpias faziam seu trabalho e não havia sequer uma alma semi-mortal viva andando pelo acampamento. Superficialmente tudo parecia na mais completa ordem, mas Quíron estava acordado. E ele nunca desperdiçava uma boa noite de sono.

Seus olhos percorriam o alto da colina, iam até o grande pinheiro, onde o velocino de ouro resgatado há dois anos descansava, e voltava até o lago. Estavam chegando. Ele sentia. Isso só se comprovou quando a cabeleira ruiva de Rachel apareceu correndo no meio do campo entre os chalés.

“Sinto a fúria de suas palavras, mas não
entendo nada do que você diz” Othello 4.2
— Uma benevolente. Isso é extremamente preocupante. Tulipa não será capaz de protegê-la por mais tempo. — Quíron coçou a barba cheia e depois alisou o cabelo, colocando os fios desgrenhados e grossos no lugar.

— Por que ela não tem um protetor? Pensei que todas as crianças tivessem um protetor quando o cheiro fica mais forte. —disse Rachel, sentada no sofá com a cabeça apoiada nas mãos. Os olhos estavam vermelhos e parecia estar cansada. Eram dias difíceis para o oráculo.

— Eu creio que também não posso explicar o que está acontecendo. Foi uma surpresa para nós também. O Sr. D não está nada contente com o que está acontecendo.

— E onde ele está? — Perguntou coçando os olhos e franzindo as sobrancelhas.

— Dormindo. — Quíron sorriu e Rachel revirou os olhos. — Você conseguiu identificar em que local ela estava? Se já estava perto do acampamento?

— Eu não consegui reconhecer, parecia algo como um beco ou coisa do gênero. Eu penso que nem saíram da cidade ainda.

Quíron começou a andar em círculos ainda mais preocupado que antes. Talvez conseguisse mandar uma expedição para ajudá-las, ou seria melhor ele mesmo ir buscá-las? Respirou fundo sentindo os músculos relaxarem e já estava saindo para buscar sua cadeira de rodas motorizada quando viu uma movimentação estranha pela janela. Franziu a testa e se aproximou do vidro. Os campistas corriam indo em direção ao pinheiro de Thalia, as Harpias furiosas com a interrupção de seu trabalho sobrevoavam os adolescentes enquanto berravam palavras soltas. O fluxo de gente não cessava.

Rachel ouviu também o que estava acontecendo e se aproximou de Quíron. Ambos se entreolharam e a conclusão foi a mesma: não só já haviam saído da cidade como haviam chego.

Percy havia acordado com Annabeth a chacoalhá-lo. Sentou na cama completamente confuso e coçou os olhos.

— Sabidinha? O que está acontecendo?

— Acho que estão tentando invadir o Acampamento. — seus olhos cinzentos apreciam duros e profundos. Não era brincadeira.

O garoto se levantou e vestiu os tênis o mais rápido possível, logo saíram correndo e se misturando aos outros campistas que, assim como eles, já empunhavam suas armas.

— Ei, Jackson, seu rosto está babado! — gritou Clarice, passando por ele, rindo como se aquilo fosse a coisa mais engraçada que já havia visto em toda sua vida.

Percy se virou para Annabeth com cara de indignado enquanto limpava a boca com a camiseta laranja.

— Dá pra acreditar? — perguntou enquanto corriam colina acima.

— Dá, sim. Eu te disse que você baba enquanto dorme. — ultrapassou-o.

As garotas tiraram a madrugada para caçoar com sua cara, só podia ser isso. Quando chegou no alto da colina, percebeu que ninguém mais corria, estavam todos em posição de batalha.

— Benevolentes! — disse Annabeth enquanto se aproximava. — São cinco!

— Por que elas estão aqui? — apertou Contracorrente no bolso da calça, como sempre, apesar de tê-la deixado sobre o travesseiro no chalé. — Benevolentes não atacam assim do nada.

— Tem alguém ali, elas não vieram à toa! — Travis Stoll ria animado. Protegia o peito com o escudo e dava pulinhos. — É uma garota!

Percy olhou para Annabeth e os dois correram na direção dos monstros, afinal eram inimigos de longa data. Quando chegaram mais perto da linha de frente onde Clarice estava puderam vê-las: tinham duas garotas, uma ruiva mais ou menos da sua idade estava caída no chão protegendo o rosto com os braços enquanto uma ninfa dava investidas com um galho de árvore grosso afastando os monstros da menina.

— Preparem os arcos! — gitou Clarice — Só disparem quando tiverem certos de acertar as benevolentes!… Agora!

Uma saraivada de flechas acertou as monstruosidades que voavam, mas derrubaram apenas duas. As outras três se defendiam com as grossas asas de couro, um escudo praticamente impenetrável. Percy tirou Contracorrente do bolso e destampou-a, vendo a espada aparecer em suas mãos. Girou-a uma vez, estabelecendo o equilíbrio, e logo disparou a correr na direção das fúrias.

— Jackson! — ouviu o grito enraivecido de Clarice ecoar pela colina — Seu idiota!

Ainda correndo, usou uma pedra mais alta para conseguir ter impulso para saltar e alcançar de raspão a asa de couro de uma das benevolentes, que foi o suficiente para chamar sua atenção. Esta se virou em sua direção e aumentou sua altitude para ser capaz de dar uma investida forte. Percy se esquivou abaixando ao mesmo tempo em que apontou a espada para cima rasgando a barriga da fúria de uma ponta a outra, que imediatamente virou poeira.

As outras duas o olharam e logo desviaram sua atenção para ele. Percy se posicionou novamente, pronto para o ataque. Um dos monstros caiu quando estava próximo, a pelo menos 3 metros de distância, e logo viu Annabeth retirar o boné dos Yankees e soprar a lâmina do punhal que sempre carregava. Quando se deu conta a pata do último monstro já estava a centímetros de tocar seu rosto, mas uma flecha acertou-a na cabeça, transformando-a numa nuvem de poeira que caiu no rosto do garoto.

Percy chacoalhou a cabeça se livrando da sujeira e correu para ajudar a ninfa que tentava levantar a garota ruiva. Junto de Annabeth, Clarice e mais outros campistas, correu para ajudá-las.

— Por favor, você precisa se levantar, agora está segura!

A ninfa lembrava muito Juniper, a namorada de Grover. A pele era esverdeada, mas estava bem suja e machucada, e as orelhas pontudas se destacavam em meio ao cabelo castanho desgrenhado e cacheado. Sua túnica típica grega estava em farrapos e com uma das alças soltas. Era evidente que tinha lutado muito para chegar com a garota até àquela altura e Percy nem imaginava como, já que em sua época fora difícil para Grover que tinha sido treinado desde a infância para ser um protetor, imagine só para uma ninfa! A garota com ela não estava melhor. O jeans estava rasgado em várias partes revelando cortes profundos feitos pelas benevolentes ou algum outro monstro, faltava um dos tênis e a camiseta estava rasgada como a calça, deixando amostra o top preto por baixo. Seus cabelos ruivos estavam emaranhados num fuá e manchas escuras do que poderia ser barro tanto quanto sangue.

Annabeth se apressou a ajudá-la. Abaixou e tocou em seus braços, o que fez a garota estremecer.

— Calma! Não vou te machucar, você está segura agora. — falou com a voz mais passiva que Percy jamais viu.

— Não! Me deixe em paz! Vá embora, eu não fiz nada! — a garota gritou e por um segundo Percy sentiu que reconhecia aquela voz.

Um trote rápido logo pode ser ouvido e os semideuses ao pé da colina abriram espaço para o centauro que tinha a oráculo nas costas. Rachel saltou assim que se aproximaram mais.

— Todos para trás! Para trás! — a voz de Quíron se sobressaia as conversas altas. Lenta e cuidadosamente andou até perto dos garotos.

Todos deram alguns passos para trás dando espaço para o centauro chegar perto das duas garotas desconhecidas e tentar tranquilizar a ruiva que estava tendo um possível ataque de pânico.

— Mocinha, você está bem? — perguntou, calmo como sempre, tentando chamar sua atenção para algo que não fossem os acontecimentos de minutos atrás..

A garota não disse nada, apenas fez que não com a cabeça.

— Você está num lugar seguro agora. Depois daquela colina nada mais poderá tocá-la, venha, vamos cuidar de você.

A ninfa se abaixou e tocou-a no ombro falando algo baixinho, mas Percy pode ouvir devido à proximidade.

— Eles falam a verdade, Nany. Eu ouvi falar desse lugar e eles nos ajudaram. Vamos, precisamos cuidar dos seus ferimentos o mais rápido possível.

Com ajuda da ninfa, a garota se sentou ainda com as mãos sobre os olhos. Lentamente, como se com medo de ver o que a aguardava, tirou uma de cada vez. Seu rosto estava com um corte que ia desde o meio da testa passando por cima do olho esquerdo e acabava no queixo. Olhou a seu redor com o olho bom e parou quando este pousou em Percy. Sua boca se entreabriu.

— Pe… Percy Jackson?

O ar pareceu não entrar nos pulmões do garoto. Todos olharam no mesmo segundo em sua direção, parecia que até os micróbios tinham ficado tensos com como a estranha conhecia o filho de Poseidon. Annabeth o olhou fundo, desconfiada. Percy gelou e um frio correu por toda a sua espinha. Olhou bem o rosto da garota e então se lembrou.

— Nancy? Nancy Bobofit?

A garota continuava boquiaberta. Os olhos reviraram-se nas órbitas e a ninfa apoiou-a nos braços quando desmaiou. Quíron bateu contra a própria testa — provavelmente se dando de conta de que as consequências de Nancy Bobofit estarem ali não seriam nada boas. — e mandou levarem-na o mais rápido que podiam para a enfermaria para ser tratada pelos filhos de Apolo.

Feridas causadas pelas garras de uma Benevolente sempre eram graves e pela forma que estava machucada parecia que queriam fazê-la picadinho. Percy não saiu da enfermaria, aquilo parecia irreal demais para uma coisa assim estar acontecendo. Nancy Bobofit, a cretina que atormentou Grover e ele durante seu tempo na Academia Yancy, estava ali e aparentemente era uma semideusa. Isso não podia ser sério.

Viu quando Will Solace a sentou na cama ainda desacordada e deu um pouco de néctar. Seu rosto, que ainda parecia ter sido borrifado de cheetos líquidos, recuperou a cor e vitalidade. A ninfa que a trouxe estava na floresta sendo cuidada por outras ninfas.

— Ei, cabeça de alga, você está bem?

Annabeth entrou na enfermaria com algumas roupas no braço. A camiseta laranja do acampamento meio-sangue se destacava no alto da pilha, embaixo dava pra ver um jeans e um par de All Stars vermelhos um pouco surrados, emprestados de alguma campista.

— Estou sim, é que… Puxa, eu não imaginei vê-la de novo. É algo tão sem noção.

— Vocês… — Annabeth corou violentamente, mas respirou fundo e continuou. — Ela foi sua namorada?

Percy arregalou os olhos e riu nervoso.

— Está mais para pior inimiga. Nancy Bobofit estudava comigo na Academia Yancy, foi ela quem deu certeza para a Sra. Dodds de que eu realmente era o semideus que procuravam. Ela foi uma das pessoas mais cruéis que eu já conheci, empatando tranquilamente com a Clarice nesse quesito. Ela brincava de “derrube o aleijado” e colocava a perna na frente sempre que Grover passava por ela para pegar mais enchiladas.

— Entendo. Eu diria que ela é uma filha de Ares, pelo menos tudo o que você me contou indica isto. As características batem, não acha?

— Hermes.

Os dois olharam para a entrada e encontraram a ninfa de antes parada ali, observando-os. Sua aparência estava bem melhor, parecendo ter nascido novo, pois a cor de sua pele quase reluzia num verde brilhante, como um filha verdinha de uma árvore durante a primavera, bem diferente de antes.

— Ela é filha de Hermes? — perguntou Annabeth.

— Isso explica a cleptomania. — Percy se levantou e se alongou. Arrumou a camiseta no corpo e bateu na perna sentindo a caneta dentro do bolso. Se aproximou da cama onde Nancy estava e sentou-se na do lado de forma que podia vê-la com clareza. — Você sabe como tudo aconteceu? Aliás, como é seu nome?

— Me chamo Tulipa e eu a vi ser reclamada. — Percy e Annabeth mantiveram o olhar em Tulipa e Will Solace se demorou mais na troca dos curativos do que o necessário. — Estava no Central Park, cuidando da minha vidinha, quando eu ouvi os berros. Resolvi dar uma olhada, pois esse tipo de coisa sempre é bem engraçado. Quando cheguei perto eu a vi, um homem grandalhão gritava que ela havia roubado sua canga e a estava segurando pelo braço…

— Isso explica essa marca — disse Will, levantando um dos pulsos com um tom levemente roxo.

— Sim. Enfim, o mortal estava muito irritado e ela não parava de gritar e pedir ajuda, mas as pessoas a estavam filmando. De repente uma luz meio verde apareceu no alto de sua cabeça e as duas cobras de Hermes se enrolaram no caduceu, mas logo sumiu. Os mortais ficaram chocados e o grandalhão soltou-a e se afastou, nem imagino o que viram. Nesse momento eu soube que as coisas iam ficar ruins para ela. Dei uma olhada para ver se havia algum sátiro por perto para protegê-la, mas ela parecia estar sozinha. Então ouvi um grito muito alto e estridente e quando olhei para cima já havia uma benevolente procurando-a. Os mortais correram, mas ela congelou no lugar e foi aí que eu percebi que ela ia precisar de ajuda, então consegui puxá-la para o meio das árvores antes que a vissem, mas o cheiro dela ficou mais forte e tudo ficou mais complicado. Eu não consegui protegê-la bem, está toda ferida. Ela chorou tanto e não parava de se perguntar o que estava acontecendo.

— Você fez um ótimo trabalho, Tulipa. Poucos são os que conseguem proteger um semideus e trazê-los ao acampamento meio-sangue.

Tulipa sorriu carinhosamente para Percy e todos voltaram seus olhares para Nancy, que ainda estava apagada. Foi aí que ouviram a voz do Sr. D se aproximar, falando alto e com Argos e Quíron logo atrás.

— Onde está a menina?

Se aproximou dos campistas e olhou bem o rosto da garota ruiva deitada.

— Nancy. Nancy Bobofit. — corrigiu Quíron.

— E como é que você sabe? Pelo o que me contou, a menina desmaiou antes de responder sequer uma pergunta.

— Eu fui professor dela durante o tempo em que estive observando o Sr. Jackson.

O Sr. D estreitou os olhos para Quíron.

— E você não percebeu que tinha outra meio-sangue na escola, Quíron?

Quíron coçou a barba nervoso e respirou fundo.

— Nada indicava que ela era uma meio-sangue, Sr D. Nunca foi atacada por nada e nem mesmo a fúria percebeu. Alguma coisa impedia que notassemos sua paternidade divina.

— Talvez o cheiro de Percy por ser filho de um dos três grandes? — Annabeth bateu o indicador sobre o lábio como sempre fazia quando estava pensando.

— Não, na época eu não era perseguido por monstros porque o cheiro do idiota do Gabe cobria o meu. Deve haver outra explicação.

Todos os olhos se voltaram para a menina, mais dúvidas do que nunca rondando suas cabeças. O que aquilo poderia significar?

Nancy não acordou durante todo o dia, foi necessário que ficasse desacordada para ser tratada pelos filhos de Apolo. O resto dos campistas seguiu como de costume e só na hora de jantar a garota apareceu. Já estavam todos sentados, cada um na mesa de seu respectivo pai ou mãe e, não diferente, Percy estava em sua mesa, sozinho naquele momento, comendo qualquer coisa que conseguiu imaginar. Quando percebeu que estava tudo muito silencioso, ergueu os olhos do prato e resolveu dar uma espiada. Lá vinha ela.

Usava um par de muletas para auxiliá-la, já que suas pernas estavam realmente com feridas feias e que aparentavam estar se curando. Vestia as roupas que Annabeth havia levado e Percy sentiu um incômodo notando como estava diferente desde a última vez que vira Nancy Bobofit. Talvez por que na época ela estivesse molhada.

O cabelo permanecia encaracolado e agora já chegava quase a sua cintura. O rosto, apesar de estar coberto pela metade, continuava respingado de sardas laranja que Percy tinha certeza que se estendiam pelas costas e peito. Parecia mais magra do que uma garota saudável de sua idade deveria ser. Apesar das circunstâncias, parecia estar bem num contexto geral.

Quando notou que todos a olhavam franziu a testa e Percy soube que estava irritada. Esperou pelos gritos que daria, mas para sua surpresa Nancy apenas subiu os degraus e se dirigiu até onde o garoto estava. Apoiou as muletas no banco e se sentou cruzando os braços e abaixando a cabeça. Percy ainda não tinha voltado a comer e agora sentia ainda menos vontade.

— Nancy? — chamou e a garota levantou a cabeça, olhando-o desgostosa. — Você não deve se sentar aqui.

— Por que não?

Percy umedeceu os lábios antes de responder.

— Porque a sua mesa é aquela. — apontou para onde os filhos de Hermes estavam aglomerados olhando-os.

— Esta mesa está vazia, aquela está lotada. Não vai me dizer que ainda guarda rancor de tudo o que aconteceu naquela época!

Percy afastou-se da mesa e mordeu o lábio já ficando irritado. Abriu a boca para responder a altura, mas acabou sendo interrompido pelo Sr. D.

— Nany Outfit, venha até aqui.

Nancy olhou-o ainda irritada, mas pegou as muletas e se levantou, caminhando em sua direção. Parou em frente à mesa onde os adultos estavam e não parecia muito feliz.

— Seja bem-vinda ao acampamento meio sangue! Bla-bla-bla, já me disseram que foi reclamada então pode se sentar com seus irmãos e jantar. Não se esqueça da oferenda, garotinha.

— Irmãos? Eu sou filha única. — disse confusa.

Fez-se ainda mais silêncio, o que deixava Percy nervoso. Era realmente burra.

— Creio que a srta. não esteja entendendo o que está acontecendo, mas após o jantar terei o prazer de explicar tudo o que quiser saber, agora, por favor, sirva-se. Seus irmãos iram explicar como as coisas funcionam. — foi Quíron quem falou dessa vez.

Nancy continuou o encarando mesmo que Quíron já não estivesse falando mais nada. “Ela o está reconhecendo só agora”, Percy pensou consigo mesmo. Sorriu, aquilo seria divertido. O queixo de Nancy caiu e esta deu um passo para trás.

— SENHOR BRUNNER?— gritou, fazendo com que o Sr. D fizesse uma careta.

— Vamos deixar o reencontro emocionante para depois, garotinha! Agora eu quero comer, então vá se sentar! — disse ríspido.

Travis se levantou num salto e correu até onde Nancy estava parada, começando a puxá-la até a mesa. Sentou-a em seu lugar ao lado de Connor e começou a explicá-la como funcionava para conseguir comer e sobre a oferenda que deveria fazer. Apesar de parecer apavorada, acenava com a cabeça tentando guardar o máximo de informação que podia para se lembrar no outro dia de manhã quando acordasse, já que até aquele momento Nancy achava estar sonhando.

Percy voltou-se a seu jantar e viu quando Annabeth se aproximou e se sentou à sua frente. Estava com seu cálice na mão esquerda e bebericava enquanto encarava-o. O semideus podia imaginar o que viria a seguir, mas preferiu ignorar e tentar se concentrar na comida.

— Porque eu estou sentindo rancor vindo de você, Percy? — a garota deixando o cálice na mesa.

— Eu não sinto rancor, Anne. É só impressão.— disse, mas ele mesmo não conseguia acreditar no que falava. Sabia que uma pontadinha de rancor incomodava seu peito.

— Você não me engana.

Percy girou o pescoço sentindo os músculos tensos. Olhou os outros semideuses conversando animados com seus irmãos e virou para Annabeth.

— É que… eu disse, ela não é uma pessoa muito legal até onde me lembro. Ela fez um inferno quando Grover e eu estudávamos naquela escola, ela é uma perfeita Bully.

Annabeth lhe lançou um olhar complacente, porém esclarecido.

— O passado deve ficar no passado, Cabeça de alga. — um sorriso bonito se formou nos lábios da garota loira, fazendo o garoto se remexer no banco.

— Isso vindo da filha de uma deusa grega parece um pouco irônico.

Ambos voltaram seus olhares para Nancy Bobofit, um fantasma do passado que Percy queria muito deixar no passado, assim como Annabeth havia dito.