Ad Perpetuam Memoriam

  • Por: Rafa Oliveira
  • Categoria: Originais
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Sinopse: Durante a Revolução Inglesa em 1666 quando a cidade de Londres ardia em chamas, a Catedral de Saint Paul foi palco de uma outra tragédia para além de um famoso incêndio. Um casal jovem e apaixonado se casou secretamente sob a benção de um Padre. Se não fosse pelo fato de que ela estava prometida a outro homem e ele um recém-casado, não seria um problema. Descobertos pelo noivo traído, uma maldição foi lançada neles. Vagariam, perpetuamente, sem que pudessem viver aquele amor repentino. O suposto Padre, um bruxo descendente dos que sobreviveram à Santa Inquisição, lhes deu a chance de se defenderem e quebrarem a maldição. Nas próximas três vidas teriam que lutar por aquele amor ou viver a eternidade em um ciclo vicioso. Falhando nas duas primeiras oportunidades, terão apenas a última vida, em pleno século XXI, para encontrar uma forma de reverter a maldição e salvar não só o amor deles, mas também todos a quem a maldição atingiu indiretamente.
Gênero: Romance.
Classificação: 16 anos.
Restrição: Alguns fatos não condizem com a realidade, apenas o casal principal é interativo. Os nomes Katie, Jake, Damon, Diana, Louise, William, Thomas, Lucinda e Carter são fixos, assim como outros que aparecerão esporadicamente.
Beta: Sofia Alonzo

Capítulos:

Prólogo

“They don’t know about the up all nights
They don’t know I’ve waited all my life
Just to find a love that feels this right
Baby, they don’t know about us.” – They Don’t Know About Us – 1D
Londres, Inglaterra. 5 de setembro de 1666.
olhava para os lados enquanto caminhava, procurando ter certeza de que não era visto, mas parecia quase impossível visto que ele usava uma enorme capa preta sobre os ombros, para além do capuz que cobria de forma sombria o seu rosto. Estava escuro e ele estava contente por não ter muitas pessoas circulando pela rua, afinal, uma cidade em chamas não era o lugar mais apropriado para passear à meia-noite.
Ele olhou para cima por um instante, avistando a belíssima catedral de Saint Paul e sentindo como se o seu coração fosse sair pela boca a qualquer instante. Ela estava lá, ele tinha certeza que sim. Sua doce e bela, , o esperava ali dentro para que finalmente pudessem, juntos, partir dali. Um navio com destino à França sairia logo pela manhã e eles não viam outra forma que pudessem ficar juntos para além de uma fuga repentina. Felizmente, e teriam ajuda para isso.
deu a volta e procurou pela porta dos fundos. Se tudo corresse como o combinado, Damon Woodbead, seu melhor amigo, estaria do outro lado o esperando para abrir. O rapaz respirou fundo e então bateu três vezes na porta como acertado entre eles antes, então Damon abriu logo em seguida, aliviado por ter se lembrado do código e batido corretamente.
– Suas vestes são realmente divinas, meu caro amigo – riu ao entrar e notar que Damon usava uma bata que provavelmente foi emprestada pelo Padre John.
– O Padre é um homem muito gentil, disse que ninguém desconfiaria de um Cardeal. Talvez ele esteja correto.
– De fato, de fato – ponderou e então retirou o capuz quando se sentiu seguro com a porta trancada. – Ela está?
– Sim, chegou há alguns minutos e está belíssima apenas esperando por você.
– Não posso crer que estou prestes a me casar com a mulher que verdadeiramente amo – ele deu ênfase em verdadeiramente, fazendo Damon soltar um longo suspiro.
– Lucinda é uma boa moça, .
– Eu sei, espero que um dia ela possa me perdoar… Mas é a que amo, com quem quero passar o resto de meus dias. Não consigo imaginar uma vida sem ela e devo isso à você.
– Eu não esperava que você se apaixonaria justamente no baile em comemoração ao meu aniversário por Bamborough.
– Eu não só me apaixonei, Damon, eu a salvei. Ela não queria se casar com o Conde de Yorkshire, assim como eu não queria me casar com Lucinda.
– Eu compreendo. Vamos, não podemos tomar todo o tempo que nos resta.
apenas assentiu e seguiu Damon, que segurava a lamparina em sua frente para os guiar por dentre os cômodos até que pudessem chegar no salão principal da igreja, que estava iluminado apenas na frente, onde se encontrava o altar. Ele não pôde conter o sorriso quando viu bem ali ao lado do Padre John, apenas o esperando. Olhou para o primeiro banco e pôde ver as silhuetas de Diana e Thomas no meio da pouca luz sobre eles. estava mais do que agradecido por ter a irmã e o cunhado os apoiando naquele momento que marcaria sua vida para sempre.
Diana Somerhalder e Thomas Bamborough, mesmo sabendo o quanto aquilo era errado, se dispuseram a estar ali e darem toda a cobertura necessária ao jovem casal, embora soubessem que dificilmente voltariam a se encontrar outra vez naquela vida. Diana, a irmã mais nova de , e Thomas, o irmão mais velho de , gostariam de ser as testemunhas daquele amor proibido. Lamentavam por e não terem a mesma sorte que eles tiveram com o casamento arranjado.
– Obrigado por estarem aqui hoje – disse com sinceridade, mas antes que pudessem lhe responder, Damon forçou uma tosse enquanto se colocava ao lado do Padre.
– Sua noiva está bem aqui, , não a faça esperar por mais tempo.
Ele concordou e se aproximou de , que usava um vestido branco simples e surrado e um véu encardido, o que era lamentável para alguém de seu prestígio social, afinal, os Bamborough eram considerados uma das famílias mais ricas da Inglaterra, tal como os Somerhalders. não esperava que ela estivesse em um exuberante vestido de noiva feito especialmente para ela do mais caro tecido, mas ele gostaria de poder dar algo melhor para ela naquele momento tão especial.
sorriu quando segurou suas mãos antes de dizer qualquer coisa. Ela estava ansiosa como nunca, mas de uma forma boa, afinal, estava se casando com o seu grande amor, mesmo que isso lhe custasse o seu status, sua família e tudo o que ela tinha. Nada valeria a pena se não estivesse com . Apesar de ter apenas dezessete anos, sabia muito bem o que queria, ou melhor, quem queria, e este alguém certamente não era o Conde de Yorkshire. Carter Rodwell poderia ser um adorável rapaz do alto escalão, mas ele não era e nunca seria, e tinha certeza de que nunca o amaria.
– Estou tão feliz – ela confessou, incapaz de conter o sorriso que fazia o coração de acelerar todas as vezes.
– Eu também. Falta pouco, meu amor – ele se curvou para beijar as mãos dela, então olhou para o Padre. – O senhor já pode começar, estamos prontos.
– Eu vou ser breve – o Padre, que já era um homem de idade, disse bondosamente, sorrindo para o casal. – Espero que saibam o quão arriscado é este matrimônio e as consequências que isto pode trazer para suas vidas.
– Nós sabemos – prontamente disse com convicção. – Nada importa além do nosso amor.
– Gostariam de dizer algo um para o outro?
– Sim – apertou um pouco mais as mãos de , pois ele próprio sentia que estava tremendo. – Bamborough, eu lhe amei desde o instante em que te vi naquele baile, eu jamais poderia imaginar que eu seria capaz de me apaixonar por alguém como estou apaixonado por você. Quando te vi, eu soube que apenas uma vida não seria o suficiente para que eu pudesse te amar, então prometo te amar por toda a eternidade.
As palavras de pegaram de surpresa, pois ela jamais ouviu uma declaração de amor como aquela. Seu coração transbordava de alegria e ela mal podia esperar para o chamar de esposo, como estava esperando por algum tempo.
– ela disse com a voz embargada o apelido no qual somente ela o chamava. – Somerhalder, eu não tenho palavras para expressar o que estou sentindo agora. Sinto, talvez, uma alegria que transcende a vida, sinto que posso passar toda a eternidade com você se me for permitido. Obrigada, obrigada por me salvar de um casamento arranjado com alguém que não amo, obrigada por mostrar para mim o verdadeiro sentido do amor, por me mostrar a felicidade no meio de todos este caos. A cidade pode estar em chamas lá fora, mas eu não me importo, pois me sinto segura com você. Eu o amo e sempre, sempre amarei.
– Eu te amo – sussurrou em resposta, se contendo para não a beijar antes que o Padre lhe autorizasse.
Somerhalder, você aceita Bamborough como sua esposa, prometendo amar e respeitar por todos os dias de sua vida até que a morte os separe?
– Sim – ele respondeu prontamente, sem tirar os olhos de .
Banborough, você aceita Somerhalder como seu…
– Aceito – o interrompeu de tamanha ansiedade, fazendo sorrir.
– Então eu os declaro marido e mulher. , pode beijar sua noiva.
se curvou para puxar o longo véu de para cima, podendo ter uma melhor visão do rosto de sua amada e ela estava radiante, tão linda como sempre foi. o esperava, embora demonstrasse pressa em ser beijada, então , curvando o pescoço, colocou as mãos no rosto dela e pressionou seus lábios contra os dela, em um beijo suave e respeitoso na frente de seus entes queridos como deveria ser, mas desejava estar a sós com ela mais do que tudo, fingindo que seria a primeira vez, já que agora podia dizer que não estavam mais em pecado.
Sob os aplausos de Damon, Diana e Thomas, eles se separaram e se encararam, sorrindo e com lágrimas nos olhos por finalmente estarem casados e apenas a algumas horas de estarem longe dali em uma nova casa com uma nova vida.
– Ah, que cerimônia mais adorável! Sinto que meus olhos sangram de alegria!
Por dentre os bancos da igreja escura, Carter Rodwell caminhava em passos largos, aplaudindo ironicamente o matrimônio. sentiu como se fosse desmaiar a qualquer instante porque seu sonho se transformou em pesadelo em um piscar de olhos. Não sabia como Carter poderia estar ali, como havia entrado. Teria Damon esquecido a porta aberta? Ela não sabia, mas tinha quase certeza que, a partir dali, seus dias estavam contados.
– Como você entrou aqui? – perguntou abruptamente, se colocando na frente de e do Padre John.
– O Cardeal esqueceu a porta aberta – ele apontou para Damon que parecia perplexo com sua falha, incapaz de sair do lugar ou abrir a boca para dizer uma palavra que fosse em sua defesa. – Padre, acredito que isto seja um engano, este homem no altar é um impostor e eu sou o verdadeiro noivo desta linda dama. , minha doce , este velho vestido não lhe cai nada bem.
– Eu não posso fazer isso, Carter, não é você que eu amo – disse ao sentir repentina coragem, se colocando ao lado de . – Espero que você me perdoe.
– Perdoar? , você deveria saber o que acontece com as adúlteras, sim? Ande, saia daí e vamos embora, este casamento está anulado.
– O que Deus uniu, homem nenhum pode separar, senhor Rodwell.
– Pode, pode sim, é exatamente o que estou prestes a fazer.
– Terá de passar por cima de todos nós, Conde – Thomas se levantou do seu lugar.
– Tom, por favor, venha para cá – pediu, quase implorando, ao irmão.
– Thomas, Thomas… Eu não esperava isso de você, sempre te enxerguei como um amigo. Penso que não será muito difícil passar por cima de você, ou você pretende usar suas plantinhas medicinais para me impedir de tomar o que é meu por direito?
– Você não pode obrigar alguém a se casar com você.
– Diana? Me desculpe, eu não tinha notado que você estava aqui. Contraditório, não é mesmo? Até onde sei, você foi obrigada a se casar com ele, não foi?
– Eu me apaixonei pelo Thomas, mas você não ama a . Está feito, você não pode anular um casamento apenas porque deseja.
– Posso, posso sim – ele sorriu e podia jurar que aquele não era o Conde de Yorkshire que ela conheceu. Ele tinha uma expressão sombria no rosto, algo que a fez sentir um terrível arrepio na espinha. – Digamos que a Inquisição não queimou todas as bruxas, não é mesmo?
– Do que você está falando? – questionou, tentando não demonstrar que estava sim com medo do que poderia acontecer.
– Talvez tenham queimado todas as bruxas, mulheres, mas quem desconfiaria de homens, não é mesmo? Mais de um, eu diria. Estou certo, Padre?
– Esta é a casa de Deus, senhor Rodwell.
– Então somos dois hipócritas, falsos católicos. Eu sei quem o senhor é, eu sei que o senhor não é um Padre de verdade.
Sobre um silêncio sombrio, Carter caminhou tranquilamente na direção do altar, passando por Thomas quase fingindo que ele não estava ali, pois o rapaz parecia perplexo demais para fazer alguma coisa. Ele se aproximou do casal, mas puxou para si, deixando em vista o Padre, que parecia calmo demais diante da situação.
– O que está acontecendo aqui, Carter? – perguntou ao ver os dois homens parados, um perante o outro, se encarando abaixo da pouca luz do ambiente.
– Eu não gostaria de mostrar este meu lado, , mas você não me dá outra opção.
– Você é um deles, não é? – o Padre perguntou sombriamente, pálido com o que via na sua frente.
– Sim, assim como o senhor. Bruxos sobreviventes da Inquisição infiltrados na Igreja, de qual deles o senhor é descendente?
– Isso não importa, não sou como outros, eu quero ajudar as pessoas e não destruir os que nos perseguiram.
– Belas palavras, eu também gostaria de ajudar as pessoas, mas não me importo em destruir aqueles que se colocam no meu caminho.
– Você não vai fazer isso aqui neste templo.
– O senhor quer pagar para ver? Posso levar este templo abaixo em um estalar de dedos. Gostaria de ver? Pois bem, vou mostrar.
Carter deu meia volta e se colocou no meio de todos ali, se virando para e , assim como Damon bem atrás deles.
– Amor é uma magia muito antiga, muito além do que posso dominar, mas se eu morrer aqui, minha jornada termina hoje, enquanto a de vocês irá perpetuar. Eu os amaldiçoo hoje e sempre, nunca poderão ficar juntos, mesmo que o destino e todas as forças do universo tratem de os colocar frente a frente por todos as vidas que ainda virão. Não apenas vocês, mas todos presentes aqui e os que ainda virão. Sim, sim, outros virão, outros como vocês, parentes de sangue – ele olhou para Thomas e Diana. – e estes também serão amaldiçoados, pagando pelo pecado destes dois jovens bem ali – ele voltou a atenção novamente para e . – Talvez eu morra, talvez eu volte. Não importa, se você não for minha, , não será de mais ninguém.
Em um estalo de dedos, as chamas se acenderam em labaredas ardentes, primeiramente em um círculo ao redor de todos eles e depois por toda a igreja, os deixando encurralados.
– Te vejo no Inferno, Padre. Você não pode os salvar.
– Nem que seja minha última vida, eu os salvarei.
– Sério? Então sinto muito, mas estarei lá também, eu prometo. Até a próxima vida, até a eternidade.
E então, sem hesitar, o Conde de Yorkshire caminhou, de costas em direção ao fogo, com seu sorriso sombrio enquanto as chamas o abraçavam como um velho amigo, mas ele parecia muito feliz por estar sendo queimado por elas, para a incredulidade de todos ali, era como se ele não sentisse dor alguma até o momento em que caiu de joelhos, morto, tendo seus restos consumidos pela chama que ardia cada vez mais.
– Escutem bem, não temos tempo, venham todos aqui – o Padre os reuniu no centro, se abaixando para ter mais tempo antes que a fumaça os intoxicasse, mas Damon começou a tossir desesperadamente, sendo ajudado por a se abaixar. – Ninguém sairá vivo daqui esta noite.
– Mentiroso! – Diana bradou, pronta para se levantar, mas Thomas a segurou, puxando a esposa para baixo. – Tem que ter uma maneira!
– E tem, mas é arriscado – ele olhou para os recém-casados. – Não posso desfazer a maldição lançada pelo Conde, mas posso lhes dar uma chance de se defender. Vocês terão três chances, não sei quais serão seus nomes ou de onde virão, mas o destino fará com que vocês se encontrem novamente. Não sei o que os espera, mas lhes concedo a proteção necessária pelas próximas três vidas, o máximo que eu consigo avançar, para que essa maldição possa ser desfeita.
– Mas e eles? – perguntou se referindo a Damon, Thomas e Diana. – Eles não podem sofrer por nós!
– Segurem as mãos uns dos outros. Rápido – ele tossiu enquanto juntava suas mãos com Damon e Diana. – O Conde disse que o amor é uma magia muito antiga, e ele tem razão, arrisco dizer que é quase inquebrável. É o amor que salvará vocês, todos vocês. Se caso falhem nas duas primeiras tentativas, terão de resolver na última vida, onde eu acredito que Carter Rodwell voltará, caso contrário será o fim e estarão condenados perpetuamente. Eu lhes protejo com todas as minhas forças, protejo os que ainda virão, esta maldição pode ser quebrada, mas depende apenas de vocês.
Em uma língua muito antiga e desconhecida, o Padre John começou a falar. Seus olhos grandes e verdes estavam arregalados como se algo prendesse sua atenção bem à sua frente. As chamas pareciam lutar entre si para ver qual os queimaria primeiro, mas algo as impediam de queimar. Enquanto todos tossiam e se curvavam cada vez mais na tentativa de se protegerem, ele continuava a falar sem parar, de uma forma muito acelerada, apertando as mãos de Diana e Damon e caiu inconsciente um minuto depois, devido à fumaça inalada.
– Damon!!! – fez menção de soltar a mão de , mas ela não deixou.
– Ele virá conosco, meu amor – ela tentou transparecer a convicção de sempre, mas as lágrimas escorrendo pelo seu rosto demonstravam que estava com medo. – A irmandade de vocês é muito além do que podemos imaginar.
, sem soltar a mão de Damon (provavelmente morto, ele não sabia), continuou concentrado, enquanto o fogo se aproximava. Ele ainda pôde ver Thomas e Diana caindo também, intoxicados pela fumaça e um nó se formou na garganta dele. E se desse errado? E se morressem todos ali? E se a maldição não fosse quebrada? E se ele estivesse condenado para sempre?
– Tem que acreditar, – o Padre disse por dentre as palavras desconhecidas, quase como se pudesse ler a mente do garoto.
… – fez menção de continuar, mas tossiu, quase sufocada. – Vamos… Conseguir.
sentiu a mão de afrouxando até que ela cambaleou para o seu lado e caiu, inconsciente, batendo com a testa no chão bem na sua frente.
! – ele soltou a mão dela e a de Damon, tomando a amada nos braços. – Fica comigo, por favor, por favor…
– Ela ja está longe, , vá também, filho.
– Mas…
– Vá, .
As palavras soaram como uma ordem ao corpo de que sentiu a visão ficar turva ao mesmo tempo que uma moleza incomum tomou conta de si. Ele queria lutar contra o fogo, sair dali, mas não conseguia levantar do lugar.
– Apenas vá.
Antes que caísse de rosto no chão, ele já estava inconsciente. Nenhum deles sofreu ou sentiu dor, quando o fogo os consumiu, já estavam distantes espiritualmente dali. Padre John foi o único que sentiu o arder, mas ele sabia que era momentâneo, ele precisava continuar para que aqueles jovens encontrassem o caminho que devessem seguir e quebrar a maldição lançada pelo Conde.
E ele estaria lá, pela perpétua memória.

01 – Tempus Ultra

“We were both young when I first saw you
I close my eyes, and the flashback starts
I’m standing there.” – Love Story – Taylor Swift

Londres, Inglaterra. Junho de 2019.
– Quem aqui sabe me dizer o dia da queda da Bastilha? – perguntou, se encostando na sua mesa de frente para seus alunos. – Ned?
– Hum… Não sei, professora.
– Qual é, gente! Essa vocês sabem, eu ensinei! – ela riu das carinhas confusas diante dela. – Vou dar uma dica: é durante as férias escolares de vocês… Shawn, você é muito inteligente, diz pra mim.
– 14 de julho de 1789 – uma garota chamada Emma disse no fundo da sala, erguendo a mão para falar.
– Muito bem, Emma! Isso mesmo, a queda da Bastilha ocorreu em 14 de julho de 1789 e este evento é considerado pelos historiadores como o início da Revolução Francesa que durou até 1799.
– Mas senhorita Thompson, por que os franceses se revoltaram ao ponto de fazer uma revolução? – Emma questionou novamente.
– É simples, Emma, imagine que o Ned faz parte do Clero, o mais alto nível hierárquico da época enquanto eu sou uma duquesa, que vem logo abaixo, enquanto você e todos os seus colegas são camponeses que levam uma vida simples. Como você se sentiria ao ver eu e o Ned tendo tudo do bom e do melhor enquanto vocês todos passam fome e necessidades básicas?
– Eu ficaria com muita raiva.
– Você está certa, foi isso o que aconteceu. O povo se revoltou contra a nobreza que vivia de regalias enquanto os mais pobres mal tinham o que comer. Tudo isso aconteceu porque a França possuía um regime baseado no princípio da monarquia absolutista, no qual um rei concentrava todo o poder do Estado. Nesse período, a França era governada pelo rei Luís XVI.
– Professora, então todos na nobreza eram pessoas ruins?
– Não, Ned, é claro que não! Eu me recuso a acreditar que todos eles eram pessoas ruim. Em Marselha… Tinha uma garota… Ela era uma boa pessoa, mas não conhecia o mundo como ele era… Não consigo me lembrar do nome dela, mas já vi isso em algum lugar, eu… – remexia em sua mente, mas simplesmente a fonte da informação era escassa, enquanto os alunos olhavam para ela atentos com o que a professora pretendia falar. – Ela lutou, sabe? Lutou pelo direito dos pobres, mas não foi reconhecida por isso. Ela morreu enforcada.
– Não é a Joana D’Arc?
– Não, Emma, eu… Não consigo me lembrar, não li isso em um livro de história, eu só… Bom, deixa pra lá, isso não importa porque não vai cair na prova, vamos continuar a aula e quero que prestem muita atenção porque as provas finais já estão chegando!
voltou do ponto de onde parou, explicando os fatos que levaram ao início da Revolução Francesa. Dar aula para turmas cheias de adolescentes de treze ou quatorze anos poderia ser cansativo e fazer até o professor mais são, pirar, então ela realmente não sabia de onde tinha tirado a tal garota de Marselha.
– Então é isso, e não se esqueçam do dever de casa! Até a próxima aula! – ela disse ao dispensar a turma quando o sinal tocou, anunciando o fim do dia.
– Senhorita Thompson, eu me interessei muito por essa história, sabe onde posso encontrar mais sobre essa garota? – Emma perguntou ao se aproximar da mesa de .
– Sinto muito, Emma, realmente não me lembro aonde li sobre ela, mas pode pesquisar se quiser, vamos poder conversar sobre isso depois – ela sorriu para a garota que concordou e se despediu, deixando a sala por último entre os alunos.
começou a apagar o quadro e logo em seguida juntou seu material. Ela saiu da sala de aula e foi até a sala dos professores afim de deixar parte do material no seu armário. Ela deixou alguns livros desnecessários por lá e levou apenas seus cadernos de anotações e a pilha de deveres de casa que tinha para corrigir. Ela gostaria de terminar aquilo logo, então não pensou duas vezes antes de pegar sua bolsa e ir em direção ao seu carro para finalmente ir pra casa.
– Will? Cheguei – ela disse ao fechar a porta do apartamento que dividia com o irmão caçula. – William!
Como não obteve resposta, ela colocou a mochila e a pilha de papéis sobre a mesa e foi até a geladeira procurar algo para comer, visto que estava faminta. A pizza da noite anterior parecia bem atrativa de esquentar no micro-ondas e comer, então foi exatamente isso o que ela fez, colocando a pizza no eletrodoméstico enquanto visualizava a mensagem de Katie lhe notificando, pela milésima vez, que sua festa de aniversário seria no próximo sábado e tinha a obrigação de estar lá. Ela com certeza estaria.
– Espero que tenha sobrado pizza pra mim também!
– Você não estava em casa, então achei que poderia comer tudo sozinha – ela riu quando percebeu que o irmão chegou e ela nem viu. – Estava correndo? – perguntou ao ver que ele estava sem camisa e suado, tirando os fones de ouvido que tocavam uma música alta.
– Manter minha boa forma é o meu lema, maninha, você tem que se cuidar também. É ótimo, sabia?
– Claro que sei, mas dar aula já é um exercício bem cansativo. Espera, está dizendo que estou feia?
– Não, não. Você é a professora de história mais linda do mundo, mas uma preguiçosa quando se trata de ir para a academia.
– Não tenho tempo, Will, é diferente.
– Então arrume – William foi até o micro-ondas e tirou o prato de lá quando o mesmo apitou, devolvendo para enquanto ele se servia de um pedaço de pizza.
– E você diz isso enquanto come pizza requentada?
– É… Mas não se preocupa, eu compenso correndo em dobro amanhã – o mais novo respondeu com bom humor enquanto colocava um minuto no micro-ondas.
Os irmãos comeram juntos enquanto contavam sobre seus dias. adorava morar com William, já que Thomas, o mais velho, estava cursando seus últimos anos de medicina na Universidade de Oxford e raramente via os irmãos. Apesar da diferença de idade – William tinha apenas vinte anos, enquanto tinha vinte e quatro e Thomas vinte e oito -, todos eles se davam muito bem, mas o fato de os pais morarem em Manchester os unia ainda mais. Ou melhor, os pais de e Thomas, já que William vinha de outro pai.
Não que houvesse um caso de traição na família, mas quando Thomas e eram apenas crianças, Lewis e Elizabeth Thompson passaram por um período conturbado no casamento no qual decidiram se separar. Elizabeth, ou simplesmente Liz, se envolveu com outro homem e isto resultou no nascimento de William que levou muitos anos para aceitar o fato de que seus pais nunca foram e jamais seriam um casal, mas ele até que estava bem com isso ultimamente. Costumava dizer que tinha dois pais.
– Você vai no aniversário da Katie? – perguntou após engolir o último pedaço da sua fatia.
– Você não vai acreditar, mas eu conheci uma gata no Tinder, o nome dela é Louise Jones. Conversa vai, conversa vem, descobri que ela é prima da Katie! Dá pra acreditar?
– Nossa, sério? Tenho que admitir que meus anos de amizade com a Katie não foram o suficiente pra eu conhecer os parentes dela além do Jake e dos pais dela. É parente próximo?
– Sim! Quero dizer, eles moraram um tempo na América, talvez por isso a Katie não tenha falado muito sobre eles. Parece que o irmão da Louise é escritor ou algo assim e ela é a empresária dele, são bem ocupados.
– Tá, e o que você fez pra conquistar ela? Exibiu o seu tanquinho malhado? Quantos anos ela tem?
– Vinte e três – William disse naturalmente enquanto bebia seu suco.
– Eu sabia! Você não aprende nunca, ama ficar com mulheres mais velhas.
– Elas me amam, maninha, não posso evitar. A Louise é legal, divertida, inteligente e linda. Sinto que tirei a sorte grande.
– Só até ela descobrir que você é três anos mais novo do que ela.
– Ela já sabe e está bem com isso, eu acho… Não sei, não perguntei. Quando nos vermos, talvez eu pergunte.
– Então vocês não se conhecem pessoalmente?
– Hum… Ainda não, mas… Vamos nos conhecer no aniversário da Katie. Relaxa, , não vou me precipitar.
– Espero. Estou de olho, Will.
– Chata – ele murmurou revirando os olhos enquanto ela ria dele, fazendo uma careta. – Então se responde a sua pergunta: sim, eu vou no aniversário da Katie com você.
– Que bom, eu fico feliz por isso.

– Fogo… Fogo… Vá – murmurava no seu sono repentino enquanto sonhava com labaredas de fogo por toda a parte.
Ele se via perdido no meio das chamas, uma voz longínqua dizia para ele ir, mas ele não sabia pra onde, pois estava cercado pelo fogo e não tinha a mínima ideia de onde estava. Sabendo que não tinha muito o que fazer, ele criou o coragem e correu, indo em direção ao fogo, pronto para passar por ele, mas nunca soube como terminaria, pois acordou no mesmo instante devido ao susto e só então percebeu que novamente cochilou enquanto escrevia. O notebook havia descarregado e o relógio na parede marcava meia-noite de sexta-feira. tirou os óculos de grau e esfregou os olhos, se sentindo mais cansado do que nunca, então optou por deixar a escrita um pouco de lado para poder descansar e ter novas ideias para por no papel no dia seguinte. Embora soubesse que o prazo para enviar para editora estava quase se esgotando, ele não queria escrever apenas por escrever e achava que estava fazendo um bom trabalho.
se livrou da camisa e calça social, optando por uma calça de moletom confortável para poder se deitar. Escovou os dentes e por fim caiu na cama, se sentindo a pessoa mais cansada do mundo naquele momento, mas agradecido por não ter que pegar um trem lotado para ir ao trabalho no dia seguinte. Felizmente, achava que tinha o melhor emprego de todos.
E não demorou nada para que caísse em um sono pesado, porém sereno. Sua mente cansada não parou de trabalhar e ele novamente se viu em um lindo jardim bem cuidado, com a grama verde recém cortada. Um palácio no fundo que ele tinha certeza que conhecia, mas não lembrava exatamente a localidade, embora tivesse uma vaga lembrança de que estava no Reino Unido. Ele olhou ao redor por um instante e então a viu de costas, a mesma pessoa de todos os seus sonhos, passando correndo com seu longo vestido esvoaçante enquanto os cabelos balançavam com o vento. Sem perder tempo, foi atrás, atraído pela garota que sempre visitava os seus sonhos.
– Ei! Espera, por favor!
Ela parou de correr e se virou para ele, sorrindo curiosa. Era estranho, pois tinha certeza de que a conhecia, embora não soubesse se quer o nome dela.
– Pois não? – a garota respondeu cordialmente, quase se distraindo enquanto arrumava a parte de baixo do vestido que estava amassada.
– Eu… Eu… – ele não sabia o que dizer, nunca sabia. – Qual é o seu nome?
Um ruído saiu da boca dela e ele tentou apurar audição para ouvir, mas ela apenas continuava olhando para ele, com o sorriso mais doce que alguma vez viu. Fosse na vida real ou apenas em sonho.
– Me desculpa, eu não entendi.
– Não importa. Você sempre está aqui, mas eu não sei o seu nome.
– Erm… , Jones.
, meu querido e amado . Vem comigo, está tão perto…
Ela o puxou pelo braço e Drew não era capaz de se manter parado, apenas ser guiado, era como se não tivesse pernas. Estava perplexo, como ela sabia que seu nome era se ele apenas disse seu apelido? Ele se quer conseguia parar de correr para perguntar, quando se deu conta, já estava dentro do palácio, diante de uma grande lareira antiga. Pelo ambiente, tinha certeza de que estava no século dezenove.
– Por que sempre venho parar aqui? – ele olhou ao redor, se sentindo mais perdido do que nunca. – Que lugar é esse? Eu sei que já estive aqui, mas eu não consigo me lembrar quando ou o motivo…
– Talvez seja em um dos seus livros…
– Não, eu sei que não, eu conheço minhas próprias histórias.
– Não, Você vive as suas histórias.
Antes que ele pudesse perguntar do que ela estava falando, a garota já não estava mais ali e tudo foi consumido pelo fogo em um piscar de olhos. tentou impedir, mas era tarde, tudo o que conseguiu foi acordar novamente, sentado na cama, suando frio e com um braço esticado no ar, como se pudesse tocar alguma coisa. Quando se deu conta de que estava sonhando novamente, ele caiu para trás, frustrado, esmurrando o travesseiro molhado.
Não conseguia entender porquê aqueles sonhos lhe perturbavam a mente desde garoto, mas que agora pareciam muito mais reais e assustadores. Quando mais novo, lhe servia de inspiração ver todos aqueles castelos, bailes e campos verdejantes, mas ultimamente só via fogo e ouvia palavras sem sentido. estava verdadeiramente frustrado com tudo aquilo, pois não servia para absolutamente nada, por mais que tentasse ele nunca conseguia passar daquela parte, ela sempre desaparecia e tudo sempre era consumido pelo fogo.
Frustrado, mas não surpreso, ele se virou para o outro lado da cama, tentando cair no sono novamente, embora a sua cabeça não parasse de trabalhar e ele torcia para não cair em mais um dos seus loucos – e as vezes perturbantes – sonhos. Gostaria de, ao menos uma vez, se sentir leve ao adormecer, e foi exatamente isso o que aconteceu quando ele finalmente conseguiu relaxar, fechando os olhos e se desconectando de tudo um pouco. Talvez isso o ajudasse a abrir a mente e criar um novo enredo, ele não tinha certeza, mas estava torcendo para que desse certo.
No dia seguinte, acordou tarde, vendo no relógio da parede que já passava das onze da manhã, mas ele não estava preocupado com isso e até pensou em passar mais tempo deitado, apenas tendo um merecido dia de preguiça, mas as vozes vindo de fora do quarto eram altas o suficientes para não permitir. Ele riu, pois sabia exatamente do que se tratava, então se levantou e vestiu uma camiseta qualquer. Deixou o seu quarto e caminhou até a sala interligada à cozinha, sorrindo com a cena de seus irmãos preparando o café da manhã. Damon mexia os ovos na frigideira enquanto Diana lia em voz alta a receita para o irmão. Já Louise estava sentada no balcão, mordiscando uma maçã da fruteira, dando ordens aos outros dois de que deveriam limpar toda a bagunça depois.
Eles não moravam todos juntos naquele loft comprado por quando decidiu voltar para a Inglaterra, mas ele não se surpreendia sempre que os encontrava ali logo pela manhã. Parecia até que era um ritual e ele gostava de ter quase a família inteira para o café da manhã.
– Lou, você cozinha muito melhor do que o Dam, deveria assumir o fogão – ele disse ao se aproximar, dando um beijo na bochecha da irmã que sorriu pra ele.
– Bom dia, irmãozinho, o Damon disse que hoje ele iria pilotar o fogão e eu concordei.
, aqui tem detector de fumaça, não é? Porque tenho certeza de que isso não vai dar certo.
– Sim, Ana, queimados não morreremos – sorriu compreensivo para ela e foi até o irmão gêmeo. – Está com um cheiro bom, acho que já está no ponto. Dessa vez não vou julgar você.
– Obrigada pela compreensão, cara, muito obrigado mesmo. Que bom que pelo menos uma pessoa aqui não está contra mim – Damon se mantia concentrado, mexendo os ovos com a espátula enquanto desligava o fogo pra ele.
Louise desceu do balcão e pegou os pratos para distribuir ao redor da ilha enquanto Diana pegava o suco na geladeira. colocou os copos e talheres sobre a ilha e Damon foi servindo um prato de cada vez até que todos se sentaram para tomarem o café da manhã juntos.
– Só faltaram os nossos pais, mas aparentemente mamãe está em um processo criativo impossível de ser parado, entrar no avião e visitar outro país não está nos planos deles atualmente, então somos apenas nós – Diana disse antes de dar uma garfada generosa no seu prato, levando à boca logo em seguida.
– Pra mim está ótimo, até parece que vocês moram aqui – comentou bem-humorado. – Damon poderia usar das habilidades dele de arquiteto e fazer uma casa pra cada um.
– Eu já fiz, mas elas não gostaram – Damon olhou para as garotas que riram entre si.
– Não é que não gostamos, no meu caso não vale a pena porque eu dificilmente fico no mesmo lugar. Para um nômade ter uma casa, é a mesma coisa de estar preso.
– Diana, você não é nômade, só é uma CDF mesmo – Louise pontuou, rebaixando o mestrado da irmã em biomedicina.
– Que engraçado, Louise, depois não vem me perguntar se tenho vacina para curar suas espinhas. O recado está dado.
– Passa a mão aqui, macia como a de um bebê – Louise passou a mão pelo próprio rosto e logo em seguida recebeu um tapinha de Diana. – Ai!
– Meninas, sem brigas – riu, chamando a atenção das irmãs. – Cada um aqui tem suas habilidades extraordinárias. Dam constrói casas, Ana vai encontrar a cura para a rinite, eu escrevo histórias aleatórias e a Lou não deixa que as pessoas descubram que na verdade sou um badboy.
, você no máximo é aquele aluno distraído que passa perto da briga, mas o diretor pensa que é um dos envolvidos e acaba levando uma suspensão também. De ruim você não tem nada, acredite.
– Eu já sugeri de trocarmos de lugar, mas você não quer – Damon pontuou distraidamente, olhando para a sua refeição. – Ninguém iria notar.
– Isso é verdade – pontuou, sem argumentos para se defender. – Mas acho que descobririam sim, porque você é meio idiota.
Sobre provocações e risadas, o café da manhã dos irmãos era o gás que cada um deles precisava para encarar o último dia da semana. No dia seguinte seria o aniversário de Katie e só então poderiam relaxar, mas enquanto isso tinham mais um longo dia de trabalho pela frente.
– Se me derem licença, preciso ir para o escritório. Vocês sabem, tenho que desenhar casinhas, na visão do . Tchau pra quem fica, amo vocês! – Damon disse à distância, acenando para os irmãos e fechando a porta logo em seguida.
– Espera, Damon, que droga! Tenho que ir também, tenho algumas coisas pra resolver. A gente se vê mais tarde ou amanhã. Beijinhos pra vocês – Louise foi logo atrás, afim de alcançar o irmão.
– Pra mim é desculpa para não lavarem a louça – dizia enquanto juntava os pratos em uma pilha.
– Concordo – Diana pegou os copos e colocou dentro da pia. – Você precisa de uma lavadora de pratos, .
– Eu sei – ele riu concordando. – Pode ir, sei que você deve ter alguma coisa importante pra hoje.
– Na verdade, não. Estou com a agenda livre até semana que vem. Segunda-feira vou para Oxford palestrar, então só preciso revisar o conteúdo, mas já está tudo pronto.
– Tem certeza que você não foi trocada por um robô do governo? – os dois riram e então se posicionou para começar a lavar a louça, mas Diana se colocou na frente. – Não precisa, Ana, deixa que eu lavo.
– Não, não, você precisa escrever, deixa que eu faço isso. Anda, vai lá terminar o seu livro.
– Estou um pouco travado hoje, não vou conseguir escrever nada.
– Seus sonhos não estão sendo o suficiente?
– Não – ele admitiu, soltando um longo suspiro. – Essa noite foi tudo muito bagunçado. Era só um castelo, uma garota e fogo, muito fogo. Não tem muito no que se inspirar.
– Talvez seja a brecha pra você colocar um bombeiro sarado na história que irá salvar a mocinha.
– A escritora deveria ser você – os dois riram juntos, mas aquela conversa estava deixando aborrecido consigo mesmo. – É estranho, não é? Eu sempre sonhar com as mesmas coisas, as mesmas pessoas… Não lembro de ter visto essa garota alguma vez na vida.
– O nosso subconsciente costuma guardar rostos e reproduzir nos sonhos, mesmo que a gente não se lembre. Foi um rosto que marcou, ou simplesmente você está alucinando, .
– Tem razão, acho que preciso de férias.
– Precisa mesmo.
Diana era a única com quem compartilhava os seus sonhos. Sensitiva, ela sempre tirava a melhor parte e o ajudava a criar um bom enredo, embora às vezes pudesse o compreender como se fosse parte da imaginação dele. Ela gostava de ouvir, era como fugir da sua realidade maçante e ser outra pessoa, mesmo que indiretamente. Não sabia dizer se era uma benção ou simplesmente a cabeça de lhe pregando peças, mas ela não podia negar o quanto achava aquilo real porque era como se ela pudesse ver junto com ele na maioria das vezes.
Ou melhor, não era como se ela visse. Ela realmente via, às vezes em sonhos também.
– Sabe, Ana? Às vezes acho que esses sonhos querem me dizer alguma coisa, mas não tenho a mínima ideia do que seja.
– Bom, essa não é a minha área, mas também acho. Vamos descobrir juntos então.
– Claro que sim. Não tem nada que Diana Jones não possa descobrir – ele sorriu e jogou água nela, fazendo Diana saltar para trás, soltando um gritinho agudo em resposta.
– Quer saber? Você vai descobrir sozinho, eu desisto de te ajudar.

– Ei, ! – William adentrou no quarto da irmã, notando que estava escorada na escrivaninha, aparentemente concentrada. – Está ocupada?
– Só estou corrigindo umas tarefas, nada demais – sorriu gentilmente, dando permissão para que William entrasse no cômodo. – O que foi?
– Carter disse que tentou ligar para você, mas você não atende.
– Meu celular está descarregado. Sabe o que ele quer falar comigo?
– Disse que está vindo para a cidade e gostaria de passar alguns dias aqui ao invés de pagar hotel, perguntou se está tudo bem pra você.
– E ele ainda pergunta? É claro que sim, ele sabe que pode ficar aqui o tempo que quiser. Ou pelo menos deveria saber.
– Valeu, , você é a melhor. Eu vou falar com ele.
William deixou o quarto e voltou sua atenção para o dever de um dos seus alunos, embora fosse difícil manter a concentração, agora que estava ansiosa por receber o amigo em casa. Mais do que isso, Carter era da família, por ser meio irmão de Will, era como se fosse irmão dela e de Tom também. Ela sabia o quanto William era apegado ao pai biológico, Steven, assim como Carter, então ela fazia de tudo para que o caçula se sentisse em uma família completa, já que ele não pensava assim. Embora no passado, alguns anos antes, demonstrasse ter uma quedinha pelo irmão de Will e sendo correspondida, ela sempre estava disposta a ter a melhor relação possível com ele e estava conseguindo.
respirou fundo e tentou voltar a atenção para o trabalho, desejando terminar o mais rápido possível para que pudesse aproveitar o resto da sua sexta-feira antes que Katie lhe enviasse mil e uma mensagens a lembrando, de novo, do seu aniversário no dia seguinte. Não que Katie estivesse planejando uma super festa como nos anos anteriores, muito pelo contrário, ela queria apenas pessoas próximas e por isso fazia tanta questão de que estivesse lá.
Quando finalmente conseguiu corrigir todos os deveres de seus alunos, se levantou e se esticou como se estivesse se espreguiçando, esticando bem a coluna depois de passar horas sentada. Apesar do cansaço, ainda tinha disposição para curtir a sexta-feira à noite e ninguém melhor do que os melhores amigos para se juntarem a ela. procurou pelo contato de Jake e chamou pelo número do amigo, ele atendeu logo em seguida, com a empolgação de sempre.
Minha sexta-feira só começa depois da sua ligação, – ele disse com bom-humor do outro lado da linha e riu.
– E então? Qual é a programação de hoje?
Que tal um pub? Vai ter uma banda cover dos Beatles naquele que a gente sempre vai.
– Está brincando! Claro que sim! Vou torcer para o William estar com a identidade falsa dele em dia porque se não ele vai nos matar por perder música ao vivo.
É verdade. Se arruma logo porque estou aí em no máximo uma hora e meia. Tchau.
Jake desligou antes que pudesse se despedir também, então ela foi atrás de William, mas não precisou procurar o irmão pelo apartamento, pois ouviu o som de guitarra vindo do quarto dele.
– Jake chamou a gente pra ir ver um cover dos Beatles em um pub. Está com a identidade em dia, não está?
– Claro que sim! – William rebateu como se tivesse acabado de ser ofendido.
-Perfeito, então se arruma logo porque daqui a pouco ele vai passar aqui para nos buscar.
– Posso tomar banho primeiro?
– Nem pensar! Eu vou!
saiu do quarto do irmão e foi direto para o banheiro, tomando um banho rápido para que pudesse escolher uma roupa e se maquiar com tranquilidade depois. Foi exatamente isso o que ela fez, pois enquanto William demorava no banho, ela já estava preparando uma maquiagem para a noite e que combinasse com o momento, tal como a camiseta com as silhuetas de Paul, John, George e Ringo desenhadas na sua camiseta amarela que ela separou para a ocasião. Ao final de uma hora já estava pronta e agora apenas esperava por William que também não demorou muito para aparecer na sala já devidamente vestido, exibindo sua jaqueta de couro predileta.
– Você vai passar calor, isso sim.
– Não se preocupe, vou ficar bem – Will se sentiu na poltrona livre, relaxando. – Assim pareço mais velho e ninguém acreditaria se eu dissesse que tenho vinte anos.
– Você tem cara de bebê, Will, a jaqueta é um detalhe. Sinceramente, não sei como você entra nos pubs com essa identidade claramente falsa.
– O segredo é um sorriso encantador, como esse que eu tenho – ele sorriu galante, fazendo gargalhar.
– Tá bom, William, tá bom, eu já entendi que você é evoluído. Espero que o Jake chegue logo para eu não ter que te aguentar por muito mais tempo.
E não demorou muito para que Jake chegasse para os buscar. Estava tão elegante quando William, mas a diferença é que uma jaqueta de couro o deixava com cara de um membro de uma gangue de motoqueiros. Jake, no auge dos seus vinte e oito anos, gostava de frequentar a academia e manter a boa aparência da barba e talvez por isso aparentasse ser mais velho. Parecia haver um abismo na diferença de idade entre os dois.
– Viu, Will? O Jake fica bonito em uma jaqueta de couro.
– E quem disse que eu não fico? Aposto que eu pego mais meninas do que ele.
– Tenho certeza que sim, Will – Jake riu, reconhecendo que era verdade. – Não tenho mais a mesma disposição que tinha aos vinte anos. Chega uma hora que você só quer um amorzinho para assistir um filme juntos no fim de semana.
– É verdade, sinto que estou chegando nessa idade…
– Tenho medo de ficar careta como vocês algum dia. Eu espero ser poupado disso.
O caminho até o pub foi longo, porém animado, afinal, tinham assunto de sobra e William poderia listar cada menina que já beijou na vida, mesmo que e Jake protestassem contra, alegando que não gostaria de ouvir a lista que duvidassem que fosse tão longa assim.
– Will, no dia em que você conhecer uma pessoa que vai te cativar, você vai se perguntar porque ela não chegou antes das outras e vai perceber que perdeu tempo demais com pessoas erradas.
– Que lindo, Jake, me emocionei. Mas é aquela história, eu vivo de momentos, estou satisfeito com o rumo que minha vida está tomando.
– Que rumo, garoto? Você é desempregado e não quer ir pra faculdade.
– Pode rir, , quando eu for um cantor famoso, eu não quero você vivendo nas minhas custas, tá bom?
– Claro, faço questão de me mudar.
Quando chegaram ao pub, tiveram que aguardar um pouco na porta, tempo o suficiente para que começassem a sentir frio, visto que a fila era extensa. Jake sequer precisou apresentar a identidade, tal como , mas William foi parado. Ele apresentou o documento falso ou segurança e olhou para a irmã e o amigo, que prendiam a vontade de rir bem atrás do homem.
– Eu sei que não parece, mas ele tem vinte e um, essa carinha de neném engana muita gente – saiu em defesa do irmão quando percebeu que William poderia se complicar. Sei que não parece, mas somos irmãos, eu posso provar.
– Irmãos? Vocês não são nada parecidos – o segurança disse visivelmente confuso e concordou.
– Pais diferentes, acontece… Mas é sério, ele tem vinte e um mesmo.
– É verdade, conheci esse pivete na barriga da mãe dele, quase vinte e dois anos atrás – Jake também se pronunciou, esperando passar credibilidade.
– Se vocês estão dizendo… – ele liberou o acesso para o William. – Bom show.
– Obrigado – Will pegou a identidade de volta e guardou na carteira enquanto entrava logo atrás de e Jake, que riam dele. – Não tem graça, eu poderia ter me encrencado.
– Na próxima, espera fazer vinte e um pra vir também – disse por fim, parando para ter uma vista do local e procurando uma mesa com vista boa para o palco.
Infelizmente não encontraram nenhuma mesa perto do pequeno palco já equipado para receber a banda, mas uma mais para o meio estava disponível, então foram para lá o mais rápido possível antes que outras pessoas chegassem primeiro. Ao se sentarem, não demorou muito para que um garçom viesse anotar os pedidos dos jovens que pediram bebidas e porções individuais de batatas fritas que logo foram servidas para eles.
– Por que a Katie não veio? – perguntou enquanto bebericava sua cerveja.
– Está decorando a casa dela para a festa. Eu perguntei se ela queria ajuda, mas ela disse que não é quase me expulsou de lá. Como não me atrevo a desobedecer uma ordem dela, só acatei e saí.
– E pra que ela vai decorar se não vai ninguém? – indagou William, visivelmente confuso com a decisão de Katie.
– Bom, não sei, mas acho que ela quer causar boa impressão, sabe? Nossa tia Jenna e nossa avó Mary vão vir de longe só para a festa, e uns primos nossos que voltaram pra cidade recentemente também. Acho que a Katie quer causar uma boa impressão, reunir a família depois de muito tempo é importante pra ela. Éramos todos bem próximos quando crianças, mas agora ela quer estreitar os laços de novo, achei bem legal da parte dela.
– Adoro festas cheias de parentes que não conheço dos meus amigos – ironizou, sentindo o estômago revirar só de imaginar estar no meio de várias pessoas desconhecidas.
– Não se preocupa, nossos primos são legais, todos na nossa faixa de idade, acho que vocês vão se dar bem com eles. O Dam é todo engraçadinho, vocês vão rir muito com ele e a Diana é biomédica, muito inteligente. Ela tem vinte e quatro anos e já tem mestrado na área, acredita?
– É sério? – perguntou curiosa, se interessando de repente.
– Sim, ela terminou o colégio aos quinze anos e foi para Harvard e desde então nunca mais parou de estudar. Acho que ela é o Hawkins da nossa geração.
– Nossa, assim eu me sinto até burra.
– Burra? Você? , não é tudo mundo que sabe contar sobre a peste bubônica como se tivesse vivido naquela época.
– Não sei explicar, apenas amo História e amo ensinar, conhecimento é algo que nunca podem tomar de você.
– Você tem razão.
– Que papo mais cabeça, estou entediado! – Will resmungou, fazendo os outros dois rirem. – Tenho uma irmã professora, um irmão médico e um outro irmão que fala francês fluente. Me sinto como se fosse uma das irmãs feias da Cinderela.
– Mas Will, você toca guitarra e canta muito bem, isso não é para qualquer um – tentou animar o irmão que apenas deu de ombros.
– Você também.
– Mas eu não me dedico como você. Somos uma família de pessoas extraordinárias.
– Juro que amo vocês, mas essa conversa é entediante – Jake disse aborrecido, mordiscando uma batatinha. – Só faltou o Tom com os termos médicos dele para tudo ficar dez vezes pior.
– Como você é rabugento, Jake Paige – jogou uma batata no amigo, que pegou em um bom reflexo e comeu.
Apesar das brincadeirinhas entre os três, eles mal se deram conta de que o tempo passou e logo quatro rapazes, fielmente parecidos com os garotos de Liverpool, subiram ao palco e saudaram os presentes ali. A primeira música tocada por eles foi A Hard Day’s Night.
– Ah, cara! Essa música é incrível! – William deu um soquinho não mesa, não se contendo de felicidade.
– Só não é melhor do que She Loves You.
– Ou I Want To Hold Your Hand – contrariou Jake, que concordou com um breve aceno de cabeça.
– Podem parar de me contrariar só por três minutos e deixem eu curtir minha música favorita, por favor? Obrigado – William virou a cadeira para poder prestar atenção nos músicos e deixou os outros dois de lado.
A música seguinte foi She Loves You, para a alegria de Jake, e depois I Want To Hold You Hand, para o delírio de . Foi um show repleto de sucessos do quarteto, na maioria das vezes cantados a plenos pulmões pelos fãs, como em Hey Jude quando as pessoas ligaram as lanternas de seus celulares. Já que um concerto dos Beatles em pleno 2019 era impossível de se ver, então todo e qualquer cover era muito mais do que bem-vindo aos carentes fãs da banda, inclusive os mais jovens.
Ao fim da apresentação, os três dividiram a conta e optaram por irem embora, afinal, tinha uma festa no dia seguinte e se quer havia comprado o presente da melhor amiga ainda e não tinha a mínima ideia do que poderia dar, embora Jake tivesse sugerido qualquer coisa que envolvesse estética e cuidados para a pele, algo que ele tinha certeza que a irmã iria adorar. anotou a ideia mentalmente enquanto lutava contra o sono no banco de trás, encostando parte do rosto contra o vidro, quase se rendendo ao cansaço de um dia longo dando aulas.
– Essa catedral é linda, né?
A voz de Jake a fez despertar por um instante e ela olhou pela janela e viu a catedral de Saint Paul rapidamente enquanto William comentava algo sobre a destruição da igreja durante a Segunda Guerra Mundial.
– Foi destruída durante o Grande Incêndio de Londres em 1666 – ela murmurou, sem abrir os olhos. – Dizem os livros que o fogo se espalhou pela cidade até chegar na igreja, mas foi um incêndio criminoso, pessoas morreram lá dentro…
Mas antes que Jake e Will pudessem perguntar sobre o que estava falando, o mais novo se virou e viu que a irmã estava cochilando, então pensou que ela apenas estivesse falando coisas sem sentido, afinal, nunca ouviu nada sobre um incêndio proposital, embora alguns historiadores encontraram registros da época que diziam que seis corpos, unidos pelas mãos, foram encontrados carbonizados perto do altar enquanto um sétimo estava um pouco mais distante deles, mas quem eram aquelas pessoas ou o motivo de estarem ali continuavam um mistério nos dias atuais e iria continuar assim por toda a eternidade, embora, naquele momento, flashes passassem pela mente de .
Fogo, muito fogo por toda a igreja, um calor quase insuportável e fumaça tóxica, sua mão esquerda estava sobre uma outra mão feminina enquanto a direita tinha os dedos entrelaçados com uma mão masculina. Ela tentava olhar para cima e ver quem eram as pessoas, mas algo a impedia e ela só conseguia olhar para o chão na sua frente enquanto as chamas se aproximavam e respirar já era uma dificuldade.
– Vamos… Conseguir – foi tudo o que ela disse antes de sentir que não comandava mais o próprio corpo, caindo no chão.
Mas ela não estava inconsciente, muito pelo contrário. Ela ouvia uma voz a chamando, a mesma voz que disse seu nome tantas outras vezes em sonhos, mas ela nunca soube quem era. Ele estava ali novamente, era aquela mão que estava entrelaçada com a sua. lutava para conseguir levantar dali ou ao menos virar o rosto para vê-lo, mas era como se uma força invisível a prendesse no chão com brutalidade e ela não conseguia sair dali. Desesperada para escapar, ela se debatia e chorava, mas era tudo em vão, o fogo os consumia sem piedade.
, !
acordou no susto quando sentiu que estava sendo sacudida pelos ombros. Demorou um pouco para que sua visão ficasse clara, então ela viu que era William que a segurava enquanto Jake estava ao lado, olhando preocupado pra ela. Ela precisou de mais alguns segundos para perceber que ainda estava no banco de trás do carro do amigo, agora na frente do seu edifício.
, o que aconteceu? Você estava gritando, está toda suada – William perguntou preocupado, passando a mão pela testa suada da irmã, afastando os cabelos grudados ali.
– Eu tive um pesadelo – respondeu um pouco atordoada, ainda procurando se situar.
– Calma, já passou. Vem, vamos entrar.
William ajudou a sair do carro enquanto Jake fechava a porta pra ela, então foi logo atrás dos dois.
– Precisam de ajuda?
– Não, obrigada, Jake. Estou bem, foi só um pesadelo, eu acabei cochilando no carro.
, você começou a se debater e a gritar como se alguém estivesse te fazendo mal. Ficamos preocupados.
– Não se preocupa, estou bem – ela sorriu para o confortar e deu um abraço de despedida no amigo. – Vai pra casa, Jake, nos vemos amanhã.
– Tem certeza?
– Tenho. Qualquer coisa, tenho o Will para me ajudar. Obrigada.
Jake, se dando por vencido, se despediu de William também e foi embora enquanto e seu irmão foram em direção as escadas, pois moravam no último andar de um prédio de três andares.
– Vamos nos mudar para um lugar que tenha elevador, se faz o favor – ele disse ofegante ao chegarem no último andar enquanto procurava as chaves no bolso.
– É você que tem o porte de atleta, não é?
– Não tem atleta que aguente subir essa escadaria toda… Mas afinal, , com o que você estava sonhando?
Era comum para esses tipos de sonhos desde que era criança. Embora acordasse no meio da noite gritando pelos seus pais, ela começou a deixar isso de lado conforme foi crescendo para não preocupar ninguém, mas sempre tinha que inventar uma desculpa para justificar as vezes em que acordava no meio da noite berrando e suando frio.
– Você nem vai acreditar dessa vez – ela abriu a porta e deu passagem para o irmão primeiro. – Sonhei que estava naquele filme de terror, Corra. Foi bem desesperador, eu era o Chris.
e seus sonhos malucos – William riu enquanto tirava a jaqueta, atirando a peça no sofá.
– Nem pensar! Pode levar para o quarto agora!
– Mas…
– Agora, William McQueen!
William resmungou, mas acabou acatando. Pegou a jaqueta e foi para o seu quarto enquanto pegou sua toalha e foi direto para o banheiro tomar um novo banho, afinal, estava suada com os cabelos grudando na nuca e na testa e ela odiava ter que dormir assim. Após o banho, ela ainda leu mais um trecho de Orgulho e Preconceito sob a luz do abajur ao lado da cama antes de finalmente adormecer.
Para a sua felicidade, não estava em um filme de terror e nem em uma igreja em chamas, apenas se permitiu desfrutar de uma boa noite de sono.
*Tempus ultra = latim para “além do tempo”.

 

2. Déjà-vu

“And there’s a dazzling haze, a mysterious way about you, dear
Have I known you 20 seconds or 20 years?” – Lover, Taylor Swift.

não se considerava o homem mais fotogênico do mundo, até se sentia um pouco constrangido na frente das câmeras, mas sempre que tinha que estar perante uma, ele se esforçava para não demonstrar aquilo. Podia se considerar um cara tímido e pensou que talvez Damon adoraria estar no lugar dele naquela seção de fotos. Sim, com certeza ele adoraria.
Ele colocou as golas da camisa pra cima enquanto olhava para a câmera e esboçou um sorriso de canto como Louise o instruiu pouco antes. Ao lado do fotógrafo, Louise sorriu encantada, fazendo um joinha para o irmão, por ele ter feito como ela sugeriu anteriormente. Ela sabia que não gostava de sessões de fotos e aparições em eventos, então ela fazia o possível para que o irmão se sentisse mais à vontade quando tivesse que se deparar com este tipo de situação.
– Você é tão lindo! – ela disse divertida e mandou um beijo no ar pra ele, então ele riu envergonhado, coçando a nuca, fazendo com que o fotógrafo conseguisse outro clique espontâneo dele. – Isso!
– Ei, você me enganou! – protestou, indignado.
– Eu não disse nenhuma mentira, mas eu sabia que ia dar uma boa fotografia. nimo, , está quase acabando!
se virou como podia e torceu para que a sessão acabasse o mais rápido possível e, felizmente, isso aconteceu graças à Louise, que sabia como o deixar tranquilo sempre. Ele não poderia pedir por uma empresária melhor do que ela, sabia que estava sendo bem cuidado.
Ao fim do ensaio fotográfico, trocou de roupa rapidamente para que pudesse, enfim, ir embora. Viu as horas no seu relógio de pulso e percebeu que tinha pouco tempo para voltar pra casa, escolher uma roupa apresentável e então ir para a casa de Katie. Embora não quisesse realmente ir, ele tinha certeza de que a prima nunca o perdoaria se ele não comparecesse e este não era um peso que ele gostaria de carregar pelo resto da vida, sabia que Katie poderia ser um pouco rancorosa às vezes.
– Vai, Lou, escolhe a minha roupa, eu deixo – ele disse ao pegar a toalha e jogar sobre os ombros antes de ir para o banheiro.
– Estava só esperando o seu aval – Louise saltou da cadeira e foi em direção ao closet do irmão. – Vai lá tomar o seu banho, deixa que sua irmã mais linda cuida disso pra você.
– Não deixe a Ana ouvir isso.
Ele deixou o quarto e foi em direção ao banheiro. Ligou o chuveiro enquanto se livrava das roupas e pensou que talvez a prima não ficasse ofendida se ele apenas chegasse atrasado, afinal, a água estava quente o suficiente para ele se permitir relaxar um pouco após uma tarde trabalhosa em pleno sábado. Eram raros os momentos em que conseguia se desligar do mundo e relaxar, então ele aproveitava sempre que tinha a oportunidade. Bem, isso até Louise esmurrar a porta do banheiro, questionando se ele ainda estava vivo lá dentro, reclamando que iriam se atrasar, mas não teve pressa, afinal, essa era a sua intenção.
Ele desligou o chuveiro e enrolou a toalha ao redor da cintura, então saiu do banheiro e voltou para o seu quarto, vendo que Louise deixou sobre a cama sua camisa social branca predileta, uma calça preta e até os sapatos sociais que ele deveria calçar. não conteve uma risada, pois achava que Louise cuidava dele melhor do que sua própria mãe. Ele se vestiu rapidamente e só saiu do quarto após colocar o relógio no pulso e ter certeza de que estava perfumado o suficiente.
– Até onde eu sei, Katie não chamou amigas – Louise disse ao vê-lo surgindo na sala e percebeu que ela já estava pronta.
– Não estou preocupado com isso.
– Mas deveria, está na hora de virar a página.
– Eu não sinto mais nada pela Luce – disse por fim, tentando encerrar a conversa ali, embora soubesse que Louise não iria desistir tão fácil. – É passado.
– Por isso mesmo acho que você realmente deveria começar a olhar para outras mulheres. , você é jovem, bonito e promissor, o sonho de qualquer garota. E aquela sonsa da Luce perdeu a melhor pessoa que poderia ter.
– Obrigado pelo elogio, mas estou bem assim. Quando tiver que acontecer, estarei pronto, mas por enquanto eu prefiro deixar como está. Passei muitos anos com a Luce, foi a minha primeira e única namorada, eu acho que ainda não é a hora de arrumar outra pessoa.
– Se você está dizendo… Só não quero aquela garota pisando aqui outra vez, nunca fui com a cara dela e não me pergunte o motivo.
– Você é péssima, Lou – ele riu enquanto Louise se levantava e pegava a sacola com o presente de Katie no sofá. – Suponho que esteja na hora de ir.
– Estamos atrasados como sempre! Vamos logo, não quero perder mais um minuto que seja.
concordou e jogou as chaves do carro para a irmã que pegou em um bom reflexo e então os dois saíram. Louise estava com um pouco de pressa e ele notou isso quando ela passou por um sinal vermelho.
– Se eu levar uma multa, a culpa é sua.
– Não se preocupa, eu pago.
– Vai me dar outra habilitação também?
– Para de reclamar, , se você não levasse horas para se arrumar, teríamos chegado mais cedo.
– Ah, claro. Me desculpe.
Não que ele realmente estivesse arrependido por ter enrolado um pouco, mas também não gostaria de perder a habilitação para dirigir caso Louise passasse dos limites, o que tinha uma alta probabilidade de acontecer. Considerando que Katie morava em outro extremo da cidade, ainda tinham muitos faróis para passar e torcia mentalmente para que Louise fosse um pouco mais prudente nos próximos.
Como sabia que ainda levaria algum tempo para chegar, ele ligou o rádio e procurou por alguma estação que o agradasse. Gostava de vários estilos musicais, mas naquele momento gostaria de ouvir algo mais tranquilo, que combinasse com o seu estado de espírito. Quando I Miss You do Blink 182 ecoou pelos auto falantes do carro, relaxou no banco para poder prestar atenção na letra enquanto não chegava ao seu destino.

Hello there
(Olá)
The angel from my nightmare
(O anjo do meu pesadelo)
The shadow in the background of the morgue
(A sombra no fundo do necrotério)
The unsuspecting victim of darkness in The Valley
(A vítima insuspeita da escuridão do vale)
We can live like Jack and Sally if we want
(Podemos viver como Jack e Sally se quisermos)
Where you can always find me
(Onde você pode sempre me encontrar)
And we’ll have Halloween on Christmas
(E nós teremos um Dia das Bruxas no Natal)
And in the night we’ll wish this never ends
(No fim da noite desejaremos que isso nunca acabe)
We’ll wish this never ends

– É ou não é uma das melhores músicas que existem? – ele perguntou distraidamente enquanto prestava atenção no refrão de três palavras, fechando os olhos por um momento para apreciar.
, eu realmente não quero te ver tendo um orgasmo bem aqui. Por favor, se controla – Louise diminuiu um pouco o volume enquanto gargalhou, embora estivesse um pouco envergonhado por aquilo. – Eu sei que a música é boa, mas não é uma pessoa.
– Que absurdo! Não posso simplesmente apreciar uma música boa.
– Claro que pode, mas tudo tem limite, né? Agradeça por ser eu aqui e não o Damon.
– Falando nele, sabe se ele já chegou lá?
– Não sei, ele disse que iria com a Diana. Acho que vamos nos encontrar lá, mas não pense que não vou contar pra ele.
– Contar o quê? Estou ouvindo música!
– Deixa de ser chato, , só estou brincando.
Don’t waste your time on me, you’re already the voice inside my head… – ele cantarolava distraído, feliz por ter encontrado justo aquela canção em uma rádio qualquer.
Era impossível ouvir aquela música e não lembrar dos seus sonhos malucos.
Levou mais vinte minutos para que eles chegassem até a casa de Katie. Olhando de fora, não parecia que do lado de dentro estava acontecendo uma festa de aniversário, porque diferente de outros anos, a prima Katie optou por algo simples apenas com pessoas próximas. Convidou os primos para que pudessem tentar se reaproximar depois de tantos anos, o que era ótimo, mas eles não tinham a mínima ideia sobre quem seriam os outros convidados presentes na festa de vinte e quatro anos da garota.
Quando Katie os recebeu na porta, ainda tentou espiar por cima dos ombros dela se tinha mais alguém lá, mas a casa parecia estar bem tranquila perto do que normalmente era.
– Que bom que vocês vieram!!! – Katie disse alegremente, puxando primeiramente Louise para um abraço um tanto exagerado, pegando a garota de surpresa.
– Achou mesmo que não iríamos vir? Não somos tão cruéis assim, Katie, os Jones não gostam de perder nenhuma festa – Louise riu e então entregou o embrulho pra ela.
– Prometo que já vou abrir, mas não sem antes dar um abraço nesse bonitão que de tímido só tem a cara – Katie se virou para e abriu os braços, fazendo com que o primo desse uma risada sem graça, mas foi ele quem abraçou primeiro. – Como você está, ? Escrevendo muitos livros?
– Na medida do possível – disse ao se afastar, não sabendo exatamente o que responder. – Feliz aniversário.
– Obrigada. Entrem logo, a festa hoje é do lado de dentro.
Ela deu espaço para que os irmãos entrassem e depois foi na frente para os levar até a sala, mas aparentemente eles eram os primeiros a chegarem, pois apenas os pais de Katie, Liam e Sarah, além de Jake, seu irmão, estavam presentes. Jake zapeava os canais da TV procurando por algo interessante para assistir enquanto Liam mexia distraidamente no seu celular e Sarah estava na cozinha pegando copos para deixar na mesa de centro junto com as bebidas que iam desde suco à bebidas alcoólicas.
Louise e cumprimentaram os tios primeiro e esperaram Jake encontrar um jogo de futebol para se entreter. Encontrou uma reprise de Liverpool x Manchester City pela Premier League e deixou por ali mesmo, satisfeito com a busca, então foi cumprimentar os primos.
– A casa não é minha, mas fiquem à vontade. Fiquem à vontade em um lugar que não seja na frente da TV – Liam pontuou, divertido, então os três perceberam que estavam literalmente na frente da televisão.
– Desculpa, tio, não vou te atrapalhar de ver vinte e dois caras correndo atrás de uma bola – disse ao se afastar, sendo acompanhado por Louise e Jake, que estava um pouco atordoado com o comentário do primo.
– Como assim vinte e dois caras correndo atrás de uma bola? Não vai me dizer que não gosta de futebol!
– Não gosto – ele respondeu naturalmente, dando de ombros. – Acho que existem esportes mais interessantes.
– Quais, por exemplo?
– Hipismo, natação, ginástica olímpica. Acho que até um campeonato de xadrez é mais interessante do que qualquer esporte que envolva correr atrás de uma bola.
– Não, não estou ouvindo isso. Ouviu, pai? Ele não pertence à nossa família – Jake se afastou, pegou uma garrafa de cerveja e se sentou na poltrona livre.
– Não me surpreende, o Henry também não gosta, é de pai pra filho, mas deixa ele, Jake. Pode mudar de canal se quiser, .
– Não, tio, estou bem. Obrigado.
Louise pegou bebida para os dois e entregou um copo para enquanto murmurava para ele que ele vacilou, mas recebeu apenas um sinto muito em resposta vindo do irmão. Ele e Louise se sentaram juntos no sofá e, a contragosto, tentaram assistir a partida sem demonstrarem o quanto achavam entediante observar vinte e dois homens uniformizados correndo atrás de uma bola enquanto outros dois gritavam na beira do gramado passando instruções confusas como sobe, desce ou recua. não tinha a mínima ideia do que queriam dizer com subir ou descer, mas também não queria perguntar o que era.
– Não acredito que estão todos parados – Katie disse ao voltar da cozinha, colocando as mãos na cintura. – Gente, é uma festa! A minha festa de aniversário, eu quero alegria!
Ela pegou seu celular e conectou na caixinha de som ao lado da TV. Separou uma playlist especial para o momento e deixou tocando, esperando que os presentes ali se animassem ao menos um pouquinho. No mesmo instante a campainha começou a tocar.
– Vou abrir a porta e quando eu voltar, quero ver pessoas felizes, ok?
Katie saiu da sala e seguiu pelo corredor de entrada, mas tinha uma perfeita visão da cena e viu quando ela abriu a porta e se deparou com Damon e Diana. Ele conteve um suspiro aliviado, pois imaginou que Damon saberia como animar as coisas por ali, afinal, ele costumava ser sempre o coração de uma festa, o centro das atenções e adorava isso. Sua alegria durou pouco porque ele quis atacar o irmão quando viu que seu gêmeo estava praticamente vestido igual à ele, com camisa social branca e calça preta, embora a calça de Damon fosse um pouco mais justa. se levantou para encarar o irmão, aborrecido com o que estava vendo.
– Por que você sempre faz isso, hein?
– Eu é que te pergunto. Sem drama, , foi a Diana que escolheu a minha roupa – Damon deu de ombros e foi cumprimentar Liam e Jake em seguida.
olhou para Louise e depois para Diana, que apenas riram da desconfiança dele, então ele entendeu tudo.
– Vocês combinaram isso, não é?
– Talvez, achamos que seria divertido ver a cara de vocês dois. Não foi como a gente esperava, mas valeu a pena mesmo assim – Diana deu de ombros e também cumprimentou seu tio e seu primo.
– Eu não me importo, sou muito mais estiloso do que o , todos sabem disso – Damon disse despreocupado. – Cadê a tia Sara?
– Estou aqui, querido – Sarah apareceu na sala e se assustou ao ver que os gêmeos estavam vestidos iguais. – Quem é quem? Por que estão vestidos iguais?
– Louise e Diana como sempre prejudicando a gente – Damon respondeu ao cumprimentar a tia.
– Estão lindos, meninos, até posso lembrar de quando eram pequenos e sua mãe vestia vocês iguais. Parece que nada mudou.
– Obrigado, tia Sarah. Tudo o que eu queria agora era estar em uma festa vestido igual o meu irmão gêmeo – disse aborrecido, fazendo sua tia rir e Damon desdenhar.
– Fazer o que, né? Todos têm um defeito e o meu foi dividir o útero com o , mas acontece, nem vou me preocupar hoje, só vamos curtir. Katie, prometo que este será o seu melhor aniversário.

“CADÊ VOCÊ? Minha família inteira já chegou. VEM LOGO!”
leu a mensagem de Katie rindo, imaginando que a amiga deveria estar furiosa com ela, mas ela respondeu que já estava a caminho e realmente estava, porém quem assumiu o volante foi William e talvez por isso estivessem demorando tanto, afinal, ele era recém-habilitado.
– Anda logo, Will, ou vamos chegar só amanhã.
– Não quero perder minha habilitação no meu primeiro ano, .
– Cristo, eu deveria ter ido dirigindo – se afundou no banco, deprimida. – Eu dirijo na volta.
– Com certeza, não vou estar sóbrio pra isso – ele mordeu os lábios e ela riu, se perguntando como alguém tão novo poderia beber tanto. – Só saio de lá carregado.
– Mas e a tal da Louise? É essa a primeira impressão?
– Ah… É melhor ela conhecer todos os meus lados antes de querer alguma coisa, não é?
Embora não achasse uma boa ideia, acabou concordando para dar a conversa como encerrada por ali. Se limitou a continuar o resto do caminho ouvindo apenas qualquer coisa que Will tivesse para dizer sobre Louise e como estava ansioso para finalmente ver a garota, mesmo que fosse em um aniversário cheio de gente.
– Não tem um monte de pessoas, só a família da Katie.
– De qualquer forma, continua sendo esquisito para um primeiro encontro.
– E por que você não a chama pra sair como um cara normal?
– Eu já chamei, ela disse que não podia porque tinha alguns compromissos de trabalho, mas eu não vou desistir sem lutar.
– Esse é o meu garoto.
Não demorou mais do que dez minutos para que chegassem à casa de Katie, visto que o GPS procurou por rotas alternativas para fugir do trânsito. Katie os recebeu na porta com um abraço, mas depois deu um puxão de orelha em cada um.
– Cadê a pontualidade britânica de vocês, hein? Se eu marquei oito horas, era para estarem aqui oito horas!
– Aí, aí! Desculpa, Katie, a culpa foi minha! Vim dirigindo devagar – William disse esfregando a orelha ardida, com uma careta de dor no rosto.
– Posso saber o por quê?
– Ele é recém-habilitado, não quero que ele leve multa dirigindo o meu carro. Perdoa a gente só dessa vez – saiu em defesa do irmão e exibiu o embrulho que segurava nas mãos. – Prometo que você vai gostar.
– Se eu não gostar, vou fazer um escândalo – Katie tomou o embrulho nas mãos e deu passagem pra eles. – Entrem, já estão todos aqui. Meus primos gêmeos estão vestidos iguais, então não estranhem se achar que estão vendo coisas duplicadas por aí.
riu e foi na frente de William, esperando encontrar uma sala pequena para inúmeras pessoas lá presentes, mas tudo o que viu foi a televisão ligada em um jogo de futebol, música alta tocando e pessoas conversando em voz alta. Ela acenou brevemente, cumprimentando Liam, Sarah e Jake. Avistou Louise e Diana, sem as conhecer, e precisou espremer os olhos, jurando já ter visto as garotas em algum lugar, mas não conseguia se lembrar de onde. Já Diana viu e algo diferente despertou dentro dela.
De repente, Diana se viu, rapidamente, em um grande salão decorado como se fosse para um baile luxuoso. Olhou para o lado e viu Damon, ou ao menos achava que fosse, pois ele tinha outra aparência, mas ela tinha certeza de que era ele. Deu alguns passos largos para frente, avançando pelo salão com seu vestido longo e pesado, se sentindo sufocada pelo espartilho que estava usando, mas só perdeu o ar de verdade quando viu , em trajes que ele normalmente não usaria em pleno século 21, beijando a mão daquela garota que havia acabado de entrar na sala de Katie. A garota sorriu para , se curvando discretamente para o cumprimentar, puxando a saia do vestido e então Diana voltou à realidade, percebendo que a encarou por tempo demais. O que havia acabado de acontecer? Ela não entendia porque sempre via essas coisas é porque estava acontecendo novamente.
– Gente, estes e William. , Will, estes são os meus primos Diana, Louise, Damon e .
Damon e se viraram juntos, quase que em um movimento espelhado, mas enquanto Damon franziu o cenho, um pouco surpreso, tinha certeza de que estava delirando naquele exato momento, enquanto se sentiu presa no olhar intenso dele, perdendo o fôlego. Como aquilo era possível?
Enquanto era levado para os campos verdejantes de seu último sonho, ainda incrédulo que a garota que sempre passava correndo por ele estava bem ali na sua frente na vida real, se viu novamente no meio do fogo, em uma roda, com as mãos dadas com outras pessoas. Seu coração bateu acelerado no peito quando viu Diana do seu lado esquerdo, ao seu lado direito e Damon ao lado dele enquanto Thomas, seu irmão, aparecia ao lado de Diana. Tinha mais uma pessoa, mas não era capaz de identificar a pessoa que falava em latim naquele círculo.
Já, Damon, diferente dos outros, apenas viu em um vestido branco feio e surrado, tendo parte do seu rosto coberto por um véu encardido antes de ser puxado de volta para a realidade.
, finalmente conseguindo se desvencilhar do olhar que a prendeu, olhou de relance para Louise e se viu, em uma fração de segundos, deitada numa cama enquanto arfava e suava muito, e a mesma Louise passava um pano molhado sobre o seu rosto, demonstrando um nítido desespero no olhar.
– Que silêncio – Katie disse, ao ver que todos se encaravam, com expressões inexplicáveis no rosto.
Damon parecia confuso, estava pálido, Diana espremia os olhos na direção de e William, tal como Louise que parecia estar curiosa, enquanto se encontrava desnorteada, como se apenas o seu corpo estivesse ali. William, que jurava conhecer todos eles de algum lugar, parecia ser o mais tranquilo ali.
– Gente, vocês estão me assustando, é sério – Katie acenou para que pareceu despertar ao mesmo tempo que se levantou, indo em direção à cozinha e Diana foi atrás, rapidamente. – Está tudo bem, ?
– Sim, eu acho que a minha pressão caiu, mas já normalizou, fica tranquila – passou as mãos pelos cabelos, procurando se recompor e parecer normal. – Não comi nada o dia inteiro, então acho que é normal acontecer isso.
– Senta, , vou pegar alguma coisa pra você comer – Katie ofereceu o lugar que antes era ocupado por Diana, ao lado de Louise e aceitou, se sentando no acento vago.
Louise deu espaço para e se levantou, então finalmente notou que William estava ali. Ele esboçou um sorriso sem jeito, como se dissesse que não entendeu o que havia acabado de acontecer e ela respondeu com um breve aceno de cabeça, embora tivesse sentido a mesma coisa que ele. Era curioso o jeito que Louise se sentiu atraída no instante em que viu William entrando, tal como ele, mas ela não diria aquilo pra ele tão cedo.
– Prazer em finalmente te conhecer, Lou – William estendeu a mão para Louise, que a apertou imediatamente.
William se viu diante de três lápides, sendo uma menor que as outras duas, embora ele não conseguisse ler os nomes presentes nelas, tal como Louise, que via a mesma coisa. Do ponto de vista dele, Louise chorava e soluçava enquanto enxugava as lágrimas com um lencinho, totalmente em vão. Já na visão de Louise, William olhava fixamente para as lápides, com uma lágrima solitária escorrendo pelo seu rosto vermelho de quem já havia chorado antes. Quando ela soltou a mão dele, se viu novamente na sala de Katie, tal como William.
Nenhum dos dois sabia se o outro tinha visto a mesma coisa, mas as expressões de surpresa contida em seus rostos podia denunciar que algo tinha acontecido ali no momento em que apertaram as mãos.
– Tudo bem? – William perguntou forçando uma naturalidade diante da situação.
– Claro! Eu só estou surpresa com a coincidência de termos nos encontrado justo aqui – Louise sorriu e William pareceu se dar por vencido, acreditando que só ele viu aquilo, que ele havia delirado por um instante. – Quer beber alguma coisa?
Ele concordou e foi até a mesa de centro pegar dois copos e uma bebida para dividirem, depois cumprimentou Liam, Sarah, Jake e Damon. Um pouco receoso, William apertou a mão de Damon, mas agradeceu imensamente por nada ter acontecido e eles ainda estavam na sala de Katie.
, quer tomar alguma coisa? Uma água, suco? – Katie perguntou preocupada.
– Tá tudo bem, Katie, já passou, estou ótima – sorriu para a amiga, na tentativa de a acalmar.
– Realmente achei que teria que correr com você para o hospital. Não me dê mais estes sustos.
– Não se preocupa, eu não vou.
A sala foi tomada por conversas aleatórias, mas na cozinha percebeu que tremia quando tentava levar o copo de água à boca para dar um gole, ainda estava incrédulo com o que havia acabado de ver. Não conseguia entender como aquilo era possível, como ele poderia simplesmente esbarrar com águem que visitava os seus sonhos com frequência? Quem era aquela garota? Ele tinha muitas perguntas, mas não tinha nenhuma resposta.
– Ana, não estou ficando louco, eu juro. Ela é a garota desses meus sonhos malucos, eu juro que é! – ele olhou para Diana, suplicando para que ela não duvidasse dele.
– Eu acredito em você, . Não sei explicar o que aconteceu, mas senti algo diferente quando eles entraram na sala – Diana achou melhor poupar o irmão, não iria dizer que o viu beijando a mão dela.
– Como isso é possível? É idêntica! A cor dos olhos, o comprimento do cabelo, a altura… Diana…
– Calma, . Respira, tá? Eu sei que foi um choque, mas você precisa se acalmar. Talvez seja apenas uma coincidência muito bizarra, vocês podem ter se encontrado por aí, ela pode ter lido um dos seus livros… Não surta agora, a Katie não vai entender nada e nós não queremos estragar o dia dela, certo?
– Certo.
– Então vamos voltar pra lá e fingir que está tudo bem. Ela não tem culpa de eu e você sermos dois pirados.
apenas concordou e bebeu toda a água de uma vez, embora tivesse certeza de que precisaria de algo mais forte do que água para passar o resto da noite ali. Ele respirou fundo e criou coragem para voltar para a sala, indo logo atrás de Diana. Quando chegou, percebeu que tudo parecia perfeitamente normal com as pessoas conversando entre si, mas no instante em que Hips Don’t Lie da Shakira começou a tocar, Katie imediatamente saltou do seu lugar ao lado de , indo para o meio da sala.
, vem dançar comigo!
– Não, não, estou bem aqui mesmo – cruzou as pernas, mas Katie foi até ela, puxando a amiga. – Não, Katie, para!
– Você não vai ficar sentada aí. Pode balançar esse quadril. Anda.
– Mas eu não sei dançar!
– Eu ensino, vai aprender rapidinho.
encostou na soleira da porta, cruzando os braços para observar a cena. Katie tinha gingado e era desinibida, mas estava com vergonha de acompanhar a amiga, mexendo de um lado para o outro um tanto dura e sem jeito, mas Katie parecia disposta a ensinar a garota. simplesmente não conseguia olhar para outra direção, estava enraizado ali, se esqueceu de que tinha outras pessoas e que estava sendo observado por William, que queria saber quem era o cara que estava olhando para sua irmã sem parar, e também por Jake que revezava o olhar entre as meninas dançando e o primo olhando atentamente. Damon também observava, mas apenas para ter o que comentar no dia seguinte para deixar o gêmeo constrangido. estava alheio a tudo aquilo, era como se ninguém estivesse ali, apenas eles dois – e talvez, Katie, que hora ou outra cobria a visão dele – em um mundo que não estava girando. era tão fiel ao que ele sempre via que ele ainda estava desacreditado. Os mesmos olhos, o mesmo corpo, o mesmo sorriso – que ele particularmente achava ainda mais bonito do que nos seus sonhos – e até um jeito parecido de falar, embora a garota dos seus sonhos na maioria das vezes se vestia e falava como na época vitoriana. Não importava, ela estava bem ali.
parecia ter pego o básico daquela coreografia, se arriscando um pouco mais no último refrão, mas então a música acabou e ela caiu na realidade de que tinha pagado um mico. Ela se surpreendeu quando foi aplaudida, inclusive Jake levou dois dedos à boca para assoviar pra ela que não conteve a risada diante dos esforços de todos para que ela se sentisse melhor, então ela fez uma discreta reverência, dando como encerrado por ali o seu show.
– Você arrasou! – Katie ergueu as duas mãos para um high five que correspondeu, sendo puxada de surpresa para um abraço. – Estou orgulhosa.
E então não havia mais ninguém na visão de a não ser . Ninguém passou na frente dela, ninguém disse nada e ela se viu presa naquele olhar intenso por um segundo a mais do que gostaria. Ele não estava aplaudindo, não estava sorrindo e muito menos assoviando, apenas estava parado olhando fixamente na direção dela. Por mais que fosse incômodo, teve que se esforçar muito para desviar o olhar do dele, se afastando de Katie e voltando para o seu lugar enquanto a próxima música começava a tocar.
Era Crazy In Love e Louise saiu de perto de William para acompanhar Katie, assim como Sarah, que também era uma ótima dançarina. Katie certamente tinha a quem puxar nessa parte, era muito parecida com sua mãe. William atravessou a sala e se sentou ao lado de , tendo uma visão ótima de Louise estando ali. As meninas puxaram Damon para dançar que foi mesmo sobre protestos, então William se viu no momento perfeito para puxar assunto com a irmã.
– Meu Deus, ela é tão incrível quanto eu pensei que fosse.
– Louise? – perguntou distraidamente e William concordou, ela sorriu presunçosa pra ele. – Mas já, Will?
– Não, boba… Ainda não. Ao menos não tanto quanto o bonitão encostado na porta – ele apontou discretamente para que agora parecia mais à vontade, rindo do próprio irmão. – Eu juro que já ia lá socar a cara dele.
– Por quê? – ela questionou soando despretensiosa, rindo quando Damon exagerou na sensualidade da dança de propósito.
– Ele não parava de olhar pra você. Eu sou o homem da casa, não é? Tenho que bater nos caras que querem namorar com você.
– Deixa de ser bobo, Will – riu, embora sentisse o rosto arder por ele ter mencionado um namoro. – Ele só deveria estar olhando e sentindo pena de mim pela vergonha que eu passei.
– Não, você estava ótima, ele que parecia uma múmia lá parado olhando pra você. Juro que até o final da noite vou tirar satisfação com esse cara.
– Você não vai fazer nada, vai ficar sentado bem aqui.
– Mas…
– É uma ordem, William. Sou sua irmã mais velha, você é menor de idade e tem que me obedecer.
– Mas eu faço vinte e um em agosto! – William protestou aborrecido, mas continuava usando o mesmo tom de voz que usava quando ele tinha oito anos.
– Não interessa! Vai ficar aí e pronto, se arrumar confusão, juro que te mando de volta pra casa da nossa mãe.
– Deus me livre morar em Manchester, o lugar mais chato e parado do mundo.
– Mas é pra lá que você vai se continuar com gracinha.
William resmungou algo que não entendeu e eles voltaram a prestar atenção na dança das meninas – e Damon – que já estava quase no final. Quando finalmente acabou, Damon afastou as garotas e, da forma mais exibida possível, fez uma reverência exagerada quando foi aplaudido de pé por Jake e Diana. também aplaudiu e assoviou para o irmão que mandou um beijo no ar em sua direção.
se perguntava como os dois poderiam ser tão iguais e tão diferentes ao mesmo tempo. Damon era desinibido, extrovertido e brincalhão enquanto parecia ser mais recatado, tímido e tranquilo. Prova disso era que um estava fazendo twerk na sala para quem quisesse ver enquanto o outro observava tudo de longe, mas mesmo que tivessem a mesma aparência e estivessem com roupas praticamente iguais, pensava que não poderia confundir os dois pois tinha certeza de que mesmo se Damon passasse horas olhando fixamente na direção dela, não seria a mesma coisa daqueles poucos segundos no qual ela espiou por cima dos ombros de Katie. tinha algo estranhamente atrativo e familiar que jurava que iria descobrir algum dia.
Quando a música acabou, Sarah chamou para que as duas fossem até a cozinha para pegar mais aperitivos para deixar na mesa de centro. pontuou que para ir até a cozinha, tinha de passar pelo rapaz escorado na soleira da porta. Pensou em inventar uma desculpa, mas não conseguiu pensar em nada a tempo, então se levantou, pediu licença para Katie e, sem olhar diretamente nos olhos, pediu licença para que, gentilmente, cedeu espaço para ela passar e saiu dali, indo para onde Sarah estava sentada anteriormente entre Liam e Jake.
Elas pegaram alguns docinhos e outros aperitivos e levaram de volta para sala bem em tempo do celular de começar a tocar. Ela se afastou para poder atender, saindo pelo corredor que dava acesso ao ateliê de Katie, cheio de manequins e tecidos espalhados pelo cômodo, além de uma estante de livros que não tinha a mínima ideia de o porquê estar ali. Ela viu o nome de Emma na tela e se xingou mentalmente, jurando nunca mais passar seu telefone para os seus alunos. Considerou seriamente a possibilidade de mudar de número naquele mesmo instante.
– Oi, Emma – atendeu, tentando não parecer impaciente.
Senhorita Thompson, desculpa ligar esse horário, mas aquela garota que você falou na aula de Revolução Francesa. Eu pesquisei muito e encontrei um artigo na internet sobre ela.
– É sério? – questionou enquanto olhava para a estante de livros, aborrecida por dentro, não queria ter uma aula de história justo agora. – O que você descobriu?
Descobri que ela lutava secretamente para derrubar a nobreza e o clero de dentro pra fora. Todo mundo pensava que ela era como os outros nobres, mas na verdade ela ajudava muito o povo francês, mesmo que secretamente. Só que infelizmente as pessoas não sabiam disso, ou pelo menos a maioria delas, que pediram a cabeça dela quando houve a queda da Bastilha.
– Que triste – ela se sentia mais entediada do que nunca, mas não queria parecer grossa e indiferente ao esforço de Emma.
O mais engraçado, professora, a senhorita não vai acreditar. O nome dela era , que nem você. Beaumont-Bressuire e ela tinha só dezoito anos.
não ouviu o restante do que Emma tinha para dizer. Se via presa, amarrada, sendo levada em uma carroça em praça pública e uma guilhotina que ficava cada vez mais próxima. Foi algo muito rápido, mas tudo o que conseguia sentir era medo e raiva. Raiva da França, dos malditos franceses e raiva de si mesma. Morreria em vão por algo que lutou e torcia para ver todas aquelas pessoas que zombavam dela naquele momento queimando no inferno junto com ela, caso ela fosse pra lá.
Professora?
– Oi, estou aqui… – disse voltando à realidade. – Muito interessante a sua pesquisa, meus parabéns pelo empenho… Hum, estou um pouco ocupada agora, mas conversamos melhor durante a aula, está bem?
Emma concordou e desligou, então soltou um suspiro aliviado, se encostando na prateleira, mas não sem derrubar meia dúzia de livro porque aparentemente o móvel estava balançando mais do que deveria.
– Merda!
Ela guardou o celular no bolso da calça e se curvou para pegar os livros que caiu. Um exemplar de O Senhor dos Anéis, outro de O Hobbit, seguido por livros de engenharia que ela tinha certeza que pertenciam ao Jake, e também um… Romance? Uma garota com um vestido vermelho longo e esvoaçante na capa lhe chamou a atenção, fazendo com que ela colocasse os outros livros de volta no lugar e ficasse apenas com aquele para poder ver melhor. A garota estava de costas e pelo movimento parecia correr sobre rochas em direção ao mar em pôr-do-sol nublado e muito cinzento. Era uma capa de livro, no mínimo, deprimente, mas ao mesmo tempo atraente, assim como o nome.
Ad Perpetuam Memoriam tentou ler o que ela tinha certeza que era latim, mas não sabia se tinha dito certo ou não.
– Pela Perpétua Memória.
Ela se assustou com a voz masculina atrás dela, se virando rapidamente para ver quem era, jurando que se fosse William, bateria nele com o livro para que parasse com esse tipo de brincadeira, mas não era William que estava ali, e sim , o que a deixou ainda mais tensa. Ela não sabia se olhava diretamente pra ele ou o que fosse, não sabia como reagir sempre que ele olhava pra ela. Nunca um olhar intimidou tanto quanto aquele que estava bem ali e ela estava começando a se frustrar por isso.
– É um bom livro – comentou, prestes a se arrepender por ter entrado ali.
– Do que se trata? – ela questionou com um tom de curiosidade, virando para ver a contracapa.
– É sobre uma garota que foi amaldiçoada por amar a pessoa errada. Ela estava condenada a viver a eternidade procurando pelo homem que amava, até que o destino os colocou frente à frente e ela começou a ter lembranças de outras vidas com ele. Não posso dizer o final, você terá que ler para descobrir.
– Ok – abriu o livro em uma página qualquer e escolheu a dedo a linha que pretendia ler em voz alta. – Lilly não queria fechar os olhos porque fechar os olhos significava não ver Marcus mais uma vez. Não era como se estivesse caindo no sono, de fato não estava. Eram seus últimos momentos, seus últimos suspiros e ela queria passar ao lado do único homem que verdadeiramente amou. A ferida da faca enfiada no estômago doía, mas não tanto quanto saber que mais uma vez deixaria Marcus sozinho. Marcus, por favor, me perdoe, ela suplicou juntando todas as forças que lhe restavam.
Apenas vá, meu amor, apenas vá. Não se preocupe, eu irei te encontrar completou a fala do personagem e olhou pra ele, surpresa. – Continua.
Então, como se estivesse adormecendo, Lilly fechou os olhos devagar, tendo Marcus como sua última visão antes de tudo escurecer à sua volta. Ela não estava mais ali, ao menos não a sua alma, apenas um corpo atirado no chão, preso nos braços de um homem novamente solitário. Marcus chorou e gemeu, se permitindo sentir a partida de Lilly, mesmo que soubesse que seria momentâneo. Algum dia, em outra vida, a encontraria, mas imaginar o tempo que passaria sem ela era algo cruel e o assustava, afinal…
Nem mesmo o homem mais forte de todos era imune de medos e inseguranças. Por que ele, um mero cocheiro, seria diferente? Não importava mais. Lilly partiu e Marcus era novamente um homem vazio e seria assim até o dia em que pudesse ver sua amada outra vez.
– Nossa – suspirou admirada pelo que havia acabado de ouvir. – Pelo visto você conhece muito bem a história.
– É verdade, eu conheço – pela primeira vez, ele esboçou um sorriso na presença dela. – Me desculpe chegar assim, intrometido, mas eu tenho certeza que nos conhecemos de algum lugar. Eu só queria perguntar isso.
– Pensei a mesma coisa, mas acho que não… – encolheu os ombros. – Você estudou em Oxford?
– Harvard – ele rebateu prontamente, como se estivesse se desculpando pelo desencontro. – Um pouco distante uma da outra.
– Sim, então tenho certeza de que nunca te vi na faculdade.
– Não tem problema, descobriremos então de onde nos conhecemos – sorriu novamente e não tinha mais nada para dizer.
Estava com os pés enraizados no chão, prendendo o livro em suas mãos como se fosse um troféu. Palavras simplesmente não lhe vinham em mente, parecia muito mais cômodo apenas o encarar e esperar que falasse alguma coisa, mas ele nada disse e também não fez nada além de a encarar de volta e foi assim durante alguns segundos até Louise surgir na porta, esbaforida.
– Achei você! Vem logo, sua vez de dançar com a gente.
– Não vou dançar, Louise – disse ao voltar pra realidade, desviando o olhar de que baixou a cabeça e fitou os próprios pés.
– Você não tem outra escolha. Vem logo – Louise o puxou pelo braço com violência e se viu obrigado a ser arrastado para fora do ateliê, deixando plantada exatamente onde estava, levando mais alguns segundos para processar o que aconteceu.
Ela devolveu o livro pra estante e então saiu do cômodo também, fechando a porta. Voltou para a sala e pegou um doce e bebida na mesa antes de voltar para o sofá a tempo de ver Katie e Louise ensinando e Jake a dançar Despacito. Jake estava se virando bem, sendo guiado por sua irmã, mas parecia resistente e Louise não era a pessoa mais paciente do mundo para ensinar.
, você é muito duro!
– Estou tentando, Louise.
– Senta lá, cara, deixa eu te mostrar como se faz – William se levantou do seu lugar ao lado de e pediu, com gentileza, para se retirar.
não questionou e nem debateu, apenas se afastou e se sentou ao lado de , o que fez ela prender a respiração quando percebeu que era o mais perto que chegou dele naquela noite.
William colocou uma das mãos na cintura de Louise e com a outra entrelaçou seus dedos com os dela, a guiando no ritmo latino da música, o que deixou Louise surpresa com as habilidades de dançarino dele. Não que William fosse um dançarino extraordinário, mas parecia que já havia dançado com Louise várias vezes antes. Ele sabia como guiar, sabia os movimentos que ela faria com o quadril, só não tinha a mínima ideia de como sabia isso e pensou que talvez fosse previsível pelo ritmo da dança. Eles tinham uma conexão naquele momento e, se não fosse por uma sala cheia de pessoas, Louise pararia tudo para beijar aquele garoto que a atraiu no momento em que passou pela porta.
– Ele dança bem – comentou sobre William, esperando que dissesse algo em resposta.
– É um exibido, isso sim – ela deu de ombros e ele riu, parecia muito mais relaxado agora. – E tem uma quedinha pela sua irmã, é melhor tomar as providências logo.
– Louise não é nenhuma criança, sabe se cuidar. Além disso, não sou o irmão ciumento, é ele – apontou para Damon que estava com cara de poucos amigos observando a química entre Louise e William. – Ele não gosta do que vê.
– Ele que encoste um dedo no meu irmãozinho pra ver o que eu faço. Com todo o respeito.
– Tudo bem, eu deixo, talvez o faça acordar pra vida e perceber que as meninas cresceram. Não me apresentei direito lá no ateliê, mas meu nome é . Jones.
Thompson – ela respondeu com a mesma cordialidade. – É um prazer te conhecer, .
– O prazer é meu. Estou me apresentando porque tenho certeza que vamos nos ver mais vezes se depender da minha irmã e do seu irmão. Em um almoço de família, talvez.
– Se depender do Will? Com certeza! – conteve uma gargalhada, fazendo rir também.
– Mal posso esperar por isso.
– Eu também…

– Muito obrigada por terem vindo hoje, significou muito pra mim – Katie disse ao acompanhar e Will até a porta ao final da festa.
– Não iríamos perder por nada, Katie, você sabe – respondeu enquanto esfregava os olhos, estava com sono por já ser de madrugada.
– Acho bom. Prometo passar lá qualquer dia para fazermos a noite das meninas. Will está convidado também.
– Lisonjeado, Paige – William sorriu com sarcasmo e as garotas riram dele.
Eles se despediram de Katie e foram embora. no volante como prometeu anteriormente, mesmo que estivesse com sono. O teor alcoólico no sangue de William não o tornava o mais apto a voltar dirigindo pra casa e por isso ele não contestou. Quando finalmente chegaram, ele apenas murmurou um boa noite e foi para o quarto enquanto fez o mesmo. Ela trocou de roupa, vestindo algo confortável e então se deitou, mas não iria dormir antes de fazer uma breve pesquisa sobre o livro que lhe chamou a atenção na festa de Katie.
Título: Ad Perpetuam Memoriam.
Data de lançamento: 01 de novembro de 2017.
Autor: Jones

– Não acredito – riu, entendendo o motivo de ter completado diálogos do livro na frente dela. – Faz muito sentido.
Aparentemente era um promissor escritor. Tinha apenas vinte e seis anos e dois livros publicados, sendo Ad Perpetuam Memoriam um best-seller. Como se não bastasse, o dom de escrever era de família, pois ele era filho da também escritora Eloise Jones. Esta conhecia, já havia lido uns dois livros quando era mais nova, mas jamais imaginou que ela tivesse um filho escritor.
Mais do que isso, se perguntava o motivo de não ter dito nada para ela. Ela notou que ele parecia tímido, talvez apenas não quisesse contar para ela de primeira e entendeu isso e achou admirável. Tinha certeza de que se fosse outra pessoa, teria se vangloriado, e por causa disso ela prometeu para si mesma que no dia seguinte iria comprar um exemplar, mesmo que precisasse andar Londres inteira atrás de um.
Ela com certeza iria.

NOTA DA AUTORA: Olá! Como estão? Essa é a minha primeira fanfic no site e eu espero que gostem tanto quanto eu! Bjs!
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